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XEQUE


MATE

Dill Ferreira

Copyright © 2014 by Dill Ferreira

Revisão de texto: Adriana Vargas.


Editora Modo Tradicional

Todos os direitos reservados.

É proibido o armazenamento e distribuição parcial ou total desta obra sem o consentimento da


autora.

Todos os personagens são fictícios.

Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas

terá sido mera coincidência.

CAPÍTULO 01

No camarote de um dos mais tradicionais carnavais do mundo, Thaissa admirava maravilhada


a apresentação das escolas de samba. Aquele era um evento em que qualquer pessoa se sentiria em
um mundo de sonhos. A grandiosidade das criações era de encher os olhos. Thaissa agora entendia
bem o porquê de tantos festeiros de toda parte do Brasil e muitos estrangeiros virem ao Rio de
Janeiro curtir seu carnaval. A mistura de cores, os belos carros alegóricos; a alegria das pessoas que
passavam pela Avenida, era contagiante. Mesmo estando em um camarote, ela podia sentir a energia
vibrando em cada um ali presente enquanto sua escola de samba favorita passava. Aquele parecia ser
um momento em que não havia diferenças de cores, ideologias ou status. Todos estavam ali para se
divertir e tornar aquele momento eterno na lembrança. Já estava sendo assim para ela.

Mesmo estando exausta, Thaissa sentia-se muito feliz pelos dois dias de brincadeiras que
estava tendo. Embora ela não fosse uma mulher que vivia de badalações, naquela noite deixou-se
levar, conscientemente, pelo mundo de brilho e fantasias e se permitiu um pouco mais. Tomara uns
drinques com as amigas e se entregou a diversão do glamoroso carnaval carioca.

Por várias vezes aproximavam dela belos homens interessados em fazer-lhe companhia, mas
Thaissa desejava apenas se divertir, nada mais. Morena de olhos verdes, 1,67m. Corpo em harmonia.
Com pernas bem torneadas, quadril largo e seios médios. C om cabelos longos e negros que iam
próximos da cintura em um corte moderno e de um olhar expressivo e sedutor. O rosto era
arredondado e suave. Thaissa sem dúvida chamava a atenção por onde passava. Aos 30 anos seu
corpo e beleza estavam no seu ápice. Quando chegaram acompanhantes com intenção de se divertir
apenas, Thaissa os dispensava sem rodeios, não fora ao Rio buscar prazer desmedido. Seu desejo
era único e exclusivamente se curtir. No seu ponto de vista, este era o melhor carnaval que já vira.
Consciente do que fora buscar ela permaneceu em seu foco principal, divertir-se sem
promiscuidades. Não se daria ao prazer de esquecer suas crenças e valores. Pensando assim estava
decidida a não se envolver.

Embora consciente do ambiente onde se encontrava, houve um determinado momento em que


um olhar lhe aguçou os instintos. Por longos minutos, ambos olharam- se a distância. Ele numa parte
do camarote e ela em outra. Por várias vezes, ficavam sem foco um do outro, ainda assim sempre que
Thaissa olhava na direção daquele homem, ele a estava olhando também. Era estranho para ela
aquela situação, parecia que um imã a puxava e Thaissa mesmo a contra gosto se via desviando a
atenção da Avenida, e olhando para ele O desejo de olhar para aquele homem era mais forte que sua
determinação em não fazê-lo.

Em um dado momento Thaissa acreditou que ele viria ao seu encontro e um misto de sentimento
bom e dúvidas a dominou, mas era apenas uma impressão passageira. Logo Thaissa deixou de lado
aquele encantamento a distância e foi se divertir com as amigas. Quando seu pai informou que teria
recebido alguns convites de camarotes do Carnaval do Rio, de um cliente que lá estaria com sua
marca, ele deixara claro que não curtia tal festa, mas que não se oporia se Thaissa desejasse ir, desde
que fosse consciente e não se metesse em problemas. Além disso, era uma mulher crescida e sabia se
comportar em qualquer lugar que fosse. Feliz por poder estar ali, ela concentrou-se na linda imagem
que tinha a sua frente e tentou cantar e sambar junto com as amigas o enredo da escola de samba que
estava em destaque na Avenida.

Quando Thaissa não se lembrava mais do feiticeiro do outro lado, ele surgiu a sua frente.
Surpreendendo-a.
— Oi tudo bem? – Cumprimentou ele informalmente.

— Tudo ótimo e com você? – Thaissa o observou melhor. Ele era ainda mais belo de perto.

— Não há como não estar bem num lugar como esse. Meu nome é Marcus. – Ele falava
enquanto seus olhos a observava criteriosamente. Percebeu Thaissa.

— Thaissa. – disse ela aceitando a mão estendida. — Você já conhecia o Carnaval do Rio? –
perguntou interessada em saber da vida social do belo homem que estava tão próximo que podia
sentir o calor de seu corpo.

— Essa é a segunda vez que venho – respondeu ele com um sorriso másculo.

— Então está mais habituado que eu. – Thaissa retribuiu o carisma dele.

— Primeira vez. – Afirmou ele.

— Sim. – Dali por diante conversaram quando possível, mas permaneciam próximos um do
outro. As amigas de Thaissa ao ver o belo homem se aproximando afastaram-se e os deixou sozinhos.
Ao ver-se com ele, isolados em um canto, um sentimento bom se apossou dela. Talvez pelo ambiente
festivo e cheio de encantos, ela se viu desejando conhecer um pouco mais o desconhecido Marcus.

Embora a razão estivesse sempre alertando Thaissa, seu instinto aventureiro e adormecido
estava lhe atormentando e pedindo para que não perdesse a oportunidade de curtir o momento.
Enquanto ela travava uma batalha interna consigo mesma, subitamente sentiu os lábios dele tocando
os seus. Naquele instante, as dúvidas caíram por terra e ela se deixou levar. O beijo foi rápido e sem
muito entusiasmo. Ele parecia ter agido por impulso. Apenas um beijo com sabor de cereja ou
morango, sabia apenas que fora um beijo.

Após a intimidade, Marcus a observava um pouco mais que antes. Parecia que ele tentava
desvendá-la. O homem era misterioso e muito sexy. Thaissa começava a acreditar que fora esses
requisitos que lhe chamara tanto atenção. Uma combinação poderosa contra o sexto sentido feminino.

Após o primeiro quase beijo, ela preferia classificar dessa forma, Thaissa ficou ansiosa por ter
novamente o sabor que ainda não havia descoberto qual era, mas ele não veio, e ela acreditou que
não viria mais. Conversavam sempre sem deixar o clima ficar pesado. Marcus fazia comentários
inteligentes sobre as fantasias e carros alegóricos que passavam pela Avenida. Nada mais que isso.

— Você sabia que o Carnaval começa em Dezembro para as escolas de Samba?

— Não! – Disse ela interessada. – Thaissa pouco sabia sobre o evento. Era uma telespectadora
que via apenas a beleza, sem saber todo o trabalho que envolvia aquele mundo de magia.

— É que a partir de Dezembro as escolas já começam a fazer seus ensaios técnicos para
avaliar o canto, a evolução e o ritmo de seu grupo. – comentou ele.

— Não sabia dessa informação. Aliás, sei muito pouco sobre o Carnaval, e em sua maioria são
histórias nada boas.

— Você tem razão quanto aos fatos ruins que envolvem o evento, mas há muitas belezas a
serem vistas dentro e fora do sambódromo, que se sobrepõem a esses movimentos negativos
produzidos por alguns que não sabem reconhecer o trabalho de tantas pessoas em fazer tudo isso. –
falou ele certo do que dizia.

— Acredito que esteja certo. Assim como a maioria, eu só vejo o belo, e ouço sobre o
carnaval, histórias que não sei classificar como verdadeira ou não. – Thaissa foi sincera com ele.

— Você percebeu a harmonia entre as escolas do grupo especial que desfilam hoje? – Thaissa
não entendeu a pergunta dele.

— Como assim, harmonia entre elas? Pelo que eu percebi a intenção não é essa, e sim, superar
umas as outras – Thaissa disse naturalmente.

— Eu quis dizer se você percebeu que os grandes destaques do carnaval ficam divididos entre
domingo e segunda-feira para que não haja mais brilho e beleza em um dia que no outro. É realizado
um sorteio onde as escolas que são consideradas as melhores e permanecem no topo. São
distribuídas entre os dois dias de desfile, e as demais, são divididas em pares equivalentes, assim
acontece essa ordem que você talvez não perceba.

— Você me parece bem informado sobre o carnaval, deve ser um carioca que mora na cidade
do samba. – Ambos riram do comentário dela, mas sua intenção maior era saber um pouco mais
daquele homem, porém, para seu desgosto, ele apenas sorriu e nada informou de importante.

— Eu gostaria mesmo de estar por aqui. – disse ele. — Você ficará para o desfile das campeãs,
na próxima semana? – perguntou ele, desviando o assunto.

— Infelizmente não poderei ficar toda a semana. Retornamos depois de amanhã, e devo saber
do resultado longe do Rio.

— Você estará aqui amanhã? – perguntou Marcus.

— Infelizmente não. Iremos ao Scala Rio, curtir a noite da Cerveja. Disseram- me que é um
dos mais tradicionais bailes cariocas, pelo menos, foi o que nos informaram. – Haviam recebido
ingressos apenas para o sábado e o domingo de carnaval. O que já era suficiente para Thaissa. Assim
poderiam também aproveitar outros eventos que aconteciam em toda a cidade.

— Você está certa. Ele é de fato um dos melhores. Há também o Baile do Copacabana Palace
que aconteceu no sábado.

— Você esteve lá? – perguntou ela curiosa. Thaissa soube que esse era o baile mais
sofisticado, no qual o luxo era o ponto forte. Aquele homem ostentaria tal prazer. – Perguntou-se
Thaissa. Embora ela pudesse pagar o valor do ingresso, pois costumava poupar, preferiu não fazê-
lo, porque a maioria dos amigos que estavam com ela, não poderia custear tal festa sem que isso os
prejudicasse por alguns meses. Thaissa sabia que todos eles aceitaram o convite, principalmente por
ser gratuito e só pagariam o hotel e o ingresso do baile no Scala Rio, que embora fosse mais barato,
ainda era pesado para alguns. Levando em consideração todos os gastos que teriam desde a roupa e
todos os demais investimentos que fizeram para estar no evento todo.

— Sim estive ano passado. – respondeu Marcus discreto e sem intenção de aprofundar as
informações. Talvez eu passe por lá amanhã também, e poderemos nos ver novamente. – Quando
Marcus disse que poderia estar no baile, Thaissa sentiu um frio percorrer seu corpo.

— Claro, por que não?! – Ela respondeu olhando para a Avenida onde passava a quarta escola
de samba da noite.

— Thaissa você pretende ficar até o final dos desfiles? – Veio perguntar uma de suas colegas
da empresa.

— Estou com vocês Aline, quando quiserem ir embora, podemos ir, mas eu adoraria ficar até o
final e ver a apresentação da Portela também, já que não falta muito.

— Vou falar com os demais, e caso eles consentem, ficamos todos. – A moça se afastou
deixando-os a sós novamente.

— Posso te levar para o hotel se eles optarem por ir agora e você queira ficar. – Ofereceu
Marcus.

— Obrigada, mas como estamos em grupo, prefiro que terminemos a noite assim. –Thaissa
agradeceu feliz por ter uma boa justificativa. Mesmo que desejasse sua razão jamais lhe permitiria
uma aventura dessas. Ir embora com um completo desconhecido em uma cidade onde estavam
concentradas naqueles dias, pessoas de diversas crenças e personalidades possíveis.
— Tudo bem, mas se mudar de ideia. – Reforçou Marcus.

— Obrigada! – Agradeceu ela dando a entender que colocara um ponto final no assunto.

— Pelo que percebo, essa é a primeira vez que vem ao Rio, estou certo? – Ele começava a
fazer perguntas e ela precisava se desviar com a mesma maestria que ele.

— Sim é a primeira vez, estou deixando isso muito evidente?

— Não! É que seu sotaque não é desta região, e como está aqui em grupo, logo pensei que
seriam de outra localidade.

— Sim somos do Centro-Oeste. – Uma região que envolvia vários Estados, o que daria a ela
garantias de que o belo homem não saberia onde Thaissa residia de fato. Acreditou Thaissa.

— Parece-me Goiana. – Pronto ele percebera por alguma palavra de costume. Agora as coisas
começavam a ficar íntimas.

— Sim sou. – Você é de onde? – perguntou Thaissa nada satisfeita pela percepção dele.

— Sou mineiro de nascimento, mas já nem sei mais qual é minha terra de fato, já passei por
muitos lugares. – Mais uma resposta nada esclarecedora. – Pensou Thaissa.

— Qual sua escola preferida? – Perguntou ela determinada a deixar as coisas irem
acontecendo.

— Se eu fosse escolher pela tradição e números de títulos eu diria que é a grande Portela, que
sem dúvida, tem história. Mas meu apego pelas cores azul e branco é muito grande. Então, torço pela
Beija-Flor. E você, qual sua preferida até agora?

— A Inocentes de Belford Roxo, Salgueiro e Unidos da Tijuca estavam lindas, assim como a
própria União da Ilha. – Marcus riu da agonia dela em não saber escolher uma única escola. – A
verdade é que não tenho conhecimento suficiente para escolher uma delas. Ao meu ver, todas estão
maravilhosas e fiquei encantada com cada uma que cruzava a marca de entrada. – conclui ela
sorrindo também.

— É normal essa dúvida quando vemos essa beleza pela primeira vez. Muitos escolhem pelo
poder que o samba exerce sobre elas durante a apresentação, outros pela grandiosidade dos carros
alegóricos e suas diversas cores. Cada um tem seu próprio método de escolha. Claro, nós que somos
mais leigos! As pessoas que entendem um pouco mais do evento, têm seu método diferenciado para a
escolha. Eu conheço pouca coisa sobre o carnaval também. É preciso tempo para entender realmente,
mas sempre que vou fazer ou ver algo, eu procuro pesquisar a respeito para ter uma visão mais
aguçada. – Thaissa já havia percebido que ele sabia muito. Se comparado a ela.

— Vou me lembrar disso quando decidir fazer uma turnê para conhecer alguma coisa. –
Comentou ela, olhando-o discretamente.

— Você ficará muito mais entrosada, tenha certeza disso. – Embora estivessem conversando
estavam sempre atentos ao desfile que acontecia a frente deles. Conversavam animados como se
conhecessem um ao outro por longa data. Aquele entrosamento na comunicação os estava agradando
muito. Quando Thaissa se calava, Marcus tinha alguma observação a fazer e vice-versa. Ao contrário
de muitos que estavam ali, eles conversavam animadamente por longos minutos. Não se falavam
sobre suas vidas particulares. Não era importante que ela soubesse que Marcus era um empresário
bem sucedido em sua vida profissional no Triângulo Mineiro, e tão pouco que ele descobrisse que
Thaissa tinha ao lado do pai, uma empresa de pequeno porte, porém, promissora no seguimento de
prestação de serviços em assessoria de marketing e mídia. Precisavam apenas aproveitar aquele
momento, e talvez, levar para casa boas lembranças.

— O desfile de hoje está chegando ao fim, daqui alguns minutos sai a Mocidade e Entra a
Portela. Você está satisfeita com o que tem visto até agora? – Perguntou Marcus depois de muito
conversarem sobre o evento e sua grandiosidade dentre outros assuntos que se passavam ali no
camarote, entre as pessoas que frequentavam o espaço.

— Eu diria encantada. Sim estou! – Marcus a olhou ternamente o que fez Thaissa acreditar que
ele também estava aproveitando bem o momento.

As conversas cessaram um pouco e ambos atentaram-se para o último desfile da noite.


Chegava ao fim aquele encontro. Thaissa não compreendia o porquê, mas a consciência desse fato a
incomodou. Embora a apresentação estivesse à altura da tradição da escola, Thaissa por vezes se
pegava pensando quem era e onde viveria Marcus. Não havia sotaque ou ela não tinha experiência
suficiente para reconhece-lo. Ele tornou-se um enigma para ela, e parecia não ter qualquer intenção
de expor sua vida. Thaissa também não via necessidade de se conhecerem a fundo. Logo não se
veriam mais e em nada adiantaria saber um sobre o outro. A única coisa a fazer era aproveitar até o
final daquela aventura carioca e ponto.

Terminada a apresentação que fechava a agenda de domingo, que já era segunda-feira há


tempos, os amigos de Thaissa começaram a se aproximar.

— Foi um prazer conhecer você Marcus. – falou ela se despedindo.


— Igualmente Thaissa. Espero que tenha gostado do evento e da minha companhia também.

— Sem dúvida gostei dos dois. – Ambos já não pareciam tão entrosados como estava há
pouco. Com a despedida veio também às formalidades que anunciavam um adeus.

— Fico feliz em saber. É sempre bom fazer amigos. – Ambos se olharam longamente e foi
Marcus quem tomou a decisão de ir até ela, e dar- lhe um beijo no rosto.

Quando se afastava Thaissa tinha plena consciência de que ele a acompanhava com os olhos.
Teria ela perdido uma chance de viver um belo amor de carnaval? Perguntava-se quando entravam no
carro para partir. Durante todo o trajeto Thaissa pensou naquele homem lindo que conhecera.
Pareciam tão sintonizados durante o tempo em que ficaram próximos que ela chegou a acreditar em
almas que se reencontram. Não que ambos fossem almas gêmeas que estavam predestinadas a
viverem juntas em outras vidas, mas parecia haver um elo entre ambos, isso ela não conseguia deixar
de crer.

De volta ao quarto de hotel Thaissa tomou um rápido banho e foi tentar adormecer um pouco.
Tiveram noites memoráveis, e logo retornariam á Goiânia e para suas rotinas, ficando somente as
boas lembranças daquele final de semana carioca.
CAPÍTULO 02

À noite todos estavam prontos para conhecer o baile do Scala Rio. Haviam comprado
ingressos para a pista. Os custos seriam menores para todos. Conforme vira em fotos, o hotel era de
fato muito bonito e estava cheio de pessoas. O Baile da Cerveja, como era chamado o evento daquela
noite, reunia centenas de pessoas fantasiadas e outras com trajes comuns, mas não menos alegres.

— Nossa que lugar lindo! – falou Paula entusiasmada. – De fato todos estavam maravilhados
com a beleza da decoração festiva. Thaissa e seus amigos optaram por não usarem máscaras. Ela
usava um vestido florido com um belo laço na cabeça. As sandálias alegres e coloridas davam um ar
angelical ao seu visual. Optara por pulseiras também coloridas. Aquele era o momento onde a
combinação de cores era preocupação secundária. Desde que refletisse alegria, todas elas ficavam
belas juntas.

Todos optaram por ficar em uma extremidade do salão menos cheia. Onde pudessem ver e
ouvir a banda que tocava no palco. Tudo colaborava para que a noite fosse bem aproveitada e
divertida. Todos sorriam uns aos outros, independente de se conhecerem ou não.

Thaissa estava com duas de suas amigas que, assim como ela estavam solteiras. Serviam uma
bebida quando um homem mascarado se aproximou. Ele lhes fez um cumprimento gentil, mas Thaissa
não lhe dera muita atenção, procurava por outra pessoa e ela parecia não estar presente. Ela tinha a
esperança de que Marcus estaria no baile, mas provavelmente ele falara que iria apenas para que a
despedida não se transformasse em um adeus.

Quando retornavam para seus lugares o mesmo homem veio ao seu encontro. Ele se aproximou
com sua máscara de faraó e uma capa bufante e Thaissa lhe enviou um breve sorriso. Não estava
interessada em assédio, principalmente se não fosse de quem ela desejava, e certamente não era.
Suas amigas afastaram-se para dar espaço ao homem que ficará frente a frente com ela deixando-a
sem saída.

— Boa Noite! – Ele disse com a voz abafada pela máscara.

— Boa noite para você também! – falou tentando se desviar dele. – O mascarado percebeu e
segurou em sua mão.

— Não reconhece mais os amigos de camarote? – Ele perguntou sem tirar a máscara.
— Eu conheço você? – quis saber ela, sentindo uma ansiedade tomar conta de si.

— Talvez sim. – Thaissa olhou demoradamente pela pequena fresta que mostrava apenas os
olhos dele. Era de um tom de cinza maravilhoso, que a fez arrepiar— se. – Ele então ergueu a
máscara lentamente mostrando o belo rosto masculino.

— Agora se lembra de mim? – Marcus perguntou com sorriso arrebatador.

— Com certeza. – Thaissa tentou disfarçar a alegria de revê-lo.

— Pensei que me reconheceria. – Falou ele disfarçando a insatisfação enquanto retirava a


máscara e a capa, colocando— os ao lado para quem os quisesse usar.

— Desculpe— me, mas sou péssima para reconhecer pessoas com qualquer coisa que esteja
cobrindo parte do rosto.

— Tudo bem. – Marcus levou a mão dela a boca beijando-a levemente. A sensação fora quase
tão prazerosa quanto os beijos que trocaram na noite anterior.

— Está se divertindo aqui? – quis saber ele.

— Sim estamos. É um local muito agradável também.

— Eu imaginei que iria gostar. – comentou ele sem desviar seus olhos dos dela.

— Não vai continuar com seu personagem senhor faraó?

— Prefiro não. Você pode desejar se tornar Cleópatra e então perderei sua companhia para o
Marcos Aurélio ali. – Thaissa olhou outro homem vestido de imperador, próximo deles.

— Faz bem. – Comentou ela. — Você também já conhecia esse evento? – quis saber,
interessada.

— Sim. Eu estive aqui, alguns anos atrás.

— Você me parece gostar muito da noite. Estou certa?

— Claro que gosto. É nela que descobrimos grande parte da beleza de alguns lugares. –
Marcus a levou para um canto onde havia menos pessoas.

— Pensei que não viria. – Ela sentiu-se tola por fazer tal comentário, que certamente o faria
acreditar que ela o esperava.

— Resolvi na última hora. Realmente eu não tinha a intenção de vir. – Thaissa não
compreendeu o que ele quisera dizer, mas nada comentou.

— Você esteve no sambódromo hoje? – perguntou ela curiosa.

— Passei rapidamente por lá. – Marcus parecia ainda mais discreto que na noite anterior
concluiu ela.

— Certo. As apresentações que vi nos dois dias estavam lindas. Eu não saberia dizer qual
escola deveria ser a vencedora de cada grupo. Confesso que gostei de todas que pude assistir. –
disse Thaissa para mudar o assunto.

— É normal ficarmos assim. Não acontece apenas com você. – comentou ele olhando a volta
deles.

— Eu acredito que não. – Marcus pegou duas taças e entregou uma a ela. Beberam todo o
líquido em silêncio. O clima amistoso da noite anterior ainda não estava presente entre eles.

— Eu vim, porque desejava ver você mais uma vez. – A confissão a deixou alegre e
preocupada também.

— Isso quer dizer que fui boa companhia ontem! – falou Thaissa ainda tímida.

— Certamente que sim. – Ele a olhou nos olhos profundamente. Aquele olhar fez com que
ficasse hipnotizada. – Marcus se aproximou lentamente e tomou a boca dela. Thaissa retribuiu ao
beijo no mesmo instante. Ele a envolveu em seus braços, apertando-a contra o tórax firme. No desejo
de aproveitar o momento, Thaissa encostou-se nele, um pouco mais.

Acariciando a nuca dela, Marcus a fez se render aos seus toques. Beijaram-se com avidez e
desejo. Não era costume de Thaissa se render com tamanha rapidez, mas naquele momento tudo o que
queria era se entregar aos encantos daquele homem belo e sedutor. Ela o envolveu pelo pescoço e
acariciou a nuca dele com suas longas unhas descendo até as costas moldadas pelas atividades
físicas. Marcus parecia tenso. Constatou, ao percorrer suas mãos abaixo da nuca dele. Mas ainda
assim a tocava com aparente desejo. Em um dado momento, ele pegou em sua mão levando-a para um
local mais reservado, onde poderiam se curtir um pouco mais. Thaissa sentiu a mão quente percorrer
suas costas até chegar na fresta do vestido e acariciar sua pele nua. O calor do toque a deixou
excitada e desejosa por mais.

Marcus se afastou um pouco para acariciar a boca macia daquela mulher. Thaissa estava ainda
mais linda naquela noite. Seria difícil para ele não se render ao desejo de se aventurar nela. O corpo
firme com decote evidente o deixou embriagado. Necessitado por um contato um pouco mais ousado,
Marcus aproveitou que estavam camuflados pela decoração e instintivamente afastou parte do
vestido dela próximo ao colo e cobriu um dos mamilos de Thaissa com a mão acariciando-o até
deixa-lo intumescido. Aquele contato deixou Thaissa arrepiada. Seu consciente a pedia para que se
atentasse ao que acontecia, mas uma força maior a levava para o outro lado, o da luxúria e do prazer
desmedido. Procurando retribuir ao carinho Thaissa abriu um pouco à camisa dele acariciando o
tórax firme e liso com as unhas. Marcus reagiu ao contato e seu membro rígido encostou-se em
Thaissa, deixando-a consciente do desejo que ele sentia. Não esperava ser capaz de um ato daquele
em sua vida. Mas como um lampejo rápido e sem rastros. Ela se esqueceu do que não deveria fazer e
acabou se deixando levar. Estava fora de si com a certeza de que se Marcus a convidasse para
saírem dali, ela o acompanharia. Seu corpo ansiava por aquele desconhecido como nunca desejou
outro homem antes.

Embora estivesse excitada, algo dentro dela lhe pedia cautela. Nunca fora costume seu agir
pelo instinto. Talvez por acreditar que aquele momento não teria uma segunda oportunidade, ela
estava se deixando levar. Mas até onde aquilo poderia ir? Ela desejava ardentemente saber. Com os
corpos em chamas beijaram-se novamente. Thaissa queria pertencer àquele homem, mesmo sabendo
que seria por alguns momentos. Marcus a envolveu num abraço apertando-a. Em seguida ele o
afrouxou e desceu uma de suas mãos discretamente pelo corpo dela, acariciando a cintura torneada e
feminina.

— Eu seria capaz de possuí-la aqui, não fosse todas essas pessoas presente. – Falou ele ao seu
ouvido.

— Talvez eu desejasse muito isso – respondeu ela baixo. – Marcus pegou em seu rosto
erguendo-o até que seus olhos se encontrassem. Aquele cinza profundo deixava-a atordoada.

— Quer vir comigo? – perguntou ele com os olhos brilhando de desejo. – Thaissa ficou tensa
com o convite. Não sabia o que dizer.

— Acho que sim! – Disse ela em dúvidas. – Marcus a envolveu novamente e beijaram-se com
estrema urgência.

— Não sei. Talvez não seja o correto a fazer. – disse ele baixinho beijando o pescoço dela. –
Mas eu confesso que adoraria. Olharam-se por alguns segundo até que Marcus quebrou o encanto.

— Preciso ir ali. – disse ele aparentemente contrariado.

— Tudo bem! – Thaissa respondeu com a respiração cortada. Assim que ele se afastou a razão
começou a controla-la. — Meu Deus, o que estou fazendo?! Se esse homem me tocar um pouco mais,
certamente não ficará apenas nisso. Estava tão excitada quanto apreensiva com aquela situação. Não
era costume seu agir assim, mas ele tinha certa magia. Essa era a única resposta encontrada por ela
para esclarecer o que acontecia. Mas de uma coisa estava certa, não deixaria que aquele jogo de
sedução desse continuidade quando Marcus retornasse. Pelo menos era isso o que ela pretendia. –
Thaissa ficou ali por alguns minutos aguardando o retorno de Marcus enquanto criava em sua mente o
discurso que faria para ele. Não poderiam prosseguir com aquela deliciosa tentação. Ela colocaria
um ponto final. Por dentro, algo lhe dizia o contrário, mas caso Marcus insistisse ela o deixaria
sozinho e procuraria por seus amigos. Era a única forma de não se culpar pelo resto da vida por se
deixar vencer por uma deliciosa tentação de nome Marcus.

Haviam se passado mais de 10 minutos e Marcus não retornava. Constrangida, Thaissa o


procurou com os olhos pelo salão, Talvez estivesse falando com algum amigo. Mas não o vira, o que
a deixou tensa pela demora. Quando girava para outro lado a procura dele, um homem se aproximou
elogiando-a.

— Uma lindeza dessas não pode passar uma noite de Carnaval sozinha. – Falou ele sem
rodeios.

— Não estou sozinha, Meu acompanhante deve estar chegando. – Falou Thaissa educadamente.

— Se precisar, eu estarei do outro lado. – O homem deu-lhe um leve beijo na mão e saiu
rapidamente com sua imensa cartola na cabeça e capa que lembrava os anos 60, talvez por isso ele
fora tão cortês, parecia se inspirar em um personagem de época. – Thaissa continuou sua procura
por mais alguns minutos até desistir indo ao encontro das amigas.

— Onde está aquele belo homem que havia lhe raptado? – Quis saber uma das jovens.

— Acho que o assustei ou ele perdeu o caminho de volta. – Thaissa sorriu, mas por dentro
estava chateada. Ela sabia que logo tudo se acabaria, mas não imaginava que seria daquela forma.
Que Marcus sairia dizendo voltar e partiria sem se despedir.

— Melhor para você, assim poderá aproveitar o baile. – Thaissa ainda olhou pelo salão
desistindo em seguida de reencontrá-lo. Ela não conseguia compreender o porquê acabara daquela
forma. Estava claro que ele fora ao baile à procura dela. Por que razão então sumiria sem nada
dizer? Ela não entendia. Mas se ele preferia assim, que fosse dessa forma.

Havia se passado algum tempo e Thaissa sentia-se melhor. Divertiam— se entre os amigos até
que decidiram ir embora.
Ela chegou exausta em seu quarto, tendo tempo apenas para um rápido banho antes de cair na
cama e adormecer.

Na manhã seguinte, tomaram o café juntos relatando os bons momentos que tiveram no Rio de
Janeiro, que logo ficariam apenas nas lembranças de todos. Tomaram o avião pouco depois com
destino à vida normal.
CAPÍTULO 03

Thaissa estava de volta ao trabalho após dias agitados de carnaval. Tudo voltara a ser como
antes em sua vida, mas ela não conseguia se sentir assim. Por mais que tentasse, não afastava de sua
mente aquele período festivo e tudo o que tivera lá. Não era costume seu viajar tão longe para se
divertir, mas aquela viagem em especial mereceu seu empenho. Tivera momentos inesquecíveis na
cidade maravilhosa. Tudo teria corrido bem e ela não estaria agora com a sensação de vazio. Se não
fosse o fato de ter sido abandonada na festa sem um adeus. Talvez Por sentir-se assim e não
conseguiu colocar um ponto final naquela breve história. Parecia que faltava algo para fechar o ciclo,
mas o quê? – Ela não sabia.

Thaissa tinha certeza apenas de que gostaria de esquecer aquele homem e voltar a sua rotina e
trabalho. Mas não estava tendo sucesso apesar de ter muito que fazer. Sua mente teimava em se
lembrar dele.

Estava saindo a pouco com o filho de um amigo de seu pai, e embora ele fosse um homem
atraente e educado, Thaissa sentia que faltava algo para ser completo. Logicamente, ela sabia que
ainda era recente e havia chances daquela relação ser promissora, mas no momento não acreditava
muito nessa teoria. Deixaria acontecer e tudo se encaixaria em breve. Ela esperava.

Thaissa passava tranquilamente pela recepção quando soube que haveria uma reunião entre os
sócios da empresa para tratarem de assuntos pertinentes a esta.

— Essa reunião será apenas entre os sócios Thaissa, seu pai pediu que a informasse que não
precisa estar lá. – Disse a secretária quando ela se aproximou.

— Se ele prefere assim, tudo bem. – falou ela sem se incomodar.

— Você soube que o Alex ganhou uma bolada do namorado da Julia e outros amigos por ter
votado que a Vila Isabel seria a campeã do carnaval no grupo especial? – perguntou a moça que
também parecia ainda não ter se esquecido do evento. Logicamente que seus motivos eram um tanto
diferentes dos de Thaissa.
— Eu percebi que apostaram alguma coisa quando estávamos retornando para casa, mas não
soube que houve um ganhador.

— Me arrependi horrores por não ter seguido o palpite dele. Se tivesse feito eu estaria com
metade da grana. – Ambas sorriram do desalento da moça.

— Na próxima vez você segue os conselhos dele, que dará certo. – Falou Thaissa na tentativa
de alegrar a colega.

— Será difícil surgir uma oportunidade como essa que tivemos, graças a você, mas caso
aconteça farei o que disse — respondeu a moça certa de que a probabilidade seria pequena. Thaissa
olhou-a pensativa. Certamente as chances de rever Marcus também seriam mínimas. Precisava seguir
sem criar ilusões tolas.

