Você está na página 1de 19

1

SEMINÁRIO CONCÓRDIA - FACULDADE DE TEOLOGIA

O PASTOR VISITANDO ENFERMOS

JACKSON LUIS KNIES

Teologia Pastoral

São Leopoldo, novembro de 1998


2

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO................................................................3
1. A BÍBLIA E A DOENÇA....................................................4
1.1 A Doença Faz Parte da Vida..........................................5
1.2 Doença Pecado e Fé Não São Coisas Necessariamente Relacionadas......5
2 PROBLEMAS RELACIONADOS A DOENÇA.........................................7
2.1 A Influência da Dor.................................................7
2.2 Sentimento de Desesperança..........................................8
2.3 A Experiência da Emoção............................................9
2.4 A Presença de Reações na Família....................................9
3 CONFORTO ATRAVÉS DO ACONSELHAMENTO.....................................11
3.1 Através da Atenção do Pastor.......................................11
3.2 Pela Escritura Sagrada.............................................12
3.3 Pela Oração........................................................15
3.3.1 Orar: O que é isto?............................................15
3.3.2 Orar a Partir da Realidade do Paciente.........................16
CONCLUSÃO................................................................17
Bibliografia.............................................................19
3

INTRODUÇÃO

O assunto aconselhamento pastoral a enfermos

despertou meu interesse, porque na minha prática pastoral

estou enfrentando esta situação com alguns vovôs e vovós do

Lar Ebenézer.

Necessitando conhecer mais a respeito de como tratar

com alguém que sofre enfermidade, os problemas e pensamentos

que envolvem o paciente e os métodos para levar Cristo a estas

pessoas, fiz uma pesquisa não muito profunda, mas clara e

precisa quanto o que diz a Bíblia sobre a doença, os problemas

relacionados a ela e o conforto que o pastor poderá levar aos

enfermos através do aconselhamento.

Por isso será muito importante para aqueles que

queiram entender melhor a origem da doença, seus problemas, a

maneira que o cristão age e a única solução, para tal

situação, tomar alguns minutos de seu precioso tempo e ler

esta pequena monografia.


4

1. A BÍBLIA E A DOENÇA

A doença é uma questão que as Escrituras mencionam

muitas vezes. A doença de Miriã, Naamã, Nabucodonosor, Jó e

vários outros personagem do Antigo Testamento e do Novo

Testamento são relatadas.

Um exemplo disto é o interesse de Jesus pelos

doentes. Praticamente um quinto dos Evangelhos é dedicado ao

tema da cura. As suas curas e milagres são provas de que um

bom pastor deve cuidar de suas ovelhas e as direcionar para o

caminho que traz vida e salvação , no caso, o próprio Jesus. É

interessante notarmos que Jesus, ao curar as pessoas fazia uma

relação com a fé pessoal e o perdão de pecados. Ele dizia:

“Faça-se conforme a vossa fé(Mt 9. 29) e “estão perdoados

todos os teus pecados... levanta-te e anda(Mt 9.1-8).

Isto quer dizer que para receber o perdão e ser

verdadeiramente curado da doença que acompanha o homem desde a

queda, é de suma importância a confiança de coração no que


5

Cristo nos oferece gratuitamente através de sua obra

redentora. Isto é, perdão dos pecados, vida e salvação eterna.

1.1 A Doença Faz Parte da Vida

Acredito que nenhuma pessoa possa viver desde seu

nascimento até a sua morte sem portar nenhuma doença. Aqui

também incluímos uma gripe, um mal estar, dor de cabeça ou dor

de dente. Desde a queda em pecado, onde o homem perdeu a

imagem de Deus, corrompeu a sua perfeição com a desobediência,

a doença se torna parte de sua vida. Inata, como conseqüência

do pecado, acompanha o homem desde os primórdios até os dias

presentes.

A Bíblia não se atém em citar sistematicamente os

sintomas da doença física ou mental. Entretanto, menciona

diretamente o alcoolismo, cegueira, febre, surdez, mudez,

insanidade, lepra, impedimento da fala, etc. Provando

claramente que a doença faz parte deste mundo e da nossa vida.

1.2 Doença Pecado e Fé Não São Coisas Necessariamente Relacionadas

Quando Jó perdeu sua família, bens e saúde, seus

amigos Bildade, Zofar e Elifaz tentavam consolá-lo mas

ineficazmente, argumentando que todos estes problemas eram

resultados do pecado( Jó 3.8). Jó, homem reto diante dos olhos

de Deus descobriu que a doença nem sempre resulta do pecado do


6

indivíduo - cuja verdade Jesus ensinou claramente em João 9.

