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RAMANA MAHARISHI

CORAÇÃO ESPIRITUAL (HRIDAYAM)

ENSINAMENTOS DE RAMANA MAHARISHI

SOBRE O CORAÇÃO ESPIRITUAL


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Sumário
1º Cap. O mergulho no Coração ....................................................................................... 3
2º Cap. A vibração do coração espiritual ......................................................................... 5
3º Cap. Sobre o coração (extraído do ramana guita) ..................................................... 16
4º Cap. Coração, Liberdade ............................................................................................ 18
5º Cap. Do livro de Narasimha Swami ............................................................................ 20
6º Cap. Brahman está além? .......................................................................................... 23
7º Cap. O retiro espiritual no corpo ............................................................................... 24
8º Cap. Que sou eu agora? ............................................................................................. 27
9º Cap. O centro secreto do ser ..................................................................................... 28
10º Cap. Realização e experiência corpórea .................................................................. 30
11º Cap. Hridayam ......................................................................................................... 31
12ª Cap. Diálogo extraído do livro “Dia-a-dia com Bhagavan” página 185 .................... 33
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1º Cap. O mergulho no Coração

Como complemento à auto-indagação (Vichara) Ramana Maharishi


aconselha a prática do “mergulho no coração”. Trata-se da
concentração no coração espiritual, a morada de Deus (Brahma-pura)
que, segundo o mestre, situa-se dois dedos à direita da linha mediana
no peito. Não que o Ser Divino possa ser limitado a um ponto no
espaço físico, mas, pelo fato de nos encontrarmos ligados a um corpo
físico, há de haver um local aonde possa ser expresso e é no aludido
ponto que devemos buscá-lo. Trata-se, como já vimos, de um ponto
metafísico, abstrato, imponderável. Seria, pois, um ponto de conexão
um canal para o retorno a nossa consciência espiritual.

Acalmando a respiração, cessando a fala e interrompendo a sucessão


de pensamentos devemos centrar ou focalizar nossa consciência no
aludido ponto, ao mesmo tempo em que praticamos a auto-indagação ou
Vichara (quem sou eu?). Para facilitar o mergulho no coração podemos
tentar deslocar nossa consciência mental que se acha normalmente
focalizada na cabeça, mais propriamente nos olhos, e dirigi-la para
baixo fixando-a no coração espiritual. Para os que acham complicada e
difícil esta técnica é recomendável fazer simplesmente a auto
indagação. Aos que tiverem melhor poder de concentração poderão
fazer ambos: o mergulho no coração associado à auto-indagação ou
Vichara.

A pergunta quem sou eu? Deve ser feita quantas vezes se puder pois
esta prática irá afugentar e eliminar outros pensamentos, tornando a
mente unidirecionada.

Um devoto de Ramana Maharishi, Siva Prakasam Pillai, quis saber do


mestre por quanto tempo o indivíduo deve praticar a auto-indagação.
Eis a resposta: “Deve praticar enquanto perdurar o mais leve traço de
impulsos em sua mente que levam a pensamentos. Enquanto o inimigo
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ocupar a cidadela eles continuarão com suas investidas. Se você matar


cada pensamento à medida que aparece, a cidadela cairá finalmente
em seu poder. Similarmente, cada vez que um pensamento apontar em
sua cabeça, esmague-o com a auto indagação... assim, a auto indagação,
continua necessária, até que o “EU” seja realizado. O que se requer é
uma recordação contínua e ininterrupta do EU.

Qualquer que seja a situação, qualquer que seja o poder, qualquer que
seja a percepção ou visões que possam surgir, há sempre a auto-
indagação: “A quem ocorreram?” – até que somente reste o EU.

A energia mental é como se fosse a corrente elétrica produzida por


um gerador (o Eu). Quando ligada a um computador reproduz palavras
(pensamentos). Se desligarmos o computador, a corrente é
interrompida e permanece em sua fonte. Da mesma forma, se
interrompermos o fluir dos pensamentos a energia mental voltará a
sua origem (o Eu).
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2º Cap. A vibração do coração espiritual

Ramana Maharishi afirma que a Vichara não é um processo mental,


pois pode surgir no centro espiritual uma vibração capaz de ser
sentida fisicamente durante a indagação do Eu. Concentrar-se no
coração é o mesmo que se concentrar no Eu. Coração (espiritual) é
outro nome do Eu.
Sri Bhagavan fala do Coração como a sede da Consciência e como
sendo idêntico ao Eu. O que significa exatamente o Coração?
M – A pergunta sobre o Coração surge, porque você está
interessado em descobrir a Fonte da Consciência. Para todas as
mentes que pensam profundamente, a questão sobre o EU e sua
natureza, tem uma fascinação irresistível. Chame-o por qualquer nome.
Deus, EU, o Coração ou a Sede da Consciência – ele é sempre a mesma
coisa. O ponto a ser compreendido é este: que Coração significa a
própria Essência da Existência de alguém, o Centro sem o qual não há
mais nada.
D – Mas Sri Bhagavan especificou em lugar particular para o
Coração, dentro do corpo físico, dois dedos à direito do centro do
peito.
M – Sim aquele é o centro da experiência espiritual de acordo
com o testemunho dos sábios.
D – Para homens como eu que não viveram nem a experiência
direta do Coração nem a conseqüente recordação, o assunto parece
ser um pouco difícil de alcançar. Sobre a posição do Coração, talvez
precisemos depender de uma espécie de adivinhação.
M – Se a determinação da posição do Coração dependesse de
adivinhação, mesmo no caso do leigo, a questão não ensejaria maiores
considerações. Não, não é de adivinhação que você tem que depender,
mas sim de uma infalível intuição.
D – Para quem é a intuição?
M – Para todos.
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D – Sri Bhagavan reconhece mérito num conhecimento intuitivo


do Coração?
M – Não, não do Coração, mas da posição do Coração em relação
á sua identidade.
D – Sri Bhagavan diz que eu conheço intuitivamente a posição do
Coração no corpo físico?
M – Porque não?
D – (Apontando para si próprio) É a mim pessoalmente que Sri
Bhagavan esta se referindo?
M – Sim, isto é a intuição! Como você se referiu a si mesmo, por
gestos, neste momento? Não colocou seu dedo no lado direito do
peito? Este é exatamente o lugar do Coração-centro espiritual.
D – Então, na ausência do Conhecimento direto do Coração-
centro espiritual, tenho que depender desta intuição?
M – E o que está errado com ela? Quando um estudante diz “Fui
eu que fiz a soma correta”, ou quando ele lhe pergunta: “Devo correr e
pegar o livro para você”, deveria ele apontar para a cabeça que fez a
soma correta, ou para as pernas que o carregarão rapidamente para
trazer-lhe o livro? Não, em ambos os casos, seu dedo é apontado
naturalmente em direção ao lado direito do peito, dando assim
expressão inocente à profunda verdade, de que a fonte do “EU” nele,
está lá. É uma infalível intuição que faz com que ele re refira daquela
maneira ao Coração que é o EU e o ato é completamente involuntário e
universal, quer dizer, é o mesmo no caso de cada indivíduo. Que prova
mais forte do que esta você precisa, sobre a posição do Coração-
centro espiritual, no corpo físico?
D – Mas eu ouvi um Santo dizer que alcançou sua experiência
espiritual entre as sobrancelhas (é onde se localiza o chakra frontal,
também denominado o “olho de Shiva”. Muitos fazem seus exercícios
de concentração neste ponto).
M – Como já havia dito, esta é a última e perfeita Realização,
que transcende a relação sujeito-objeto. Quando isto é alcançado,
não importa onde a experiência espiritual foi percebida.
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D – Mas a questão é: qual das duas é correta: no centro da


