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Natureza e Função do ato conciliatório

Trabalho escrito tem de conter: letra time new roman; 12; espaçamento 1,5 de espaçamento;
20 a 25 páginas.

Justiça pacificadora (Joana Vasconcelos, Direito Processual do Trabalho).

No processo laboral, para além dos princípios comuns ao processo civil, temos princípios
ditos únicos do mesmo. E, neste caso, importa então falar do princípio da justiça
pacificadora que diz que “ o regime adjetivo laboral não se contenta com a pacificação
resultante da satisfação do litigio deduzido em juízo, antes visa alcançar, tanto quanto
possível, uma pacificação de pessoas, é neste desígnio, mais exatamente na preferência
pela conclusão do litigio por composição voluntária que dele decorre, que se manifesta o
princípio da justiça pacificadora.”

Abarcando estes princípios o ato conciliatório e da imediação, este determina que no


processo de trabalho se procure com maior insistência que no processo comum (51ºss
CPT) conduzir as partes à conciliação, através da sua comparência pessoal perante o juiz,
que atuará em conformidade com tal objetivo.

No que toca aos processos especiais, o principio da justiça pacificador concretiza-se, ora
na realização de uma audiência de parte modelada na que integra o comum, na qual o juiz
procurará conciliá-las, ora na convocação de uma audiência prévia, com a correspondente
tentativa de conciliação.

De referir, a este propósito e ainda em sede de processos especiais, o destinado a


efetivação de direitos resultantes de acidente de trabalho, que se inicia com uma fase
conciliatória, tendo em vista a obtenção de um acordo entre o trabalhador sinistrado, o
empregador e as seguradoras, relativo ao grau de incapacidade do primeiro e ao montante
da pensão ou indeminização a atribuir-lhe(99º e 108ºss CPT). E no âmbito do qual se
permite que o acordo extrajudicial entre as partes considerado conforme pelo MP seja
homologado pelo juiz e produz os mesmos efeitos que o acordo obtido na fase
conciliatória (114º/2 CPT).
Processo declarativo comum- marcha do processo Joana Vasconcelos, Direito
Processual do Trabalho

A ação inicia-se com a apresentação em juízo da petição inicial, art.54º/1 CPT. E uma das
singularidades do regime adjetivo laboral é a audiência de partes previsto no art.55º e
56ºCPT. Esta é expressão do princípio da justiça pacificadora, iniciando-se com
intervenções de ambas, após o que o juiz, baseando-se na chamada delimitação do litigio
assim operada ena possibilidade de conciliação pelas mesmas evidenciadas, procurará
obter um “acordo equitativo” que ponha “termo ao litigio”, no todo ou em parte (art. 55º/1
e 2; 51º/2 do CPT).

Caso a conciliação for bem sucedida, lavra-se o auto- o qual deverá indicar os termos do
acordo pormenorizadamente alcançado quanto a “prestações, respectivos prazos e lugares
de cumprimento” ( 53ºCPT).

Se esta conciliação não se concluir, no todo ou em parte, deve ser lavrado o respetivo
auto* o qual deverá indicar a plataforma de desentendimento, ou seja, as razões que
segundos a próprias partes justificam a persistência do litigio (53º/3), continuando assim
a audiência de partes para que o juiz notifique o réu para contestar no prazo de 10 dias e
fixe a data da audiência final (51º; 53º; 55º e 56º CPT). ´

Processo declarativo: tentativa de conciliação ( Alcides Martins Direito Processual


Laboral)

A tentativa de conciliação continua a ser quer na lei quer na prática, umas das distinções
mais marcantes em relação ao processo civil puro. Tendo momento em que é obrigatório,
e momentos em que é facultativo. É obrigatório:

 na audiências de partes, que se realiza antes da apresentação da contestação,


previsto no art. 55º/2 CPT;
 no inicio da audiência de discussão e julgamento, 70º/1 CPT;
 em diversos processos especiais (99º/1; 108º; 160º).

É facultativo, por aplicação subsidiária do art. 594º/1 CPC, em qualquer estado de


processo, desde que:
1. As partes conjuntamente o requeiram, ou;
2. O juiz a considera oportuna.

No entanto, se houver uma audiência preliminar, esta começara por tentativa de


conciliação (62º do CPT e 591ºCPC).

Relativamente à forma*.

Quanto ao valor da conciliação efectuada em audiência, portanto, perante o juiz,


diferentemente do que acontece no processo civil, o auto não precisa de homologação
(não assumindo o nível de sentença) para produzir efeitos de caso julgado e titulo
executivo, mas o juiz tem de verificar a capacidade das partes, a legalidade do acordado
e a disponibilidade dos direitos consignados tal como dispõem os artigos 51º/2; 52º; 53º/1
e 2 e 88ºb) do CPT.

Questões interessantes:

1. Faz ou não sentido ser o juiz a dirigir a tentativa de conciliação, no processo


comum, dado que, depois vai ter de julgar a causa e na qual as partes já aduziram
argumentos que o podem impressionar ( talvez tenha que ver com a o principio da
imparcialidade do juiz?)

2. O juiz deverá ou não, considerando os factos em causa, propor as possíveis


soluções jurídicas, de molde a esclarecer as partes e procurar que elas ponham
termos à demanda?

3. A audiência das partes, sendo que a sua função central é a tentativa de conciliação,
deverá ter lugar após a petição e não depois da contestação, quando ambas partes,
igualmente , já tenham esgrimido os seus argumentos e já terão consciência do
valor dos seus meios prova disponíveis.

Audiência das partes

Não focando muito na audiência das partes como uma das fases do processo declarativo
comum, é importante dizer que a audiência das partes “emanação do jus postulandi e do
principio da conciliação típico do tradicional processo laboral. Efectivamente, a audiência
das partes tem por finalidade básica obter a conciliação das partes, atuando o juiz como
simples mediador e no pressuposto que o litigio está declarado, mas não aberto. E caso
resulte culmina no lavrar de um termo.

Um dos problemas que se coloca nessa tentativa de conciliação na audiência das partes é
o facto que nem sempre é fácil chegar-se a acordo dados todos os valores e questões
essenciais que se colocam aí. De conformidade com o principio, o juiz deve usar o seu
prestigio para tentar acordo entre as partes, demonstrando a relatividade dos direitos e
deveres laborais e o risco do processo.

Havendo sérias possibilidades de ser alcançando o acordo, poderá ser suspensa a


instância, a requerimento de ambas as partes, em conformidade com os disposto no
art.272º/4 CPC.

Se a conciliação entre as partes for conseguida, lavra-se auto, onde devem constar os
elementos indicados no art.53ºCPT:

 Termos pormenorizados do acordo


 Indicação dos pedidos abrangidos no acordo ( acordo parcial)

Não se tendo alcançando um acordo sobre todos os pedidos, no auto deve constar também
os fundamentos que, no entendimento das partes, justificam a persistência do litígio”, isto
é, as divergências que se mantêm entre elas.

Esta exigência ganha na prática maior expressão na lógica do CPC, pois servirá para
delimitar o litigio, como se prevê para a audiência prévia (591º/1 c)), nomeadamente
quando esta diligência não tiver lugar.

Audiência Preliminar

Também quando o magistrado entender que “ a complexidade da causa o justifique,


poderá marcar uma audiência preliminar, na configuração dada pelo art. 591º do CPC à
audiência prévia, definindo o seu objeto finalidade. Sendo decidida tal audiência
preliminar, fica sem efeito a marcação da audiência de julgamento, que deveria ter sido
estabelecida na audiência das partes.
Tal audiência preliminar comporta a realização de nova tentativa de conciliação e
frustrando-se esta poderá ser proferido despacho saneador.

Audiência de discussão e julgamento

A audiência de julgamento deve ser marcada na audiência de partes, ou na audiência


preliminar, ou posteriormente, em casos especiais (71º/1).

Nesta audiência de discussão e julgamento não é a moderno audiência final, mas será na
mesma presidida pelo juiz que detém os largos poderes traçados no art. 602º CPC, pois
nesta matéria o CPT é omisso.

No inicio da audiência é, de novo, tentada a conciliação das partes, devendo o seu


resultado ficar a constar da ata(70º/1 e 3), podendo haver adiamento da audiência, que é
mais lato no CPT do que no CPC, pois poderá verificar-se por uma vez” se houver acordo
das partes e fundamento legal”(art. 70º/4 CPT), enquanto no CPC apenas s permite tal
acordo se não interferir com a realização da audiência.

Por outro lado, como corolário dos princípios da imediação, da conciliação e da


celeridade, continua a lei processual laboral a impor que “o autor e o réu devem
comparecer pessoalmente no dia marcado para o julgamento” ( art.71º/1), como aliás ,
acontece na audiência de partes (54º/3).

Mas, observando-se que gestão empresarial dos tempos atuais é bem diferente da época
em que tais regras foram concebidas, com base no preceituado nos nº2 a 4 do art.71º,
passou a dispensar-se a comparência pessoal das partes, isto desde que se apresentassem
os seus advogados munidos com procuração com poderes especiais para desistir,
confessar e transacionar quanto ao pedido.

De resto, a audiência é obrigatoriamente antecedida de uma tentativa de conciliação,


ainda que o seu resultado deva ficar a constar na ata da audiência de julgamento.
Naturalmente sendo requerido o depoimento ou declarações da parte já a situação é
diferente.

Salvo os casos de justo impedimento enquadráveis no disposto no art.140ºCPC, a falta do


advogado provocará apenas o adiamento da audiência, se houver acordo das partes e
fundamento legal que poderá resultar da eventual marcação da audiência sem acordo
prévio dos avogados, isto de acordo com o art. 603º/1 CPC.

Dos artigos 71º/2 a 4, retira-se a conclusão de que se faltarem as partes e se apresentarem


apenas os eus mandatários, mesmo sem procuração com poderes especiais, a tentativa de
conciliação poderá ficar frustrada, mas a audiência de julgamento decorrerá com a
produção da prova que haja sido requerido e se revele possivel. E mesmo não tendo
poderes especiais, o mandatário poderá confessar, desistir e transigir, sendo a nulidade
daí resultante sanável através da ratificação tácita previsto no 291º/3 CPC.

Processos especiais: processos emergente de acidente de trabalho e de doença


profissional, mais propriamente o processo para efetivação de direitos resultantes
de acidente de trabalho.

Como processo laboral que é, este é enformado pelo principio da conciliação, havendo
até uma “hipervalorização da conciliação” de forma a ver resolvidos os conflitos sociais
e humanos, e como tal o processo compõe-se de uma primeira fase conciliatória e,
fracassando esta (total ou parcialmente), também de uma fase contenciosa.

Este processo inicia-se com a distribuição da participação do acidente, que origina a sua
fase conciliatória dirigida pelo magistrado que atua como tal e não como representante
do trabalhador (26º/3 e 99º/1 CPT).

Recebida então a participação do acidente, seguir-se-á uma das tramitações que foi
desencadeada tendo em conta o conteúdo da participação, que se integra sempre na fase
conciliatória, a qual culminará com uma tentativa de conciliação(99º e 108º a 116º), que
pode ser deprecada a outro tribunal de trabalho.

Terá como intervenientes, que têm de ser convocados, o sinistrado ou, em caso da sua
morte, os seus beneficiários legais, o empregador ou a sua seguradora, cuja identificação
deve constar da participação do acidente. Denota-se que uma das causas mais frequentes
do adiamento da tentativa de conciliação resulta da necessidade de intervenção de novo
responsável, por se constatar, em face de declarações colhidas naquele ato, que a
transferência da responsabilidade para a seguradora não abrange a totalidade do salário
(79ºLAT)
De acordo com o art.112ºCPT, a tentativa de conciliação tem por objeto procurar obter
acordo quanto:

 à existência e caracterização do acidente como de trabalho *


 ao nexo causal entre a lesão e o acidente de trabalho
 à retribuição do trabalhador sinistrado
 à entidade ou entidades responsáveis
 à natureza e grau da incapacidade **

**Caso se venha a concluir que a incapacidade é temporária ou o se o seu ainda é


provisório, haverá lugar a novo exame medico e a nova tentativa de conciliação, até que
cesse a incapacidade ou esta se torne permanente. Portanto, até que se possa apurar o
resultado do sinistro na pessoa do trabalhador sinistrado.

Um dos resultados possíveis da tentativa de conciliação é os interessados conseguirem


chegarem a acordo sobre todos ou alguns dos pontos. No entanto, a tentativa de
conciliação pode também ser adiada por falta de algum dos notificados ou de informações
documentais relevantes (108º). A falta de comparência repetida da entidade responsável
pode levar à dispensa do ato e à presunção da veracidade dos factos narrados pelos
sinistrado, como resulta do artigo 108º/5 CPT.

Na fase conciliatória, já se procede à instrução do processo, o qual passará a integrar todos


os elementos documentais resultantes das investigações efetuadas, nomeadamente pela
ACT, declarações das partes e eventuais perícias médico-legais e forenses, para além de
pareceres médicos, culminando com o mencionado relatório pericial médico, em que para
além do mais, deverá constar, ainda que em termos provisórios, a natureza e grau de
incapacidade do sinistrado (106ºCPT).