— Caso surja outra oportunidade, será um prazer convidar vocês. – afirmou quando se
afastava. – Vou organizar algumas papeladas enquanto estão em reunião. Bom dia!

— Bom dia Thaissa! – A moça cumprimentou-a também educadamente e cada qual foi para
seus afazeres diários.

A empresa ocupava dois andares de um pequeno prédio na Avenida Anhanguera. A sala de


Thaissa ficava na parte superior assim como outras seções da empresa. Quando chegou a sua sala,
começou suas atividades a fim de adiantar um projeto que seu pai insistira que ela coordenasse, pois
provavelmente seria muito bem aceito, devido à dedicação dela e os bons profissionais que a
acompanhavam. Embora fosse à filha do sócio majoritário, ela jamais se permitiu usar de tal
argumento para se beneficiar. Desde o início quando optara em trabalhar na empresa ela deixou claro
suas intenções e desejo de ser igual a todos ali, o que lhe rendeu boas amizades. Havia apenas um
pequeno problema que rondava-a e muito a desagradava, Letícia. A mulher fora amante de seu pai
por algum tempo, e mesmo tratando-se do passado, ainda nutria certa antipatia pelo mal que a outra
fizera a sua família. O sentimento que tinha pela mulher, não lhe dava orgulho algum. Mas não
conseguia deixar de senti-lo. Ele parecia ter enraizado dentro dela. E por vezes se pegava
alimentando-o em sua alma já cansada de carregar o fardo do rancor. Leticia era uma mulher
ambiciosa e muito vaidosa. Usava roupas coloridas em corte fino que cobriam o corpo ainda bem
torneado. Morena dos seus 1.70m, cabelos ruivos a baixo dos ombros e 43 anos de clara beleza. Ela
iniciou sua carreira como secretária de André, pai de Thaissa. Por algum tempo ainda ouviu rumores
de que a mulher era muito próxima de seu pai. Que era muito eficiente e demasiadamente prestativa
com ele, mas por crer que falavam sem provas concretas, ela não dera importância aos rumores.
Porém quando sua mãe descobriu um câncer anos antes de falecer, tudo se transformara. Seu pai
abatido pela notícia tornou-se presa fácil para a golpista e foi questão de tempo para ela atingir seus
objetivos. Agora Thaissa se via entre o dever de ajudar seu pai com o patrimônio de ambos e
conviver com a falsidade e falta de caráter da mulher, que conseguira tirar algumas ações de seu pai
quando rompeu com ele. Relembrando dos últimos meses, Thaissa constatou que sua vida não estava
sendo muito fácil, e agora surgia mais uma incógnita de nome Marcus, que ela não conseguia
esquecer. Sentia-se mal pela forma como acabou aquele encontro. Naquele momento, ela entendia o
porquê de algumas pessoas se sentirem tão mal por receberem um fora. Ela esperava que pelo menos
essa questão se resolvesse logo, e sua autoestima voltasse a ser como sempre fora. Certamente,
aquele homem não merecia que ela dedicasse seu precioso tempo pensando nele.

Terminada a reunião, seu pai retornou à sala que dividiam quase sempre.

— Eu soube da reunião, pai, está havendo algum problema? — perguntou ela.

— Precisávamos conversar sobre a possível venda de algumas ações – disse–lhe o pai sem
rodeios.

— Você pretende vender parte de suas ou são de outro sócio? – Thaissa não acreditava que
fossem as do pai, ainda assim perguntou.

— Há dois lotes um da viúva do Antônio Carlos, que não deseja mais permanecer com elas. E
o outro é do Paulo que estará se mudando para o Canadá, e como nunca se interessou em atuar aqui,
preferiu se desfazer das que possui.

— Por que não tenta adquirir ambas ou parte delas? – perguntou ao pai.

— Infelizmente não será possível, filha. Só serão vendidas juntas e não tenho capital para
tanto. – Thaissa lembrou-se das perdas financeiras que tiveram com o tratamento de sua mãe, e do
caso dele com Letícia. Uma leve magoa veio a sua mente, mas ela a barrou. Seu pai não precisava
daquele sentimento, não depois de tudo o que passara.

— Pelo que vejo, podem ser adquiridas por algum empresário de fora então. – deduziu ela,
devido ao fato de serem vendidas somente em grupo como era discutido no estatuto da empresa.

— É quase certo que sim. Um dos interessados é de Santos, e o outro, de Minas Gerais. O
segundo temos um amigo em comum, e embora ele não se pareça tão interessado quanto o primeiro,
estamos torcendo que seja o comprador.

— Espero apenas que seja uma pessoa de visão, e que não queira desvalorizar a Fênix no
mercado com projetos ruins. – Thaissa não gostava da possibilidade de ver um estranho dentro da
empresa que tanto se dedicava e amava, ditando regras.

— Não se preocupe filha, eu ainda serei o sócio majoritário, e embora o comprador venha a
ter certo percentual da empresa, acredito que nenhum deles tem a intenção de atuar diretamente aqui.
Como lhe falei, são ambos de fora e possuem seus negócios lá.

— Talvez seja melhor assim. – concluiu pensativa.

— Conseguiu organizar aquela planilha semestral que pedi? – Perguntou André.

— Sim, me dê apenas alguns minutos para configurá-la e lhe passo.

— Obrigado filha, Não sei o que seria de mim nessa empresa e fora dela, sem você. – Thaissa
pegou na mão do pai em resposta. Ainda havia certa distância entre eles, mas vez ou outra quebravam
o gelo e se davam o direito de algum carinho e amor.

— Não há do que me agradecer. É um prazer para mim. – Olharam— se carinhosamente.

— Quando elas estiverem prontas me avise, terei que me ausentar agora, mas nos falamos
depois. – Disse André após beijar a mão da filha.

Sozinha, ela fez os últimos ajustes e providenciou a impressão do documento para que
estivesse pronto quando seu pai retornasse.

Durante todo o dia, Thaissa trabalhou no projeto que liderava. Seu pai não havia retornado e
ela preferiu deixar a planilha consigo para entrega-lo no dia seguinte. Terminado o expediente ela
refez o trajeto que sempre fazia de volta para sua casa. Já instalada, ela organizou algumas de suas
anotações até o horário de se recolher. Antes, porém, respondera alguns e-mails da empresa que
estavam em atraso. Havia algum tempo esse era o hobby de Thaissa. Dedicar-se à empresa sem criar
oportunidades que a fizessem pensar em coisas que não lhe seriam proveitosas até então.

Naquela noite não iria se encontrar com seu amigo, ou namorado, ela ainda não sabia ao certo.
Preferia não defini-lo ainda. Humberto era um homem amável com quem saíra algumas poucas vezes
para jogar conversa fora. Ela sabia que por ele, já estariam engajados em um relacionamento. Mas
estava ciente que nenhum do dois sentiam-se seguros. Gostavam de se ver, vez ou outra, e conversar
sem passar disso. O conhecia havia alguns anos quando seu pai levava os amigos para jogarem poker
em sua casa. O rapaz ia junto com o pai dele. Conversavam às vezes, e com isso criou— se uma
agradável amizade entre eles, que agora tornava-se mais próxima, sem grandes transformações,
porém era diferente de tempos atrás. Depois da morte de sua mãe, o pai começou a jogar com os
amigos em sua residência. Segundo ele, não os levava para sua casa, porque não queria incomodá-la.
Com isso ele deixava-a quase sempre sozinha à noite. Thaissa não se importava, gostava de estar
consigo mesma. Embora nas últimas semanas não estivesse muito satisfeita pela forma que usava
esse seu tempo, lembrando-se de um passado que em nada prometia.

“Provavelmente essa minha carência se deva ao fato de que nunca tenha levado um fora
antes. E isso mexeu com minha estima. Agora sei o que é levar um completo pé na bunda.” –
pensou contrariada.

Era tarde quando Thaissa concluiu suas atividades indo descansar para o próximo dia.

Na manhã seguinte quando estava iniciando os trabalhos, seu pai entrou na sala, aparentemente
animado.

— Alguma boa novidade pai? – perguntou ela percebendo a alegria na face dele.

— Sim, minha filha. Estamos evoluindo nas negociações, e acredito que o segundo interessado
nas ações tem mais chances de ser o novo sócio da Fênix. – Informou ele alegre.

— E isso é mesmo bom? – Perguntou ela desconfiada.

— Claro que sim, filha. Embora seja jovem, tivemos ótimas referências dele. É um empresário
engajado e visionário. O responsável pelas negociações que ele nomeou pareceu mais interessado
que antes.

— Fico feliz. Se de fato ele sendo a melhor opção, seja também o mais interessado.

— Teremos bons motivos para sorrir, filha. Essa venda para uma pessoa mais ativa no mercado
poderá nos ajudar a crescer mais e com menos transtornos. – Se o pai estava confiante não seria ela a
jogar água sobre a alegria dele. Pensou Thaissa.

— Estarei torcendo para que tudo dê certo. – falou ela por fim.

— Estaremos todos torcendo minha querida. – Já instalado, seu pai iniciou as atividades e ela
procurou continuar as suas.

Não houve mais comentários sobre as negociações nos próximos dias, e Thaissa acreditou que
estavam seguindo firmes. Na sexta-feira, seu pai voltou a falar novamente, após outra reunião feita
para tratar do assunto.

— Surgiu um imprevisto quanto à venda das ações, filha. Segundo o responsável em negociar
conosco, o comprador deseja atuar na Fênix, pelo menos pelos próximos meses. Ele não fará a
compra se não puder atuar aqui. – André parecia menos feliz, mas ainda era confiante.
— Mas você não disse que ele já possui outros investimentos longe daqui? Por que esse senhor
sairia de sua vida, seus negócios para vir para Goiânia? – perguntou ela.

— Segundo nos informaram, ele gosta de fazer isso para conhecer mais o potencial do que
adquiriu, e assim, ver até onde poderá investir ou não.

— E o que irão fazer quanto a isso? – Thaissa questionou ciente de que independente do tempo
em que ele permaneceria ali. Algumas coisas iriam mudar.

— Optamos por aceitar. Está no estatuto da empresa que um sócio poderá atuar nela, se deter
certa quantidade de ações, e ele entra no que está prescrito.

— Sendo assim, não há muito a fazer. – A incerteza estava nos olhos do pai. Ele certamente
desejava aquela parceria, mas tinha receios de que a visão empresarial do novo sócio fosse muito
diferente do que tinham como política, e que isso prejudicasse a vida da empresa.

— Esperamos que ele venha acrescentar, e tudo dará certo. – Comentou.

— Há alguma previsão de quando ele começa? – Ela também gostaria de se preparar para o
novo colega.

— Ainda não. Enviamos apenas a confirmação de que aceitamos os termos dele. Agora é
esperar pela resposta final, que deve sair na próxima semana.

— E o que você pensa de tudo isso? Digo, não apenas como um dos sócios dessa empresa, mas
também como pessoa? – perguntou curiosa.

— Eu espero que seja acima de tudo, a melhor escolha e que possamos somar para o bem de
todos aqui. – Thaissa não questionou mais. Seu pai parecia certo da escolha e cabia a ela fazer o
mesmo.
CAPÍTULO 04

No sábado, Thaissa se encontraria com Humberto e embora não sentisse forte atração pelo
rapaz, ele era uma ótima companhia. Quando ele chegou, ela o recebeu com um cumprimento formal
beijando— o na face.

— Boa noite, Thaissa! Prazer em revê-la. – disse ele cortês. Observando-a de cima a baixo.

Humberto era um homem atraente. Em seus 1.90cm de altura, cabelos claros e olhos verdes.
Era digno de atenção por onde passava. Nas poucas vezes em que saiu com ele, Thaissa percebera
diversas mulheres olhando-o, disfarçadamente. Não que ela não estava à altura, mas de fato o homem
se destacava entre muitos.

— Boa Noite! Deseja entrar um pouco? – Convidou-o. – Como você deve saber meu pai não
está para nos fazer companhia. Ele deve estar no mesmo local que o seu se divertindo nos jogos. –
Ambos riram.

— Com certeza estão. – Falou ele mostrando através do sorriso, os perfeitos dentes brancos. –
Como seu pai não se encontra, não há motivos para perdermos tempo. Se desejar podemos ir agora. –
Disse ele.

— Como quiser. – Thaissa aceitou o braço que ele lhe dera e seguiram juntos até o carro dele.

— Você está linda. – elogiou-a Humberto assim que abriu a porta do carro para ela entrar.

— Obrigada! – Agradeceu ela, sentando-se no banco e ajeitando o vestido salmão, levemente


curto. Humberto contornou o carro e sentou-se próximo dela, olhando-a novamente antes de dar a
partida.

Durante o trajeto Thaissa observou melhor o homem ao seu lado. De todos que havia saído, ele
era sem dúvidas, o mais encantador. O que dificultava ainda mais para ela entender o porquê não se
entregava de vez naquela relação. Talvez ainda não estivesse segura o bastante. Enganava-se ela.

— Como foi sua semana Thaissa? – Perguntou ele enquanto seguiam para o centro da cidade.

— Foi bastante tranquilo, Humberto. Sem muitas novidades. E você, o que tem de novo?

— Também não há muito a informar, mas estou estudando a possibilidade de atender em outra
clínica aqui em Goiânia. Está havendo uma carência enorme de pediatras no momento.

— Ouvi a respeito. E com isso sobrecarregam os profissionais atuantes. Espero que não se
esgote muito. – Disse ela sinceramente. Não queria vê-lo passar 24 horas ou mais atuando. Isso seria
prejudicial ao belo homem, e claro, aos seus pacientes que certamente não seriam bem atendidos.

— Não haverá excessos. Costumo não me deixar levar muito, sabe. Gosto de atender meus
pequenos com tempo, e eu também preciso do meu próprio para recarregar as energias.

— Exatamente! – Concordou Thaissa lembrando-se da linda profissão dele.

Haveria com certeza muitas mães que levavam seus filhos ao médico com prazer em dobro. –
Pensou ela olhando o belo rosto do homem ao seu lado.

— Eu soube que terão um novo sócio em breve? – falou ele.

— É verdade! Segundo meu pai as negociações estão quase concluídas. – Completou Thaissa
que havia se esquecido daquela questão e que provavelmente seu pai falara para o pai de Humberto.
Eram muito amigos.

— E o que você pensa de tudo isso? – perguntou ele.

— Não sei Humberto. Eu espero apenas que seja bom para a Fênix. Minha única preocupação
é que esse novo membro queira revolucionar aqui, e tire a empresa do caminho que ela vem traçando
há tempos.

— É provável que isso não aconteça. Seu pai é o diretor geral e ele terá que concordar com
tudo antes de ser modificada qualquer coisa – disse ele cortês.

— Pensando por esse lado, você tem razão. Espero que dê tudo certo. – Ambos se entendiam
bem profissionalmente falando.

Logo chegaram ao restaurante e o assunto foi finalizado.

Após estarem acomodados e feitos os pedidos, Humberto voltou a falar sobre seu trabalho.

— Fui convidado a palestrar para um grupo de estudantes em duas cidades próximas. Devo
ficar o final da semana seguinte ausente e espero que sinta minha falta. – Brincou ele.

— Com certeza sentirei. – Thaissa retribuiu o sorriso dele. – Você parece mesmo gostar de sua
profissão, Humberto. Quando eu tiver um bebê, espero poder contar com você.

— Será um prazer para mim – respondeu ele prontamente. – Não fosse o bom caráter do rapaz,
Thaissa teria ficado constrangida pela besteira que falara. Um homem tolo teria interpretado aquela
frase como uma insinuação por parte dela.

— Eu soube que você tem um irmão que também é pediatra. – falou ela em seguida.

— Sim, tenho. Mas ele vive em Rio Verde, também carente de profissional da área. Acredito
que deva ficar por lá bastante tempo. Está se preparando para se casar com uma médica obstetra.

— Tudo a ver. – disse Thaissa, e ambos sorriram do comentário.

— Sim, dizem que médicos combinam mais quando o cônjuge também atua na mesma área.
Mas eu prefiro acreditar em sintonia entre as pessoas, e não apenas entre suas profissões. – Falou ele
decidido.

— Penso como você. – Thaissa concordou.

— Nos conhecemos a tanto tempo, e confesso nunca tê-la olhado como faço agora. – falou
Humberto pegando na mão dela.

— Talvez eu não chamasse muito a atenção antes. – Brincou ela.

— Acredito que não seja isso. É que às vezes nos deixamos levar pelo convívio de longos
anos, e não percebemos bem as coisas e as pessoas a nossa volta. Estranho isso né? – Ele era tão
espontâneo que às vezes ela desconfiava que ele fizesse teatro para atender melhor seus pacientes
mirins. Havia muita simplicidade e carisma nele, algo que precisava ser moldado de alguma forma, e
que não se adquiria facilmente.

— Tenho que concordar com você. Com o passar dos anos, mudamos nossos pontos de vista e
nossas diretrizes. Pode ser essa uma boa explicação.

— Provavelmente seja. Mas quero que saiba que é um prazer para mim. – Disse ele ainda
tocando na mão dela.

— Para mim também. – afirmou certa de que em seu íntimo não havia muito além de amizade
pelo rapaz, mas já era um bom começo.

Não falaram, e muito menos demonstraram grande desejo em aprofundarem o contato íntimo
entre eles. Eram adultos e se deixavam levar primeiramente pelo prazer de estarem juntos como
pessoas. Thaissa sentia-se grata pela discrição de Humberto. Não se sentia pronta. Algo a impedia
de encurtar os laços com o belo homem. Talvez fosse passageiro. Ela esperava.

— Quer ir a algum outro lugar depois daqui? – perguntou Humberto quando estavam
terminando o jantar.

— Fica ao seu critério, eu não sou médica e meu dia amanhã é livre. – Thaissa preferia que ele
decidisse devido à profissão dele, que o exigia muito.

— Estou à sua disposição. Amanhã estarei de folga. – Não havia como dizer não.

— Então vamos dançar um pouco na Santafé, que é mais no estilo Sertanejo, que eu curto muito
também.

— Como você quiser! – Concordou o rapaz. – Esperaram alguns minutos e após a conta paga,
seguiram para o setor Bueno.

A boate não estava lotada como de costume, e puderam transitar com tranquilidade. Humberto
a levou para próximo de um dos bares que havia no interior da boate e lá pediu uma bebida. Thaissa
não costumava beber mais que uma margarita, porém aceitou a mistura de álcool que lhe foi servida
por ele. Assistiriam ao show sertanejo da noite, e por algumas vezes ela sentia a mão de Humberto
contornar sua cintura quando conversavam mais próximos um do outro devido ao barulho. O toque
era suave e não a incomodava. Humberto era um homem educado e de boas maneiras, um fator
bastante positivo para ela. E que a levava a continuar insistindo em tornar aquela amizade, algo mais
promissor.
—Você costuma frequentar casas de danças?

— Não muito, Thaissa. Na verdade não sou adepto a boates. Nada contra, mas gosto do
silêncio e do descanso. Somente quando fico entediado é que procuro por lugares como esses. O que
não acontece com muita frequência. – Thaissa sorriu para ele compreensiva. Embora ela saísse
algumas vezes para a badalação, em seu íntimo também percebia que o intuito era único e exclusivo
para fugir dela mesma.

— Nas poucas vezes em que saio para festas, ou vou com algum médico que esteve ou estará
de plantão, ou com um amigo que também é mais antissocial. Veja então que sua função de me
mostrar um pouco mais no mundo será trabalhosa. Não tenho boas experiências – Thaissa observou
os olhos claros do belo homem a sua frente. Ela sentia— se segura e tranquila quando estava com
ele. Homens como aquele deveriam ser mais observados e valorizados pelas mulheres. Ela era uma
dessas.

— Estou sendo uma péssima companhia para você hoje. – falou ele fazendo-a sorrir com sua
expressão sofrida ao vê-la pensativa.

— Imagina Humberto. Você é adorável – disse ela sinceramente. – Às vezes tenho o costume
de ficar calada, mas isso nada tem a ver com você, e sim, entre minha mente e eu.

— Assim fico menos preocupado. Mas caso eu me torne um chato, por favor, me avise. – Pediu
o rapaz olhando— a nos olhos.

— Pode deixar! Eu aviso sim. – Thaissa admirou por alguns segundos o semblante iluminado
dele.

Aproveitaram as músicas que tocavam, até Humberto a envolver firmemente pela cintura e a
beijar. Ela já havia experimentado o beijo dele, mas não daquela forma. Humberto a prendeu junto ao
seu corpo e fora possível ela sentir toda sua extensão, a ponto de desejar fazer amor com ele. O que
não acontecera nas outras ocasiões em que estiveram juntos. Certamente, era a carência que sentia,
mas o fato de se sentir atraída por ele, mesmo que por instantes, trouxe esperanças de que poderiam
avançar na relação.

— Você é uma mulher linda em vários sentidos, Thaissa. Eu não gostaria de perder minha
chance com você. – Ele tocou no rosto dela carinhosamente, deixando-a constrangida.

— Você também é uma pessoa encantadora, Humberto. E me sinto feliz por tê-lo perto de mim.
– Era difícil para ela ver que era pouco merecedora daquele homem. Muitas mulheres poderiam dar
a ele muito mais do que ela tinha a oferecer, mas era sua oportunidade e faria o possível para
merecer o belo pediatra em sua vida.

— Acho que já está na hora de partirmos, o que você acha? – Perguntou ele após afagar os
cabelos dela.

— Ótima ideia! – Seguiram de mãos dadas até o carro dele. Quando ela entrou uma sensação
de paz a invadiu. Aquele era seu momento de deixar para trás tudo o que a incomodava, desde que
retornara do Rio de Janeiro e seguir adiante. A vida estava lhe dando uma ótima oportunidade.

Quando chegaram a casa dela, Humberto parou o carro e a olhou nos olhos.

— Eu adoraria levar você para minha casa hoje, mas vejo que precisa de um pouco mais de
tempo. Darei o quanto precisar. – Ela queria dizer a ele que estava pronta e que ele era o homem que
procurava. Gentil e humano, mas sabia que não era de fato a verdade e o agradeceu com um sorriso.
– Se tiver um tempinho disponível durante a semana, me liga com antecedência e combinamos de nos
encontrar antes do sábado. – Conclui ele.

— Surgindo uma oportunidade eu entrarei em contato. – Humberto voltou a beijá-la, e Thaissa


se entregou as carícias que ele fazia. Nada tinha a perder dando uma chance a ele. Beijaram-se
lentamente até que ela se afastou e saiu do carro.

Em seu quarto ela refletia sobre a relação que estava iniciando. Desde o primeiro instante em
que viu Humberto soube que se tratava de um homem raro. Ele era simpático, atencioso e em nenhum
momento se mostrou irritado, ou coisa parecida, por ela não permitir que aprofundassem a relação.
Ele a deixava tranquila e isso a agradava muito. Investiria naquela relação que tinha grandes chances
de ser longa e verdadeira. Precisava apenas avisar seu coração para acordar logo.

No domingo pela manhã, Thaissa tratou de colocar suas atividades domésticas em ordem.
Cuidou das plantas que a mãe tanto gostava. Retirou de dentro dos armários. as revistas antigas e as
jogou fora. Recolheu as fotos que tiraram durante a viagem ao carnaval e adicionou em um álbum
diverso. No final da tarde, ela foi até o shopping fazer suas compras semanais, concluindo mais um
final de semana. Quando retornou para casa, seu pai a aguardava.

— Eu não esperava encontrar com você aqui, pai. – falou ela ao vê-lo sentado na sala de estar
lendo algo.

— Resolvi ficar em casa filha, estou um pouco cansado e ansioso pela visita do novo sócio.

— Ele já marcou uma data para vir à empresa? – perguntou surpresa pela notícia tão cedo.
— No decorrer da próxima semana, segundo o representante dele. O dia certo nós não sabemos
qual será. A agenda dele está meio cheia, mas irá tirar um tempo quando for possível. – Informou o
pai dela.

— Seria tão difícil para ele agendar um horário? Começo a não gostar desse homem. – disse
ela contrariada.

— Não é isso filha, na verdade dizem que ele é uma pessoa muito ocupada, e infelizmente tem
que ser assim. Para nós que atuamos em uma única empresa é mais fácil. – Thaissa tinha que
concordar com o pai, mas ainda assim não gostou do que soubera.

— Você tem razão, às vezes ficamos sobrecarregados tendo apenas a Fênix. – Reconheceu ela
logo.

— Espero que vocês se deem bem, Thaissa. Segundo me informaram ele é um empresário
muito bem resolvido e torço para que se entendam e possam atuar juntos. – Disse-lhe o pai.

— Pai, ele irá atuar com vocês da diretoria, não comigo. – disse ela, não compreendendo a
colocação do pai.

— Um dia você me substituirá filha. E quero que adquira todo conhecimento possível para não
sofrer como eu sofri, quando começamos. Ter boa relação com toda a equipe será muito bom para
você.

— Vou colaborar com o melhor de mim, pai. Como sempre procurei fazer com todos. – disse
ela carinhosamente.

— Eu sei disso, filha. – disse ele pensativo. – Se você tiver a intenção de jantar hoje, fique à
vontade, não irei fazer a refeição com você. Farei meu lanche dos últimos meses que tem me ajudado
muito na perda de peso. – Informou André satisfeito pelos resultados que obtinha.

— Não tenho a intenção de jantar, pai. Fique à vontade – respondeu Thaissa.

— Você nem precisa deixar de se alimentar, é magra e bela, filha. Pode comer o que desejar.
— Prefiro não me arriscar muito. – respondeu ela.

— Você tem razão. – disse— lhe o pai se levantando. – Vou me retirar filha; Amanhã terei
muitas coisas para fazer no primeiro horário. – Thaissa ficou observando o pai saindo. Os últimos
anos o haviam envelhecido além do normal, e ela sabia bem os motivos.
CAPÍTULO 05

Assim que entrou na empresa, na segunda-feira, Thaissa sentiu certo pesar. Acreditava que
estava se esquecendo do infortúnio do mês de Fevereiro, mas fora engano seu. Parecia que ao ver as
pessoas que estiveram com ela no carnaval, as lembranças voltavam a sua mente. Sem contar que,
hora ou outra, um dos colegas pareciam fazer questão de relembrar alguma coisa vivida lá, para lhe
trazer a tona às lembranças.

Thaissa passara na recepção antes de ir para sua sala a fim de resolver uma questão, quando
distraída olhou para a porta e viu um belo rosto que caminhava em sua direção, causando uma
explosão de sensações. O homem se aproximou, estava muito bem vestido em sua camisa salmão e
calça fina de cor preta. O corpo atlético e bronzeado se contrastava com os olhos acinzentados. O
rosto quadrado lhe dava um ar de poder e luxúria, que chamou a atenção de Thaissa como se ela
estivesse sob o efeito de hipnose. As sobrancelhas largas muito bem cuidadas e a bela boca
entreaberta mostrando os dentes alinhados e brancos, não passariam despercebidos em lugar algum.
Quando ele ficou perto o bastante para falar com a secretária, na outra extremidade da larga mesa da
recepção, ela sentiu-se gelar.

— Bom dia! Gostaria de falar com senhor André. – Do outro lado, Thaissa parecia voltar à
realidade e ficou paralisada por alguns segundos tentando disfarçar a surpresa quando conseguiu
observar o todo, reconhecendo-o.

— Ele não se encontra no momento. – disse a secretária. Thaissa não conseguiu desviar seu
olhar enquanto ele falava com a atendente. – Marcus estava quase a sua frente, mas não demonstrara
em momento algum que se lembrava dela.

— Diga a ele que entre em contato comigo. Acabei de chegar de viagem e estarei neste
telefone, aguardando-o. – Fora o que ela conseguiu ouvir, pois sua mente estava em turbilhões. —
Ele tirou um cartão do bolso e o entregou a jovem, indo embora sem ao menos olhar na direção em
que ela estava.

— O que você achou? – perguntou a moça sorrindo quando ficaram sozinhas.

— Achou do quê? – perguntou ainda anestesiada pelo que acabara de acontecer.

— Não finja, eu percebi como você ficou encantada com aquele pedaço de mau caminho.

— Você está imaginando coisas, Estela. – falou ela que estranhara o fato da amiga não se
lembrar dele, pois o vira em alguns momentos no carnaval. Certamente a moça estava atenta às outras
maravilhas do evento.

— Se prefere assim, tudo bem, mas que você olhou para ele com aparente interesse, isso você
fez. – Thaissa deu um leve sorriso negativo à colega e retornou para sua sala. Lá, ela sentou-se para
refletir um pouco mais sobre o que acabara de acontecer. Havia ido a recepção pegar alguns
documentos e aguardava Paula retornar quando ele chegou. Belo e misterioso como se lembrava.
Jamais imaginara que veria novamente Marcus, ali, a sua frente. Pior que isso, fora o fato de ele a ter
ignorado completamente ou nem se lembrado dela por certamente ter se divertido com muitas. Quem
ele pensava que era para trata-la daquela forma? – Falou consigo irritada. E o que desejava com seu
pai?

Depois da visita mais que inesperada o dia transcorreu calmo mais a mente dela mantinha-se
agitada, agora mais do que nunca. O homem que lhe tirava o sono estava ali na sua cidade e na
empresa de seu pai. Não fosse com ela esse acontecido, Thaissa teria achado hilária a situação. Com
tantos homens que poderia rever, ela tinha que se reencontrar justamente com aquele?

Quando seu pai chegou, Thaissa foi procura-lo para buscar mais informação sobre o visitante.
Precisava saber qual era a relação dele com seu pai, e talvez com a empresa. Seria ele cliente da
Fênix, e ela não tinha conhecimento?

— Ele é nosso novo acionista, filha. – O pai lhe falou quando Thaissa lhe perguntou sobre o
desconhecido que o procurara naquela manhã.

— Você tem certeza de que estamos falando da mesma pessoa, pai? – perguntou ela,
contrariada.

— Se for o homem que esteve aqui hoje perguntando por mim quando você estava na recepção,
sim é ele. – Falou o pai começando a ficar preocupado com a reação dela. – A Estela me disse que
você estava próximo quando ele procurou por mim. – ”Não pode ser verdade.” pensou ela com
pesar. — Ele virá trabalhar conosco a partir da próxima semana. – Informou-lhe o pai.

— Isso já está decidido? – perguntou ela, tendo como resposta um movimento positivo de seu
pai. — Como fora acontecer isso?! – disse ela para si mesma num suspiro, sentia— se derrotada pela
peça que o destino lhe pregara.

— Como eu te disse filha, espero que se deem bem, ele é um homem influente e será muito
importante para o bom desempenho da empresa, que todos sejam gentis com ele. Posso contar com
você? – Perguntou sem entender o porquê de sua filha parecer tão preocupada com o novo acionista.

— Mas ele tem direitos sobre quantos por cento da empresa? – Quis saber ela.

— Ele deterá 20% da empresa. Agora ficaremos em 04 sócios. Nós com 51%, a Letícia com
14% e o Luiz Eduardo com 15%. Como é de direito, ele poderá participar ativamente da empresa e
ter seu salário. O Luiz Eduardo não participa porque prefere assim e como somos amigos e sócios
desde o início, ele deixa sobre minha responsabilidade as decisões e tudo o mais. Assim ele tem
mais tempo para suas outras atividades.

— Qual o nome dele? – quis confirmar ela, desejando que fosse outro, assim teria ainda mais
motivos para querer se manter longe do novo colega de trabalho. Sim, porque essa era sua intenção.

— Marcus. – Respondeu-lhe o pai. Nisso, ele falara a verdade. Pensou ela.

— Você o conhece? – Quis saber ela.

— Sei que ele possui negócios em Minas Gerais e alguma coisa em São Paulo e Rio de
Janeiro. É um homem bem sucedido e tivemos ótimas referências dele. Thaissa não sabia o que dizer,
a única certeza que ela tinha , era de que iria trabalhar com o homem que conhecera no Carnaval, e
pelo qual sentiu forte atração, desde então.

— Vamos nos preparar então para receber o ilustre colega de trabalho. – Finalizou ela, nada
satisfeita, mas precisava deixar o pai tranquilo.

— Sim, filha. Fique tranquila que tudo ficará bem. – Ele disse positivo. – Faremos uma
recepção a ele com uma pequena reunião de apresentação.
— Me passe o horário depois que estarei lá. – disse ela, desejando que tivesse algum
contratempo para não estar disponível.

— Será no primeiro horário, filha! Assim todos nós poderemos estar presentes. – Ele disse
sorrindo do deslize dela.

— Claro! Desculpe-me pai. – Não haveria como fugir. Thaissa teria que estar presente.

