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Origem e formação das línguas românicas

A expansão do poder romano


e seu patriotismo
As línguas românicas são um resultado da expansão territorial da antiga
cidade de Roma, fundada em 753 a.C., que dominou primeiro as cidades
vizinhas, depois as terras italianas continentais, em seguida as ilhas do Mar
Mediterrâneo. Esse império inicial estendeu-se em seguida para o resto
da Europa ocidental, para as terras litorâneas africanas e orientais, todas
banhadas pelo mesmo mar.

Evidentemente, a essa expansão territorial correspondeu um aumento


enorme de povos dominados não apenas pela força de exércitos formi-
dáveis, mas também pela maior cultura e melhor organização política. A
necessidade de se manterem obrigou esses povos a se tornarem bilíngues
apesar de serem a maioria em suas terras, acarretando o princípio de uma
evolução por estarem duas línguas, em contacto direto.

Houve somente duas terras que foram dominadas, mas não vencidas,
porque se submeteram ao governo romano, mas mantiveram as suas
tradições por serem altamente civilizados e conscientes do seu poder
intelectual.

O maior desses derrotados foram os gregos, que terminaram por se tor-


narem professores dos seus inimigos, a que legaram uma tradição de arte
e ciência que obrigou os vencedores a estudarem e dominarem a língua
grega: poucos eram os romanos cultos que continuaram monolíngues.

Entre esses, a história conservou o nome de Marcus Porcius Cato (234-


-149 a.C.), em nossa língua Márcio Pórcio Catão, homem austero e mo-
ralista, que firme na sua romanidade se negou por anos a fio a deixar-se
embriagar pelo encantamento grego, mas ao fim da vida capitulou. Além
dessa rendição e mais que ela, ficou conhecido por seus discursos inci-
tando os romanos a nova guerra contra a cidade de Cartago. Discursava
em todas as sessões do Senado Romano e terminava cada uma das suas
orações com a mesma frase:
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Caeterum censeo Carthaginem esse delendam [De resto eu opino que Cartago
deve ser destruída].

A guerra começou no ano de sua morte e em 146 a.C. Cartago foi arrasada
depois de três anos de cerco.

Catão se rendeu por ter confirmado que a influência grega tinha penetra-
do até na própria língua latina, recheada de termos gregos, principalmente no
campo das Ciências e das Artes, trazidos por escravos cultos que se tornaram
professores nas casas das famílias dos patrícios, a classe nobre da elite romana.
Incorporados no dia-a-dia do povo romano, não é de espantar que esses vocá-
bulos gregos com seus radicais, prefixos e sufixos tenham sido levados para as
terras conquistadas, cujos povos tomaram os empréstimos linguísticos necessá-
rios para o intercâmbio com os vencedores.

Foram subjugados pelos romanos, mas se mantiveram culturalmente inde-


pendentes os povos das terras orientais banhadas pelo Mar Mediterrâneo: entre
eles, os judeus, que acabaram expatriados na segunda metade do primeiro
século da nossa era cristã. Diferentemente do latim, que a própria Igreja Católica
abandonou com os últimos papas, a língua hebraica continuou viva num pu-
nhado de homens extremamente cultos por ser mais que a língua do povo, mas
a língua de Deus: desde os meados do século passado, esse povo conseguiu a
proeza de tornar popular o hebraico, língua oficial de Israel.

Também os povos árabes souberam sobreviver sem maiores mudanças ao


longo domínio romano. Ao mesmo tempo, quando conquistaram o norte da
África, foram eles que extinguiram a influência latina, a latinidade praticamente
ficou enterrada, ainda que poucos séculos antes da conquista muçulmana do
sul da Península Ibérica, a herança romana do norte africano era inteiramente
vívida, bastando-nos citar a figura de Santo Agostinho (354-430), nascido em Ta-
gasta, hoje Argélia, e morto em Hipona, quando os vândalos cercaram e derrota-
ram a cidade, de que era bispo: as suas Confessiones [em português, Confissões]
nos trazem um espírito lúcido que escreve em um latim evoluído, que desafortu-
nadamente os eruditos chamam decadente pela simples razão de ser diferente
daquele praticado por Caius Julius Caesar e Marcus Tulius Cicero, os dois maiores
prosadores da cultura romana. Seria o mesmo se disséssemos que Machado de
Assis (1839-1908) escrevia numa língua portuguesa decadente, menos bela que
a dos clássicos do século XVI. Outra coisa seria a língua do povo pouco ou nada
escolarizado, que teria enorme semelhança com a fala brasileira do povo, igual-
mente, pouco ou nada escolarizado.