experiência espiritual entre as sobrancelhas ou no Coração?
M – Você pode praticar a concentração de olhos fechados ente
as sobrancelhas – seria então bhavana ou contemplação imaginativa da
mente, enquanto o Estado Supremo de Anubhaya ou Realização, no
qual sua individualidade é completamente dissolvida, transcende a
mente. Então, não pode haver nenhum centro para ser experimentado
por você como algo distinto e separado dele.
D – Como poderei então compreender a afirmação de Sri
Bhagavan, de que a “experiência” do Coração-centro espiritual está
num lugar particular do peito?
M – Uma vez que você aceita como ponto de vista verdadeiro e
correto que o Coração, como Consciência Pura, está além do espaço e
do tempo, será fácil compreender o resto, na sua perspectiva correta.
D – Foi somente nesta base que eu fiz a pergunta sobre a
posição do Coração. Estou perguntando sobre a experiência de Sri
Bhagavan.
M – A Consciência Pura, completamente desligada do corpo
físico e transcendental à mente, é uma questão de experiência direta.
O sábio conhece sua Existência imaterial e eterna, assim como o leigo
conhece a sua existência física. Mas a experiência pode ser alcançada
quer se esteja consciente do corpo ou não. Na existência imaterial da
Consciência Pura, o Sábio está além do tempo e do espaço, e nenhuma
pergunta surge sobre a posição do Coração. Entretanto, desde que o
corpo físico não pode subsistir à parte da Consciência, a percepção do
corpo é sempre sustentada pela Consciência Pura. O corpo, pela sua
natureza, é limitado, e não pode nunca ser eterno como a Consciência
Pura, que é infinita. O reflexo da Consciência no corpo é simplesmente
uma espécie de morada (primeiro raio da Consciência, raio da origem
da Consciência Pura, ou seja, Cósmica), reflexo miniatura da
Consciência Pura, com a qual o Sábio realizou a sua identidade. Para
ele, a consciência do corpo é somente um raio refletido da
autoluminosa, infinita Consciência, que é ele próprio. E somente neste
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sentido que o Sábio está consciente da sua existência física. Desde


que, durante a experiência imaterial do Coração como Consciência
Pura, o Sábio não está apercebido do corpo, aquela experiência
absoluta é localizada por ele dentro dos limites do corpo físico como
uma espécie de recordação dos sentidos, deixada enquanto ele estava
com a percepção do corpo.
D – Pode o lugar ente as sobrancelhas ser chamado de sede do
EU?
M – Você aceita que o EU é a última Fonte da Consciência, e que
ela subsiste igualmente durante os três estados da mente. Mas veja o
que acontece quando uma pessoa em meditação é dominada pelo sono: -
Como primeiro sintoma do sono, sua cabeça começa a se inclinar, o que
não aconteceria se o EU estivesse situado entre as sobrancelhas ou
em qualquer outro lugar na cabeça. Se durante o sono a experiência do
EU não é sentida entre as sobrancelhas, este centro não pode ser
chamado a sua sede – isto significaria que o EU algumas vezes
abandona o seu próprio lugar, o que é absurdo. O fato é que o Sadhaka
(aspirante) pode ter sua experiência em qualquer centro ou chakra no
qual ele concentrar sua mente. Mas insto não quer dizer que aquele
lugar particular da sua experiência tornar-se-á “ipso facto” a sede do
EU. Há uma história interessante sobre Kamal, o filho do Santo Kabir,
que serve como ilustração para mostras que a cabeça (e,
conseqüentemente o lugar ente as sobrancelhas) não pode ser
considerada a sede do EU. “Kabir era intensamente devotado a Sri
Rama e jamais falhou em alimentar aqueles que faziam elogios ao
Senhor da sua devoção. Em uma ocasião, entretanto, aconteceu que
ele não teve recursos para providenciar alimentos para tal quantidade
de devotos. Para ele, entretanto, não podia haver outra alternativa,
exceto que ele precisava, de alguma forma, fazer os necessários
arranjos antes da manhã seguinte. Assim, ele e seu filho planejaram,
à noite, conseguir às provisões necessárias.segue-se que, depois de pai
e filho terem removido as provisões da casa de um mercador através
de um buraco que fizeram na parede, o filho entrou novamente só para
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acordar o dono da casa e contar-lhe, por uma questão de princípios,


que sua casa havia sido roubada. Tendo avisado o mercador, o rapaz
tentou escapar pelo buraco mas seu corpo ficou preso na abertura.
Para evitar ser identificado pela vítima (porque, se descoberto, não
haveria alimentação para os devotos no dia seguinte) ele chamou seu
Pai e disse-lhe que serrasse sua cabeça e a carregasse. Feito isso
Kabir conseguiu escapar com as provisões roubadas e com a cabeça do
filho que chegando em casa estava livre de qualquer descoberta. No
dia seguinte, Kabir deu uma festa para os Bhaktas completamente
esquecido do que havia acontecido na noite anterior. Se for o desejo
de Rama, disse Kabir consigo mesmo, que meu filho devesse morrer,
que seja feita a sua vontade! À tarde, Kabir e os participantes da
festa foram, como de hábito, em procissão pela cidade, (com bhajana
uma forma de adorar a Deus através do canto) orações cantadas, etc.
Nesse ínterim, o mercador roubado notificou o rei, apresentando o
corpo mutilado de Kamal, o qual não lhes deu nenhuma pista. A fim de
conseguir a identificação do corpo, o rei mandou colocá-lo na estrada,
em local bem proeminente, de maneira que, quem quer que o
carregasse ou reclamasse (porque nenhum corpo moto é abandonado
sem os últimos rituais prestados a ele pelos parentes e amigos) seria
interrogado ou preso pela polícia, que havia se escondido com esse
propósito. Kabir e seus convidados, com o “bhajana” em plena
atividade, vinha pela estrada quando, para o espanto de todos, o corpo
mutilado de Kamal(que era considerado bem morto) começou a bater
palmas, acompanhando o ritmo da música cantada pela festa. Esta
história desmente a hipótese de que a cabeça ou o lugar entre as
sobrancelhas seja a sede do EU. Também pode ser notado que, quando
em campo de batalha, a cabeça de um soldado em ação é separada do
corpo por um súbito e forte golpe de espada, o corpo continua a
correr ou a mover seus membros por alguns momentos antes de
finalmente cair morto.
D – Mas o corpo de Kamal não estava morto já há horas?
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M – O que você chama morto não foi nenhuma experiência fora


