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Prefácio do livro ‘Bandidolatria e Democídio’ – Mídia


Sem Máscara

Percival Puggina

Prefácio de Percival Puggina e comentário de Olavo de Carvalho.

Quando foi lançado o livro ‘Bandidolatria e Democídio – Ensaios sobre garantismo penal e a
criminalidade no Brasil’, eu estava em viagem de férias e não pude comparecer, como tanto gostaria e
como seria meu dever, distinguido que fora pelos autores com o privilégio de prefaciá-lo. Registro,
então, o fato e o ato, publicando o texto que escrevi sobre minha leitura desta corajosa e importante
obra. Bandidolatria e Democídio é uma co-produção das editoras Armada e Resistência Cultural e
teve sessão de autógrafos na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country em Porto Alegre, dia 7
deste mês de junho.

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A obra que você tem em mãos, antes de ser um livro, é um acontecimento. Entendida assim, deveria ser
manuseada como se o leitor participasse de um evento, desses que o acaso nos permite testemunhar e
as compulsões da vida moderna fazem surgir o desejo de capturar em forma de imagem. Clic! Este
livro, saiba, está na categoria dos atos heróicos. Há nele muito do destemor exigido para um salto ao
fosso das ariranhas. Seus autores são membros do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, o
que torna ainda mais relevante a corajosa determinação de, juntos, o produzirem.

O promotor de Justiça Diego Pessi, atua na comarca de Erechim e o promotor Leonardo Giardin de
Souza exerce suas atividades em Taquara. Os dois trazem às páginas de Bandidolatria e Democídio –
Ensaios sobre garantismo penal e a criminalidade no Brasil – vigorosas experiências de quem, no
exercício de sua função institucional, conhece e atribui justíssimo valor às expectativas da sociedade em
relação ao aparelho judicial. E sofre, com a sociedade, as dores de suas perdas ante a terrível expansão
da criminalidade em nosso Estado e em nosso país. Dessa angústia nasce cada página desta obra, da
qual me foi dado o privilégio da leitura prévia e o convite para prefaciá-la.

Há, aqui, alguns relatos sobre criminalidade, a guisa de ilustração, tomados ao acaso no farto
provimento disponibilizado pelo cotidiano nacional. Na dose certa, eles servem como motivação para o
que lhe é essencial: constatar e demonstrar que os avanços da criminalidade contam com inegável
favorecimento proporcionado pelas elites políticas, pelas instituições do Estado brasileiro, por amplos
segmentos do mundo acadêmico, por doutrinas em voga e moda no mundo jurídico, pela ideologia que
imanta os adeptos da Teologia da Libertação e pela maior parte dos nossos formadores de opinião. Não
por acaso, listei, quase à exaustão, a parcela da elite nacional de quem a sociedade espera a fração de
bem comum que não seja de produção própria.

Os autores, com diferentes estilos e focos, vão desmontando as falácias que fornecem inspiração à
maior parte dos textos que chegam ao grande público sobre o tema da sua própria insegurança. Eles
demonstram que essas abordagens são desfocadas, ou erradas, ou mal-intencionadas, como bem

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evidenciam suas consequências na vida social.

O grande inimigo aqui combatido é, ao mesmo tempo, o grande amigo da criminalidade e causa
eficiente do descontrole a que chegou entre nós. Leonardo Giardin de Souza, informa seu nome e
sobrenome: é o “Garantismo Penal, filho bastardo do Marxismo Cultural, gestado no ventre de aluguel
do Positivismo Jurídico”.
Vai-se a obra, então, atrás dessas raízes, mostrando a perversidade da seiva que por elas flui, a
envenenar, desde dentro, a árvore institucional brasileira, robustecendo todos os níveis do mundo do
crime e debilitando a sociedade. Eis a esteira doutrinária pela qual se chega à “bandidolatria”, prática
corrente no ambiente jurídico e penal brasileiro, que transforma o criminoso em vítima de quem não se
poderia exigir conduta distinta e a vítima em imperdoável beneficiário e coautor da desigualdade social
que levaria ao crime. Sem a dolosa conduta de todas as vítimas – disso querem nos convencer os
bandidólatras – viveríamos num mundo de amor, segurança e paz. Os autores sustentam
diferentemente e, ao fazê-lo, confrontam poderes e poderosos. Não miram para o rés do chão, mas para
as Torres de Marfim das elucubrações e para a insensível arrogância de tantos gabinetes.

Com fundamento em bons autores e em estudiosos da criminologia como ciência, afirmam que o
criminoso é um agente consciente de seu poder, buscando realizar desejos, informado sobre o quanto
lhe estão franqueados os meios de ação pela falta de reação e investido de autorização tácita expedida
pela “intelectualidade” nacional. Sendo infinitamente maior o número de necessitados do que o número
de criminosos e havendo tantos criminosos materialmente abastados, resulta óbvia a conclusão de
Diego Pessi: não é a necessidade que leva ao crime, mas a submissão ao conjunto de paixões e pulsões,
na ausência da alteridade. A inteligência do criminoso calcula riscos, avalia ganhos e benefícios, e toma
decisões como qualquer empreendedor em relação a seus objetivos.

Há neste livro, que percebo como um acontecimento, absoluta honestidade intelectual e compromisso
com o bem da sociedade. Citam-se sentenças judiciais que escandalizam consciências bem formadas.
Inclusive sentenças colegiadas, de segundo grau, que, feliz e oportunamente, receberam severas
revisões. Constituem exemplos clássicos do que os autores reputam importante combater. São
expressão vultosa do inimigo doutrinário, cultural, ideológico e político a desmascarar e superar.