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O Prof. Dr. Eurico Back e eu realizamos uma pesquisa à procura de uma linguís-
tica puramente brasileira. A nossa primeira discussão foi sobre significante e sig-
nificado. O primeiro nenhuma dúvida traz, porque é material, passível de se falar
e de se ouvir, de se escrever e de se gravar em disco. O segundo é imaterial. Eu
lia nesse meio tempo as Confessiones de Santo Agostinho e em uma das páginas
de suas Confissões, eu apontei o parágrafo em que ele falava da sua infância e de
como aprendia a língua falada. Disso veio a nossa definição de significado (BACK;
MATTOS, 1972, p. 15), a que acrescento um complemento para maior clareza:

Significado é a associação entre um significante e a situação [cultural em que


se realiza o diálogo].

É por isso que uma criança aprende a língua materna sem ninguém a ensinar:
ela ouve os significantes dentro de uma situação cultural, no caso uma situação
familiar que se repete dia por dia. Com isso, observa também que atos ocorrem
logo depois desse ruído que ouve – pois o ruído se transforma em palavra e frase
somente depois que se relaciona a fala com as suas consequências de praticidade.
A criança é um aluno sem professor, porque nenhum dos seus familiares lhe diz o
que significam as palavras que ela ouve: ativa, ela descobre e nunca mais esquece.

Essa ideia de baixa latinidade, de idade de ferro, depois de uma de prata que
seguiu uma primeira de ouro, deveria referir-se à desagregação populacional das
terras conquistadas pelos romanos que obrigaram os moradores ao uso da latim
e com isso o aprenderam desadequadamente, num primeiro momento com uma
quantidade maior de adultos. Outra coisa é a necessidade de considerar que artis-
tas perfeitos podem acontecer numa época e nenhum igualar-se depois dele.

Algo bem parecido aconteceu no Brasil nos séculos XVI e XVII quando negros
e índios passaram a usar a língua portuguesa: era uma língua atropelada pelas
línguas nativas daqueles falantes.

Nada disso aconteceu no norte da África até a chegada dos árabes. Assim, o
latim africano era apenas a evolução natural de uma língua. O fato de nenhum
dos seus autores ter tido o talento e o gênio de Publius Virgilius Maro – Virgílio
(70-19 a.C.) e Quintus Horatius Flaccus – Horácio (65-8 a.C.), ou de Caius Julius
Caesar – César (100-44 a.C.) e Marcus Tullius Cicero – Cícero (106-43 a.C.), essa é
uma fatalidade que nem os deuses explicam.

Do contrário, seríamos obrigados a reconhecer que o século XVI falava um


português perfeito, que os séculos posteriores fizeram desaparecer. Depois de
Camões (1524-1580) tivemos de esperar quatrocentos anos para termos outro
Camões na pessoa de Fernando Pessoa (1888-1935).
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Línguas em conflito:
a língua latina e as línguas nativas
Qual seria a origem de um homem de sessenta anos?

A resposta parece única:

Se ficarmos com esse ser humano, nenhum sentido teria falarmos da sua
origem: todos eles nascem, se desenvolvem, amadurecem, se fragilizam e morrem.

Sempre me pareceu esquisito que ninguém tenha comparado a história das


línguas à das espécies de seres vivos: a evolução não mudou nenhum deles em
outro. Concordo, porém, que é mais cômodo dar um novo nome a um estágio
posterior de uma língua, pois seria mais longo e cansativo chamar a língua por-
tuguesa de língua latina portuguesa (evoluída desde o século VIII).

Por outro lado, se quisermos considerar as suas capacidades físicas, mentais


e sociais, deveremos analisar a sua convivência: os encontros e os desencontros
de suas atividades pessoais e interpessoais para sabermos o que faz que ele seja
quem ele é e o que ele pode.

Se, no entanto, sairmos para antes desse homem, aí temos a possibilidade de


investigar e assim descobrir a sua origem: o seu local de nascimento, a nacionali-
dade e a língua que ele herda, os seus pais, os seus avós, os seus bisavós, os seus
trisavós, os seus tetravós. Numa palavra: os seus ascendentes.

