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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

HISTÓRIA DA AMÉRICA III


LUCAS DE SOUZA AVELAR
MIRELLA SORAYA PINHEIRO RODRIGUES DE OLIVEIRA

“A KU KLUX KLAN ENQUANTO REAÇÃO POLÍTICA E


DISCRIMINATÓRIA EXTREMA NA CAROLINA DO NORTE DURANTE A
RECONSTRUÇÃO AMERICANA”
O presente trabalho busca, por meio de fontes selecionadas de um comitê do Senado
americano em 1871, analisar as ações da Ku Klux Klan nos estados do sul dos Estados
Unidos enquanto expressão extrema do descontentamento sulista perante os anos da
Reconstrução. Para isso, considerando o tamanho da atual pesquisa, uma seleção de fontes
que correspondem aos casos da Carolina do Norte foi mobilizada, acreditando na
dimensão destes mesmos casos e na sua possível projeção ao restante dos estados sulistas.
Intenta, ainda, inserir esses atos de violência dentro de uma lógica de reação de segmentos
mais radicais do Sul pós-Guerra Civil que escapam aos espaços formais de política.

RIO DE JANEIRO
2017
1. Introdução: as dimensões da Reconstrução Americana

Como afirma o parecer analisado em casos no presente trabalho, a investigação da


presente condição dos estados insurrecionados necessariamente envolveu a história dos
sucessivos passos que levaram a estas condições. Antes de apresentarem a então situação,
a comissão traça, por meio de testemunhos e documentos oficiais, as origens, extensão,
propósitos e modo de ação dessa organização misteriosa, bem como as causas designadas
para a sua existência e ações anteriores. Segundo os responsáveis pela investigação,
existem evidências por parte de oficiais militares dos Estados Unidos, e outros, que as
organizações secretas foram formadas nos estados insurrecionados logo após o fim da
guerra, se mostrando hostis e tentando obstruir o governo dos Estados Unidos e destes
estados. É necessário, portanto, nos aprofundarmos neste contexto antes de mobilizarmos
as fontes selecionadas.

Eric Foner garante à Reconstrução um sentido econômico que teria, segundo ele, criado
uma nova estrutura para substituir o mundo fragmentado da escravidão. Diz o autor que
(1990, p. 105, tradução nossa)

Foi uma transformação econômica que culminaria, logo após o fim da


Reconstrução, na consolidação de um proletariado rural composto de
descendentes de antigos escravos e yeomen brancos e uma nova classe
proprietária de agricultores e comerciantes, subordinada aos
financiadores nortistas e industrialistas.

Escrevendo sobre uma Reconstrução Social, os autores Charles Grier Sellers, Neil R.
Mcmillen e Henry F. May indicam que, sem receberem a promessa de “60 acres e uma
mula”, almejada em 1865, a única solução para a remuneração dos negros que
trabalhavam para donos de terra brancos era alguma forma de posse de terra, resultando
nos sistemas de meação e penhor agrícola. No entanto, segundo eles, o agricultor negro
“para sempre endividado e incapaz de se mudar, sem educação ou privilégios políticos,
sujeito a julgamento em cortes de justiça brancas e a terrorismo dificilmente poderia ser
considerado livre” (SELLERS; MCMILLEN; MAY)1. A peonagem, destacam os autores,
era prática geral e, agravando o quadro das relações de terra no período, o paternalismo
da classe de fazendeiros “fora substituído por um ódio racial crescentemente virulento
por parte dos brancos, receosos de sua incapacidade de controlar os antigos escravos”.

1
(SELLERS; MCMILLEN; MAY 1990, p. 209)
(SELLERS; MCMILLEN; MAY)2. Este ódio será, ainda, revisitado no momento de
análise das fontes do presente trabalho. Entretanto, esses autores reconhecem que, se para
os negros as promessas da Reconstrução foram vazias, os brancos desfrutaram lados
positivos. A Guerra Civil, para eles, terminara de forma magnânima, mas seria fácil
esquecer que “a Afro-América pagava a maior parte da conta do acordo inter-regional”
(SELLERS; MCMILLEN; MAY)3.

Segundo Jeffery A. Jenkins e Justin Peck, os doze anos que sucederam a Guerra Civil,
correspondendo, assim, ao período da Reconstrução, foram revolucionários em seus
objetivos políticos e ambições. As medidas de reconstrução, comentam eles,
estabeleceram novos arranjos políticos e sociais nos estados sulistas americanos.
Garantindo, principalmente, a equidade civil e legal da população negra para com a
população branca e o desenvolvimento de uma ala sulista do partido Republicano.

Para esses autores, o fato do partido Republicano representar a maioria nas duas câmaras
do Congresso foi fundamental no que diz respeito a luta pelo controle de criação de
políticas e leis durante a gestão do presidente Andrew Johnson. Essa força numérica foi,
segundo eles, utilizada a fim de estabelecer leis significativas como a Civil Rights, em
1866, os Reconstruction Acts e a 14ª e 15ª Emendas. As leis de reconstrução, por sua vez,
foram ratificadas mesmo com a objeção do presidente e durante um período em que o
partido Democrata estava institucionalmente e eleitoralmente fraco, como afiram Jenkins
e Peck. De acordo com estes, em nenhum outro momento na História Americana um
partido trabalhou sua vontade da forma como se observa os republicanos no período.