do comum para Kamal. Eis a história do que aconteceu quando ele
ainda era jovem. “Quando menino, Kamal teve um amigo da sua idade,
com o qual costumava jogar bola de gude. Uma regra que eles
observavam entre si era que, se um deles devesse ao outro uma
partida ou duas, isso deveria ser resgatado no dia seguinte. Uma
tarde eles se separaram com uma partida creditada a Kamal. No dia
seguinte, a fim de continuar o jogo, Kamal foi à casa do menino e o viu
deitado na varanda enquanto seus parentes choravam ao lado Del.
“Que aconteceu?” perguntou-lhes Kamal; ele jogou comigo ontem à
tarde e ficou me devendo uma partida. Os familiares pararam de
chorar para dizer que o menino estava morto. “Não”, disse Kamal, ele
não está morto, mas simplesmente fingindo para evitar pagar-me a
partida que está me devendo”. Os parentes protestaram, pedindo a
Kamal para ver por si mesmo que o menino estava realmente morto, e
que o corpo estava frio e rígido. “Mas tudo isto é uma simples
encenação dele, eu sei – o que há de mais num corpo frio e rígido? Eu
também posso colocar-me em igual estado”. Assim dizendo, Kamal
deitou-se e num piscar de olhos estava morto. Os pobres parentes
que até então estavam chorando pela morte do seu menino, ficaram
angustiados e consternados, e começaram a chorar também pela
morte de Kamal. Mas Kamal ergueu-se declarando: “Vocês viram
agora? Eu estava com morto, mas estou em pé novamente, vivo e ativo.
É desta maneira que ele quer enganar-me, mas ele não pode iludir-me
assim, com estes recursos”. A história continua – a santidade de
Kamal devolveu a vida ao menino morto, e ambos votaram a jogar a
partida interrompida. A moral da história é que a morte do corpo não
é a extinção do EU. Sua relação com o corpo não é limitada pelo
nascimento e morte, e seu lugar no corpo físico não é restrito pela
experiência de alguém que a sentiu num lugar particular como, por
exemplo, ente as sobrancelhas, devido à prática da
“dhyana”(meditação) feita neste centro. O Supremo Estado de Auto-
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Conhecimento nunca está ausente; ele transcende os três estados da


mente, assim como a vida e a morte.
D – Desde que Sri Bhagavan diz que o EU está sempre presente
em qualquer dos centros ou chakras, a sua sede é no Coração, não é
possível que, pela prática da intensa concentração ou dhyana, entre as
sobrancelhas, este centro possa tornar-se por si mesmo a sede do
EU?
M – Visto que isso é meramente um estágio da prática de
concentração no ato de fixar um lugar para controle da sua atenção,
qualquer consideração sobre a sede do EU seria meramente teórica.
Você se considera como o sujeito, o vidente, e o lugar no qual você
fixa a sua atenção torna-se o objeto visto – isto é apenas bhavana.
Quando, ao contrário, você vir o próprio vidente, você imerge no EU,
torna-se uno com ele, isto é o Coração.
D – Então é aconselhável a prática da concentração ente as
sobrancelhas?
M – O resultado final da prática de qualquer tipo de dhyana é
que o objeto no qual o Sadhaka fixa sua mente cessa de existir como
distinto e separado do sujeito. Eles (o sujeito e o objeto) tornam-se o
único EU, e isto é o Coração.
A prática da concentração no centro entre as sobrancelhas é um dos
métodos da Sadhana, e assim os pensamentos são efetivamente
controlados. A razão é que todo o pensamento é uma atividade
extrovertida da mente, e ao pensamento segue-se a “visão” – física ou
mental. Deveria, entretanto ser observado que esta Sadhana de
fixação de atenção entre as sobrancelhas, precisa ser acompanhado
por Japa. Porque a primeira coisa importante para o olho físico é o
ouvido físico, ou seja, para controle ou distração da mente. O próximo
em importância para o olho da mente (que é a visualização mental do
objeto) é o ouvido da mente (que é a articulação mental da fala), seja
para controlar e fortalecer a mente, ou para distraí-la e dissipá-la.
No entanto, enquanto fixarmos o olho da mente num centro como por
exemplo entre as sobrancelhas, devemos também praticar a
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articulação mental de um Nome ou Mantra (sílabas sagradas). De


outra forma logo perderemos o controle sobre o objeto da
concentração. Sadhana como foi descrito acima, leva a identificação
do Nome, Palavra EU – qualquer que seja sua maneira de chamá-lo –
com o centro escolhido para dhyana. A Consciência Pura, o EU ou o
Coração é a Realização final.
D – Porque Sri Bhagavan não nos orienta a praticar a
concentração em algum centro particular ou chakra?
M – SASTRA YOGA diz que o sahasrara ou o cérebro é a sede
do EU, Purusha Suktai declara que o Coração é que é a sede. Para que
o Sadhaka não tivesse dúvidas, eu lhe disse que adotasse o caminho da
pesquisa do EU ou do EU SOU e o seguisse até a sua Fonte. Primeiro
porque é impossível para alguém ter alguma dúvida sobre esta noção
do SER; segundo porque, qualquer que seja a Sadhana adotada a meta
final é a realização da Essência do EU, que é o elemento principal da
sua experiência. Entretanto, se você praticar a Atma-Vichara,
encontrará o Coração, que é o EU.
D – Poderia dar-me mais detalhes sobre o Coração (espiritual) e
sua atividade?
M – O coração é a sede tanto do Jnanam como do Granthi (o nó
da ignorância). Este é representado no corpo físico por um orifício
menor do que a ponta de um alfinete, o qual se acha sempre fechado.
Quando a mente mergulha no Kevala Nirvikalpa ele abre mas se fecha
quando termina o mergulho. Quando o Sahaja é obtido ele se abre
para sempre. O Granthi é o nó que ata o corpo insensível à
Consciência que nele atua; esta é a razão porque quando esta imerge
no Kevala Nirvikalpa não há Consciência no corpo. Eu costumava sentir
as vibrações do Coração, que se assemelham a um dínamo, mesmo
durante o tempo que freqüentava a escola. Quando senti a
experiência do “rigor morti” muitos anos atrás em Tiruvannamalai,
todos os objetos e sensações desaparecera, exceto aquelas vibrações.
Era como se uma cortina negra se colocasse ante meus olhos e fizesse
o mundo desaparecer totalmente de minha visão, mas é claro que eu
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estava todo tempo consciente do Eu, com o vago sentimento de que


