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MARCIO MENEZES MARTINS

TRABALHO 1

MATRIZES DO PENSAMENTO CIENTÍFICO: EPISTEMOLOGIA

Trabalho da disciplina Metodologia de


Pesquisa no PPGAU Programa de Pós
Graduação em Arquitetura e Urbanismo
da Universidade Federal Fluminense

Professores: Prof. Vinícius Netto e


Fernanda Sanchez

RIO DE JANEIRO
2016
O que é ciência?

Não caberia neste formato ou na brevidade deste relato estabelecer as bases do


que é ou não ciência. Cabem duas coisas, primeiro a definição presente nos
dicionários e uma breve crítica a limitações que ela possa ter.

O dicionário Oxford estabelece que ciência é o conhecimento sobre a estrutura


e o comportamento do mundo natural e físico, baseado em fatos que você
consiga comprovar, por exemplo, por experimentos. O mesmo dicionário abre
também, entre outras, uma outra definição relevante ao tema aqui proposto: um
sistema para organizar o conhecimento de um objeto em particular,
especialmente relativo a aspectos do comportamento humano e sociedade.

No Dicionário de Geografia Humana (GREGORY, 2009), após assumir a


impossibilidade da tarefa de definir o que é ciência, os autores se arriscam a
indicar que ciência apresenta uma relação com os empreendimentos com
familiaridade e similiaridade com práticas experimentais e observacionais que
vieram a caracterizar a filosofia natural, ligado ao corpo de verdades
demonstradas e fatos observados que sejam considerados coerentes por sua
aderência à leis gerais da natureza.

Assim, de forma mais básica, o campo da ciência estaria ligado, mais


diretamente, ao conjunto de informações produzidas pelo homem através de
pesquisas e experimentos para a explicação da realidade.

Entretanto, como nos lembra CHALMERS:

“...quem sabe o que o futuro nos reserva? Certamente não são filósofos da
ciência. Qualquer relato da relação entre as teorias no interior da física, e o
mundo a respeito do qual se tenciona que estas teorias versem, não deve ser de
natureza a excluir um possível desenvolvimento futuro.”

Desta forma, fica impossível delimitar especificamente o que seria fazer ciência,
uma vez que ela está em constante expansão e desenvolvimento. Minha
interpretação de ciência remete a atividade de produzir conhecimento e procurar
contribuir pra explicar fenômenos e criar mecanismos, de forma que a natureza
humana possa avançar ou ser melhor compreendida.
O que é pesquisa?

Pesquisa é uma ação no sentido de constituir um corpo de informações sobre


um fenômeno, físico ou social, de forma a aprimorar ou explicitar sua
compreensão. Pode compreender diferentes tipos de avaliação, desde a
cronometragem do tempo que um objeto demora a cair até o características do
comportamento de determinadas populações dadas determinadas situações.

O que é metodologia?

Metodologia é o corpo de princípios e verdades que definem a escolha de


técnicas para a construção e análise de dados, que definem os instrumentos e
maneiras de se realizar alguma atividade, no caso em questão de pesquisa. A
metodologia estabelece as ligações filosóficas e bases conceituais de um estudo
com suas técnicas apropriadas.

A metodologia envolve a consideração sobre como técnicas especificas podem


ser montadas e utilizadas para gerar o tipo de dado que possibilita a resposta à
uma questão colocada através de um contexto conceitual.

O que é método e quais os mais usados em nossa área?

Método científico é uma série de etapas que se tem que percorrer para obter um
conhecimento do ponto de vista científico, utilizando para tal, instrumento
confiáveis. Os métodos visam diminuir a influência da subjetividade do trabalho
científico.

Em nossa área usamos métodos de pesquisa qualitativos e quantitativos e


também métodos mistos, uma vez que os fenômenos urbanísticos, enquanto
descrição de fenômenos sociais e físicos, raramente podem ser delimitados
apenas por um método.
Quais são as principais matrizes do pensamento científico?

Seguimos na tabela abaixo um brevíssimo resumo sobre as características das principais matrizes do pensamento.