O partido republicano, por outro lado, contou com divisões internas importantes, no que
tocam os assuntos da Reconstrução no Sul. Segundo Leandro Karnal, o plano original dos
republicanos radicais previa um “período extenso de governo militar no Sul, que deveria
confiscar e redistribuir grandes latifúndios entre os libertos e observar, com tutela federal,
que as escolas educassem os negros para a cidadania” (KARNAL) 4. A reconstrução
radical não aconteceu, vencendo a maioria moderada. De acordo com Karnal, essa mesma
maioria achou o programa original destoante das tradições americanas de federalismo e

2
(SELLERS; MCMILLEN; MAY 1990, p. 209)
3
(SELLERS; MCMILLEN; MAY 1990, p. 212)
4
(KARNAL 2007, p. 124)
respeito pelo direito de propriedade. No entanto, para Jenkins e Peck, uma reconstrução
moderada seria, ainda, enervante para muitos sulistas brancos.

W. E. B. Du Bois cita um importante estudo de Helen Boardman, que indica que a


Reconstrução é ensinada a partir de três teses dominantes: a que acredita que todos os
negros são ignorantes; a que os define como preguiçosos, desonestos e extravagantes; a
que credita a eles o governo corrupto durante a Reconstrução.

Karnal também se propõe a escrever sobre as abordagens da Reconstrução. Segundo ele,


as intepretações mais tradicionais veem esse período como um erro. O entendimento que
esta segue, segundo ele, é de que os governos estaduais sulistas teriam sofrido um “reino
de terror, excessos e corrupção”, causados por “negros ignorantes, especuladores
gananciosos e por uma desprezível ralé sulista”. De acordo com o autor (2007, p. 125)

Essa era de corrupção só teria tido fim com o renascimento da opinião


moderada no Norte e o restabelecimento de governos democráticos no
Sul: o próprio nome dado àqueles que derrubaram a reconstrução
radical, redentores, revela-nos a essência dessa vertente mais
conservadora da historiografia norte-americana.

Após 1940, segundo Karnal, interpretações desse período tratam de reconhecê-lo como
uma tentativa de levar justiça e progresso ao sul arcaico. Para ele (2007, p.125)

Essas versões mais recentes sustentam, no geral, que qualquer aspecto


positivo dessa época deveu-se à ação das forças federais que contaram
com resoluto apoio negro. A corrupção política generalizada do período
e o terrorismo que eclodiu no sul, como reação da elite branca, teriam
ocorrido por conta do recuo prematuro do Norte.

Observando as notas de rodapé do texto do autor, amplia-se a noção da historiografia


sobre o período. Como este indica, até os anos de 1930, os estudos da Reconstrução
caracterizavam estes anos como um “período de depravação humana: a ‘Era do ódio’, ‘O
Blecaute do Governo Honesto’, ‘a década Pavorosa’ e a ‘Era trágica’” (KARNAL)5. É só
a partir dos anos 1960 que os estudiosos passam a considerar que as interpretações
tradicionais tinham exagerado na extensão das fraudes ocorridas no período e no papel
dos negros no governo, como escreve o autor.

5
(KARNAL 2007, p. 129-130)
Foner, nesse sentido, afirma que por mais que alguns políticos negros tenham conquistado
status de burguesia, poucos conseguiram traduzir poder político em uma parcela de
crescimento econômico. A riqueza desses políticos negros, segundo ele, mesmo sendo
expressiva se comparada com a maioria dos recém-libertos, se “desbotava” perante àquela
dos Conservadores e dos aventureiros brancos. O autor destaca, ainda, que muitos negros
bem-sucedidos evitavam a política, quer porque seus negócios pediam ou para não
comprometer conexões pessoais com brancos ricos, pois sua posição econômica talvez
dependesse destas.

Como também trabalha Du Bois, a maioria dos responsáveis por essas interpretações
partiam de pontos de vistas racistas, admitindo que negros seriam seres humanos
inferiores ou, como se vê na obra de William A. Dunning, “em que uma grande riqueza
de fontes foi trabalhada sob pressupostos sulistas e racistas, mostrando a reconstrução
como uma época de licenciosidade e de extrema crueldade para o prostrado sul”
(KARNAL)6. Observa-se, portanto, como a própria produção textual do período sofreu
influências de determinados pensamentos em um período significativo como o fora a
Reconstrução. O caso da obra de Dunning é, ainda, interessante pois projeta à
historiografia o sentimento de ressentimento sulista que será tratado no presente trabalho,
e que tentaremos mostrar como estaria presente nos casos das fontes subsequentes. Du
Bois, por sua vez, destaca que este autor fora um professor profundamente influenciado
por um crescente grupo de jovens estudantes sulistas, reescrevendo a história da nação de
1860 a 1880 com eles.

Escreve Dunning que, em 1872, os governos radicais sulistas eram ineficientes,


extravagantes e corruptos. O trabalho das organizações em todos os estados, segundo ele,
era ruim, e em alguns seriam uma mera paródia de governos civilizados, como as
investigações do comitê do Congresso a ser trabalhado demostram. De acordo com o
autor, os republicanos responsáveis pelo documento não negavam, mas mascaravam essa
situação. Além disso, o autor afirma que a diminuição do tesouro público durante o
período foi acompanhado pela prosperidade pessoal entre os políticos radicais de alto e
baixo nível (1907, p.209, tradução nossa)

Os primeiros a tirarem proveito das suas oportunidades foram


geralmente os nortistas que lideraram a política radical; mas os

6
(KARNAL 2007, p. 130)
“entreguistas” sulistas e os negros7 foram rápidos em captar esta ideia.
Subornos se tornaram um acréscimo indispensável da legislação e
fraude uma característica comum na execução das leis.