alguém estava chorando próximo a mim. Este estado perdurou até
pouco antes que eu recuperasse a consciência física, quando senti algo
correr violentamente do coração para a parte esquerda do peito e
restabelecer a vida no corpo. Um pavor súbito, uma grande alegria
repentina ou um choque fazem o coração vibrar de modo muito
forçado, o que pode ser sentido por qualquer um que preste atenção
ao fenômeno. De outro modo somente é percebido no Samadhi.
D – Diz-se que Deus é imanente. Como Bhagavan justifica seu
confinamento no coração?
M – Deus é dito residir no Coração da mesma maneira que você
diz que mora em seu corpo físico. Entretanto o Coração não é um
lugar. Algum local deve ser nomeado como a morada de Deus para
aqueles que crêem que habitam corpos físicos e que apenas entendem
o conhecimento relativo. O fato é que nem Deus nem qualquer um de
nós ocupa qualquer espaço. Nós ficamos sem corpo e sem espaço
durante o sono profundo, embora no estado de vigília isso pareça o
contrário. Atmã ou Paramatnã é aquele do qual nasceu o corpo, no qual
vive e para o qual finalmente tudo retornará.
D – Qual é a natureza do Coração?
M – O Coração tem sido descrito do seguinte modo: “Existem,
acima do abdômen e abaixo do peito, entre as glândulas mamárias, seis
vísceras de várias cores. Uma delas, semelhante a um botão de lótus,
situada a dois dedos à direita da linha média do peito, é o Coração.
Está invertido, e nele há um pequeno orifício dentro do qual se acha
firmemente estabelecida, em companhia de desejos, etc., uma
escuridão imensa. Ali, aonde convergem os diversos “nadis”(nervos
primários), todo o sistema nervoso tem o seu sustento. É a sede das
forças vitais, da mente e da luz (da Consciência).
Na verdade, a palavra “Hridayam”(1) significa somente o EU Real, isto
é, o Absoluto. Logo, se Ele é “Sat-Chit-Ananda-Nitya Purna” (Eterna e
Perfeita Existência-Consciência-Felicidade), nada pode estar fora ou
dentro, acima ou abaixo d’Ele. Seu estado é o de cessação de todos os
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pensamentos. Para o aspirante que não se contenta com meras


concepções abstratas, mas se empenha na realização do estado sereno
e tranqüilo de permanência no SER ou Consciência Pura, estas
considerações quanto à sede do SER – se é dentro ou fora do corpo,
etc., - não tem cabimento. Quando ele permanece no SER, tais
perguntas não podem surgir.
D – Como é que ainda mesmo na ausência de objetos externos, a
mente percebe diferentes objetos, incessantemente, nos tornando
assim impossível realizar aquele estado de tranqüilidade ou
permanência no SER?
(1) A palavra “Hridayam” é constituída de duas sílabas – “Hri” e
“Ayam” que significam “Eu sou o Coração”.
M – Isso é devido às impressões mentais anteriores que
permanecem latentes(*). Essas impressões são perceptíveis pela
consciência individual que se extroverteu fugindo de sua própria
Existência Pura, Natural e Imutável. Cada vez que virdes alguma
coisa, seja o que for, perguntai-vos introspectivamente: “Quem é que
está vendo?” e assim, o pensamento ou a coisa vista desaparecerá
imediatamente.
(*) Essas tendências mentais podem ter suas raízes até mesmo em
vidas anteriores do indivíduo. Deve-se entender claramente que não
são os objetos como tais (se a sua existência for considerada
independente da mente) que entram na mente do homem apesar de
seus esforços para não pensar neles; pelo contrário, essas tendências
é que obrigam a pensar nos objetos ainda quando estejam fisicamente
ausentes. São chamadas em sânscrito de Vasanas ou Samskaras –
reminicências de vidas anteriores acumuladas no corpo causal.
D – Como é que a tríade (o vidente, a visão e a coisa vista),
inexistente nos estados de sono profundo e de samadhi, se manifesta
nos outros estados?
M – Do SER Puro (ou EU Real), surgem sucessivamente: a) a
consciência refletida (chidabhasa); b)o “jiva” (ou indivíduo) isto é, o
vidente ou pensamento-eu original;
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c) os fenômenos do mundo.
Nota: os elementos da tríade são interdependentes: nenhum deles
pode existir sem os demais.
D – Se é livre do conhecimento e da ignorância, como pode o EU
Real, penetrar todo o corpo físico, dar-lhe vida e tornar sensíveis a
mente e os órgãos dos sentidos?
M – Os sábios têm declarado que os vários nâdis (nervos) sutis
que se estendem por todo o corpo, possuem suas raízes na sede do EU
Real e que sua ligação com este se acha no chamado nó do Coração
(hridayam granthi); que, enquanto esse nó não for desfeito pelo Auto
conhecimento, os fatores sensíveis e os insensíveis certamente
permanecerão entrelaçados; que assim como a energia elétrica, sutil e
invisível, opera através de fios metálicos, a energia do EU Real atua
sobre a mente e os sentidos através dos nervos que se estendem por
todo o corpo; que desde que esse nó seja desfeito pelo Auto
Conhecimento, o EU Real será realizado tal como é, ou seja, livre de
quaisquer limitações.
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3º Cap. Sobre o coração (extraído do ramana guita)

O Sábio dissertou amplamente sobre o coração.


O lugar de onde surgem todos os pensamentos dos seres encarnados
se chama Coração. Toda descrição sobre sua forma é apenas
simbólica.
O pensamento – EU é a raiz (fonte) de todos os pensamentos. O lugar
de onde surge o pensamento – EU é, em suma, o coração.
Se a sede do Coração for “Anahata Chakra” como poderá o processo
da Yoga iniciar-se no “Muladhara”?
O “Hridaya” (Coração) é diferente do órgão físico que chamamos
coração. “Hridayam” é composto de duas palavras “Ayam” e Hrid” que
quer dizer – “Este é o centro”. Logo, “Hridaya” ou Coração, se diz ser
a expressão do Ser.
Sua posição no peito é no lado direito e não no esquerdo. A luz da
consciência flui dele para o Shasrara (o cérebro) através do
Sushumna (nervo sutil ou “nadi”).
A mesma luz,(do Sahasrara) flui para o corpo inteiro. Então ocorrem
as experiências do mundo. Julgando estas experiências diferentes no
Samsara (o ciclo de nascimentos e mortes).
O sahasrara (cérebro) daquele que reside no Ser é puro e chamejante
como a Consciência. Qualquer Sankalpa (pensamento) que entre, não
pode sobreviver nas suas imediações.
Até mesmo se os objetos dos sentidos forem reconhecidos nas
proximidades, estes não serão um empecilho à Yoga, a menos que
sejam percebidos como sendo separadas do próprio Ser.
A estável e firme aderência da mente ao Ser, como indistinta Deste,
até mesmo quando tomando conhecimento dos objetos dos sentidos,
se chama (esse estado de) “Sahaja Sthiti” (o Estado Natural); e se os
objetos dos sentidos não são reconhecidos, esse estado se chama
“Nirvikalpa Samadhi” (no qual a mente está completamente absorvida
pelo Ser).
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O universo inteiro está (resumido) no corpo, e o corpo todo, no