Eu bem sei que língua não é gente, mas é parte essencial de gente e, portan-
to, pode-se honestamente pensar num paralelo entre uma e outra.

Em consequência, parece-me um desacerto pensar que as línguas neolatinas


têm a sua origem na latina: seria o mesmo que o velho ter a sua origem na crian-
ça e não nos seus pais e ancestrais.

As línguas neolatinas são simplesmente uma continuação da latina que se


modificou com a passagem do tempo e com as trombadas em outras línguas
que deixou mortas ao longo do seu caminho.

O pídgin é uma língua de emergência que nasce para servir de veículo even-
tual de comunicação entre pessoas de línguas diferentes: não é nenhuma delas,
mas tem partes de cada uma delas. No momento em que se estruturar e passar
a ter uma comunidade que a fale nascimentos após nascimentos, dessa língua
podemos falar que tem a sua origem nas línguas matrizes por ela não ser nenhu-

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ma delas que a formaram: é filha de mães conhecidas. Essa semelhança nunca


existiu entre o latim que se transformou ao longo do tempo por uma história
de conflitos linguageiros. Vou ainda mais longe: a língua latina, a grega, a ger-
mânica, a eslava e várias outras continuam alguma língua muito mais antiga, a
que chamamos indo-europeia. E nessa lista deve-se agregar o sânscrito, a língua
indo-europeia mais antiga que tem uma literatura de alta qualidade que criou
por primeiro a epopeia.

Diferentemente da gente, as línguas envelhecem e morrem ou se infantili-


zam, rejuvenescem e se tornam adultas. Quer parecer-se que foram esses os fe-
nômenos que fizeram morrer a língua latina e criaram as neolatinas.

Comecemos citando as línguas românicas, aquelas que têm um povo que as fala
com uma continuidade temporal ininterrupta entre a derrocada do Império Romano
e a atualidade, além de apresentarem uma independência que as distinguem dos
diversos falares ou dialetos, possuem formas paralelas de uma mesma língua.

Se houver alguma regra que permita passar de uma modalidade linguística


para outra, do ponto de vista filológico e linguístico, ambas são dialetos, moda-
lidades da mesma língua, ainda que um deles possa ser mais importante que
o outro. Entre línguas que continuam uma forma bem mais antiga, há uma se-
melhança que é puramente um acidente do percurso porque se mantiveram os
caracteres essenciais do velho latim.

Eis as línguas românicas:

 Castelhano, falada na Espanha e em países de cultura espanhola.

 Catalão, falado na Catalunha.

 Dálmata, falado na antiga Dalmácia, desaparecido em 1898 com a morte


do seu último falante.

 Francês, falado na França e em países de cultura francesa.

 Galego, falado na Galiza.

 Italiano, falado na Itália.

 Português, falado em Portugal e em países de cultura portuguesa, sendo


o Brasil o de povo mais numeroso.

 Provençal, falado no sul da França.

 Rético, falado em parte da Suíça e da Itália.


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 Romeno, falado na Romênia.


 Sardo, falado na Sardenha.

Devo acrescentar que o galego talvez possa ser considerado uma colíngua
da portuguesa, mas existem fartas razões para as considerarem línguas diversas
apesar da semelhança impressionante entre ambas. Separadas politicamente
desde o século XIII e com o intercâmbio humano cada vez mais escasso, evolu-
ções diferentes as separaram, ainda que continuem perfeitamente compreensí-
veis para os falantes da outra.

A latinização e a formação
das línguas românicas
As línguas românicas resultam da história dos povos dominados pelo exérci-
to romano e pela convivência da língua nativa deles com a que lhes foi imposta
e sobreposta pela força e pela cultura mais avançada. Em todos os casos dessas
línguas, as línguas nativas resistiram algum tempo, sempre com menos falantes
e por fim sem nenhum, aparecendo mais uma língua morta de um povo venci-
do por uma outra cultura por lhe terem tirado o tempo necessário para o seu
avanço em direção ao futuro.

A evolução de uma língua pode fazer-se de duas maneiras: espontânea ou


motivada.

No caso da evolução da primitiva língua românica, ainda dialeto do latim, ne-


nhuma dificuldade se tem para distinguir as evoluções espontânea e motivada.