Entretanto, utilizando o exemplo da infidelidade no casamento,

a doença que um homem poderia receber como causa de seu

pecado, seria o vírus da AIDS, na pior das hipóteses. Ainda

que, uma outra doença menos séria, não esteja fora de

cogitação.

Em análise final, toda doença tem origem, na queda da

humanidade em pecado. Entretanto, os casos individuais de

doença não são necessariamente resultantes dos pecados da

pessoa doente.

A Bíblia não apoia os cristãos que afirmam que os

doentes estão fora da vontade de Deus ou lhes falta fé. Deus

jamais prometeu curar todas as nossas moléstias nesta vida e é

pernicioso ensinar que a saúde instantânea sempre virá para

aqueles cuja fé é forte.


7

2 PROBLEMAS RELACIONADOS A DOENÇA

A doença envolve muito mais do que mau funcionamento

físico, ela está associada a uma grande variedade de reações

psicológicas e espirituais que preocupam tanto aos médicos

como aos pastores e conselheiros leigos. Muitas destas

influências psicológicas e espirituais agravam a moléstia

física e atrasam ou impedem a recuperação do paciente.

2.1 A Influência da Dor

Existem grandes diferenças individuais na maneira

como as pessoas são afetadas pela dor como reagem a ela e a

intensidade e duração da mesma. A dor intensa e breve - como a

experimentada na cadeira do dentista - é diferente daquela que

atormenta e nunca se afasta do paciente com câncer. A dor que

sabemos ser de curta duração - como um dor de cabeça - é

tratada de modo diferente daquela duradoura ou não

diagnosticada.
8

2.2 Sentimento de Desesperança

A doença interrompe as nossas rotinas. Muitas vezes

não compreendemos o que está errado em nossos corpos e temos

medo porque não sabemos quando vamos sarar. Se estamos muito

doente é necessário que sejamos atendidos por outras pessoas,

as quais parecem muitas vezes mais indiferentes ou científicos

do que compassivos e sensíveis conosco.

Os hospitalizados tendem a sofrer sete categorias de

tensão psicológica. As pessoas ficam com medo de estranhos,

ansiosos devido a separação dos amigos e da rotina, possuem

também o medo de perder o amor ou a aprovação de nossos

familiares ou amigos. Também possuem o medo de perder o

controle sobre o seu próprio corpo, em suas funções

biológicas. Outra é o medo de expor e perder partes do corpo

devido a gravidade da doença. A culpa e o medo do castigo

ocorre quando a doença, especialmente acidentes, levam muitas

vezes a pessoas a pensar que seu sofrimento possa ser um

castigo por pecados ou faltas cometidas no passado.

Apesar dessas tensões serem comuns, existem

diferenças no modo das pessoas reagirem. Algumas sentem-se

deprimidas, culpadas, auto acusadoras, embaraçadas ou

desanimadas. Outras ficam zangadas e críticas, especialmente,

com relação aos médicos. Mas também existem aquelas que

procuram encarar do melhor modo possível a situação e, como

resultado, quase sempre se recuperam mais depressa.


9

2.3 A Experiência da Emoção

Algumas emoções são as características predominantes

no paciente enfermo. Dentro delas se destaca o medo da dor, a

possibilidade de haver complicações físicas. Tornando-se uma

pessoas indefesa, isolada, sem futuro certo. Sem a esperança

de recuperação, esperando a hora da morte.

Para estas pessoas sem esperança é muito fácil irara-

se consigo mesma, em relação a doença, aos médicos, familiares

e inclusivamente a Deus.

Muitas vezes pode ocorrer um sentimento de culpa,

quanto a doença e seu passado. Alguém que adorava tomar

chimarrão muito quente contrai um câncer, por exemplo,

colocará a culpa nele porque nunca fez nada para evitar o

pior.

Tudo isto pode se transformar numa depressão, que

algumas vezes leva ao suicídio ou a perda da vontade de

recuperar-se.

2.4 A Presença de Reações na Família.

Quando a pessoa fica doente, sua família é afetada e

ao perceber isto o paciente se perturba. As mudanças na rotina

familiar devido a uma doença, problemas financeiros,


10

dificuldades em organizar as visitas no hospital, e outros

fatores podem causar tensão que ocasionalmente resulta em

fadiga, irritabilidade e preocupação. Numa tentativa de se

animarem mutuamente e evitarem a preocupação, o paciente e a

família algumas vezes se recusam a discutir seus verdadeiros

temores ou sentimentos uns com os outros e, como resultado,

cada um sofre sozinho, temendo o pior mas fazendo de conta que

“ tudo vai bem a recuperação não tarda” .1

COLLINS R. Gary ACONSELHAMENTO CRISTÃO. São Paulo : Vida Nova. p329-342.