Coração. Logo o Coração é a súmula de todo universo.
O mundo não é outra coisa senão a mente, e a mente não é outra coisa
senão o Coração. Por conseguinte, toda a história (do universo)
termina no Coração.
O Coração, no microcosmo, é como a esfera do sol no macrocosmo; e a
mente, no Sahasrara (cérebro), é como a orbe da lua.
Assim como o sol dá luz à lua, do mesmo modo o coração fornece luz à
mente.
Inconsciente do Coração, o mortal percebe apenas a mente, assim
como (ele vê) luz na lua, à noite quando o sol está ausente.
Não se apercebendo do próprio Ser como a verdadeira fonte de luz, a
pessoa ignorante vê as coisas com a mente como sendo separadas de si
e é enganada.
O Jnani, sempre identificado com o Coração, vê a luz da mente
submergida na luz do Coração, justamente como a luz da lua está na do
sol, durante o dia.
Os sábios expõem que a mente é o indicador do conhecimento, e que o
Coração é o Próprio Conhecimento indicado. O Supremo não é outro
senão o Coração. O sentido de diferença entre o sujeito e o objeto
está (somente) na mente. (Mas) para aqueles que agem residindo no
Próprio Coração, o sujeito e objeto unificam-se.
O processo do pensamento que é afetado pelo desmaio, sono, prazer
excessivo, tristeza consumidora, temor, etc., volta a seu devido lugar
– isto é ao Coração.
A pessoa então não está apercebida desta entrada no Coração,
conquanto no Samadhi ela se aperceba claramente de tal entrada.
Isto causa diferença nos nomes.
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4º Cap. Coração, Liberdade

(Tradução das páginas 94 a 96 do livro Guru Ramana de S.S.Cohen)

Coração, em linguagem vedantina, é sinônimo de Eu, Chit, ou Mente


Pura. Sendo Absoluto, é eternamente imutável, sem forma, singular e
inativo. Mas como a palavra indica Centro, parece implicar uma
conexão com o fenômeno, do qual é a fonte ou ponto de contato. É o
ponto no qual o espírito sem forma parece assumir uma forma, isto é,
manifestar-se no e como o mundo das formas.
Embora o mundo com suas miríades de formas, cores, sons e
qualidades não existe na realidade, ou existe para o homem auto
realizado como idêntico ao seu próprio Eu, tal como ondas, ou
pensamentos em sua própria consciência; para o homem que luta para
se libertar do jugo dos sentidos parece por demais real para ser
simplesmente rejeitado como simples pensamentos. Tal indivíduo
necessita de orientação em seu próprio nível e de seu próprio ponto de
vista. Assim as escrituras usam vários nomes para designar a única e
mesma realidade: Eu, Espírito, Mente Pura, Coração, Alma, Deus, Pura
Consciência, Supremo Brahman, Grande Vácuo(Grande Vazio),
Testemunha Silenciosa, Conhecedor do Campo e muitos outros nomes,
denotando as várias facetas com que se apresenta ao discípulo no
mundo fenomênico e as várias tentativas para explicá-lo.
Coração designa, portanto, o ponto de união entre o Eu e o Mundo (ou
corpo físico), a chave que permite a fusão da luz com a treva. É o
assento do Granthi, o Nó da Ignorância, que cria a ilusão de que o
mundo é algo diferente da mente, isto é, como se fosse uma projeção
no espaço objetivo, independentemente da percepção mental. A ilusão
surge do fato de a corrente de vida que flui do Coração para o corpo
físico criar neste a impressão que é um corpo, uma entidade (Jiva)
inteiramente separada e diferente de todas as outras entidades. A
consciência que ocupa o corpo como vida, sendo pura existência (Sat)
por sua própria natureza, conhece instintivamente a si mesma com
19

“Eu”, mas nada vendo através dos sentidos (com quais está
acostumada a conhecer o mundo) que possa coincidir com o título de
“Eu”a não ser o corpo, falha em perceber-se como a consciência e cai
vítima da ilusão primeva de que é o corpo físico. Desse modo o
homem, tendo perdido a noção de sua real natureza por falsa
identificação, torna-se cada vez mais enredado nas necessidades
Tamásicas, Rajásicas e anseios do corpo físico e assim faz girar a roda
do moinho da vida e morte, nascimento e reencarnação, prazer e dor,
conhecimento e ignorância, etc., até chegar a um amargo fim, quando o
anseio pela volta ao lar e ao descanso o impulsiona na busca por estes
últimos através de Tapas (austeridades, sacrifícios) e Sadhana
(caminho espiritual) e a guia e graça de um Mestre Divino.
Esta queda da consciência individual de seu sublime estado é descrita
no Srimad Bhagavata como “o Atmã fascinado pelo jogo de sua Maya
no corpo julga “Eu” e “Meu”.
Sri Bhagavan mostra o caminho do lar nas singelas palavras: “Indague
na natureza desta consciência que se conhece como “Eu” e isto o
conduzirá inevitavelmente a sua fonte, o Coração, onde você
perceberá de maneira inequívoca a distinção entre o corpo insensível e
a mente. Esta última aparecerá em sua pureza original como a sempre
presente, auto suficiente inteligência, que cria e permeia sua criação,
da mesma forma que se mantém acima dela sem ser afetada ou por ela
contaminada. De igual modo o fato de encontrar o Coração
experienciado como sendo o próprio Coração. Quando esta
experiência torna-se permanente, através da prática constante, a tão
desejada auto realização, ou Mukti, diz-se ter sido finalmente
alcançada. Neste caso a ilusão – “Eu sou o Corpo” – foi eliminada para
sempre.
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5º Cap. Do livro de Narasimha Swami

“Vida e ensinamentos de bhagavan sri ramana maharshi”