De acordo com Foner, os tradicionais líderes do Sul, políticos democratas, agricultores e


comerciantes, se opuseram às novas medidas de governo. Denunciavam estas, ainda,
como corruptas, ineficientes e exemplos de uma “supremacia negra”. Cita o autor um
protesto de políticos sulistas democratas que afirma que a “‘inteligência, virtude e
patriotismo’, na vida pública, deu espaço à ‘ignorância, estupidez e a perversão’”
(FONER)8. A Reconstrução, por sua vez, recebeu oposições também por parte de brancos
pobres que, inicialmente tendo apoiado o partido republicano, agora se mostravam
contrários a mesma, ao perceberem que suas situações econômicas não estavam
melhorando e ao observarem o aumento de impostos para o pagamento de escolas e outras
questões públicas, como as ferrovias, como destaca o autor. No entanto, para Foner, a
mais básica razão para oposição da Reconstrução foi o fato de que a maioria dos sulistas
brancos não aceitarem a ideia de antigos escravos votarem, assumirem funções públicas
e aproveitarem igualdade perante a lei. Segundo o autor (2007, p. 575-576, tradução
nossa)

Para recuperar a supremacia branca na vida pública do Sul e assegurar


aos agricultores uma força de trabalho disciplinada e confiável, eles
acreditavam que a Reconstrução deveria ser derrubada. Oponentes
lançaram uma campanha de violência em um esforço para acabar com
o domínio republicano. Suas ações trouxeram um desafio fundamental
tanto para os governos da Reconstrução no Sul, quanto para os políticos
em Washington, D.C.

7
A palavra utilizada por Dunning é “negroes”, que na tradução para o português não
representa tamanho contexto de problematização como apresenta na língua inglesa. Esse
termo foi muito criticado durante a era dos Direitos Civis, nos anos 1950 e 60,
principalmente por Malcom X, que acrescentava ao coro de críticas o fato da palavra
evocar a subjugação da população negra americana desde a escravidão. Du Bois, por sua
vez, como destaca Lerone Bennett Jr. em um artigo na revista Ebony, se coloca na defesa
da palavra, não deixando de receber críticas de outros intelectuais. Como visto em:
http://www.virginia.edu/woodson/courses/aas102%20(spring%2001)/articles/names/ben
nett.htm. Acesso em: 10 de novembro. 2017
8
(FONER 2007, p. 575, tradução nossa)
É sobre este contexto político, social e econômico que reside as estruturas do presente
trabalho. Convém, ainda, entender as problemáticas gerais que envolvem o aparecimento
da Ku Klux Klan neste período.

2. Surgimento da Ku Klux Klan e seus anos iniciais

Segundo Deborah Beckel, em março de 1868 a Ku Klux Klan tinha se espalhado do


Tennessee para a Carolina do Norte. Ataques violentos, ainda, serviriam como avisos de
que a morte esperava quem se opusesse às ordens do grupo de supremacia branca. Diz a
autora (2011, p. 64, tradução nossa)

O Klan era dedicado à violenta contestação (ou “redenção”) do Sul das


políticas inter-raciais e do avanço negro. De forma ameaçadora, os
homens do Klan começaram as retaliações enquanto as tropas militares
dos Estados Unidos ainda ocupavam o estado. Líderes conservadores
dirigiam a filiação do Klan como armas de terror. Os homens do Klan
faziam reuniões para “marcar” suas vítimas. Rodavam à noite,
fortemente armados e as vezes usando roupas escuras. Para esconder
suas identidades, eles usavam sacos de pano (com fendas nos olhos) nas
suas cabeças. As roupas eram limitadas apenas pela criatividade das
mulheres que as costuravam. Ataques poderiam acontecer em qualquer
lugar. Os homens do Klan invadiam casas de líderes republicanos e
torturavam famílias inteiras. Em outros momentos, grupos de vigilantes
apareciam de dia, andando em grandes números para mostrar força.

Segundo Foner, a violência em partes do Sul era endêmica desde 1865, mas o advento da
Reconstrução Radical estimulou sua expansão. Para ele (1990, p. 234, tradução nossa)

O Klan foi uma força militar servindo os interesses do partido


Democrata, a classe agricultora e todos aqueles que desejavam a
restauração da supremacia branca. Os seus propósitos eram políticos no
mais amplo sentido, pois procurou afetar as relações de poder, tanto
públicas quanto privadas em toda a sociedade do Sul. Pretendia destruir
o Partido Republicano em sua infra-estrutura, prejudicar o estado da
Reconstrução, restabelecer o controle da força de trabalho negra e
restabelecer a subordinação racial em todos os aspectos da vida sulista.

Foner afirma que o Klan foi responsável por lançar um “reino de terror” a líderes
republicanos negros e brancos. Entre os assassinados durante a campanha política que
Grant saiu vitorioso estão, destaca o autor, o congressista James M. Hinds do Arkansas,
três membros do corpo legislativo da Carolina do Sul e outros homens que serviram às
convenções constitucionais. Como consequência do “reino de terror” estabelecido pelo
Klan, afirma Foner, era quase impossível que os negros votassem nas eleições de 1868.
Onze municípios na Geórgia, com maiorias negras não registraram votos republicanos e
em outros estados, como no Tennessee, Alabama e Carolina do Sul, os votos para esse
partido diminuíram consideravelmente, indica o autor.

O autor ainda indica quem eram os integrantes do Klan. Segundo ele, agricultores e
trabalhadores comuns constituíam a maior parte dos membros e energéticos “sangues
frescos” eram mais propensos a participarem de ataques à meia noite do que plantadores
e advogados de meia idade. No entanto, diz Foner, “respeitáveis cidadãos” escolhiam os
alvos e por vezes participavam das brutalidades. Um legislador negro da Geórgia, Abram
Colvy, citado pelo autor, disse ainda que entre os assaltantes do Klan existiam “homens
de primeira classe em nossa cidade, incluindo um advogado e um médico”. As lideranças
do grupo ainda, destaca o autor, incluíam agricultores, comerciantes, advogados e até
ministros. Em Rutherford, espaço em que se dão os casos das fontes selecionadas, destaca
Foner, o Klan não era uma gangue de homens pobres, como os democratas apontaram,
mas homens de propriedades e cidadãos respeitáveis.