Excluindo-se o caso de morte do sinistrado, é após esta definição da incapacidade pelo


perito que se realiza a tentativa de conciliação, procurando.se que por acordo, com base
na proposta apresentada pelo MP, se fixem as obrigações das partes ou, em regra, as
obrigações da seguradora ou, eventualmente do empregador. Mesmo se o grau de
incapacidade for temporário ou provisório também o acordo será de natureza igual. O
acordo pode também ser atingindo extrajudicialmente, de acordo com o 114º/2, mas tendo
sempre de ser submetido à apreciação do MP de forma a que este possa averiguar alguma
eventual ofensa à indisponibilidade dos direitos do sinistrado.
Embora o processo seja dirigido pelo magistrado do MP, havendo acordo, este carece de
homologação imediata pelo juiz, que poderá recusar o dito acordo (114ºCPT), o que dará
aso a uma nova tentativa de conciliação para se sanar as razões pelas quais fora recusado
o primeiro acordo. Do despacho negativo, poderá qualquer interveniente, incluindo o MP
recorrer no prazo de 10 dias (79º-A/2 f); 80º/2)

O despacho homologatório pelo juiz do acordo celebrado perante o MP não se configura


como uma sentença porque o texto do artigo 124ºCTP não lhe atribuí tal natureza.
Diferentemente , em processo comum, a desistência, a confissão e o acordo entre as partes
concretizados na audiência de conciliação, portanto perante o juiz, já não carecem de
homologação para produzir efeitos de caso julgado, tal como estabelece o art. 52ºCPT.
Mas de qualquer forma, em ambos os casos os acordos alcançados constituem títulos
executivos (88ºb)).

Não há taxa de justiça nesta fase conciliatória, dado que é um processo oficioso.

Podem ainda acontecer de que há acordo generalizado, mas o sinistrado ou os respectivos


familiares se limitarem à recusa do que lhes é devido. Nesta situação o magistrado do MP
promoverá para que o juiz profira decisão sobre o mérito da causa ( não é sentença) e fixe
o seu valor. Tal decisão judicial, para além de confirmar a legalidade do acordado,
confere-lhe o expresso valor de sentença, que não havendo recurso, transitará em julgado.

Ainda quanto ao alcance do acordo, os beneficiários ficam vedados de na mesma ação ou


em ação autónoma instaurada para o efeito, pedirem a condenação da entidade
empregadora no pagamento de danos morais gerados em consequência do mesmo
acidente e como fundamento na violação culposa de regras de segurança, como previsto
no artigo 18º/1 LAT.

Codigo de Processo de Trabalho anotado, por Abilio Neto 5ªed, jan.2011 pp 303.

Anotação ao artigo 51º:

Este preceito corresponde, com alterações significativas, ao art. 50º do CPT de 1981:
1. a tentativa de conciliação feita em juízo realiza-se obrigatoriamente quando
prescrita neste codigo e facultativamente em qql outro estado do processo, desde
que as partes conjuntamente o requeiram ou o juiz o julgue oportuno, mas aquelas
não podem ser convocadas exclusivamente para esse fim mais do que uma vez
2. a tentativa de conciliação será presidida pelo juiz e a ela só podem assistir, além
dos funcionários, as partes, e os seus mandatários.

Embora o texto atual não o preveja expressamente a tentativa de conciliação facultativa,


nada obsta a que ela tenha lugar, seja por iniciativa das partes, seja por determinação do
juiz, sempre que se lhe afigure ser possivel por termo ao litigio mediante acordo
equitativo.

No entender do professor, a supressão que ocorreu quanto à segunda regra foi bem
conseguida dado que não fazia sentido vedar, por exemplo, aos advogados estagiários a
assistência as tentativas de conciliação e ou pessoas, ou seja, terceiros, da confiança das
partes.

Segundo o professor, constituem uma verdadeira e própria decisão judicial as


conciliações lavradas de acordo com o preceituado nos artigos 50º e ss.

A fase conciliatória do Processo especial emergente de acidentes de trabalho,


comunicação do Procurador Vítor Melo, inserida em estudo do IDT, vol V,
IDT/almedina, Coimbra, 2007, pp.58/68

Função, Natureza e direção nesta fase

A área dos acidentes de trabalho é uma área do direito do trabalho em que se sobressaí a
especial preocupação de tutela de interesses de ordem social e publica que aqui estão em
jogo. Visa-se, em primeira mão, as necessidades de acautelar as lesões da integridade
física ou da vida do sinistrado., enquanto individuo económico e produtivamente activo,
de forma a reparar, minimizar, ou pelo menos compensar a afetação respectiva da
capacidade de rendimento.

Esta tem como corolário a natureza indisponível dos direitos a que a lei confere aos
sinistrados- art. 34º e 35º da LAT. E 302ºCT, sendo que um dos direitos indisponíveis
será precisamente o de participação obrigatória dos acidentes a tribunal, assim como a
natureza urgente e oficiosa do processo especial de acidentes de trabalho, artigo 26º/2
CPT ( sendo claramente uma exceção à regra da continuidade dos prazos processuais, não
se suspendo durante as férias judiciais, de acordo com o art. 144º CPC, sendo também
uma importante regra de desvio ao principio do dispositivo e da iniciativa processual das
partes para o andamento regular da causa, art. 265º/1 CPC.

Dentro desta tutela conferida, não se estranha que seja conferido ao processo do trabalho
em geral, e ao processo especial de acidentes de trabalho em particular uma tónica
especial de maior pragmatismo(116º)- em prejuízo do dogmatismo processual-; menor
solenidade, ligada à proteção e a celeridade que se visa almejar( ex. 128º; 129º e 130º);
uma total abertura na admissão do recurso das decisões tomadas nestes processos, art.79º
b); e principalmente, a valorização da conciliação.

No processo declarativo comum laboral, está já se encontra plasmada em várias


disposições(51º/2; 55º/2); no processo especial de acidentes de trabalho o legislador
elegeu com tal finalidade uma das fases do processo- a fase inicial- que designou,
naturalmente, de conciliatória e qual culmina com a realização da tentativa de conciliação
a que aludem os art. 108ºss

De acordo com as funções constitucionais atribuídas ao MP de acordo com art. 219º/1


CRP, de defensor da legalidade e da justiça, o legislador laboral contemplou ao MP os
poderes de direção desta fase- previsto no art. 99º/1 CPT. É de frisar que aqui ele não
exerce nenhum patrocínio - só o fazendo na falta de acordo e, consequentemente, iniciar-
se a fase contenciosa- 119ºCPT. Tudo isto é de se retirar do art.104º/1 CPT, dado os
deveres de instrução do processo que lhe foram atribuídos com o intuito de alcançar a
descoberta da verdade processual, e também a presidência da tentativa de conciliação
(108º e 109ºCPT).

Assim sendo, nesta fase o magistrado encontra-se num plano de não envolvimento com
qualquer das partes interessadas e visa apenas, de acordo com os elementos constantes
dos autos, alcançar uma composição amigável dos interesses que ali se manifestarem
(114ºCPT), tendo aqui um papel de um verdadeiro órgão de justiça auxiliar ( Vítor
Ribeiro, NA REVISTA DE MP, nº39, pág.125).
A introdução em juízo faz-se precisamente com a participação do acidente do acidente,
tal como dispõe o art. 125ºCPT, dando assim inicio à instância nos termos do 26º/3.

“Daqui se extraí um dado importante relativamente à verdadeira natureza jurisdicional


desta fase conciliatória inicial do processo, a qual, efectivamente, está longe de se poder
configurar como meramente administrativa uma vez que estamos perante um verdadeiro
processo judicial, e não qualquer processo ou expediente interno do MP”

A intervenção do MP começa a desenhar-se logo nesta fase através a participação


veiculada pelas pessoas e entidades referidas no arts.16º a 19º da LAT. Após recebida, a
participação é apresentada obrigatoriamente ao MP, nos termos do art.22ºCPT. Sendo
expressão de salvaguarda da tutela de casos de manifesta urgência que não se
compadecem com delongas da distribuição. Nestas situações o magistrado do MP deve
ordenar, todas as diligencias que se revelem uteis e necessárias ao apoio imediato ao
sinistrado.

Após classificação na espécie 2ª- processos emergentes de acidente de trabalho- e


distribuição pelo juízo e secção e em que o processo irá corre termos, os autos são
remetidos aos serviços do MP no tribunal em causa, onde será objeto de registo próprio,
ficarão a correr termos durante a fase conciliatória.

Estando-lhe acometida legalmente, a direção desta fase conciliatória, caberá ao


magistrado do MP a determinação das mais variadas diligencias tendentes a recolha de
elementos que conduzam ao apuramento de todas as circunstâncias em que se verificou o
acidente participado de forma a verificar se, e em que medida, o mesmo merece tutela
reparatória.

A tentativa de conciliação presidida pelo magistrado do MP: É uma acto processual


essencial designado pelo magistrado do MP, nos termos do 101º, e visa o acordo final
global, 109º ou provisório, 110ºCPT. A ela deverão comparecer conforme os casos,
sinistrado, beneficiários legais, entidades responsáveis.

Exige da parte de tal magistrado a condução de todos os actos inerentes à sua efectivação,
designadamente passando pelo controlo processual das situações de:

 adiamento- situações de falta de comparência, prevendo-se a sanção do


136ºCPT+65º/3 LAT; necessidade de intervenção de responsável só agora
detectada; requerimento dos interessados justificado por circunstância legalmente
atendível
 dispensa- caso de junção de acordo extrajudicial, previsto no art. 100º/3e 101º/2
CPT, em que nos termos do art. 114º/2, haverá lugar a emissão de parecer por
parte do MP sobre a sua conformidade com o exame médico, e restantes elementos
dos autos e as normas aplicáveis; caso de falta da entidade responsável pela 2ª ve
consecutiva ou de se desconhecer o seu paradeiro(108º/5); no caso do 116º.

Na tentativa de conciliação o magistrado do MP tem, a final, um papel fundamental no


campo da plena observância da imperatividade que se manifesta em todos o regime legal
da tutela reparatória dos acidentes de trabalho, propondo o acordo nos termos do 109º, e
seguidamente submetendo-o a homologação pelo juiz nos termos do 114º.

A frustração da conciliação e o processamento subsequente até ao inicio da fase


contenciosa: Na falta de acordo o MP, deverá assumir- salvo de recusa nos termos do
art.8 CPT-, o patrocínio do sinistrado ou dos beneficiários legais, apresentando a petição
inicial ou o requerimento de junta médica, conforme a discordância na fase conciliatória
tenha ido, ou não, além da incapacidade- 117º e 119.

Alexandre Mário Pessoa Vaz, Direito Processual Civil, Do antigo ao Novo Código,
Coimbra 1998

A. Poderes e Deveres do Juiz na conciliação judicial

509º/3 do DL n.º 329-A/95, de 12 de Dezembro (velho CPC)

Artigo 509.º
Tentativa de conciliação
3 - A tentativa de conciliação é presidida pelo juiz e terá em vista a solução de
equidade mais adequada aos termos do litígio.

594º/3 da Lei n.º 41/2013, de 26 de Junho (Novo CPC)

Artigo 594.º (art.º 509.º CPC 1961)


Tentativa de conciliação
3 - A tentativa de conciliação é presidida pelo juiz, devendo este empenhar-se
ativamente na obtenção da solução de equidade mais adequada aos termos do litígio.
Saber se o juiz, dentro do esquema do processo civil, e no âmbito do poderes e dever na
conciliação judicial, qual a natureza dos poderes que o mesmo possuí:

1. poderes de controlo substancial, jurisdicional, tutelar sobre o conteúdo a


conciliação e dos negócios processuais em geral;
 teoria jurisdicionalística do controlo substancial na conciliação- tem por
base um reforço da atividade do juiz no processo moderno, e que
corresponde a uma visão positiva do interesse politico e social da função
jurisdicional do Estado.

2. ou poderes de controlo meramente formal- documentador ou notarial, sobre os


requisitos objetivos e subjetivos da validade destes mesmos actos processuais. –
teoria contratualista

Contratualismo e jurisdicionalismo da conciliação: temos portanto duas filosofias que se


encontram em confronto: a de Voltaire e Bentham, que se combateram energicamente
durante a revolução francesa, combate esse que se tem renovado cada vez que tem lugar
uma nova aparição de desenvolvimento da conciliação.

E nessa contradição entre contratualismo e jurisdicionalismo, num plano técnico; sob o


plano sociológico e jurídico-político uma contradição definida por Picardi e Denti, que
tem por base saber se o objetivo do legislador moderno é o de pretender realizar uma meia
justiça, como Voltaire; ou uma justiça em plenitude como Bentham.

E é nesta síntese realizada por Bentham que os autores referidos supra, encontram a chave
da grande viragem concetual da figura jurídica da conciliação: do sistema contratualista
do juiz de paz, para uma visão jurisdicionalista da conciliação ( generalizada em Franca
e em muitos outros países com a atribuição da função conciliatória ao próprio juiz do
processo contencioso, integrando-se assim a conciliação organicamente na jurisdição.

Contratualismo da conciliação de Voltaire:

1. caracter obrigatório da conciliação;


2. o custo elevado da justiça que afectará sempre o próprio vencedor
3. a pressão sobre a insistência da conciliação, repetindo a tentativa uma segunda ou
terceira vez;
4. considerar uma grande loucura o facto das pretenderem ir ao tribunal.

“mais vale uma má transação do que uma boa demanda”.

Jurisdicionalismo de Bentham:

1. Nada é mais louvável que o fim. E nada de menos eficaz ou mesmo de mais
contrário ao fim que o meio.
2. Um debate em conciliação deve ter todas as partes de um debate em justiça
3. A decisão dos conciliadores será dada com razões insuficientes ou suficientes e
só neste último caso ela seria justa pois o órgão de conciliação tinha preenchido
as funções de um tribunal de justiça.
4. O melhor conciliação é o próprio juiz da causa que é um amigo natural de ambas
as partes
5. Se o processo tem defeitos, demoras e custo elevados, a função do legislador é
reformar o processo e não ultrapassá-los com outros expedientes, dado que o que
as partes pedem ao legislador não é uma meia justiça e sim uma justiça na sua
plenitude.

Conceito de equidade encontrado no artigo sobre a conciliação:

Temos de distinguir entre equidade em sentido formal e sentido substancial ( ver na


página 52 nota 38 e 65 e nota 53 do livro do mesmo)

E por sua vez a equidade em sentido substancial comporta também duas aceções: a)
ajustamento duma norma jurídica intrinsecamente justa as particularidades do caso
concreto sub judice; b) correção do excessivo rigorismo dum preceito legal que como tal
se torna injusto a luz dos critérios mais humanos impostos pelas exigências da consciência
social reinante, critérios esses decorrentes dos próprios princípios da moral ou do ideal
da justiça natural.

