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Centro Universitário Ruy Barbosa | Wyden

Anny Hellen Marques Neves

Relatório final de experiência de estágio em psicologia escolar

Trabalho apresentado ao curso de graduação em


Psicologia, Centro Universitário UniRuy – Wyden e
à escola Dorilândia, como requisito obrigatório para
a conclusão do programa de estágio em 2019.2

Salvador 2019
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
1.1 Dados da instituição
1.2 Projeto do estágio
1.3 Metodologia
2. OBJETIVOS
2.1 Objetivos gerais
2.2 Objetivos específicos
3. REFERENCIAL TEÓRICO
4. ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELO ESTAGIÁRIO
5. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DAS ATIVIDADES
5.1 Acompanhamento terapêutico
5.2 Auxiliar pedagógico
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
7. REFERÊNCIAS
8. ANEXOS
INTRODUÇÃO

Como decorrência das configurações da sociedade contemporânea, as


escolas brasileiras têm encarado o desafio de lidar com a grande
diversidade de realidades e demandas presentes na sala de aula. Com
isto, vem sendo cada vez mais necessária a introdução do psicólogo no
âmbito escolar, não só como profissional da saúde mental, mas também
como agente de construção do saber agregando valores ao saber
pedagógico. (PATIAS, 2014)
Devido a esta necessidade, está cada vez mais comum a presença de
psicólogos nas instituições de educação, além dos programas de estágio
oferecidos para os alunos em formação na área. Aos poucos, a psicologia
escolar vem ganhando espaço, sendo aprovado no dia 27 de novembro
de 2019 no Congresso brasileiro, vetando o voto presidencial, o projeto
de lei que garante atendimento por profissionais de psicologia e serviço
social aos estudantes da escolas públicas de educação básica.
Com isso, o seguinte estudo diz respeito ao relato de experiência do
estágio básico em Psicologia escolar, realizado na Escola Dorilândia,
localizada na cidade de Salvador-BA. De antemão, a realização de um
estágio deste nível possibilitou, não somente a vivência da prática do
psicólogo escolar, mas também um maior aprofundamento nesta área tão
nova no país.

1.1 Dados da instituição


Para uma melhor compreensão das vivências apresentadas, se faz
necessária uma contextualização acerca do espaço, valores e
metodologia da escola. Iniciando as atividades em março de 2019, na
Escola Dorilândia, situada em Salvador-BA.
A escola foi fundada em 1968 e se dedica à Educação Infantil e Ensino
Fundamental I, recebendo crianças nos primeiros dez anos de vida.
Em sua estrutura possui salas dividas em dois andares, dentre salas
de aula, dança, artes, ensino de idiomas e biblioteca, ficando no térreo
os alunos da educação infantil (1 – 5 anos) e no primeiro andar os
alunos da educação fundamental I (6 – 10 anos).Todas as salas de
aula possuem materiais didáticos como livros literários e jogos lúdicos,
nos quais são trabalhadas capacidades de cada faixa etária.
Atendendo a necessidade da rede de pais da escola, a escola oferece
além do ensino regular um plano integral, no qual o estudante
permanece na escola durante o turno matutino e vespertino, tendo
direito à almoçar na escola ou trazer de sua casa. Para os alunos do
programa integral, durante um turno é aplicada a educação regular, e
no turno oposto é feito o ensino da língua inglesa e acompanhamento
educacional nas atividades curriculares.
Quanto à relação entre o corpo docente e o discente, é possível
perceber que o corpo educacional e auxiliares em geral são muito
queridos pelos alunos, recebendo presentes de aniversário,
lembranças em datas comemorativas, além do reconhecimento
expressado em formas de palavras e gestos de afeto.
Sobre a educação inclusiva, a escola recebe também crianças com
necessidades educativas especiais, tendo alunos diagnosticados
clinicamente com transtornos de aprendizagem, desenvolvimento e
deficiências fisícas. A escola oferece acompanhantes terapêuticos
para dois alunos, ambos com transtorno do espectro autista (TEA),
sendo um deles apresentado neste relatório posteriormente.
O estágio dentro da instituição tem contrato de um ano, tendo início
em março de 2019, no qual até o final do ano letivo escolar se
passaram nove meses, com carga horária de 30 horas semanais de
atuação na escola, com reuniões de supervisão e discussão de caso.
1.2 Projeto de estágio
Visando maior desenvolvimento das crianças, que por sua vez se dá
pelo processo de apropriação de conceitos através das relações com
seus pares e adultos dentro das condições de ensino, a Escola
Dorilândia possui em seu quadro de colaboradores, estagiários da
áreas de psicologia, pedagogia e letras para um auxilio no
desenvolvimento das atividades curriculares, através do
acompanhamento em sala de aula e em intervenções
individualizadas.
Para o formando, a prática numa instituição escolar é extremamente
rica possibilitando uma maior vivência teórico-prática na área, sendo
uma ferramenta necessária para a formação a capacitação do
profissional de psicologia.
1.3 Metodologia
As informações presentes no seguinte relatório são de caráter
qualitativo e foram obtidas a partir da observação diária em sala de
aula e fora dela, juntamente com o corpo docente da escola,
coordenação e psicóloga, além de acompanhamento juntamente à
equipe médica quando necessário. Os dados apresentados foram
anotados em um diário de campo e analisados sob a ótica da
psicanálise.
As atividades referentes ao estágio na escola tiveram início em março
de 2019 com contrato de um ano, finalizando em março de 2019. No
entanto, como o ano letivo da instituição teve fim no dia 02 de
dezembro de 2019 para o ensino fundamental e no dia 03 de
dezembro de 2019 para a educação infantil, retornando apenas em
2020, se faz necessário um relatório descrevendo a vivência do ano
letivo em 2019, mesmo que não tenha chegado ao final do período do
programa.
OBJETIVOS