3. Apresentação do documento do comitê selecionado do Congresso

Como o próprio documento indica em suas páginas iniciais, um comitê selecionado do


Senado, em 10 de março de 1871, criou um parecer como o resultado de investigações
acerca da segurança dos indivíduos e propriedade no estado da Carolina do Norte. A
reunião deste grupo segue o contexto mencionado pelo presidente Grant, também
indicados no texto inicial, em que o político afirma (1872, p. 1, tradução nossa)

uma condição de casos existe em alguns dos estados da União, tornando


a vida, a propriedade, a entrega de correspondências e a coleta da renda
insegura. A prova de que tal condição de casos existe em algumas
localidades está agora diante do Senado. Que o poder de corrigir esse
mal está além do controle das autoridades estatais, eu não duvido. Que
o poder do Executivo dos Estados Unidos, agindo dentro dos limites
das leis existentes, é suficiente para as atuais emergências, não está
claro.

A comissão mista atende, nesse sentido, como mostra o documento, a recomendação do


próprio presidente em proteger a vida, liberdade e propriedade e reforçar a lei em todas
as partes dos Estados Unidos. O grupo responsável pelas investigações contava com sete
senadores e quatorze representantes e tinham como objetivo, segundo a resolução do
mesmo, “investigar as condições dos estados recém- insurrecionados, considerando a
execução das leis e da segurança das vidas e da propriedade dos cidadãos dos Estados
Unidos”9. Os testemunhos recolhidos durante a organização do parecer foram separados
em uma série de volumes, que correspondem aos estados os quais os testemunhos fazem
alusão, são estes: Carolina do Sul, Carolina do Norte, Alabama, Mississipi e Flórida e
Tennessee reunidos em um volume único. O presente trabalho analisa os casos
apresentados na Carolina do Norte.

Segundo o documento, o processo e debates no Congresso mostram que a execução das


leis e a segurança da vida e propriedade foram mais ameaçadas pela existência e atos de
uma organização de homens armados e disfarçados, conhecidos como Ku-Klux. Dessa
forma, como se afirma no parecer (1872, p.3, tradução nossa)

Que essa organização não seja observada por meio de uma luz
exagerada que anula toda a lei e justiça nas comunidades em que existe,
e que a facilidade com que a bem intencionada população do Sul teve
em se adaptar às diferentes circunstâncias seja vista, nós introduzimos
a exposição desse assunto de alguns homens proeminentes de vários
desses estados

4. Análise das fontes selecionadas

A escolha das fontes responde a um dos objetivos do trabalho, o de entender as ações dos
anos iniciais da Ku Klux Klan enquanto reações de descontentamento e de respostas
políticas extremas, em um período que se questiona as responsabilidades do Sul perante
a União. O caso da Carolina do Norte é interessante, mas não o único possível de ser
trabalhado. Escolhemos esse estado como o único devido ao tempo e tamanho do presente
trabalho, mas acreditamos ser de muita expressão os exemplos representados nas fontes,
principalmente pois nelas estão contidas vítimas brancas e negras, ambas republicanas. O
estado, ainda, é significativo pois, como afirma Dunning, durante a Reconstrução este
declarou falência e sofreu um processo de impeachment pelo seu governador, Holden.

9
Como visto em: UNITED STATES, Congress, 1872, p.1. Disponível em:
<https://quod.lib.umich.edu/m/moa/aca4911.0001.001/3?page=root;rgn=subject;size=1
00;view=image;q1=Ku-Klux+Klan++1866-1869>
Convém, ainda, entender os números do estado a ser trabalhado. Deborah Beckel afirma
que, em 1868, o eleitorado da Carolina do Norte contava com quase 80.000 homens
negros, de um total de aproximadamente 197.000 eleitores registrados. Segundo a autora,
os líderes republicanos brancos às vezes escolhiam homens brancos indignos como
candidatos políticos no lugar de homens negros capazes. Esses números são importantes
para entendermos a dimensão da reação do Klan.

O New York Times, em 10 de junho de 1870, por sua vez, afirmava em uma matéria
como a violência apresentada no estado da Carolina do Norte demonstrava a forma como
estaria se dando a Reconstrução no Sul. Esta menção em um jornal com a proporção do
Times é importante pois demonstra a dimensão do problema do Klan no país como um
todo. Como o documento do comitê de investigação afirma, era necessário proteger a
propriedade e vida nas terras em que estas estariam em perigo pelo grupo de supremacia
branca. O direito da propriedade, tão intrínseco ao discurso americano, não poderia
receber menos preocupação em um país como os Estados Unidos, especialmente em um
período em que a propriedade fora objeto de intensos debates e defesas por meio de luta
armada na Guerra Civil. Diz o documento que (1870, tradução nossa)

As condições sociais, que são a causa designada pelas mortes e


incêndios criminosos, não são peculiares ao estado o qual o senhor
Holden é governador. (...) Nós esperamos encontrar em qualquer lugar
sob o governo de Reconstrução a mesma provocante hostilidade para
com as autoridades da lei e a mesma simpatia para com a selvageria
organizada conhecida com a Ku Klux Klan.10

10
The New York Times, "Lawlessness in North Carolina-Its Democratic Apologists,"
June 10, 1870, Civil War Era NC. Acesso em 12 de novembro. 2017. Disponível em:
<https://cwnc.omeka.chass.ncsu.edu/items/show/2702>.
4.1. O caso Mr. Biggerstaf