Existe uma conexão entre o conceito jurisdicionalistico da conciliação persuasiva e de


equidade e com certo números de princípios de natureza ética politica e social-
nomeadamente, a moderna e transcendente tendência para moralização e a humanização
da justiça , por ação direta e responsável do juiz como conciliador:
1. a conciliação visa evita a litigiosidade estéril e a constituir um útil complemento
do principio da legalidade, com a ação clarificadora e persuasiva do juiz que leva
as partes a aceitarem a solução de equidade que este lhes sugere, despertando entre
elas um sentimento de compreensão humana, de pacificação, e de solidariedade
social.

2. O carácter ativo, vigilante e comunicativo do juiz o levará a obter uma justiça


substancial, humana , rápida persuasiva e autenticamente pacificadora

3. A conciliação deve ter no processo moderno um lugar de honra, pois o juiz,


plenamente informado do conteúdo do processo, facilmente persuade as partes a
uma conciliação de equidade, como pacificador de ânimos, que resolve as lides
segundo a aspiração humana para uma verdadeira justiça.

4. O juiz não deve ser uma esfinge, mas criar no processo uma ambiente de
diálogo, de confiança, de solidariedade, de humanidade, de cooperação leal e
ativa, que traduz o espirito animador da democracia; e através do qual pré
anunciando às partes o resultado do processo pode obter uma solução
equidade, persuasiva e paternal, que conduz à pacificação social e ao estimulo
dum verdadeiro sentimento de solidariedade humana.

5. Em caso de direito incerto ou manifestamente injusto, o juiz deveria ter


oficiosamente a faculdade importa as partes uma solução de equidade e
persuasiva paternal, com base nos princípios da lealdade da motivação e da
persuasão, a fim de que à composição dos interesse em litigio correspondesse
uma composição de espíritos- ou seja, a pacificação social e intima dos
litigantes.

Nota: natureza jurisdicionalística ou contratualista da conciliação? Ver pontos 119;


120; 135; 138

A natureza jurisdicionalística da conciliação, segundo a qual o conciliador tem de


procurar alcançar uma solução de equidade e persuasiva, reveste “ a configuração de uma
arbitragem de equidade não vinculativa, dado que o conciliador, por um lado, tem de
guiar-se pelos critérios de equidade- 509º/2 do antigo CPC-; e, por outro lado, para que a
conciliação seja persuasiva e automaticamente pacificadora ela só vale, na medida em
que ambas as partes lhe dêem o seu pleno assentimento.

 Sendo por isso que o autor configura a conciliação de equidade como “uma figura
mista de auto e hétero-composição, dado que assenta, quer na vontade do
conciliador, quer , e conjuntamente, na vontade de ambas as partes, pois só com
o seu acordo a satisfação e a pacificação entre elas se podem considerar intimas
e duradouras, conduzindo a uma justiça coexistencial”

O instituto da conciliação é, atualmente, umas das soluções para resolver o problema de


se tornar efetivo o acesso à justiça por parte de todos os cidadãos, por quem não tem
capacidade económica para fazer face aos altos custos sociais e financeiros da justiça
oficial, problema que até coloca em cheque questões das liberdades e direitos
fundamentais do Homem. No entanto, a solução não é operante a 100% dado que tem
prós e contras:

 Tudo depende das condições de recrutamento destes órgãos para-judiciários,


quanto à capacidade técnica e moral dos conciliadores e quanto aos limites da sua
competência- se apenas conciliatória e não vinculativa, se também, e em que
medida, contenciosa.

Também existe uma questão relevante quanto a esta matéria: problema da pressão dos
juízes sobre as partes para a realização da conciliação dos respetivos processos, situação
essa que segundo o autor “ constitui um acto, que em principio, altamente censurável por
estar em aberta contradição com uma das características finalidades fundamentais da
conciliação moderna (promover uma solução de equidade e persuasiva, com que ambos
os litigantes fiquem intimamente satisfeitos e, como tal, por eles livremente aceite.”:

 Uma conciliação forçada pode ser injusta ou iníqua e envolver,


consequentemente, denegação de justiça ou a parcialidade secreta do conciliador
por uma das partes, ou a extorsão dos direitos do litigante mais tímido e de boa-fé
e com a melhor razão pelo litigante mais audaz e temerário e sem qualquer direito
pelo seu lado;
 Tanto as leis revolucionárias francesas, com a circular de 29 de Brumário do ano
V, bem como as nossas leis foram bastante efusivas na repressão e aplicação de
sanções aos conciliadores que pressionasse os litigantes à conciliação,
qualificando tais actos como violentos, sancionando-os.

 O CPC de 1961 não prevê uma sanção especifica contra a realização abusiva das
conciliações por parte dos juízes como conciliadores, embora pretenda evitar tal
situação nos termos do 509º/4. Aplicação por analogia, dentro da conceção
jurisdicionalística, o principio do artigo 665º que combate a simulação processual
em geral- assim sendo, combate também “ conciliações simuladas”, como
equivalentes jurisdicionais das sentenças judiciais.

No que toca às fontes da conciliação judicial de equidade do código em vigência na altura,


cumpre referir que o legislador português se inspirou nos exemplos de direito e da
doutrina francesa (Declaração de 30 de Outubro de 1935), italiana (Liebman e Carnelutti),
alemã e austríaca.

B. A tentativa prévia de conciliação e institutos conexos


1) A tentativa prévia de conciliação pode ser
a) Obrigatória
b) Facultativa
2) A duas modalidade de tentativa prévia podem ou devem ser realizadas:
a) Diante de um órgão extra ou parajudicial tendo competência contenciosa
restrito que todos atuam fora do órgão judicial de competência especifica para
julgar de forma litigiosa qualquer processo e, por conseguinte, também os
processos nos quais se realiza sem êxito uma tentativa prévia de conciliação.
b) Diante de um órgão judicial de direito comum , o qual pode ou deve realizar
a tentativa conciliação antes de iniciar um processo litigioso- tal prescreve o
art. 136º do Novo Código Francês de 1976.
c) Diante um órgão ou instituição conciliatória extrajudiciária, tendo
competência exclusivamente conciliatória, mas limita a certo tipo de relações
jurídicas de carácter social e semelhantes de que são exemplo algumas
comissões de conciliação do EUA
Dá-se relevante importância à tentativa oficiosa de conciliação proposta pelo juiz do
processo contencioso no começo ou durante este ultimo todas as vezes que parece
possível ao juíz induzir as partes uma conciliação de equidade e persuasiva.

Evolução legislativa portuguesa: no CPC de 1876 a conciliação prévia era obrigatória


diante do juiz de paz- 357º-; no CPC de 1939 a tentativa tornou-se facultativa diante do
juiz de paz- 476º-, se bem que este tivesse consagrado também a tentativa oficiosa do juiz
da causa na audiência preliminar no decurso do processo- 513º CPC.

No CPC de 1961, a tentativa de conciliação preliminar mesmo facultativa foi suprimida,


e a tentativa oficiosa do juiz da causa subsiste ainda nos termos da legislação anterior-
509º e 652º-, mas a legislação portuguesa aprovou também a tentativa de conciliação
obrigatória preliminar em matéria especial- v.g 1407º e 972º.

Finalidade essencial: evitar os processos contenciosos judiciais com os inevitáveis


inconvenientes do alto custo e das demoras do processo e da grande sobrecarga de
trabalho dos tribunais estaduais, que conduzem “ ineficácia” da justiça em geral e
sobretudo em relação aos processos e litígios de menos valor e das questões relativas aos
novos direitos sociais.

Estrutura jurisdicionalística: soluções com base na lei ou na equidade e com base na


verdade dos factos litigiosos; e tem uma finalidade transcendente de pacificação
social, de moralização e de humanização da justiça conseguida através de uma ação
de persuasão e de uma intensa actividade de pedagogia cívica e moral

No quadro evolutivo da tentativa preliminar de conciliação há um declínio deste instituto


na sua forma tradicional obrigatória de origem francesa voltariana se sucedeu um recente
e forte movimento de recrudescimento deste mesmo instituto da conciliação e figuras
conexas- nomeadamente a mediação, arbitragem, etc-, mas agora com natureza
meramente facultativa.

No âmbito do direito português também se verificou esta tendência, com a supressão da


figura no CPC de 1961. Portugal adoptou vários organismos de conciliação e arbitragem
no campo do direito dos consumidores e no campo comercial e laboral, que
correspondem aos objetivos fundamentais da justiça conciliatória e coexistencial.
Nos vários centros de conciliação e arbitragem é evidente que as funções do arbitro estão
ligadas às funções de conciliação; e nos demais institutos que falam apenas de arbitragem
é também evidente que a conciliação é uma das atribuições da actividade dos árbitros.

Fase conciliatória do Processo para efectivação de Direitos Resultantes de Acidente


de Trabalho, estudo in Prontuário de Direito de Trabalho, nº87,setembro-dezembro
de 2010, CEJ-Coimbra Editora pp135 a 171 (João Monteiro)

De forma a dar expressão jurisdicional e conferir uma tutela efetiva aos direitos
resultantes de acidentes de trabalho, o legislador, tendo por base o interesse e ordem
pública que estão envolvidos, consagrou no nosso CPT como processos especiais os
processos emergentes de acidentes de trabalho que são configurados em 3 processos
autónomos, por assim dizer. Sendo que aquele em que me vou focar será o processo para
a efectivação de direitos resultantes de acidentes de trabalho previstos nos artigos 99º a
150º do CPT, naquilo que concerne à fase conciliatória em si, ou seja, a fase inicial deste
processo ( previstos nos artigos 99º a 116º do CPT).

Nos dizeres do procurador da Republico João Monteiro, “este processo tem-se revelado
um instrumento privilegiado para efectiva a responsabilidade civil emergente de acidente
de trabalho com a celeridade, simplicidade e o rigor que a sua natureza e finalidades
sociais impõem”.

Na estrutura deste processo encontramos concretizados os principais princípios


orientadores do processo laboral, nomeadamente: a hipervalorização da conciliação; a
menor solenidade, em razão de maior celeridade; um certo pragmatismo em prejuízo do
dogmatismo processual, daí resultando uma maior simplicidade da tramitação; acentuado
relevo do inquisitório; procura da igualdade real das partes; globalização ou maximização
do efeito útil da ação.

Estrutura bifásica deste processo: duas fases distintas, uma obrigatória/necessária que é a
fase conciliatória; e uma fase contenciosa ( de realização eventual), mas isso não significa
uma quebra da unidade jurisdicional de toda a instância.

Uma novidade neste processo é o facto de uma fases- a conciliatória- ser dirigida pelo
MP, sendo essa uma inovação do CPT de 1941, aprovado pelo DL nº30.910, de
23/11/1940.
- CPT de 1941: o processo foi dividido em duas fases, mas isso não alterou a substância
do papel e a competência anterior do juiz, o qual continuo responsável pelas duas fases,
sendo o MP o presidente das tentativas de conciliação que no processo tivesse lugar.

-CPT de 1963, aprovado pelo DL nº45.497, 30/12/1963, foi instituído um regime idêntico
ao que hoje está em vigor

 Fase conciliatória do processo para efetivação de direitos resultantes de acidente


de trabalho

O processo para a efectivação de direitos resultantes de acidente de trabalho que tem por
base a participação do acidente inicia-se por uma fase conciliatória, tal como prevê o
artigo 99º/1 CPT.

Nesta fase, sendo ela jurisdicional nos dizeres do procurador João Monteiro, é de
realização obrigatória, mas não existe ainda um litigio em sentido estrito, ou seja, um
verdadeiro conflito entre os interessados, os quais pretendem a composição, por acordo e
conforme a lei, dos direitos e obrigações que lhes assistem.

No caso de não ser atingido tal objetivo, a fase conciliatória constitui ainda para os
interessados, para o sinistrado ou beneficiários legais, uma “ condição processual
obrigatória de acesso ao debate contencioso, não podendo esse debate ter lugar sem
precedência da realização da fase conciliatória- 117ºss CPT.

 Finalidade e direção da fase conciliatória

A fase conciliatória, tem objetivo principal a composição amigável e conforme à lei, dos
interessados de ordem publica envolvidos.

A direção legal está atribuída ao MP conforme o artigo 99º/1 CPT., sendo que o MP dirige
esta fase processual na qualidade órgão de justiça em sentido estrito, ou seja, com “uma
autoridade processual que tem diretamente a seu cargo a heterocomposição de interesses,
ao menos potencialmente, conflituantes. Não em concorrência ou em contraposição
dinâmica coma judicialidade do juiz , mas em convergência e complementaridade: um
faz justiça pela conciliação, outro, pelo julgamento”- Vítor Ribeiro.
“O Ministério Público, enquanto órgão do Estado a quem compete a defesa da legalidade
democrática e a promoção do interesse social - cfr. art.ºs 219.º, n.º 1, da Constituição da
República Portuguesa (CRP) e 1.º e 3.º, do Estatuto do Ministério Público (EMP) -, dirige
a fase conciliatória do processo ao serviço da legalidade e da justiça e equidistante de
qualquer dos interessados”, sendo que nesta fase o Ministério Público "(...) não defende
quaisquer interesses particulares, mas apenas o interesse público da correcta definição
dos direitos e deveres resultantes de um acidente de trabalho (...)",37 não representando
e não exercendo o patrocínio de qualquer dos interessados - João Rato, «O Ministério Público
e jurisdição do trabalho», Questões Laborais, Ano V, n.º 11, Coimbra Editora, 1998, p. 44.