2.1 Objetivo geral


Auxiliar nas atividades escolares e acompanhar o processo de aprendizagem
de alunos com necessidades educativas especiais, visando uma maior
inclusão deles no grupo social, intervindo entre o pedagógico e o terapêutico.

2.2 Objetivos específicos


1. Acompanhar e mediar as atividades propostas pelo corpo docente para
melhor compreensão dos alunos atípicos.
2. Desenvolver a compreensão grupal acerca das diferenças presentes na
sala de aula através do diálogo e das experiências vivenciadas.
3. Promover o fortalecimento das relações interpessoais no corpo discente.
4. Proporcionar o aproveitamento do potencial terapêutico presente em todo
ato educativo.
5. Desenvolver a auto-estima, a confiança, o respeito e a comunicação entre
os alunos da Educação Infantil e Ensino Fundamental I.
ATIVIDADES DESENVOLVIDAS

As atividades que foram desenvolvidas durante o ano letivo de 2019 da escola


Dorilândia foram:

1. Acompanhamento terapêutico de criança com transtorno do espectro


autista (TEA)

2. Mediação na resolução das atividades propostas pelos professores


com os alunos do integral (crianças que frequentam as aulas em um turno e tem
acompanhamento individualizado no turno oposto).

3. Discussão e revisão de casos juntamente ao corpo docente,


coordenação e serviço de psicologia da escola.

Além das atividades listadas acima, em momentos pontuais houveram


intervenções em sala de aula, sob a supervisão da coordenação da escola. Para
que toda a prática fosse viabilizada, foram realizadas observações do espaço
físico da instituição, da sua política e gestão organizacional. Além disso,
entrevistas com o corpo docente, coordenação e serviço de psicologia foram
primordiais para uma contextualização das necessidades escolares e
expectativas quanto as intervenções apresentadas futuramente.

Os parâmetros norteadores da prática escolar foram os apresentados por Kupfer


in machado e Souza. Entre eles, abrir um espaço para circulação de discursos,
naquelas instituições em que a ausência dessa circulação estiver
comprometendo a realização dos objetivos institucionais; intervir em uma
instituição quando estiver criada a transferência; escutar a demanda escola;
movimentar entre a Pedagogia e a Psicologia; ser ético nas intervenções e
posicionamentos. (KUPFER E SOUZA, 1997)
DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES

8.1 Acompanhamento terapêutico

Após algumas tentativas frustradas de inclusão em sala de aula no ano de 2019,


foi requisitado pela escola a presença de um acompanhante terapêutico para
mediar as atividades realizadas na escola com Pedro, estudante do primeiro ano
do ensino fundamental (antiga alfabetização) com transtorno presente no
espectro autista. Inicialmente, antes de qualquer intervenção, houveram
encontros individuais com a diretoria, coordenação e professores, além de
acessar seu portfólio escolar (documento da escola com as evoluções
acadêmicas de cada aluno) para uma maior contextualização do cenário e das
características particulares da criança.