Figura 1 (1872, p. 20). Como visto em: https://quod.lib.umich.edu/m/moa/aca4911.0002.001/40?page=root;rgn=full+text;size=100;view=image


Figura 2 (1872, p. 21). Como visto em:
https://quod.lib.umich.edu/m/moa/aca4911.0002.001/41?page=root;rgn=full+text;size=100;view=image

Figura 3 (1872, p. 21). Como visto em:


https://quod.lib.umich.edu/m/moa/aca4911.0002.001/41?page=root;rgn=full+text;size=100;view=image
Os três trechos destacados nas páginas anteriores tratam de uma investigação com J.B
Carpenter. De acordo com C.S. Carris, Jonathan Beattie Carpenter foi um “produto de
seu meio”, sendo o seu pai um comerciante bem-sucedido que de 1850 a 1860 viu sua
propriedade aumentar de $1.000 para $7.000. Seguindo os ânimos coletivos de seu
município, diz Carris, J.B Carpenter apoiou a Confederação durante a Guerra, mas após
seu fim se tornou republicano, criando e sendo co-editor de um jornal conservador, The
Rutherford Star. Os editoriais deste passaram a mostrar o seu apoio ao plano de
Reconstrução do presidente Johnson para o crescimento da União. Segundo Carris, se
tinha medo em 1871 que o município de Rutherford sofresse mais com a violência do
Klan pela maioria republicana ser tão expressiva. Nesse sentido, ainda de acordo com o
texto, além de publicar o jornal The Star, J.B. Carpenter também pediu ajuda ao estado e
governo federal para combater o Klan, escrevendo para o governador e presidente e
viajando para Washington, DC para testemunhar contra o grupo. Diz o texto, ainda, que
líderes do Klan no município de Cleveland expressaram seus desejos de matar Carpenter
e outros para continuar suas ações do grupo.11

J.B. Carpenter, enquanto secretário da suprema corte do condado de Rutherford,


menciona o caso de Aaron Biggerstaff, que teria sido açoitado por motivações políticas.
O documento nos permite compreender que os casos de violência cometidos em
Rutherford, na Carolina do Norte, fazem parte de uma grande onda reativa de grupos
rebeldes – que lutaram pelo rompimento com o Norte e a favor da secessão – em um
momento em que os projetos de Reconstrução da União trazem insegurança e nervosismo
para os sulistas brancos.

Segundo o interrogado, não haveria quaisquer motivações pessoais para o ataque a


Biggerstaf, um senhor de família com aproximadamente sessenta anos de idade, de
origem pobre e personalidade honesta. Ao ser questionado quanto a sua opinião sobre as
chicotadas e as razões que teriam levado o grupo de rebeldes a fazê-las, o secretário afirma
que a vítima em questão teria sido um aliado da União durante e após a Guerra e, para
ele, as motivações para o ataque estariam intimamente ligadas a isto. Considerando que
os homens que o atacaram eram, de fato, separatistas e faziam parte do exército rebelde,
o interrogado afirma que a única causa real para a ocorrência das chicotadas contra o

11
Carris, C. S., Amnesty Petition of J. B. Carpenter, August 15, 1865, Civil War Era
NC. Acesso em 12 de novembro. 2017. Disponível em:
<https://cwnc.omeka.chass.ncsu.edu/items/show/868>.
senhor Biggerstaf seria, abertamente, seu posicionamento político republicano. Isso,
segundo o documento, era confirmado por todas as vítimas de chicotadas, segundo as
quais os próprios homens que as atacavam esclareciam tal motivação no momento do ato
de violência.

É interessante que os integrantes do Klan tenham se voltado para Biggerstaff, pois este,
segundo afirma Foner, era um “Herói da América”. Segundo Paul D. Escott, este “sofreu
nas mãos do Klan” pois era um Unionista declarado e adversário da Confederação e
“muito falador” e “espalhafatoso” em seus pontos de vista. Nesse sentido, se entendermos
as ações do Klan enquanto respostas ao partido republicano e suas medidas, Biggerstaff
seria um “exemplo ideal” para passar a mensagem violenta do grupo. O senhor de sessenta
anos, sendo conhecido pela comunidade como verdadeiro republicano, se mostra um alvo
do Klan não só pelos motivos que atendem à sua vida política individual, mas de uma
forma a quase “educar” essa mesma comunidade a não seguir com a opção republicana,
pois esta seria passível de retaliações extremas.

Lendo o documento de organização e princípios da Ku Klux Klan, é possível entender


porque homens como Biggerstaff eram alvos de ataques. O primeiro objetivo exposto
afirma ser necessário socorrer, sobretudo, as viúvas e órfãos de soldados confederados.

A ideia compartilhada por esses homens, expressa no referido objetivo, seria a de que
estes eram os responsáveis por “fazer justiça” àqueles que lutaram na Guerra Civil. “Fazer
justiça”, nesse sentido, corresponderia à perseguição de todos os indivíduos que poderiam
receber o fardo de serem responsáveis pelos números de soldados mortos, viúvas e órfãos
da guerra. Entende-se, a partir dos casos reunidos pelo comitê, que os indivíduos
republicanos foram responsabilizados pelos membros do Klan. Dessa forma, Biggerstaff
teria sido vítima não só por ser republicano, mas por ter influência na morte de sulistas e
na derrota do Sul em si, uma vez que tenha participado da Guerra Civil. Foner, ainda,
destaca que o Klan no oeste da Carolina do Norte estabeleceu “velhos escores” com
unionistas de guerra. Biggerstaff, em nosso entendimento, seria um deles.

