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ISBN 85-336-0030-5

I
91178853311600300
Tílulo original: IMAGES ET SYMBOLES.
Copyright ~ bv Édilions Gatlimard, 1952.
Copyrígbt ~ 1991. Livraria Martins Fontes Editora Lrda ..
São Paulo. para a presente edição.

l' edição
dezembro de 1991
JI tiragem
outubro de 2002

Tradução
SONfA CRISTfNA TAMER

Revisão da tradução
SUMÁRIO
A/do Monteiro
Preparação do origi nal
Silvana Cobucci Leite
Revisão gráfica
Marcelo Rondinelli
PREFÁCIO DE GEORGES DUMÉZIL . 1
Flora Maria de Campos Fernandes
Prod uçâo gráfica
Geraldo Alves PREFÁCIO . 5
Paginação/Fotolitos
Studio 3 Desenvolvimento Editorial
Redescoberta do simbolismo . 5
Simbolismo e psicanálise . 8
Perenidade das imagens . 12
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) O plano do livro . 17
(Câmara Brasileira do Livro. SP, Brasil)
Eliade. Mircea, 1907-1986
Imagens e símbolos : ensaio sobre o simbolismo mágico-reli- Capítulo I -SIMBOLISMO DO "CENTRO" . 123
gioso / Mircea Eliade ; prefácio Georges Dumézil ; [tradução Sonia
Crisiina Tamer]. - São Paulo: Martins Fontes. 1991. Psicologia e história das religiões . 23
· ,. ,. .
ISBN 85-336-0030-5
Historia e arque tIpOS . 129
I. Simbolismo I. Título. 11.Título: Ensaio sobre o simbolismo A Imagem do mundo . ,34
mágico-religioso. Simbolismo do "Centro" . 137
CDD-306.4 Simbolismo da ascensão . 143
91.2936 -291.13
Construçao- de um "Centro " . 48
Índices para catálogo sistemático:
1
I. Simbolismo: Cultura: Sociologia 306.4
2. Simbolismo e mito religioso 291.13
Capítulo II - SIMBOLISMOS INDIANOS
Todos os direitos desta edição para o Brasil reservados à DO TEMPO E DA ETERNIDADE . '53
Livraria Martins Fontes Editora Ltda. Função dos mitos . : 53
Rua Conselheiro Ramalho. 330/340 01325-000 São Paulo SP Brasil
Tel. (11) 3241.3677 Fax (11) 3105.6867 Mitos indianos do Tempo . i 56
e-rnail: info@martinsfontes.com.br hnpittwww.maninsfontes.combr A doutrina dos "yugas" . 59
,.
Tempo cosrruco e H'"
rstoria . ~64
O" terror do T empo " . 68
Simbolismo indiano da abolição do Tempo .: . 70
O "O vo partiido " . 74
A filosofia do Tempo no budismo . 75
Imagens e paradoxos . 79
T'ecrncas
. d"a salída do T empo " . 82

Capítulo 111 - O "DEUS AMARRADO R" E


O SIMBOLISMO DOS NÓS . 89
O Soberano Terrível . 89 PREFÁCIO
O simbolismo de Varuna . 92
"Deuses amarra d" 'd' Ia antiga
ores na 1n . . 97
Trácios, germanos, caucasianos . 100 Para compor este volume, Mircea Eliade teve apenas de escolher
Irã . 103 entre suas inúmeras meditações publicadas ou inéditas: o simbolismo
Paralelos etnográficos . 105 está presente em todo o pensamento religioso, em todos os lugarJs do
A magia dos nós . 108 pensamento. No começo do século, na épo,caem que os mestres dos esiudos
M·agra e re l'19Iao
.- . 110 comparatioos acreditavam ser mais sábio reparar as velas do q~e se
Simbolismo das "situações-limite" . 114 lançar a novas auenturas, a própria noção de símbolo era mal ~ista.
Simbolismo e História . 117 Os antigos cretenses colocavam sobre os seus muros um escudo biloõado,
uma bipene, que pareciam flutuar no ar? Os romanos conservavam luma
lança que vibrava sozinha na Casa do Rei? Eram apenas um essudo,
Capítulo IV - OBSERVAÇÕES SOBRE
123 um machado, uma lança sem nada ele invisível por trás: hoPloldtria.
O SIMBOLISMO DAS CONCHAS .
123 Os espartanos chamavam diâscuros duas vigas paralelas? O "vJrda-
A Lua e as Águas ·
126 deira" culto dirigia-se então "primitiuamente" apenas a vigas, explora-
Simbolismo da fecundidade .
131 das, desfiguradas "mais tarde" por uma concepção antropomórfi~a do
Funções rituais das conchas .
133 "sagrada", Já não estamos mais nesse ponto e, se existe exagero, seria
O papel das conchas nas crenças fúnebres .
143 mais no outro sentido: estaríamos mais inclinados a reduzir o orçq.,Jento
A pérola na magia e na medicina .
146 racional das religiões em beneficio da despesa simbâlica. Eliade sitJa-se
O mito da pérola .
no exato meio-termo, graças a uma filologia rigorosa. Seus ensaios~1 não
são de teoria, mas de observações.
Capítulo V - SIMBOLISMO E HISTÓRIA . 151 I
Duas das monografias recolhidas aqui tratam das represent ções
Batismo, dilúvio e simbolismos aquáticos . 151 fundamentais, nas quais nenhuma ideologia é dispensada: o centro,
Imagens arquetípicas e simbolismo cristão . 160 com sua diversidade na terceira dimensão. o <:,lnite.graças ao qual se
Símbolos e culturas . 172 ordenam e hierarquizam todas as divisões. todos os valores que interessam
Observações sobre o método . 175 a uma sociedade; o laço que, antes de mais nada, exprime sensivelmente
2 IMAGENS E SíMBOLOS
1
I
o foto de que toda vida fisiológica, coletiva, intelectual i um entrelaça-
mento de relaçôes. No entanto, em poucas páginas, e servindo-se de
um grande número de exemplos enraizados nos seus contextos, Eliade I
I
ilustra a riqueza das variações elaboradas sobre esses dois temas e torna
perceptível sua unidade. O ensaio sobre o tempo, limitado - ousaría- I
mos dizer - à imensa Índia é filologia da melhor: a palavra kâla Em memória de meu pai
designa tanto o momento fogidio como a duração infinita ou ciclica, Ghéorghé Eliade
o destino, a morte. Ao mesmo tempo forma e conteúdo, conceito e a
própria pessoa divina assimilada a diversos deuses, o Tempo é um dos (1870-1951)
reatiuos mais aptos a revelar as diretrizes dessas poderosas escolhas
de pensamento: rápidos e documentados, os capítulos dessa investigação
exploram e esclarecem todos os problemas por elas colocados. AParen-
temente mais específico, o ensaio sobre a simbologia das conchas mostra
a imaginação religiosa atuando não mais a partir de um conceito relacio- I
nado com diversos elementos concretos, mas sim a partir de um elemento
material que ela vincula a diversos conceitos, de modo que o conjunto
I!
das analogias parece desta feita sair do pólo sensível da relação: figu-
rantes à procura do drama. "Símbolo e história" explica enfim breve-
mente, com uma referência mais acentuada às grandes religiões vivas
do Ocidente, por que as análises do presente livro e todas aquelas que
compõem a obra de Eliade não são puros jogos do espírito, mas antes
descobridoras dos pontos de apoio que permitem ao homem-indivíduo
e aos grupos humanos equilibrar e assegurar seus pensamentos em meio
aos movimentos da sua experiência.
É gratificante que um grande público possa conhecer esta introdução
a uma das pesquisas mais originais do nosso tempo, que nunca nos
deixa esquecer que seu autor foi e continua sendo, antes de mais nada,
um escritor e um poeta.