“Consiste a meditação em identificarmo-nos com e permanecermos


firmes e inabaláveis no SER PURO, sem darmos guarida nem mesmo ao
pensamento de que se está meditando. É a morada no SER pela auto
transcendência. Para o Sábio, é o Estado Natural, no qual Ele
permanece sem nenhum esforço, já que tornou-se o SER PURO. O
esforço para a meditação é possível e necessário somente por causa
da existência da mente como uma entidade aparentemente
independente. Para o Sábio entretanto, não há tal – isto é, a mente
existindo separada do SER. Permanecendo sempre no Coração ou o
SOL DA CONSCIENCIA PURA, Ele observa a luz da mente absorvida
e perdida na luz do Coração, tal como a Luz da lua é absorvida e
perde-se na Luz do Sol, desde o momento que este se levanta no
horizonte. Essa permanência no SER ou na “Consciência Pura” torna-
se natural somente como resultado da Auto Realização, isto é, em
virtude do conhecimento de nossa identidade como Eterna, indistinta
do SER PURO ou “Brahman” (Deus). É o estado de Perfeita Felicidade.
O aspirante, contudo, deve observar que não poderia alcançar esse
estado de contínua permanência no SER, a não ser pela constante e
intensa prática de “Atma-Vichara”, que conduz à afinidade com o SER.
Quando o aspirante se põe em meditação, vê que as “velhas
tendências” da mente se levantam com força, formando obstáculos a
esse estado de permanência no SER. Para obter esse resultado, o
único meio é estabelecer firmemente a mente no Coração e, através
de inabalável e incessante vigilância, estar sempre desperto para o
SER. Esse estado é também chamado “yoga” (união) ou “dhyana”
(meditação). Exatamente como pelo bater da coalhada é extraída a
manteiga e pela fricção se obtém a chama, assim também pela
inabalável permanência no SER e pela constante vigilância – incessante
como um fluxo ininterrupto de óleo – se realiza o natural e imutável
21

estado de ‘SAMADHI” (êxtase) que revela, espontaneamente a direta,


imediata, desimpedida e universal percepção de Brahman que é, ao
mesmo tempo Conhecimento e Experiência, e que transcende tempo e
espaço. Isto é Auto Realização. Todas as ilusões da ignorância, todos
os hábitos e tendências seculares da mente são destruídas, todas
dúvidas são dissipadas e o cativeiro do “karma” é superado. Realizar
esse estado de ilimitada Felicidade, de libertação das dúvidas e da
dualidade é a finalidade da vida, e somente aquele que o alcança é um
“Jivanmukta”, um liberto, mesmo nesta vida. Entretanto, seja qual for
o alcance intelectual ou outro desenvolvimento que o aspirante possua,
e por mais profunda que seja a sua erudição, essas aquisições não
constituem auxílio para que lhe seja revelada a Verdade nem para o
guiar nos seus esforços para isso. O Sábio Iluminado é o único que
será de valor prático para o aspirante. A convicção que obtemos
escutando as palavras do Sábio, observando a Sua Vida ou
permanecendo em sua Silenciosa Presença – que proclama a Verdade
com uma eloqüência que a palavra jamais expressaria – essa convicção
é a única virtude indispensável que o aspirante sério deve possuir. Por
isso diz-se que a Vichara consiste em “SHAVANA, MANANA e NIDI-
DHYASANA”.
SHAVANA – é receber com devotada atenção as instruções dadas
pelo Mestre; MANANA – é a profunda contemplação sobre as
instruções recebidas e NIDIDHYASANA é cultivar a constante
permanência no SER. Para realizar o SER eu compreendo que o
controle da mente é indispensável, mas não consigo obtê-lo. Como
poderei controlar a mente? Pergunta um aspirante.
A resposta de Maharshi contém o ponto principal de seus
ensinamentos. Disse ele: “Você fala em controlar a mente. Mostre-me
antes a mente e eu mostrarei como controlá-la”.O fato é que – uma
vez alcançado o grau de apercebimento e de permanência no SER, que
é o que inclui tudo, não há mente para controlar. O erro primordial
consiste em pensar que o corpo, a mente e o mundo são separados do
22

SER. Como podem eles ser separados do SER? Se você estiver


apercebido do SER (que é Luz), porque se preocupar com as trevas?
Uma vez conhecida essa Verdade, como pode ser possível qualquer
distração? O SER é o Coração. O Coração do próprio SER, sempre
auto luminoso, que você não pode deixar de perceber porque ele é
percebido por si mesmo. Portanto a meditação sobre o SER não é
como a meditação em algum objeto, e não é a exclusão de outros
pensamentos pelo pensamento do objeto meditado. Meditar sobre o
SER é “Ser” o SER; é a coisa mas fácil de praticar, pois você é sempre
o SER e nada mais do que o SER. Tudo é esse SER. A Iluminação ou a
Compreensão nasce do Coração; ao chegar ao cérebro uma pequenina
parte dessa compreensão é convertida em pensamento, que cria a
ilusão de um mundo objetivo existindo por si mesmo, e de um sujeito –
com um nome e uma forma limitada ao corpo. A mente nada mais é do
que o conjunto dos pensamentos que, integrados, são as aparências
ilusórias do ego. Assim, a Luz – partindo do Coração – refletindo
sobre a mente produz ambos – o ego e o mundo. Derivando essa luz-
do-ser do coração, que é autoluminosa como o Sol, a mente brilha
como a Lua. Se procurarmos a ponta onde nasce o pensamento-eu, que
mantêm todos os outros pensamentos, como o cordão que atravessa as
contas de um rosário, o ego e o mundo desaparecem e apenas o SER
brilha como o Coração.
Estado de Nirvikalpa propriamente dito. Neste estado a mente fica
livre de dúvidas não mais tendo a necessidade de oscilar entre
alternativas de possibilidades e probabilidades. Não tem Vikalpa de
qualquer tipo. Está certo da verdade e sente a presença do Real.
Mesmo estando ativo, sabe que está ativo na Realidade, o Ser, o Ser
Supremo.
23

6º Cap. Brahman está além?

D – Isto parece contradizer as declarações que o Ser está além


da mente, de que a mente não pode conhecer Brahman, que está além
do pensamento e palavra. (Avan-manasa-gochara).
M – Eis porque dizem que a mente é dupla: existe a mente
superior pura assim como a mente inferior impura. A mente pura sabe
e a mente impura ignora. Isto não quer dizer que a mente pura possa
medir o imensurável Ser, Brahman, mas que o Ser se faz sentir na
mente pura de modo que mesmo quando estiveres envolto em
pensamentos, sentireis a Sua Presença e percebereis a verdade de
que sois um com o Ser Profundo e que as ondas-pensamento estão
apenas na superfície.
D – Isso quer dizer o mana-nasha ou o ahankara-nasha. A
destruição da mente ou do ego, da qual falais, não é então uma
destruição absoluta.
– Sim. A mente se livra das impurezas e se torna
suficientemente pura para refletir a verdade, o Ser Real. Isso é
impossível quando o ego se acha firme e ativo.
24