Sem necessidade de formação jurídica, a sociedade brasileira já deu claros sinais de haver entendido a
quem servem aqueles que reservam à atividade policial apenas palavras de censura, advertência e
condenação. Cumprem tarefa antissocial minuciosamente caracterizada nestas páginas. Seguem à
risca a prescrição que determina marcar sua atuação como em defesa dos direitos humanos. São
onipresentes para apontar o dedo acusador a alguma ação excessiva, mas desaparecem envoltos no
próprio silêncio e omissão quando policiais morrem defendendo a sociedade. É importante a reflexão
dos autores, com apuro técnico e verdadeiro humanismo, a respeito dos encargos que recaem sobre a
categoria funcional dos policiais. No elevadíssimo nível de violência incidente em nosso país, os
criminosos, protegidos pela bandidolatria, ampliam sem cessar seus confrontos com a sociedade e,
especialmente, com a polícia. Esta constitui, portanto, a parcela mais exposta, mais confrontada de
modo violento e é nela que, proporcionalmente, se contabiliza o maior número de vítimas de homicídio.

Fracassará irremediavelmente toda política de segurança pública que não incluir a ampliação dos

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contingentes policiais e a construção de estabelecimentos prisionais em números suficientes para


atender a demanda. O mero controle de território e a simples pressão sobre tal ou qual atividade
criminosa apenas fazem com que os agentes do crime migrem para outro local ou para outro ramo.
Será infrutífera toda legislação que desconhecer o fato de que a cadeia é o lugar onde os bandidos
devem estar. Carência absoluta de penitenciárias é o sonho sonhado por todo criminoso. A
bandidolatria aposta no caos da segurança pública como berçário de sua utopia. Por isso, não hesita em
reprimir a atividade policial, em ser a favor do desarmamento da população, contra a construção de
novos presídios e hospitais psiquiátricos, contra a pena de prisão e contra a redução da maioridade
penal, contra a prisão após condenação de segunda instância e tem verdadeira devoção pelo sistema
recursal do nosso processo penal (CPP).

Não se chega a um nível de criminalidade geral em que meio milhão de veículos são roubados
anualmente e o número de homicídios bate nos 60 mil anuais (caracteriza o que este livro denomina
democídio), sem que os valores capazes de inspirar condutas retas tenham passado pelo moedor do
relativismo moral. É a infeliz vingança do Adão pós-moderno. Ele expulsa Deus do seu peculiar
“paraíso humanista”, cuja primeira perda é a do fundamento conceitual da própria dignidade. Eis a
gênese da displicência moral que se expande sem poupar a parte mais saudável da sociedade brasileira.
Afinal, o que seria pecado, ao sul do Equador? Assim, enquanto, por um lado, as fanfarras do
relativismo fazem evanescer as noções de certo e errado, bem e mal, verdade e mentira, por outro
chega-se a tempos ainda mais assustadores, soturnos. A soleira da porta é local de perigo, espaço
aberto aos predadores.

O garantismo jurídico que empolga teóricos da inação e da passividade togada é irmão gêmeo do
desarmamento e das carpideiras de bandidos, olhos secos ao genocídio das pessoas de bem. São os
mesmos que afirmam e reafirmam, para concluir que “prender não resolve”, a falácia segundo a qual
já temos presos em excesso. E são os mesmos, também, que veem nas páginas policiais relatos de
guerrilha social, newsletters cotidianas de uma Sierra Maestra revolucionária, infinitamente mais
violenta e menos sutil do que a original. São os mesmos, por fim, que fornecem aos malfeitores a
porção de “ternura” – para não olvidar Che Guevara – em forma desse falso e desumano humanismo
que resguarda o malfeitor e se desapieda de suas vítimas.

É nesse tempo e para esse tempo que escrevem Diego Pessi e Leonardo Giardin de Souza. Há em suas
páginas angústia, sangue e dor, mas, também, valentia e esperança. E um suave perfume que me
permito definir como amor ao Direito, à Justiça e ao bem da sociedade a que se comprometeram a
servir no desempenho de sua missão institucional.
Percival Puggina

Comentário de Olavo de Carvalho:

Agradeço a Diego Pessi e Leonardo Giardin da Fonseca a remessa do seu livro “Bandidolatria e
Democídio. Ensaios sobre Garantismo Penal e a Criminalidade no Brasil” (São Luís, MA, Resistência
Cultural, 2017). Pela primeira vez, aí, a chamada “política nacional de segurança pública” é descrita em
sua verdadeira dimensão, que é a do genocídio puro e simples — ou, para usar a expressão mais exata

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do Prof. R. J. Rummel, “democídio”: a liquidação sistemática de um povo pelo seu próprio governo.

Não há, no Brasil, assunto mais importante e urgente. A proteção judicial aos criminosos, mal
camuflada sob mil eufemismos abjetos, resulta no assassinato de aproximadamente setenta mil
brasileiros por ano, sob o olhar complacente — e na verdade cúmplice — da classe governante inteira.
O “direito à vida”, neste país, simplesmente cessou de existir — não para os nascituros, mas para os já
nascidos.

Permanecer vivo ou ser abatido a tiros ou facadas por um assassino coberto de proteção legal e afagos
da mídia é apenas uma questão de sorte ou azar. Presidentes da República, ministros, juízes de
qualquer instância, jornalistas e donos dos meios de comunicação não estão NEM UM POUCO
preocupados com isso. São todos criminosos, todos assassinos, todos genocidas ou democidas. A casta
governante do Brasil não merece nenhuma deferência, nenhum respeito, muito menos obediência. A
ruptura entre governo e povo é total e irreversível. Um dos dois morrerá. Até agora, tem sido o povo.

Parabéns aos autores deste livro por terem furado a camada de desconversas e dado aos fatos os seus
verdadeiros nomes.
(9/05/2017)

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