No documento foi possível ver o desenvolvimento escolar, através de avaliações


periódicas das capacidades lógicas e linguísticas, no qual retrata que Pedro
entrou na escola decodificando palavras simples, escrevendo palavras simples
dentro das possibilidades do seu déficit motor (letras grandes e fora do lugar
proposto) e tendo noções numéricas e de quantidade. Nessas áreas, foram
percebidos progressos, nos quais desenvolveu a habilidade de ler e decodificar
palavras com fonemas complexos, ter mais controle motor em relação a escrita,
diminuindo o tamanho da letra e adequando ao desenho da linha.

Posteriormente, em reuniões com a coordenação e professora do aluno, foi


apresentado o histórico prévio de Pedro, que entrou na escola no ano de 2018
no primeiro ano do ensino fundamental. Foi relatado que num primeiro momento,
do início do ano letivo em fevereiro à julho de 2018, Pedro rejeitava qualquer
tentativa de aproximação com acompanhantes terapêuticas, realizando
atividades em sala de aula somente com o auxílio da professora. Nesse caminho,
foi possível desenvolver a habilidade de leitura de palavras com fonemas
complexos e resolução de problemas lógicos.

Sua professora, Carmen Conceição, relata com vividez o momento em que o


comportamento de Pedro se modificou. Ela conta que em seu aniversário, no dia
31 de julho de 2018, foi o último dia em que Pedro estava inserido na turma.
Anteriormente à essa data, Pedro fazia questão de estar na presença dos
colegas de sala, obedecia aos combinados feitos com sua professora, e
transitava com facilidade pelas demais áreas da escola, como o parque, pátio,
cantina, entre outros. No dia do aniversário os alunos fizeram uma festa em sala
de aula para a professora, e Pedro também participou, sem oferecer dano a si
nem a terceiros.

A partir desde momento, que coincidiu com uma troca de medicação feita pelo
antigo psiquiatra que o acompanhava, houve uma deterioração comportamental,
rejeitando a sala de aula, se limitando a permanecer na biblioteca, negando
atividades propostas e apresentando comportamentos agressivos em relação às
pessoas ao seu redor e às instalações da escola, num movimento de derrubar
tudo ao chão.

Neste movimento de tentar entender a mudança comportamental de Pedro,


juntamente com a família equipe médica que o acompanha (psiquiatra,
fonoaudióloga, psicóloga e terapeuta ocupacional.) a escola terminou o ano
letivo de 2018, e, embora Pedro tivesse desenvolvido às habilidades requisitadas
para o ingresso na turma seguinte, foi acordado que seria melhor para o aluno
se ele permanecesse na mesma sala com a mesma professora no ano seguinte,
sob a hipótese de que ir para um outro ambiente no estado em que ele se
encontrava poderia desorganizar ainda mais o garoto.

Desta forma, Pedro iniciou novamente o primeiro ano do ensino fundamental


acompanhado de sua professora e desta vez uma acompanhante terapêutica, a
pedido da escola com o objetivo inicial de retirá-lo da biblioteca e inseri-lo
novamente na sala de aula e no convívio social com outras crianças.

Após essa conversa prévia e ao início do ano letivo para o garoto, aconteceu o
primeiro contato com o garoto, mediado por sua professora. Na biblioteca, lhe foi
apresentado que este ano teria uma amiga da “pró” ajudando em sala de aula,
e, contrariando as expectativas, Pedro não apresentou nenhum comportamento
que pudesse ser compreendido como rejeição à nova integrante da equipe. Logo
nos primeiros dias, Pedro compreendeu que a função da acompanhante
terapêutica era ajudá-lo nas atividades em geral e não se opôs.