A narrativa da guerra na versão dos sulistas também se mostra em um monumento citado


por Du Bois em seu texto, em que soldados confederados são representados com os
dizeres: “eles morreram lutando pela liberdade!”. É esta a memória dos que lutaram em
uma guerra com um Norte intransigente, buscando libertar as propriedades – isto é, os
escravos - dos sulistas que se mostra no documento de organização citado acima, em
narrativas da historiografia tradicional e aos olhos de muitos americanos ainda hoje.

O segundo objetivo escrito no documento, o de “proteger e defender a Constituição dos


Estados Unidos, e todas as leis promulgadas em conformidade com ela, e proteger os
Estados e seu povo de toda invasão, venha esta de onde vier” 12, também aparece como
pano de fundo das ações do grupo no referido condado. É possível, articulando o objetivo
com as ações direcionadas aos indivíduos republicanos, que os membros do Klan tenham
definido como uma maneira de expulsar os membros desse partido – entendidos como
invasores – seria a partir da violência e da coerção pela mesma. Como afirma Foner, a
violência, uma parte intrínseca do processo de mudança social observado desde 1865,
teria entrado diretamente na política eleitoral em 1868.

Segundo Dunning, os democratas brancos eram os principais contribuintes do Sul e


assistiam com preocupação o crescimento das dívidas e dos impostos em cada estado. Diz
Dunning que “eles estavam carregando o maior peso que a extravagância radical e
corrupção estaria criando e tinham pequenas chances de sucesso em qualquer eleição
contra a maciça massa de negros” (DUNNING)13. Essa situação talvez tenha influenciado
os membros do Klan em suas ações de violência, acreditando que a partir destas se
resolveriam os problemas conquistados pela administração republicana. Os atos violentos
possuem, dessa forma, motivações e intenções políticas que escapam aos espaços formais
de ordem, controlados pelo partido e sua ala radical, que não aceitava a possibilidade do
Sul ser protagonista do período de Reconstrução. Como aponta Karnal, o plano original
dos republicanos radicais entendia ser necessária uma tutela federal sob os estados do Sul,
que contariam também com ocupações militares.

12
“Ku Klux Klan — organização e princípios”.1868. Como visto em: SYRETT, Harold
C. (org.). Documentos históricos dos Estados Unidos. São Paulo: Cultrix, 1980.

13
(DUNNING 1907, p.210, tradução nossa)
4.2. O caso Henry Carpenter

Figura 4 (1872, p. 22). Como visto em:


https://quod.lib.umich.edu/m/moa/aca4911.0002.001/42?page=root;rgn=full+text;size=100;view=image

Figura 5 (1872, p. 22). Como visto em:


https://quod.lib.umich.edu/m/moa/aca4911.0002.001/42?page=root;rgn=full+text;size=100;view=image

Nos dois trechos acima, o secretário é questionado quanto a outros casos ocorridos no
condado de Rutherford, sobre os quais ele teria sido notificado nos últimos tempos. O
interrogado menciona, então, a invasão à casa de um jovem negro chamado Henry
Carpenter. Como podemos observar, o grupo de homens disfarçados que invade a casa de
Carpenter possuem ligação política com o partido democrata. Além disso, é possível
identificar a maneira com a qual se dava a relação com pessoas negras – “de cor” – mesmo
após a derrota do Sul. Carpenter teria tido sua arma confiscada por estes homens, que
afirmam que pessoas negras não devem ter acesso a armas; caso o tivessem, não saberiam
agir corretamente. O documento nos permite entender que o tom de ameaça na fala destes
homens só poderia demonstrar aspirações políticas que tendem a subordinar um homem
negro a seus interesses: “o partido democrático é seu aliado, desde que você se comporte
bem”, disseram, considerando o simples fato de este homem negro ser um republicano,
segundo o interrogado.

O posicionamento político de Henry Carpenter e seu lugar social como homem negro são
essenciais para pensarmos algumas características do grupo Ku-Klux. Evidentemente, as
motivações políticas para os atos de violência contra determinados cidadãos na Carolina
do Norte vão, aos poucos, dividir espaço com motivações raciais. Logo abaixo, em outro
caso mencionado por J.B. Carpenter, um soldado da Guerra anglo-americana de 1812,
Nodine, teria sido açoitado por homens disfarçados, também por conta de seu
posicionamento republicano. Todavia, não podemos ignorar o fator racial se quisermos
analisar a gradual consolidação da Ku-Klux Klan como parte da reação sulista radical à
Reconstrução da União e, posteriormente, como grupo extremista de aspirações
terroristas.

Neste caso, o documento de organização e princípios da Ku Klux Klan também possui


importantes conexões. Entre as interrogações a serem feitas, segundo o mesmo,
encontram-se: “5ª: Você se opõe à igualdade do negro, tanto social quanto política?” e
“9ª: É a favor da relibertação e emancipação dos homens brancos do Sul e da restituição
ao povo sulista de todos os seus direitos, tanto de propriedade quanto civis e políticos?”.

A primeira questão dialoga com o que Dunning afirma em seu texto. Segundo o autor, a
educação pública existia de forma rudimentar e esporádica no Sul antes da guerra, mas a
nova administração garantiu completos sistemas educacionais nos modelos avançados do
Norte. De acordo com ele, os negros foram os principais beneficiários desses sistemas,
enquanto muitos dos brancos contribuintes consideravam a educação dos negros, a ser
realizada nas escolas públicas, inútil ou perigosa para a sociedade. A educação, portanto,
é uma das ferramentas sociais de igualdade em que os membros da Ku Klux Klan se
colocavam contra.