Georges Dumézil
PREFÁCIO

Redescoberta do simbolismo

A surpreendente voga da psicanálise fez a fortuna de certas


palavras-chave: imagem, símbolo, simbolismo tornararb-se
desde então uma. constante. Por outro lado, as pesquisas s~ste-
máticas sobre o mecanismo das "mentalidades primitivas"
revelaram a importância do simbolismo para o pensamento
arcaico e, ao mesmo tempo, o seu papel fundamental na vida
de qualquer sociedade tradicional. À superação do "cieritis-
mo" na filosofia, o renascimento do interesse religioso após
a Primeira Guerra Mundial, as múltiplas experiências pdéti-
cas e, sobretudo, as pesquisas do surrealismo (com a redesco-
berta do ocultismo, da literatura negra, do absurdo etc.) cha-
maram, em níveis diferentes e com resultados desiguais, a
atenção do grande público sobre O símbolo.como modo autô-
nomo de conhecimento. A evolução em questão faz part~ da
~tia o iãcionalismo, o positivismo e o cientismq do
século XIX e já basta para caracterizar O segundo quarto
do século XX. Mas essa conversão aos diversos simbolismos'
não é uma "descoberta" propriamente inédita, mérito] do
mundo moderno: este, ao restabelecer o símbolo enquanto ins-
trumento do conhecimento, só fez retomar uma orientação
que foi geral na Europa até O século XVIII e que é, além
6 IMAGENS E SiMBOLOS PREFÁCIO 7

do mais, conatural às outras culturas extra-européias, sejam Como dizíamos, uma feliz conjunção temporal fez a Euro-
elas "históricas" (por exemplo, as da Ásia ou da América pa Ocidental redescobrir o valor cognitivo do símbolo no mo-
Central) ou arcaicas e "primitivas". mento em que ela não é a única a "fazer história", e a cultura
Notemos que a invasão da Europa Ocidental pelo simbo- européia, a menos que se enclausure em um provincialismo
lismo coincide com o despontar da Ásia no horizonte da história, esterilizante, é obrigada a contar com outras vias de conheci-
despontar que começou com a revolução de Sun Yat Sen e que mento, com outras escalas de valores que não apenas as suas.
se afirmou sobretudo no decorrer dos últimos anos. De maneira Nesse sentido, todas as descobertas e vogas sucessivas r~lacio-
sincrônica, grupos étnicos que até então só tinham participado nadas ao irracional, ao-inconsciente, ao simbolismo, às expe-
da História Maior furtivamente e por alusões (corno os oceânicos, riências poéticas, às artes exóticas e não-figurativas etc.! servi-
os africanos etc.) preparam-se, por sua vez, para entrar nas gran- ram indiretamente ao Ocidente, preparando-o para umfl com-
des correntes da história contemporânea, e já estão impacientes preensãomais viva, logo, mais profunda dos valores extra-eu-
para fazê-lo. Não que exista uma relação causal entre o despertar ropeus e, definitivamente, para o diálogo com os povos ~ão-eu-
do mundo "exótico" ou "arcaico" no horizonte da história e ropeus. Bastaria pensar na atitude do etnógrafo do século XX
a retomada de prestígio do conhecimento simbólico constatada diante do seu "objeto" e sobretúdo nos resultados d~s suas
na Europa. Mas o fato é que esse sincronismo é particularmente pesquisas, para medir o gigantesco progresso realizado pela
feliz; perguntamo-nos como a Europa positivista e materialista etnologia no decorrer desses últimos trinta anos. O etnólogo
do século XIX poderia ter sustentado um diálogo espiritual com atual compreendeu ao mesmo tempo a importância do simbo-
as culturas "exóticas" que se diziam, sem exceção, escolas de lismo para o pensamento arcaico, sua coerência intrínseca,
pensamento diferentes do empirismo ou do positivismo. Eis, pelo sua validade, sua audácia especulativa, sua "nobreza"]
menos, uma razão para esperar que a Europa não fique parali- Melhor ainda. Começamos a compreender hoje algo que
sada diante das imagens e dos símbolos que, no mundo exótico, o século XIX não podia nem mesmo pressentir: que o símbolo~
tomam o lugar dos nossos conceitos ou que os veiculam e prolon- o mito, a imagem pertencem à substância da vida espifitual,
gam. É surpreendente que de toda a espiritualidade européia que podemos camuflá-Ios, mutilá-Ios, degradá-los, mas que
moderna somente duas mensagens interessem realmente aos mun- jamais poderemos extirpã-los. Valeria a pena estudar a sobre-
dos extra-europeus: o cristianismo e o comunismo. Ambos certa- vivência dos grandes mitos durante o século XIX. Veríamos
. I