— Vou pedir alguns dados sobre a empresa, e caso ele queira saber um pouco mais, já
estaremos munidos das informações. Nos falamos depois, Thaissa. – Disse André saindo da sala
deixando-a, a sós com seus grilos. Ela olhou para a porta por alguns segundos com sua mente cheia
de questionamentos. Como seria sua convivência com Marcus? O desejo que sentira quando esteve
com ele foi tão intenso, que não conseguia se imaginar fingindo que não o conhecia, mas parecia ser
isso que ele estava fazendo pela forma como a ignorou naquele dia. Havia probabilidade também de
ele não tê-la visto, mas essa suposição não a convencia. Em um pequeno momento, ela teve a
impressão de que ele a olhara, reconhecendo-a. Ela não entendia o porquê de ele fazer tal tolice.

Thaissa já estava curada daquele desejo imenso que sentiu por ele. Estava claro para ambos
que aquela paixão de carnaval não renderia muitos Fevereiros. Mas algo dentro dela a deixava mal
com o que acontecera. Não precisava ser daquela forma. Poderiam se cumprimentar normalmente
como adultos. Nada os impedia de fazer isso. Thaissa suspirou contrariada pela insistência de sua
mente em lembra-la do homem com tanta frequência. Pelo visto, ainda martelaria muito aquela
situação até conseguir colocar um ponto final nela.

Thaissa organizou uns poucos documentos que poderiam precisar, e enviou-os ao e-mail da
secretária para que ela imprimisse junto aos demais que iria levar para o novo sócio.

— Olá Thaissa! Você já preparou o discurso para o novo acionista? – A mulher era a simpatia
em pessoa. Ela ficou curiosa pela felicidade estampada no rosto da outra. Letícia teria se informado
sobre Marcus e gostou do que vira? – Questionou-se irritada.

— Não acredito que seja necessário Letícia. – Ela preferia não falar com a mulher, mas
parecia que o desejo não era mútuo entre elas, e por vezes era forçada a suportar as falsidades e
máscaras da outra para tentar uma boa convivência com ela dentro da empresa.

— Como assim não precisa? Ele é um homem que merece ter toda atenção possível. – Não
seria preciso nenhuma palavra a mais, para ela ter certeza de que Letícia já conhecia o novo sócio e
certamente parte do seu patrimônio em outras capitais. – Quando você o conhecer me dará razão. –
Terminou a mulher maliciosa.
— Não acredito que é tudo isso que você fala. Será somente mais um colega. – Disse ela com
aparente descaso ao entusiasmo de Letícia.

— Quando o vir você verá. – Thaissa desejava que a mulher saísse o mais rápido possível de
sua vista, com isso preferiu não prolongar a conversa. Percebendo sua intenção, Letícia iniciou a
saída.

— Amanhã você me diz o que achou dele. Eu não tenho o que dizer, eu sei apenas que ficarei o
mais próxima possível. – Por que, Deus, aquela mulher escolhera justamente ela para expor seus
anseios e planos financeiros? — perguntava-se quando a outra saiu.

Algo dentro dela se revirou quando teve certeza de que a colega iria grudar no novo sócio. O
que não seria da conta dela, claro! A única coisa que de fato Thaissa desejava era distância de
Letícia e agora de Marcus também. Esperaria as apresentações e nunca mais o veria como o homem
que a seduziu profundamente em uma noite de cores, magias e fantasias.
CAPÍTULO 06

No dia seguinte, todos se reuniram para fazerem as apresentações ao novo membro da empresa.
Thaissa sentou-se bem afastada do local onde estava Marcus, não tinha nada a comemorar com ele.
Por várias vezes, ela o observava disfarçadamente desde que entrara e seus olhos se encontraram por
alguns segundos. Quando sentou-se, ainda não acreditava que o destino podia pregar-lhe uma peça
daquelas. Ela não conseguia absorver tudo, principalmente por ele agir como se não a conhecesse, e
isso a estava deixando sem chão.

Durante a reunião foi apresentado cada um dos presentes mencionando suas funções e nomes.
Letícia foi a mais gentil de todos, tratando o novo colega com muita informalidade.

— Muito prazer! Sou Letícia Pimenta. – falou ela focando o sobrenome a fim de coloca-lo com
duplo sentido.

— Igualmente Letícia. Como deve saber, sou Marcus. – disse ele sorrindo para a mulher.

Quando chegou a vez de Thaissa, ela não esboçou qualquer alegria em ser apresentada a ele.
Não tanto quanto a outra. Seria educada como era de costume seu, nada a mais.

— Essa é Thaissa Guerra, minha filha, que é responsável pelo setor de compras e auxilia em
outras áreas também. – disse André. Ela o cumprimentou com um polido sorriso, pois já sabia que
ele a trataria como a uma estranha, então faria o mesmo. – Marcus a cumprimentou da mesma forma.
Ambos se olharam rapidamente e voltaram suas atenções para as próximas apresentações que
seguiram. Thaissa viu um brilho nos olhos dele quando se olharam, mas preferiu não criar ilusões.

No final do evento, todos antes de saírem da sala passavam pelo novo membro dando-lhe as
boas-vindas. Sem ter alternativas, Thaissa fez o mesmo.

— Seja bem-vindo. Espero que possa concretizar suas expectativas com relação à empresa.

— Obrigado, eu espero o mesmo. – Quando as mãos se tocaram Thaissa sentiu um leve calor
tomar seu o corpo. Assim que os olhos se encontraram, a mesma expressão do dia anterior
permanecia. Ele pretendia fingir que ela nunca existiu, faria o mesmo com ele. Concluiu ela,
afastando-se. Fora para sua sala onde se atirou no trabalho para tentar esquecer o que parecia não ser
possível.

Thaissa estava lendo alguns documentos quando Letícia entrou, para completo desgosto dela.
— André não está aqui? – perguntou a mulher aparentemente irritada com alguma coisa.

— Não, ele precisou se ausentar – respondeu Thaissa seca.

— O que você tem contra mim, Thaissa? Você não faz questão alguma de me tratar bem.

— Não sei do que você está falando. – disse ela sem desviar sua atenção do documento.

— Sabe sim. Trata-me assim porque eu tive um casinho com seu pai. – Havia tempos que
Thaissa estava se segurando, mas a outra parecia disposta a mexer em suas feridas, sempre que se
encontravam.

— Um casinho. – Disse Thaissa incrédula. – Você destruiu minha família. Deve se lembrar de
que causou a separação de meus pais e, graças a isso, minha mãe que sempre foi doente ficou ainda
pior e acabou falecendo. – Desabafou com aspereza na voz, embora o tom continuasse calmo.

— Espera aí, mocinha! Não venha me culpar pela morte de sua mãe. Ela já estava doente e
seria questão de tempo para que partisse. Fiquei com seu pai, sim, mas embora estivessem casados,
eles já não tinham qualquer relação. – Defendeu-se a mulher colocando sua mão no quadril magro.

— Ela realmente era doente, porém quando meu pai se encantou pelos seus atributos e quis se
separar dela, a doença a dominou, levando-a mais rapidamente a morte. Meu pai não teria pedido a
separação, caso não fosse forçado a isso. Ele sempre respeitou minha mãe, mas fora um tolo e fraco.

— Nisso você tem razão, querida. – Thaissa sentiu seu sangue ferver ao ouvi a mulher desfazer
de seu pai. Mas eu não o forcei a se separar. Eu não queria aquela situação por longo tempo, fazendo
mal a todos.

— Você quer me convencer que o pediu para se separar com o único objetivo de facilitar a
vida de todos? É isso? Não posso acreditar em tanta bondade vinda de você. – Thaissa não
conseguia fingir como a outra mulher. Não aceitaria aquela desculpa sem fundamentos, nunca.

— Quando Letícia ia questionar, olhou para a janela e calou-se. Thaissa olhou na direção que
ela olhava, e concluiu que seu dia seria ainda mais difícil do que imaginara.

— Algum problema, senhoritas? – perguntou Marcus entrando porta adentro, depois de passar
pela janela de vidro no corredor.

— Nenhum! Estávamos conversando. – disse Letícia sorridente. – Aqui sempre conversamos


muito. É necessário. – concluiu a outra.

— Com certeza é muito útil uma boa comunicação dentro da empresa. Fico feliz por saber
disso. – Falou ele olhando de uma a outra. – Falei com seu pai agora a pouco e ele me disse que
poderia me dar um suporte. – Thaissa o olhou calada, apenas observando o intruso.

— Se precisar também posso ajuda-lo. – Ofereceu Letícia educada. Era bem ao estilo dela
estar sempre à disposição de homens, em especial daqueles bem sucedidos. – Lembrou calada.

— Obrigado, procurarei caso precise. – Agradeceu ele olhando novamente para Thaissa. —
Poderíamos nos falar em minha sala? – Perguntou Marcus.

— Claro! Dê-me um minuto. – Falou Thaissa começando a ajeitar os papéis sobre sua mesa.
Assim que ele se retirou, Letícia deu um leve sorriso e saiu também. — Quando ela chegou à sala do
novo sócio, a porta encontrava-se aberta.

— Precisa de ajuda? – perguntou assim que entrou e se aproximou da mesa.

— Eu gostaria que você me sanasse algumas dúvidas. Sente-se, por favor. – Recomendou,
indicando a cadeira.

— Talvez meu pai possa ser mais útil. – Informou ela sentando-se

— Eu sei disso, mas prefiro falar com você, e ele a indicou também – O tom de voz dele
desagradou-a.

— O que precisa? – perguntou seca. As perguntas partiram desde o desenvolvimento do


departamento dela até a participação da empresa no mercado. Thaissa tinha a impressão que ele
estava informado sobre tudo o que lhe perguntara, mas por alguma razão quis ouvir sua versão.

— O que há entre vocês duas? – perguntou Marcus sem qualquer constrangimento, após
fazerem uma pausa.

— Desculpe-me, mas não compreendo o porquê da sua pergunta. – falou desentendida.

— Quando cheguei a sua sala pude perceber que iriam se atracar, caso eu não aparecesse.

— São questões particulares, por favor, não me entenda mal, mas não lhe diz desrespeito. –
Thaissa fora direta com ele. Não tinha intimidade suficiente para tratarem sobre tal assunto, mesmo
estando acontecendo dentro da empresa, que em parte, era dele.

— Peço que me desculpe à intromissão, acreditei ser alguma coisa relacionada com a empresa
e não gosto de mal entendidos no ambiente de trabalho. – Ele também fora firme em suas palavras.

— Não precisa se desculpar. Posso adiantar que em nada esse fato prejudicará a Fênix. Você
tem mais alguma dúvida? – quis saber ela ansiosa por sair dali o mais rápido possível.

— Não há mais nada por hoje, obrigado. – Quando ela se aproximava da porta ele a chamou.

— Thaissa! Você parecia mais amistosa quando nos conhecemos. – Ela virou-se calmamente.

— Lembrou dos velhos encontros? – questionou seca.

— É claro que sim, desde a primeira vez que te vi na recepção, mas como fora algo tão
passageiro, eu pensei que não valeria a pena comentar.

— Claro. Você fez muito bem. – Ela o olhou por alguns instantes. – Se me der licença, preciso
organizar algumas coisas. Ela saiu pisando duro da sala do demônio que a perturbava havia mais de
um mês.

De volta a seu refúgio, Thaissa relembrou o comentário dele, de fato fora algo muito
superficial, e não havia o porquê discutirem por algumas horas passadas juntos. Mas não precisavam
se portar como estranhos, mesmo se quisessem, não seria possível. Ela trataria de se lembrar das
palavras dele e não criar ilusões. Afinal, Marcus deixara claro sua falta de interesse em continuar de
onde pararam, e ela não tinha qualquer intenção de se iludir sozinha.

Quando seu pai retornou à tarde, percebeu que havia acontecido algo.

— Algum problema, filha?

— Não pai. Está tudo bem. – Letícia esteve aqui procurando por você. – Ela se entregara, em
parte.

— Letícia, só podia ser. – Comentou ele. Na verdade não fora, a mulher, o maior dos
problemas de Thaissa naquele dia.

— Pai, eu prefiro não falar sobre ela, tudo bem? — Thaissa não queria deixa-lo preocupado
pela questão errada.

— Se prefere assim, não vou incomodá-la. – Ele sabia o quanto o assunto ainda a machucava.

— Eu posso ir para casa um pouco mais cedo? – perguntou ela.

— Claro, minha filha! Poderia ter ido antes.

— Obrigada. – Agradeceu ela. Mesmo ciente que poderia ter saído quando desejasse Thaissa
não gostava de dar a impressão de que era privilegiada, nunca se permitiu tal rótulo.
— Só não se esqueça de que amanhã teremos outra reunião. Após se despedirem, Thaissa foi
para o estacionamento pelas escadas, não queria se encontrar com muitas pessoas.

Quando chegou em casa, após fazer um rápido lanche, tomou um banho e foi para seu quarto em
busca de algo que ocupasse sua mente. Pegou um álbum de família e olhava-o saudosa de sua amiga e
confidente mãe.

— Ela se fora tão cedo. – Falou baixinho acariciando a foto. – Queria que estivesse aqui nesse
momento. – Sinto a falta de uma amiga para expor meus medos e frustrações. Sinto a falta de você.
— Disse ela acariciando o rosto angelical da mão sob a moldura de vidro. – Não fora fácil para
Thaissa aprender a viver sem sua companheira de sempre. Desde que a mãe partira, ela se fechara;
não costumava conversar com amigas e por isso acumulou muitas coisas dentro de si, e agora ela
sentia— se necessitada de colocar para fora um pouco daquele peso. Partilhar um problema poderia
não resolvê-lo, mas ela sabia que o aliviava um pouco. Isso era mais um fator que lhe trazia a mente
com frequência, a saudade de sua mãe. Eram muito confidentes uma com a outra. – As fotos
passavam assim como as lembranças, e logo Thaissa adormeceu ao lado das imagens.

Naquela noite, não houve sonhos ou qualquer outra coisa que lhe roubasse o descanso e ela
pôde repousar tranquilamente.

Na manhã seguinte, Thaissa chegou à empresa um pouco menos carregada e após tomar seu
café com a copeira, subiu e iniciou seu dia de trabalho. Quando começou a se organizar, uma das
secretárias a informou que Marcus a procurara solicitando ajuda. Contrariada, ela foi até ele saber o
que o arrogante desejava dessa vez.

— Bom dia, soube que precisa falar comigo. – disse ela entrando na sala de Marcus.

— Eu imaginava que você sendo a filha de um dos sócios estaria na empresa mais cedo. – Ele
reclamou irritando-a.

— A verdade é que tenho outra vida além do trabalho e costumo dedicar o tempo certo a cada
coisa, mas se o decepcionei, sinto muito. – falou educadamente.

— Não sei se esta informada, mas serei o diretor financeiro e, até que me adapte, precisarei de
sua ajuda. – Era óbvio que ela sabia disso. Pensou erguendo a sobrancelha bem feita.

— Dentro do possível, e do horário, poderá sempre contar comigo. –Respondeu ela. – Precisa
começar por onde? – Não estava com paciência para o novo e chato colega, mas faria o possível.

— Esses balancetes de serviços contratados para a divulgação dos nossos clientes, não estou
compreendendo.

— Com relação a eles, acredito que a Letícia possa lhe orientar melhor. – Embora conhecesse
do assunto, não cabia a ela dar explicações. A outra mulher certamente as daria com mais riqueza de
detalhes.

— Fui informado que você conhece quase todas as funções por aqui, ou entendi errado? – Ele a
olhou sério olhos nos olhos, como parecia gostar de fazer com ela e Thaissa não se deixou intimidar
pelo cinza deles.

— Com relação ao departamento de imagem e divulgação não tenho muito a passar, como lhe
disse, será Letícia a pessoa que deve procurar. – Ainda se olhavam fixamente.

— Tudo bem, falarei com ela. Por enquanto é isso, obrigado. – Marcus baixou a cabeça
olhando nos relatórios ignorando-a.

— Disponha. – Thaissa saiu da sala desejando nunca ter conhecido aquele prepotente.
Contrariada, ela seguiu para a recepção onde buscaria alguma coisa que ela já não lembrava qual
seria.

— Thaissa você está bem? — perguntou a secretária preocupada, quando ela passava.

— Estou sim Paula. Por quê? – perguntou curiosa pela pergunta da jovem. Estaria deixando
suas emoções tão a flor da pele que a colega percebia seu mal-estar?

— Nada! Você chegou sorrindo hoje, e agora está com essa cara de poucos amigos.

— Me desculpe se pareço chata, mas não comecei bem meu dia. – Desculpou-se olhando para
os documentos em sua mão e por sorte lembrou-se do que precisava dentro da pasta.

— Sabendo disso, não incomodarei você. – Thaissa sorriu agradecida. Se todos fossem
discretos como a jovem, muitos momentos constrangedores seriam evitados. Pensou ela quando se
despediu.

Em sua sala Thaissa se perguntava aonde fora parar aquele homem aparentemente agradável
que conhecera no carnaval. Marcus era rancoroso e parecia nunca estar disposto a conversar
formalmente e ser mais legal. Não tinham nada em comum, a não serem as poucas lembranças de
alguns momentos do evento no Rio. Fora isso, eles eram muito diferentes.

Marcus olhava fixo na porta após Thaissa ter saído. Estaria ele enganado com relação a ela?
Teria feito a escolha correta ao tê-la deixado sozinha, após perceber que ela lhe entregaria o corpo a
qualquer momento como muitas garotas estavam dispostas a fazer nos bailes de carnaval? Ela seria
só mais uma ou fora enganado por sua intuição? Ele desejava saber.

Conforme fosse sua conclusão, permaneceria certo com suas escolhas ou teria que reconhecer
sua falha e amargar o engano por abrir mão daquele que poderia ser um momento inesquecível para
ambos.
CAPÍTULO 07

Thaissa esteve fora da empresa quase todo o dia e ficara feliz quando fora informada que
precisaria fazer uma visita a um cliente.

Após sua ausência, ela precisou organizar-se e solicitar a compra de alguns materiais que
necessitariam para a montagem do cenário, não estaria na reunião daquele dia e agradecia por isso.
Quando retornou, ela organizou suas coisas rapidamente e foi embora. O dia movimentado que tivera
a impediu de se lembrar do novo acionista, e apenas o fez quando estava indo para a cama. Não era
intenção sua se deixar levar por pensamentos calorosos com Marcus, mas por vezes relembrava a
contra gosto dos beijos dele e o toque firme na cintura dela. Seu corpo pareceu estar em chamas onde
ele tocara. Chateada pela insistência de sua mente em perturba-la, buscou um livro de autoajuda para
ler e desviar sua atenção, até que o cansaço a dominou.

A manhã seguinte não começara bem. Thaissa acordou atrasada devido ao sono que perdera
antes de conseguir dormir. Arrumou-se em tempo recorde e foi para o trabalho. Quando chegou,
havia documentos sobre sua mesa. Alguém esteve ali e ela desejava não ter sido quem imaginava.
Após se instalar, ela foi analisa-los a fim de saber do que se tratavam, quando Marcus entrou.

— É costume seu chegar atrasada na empresa? – Perguntou ele, acariciando a bela caneta que
tinha nas mãos.

— Por que diz isso? – perguntou ela friamente.


— Ontem e hoje chegou fora do horário, vou começar a acreditar que é costume seu. – disse
ele com sorriso sarcástico, deixando-a visivelmente irritada.

— Me desculpe a sinceridade, mas você não me conhece e nem sabe sobre minha vida nessa
empresa. Está aqui a pouco tempo e não tem o direito de fazer previsões baseadas em uma coisa ou
outra. Eu me dedico ao máximo, e se chego um dia ou outro, alguns minutos atrasada, isso não quer
dizer que faço com frequência, aliás, se acontece é porque tive motivos, mas isso não lhe diz
respeito.

— Acho que há alguma coisa errada por aqui. – comentou ele sem dar muita atenção ao que
Thaissa falara.

— Talvez haja sim. – Ela o olhou fixamente como se lhe dissesse que o erro ali era ele.

— Preciso resolver algumas coisas. Até mais. – Ele saiu deixando— a furiosa pela insistência
em chateá-la. O que aquele homem queria. Fazer da vida dela ali um inferno! Não bastava Letícia,
que nos últimos meses a incomodava com frequência. Agora teria dois grandes motivos para não
desejar ir a empresa por algumas vezes. O pior era que estava começando a acreditar que a intenção
daquele homem era mesmo irritá-la, ela só não sabia as razões que o levava àquela infantilidade
toda. Ela sim tinha motivos para ignorar e até desprezá-lo, mas não fazia isso porque aquele não era
um ambiente para disputas e joguetes. Mas poderia mudar de ideia caso ele insistisse em incomodá-
la sem necessidade. Com frequência Thaissa chegava mais cedo de seu horário de almoço por fazê-
lo por ali mesmo, às vezes. Isso o nobre colega ainda não sabia. Espirando lentamente, ela encheu
seu pulmão de ar e voltou ao que fazia antes de Marcus procura-la.

Quando Thaissa saiu para o almoço desviou-se da sala de Marcus, se avistasse aquele homem
antes da refeição poderia ter uma má congestão. Antes de tê-lo sob o mesmo teto, julgara-se
apaixonada por ele, agora começava a ter outros sentimentos, e não eram nada bons.

Após o almoço feito em casa, Thaissa tomou um banho frio e se preparou para retornar.

Na empresa, ela soube pela secretária que Marcus havia se ausentado devido a um problema
em outra de suas empresas, e só retornaria no dia seguinte. Aliviada, foi cuidar de suas obrigações.
O dia seria tranquilo e sem a presença do homem que estava tomando muito de seu tempo, tanto
profissional, quanto o psicológico.

A bem aproveitada tarde de trabalho passara rapidamente, e logo chegou o final do expediente.
Thaissa saia tranquilamente de sua sala quando a secretária a chamou.
— Marcus me passou esses relatórios e pediu que você os lesse hoje para discutirem amanhã.

— Do que se trata? – perguntou curiosa.

— É o contrato que estamos tentando fechar com aquela nova companhia de produtos de beleza
que está trazendo uma unidade aqui para Goiás.

— Mas quem deveria ler esses documentos era meu pai e os outros acionistas, não eu. –
Thaissa percebeu que a moça ficara constrangida. – Todo bem, Paula, verei a papelada e obrigada.

— Disponha. Bom descanso! – falou a moça educada.

— Obrigada! Para você também. – Thaissa guardou os papéis na bolsa e foi para o
estacionamento. Parecia que Marcus não dera muita atenção a ela quando lhe disse que procurava
não misturar as coisas deixando cada tarefa ao seu tempo e lugar. Ele lhe enviara um contrato ainda
a discutir para analisar. O que ela sabia não haver necessidade alguma de fazer. No entanto, faria
para assim tentar amenizar o clima desgastante que estava surgindo entre eles.

Em casa, após tomar um banho e comer alguma coisa leve Ela foi verificar os documentos. Não
havia muito a discutir sobre o contrato. A empresa expunha suas cláusulas e cabia a Fênix aceitar ou
não. Era claro que aceitariam aquela nova parceira, então por que Marcus lhe pedira que lesse para
depois discutirem? Isso era função dele e dos outros acionistas.

Após findar a conferência, Thaissa foi descansar. Precisaria estar pontualmente no trabalha na
manhã seguinte, ou começaria mal mais uma vez. .

No dia seguinte para sua surpresa, Marcus ainda não havia chegado quando ela subiu, dando
lhe mais tempo de se preparar para o encontro. Alguns minutos depois, ele apareceu carrancudo.

— Me desculpe o atraso. – Falou sem demonstrar qualquer sinal de humildade. — Estou tendo
alguns problemas com outra empresa. – Thaissa não disse nada. Não o daria o gostinho de ouvir
alguma coisa que expressasse sua compreensão.

— Você leu o contrato? – Perguntou ele, após aguardar o comentário que não veio.

— Sim, li. E acredito que você deveria ter pedido a análise de meu pai ou dos outros
acionistas, embora não tenha visto nada muito diferente do que vejo nos contratos que costumamos
fazer.

— Eu quis a sua opinião também, não se julga capacitada para tanto? – Ele sabia mesmo
incomodá-la. Às vezes mais que Letícia a qual Thaissa já sabia que jogava sujo sempre. Já o novo
colega, ela ainda não o conhecia tão bem.

— Não tem nada a ver com capacitação, e sim, com hierarquia – respondeu ela a altura.

— Claro! Mas quem irá representar seu pai em caso de necessidade? – “Esperto da parte dele
usar esse argumento.” Pensou ela.

— Deixamos isso para quando acontecer. – Thaissa pegou os papéis que havia deixado na
mesa quando chegou. – No meu ponto de vista, está tudo em conformidade. As solicitações da
empresa para protege-la são aceitáveis e podemos adicioná-las ao contrato sem que isso nos
prejudique em algum momento.

— Certo! Passarei aos demais sócios com a minha assinatura e conformidade.

—Você leu as informações? – Perguntou ela com dúvidas sobre o conhecimento dele do que
estava escrito

— Não tive tempo, por isso pedi que o fizesse. – Thaissa o olhou rapidamente disfarçando sua
ira.

— Mas não deveria ser você a ler o contrato que te passaram? – Insistiu ela.

— Não exatamente. – disse ele tranquilo. — Deveria me agradecer por deixar essa
responsabilidade em suas mãos ao invés de ficar me questionando. Deve considerar— se
privilegiada, e não o contrário. – Exclamou ele com serenidade na voz.

— Não seria para que a responsabilidade ficasse sobre mim? – perguntou ela, compreendendo
a seu modo o que se passava.

— Você tem medo de responsabilidades, Thaissa? – O intolerável e belo homem parecia


brincar com ela.

— Não tem nada a ver com ter medo ou não, você negociou com este cliente, então cabe a você
dar o veredito final, e deixou isso para mim. – Ela percebia o semblante sarcástico dele, mas não
conseguia se controlar e disfarçar sua irritação.

— Se não se julgar pronta para decidir algumas coisas pela empresa, é só me informar que
passarei para outra pessoa mais capacitada. – Thaissa apertou a caneta que tinha na mão buscando
apoio para acalmar-se.

— Se eu não fosse competente, não estaria aqui. Eu mesma não me permitiria ocupar um cargo
nessa empresa.
— Sendo filha de um dos maiores sócios, você pode se dar a esse luxo, mesmo não estando
preparada. – Atacou ele.

— Pelo que vejo você não buscou qualquer informação sobre a profissional que sou. Então não
o culpo pelo que falou – respondeu fingindo calma, embora seu desejo fosse socar aquele rosto lindo
e sarcástico.

— Não seria você o tipo de funcionária protegida que costuma sair e ficar até altas horas nas
festas em boates, e chega no dia seguinte atrasada e desinteressada, fugindo das responsabilidades
que lhes foram dadas? – Era inacreditável para Thaissa ver um completo estranho rotulando-a
daquela forma.

— Eu estou começando a acreditar que você tem algum problema. Não é possível que um
homem considerado empresário de sucesso como dizem que você é, fique perdendo seu tempo com
picuinhas e tolices sem fundamentos, tipo, atraso de dez minutos se retorno do almoço com
frequência em tempo maior que isso. Ou ainda questionar o profissionalismo de alguém. Se você é o
que dizem ser, deveria reconhecer a quilômetros um bom profissional e não ficaria me julgando como
o faz. – Thaissa espirou tranquilamente enquanto o via parado a sua frente. — Sinto muito, mas tenho
que dizer que estou decepcionada com meu novo colega de trabalho. – Suas palavras pareceram
atingir em cheio o orgulho dele.

— Saiba você que não costumo perder meu tempo com o que disse. Se lhe trato da maneira que
fala é porque sendo você quem é, deveria dar melhor exemplo por aqui. – Thaissa olhou para ele
derrotada. Não fazia sentido ficar discutindo com aquele cabeça dura.

— Tenho mais o que fazer a ouvir bobagens de uma pessoa que não sabe nada sobre mim e
acha que pode deduzir alguma coisa. – disse ela desejando que ele saísse.

— Foi essa a impressão que tive, e se penso assim, foi você quem colaborou para isso. – disse
Marcus sem mover um centímetro que fosse indicando que iria embora.

— As poucas horas que estivemos perto um do outro, não mostraram nada sobre mim a você.
Eu por exemplo, não sei nada a seu respeito, o que me faz concluir que não tenho o menor direito que
seja de rotulá-lo disso ou daquilo – respondeu ela, lembrando-se do período em que estiveram
juntos.

— O que você queria que eu pensasse sobre uma mulher que oferece seu corpo a um estranho,
apenas para ter o que falar as amigas quando retornasse para casa? – Thaissa observou incrédula.
— Você se acha todo cheio de razão apenas porque acredita que eu faria comentários sobre
minha vida particular por aí? – Você é louco, só pode ser isso. – Falou ela derrotada. Não havia
sentido continuar com aquela conversa.

— Foi isso também o que pensou quando se jogou em meus braços? – Ele tinha no rosto um
sorriso maléfico que a feriu intimamente.

— E o que o fez recuar e não aproveitar a ocasião para aumentar sua lista de mulheres que
levou para a cama no carnaval? — Pelo que percebi você frequenta desfiles a tempos, e deve ter tido
muitas historinhas para contar. Ficou com medo de que eu fosse diferente das demais e você ficasse
de quatro pela badaladora aqui, Foi isso? – disse ela apontando para si mesma.

— Não corro esse perigo, Thaissa. – Ele começava a ficar irritado.

— Se esta tão seguro disso vê se para de me incomodar, como se precisasse disso para viver,
Aliás, todos nós corremos riscos, Marcus. Ninguém é absoluto nessa vida.

— Eu sei disso, mas não costumo me apegar a mulheres aparentemente fáceis.

— Sorte a sua, ou talvez seja um azar também. Não é o lugar que faz as pessoas, mas o
contrário. E você está conseguindo fazer dessa empresa um local bastante desagradável para mim. –
desabafou ela, sem desviar seus olhos dos dele.

— Você parece uma adolescente falando assim. – Ele estava fixo nela como se a qualquer
momento fosse pegá-la pelo pulso e sacudi-la.

— Já, você, parece um carrasco. – Thaissa pegou alguns papéis e desviou sua atenção para
eles.

— Trato a cada um como merece. – Ela levantou seu rosto olhando-o nos olhos em desafio.

— Então precisarei rever minha forma de tratar o senhor. Acredito que mereça muito pouco da
minha atenção. – Ela sorriu zombeteira e viu quando ele fechou o punho.

— Então faremos o contrato. – falou ele observando-a. — Até mais tarde! – Thaissa nada
disse, deixando- o partir sem uma resposta que fosse.

Quando Marcus saiu, ela pôde se deixar cair na cadeira como desejava minutos atrás. Que
homem preconceituoso era aquele?! — Constatou ela. Parecia estranho que uma pessoa na idade
dele, Resolvido na vida e bem informado tivesse aqueles pensamentos tão primitivos sobre mulheres
que gostavam de se divertir. Ele nem parecia fazer parte do século XXI. – Pensou ela ainda perplexa
pelo que ouvira. O fato de Thaissa ter sido mais atirada com ele que com qualquer outro homem, não
denunciava seu caráter. Agora estava sendo rotulada de mulher festeira e fácil. Não sabia ele que ela
jamais se permitira tamanha luxúria, e que fora ele o primeiro a despertar essa reação nela.
Escolhera mal o homem que acreditou que valesse a pena ter boas recordações para levar em sua
bagagem. Como disse ele há pouco. Mas ela não se permitiria ser desvalorizada por aquele homem.
Isso não!

Não tivesse Marcus suas opiniões já formadas, poderia acreditar que Thaissa ficara incrédula
com suas palavras. Ela estaria fingindo, se fosse isso, representara muito bem. Mas o que ela
esperava ouvir! Não foi ele quem se ofereceu prontamente naquela noite. É certo que houve um
clima bom entre eles, por esse motivo fizera tanta questão de estar no baile com ela. Mas quando
Thaissa se mostrou mais ousada, arrependera— se por pensar que ela era diferente de todas que o
assediavam por onde passava. Em especial, nas casas noturnas. Não era um homem preconceituoso
como ela falara. Na verdade, Marcus queria apenas evitar problemas. Isso não tinha nada a ver com
mente fechada ou coisa parecida, e sim zelo próprio.

Aquele dia parecia não ter fim para Thaissa, começara mal e tudo lhe indicava que terminaria
assim também, devido aos tantos problemas que surgira com alguns materiais que pedira no
almoxarifado e que foram entregues faltando peças ou diferente do que pedira. Quando o expediente
terminava estava exausta. Organizou suas coisas dentro da pasta e saiu rapidamente para não ter que
cruzar com certo alguém. Sua intenção era vê-lo o menos possível, ou nunca mais. Ela já tinha
problemas o suficiente em sua vida para aceitar mais um. Seu emocional estava sendo restruturado
aos poucos, havia dois anos e não precisava de um homem pré-histórico para dificultar ainda mais o
processo.