A evolução espontânea procura alguma facilidade em alguma parte da língua


e parece vir de preferência da boca das crianças. Foi ela que provocou o desapa-
recimento do futuro do presente [amabo: amarei] e do futuro anterior [amavero:
terei amado]: todas as línguas românicas perderam essas duas formas de futuro.

A evolução motivada nasce de alguma lacuna da própria língua, sentida pelos


falantes, ou depende de algum contato entre línguas, que força o aparecimento
de uma novidade.

A falta desses dois tempos do futuro foi sentida em toda parte e assim veio
a necessidade de se achar um meio de expressar esse tempo, o que foi feito por
uma evolução motivada que levou ao aparecimento de novas formas, mas não
únicas em todo povo românico.
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A evolução foi, portanto, motivada.

Língua portuguesa: eu morrerei.

Língua romena: eu vói murí.

A evolução espontânea provoca o aparecimento de um dialeto dentro da


mesma língua, enquanto a evolução motivada pouco a pouco modifica a língua
de maneira tão acentuada que se chega a um momento irreversível em que ne-
nhuma regra pode converter a forma de uma das modalidades em forma da
outra: a forma da mais antiga revela a da mais evoluída.

Formas da evolução
A língua do povo brasileiro faz alguns ditongos desaparecerem, mas se pode
dar uma regra porque acontece com o ditongo antes de determinadas consoan-
tes em palavras bem comuns na língua:

beijo > bejo / beira > bera / deixa > dexa.

A formação das línguas românicas tem a sua origem na evolução espontânea


da língua latina com transformações idênticas em todo o território, constituindo
assim um numeroso dialeto da língua latina. A fragmentação delas vem com a
evolução motivada.

A maioria das evoluções espontâneas ocorre quando a língua possui uma


grande redundância que garante o reconhecimento do significado que mais de
um dado linguístico assinala sem nenhuma dúvida.

A concordância nominal e verbal exemplificam a redundância:

Os [mais de um] bons [mais de um] alunos [mais de um] fazem provas [mais de
um] excelentes [mais de um].

Os bons alunos [mais de um] fazem [mais de um] provas excelentes.

O primeiro desses exemplos apresenta duas redundâncias de concordân-


cia nominal e o segundo uma redundância da concordância verbal. Em vista
disso nasceu na língua do povo o desejo de eliminar essas redundâncias e esse
desejo venceu:

Os bom aluno faz provas excelente.

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E permito-me ainda outro exemplo do dialeto popular da língua portuguesa


do Brasil com um hipotético diálogo entre dois caboclos:

– Nós vai amanhã ver o jogo?

– Claro que vamo.

A falta de redundância implica a obrigatoriedade do emprego da forma plural


do verbo, enquanto a presença do pronome a impede.

A proximidade do adjetivo com o seu substantivo e a forma do sujeito e a


terminação do verbo constituem elementos que garantem o significado.

A evolução espontânea, a que nenhuma língua escapa, se faz a cada dia em


seus sons, em suas palavras e em suas frases por iniciativa isolada de um dos
falantes, mas achada boa por outros que a divulgam e acabam por incorporá-la
primeiro na fala e mais tarde nos dicionários. O que acham os meus leitores?

– Beleza!

Trata-se de um exemplo de uma evolução espontânea: é uma nova interjei-


ção da nossa língua sempre com um significado afirmativo e aprobativo.

Esse sentido, parece que serei o primeiro a registrá-lo, pois trabalho na quarta
edição do meu Dicionário Júnior da Língua Portuguesa: desconhecem-no os di-
cionários de Antônio Houaiss (1915-1999) e de Aurélio Buarque de Holanda Fer-
reira (1910-1989).

Pode perfeitamente acontecer que o termo seja empregado por tanta gente
que o povo todo abandone o sentido substantivo dessa palavra e a troque por
outra: formosura ou lindeza, talvez.

E teria aparecido uma evolução semântica.

Há evoluções fonéticas. Uma delas existe em uma forma regional da língua


portuguesa das terras paulistas: em torno de Araras. Nessa variante houve uma
evolução espontânea, porque puramente local, em que a consoante lateral
depois de uma oclusiva tornou-se uma colidente [vibrante simples]:

claro > craro / plantar > prantar / atleta > atreta / glória > grória / bloco > broco.