Matriz Foco Objetivos Limitações

Mundo operado por leis e


forças, entidades naturais,
como regras que regem a Oposição ao espiritual ou ideal.
estrutura e o Refutar ou confirmar eventos. Prever O homem é apenas parte da natureza,
comportamento dos controlar e explicar fenômenos rejeitando a filosofia como fundação para
Naturalismo fenômenos. naturais. a pesquisa social.

Afirmações provenientes
da observação são as Em ciências sociais depende da
únicas capazes de fazer Usar métodos científicos para a formulação de teorias para a
referência direta aos descrição de fenômenos observáveis compravação, não sendo, isoladamente,
Empirismo fenômenos no mundo real no mundo real. capaz de permitir muitas observações.
Separação entre
informações que considera
científicas, logo, objetivas
de informações subjetivas Definição de teorias macro para a Afastamento proposto entre o objeto de
e não comprováveis. Uso explicação de fenômenos, das quais estudo e o pesquisador impossibilita
de Técnicas das Ciências seriam desenvolvidas teorias determinados estudos. Dados podem ser
Naturais aplicadas subsequentes para explicação de usados de forma inconsistentes através de
diretamente sobre as fenômenos sociais. Distinção da um viés ideológico que é negado pelo
Positivismo ciências sociais. ciência da metafísica e religião método.

Definir a verdade através Defende que a verdade de


de critérios intelectuais e determinados fenômenos pode ser Se opõe diretamente ao positivismo, na
de dedução, ao invés de diretamente identificadas pelo não necessidade de comprovação
Racionalismo apenas critérios sensoriais. raciocínio. empírica dos fenômenos.
Considera que os sistemas concretos
A crença de que existe um mais complexos e ambíguos do eu
mundo que existe nossa compreensão, estabelecendo Excessiva profundidade ontológica, O Pós-
independente de nosso que, não considerar essa diferencça Estrutlismo supeitas das estruturas
Realismo conhecimento. ameaça as ciências sociais. tratadas.
O Anti-essencialismo apresenta uma falsa
Realidade essencial “por distinguir entre os aspectos essenciais escolha entre algumas garantias de
trás” dos particulares e não essenciais de um objeto ou veracidade e cohecimento sem nenhuma
Essencialismo aparentes do mundo. fenômeno. evidência que o suporte.
a realidade como residindo Foco na racionalidade e
ou constituída pela mente intencionalidade
ou limite o entendimento à
percepção de objetos A oposição entre sujeito e objeto
externos [idealismo localizada como incidente no interior
Idealismo epistemológico] do sujeito.
Visão filosófica pela qual os Incapaz de compreender fenômenos
fenômenos são resultados Pensamento endereça fatos socias dados a partir de outras matrizes
Materialismo de interações materiais puramente materiais. que não a baseada no mundo físico.

PÓS-COLONIALISMO: critica o
Abordagem analítica que eurocentrismo do materialismo histórico e
enfatiza a base material da não reflete a experiência dos colonizados;
sociedade e olha para o encobre a dimensão cultural do projeto
desenvolvimento histórico colonial ao usar dicotomias
das relações sociais como Estuda os meios de produção e troca epistemólogicas rígidas. Desafiado pelo
Materialismo forma de entender com base da ordem social determina PÓS-MODERNISMO: suposições do
Histórico mudanças societais. a divisão social na forma de classes iluminismo e da modernidade
Tentativa de descerrar o
mundo como ele se mostra Apresenta uma representação
antes da investigação detalhada do ser humano, com o
científica, Rejeita a entendimento do sujeito como parte
suposição da separação de um meio social, cultural e existente
entre sujeito (o como parte do mundo, permitindo
observador) e objeto (o informações cruciais para várias
Fenomenologia observado). disciplinas empíricas;
Resenha: Positivismo e estatísticas em ciências sociais. Russel Keat.

Por Marcio Martins

O texto introduz um debate sobre o positivismo, seus usos e limitações em


ciências sociais, críticas e exemplos acerca de sua utilização. Esta resenha se
propõe a uma descrição das principais informações e considerações contidas no
texto, deixando uma breve consideração a respeito de seu conteúdo para o final.