O caso de Carpenter, por sua vez, corresponde às duas referidas indagações, pois a ação
de retirar a sua arma responde a uma contestação do direito de propriedade do mesmo. A
possibilidade de possuir um bem só seria possível para um homem negro se houvesse
antes equidade legal, o que fora garantido durante o período de Reconstrução. Dessa
forma, o caso de Carpenter é não só simbólico no que diz respeito a uma medida política,
como mostra que os membros do Klan estariam contestando as alterações legais e sociais
do período pós-Guerra Civil, seguindo também o que estaria escrito no documento
principal da organização.

A “relibertação e emancipação dos homens brancos do Sul”, como cita o documento, teve
sua repercussão também na política formal. Entendemos as ações do Klan como
expressões violentas de política, bem como de ódio. No entanto, é possível perceber como
o apelo pelo “retorno” à supremacia branca se fazia presente nas propagandas do partido
Democrata. Como mostra Foner em seu texto, uma das campanhas do partido em 1868
afirma que “este é um país de homens brancos; deixem os homens brancos
comandarem”14. No que diz respeito a Ku Klux Klan, o meio para “tomarem o comando
de volta” se deu por meio da violência e discriminação combinadas.

Como demonstra o mesmo autor a partir da análise das eleições de 1868, a violência
causada pelo Klan na Georgia e Louisiana conseguiu dizimar a organização republicana
e tornar impossível os negros votarem. Onze municípios com maioria negra do primeiro
estado não tiveram registros de votos ao partido Republicano. Segundo ele, a efetividade
do Klan também se demonstrou em estados em que Grant ganhara, enquanto os votos
republicanos diminuíram consideravelmente no Tennesse, no norte do Alabama e no
interior da Carolina do Sul. Percebe-se, a partir do que escreve Foner, que as medidas que
se encontravam fora da política oficial, mas que possuíam teor político, isto é, as ações
violentas do Klan para com republicanos brancos e negros, foram bem-sucedidas desde
os anos da eleição, o que não significa dizer que terminariam nestes mesmos anos. Os
resultados da eleição de 1868, principalmente, a ausência de muitos republicanos em
diversas regiões do país, mostram mais uma vez como o grupo de supremacia branca
tinha como bandeira principal uma política anti-republicana.

14
Como visto em: (FONER 1990, p.182, tradução nossa)
4.3. Estado de intimidação e terrorismo

Figura 6 (1872, p. 23). Como visto em:


https://quod.lib.umich.edu/m/moa/aca4911.0002.001/43?page=root;rgn=full+text;size=100;view=image

Figura 7 (1872, p. 24). Como visto em:


https://quod.lib.umich.edu/m/moa/aca4911.0002.001/44?page=root;rgn=full+text;size=100;view=image
Figura 8 (1872, p.26). Como visto em:
https://quod.lib.umich.edu/m/moa/aca4911.0002.001/46?page=root;rgn=full+text;size=100;view=image
Figura 9 (1872, p. 29). Como visto em:
https://quod.lib.umich.edu/m/moa/aca4911.0002.001/49?page=root;rgn=full+text;size=100;view=image

A análise dos trechos em questão nos leva a identificar outros fatores de importância. Em
primeiro lugar, a singularidade nos casos ocorridos no estado da Carolina do Norte,
especialmente nas proximidades com a fronteira da Carolina do Sul e do condado de
Cleveland. Segundo J.B Carpenter, ainda em juramento, os casos conhecidos seriam mais
numerosos naquela parcela do território do que em qualquer outra região do país. Esta
declaração foi o motivo da nossa escolha pelos casos trabalhados, pois permitem uma
dimensão maior do que foram as ações do Klan, se compararmos com os outros estados
sulistas dos Estados Unidos.

O segundo fator de importância a ser destacado diz respeito à diminuição da frequência


de chicotadas e atos violentos naquela região, a partir do momento em que um estado de
intimidação teria sido instaurado no condado. Para além das motivações políticas e cada
vez mais raciais, o documento também explicita o caráter terrorista da organização secreta
ao identificar diferenças comportamentais entre a população da região em questão e
outras mais distantes da parcela ao sul. Segundo o interrogado, as chicotadas já não eram
mais tão necessárias para subjugar aqueles homens de ideais republicanos em Rutherford.
Enquanto alguns deixaram suas propriedades para viver em Rutherfodton, em busca de
proteção, outros se recusavam, sob tais circunstâncias, a participar de pesquisas, expressar
opiniões ou simplesmente votar, independentemente da situação. A insegurança e o terror
consolidados ali eram suficientemente impositivos, ao mesmo tempo em que impeditivos,
no que concerne aos direitos e à liberdade individual. Um bom exemplo disto é o caso de
um homem negro que havia sido convocado para o júri, mas deixou de ir devido a
ameaças feitas pelos Ku-Klux, fundamentadas na ideia de que “um homem negro não
pode participar de um júri”. O simples fato deste homem, especificamente, viver ao sul
do condado Rutherford, próximo às fronteiras supracitadas, também nos deixa claro o
estado de intimidação existente naquela parcela regional.

Por último, o terceiro fator de importância reside no posicionamento republicano de


absolutamente todos os indivíduos que foram ameaçados e obrigados a deixar suas casas
pelo grupo rebelde, em busca por proteção. Evidentemente, o partido democrata parece
eximir-se de sua responsabilidade diante dos casos de chicotadas, culpabilizando o
partido adversário por tais atos. A tentativa de distanciamento, por parte dos democratas,
para com os Ku-Klux, deve ser considerada como controvérsia, considerando o
antirrepublicaníssimo da Ku-Klux que se mescla com seu caráter extremamente
conservador. Afinal, ainda segundo J.B. Carpenter, “nenhum conservador foi forçado a
deixar sua moradia”.