7º Cap. O retiro espiritual no corpo

D – Quando uma pergunta vos é feita, dizeis, “Conhecei primeiro


aquele a quem ocorre a dúvida”, “Alguém duvidará de quem tem
dúvida?”, “Conhecei-vos a vós mesmos antes de começardes a falar
dos outros”, etc.. Isto é um verdadeiro Brahmasthra, uma arma
suprema à mão, para lidar com o inquiridor, e eu....
M – Sim. O que estais querendo dizer?
D – Por favor, descei ao nosso nível e removei as nossas dúvidas.
Vós compreendeis a nossa posição. Nós não compreendemos a Vossa.
Vós estais muito acima e nós estamos muito abaixo. Se o desejardes,
podereis vir até nós, mas nós não poderemos ir até vós.
M – O que procurais?
D – Dizem que o Ser está por toda a parte; Brahman é
onipresente. Este está além e também é o Ser. Se eu sou Brahman,
deverei estar em toda a parte. Mas existe a sensação que eu estou
neste corpo, ou confinado nele; mesmo que eu seja distinto do corpo,
eu sou inseparável dele. Do mesmo modo, eu sou inseparável da minha
mente, e até o “EU” parece ser uma parte da mente. Onde está a
mente sem o cérebro? Certamente não posso imaginar que posso estar
sem a mente, ou o cérebro, que é uma parte deste corpo.
M – Já terminastes? As dúvidas nunca cessam. Se uma dúvida
for removida logo outra surge para tomar seu lugar. É como desfolhar
uma árvore, folha por folha. Mesmo que sejam retiradas todas as
folhas, novas folhas crescerão. A própria árvore tem que ser
arrancada pela raiz.
D – Que posso fazer? Está errado em pensar e expressar
dúvidas?
M – Não. O único remédio certo é conhecer aquele que duvida.
Ninguém duvida daquele que duvida.
D – Estava com medo disto. Estou engasgado...
M - Não. Estou vindo em vosso socorro. Suponhamos que vos
dou uma resposta, isso eliminaria todas as vossas dúvidas? Disseste
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que és o corpo, a mente, e aí por diante. O que é essa mente que


dizeis ser vós mesmos? Dissestes que é todo os vossos pensamentos
inclusive umas tantas faculdades... O “EU” é uma parte da mente. A
mente é uma parte do corpo. Não é assim?
D – Eu não digo que assim seja, mas tenho a impressão que assim
é.
M – Muito bem, vamos em frente. Vós sois a mente. A mente, ou
está localizada no cérebro, ou é identificada a este. Vós admitis que a
mente está localizada no cérebro e, ao mesmo tempo, dissestes que és
distinto, embora separado dela. Não é assim? Agora vamos localizar
no corpo todos os nossos pensamentos, emoções, paixões, desejos,
apegos, impulsos, instintos, em resumo, tudo o que somos, sentimos,
pensamos e conhecemos. Onde localizareis o “EU”, seja qual for esse
“EU”, uma idéia, pensamento ou sentimento?
D – Sentimentos, emoções, etc., todos estão localizados, isto é,
dizem que surgem no tronco do corpo, no sistema nervoso. Mas a
mente sediada no cérebro está consciente destes. Chamam isso de
ação reflexa.
M – Assim, se tomardes o “EU” como sendo parte da mente, o
localizarias no cérebro. Mas eu vos digo que esse “EU” é de fato uma
parte, mais uma parte muito radical, da mente, sentindo-se ser
distinta da mente e usando-a.
D – Eu aceito isso.
M – Então este “EU” é um pensamento radical, um sentimento
íntimo, uma experiência auto-evidente, uma consciência, que persiste
até no sono profundo quando a mente não está ativa como no estado
de vigília. Então, de acordo com o que disseste, esse “EU”, a parte
radical, deve ter um centro no corpo.
D – Onde está?
M – Deveis procurá-lo em vós mesmo. Mas não o encontrareis
dissecando o corpo.
D – Como então? Dissecando a mente?
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M – Sim, como sois a mente tereis que vos dissecar a fim de


encontrar onde vós (o “EU”) estais. Eis porque digo, “conhecei vos a
vós mesmos”.
D – Mas existe realmente um centro, um lugar para este “EU”?
M – Existe sim. É o centro do Ser para onde a mente no sono se
retira de sua atividade no cérebro. É o Coração, que é diferente do
assim chamado órgão sangüíneo, também não é o Chakra Anahatha, no
centro do peito, que é um dos seis centros relatado nos livros sobre
Yoga.
D – Então, onde está? Talvez eu fique sabendo mais adiante. Se
existe tal centro do Ser no corpo, por que deveriam dizer que
Brahman é Athman, que é onipresente, e assim por diante?
M – Em primeiro lugar, limitai-vos ao Ser que está localizado no
corpo e encontrai-o. Então podereis pensar no Brahman, a
ONIPRESENÇA.
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8º Cap. Que sou eu agora?

D – quero saber o que é Coração, onde Ele está, e assim por


diante. Mas quero remover esta dúvida primeiro. Eu sou ignorante da
minha própria verdade e o meu conhecimento está ficando cada vez
mais limitado, imperfeito. Dizeis que o “EU” é o Ser, Athman. Mas
dizem que o Athman está sempre autoconsciente, enquanto que eu sou
inconsciente...
M – As pessoas sempre caem nesta confusão. O que vós chamais
de vós mesmos agora, não é o Ser Real, o qual nem nasce nem morre.
D – Então Vós admitis que o que chamo de “EU” é o corpo, ou
uma parte do corpo?
M – Mas o corpo é matéria (Jada), este nunca sabe, é sempre a
coisa conhecida.
D – Então se eu não sou o Ser (Athman) nem o não ser
(Anathman)...
M – Estou indo em teu socorro. Entre o espírito e a matéria,
entre o Ser e o corpo algo nasce que é denominado Ser-Ego
(Ahamkara,Jiva), o Ser vivente. Bem o que chamais de Vós mesmos, é
este SER-EGO o qual é diferente do sempre consciente Ser e da
matéria inconsciente, mas que, ao mesmo tempo, participa do caráter
de ambos: o espírito(Chethana), e a matéria (Jada)
D – Então, quando dizeis “conhecei vos a vós mesmos” quereis
que eu conheça este segredo?
M – Mas no momento que o SER-EGO tenta conhecer-se, ele
muda seu caráter. Este começa a participar cada vez menos da
matéria (Jada), na qual está absorvido, e cada vez mais da Consciência
do Ser (O Athman).
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9º Cap. O centro secreto do ser