 Tentativa de conciliação

Depois de realizada a perícia médica, o MP determina a realização de tentativa de


conciliação, podendo, no entanto, dispensar a tentativa de conciliação se com a
participação for junto acordo extrajudicial ou se este for apresentado até a data designada
para a sua realização, tal como prevê o artigo 101º/2 1ª parte do CPT. No entanto, se com
a perícia médica, as declarações do sinistrado e as diligencias efectuadas não confirmarem
as base em que o mesmo acordo tenha sido elaborado, o MP não dispensa a tentativa,
designando então data para a sua realização- 101º/2 1ª parte e artigo 114º/2 in fine CPT.

Esta tentativa de conciliação é o acto processual da fase conciliatória com maior


relevância e tem como finalidade principal a obtenção do acordo, que consoante as
circunstancias do caso podem ser global ( 109º); parcial ( embora no CPT não esteja
previsto/ não se faça referencia direta, a doutrina crê , nomeadamente o procurador João
Monteiro, que face ao atual quadro normativo processual laboral, nada obsta a que o
mesmo possa ser validamente alcançado e homologado) ou provisório/temporário- 110º,
suscetível de homologação pelo juiz.

Para além desta finalidade principal, também estão associados à tentativa de conciliação
outras finalidades, o que lhe confere uma natureza diversa da tentativa de conciliação
prevista no art. 51º CPT, este no âmbito do processo laboral comum.

À tentativa de conciliação são chamadas, além do sinistrado, as entidades empregadoras


e/ou seguradoras, conforme decorra dos elementos carreados para os autos. Com a
notificação para a tentativa de conciliação é entregue cópia da participação aos
convocados que não forem participantes - art.º 103.º, do CPT.
A presença do sinistrado pode ser dispensada em casos justificados de manifesta
dificuldade de comparência ou de ausência em parte incerta - n.º 3, 1.ª parte, do art.º 108.º,
do CPT. Nesses casos, a representação do sinistrado pertence ao substituto legal de quem,
no exercício de funções do Ministério Público, presidir à diligência - n.º 3, 2.ª parte, do
art.º 108.º, do CPT.

A tentativa de conciliação pode não realizar-se na data designada e, por isso, ser adiada,
designadamente pela ocorrência dos seguintes motivos: falta de comparência dos
interessados, sinistrado e/ou entidades responsáveis; necessidade de convocação de outras
entidades e requerimento fundamentado de qualquer um dos intervenientes (v.g. para
tomarem posição inequívoca sobre o resultado da perícia médica, não estando habilitados
a fazê-lo no momento; para se poderem pronunciar sobre documento relevante junto ao
processo e de que não tivessem conhecimento, etc.).

Se o motivo da não realização da tentativa de conciliação for a não comparência


(justificada ou injustificada) da entidade responsável, tomam-se declarações ao sinistrado
sobre as circunstâncias em que ocorreu o acidente e mais elementos necessários à
determinação do seu direito, designando-se logo data para nova tentativa de conciliação
- art.º 108.º, n.º 4, do CPT.

Para essa nova tentativa de conciliação a entidade responsável deve ser notificada, além
do mais, das consequências processuais que uma nova falta pode acarretar e mencionadas
no n.º 5 do art.º 108.º, do CPT.

Se a entidade responsável, devidamente notificada, não comparecer de novo (justificada


ou injustificadamente), é dispensada a tentativa de conciliação.

Porém, se a ausência for devida a falta injustificada e a entidade responsável residir ou


tiver sede no continente ou na ilha onde se realiza essa diligência, presumem-se
verdadeiros, até prova em contrário, os factos constantes das declarações do sinistrado,
tomadas ao abrigo do citado n.º 4 do art.º 108.º, do CPT - cfr. n.º 5 do art.º 108.º, do CPT
(A presunção - juris tantum - da veracidade dos factos declarados pelo sinistrado, consagrada
no n.º 5 do art.º 108.º, do CPT, no essencial, opera uma inversão do ónus da prova, nos termos
do art.º 344.º, n.º 1, do CC.)
Ainda por força deste último normativo legal, a tentativa de conciliação é igualmente
dispensada se for desconhecido o paradeiro da entidade responsável, mas, neste caso, sem
o efeito cominatório aí previsto. (Nos casos de dispensa da tentativa de conciliação, segue-se
a apresentação da petição inicial por parte do Ministério Público, no exercício do patrocínio
oficioso do sinistrado (ou por parte do seu mandatário caso o tenha constituído), iniciando-se
desse modo a fase contenciosa do processo - cfr. art.º 117.º, n.º 1, al. a), do CPT.)

No caso de se encontrarem presentes ou devidamente representados todos os interessados


e não existindo qualquer motivo determinativo do adiamento da tentativa de conciliação,
o Ministério Público promove o acordo de harmonia com os direitos consignados na lei,
tomando por base os elementos fornecidos pelo processo, designadamente o resultado da
perícia médica e as circunstâncias que possam influir na capacidade geral de ganho do
sinistrado - art.º 109.º, do CPT.

 (...) Se é verdade que os protagonistas do negócio jurídico/acordo são os


próprios interessados, o verdadeiro protagonista do acto processual/tentativa
de conciliação é o M.ºP.º. De facto, nesta tentativa de conciliação (...) é ao
M.ºP.º que cabe, activamente, propor o acordo, actuando como medium da lei,
portanto, como um verdadeiro mediador, e não como simples fiscal que, de
fora, espreita o negócio só para se certificar de que tudo está em ordem. (...)".
Vítor Ribeiro

Se a tentativa de conciliação tiver êxito e, desse modo, os interessados chegarem a acordo


- porque aceitaram o acordo nos precisos termos propostos pelo Ministério Público -, do
respectivo auto deve constar, além da identificação completa dos intervenientes, a
indicação precisa dos direitos e obrigações que lhes são atribuídos e ainda a descrição
detalhada do acidente e dos factos que servem de fundamento aos referidos direitos e
obrigações - art.º 111.º, do CPT. O acordo produz efeitos desde a data da sua realização,
independentemente da sua homologação - art.º 115.º, n.ºs 1 e 3, do CPT.

Se, pelo contrário, se frustar a tentativa de conciliação, no respectivo auto devem ser
consignados, além do mais, os factos sobre os quais tenha havido pronúncia inequívoca
e acordo, referindo-se expressamente se houve ou não acordo acerca da existência e
caracterização do acidente, do nexo causal entre a lesão e o acidente, da retribuição do
sinistrado, da entidade responsável e da natureza e grau da incapacidade atribuída - n.º 1
do art.º 112.º, do CPT. (Tem vindo a ser jurisprudencialmente entendido que a admissão por
acordo desses factos equivale, em suma, a uma confissão judicial espontânea (por todos, cfr. Ac.
do STJ de 30.06.2004, proc.º n.º 04S1506)

O interessado que se recuse a tomar posição sobre cada um desses factos, estando já
habilitado a fazê-lo, é, a final, condenado como litigante de má fé - n.º 2 do art.º 112.º, do
CPT.

Uma vez que a existência e caracterização do acidente e o nexo causal entre a lesão e o
acidente são conceitos jurídicos, do auto de tentativa de conciliação não deve constar o
acordo ou desacordo dos interessados acerca desses mesmos conceitos, mas, sim, o
acordo ou desacordo relativo aos elementos de facto que definem a existência e
qualificação do acidente e o nexo causal entre o evento e a lesão.

O acordo ou desacordo dos interessados que deve constar do auto de tentativa de


conciliação é, pois, o que incide sobre factos, e não sobre juízos de valor, conclusões ou
qualificações jurídicas.

Só assim será possível ao juiz, na fase contenciosa e no despacho saneador, considerar na


matéria assente esses mesmos factos - como se estatui no art.º 131.º, n.º 1 al. c), do CPT
-, para posteriormente os tomar em consideração na sentença final - cfr. art.º 135.º, do
CPT. Caso não seja respeitada essa exigência de discriminação fáctica, as "questões"
sobre as quais incidiu o acordo não poderão, assim, ser consideradas assentes, o que
viabilizará a sua (eventual) discussão na fase contenciosa.

Com o regime estatuído no referido n.º 1 do art.º 112.º, do CPT pretendeu-se, além do
mais, que o litígio a debater na fase contenciosa do processo se circunscrevesse
unicamente às questões de facto em relação às quais não se logrou obter o acordo dos
interessados no decurso da fase conciliatória, excluindo-se, pois, do debate contencioso
todas as questões de facto já aqui admitidas por acordo, representando, assim, tal regime
um ganho muito assinalável no que à simplicidade e celeridade processuais concerne.

Deste regime resulta, pois, que a fase conciliatória não está apenas confinada à sua
finalidade maior - obtenção do acordo dos interessados -, sendo-lhe também atribuída
uma outra e relevante função que Vítor Ribeiro denominou de «função especificadora»,
isto é, "(...) de determinação dos factos assentes por acordo das «partes», com a
correspondente simplificação e descarga da matéria a discutir na fase contenciosa. (...)".
 Homologação do acordo

Se na tentativa de conciliação foi possível obter o acordo dos interessados, o mesmo é


imediatamente (i.e. sem intercorrência de qualquer outro acto processual) submetido ao
juiz, que o homologa por simples despacho exarado no próprio auto e seus duplicados -
art.º 114.º n.º 1 do CPT. (Se tiver sido junto acordo extrajudicial e o Ministério Público o
considerar em conformidade com o resultado das perícias médicas, com os restantes elementos
fornecidos pelo processo e com as informações complementares que repute necessárias,
submete-o, com o seu parecer, a homologação do juiz - cfr. art.º 114.º, n.º 2, do CPT.)

A homologação do acordo está dependente da verificação por parte do juiz da sua


conformidade com os elementos fornecidos pelo processo e com as normas legais,
regulamentares ou convencionais.

Como refere Leite Ferreira, nesse despacho, que não é de mero expediente, "(...) o juiz
(...) não chega a conhecer do fundo da relação jurídica substancial, pois a sua actividade
limita-se apenas a verificar a validade do acto praticado pelas partes tanto no ponto de
vista do objecto como da qualidade das pessoas que nele intervêm. Trata-se, pois, de
simples despacho homologatório (...)."

No caso do acordo não ser homologado (por despacho devidamente fundamentado), o


Ministério Público se considerar possível a remoção dos obstáculos à sua homologação,
tenta a celebração de novo acordo para substituir aquele cuja homologação foi recusada -
n.º 2 do art.º 115.º, do CPT

Se, porventura, o Ministério Público considerar não ser possível a remoção desses
obstáculos, não tenta a celebração de um novo acordo, seguindo o processo para a fase
contenciosa com a apresentação da respectiva petição inicial - art.º 119.º, n.º 1, do CPT

Caso o Ministério Público não se conforme com os fundamentos invocados no despacho


não homologatório, pode sempre interpor o competente recurso de apelação - art.ºs 79.º,
al. b), 79.º-A, 80.º, n.º 1, e 81.º, do CPT.

A não homologação do acordo é notificada aos interessados, mas o acordo continua a


produzir efeitos até à homologação do que o vier substituir ou, na falta deste, até à decisão
final - n.º 3 do art.º 115.º do CPT.
Se na tentativa de conciliação, perante a proposta de acordo formulada pelo Ministério
Público, a entidade responsável reconhecer as obrigações legais correspondentes aos
elementos de facto verificados através do processo e o sinistrado se limitar à recusa
infundada do que lhe é devido, o Ministério Público, neste caso, deve promover que o
juiz profira decisão sobre o mérito da causa e lhe fixe o respectivo valor, podendo a
sentença limitar-se à parte decisória, precedida da identificação das partes e da sucinta
fundamentação de facto e direito do julgado - art.º 116.º do CPT.

A mediação e a conciliação nos conflitos civis e comerciais- coleção formação


continua

A FUNÇÃO DE CONCILIAÇÃO DO JUIZ NOS CONFLITOS CIVIS E


COMERCIAIS- Joana Campos Carvalho

 Noção de conciliação- Posições doutrinárias quanto à noção de conciliação

A conciliação é um meio de resolução de litígios. Abstraindo de algumas variações, é


possível agrupar as opiniões da doutrina quanto à sua noção em três posições principais.
A primeira caracteriza a conciliação como uma atividade com as características da
mediação3 , divergindo desta pela maior intervenção do terceiro. Na segunda, a
conciliação é considerada sinónimo de mediação, considerando-se impossível a distinção
das duas. Para a terceira posição, a conciliação consiste na atividade do magistrado com
o objetivo de obtenção de um acordo. É uma atividade semelhante à mediação, divergindo
desta pela circunstância de o terceiro ser o juiz da causa.

São vários os autores que têm uma opinião que se enquadra na primeira posição.
Entendem que, na mediação, se entrega inteiramente às partes a resolução do seu conflito.
O terceiro é um mero facilitador de diálogo. O seu papel é o de trazer uma nova dinâmica
à discussão, restabelecendo a comunicação. De acordo com esta posição, a diferença da
conciliação é que nesta o terceiro pode ir além de uma facilitação do diálogo. O
conciliador faz propostas e apresenta soluções para o caso. Colabora com as partes para
a obtenção de um acordo, não se limitando a fomentar a busca desse acordo pelas partes.
A conciliação judicial no processo civil é regulada pelos artigos 594.º, 591.º, n.º 1, alínea
a), e 604.º, n.º 2.

O Código de Processo Civil de 1876 é comummente classificado como um Código de


conceção liberal. Neste modelo, domina o princípio do dispositivo. Entende-se que as
partes podem dispor do processo da mesma forma que dispõem da relação material que
está subjacente, de acordo com o princípio da autonomia privada que caracteriza o Direito
Privado. É unicamente o interesse das partes que está em causa, pelo que lhes é concedida
uma liberdade ilimitada para dirigirem o processo como melhor lhes convier.

O juiz tem um papel passivo face ao absoluto império da vontade das partes. A ele cabe-
lhe apenas decidir o que lhe pedem que decida. O processo é essencialmente um processo
escrito, atribuindo-se um valor extremo à forma como meio de garantia das partes. Esta
necessidade de certeza jurídica, que se reflete na redução dos poderes e discricionariedade
do juiz ao mínimo indispensável, pode ser vista como uma reação à arbitrariedade dos
anteriores Estados Absolutistas e dos seus juízes.