mente de maneira diferente e em planos visivelmente opostos como, humildes, enfraquecidos, condenados a mudar inces-
são soteriologias, dou trinas da salvação e, por isso, amalgamam santemente de emblema, eles resistiram a essa hibernação,
os "símbolos" e os "mitos" em uma escala que só é comparável graças sobretudo à literatura". É assim que o mito do Paraíso
à da humanidade extra-européia'. Terrestre sobreviveu até hoje na forma adaptada do "paraíso
oceânico"; há cento e cinqüenta anos, todas as grandes litera-
I. Simplificamos extremamente, pois isso diz respeito a um lado das coisas I turas européias rivalizaram-se ao celebrar as ilhas paradisía-
que nos é impossível abordar aqui. No que diz respeito aos mitos e símbolos cas do Grande Oceano, refúgio de todas as felicidades, quando
soteriológicos comunistas, está claro que, com as devidas reservas à elite diri-
gente marxista e à sua ideologia, as massas simpatizantes são estimuladas e
encorajadas por slogans tais como: libertação, liberdade, paz, resolução dos confli- 2. Que aventura excitante seria revelar o verdadeiro papel espiritual
tos sociais, abolição do Estado explorador e das classes privilegiadas etc. - , do romance do século XIX, que, não obstante todas as "fórmulas" científicas,
slogans cuja estrutura e função mítica não necessitam mais ser demonstradas. realistas, sociais, foi o grande reservatório dos mitos degradados!
8 IMAGENS E SÍMBOLOS PREFÁCiO 9

a realidade era bem diferente: "paisagens planas e monótonas, chem uma função: revelar as mais secretas modalidades do
clima insalubre, mulheres feias e obesas etc." Da mesma ma- ser. Por isso, seu estudo nos permite melhor conhecer O ho-
neira a Imagem desse "paraíso oceânico" estava protegida mem, "o homem simplesmente", aquele que ainda não se 'com-
de toda "realidade" geográfica ou outra qualquer. As realida- pôs com as condições da história. Cada ser histórico tra~ em
des objetivas não tinham nada a ver com o "paraíso oceânico". si uma grande parte da humanidade anterior à História. Eis
Este último era de ordem teológica; ele havia recebido, assimi- um ponto, por certo, que nunca r. .
101 esqueci
id o, mesmo I nos
lado e readaptado todas as imagens paradisíacas repelidas tempos mais inclementes do positivismo: quem melhor do que
pelo positivismo e pelo cientismo. O Paraíso Terrestre, no um positivista para saber que o homem é um "animal", 'defi-
qual acreditava ainda Cristóvão Colombo (ele não acreditava nido e regido pelos 'mesmos instintos que seus irmãos anirhais?
tê-lo descoberto!) tinha se tornado, no século XIX, uma ilha Constatação exata, mas parcial, que se serve de um plano
oceânica, mas sua função na economia da psique humana con- exclusivamente de referências. Começamos a ver hoje que a
tinuava a mesma: ali, na "ilha", no "Paraíso", a existência parte a-histórica de todo ser humano são se perde, COI1)O se
se passava fora do Tempo e da História; o homem era feliz, pensava no século XIX, no reino animal e, finalmente, na
livre, não-condicionado; ele não tinha de trabalhar para vi- "Vida", mas, ao contrário, bifurca-se e eleva-se bem acima
ver; as mulheres eram belas, eternamente jovens, nenhuma dela: essa parte a-histórica do ser humano traz, tal qual uma
"lei" pesava sobre seus amores. Até a nudez reencontrava, medalha, a marca da lembrança de uma existência mais rica,
na ilha longínqua, seu sentido metafisico: condição do homem mais completa, quase beatificante. Quando um ser historica-:
perfeito de Adâo antes da queda". A "realidade" geográfica mente condicionado, por exemplo um ocidental dos dias de
poderia desmentir essa paisagem paradisíaca, mulheres feias hoje, deixa-se invadir pela sua própria parte não-histórica (o
e obesas poderiam desfilar diante dos viajantes: nada disso que acontece com muito mais freqüência e bem mais radical-
se via; cada um olhava somente a imagem que trazia consigo. mente do que ele imagina), não é necessariamente para r~tro-
ceder ao estado animal da humanidade, para descer às origens
mais profundas da vida orgânica: inúmeras vezes, ele reintegra
Simbolismo e psicanálise pelas imagens e símbolos que utiliza um estado paradisíaco
do homem primordial (qualquer que seja a existência concreta
O pensamento simbólico não é uma área exclusiva da deste último, pois esse "homem primordial" apresenta-st so-
criança, do poeta ou do desequilibrado: ela é consubstancial bretudo como um arquétipo impossível de "realizar-se" plfna-
ao ser humano; precede a linguagem e a razão discursiva. mente em uma existência qualquer). Escapando à sua histori-
O símbolo revela certos aspectos da realidade - os mais pro- cidade, o homem não abdica da qualidade de ser humano
fundos - que desafiam qualquer outro meio de conhecimento. para se perder na "anirnalidade"; ele reencontra a lingua$"em
As imagens, os símbolos e os mitos não são criações irrespon- e, às vezes, a experiência de um "paraíso perdido". Os sonros,
sáveis da psique; elas respondem a uma necessidade e preen- os devaneios, as imagens de suas nostalgias, de seus desejos,I

de seus entusiasmos etc., tantas forças que projetam o ser hu-


mano historicamente condicionado em um mundo espiritual
3. Dedicamos ao simbolismo da ilha e da nudez na obra de um dos
maiores poetas do século XIX, Mihail Eminescu, um estudo publicado em
infinitamente mais rico que o mundo fechado do seu "mo-
1938 (ver nossa Insula lui Euthanasius, Bucareste, 1943, pp. 5-18). mento histórico". I
10 IMAÇéNS E SÍMBOLOS PREFÁCiO I 11