1
11

3 CONFORTO ATRAVÉS DO ACONSELHAMENTO

3.1 Através da Atenção do Pastor

Tem o pastor luterano uma boa razão para visitar pessoas

doentes? Afinal de contas o atendimento nos hospitais está

melhorando. Os médicos são mais cuidadosos. As enfermeiras

fazem tudo pelo doente. Quem tem oportunidade de pagar um

hospital particular tem acesso a televisão, bons livros, a

família sempre estará presente com tais pessoas. Há algum

motivo mais forte para que o pastor se faça presente num

momento em que a saúde de alguém entra em declínio?

Sabemos que a presença do pastor nesta hora é muito

própria. Visto que, especialmente quando o doente é da igreja,

o pastor é um representante de Deus na terra. E também alguém

que como Deus, se importa com suas ovelhas e com todas que

precisam entrar para o rebanho de Jesus. O Pastor é uma pessoa

que pode trazer o real conforto para um doente. As pessoas, de

uma forma ou de outra são mais abertas para tratar de assuntos

delicados com alguém que conhecem e muito prestigiam. Estão


12

atentos para receber o conforto que só é possível quando

apresentarmos a obra redentora do médico dos médicos. O único

que pode livrar a pessoa da maior doença deste mundo, a saber,

o pecado e a morte eterna. Cristo, só Ele pode trazer conforto

para corações abatidos, preocupados com a morte. Sim, nestes

momentos em que o paciente sente que a morte se aproxima, com

uma capa preta e uma foice empunhada para cortar-lhe o último

suspiro de vida, sem a esperança da vida eterna, certamente a

morte e o que acontecerá com ele depois desta vida, será seu

maior motivo de preocupação.

Neste sentido, o Brasil sendo uma cultura cristã, mesmo

sendo sincretista em alguns aspectos, promove uma certa

facilidade para tratarmos do conceito bíblico de vida depois

da morte. O povo em geral acredita que a morte não é o fim de

tudo. Muitos não sabem o que fazer com este conceito, por isso

é muito importante que o pastor leve mais e com maior vigor a

esperança em Cristo, o caminho a verdade e a vida.

No entanto, é importante que o pastor seja responsável

pela instrução de pessoas, as quais também podem crescer nesta

certeza da vida eterna e levar este conhecimento, esta

confiança de coração para seus amigos, familiares, vizinhos

etc.
13

3.2 Pela Escritura Sagrada

Numa visita informal, temos que saber utilizar bem o

nosso tempo para não prejudicar a nossa comunicação com o

paciente. A tabela que está em anexo mostra alguns cuidados

necessários.2

Muitos podem dizer que gastarão mais tempo observando

as regras do que levando a mensagem de Cristo para as pessoas.

Com a prática certamente saberemos como agir e quanto

tempo conversar com o enfermo. Um exemplo disto é o trabalho

que venho desenvolvendo no Lar Ebenézer, no município de

Gravatai. Algumas pessoas querem que eu fique mais tempo com

elas e outras, ao se desinteressarem pelo assunto, tentam

falar sobre outras coisas.

Quero ressaltar com isto que há tempo para falar de

muitas coisas, mas no caso de uma visita pastoral é de suma

importância que a primeira coisa a ser falada é a respeito de

Jesus e da vida eterna, enquanto o enfermo está aberto para

nos ouvir.

Existem pessoas que nos surpreendem pela

receptividade e a vontade de quererem saber mais de Cristo e

da própria palavra de Deus em si. Ao visitar um senhor que

sofre de escoriações nas duas pernas, portanto,

impossibilitado de caminhar, fico surpreso quando ao dizer que

sou estudante de teologia, ele pega a sua bíblia e faz algumas

COLLINS R. Gary ACONSELHAMENTO CRISTÃO. São Paulo : Vida Nova. p 336.


2
14

perguntas para mim. Tais como, quem é o único que nos pode

livrar da morte eterna, ou diga-me se as palavras do credo

apostólico são verdadeiras. Sendo um senhor luterano, queria

me testar se verdadeiramente eu confessava a mesma fé que ele.

Só a partir deste “ quebra gelo”, feito pelo enfermo, tive

acesso ao seu ouvido e ao seu coração, para levar-lhe

Cristo.

Então, ele pediu-me para ler o Salmo 23, enquanto

lia, aquele senhor chorava e dizia: “ Obrigado Senhor porque

me livraste da morte, nada poderá faltar para mim neste

mundo”. Notei então que a Bíblia é uma arma vital para, por

meio de passagens conhecidas, despertar aquelas esperanças de

uma pessoa cristã. Mas e uma pessoa que teve pouco contato com

a palavra de Deus durante a sua vida? É necessário lermos ou

dizermos alguns versículos bíblicos para “ tocá-la”? Se cremos

e confessamos que Deus age através de meios, palavra e

sacramentos, não temos o direito de negar este benefício as

pessoas. Não estou afirmando que tudo o que você disser deve

ser citado e comprovado na hora, mas que suas palavras sejam

palavras que lembrem versículos ou fatos relatados na Bíblia.