A partir dos anos 20 do século XX, este modelo é abandonado. Com o início da ditadura,
esta conceção deixa de ser considerada adequada, pelo que se consagra, através das várias
reformas, em especial a operada pelo Decreto n.º 12.353, de 22 de Setembro de 1926, e
mais tarde também no Código de 1939, o paradigma autoritário do processo civil.

Nesta conceção, o juiz é o sujeito processual mais relevante e o princípio dominante é o


princípio do inquisitório. É atribuído ao processo um fim publicístico. O principal
objetivo deixa de ser a satisfação de um interesse individual das partes para passar a ser
a afirmação da norma material e a prossecução de interesses públicos de grau superior.
Deixam de ser as partes as donas do processo, na medida em que mais do que um interesse
privado está em causa um interesse coletivo que não pode ser deixado nas mãos destas.
Após o momento inicial em que a parte toma a decisão de iniciar o processo, o juiz passa
a ter absoluto controlo do processo. Tem amplos poderes de impulso sucessivo, em
matéria de prova e mesmo no momento da decisão, através da generalização dos juízos
de equidade. O que se busca é a verdade material, sendo dados aos juízes os poderes
necessários para a prosseguir. Diminui-se o peso da forma, consagrando-se o princípio da
oralidade.
O modelo do atual processo civil é, ainda, um modelo de flexibilidade, em que o juiz deve
conduzir o processo da forma que entender mais adequada ao caso concreto, com absoluto
respeito pelos direitos fundamentais das partes, nomeadamente o dispositivo, o
contraditório e o direito de recurso. Conclui-se que as normas do processo civil,
nomeadamente as relativas à conciliação judicial, devem ser interpretadas no sentido que
permita prestar um melhor serviço aos cidadãos. Será esse o sentido que permite alcançar
um maior consenso na sociedade, uma vez que a finalidade do processo civil, atualmente,
é a de permitir encontrar a solução mais adequada ao caso concreto, ou seja, aquela que
satisfaça da maneira mais cabal os interesses das partes.

A tentativa de conciliação cumpre, neste enquadramento, uma dupla função. A primeira


é a de permitir ao juiz ouvir a história contada pelas partes, o que lhe facultará uma melhor
perceção da realidade e daquilo que está em causa para as pessoas. Esta é uma função da
audiência prévia em geral.

Contudo, no cumprimento das restantes finalidades referidas no artigo 591.º,


nomeadamente a discussão da matéria de facto assente ou delimitação do litígio e no
esclarecimento de exceções o papel principal tende a ser ocupado pelos advogados. Daí
que uma das funções da tentativa de conciliação possa ser a de permitir ao juiz contactar
com a versão das partes de uma forma mais aprofundada. Permite-lhe estabelecer uma
relação mais próxima com elas e enquadrar os factos alegados no seu contexto,
possibilitando-lhe alcançar uma maior correspondência entre realidade intraprocessual e
extraprocessual. Mesmo quando a tentativa de conciliação for realizada fora da audiência
prévia é possível ela ter esta função se for a primeira vez que as partes falam com o juiz.

Atualmente, esta função não existe nos tribunais judiciais. Em regra, os juízes não incitam
as partes a falar e a contar oralmente a sua versão da história.

A segunda e principal função da tentativa de conciliação cumpre é a obtenção de uma


solução consensual para o caso. Ao invés de aguardar anos por uma decisão que dá razão
a uma ou outra parte pode ser mais vantajoso tentar negociar, diretamente com a outra
parte ou com auxílio de um terceiro, uma solução consensual que pacifica o conflito, uma
vez que ambas as partes sentem que ganharam algo.

Em conclusão, no estado atual da justiça, a conciliação judicial pode, por um lado,


contribuir para o proferimento de uma decisão final melhor, na medida em que representa
um momento de diálogo entre todos os sujeitos processuais. Entende-se por melhor uma
decisão mais de acordo com a realidade e, por esse motivo, mais compreensível e
legitimada, e uma decisão que as partes sentem mais próxima porque tiveram ocasião de
expor os seus interesses e argumentos e sentiram que o juiz as ouviu.

Por outro lado, a conciliação judicial representa a possibilidade de uma solução


alternativa à decisão do juiz, nomeadamente através de um acordo, o que permite
satisfazer os interesses de ambas as partes, ao contrário da decisão adjudicatória em que
uma parte ganha e a outra perde. Para além disso, e apesar de esta ser a razão menos
relevante, este tipo de solução permite evitar os inconvenientes que a justiça atual
apresenta, nomeadamente, a morosidade.

 Papel do juiz na conciliação judicial

A única norma que dá algumas indicações sobre o papel do juiz na conciliação judicial é
o n.º 3 do artigo 594.º. Este artigo estabelece que “a tentativa de conciliação é presidida
pelo juiz, devendo este empenhar-se ativamente na obtenção da solução de equidade mais
adequada aos termos do litígio”.

É possível configurar dois modelos de atuação por parte do juiz na conciliação judicial.
No primeiro, o juiz está numa posição de superioridade em relação às partes. Ele controla
totalmente o conteúdo do acordo, conduzindo as partes a um acordo que considera justo
e equitativo. Trata-se do modelo jurisdicionalístico.

No segundo, o juiz controla o processo apenas do ponto de vista formal, conduzindo-o de


forma a fomentar o diálogo, mas sem interferir ao nível do conteúdo do acordo, uma vez
que esse cabe apenas às partes definir. Trata-se do modelo contratualista.

1. Teoria Jurisdicionalística

Segundo PESSOA VAZ, o processo civil português é publicístico e de inquisitório


moderado. Os fins do processo civil são a verdade e a justiça, pelo que o papel do juiz e
os poderes de que dispõe devem ser os necessários para alcançar esses fins.

Defende o autor que se pode entender a consagração dos meios de resolução convencional
dos litígios, entre os quais a conciliação, de duas formas. Por um lado, como
representando uma prova de confiança do legislador e do público na gestão da coisa
judiciária por parte dos tribunais e um sintoma de progresso social, traduzido na
observação quase espontânea dos comandos jurídicos e aceitação espontânea das decisões
dos tribunais.

Por outro lado, pode ser entendida como a tradução do desprestígio generalizado dos
tribunais, nomeadamente a falta de fé na eficiência do sistema judicial e desconfiança
acerca do acerto e isenção das sentenças judiciais, que levam as pessoas a preferir uma
solução consensual.

Neste tese dita positivista ou de confiança, o juiz fiscaliza e coopera com as partes,
paternalisticamente, na formulação dos termos concretos da solução conciliatória, com o
objetivo de que, em princípio, esta solução não se afaste, mais do que legalmente e
racionalmente consentido, da sentença que viria a ser proferida se não houvesse solução
convencional.

O autor entende que na conciliação o juiz deve exercer um controlo formal sobre os
requisitos da conciliação, mas também um controlo substancial ou tutelar sobre o
conteúdo e apresenta três argumentos para tal:

 argumento lógico-dogmático: na conciliação o juiz deve exercer poderes


de controlo sobre o conteúdo, uma vez que esse papel é o que melhor se
adequa à orientação publicística do processo civil
 elemento comparatístico: nos processos inquisitórios, então consagrados
em vários países, tinham sido abolidos os negócios processuais como atos
de pura disposição material do processo, conferindo-se um pendor
vincadamente jurisdicionalístico à conciliação e transação.
 argumento de interpretação da lei, sustentando-se que o alcance da
expressão “solução de equidade” (no artigo 513.º da versão original do
Código de Processo Civil de 1939 e atualmente no artigo 594.º) exprime a
ideia de que o juiz deve exercer uma atividade de tipo jurisdicional,
embora norteada pelos princípios da equidade e não pelas regras de direito
estrito.

O juiz deve recusar a homologação do acordo sempre que a solução se afigurar injusta ou
iníqua, na medida em que isso significa uma denegação parcial de justiça para a parte
titular desse direito certo. Tal homologação implica um desvio dos fins específicos da
função jurisdicional, nomeadamente a emanação de sentenças que correspondam à
verdade e à justiça substancial.

O juiz deve sugerir a solução para o caso, ajustada ou corrigida pelos seus critérios de
equidade, como sendo a solução mais adequada à situação e tentar persuadir as partes
para que deem a sua “adesão de consciência”. Não é desejável que haja pressão por parte
do juiz para que as partes aceitem. Pretende-se uma solução com que ambas as partes
fiquem intimamente satisfeitas, o que só acontece se a solução tiver sido aceite por elas
livremente.

Para PESSOA VAZ, a conciliação é uma figura mista entre a heterocomposição e a


autocomposição de litígios, uma vez que assenta tanto na vontade do conciliador como
na vontade de ambas as partes

2. Teoria Contratualista

Se se entender que a segunda tese, dita negativista ou de desconfiança, é a mais correta


então aos tribunais não pode ser atribuída outra função que não seja de mero controlo
formal do acordo e de elogio abstrato das vantagens da solução pacífica dos litígios.

-Opinião de Joana de Campos sobre o papel do juiz no contexto atual: a finalidade


da conciliação como meio de resolução de litígios é a de permitir a obtenção de uma
solução consensual para o problema. Devolve-se às partes o poder e também a
responsabilidade da resolução do conflito. Sendo esta a finalidade, não parece adequado
defender que o juiz deve controlar o conteúdo em absoluto, propondo a solução que
considera ser a indicada de acordo com critérios de equidade, como entende PESSOA
VAZ. Tal posição está de acordo com uma conceção dita autoritária ou publicista do
processo civil. Nesta conceção, que já não é a vigente no nosso ordenamento jurídico63,
o processo tem uma finalidade pública; mais do que satisfazer uma pretensão das partes,
o objetivo é a prossecução de interesses públicos superiores, nomeadamente a afirmação
da norma legal. Procura-se alcançar a verdade e a justiça.

No contexto social atual, este paradigma não é adequado. Num Estado de Direito não
deve admitir-se uma publicização daquilo que é privado, nomeadamente o litígio das
partes, uma vez que isso implica uma expropriação de direitos subjetivos. Atualmente, o
objetivo do processo civil deve ser o de resolver os problemas dos cidadãos, permitindo
encontrar a solução mais adequada ao caso concreto. Essa solução pode não passar por
uma decisão do juiz. Em muitos casos, a melhor solução para o caso pode ser aquela que
é encontrada pelas partes, por acordo.

Na conciliação judicial, os poderes dispositivos são ainda mais fortes e os poderes


inquisitórios do juiz mais fracos do que no resto do processo. O juiz não deve preocupar-
se com a procura da verdade, nem sequer com a correspondência entre realidade
intraprocessual e extraprocessual. Aquilo que o juiz deve procurar é que, através do
diálogo, as partes decidam qual a melhor solução para o seu problema. A sua intervenção
deve, assim, ser ao nível do procedimento, controlando o conteúdo apenas em casos
excecionais.

Assim sendo, a norma que estabelece que a tentativa de conciliação é presidida pelo juiz
(artigo 594.º, n.º 3, 1.ª parte) deve ser entendida no sentido de que ao juiz, enquanto
presidente, cabe a condução do processo. A ele cabe a decisão sobre a forma como este
se organiza, mas não a decisão quanto ao conteúdo do resultado do processo. Pode dizer-
se que a forma pertence ao juiz e o conteúdo às partes.

A expressão “presidida” não é a mais adequada, uma vez que remete para uma posição
de desigualdade entre as partes e o juiz, colocando este num nível superior. De acordo
com o artigo 7.º, o juiz deve procurar estar, ao longo de todo o processo, numa posição
de igualdade com as partes, de forma a torná-lo compreensível para estas. A fase da
conciliação não é exceção, exigindo-se uma ainda maior proximidade com as partes, de
forma a fomentar o diálogo e permitir o acordo.

A postura assumida pelo juiz nesta fase deve ser diferente da postura de juiz julgador. O
seu papel durante a conciliação aproxima-se do de um mediador, uma vez que o objetivo
destes dois meios de resolução de litígios é o mesmo: a obtenção de uma solução
consensual construída pelas partes.

O juiz deve ter uma especial preocupação em manter a imparcialidade. Devido à


informalidade há uma maior probabilidade de o juiz exprimir opiniões que uma das partes
compreenda como sendo a favor da outra parte ou mesmo a seu favor. O juiz deve manter-
se sempre equidistante em relação às partes, não cedendo a simpatias ou antipatias, nem
à tentação de proteger a parte mais fraca.
Deve haver, também, um especial cuidado em manter a neutralidade, entendida no sentido
de distância em relação ao conteúdo, uma vez que este pertence às partes. O juiz deve
colocar de lado preconceitos ou convicções pessoais e não tentar influenciar o acordo.

Como regra, o juiz não deve fazer propostas ou sugestões, na medida em que isso
influencia a vontade das partes (Em sentido contrário, PAULO PIMENTA, A fase do
saneamento do processo antes e após a vigência do novo código de processo civil, 2003, p. 221.)

Se o juiz fizer sugestões, as partes podem sentir-se forçadas a aceitar para não o contrariar,
com receio de que isso as possa prejudicar se for ele a decidir. Esta situação deve ser
evitada, na medida em que o que se pretende é um acordo que satisfaça realmente os
interesses das partes e sane o conflito, o que não acontece perante uma solução que se
viram forçadas, ainda que não fosse essa a intenção do juiz, a aceitar.

Contudo, esta regra pode ter algumas exceções. Uma vez que é ao juiz que cabe o controlo
formal do processo, a ele cabe decidir qual a melhor forma de intervenção. É possível que
num caso, depois de analisar devidamente a situação, o juiz chegue à conclusão de que
sugerir algo não vai colocar em causa a liberdade e vontade das partes e pode ser útil para
o processo. Nesse caso, deve poder fazê-lo.