Em casa, menos nervosa, Thaissa organizou sua escrivaninha e foi assistir a um documentário
sobre a vida selvagem. Adorava passar seu tempo livre conhecendo sobre os bichos. Em um
determinado momento do vídeo ela sem lembrou de Marcus e Letícia, chegando à conclusão que
provavelmente seria muito melhor conviver com os chamados animais irracionais ao homem. Eles
matavam apenas pela sobrevivência e não vivia de espertezas, mau caráter e pré-conceitos
descabidos. Por mais que ela tentasse não conseguia compreender a atitude de Marcus. Sua razão não
aceitava tal confirmação, que ele era um homem das cavernas que aprendera a negociar, mas
mantinha a mesma mente pré-histórica, com relação ao sexo feminino. Tudo bem que ele
permanecesse com suas crenças de que o carnaval não era um lugar ideal para encontrar a mãe dos
seus filhos. Cada um que pensasse da forma que desejasse, mas ela também não estava lá em busca
do pai dos seus. Podiam ter curtido o evento e ponto, nada mais. Agora ele vinha lhe dizer que ela
era muito moderna para seus padrões. Manter-se-ia longe dele, essa seria sua filosofia a partir de
agora.
CAPÍTULO 08

Nos dias seguintes, Thaissa evitou chegar à empresa no horário de costume, embora não lhe
agradasse estar em sua sala somente 15 minutos após sua chegada. Esse tempo lhe dava a
oportunidade de entrar sempre depois de Marcus, e assim, não cruzar com ele nos corredores ou no
elevador. Ela tinha certeza de que ele a observava nesse período e não se importava se o fizesse,
desde que se mantivesse longe dela. Homens preconceituosos e grosseiros serviam apenas para sugar
as energias das pessoas a sua volta. Procuraria se ocupar com suas obrigações e assim pretendia
continuar. Com isso ela demorava um pouco mais no café para não vê-lo.

Thaissa aguardava o pai na sala dele distraída quando seu outro grande problema entrou.
Parecia que a mulher sempre estava rastreando- a. Seria o perfume, Thaissa iria trocá-lo assim que
se acostumasse com outro.

— Esperando o papai? – perguntou Letícia adocicada.

— Sim, e você, o que está esperando? O cheque do final do mês pelos serviços extras
prestados? – Há tempos Thaissa não se deixava diminuir pela mulher, porém aquele bate-rebate a
estava consumindo.

— Suas piadas estão ficando cada vez mais tolas, Thaissa. Precisa muda-las, querida. – disse a
mulher passando as mãos sobre a saia de linho que usava.

— Mas se nem você tem mudado suas estratégias de ataque, o que te dá o direito de criticar as
minhas? – Thaissa sentia que estava descontando toda sua ira na mulher. Mesmo sabendo ser errado,
sentia-se realizada.

— Não sei do que está falando, querida. Primeiro que não preciso criar planos, sou perfeita no
que faço. Segundo, você deveria aprender um pouco comigo. Já está ficando madurinha e continua na
mesma. Isso é muito mau para uma mulher que já entrou na casa dos 30 anos.
— Não se preocupe Letícia. Não estou com pressa. – Thaissa tentou amenizar um pouco suas
palavras.

— Deveria. Daqui a pouco começa a cair tudo e chega a um ponto que nem a cirurgia resolve.
– Disse a mulher olhando para suas unhas muito bem cuidadas. Pintadas em um vermelho-sangue.

— No meu caso, que ainda não fiz nenhuma plástica, talvez seja mais eficaz quando optar por
uma, já no seu, que é toda montada, acho que se encaixa bem no que acabou de falar.

— Já sei qual seu problema, Thaissa. Você tem inveja de mim? – quando a mulher terminou de
falar, Thaissa ergue-se do assento.

— Eu não costumo nutrir esse sentimento em minha vida, principalmente se tratando de uma
mulher vazia como você que adora me perturbar, a todo o momento. Se tiver alguém aqui invejoso,
essa pessoa não sou eu. – O sorriso da outra ecoou na sala no momento em que André entrou.

— Está acontecendo algum problema aqui? – perguntou ele sério, olhando de uma a outra.

— Sua filha não recebeu a devida educação, André? – falou Letícia fingindo estar sendo
atacada. – Deveria ter dado algumas palmadas no traseiro dela enquanto era criança.

— Se bem a conheço, certamente recebeu menos ainda – respondeu André, olhando dela para
Thaissa. – Até quando ficarão com esses conflitos aqui na empresa? Já pedi diversas vezes que
parem com esses atritos que causam mal- estar no local de trabalho. Ficam semanas sem se atracarem
e, quando menos espero, voltam a agir como duas crianças. – Ele estava visivelmente contrariado.

— Pai eu disse que não tenho a intenção de continuar com essa rixa infantil, mas ela faz
questão de me irritar. Em todo lugar onde estou ela surgi me perturbando, não sou de ferro.

— Não há razões para essa guerra durar tanto tempo. Já passou! Sigam suas vidas e me deixe
seguir com a minha, em paz. – falou ele, sentando-se. – Se não tiver nada a falar comigo, Letícia,
poderia sair, por favor! – Pediu com voz firme.

— Vou deixa-lo com sua filha, não tenho nada mais a fazer aqui. – Ela saiu andando
elegantemente.

— Eu tenho tentado fazer diferente, pai. Mas ela sabe me atingir com suas palavras. Desculpe-
me! Vou procurar uma forma de eliminar esse rancor e aprender a não me deixar levar por ela. –
Thaissa estava certa do que deveria fazer, só não sabia como.

— Faça isso, filha. Será melhor para você. – Ela sorriu para o pai, constrangida, por se sentir
fraca diante de um sentimento mesquinho como o rancor.

— Precisa falar comigo? – perguntou ele mais tranquilo.

— Eu queria saber se já posso começar a fazer os preparativos do próximo semestre do


material de compra.

— Acredito que sim, filha. Só mantenha os gastos o menor possível, pois acredito que teremos
que revê-los mais adiante. Estão chegando muitos novos parceiros e penso que teremos mais
trabalho, e isso inclui custos também, por isso vamos planejar bem.

— Tudo bem! Quando puder, me passe às planilhas dos projetos seguintes para análise junto
aos demais envolvidos. Solicitou.

— Farei isso assim que a secretária atualizar algumas informações que pedi. – Informou
André.

— Ficarei esperando para dar início. – Thaissa se levantou e saiu após pegar na mão do pai,
acariciando-a. Em seu espaço, ela se recriminava mais uma vez por se deixar levar pela astúcia de
Letícia. Precisava rever suas condutas e aprender a contar até 10 antes de entrar em um atrito com
ela. Essa atitude chateava seu pai e incomodava, principalmente, a ela mesma. Caso não conseguisse
encontrar uma forma de se libertar daquela rede de sentimentos ruins que envolvia ambas, procuraria
ajuda profissional.

Para afastar sua angustia, ela se afundou no trabalho e assim pôde relaxar pelo dia que se
seguiu. Um fato que a estava agradando era não ter tido notícias de Marcus. Ele devia estar ocupado
com algum projeto, conhecendo melhor a empresa, ou a estava evitando também? Assim seria melhor
para ambos, acreditava ela, aliviada por não vê-lo nos dois últimos dias. A fuga, no entanto, deixou
de fazer efeito no dia seguinte quando entrou em sua sala e Marcus a aguardava.

— Não tenho visto você chegar, algum problema? – Quis saber ele.

— Nenhum! É que resolvi me comportar como sou de fato. Sem máscaras, sabe. – falou ela,
olhando-o nos olhos. – Marcus parecia zangado, mas nada disse. Não fosse seus olhos cinza estarem
estreitos, Thaissa não teria percebido a insatisfação dele com o comentário que fizera.

— Você precisa de algo, Marcus? – Ela precisava somente de uma coisa. Não vê-lo mais.

— Com relação àquele contrato que discutimos no último dia em que nos falamos. Está
assinado e iremos montar a apresentação aqui. Gostaria de contar com sua ajuda. – Ele continuava
com seu jeito autoritário. – Estive ocupado com questões burocráticas, mas agora poderei me dar ao
luxo de esperar você chegar dentro de seu horário. – Falou com o mesmo tom que tanto a incomodara
nos últimos encontros.

— Não acha que Letícia poderia lhe ajudar melhor que eu? – Thaissa desejava não precisar
participar daquele projeto, assim não teria que dividir muito do seu tempo com ele.

— Sim, acho. Mas quero que seja você. “Maldito seja!” – Pensou ela. Quando estava pronta
para lhe devolver o desrespeito, o telefone tocou. Ao olhar no visor, seu rosto se iluminou e Marcus
pareceu curioso pela mudança.

— Preciso atender ao telefone. Nos falamos depois! – Como Marcus permaneceu parado ela
aceitou a chamada normalmente.

— Alô Humberto! Sim, estou bem. – disse olhando disfarçadamente para Marcus. – É verdade.
Eu pensei que havia se esquecido de mim. – Um sorriso formou-se em seu rosto e Marcus começou a
ficar carrancudo. – Claro que podemos. Só não quero atrapalhar seu descanso, afinal, está
trabalhando muito nos últimos dias. – Ela ouviu algo que ele lhe dissera e sorriu amável. Humberto,
ao contrário de Marcus, era um homem encantador. – Tudo bem, meu querido, esperarei você. Um
beijo para você também. – Quando ela desligou inspirou profundamente e dedicou sua atenção ao
homem que a aguardava aparentemente inquieto.

— Quando pretende apresentar a montagem para eles? – Perguntou cordialmente.

— Em duas semanas. – Marcus parecia inatingível. Mas ela percebeu um brilho diferente nos
olhos dele depois da ligação.

— Tempo consideravelmente bom, por se tratar de uma empresa do porte desta.

— Então posso contar com sua ajuda? – perguntou Marcus, um pouco mais áspero.

— Estou aqui para ajudar a todos os colegas que precisarem. – Nesse momento ela percebeu
que ele explodiria se falasse alguma coisa mais.

— Fico feliz! – respondeu ele fingindo naturalidade. Mas Thaissa podia ver a grande veia se
sobressaindo em seu pescoço. Não entendia o porquê de Marcus se irritar tanto com ela.

— Quando pretende começar? – Questionou Thaissa sem se importar com a carranca dele.

— Gostaria que fosse hoje bem cedo, mas não foi possível. – Olhando no relógio ele fez ar de
insatisfação.
— Tudo bem! Então começamos amanhã às 08h15min, depois que eu chegar e tomar meu café.

— Você não toma café em sua casa? – perguntou ele, áspero.

— Gosto de tomar aqui. – Thaissa respondeu sorrindo.

— Tudo bem, me procure em minha sala. — Marcus a olhava intensamente e por instantes
Thaissa acreditou que ele iria até ela e lhe daria umas palmadas se pudesse.

— Combinado. – falou desviando sua atenção para a tela do computador. Torcendo para que
ele fosse logo embora. Após alguns segundos ela levantou a cabeça. – Mais alguma coisa?

— Sim. – Marcus foi até ela e a ergueu com certa violência puxando-a para ele. Quando seus
lábios tocaram os dela, os esmagou sem piedade. A princípio, Thaissa ficou assustada com a reação.
Estava claro que ele parecia muito chateado com alguma coisa ou com ela mesma, porém não
esperava uma atitude daquelas. Marcus parecia querer intimidá-la ou provar a sua força e deixa-la
com medo. Certamente era esse o sentimento que ele queria causar.

Ainda relutante Thaissa aceitou o beijo, permitindo-se sentir o sabor da boca carnuda e sensual
devorando a sua. Caso Marcus não fosse tão mesquinho, poderiam colocar em dias os momentos que
se privaram nas festas de carnaval. – Pensou enquanto partilhava do beijo. — Mas isso não
aconteceria e cabia aos dois seguirem seus caminhos. A magia havia se dissipado, restando apenas às
verdadeiras fases de ambos. Marcus a prendia com tanta força que Thaissa chegou a pensar que ele a
quebraria. Ao perceber sua reação, ele soltou o braço dela um pouco mais. Quando Thaissa percebeu
que Marcus tornara-se menos rude, ela se afastou.

— Mulheres da balada adoram esse jeito grosseiro. Cuidado, posso me apaixonar por você e
acho que não quer isso, estou certa? – Ela viu um brilho diferente nos olhos dele e se calou.

— Certamente que não! – respondeu sem conseguir disfarçar a leve emoção que tomara conta
dele. – Marcus passou a mão pelos cabelos, visivelmente contrariado com alguma coisa.

— Então é melhor você ir! – Ele saiu da sala deixando-a com um misto de prazer e raiva, por
se sentir imensamente atraída por um ser mal educado como aquele.

Embora Thaissa estivesse satisfeita pela reação que causara em Marcus. Algo a incomodava.
Aquela brincadeira podia ficar muito prazerosa, e ela sentia imensa vontade de prosseguir, mas sabia
também que poderia ter um alto preço. Não podia se dar ao luxo de brincar com um homem igual
aquele. Ele era astuto e sensual demais para ela conseguir manter-se imune a ele. Sem contar que
desde o momento em que se conheceram, ela percebeu que havia uma química entre ambos. Tudo lhe
dizia que era melhor não brincar com fogo ou poderia se queimar, e muito. Mas talvez a queimadura
valesse a pena também, isso ela não saberia se não seguisse a adiante. Estava dividia entre dois
caminhos. Algo em seu íntimo a dizia que independentemente do percurso que traçasse, Marcus faria
parte de ambos. Ela só não sabia ainda de que forma.

Não podia ser por acaso que ele surgira em sua vida por duas vezes. Havia algum forte motivo
e ela precisava ficar alerta. O sinal amarelo ficava cada vez mais forte. Marcus era problema e esse
nome não a agradava muito.

Marcus chegou em sua sala, furioso. Havia dias que não conseguia manter-se calmo e
calculista como sabia bem fazer.

— Por que diabos eu fiz aquilo? – perguntou-se quando ficou sozinho. Não fazia sentido
nenhum beijá-la depois de Thaissa ter brincado com ele daquela forma. Seria mais aceitável que ele
a pegasse no colo e desse lhe umas boas palmadas, pois certamente ela não recebera na infância.
Mas beijá-la?! Isso ele não podia compreender de forma alguma. Mas não conseguiu resistir ao ver
aquele belo rosto zombando dele. Vê-la falando com outro homem e, provavelmente, marcando um
encontro mexeu com Marcus mais do que esperava. Por que não saiu da sala dela quando o telefone
tocou? Ficara para deixa-la constrangida e no final quem ficou mal foi ele que a beijou, deixando
transparecer o desejo por tê-la em seus braços. Agora estava ainda mais furioso e não sabia como
resolver aquela situação que estava fugindo de seu controle.

Aquela mulher estava testando sua paciência e ele se deixara levar pelo desejo de mostrar a
ela quem estava dominando ali, porém concluiu que agira errado e caíra na teia dela. Thaissa parecia
mais esperta do que ele imaginara. Precisaria rever suas defesas, já que seu próprio corpo o estava
traindo.
CAPÍTULO 09

Thaissa chegou à empresa confusa no dia seguinte. Embora os atritos entre ela e Marcus
tendessem a permanecer, naquele momento ela desejava apenas paz. Sentia-se sozinha e triste. Esses
sentimentos a incomodavam naquela data. Completaria naquele dia, dois anos da partida de sua mãe
e ainda sentia a dor como se fossem dias de sua ausência. Após tomar seu rápido café com a
simpática copeira da empresa, seguiu para a sala de Marcus.

— Bom dia! – disse entrando e sentando-se a frente dele.

— Está pronta para hoje? – perguntou ele, sério.

— Sempre pronta – respondeu cautelosa.

— Bom, como se trata de uma empresa de cosméticos, vamos propor que usem uma modelo
conhecida e de beleza ofuscante, caso não tenham capital disponível, que seja pelo menos alguma
jovem modelo em ascensão, daqui mesmo, para demonstrar que valorizam os frutos da região onde
estão implantando uma franquia. – Começou ele abrindo uma pasta com arquivos dentro.

— Acredito que será uma boa ideia. – Concordou ela, em tom baixo.

— Você não me parece bem, Thaissa, algum problema? – Marcus a observou longamente.

— Não há nada de errado, Marcus. Estou bem. – Ela não tinha a intenção de expor a ele suas
questões particulares, mas não conseguia fingir tão bem quando o assunto era a dor da saudade e das
lembranças ruins que persistiam em sua mente.
— Não é o que me parece, mas se prefere assim. – Marcus voltou-se para os papéis. – Falei
com Letícia para que me desse um pequeno suporte. – Thaissa desejava não ouvir o nome daquela
mulher, mas sabia que era impossível, já que dividiam cinco dias da semana.

— Então você já tem uma prévia do que deve fazer! – Comentou ela.

— Na verdade, ela deve vir aqui. – Antes que ele terminasse sua frase, a mulher entrou porta
adentro.

— Desculpem— me a demora tive alguns assuntos a resolver quando cheguei à empresa. –


Thaissa suspirou longamente.

— Sente-se. Convidou-a Marcus. Quando ela o fez, Thaissa se levantou.

— Estarei em minha sala. Quando terminarem, você me procura. – disse Thaissa olhando para
Marcus antes de tentar a fuga.

— Thaissa, eu preciso que você fique aqui também, assim adiantamos o trabalho. – falou ele.

— Estarei em minha sala aguardando a posição de vocês. – Thaissa reafirmou o que dissera e
partiu sem esperar pela resposta dele.

Havia passado pouco mais de trinta minutos que Thaissa tinha saído e os deixado, quando
Marcus surgiu em sua sala.

— Thaissa, podemos conversar? – perguntou ele aparentemente contrariado.

— Claro! Fique à vontade. Chegaram a algum consenso? – quis saber percebendo que Marcus
não parecia nada satisfeito.

— Não é sobre a publicidade que estamos fazendo, que desejo lhe falar. – Ele sentou— se a
sua frente. – Essa infantilidade que você possui em relação a Letícia está prejudicando a empresa,
será que você percebe isso? – As palavras dele feriram-na. Marcus não sabia dos fatos para se achar
no direito de interferir. – Pensou ela.

— Eu já te disse que minha relação com a Letícia não irá prejudicar o desempenho na empresa.

— Não sei se percebeu, mas hoje prejudicou. Se estivéssemos os três atuando juntos no
projeto, teríamos tido melhores resultados e com menor tempo de dedicação também. – Marcus a
olhava intrigado com o que se passava e ele não conseguia compreender.

— Não penso da mesma forma. Cada um de nós teria suas próprias sugestões por atuarmos em
setores diferentes, de uma forma ou de outra, você teria que tomar alguma decisão posteriormente,
baseada no ponto de vista individual de cada uma.

— Você não fala como a profissional que ouvi dizer que é. – Respondeu Marcus, sério, sem
desviar seus olhos dos dela.

— Talvez tenha ouvido errado. E eu não seja de fato como lhe disseram– Thaissa falou
friamente.

— Está sendo tola Thaissa. Nada do que diz faz sentido. Vou pedir mais uma vez que deixe
seus problemas pessoais com a Letícia fora da empresa. Ela mesma me disse que não tem nada
contra você, então o que tem contra ela?

— É óbvio que ela não tem nada contra mim. Foi ela quem separou minha família e abandonou
meu pai depressivo para que eu cuidasse dele. – Thaissa arrependeu-se por revelar sua vida pessoal
àquele estranho. – Você conhece a versão dela, não se baseie apenas nisso. Há dois lados dessa
moeda, e antes que tome um partido, conheça sobre ambos.

— Não sei do que se trata e nem quero saber. A única coisa que te peço é que procure separar
isso. Aqui não é a casa de vocês, onde agem conforme suas emoções. – Marcus falou áspero e saiu
deixando-a quase em lágrimas.

Um pouco depois, mais calma, Thaissa chegou à conclusão que precisava mesmo seguir sua
vida e não permitir que a outra mulher a aborrecesse mais do que já fizera. Daria o melhor de si até
que não restasse mais nada em seu coração.

Decidida sobre o que precisava fazer, Thaissa se envolveu com o trabalho e deixou que o dia
acontecesse normalmente.

À tarde, o empenho dela quase que fora por água a baixo quando viu Letícia entrar em sua sala
cheia de si.

— Falou com o Marcus a respeito da campanha da empresa de cosméticos? – Perguntou séria,


o que não era o costume. Talvez Marcus tivesse chamado a atenção da outra também. Mas preferiu
não comentar com Thaissa. – Ela pensou.

— Ele me passou algumas coisas pelo e-mail e dei a minha sugestão. Acredito que logo falará
conosco novamente – respondeu tentando tratar a outra mulher como a uma colega de trabalho
comum.
— Espero que desta vez você não saia correndo como uma criança amedrontada. – As palavras
de Letícia ecoaram na cabeça dela.

— Não se preocupe, estarei lá dando minha opinião tanto quanto você. – Thaissa a olhou nos
olhos como não fazia há tempos. Aliás, ela não se lembrava mais qual fora a última vez que de fato
olhou em Letícia vendo apenas a pessoa, e não seus atos.

— Certo. – A mulher pareceu não gostar de ser observada de igual, mas nada disse e saiu
deixando-a com uma sensação de alívio, passageira, mas muito agradável. – Quando ficou sozinha
Thaissa sentiu-se melhor. Levaria tempo para aprender a ignorar o que acontecera anos atrás, mas
sabia ser preciso.

Marcus não a procurou mais, e seu dia terminou bem melhor do que começara. Thaissa foi para
casa após o expediente, depois de recusar o convite de sua colega Paula de irem à boate. Não estava
disposta, pois o dia lhe sugara todas as energias.

Em casa, Thaissa refletia sobre sua vida desde a morte de sua mãe e chegou à conclusão de que
fizera muito mal manter aquela mágoa viva dentro de si. Sua mãe certamente não estaria feliz por vê-
la se martirizando. Iria mudar seu foco de vida para seu bem e de seu pai, que ela sabia sofrer pelo
mal que causara para a esposa e sua filha.

Após o banho ela foi encontrar com seu pai para jantarem juntos. Naquela noite Thaissa sentiu
a forte presença de sua mãe confortando aos dois. Essa constatação a fez acreditar ainda mais na
necessidade de seguir adiante com sua intenção de abandonar o sentimento negativo que a consumia
sem que percebesse.

O jantar fora rápido, pois ambos tinham atividades a colocarem em ordem para o dia seguinte.
Era comum jantarem assim e cada um se afastar para suas funções. Thaissa acreditava que o motivo
de ambos era o mesmo, fugir do que os fazia sofrer, ao invés de resolvê-lo de uma vez por todas.

Uma Nova manhã surgiu, e Thaissa como sempre estava em sua sala no horário de costume.
Marcus havia lhe enviado um e-mail informando sobre o encontro dos três às 09h. Seria aquele um
bom momento para recomeçar. Acreditava Thaissa.

Quando Thaissa chegou no horário marcado, já a aguardavam.

— Bom dia! – Disse estendendo o cumprimento aos dois.

— Bom dia, Thaissa! – Disse ambos em coro. – Ela sentou-se na cadeira próxima de Letícia
ainda sentindo certo mal estar, porém o fez com a maior naturalidade possível.
— Eu fiz as análises das sugestões de vocês e montei esse script que devo enviar a nossa
parceira à tarde. Gostaria que dessem uma olhada, e caso queiram fazer algum comentário, ainda
podemos alterar. – Marcus entregou uma cópia a cada mulher e ficou aguardando. Após alguns
minutos, Letícia foi a primeira a falar.

— Ficou muito bom o projeto, mas a questão de fazer a gravação externa, eu não vejo a
necessidade. Temos a disposição, ambientes internos excelentes e isso pode gerar maior custo e
tempo de organização de espaço. – Thaissa ouviu o comentário em silencio.

— Essa ideia, Letícia, como eu havia te dito a pouco, foi da Thaissa. – Eu não vejo nenhum
empecilho em fazermos a publicidade ao ar livre. Quando recebi as sugestões, achei até muito
interessante.

— Você é quem decide Marcus. Só não acredito que faria tanta diferença. – Ela agia como
tantas vezes em que parecia desejar irritar Thaissa.

— Você quer defender sua tese, Thaissa? – perguntou Marcus.

— Se já terminaram seus comentários, sim, eu quero. – Thaissa olhou de um ao outro e Letícia


fez um movimento com os ombros em negativa.

— Ao fazer essa sugestão, pensei na beleza e satisfação visual que a campanha passaria.
Quando se trata da imagem, penso que o natural combina e muito com o que propomos. Já que
falamos de perfeição, aparência e harmonia entre os tons, nada mais justo que utilizarmos o meio
ambiente natural que fornece tudo isso e um pouco mais. E com relação aos custos, não penso da
mesma forma. Teremos sim que deslocar o pessoal, vestuário e outras coisas que julgarmos
necessárias, mas deixaremos de investir também, porque usaremos daquilo que já esta disponível e
gratuitamente. Penso que o resultado será muito compensador em todos os sentidos. – Thaissa
terminou sua defesa sem fraquejar ou deixar transparecer dúvidas sobre o que defendia.

— Então ficamos acertados que será em ambiente externo. – Afirmou Marcus.

— Se é o que prefere. – Letícia parecia nada satisfeita, mas não fez mais nenhum
questionamento. Após alguns ajustes, cada um seguiu para seus afazeres.

Thaissa foi para a recepção onde duas colegas estavam organizando alguns horários.

— Paula você sabe se meu pai está na empresa? Fui à sala dele e não o encontrei.

— Ele precisou sair Thaissa. A agenda dele tem sido mais com visitas do que aqui. – Informou
a moça pela qual Thaissa tinha um carinho especial.

— Tudo bem! Falarei com ele depois. – Thaissa despediu-se das jovens e retornou para suas
atividades. Quando chegou, surpreendeu-se com Letícia, que a esperava.

— Algum problema Letícia? – Perguntou ela curiosa indo para a outra extremidade da mesa e
sentou-se na cadeira.

— Nenhum Thaissa. Aliás, você tem mudado da água para o vinho. O que a tem feito se
transformar assim? Seria certo diretor financeiro é? – Thaissa percebeu que a outra mulher quis
compará-la a ela, fingindo que estava se passando por simpática para enganar a Marcus, como ela
costumava fazer com seus amantes.

— Não sei do que está falando, Letícia, mas eu não tenho costume de me passar pelo que não
sou para conquistar alguém. – Falou calma.

— Você nunca se portou assim. Acho que está querendo se garantir, não seria isso?

— E por que eu precisaria me garantir? – Não dependo de ninguém a não ser de mim mesma
para atingir meus objetivos. – Thaissa cruzou os braços sobre a mesa e atentou-se a mulher.

— Pode ser que as coisas mudem e você venha a precisar de um homem cofre. Quem sabe do
dia de amanhã? Ninguém. – A mulher estava mesmo comparando Thaissa a ela, e isso a irritou
imensamente.

— Acho que esta tentando me igualar a você, mas nem que eu quisesse muito, conseguiria tal
semelhança. É preciso anos de prática sabe. – Thaissa desabafou com a voz serena pelo controle
mental que fazia.

— No fundo somos todas iguais, querida. Precisamos de um apoio para nossas necessidades de
mulher. – Defendeu-se Letícia com um belo sorriso nos lábios.

— Eu nunca precisei me apoiar em um homem. Caminho por mim mesma. – Informou Thaissa,
mesmo certa de que a mulher estava ciente disso.

— Quero ver continuar com esse queixo erguido quando não tiver no que se apoiar. – disse
Letícia com estranha certeza.

— Isso provavelmente não acontecerá com você, que já se garantiu por duas vezes.

— E pretendo me garantir mais uma. – Thaissa compreendeu que ela se referia a Marcus, e
isso quase lhe tirou a razão, embora ignorasse o por que.
— Então boa sorte para você! – Embora tentasse manter-se calma, Thaissa sentia que a
qualquer momento poderia explodir e não desejava isso ali. – Poderia sair de minha sala, por favor!
– Pediu ela.

— Essa empresa não é mais sua que minha, querida, eu saio a hora que eu quiser e quando
quiser. – A mulher ficou parada frente a Thaissa parecendo testar seu alto controle.

— Saia daqui! – Pediu Thaissa mais uma vez.

— Embora seu velho pai ainda seja um dos mais respeitados membros, não quer dizer que seja
o mais importante. – Thaissa se levantou e foi ao encontro da outra.

— O que você quer Letícia? – Não bastou o que fez com meu pai? Não se cansa de incomodar
as pessoas? Você precisa disso para se sentir lembrada? É isso ou será sua maneira de fazer com que
outras pessoas sejam tão infelizes quanto você? – Perguntou Thaissa enjoada de ver aquele rosto
fingindo alegria.

— Sou muito mais interessante que você e não preciso me impor a ninguém para ser lembrada.
– Ralhou Letícia.

— Se oferecer o corpo é uma forma de ser mais lembrada que outras mulheres, então de fato
você é mais interessante que eu, porque jamais usaria meus atributos físicos para atrair alguém. –
Thaissa pegou no braço da outra e a puxou sentido a porta. – Agora saia daqui! – Letícia puxou o
braço agressivamente e quando as duas iam se atracar Marcus mais uma vez as surpreendeu.

— Parece que as duas possuem o dom de usar o tempo livre para trocarem farpas, ou é
impressão minha? – Perguntou áspero olhando de uma a outra.

— Vim aqui conversar com ela sobre o projeto e fui recebida com agressividade. – Reclamou
Letícia em mais uma de suas atuações.

— Não sabia que além de oportunista você é uma ótima atriz. – Thaissa comentou com
sarcasmo.

— Eu terei que tomar medidas nada agradáveis com os demais sócios se continuarem se
portando dessa forma. – Ameaçou-as, sério.

— Vou para minha sala e como vejo que não há uma forma de resolver isso civilizadamente.
Procurarei manter-me afastada das agulhadas da Thaissa. – Letícia saiu rapidamente deixando-os.

— Como eu sei que não adiantará eu dizer que estava na minha sala e ela veio me perturbar,
peço apenas que observe e chegará a um veredito por si mesmo. – Thaissa lamentava o ocorrido, mas
já estava cansada de se portar como a boazinha que suportava as indiretas fingindo não as entender.

— Não estou aqui para julgar uma parte ou outra, sei apenas que estão criando um clima
desagradável na empresa e logo as outras pessoas começarão a tomar partido de uma ou de outra e
isso acarretará em problemas. Se isso já não estiver acontecendo, pois a inimizade de vocês me
parece antiga. – Afirmou ele.

— Eu já disse que estava em minha sala trabalhando e ela veio me incomodar. Estou fazendo o
que posso para separar as coisas, mas vocês não estão me ajudando. Ela, por me irritar
constantemente, e você, por acreditar que sou a única causadora dos conflitos. – Mais uma vez
Thaissa sentia-se mal pelo ocorrido.

— Será que está fazendo o que pode mesmo? – disse ele se aproximando dela.

— Vá para o inferno! Até parece que você está cego. O que ela está te oferecendo que faz você
ver apenas as minhas falhas e ignorar as dela? – Marcus não gostou do que ouvira.

— O que está insinuando com isso? Que eu esteja protegendo a Letícia por algum beneficio
que recebo dela! É isso? – Ele a olhava como em poucas vezes na vida ela se viu sendo observada.

— Foi você quem disse isso. – Thaissa foi virar-se para contornar a mesa e ficar o mais
distante dele, quando sentiu seu braço ser preso por uma mão firma.

— Sabia que esse seu jeito me incomoda e muito?! – falou ele puxando ela para perto.

— Não posso fazer nada por você. – Sem se importar com a aspereza dela, Marcus tomou sua
boca, ainda segurando com força em seu braço. Thaissa ficou petrificada, sem reação alguma e sua
atitude pareceu incomodar ele que a apertou ainda mais. Com a forte dor no braço, ela precisou abriu
a boca, tentando um protesto, porém foi calada pelo delicioso sabor que a penetrava. Mais uma vez
ela se via sedenta, aquele irresistível toque de homem.

Assim que Marcus percebeu que ela começava a se render, diminuiu a pressão e acariciou o
local onde a apertara. O beijo foi longo e lento deixando-os sem fôlego. Mais uma vez fora Thaissa
quem se afastou.

— Temos dividido muita intimidade nos últimos dias. Isso pode ficar perigoso. – Falou
Marcus fingindo que nada de anormal ou constrangedor acontecia ali.

— Você devia se envergonhar por ficar beijando uma mulher comprometida como se não
houvesse nada de errado nisso. – Ralhou ela que a pouco nem se lembrara de Humberto e, em seu
íntimo, também não se sentia comprometida com ele e tinha consciência de que o rapaz também
pensava assim. Eram amigos tentando uma relação. Essa era a melhor definição que tinha.