Dizem os surrealistas que todo homem pode se tornar um _. sua realidade e suas funções ao mesmo tempo cosmol+giCaS,
poeta: é apenas uma questão de saber se abandonar à escrita antropológicas e psicológicas". "Traduzir" as Imagens C1mter-
automática. Essa técnica poética se justifica plenamente em mos concretos é uma operação vazia de sentido: certamente
uma psicologia sã. O "inconsciente", como é chamado, é mui- as Imagens englobam todas as alusões ao "concreto" ~esco-
to mais "poético" - e, acrescentaríamos, mais "filosófico", bertas por Freud, mas a realidade que elas tentam expressar
mais "mítico" - que a vida consciente. Nem sempre é neces- não se esgota por tais referências ao "concreto". A "origem"
sário conhecer a mitologia para viver os grandes temas míticos. das Imagens é igualmente um problema sem objeto: I como
Os psicólogos sabem muito bem que descobrem as mais belas se contestássemos a "verdade" matemática sob o pretexto de
mitologias nos "devaneios" ou nos sonhos de seus pacientes. que a "descoberta histórica" da geometria saiu dos trabalhos
Pois o inconsciente não é unicamente assombrado por mons- ,'V feitos pelos egípcios para a canalização do Delta.
tros: ele é também a morada dos deuses, das deusas, dos heróis, / Filosoficamente, estes problemas da "origem" e da "verda-
das fadas; aliás, os monstros do inconsciente também são mito- deira tradução" das Imagens são desprovidos de objeto. Bastará
lógicos, uma vez que continuam a preencher as mesmas fun- lembrar que a atração maternal, interpretada no plano imediato
ções que tiveram em todas as mitologias: em última análise, e "concreto" - como o desejo de possuir a própria mke -,
ajudar o homem a libertar-se, aperfeiçoar sua iniciação. não quer dizer nada mais do que isso. Ao contrário, se levarmb s em
A linguagem brutal de Freud e de seus discípulos mais conta que se trata da Imagem da Mãe, esse desejo quer
ortodoxos irritou muitas vezes os leitores de bom senso. Na dizer muitas coisas ao mesmo tempo, pois é o desejol de
realidade, essa brutalidade de linguagem é o resultado de um reintegrar a beatitude da Matéria viva ainda não "forma-
mal-entendido: não era a sexualidade em si que irritava, mas da", com todos os seus desdobramentos, possíveis, cosrnoló-
sim a ideologia fundada por Freud sobre a sua "sexualidade gicos, antropológicos etc., a atração exercida sobre o "Espí-
pura". Fascinado por sua missão - ele se acreditava o Grande rito" pela "Matéria", a nostalgia da unidade primordial e,
Desperto, quando não passava do Último Positivista -, Freud enfim, o desejo de abolir os opostos, as polaridades etc.11 Ora,
não podia se dar conta de que a sexualidade nunca foi "pura"; como já dissemos e como mostraremos nas páginas segu~ntes,
de que ela foi sempre e em toda a parte uma função polivalente, as Imagens são, por suas próprias estruturas, multioalentes. Se
cuja valência primeira e talvez suprema era sua função cosmo- o espírito utiliza as Imagens para captar a realidade profunda
lógica; de que traduzir uma situação psíquica em termos se- das coisas, é exatamente porque essa realidade se manifesta
I

xuais não é de forma alguma humilhá-Ia, pois, exceto para de maneira contraditória, e conseqüentemente não poderia
o mundo moderno, a sexualidade foi sempre e em toda a parte ser expressada por conceitos. (Sabemos dos esforços desespe-
uma hierofania, e o ato sexual, um ato integral (logo, também rados de diversas teologias e rnetafísicas, tanto orientais como
um meio de conhecimento). ocidentais, para expressar por conceitos a coincidentia f)fPosi-
A atração que sente o menino por sua mãe e seu corolário, tOTUm,modo de ser facilmente, e aliás abundantemente, e~pres-
o complexo de Édipo, só "chocam" quando traduzidos tais sado por Imagens e símbolos.) É então a Imagem em si, en-
quais, em vez de serem apresentados, como se deve fazer, en-
quanto Imagens. Pois é a Imagem da Mãe que é verdadeira, 4. É o maior mérito de C. G. JI.mg ter ultrapassado a psicanálise freu-
e não a dessa ou daquela mãe, hic et nunc, como queria Freud. diana partindo da própria psicologia e ter assim restaurado o significado espiri-
É a Imagem da Mãe que revela - e apenas ela pode revelar tual da Imagem.
12 IMAGENS E SÍMBOLOS PREFÁCIO
13
\
quanto conjunto de significações, que é verdadeira, e não uma vive de imagens. Repetindo, e conforme ficará abundantemen-
única das suas significações ou um único dos seus inúmeros planos de te ilustrado pelo que se segue, os símbolos jamais desaparecem
referências. Traduzir uma Imagem na sua terminologia concre- da atualidade psíquica: eles podem mudar de aspecto; sua fun-
\

ta, reduzindo-a a um único dos seus planos referenciais, é ção permanece a mesma. Temos apenas de levantar suas novas
pior que mutilá-ia, é aniquilá-Ia, anulá-Ia como instrumento mascaras.
, I