Introdução.

O debate sobre o positivismo em ciências sociais corre o risco de se perder em


vagos esforços de definições “corretas”. Entretanto o que é mais importante são
os méritos, defeitos e consequências das práticas chamadas positivistas, uma
vez que levanta questões centrais sobre a possibilidade de uma ciência do social
e que ela pode ser.

A posição “positivista” usada no texto é caracterizada por dois elementos


principais. Primeiro é a crença de que as características básicas das
ciências sociais podem e devem ser modeladas a partir das ciências
naturais, especialmente física e química. Esta é a “tese do Naturalismo
Metodológico.” – a demanda pelo uso de métodos similares e
aproximações nas ciências sociais e ciências naturais, com estas últimas
servindo de modelo para a primeira. O segundo elemento é a própria
concepção do que é ciência, do tipo de conhecimento que esta produz e
das maneira em que seu uso é justificado.

Esta compreensão tem um papel central no papel de dados estatísticos nas


ciências sociais.

A visão positivista da ciência.

Uma aproximação positivista acerca de um objeto de estudo é mostrar que ele


tem conformidade com lei científicas bem estabelecidas, que podem ser
substituídos em fórmulas como a que relacionam pressão, volume e temperatura
e, mantidas as condições externas, apresentar resultados coerentes.
Uma exemplo dessas leis em ciências sociais é a explicação de George Homans,
de leis básicas descobertas por psicólogos behavioristas, como por exemplo a
lei de que, quando uma resposta é seguida por uma recompensa, ela tem maior
probabilidade de ser recorrente e que, quanto maior o valor da recompensa,
maior a possibilidade da ação ou sua repetição. (Homans 1964)

Positivistas sugerem que descobriremos uma hierarquia de leis, com um menor


número de leis básicas de onde as demais poderão ser derivadas. Esse sistema
hierárquico constitui a teoria científica.

O conceito entretanto é difícil para os positivistas uma vez que eles centralmente,
tem se demonstrado preocupados em distinguir conhecimento científico de
conhecimentos metafísicos e religiosos, o que é feito limitando a ciência ao
campo do observável.

Os positivistas estabelecem a primazia do observável, negando explicações não


acessíveis aos sentidos, como deuses e espíritos, isso é feito através de
definições, frequentemente complexas, definindo as características perceptíveis
de fenômenos. Magnetismo, por exemplo, seria descrito como: se um objeto de
metal é colocado próximo a um objeto, ele se move em sua direção.

A segunda forma de primazia é epistemológica, positivistas afirmam que o teste


para saber se afirmações científicas são aceitáveis é sua aderência a dados
empíricos. O problema, em ciências sociais, é a definição de que dados seriam
esses e como a observação seria caracterizada. Eles defendem que dados
devem ser livres de teorias e que precisam ser objetivos, todos os observadores,
competentes e honestos, devem ser capazes de concordar com eles.

Dessa forma a estatística tem papel fundamental nas ciências positivistas para
decidir o que é ou não ciência, além de corroborar para outro pressuposto, que
é a ausência de valores pessoais do pesquisador no resultado das pesquisas.
Valores políticos e morais não poderiam influenciar nos resultados de pesquisas
científicas.

A ciência poderia descobrir qual é o caso, explicar, mas não pode mostrar
o que poderia ou deveria ter que ocorrer. (Weber)
Como exemplo, o conceito de exploração no Marxismo tem servido de
argumento dos positivistas sobre sua falta de consistência científica.

Positivismo em ciências sociais: Um exemplo.

A teoria de Durkheim sobre suicídio é um exemplo de como os positivistas se


aplicam à ciência. A explicação de porque há mais suicídios na Dinamarca do
que na Espanha, parte da premissa de que suicídios variam de acordo com
níveis de integração social, e tendo católicos um nível maior de integração social,
seriam menos propensos. A mesma lei poderia ser usada também para a
explicação entre diferentes taxas entre solteiros e casados.

Esses dados acabam sendo testados a partir de dados estatísticos referentes à


cantões suíços, que possuíam características próximas às das populações em
estudo e teriam dados, não disponíveis para a França da época.

