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As Distorções Geradas

Pelos Sindicatos e Pela


Política de Salário Mí-
nimo
Ludwig von Mises
O
ápice da sabedoria política intervenci-
onista consiste em querer encarecer
o preço do trabalho, seja por decreto
governamental, seja pela ação violenta ou pela
ameaça de tal ação por parte dos sindicatos.
Aumentar os salários acima do nível que eles
teriam em um mercado livre e desimpedido é
considerado um postulado das leis da morali-
dade, e também uma medida indispensável do
ponto de vista econômico. Quem se atrever a
desafiar esse dogma ético e econômico é con-
siderado depravado e ignorante. Muitos dos
nossos contemporâneos veem as pessoas que
são suficientemente corajosas para “atravessar
uma linha de piquetes” da mesma forma que os
membros de uma tribo primitiva viam os que
violavam os preceitos de um tabu. Milhões de
pessoas exultam quando um desses “fura-gre-
ves” recebe o seu merecido castigo das mãos
dos grevistas, enquanto a polícia, o ministério
público e os tribunais mantêm uma arrogante
∼ 16 de abril de 2017. Discussão em AncapChannel. □
neutralidade — isso quando não tomam aberta-
mente o partido dos grevistas.
Os salários determinados por um mercado
livre e desimpedido tendem para um nível que
permite àqueles que quiserem trabalhar conse-
guir emprego, e aos que desejarem contratar
trabalhadores empregar tantos quantos dese-
jam. Tende para aquilo que hoje em dia é de-
nominado de pleno emprego. Onde não hou-
ver interferência do governo e dos sindicatos
no mercado de trabalho só pode existir desem-
prego voluntário. Mas tão logo uma pressão
externa ou uma coerção, seja da parte do go-
verno, seja da dos sindicatos, tenta elevar os
salários acima do valor de mercado, surge o
desemprego institucional.
Enquanto prevalecer no mercado de traba-
lho livre e desimpedido uma tendência a que
desapareça o desemprego voluntário, o desem-
prego institucional não poderá desaparecer en-
quanto o governo ou os sindicatos conseguirem
impor a sua vontade. Se o salário mínimo se
aplica apenas a algumas ocupações, enquanto
outros setores do mercado de trabalho conti-
nuam livres, os que por esse motivo perderam
o seu emprego tentarão empregar-se nos seto-
res livres, aumentando assim a oferta de traba-
lho nos mesmos. Se o sindicalismo se restrin-
gir principalmente à mão de obra qualificada,
o aumento salarial conseguido pelos sindica-
tos não conduzirá ao desemprego institucional;
simplesmente diminuirá o nível salarial nos se-
tores em que os sindicatos não são tão eficientes
ou não existem. A consequência natural do au-
mento salarial para os trabalhadores organiza-
dos é uma queda salarial para os trabalhadores
não organizados. Mas, com a generalização da
interferência governamental sobre os salários
e com o apoio que o estado vem dando ao sin-
dicalismo, as coisas mudaram. O desemprego
institucional tornou-se um fenômeno de massa
crônico e permanente.
Escrevendo em 1930, Lorde Beveridge, que
mais tarde viria a ser um defensor da ingerência
governamental e sindical no mercado de traba-
lho, assinalava que o efeito potencial do fato
de uma “política de salários altos” provocar o
desemprego é algo que “não pode ser negado
por nenhuma autoridade competente”.1 De fato,
negar esse efeito equivale a desconhecer a exis-
tência de qualquer regularidade na sequência e
na interconexão dos fenômenos de mercado. Os
economistas mais antigos, que simpatizavam
com o movimento sindical, tinham plena cons-
ciência do fato de que o sindicalismo só pode
atingir seus objetivos se ficar restrito a uma mi-
noria de trabalhadores. Aprovavam o sindica-
lismo como expediente benéfico aos interesses
de um grupo privilegiado de trabalhadores, sem
se importarem com as consequências para to-
dos os demais assalariados.2 Ninguém até hoje
conseguiu demonstrar que o sindicalismo po-
deria melhorar a situação e elevar o padrão de
vida de todos os assalariados.