— Você não me parece uma mulher comprometida, além disso, não se porta assim, pois sempre
aceita meus beijos. – Respondeu ele chateado com o que ouvira dela.

— Preciso voltar ao meu trabalho. Conversamos sobre o projeto depois. – Thaissa pegou o
copo que tinha sobre sua mesa e saiu à procura de água deixando-o sozinho.

Quando se sentou em sua cadeira, após ser ignorado por Thaissa na sala dela, Marcus
continuava a pensar nela. Aquela mulher estava mexendo demasiadamente com ele. Quando estava
longe, sentia certa antipatia por Thaissa e suas maneiras, chegando ao ponto de se culpar quando
pensava nos momento em que ambos estiveram juntos. Mas bastava se aproximar, e ele a queria.
Desde que a beijara no dia anterior, que ansiava por sentir novamente aquela boca, mas algo lhe
pedia para ter calma. Thaissa podia não ser a mulher que ele imaginara e a descoberta disso o
deixaria contrariado, por tê-la deixado sozinha, naquela noite. Por outro lado, ela poderia se
confirmar ainda pior do que ele julgava e caso já estivesse na rede dela o problema seria ainda
maior. Mas o que fazer se seu lado macho estava fortemente aguçado para começar aquela caçada.
CAPÍTULO 10

Thaissa havia retornado do almoço e ainda se culpava por não ter conseguido se segurar diante
do comentário de Letícia. Prometera a si mesma que iria tirar de sua vida e seu coração aquela
mágoa que a impedia de seguir. E não conseguira um ato positivo que fosse. Mas havia o fato de que
a culpada por aquele sentimento existir nela parecia disposta a não facilitar sua evolução. Tudo
conspirava contra sua determinação, o que a tornaria ainda mais difícil aos olhos dela.

Após instalar— se Thaissa ainda pensava em Letícia. Por qual razão a mulher insistia em
incomodá-la. Era certo que nunca se mostrara feliz com a presença da outra mulher na Fênix. O
estranho para ela era que Letícia parecia ter uma antipatia bem maior que a dela. E isso não
conseguia entender, já que fora a outra quem invadiu sua vida e de sua família e a desestruturou
completamente. Não fosse o fato de terem tido problemas de natureza pessoal. Thaissa poderia
acreditar que a ex-amante de seu pai tinha outras razões para perturbá-la, mas ela desconhecia quais
eram.

Quando optou por ir trabalhar na empresa, após sua formação em marketing, o que Thaissa
aceitou somente após muita insistência de seu pai, logo as duas mulheres se mostraram com pouca
afinidade.

Thaissa teria então duas questões com as quais conviver e aprender a não se deixar abalar por
elas. Letícia com sua bela interpretação de atriz, sempre disposta a abrir a ferida que ela precisava
fechar em definitivo, e Marcus com suas idealizações tolas e retraídas sobre ela. Sem contar os
beijos dele que mexiam demasiadamente com seus instintos. Teria de fato muitos prováveis
transtornos pelos próximos tempos.

Marcus viu Thaissa chegar aparentemente preocupada. Ele preferiu então deixar para
discutirem o projeto depois. Embora sua vontade fosse grande em falar com ela para tentar entender
o motivo de sua tristeza. Seria ele a causa ou haveria outra pessoa ocupando os pensamentos dela?
Aquela última constatação o incomodou mais que a primeira. Desde que optara por adquirir ações da
Fênix Assessoria em Mídia, Marcus se perguntava se o destino estaria traçando algo para sua vida as
escondidas. Nunca imaginara que veria Thaissa novamente, embora acreditasse que ela vivia na
capital do Estado, nada, além disso, havia passado pela sua mente. Quando surgiu a oportunidade de
compra das ações da empresa, ele não se mostrara muito interessado, embora seu amigo lhe tivesse
dado boas garantias de que a empresa era promissora, o que ele constatara de fato. Ainda assim não
era algo que chamasse sua atenção, aquele seguimento, mas resolveu cogitar a possibilidade a fim de
buscar novos desafios em sua carreira empresarial. O Contrato ainda não havia sido discutido
naquela noite em que a conheceu no Carnaval, e tão pouco havia interesse seu em residir por algum
tempo fora de São Paulo e Minas Gerais, onde passava o tempo livre com a família, porém nas
semanas seguintes, após ter conhecido Thaissa ele decidira-se pelas ações e também pela mudança
temporária. Naquelas alturas Marcus já não pensava nas chances de reencontrá-la, mas caso
acontecesse gostaria de convidá-la para saírem e se divertirem um pouco até que passasse a paixão
que aflorou entre eles, e cada um seguisse seu caminho, como deveria ser. Ele constatara, porém, que
Thaissa não parecia disposta a viver um rápido caso. Sem contar no sujeito que ligara para ela dias
atrás. Não lhe pareceu algo longo e intenso, pela forma amistosa com que ela falou ao telefone, mas
era fato que Thaissa não estava completamente sozinha.

Deixaria as coisas como estavam por enquanto até que surgisse uma melhor oportunidade ou
que sua paixão por ela se dissipasse e pudesse voltar a sua vida longe dali e longe daquela mulher
que o estava tirando de seu controle.
Marcus abandonou seus pensamentos que o levavam a Thaissa e pegou o telefone ligando para
sua assistente em São Paulo a fim de saber como estava o andamento de um de seus outros projetos
que deixara.

Após a chamada ele olhou rapidamente para o corredor. Com o desejo de ter alguma noticia
que fosse dela, mas nada. Nem mesmo o agradável aroma que por vezes sentia e sabia ser dela. Uma
grande vontade de ir até a sala dela o arrebatou, mas estava decidido a não forçar nada, aceitaria o
que ela tivesse para dar, pois ele também não ofereceria muito para não criarem laços fortes. Em
alguns meses, Marcus teria que voltar para sua rotina entre São Paulo e Minas Gerais e não queria
levar saudades, mesmo sendo da bela Thaissa. Embora ele tivesse consciência de que não
precisariam dele por perto nas decisões das empresas que tinha. Estavam muito bem administradas e
poderia visitar e verificar os dados quando quisesse ou solicitar por e-mail, mas ali não era sua casa
e não havia pessoas amadas também. A única pessoa que tinha na vida era sua irmã que estava em
Uberlândia e vivia muito bem sem ele e com a qual falava com frequência. Ao se lembrar dela, algo
o fez sentir falta daquele conforto familiar, que a muito não tinha. Não era de seu costume se sentir
assim, mas naquele instante, algo o perturbou. Estava mudando muito rapidamente seus conceitos. Ele
esperava que a causa disso fosse idade, e não uma pessoa que surgira em sua vida a pouco trazendo à
tona, sentimentos que ele mesmo não sabia possuir.

Thaissa olhou no relógio de seu computador. Logo encerraria mais um dia de trabalho e mais
um ano sem sua mãe. Sentia imensa vontade de ter um colo para descansar dos dois anos que se
passaram. Não havia ninguém disponível, e isso a entristecia muito. Precisava se manter firme
mesmo desejando desabar. Se não fosse pelo fato de o trabalho de Humberto o exigir muito, ligaria
para ele pedindo um colo. Mas não o incomodaria com suas lamentações. Iria para casa, talvez lá
encontrasse algo que aliviaria sua saudade.

Thaissa saiu rapidamente sendo percebida por Marcus apenas pelo aroma que deixou para trás.
Vendo a pressa com a qual ela se dirigiu para o elevador, resolveu segui-la. Ela não parecia nada
bem.

Quando descia, Thaissa ficou tensa ao ver o elevador parar no andar de Letícia. Se ela entrasse
naquele minúsculo espaço, poderia haver problemas. Para alegria dela, entraram duas pessoas que
não conhecia. “Assim é melhor” — pensou. — Mas quando a porta se fechava, ela foi interrompida,
e o que Thaissa não desejava ver, aconteceu. Letícia entrou glamorosa e sorridente. Cumprimentando
ambos. Desceram sem se falar, o que agradou Thaissa. E quando ela saia para a garagem indo para o
lado oposto dos outros, Letícia a seguiu.
— Thaissa! Quero falar com você! – disse ela se aproximando.

— Estou um pouco atrasada, podemos nos falar amanhã. – disse enquanto continuava andando.

— Não acha que já está na hora de parar com esse teatrinho de moça sofrida e infeliz? Estou
começando a ficar sem graça diante do Marcus por suas atitudes tolas, sabia? – A mulher precisou
correr para alcançar Thaissa.

— É só você evitar falar comigo mais que o necessário, como fingia fazer algumas vezes antes
de Marcus vir para essa empresa, que tudo ficará bem. – Respondeu Thaissa seguindo adiante.

— Eu disse que estou cansada de ser tratada como nada por você. Pare agora! – Letícia pegou
no braço dela segurando-a.

— Solte meu braço! – disse Thaissa puxando-o fazendo com que a outra quase perdesse o
equilíbrio. – Não sei se percebeu, mas eu não costumo perder meu tempo classificando você. Aliás,
eu ficaria feliz se fizesse o mesmo. É possível? – Perguntou com os olhos fixos na outra.

— Você é mesmo uma garota tola. Até quando ficará agindo como tal. Não acha que já bancou
a vitima demais? Cresça mulher! – Letícia parecia satisfeita em ver a tristeza estampada no rosto de
Thaissa.

— A única vítima aqui é você, Letícia, que após a dor que causou a minha família ainda finge
ser feliz, mas na verdade, você é uma pessoa triste porque sabe que ninguém ficará com você pelo
que é, e sim, pelo que pode propiciar. – Thaissa falava com voz serena sem alterar o tom, ao
contrário da outra que faria um escândalo a qualquer momento.

— Melhor ficar com alguém tendo certeza do que esperam de nós, do que se doar e no final
nada receber além de um pé na bunda. Acredito que esse será seu caso com Marcus ou outro homem
que surgir em sua vida. – disse a outra tentando atingi-la.

— É melhor ser abandonada pelo que sou de fato, que pelo pouco que tenho a oferecer, além
de sexo. – Thaissa começava a andar novamente quando Letícia pegou em sua bolsa puxando-a.

— Tire suas mãos sujas de mim! Não tenho mais nada a falar com você, principalmente se não
for com relação à empresa. – A mulher a atacou histericamente surpreendendo-a e quase a jogou no
chão.

— Você é descontrolada, Letícia. Procure ajuda. – Thaissa ia esbofeteá-la quando Marcus


segurou em sua mão. – Ela estava tão cega que não o viu se aproximando.
— Parem com isso! O que pensam que estão fazendo?! – Falou ele áspero, soltando o braço de
Thaissa em seguida.

— Eu não queria que isso tivesse chegado a este ponto Marcus, mas como viu hoje cedo,
Thaissa tirou o dia para me maltratar. – Falou Letícia fingindo pesar.

— Não precisa dizer nada, Letícia, vi muito da discussão e posso garantir que você não é
vítima aqui. Aliás, ninguém é. – Mais uma vez ele estava acusando-a. – Pensou Thaissa, contrariada,
procurando as chaves em sua bolsa. Instintivamente as lágrimas que segurou desde o nascer do dia,
começaram a brotar.

— Vá embora Letícia! – Ordenou Marcus quando percebeu o que se passava com ela. – A
outra saiu rapidamente deixando-os.

— Por que não aproveita e segue seu caminham também? – falou Thaissa tentando segurar as
lágrimas que a venciam.

— Por que essa tristeza toda, Thaissa? – disse ele penalizado levantando o rosto dela.

— Me deixe! Vou para casa. – Ela não conseguia ver as chaves devido a visão nublada. –
Marcus tocou em seu rosto limpando com o dedo as lágrimas que ela não conseguiu impedir que
caíssem.

— Hein! Não precisa me tratar como a um inimigo. Só quero ajudar! – Aquela voz de conforto
foi tudo o que ela precisou para deixar o pranto segurado havia anos cair. Marcus a abraçou em
silêncio permitindo que colocasse toda sua dor para fora. Havia tempos que Thaissa não conseguia
chorar o que precisava e não se importou se o ombro que tinha era de uma das pessoas que desejava
distância. Queria apenas se deixar ali por alguns confortáveis segundos.

Marcus a abraçou fortemente, acariciando seus cabelos. Normalmente ele não gostava de ver
mulheres chorando, mas vê-la frágil àquela forma que ele sabia não se era normal, deixou-o um
pouco pior.

Thaissa chorou longamente até sentir seu peito aliviado. O calor bom daquele abraço era tanto
que ela desejou ficar ali por mais tempo, mas já havia se mostrado fraca o suficiente na frente de
Marcus. Precisava partir logo.

— Obrigada e me desculpe o constrangimento. – Ela se afastou devagar sentindo uma leve


pressão das mãos dele que pareciam desejar que não se fosse.
— Quando precisar estarei aqui. – Ele nunca vira uma mulher chorar daquela forma. Thaissa
devia ter algo a incomodando muito, mas não cabia a ele questionar agora.

— Obrigada mais uma vez. – Antes que ela se afastasse, Marcus ergueu lhe o rosto e a beijou
na testa, em seguida encostou seu rosto no dela e ficou assim por alguns instantes. Algo o mudava
por dentro quando estava perto daquela mulher – Afastando-se em seguida Marcus pegou as chaves
nas mãos dela e abriu o carro para que entrasse. Thaissa se sentou atrás do volante pronta para partir.
Não foi preciso diálogo entre ambos. Sabiam que fora o bastante por aquele dia.

Thaissa chegou em casa exausta. Chorar lhe fez bem, mas deixou seu corpo fragilizado demais.
Tomou um rápido banho e após um copo com leite foi para a cama. Nos dois anos da falta de sua
mãe, aquele fora o que mais sofreu e que mais a aliviou também. Ela sabia que precisava colocar
para fora aquela angústia que guardava desde que viu sua mãe pela última vez, mas até aquele dia
não sabia como e aconteceu sem que ela programasse. Fora bom, muito bom aquele momento. Sentia-
se mais leve, sem aquele peso enorme que trazia em seu coração e na alma. Olhou para o teto e se
lembrou da famosa frase que dizia que cada pessoa que passa por nossas vidas tem a função de nos
propiciar algum valor ou aprendizado. Desde que o arrogante homem surgira em sua vida, àquela dor
começara a diminuir. Ele lhe fizera um favor imenso, que provavelmente não podia imaginar o
quanto.

Um novo dia brilhava em sua janela quando Thaissa acordou. Não se lembrava de ter
apreciado tanto um novo amanhecer. Um sorriso aflorou em sua face quando olhou a foto da amada
mãe no criado. A paz lhe pedia passagem e ela estava disposta a colaborar. Lentamente se levantou
da cama e foi para o banho. A água morna deixou seu corpo relaxado para mais um dia de trabalho.
Um dia que prometia ser bom. Embora Thaissa soubesse que teria que reencontrar a transtornada
Letícia, era para Marcus que ela dirigia seus pensamentos naquele momento. O que estaria pensando
dela depois de ver sua fraqueza? Ele teria entendido ou estava rotulando-a, como uma coitada,
chorona e vitima da vida? Teria que aguardar para saber. A única coisa que tinha certeza era de que
colocara grande parte de sua dor para fora nos ombros dele. Não imaginava que estivesse precisando
tanto daquele momento de fraqueza e, ao mesmo tempo, libertação.

Conforme já era de costume, Thaissa chegou tomou seu café e foi para sua sala. Naquele dia
ela subiu pelas escadas. Tinha certeza absoluta que por aquele caminho não teria chances de se
encontrar com Letícia. Precisava de um pouco mais de tempo, antes de confrontar com ela
novamente, depois da baixaria que fora forçada a participar com a outra na presença de Marcus.
Lembrar-se dele a fez sentir um calafrio na espinha. Como olharia naquele rosto depois do dia
anterior. Estava insegura, mesmo sabendo que não havia necessidade de tal sentimento. Ele pareceu
bastante compreensivo, mostrando seu lado humano que Thaissa gostaria muito de ver com mais
frequência.

O cheiro agradável invadiu as narinas de Marcus alertando-o. Ela havia chegado sorrateira
como sempre. Não sabia Thaissa, que ele estava ciente todos os dias de sua presença. Marcus sabia
quando ela chegava no horário e quando atrasava um minuto que fosse. Isso acontecia desde os
primeiros dias em que ele chegara à empresa. Por isso às vezes a pegava no flagra quando chegava.

Embora a vontade de ir até lá verificar como ela estava era grande, Marcus preferiu ficar onde
estava. Deixaria que ela o procurasse, caso o desejasse fazer. Mas o desejo de vê-la e abraça-la
como fizera no dia anterior era grande. Naquela noite, Marcus custara a dormir pensando em Thaissa.
Por mais que a criticava, havia algo que o atraia nela. Não sabia o que exatamente, mas estava certo
de que havia algo além da beleza e do sorriso que o distraia e incomodava também. Suas emoções
estavam fora de seu domínio, Já não sabia de fato o que chamava sua atenção para Thaissa, se era
suas qualidades ou defeitos.

Após instalar-se em seu espaço, ela olhou para os quadros em um aparador no canto. As boas
lembranças estavam registradas ali de forma que ninguém as mancharia. Sua família feliz e sorridente
nas várias viagens que fizeram juntos. Thaissa tinha sempre em mãos uma boa máquina fotográfica, e
por essa razão, muitos foram os momentos arquivados. Precisava seguir em frente e o faria
lentamente, mas seguiria.

O fato de seu pai ter se sentido o culpado da destruição de sua família o tornava ainda mais
merecedor do perdão e do carinho de Thaissa. Ele, provavelmente, estava mais infeliz que ela até
aquele dia. André precisava seguir e ela o ajudaria, por ela, sua mãe e principalmente pelo homem
que ele era.

Conforme planejara, Marcus permaneceu à espera de notícias de Thaissa. Quando soube de


uma pequena reunião que aconteceria em 30 minutos, ele sentiu vontade de ir informa-la, mas pediu a
Paula que o fizesse. Veria Thaissa quando se reunissem e poderia ter suas próprias constatações
sobre o estado dela.

Thaissa seguiu constrangida para a sala de reuniões. Por um motivo banal nas informações
passadas por um cliente, ela teria que se encontrar ao mesmo tempo com Letícia e Marcus. Aquele
seria seu primeiro teste.

Quando entrou, sentou-se onde era de costume e aguardou em silêncio até que todos os
envolvidos tomassem seus lugares. Para sua surpresa, Letícia estava muito calma e aparentemente
feliz. Em nada se parecia com a mulher que a atacara no dia anterior. Em alguns momentos ela chegou
a olhar na direção de Thaissa sem demonstrar qualquer constrangimento ou lembrança do ocorrido.
“Eis ali uma grande atriz.” – Pensou Thaissa, que evitava a todo custo olhar para Marcus, embora
ela tivesse percebido que ele não a tinha como foco. Melhor assim, agradeceu. As informações foram
passadas e conforme iam resolvendo cada etapa do que teriam que alterar, Thaissa sentia um pouco
da tensão saindo do seu corpo.

Terminada a reunião, Letícia foi uma das primeiras pessoas a saírem em busca da solução do
problema que era de sua responsabilidade maior. Quando a maioria saiu, Thaissa quis aproveitar o
movimento e segui-los. Antes que fugisse Marcus a chamou.

— Thaissa pode ir até minha sala? – Pediu ele deixando de falar com o jovem ao qual dava
alguma orientação. — Em alguns minutos estarei lá. Informou ele voltando sua atenção ao seu
ouvinte. Sem esperar pela resposta dela.

Thaissa seguiu imaginando o que falaria para ele. Contaria sua história ou deveria apenas
agradecer pela compreensão e nada explicar. Não sabia o que fazer até que ele entrou fechando a
porta.

— Que confusão hein?! – falou Marcus indo até seu assento.

— O que pode fazer uma comunicação incorreta em uma empresa! – Comentou ela, esfregando
uma mão na outra.

— Verdade! Quase colocamos para ir ao ar o que o cliente não desejava de forma alguma, só
por que um de seus funcionários mal informado entendeu exatamente o contrário.

— Ruídos organizacionais. – Os dois riram juntos.

— Bom. – Eu queria que me desse um suporte com relação àquela campanha que você deu a
ideia de fazer as fotos externas. – Thaissa estava tão tensa desde que ele entrou que nem percebeu
que prendia com excessiva força a caneta que encontrara na mesa quando entrou. Aliviando a tensão,
ela o observou melhor. Marcus parecia ter ignorado o acontecido, mas por que o fazia? – Pensou ela.
Bem, se ele preferia assim, ela o agradecia. Não era desejo seu falar de sua vida pessoal.

— Tenho arquivado em meu computador, algumas imagens de possíveis locais que podemos
visitar. Se desejar vê-las. Informou, mais à vontade.

— Claro que sim. Agora não terei disponibilidade, mas ficamos combinados pelos próximos
dias. Pode ser? – Thaissa concordou com um gesto de cabeça. — Me procure quando eu chegar. –
disse aparentemente apressado. — Após se despedir, ela retornou ao seu setor. A discrição de
Marcus muito a agradou e, naquele dia, ele tivera um ponto positivo com ela. Aliás, eram dois, já que
fora importante a presença dele no estacionamento quando a ajudou.

Letícia também agiu da mesma forma, mas, ao contrário de Marcus, ela estava representando e
quando lhe fosse favorável, colocaria suas garras para fora novamente. Thaissa esperava que isso
demorasse, assim teria trabalhado seu alto domínio um pouco mais e não permitiria que a outra
mulher a prejudicasse tanto psicologicamente como vinha fazendo.

Marcus preferira em nada questioná- la. Se fosse do agrado dela, teria lhe dito alguma coisa.
Como ela não o fez, ele também não faria. Seu maior intuito ao chama-la em sua sala fora de poder
ver melhor seu semblante para ter certeza se ainda estava mal, ou havia se recuperado. Pelo o que
percebera, Thaissa estava bem. Seu rosto parecia mais iluminado e belo. Marcus poderia trabalhar
mais tranquilo então.
CAPÍTULO 11

Dias havia se passado e nenhum atrito houve entre Thaissa e Letícia. A outra mulher se
mostrava amistosa e discreta. Embora Thaissa preferisse assim, preparava-se em todos os momentos
para quando ela tirasse a máscara.

Marcus tinha aprovado algumas das imagens que ela lhe mostrara, e naquele dia iriam a um dos
locais selecionados, o parque Flamboyant. Por opção de Marcus, seria no carro dele. Thaissa
preferia usar o seu, mas para não causar mal-estar entre eles, ela aceitou. Às 14h. Conforme
combinado, encontraram-se no estacionamento.

— Boa tarde Thaissa! – Cumprimentou Marcus quando ela se aproximou de seu carro.

— Boa Tarde! – Entraram e seguiram viajem. No trajeto, Thaissa observou as fortes mãos no
volante. Marcus parecia possuir muita segurança em tudo o que ela podia constatar que fazia. Durante
o pouco tempo que conviveu com ele, percebera algumas qualidades no colega, e todas eram
louváveis. Marcus era muito humano com todos em sua volta. Estava sempre disposto a ajudar no que
fosse preciso e tinha grande domínio sobre as coisas e pessoas. Mas ainda podia sentir certa recusa
da parte dele para com ela. O pré-conceito que fizera dela ainda estava vivo nele. Embora Marcus
não tivesse mais tocado no assunto, Thaissa acreditava que ele ainda pensava tolices sobre ela.
Desde que tais crenças não atrapalhassem suas vidas, profissionalmente, ela não se importava. Havia
coisas que não podiam ser forçadas as pessoas. Na hora certa ele chegaria à conclusão de que ela
não era nenhuma mulher classificada como periguete. Mas o que ele pensava sobre ela também não
era importante, em nada mudaria sua filosofia de vida.

Quando chegaram ao parque, Thaissa desceu animada. Era sempre bom visitar a natureza para
recarregar as energias.

Marcus a observou descer rapidamente. Havia muitas coisas em Thaissa que gostaria de
conhecer. Desde o primeiro dia que a vira, ela lhe passara algo bom, embora tivesse o olhar distante,
possuía muita alegria no rosto, na doce voz. Era uma pena não terem dividido algo mais concreto.
Ficaria para uma próxima ocasião, talvez.
— Podemos escolher uns três lugares diferentes aqui e montar o que precisamos. O que acha
dali? – Apontou ela para um canto cheio de ramos e variedades de flores e folhas.

— Parece bom! É preciso ver como ficarão através da lente. É nela que deve ficar bem. –
Marcus a acompanhou até o local e o observou melhor. De fato, Thaissa estava certa, poderiam ter
belas imagens naquele lugar. Observaram vários outros cantos antes de irem embora. Aquele fora um
dia lucrativo para ambos. Cada um pôde conhecer o outro além das estruturas da empresa. Ficando
certo que eram um pouco mais do que pensavam um do outro.

Thaissa gostava muito daquele lugar familiar, mas preferira não se empolgar muito para não
prejudicar a verdadeira intenção que tinham de estar ali. A água jorrando, os pequenos animais na
proximidade. Tudo exalava paz e serenidade. O que ela precisava e iria conseguir a partir de então.
Tiraram mais fotos da pequena floresta meio ao concreto e decidiram partir.

— Deixo você em casa? – perguntou ele, pois já era final de expediente.

— Meu carro ficou na empresa, se não fosse isso, eu aceitaria sim.

— Combinamos então que levo você para casa e amanhã te pego. O que acha? – O convite a
surpreendeu.

— Não há necessidade. – Agradeceu ela.

— A não ser que pretende sair hoje, então o carro lhe fará falta. – Thaissa o observou sem
nada comentar. Estaria ele fazendo insinuações? Pouco importava, iria aceitar a cortesia para
quebrar a certeza dele de que ela saia todas as noites.

— Tudo bem! Fazemos como você disse, mas não chegue muito cedo a minha casa. – Ele a
olhou sério, lembrando-se das vezes que a criticou pelo horário que chegava à empresa.

— Não se preocupe estarei lá no máximo 30 minutos antes. – Seguiram para a casa dela, e
quando lá chegaram, Thaissa agradeceu o passeio e saiu deixando-o parado por alguns segundos até
que deu partida e foi embora.

Naquela noite, Thaissa teve a oportunidade de estar com seu pai. Um fato raro nos últimos
tempos. Ela sabia e procurava compreender o motivo de tanta ausência dele.

— Pai, vamos jantar juntos? Quero falar com você sobre nossas vidas. – O pai estranhou o
convite da filha e por mais que desejasse recusar, não pôde fazê-lo e assim se encheu de coragem
quando se encontraram na sala de jantar.
— Você tem estado mais ausente ultimamente, pai. Está havendo algum problema que queira
dividir comigo? – Thaissa falara com devido respeito e carinho.

— Não filha! O que acontece é que, com a chegada de Marcus aqui, as coisas melhoram muito
e assim eu pude deixar de trabalhar somente dentro da empresa e passei a fazer outra coisa que gosto,
que é buscar novos clientes, entendeu? – Ele parecia inseguro ao falar.

— Claro que sim pai, mas como quase não temos tido tempo para nos falarmos, eu pensei que
havia algum problema. – Thaissa olhou o semblante abatido dele. Mesmo que desejasse acreditar no
que ouvia, algo lhe dizia que não era esse o motivo de o pai estar afastado. Ele, assim como ela,
ainda sofria pelos acontecimentos em suas vidas.

— Não precisa se preocupar filha, está tudo bem comigo. – Ele deu-lhe o melhor de seu
sorriso para agradar Thaissa.

— Tudo bem, pai. Eu só quero que saiba que em qualquer momento que precisar de mim, eu
estarei à disposição, como sempre estive. – disse ela amorosa.

— Eu sei disso, querida. Nunca me passou pela cabeça o contrário. – André não era muito
dado a carinhos, por isso ficou constrangido.

— Se alguma vez o fiz pensar que tenho algum tipo de mágoa ou rejeição de você, saiba que
isso não procede. Eu o amo e quero muito te ver feliz novamente, da forma que acreditar ser a melhor
para sua vida. – Pai e filha se levantaram e abraçaram-se ternamente.

— Obrigada pela dedicação, filha. Você é meu grande pilar de sustentação.

— E você também é o meu. – Afirmou ela abraçada a ele.

— Eu amo você, filha! – Foram raras às vezes em que Thaissa partilhou de afetos com o pai
depois que se tornara adulta. Ele se afastou e ela também, sem perceberem, mas aconteceu.

— Eu também o amo pai, e sempre terei esse sentimento por você, não se esqueça disso! –
Falou ela segurando a emoção na voz.

— Falando em viver a vida, não tenho visto você com Humberto. Não rolou nada? – A gíria
pronunciada por ele levou ambos aos risos.

— Iríamos jantar no final da semana passada, mas surgiu um imprevisto com um colega dele
que teve um acidente e foi preciso que o cobrisse na rede pública. Acredito que deva ficar toda essa
semana revezando com outros colegas.
— Puxa, a vida do rapaz é bem cheia. – falou o pai sentando-se novamente.

— O profissional em pediatria precisar estar sempre disponível em qualquer momento e lugar


para atender os pequenos pacientes. E agora que os grupos que atendem a planos e rede pública
tende a diminuir cada vez mais. Ficará sobrecarregado para aqueles profissionais que precisam ou
desejam atender a uma gama maior de pacientes. – Disse, lembrando-se do belo homem.

— É preciso mesmo gostar de algumas profissões, ou seria impossível exercê-las bem. –


Concluiu André.

— É verdade! – Concordou Thaissa.

— Logo ele consegue um tempinho para se encontrarem. Não se preocupe com a agitação dos
dias de hoje, toda profissão exige um pouco do campo pessoal. – Thaissa percebeu que o pai quis
confortá-la, mas não sabia ele que não havia necessidade. Thaissa e Humberto ainda eram bons
amigos e ela compreendia a situação dele. – Naquela noite conversaram animadamente como há
tempos não faziam. Quando ela foi descansar um pouco depois de seu pai se retirar, ela estava certa
de que aliviara o coração de seu velho e sofrido pai.

O sono não tardou a chegar, e ela pôde descansar como desejava há tempos.

Thaissa acordou mais cedo que de costume. Não deixaria Marcus esperando por ela um minuto
que fosse e para que isso não acontecesse já o aguardava pronta os 30 minutos antes, conforme
combinaram. Marcus logo chegou e seguiram para a empresa.

— Você está com uma cara bem melhor, Thaissa. O motivo seria porque tem um chofer hoje? –
Perguntou ele brincando.

— Não vou negar que estou muito satisfeita por não ter que dirigir nesse horário. – Disse ela
entrando na brincadeira. Eu acho até que vou contratar um motorista particular.

— Para onde devo enviar meu currículo? – perguntou Marcus sorrindo.

— Vou lhe passar o endereço assim que chegarmos à empresa e eu constatar que você está apto
à função. – O clima tornara-se pacífico entre eles e a conversa fluiu até que chegaram ao destino.

— O que achou? – perguntou ele quando entravam no estacionamento.

— Encaminhe ao meu e-mail que retornarei assim que possível – respondeu prontamente.

— Obrigado. Farei isso ainda hoje. – Thaissa o aguardou sair do carro para subirem juntos.
Antes, porém, ela verificou se seu carro se encontrava no lugar onde deixara.
— Obrigada pela carona. – Agradeceu assim que saiam do elevador lotado.

— Disponha! Quando precisar estarei à disposição. – Cada um seguiu para sua sala em busca
de trabalho para distrair suas mentes.

O dia fora muito tranquilo para Thaissa. Por vários momentos lembrou-se do semblante do pai
ao sair de casa enquanto ela aguardava Marcus, para mais uma visita aos clientes. Ele aparentava
melhoras em sua tristeza. Thaissa sabia que falar sobre o amor que tinha por ele o ajudaria. Não o
tinha feito antes porque sua mágoa ainda estava incomodando-a muito. Agora sabia que a cura de um
mal emocional se trata com amor e perdão.

Embora tivesse essa certeza e desejava praticá-la, ela sabia que não seria tão fácil em relação
a Letícia, como estava sendo com seu pai. A outra mulher não demonstrava qualquer sentimento que
levasse Thaissa a crer que ela merecia algo de bom. Mas ela sabia também ser necessário fazê-lo a
outra mulher sendo merecedora ou não. Afinal, o mal que sentia quando estava próximo de Letícia,
incomodaria muito mais a ela do que a outra.

À noite, Thaissa teve a grata surpresa de uma chamada de Humberto.

— Alô, Thaissa! Como está você? – perguntou ele assim que ela atendeu ao telefone.

— Boa noite, Humberto! Eu estou bem, obrigada. Pensei que suas crianças não o liberariam
mais, viu. – Brincou feliz por falar com o simpático amigo.