Há evoluções vocabulares. A maioria delas ocorre por analogia, que é um tipo


de quarta proporcional em termos matemáticos aplicados aos linguísticos. Bons
exemplos nos dão as palavras populares perca e ponhar:

Se eu cato (1) faz a cata (2), então eu perco (3) deve fazer a perca (4)...
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Se eu sonho (1) faz sonhar (2), então eu ponho (3) deve fazer ponhar (4)...

Há evoluções sintáticas. Uma delas ocorreu ainda dentro da língua latina nos
séculos posteriores à queda do Império Romano: a ordem dos termos da oração
puxou o verbo para mais perto do sujeito criando uma nova ordem direta nesse
latim tardio. A língua anterior tinha uma liberdade imensa na ordem das pala-
vras, mas a ordem direta impunha o verbo como palavra derradeira:

Helvetii quoque reliquos Gallos virtute praecedunt [No latim clássico: os hel-
vécios também aos demais gauleses em força excedem] (CÉSAR apud MATTOS,
2001, p. 92)

A nova ordem direta deixava antes do verbo apenas o sujeito:

Helvetii praecedunt quoque reliquos Gallos virtute [No latim românico: os hel-
vécios excedem também os demais gauleses em força].

É claro que a nova ordem direta foi uma porta aberta para uma evolução mo-
tivada: a queda de um dos casos que uma regra espontânea já tinha reduzido a
dois dentro da România; nominativo e acusativo.

E acontece também em nossa língua portuguesa do Brasil. Outra vez a maio-


ria delas ocorre por analogia, mas envolvendo agora pares de frases, ainda numa
quarta proporcional:

Se eu amo meu marido (1) e meu marido me ama (2),

então eu amo ele (4) e ele me ama (3).

A evolução sintática e muitas vezes também a vocabular aparecem com faci-


lidade quando se conserva não mais que uma parte muito pequena de um fato
gramatical que era comum e rotineiro num estágio anterior da língua: o que era
regular e todos usavam passa a ser irregular e, por ser exceção, se torna frágil. As
frases anteriores tinham formas diferentes no latim falado pelo povo romano até
o século VI e pelos monges e pelas poucas pessoas cultas até o século XIII ou XIV:

Ego amo meum maritum et meus maritus me amat.

Ego amo illum et ille me amat.

Como pertencem a uma classe pequena e de intenso emprego, os pronomes


conservaram as formas do nominativo (ele), do dativo (lhe) e do acusativo (o) nas
três pessoas do singular e do plural. A irregularidade, porém, é tamanha que as
formas do objeto direto, vindas do acusativo latino, ainda persistem na primeira

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e na segunda pessoa, também empregadas para o objeto indireto, vindas do


dativo, mas assimiladas às do objeto direto. O dativo da terceira pessoa passa na
língua do povo a se referir apenas a pessoas e assim toma a regência dupla dos
pronomes de primeira e segunda pessoa:

Eu já lhe [objeto indireto] falei que lhe [objeto direto] amo, meu bem!

Uma evolução vocabular praticamente vitoriosa na fala popular brasileira eli-


mina as formas irregulares do futuro do subjuntivo, dado que restam apenas
17 verbos e seus derivados em que elas se distinguem das formas do infinitivo,
agravando o problema escolar o uso raríssimo de alguns deles e penoso em dois
outros, que cito abaixo:

Se ele vir [vier] me ajudar, eu ficarei feliz.

Se eu ver [vir] você com eles, eu chamo a polícia.

E o número desses 17 cai bastante.

As irregularidades linguísticas podem manter-se somente com a pressão da


família, da escola e dos meios de comunicação de massa, todos ajudados por
uma ação enérgica do Governo nos vários setores sociais. Essa ação política é
praticamente a única arma contra o analfabetismo, que propicia enormemente o
aparecimento de formas regulares e a consequente morte das irregulares porque
na maioria das vezes o analfabetismo e a pobreza andam de mãos dadas.

Entretanto, se o fato gramatical abarca todas as palavras de uma língua, a evo-


lução espontânea fica bloqueada. Acontece com as línguas eslavas, que têm sete
casos contra os seis do latim e os quatro do alemão. E o mais grave é que o nominati-
vo [caso de pessoa de que se fala] e o vocativo [caso da pessoa que é chamada] com
extrema frequência têm formas diferentes com exemplo de uma palavra polonesa:

 A criança responde à pergunta sobre quem a trouxe para a escola:

– Mama.