É importante lembrar também que o pró-
prio Marx nunca sustentou que os sindicatos
1 Ver W.H. Beveridge, Full Employment in a Free Society, Londres,
1944, p. 92 e segs. □
2 Ver Hutt, The Theory of Collective Bargaining, p. 10-21. □
pudessem aumentar os salários em geral. “A
tendência geral da produção capitalista — dizia
ele — não é aumentar, mas diminuir o nível mé-
dio dos salários”. Sendo essa a tendência, tudo
o que o sindicalismo pode conseguir em relação
aos salários é “tirar o melhor partido possível
das eventuais chances de melhorá-los”.3 Os sin-
dicatos, para Marx, só tinham importância na
medida em que atacassem “o próprio sistema da
escravidão salarial e os métodos atuais de pro-
dução”.4 Deviam compreender que “em vez do
lema conservador: Um bom salário por dia, um
bom dia de trabalho!”, deveriam inscrever na
sua bandeira a palavra de ordem revolucionária:
Abaixo o sistema salarial!".5
Os marxistas mais consistentes sempre se
opuseram às tentativas de impor salários mí-
nimos por considerá-las prejudiciais aos inte-
3 Ver Marx, Value, Price and Profit, ed. E.Marx Aveling, Chicago,
Charles H. Kerr & Company, p.125. □
4 Ver A.Lozovsky, Marx and the Trade Unions, Nova Iorque, 1935, p.
17. □
5 Ver Marx, op. cit, p.126-127. □
resses da classe trabalhadora como um todo.
Sempre houve, desde que teve início o moderno
movimento trabalhista, um antagonismo entre
os sindicatos e os socialistas revolucionários. Os
sindicatos americanos e ingleses mais antigos
dedicavam-se exclusivamente à obtenção de sa-
lários mais elevados. Não viam o socialismo
com bons olhos, tanto o “utópico” como o “ci-
entífico”. Na Alemanha havia uma rivalidade
entre os adeptos do credo marxista e os líde-
res sindicais. Finalmente, nas últimas décadas
que antecederam à Primeira Guerra Mundial,
os sindicatos triunfaram: conseguiram virtual-
mente converter o Partido Social Democrata
aos princípios do intervencionismo e do sin-
dicalismo. Na França, George Sorel procurava
imbuir nos sindicatos aquele espírito de agres-
são e de guerra revolucionária que Marx lhes
recomendava. Em todos os países não socialis-
tas existe hoje um conflito ostensivo entre duas
facções sindicais. Um grupo considera o sindi-
calismo como um instrumento para melhorar a
situação dos trabalhadores no contexto do capi-
talismo. O outro grupo quer usar os sindicatos
como organizações a serviço da causa comu-
nista, só os aprovando na medida em que sejam
os pioneiros na derrubada violenta do sistema
capitalista.
Os problemas do sindicalismo trabalhista
foram ofuscados e completamente confundidos
por um verbalismo pseudo-humanitário. Os de-
fensores do salário mínimo, seja decretado e
imposto pelo governo, seja obtido pela violenta
ação sindical, afirmam estar lutando pela melho-
ria da situação das massas trabalhadoras. Não
permitem que alguém conteste o dogma de que
os salários mínimos sejam o meio apropriado
para elevar permanentemente os salários de
todos os assalariados. Orgulham-se de ser os
únicos verdadeiros amigos dos “trabalhadores”
e do “homem comum”, do “progresso” e dos
eternos princípios de “justiça social”.
Entretanto, o problema é precisamente o
de saber se existe alguma outra maneira de au-
mentar o padrão de vida dos que querem traba-
lhar que não seja o aumento da produtividade
marginal do trabalho mediante o incremento
de capital per capita. Os teóricos do sindica-
lismo procuram fugir dessa questão essencial
e nunca mencionam o único ponto realmente
importante: a relação entre o número de tra-
balhadores e a quantidade de bens de capital
disponíveis.
Os sindicatos lutam para reduzir a oferta de
mão de obra por meio de leis contra a imigração
e de medidas que impeçam os não sindicaliza-
dos ou os ainda inexperientes de competir nos
setores sindicalizados do mercado de trabalho.
Por outro lado, opõem-se à exportação de ca-
pitais. Essas políticas seriam absurdas se fosse
verdade que a quota de capital disponível per
capita não tivesse importância na determinação
dos salários.