— Não consigo deixar um pequeno sentindo dor e ir para casa tranquilo, como se estivesse
tudo bem. – Ele disse com tanta verdade na voz que Thaissa ficou mexida com as palavras dele.

— Fico feliz em saber disso. — Vou indicar você para uma amiga. – disse ela lembrando-se de
uma colega de infância que estava prestes a dar a luz.

— Pobre de mim! – Brincou ele sorrindo. – Faça isso e peça para ela me procurar quando
puder sem se esquecer de me informar que conhece você. Estou muito sobrecarregado, e pelos
próximos seis meses não será possível aumentar minha lista de pacientes.

— Combinado então. – Falou ela abrindo um arquivo no notebook. – Acredito que não tenha
me ligado apenas para falarmos de seus pacientes, foi? – Thaissa começava a se sentir amiga do
rapaz e isso não era bom sinal. Dificultaria ainda mais engrenarem em uma relação amorosa.

— Na verdade eu gostaria de te convidar para aquele jantar que tivemos que cancelar. –
Lembrou-lhe.
— Vamos combinar, quando fica bom para você? – Ela preferiu dar a opção ao rapaz que tinha
sua agenda mais cheia.

— Amanhã estarei disponível, e foi por esse motivo que liguei hoje. – Ele fora direto, mas
mantinha na voz o mesmo carisma.

— Então estarei esperando você às 20 horas. – Confirmou Thaissa alegre com a possibilidade
de rever o pediatra.

— Combinado! – respondeu ele prontamente. — Agora a deixarei em paz para que descanse,
pois sei que é uma profissional muito exigida também. – Embora não houvesse o clima de sedução
rondando ambos, havia muita simpatia entre eles e Thaissa sentia-se feliz por tê-lo por perto,
ajudando-a a fugir de seus piores pensamentos.

— Boa Noite, Humberto! – Despediram-se e Thaissa voltou a sua pesquisa no Google, alguns
cenários que a pudessem ajudar na montagem do projeto externo que organizavam.

Após longa pesquisa ela se deixou vencer pelo sono e adormeceu.


CAPÍTULO 12

No dia seguinte Thaissa e Marcus foram a outro parque da cidade em busca de lugares. Dessa
vez escolheram o parque Vaca Brava. Onde por vezes Thaissa se refugiou nos momentos em que
precisava estar a sós com sua solidão.

— Conhecia este parque? – perguntou ela entusiasmada.

— Não! Mas quando vi esse nome na lista que me passou, me chamou muito a atenção.

— O nome é de fato engraçado, mas como nada surge sem uma explicação, segundo
informações aqui era uma fazenda de ocupação imprópria, e que passava o córrego onde passavam
muitas vacas e as mesmas atolavam muito nesse local. Ficando bravas por isso. – Marcus achou
graça do comentário dela. — Mas o nome real do parque é Sulivan Silvestre. Em homenagem a um
juiz por ter promovido uma ação pública, contra a ocupação aqui na região do parque, abrindo as
portas para criarem esse belo lugar.

— Interessante à história. Costuma vir aqui? – perguntou Marcus percebendo o grande apego
que ela demonstrou pelo local.

— Às vezes sim. – respondeu Thaissa sem dar detalhes.

— É muito bonito o lugar. disse ele observando o lago no centro com sua fonte, e a mata em
volta. — Não conhecia ainda. Aliás, já passei por aqui, mas sem observar muito.

— Tudo aqui é muito bonito. As espécies nativas. A fauna e a flora são encantadoras. – Thaissa
costumava fazer cooper em volta do parque antes de perder a mãe. Uma forte saudade tomou-a, mas
as lembranças eram muito boas para sentir tristeza. – Nesse local queriam construir um condomínio
de 12 prédios. Se tivesse acontecido essa catástrofe, perderíamos toda essa beleza para a instalação
de um monte de concretos. – Mais uma vez Marcus sorriu pela perplexidade que havia na voz de
Thaissa ao dar lhe a informação.

— Seria mesmo uma grande perda. – Marcus não costumava observar aqueles ambientes, mas
estava interessado no que ouvia. Quando dissera a ela que não havia percebido o parque fora a mais
pura verdade. Por vezes ele passara nas proximidades, mas nunca o viu como naquele momento. Nas
cidades grandes normalmente tem-se arranha céus e era com isso que ele estava acostumado em sua
vida profissional. Aquela estava sendo uma das poucas vezes que olhava como pessoa as coisas ao
redor e não apenas como empresário, em busca de boas oportunidades. Em Uberlândia onde poderia
também desfrutar de coisas como aquelas, Marcus nunca tinha tempo disponível e assim seguia sua
vida.

— Um bom fotógrafo conseguirá lindas imagens aqui. No entardecer então, seria ótimo. –
Thaissa ficou imaginando as possibilidades e nem percebeu a proximidade de Marcus. Quando ia se
virar para falar com ele, seus rostos ficaram tão próximos que podiam sentir a respiração um do
outro. Ficaram olhos nos olhos por alguns segundos inertes naquele lindo cenário romântico até que
Thaissa se aproximou e o beijo aconteceu. O sol já se punha e onde estavam, ficaram camuflados de
curiosos. Marcus a prendeu contra uma árvore e puderam sentir a explosão do momento de
forma mágica. Thaissa o abraçou colando seu corpo no dele, perdendo-se naquele instante. Seduzido
pela atitude positiva dela, Marcus enfiou seus dedos nos cabelos sedosos e a trouxe para um beijo
mais apaixonado. Ele descobria a cada beijo, que desejava aquela mulher como jamais desejou
outra. Insaciável, ele desceu seus lábios para o pescoço alvo e depois voltou a possuir a boca dela
com urgência causando em Thaissa um gemido sufocado de prazer. Ele se encaixou entre as pernas
dela e Thaissa pôde sentir o volume roçando sua intimidade, deixando-a trêmula. Mais uma vez, seu
corpo reagiu sem seu consentimento e ela forçou sua pele contra aquela rocha pulsante sentindo o
pulsar de sua feminilidade na mesma intensidade da dele. Marcus também gemeu enquanto a beijava
sem qualquer pudor, devorando a boca dela, deliciado. Segundos depois, quando sentiam que iriam
explodir caso não terminassem com aquela sedução ao ar livre, Marcus se afastou lentamente,
ajeitando os cabelos com a intenção de se acalmar um pouco. Thaissa ficou encostada à árvore até
suas pernas ficarem mais firmes.

Constrangida pela entrega, ela desviou a atenção para os bichos que circulavam o lago.

— Cheguei a ter medo dos patos, acredita? – Comentou ela, apontando para os animais com a
voz ainda rouca.

— Eles não possuem cara de quem costuma atacar. – falou Marcus duvidoso, arrancando um
sorriso dela. Ele a olhava com intensidade arrepiando-a.

— Eu sei que parecem inofensivos, mas fazer o que se eu tinha essa impressão. – Thaissa era
tão espontânea fora da Fênix, que Marcus se viu torcendo para que surgissem mais trabalhos externos
para fazerem juntos. Mas que da próxima vez fossem a um local mais reservado.

— Estou achando que esse ambiente é muito bom para o que desejamos fazer. – disse Marcus
olhando a sua volta. — Vou pedir ao Bruno que venha aqui dar uma observada com suas lentes, e ele
concordando, já optamos por esse espaço. – Concluiu ele olhando no relógio. – Nem percebi o tempo
passar. Vamos indo?

— Sim, vamos! – Thaissa o acompanhou lado a lado até o carro.

— Quer uma carona novamente? – perguntou Marcus quando liberou as travas para ela abrir a
porta do carro.

— Hoje não, obrigada. Irei precisar do meu carro. Se puder me deixe nas proximidades da
empresa. – Marcus olhou-a com o semblante sério.

— Deixarei você dentro da garagem do prédio. – Ela não quis insistir. Não desejava que
fossem vistos juntos novamente, mas preferiu não criar um clima ruim entre eles. Marcus parecia
decidido a deixa-la lá.

Quando ele chegou ao prédio Thaissa percebeu que eram observados, mas não conseguiu ver
por quem. A sensação aumentou quando ela desceu do carro.

— Obrigado pelo turismo! – disse Marcus quando ela descia.

— Não sou muito boa como guia turista, mas espero que tenha gostado. – Thaissa desceu e
acenou com a mão para ele, que a esperou entrar no carro e partiu. Ela seguiu para sua casa
apressada. Havia esquecido o jantar com Humberto, e por sorte, lembrou-se antes de Marcus
oferecer a carona.

Humberto chegou no horário combinado e Thaissa já o aguardava havia alguns minutos.


Tomara o banho e preparou-se em tempo recorde para estar pronta.

— Boa noite, Thaissa! Você está linda como sempre. – Falou ele dando um leve beijo no rosto
dela depois de observar discretamente o vestido fino e justo que ia pouco a cima dos joelhos
acompanhados por sandálias finas e delicadas. E completando com os acessórios discretos, que
harmonizavam o vestuário dela.

— Obrigada! Você também não fica atrás. – Uma das coisas que ela admirava nele era seu jeito
formal, mas nada exagerado. Humberto estava sempre em calça social de linho e camisas manga
longa dobrada até o meio do antebraço. A estatura também ajudava muito na boa apresentação dele. –
Concluiu Thaissa.

— Agradeço pela gentileza! – Disse ele abrindo caminho para que ela passasse. – Quando
chegava ao carro, Humberto abriu a porta para ela entrar e contornou o veículo.

— Como está seu pai? Não o vejo há algum tempo. – Ele sempre procurava por André. Esse
era mais um dos vários fatores que a deixava encantada belo homem.

— Ele está bem. Tem trabalhado mais fora que dentro da empresa. Ainda assim ele parece feliz
por poder sair um pouco daquele ambiente fechado.

— Dizem ser muito importante mudarmos nossa rotina empresarial de tempos em tempos para
aliviar o estresse. Há algumas empresas que fazem esse, digamos rodízios. Que além de ajudar no
bom desempenho da equipe, acaba por descobrir novos talentos em áreas diversas e servirão de
opção quando necessário. – Falou o médico.

— Eu acredito também nesse importante método. Para meu pai, pelo menos tem surtido efeito.
Ele parece mais disposto e alegre.

— E você quando entrará nessa nova política de trabalho? – Perguntou Humberto olhando
rapidamente para ela antes de voltar sua atenção para o trânsito.

— No meu caso é um pouco mais complicado. Não temos uma pessoa diretamente ligada as
minhas atividades, que possa me substituir.

— Essa é outra falha de muitas empresas. Eles não buscam qualificar outras pessoas para que
assim não sobrecarreguem apenas um ou dois colaboradores. Isso seria muito importante facilitaria e
muito a vida de todos, caso aconteça algum imprevisto e o responsável pelo cargo tenha que se
afastar por algum tempo. A empresa estaria preparada e continuaria sem nenhum problema com a
falta de alguém de sua equipe.

— Você tem razão, há empresas que quando falta um funcionário de função especifica, ela
simplesmente não funciona naquela seção. Ficam esperando pelo dia seguinte, quando aquele
trabalhador retornar. Não é brincadeira, isso acontece muito! – Falou ela vendo-o sorrindo.

— Eu sei que é verdade Thaissa, mas às vezes a forma como você diz as coisas, deixa-as
mágicas! – Falou ele colocando a última palavra em destaque.

— Espero que não me ache boba. Na verdade essa palavra que usou, não sei não viu! Estaria
me considerando uma bruxa? – Brincou ela.

— Não! Se algum dia eu precisasse lhe qualificar com algo, acredito que seria como uma linda
feiticeira e eu adoraria tomar a porção do amor feita por você. – Um sinal de alerta surgiu na mente
de Thaissa.

— Não acredito em porções. – falou ela sorrindo.

— Eu também não. A única magia que sei valer por todos os tempos e em qualquer lugar é a do
amor incondicional e verdadeiro. – O que fazer para se apaixonar por aquele lindo homem? –
perguntava-se Thaissa quando chegavam ao restaurante.

Após serem recebidos pelo garçom, foram levados para uma mesa onde sentaram-se e fizeram
seus pedidos.

— Como passou a última semana? – perguntou Humberto quando o garçom se afastou.

— Bastante produtiva e acelerada. – Falou Thaissa, ajeitando sua bolsa na cadeira.

— O novo sócio se adaptou à empresa ou foi preciso que vocês se adaptassem a ele? – Thaissa
lembrou-se de Marcus e não gostou muito. Ela ainda sentia os beijos dele queimando sua boca.

— Sim, ele se adaptou. Fizemos previsões precipitadas e não tivemos que alterar em quase
nada nossa forma de trabalhar. – Ela se viu defendendo Marcus. Mas na verdade falava apenas pelo
profissional e nesse ponto ele era digno de suas palavras.

— E o que achou dele? – perguntou Humberto.

— É um bom profissional. Colabora de forma bastante positiva para nossos projetos. –


Humberto a olhou curioso.

— Fico feliz que essa parceria tenha vindo para somar. – Você trabalha diretamente com ele?

— Não exatamente, mas dou suporte sempre que é necessário. – Ela desejava mudar de
assunto, não se sentia bem falando de um homem que mexia tanto com ela, estando com Humberto.

— Claro! – Olharam-se por alguns segundo até que Humberto pegou em suas mãos
acariciando- as.

— Eu sei que nossos poucos encontros foram puramente amigáveis, mas eu gostaria muito de
poder vê-la mais e quem sabe firmarmos uma relação. Sinto-me muito bem quando estou com você e
acredito ser um bom sinal para ambos. Claro, se isso também for seu caso. – Thaissa já esperava por
essa proposta. Saiam juntos há dois meses e logo ficaria chato fingir que eram apenas amigos.
Mesmo ela não desejando dar um passo à diante. Compreendia o desejo dele de fazê-lo.

— Para mim também tem sido muito prazeroso sair com você, Humberto. Peço apenas que me
dê um tempo sem que firmemos algo mais estável, pode ser? – Perguntou ela insegura, se devia ou
não dar esperanças para ambos.

— Como você quiser. – Ele acariciou as mão dela novamente e Thaissa sentiu um calor
agradável no contato. O garçom chegou com a refeição encerrando aquele momento mais íntimo entre
eles.

Durante o jantar, ela observou Humberto um pouco mais. Deveria dar uma oportunidade para
ambos. Não teria nada a perder principalmente por ele ser um homem cavalheiro e de boa família.
Iria dar-se aquela chance. Humberto era digno e estava dentro do esperado por ela em um homem.
Ele não era imprevisível como muitos. A própria profissão o classificava como um homem bom e
paciente. Thaissa não precisava de muito. Além disso, era costume do sexo feminino, procurar
sempre o mais complicado para se apegar, mas ela faria diferente. Empenhar-se-ia em ter uma
relação agradável com Humberto e não se arrependeria. Não iria dar espaço para esses deslizes que
muitas mulheres faziam e se arrependiam por longo tempo. Aquele era seu momento e aproveitaria.

— Gostaria que me visitasse no hospital um dia desses para lhe apresentar minhas crianças. –
Convidou Humberto.

— Será um prazer. Vou me organizar e combinamos depois por telefone. – Thaissa ajudava uma
associação que atendia a crianças e jovens, mas como ela não ficava próxima, não costumava visitar
os pacientes. Aquela poderia ser uma forma de conhecer um pouco mais sobre o universo infantil, e
quem sabe, ajudar mais.

— Ficarei esperando ansioso por sua visita. – disse ele gentilmente com seu sorriso ao estilo
Christopher Reeve, que encantava a todas.

Terminado o jantar, Humberto a levou para casa. Thaissa estava cansada e preferiu não
estender para uma boate. Seu corpo pedia descanso.

— Foi um prazer dividir o jantar com você! – falou Humberto quando a deixava em casa.

— Igualmente para mim. Obrigada! – Quando Thaissa tencionava sair do carro e entra em sua
casa, Humberto foi até ela e a beijou. O contato foi gentil. Ela o aceitou prontamente. Desejosa de
que aquele fosse um novo recomeço. Humberto a prendeu em seu corpo, firme, aprofundando o beijo
um pouco mais e ela retribuiu, embora em seu íntimo a sensação não se comparava com as sentidas
pelos beijos trocados com outro homem, que atormentava sua mente.

— Posso te ligar quando surgir à oportunidade de nos fazer uma visita? – Perguntou ele ao se
afastar dela.

— Ficarei aguardando. Peço apenas que não me avise com tempo inferior a 24 horas,
precisarei me programar.

— Combinando então. — Humberto lhe deu um selinho em despedida, e Thaissa saiu do carro.

Quando chegou a seu quarto, Thaissa lembrou-se do beijo que partilharam há pouco. Embora
não fora uma explosão de sentimentos o que teve quando foi beijada por Humberto. Ela sabia que
muitas relações podiam começar mornas e ficarem quentes com o tempo. Esse era seu desejo, ou
teria mais um problema em sua vida.
CAPÍTULO 13

Na manhã seguinte quando Thaissa chegou, ouviu um boato do qual não gostou. Haviam
espalhado pela empresa que ela e Marcus foram vistos saindo juntos do trabalho por algumas vezes e
que provavelmente estariam tendo um caso. A moça que lhe contara era uma de suas mais próximas
colegas de trabalho e Thaissa agradeceu a informação, deixando claro que tudo não passava de
boatos. A moça acreditara e ela seguiu para sua sala contrariada. Quando lá chegou, refletiu melhor
sobre a questão. O que desejavam ganhar com uma mentira daquelas? Pensava ela sem entender. Iria
até à sala de Marcus para saber se ele já tinha conhecimento do fuxico. Ao chegar, ela quase desistiu
de entrar. Ele estava em uma ligação, mas a viu e pediu em gestos que entrasse e aguardasse.

— Como assim eles não querem pagar pelo combinado? Então desfaça o acordo. Se não
aceitam, nós também não podemos fazer nada por eles. Foi o combinado. – Falava ele ao telefone
celular provavelmente com algum colaborador de uma de suas outras empresas. – Certo! Assim que
tiver uma posição me retorne. – Marcus desligou o aparelho, e quando seus olhos acinzentados
pousaram em Thaissa, ela sentiu um calafrio tomar conta de seu corpo, da mesma proporção de
quando se conheceram.

— Desculpe pela demora. Em que possa ajuda-la? – perguntou ele.

— Na verdade eu gostaria de saber se teve alguma notícia sobre o projeto. – Era óbvio que ele
não acreditaria naquela desculpa. Mas já havia dito!

— Ainda não, Thaissa. – Ele a olhava de forma mais penetrante. – Se veio aqui saber se estou
informado sobre os comentários que andam circulando por aqui, sim, estou sabendo. – Thaissa quis
esconder a cabeça entre as pernas. Agira de forma tão adolescente indo até lá. Deveria fingir que
nada sabia e aquela mentira passaria logo. Marcus parecia despreocupado e aparentemente
desinteressado no assunto o que a deixou menos tensa e, talvez, com uma pitada de descontentamento
pela reação dele.

— Você tem razão. Eu realmente vim por esse motivo. – Confessou ela mais calma.

— Não me importei nem um pouco com isso e acredito que você também não. Certo? – Marcus
falou com um sorriso de tirar o ar.

— Claro que não. Só queria saber se estava informado. – Tentou consertar.

— Certamente foi alguém mal informado que não sabia que estamos em um projeto juntos. E ao
nos ver sair nesses dias já fez conclusões precipitadas.

— Ou talvez alguém que quisesse nos deixar incomodados. – Falou ela.

— Pode ser. Mas não costumo me importar com essas coisas. Normalmente acontece uma hora
ou outra algo assim em empresas. – Ele parecia tão tranquilo que Thaissa chegou a se irritar com o
fato.
— Não sei se é seu caso, mas nunca aconteceu comigo por isso não gostei do que soube. –
Marcus a olhou com o mesmo jeito sarcástico que a irritara por vezes.

— Se preferir tornar esse boato oficial para não se constranger, podemos resolver isso. –
Aquele olhar malicioso deixou-a furiosa.

— Obrigada, mas não costumo fazer o que não quero apenas para agradar a maioria.

— Não quer só comigo ou com ninguém. Aliás, você já tem um namorado, não é mesmo?! Por
que não o apresenta aos seus colegas de trabalho e acaba de vez com esses comentários? – disse ele
sorrindo.

— Porque minha vida particular não desrespeita a maioria aqui. – Thaissa sentiu uma leve
vontade de se levantar e sair dali o mais rápido possível.

— Não sei o motivo, mas tenho a impressão de que essa sua relação é sem graça e não rola a
mesma química que acontece entre nós? –Thaissa ergueu a sobrancelha insatisfeita pela forma como
ele falou.

— Engano seu, ela é melhor que muitas que vejo por aí. Onde o que une as pessoas ou é apenas
o sexo, dinheiro ou status. Nenhum desses motivos me estimula em uma relação. – falou ela
lembrando-se do simpático Humberto.

— Filosofando, Thaissa. Você não é tola o suficiente para acreditar que uma relação sobreviva
sem algumas futilidades, acredita? – Ele insistia em contrariá-la.

— É claro que precisa de algum fogo, meu querido. Isso eu e qualquer pessoa sabemos ser
necessário. – Marcus tirou do rosto o sorriso que tinha ao ouvi-la fazer tal comentário.

— O sexo entre vocês é bom? – Tenho a impressão que você não faz isso há tempos. – Marcus
ergueu-se, deixando Thaissa nervosa.

— Me desculpe, mas já disse que não costumo divulgar minha vida pessoal para
desconhecidos. – Afirmou séria, olhando-o contornar a mesa.

— Talvez você não tenha uma vida intima para divulgar. – O fato de Marcus dizer com tanta
certeza a deixou furiosa pela audácia dele.

— Por acaso você dorme comigo para saber se tenho ou não vida sexual ativa? – Ele a olhou
com uma sobrancelha erguida.

— Língua afiada também é uma de suas qualidades? — É bom saber disso.


— Trato as pessoas conforme me tratam, simples assim. – disse ela começando a ficar insegura
diante daquela rocha a sua frente.

— E como trata seu namoradinho? – Ele insistia em falar de Humberto.

— Você não é capaz nem de imaginar. Ele é completamente seu oposto. – Marcus se adiantou
para o lado dela rapidamente. — Nos falamos depois! – disse ela se levantando assustada pela
reação dele.

— Por que não falar agora? – Aconselhou-a tapando a passagem dela.

— Já terminamos o que tinha a falar, não? – Marcus se aproximou um pouco mais observando
se ela recuaria ou não.

— Talvez não. – Ele ergueu a mão e tocou na face dela carinhosamente. – Não seria nada mal
se esses boatos fossem verdade, sabia. – Havia um brilho estranho nos olhos dele, que a assustou.

— Me deixe sair! – Thaissa começava a ficar preocupada com o que poderia acontecer ali.

— O que esse cara tem que eu não tenho? – Marcus sentia uma sensação desagradável em falar
de outro homem que estivesse tocando em Thaissa. Mas queria muito saber em que grau de
compromisso estava à relação deles. Embora algo o levasse a crer que não era intenso, como
acontecia com eles.

— Não vejo necessidade de fazer comparações. Não tenho nenhum tipo de relacionamento com
você que me leve a sentir a necessidade de tal reflexão. — Marcus levou a mão até os lábios dela e
os tocou suavemente com a ponta do dedo, estremecendo todo o corpo dela. Ele ergueu a mesma mão
que estava sobre os lábios de Thaissa e as colocou entre os cabelos. Pressionando o local
suavemente. O toque a fez reagir positivamente inclinando a cabeça. Marcus gostara da reação que
causara nela e pressionou um pouco mais o local para excitá-la. Thaissa sentia-se presa no lugar
onde estava sem conseguir reagir aquele contato. Embora disfarçasse, ela estava gostando do que era
submetida.

— Você é uma sereia encantadora, sabia? – Thaissa nada disse. Era ela quem estava sob o
encanto naquele momento. Marcus a acariciou novamente na nuca e trouxe-a para ele. Assim como
foram suaves os toques, o beijo também foi. Ele a enlaçou cobrindo toda sua cintura no abraço.
Aquela proximidade tirou quase toda a razão que restava em Thaissa. O contato terno dele em nada
se parecia com suas palavras hora ou outra. Marcus possuía a boca dela com tanta maestria que ela
chegou a pensar que estava ali, um cavalheiro disposto a toma-la em sua sela e fazer dela sua
princesa.

Não podiam negar a atração que crescia entre eles. Mas embora estivesse ciente disso, cada
vez mais Thaissa preferia não pensar no assunto. Por não compreender o porquê crescia nela cada
vez mais, tanto o desejo quanto a antipatia por Marcus. Queria apenas sentir aquele fogo que jamais
tivera com outro homem. Desejava descobrir-se nele, mesmo sabendo que poderia se arrepender
depois. A sede que sentia por ele era imensa e precisava matar sua vontade. Seduzida pelo beijo
devastador, Thaissa enlaçou o pescoço de Marcus, trazendo maior proximidade entre os corpos. A
respiração de ambos estava alterada, pelo desejo que crescia incontrolavelmente. Thaissa
compreendeu que assim como ela, Marcus também pressentia o que estava acontecendo entre eles.
Isso os deixava iguais naquele jogo.

O beijo continuou lento e prazeroso. Nenhum deles parecia querer parar. A magia que criara
era intensa e só foi quebrada quando perceberam a presença de alguém.

— Olá Letícia, precisa de alguma coisa? – perguntou Marcus se afastando calmamente para
alívio de Thaissa, que permaneceu parada onde estava.

— Me desculpe atrapalhar alguma coisa. Posso voltar depois. – falou ela seca.

— Se veio aqui é porque precisa de algo. – Ele disse ignorando o comentário sarcástico dela.

— Recebi um e-mail da empresa Pios, e gostaria que o visse. – A mulher olhou


disfarçadamente para Thaissa antes de entregar o papel a Marcus. Seu rosto de expressão fria e
fechada demonstrava sua ira por Thaissa estar aos beijos com Marcus, e não ela.

— Obrigado Letícia! Vou analisar e depois te dou uma posição. – A mulher pareceu vacilar um
pouco como se desejasse dizer ou fazer algo, mas desistiu e saiu sem olhar para trás.

— Agora sim, teremos problemas aqui. – falou Thaissa tentando disfarçar o turbilhão de
emoções que a cercava.

— Não vejo motivos para alarme. O que ela poderá comentar que já não estão falando por aí?

— Não imagino, mas acredito que logo saberemos. – disse ela, arrependendo-se por se deixar
levar por um desejo descabido por aquele homem que irradiava sensualidade e problemas.

— Ainda está de pé a minha proposta de entrarmos nesse jogo? Assim logo deixarão de falar
sobre nós. – Marcus tratava o assunto como se estivesse fechando um negócio e isso a incomodou.

— Não irei fingir algo por causa de fofocas. Além disso, não acredito que um beijo possa ser
motivo para firmar um compromisso. – Thaissa percebeu que ele a olhou de forma critica.

— O que pensava? Que apenas os homens não se prendem por um simples beijo. Nós também
evoluímos, sabia? Já aprendemos a diferenciar um ato sem grande valor de uma provável relação.
Isso já não é segredo para as pessoas que vivem no século atual. – Afirmou Thaissa, ao perceber que
ele não estava tão certo do que ela falara.

— Posso classificar meu beijo como um ato impensado então? – perguntou ele frio.

— Fica a seu critério. As minhas deduções cabem apenas a mim. – Marcus foi na direção dela
novamente.

— Vamos parar com isso! Não estou gostando desse joguinho seu. – Thaissa estava brava por
ele não dar-lhe ouvidos e dificultar as coisas. – Marcus foi até a porta e fechou deixando Thaissa
trêmula.

— Eu já fiz minhas conclusões, mas acredito que não tenha as suas ainda formadas, ou não
diria tantas besteiras. – Marcus pegou no queixo dela e a levou para ele esmagando mais uma vez a
boca dela.

— Fala olhando nos meus olhos que quando a beijo é apenas uma troca de experiência sem
valor emocional, fala! – Ele a olhava intensamente nos olhos como se estivesse diante de um inimigo.

— Pare com isso Marcus! Você só está dificultando as coisas. Solte-me, por favor! – Pediu ela
quase se derretendo diante daqueles olhos cinza, cheios de fogo e ardor.

— Eu quero ouvir! – pediu ele olhando na boca dela.

— Não vou entrar nesse seu joguinho. – falou ela também admirando a boca carnuda e bem
feita, daquele arrogante e sedutor homem das cavernas.

— Você não fala porque nem sabe ao certo o que quer. – Novamente Thaissa irritou— se por
ele se achar no direito de fazer deduções descabidas sobre ela. Não falaria nada para aquele
petulante. Para contrariá-lo, ela permaneceu calada olhando-o nos olhos. Inconscientemente, Thaissa
mordeu no lábio inferior chamando a atenção de Marcus.

— Sua tola! – Ele a beijou com violência esmagando os lábios dela com sua boca. Ao penetrar
aquele mar doce, Marcus a possuiu com tamanho desejo que a arrepiou toda. Ele parecia cego de
raiva e a prendia fortemente em seu corpo. A pressão do toque forte que deveria ter assustado
Thaissa, surtiu efeito contraio, e ela desejou ser tomada por aquele selvagem sem limites.
Um pequeno gemido saiu de sua boca, assustando-a. Estava excitada e nem mesmo percebera.
Suas pernas tremiam e seu coração batia acelerado. Marcus a encostou na mesa jogando o corpo de
Thaissa para trás apoiando-a sobre suas mãos que estavam nas costas dela. Sentir a pressão do corpo
dele sobre o seu, deixou-a fragilizada pela paixão que aflorava. Marcus empurrou com uma das mãos
alguns papéis para a lateral e a apoiou melhor sobre a grossa madeira.

— Por que não paramos com esse joguinho e aproveitamos o momento já que eu sirvo apenas
para isso? – Falou ele beijando o pescoço dela levando por terra as palavras que Thaissa iria
pronunciar. Em seguida ele firmou uma das pernas no chão e colocou a outra próxima ao corpo dela
sobre a mesa, prendendo-a com o joelho. – Sua vontade era arrebentar um por um dos botões da
roupa dela. Estava tão necessitado daquela mulher, e com uma ira enorme pelas palavras que ela
ousou dizer, que faria isso em um minuto se estivessem em outro lugar. Ele então abriu apenas um dos
botões deixando a mostra o belo soutien rendado na cor branca. Com a língua, Marcus percorreu o
vão entre os seios percebendo que Thaissa ficava cada vez mais excitada para ele.

— Quer ser minha Thaissa, eu sinto que sim. – Ele beijou a parte exposta dos seios dela
passando novamente a língua e deixando-a arrepiada.

— Como pôde dizer que não há nada entre a gente? Se um toque meu já te deixa arrepiada. Eu
te quero e você também me quer. — A camisa dele estava toda para fora da calça e Thaissa pôde
sentir a pele quente sob o tecido. Com as unhas, ela percorreu a extensão das costas onde podia
alcançar desejosa por sentir todo o corpo másculo sobre o seu. Marcus se encaixou entre as coxas
dela permitindo que ela sentisse sua excitação. O toque firme a deixou em brasas, levando-a a
consciência de que desejava desesperadamente ser possuída por ele. Marcus voltou a beijar em seu
pescoço e em seguida buscou a boca dela. Estavam agitados. Sabiam que poderia vir alguém a
qualquer momento, mas desejavam ardentemente finalizar àquele doce tormento que os estava
impedindo de se relacionarem bem profissionalmente. Quando ele enfiou sua mão sob o vestido de
Thaissa, ela sabia que não conseguiria resistir e aquele seria o último passo para ser possuída por
ele ali mesmo. Quando sentiu a mão forte contornando sua intimidade ela deu um leve gemido que o
deixou louco por tê-la em seus braços, pedindo para ser dele, somente dele. Quando Marcus
conseguiu tocar a pele sob a calcinha, o telefone tocou tirando-os do transe. Ele demorou um pouco
antes de se afastar e quando o fez, seu rosto estava vermelho e carrancudo.

— Alô! — disse ele após inspirar e respirar pausadamente. – Eu ainda não pude ver nada
Letícia. Darei um retorno logo. – Marcus ouviu alguma resposta e falou áspero em seguida. – Quando
estiver pronto te aviso, não precisa se preocupar e nem ligar perguntando, eu te procuro. Você deixou
os papéis não faz 30 minutos. – Ele estava visivelmente contrariado. – Thaissa aproveitou a deixa e
se ajeitou, trazendo à tona sua quase extinta razão.

— Não preciso nem perguntar se quer continuar de onde paramos, estou certo? – perguntou ele
com aparente frieza, depois de desligar o telefone.