Na primeira semana, o foco principal de intervenção era o estabelecimento de


uma relação de confiança e a avaliação de suas habilidades cognitivas por meio
de jogos e atividades lúdicas na biblioteca. Pôde-se observar uma fragilidade
nas funções executivas, além da relação com transtorno estrutural de linguagem,
tendo dificuldade de construir frases gramaticais corretas. Ficou notável também
a presença de comportamentos estereotipados, como o balançar das mãos, grito
de frases inteligíveis porém com a mesma estrutura fonética, além da
hiperatividade expressada por meio da incapacidade de permanecer sentado
durante muito tempo, levantando e sentando repetidamente.

Após estabelecer um vínculo de confiança com Pedro, foi discutido com a


supervisora e psicóloga Ana Verena as possibilidades de mudar o foco da
criança da biblioteca na tentativa de inseri-lo em sala de aula. Foi acordado
então, que no dia seguinte a biblioteca permaneceria trancada e seria informado
ao garoto o acontecido e tentar leva-lo para a sala de aula.

Ao encontrar a biblioteca fechada, o garoto se desequilibrou apresentando


comportamentos agitados e agressivos, mas após se acalmar, aceitou entrar na
sala de aula, sendo apresentado que ali era a sua sala por meio da apresentação
da sua mesa, lugar onde colocar a mochila, livros e jogos para ele, entre outros
materiais da sala de aula. Nos dias seguintes, Pedro ainda relutava à sala e ia
diretamente para a biblioteca, mas ao encontrar trancada passou a se dirigir a
sala de aula, até o momento em que esqueceu a biblioteca e entrava na escola
indo diretamente para a sala de aula.

Anteriormente ao retorno de Pedro a sala de aula, vale ressaltar o trabalho


psicopedagógico realizado com as crianças que seriam seus novos colegas de
classe, através da conscientização sobre as diferenças na sala de aula,
explicando porque Pedro era diferente, traduzindo as características do autismo
para uma linguagem que fosse compreendida pelos alunos. Após este trabalho,
que contou com o apoio da professora, da acompanhante terapêutica e dos
antigos colegas de classe de Pedro, que explicaram aos novos alunos como a
turma antiga acolhia e respeitava as particularidades de Pedro.

Por conta disso, antes que fosse feita a retirada de Pedro da biblioteca, seus
novos colegas estavam ansiosos por conhece-lo, perguntando quando Pedro iria
retornar para a sala de aula. Tudo isso era explicado a Pedro, para que soubesse
que embora a sala fosse a mesma, os colegas seriam outros mas que estavam
tão ansiosos para conhece-los quanto seus antigos colegas.
As aulas para o ensino regular tem início às 13:10h terminando às 17:30h, no
entanto, atendendo as necessidades educativas especiais de Pedro, sua aula
tinha início 13:30h, finalizando às 16:30h. Logo, sempre que Pedro chegava em
sala de aula todos os seus colegas já estavam acomodados em suas cadeiras,
mas ao vê-lo, sempre havia um movimento da turma de levantar e ir ao seu
encontro abraça-lo e beijá-lo no rosto. Este foi um movimento natural da turma,
iniciado por alunos individualmente e sendo seguido pelo grupo, mas que foi
incentivado para que fosse um movimento diário, sendo permitido pela
professora levantar durante a aula somente nos casos de ida ao banheiro ou
para recepcionar a chegada de Pedro.

Nos primeiros dias, Pedro estranhou o movimento da turma, indo diretamente


para a o canto da sala onde todos os alunos guardam suas mochilas em uma
fila, inclusive ele. Verbalmente, pedia que se afastassem, por meio de ordem
direta (“sai pra lá, sai pra lá!”), que era então traduzida, enquanto sua
acompanhante terapêutica, para a turma, agradecendo o carinho da turma e
explicando que a informação estava sendo muita e que esse era o seu jeito de
pedir que fossem sentar. Sem muita oposição, a turma entendia e retornava aos
seus lugares, voltando a falar com ele individualmente depois que ele pegasse
seu material escolar e se acomodasse eu sua mesa. Pouco a pouco, Pedro foi
ficando mais tolerante à recepção da turma, dando cada vez mais abraços até
retribuir a todos da turma e aceitar abraços grupais.