A essência da doutrina sindical está contida
no slogan “exploração”. Segundo a versão sin-
dical da teoria da exploração, que é diferente
do credo marxista, o trabalho é a única fonte
de riqueza, e os gastos com trabalho são os úni-
cos custos reais. De direito, toda a receita ob-
tida com a venda de um produto deveria per-
tencer aos trabalhadores. Ainda segundo essa
doutrina, o trabalhador manual pode legitima-
mente reivindicar para si a “produção total do
trabalho”. O mal que o sistema capitalista de
produção faz ao trabalhador fica evidente pelo
fato de permitir que os proprietários de terras,
capitalistas e empresários retenham para si uma
parte do que pertence de direito aos trabalhado-
res. A parcela retida por esses parasitas sociais
é chamada de renda não ganha. Os trabalhado-
res têm razão em lutar pela elevação passo a
passo dos salários, até que não sobre mais nada
para a classe dos exploradores socialmente inú-
teis. Ao visar a esse objetivo, os sindicatos dão
prosseguimento à luta, deflagrada há gerações,
pela emancipação dos escravos e dos servos, e
pela abolição dos impostos, tributos, dízimos e
do trabalho obrigatório gratuito que pesava so-
bre o campesinato em benefício da aristocracia
proprietária de terras. O movimento trabalhista
é uma luta pela liberdade e pela igualdade, em
favor dos inalienáveis direitos do homem. Sua
vitória final é fora de dúvida, uma vez que a
tendência inevitável da evolução histórica é eli-
minar todos os privilégios de classe e instaurar
definitivamente o reino da liberdade e da igual-
dade. As tentativas dos empregadores reacioná-
rios para impedir o progresso estão condenadas
ao fracasso.
Tais são os princípios da doutrina social
contemporânea. É verdade que algumas pes-
soas, embora inteiramente de acordo com esse
ideário, só apoiam as conclusões práticas dos
radicais com algumas reservas e sob certas con-
dições. Esses moderados não pretendem abolir
inteiramente a parcela que deveria caber à “ad-
ministração”; contentam-se em limitá-la a um
valor “justo”. Como as opiniões relativas a qual
seja o valor justo da receita dos empresários e
dos capitalistas variam muito, a diferença entre
o ponto de vista dos radicais e o dos moderados
tem pouca importância. Os moderados também
endossam o princípio de que os salários reais
deveriam aumentar sempre e nunca baixar. Em
ambas as guerras mundiais, poucos foram os
que nos Estados Unidos questionaram o pleito
dos sindicatos segundo o qual os salários líqui-
dos dos trabalhadores, mesmo numa emergên-
cia nacional, deveriam crescer mais do que o
custo de vida.
Segundo a doutrina sindical, não há nenhum
inconveniente em confiscar, parcial ou total-
mente, a renda dos capitalistas e dos empre-
sários. Ao tratar desse assunto, empregam o
termo lucros com o mesmo sentido empregado
pelos economistas clássicos. Não distinguem
lucro empresarial de juro sobre o capital inves-
tido e de compensação pelos serviços técnicos
prestados pelo empresário.
Foi Ricardo quem, pela primeira vez, enun-
ciou a tese de que um aumento nos salários
encorajaria os capitalistas a substituírem mão
de obra por equipamentos e vice-versa.6 Por-
tanto, concluem os apologistas do sindicalismo,
uma política de aumentos salariais acima do
6 VerRicardo, Principles of Political Economy and Taxation, cap. i,
seção v. O termo “efeito de Ricardo” é usado por Hayek em Profits,
Interest and Investment, Londres, 1939, p.8. □
valor que teriam no mercado de trabalho não
obstruído é sempre benéfica. Gera progresso
tecnológico e aumenta a produtividade do tra-
balho. Salários mais altos pagam-se por si mes-
mos. Ao forçarem os empregadores que relutam
em aumentar os salários, os sindicatos estariam
cumprindo o papel de vanguarda do progresso
e da prosperidade.
Muitos economistas aprovam essa tese de
Ricardo, embora poucos entre eles sejam sufici-
entemente consistentes para endossar a inferên-
cia que dela tiram os sindicalistas. Na verdade,
o efeito de Ricardo é um argumento que só pode
impressionar os principiantes em economia; é
um dos maiores erros econômicos.
A confusão começa com o equívoco de que
a máquina “substitui” a mão de obra. Na rea-
lidade, o que a máquina faz é tornar a mão de
obra mais eficiente. A mesma quantidade de
trabalho possibilita a obtenção de uma maior
quantidade ou de uma melhor qualidade de pro-
dutos. O uso da máquina em si não resulta di-
retamente em ma redução do mínimo de operá-
rios empregados na fabricação de um artigo A.
O que provoca esse efeito secundário é o fato
de que — tudo o mais constante — um aumento
da oferta de A diminui a utilidade marginal de
uma unidade de A em comparação com as uni-
dades de outros artigos; por consequência, a
mão de obra é deslocada da produção de A para
a produção de outros artigos.
O progresso tecnológico ocorrido na produ-
ção de A torna possível realizar certos projetos
que antes não poderiam ser executados porque
os trabalhadores necessários estavam ocupados
na produção de A, cuja demanda pelos consumi-
dores era considerada mais urgente. A redução
do número de trabalhadores na indústria pro-
dutora de A é provocada pela maior demanda
desses outros setores aos quais é oferecida a
oportunidade de expansão. Consequentemente,
tudo o que se costuma dizer sobre “desemprego
tecnológico” fica devidamente refutado.