 A criança cai e chama a mãe:

– Mamo!

Há evoluções semânticas, estas dependem da liberdade do falante que pode


por uma necessidade momentânea torcer o significado de uma palavra dentro
de um texto, falado ou escrito, em que fica comprovado que permanece o senti-
do comum, alterado aqui pelo falante por ter bons motivos para isso.

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 Metáfora de Drummond de Andrade (1969, p. 235):

Sorrimos também – mas sem interesse – para as mulheres

bojudas que passam, [grávidas]

cargueiros adernando em mar de promessa contínua.

 Metonímia de Drummond de Andrade (1969, p. 17):

Devagar... as janelas olham [os moradores].

 Sinédoque de Drummond de Andrade (1969, p. 60):

Do lado esquerdo carrego meus mortos [no coração].

Por isso caminho um pouco de banda.

Nesses três exemplos, o contexto provoca um segundo significado, embora


sem anular o habitual: cada um deles é, portanto, um recurso estilístico sem ne-
nhuma evolução de palavra da língua. Pode acontecer, porém, que qualquer
dessas figuras de estilo tenha um emprego tão intenso que se torne uma segun-
da acepção da palavra primitiva ou acabe matando o significado original.

O primeiro caso acontece muito nas línguas e tem o nome de catacrese.

 Catacrese com base na metáfora:

A mesa ficou bamba com a perna quebrada.

 Catacrese com base na metonímia:

Já foi dada a primeira mão de tinta.

A evolução espontânea certamente existe em todas as línguas do mundo


porque as crianças nascem e nunca repetem integralmente a fala dos pais e
avós. As mudanças linguísticas, contudo, levam séculos para serem percebidas.

A evolução motivada, ao contrário, depende primeiramente do contato de


línguas que disputam o mesmo território ou têm territórios vizinhos com grande
intercâmbio pessoal.

A evolução motivada faz as línguas se modificarem na medida da potência de


cada uma ou leva a mais fraca ao desaparecimento. Tem o exemplo da Suíça e do
Canadá, que disputam o mesmo território: este (Canadá) tem o francês e o inglês
disputando alguns territórios, enquanto aquela (Suíça) tem o alemão, o francês,

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o italiano e o rético, línguas que aparecem em ordem alfabética e também em


ordem decrescente de importância por mera coincidência.

A evolução espontânea tem limites precisos porque a distância política é


também uma fronteira para essas línguas em contato. Creio que há uma evolu-
ção puramente individual: um ou outro dos moradores toma alguma palavra ou
algum torneio da língua vizinha. Aconteceu um caso curioso na cidade boliviana
de Porto Suarez, vizinha de Corumbá, cidade do Mato Grosso do Sul. Havia um
vendedor que falava um espanhol perfeito, mas uma das suas palavras tinha
sido derrotada pela brasileira: em lugar da espanhola hasta ele usava sempre a
portuguesa até...

Depois dessa longa explanação, devo acrescentar que a língua latina atraves-
sou a evolução espontânea e também a motivada.

A espontânea tem merecido pouco ou nenhum destaque dos pesquisado-


res, mas foi ela que levou a língua arcaica ao esplendor dos duzentos anos que
cercam o início da Era Cristã.

Houve uma evolução fonética bem extensa, que mudou o aspecto sonoro da
língua, deixando o acento tônico na antepenúltima ou penúltima sílaba da pala-
vra, nunca mais na sua primeira sílaba, além de poder produzir metafonias:

cónducere > condúcere: conduzir

ínamicus > inimícus: inimigo

pérfacere > perficere: perfazer [ultimar]

Houve ainda mudanças nas declinações:

lupod > lupo: ao lobo

Apareceu depois dos anos de glória uma grande simplificação nas desinên-
cias nominais por uma evolução simultaneamente vocabular e sintática, ainda
espontânea, embora ocorrendo na língua do povo, conhecido como latim
vulgar, nome impróprio pelo sentido pejorativo que contaminou esse adjetivo e
o substantivo derivado: vulgar e vulgaridade.

As cinco declinações se reduziram a três em todas as terras da România, por


se incorporar a quarta na segunda e a quinta mais comumente na primeira:

A primeira em -a: lupa, plural lupae [lúpai].