— Acertou em cheio. – Falou ela passando as mãos sobre os cabelos. – E, por favor, não faça
isso novamente, nunca mais. – Thaissa abriu a porta e saiu rapidamente deixando Marcus com um
incômodo enorme em seu corpo.
CAPÍTULO 14

Thaissa estava curiosa quando retornou do almoço. Letícia teria comentado na empresa que os
vira aos beijos na sala de Marcus. Provavelmente, ela não diria nada, pois saberiam de onde veio à
informação. Crente de sua provável certeza, ela ficou um pouco mais tranquila.

Quando se instalou ela voltou a lembrar da paixão que dividira com Marcus, horas trás. Não
fosse Letícia os interferir, teriam feito amor desmedido sobre a mesa dele. O simples pensamento de
se ver sendo possuída por ele daquela forma a deixou levemente excitada. Seu corpo o desejava isso
já era claro, mas Thaissa não imaginava que fosse tanto a ponto de ver sua razão por terra em questão
de minutos, como acontecera. Precisaria estar atenta ou teria problemas por esse seu desejo insano
por aquele homem. Marcus não era o que ela precisava em sua vida. Havia outro homem que lhe
seria mais companheiro e terno. Ela precisava apenas convencer seu coração disso.

Thaissa organizava sua pasta de arquivos selecionando os documentos que seu pai lhe
solicitara antes de sair de casa, quando a sua maior preocupação na empresa entrou.

— Olá Thaissa! – Disse Letícia expressando em seus olhos a curiosidade e a raiva que parecia
estar sentindo.

— Oi Letícia, Precisando de alguma coisa? – Perguntou percebendo o olhar da mulher sobre


ela.

— Só lhe dar os parabéns. E dizer que no final você me convenceu de que não é muito
diferente de mim ou de outra mulher que procure se garantir na vida. Você parece ter conseguido um
bom partido. – Relatou a mulher com sorriso malicioso.

— Depende do bom partido ao qual se refere Letícia, se for aquele que é companheiro e de
boas condutas, você está certa. Agora, se está se referindo a um homem que me sustente independente
da história de vida dele, acho que está enganada em nos comparar.

— Tolices! Você sempre diz a mesma coisa, mas age como eu e tantas outras. – Retrucou
Letícia confiante de suas deduções.

— Pense o que quiser. Não me interessa o tipo de conclusão que faça de mim. Posso lhe
garantir apenas que não estou em busca de nenhum bom partido, financeiramente falando.

— Vou confessar uma coisa, aqui e agora Thaissa. Nunca disse isso a ninguém e espero que
pelo menos neste momento acredite, pois é uma de minhas verdades. Quando me envolvi com seu
pai, era lógico que o fiz pensando em me garantir financeiramente, mas o fiz também porque eu
queria uma vida nova para mim. Uma relação diferente das que já tive. — Thaissa olhou desconfiada
para a mulher, mas nada disse. Era importante ser bom ouvinte em momentos como aquele. — No
começo foi importante para mim, ter além da garantia financeira, a segurança emocional. Ter um
homem que me visse além do desejo carnal, como eu estava acostumada a ter em minha companhia.
Mas com o passar dos meses, eu vi que nada disso importava se não houvessem outras garantias. Eu
percebi que seu pai estava financeiramente abalado e isso mexeu com nosso psicológico, a ponto de
começarem as brigas e redução daquilo que eu já estava acostumada e ter ao lado dele. “Quando a
necessidade entra pela porta, o amor sai pela janela.” Esse ditado tem muito fundamento. Acredito
que até para você. Há diversas relações onde o amor impera e que são destruídas em questão de dias
pelo desequilíbrio financeiro. Vejo isso aos montes, e por isso não me sinto diferente da maioria.
Todos nós precisamos estar bem amparados monetariamente para que nosso emocional possa seguir
intacto. – Em partes, Letícia, estava certa, Thaissa teve que concordar, mas não era de tudo verdade o
que ela dizia.

— Não posso dizer que tudo o que você falou está errado, Letícia, Você tem razão em muito,
porém, quando amamos e queremos construir uma união estável e forte, precisamos também
colaborar com isso. Seu papel era apenas gastar o que meu pai tinha, sem nunca ajuda-lo a aumentar
o patrimônio. Essa é a grande diferença entre mulheres como você e eu. Vocês não ajudam a levantar,
fazem o contrário. Por isso quando percebem que o que as mantem felizes está sendo reduzido, vocês
pulam fora sem se importar com os sentimentos. Uma parceira de verdade é algo que uma amante
raramente será. Uma companheira dificilmente abandonaria o barco sem dar sua parcela para que ele
se ergue e flutue calmamente sobre a tempestade. Pode me chamar de tola e antiquada, mas eu não
posso aceitar essa sua ideia de que o amor não vive sem a estrutura financeira. Ele sobrevive, sim, a
ponto de aliviar a caminhada quando as coisas andarem mal. Não é no saldo bancário que está à
felicidade. Ela está no desejo de fazer e construir um porto forte, onde possamos retornar todos os
dias em busca de descanso, e claro, um pouco de conforto que todos deveriam sim ter. – Embora
Thaissa estivesse certa de que suas palavras não teriam efeito sobre a outra mulher, ainda assim, ela
se sentiu no dever de falar.

— Você acabou de dizer o que eu falei. Conforto é necessário. – Teimou a mulher sem dar
valor ao que fora dito anteriormente.

— É claro que ele é importante, Letícia, mas esse conforto pode, hora ou outra, ser abalado e
nem por isso se deve jogar por terra tudo o que fora construído enquanto havia estabilidade
financeira. E já que está falando sua verdade, irei dizer a minha. A mágoa que ainda tenho por você,
não é em maior parte por ter tirado meu pai de minha mãe, no momento em que ela mais precisou. Eu
sei que minha mãe mesmo em seu sofrimento entendeu o que ele fez. Para mim, a sua maior falha foi
abandoná-lo quando ele precisou de você. Ele teria se erguido novamente se o seu abandono e a
culpa não o tivessem destruído. Essa foi sua grande falha.

— Você não sabe o que é viver grande parte de sua vida na miséria, tendo homens usando-a
apenas para seu prazer e nada mais. – Reclamou a mulher.

— Você tem razão em dizer isso. O fato de ter vivido dessa forma não é suficiente para criar
situações que nunca a afastem dessa realidade que viveu. Porque é isso o que deve estar fazendo.
Você acha que agindo assim, se livra do passado que viveu. Mas na verdade eu acredito que só
consegue se prender mais a ele. O dinheiro e status colaboram muito, não posso ser tola a ponto de
negar isso, porém jamais será o suficiente para nossa realização plena. Nós duas conhecemos pontos
diferentes da vida. Uma, busca incessantemente o que não teve, acreditando que isso é felicidade. A
outra busca algo verdadeiro que faça valer o que sempre teve, mas que não é o suficiente. – Aquele
bate papo mesmo sabendo não ter validade para Letícia, estava trazendo conforto para Thaissa. Ela
podia desabafar o que guardava pela mulher sem que com isso precisassem travar uma batalha de
ofensas. Era uma conversa informal que, se ambas soubessem, aproveitar as ajudaria e muito em suas
vidas.

— Temos perspectivas diferentes e idades diferentes também, Thaissa. Quando chegar onde
estou talvez não esteja pensando como hoje. – Falou Letícia menos agressiva.

— Espero mesmo não estar pensando igual agora. É sinal que aconteceram mudanças em mim,
mas desejo que eu esteja mais evoluída, pois assim terei absoluta certeza de que melhorei meus
pensamentos e não regredi como muitos o fazem. – Thaissa não disse tais palavras com o intuito de
ofender a outra. Letícia pareceu compreender.

— Vou te dar um conselho, aproveite a situação. Amanhã ou depois você pode não ser mais a
preferida, e então... – A mulher ia continuar com sua orientação infundada quando Thaissa a barrou.

— Então serei jogada fora e estarei livre para a caça novamente, é isso? – Thaissa olhou
penalizada para Letícia. – É uma pena ver uma mulher tão bonita se dando tão pouco valor, mas se
acredita nisso, tudo bem. Agora preciso trabalhar! – Disse ela vencida, ao perceber que Letícia não
absorveu nada do que falaram.

— Claro! Estou saindo. – Thaissa nem se deu ao trabalho de confirmar se Letícia havia se
retirado ou não. Estava muito ocupada para se preocupar com pessoas vazias como a colega de
trabalho. Embora fosse ainda difícil para Thaissa recomeçar com suas atitudes com relação à outra
mulher, ao final de cada confronto em que ela se portava de forma inteligente com Letícia, podia
sentir algo bom florescendo dentro de si. Era fato que após a chegada de Marcus, a outra ficara mais
insuportável, provavelmente por que ela desejava ter dele o que tivera de alguns homens, e via em
Thaissa uma provável rival. Lembrando-se de Marcus, ela deu um suspiro de alívio e preocupação.
Ele podia não saber, mas a estava ajudando muito com suas broncas. Com isso ela aprendia a se
controlar e vencer aquele que era seu grande tormento nos últimos anos. Sim, Marcus a estava
ajudando psicologicamente a vencer aquela dor. No entanto, por outro lado, ele a estava deixando
perturbada por não conseguir controlar a paixão que imperava sobre eles. Eram dois sentimentos que
a unia fortemente a ele. Devendo apenas o primeiro ter bons resultados. Ela estava crente nessa
certeza e por ela lutaria. Marcus não era homem para sua vida e nem ela para a dele. Começaram mal
e dificilmente o que assim se iniciava teria um desfecho bom. Seriam duas suas barreiras a vencer e
ela conseguiria, embora começasse a acreditar que vencer aquela paixão estava ficando cada vez
mais difícil.

O dia terminou e nenhuma das colegas de Thaissa fez qualquer comentário. Embora aliviada,
ela sentiu certo pesar por Letícia não ter divulgado o que viu, não sabia o porquê, mas sentia. No
entanto, já esperava que nada fosse comentado. Se a mulher o fizesse, tanto ela, quanto Marcus teriam
fortes suspeitas sobre o criador da história sobre os dois estarem tendo um caso anteriormente.

A noite fora tranquila para Thaissa. Embora se sentisse angustiada por não tirar de sua mente o
que tivera com Marcus. Um alívio a rodeava, pela conversa que teve com Letícia. Mesmo ciente de
que a mulher tinha um ponto de vista equivocado da situação. Thaissa agora sabia que a outra
acreditava em algo, e se o fazia errado era por crer muito nesse ideal. Não que justificasse as
atitudes de Letícia. Nenhum mal era justificável, mas o julgamento alheio também não era. A única
coisa que ela deveria e iria fazer era evitar que Letícia continuasse prejudicando a si e a seu pai. Isso
lhe seria o suficiente. As ações negativas da outra mulher deveriam refletir apenas na vida dela.

Na manhã seguinte começava mais um dia de trabalho e provações para Thaissa. Ela chegou à
empresa consciente disso. No entanto, quando soube que Marcus havia viajado, algo a incomodou.

— Marcus pediu que a informasse de que deve retornar no sábado se tudo correr bem e pediu-
me que a avisasse que trabalhasse no projeto que estão juntos, se fosse possível. – Disse a secretária.

— Obrigada pelo recado, Paula. Irei fazer isso. Bom dia! – Após cumprimentarem-se Thaissa
seguiu para sua jornada.

Não fosse o fato de Marcus estar viajando ela necessitaria ir a sala dele para rever alguns
pontos de vista sobre alguns tópicos. Mas não poderia fazê-lo até a próxima semana. Ela os deixaria
sublinhados, para quando ele retornasse.

À tarde, Thaissa recebeu um telefonema de Humberto, o que a agradou muito.

— Thaissa surgiu à oportunidade de você visitar nossas crianças que fazem tratamento aqui no
setor de pediatria do hospital Araújo Jorge. Estaria disposta? – O convite fora feito e ela o aceitaria
de prontidão.

— Estarei lá com certeza, Humberto. Qual horário eu posso ir? – Quis saber animada.

— Às 14h fica bom para você? Nesse horário estarei livre e poderei lhe mostrar melhor o
desenvolvimento do processo aqui.

— Para mim está ótimo! Combinado então.

— Ficarei muito feliz por sua visita, e claro, por poder vê-la novamente. – Disse o belo
homem ao telefone.

— O prazer será também meu, Humberto. – Boa tarde! Vemo-nos no domingo.

— Boa tarde, Thaissa! Até lá. – Após desligar o telefone ela ficou mais animada. Iria ver de
perto a vida daquelas crianças guerreiras e tentar ajudar de alguma forma. Mesmo que apenas
financeiramente, por enquanto.
CAPÍTULO 15

Marcus olhava constantemente o relógio de pulso. Esperava chegar logo em Goiânia. Caso o
voo não tardasse muito iria convidar Thaissa para discutirem uma parceria que firmara em um jantar
naquele dia, mas precisaria fazer o convite pela manhã para não prejudicar algum compromisso dela.
Certamente, ela iria ver o homem com o qual falara no telefone caso estivesse livre. Aquela
constatação o incomodou além do necessário. Ele havia estado fora da cidade por dois dias e sentia
a falta de algo, embora seu íntimo lhe desse a resposta, ele preferia ignorar. Convidaria Thaissa com
o intuito de adiantarem alguns assuntos, caso chegasse a tempo. Ele andou de um lado ao outro e
quando se sentava, fora informado que o voo atrasaria, impedindo qualquer compromisso que ele
tivesse a intenção de ter naquela noite. Contrariado ele foi buscar maiores informações.
Thaissa saiu cedo de casa. Iria aproveitar o sábado e fazer uma caminhada às margens do lago
Vaca Brava onde estivera com Marcus. Quando chegou havia poucas pessoas, o que a animou um
pouco mais.

Fez o trajeto conforme sua disposição física, e quando se sentou para o descanso, corpo e
mente estava mais aliviado. Precisava retomar o costume de caminhar ali. Seus dias agitados
mereciam ser preenchidos com algum exercício.

Thaissa olhou a sua volta revendo na memória os passeios pelo parque com sua mãe quando
ela já estava bem debilitada. As lembranças a deixou entristecida. Talvez fosse esse o motivo para
ter se afastado dali. Doía muito estar lá sem sua companheira, mas naquela manhã assim como nas
últimas que havia estado naquele local, algo mudava em seu íntimo. Não que Thaissa estivesse se
esquecendo do que vivera, mas ela sentia-se mais disposta a deixar a vida seguir e permitir que a dor
fosse embora, restando-lhe apenas a boa saudade do que foi especial em sua vida.

Após tomar um pouco da água que levara, ela reiniciou mais um trajeto, que seria o último,
pois o sol começava a incomodar.

Em casa, após o banho, Thaissa foi tomar um café reforçado, sozinha. Seu pai sempre fora
muito exigido pelo trabalho e pela vontade de vencer na vida. Com isso, tanto ela quanto sua mãe
acabou por se acostumar com o fato, mas naquele momento, se não fosse a querida e já antiga
funcionária lhe fazer companhia, Thaissa não teria tido ânimo para ficar ali.

— Meu pai tem estado mais ausente que de costume Ana, ou sou eu que estou ficando carente?
– perguntou sorrindo.

— Acho que está sentindo mais a falta dele, só agora, minha filha. Mas devo lhe dizer que isso
acontece há bastante tempo. – Informou a velha senhora.

— Vou cobrar isso dele, afinal, somos apenas nós dois e precisamos conversar mais vezes
sobre nós, nossas vidas. – Lembrou Thaissa.

— Você tem razão menina. Faça isso. – Conversaram por longos minutos até que Thaissa saiu
da cozinha para não atrapalhar Ana em seus afazeres.

No final da tarde, após colocar um projeto em ordem, ela organizava seu escritório em casa
quando seu telefone tocou.

— Alô! – disse sem reconhecer o número que ela nem se deu o trabalho de verificar mais que
uma vez.
— Boa tarde, Thaissa! – falou Marcus do outro lado.

— Boa tarde, Marcus! – disse ela surpresa ao reconhecer que se tratava dele no outro lado da
linha.

— Como vão as coisas na empresa, alguma novidade? – Ela percebeu certa excitação na voz
dele.

— Tudo está bem, não tivemos nenhuma novidade ou contratempo – respondeu ela.

— Como você sabe, eu estive viajando por esses dias e tive a oportunidade de fazer contato
com um conhecido meu em Belo Horizonte, e fiquei sabendo que ele tem uma empresa aqui em
Goiânia, então eu o convidei para divulgar conosco. Gostaria de saber se você tem disponibilidade
para tratarmos sobre mais esse assunto? – Marcus esperou ansioso pela resposta dela.

— Claro que sim, podemos combinar na segunda-feira e falamos sobre ele. – Marcus sentiu
uma imensa vontade de puxar as orelhas, mas devia saber que não facilitaria um encontro com ele
fora do expediente.

— Então ficamos combinados! Discutimos a questão na próxima semana. – Ele queria convidá-
la para jantarem juntos naquele dia. O que desejava ter feito no dia anterior. Provavelmente ela já
tinha algum compromisso.

— Estarei aguardando. – Thaissa ficou muda esperando uma resposta, e Marcus também ficou
calado, deixando a linha sem qualquer ruído. – Foi bem de viagem? Conseguiu resolver o que
precisava? – perguntou ela para puxar assunto.

— Sim. Conclui tudo o que fui com intuito de resolver.

— Que bom, fico feliz por você. – disse sinceramente.

— Obrigado. Tenha um bom descanso, Thaissa. Falamos-nos depois. – Despediu-se dela


Marcus.

— Obrigada! Para você também. – falou ela ainda sem entender o porquê de ele ligar para
falar sobre um assunto que poderia aguardar. Talvez quisesse dividir com ela mais esse parceiro
conquistado. Não haveria outro motivo, ou teria? Não, era apenas e tão somente isso!
CAPÍTULO 16

Thaissa chegou bem cedo ao hospital. Vestia camiseta regata e short de malha com tênis.
Gostava de ficar bem à vontade em ocasiões como aquela, e assim, poderia aproveitar melhor o
passeio.

Quando Humberto a avistou, um sorriso surgiu em sua face.

— Seja bem-vinda, Thaissa! – Cumprimentou, beijando-a na face. Havia muitas pessoas por
ali e ela compreendeu a reação amistosa dele.

— Eu que agradeço a oportunidade, Humberto. – Ela estendeu o cumprimento aos presentes.

— Venha! Vou leva-la para conhecer o setor de pediatria. – Ela o acompanhou até o quarto
andar onde se localizava o setor de oncologia pediátrica. Assim como acontecia com sua mãe,
Thaissa percebeu que a maioria das crianças, que se encontravam internadas, pareciam mais fortes
do que deveria. Havia brilho em seus sorrisos e vontade de viver em seus olhos.

— Aqui são atendidas crianças de 0 a 18 anos. – Falou Humberto ao seu lado. — Para você ter
uma noção da importância desse projeto. Em 2012 foram atendidos cerca de 951 pacientes. Entre
consultas, internações e procedimentos quimioterápicos, ao mês. – Thaissa ouvia a tudo, mas não
podia deixar de observar também a sua volta e por vezes sentiu-se tão pequena por alimentar uma
angústia duradoura e infeliz. Devido à mágoa que alimentava.

— Atendem outras regiões aqui Humberto, ou essa quantidade é apenas estadual? – quis saber
ela.

— Como somos referência e cerca de 80% dos atendimentos são pelo SUS, há grande
quantidade de pacientes vindo de toda a região centro-oeste. Além daqueles que são da Bahia,
Alagoas, Rondônia, Ceará dentre outras diversas localidades, o que muito nos honra. Porém,
sobrecarrega muito também. Tanto financeiramente como no quadro de atendimento. – Ela ouvia a
tudo refletindo sobre a possibilidade de fazer doações o mais rápido possível para aqueles anjos.

— Eu percebi algumas crianças com cadernos nas mãos. – afirmou ela, acompanhando-o.

— Aqueles que estão sob cuidado constante e não podem frequentar a escola tradicional,
recebem aulas aqui mesmo – respondeu ele pegando na mão dela carinhosamente. – Tentamos igualar
o máximo possível essa realidade ao mundo que crianças precisam para se desenvolverem bem.
Temos musicalidade, visitas de profissionais do riso e tantos outros benefícios a fim de tornar o
menos sofrido possível, o período em que eles precisam estar sob nossos cuidados. – Informou ele.

— Como conseguem manter os projetos que sei que possuem? – questionou Thaissa
interessada.

— Não temos ajuda governamental para esse fim, por isso os projetos sociais são todos
custeados pela ACCG – respondeu ele mais sério.

— Vou providenciar meu cadastro para começar a ajudar também. – Ela estava animada e
decidida a fazer sua parte.

— Será muito bem vinda sua colaboração. Os recursos são poucos se comparados ao que
desejamos fazer, e quanto maior a ajuda, mais nós poderemos fazer – concluiu ele.

Thaissa o acompanhou um pouco mais até finalizarem a breve visita.

— O que achou desse período em que passou com aquelas crianças? – perguntou Humberto
depois de saírem do setor de oncologia.

— Foi uma experiência única, Humberto. Eu já havia aprendido muito sobre o câncer, por
minha mãe ter sido vítima dele. Mas ainda assim evoluí um pouco mais sobre o valor das pessoas e a
vida. Damos tão pouca atenção ao que de fato é importante em nossa caminhada. E quando nos
deparamos com situações como essas, é que vemos o quão frágeis somos nesse universo. E ainda
assim nos damos ao direito de nos sentirmos superiores a tudo e a todos. Concluindo, eu penso que
essas crianças vêm ao mundo para nos ensinar um pouco sabe. E deveríamos presenciar situações
como essas com mais frequência, ajudando e aprendendo com elas, porque há muitas lutas,
sofrimento e esperança em cada história de vida que encontramos ali.

— Eu também vejo por esse ângulo e posso te garantir que convivendo com essa realidade, eu
me dou por satisfeito com tudo que tenho a minha volta. Inclusive, não reclamo mais da vida como
fazia quando jovem, antes de minha profissão. – Não seria necessário que ele fizesse o comentário,
sempre esteve claro para ela o grande homem que Humberto era.

— É muito mais simples viver assim que ficarmos criando situações e problemas para
reclamarmos depois. – Continuou ela.

— Eu que o diga. Acredito que todos precisamos levar alguns tombos para aprendermos.
Parece mais lógico crescer com o sofrimento, mas seria muito mais fácil se tomássemos questões
como essas como aprendizado, não sendo preciso sofrer para isso. Mas a natureza humana é
complexa demais.

— Sou muito grata a você por me levar a conhecer aquele espaço, Humberto. – Agradeceu
Thaissa feliz.

— O prazer foi meu de partilhar daquele momento com você. Percebi que uma sementinha foi
plantada aí, e não há ganhado maior que esse, para alguém como eu que luta diariamente pelo bem
das pessoas, em especial de crianças. – Humberto pegou carinhosamente nas mãos dela.

— Eu me informei e quero muito ajudar de alguma forma. A princípio irei ser colaboradora
financeira da instituição que cuida daqueles pequenos heróis no ACCG, e quando puder quero estar
mais presente de alguma outra forma. – Thaissa estava animada.

— Faça sim. Vá ajudando conforme suas possibilidades, que é sempre bem— vinda qualquer
pequena atitude, desde que sejam boas. – Humberto ainda pegava na mão dela. – Eu estive
analisando algumas coisas Thaissa e gostaria de fazer uma pergunta a você. – Ambos olhavam-se
carinhosamente. – Há outro homem ocupando sua mente? – A forma generosa que ele lhe falou,
deixou-a desarmada.

— Talvez, Humberto – disse constrangida com a situação. Ele se tornava uma pessoa muito
especial.

— Não se sinta culpada com isso, ok? – disse ele apertando os dedos dela com gentileza. – Eu
percebi que havia algo impedindo você de seguir em frente e firmar um compromisso comigo. Eu não
estava enganado, eu sabia que poderia ser um homem, mas não me importei, porque valeria a pena
insistir. – Thaissa espirou derrotada por não conseguir fazer o mesmo que ele e lutar por ambos.

— Eu sinto muito, mas não consegui fazer o mesmo que você.

— Não se preocupe minha querida, está tudo bem! Na verdade, eu agradeço por você não ter
entrado de corpo e alma na nossa relação sem ter certeza de que era exatamente isso o que desejava.
Durante nossos encontros, eu sempre torci para que mudasse suas atitudes, eu confesso. Mas a
admirava cada vez mais por não se deixar render enquanto não estivesse segura. Olhando-a agora e
desde que começamos a sair juntos, eu acredito que será melhor se você tiver seu tempo. Sem
pressão, enquanto outra coisa estiver incomodando-a. – Humberto colocava um final no breve
namoro deles e embora Thaissa sentia-se mal, ela o agradecia pela grande percepção e maturidade
dele.

— Você é um homem muito digno, Humberto. Eu espero que alguma boa mulher perceba isso. –
falou ela sinceramente.

— Eu também espero minha querida. — Com as mãos entrelaçadas, eles sorriam


carinhosamente um para o outro.

— Se precisar de mim, ou sei lá, se mudar de ideia e descobrir que posso ter uma chance, me
avise. – pediu ele.

— Prometo que farei isso. – Levantaram-se e deram um ao outro um forte abraço selando uma
nova amizade.

Em casa, Thaissa se lembrou do grande homem com o qual esteve por alguns momentos.
Sentiria falta de Humberto. Embora tivessem sido poucos os encontros deles, o rapaz era de uma
humanidade única. “Que bom seria se metade da classe masculina se comparasse a ele.” Ela
pensou sorrindo quando ia para o banho aliviar o calor daquele dia.
CAPÍTULO 17

Quando Thaissa chegou à empresa, seu pai que chagara de viagem naquela manhã, foi procura-
la.

— Bom dia, filha! – Como passou os últimos dias? – perguntou ele quando ia abraça-la.

— Passamos bem, pai! Sem muitas novidades que você já não saiba. – Embora estivessem
ainda em processo de evolução um com o outro, o afeto sempre esteve presente na relação entre pai e
filha.

— Sendo assim, tudo bem. No meu caso, tenho novidades. – Disse ele sentando-se a frente
dela. — farei uma viagem, e durante minha ausência, eu gostaria que você resolvesse as questões não
burocráticas que couberem a mim. – Informou ele.

— Tudo bem! Eu já fiz isso outras vezes. – falou ela sorrindo. – Mas quando pretende ir? –
quis saber curiosa.

— Hoje à tarde eu já não volto mais à empresa. – Algo nele lhe chamava a atenção.

— Tão rápido! Está acontecendo algum problema que eu não saiba? – perguntou Thaissa sem
disfarçar mais sua preocupação.

— Não, filha. É apenas uma viagem de negócios que não pode esperar. – falou ele sorrindo.

— Quando você retorna? – Enquanto perguntava, ela observava o pai esfregando levemente
uma caneta na mão.

— No final da semana, acredito. – informou ele pegando alguns papéis sobre a mesa
entregando-a. — Aqui tem alguns balancetes e gostaria que os visse, pode ser? – Thaissa pegou os
documentos, ainda desconfiada.

— Claro que sim! – Como o pai parecia ter encerrado o assunto, ela se despediu dele com um
beijo na face já envelhecida e retornou para seus afazeres.
Enquanto revia os arquivos que levara, Thaissa continuava intrigada. Seu pai parecia
preocupado com alguma coisa, embora tentasse disfarçar. Seria aquela viagem, algo motivado por
problemas na empresa!? Ela não conseguia acreditar nessa possibilidade, já que sabia muito das
questões que envolviam a Fênix, e nada lhe passava despercebido com facilidade. Algumas poucas
coisas da vida financeira dela não eram de sua ossada, por Thaissa preferir respeitar os limites que
cabiam a ela, ainda assim estava curiosa pela forma pelo qual seu pai lhe falara há pouco. No
entanto, não lhe restava alternativa que não fosse aguardar para ter uma resposta concreta.

Thaissa organizava a planilha de compras para as próximas semanas quando Marcus apareceu.

— Eu soube que irá substituir seu pai por alguns dias com as tarefas aqui da empresa. –
afirmou ele.

— Sim, eu irei. Há alguma coisa que necessite de minha ajuda? – perguntou fingindo não se
lembrar do que acontecera com eles na semana anterior.

— Não. Está tudo em ordem agora. Com relação àquele projeto que falamos no final de
semana, deixamos para quando for possível já que terá tarefas extras por esses dias.

— Tudo bem! — concordou, sem olhar nos olhos dele. Marcus a observava calado, assim
como ela, ele também estava visivelmente mexido pelos últimos acontecimentos entre eles. E para
variar, mais uma vez, Letícia surgiu para quebrar o clima.

— Seu pai deixou alguns documentos para mim? – perguntou ela, após um leve aceno de
cabeça para Marcus.

— Aqui estão! – Thaissa ergueu a papelada para ela.

— Obrigada, Thaissa. – disse a mulher séria. Porém quando olhou para Marcus alargou o
sorriso. – Você está sumido, caso precise de algumas informações estou à disposição para ajudar. –
Thaissa observava a cena sem esboçar qualquer reação que fosse.

— Obrigado, Letícia. Estou me virando bem e não seria justo ficar incomodando você e
Thaissa o tempo todo, com meus questionamentos.

— Ainda assim, se precisar... – insistiu a outra.

— Obrigado. – A mulher saiu deixando para trás um cheiro bom, que Thaissa aprendera a não
gostar.

— Como passou seu final de semana? – Marcus desejava perguntar se esteve com outro
homem, e se esquecera do fogo que os consumiu dias atrás, mas não faria uma pergunta descabida
daquelas, mesmo desejando muito.

— Foi bastante tranquilo e com bons momentos também. – A curiosidade ficou estampada no
rosto dele. — Estive no Hospital Araújo Jorge, e pude conhecer e acompanhar crianças que fazem
tratamento contra o câncer. Foi uma experiência bastante positiva para mim. – Os olhos dela
brilharam ao fazer o comentário.

— Deve haver centenas de pequenos grandes guerreiros por lá. – falou Marcus dando— lhe um
sorriso amistoso.

— Sim, muitos. Crianças de todas as idades tendo de conviver com a químio e com as
incertezas da vida. E isso tão jovem ainda. Segundo Humberto, passam por lá centenas de crianças
em tratamento todos os anos. – A visita ainda mexia com ela.

— Humberto é o médico que trata delas? – quis saber Marcus.

— Não necessariamente. Ele é voluntário e pediatra em outra unidade e costuma fazer visitas
com frequência para elas. Levando um apoio e um sorriso amigo. Isso já ajuda muito.

— Seu namorado deve ser um privilegiado por conviver com pessoas fortes assim. Certamente
ele sempre aprende algo de bom. – Thaissa parecia muito mexida com a situação e Marcus
simpatizou-se por vê-la assim. Uma pontada de ciúmes o atingiu ao constatar que outro homem
proporcionara a ela aquela experiência de vida.

— Sim, ele é. – Thaissa não comentaria com ele que o namoro dela com Humberto não
vingara. Mas a amizade, essa se fortaleceu durante o período em que saíram juntos. — Mas ainda é
muito pouco. Se mais pessoas se interessassem pela causa, seria muito melhor e mais fácil para
aqueles pequenos exemplos de persistência e vontade de viver. – Ouvi-la confirmar que se tratava de
seu namorado, deixou Marcus mexido. Mas aquele não era o momento para nutrir sentimentos
negativos por alguém que fizera tanto bem a ela.

— Quando tiver mais notícias, me informe. Não há ainda nenhuma instituição aqui em Goiás
que eu ajude. Gostaria de poder colaborar.

— Obrigada. Passo depois informações para você se tornar colaborador. – O clima ficará mais
ameno e trocaram olhares menos carregados.

— Vou deixar você trabalhar, pois eu também tenho muito a fazer. – Marcus deu-lhe um leve
sorriso e partiu. Thaissa o observou indo. Não seria nada fácil para ela ficar imune àquele homem,
agora mais ainda.

Marcus foi ao banheiro lavar o rosto. Lá chegando, se encostou— no pilar para refletir. Ainda
não tinha plena certeza se desejava Thaissa apenas sexualmente ou a queria um pouco mais. Por
vezes, pensar nela o incomodava tanto que acreditava ser algo além de atração, mas em outros
momentos sentia-se apenas atraído pela pessoa, pelo corpo. Consciente ou não do que desejava viver
com ela, suas chances pareciam ficar um pouco mais distantes. Ela tinha alguém que estava
agradando-a como pessoa. Isso ele pôde ver nos olhos dela. Uma concorrência à altura para qualquer
um, pois uma mulher que admirasse seu companheiro, ele certamente lhe seria muito caro e
importante.

No final da tarde, Thaissa voltou a ver Marcus e sentiu novamente o acelerar do seu coração,
como acontecia quase sempre. Estava indo para o estacionamento pegar o carro que, para seu
desgosto, estava ao lado do dele.