de conhecimento. A mais abjeta "nostalgia" esconde a "nostalgia do paraí-


Não ignoramos que a psique em certos casos fixa uma so". Mencionamos as imagens do "paraíso oceânico." que
Imagem sobre um único plano de referência, o plano "concre- assombram tanto o livro como o filme. (Quem disse que
to"; mas isso já é uma prova de desequilíbrio psíquico. Sem o cinema era a "fábrica de sonhos"?) Podemos também ana-
dúvida, existem casos em que a Imagem da Mãe nada mais ... lisar as imagens liberadas subitamente por uma ~úsica
é do que o desejo incestuoso da própria mãe; mas os psicólogos qualquer, às vezes a mais vulgar rornança., Constataremos
concordam em ver em tal interpretação carnal de um símbolo '. que essas imagens invocam a nostalgia de um passado fI1itifi-
o sinal de uma crise psíquica. No plano da dialética da Ima- cado, .transformado em arquétipo, que esse !"passador con-
gem, toda redução exclusiva é uma aberração. A história das tém, além da saudade de um tempo que acabou, mil ~utros
religiões é abundante em interpretações unilaterais e, conse- sentidos: ele expressa tudo que poderia ter sido, m~s não
qüentemente, aberrantes de símbolos. Não encontraremos um foi, a tristeza de toda existência que sQ existe quando I cessa
único grande símbolo religioso cuja história não seja uma trá- de ser outra coisa, o pesar de não viver na paisagem e no
gica sucessão de inúmeras "quedas". Não existe heresia mons- tempo evocados pela música (quaisquer que sejam as, cores
truosa, orgia infernal, crueldade religiosa, loucura, absurdo locais ou históricas: "o bom velho tempo", a Rússila das
ou insanidade mágico-religiosa que não seja "justificada" , no balalaicas, o Oriente romântico, o Haiti dos filmes, os ~ilio-
seu próprio princípio, por uma falsa -porque parcial) incompleta nários americanos, os príncipes exóticos etc.); enfim, 0 dese-
- interpretação de um grandioso simbolismos. .'I 1
jo de algo completamente diferente do momento presente, defini-
tivamente inacessível ou irremediavelmente perdido: q "Pa-
raíso" .
Perenidade das imagens O importante nessas imagens da "nostalgia do pa~aíso"
é que elas expressam sempre muito mais do que a pessoa que
Não é necessário utilizar as descobertas da psicologia pro- as sente poderia fazê-Io por meio da palavra. Aliás, a maioria
funda ou a técnica surrealista da escrita automática para pro- dos humanos seriam incapazes de expressá-Ias: não que sejam
var a sobrevivência subconsciente, no homem moderno, de menos inteligentes que os outros, mas porque dão ~uito
uma mitologia abundante e, na nossa opinião, de um valor I
pouca importância à nossa linguagem analítica. E, no e~tan-
espiritual superior à sua vida "consciente". Não precisamos to, tais imagens aproximam os homens de uma maneir~ mais
dos poetas ou das psiques em crise para confirmar a atualidade eficaz e real que a linguagem analítica. Na realidade, se
e a força das Imagens e dos símbolos. A mais pálida das exis- existe uma solidariedade total do gênero humano, ela só
tências está repleta de símbolos, o homem mais "realista" pode ser sentida e "atuada" no nível das Imagens (não dize-
mos do subconsciente, pois nada nos prova que não exista
5. Ver nosso Traiu d'histoire des retigions, pp. 304 ss. e passim. também um transconsciente).
14 iMAGENS E SÍMBOLOS PREFAcIO : 15
I
I

Não demos a atenção devida a tais "nostalgias"; quisemos a renovação espiritual do homem moderno. Acreditamos que seja
reconhecer nelas somente fragmentos psíquicos sem significação: da maior importância redescobrir toda uma mitologia, se não
concordávamos no máximo que elas podiam interessar a certos uma teologia, escondida na vida mais "banal" de um Ihomen) mo-
estudos sobre as formas de fuga psíquica. Ora, as nostalgias derno: dependerá dele subir novamente a correnteza e redescobrir
são, às vezes, repletas de significações que envolvem a própria o significado profundo de todas essas imagens envelhecidas e de
situação do homem; dessa maneira, elas se impõem tanto ao todos esses mitos degradados. Que não nos digam que todd esse
filósofo como ao teólogo. Porém, não as levávamos a sério; acredi- refugo não interessa mais ao homem moderno, que pertence a
távamos que eram "frívolas": a imagem do Paraíso Perdido des- um "passado supersticioso", felizmente eliminado pelo séculO'
pertada subitamente pela música de um acordeão; que objeto XI X; que só serve para os poetas, para as crianças, ou para as
de estudo comprometedor. É esquecer que a vida do homem pessoas no metrô se saciarem de imagens e de nostalgias,: mas
moderno está cheia de mitos semi-esquecidos, de hierofanias de- que (por favor!) deixem as pessoas sérias continuarem a pensar,
cadentes, de símbolos abandonados. A dessacralização inces- a "fazer a história": uma tal separação entre o que é "sério na
sante do homem moderno alterou o conteúdo da sua vida espiri- vida" e os "sonhos" não corresponde à realidade. O homem mol/
tual; ela não rompeu com as matrizes da sua imaginação: todo demo é livre para menosprezar as mitologias e as teologias; isso 1
um refugo mitológico sobrevive nas zonas mal controladas. não o impedirá de continuar a se alimentar dos mitos decad~ntes ~
Aliás, a parte mais "nobre" da consciência do homem mo- e das imagens degradadas. A mais terrível crise histórica do mun- I
do moderno - a Segunda Guerra Mundial e tudo o que ela dbsen-' I
derno é menos "espiritual" do que geralmente somos tentados
a crer. Uma rápida análise revelaria nessa "nobre" e "alta" cadeou, com ela e depois dela - mostrou suficientemente que \
esfera da consciência algumas reminiscências livrescas, muitos
a extirpação dos mitos e dos símbolos éilusória. Mesmo na "situa- I I
preconceitos de diversas ordens (religiosos, morais, sociais, estéti-
ção histórica" mais desesperada (nas trincheiras de Stalingqado, !
nos campos de concentração nazistas e soviéticos), homens ~ mu-
cos etc.), algumas idéias prontas sobre o "sentido da vida", "a
lheres cantaram rornanças, escutaram histórias (a ponto de slacri-
realidade última" etc. Não tentaremos descobrir o que aconte-
ceu, por exemplo, ao mito do Paraíso Perdido, à imagem do
Homem perfeito, ao mistério da Mulher e do Amor etc. Tudo
isso, entre muitas outras coisas, se encontra -quão secularizado,
ficar uma parte de suas magras rações para obtê-Ias); essas liistó- l
rias apenas substituíam. os mitos, essas músicas estavam repletas
de nostalgias. Toda essa porção essencial e imprescritível d9 ho-
I
mem - que se chama imaginação - está imersa em pleno sirnbo- ,
degradado e maquiado!. .. - no fluxo semiconsciente da mais
lismo e continua a viver dos mitos e das teologias arcaicas", i I,
material das existências: nos devaneios, nas melancolias, no jogo
livre das imagens durante as "horas vazias" da consciência (na 11 I
'I 6. Ver as ricas e argutas análises de Gaston Bachelard em suas obras sobre
rua, no metrô etc.), nas distrações e nos passatempos de todos
"a imaginação da matéria"; La psycMT/Illyse du feu, L 'eau et les reues [A ágJa e os
os tipos. Entretanto, repetindo, esse tesouro mítico aí repousa sonhos, Martins Fontes], L'air et les songes [O ar e os sonhos, Martins Fonte~], La
"laicizadó" e "modernizado". Aconteceu a essas Imagens, como urre et les rêoeries [A terra e os devaneios da vontade, A terra e os devaneios do repouso, M~rtins
Freud mostrou, o mesmo que às alusões por demais cruas às Fontes 1990],2 vols. (Paris, 1939-1948).0.. Bachelard baseia-se sobretu?o na
realidades sexuais: elas mudaram de "forma". Para assegurar poesia e nos sonhos, e subsidiariamente no folclore; mas mostraríamos facilmente
como sonhos e imagens poéticas prolongam os símbolos sagrados e as mitologias
sua sobrevivência, as Imagens tornaram-se "familiares". . arcaicas. Sobre as Imagens da Água e da Terra, como as que freqüentam os
No entanto, o interesse por elas não diminuiu. Pois essas sonhos e as literaturas, cf. capítulo sobre as "hierofanias" e os simbolismos *quá-
imagens degradadas oferecem um possível ponto de partida para ricos e telúricos no nosso Traité d'histoir« des religions, pp. 168, ss., 211 ss. I
I
16 IMAGENS E SÍMBOLOS
PREFÁCIO 17