Os dados referentes à integração social são divididos em perguntas referentes


a conceitos legíveis como número de encontros com outras pessoas e os dados
são passíveis de investigação por outros pesquisadores. As relações de causa
dos suicídios, se o suicídio seria correto ou não, são ignorados para estabelecer
o princípio de neutralidade de valor.

Alternativas para ciência positivista.

O Realismo se diferencia e se apresenta como alternativa, na medida em que


não busca, como o Positivismo, estabelecer uma relação direta entre o que
aconteceu e o que vai acontecer, de observação e visão, que pode não se
sustentar devido à impossibilidade de compreender conceitos mais amplos e não
observáveis através de dados específicos conforme os preceitos positivistas,
como as visões de modos de produção de Marx ou o Inconsciente, de Freud.

De acordo com o realismo:

Conhecimento científico é estabelecido por uma argumentação e análise,


a priori, e os dados empíricos servem, principalmente, de sustentação
para a teoria, ao invés de serem testes cruciais para que sejam atestadas
verdadeiras ou falsas.
Experiências e significados

Várias objeções podem ser feitas ao positivismo, na medida em que, a exclusão


da percepção do indivíduo, em fenômenos sociais, bem como das relações
sociais, tornam impossível a compreensão de diversos fenômenos. Um suicídio
não seria uma informação proveniente apenas da existência de um corpo mas
também do subjetivismo de um legista ou da família e cultura, por exemplo.

Críticas e a independência de valores.

A primeira objeção seria que, ao avaliar ciências sociais, necessariamente o


cientista estaria partindo de arcabouços de avaliação, em detrimento de outros,
dessa forma excluindo a possibilidade de total independência, partindo de
conceituações pré-existentes.

A segunda objeção é que a concepção positivista de ciências naturais pressupõe


uma visão de mundo passível de previsões e de controle humano. Por essa
razão a ênfase dada ao descobrimento de leis. Utilizadas essas leis, ao invés de
servirem como instrumento científico, servirão apenas como tecnologia de
controle social, através da manipulação da sociedade para a chegada a
determinados resultados.

Essas objeções podem levar, desde a uma negação total da possibilidade de


desenvolvimento de ciências sociais até a defesa de ciências sociais mais
partidárias, que não possuam a intenção de isenção, a segunda pode levar a
tentativas de construção de uma ciência que não envolva os valores
tecnocráticos do positivismo, como da escola de Frankfurt, a idéia de Teoria
Crítica, ou a uma total rejeição de qualquer tipo de ciência social em favor de
alguma forma de anti-cientificismo romântico.

Considerações da resenha.

Sedutora à primeira vista, a aproximação positivista e seu ideal de isenção são


utópicos, uma vez que ciência social, invariavelmente é feita por humanos e para
humanos, há um grau considerável de subjetividade envolvido.
Alguns objetos de pesquisa, em linhas mais antropológicas, essencialmente
precisam de aproximação e imersão para a compreensão de fatores inerentes
ao objeto de estudo.

Além disso, há o risco claro de que observações estatísticas de determinados


parâmetros, supostamente isentos de valores, sejam utilizadas
inadequadamente para corroborar teorias estapafúrdias e os resultados obtidos
corroborem teses estúpidas, como o estabelecimento de QIs de refugiados
realizados nos Estados Unidos, definindo que seus QIs eram mais baixos,
através de testes realizados em situações precárias e idioma diferente do idioma
natal dos indivíduos, além de testes antropomórficos nazistas para a defesa de
uma primazia ariana.

É necessário que o autor seja considerado, quando considerada a avaliação de


qualquer pesquisa e a compreensão de que, a reprodutibilidade da pesquisa é
importante, mas não garante em si a corroboração da tese em teste.
Resenha: Introdução ao Estudo do Método em Marx – José Paulo Netto.

Por Marcio Martins

O texto consiste de uma análise do método, bem como uma avaliação da


construção histórica do método e sua progressão ao longo da obra de Karl Marx.
Esta resenha consiste em uma descrição das principais informações presentes
no texto e de uma breve consideração ao final.