A segunda em -us: lupus, plural lupi [lúpi].


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A terceira com outras terminações: rex, plural reges [regues].

Mais profunda foi a eliminação de quatro dos seis casos [nominativo: N / ge-
nitivo: G / dativo: D / acusativo: Ac / ablativo: Ab / vocativo: V], substituídos pelas
preposições que passaram a requerer um caso único, restando o nominativo e o
acusativo, o que também aconteceu em toda a România:

Número Singular Plural

Versão loba lobo rei lobas lobos reis

N lupa lupus rex lupae lupi reges

G de lupam de lupum de regem de lupas de lupos de reges

D ad lupam ad lupum ad regem ad lupas ad lupos ad reges

Ac lupam lupum regem lupas lupos reges

Ab cum lupam cum lupum cum regem cum lupas cum lupos cum reges

V o lupa o lupus o rex o lupae o lupi o reges

Essas foram as inovações populares na língua latina, iniciadas no século IV e


completadas no século VI: todas imotivadas, portanto independentes de con-
flitos entre línguas rivais, porque as línguas dos vencidos deviam estar pratica-
mente sem nenhuma força para interferir na marcha da língua vencedora.

Texto complementar

O imperativo no português e no espanhol


(CRUZ, 2008)

Por serem línguas-irmãs, originárias da mesma base latina, o português e


o espanhol possuem, certamente, várias estruturas formais comuns entre si,
tais como a morfossintaxe e a fonética. E as formas verbais parecem seguir
essa característica genética que possuem os irmãos, no caso as duas línguas
neolatinas.

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Para poder comprovar, ou não, a assertiva, anterior aqui será estudado um


pouco o verbo latino, mais especificamente seu modo imperativo, assim como
esse mesmo modo verbal na língua portuguesa e na espanhola, verificando as
semelhanças que se supõe existir pelo fato da base comum, tentando identificar
que semelhanças seriam essas e procurando apontar também as diferenças en-
contradas, que devem certamente existir por se tratarem de línguas diferentes.

Devemos nos lembrar sempre que o português e o espanhol, assim como


todas as línguas neolatinas, descendem diretamente do latim vulgar, não do
latim culto e literário. Por isso far-se-á primeiro um brevíssimo estudo do im-
perativo desse latim do vulgus, partindo depois para estudá-lo, comparativa-
mente, no português e no espanhol.

Na língua latina haviam dois tipos de imperativo, dos quais no chamado


imperativo II o futuro tinha um aspecto sobrevivente desde a época clássica,
não sendo mais encontrado em outras situações a não ser em fórmulas jurí-
dicas ou consagradas, não restando rastro dele nas línguas românicas.

O imperativo, com todo seu aspecto de futuro, sofre no decorrer do


tempo a influência do modo subjuntivo. Parte dos verbos latinos apresen-
tam, quando do surgimento do romance, a presença de formas do imperati-
vo que remontam ao subjuntivo. Em terceiras pessoas, que não têm o impe-
rativo, esta função se realiza através do subjuntivo.

A fala familiar tende a colocar o imperativo pelo presente do indicativo


quando se espera a execução imediata de uma ordem. É o presente do in-
dicativo latino que representa, por exemplo, o plural em francês chantez e o
provençal cantatz.

A prosa clássica utiliza como imperativo de proibição tanto ne + perfeito


do subjuntivo como a perífrase noli facere, enquanto ne + imperativo ou sub-
juntivo pertencem à linguagem popular e poética.

Na época pós-clássica aparece o uso do presente de infinitivo em função


de imperativo e em função de proibição da segunda pessoa singular com ne
(nom).

Visto um pouco do imperativo latino podemos passar para o imperativo da


língua espanhola, que possui oito formas verbais simples, que têm a característica
de serem formas verbais puras, não possuindo os denominados morfemas inten-
sos. As desinências constituem a característica extensa de nexo onde aparecem.

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Em espanhol, o imperativo não possui mais que duas formas, designa-


das pessoas, no modo imperativo, denominadas como segunda pessoa do
singular e segunda pessoa do plural. As outras formas, ainda que pareçam
cobrir o conteúdo do imperativo, não pertencem a esse modo, linguistica-
mente, pois têm outros valores e conteúdos.