Depende apenas do homem moderno, dizíamos, "desper- rios que publicamos este livro. Melhor que ninguém, O histo-
tar" para esse inestimável tesouro de ima~ens que traz consigo; riador das religiões está qualificado para aprofundar o cf>nhe-
despertar as imagens para contemplá-Ias na sua virgindade cimento dos símbolos: seus documentos são ao mesmo tempo
e assimilar sua mensagem. A sabedoria popular muitas vezes mais completos e mais coerentes do que aqueles de qub dis-
exprimiu a importância da imaginação para a própria saúde põem o psicólogo e o crítico literário; eles são tirados da~ pró-
do indivíduo, para o equilíbrio e a riqueza da sua vida interior.
prias fontes do pensamento simbólico. É na história d.a reFgiã~! «:
Certas línguas modernas continuam a lamentar aquele a quem que encontramos os "arquétipos"; os psicólogos e os críticos 't
"falta imaginação", como um ser limitado, medíocre, triste, literários lidam com variantes aproximativas. .
infeliz. Os psicólogos, em primeiro lugar C. G. J ung, mostra-
ram até que ponto os dramas do mundo moderno derivam
de um desequilíbrio profundo da psique, tanto individual co-
mo coletivo, provocado em grande parte pela esterilização
o plano do livro
crescente da imaginação. "Ter imaginação" é gozar de uma
riqueza interior, de um fluxo ininterrupto e espontâneo de Os quatro primeiros capítulos do livro foram redigidts em
imagens. Porém, espontaneidade não quer dizer invenção ar- épocas diferentes e para públicos variados 7. Os capítulos I
bitrária. Etimologicamente, "imaginação" está ligada a imago, e II são acompanhados de um mínimo de notas; a documen-
"represen tação", "imitação", a imitor, "imitar, reprod uzir". tação neles utilizada já fora estabelecida, nos nossos próprios
Excepcionalmente, a etimologia responde tanto às realidades trabalhos, ou nos de outros pesquisadores, Ao contrário, os
psicológicas como à verdade espiri tual. A imaginação imita capítulos lU e IV contêm certo número de notas e de referên-
modelos exemplares - as Imagens -, reproduzindo-os, rea- cias. Os materiais reunidos constituem- em si monografias
tualizando-os, repetindo-os infinitamente. Ter imaginação é úteis, independentemente das interpretações que proP9mos.
ver o mundo na sua totalidade; pois as Imagens têm o poder O último capítulo, que serve ao mesmo tempo como conclusão
e a missão de mostrar tudo o que permanece refratário ao con- geral, apresenta-se igualmente com uma bibliografia reduzida.
ceito. Isso explica a desgraça e a ruína do homem a quem O tema abordado era vasto demais para permitir uma expo-
"falta imaginação": ele é cortado da realidade profunda da sição que fosse ao mesmo tempo cuidadosamente docurnen-
vida e de sua própria alma. tada e extremamente concisa. !