Introdução

O método é apresentado como um problema central nas ciências sociais,


exemplificado pelos esforços de Durkhem e Weber em escrever sobre
metodologia. É natural que tenha sido objeto de questionamento, sobretudo na
crise da sociologia acadêmica.

A questão do método - que também é polêmica nas ciências que


têm por objeto a natureza (Popper, 1980; Geymonat, 1984-1985;
Feyerabend, 1990, 2007) apresenta-se tanto mais problemática quanto
mais está conectada a supostos de natureza filosófica. De fato, não se
pode analisar a metodologia durkheimiana sem considerar seu
enraizamento positivista, bem como não se pode debater a "sociologia
compreensiva" de Weber sem levar em conta o neokantismo que
constitui um de seus suportes.

A questão do método, em Marx, é particularmente complicada dado o caráter


revolucionário de suas propostas, que acarretaram perseguições políticas aos
defensores de sua linha.

Interpretações equivocadas

O pensamento de Marx foi bastante adulterado e interpretado de forma


equivocada por detratores e seguidores. Socialistas desenvolveram saberes
totais sobre a obra de Marx, de forma manualesca
...apresentando o método de Marx como resumível nos "princípios
fundamentais" do materialismo dialético e do materialismo histórico,
sendo a lógica dialética "aplicável" indiferentemente à natureza e à da
sociedade, bastando o conhecimento das suas leis (as célebres "leis da
dialética'') para assegurar o bom andamento das pesquisas. Assim, o
conhecimento da realidade não demandaria os sempre árduos esforços
investigativos, substituídos pela simples “aplicação” do método de Marx,
que haveria de “solucionar” todos os problemas: uma análise
“econômica da sociedade forneceria a “explicação” do sistema político,
das formas culturais, etc.

O próprio Engels protestou contra esta visão limitada, que se furtava da


pesquisa histórica e os detalhes da existência das funções sociais. Marx
apareceria em registros situando “fator econômico” como determinante em
relação aos “fatores” sociais, culturais etc. Weber, por exemplo, criticou as
explicações “monocausalistas” dos processos sociais em Marx, apesar de,
segundo Luckács, a visão da totalidade que distingue o marxismo da ciência
burguesa.

Atualmente o campo da crítica dos adversários de Marx se concentra em dois


eixos temáticos: a suposta irrelevância das questões culturais e simbólicas e a
um “evolucionismo”, que levaria necessariamente a humanidade para um fim
previsto, o socialismo. Há argumentos na própria obra de Marx para refutar
essas críticas, que já foram demonstradas inconsistentes por vários estudiosos.

Praticamente todas essas interpretações equivocadas podem ser


superadas - supondo-se um leitor sem preconceitos - com o recurso a
fontes que operam uma análise rigorosa e qualificada da obra marxiana
como, por exemplo, os diferenciados estudos de Rosdolsky (2001), Dal
Pra (1971), Lukács (1979), Dussel (1985), Bensa1d (1999, terceira
parte) e Mészáros (2009, cap. 8).
O método de Marx: uma longa elaboração teórica

A trajetória teórica de Marx se inicia em 1841, mas entre 1843 e 44 se


confronta com a filosofia de Hegel, sob a influência materialista de Feuerbach.

É, porém, com o estímulo provocado pelas formulações do jovem


Engels acerca da economia política que Marx vai direcionar as suas
pesquisas para a análise concreta da sociedade moderna, aquela que se
engendrou nas entranhas da ordem feudal e se estabeleceu na Europa
Ocidental na transição do século XVIII ao XIX: a sociedade burguesa. De
fato, pode-se circunscrever como o problema central da pesquisa
marxiana a gênese, a consolidação, o desenvolvimento e as condições
de crise da sociedade burguesa, fundada no modo de produção
capitalista.

Marx não fez tábula rasa do conhecimento existente, partiu criticamente dele
socorrendo-se especialmente em três linhas de força do pensamento moderno:
A filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês.

A partir desse conhecimento, Marx se debruçou sobre a análise da sociedade


burguesa, com o objetivo de descobrir sua estrutura e sua dinâmica. Se dá
então um longo rocesso de elaboração teórica no qual foi desenvolvendo sua
metodologia de análise para chegar realidade social.