D – A quem vós estais dirigindo quando dizeis “conhecei vos a


vós mesmos?”
M – Aquilo que vós sois. A vós é dada a sugestão: “conhecei-vos a
vós mesmos”. Quando o ser-ego sente a necessidade de conhecer sua
própria origem, ou impulsionado a elevar-se acima de si mesmo, este
toma essa sugestão e aprofundando-se mais descobre a verdadeira
fonte e realidade de si mesmo. Assim, o ser-ego começando a se
conhecer termina percebendo seu EU (ou SER).
D – Bem, vós dissestes que o Coração é o centro do Ser...
M – Sim, é o ÚNICO E SUPREMO CENTRO DO SER. Não
tenhais qualquer dúvida a respeito. O Ser Real está lá, no Coração,
atrás do ser-ego (Jiva).
D – Agora, por favor, dizei-me onde está ele no corpo.
M – Não podereis saber disso mentalmente, pois não podereis
realizá-lo pela imaginação, quando vos digo que aqui é o centro
(apontando para o lado direito do peito). O único meio direto de
realizá-lo é cessar de fantasiar e tentar ser vós mesmo. Então
compreendereis e sentireis automaticamente que o centro se situa lá.
Este é o Centro, o Coração, mencionado nas escrituras como HRIT-
GUHA. A cavidade do coração (ULLAM).
D – Em livro algum achei a asserção que o coração se acha lá.
M – Muito depois que vim para cá, encontrei por acaso um
versículo na versão melásiana do Ashtangahridayam, a obra padrão
sobre o Ayurveda, onde o Ojas Shana é mencionado como estando
localizado no lado direito do peito denominado a sede da consciência
(Samvith). Mas desconheço qualquer outra obra que se refira a esta
localização.
D – Posso ter certeza que os antigos denominaram este centro
pelo termo “Coração”?
M – Sim, é isso mesmo. Mas deveis esforçar-vos por Realizar, ao
invés de localizar essa experiência. Um homem não precisa descobrir
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onde estão situados os seus olhos quando quer ver. O Coração está lá,
sempre aberto para vos receber se desejardes entrar nele; e está
sempre apoiando todos os vossos movimentos mesmo quando estais
inconsciente disso. Talvez seja mais correto dizer que o Ser é o
Coração propriamente dito, ao invés de dizer que o Ser está no
Coração. Realmente o Ser é o próprio Centro. Está consciente em
toda a parte como “Coração”, o SER-CONSCIÊNCIA. Eis porque vos
digo “Coração é Vosso Nome”.
D – Alguém mais se dirigiu ao Senhor dessa maneira, chamando-o
de Coração?
M – Muito tempo depois de eu ter afirmado isso, certo dia
encontrei um hino no Thevaran de Sto.Appar, onde é mencionado o
Senhor pelo nome de Ullam que é o mesmo que Coração.
D – quando dizeis que o Coração é o Centro de Purusha, do
Athman insinuais que não é um dos seis centros ioguicos.
M – Os chakras ioguicos, contados de baixo para cima, são vários
centros no sistema nervoso. Estes representam os diversos níveis que
manifestam diferentes tipos de poderes ou conhecimento, que
conduzem ao Lótus das mil pétalas (Sahasrara) onde está sediada a
Shakthi Suprema. Mas o Ser que apóia todo o movimento da Shakthi,
não está lá, mas sim no Centro-Coração.
D – Então isso é diferente da manifestação da Shakthi?
M – Realmente não existe manifestação da Shakthi separada do
Ser. O Ser tornou-se toda esta Shakthi... Quando o iogui se eleva ao
Centro mais elevado do êxtase (Samadhi), é o Ser no Coração que o
apóia nesse estado, esteja ele ou não consciente disso. Mas se ele
estiver consciente no Coração ele sabe que qualquer que seja o estado,
ou centro, onde estiver, é sempre a mesma verdade, o mesmo Coração,
o Ser Uno, o Espírito que está presente em toda a parte, eterno e
imutável. O Shastra Tântrico denomina o Coração de Orbe Solar
(Suryamandala) e o Lótus das mil pétalas (Sahasrara) de Orbe Lunar.
Estes símbolos expressam a importância relativa dos dois, o Athma-
Stthana, e o Shakth Stthana.
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10º Cap. Realização e experiência corpórea

D – Então qual é a diferença entre o escravizado (Baddha), e o


homem liberto (Muktha)?
M – Do Coração, o Centro-Ser, há uma passagem sutil que vai
para o Sahasshra, o Shakthi Stthana. O homem comum vive no
cérebro, inconsciente dele mesmo no Coração. O homem liberto
(Jnana Siddha) vive no Coração. Quando ele se movimenta
fisicamente, e lida com os homens e coisas, Ele sabe que o que vê não
está separado da Realidade Suprema Una, o Brahman, que Ele realiza
no Coração como o Seu Próprio Ser, o Real.
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11º Cap. Hridayam

Assim como há um centro cósmico de onde o Universo surge, tem seu


ser e funciona com a força e a energia diretriz que daí emana, do
mesmo modo há um centro dentro da estrutura do corpo físico no qual
temos o nosso Ser. Esse centro em nós não é diferente do centro
cósmico se chama HRIDAYAM, a sede da Pura Consciência, percebida
como Existência-Consciência Bem-aventurança. É a isso que chamamos
a sede de Deus em nós. É distinto do coração físico; tem sua
existência no lado direito do peito e geralmente não é percebido por
nós. O primeiro pensamento que surge em nós como “eu”, quando
seguido até sua fonte, finda em algum lugar em nós, e esse lugar onde
todos os pensamentos morrem, onde o ego se desvanece, é o
Hridayam. Nesse centro é sentida e desfrutada a Pura Consciência.
A palavra HRIDAYAM é composta de Hrid e AYAM – Eu Sou o
Coração. é o centro que alcançamos como resultado da meditação. Do
Hridayam a Consciência se eleva para o chakra coronário e se espalha
para todas as partes do corpo.
Se, através da Vichara, alcançamos esse Centro, o Hridayam, e assim
somos nosso EU REAL, desfrutamos de Imaculada Bem-aventurança.
Ao falar sobre o Coração, Bhagavan o fazia a partir de sua própria
experiência. E várias vezes relatou uma segunda experiência de
morte que teve ao caminhar pelo Monte Arunachala: “ A paisagem
desapareceu no momento em que uma cortina de luz apagou a visão do
mundo. Minha cabeça começou a flutuar e minha respiração e
circulação pararam. A pele foi tomada de um azul lívido. Senti que o
órgão muscular do lado esquerdo parou de trabalhar; pude
compreender que o corpo estava como um cadáver. Vasudeva Sastri,
que me acompanhava, abraçou o corpo, chorou minha morte, e eu não
podia falar. Mas, durante todo o tempo sentia que a radiação do
Coração do lado direito, se fazia tão bem como sempre. Esse estado
durou alguns minutos. Então um choque percorreu o corpo e a
circulação voltou com enorme força, bem como a respiração e o corpo
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começou a transpirar. Abri os olhos, ergui-me e disse a Vasudeva:


‘vamos!’ Retornamos à Caverna Virupaksha sem novos problemas.”
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12ª Cap. Diálogo extraído do livro “Dia-a-dia com Bhagavan”


página 185

D – A que Coração se refere o verso do “Upadesa Saram” quando


diz que habitar no Coração é o melhor karma, raja, bhakti e jnana
yogas?
M – Aquele que é a fonte de tudo, aquele no qual todos vivem, e
aquele no qual todos finalmente submergem, é o Coração referido.
D – Como podemos conceber tal Coração?
M – Porque você deve conceber alguma coisa? Você deve apenas
descobrir de onde surge o “EU”.
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