Lembrando esses princípios, quisemos mostrar que o estu- Com exceção desse último capítulo, os diversos estudos
do dos simbolismos não é um trabalho de erudição pura; que, que se seguem não foram compostos com a finalidade de Icons-
pelo menos indiretamente, ele se interessa pelo conhecimento tituir um livro: entretanto, cada um deles respondia, no pensa-
do homem em si; enfim, que ele tem sua opinião a dar quando mento do autor, a um único e mesmo problema, ou s~ja, a
falamos de um novo humanismo ou de uma nova antropologia. estrutura do simbolismo religioso. Cada capítulo apresenta
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Sem dúvida, um tal estudo dos simbolismos não será real-
mente útil se não for feito em colaboração. A estética literária, 7. O quarto capítulo data de 1938 (ver Zalmoxis, tomo 11, pp. 131 55.);
a psicologia, a antropologia filosófica deveriam levar em consi- o terceiro capítulo é de 1946 (ver Reuue de t'histoire des religions, tomo CX'fXIV,
deração os resultados da história das religiões, da etnologia julho-dezembro, o
1947-1948, pp. 5 ss). conteúdo dos capítulos I e 11foi objeto
de nossas conferências de Ascona, 1950-1951 (cf Eranos-fahrbuch, t. XIX e
e do folclore. É sobretudo para os psicólogos e os críticos literá- XX), e um artigo nojoumal de Psychologie.
18 PREFÁCIO
IMAGENS E SÍMBOLOS 19

um simbolismo ou uma família de símbolos, ainda que a ma- complexas e cheias de nuances. Por outro lado, quisemos 'colo-
neira de abordá-Ias possa variar de um para outro. O simbo- car à disposição de psicólogos, críticos literários e filósofos
lismo do "Centro", estudado no primeiro capítulo, e que pro- algumas fontes de documentação abundantes, que, se neces-
longa os resultados de outros estudos anteriores, é exposto sário, poderão utilizar para seus próprios fins. Não é rarp en-
sinteticamente, sem levar em conta os entrelaçamentos da contrar nos livros dos psicólogos e dos críticos literários 'uma
"história". A primeira parte desse capítulo coloca justamente documentação histórico-religiosa bastante insuficiente, fran-
o problema da validade de uma tal apresentação geral do sím- camente falível: os livros dos quais retiram seus materiais são,
bolo e esboça sumariamente as relações entre a psicologia e com freqüência, produto de amadores desprovidos de ~t.lal-
a história das religiões. quer senso crítico, ou de "teóricos" isolados". Os não-f,spe-
O segundo capítulo analisa O simbolismo do Tempo e da cialistas respondem, com razão, que não podem substituir os
"saída do Tempo" em uma mesma área cultural: a índia anti- etnólogos e os historiadores das religiões, que não têm ~eios
ga. O terceiro capítulo aborda o simbolismo dos nós, em dois nem tempo para pesquisas prolongadas e que por iSSQsão
planos complementares: após ter-se restringido aos indo-eu- forçados a se contentar com as obras "gerais" que tê, em
ropeus, utilizando sobretudo as pesquisas de Georges Dumé- mãos. O infortúnio faz com que, na maior parte do terpo,
zil, ele tenta comparar esses dados aos simbolismos paralelos
,
de outras culturas arcaicas. É sobretudo nesse capítulo que 8. Freud acreditou que poderia descobrir a "origem" das religi~es no
mediremos as vantagens e limites tanto da investigação histó- complexo de Édipo nascido de um parricídio primordial, parricídio ~itual-
rica como da análise morfológica e que compreenderemos me- mente repetido nos "sacrifícios totêmicos". Ele elaborou sua teoria -r- que
parece ter ainda. a aprovação dos psicanalistas - em 1911-1912, utilizando
lhor a necessidade de utilizarmos sucessivamente esses dois
a hipótese da "horda primordial" de Atkinson e a do "sacrificio-com~nhão
métodos complementares. O quarto capítulo, dedicado a um totêmico" de Robertson-Smirh. No momento em que Freud elaborava sua
grupo de símbolos solidários (Lua - Água - Fertilidade explicação do sentimento religioso e acreditava ter achado a "origerrr" das
etc.), constitui uma descrição do tipo morfológico, propon- religiões, as duas hipóteses citadas já não tinham crédito entre os emólogos
do-se a clarificação das estruturas. Enfim, o último capítulo e historiadores das religiões competentes. Ainda que Freud tenha lido ~razer
e conhecido as conclusões deste último, ou seja, a não-universalidade d~ tote-
retoma os resultados de todas essas investigações, regidas por mismo como fenômeno sociorreligioso (pois é desconhecido em num~rosas
diferentes pontos de vista, tendo como objetivo uma integração tri bos "prirni tivas") e a extrema raridade dos "sacrificios-comunhão totêl' COS"
sistemática do simbolismo mágico-religioso. (quatro casos somente - e ainda não muito bem verificados - para árias
O psicólogo se interessará mais pelos dois primeiros capí- centenas de tribos totêmicasl}, Totem und Tabu foi publicado em for a de
livro em 1913 e é desde então reeditado continuamente e traduzido em yárias
tulos e pelo último. O leitor apressado poderá dispensar-se
línguas ... (Poderíamos invocar para a defesa de Freud a publicação e"} 1912
de ler todas as análises e referências dos capítulos III e IV.' do famoso livro de Émile Durkheim, As formas elementares da rida religiosa;
Não julgamos oportuno suprimir essas notas. O perigo dos livro precioso em vários aspectos, às vezes quase genial, mas infelizmente
estudos sobre o simbolismo reside em uma generalização pre- desprovido de base. Consideravelmente mais bem informado que ~reud,
cipitada. Os profanos tendem a se contentar com os primeiros Durkheim caiu no mesmo erro quanto ao método, esforçando-se em achar
no totemismo a origem das religiões. Este mestre eminente teria ganho se
documentos que caem sob seus olhos e a construir audaciosas
tivesse levado em conta os trabalhos de seus colegas etnólogos e antropólogos
interpretações "gerais" sobre os simbolismos. Fizemos ques-
tão de apresentar pelo menos duas amostras de análises dos
'que já tinham provado suficientemente que o toternisrno não representa mais 1
antiga camada das religiões australianas e, mais ainda, que ele está ausente em
símbolos, para sublinhar o quanto as coisas são, na realidade, inúmeras culturas arcaicas dispersas pelo mundo.)
20 IMAGENS E SíMBOLOS (' PREFÁCIO 21
"
os não-especialistas dêem com as mais medíocres obras gerais; do "Centro"? No entanto, a validade do símbolo enquanto
e, quando têm melhor sorte, acontece mais de uma vez lerem forma de conhecimento não depende do grau de compreensão
mal ou depressa demais. de tal ou tal indivíduo. Textos e monumentos figurados nos
É por isso que resistimos à tentação de suprimir as referên- provam abundantemente que, pelo menos para certos ~ndiví-
cias bibliográficas: talvez certos não-especialistas sintam ne- duos de uma sociedade arcaica, o simbolismo do. "Centro"
cessidade de entrar em contato pessoal com a massa de traba- , era transparente na sua totalidade. O resto da sociedade con-
\
lhos da etnologia e da história das religiões, em vez de se tentava-se em "participar" do simbolismo. E, aliás, é difícil
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alimentarem com as lamentáveis e antiquadas elucubrações precisar os limites de tal participação: ela varia em função
dos diletantes óu dos "teóricos", que se preocuparam sobre- de um número indeterminado de fatores. Tudo o que podemos
tudo em ilustrar suas próprias explicações gerais. A literatura dizer é que a atualização de um símbolo não é mecânica: ela
psicológica, e especialmente a produção psicanalítica, familia- está relacionada às tensões e às mudanças da vida social, e
rizou o leitor com as explicações prolixas de "casos" indivi- em último lugar aos ritmos cósmicos.
duais. Muitas vezes consagram-se páginas inteiras a detalhar Mas todos os eclipses ou as aberrações que um simbo-
sonhos ou devaneios de certos pacientes. Foi publicado na lismo pode sofrer, pelo próprio fato de ele ser vivido, não infir-
Inglaterra um volume de setecentas páginas sobre a "mito- mam a validade da sua hermenêutica. Para emprestar um
logia dos sonhos" de um único indivíduo. Os psicólogos con- exemplo a uma outra ordem de realidade: seria indispensá-
cordam em considerar indispensável a redação in extenso de vel, para julgar o simbolismo da Divina Comédia, perguntar
todo "caso" particular e, quando se resignam a fazer cortes, o que os milhões de leitores espalhados pelo mundo com-
fazem-no quase sempre contrariados: seu ideal seria publicar preendem ao ler esse livro difícil, ou então o que o próprio
o material integralmente. Por razões ainda mais fortes, deve- Dante sentiu e pensou ao escrevê-Io? Quando se trata de
ríamos fazer o mesmo com o estudo do simbolismo: devería- uma obra poética mais livre, quero dizer, que dependa mais
mos apresentá-Ia em suas linhas gerais, mas também nas suas diretamente da "inspiração" - por exemplo, os produtos
nuances, variações e hesitações. do romantismo alemão -, não temos nem mesmo o direito
O problema central e mais árduo continua sendo, eviden- de nos limitar ao que os autores pensavam de suas próprias
temente, o da interpretação. Em princípio, podemos sempre criações para interpretar o simbolismo que elas implicam.
nos perguntar sobre a validade da herrnenêutica. Através de É um fato que, na maioria das vezes, um autor não esgota
verificações múltiplas, por meio de afirmações claras (textos, o sentido da sua obra. Os simbolismos arcaicos reaparecem
ritos, monumentos figurados) e de alusões meio veladas, pode- espontaneamente, mesmo nas obras de autores "realistas",
mos demonstrar através de exemplos o que "quer dizer" tal que ignoram tudo de tais símbolos. I