...o método de Marx não resulta de descobertas abruptas ou de intuições


geniais- ao contrário, resulta de uma demorada investigação: de fato, é
só depois de quase 15 anos de pesquisas que Marx formula com
precisão os elementos centrais de seu método, formulação que
aparece na "Introdução", redigida em 1857, aos manuscritos que,
publicados postumamente, foram intitulados Elementos fundamentais
para a crítica da economia política. Rascunhos. 1857-1858 (Marx, 1982,
p. 3-21). (grifo nosso)

Teoria, método e pesquisa


Para Marx, a teoria é uma modalidade peculiar de conhecimento, entre
outras (como, por exemplo, a arte, o conhecimento prático da vida
cotidiana, o conhecimento mágico-religioso- cf. Marx, 1982, p. 15). Mas
a teoria se distingue de todas essas modalidades e tem especificidades:
o conhecimento teórico é o conhecimento do objeto - de sua estrutura e
dinâmica - tal como ele é em si mesmo, na sua existência real e efetiva,
independentemente dos desejos, das aspirações e das representações
do pesquisador. A teoria é, para Marx, a reprodução ideal do movimento
real do objeto pelo sujeito que pesquisa: pela teoria, o sujeito reproduz
em seu pensamento a estrutura e a dinâmica do objeto que pesquisa. E
esta reprodução (que constitui propriamente o conhecimento teórico)
será tanto mais correta e verdadeira quanto mais fiel o sujeito for ao
objeto.

Compartivamente ao método dialético de Hegel, o qual lhe influenciou, Marx


Anotou:

Meu método dialético, por seu fundamento, difere do método hegeliano,


sendo a ele inteiramente oposto. Para Hegel o processo do pensamento
[ .. ] é o criador do real, e o real é apenas sua manifestação externa.
Para mim, ao contrário, o ideal não é mais do que o material transposto
para a cabeça do ser humano e por ele interpretado (Marx, 1968, p. 16;
itálicos não originais).

Marx buscava, para além da aparência do objeto de estudo, sua essência,


discussão essencial para todos os pensadores dialéticos. O e objeto da
pesquisa, seria, para Marx, independente do pesquisador. Apesar disso, Marx
estudou a sociedade em que estava envolvido, descartando-se dessa forma a
pretensão de neutralidade. O conhecimento produzido por ele possui
objetividade, na medida que sua validade pode ser comprovada através da
prática social e histórica.

Cada período histórico, para Marx, possui suas próprias leis e para
compreendê-las “o sujeito tem de apoderar-se da matéria, em seus
pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e de
perquirir a conexão que há entre elas" (Marx, 1968, p. 16).

Neste processo, os instrumentos e também as técnicas de pesquisa são


os mais variados, desde a análise documental até as formas mais
diversas de observação, recolha de dados, quantificação etc.4 Esses
instrumentos e técnicas são meios de que se vale o pesquisador para
"apoderar-se da matéria", mas não devem ser identificados com o
método: instrumentos e técnicas similares podem servir (e de fato
servem), em escala variada, a concepções metodológicas diferentes.
Cabe observar que, no mais de um século decorrido após a morte de
Marx, as ciências sociais desenvolveram um enorme acervo de
instrumentos/ técnicas de pesquisa, com alcances diferenciados - e todo
pesquisador deve esforçar-se por conhecer este acervo, apropriar-se
dele e dominar a sua utilização. , É só quando está concluída a sua
investigação (e é sempre relevante lembrar que, no domínio científico,
toda conclusão é sempre provisória, sujeita a comprovação, retificação,
abandono etc.) que o pesquisador apresenta, expositivamente, os
resultados a que chegou.

Para Marx, na investigação, o pesquisador parte de perguntas, questões; na


exposição, ele já parte dos resultados que obteve na investigação. Marx se
deteve pouco a expor questões relacionadas a método.