A partir daí, a rotina de Pedro foi se estabelecendo dia após dia, se estruturando
da seguinte forma: recepcionado na entrada da escola e seguindo acompanhado
até a sala de aula, onde guardava sua mochila e se direcionava à sua mesa,
sentando todos os dias no mesmo lugar, após algum tempo, saía da sala e
transitava pela escola, ora correndo no parque ora pelos corredores derrubando
algo no chão. Na hora do lanche, lanchava com os colegas e retornava para a
sala de aula, alguns colegas retornavam a sala após o lanche para convidá-lo
para irem brincar no parque, mas poucas vezes Pedro demonstrou algum
interesse. Por meio da relação transferencial, se foi possível assumir uma
presença ativa, interpretando e traduzindo as linguagens da criança e da escola.

Nos momentos em sala de aula, eram utilizados jogos educativos e livros como
instrumentos que o fizessem permanecer cada vez mais tempo sentado
interessado pelos recursos do lugar. No entanto, embora colaborasse com as
atividades propostas, apresentava comportamento hiperativo, levantando
repentinamente e saindo a correr pela escola, por vezes desencadeando um
comportamento heteroagressivo quando lhe era informado que tal
comportamento estava sendo inadequado. Este comportamento foi sinalizando
que seu plano de intervenção deveria focar no ensino de normas sociais
necessárias para a vivência dentro de uma instituição escolar.

Com isso, continuou o incentivo à permanência em sala de aula, e em paralelo


intervenções que visassem ensiná-lo os combinados e regras da escola, porém
sem muito êxito por conta da presença de comportamentos disruptivos e
desafiadores.

Diante desta preocupação, houve uma reunião entre a coordenação da escola e


a mãe do aluno, solicitando um contato com o psiquiatra responsável por
acompanha-lo. A mãe concordou e passou as informações sobre quando seria
o retorno para um feedback da família em relação à medicação utilizada. A
escola se propôs para acompanhar na consulta, para acrescentar informações e
o ponto de vista da escola. A mãe concordou e passou as informações
necessárias para o acompanhamento.

No dia 13 de junho, houve a consulta marcada com Dr. Saulo, psiquiatra


responsável por seu acompanhamento clinico. Estava presente Pedro, sua mãe,
Carmen (professora), Bia (coordenadora) e Anny (Acompanhante terapêutica).
Na consulta foi apresentado o desenvolvimento de Pedro, dentre suas
potencialidades e pontos a serem trabalhados. Após a discussão do caso, Saulo
informou para a escola que o caso de Pedro necessitava urgentemente da
intervenção medicamentosa, que o retorno das habilidades sociais perdidas em
2018 dependeria do equilíbrio químico do cérebro da criança, para então haver
resposta para as intervenções psicopedagógicas.

Foi explicado que o acontecido com Pedro não é um caso isolado dentro do
espectro autista, que essa deterioração pode acontecer nos primeiros anos de
vida ou na adolescência, e que poderia estar relacionado ao aparecimento dos
desafios da alfabetização. Após diálogo com o profissional, foi estabelecido um
aumento na dosagem da medicação utilizada até então, Aristab, com o objetivo
de aumentar a capacidade do aluno em manter a atenção concentrada por
períodos maiores de tempo.

Devido às reações da mudança na posologia da medicação em Pedro, foi


acordado entre a família e a escola que o aluno ficaria em casa durante o período
de adaptação. Por conta disso, só foi possível observar mudanças
comportamentais no retorno à escola após o recesso de são joão, concedido à
todos os estudantes de maneira geral e que veio a coincidir com o período de
adaptação de Pedro.

Na volta às aulas, pôde-se perceber que Pedro se encontrava mais melancólico,


chorando e clamando pela presença da mãe, atitude que antes não existia e que
foi inicialmente associada pelo corpo docente ao fim das férias juninas, uma vez
que o recesso durou cerca de 15 dias. Entretanto, como o comportamento não
apresentou mudanças com o decorrer das semanas, então o corpo docente
investigou juntamente à família a possível causa de tamanha saudade,
chegando a explicação de que, por conta do trabalho, o garoto passa o dia todo
com o pai, vendo a mãe apenas a noite, e que nas últimas semanas ela teria
trabalhado durante o final de semana, deixando o menino com o pai.