ou tal símbolo. Podemos também colocar o problema de uma Aliás, essa controvérsia em torno dos limites legítimos da
outra maneira: os que utilizam os símbolos estarão cientes hermenêutica dos simbolismos é inútil. Vimos que os Imitos
de todas as implicações teóricas? Quando, por exemplo, estu- se degradam e os símbolos se secularizam, mas eles nunca
dando o simbolismo da Árvore cósmica, dizemos que essa Ár- desaparecem, mesmo na mais positivista das civilizações, a
vore se encontra no "Centro do Mundo", todos os indivíduos do século XIX. Os símbolos e os mitos vêm de longe: eles
que pertencem às sociedades que conhecem essas Árvores cós- fazem parte do ser humano, e é impossível não os reencontrar
micas estarão igualmente conscientes do simbolismo integral em qualquer situação existencial do homem no Cosmol
22 IMAGENS E SÍMBOLOS

*
Gostaríamos de agradecer aqui a nosso mestre e amigo
Georges Dumézil, professor do Collêge de France, que aceitou
ler e corrigir uma primeira redação do terceiro capítulo, e parti-
cularmente a nosso caro amigo Dr. J ean Gouillard, que teve
a amabilidade de corrigir o resto do manuscrito. CAPíTULO I

Paris, maio de 1952


SIMBOLISMO DO "CENTRO"

Psicologia e história das religiões

Muitos leigos invejam a vocação do historiador dasl reli-


giões. Que ocupação seria mais nobre e enriquecedora d~ que
freqüentar os grandes místicos de todas a~ religiões, viver fntre
os símbolos eos mistérios, ler e compreender os mitos de ~odas
as nações? Imaginam que um historiador das religiões se sente
em casa tanto entre os mitos gregos e egípcios, como ~ntre
as mensagens autênticas do Buda, os mistérios taoístas e os
ritos secretos de iniciação das sociedades arcaicas. Talvbz os
leigos não estejam inteiramente errados em imaginar o bisto-
riador das religiões solicitado pelos grandes e verdadeiros pro-
blemas, ocupado em decifrar os símbolos mais grandiosos e
os mitos mais complexos e e~evados d~ ime..?s~massa .de I fatos
que se oferece a ele. Na realidade, a situaçao e bem diferente.
Muitos historiadores das religiões são tão absorvidos por sua
própria especialidade que não conhecem muito mais sobre
os mitos gregos ou egípcios, sobre a mensagem do Buda ou
sobre as técnicas taoístas ou xamanistas do ql.le um arrlador
que soube orientar suas leituras. A maioria está familiarizada
apenas com um pequeno setor do imenso campo da hi~tória
das religiões. Infelizmente, mesmo esse modesto setor: com
freqüência é explorado superficialmente - decifração, edição
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