: a orientação essencial do pensamento de Marx era de natureza


ontológica e não epistemológica (Lukács, 1979): por isso, o seu
interesse não incidia sobre um abstrato "como conhecer", mas sobre
"como conhecer um objeto real e determinado" - Lenin aliás, sustentava,
em 1920, que o espírito do legado de Marx consistia na "análise
concreta de uma situação concreta". O mesmo Lenin, uns poucos anos
antes, já compreendera que a Marx não interessava elaborar uma
ciência da lógica (como o fizera Hegel): importava-lhe a lógica de um
objeto determinado - descobrir esta lógica consiste em reproduzir
idealmente (teoricamente) a estrutura e a dinâmica deste objeto; é
lapidar a conclusão lenineana: "[...] Marx não deixou uma Lógica, deixou
a lógica d'O capital" (Lenin, 1989, p. 284).

As formulações teórico-metodológicas

A partir das reflexões materialistas, influenciadas por Feuerbach, Marx e


Engels começam a se contrapor e criticar a filosofia do direito de Hegel.
Começam então a se deslocar da filosofia para a economia política. Seu
interesse de estudo está nos pressupostos reais, em indivíduos reais e sua
ação. Seu processo, no materialismo, deixa a filosofia como arcabouço para a
interpretação de fenômenos reais.

Extraída da análise da realidade histórica e expressamente materialista,


é esta determinação das relações entre o ser e a consciência dos
homens em sociedade que permitirá a Marx avançar, na segunda
metade dos anos 1840, na sua análise da sociedade burguesa. Mas ela
se insere na concepção que Marx e Engels já alcançaram neste período
acerca da história, da sociedade e da cultura e que será desenvolvida e
aprofundada nos anos seguintes. Para ambos, o ser social e a
sociabilidade resulta elementarmente do trabalho, que constituirá o
modelo da práxis - é um processo, movimento que se dinamiza por
contradições, cuja superação o conduz a patamares de crescente
complexidade, nos quais novas contradições impulsionam a outras
superações

Marx parte então para analisar os meios de produção da sociedade burguesa,


a mais avançada e diferenciada na produção, segundo seus estudos. Para ele,
o procedimento fundante é a análise do modo pelo qual nele se produz a
riqueza material.

Como bom materialista, Marx distingue claramente o que é da ordem da


realidade, do objeto, do que é da ordem do pensamento (o conhecimento
operado pelo sujeito): começa-se "pelo real e pelo concreto", que
aparecem como dados; pela análise, um e outro elementos são abstraídos
e, progressivamente, com o avanço da análise, chega-se a conceitos, a
abstrações que remetem a determinações as mais simples. Este foi o
caminho ou, se se quiser, o método

De posse dessas determinações mais simples, é necessário voltar a população,


ao real, para a determinação do concreto no objeto de estudo.

A argumentação de Marx é que deve-se explicar o mais simples pelo mais


complexo, ao contrário do que sugere a lógica positivista de que o mais simples
explica o mais complexo. Argumenta que o presente ilumina o passado.

Assim, as condições da gênese histórica não determinam o ulterior


desenvolvimento de uma categoria. Por isso mesmo, o estudo das
categorias deve conjugar a análise diacrônica (da gênese e
desenvolvimento) com a análise sincrônica (sua estrutura e função na
organização atual)

Em uma citação direta de Marx, sumariza-se suas conclusões:

Na produção social da própria vida, os homens contraem relações


determinadas, necessárias e independentes da sua vontade, relações de
produção estas que correspondem a uma etapa determinada de
desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas
relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base
real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política e à qual
correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de
produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social,
político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu
ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência.
Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas
materiais da sociedade entram em contradição com as relações de
produção existentes ou, o que nada mais é do que a sua expressão
jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais aquelas até
então se tinham movido. De formas de desenvolvimento das forças
produtivas essas relações se transformam em seus grilhões. Sobrevém
então uma época de revolução social. Com a transformação da base
econômica, toda a enorme superestrutura se transforma com maior ou
menor rapidez (Marx, 1982, p. 25).
O método de Marx

Não é possível delimitar um método específico para o trabalho de Marx senão a


aproximação e o pensamento das determinações concretas do objeto estudado.