Nesta parcela sul do condado – que, segundo o secretário, representa um quarto de todo
o condado – tanto a população branca (maioria) encaixava-se nos ideais republicanos,
quanto os negros, ainda que em minoria, também contribuíam para a majoritariedade
republicana até 1863. O caso da esposa de McGahey, abusada por homens rebeldes em
1870, torna-se um divisor de águas para a decadência desta maioria republicana nos anos
seguintes. Ainda que vencedor nas eleições de 1870, o partido republicano teria perdido
muitos votos naquela sessão territorial e podemos verificar este fato como consequência
das ocorrências violentas aqui analisadas e da ascensão da Ku-Klux como organização
terrorista. Depois das eleições de 1863, não haveria mais, supostamente, uma votação tão
abrangente como o fora no mesmo ano, principalmente após as represálias sofridas pelos
eleitores republicanos, muitos dos quais deixariam de votar em 1870 e de exprimir suas
ideias em prol de sua segurança.

Segundo Escott, um homem em Rutherford certa vez declarou que o Klan seria “uma
organização política do partido Conservador, nos interesses do mesmo partido”. As
açoitadas eram justificadas, segundo o autor citando diversos indivíduos do estado da
Carolina do Norte, “para derrubar o partido republicano”, “para fortalecer o partido
Conservador”, “para aquietar os negros e aumentar o partido Conservador”. A sucessão
dessas organizações terroristas, segundo ele, se daria para servir aos propósitos
mencionados. Mais indicativos do que os objetivos políticos do Klan são os fatos políticos
dos municípios em que o grupo se fez mais ativo, segundo o autor. Destaca Escott que
dez dos quinze municípios que passaram de republicanos para democratas em 1870
observaram considerável violência do Klan. Em Rutherford, condado analisado pelas
fontes, o grupo quebrou a aliança entre republicanos brancos e negros. Diz o autor (1985,
p.156, tradução nossa)

Outrora Whig e opostos a secessão, Rutherford tinha sido um terreno


árido para os Democratas; antes do Klan, os Republicanos aproveitaram
uma majoritária de 590 votos de um eleitorado de 460 negros e 1.800
brancos. Depois, alguns brancos estavam intimidados e um observador
duvidou que “os homens de cor ousariam votar nesse momento”.

Ainda segundo este autor, o Klan serviu como um “governo às sombras” de homens que
intentavam reconquistar suas posições e controle. Segundo o autor, “foi o instrumento da
elite para dividir e enfraquecer a ameaça da classe-baixa manifestada no Republicanismo,
e usou terror para se aproveitar do poder real do governo legalmente constituído”.

Michael W. Fitzgerald é mais um autor que chama atenção para o teor político do Klan.
De acordo com ele, o surgimento da Ku Klux Klan na conjuntura social que se deu não
foi coincidência. As mudanças rurais, para ele, forneceram um contexto para a efetiva
repressão. O medo de crimes de propriedade ajudou, segundo o autor, a solidificar um
largo eleitorado entre os brancos, muitos tendo limitado sua participação no sistema de
plantation, e alguns cujos interesses ou inclinações eram perigosamente antiéticos.
Fitzgerald diz que apesar de alguns plantadores terem participado, o Klan não era seu
instrumento social. Como um instrumento de repressão agrária, afirma o autor, o grupo
era uma “faca de dois gumes”, o terror político era um objetivo maior que o terror social.

5. Considerações finais

Segundo Julian Bond, ativista social e líder no Movimento dos Direitos Civis, apesar das
peculiaridades, os grupos que perpetuam violências e perseguições a determinadas
minorias dividem com a Ku Klux Klan o ódio e indignação que deram vida a este último.
Para Bond, a Ku Klux Klan foi a primeira organização terrorista da América e, assim
como outros grupos de ódio, não pode ser ignorada. As intenções do trabalho pretendiam
mostrar como as ações violentas do Klan – em um geral, açoitadas – se encaixam em um
contexto político, no qual o pano de fundo são os anos de Reconstrução Americana.
Nesse sentido, revisitar o passado de grupos como a Ku Klux Klan é não só uma
necessidade no ponto de vista da História, pois atende a um período importante na
trajetória dos Estados Unidos, como também indispensável no contexto em que se vive o
país hoje. O conflito observado em Charlottesville, em 12 de agosto de 2017, onde grupos
em favor da supremacia branca entraram em confronto com manifestantes antirracismo,
reacende a necessidade de se falar sobre a expansão de grupos de ódio, com tendências
terroristas.

Segundo o Southern Poverty Law Center, que teve Bond como primeiro presidente,
estima-se que o Klan possua entre 5.000 a 8.000 membros15. De acordo com pesquisa
publicada pelo “New York Times”, desde os ataques de 11 de setembro de 2001,
supremacistas brancos mataram mais pessoas que radicais islâmicos nos Estados Unidos,
assassinando 48 americanos, enquanto 26 foram assassinados por jihadistas. 16 Esse
contexto de efervescência ideológica reafirma a magnitude e a importância de estudos em
torno da consolidação de grupos de ódio, buscando entender seus princípios e
prerrogativas, além de identificar seus alvos e vítimas. É um papel que a História pode
exercer com maestria, atendendo não só a Academia, mas a sociedade como um todo.

15
Como visto em: https://www.splcenter.org/fighting-hate/extremist-files/ideology/ku-
klux-klan. Acesso em 12 novembro. 2017.
16
Como visto em: http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/supremacistas-brancos-
matam-mais-que-jihadistas-7hwpauj3r8wvq27egt2okuc16. Acesso em 12 novembro.
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