As ferramentas e as máquinas são primordi-
almente meios para aumentar a produção por
unidade de aporte e não dispositivos para eco-
nomizar mão de obra. Parecem ser dispositivos
para economizar mão de obra se considerados
exclusivamente do ponto de vista do setor da
atividade econômica em questão. Vistos do ân-
gulo dos consumidores e da sociedade em geral,
são instrumentos que aumentam a produtivi-
dade do esforço humano.
Aumentam a oferta e tornam possível con-
sumir mais bens materiais e usufruir mais la-
zer. Que bens serão consumidos em quantidade
maior e até que ponto as pessoas preferirão
usufruir mais lazer depende dos julgamentos
de valor de cada indivíduo.
O emprego de mais e melhores ferramentas
só é viável na medida em que o capital neces-
sário esteja disponível. A poupança — isto é,
um excedente da produção sobre o consumo
— é condição indispensável de todo aperfeiçoa-
mento tecnológico. O mero conhecimento tec-
nológico é inútil se não houver capital para
utilizá-lo. Os empresários indianos estão fami-
liarizados com os métodos americanos de pro-
dução; o que os impede de adotá-los é a falta
de capital e não os baixos salários da Índia.
Por outro lado, a poupança capitalista ne-
cessariamente gera o emprego de máquinas e
ferramentas adicionais. O papel que a poupança
simples — isto é, a acumulação de bens de con-
sumo como uma reserva para dias mais difí-
ceis — representa na economia de mercado é
de menor importância. No regime capitalista,
a poupança é geralmente poupança capitalista.
O excesso de produção sobre o consumo é in-
vestido seja diretamente no próprio negócio
ou na fazenda do poupador, seja indiretamente
nas empresas de outras pessoas por meio dos
depósitos de poupança, ações ordinárias ou pre-
ferenciais, títulos, debêntures e hipotecas.7 Na
medida em que as pessoas mantenham o seu
consumo abaixo de sua renda líquida, cria-se
capital adicional que é empregado na expansão
do capital fixo do aparato de produção. Por um
lado, o que é invariavelmente necessário para
7 Como estamos lidando com as condições de uma economia de
mercado não obstruído, podemos desprezar os efeitos de consumo
de capital provocados pelos empréstimos públicos. □
o emprego de mais e melhores ferramentas é
a acumulação adicional de capital; por outro
lado, não há melhor emprego para o capital adi-
cional do que a utilização de mais e melhores
ferramentas.
A tese de Ricardo e a doutrina sindical que
dela deriva invertem as coisas. Uma tendên-
cia de alta dos salários não é a causa, mas o
efeito, do progresso tecnológico. A atividade
econômica com fins lucrativos é obrigada a em-
pregar os métodos de produção mais eficientes.
O que impede um empresário de melhorar o
equipamento de sua empresa é somente a falta
de capital. Se o capital necessário não estiver
disponível, nenhum aumento salarial poderá
proporcioná-lo.
O máximo que os salários mínimos podem
conseguir em relação ao emprego de maquina-
ria é desviar investimentos adicionais de um
setor para outro. Suponhamos que em um país
economicamente subdesenvolvido, a Ruritânia,
o sindicato dos estivadores consegue forçar os
empresários a pagarem salários que são com-
parativamente maiores do que os pagos nas
outras atividades econômicas. Pode ocorrer en-
tão que o emprego mais rentável para o capital
adicional seja utilizar dispositivos mecânicos
para carga e descarga dos navios. Mas o capital
assim empregado foi subtraído de outros seto-
res da atividade econômica da Ruritânia, nos
quais, não fosse a pressão sindical, teria sido
empregado de uma maneira mais vantajosa.
O efeito dos altos salários dos estivadores
não é um aumento, mas uma diminuição da
produção total da Ruritânia.8 Salários reais só
podem aumentar, mantidas inalteradas as de-
mais circunstâncias, na medida em que o capital
se torne mais abundante. Se o governo ou os
sindicatos conseguem forçar salários superiores
aos que teriam sido estabelecidos pelo mercado
de trabalho não obstruído, a oferta de mão de
obra excede a demanda por mão de obra. Surge
o desemprego institucional.
8Oexemplo é meramente hipotético. Um sindicato tão poderoso
provavelmente impediria a utilização de dispositivos mecânicos
para carga e descarga de navios, a fim de “criar mais empregos”.□
Firmemente comprometidos com os prin-
cípios do intervencionismo, os governos ten-
tam impedir esta indesejada consequência de
sua interferência pelo recurso a medidas co-
nhecidas hoje em dia como política de pleno
emprego: auxílio-desemprego, arbitragem de
questões trabalhistas, realização de obras públi-
cas por meio de gastos volumosos, inflação e
expansão creditícia. Todos esses remédios são
piores do que os males que pretendiam corrigir.