Essa questão, embora diga respeito de forma direta à rotina do aluno em casa
com sua família, é ressaltada pelo corpo docente e por sua acompanhante pois,
ao chegar na escola instável emocionalmente, traz reflexos para a sua vida
escolar, impossibilitando a realização de atividades em sala de aula uma vez que
qualquer dificuldade presente no processo de aprendizagem acaba agindo
enquanto catalizador para comportamentos heteroagressivos, batendo e
mordendo aqueles que estão ao seu redor (sua acompanhante, professora,
coordenadora e psicóloga da escola, por muitas vezes).

No retorno das férias juninas, sua rotina foi marcada por uma chegada à escola
agitada com recusa em entrar em sala de aula, seguida de comportamentos
heteroagressivos, dormindo logo após por cerca de 20 a 30 minutos, e
acordando mais calmo e disposto à realização das atividades escolares. Em
relação ao comportamento de Pedro dentro da sala de aula, é possível perceber
alguns progressos no que diz respeito a socialização do aluno com seus pares
e maior participação nas atividades escolares, no entanto, ao perder o interesse,
Pedro rapidamente se levanta e começa com o movimento de jogar todos os
objetos que estão em sua frente no chão. Este comportamento está presente
desde o início do ano letivo, no entanto, pôde-se perceber uma mudança na
reação do aluno: antes ele rapidamente se movimentava para colocar tudo de
volta, agora Pedro olha para a situação e tem crises de riso, como se a situação
lhe trouxesse algum prazer, além de apresentar resistência para arrumar de
volta.

Numa tentativa de fazer sua chegada na escola mais tranquila, passou a ser
permitido que Pedro ficasse um pouco na coordenação vendo desenhos no
computador antes que entrasse em sala de aula. Nestes momentos, era possível
ver a habilidade dele com o computador, realizando todos os processos
necessários para ver o desenho com facilidade. Evitando que acontecesse o
mesmo na coordenação que aconteceu com a biblioteca, a coordenadora
informava a Pedro após um certo tempo que precisaria trabalhar e, portanto, ele
deveria retornar a sala de aula. Por sua vez, Pedro relutava à ordem ficando
mais agitado, mas após se acalmar ia direto para a sala de aula.

Em relação ao segundo semestre, Pedro já tinha alguns livros favoritos na


estante da sala, no qual sempre pegava e colocava em sua mesa, mesmo que
não fosse ler e ficasse apenas encarando a sua capa, entre eles estão os livros
infantis “Nino, o menino de Saturno” e “Oswaaaaaaaldo”. Por vezes eles foram
instrumentos para que Pedro quisesse ir para a sala, lhe contando que Nino e
Oswaldo estavam na sala esperando, logo ele se direcionava a sala indo
diretamente na estante pegar os livros e sentar em sua mesa.

Além disso, alguns professores da turma foram estabelecendo um vínculo com


o aluno, como Zitto, professor de educação física e Silvia, professora de inglês.
Aos poucos foram conquistando o interesse do aluno através de recursos lúdicos
em suas aulas, como músicas e brincadeiras. Ambos professores davam aula
logo após o lanche, momento em que Pedro se encontra menos agitado e mais
participativo.

Ao decorrer do semestre foi possível perceber uma melhora na capacidade de


aquisição de conceitos, sendo necessárias poucas repetições uma vez que
Pedro estivesse interessado. Por outro lado, a hiperatividade e comportamentos
agressivos estavam se acentuando, dificultando o manejo em sala de aula, a fim
de preservar a imagem que os colegas de sala tem dele. Por vezes derrubou as
estantes de livros e brinquedos da sala e seus colegas ajudaram a arrumar.
Depois passou a pegar as garrafas de água dos demais e derrubar a água no
chão. Sempre que contrariado, se comportava de maneira agressiva batendo
nos adultos ao seu redor, batendo em seus colegas em momentos pontuais
também.

Em paralelo, a frequência das ecolalias aumentava, repetindo frases que


provavelmente ouviu em outros contextos, como nomes de programas de
televisão, filmes, e frases desconexas com o ambiente escolar. Numa tentativa
de incentivar o desenvolvimento da linguagem, era entendido que havia uma
mensagem a ser comunicada, e devolvendo a frase como pergunta, convocava
a expressar o que desejava. Desta forma, Pedro passou gradativamente a
expressar seus desejos através da verbalização de frases gramaticais simples
em dias que estava menos agitado e com maior concentração.