O n.º 3 do artigo 594.º dispõe que na conciliação se deve ter “em vista a solução de
equidade mais adequada aos termos do litígio”. Este preceito foi incluído no Código de
Processo Civil num momento em que a sua ideologia era marcadamente autoritária. No
contexto atual de pluralismo jurídico, em que o objetivo do processo civil deixou de ser
a satisfação de interesses públicos, parece-nos que o juiz não deve preocupar-se com esta
restrição. Entendemos que na conciliação a solução que se deve ter em vista é a que
melhor satisfizer os interesses das partes.

Entendemos que não há nenhum momento do processo civil em que seja obrigatória a
realização de tentativa de conciliação. Deve caber ao juiz avaliar se ela é oportuna e em
que momento o é.

A conciliação pode terminar por desistência do pedido ou da instância, confissão do


pedido, transação, acordo quanto à matéria de facto ou sem sucesso. • Na homologação,
o juiz deve verificar a capacidade e legitimidade dos intervenientes do negócio jurídico,
a idoneidade do objeto, nos termos do artigo 280.º do Código Civil, e se as partes podem
dispor daquela situação jurídica da forma pretendida. A homologação traduz-se numa
aceitação ou recusa do negócio jurídico, não podendo o juiz alterar os seus termos ou
homologá-lo apenas parcialmente.

O empenho ativo do juiz na obtenção de uma solução de equidade em sede de


tentativa de conciliação de Luís filipe pires de sousa (JULGAR Nº23-2014,
COIMBRA EDITORA)

As relações entre a equidade e o direito conduziram a duas aceções fundamentais de


equidade: uma noção mais “fraca” que, partindo da lei, permitiria corrigir injustiças
ocasionadas pela natureza rígida das normas abstratas, aquando da aplicação concreta e
uma noção mais “forte” que prescinde do Direito estrito e procura soluções para os
problemas baseadas na denominada justiça do caso concreto. Tanto uma como outra têm
que ver com uma vertente individualizadora da justiça, ou seja, o julgador, ao decidir,
terá de se preocupar apenas com o prolema que lhe é posto sem ter de ponderar a
necessidade de, mais tarde, vir ter de decidir outras questões do mesmo modo.

Conforme já vimos, o parâmetro da “solução de equidade” em sede de tentativa de


conciliação foi introduzido pelo Código de Processo Civil de 1939. Na explicitação de
ALBERTO DOS REIS, o sentido do critério retor da equidade é este: «em cada caso
particular o juiz procurará fazer triunfar aquela solução que, sem se prender com a
observância estrita das regras de direito, estabeleça o equilíbrio mais justo e mais humano
entre os interesses em conflito. Quer dizer, pondo de parte a preocupação da legalidade,
o juiz esforçar-se-á, na conciliação, por dar razão a cada litigante, na medida em que cada
um deles a tiver.»

O modelo atual do juiz, preconizado pelo Código de Processo Civil é díspar,


aproximando-se mais do modelo contratualista. Com efeito, cabe às partes — em primeira
linha — o poder e a responsabilidade da resolução do conflito, podendo findá-lo pela
conciliação e subsequente homologação da transação. A conquista da verdade material
não constitui o fim necessário e imprescindível do processo. Em sede de conciliação, os
poderes dispositivos das partes sobrepõem- -se aos poderes inquisitórios do juiz. O juiz
não impõe a solução, não exerce um genuíno juízo de mérito sobre mesma. Apenas
colabora ativamente para a justa composição do litígio — cf. Artigo 7.º, n.º 1, do Código
de Processo Civil. A tentativa de conciliação constitui o expoente máximo do princípio
da cooperação, atuando o juiz e as partes como uma genuína comunidade de trabalho.

O juiz não pode recusar a homologação do acordo por reputá-lo injusto ou não equitativo,
tout court. A fiscalização que o juiz exerce sobre o acordo reconduz-se a aspetos formais
e substanciais.

Neste contexto, a remissão para a “solução de equidade” no atual 594.º, n.º 3, é


anacrónica. A solução de equidade não constitui condição nem requisito de atendibilidade
do acordo das partes (negócio jurídico processual). A conciliação encontra a sua eficácia
(e ancora a sua legitimidade) no consenso das partes, não na qualidade de ser mais ou
menos conforme com a equidade.

Atualmente, o sentido útil do parâmetro da “solução de equidade” consubstancia-se numa


advertência dirigida ao juiz no sentido de que as propostas de acordo emanadas do mesmo
deverão ter em devida conta o interesse legítimo de ambas as partes e propugnar por uma
ponderação equilibrada dos interesses e necessidades recíprocas das partes, de molde a
que possam ser aceites pelos litigantes. O legislador relembra ao juiz que a justa resolução
do caso é a meta desejável da atividade judicial. Todavia, essa pauta de atuação judicial
decorre do sistema jurídico em geral e sempre teria de ser observada, não necessitando de
autonomização expressa a propósito da tentativa de conciliação.

Pedro Madeira de Brito, “ a tramitação do processo declarativo comum no CPT”,


pp 456; 453. *

 As fases do processo declarativo comum

O processo declarativo comum do CPT comporta 4 fases à semelhança do que acontece


no processo declarativo comum do CPC.

 Articulados
 Condensação
 Instrução
 Discussão e Julgamento
Os vários actos processuais praticados na sequencia processual são assim analisados e
sistematizados em função da sua finalidade no âmbito do processo.

Apesar desta arrumação em 4 fases ser aplicável à tramitação do processo declarativo


comum do CPT, a sistemática do código regula a tentativa de conciliação como um acto
processual que perpassa todo o processo. Trata-se então de uma hipervalorização do acto
conciliatório, que já foi considerada como principio de direito processual do trabalho.

A tramitação aplicável ao processo comum inicia-se com algumas referências genéricas


à tentativa de conciliação, à semelhança do que se passava no código de 1981. No entanto,
contrariamente ao artigo 50º anterior CPT, apenas se prevê a tentativa de conciliação deve
ser realizada sempre que a lei determine, sem fazer qualquer referência à existência de
tentativas facultativas, tendo sido eliminada a menção que se fazia de que só é possível
fazer-se uma convocação com esse objetivo.

Coloca-se perante esta redação se ainda são possíveis as tentativas de conciliação


facultativas e se o juiz pode convocar as partes quando bem entender.

No art. 594ºCPC está previsto que o juiz pode convocar as partes para conciliação sempre
que considere oportuno, embora as partes não possam ser convocadas mais do que uma
vez para aquele fim.

O prof. afirma que parece que a limitação imposta por este artigo quanto ao número de
tentativas de conciliação promovidas pelo juiz exclusivamente para aquele fim, poderá
ser ultrapassada por aplicação de princípios gerais, como sejam o principio da cooperação
intersubjetiva (266ºCPC) ou da adequação formal (265º A CPC) e alínea b) 56º CPC, seja
no processo civil ou no laboral.

No entanto no processo declarativo comum laboral importa sublinhar podem vir a existir
três tentativas de conciliação:

1. Na fase dos articulados: 55º/2 CPT


2. Na audiência preliminar: 62º e 508ºA CPC
3. Na fase de discussão e julgamento: 70ºCPT

Assim sendo, e face a esta hipervalorização da conciliação, não se considera justificável


a convocação pelo juiz mais do que uma vez para aquele mesmo fim.
Em qualquer fase do processo, a tentativa conciliação é presidida pelo juiz de acordo
51º/2, tendo uma redação semelhante ao art. 509º/3 do CPC.

Claramente o CPT aponta no sentido de que a tentativa de conciliação tem como objetivo
pôr termo ao litigio , mediante acordo equitativo. Apesar de ligeiramente diferentes, o
sentido é o mesmo, exigir que o juiz seja mais ativo no processo, presidindo à diligencia
requerida pelas partes ou oficiosamente determinada e procure uma solução que a justiça
no caso concreto (acordo equitativo), sendo que esta tendência mais ativa do juiz foi
introduzido com a reforma do CPC.

No que diz respeito às especialidade da tentativa de conciliação no CPT, o artigo 52º/1


afirma que a conciliação obtida em audiência, seja por desistência, confissão ou transação
não necessita de homologação para produzir os efeitos de caso julgado, desviando-se
assim do regime que consta do CPC. O regime previsto no art.300º/3, prevê que os
negócios de autocomposição do litigio, para que produzir efeitos, exigem uma sentença
homologatória do juiz.

O prof. MB entende que a justificação desta disposição merece alguma atenção: “parece
que a desnecessidade de sentença homologatória se prende com o facto de o juiz presidir
ao acto processual. Todavia, no âmbito do CPC prevê.se que a conciliação se verifique
perante o juiz e ainda assim esta se exige a homologação da decisão. Em qualquer das
situações o juiz que preside à diligência deve certificar-se da capacidade das partes e da
legalidade do resultado da conciliação” terminando por dizer que o regime previsto no
CPT quanto a esta matéria não revela qualquer vantagem do ponto de vista os interesses
que se visam acautelar neste ramo processual.

O auto de conciliação deve obedecer a determinadas formalidade, às quais se reporta o


art. 53º CPT. Há que distinguir se houve ou não acordo.

Se as partes se conciliarem, o auto deve conter com pormenor os termos do acordo com
respeito a prestação, respetivos prazos e lugares de cumprimento. Se não houver acordo,
quer abrangendo todo o litigio ou apenas parte dele, devem ficar consignadas em acta os
fundamentos da persistência do litigio.

Código do CPT anotado de Carlos Alegre, almedina 2001

Art. 51º CPT


 No anterior CPT existia um art.49º que durante a sua vigência foi revogado pela alínea
c) do art, 15º do DL nº 115/85 de 18 de abril, o qual extinguiu as comissões de
conciliação e julgamento, que haviam sido criadas pelo DL nº463/75 e que eram os
serviços de conciliação de trabalho referidos no antigo art. 49º.

 Carlos Alegre em anotação ao antigo 47º do CPT, fazia um historial da tentativa pré-
judicial de conciliação e tinha a opinião de que a eliminação de uma possibilidade de
tentativa de conciliação prévia à proposição de uma acção fora um dos piores serviços
prestados à justiça laboral, sobretudo com base nas razões invocadas no preâmbulo
do DL que extinguiu as CCJ.

 A ideia existente atualmente é de que para além do interesse particulares das partes,
existia um interesse publico de ordem e da paz social neste tipo de relações. De tal
modo que esse interesse social é ainda relevante tanto que tem a sua evidencia em
várias instituições judiciárias.

 Portanto, assim o aspecto social é dos aspectos mais relevantes dado a sua ligação e
interação com avida da sociedade, embora estejam em causa relações individuais.

 De forma então a preservar o mais possível esse aspecto social, existe uma longa
tradição laboralista que instituí a tentativa pré judicial de conciliação, ou seja, uma
tentativa de evitar que as partes em conflito formalizassem e agudizassem o litigio
que as opunha em tribunal, mas antes colocando-as frente a frente, expondo as razões
mutuas e concertando-as fora dos formalismos judiciais.

 No decorrer da evolução dos tribunais de trabalho, os tribunais avindores,


antecessores dos actuais tribunais do trabalho, mais não era do que instituições, que a
aparte de exercerem funções judiciais, eram sobretudo órgãos de conciliação.

 A tentativa de conciliação era obrigatória e tinha lugar perante o juízo de conciliação


num momento que antecedia a formalização de qualquer litigio judicial , passando
então esta tradição para a jurisdição laboral e para o atual CPT, pelo menos no que
diz respeito ao processo declarativo comum.

 Estas tentativas muitas vezes eram realizadas por serviços jurisdicionais, sempre que
possível, de forma a retirar-se a jurisdicionalização.
 No primeiro CPT, a conciliação foi atribuída às comissões corporativos, instituídas
pelo DL 43 179 de 23 de setembro de 1960

 Com a extinção desse regime , o DL 463/75, atribuiu funções de tentativa de


conciliação prejudicial, nos litígios individuais emergentes da aplicação de IRCT, às
comissões de conciliação de conciliação de julgamento. Só que com este tipo de
instituições pretendeu-se ir além da simples tentativa e obter uma solução extra
judicial para questões de menor que não obtivessem acordo.

 No entanto, a CRP de 1976 veio atribuir as funções de julgamento exclusivamente


aos tribunais, e assim veio retirar às CCJ as atribuições de julgar que lhe foram
atribuídas pelo DL.

 Depois, o DL 115/85 veio afirmar que as atribuições das CCJ eram reduzidas e
questionou então a sua existência. E esse mesmo diploma, invocando a liberdade
associativa, nomeadamente a sindical, entendeu que a conciliação pré judicial pode
operar-se à margem das CCJ desde que as partes interessas o requeiram.

 E esse mesmo diploma deixou explicito que o DL 243/84 (revogado pela Lei 31/86)
que estabelece o regime jurídico da arbitragem voluntária “ veio abrir uma nova via
de resolução dos litígios através do recurso a arbitragem. No entanto, Carlos Alegre
é da opinião que está questão merece ser repensada no sentido de reposição da
tentativa pré judicial de conciliação, a fim de devolver à justiça laboral.

 Mesmo tendo-se desvalorizado o acto conciliatório anterior ao procedimento judicial,


manteve-se a tentativa de conciliação na fase judicial, no entanto, sem de qualquer
novidade ou especificidade relevante em relação ao regime do CPC.

 No CPT de 1963, a tentativa de conciliação, na fase judicial, era presidida pelo MP,
com a justificação de poder-se constituir algum tipo de imparcialidade por parte do
juiz, embora inconvenientemente no entender de Carlos Alegre.

 E afirma ainda que esse inconveniente não o parecia ser no CPC, onde o juiz presidia
à tentativa judicial de conciliação, pelo que o mais correto foi adoptar-se semelhante
procedimento no processo laboral, sobretudo porque a posição de parte que o MP
muitas vezes assume, poderia significar inconveniente semelhante ao que era
apontado no caso do juiz.