O auxílio dado aos desempregados não acaba
com o desemprego. Facilita para quem prefere
permanecer ocioso. Quanto mais próximo este
subsídio estiver do nível que teriam os salários
no mercado não obstruído, menor será o incen-
tivo para o beneficiado procurar emprego. É
uma maneira de prolongar o desemprego e não
de suprimi-lo. As desastrosas consequências fi-
nanceiras desse tipo de auxílio-desemprego são
por demais conhecidas.
A arbitragem não é um método adequado
para decidir disputas quanto a valor de salários.
A sentença do árbitro se fixar os salários exata-
mente no valor potencial de mercado ou num
valor mais baixo, não terá efeitos práticos; se
fixá-los acima do valor potencial de mercado, as
consequências serão as mesmas que as provo-
cadas por qualquer outro modo de fixar salários
mínimos acima do nível de mercado, qual seja,
desemprego institucional. Não importa que ra-
zões o árbitro tenha invocado para justificar
sua decisão. O que importa não é saber se os sa-
lários podem ser considerados “justos” segundo
algum critério arbitrário; é saber se provocam
ou não um excesso de oferta de mão de obra
sobre a demanda por mão de obra.
Para algumas pessoas, pode parecer justo
fixar os salários num nível tão alto que uma
grande parte da força de trabalho fique conde-
nada a um longo período de desemprego. Mas
ninguém poderá dizer que isso seja conveniente
e benéfico para a sociedade.
Se os recursos para a realização de obras
públicas são obtidos através de impostos ou de
empréstimo, o aumento de recursos do Tesouro
equivale à diminuição da capacidade de investir
e de consumir dos cidadãos. Nenhum emprego
adicional pode ser criado dessa maneira. Mas
se o governo recorre à inflação para custear
os seus gastos — aumentando a quantidade de
moeda e expandindo artificialmente o crédito
(isto é, sem que esteja havendo poupança) —, o
máximo que consegue é um aumento geral de
todos os preços e serviços.
Se, no curso dessa inflação, o aumento dos
salários não acompanhar o aumento de preços
das mercadorias, o desemprego institucional
pode diminuir ou mesmo desaparecer comple-
tamente. Mas o que o faz diminuir ou desapa-
recer é precisamente o fato de que houve uma
redução dos salários reais. Lorde Keynes con-
siderava a expansão do crédito um método efi-
ciente para eliminação do desemprego; acredi-
tava que uma “diminuição gradual e automática
dos salários reais em decorrência do aumento
dos preços” não encontraria tanta resistência
por parte dos trabalhadores, quanto uma redu-
ção no valor nominal dos salários.9 Todavia, o
sucesso de um plano tão ardiloso implicaria um
grau de ignorância e estupidez dos assalariados
altamente improvável. Enquanto os trabalha-
dores acreditarem que o estabelecimento de sa-
lários mínimos lhes beneficia, não se deixarão
enganar por esse tipo de subterfúgio.
Na prática, todos esses expedientes de uma
suposta política de pleno emprego mais cedo ou
mais tarde conduzem à instauração de um socia-
lismo modelo alemão. Levando-se em conta que
os membros de uma comissão de arbitramento
indicados pelos empregadores nunca chegam
a um acordo com os indicados pelos sindicatos
quanto à remuneração que possa ser conside-
rada justa, a decisão virtualmente fica com os
membros indicados pelo governo.
Assim, o governo se investe no poder de
9 Ver Keynes, The General Theory of Employment, Interest and
Money, Londres, 1936, p. 264. Para um exame crítico dessa ideia,
ver Albert Hahn, Deficit Spending and Private Enterprise, Postwar
Reajustments Bulletin n. 8, U.S. Chamber of Commerce, p. 28- 29;
Henry Hazlitt, The Failure of the “New Economics”,Princeton, 1959,
p. 263-295. □
determinar o valor que devem ter os salários.
Quanto mais proliferam as obras públicas e
quanto mais o governo toma iniciativas para su-
prir a “incapacidade da empresa privada de ge-
rar emprego para todos”, mais se retrai o campo
de ação da iniciativa privada. Isso nos coloca,
mais uma vez, diante da alternativa: capitalismo
ou socialismo.
Uma política de salários mínimos que pro-
duza resultados duradouros é inteiramente in-
concebível. ■

∼ Discussão em AncapChannel. Texto retirado de RothbardBrasil. □