O imperativo apresenta, no castelhano, uma base verbal e um elemento


desinencial, que adota em sua expressão as formas a, e, cero, ad, ed, id. A di-
ferenciação entre as três primeiras desinências e as três ultimas é a noção de
número, uma diferença morfêmica bastante importante.

Não existe mais que um elemento indicador de noção no imperativo do


verbo espanhol: o morfema extenso.

O imperativo deve constituir-se exclusivamente na forma verbal que vai


funcionar para a exortação e para a apelação. Ou seja, o imperativo espanhol
é um morfema extenso, com função puramente apelativa ou atuativa, que
tem determinação com o morfema desinencial de segunda pessoa e é indi-
ferente às diferenciações dos demais morfemas extensos.

Podemos dizer ainda, seguindo o pensamento de Moreno de Alba (1978,


p. 13), que o imperativo tem valor de futuro, pois é o modo no qual se ex-
pressam a ordem e a exortação, podendo a pessoa que a recebe somente
executá-la após tê-la recebido.

Vários autores, ainda segundo Alba, não aceitam o imperativo como


modo verbal, chegando a afirmar que o imperativo é um modo de fala, não
de língua. Não faz sentido a ideia de o imperativo não ser um modo de língua
porque a língua também é formada, além da sintaxe da escrita, de uma fala
que certamente vai influenciá-la, tornando-se, assim, um dos constituintes
linguísticos. Se o imperativo não for um dos modos verbais, em qual outra
categoria gramatical seria colocado? Aqui certamente não conseguirei res-
ponder essa indagação, mas certamente vale a pena fazê-la.

Em se tratando do vernáculo português, temos o uso do imperativo afir-


mativo e do negativo. Utiliza-se as duas formas somente nas orações absolu-
tas, nas principais ou nas orações coordenadas. Tanto o afirmativo quanto o
negativo podem exprimir:

1. uma ordem, ou comando;

2. uma exortação, ou conselho;


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3. um convite, uma solicitação; uma súplica.

Emprega-se o imperativo também para sugerir uma hipótese em lugar de


asserções condicionadas expressas por se + futuro do subjuntivo. Esses diver-
sos valores dependem da significação do verbo, do sentido geral do contex-
to e da entoação que se dá à frase imperativa.

Embora o imperativo esteja ligado ao vocábulo latino imperare, não é para


comando que usamos o imperativo em português, no comum das vezes,
mas para exortar nosso interlocutor a cumprir a ação indicada no verbo que
utilizamos. É, portanto, mais um modo de exortação que de comando.

Ao contrário do imperativo espanhol, o imperativo no português não


é contestado como modo verbal por se entender, de comum acordo, que
assim o seja.

Nas duas línguas neolatinas aqui apresentadas constatamos que o impe-


rativo se caracteriza por ter um número reduzido de formas, posto que se
pode dar ordens somente a quem se dirige a palavra.

Um contraste verificado entre o português e o espanhol é o fato de no


espanhol ser recomendado, até mesmo imposto, que o imperativo somente
se deva usar nas orações afirmativas, enquanto que no português coexistem
a forma afirmativa e negativa.

Comentando um pouco mais sobre as semelhanças de características


existentes entre as duas línguas neolatinas, verifica-se que nas duas o im-
perativo serve mais para a exortação que propriamente para se dar ordens
ao nosso interlocutor, tendo uma característica de futuro, porque a pessoa
somente pode atender a uma exortação depois de tê-la recebido.

Posto isso, verifica-se que, por causa de sua origem latina comum, o por-
tuguês e o espanhol apresentam imperativos com mais semelhanças que di-
ferenças. Como não poderia deixar de ser, temos algumas diferenças, apon-
tadas aqui na medida em que foi possível verificá-las.

Não se quis encerrar aqui o assunto, e tampouco se poderia, mas certa-


mente este estudo mostrou o quanto percorrer os (des)caminhos das línguas
pode se tornar apaixonante.

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Atividades
1. De que resultam as línguas românicas?

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2. Por que o povo grego, pequeno e desvalido diante da força romana, pôde
resistir no terreno da língua e conservar a sua?

3. O que são verdadeiramente as línguas românicas?

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4. Como se processa a evolução linguística?

Dicas de estudo
BERLITZ, Charles. As Línguas do Mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

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