O período de setembro a novembro de 2019 foi marcado por alternâncias e


instabilidades comportamentais. Dificultou manter um plano de intervenção
prévio pois cada a cada dia Pedro chegava de uma forma, numa mesma
situação, em um dia era possível ver Pedro se posicionando verbalmente, em
outro partindo diretamente para comportamentos agressivos sem verbalizar, se
expressando por gritos. O mesmo se aplicou ao humor, em um dia poderia
aparecer mais sorridente e participativo e no dia seguinte chorando e gritando.

Devido à intensificação da oscilação comportamental, novamente foi


estabelecido contato entre a escola e a familia por meio de reuniões presenciais
e conversas por telefone, a fim de explicar tudo que vinha acontecendo no
contexto escolar e investigando se havia alguma relação com o comportamento
dele em casa. Foi informado que houve uma mudança na posologia da
medicação usada, e que havia sido introduzida uma nova medicação, desta vez
para ansiedade, a fim de sanar os sintomas da hiperatividade.

Após o contato, foi passado pela familia a data do retorno de Pedro ao psiquiatra,
para que a professora e a acompanhante terapêutica pudesse acompanha-los
mais uma vez e dar o feedback da escola. No dia da consulta, foi relatado ao
médico todo o caminho escolar de Pedro, dentre os progressos no
desenvolvimento e preocupações da escola. A partir desta conversa, o médico
ressaltou novamente a necessidade de estruturação psíquica do aluno, para que
aja uma constituição do sujeito, e a partir daí seja possível maior eficácia das
intervenções psicopedagógicas.

Foi estabelecido pelos envolvidos então um período que Pedro deveria ficar em
casa para que fosse observado pela família os efeitos da nova posologia. Além
disso, foi entregue um relatório a escola informando todo o acompanhamento
psiquiátrico de Pedro no ano de 2019.

No dia de seu retorno a escola para finalização do ano letivo, pôde-se perceber
uma dificuldade em controle de intensidade, falando num tom de voz mais alto
do que o usual, pisando com mais força ao andar do que anteriormente, e a
incapacidade de permanecer na mesma posição por um período estendido de
tempo. Pedro foi então recebido pelos colegas, mas não quis ficar muito tempo
em sala de aula, transitando pelos ambientes da escola e permanecendo mais
na sala da coordenação.

Com isso, ao final do ano letivo, se faz necessária um novo contato com a familia,
a fim de alinhar as expectativas e objetivos para que seja feita um novo plano de
intervenção para o ano de 2020.

4.2 Auxílio psicopedagógico em sala de aula


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do contato com Pedro no ano letivo de 2019, a inconstância


comportamental do aluno mostra para o corpo docente a necessidade e
importância de uma abordagem multi e interdisciplinar integrada, uma vez que
alguns pontos ressaltados não dependam exclusivamente da utilização do
psicofármaco e possam ser trabalhados paralelamente com outras abordagens,
como a psicoterapia ou a terapia ocupacional. Por outro lado, se ressalta a
importância do uso de psicofármacos na vida de Pedro, uma vez que algumas
mudanças comportamentais só se fazem possíveis com mudanças químicas no
cérebro do garoto.
REFERENCIAS

Barros, J. F., & Brandão, D. B. S. R. (2011). Acompanhamento terapêutico:


(re)pensando a inclusão escolar. In X Congresso Nacional de Psicologia Escolar
e Educacional. Maringá, PR. Recuperado
de http://www.abrapee.psc.br/xconpe/trabalhos/1/39.pdf

Declaração de Salamanca (1994). In Conferência Mundial sobre Necessidades


Educativas Especiais. Salamanca/Espanha: UNESCO. Recuperado
de http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/salamanca.pdf

Fráguas, V. (2004). Acompanhamento terapêutico com crianças: sobre a função


terapêutica da construção do laço social. Revista Pediatria Moderna/Psicologia
em Pediatria, 40(3), 120-124. Recuperado
de http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?id_materia=2621&fase=imprime

Fráguas, V., & Berlinck, M. T. (2001). Entre o pedagógico e o terapêutico:


algumas questões sobre o acompanhamento terapêutico dentro da
escola. Estilos da Clínica, 6(11), 7-16. DOI: http://dx.doi.org/10.11606/issn.1981-
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ANEXOS