 Alguns autores, no entanto, defende que este tipo de tentativa de conciliação,


promovida e presidida pelo juiz se apresenta com uma tentativa forçada de conciliação
que não satisfaz as naturais expetativas das partes perante o litígios, mas que entre os
prejuízos de conciliação forçada e os do julgamento, optam-se pelos primeiros.

 “pôr termo ao litigio mediante acordo equitativo”: nem o juiz, de quem se espera um
posicionamento ativo para uma solução de equidade, nem qualquer outro pessoa, para
além das parte dos processo, a que se refere no art. 55º/2, está em condições de avaliar
se o acordo é ou não equitativo- pois não existe quaisquer outro elementos para além
da petição inicial.

 Assim sendo, o que se tem presente é que a conciliação “ se destina a pôr termo ao
litigio”, correndo-se assim o risco de que este aspecto seja suficientemente relevante
para fazer esquecer que com a tentativa de conciliação se pretende promover uma
solução acordada, livremente conseguida, e equitativa do conflito.

 Carlos Alegre é da opinião que a audiência das partes prevista no art. 55º do CPT,
não mais é do que uma tentativa pré judicial de conciliação, não admitida pelo
legislador.

 No anterior art. 50º/1 dizia expressamente que havia lugar à tentativa judicial de
conciliação em três momentos, uma delas sendo obrigatória e outras duas facultativas:

 Obrigatoriamente quando prescrita no Código: imediatamente antes da


abertura da audiência de discussão e julgamento- 65º/1 e 90º/2

 Facultativamente quando as partes conjuntamente o requeressem, podia


acontecer para fins do art. 34º, em qualquer fase do processo

 Facultativamente, por iniciativa do juiz, quando o julgue oportuno, em


qualquer fase do processo.
 Atualmente, temos dúvidas quanto à possibilidade facultativa da tentativa de
conciliação dado que o art. 51º/1 do CPT já não refere o mesmo, embora o art. 509º/1(
atual 594º/1 CPC)

 Na vigência do CPT de 1963, a desistência, a confissão ou transação feita em juízo,


realizada em tentativa de conciliação, quer obrigatória quer facultativa, era sempre
presidida pelo magistrado do MP e não carecia de homologação para produzir efeitos
de caso julgado.
 Este regime foi profundamente alterado pelo CPT de 1981, depois da modificação
que sofreu em 1985 pelo DL 115/85 de 18 de abril, em que o MP deixou de presidir
as tentativas judicias de conciliação, à exceção do processo especial de acidente de
trabalho, intervindo na fase conciliatória, tal como acontece atualmente 108º. E, desde
então, a tentativa de conciliação, fora daquele caso, passou a ser da presidência e
responsabilidade do juiz.
 O juiz, no exercício das suas funções tem por obrigação garantir a legalidade do acto,
tal como indica o 52º/2.

Art. 114ºss

 O artigo 114º prescreve o regime da homologação do acordo de conciliação. A


homologação no regime do anterior CPT tinha natureza e forma de sentença com os
atributos e consequências normais de uma sentença daquele tipo, quer no aspecto
declaratório, quer no aspecto executivo.

 Com o presente CPT e conforme o artigo, a homologação deixou e fazer-se por


sentença, passando a realizar-se por simples despacho , exarado no próprio auto de
conciliação e seus duplicados.

 A distinção doutrinal entre sentença e despacho não é fácil como deixa claro Alberto
Reis. Para este prof. o acto pelo qual o juiz conhece do mérito da causa, ou compõe a
lide, merece a designação de sentença; despachos seria os actos de simples ordenação
de expediente ou governo processual.
 Natureza do despacho: é um despacho de fundo que exige que do juiz a verificação
da conformidade do teor do acordo com elementos fornecidos pelo processo e comas
disposições legais.

 Este despacho merece ou não fundamentação nos termos do 157º CPC? Na opinião
do prof. Carlos Alegre dependerá se o despacho homologar ou rejeitar o acordo. Se é
homologatório, não há necessidade de se fundamentar (ele não incide sobre matéria
controvertida, mas sobre factos livremente aceites pelas partes; por outro lado, a
simplicidade e rapidez seriam perdidas, o que transformaria o simples despacho numa
sentença); se não é homologatória, então deve ser fundamentado tal como indica o
158º/1 do CPC, sendo necessária a fundamentação não apenas para conhecer as razões
que impediram a homologação, mas também para reexaminar os factos em eventual
recurso. Por outro lado, só com um despacho não homologatório fundamentado se
poderá dar cumprimento ao que dispõe o art. 115º/2 do CPT.

 Por outro lado, se o despacho não homologatório for não fundamentado, a única
atitude a tomar pelo MP será a de pedir o esclarecimento, se este não for feito, então
o passo seguinte é de promover a nulidade do despacho nos termos do 668º/1 b) e
666º/3 do CPC. Se, por outro lado, for um despacho devidamente fundamentado,
então temos várias hipóteses:

 se o MP aceitar as razões determinantes da não homologação do acordo


determinará a celebração de nova tentativa de conciliação da qual poderá
resultar ou não novo acordo.

 Se, apesar da celebração da nova tentativa, esta conduzir a uma posição das
partes semelhante à posição assumida no acordo não homologado, não
interessa então submetê-lo novamente a apreciação do juiz, não convencendo
as partes a alterar o acordo, embora o MP aceite as razões invocadas pelo juiz.

 Se o MP não concordar com a razões fundamentas invocados no despacho de


não homologação do acordo, o procedimento correto deve ser a interposição
de recurso, que é de agravo e seguia os termos do artigos 733º CPC
((Revogado pelo Decreto-Lei 303/2007, de 24/8.)
 No caso de inércia do MP na tentativa de celebração de novo acoro para
substituir aquele cuja homologação foi recusa- Carlos Alegre duvida que a
celebração do novo acordo seja um acto imposto ao MP. Se se entender que a
actividade do MP subsequente à não homologação do acordo, com vista à
celebração de um novo, é um dever, então lhe incumbe cumprir o mesmo ainda
que seja um acto inútil: se a actividade se trata de uma possibilidade ela pode
não ser realizada

 Qual o interesse e o valor do simples despacho? – no regime anterior, a homologação


do acordo por sentença entendia-se como condição necessária à força executiva plena
do mesmo. No atual regime, a inclinação é de que o despacho homologatório destinar-
se-á a verificar a legalidade do acordo conseguido sob égide do MP, havendo assim
quase que como uma segunda verificação da legalidade.

 No entanto, Carlos Alegre afirma que o acto homologatório atualmente não faz
sentido dado que há uma clara divisão do processo em duas fases, assim com as
competências quer do MP quer do juiz estão bem delimitadas. E até dá o exemplo da
falta de controlo pelo juiz no caso das pensões ou indemnizações emergentes de
doença profissional que são definidas exclusivamente por uma entidade meramente
administrativa (Centro Nacional de Proteção contra os Riscos de Doenças
Profissionais), em que a primeira fase – meramente administrativa- de reparação das
doenças profissionais termina por um “acordo” tácito que não necessita de
homologação.

 Sendo que a única função útil que ainda pode ser dada é uma função meramente
formal, função essa de servir de baliza ao início da fase contenciosa do processo, isto
é, da fase em que o processo, que pode não passar a uma fase litigiosa, passa ser
dirigida pelo juiz.

 Eficácia do acordo: em termos de eficácia é a realização do acordo e não a sua


homologação. O efeito mais importante do acordo é o de legitimar e tornar liquido
um direito ou conjunto de direitos, emergentes do acidente de trabalho. O acordo
transcrito em auto adquire a força de TE nos termos do 88º/1 b).
Código do CPT anotado de Alberto Leite Ferreira, 1996

Art. 50º- atual 51º

 No domínio das relações individuais de trabalho está em jogo, para além do interesse
das partes, o interesse público da ordem e da paz social. E o legislador não quis
esquecer essa realidade e por isso introduziu no CPT, com o propósito de favorecer a
composição amigável dos conflitos, a tentativa de concertação com a hipervalorização
do acto conciliatória.

 Partiu do principio de que a finalidade da justiça, com especial relevo nas relações
laborais, se conseguiria pelo bom entendimento entre partes em detrimento das
aplicação rigorosa do direito.

 O regime estabelecido neste CPT, quanto a esta questão, leva a distinguir a dois
aspectos:

a) Tentativa pré judicial ou prévia de conciliação- art. 49º

 Esta tem grande tradição no nosso direito. Já nas Cortes de Elvas de 1481 o povo
solicitara a D. João II a criação de juízos com a finalidade especifica de conciliar as
partes. No entanto coube a D. Manuel, já no século XVI, a dar satisfação À vontade
do povo, criando nas cidades, vilas ou lugares, os juízes avindores que em 1519
surgem como uma magistratura própria com competência oficiosa para conciliar as
partes desavindas

 No entanto os juízes avindores caem em desusos, já não sendo estes referidos sequer
nas ordenações filipinas que, no entanto, continuam a sobrepor a solução dos conflitos
por via conciliatória a solução por via contenciosa.

 A carta constitucional de 1826, nos artigos 128º e 129º tornou obrigatória a tentativa
prévia de conciliação, e para tal ordenou a criação de juízes.

 Em jeito de obediência à vontade do diploma constitucional, o Decreto nº24 de 1832,


institui e organizou os juízes de paz que a Nova Reforma Judiciária e o CPC de 1876
mantiveram, continuando estes a contemplar a tentativa prévia com caracter de
obrigatoriedade.
 Este regime, no CPC, manteve-se até 1939, que a partir dessa data o constitui como
facultativo.

 No domínio laboral, a situação não era diferente: no caso especifico de Portugal, pela
carta de lei de 14 agosto de 1889 foram instituídos os tribunais de árbitros-avindores,
sendo a sua regulamentação como órgãos representativos de patrões e trabalhador foi
feita pelo Decreto de 19 março de 1891.

 Esses tribunais funcionavam como órgãos judicias, como órgãos conciliação, como
camaradas indicais e como órgãos de fiscalização. Era constituídos por um presidente,
dos vice-presidentes e um número de vogais não inferior a 8 nem superior a 16.

 A tentativa prévia de conciliação era obrigatória e tinha lugar perante o juízo de


conciliação que era constituído apenas por um presidente e por dois vogais, um em
representação da entidade patronal e outro em representação da classe dos
trabalhadores.

 O CPT de 1963, no art.50º, e o CPT de 1979, no art.48º, mantiveram a feição


obrigatória da tentativa de conciliação preliminar.

 Esta orientação manteve-se no código de 1981, no art. 49º, que impunha o recurso à
tentativa prévia de conciliação sempre que se tratasse de acções emergentes de
questões previstas nas alíneas b), f), g), h), do art. 66º da LOTJ:

 Relações de trabalho subordinado e de relações estabelecidas com vista à


celebração de contratos de trabalho

 Trabalho autónomo, desde que não fosse prestado por empresários ou por
profissionais livres nessa qualidade

 Contratos de aprendizagem e de tirocínio ou

 Questões entre trabalhadores ao serviço da mesma entidade, a respeito de


direitos e obrigações que resultassem de actos praticados em comum na
execução das suas relações de trabalho ou que resultasse de acto ilícito
praticado por um deles na execução do serviço e por motivos deste, ressalvada
a competência dos tribunais criminais quanto à responsabilidade civil conexa
com a criminal, as acções, de que tais questões eram objeto, não podiam
prosseguir em juízo sem que o autor provasse a realização de tentativa prévia
de conciliação.

 Podendo ser perante os serviços de conciliação do trabalho- o CPT de 1963


estabelecia no artigo 50º/2 que a tentativa preliminar seria realizada perante “ a
respetiva comissão corporativa”, e no caso de não existir , perante o MP. As comissões
corporativas foram instituídas pelo DL 43 179, de 23 de setembro 1960, no entanto o
DL foi revogado pelo 53º do DL 54/74 de 15 de fevereiro, mas não retirando a
competência que tinham como órgãos de conciliação. Posteriormente, o DL 463/75
de 27 de agosto, criou, em substituição das comissões corporativas, a CCJ com uma
composição tripartida – um presidente, nomeado pelo Mistério de Trabalho e dois
membros designados pelas partes signatárias das CCT correspondentes. No entanto,
as CCJ foram extintas pelo 83º/2 alínea e) da lei 82/77 de 6 de dezembro que aprovou
a LOSJ, dando-se assim cumprimento ao principio consignado na CRP de que a
função jurisdicional é da competência exclusiva dos tribunais.

No entanto, foi criticada esta disposição dado que nada impedia que a comissão
continuasse só com a função conciliatória e de arbitragem voluntária, e por isso
aceitou-se a sua restauração até “pela necessidade de evitar uma incomportável
acumulação de processos, ainda na fase conciliatória, em questões emergentes e
relações individuais de trabalho”. ( DL 328/78 de 10 de Novembro foi publicada de
forma a manter-se a CCJ, mas sem a função jurisdicional).

Em suma, quando no artigo 49º/2 do CPT se falava em “ serviços de conciliação do


trabalho” numa primeira fase era as comissões corporativas, e numa segunda fase as
CCJ.

Contundo, as CCJ foram extintas pelo DL 115/85 de 18 abril, por questões de


liberdade de iniciativa, nomeadamente, a sindical, entre outros.

 OU perante o agente do MP junto do tribunal competente para a ação- apenas seria


legitimo na falta de serviço de conciliação do trabalho competente. E no caso de se
recorrer ao MP estando aqueles serviço em funcionamento equivalia à não realização
de tentativa de conciliação.
 A tentativa prévia, no sentido etimológico do seus termos, não significam outra coisa
senão uma tentativa que se desenvolve no momento exterior da fase judicial, por
contraposição da tentativa de conciliação judicial que é feita em juízo.