E é nesta conexão que encontramos plenamente articuladas três


categorias de novo: teórico-metodológicas - que nos parecem nuclear a
concepção teórico-metodológica de Marx, tal como esta surge nas elaborações
de e posteriores a 1857 (ainda que lastreadas em sua produção anterior).
Trata-se das categorias de totalidade, de contradição e de mediação (Marcuse,
1969; Lukács, 1970, 1974 e 1979 e Barata-Moura,1977).

Totalidade concreta – A sociedade como um todo integrado, trabalhando em


conjunto, não uma simples soma de partes.

A contradição – Por ser uma totalidade dinâmica, cabe a pesquisa descobrir as


suas formas de organização, que não são inertes, e as maneiras que vão se
modificando através do tempo.

Mediação – Que trata das relações entre os processos.

Articulando estas três categorias nucleares - a totalidade, a contradição e


a mediação -, Marx descobriu a perspectiva metodológica que lhe
propiciou o erguimento do seu edifício teórico. Ao nos oferecer o exaustivo
estudo da "produção burguesa", ele nos legou a base necessária,
indispensável, para a teoria social. Se, em inúmeros passos do conjunto
da sua obra, Marx foi muito além daquele estudo, fornecendo
fundamentais determinações acerca de outras das totalidades
constitutivas da sociedade burguesa, o fato é que sua teoria social
permanece em construção - e, em todos os esforços exitosos operados
nesta construção, o que se constata é a fidelidade à perspectiva
metodológica que acabamos de esboçar.

Considerações da resenha.

Este texto de José Paulo Netto se propõe a tratar o método em Marx e a


ser um texto introdutório. Todavia, falha na simplicidade necessária a um texto
introdutório. A inclinação do autor na admiração à Marx é bastante clara na
medida que, de forma pouco dialética, contrapõe muito pouco o raciocínio
Marxista para em seguida descartar a contraposição de forma ampla e, ao que
pretende aparentar no texto, inquestionável.

O questionamento do trabalho de Marx é amplo, ao ponto até de


descaracterizar a totalidade de seu trabalho, o que me parece absurdo.
Entretanto, o próprio Marx deixa claro, e aparece frequentemente neste texto,
que seu método e sua aproximação, serviam para a análise da sociedade
burguesa daquela época, não cabendo diretamente a análise de uma sociedade
absolutamente diferente como a de hoje, da forma como vemos fartamente na
literatura. Apenas como exemplo básico, os meios de produção tem se tornado
cada vez mais relativos e menos proeminentes, dando lugar a uma evidenciação
maior da informação como mola mestra da valorização.

Fato interessante do texto é a desconstrução da perspectiva de que Marx


ignorava a perspectiva histórica na apresentação de suas análises. O caráter
revolucionário de sua obra, e de suas conclusões, entretanto, o leva a uma
necessidade de negação do passado para que a revolução possa ocorrer.

Uma limitação do pensamento de Marx, e do Materialismo, de forma mais


ampla, é uma incapacidade de lidar com o inconsciente, com o imponderável e,
por vezes, ilógico raciocínio dos seres humanos. É fato que, esta incapacidade,
e a não atualização de suas teorias, impedem hoje uma apreciação e uma
continuidade mais ampla das análises e da modificação das conclusões de Marx
e o aprimoramento de suas propostas para a sociedade.

Apesar do Pós Modernismo ter construído em nosso arcabouço a


possibilidade de lidar melhor com as preexistências e com as individualidades,
ainda temos dificuldades em estruturas novas possibilidades para a organização
de nossos métodos de produção e de constituição da vida no campo mais amplo
da cultura.

O raciocínio de Marx estava intrinsicamente ligado às necessidades


básicas da população, e ainda que no texto apareça uma crítica de Lukács direta
a Durkheim e Weber, - não foram capazes de elaborar uma teoria social apta a
dar conta da articulação entre relações sociais e vida econômica – me parece
que tampouco Marx foi capaz de fazê-lo de forma clara e aplicável, haja visto os
pobres exemplos de aplicação de suas teorias através da história em
experiências socialistas do século passado.