Sabemos que o Espírito Santo age onde e quando quer, mas

também sabemos que ele usa de meios para transformar o coração

das pessoas. Ele poderá agir através de uma piada, mas não é

para contar piadas que o pastor ou um cristão visitará uma

pessoa enferma. A piada poderá alegra-la naquele momento, mas


15

a alegria verdadeira e plena é aquela que se apega nos méritos

de Cristo e os recebe, por fé, gratuitamente.

3.3 Pela Oração

3.3.1 Orar: O que é isto?

Jesus acreditou que é possível entrar em contato com

Deus através da oração. Ele fez isto. Ele falou aos seus

seguidores, não somente, ou sobre qual condição um homem pode

orar, mas Jesus ensinou seus discípulos a orar o Pai-Nosso.


3
Suas instruções foram para orar em silêncio e humildade.

Usar a oração com o enfermo é coloca-lo em contato

com Deus. Deus atende a oração e está disposto a ouvir nossos

agradecimentos ou pedidos.

O paciente que ora, “ Deus dê-me forças para encarar

esta dor”, e ‘ paciência para achar através desta enfermidade

um maior entendimento de Ti”, recebe sua resposta mais

diretamente do que o paciente que ora, “ Deus afaste de mim a

dor” , ou, “ eu não posso agüentar tamanho sofrimento, deixe-

me morrer”.4

Por isso é importante o pastor ensinar a verdadeira

forma de orar, fazendo orações nas visitas e instruindo o povo

3
CABOT, Richard C. AND DICKS, Russel L. THE ART OF MINISTERING TO THE SICK. New York : The
Macmillan Company. p. 215
4
Id. Ibid. p.216.
16

para que tenham maior contato com Deus através do caminho da

oração.

3.3.2 Orar a Partir da Realidade do Paciente

Conhecendo a situação do paciente, a doença que o

acompanha, se possível um pouco da situação familiar em que se

encontra, o pastor deve monopolizar sua atenção nele e na

pessoa enferma. As vezes isto não ocorre. O pastor faz

algumas orações memorizadas, quando está com pressa, nervoso

ou até mesmo chocado pela situação que o paciente se encontra.

Esta também é uma questão interessante, porque as vezes o

pastor não possui este dom, ou sejamos mais francos, este

conceito de valorizar a qualidade de suas visitas. Se ele não

pode fazer este trabalho com qualidade é de suma importância

que treina seus congregados para efetuá-lo na comunidade.5

Conhecendo melhor os conceitos que o paciente possui

sobre a oração, toda a situação de médicos e auxiliares que

estão em contato direto com o enfermo, podemos levar melhor o

diagnóstico divino, a saber Jesus Cristo, o “ remédio que dá

certeza da cura eterna”.

Se o paciente notar que estamos fazendo uma oração

somente pelo simples ato de efetuá-la, poderemos criar uma

barreira muito grande, que implicará numa aceitação ou não de

uma subsequente visita.

Id. Ibid. p. 219.


5
17

CONCLUSÃO

Vimos durante este breve estudo que é de suma

importância o pastor efetuar direta ou indiretamente a questão

prática e teórica da visitação de enfermos.

Diretamente quando ele mesmo assume a

responsabilidade de ser um guia para levar, mais uma vez ou

pela primeira vez a esperança da vida eterna em Cristo Jesus.

Indiretamente quando ele treina pessoas que serão

servos capazes de levar o alimento, o “pão da vida” para

aqueles que passam fome de Salvação.

Considerando que este é um trabalho árduo que

teoricamente necessitaria de dedicação exclusiva de um pastor,

no caso de uma Capelão Hospitalar, por exemplo, gosto da idéia

do pastor ser um capacitador dos santos para efetuarem, com a

mesma autoridade, a saber, a palavra de Deus visitas a

enfermos da própria congregação e de outras pessoas.

Mas, para tanto, o pastor deve saber como funciona um

hospital, qual deve ser a melhor forma de abordagem ao


18

paciente, assim poderá ensinar e capacitar pessoas para este

sublime trabalho, que agrada a Deus e nos torna cristãos mais

instruídos e convictos da nossa herança eterna.


19

Bibliografia

BÍBLIA ALMEIDA Revista e Atualizada

CABOT, Richard C. AND DICKS, Russel L. THE ART OF MINISTERING


TO THE SICK, New York, The Macmillan Company.

COLLINS R. Gary. ACONSELHAMENTO CRISTÃO. São Paulo, Vida Nova.