 Brocado “ mais vale uma má composição do que uma boa demanda”- significando
isto que as vantagens da solução dos conflitos por via conciliatória se devem antepor
à elegância duma sentença ( Dino Gandi, projecto de CPC italiano de 1940: “a
finalidade da justiça é a paz social; nenhuma julgamento, por mais perfeito que seja,
atinge esta alta finalidade melhor o que uma conciliação entre partes”)

 E essa ideia propagou-se ao longo do tempo, aceitando-se que essa era a melhor forma
de solucionar os conflitos de interesses que opõem entre si as partes em litigio
encontram um particular razão de ser no campo laboral onde para além do interesse
das partes de natureza privada, há uma especial dimensão do interesse publico na
harmonia socia. Daí que a obrigatoriedade da tentativa de conciliação se apresente
como reflexo duma vontade conciliatória supervalorizada criada pela necessidade
duma justiça pacificadora. E também por isso é que o legislador impôs ao autor, em
determinados casos, o ónus da tentativa prévia conciliação anterior à entrada em juízo.

 Por outro lado, admitia-se que a conciliação prévia conseguia encher de conteúdo
prático o principio da celeridade processual, na definição dos interesses do conflito,
que no contencioso demoraria muito mais tempo.

b) Tentativa judicial de conciliação ou tentativa de conciliação na pendencia da


ação- art. 50º atual 51º CPT

 O art. 49º foi revogado pelo art. 15º alínea c) do DL 115/85, de 18 abril. Não será por
isso muito rigoroso falar -se ainda em hipervalorização do acto conciliatória. E isto
porque a tentativa prévia nos litígios emergentes das relações individuais de trabalho
perdeu o carácter obrigatória que tinha.

 Deixou então de ser uma imposição da vontade legal para entra no domínio da vontade
das partes interessadas.
 Mas mesmo que a eventual tentativa prévia se tenha frustrado, isso não significa que
ficou preterida a eventualidade da justa composição da lide por forma pacifica uma
vez que há sempre possibilidade de conciliação judicial, isto é, de conciliação na
pendencia da ação em juízo.

 Deve ser tentada no próprio dia do julgamento e antes da abertura da audiência- art.
50º/1, 65º/1 e 90º/2. E pode ser tentada em qualquer altura que o juiz o julgue
conveniente.

 Contudo, deve-se ter conta a limitação que lá se encontra ( mas atualmente não) que
tem que ver com o facto do juiz não poder convocar as partes mais de que uma vez
com o propósito de as concilias, ainda que a convocação tenha sido feita a
requerimento conjunto das partes, ou seja, está interdito ao juiz a possibilidade de
convoca-las única e exclusivamente com o fim de tentativa de conciliação.

 E esta limitação tem uma ratio: a lei deseja a conciliação como forma mais justa e
mais conveniente de administração da justiça laboral, não podendo admitir que à
sombra deste principio o tribunal seja levado a lançar mão da tentativa de conciliação
como expediente meramente dilatória.

Nota: Na atual redação do art. 51º não consta essa limitação, aparecendo unicamente
no art. 594º/1 in fine do CPC

 Portanto o CPT em vigor na época, seguiu a orientação dada pelo CPC, procurando
combater os abusos.

 No CPT de 1963, a tentativa de conciliação feita em juízo era sempre presidida pelo
MP, e isto significa mesmo na fase de julgamento, cabia ao MP a sua superior direção.

 No entanto, no CPT de 1981 triunfou a opinião de vários setores da doutrina que


entendia ter de ser o juiz a presidir a tentativa de conciliação judicial (50º/2), voltando-
se à linha tradicional do direito positivo português.

 A conciliação, resultando, poderá acabar de 3 formas:


 Transação judicial: se durante a realização da tentativa resolverem pôr fim
ao conflito perante a incerteza do desfecho da lide, em que cada uma delas
cede, em beneficio da outra, uma parte da sua pretensão.
 Desistência: se em vez de uma cedência recíproca, o autor abandona a sua
pretensão
 Confissão: se o réu reconhece a pretensão do autor
 No caso de uma destas situações, o acto não carece de homologação para produzir
entre as partes o efeito de caso julgado- 51º/1, isto porque a homologação destina-se
a verificar e a certificar a legalidade objetiva subjetiva do acto, e por isso o juiz esteve
presente na audiência de conciliação, tendo uma intervenção marcante e ativa, não
deixando de se certificar da validade do acto.
 No caso de haver ilegalidade ou o juiz ter duvidas à cerca da sua legalidade o que se
lhe impõe é recusar a validade ao acto, fundamentado sumária mas convenientemente
as razões por que o faz, mas não se pode falar em caso julgado. Dado que no caso de
desistência, confissão ou transação não há sentença de fundo e ainda que haja sentença
de forma- o que não acontece em direito laboral- a sua função é apenas a de certificar
a regularidade e a validade do acto.

Art. 110ºss – atuais 108ºss: fase conciliatória nos processos para efetivação de
direitos resultantes de acidentes de trabalho ou de doenças profissionais.

 A tentativa de conciliação procura, como a melhor maneira de servir a paz social, uma
justa solução do conflito pela amigável composição das partes, à diligencia devem
comparecer as pessoas ou entidades de cuja intervenção depende, eventualmente, a
obtenção daquela finalidade.

 Uma questão que se coloca é se os interessado poderão ser convocados mais do que
uma vez para se tentar a conciliação:

 A lei consente-o expressamente: terá então de haver, por exemplo no caso do


110º/4 e 5.

 A lei nada diz, então neste caso estará interdito, valendo as razões que levaram
o legislador a ditar o comando do art. 50º/1 – no entanto esse comando já não
lá se encontra
 Nos processos por acidentes de trabalho ou doenças profissionais, a tentativa de
conciliação reveste carácter obrigatório, sendo semelhante a situação que se
verificava com as questões emergentes de contratos individuais de trabalho antes da
revogação do art. 49º. As razões que estão na base da obrigatoriedade do acto
conciliatório são sempre as mesmas, a solução dos conflitos por acordo das partes.

\\\\\

 Note-se que Conciliação e a Mediação são conceitos distintos, na medida em que na


conciliação as partes tentam solucionar o seu litígio com o apoio de um conciliador
que procura apenas que as partes se entendam, e na mediação, o mediador, estuda a
questão e prepara algumas propostas, para apresentar às partes, tendo, por isso um
papel mais interventivo.

 Na Europa do séc. XIX, optou-se pela criação de órgãos destinados especificamente


a administrar a justiça nos conflitos laborais, atendendo ao conteúdo da relação laboral
e por conta das condições de trabalho na época, por serem, frequentes os conflitos
entre Empregadores e Trabalhadores.

 Em Portugal, na senda dos restantes países europeus industrializados, e por influência


dos Conseils des Prud’hommes franceses, foi autorizada a criação de tribunais de
árbitros-avindores, através da Lei de 14 de Agosto de 1889.

 Em 1 de Maio de 1964, entra em vigor um segundo Código de Processo de Trabalho,


o CPT/63, cuja matriz é ainda seguida pelo CPT actual.

 Elaborado, tal como previsto no seu Preâmbulo, de acordo com a doutrina e legislação
estrangeiras, nele se tentou seleccionar e consagrar os Princípios gerais mais
adequados à adjectivação dos institutos nacionais e, também, mais conformes com os
Princípios fundamentais do Processo Civil português, por ser este o regime
subsidiário aplicável.

 O actual Código do Processo de Trabalho foi, finalmente, aprovado pelo Decreto-Lei


n.º 480/99, de 9 de Novembro, e vigorou, praticamente inalterado, durante 10 anos,
sendo então objecto de uma alteração, promovida pelo Decreto-Lei n.º 295/2009, de
13 de Outubro.
 Esta alteração justificou-se declaradamente pela modificação do regime substantivo,
com o Código do Trabalho de 2003, o que, não tinha ainda sido reflectido no Código
de Processo do Trabalho, e levantava algumas dificuldades práticas; por ser
necessário conformar várias das normas do Processo do Trabalho aos princípios
orientadores da reforma do Processo Civil verificada; e porque a completa vigência
do Código do Trabalho de 2009 se encontra dependente de regulação adjectiva.

 Finalmente, em 2013, pelos motivos expostos, aprova-se o Novo Código de Processo


Civil, do qual resultou uma profunda e necessária alteração sistemática, com a
introdução de novas figuras e institutos e a modificação, por vezes pontual, outras
radical, das normas vigentes até 1 de Setembro de 2013.

 Posteriormente, mas ainda em 2013, e demonstrando a dinâmica legislativa, foi


através da Lei n.º 63/2013, de 27 de Agosto, alterado o CPT, introduzindo-se um
capítulo novo no Titulo VI – referente aos Processos Especiais, do Livro I, prevendo-
se, assim, a Acção Especial de Reconhecimento da Existência de um Contrato de
Trabalho.

 No contexto da reforma do Processo Civil, e paralelamente, foi também levada a cabo


a reforma do sistema judicial, promovida pela Lei de Organização do Sistema
Judiciário.

 Foi, por esta via, introduzida uma nova designação dos Tribunais que influenciou a
estrutura do Tribunal Judicial de Comarca passando os até então designados tribunais
de trabalho, a “secção de trabalho”; estas consubstanciam-se, desde então, em secções
de competência especializada que preparam e julgam as matérias que legalmente lhes
caibam, previstas nos art.ºs 126.º e 127.º, da LOSJ.

 De todo o modo, a existência de um Direito do Processo do Trabalho com princípios


gerais próprios foi apontada como um dos factores determinantes para a afirmação da
existência de uma jurisdição especial do trabalho.

 A verdade é que, por via da elaboração do estudo do Processo do Trabalho


internacional, preparatório do CPT/63, foi, desde logo, indicado como basilar no
Direito adjectivo do Trabalho, o Princípio da Conciliação, na medida em que é no
Processo do Trabalho que com maior insistência, se procura a conciliação entre as
partes, afirmando-se mesmo a existência de uma hipervalorização do acto
conciliatório.

 De acordo com o Professor RAUL VENTURA, aquando da elaboração do estudo que


permitiu a elaboração do CPT/63, todas as características e princípios apreendidos, se
agrupavam em três grandes princípios entre outros:

 O Princípio da Justiça Pacificadora: que se manifestaria na preferência da


conclusão do litígio por composição voluntária e pela, então prevista no art.º
36.º, do CPT/63, cumulação obrigatória de acções.

 Temos assistido a uma laboralização do Processo Civil, na medida em que muitas das
soluções inovadoras que foram sendo introduzidas no Processo do Trabalho têm sido
exportadas para o direito adjectivo comum, das quais, e p.e., se pode indicar o
aumento do pendor conciliatório do Processo ou a sua simplificação pela instituição
de uma forma única de processo declarativo comum.

Paulo Sousa Pinheiro- Curso breve de direito processual do trabalho: A hiper


valorização do ato conciliatório e a mediação
A expressão hiper valorização do ato conciliatório, originariamente , é de Perez botija, e
como muito bem faz notar Raul Ventura , justifica-se porque no processo do trabalho
procura-se com maior insistência do que processo como conduzir as partes à
conciliação,contudo o processo do trabalho não é nem pode ser um processo de
conciliação.

Embora tenha maior relevância no processo laboral o ato conciliatório no que toca ao
direito adjetivo do trabalho e aos princípios do direito do trabalho, Palma Ramalho diz
que do ponto de vista axiológico a autonomia do processo do trabalho está também em
crise dado que os princípios do processo laboral que tradicionalmente o diferenciavam do
processo civil, por exemplo a valorização do ato conciliatório , foram ao longo do tempo
assumidos como princípios do processo civil. Na verdade esta generalização dos
princípios do processo laboral ao domínio do processo civil é mais 1 contributo do direito
do trabalho para a evolução geral da dogmática jurídica com particular incidência no
domínio processual.
Segundo lobo Xavier desvaloriza essa conciliação até porque se eliminaram estruturas
conciliatórias anteriormente existentes, nomeadamente as comissões de conciliação
julgamento e durante o estado novo as comissões corporativas., estruturas essas que
funcionavam obrigatoriamente antes de iniciar o processo. de qualquer modo a justiça do
trabalho é ainda uma justiça Pacificadora sendo frequente que os litígios do trabalho
terminem por conciliação judicial.

No processo comum de declaração, o código de processo do trabalho prescreve o que,


uma vez recebida a petição do autor verificamos que a ação se encontra em condições de
prosseguir o juíz deve terminar uma audiência de partes. esta solução é uma verdadeira
inovação do processo laboral, servindo primariamente para tentar conciliar os partes
evitando assim o prosseguimento inútil da ação. Importa também referir que audiência
das partes vem apenas retomar experiências anteriores - nomeadamente as tentativas de
conciliaçao prévias sob egide do Ministério público e das comissões corporativas ou mais
tarde das comissões de conciliação e julgamento.

O que importa realmente dizer é que com a introdução da audiência das partes, e da
audiência previa e com a tentativa obrigatória de conciliação realizado na data da
audiência final poderá haver no no mínimo 3 momentos distintos parece procurar obter a
conciliação entre as partes com manifestas possibilidades desgaste quer das partes quero
do tribunal:

 Isto para não dizer quando causa couber no âmbito dos poderes disposição 2 partes
estes podem em qualquer fase do processo e caso o juíz considera oportuno ser
convocada exclusivamente e por uma única vez para uma tentativa de conciliação ;
 também podem conjuntamente requerer essa tentativa segundo o artigo 594º do
código processo civil por remissão do artigo 1º/2 alínea a) do código processo de
trabalho;
 e por fim também podem, em conjunto e e não estando garante direitos indisponíveis
em qualquer estado distância transigir sobre o objeto da causa
COISA QUE AINDA TENHO DE PROCURAR!

*ver ac.TRL, de 06-12-2010( desembargador Fernandes Isidoro) in C.J Ano XXXV,


tomo V/2010, pp244

Ac. do STJ de 22.05.2002, proc.º n.º 02S1060

Ac. do TRL de 17/06/2015, proc.ºnº 1217/14.6TTBRR.L1-4

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