— Tem algum compromisso hoje, Thaissa? Quer jantar comigo? – Marcus preferiu ser direto,
pois estava ficando difícil planejar algo com ela.

— Não sei se poderei. Tenho alguns arquivos para passar a limpo. – disse ela, indecisa.

— Se mudar de ideia, me ligue. – Marcus a cumprimentou e entrou no carro partindo em


seguida. Ela o esperou tomar certa distância e fez o mesmo.

Após o banho, Thaissa abriu sua pasta e retirou os papéis que precisa selecionar o que deveria
ir para o arquivo digital. Porem, por mais que tentasse se concentrar no que fazia, sua mente a levava
para Marcus.

Angustiada por não conseguir dar seguimento a sua tarefa, guardou novamente os papeis
chateada consigo.

Depois de alguns minutos inquieta e refletindo sobre os últimos acontecimentos que vivera com
ele, Thaissa chegou à conclusão que havia algo entre ela e Marcus que precisava ser encerrado e não
conseguiria seguir até fazê-lo. Iria aceitar o convite e tentar fechar aquele ciclo vicioso.

— Alô! — disse Marcus do outro lado. A chamada permanência muda. – Thaissa, é você?

— Sim, sou eu. O convite ainda está de pé? Não estou interessada em jantar sozinha. – Mentiu.

— Claro! Ainda não jantei! Passo para pegar você em uma hora, tudo bem? – Apressou ele
sem dar chances para ela mudar de ideia.
— Estarei esperando você. – Ao desligar o telefone os dedos de Thaissa estavam brancos
devido a pressão que faziam no aparelho.

Quando Marcus chegou, ela o esperava há cerca de 10 minutos. Ele estava informal e Thaissa
agradeceu pelo vestuário dela também estar nos padrões.

— Vamos! – Ela o acompanhou até o carro e Marcus abriu a porta para que entrasse. Quando
ele tomou a direção, olhou sorridente para ela.

— Tem algum lugar em especial que deseje ir? – quis saber antes de seguirem.

— Não! — Fica por sua conta, a escolha. – Ele ligou o carro e partiram. No trajeto Marcus
estava ansioso e para quebrar um pouco do gelo começou a contar um pouco de sua vida em Minas
Gerais. Onde vivia sua irmã, esposo e dois filhos. Os pais eram falecidos o que lhe permitia viver
onde quisesse sem ter um lugar para voltar com frequência, tendo apenas a responsabilidade de ver a
irmã e sobrinhos entre três e quatro vezes ao ano. Com relação aos negócios, ele fora bastante
superficial, mas Thaissa não se incomodou com o fato. Marcus informara também que possuía
negócios em São Paulo e no Rio de Janeiro. O que ela já havia deduzido antes.

— Na ocasião em que nos conhecemos eu havia me mudado para São Paulo há algum tempo.
Adquiri algumas coisas lá e fui cuidar por algum tempo pessoalmente.

— É o que pretende fazer aqui, cuidar enquanto for necessário e depois retorna a suas origens?
– perguntou curiosa pela provável resposta que teria.

— Nunca se sabe o que irá de fato acontecer em nossas vidas amanhã. Confesso que essa era
minha intenção quando vim para cá, mas prefiro não pensar sobre isso agora, deixemos os dias
acontecerem.

— Com certeza é uma boa forma de viver, sem criar expectativas. – afirmou ela com um
sorriso discreto na face.

— É exatamente isso. – Chegaram ao restaurante que Thaissa já conhecia bem a qualidade da


comida e a simplicidade. Sentaram-se e após os pedidos, Marcus voltou ao assunto.

— Você já conhece muito sobre mim agora, que tal me dar algumas pistas sobre você. – Ele
parecia um pouco mais animado e amistoso naquele dia. Thaissa não sabia ser bom ou ruim para seus
questionamentos sobre ambos.

— Ao contrário de você, eu não sou muito viajada, infelizmente. Mas já estive em muitos
lugares lindos de nosso país, durante as férias com meus pais e amigos. Desde cedo demonstrei
interesse pela empresa, o que desagradou minha mãe que gostaria que eu fosse médica. Então,
contrariando ela e agradando meu pai, optei por fazer a faculdade de administração de empresas.
Aperfeiçoei-me e hoje estou na Fênix.

— Sua relação com sua mãe, como era? – quis saber ele embora tivesse plena consciência de
que fora muito feliz.

— Éramos grandes amigas. Minha mãe sempre foi minha confidente e conselheira, vê-la
sofrendo com o câncer foi muito doloroso para mim. – Seu rosto entristeceu-se por alguns instantes. –
O último ano dela, embora sofrido, foi muito feliz. Deixei a empresa nesse período e fiquei com ela.
Divertíamo-nos e contamos histórias como jamais faríamos se não tivesse acontecido aquele
diagnóstico.

— Então se despediram em grande estilo. – falou Marcus com sinceridade nas palavras.

— Acredito que sim, procurei dar a ela todo o amor e carinho que pude e ela também retribuiu
a altura, disso jamais me esquecerei. Já outras coisas eu estou tentando não me lembrar. – Marcus
aceitou a resposta dela, e sabia que a partir dali as lembranças não eram nada boas.

— Há quanto tempo ela partiu?

— Faz dois anos, mas parece que foi ontem. O tempo não espera por nós. – Terminou ela.

— Eu entendo bem essa perda. – Olharam-se carinhosamente sem que necessitassem de mais
palavras. — Tive as minhas há vários anos, mas parece que nunca nos acostumamos com ela
completamente. Mas é preciso seguir por nós e por eles também. – Thaissa concordou com um gesto
de cabeça. Mudaram de assunto, voltando a falar da empresa, até o término do jantar.

— Gostaria de conhecer meu apartamento? – A pergunta a pegou de surpresa.

— Está muito tarde para visitas, não acha? – disse Thaissa ouvindo um ruído de alerta em sua
mente.

— Se pensasse assim, não teria feito o convite – respondeu ele prendendo-a com olhos. –
Gostaria de mostrar minha residência para uma mulher, e assim ter sua opinião sobre o ambiente.
“Que desculpa mais descabida.” – pensou Marcus contrariado por ser tão previsível com Thaissa.

— Se for uma visita rápida, tudo bem. Concordou com um friozinho na barriga. Mas já que ela
não conseguia sair da beira do fogo, iria se jogar nele e quem sabe se queimando aprendia a fugir. –
Seguiram para o apartamento assim que deixaram o restaurante. Dessa vez não se falaram muito.
Cada um conversava consigo mesmo sobre os próximos acontecimentos que poderia haver.

Quando chegaram, Marcus ofereceu algo para Thaissa beber. Ela agradeceu e recusou. O local
era simples, mas muito bem mobiliado. Thaissa teve a impressão de que Marcus contratara um
profissional, tamanho era a harmonia do ambiente. A sala era estreita, porém comprida. Haviam dois
lindos estofados em couro um de frente para o outro, em tom bege claro. Tendo entre eles uma
pequena mesa de centro com uma estatueta abstrata em cima.

— Muito confortável. Você o alugou? – perguntou ela observando o ambiente.

— No início, essa era minha intenção, mas o proprietário precisou vender e me fez uma oferta
irrecusável, comprei-o. – Informou satisfeito por ter agradado a primeira mulher que levava ali.

— Então fez uma boa compra, posso deduzir, ou não faria esse tipo de investimento tão longe
de casa! – Exclamou ela.

— Minha casa é onde eu me sinto bem e nesse momento é aqui. Caso precise vender, sei que
terei um bom ganho, e claro, esse foi um de meus pensamentos quando optei em adquiri-lo.

— É sempre bom ter bons resultados em tudo o que for possível, principalmente, no que
investirmos. – concluiu ela. — Você tem tido os resultados que esperava da empresa? – perguntou,
sentando-se a pedido dele.

— Sim. Eu já sabia como seriam os primeiros passos e acontecimentos antes mesmo de vir
para Goiânia, e estão acontecendo como o previsto. – Marcus sentou-se na frente dela, no outro
estofado.

— Fico feliz que esteja tudo dentro de seu planejamento. – Thaissa olhava curiosa para os
outros móveis da sala. Um aparador no canto tinha poucas fotografias dele, uma jovem e duas
crianças parecidas com ele. Pelo que Marcus lhe dissera, certamente era sua irmã e os filhos dela.
As cortinas claras caiam até o piso de porcelanato limpo e brilhoso.

— Nem tudo! – disse ele chamando a atenção dela para si. — Há coisas que mesmo se
planejarmos não poderemos ter total domínio. – Ele disse olhando-a intensamente. Disfarçando,
Thaissa procurou por algum objeto que lhe chamasse a atenção.

— Como tem sido sua vida, Thaissa? – perguntou ele curioso em saber mais sobre ela e o
médico.
— Normal, como de outras mulheres com 30 anos. Sou autossuficiente, faço o que desejo de
minha vida. Tenho um trabalho que me sustenta sem que eu precise pedir ajuda a alguém. – disse ela
com naturalidade.

— Nesse ponto não é preciso que me diga, eu me referi à vida sentimental. Peço desculpas,
mas não me parece que tenha uma relação estável com esse pediatra com quem está saindo. – O fato
de ele se lembrar da conversa deles, a fez sorrir ligeiramente.

— Não gostaria de falar sobre isso, Marcus. Posso te garantir apenas que ele é um homem do
tipo que está à altura de toda mulher que deseja uma vida harmoniosa e feliz, ao lado de alguém. –
Marcus não se importou com o fato de ela elogiar outro homem. Certamente ele era assim, e suas
palavras não mudaria o conceito dela sobre o pediatra. Não era essa sua intenção.

— Eu te agradaria? – Ela não respondeu. Apenas o observou aproximar-se lentamente, ficando


frente a frente com ela. Instintivamente Thaissa ergueu-se assustada.

— Não está em questão quem agrada ou não agrada Marcus. – A tensão pairava no ar. Ambos
sabiam que o passo seguinte seria sem volta.

— Eu não duvido que esse homem com o qual esteja saindo seja uma boa pessoa. Eu espero
realmente que seja e que ele lhe dê o que precisa e merece. – Aquelas palavras ecoaram na mente de
Marcus como se o chicoteassem.

— Você tem razão em tudo que falou dele. Humberto é de fato isso e um pouco mais, porém
nem sempre podemos escolher o que é o melhor para nós, infelizmente. – Thaissa baixou a cabeça. –
Optamos por não seguir adiante. Ele merece um pouco mais de atenção do que eu poderia dar. – Ela
preferiu dizer logo que não estavam mais juntos. Assim Marcus não faria conclusões ainda piores
sobre ela, caso acontecesse algo ali. Não que ela desejasse isso.

Marcus se aproximou lentamente sem nada dizer e acariciou levemente o lábio inferior dela,
com a ponta do dedo. Ao perceber sua receptividade, ele se aproximou mais e deu uma leve mordida
no lábio para atiça-la. Instintivamente, Thaissa abriu a boca em resposta ao toque. Marcus então
afastou-se um pouco e olhou-a fixamente, tentando ver além do que poderia. Sorrindo, ele tomou
posse da boca dela com estranha calma e prazer. O doce sabor se misturou às lembranças que não
saiam da mente de Thaissa, levando-a a provar o melhor de todos os beijos que já dividira em sua
vida. Ela prendeu seu corpo no dele, arrepiando-o todo com o contato macio dos seios firmes em
seu tórax firme. Beijavam-se apaixonados até que se deixaram cair no carpete macio onde
continuaram as doces carícias. Marcus se posicionou sobre ela fazendo-a sentir toda sua virilidade.
Excitada, Thaissa o tocou intimamente sobre a calça fina que ele usava. Aquele toque o fez gemer em
seu ouvido incentivando-a a continuar com a carícia. As mãos dela iam e vinham da barriga ao
membro rígido com toques suaves e, às vezes, fortes. Era demasiadamente prazeroso para Thaissa
poder constatar que Marcus a desejava em grande proporção. Toda mulher ficaria imensamente feliz
em saber que era capaz de deixar um homem loucamente excitado. Parecia uma loucura o que fazia,
mas desejava demais aquele homem e não se privaria disso. Mesmo que fosse uma única vez, talvez
assim, ela conseguisse deixar o passado para trás e seguiria novamente. Com as unhas, Thaissa
contornou as costas dele e logo em seguida retornou ao ponto onde Marcus parecia mais gostar de ser
tocado.

— Você é uma garota má, sabia. – falou observando a bela mulher a sua frente.

— Não sou não. – Rapidamente se livraram de suas roupas para tornar aquele momento
completo. Marcus acariciou os seios nus, provocando-os com sua língua. Maravilhado com a imagem
a sua frente.

— Tenho desejado tanto ter você em meus braços. – confessou acariciando o ventre dela.

— Se eu te disser que não é recíproco, você acredita? – falou Thaissa contornando o polegar
na barriga tonificada dele.

— Não, eu não acredito e sabe por quê? Porque eu sinto o quanto o nosso desejo é mutuo.
Nenhum de nós está imune ao outro. – Para provar sua teoria ele acariciou a intimidade dela tirando
de Thaissa um gemido apaixonado.

— Diz agora que não me quer! – Provocou contornando com a língua o seio intumescido. –
Thaissa suspirou lentamente. Aquele calor morno sobre sua pele estava deixando-a sem razão.

— Eu quero você e sempre quis desde o momento em que nos olhamos naquele camarim. – Ao
confessar seu segredo ela sentiu a sucção em seu mamilo ficar mais intensa e cravou suas unhas nos
cabelos de Marcus, deixando visível o desejo que sentia. – Que delícia! – falou ela mordendo no
lábio inferior.

— Você tem sido a culpada pelas minhas noites mal dormidas e pelo meu humor tempestuoso.
Eu nunca me senti assim por uma mulher antes e isso me causa dois sentimentos distintos. O primeiro
é uma vontade grande de ficar o mais longe possível de você, mas ao mesmo tempo eu quero te ver,
estar por perto e sentir seu calor. Seu cheiro bom, que todos os dias entra por minha sala e me deixa
viciado. – Eu te quero muito, Thaissa. – Ele esfregou seu membro firme na intimidade dela e Thaissa
se abriu para ele instantaneamente. – Calma! Eu ainda quero desfrutar um pouco mais desse momento
porque quando eu te penetrar sei que não resistirei muito. Tenho desejado te possuir todos os dias. –
Thaissa sorriu da confissão dele.

Marcus a beijou com fúria sentindo o corpo dela tremer sob o seu, e aquela constatação o
deixou realizado. Por vezes teve receio de que aquele desejo fosse somente seu. Mas agora ele sabia
que estava em ambos e isso era o suficiente.

— Você quer ser minha Thaissa? – perguntou ele mordendo na orelha dela.

— Sim! – respondeu ela com a voz embargada. Sentir seu corpo preso sob aquela estrutura
máscula era demasiadamente torturante para Thaissa. – Me ame Marcus! – pediu por fim envolvendo
em sua mão o membro duro, fazendo com que um líquido transparente escorresse por sua mão.

— Percebe o tamanho do desejo que tenho por você? – perguntou ele passando a mão pela
cintura delgada e apertando a nádega arredondada dela.

— Então me possua agora. – exigiu desejosa por senti-lo dentro de si.

— Eu vou te amar, minha querida. Como tenho desejado há meses. – Thaissa abriu as pernas e
ele logo entrou dentro dela causando uma mistura de gemidos apaixonados.

Marcus entrava e saia lentamente daquele corpo quente de mulher. Queria aproveitar cada
momento com Thaissa. Desejará muito ter aquele momento com ela.

Thaissa cruzou suas pernas nas costas dele e sentiu toda sua profundidade ser preenchida por
Marcus. Aquele momento estava sendo mais prazeroso do que ela podia imaginar. Embora estivesse
sendo exatamente como sonhara, depois do encontro na sala dele, dias atrás.

Após alguns instantes sentindo o sabor daquela penetração lenta e envolvente, Marcus
começou a possuí-la com mais vigor. Seus corpos tremiam e juntos traçavam a mais plena realização
entre dois seres. Vendo-o exausto pela pressão que fizera, Thaissa se colocou sobre ele e começou a
galopar, percebendo por vezes os olhos de Marcus brilharem como fogo de desejo. Com as mãos
sobre o tórax firme, ela subia e descia esfregando suas nádegas na virilha lisa até que ouviu um
gemido rouco e as mãos dele apertarem fortemente seu bumbum evidenciando, a conclusão daquele
ato sublime entre ambos.

Thaissa deitou ao lado dele e ficaram abraçados em silêncio. Precisavam digerir aquele
momento mágico que viveram, como homem e mulher. Ela respirava lentamente no ombro de Marcus.
Não desejava pensar sobre o que fizera. Queria somente ficar ali, ausente de tudo que a tirasse
daquele transe. Algo lhe dizia que aquela transa, aparentemente casual para ambos, poderia ter um o
desfecho que ela não imaginava, fora bom demais ser possuída por ele.

— Naquela ocasião em que nos conhecemos no Rio, não passou pela minha cabeça que você
fosse assim tão dedicada e feminina durante a relação. – confessou Marcus ainda abraçado a ela.

— Te surpreendi então. – afirmou Thaissa.

— Acho que sim. Com relação ao sexo você foi melhor do que eu esperava. Nesse ponto me
surpreendeu muito. Eu esperava uma mulher mais racional, e talvez, um pouco artificial, tendo
domínio de tudo sem se expor muito.

— Isso é um elogio ou crítica? – Thaissa não estava entendendo o que ele dizia.

— É um elogio. – disse ele sentindo-se um pouco mal por ver que Thaissa não era de fato o
que ele esperava. Ela não era uma daquelas mulheres que até na hora de transar faziam tudo bem
planejado. Pensando somente em usufruir sem muito se dar. Como ele tivera a oportunidade de
conhecer. — Você teve muitos homens em sua vida, Thaissa? – Após a pergunta, Marcus se
arrependeu pela tolice que falara. Nunca fizera isso. Como fora capaz!

— Não me lembro de ter lhe feito essa pergunta – retrucou ela, ajeitando-se melhor.

— Não se ofenda, eu apenas fiz um questionamento. Mas não precisa responder se não quiser.
– O estrago estava feito, não havia como remediar.

— É claro que não vou responder. Meu passado é meu, não tenho que abri-lo a você se eu não
desejar – disse ela sentindo-se humilhada pela situação.

— Me desculpe! Acho que fiz a pergunta de forma errada. – Thaissa continuava chateada pelo
comentário. Estaria ele pensando que por ela gostava de carnaval e boates, isso seria indício de que
ficava com todos os homens que se aproximavam nesses locais.

— Você não a fez de forma errada, Marcus, você fez uma pergunta que não deveria ter feito.
Essa é a verdade. – Thaissa olhou no relógio e assustou-se. — Preciso ir! – Ela levantou-se
rapidamente sem dar oportunidade a ele de se defender. — Posso pedir um táxi, assim você não
precisa se deslocar até minha casa. – argumentou enquanto vestia sua roupa rapidamente.

— Eu vou leva-la. – falou ele seco. Thaissa foi ao banheiro ajeitar-se e repassar o batom
borrado. Não pretendia chegar em casa, desalinhada. Bastava o constrangimento que acabara de
passar por ele. Quando retornou, Marcus a aguardava.

No trajeto não se falaram. Thaissa deixou claro para ele que fora muito infeliz ao fazer tal
pergunta.

Marcus não conseguia entender o porquê de sua falta de bom senso. Thaissa ficou chateada e
ela estava repleta de razão ao sentir-se assim. Ele não desejava que tudo acabasse daquela forma,
mas acabou. Quando chegaram, ela se despediu com um leve aceno e saiu do carro.

De volta em seu apartamento, Marcus estava irritado. Por que diabos fora fazer aquela
pergunta idiota para ela? Nunca foi de sua natureza se preocupar com o passado de nenhuma mulher
com quem se relacionou. Mas quando imaginou outro homem tocando Thaissa como fazia e ela
retribuindo com a mesma intensidade, o ciúme o dominou. Não queria pensar que em algum
momento, ela se entregara da mesma forma que fizera com ele. “Maldita insegurança!” —
praguejou. Agora teria que reverter àquela situação o mais rápido possível, pois não conseguiria
ficar muito tempo sem tocar mais uma vez aquela linda mulher que o enfeitiçara. Isso se fosse o
suficiente mais um encontro apenas.

Thaissa tomou um banho e foi deitar-se. Não se sentia bem pelo que acontecera entre ela e
Marcus. Acreditou que ele já havia superado sua primeira impressão sobre ela, mas estava errada.
Marcus continuava tendo-a como uma mulher extremamente moderna quando o assunto era sexo. Mas
o que havia de mal nisso, caso ela assim fosse? O fato de gostar de curtir a vida não queria dizer que
ela seria incapaz de respeitar um relacionamento estável. Era óbvio que ela não se classificava
assim, mas ela também não tinha nada contra as mulheres sem compromisso que preferisse viver de
algumas paqueras e nada mais. O fato de uma mulher não procurar um relacionamento sério. Estando
feliz sozinha e disposta a uma transa casual, quando se sentisse bem, não era motivos para rotulá-la
como incapaz de respeitar um homem. Centenas de mulheres do século atual gostavam de ser assim.
Mas sabiam também respeitar quando estivessem juntas de alguém. De onde ele tirava tais crenças,
ela não sabia, mas estava incomodada e muito com aquela situação.
CAPÍTULO 18

No dia seguinte, devido à noite mal dormida, Thaissa chegou atrasada à empresa. Para sua
decepção, Letícia a aguardava. A mulher parecia sentir quando ela não estava bem e assim poderia
atacar com mais chances de derrubar a barreira que Thaissa tentava criar entre elas.

— A noite foi boa, Thaissa? Você raramente chega atrasada mais de dez minutos. Já são 30
minutos. – A mulher olhava em seu relógio de pulso enquanto falava.

— Às vezes acontecem imprevistos. Ninguém está imune deles. Você precisa de alguma coisa?

— Na verdade, eu precisava saber sobre os arquivos do cliente da loja de planejados em


Campinas. Mas Paula já me forneceu as informações que precisava.

— É mesmo? Então deve ter outro motivo para estar me esperando, eu creio que sim! – Era
certo que não havia. Concluiu Thaissa em pensamento.

— Eu gostaria de rever um arquivo, mas acredito que apenas seu pai tenha acesso a ele.
Deixarei para solicitar quando ele retornar. Tenha um bom dia! – Thaissa observou a outra enquanto
saia em sua postura ereta e elegante. Disfarçando a grande vigarista que se escondia atrás de belas
roupas compradas com o dinheiro alheio.

Espirando profundamente, Thaissa ligou seu computador para começar seu dia de trabalho.
Estava conferindo suas correspondências quando a secretária ligou.

— Bom dia, Thaissa! Você já assinou os documentos que deixei em sua mesa hoje? – perguntou
a moça.

— Quais documentos, Vanessa? Eu não vi nenhum papel quando cheguei. – respondeu ela
olhando a sua volta.

— Eu os deixei sobre a mesa. Você ainda não havia chegado. Vou até sua sala para nos
falarmos. — Thaissa aguardou a jovem chegar para resolverem a situação.

— Eu os deixei aqui sobre esse bloco de anotações. Tenho certeza, Thaissa. – argumentou a
secretária quando também não viu nada ali.

— Não havia nada além das correspondências quando cheguei. – Thaissa reafirmou o que
dissera. Estavam procurando quando Marcus chegou.

— Algum problema, senhoritas? – perguntou ele olhando carinhosamente para Thaissa.

— Não exatamente. Vanessa disse ter deixado alguns documentos aqui que faltavam a minha
assinatura, mas não os encontrei quando cheguei.

— Do que se tratam? – quis saber ele.

— São as duas últimas publicidades que faremos, e que já estão montadas faltando apenas
minha observação e assinatura para irem para o almoxarifado onde pegarão o material solicitado.

— Acredito que posso resolver rapidamente isso. – Marcus saiu da sala deixando— as ainda
procurando os tais papéis.

— Mesmo que ele resolva, ficará um clima ruim, Vanessa. Todos os outros departamentos já
assinaram e terão de fazê-lo novamente, isso é constrangedor para mim.

— Eu tenho absoluta certeza que deixei aqui, Thaissa. — disse a moça segura.

— Eu sei disso, não se preocupe. Pode ser que alguém tenha pegado sem perceber, vamos
esperar que Marcus resolva e esquecemos isso. – Quando a secretária saiu, Thaissa lembrou— se de
que Letícia estava lá esperando-a quando chegou. Provavelmente fora ela, mas com qual intuito? Se a
única coisa que causaria naquelas circunstâncias era tardar um pouco o processo. Mas é claro que
essa não era a intenção da outra, e sim, deixa-la mal com Marcus. Mais essa para ampliar os
problemas que estava tendo com o novo sócio. — pensou ela.

Thaissa tinha retornado aos seus afazeres depois da procura sem resultados quando seu
telefone tocou.

— Você poderia vir aqui? – pediu Marcus.

— Claro que sim, estou indo. – Quando Thaissa chegou ainda estava contrariada com o suposto
sumiço dos papéis.

— Eu já resolvi a questão. – Informou ele. – Costumo digitalizar alguns documentos que julgo
importantes, e por sorte, havia feito desses antes das assinaturas. Assim, nem precisamos pegar uma
cópia com o cliente. Teremos somente o trabalho de pegar as assinaturas internas.

— Obrigada! Não sei como isso foi acontecer. Tenho certeza de que Vanessa o deixou lá, pois
ela é muito competente. Mas eu não vi quando cheguei. – Voltou a afirmar.

— Talvez algum funcionário tenha pegado durante a limpeza em sua sala, acreditando ser papel
para se colocar no lixo.

— Você pode estar certo. – Era mais prudente que ela fingisse acreditar nessa teoria, assim
terminariam com aquele assunto. Quando finalizavam a conversa, eis que chega a provável causa do
tumulto.

— Posso falar com você? – perguntou Letícia a Marcus. – Thaissa a observou


disfarçadamente. A mulher parecia curiosa. Se não fosse ela tão boa atriz, Thaissa poderia jurar que
fora saber como estavam resolvendo o assunto. Ou melhor, como Marcus agia diante da
irresponsabilidade dela com tais documentos.

— Claro, sente-se! – Convidou Marcus. Thaissa observou a outra sentar-se e logo ergueu-se. –
Espere Thaissa! Ainda preciso falar com você. Contrariada ela retornou ao assento percebendo que
Letícia não gostara nem um pouco de sua permanência ali. – A outra disse qualquer assunto sobre um
cliente já atendido, e saiu da sala. Thaissa não se deu ao luxo de atentar-se ao que Letícia falava.

— Você quer jantar comigo no final de semana? – Ele a convidou assim que ficaram a sós.

— Sinto muito. Mas meu pai chegará e quero estar com ele. – Fora direta.

— Tudo bem! Poderíamos falar sobre ontem. – Ele parecia constrangido.


— Estou ouvindo – respondeu ela.

— Quero que saiba que foi maravilhosa a noite passada. A sua entrega me encantou.

— Por que está me dizendo isso? – Quis saber ela.

— Porque devido a minhas palavras mal interpretadas, você foi embora aparentemente
magoada e isso me incomodou muito. Peço que me desculpe pela tolice que fiz. – Ele parecia mesmo
envergonhado.

— Não precisa se explicar, eu entendi bem o que quis dizer. – Ela deixou visível sua
contrariedade. Não fingiria que nada havia acontecido.

— Eu sinto muito – respondeu ele contrariado.

— Está tudo bem. É normal interpretarmos as pessoas pela roupa que veste e não pelo que de
fato são. Você não será o primeiro nem o último a agir assim.

— Você está certa, Thaissa. Procurarei não causar esse tipo de constrangimento novamente.

— Ótimo. Faça isso. – Thaissa deu-lhe um sorriso forçado, pois ainda sentia as palavras dele
em seu ego. – Agora se me der licença, tenho algumas coisas para colocar em ordem.

— Fique à vontade, nos falamos depois. – disse Marcus deixando-a livre para ir quando
quisesse. – Thaissa saiu tão logo ele terminou de falar.

A semana transcorreu sem novidades. Quando se encontravam, não discutiram mais o assunto.
Estavam dispostos a deixar que as coisas caminhassem por si só. Nem mesmo falavam sobre a
paixão que viveram no apartamento de Marcus. Agiam como se nunca tivesse acontecido.

Na sexta-feira à noite, o pai de Thaissa retornou da viagem.

— Como foi à viagem pai? Resolveu o que tinha a fazer? – perguntou ela curiosa.

— Sim, filha. Tudo se resolveu e fizemos algumas negociações muito importantes.

— Fico feliz pela empresa, pai. Você fez tanto segredo que pensei ser algo negativo. –
Confessou ela.

— Não fiz segredos, filha. Apenas queríamos concluir algumas etapas e ainda não estão
finalizadas, mas você saberá de tudo quando for concluído. – informou pegando nas mãos da filha e
carinhosamente lhe deu um beijo sobre elas. – Você é minha estrela maior, não se esqueça disso. –
Thaissa fez o mesmo carinho nas mãos dele.
— Se você acredita que fez o melhor, então é isso. – respeitava a opinião do pai e isso era o
bastante.

— Tenho tentado, minha querida. – Ele ficou sério e em seguida a convidou a se sentar.

— Eu gostaria que compreendesse algumas coisas, filha. A vida nos impõe algumas situações
às vezes, mas saiba que sempre farei o que estiver ao meu alcance por você. Infelizmente terei que
me ausentar novamente na próxima semana, mas é por uma boa causa e espero muito que não me
culpe por não estar mais vezes ao seu lado. Estamos em uma fase muito importante para a Fênix e
precisamos fazer o melhor possível. Fizemos alguns ajustes e terei que viajar novamente, e durante
esse período, eu gostaria que você auxiliasse o Marcus. Ele está sobrecarregado, embora esteja aqui
em tão pouco tempo, e nesse momento ele precisa de um suporte. – Thaissa não gostou da notícia.
Não esperava por uma coisa daquelas para dificultar anda mais sua convivência com aquele homem.
— Ele tem tido alguns problemas com uma de suas empresas, e isso também tem aumentado ainda
mais suas responsabilidades. Peço que o ajude e estará ajudando a Fênix. Podemos contar com você?
– Thaissa estava ciente de que aquela convivência não seria proveitosa para ninguém, mas não podia
ser recusar a ajudar seu pai. Aceitaria por ele, e tão somente por ele.

— Se a diretoria julga necessário, tudo bem. Só me diga uma coisa pai, de onde partiu a ideia
de que Marcus e eu trabalhado juntos, durante sua ausência, seria mais positivo para a Fênix? – quis
saber ela.

— Todos da diretoria optamos por essa ideia, filha. Não me lembro de quem foi, mas achei
excelente. Não acha? – O velho homem começava a olhar para ela com certa curiosidade.

— Vocês possuem mais visão que eu, então acredito sim que será o melhor. – Não poderia
dizer a ele que deseja a maior distância possível de Marcus.

— Então, estamos combinados. – Finalizou André.

Thaissa saiu e deixou o pai ir descansar. Ela também precisaria de bom repouso para conseguir
da melhor forma possível sobreviver a nova etapa que teria em seu trabalho na semana seguinte.

No sábado, Thaissa acordou cedo e dessa vez preferiu fazer uma caminhada mais curta
contornando algumas ruas próximas. Na volta, após seu banho e café tomado, ela pegou uma
necessaire e foi fazer uma massagem na clínica. Lá, passou toda sua manhã, saindo renovada e
pronta para exercer seu psicológico como nunca fez. Ela esperava estar de fato pronta.

No período da tarde, conforme havia agendado, ela foi ao salão fazer seu tratamento capilar.
Pintar as unhas, modelar as sobrancelhas e esfoliar a pele. Estava disposta a fazer o que fosse
necessário para se sentir melhor e mais leve. Precisaria dessa energia positiva para trabalhar
diretamente com Marcus, e claro, com a ambiciosa Letícia que embora não perdesse a oportunidade
de chateá-la, estava começando a perder sua força contra Thaissa.

No final do dia estava renovada. Quando retornou para casa já era noite.

— Esse tempo todo você ficou no salão, minha filha? – perguntou Ana preocupada.

— Sim, fiquei. – respondeu Thaissa sorrindo da expressão da senhora. – Não é fácil ser uma
mulher, Ana. Principalmente nos dias de hoje. Além de sermos cobradas a todo o momento pela
sociedade, que exige estarmos sempre lindas e em forma, há ainda a própria cobrança pessoal. Isso
cansa às vezes. – confessou.

— Na minha época, não precisava de tanto e já era o suficiente para sermos cortejadas pelos
rapazes. Não estariam inventando coisas demais não? – questionou Ana.

— Para ser sincera, eu concordo com você. Inventa— se muito esteticamente falando e isso
acaba por aumentar as cobranças. – Thaissa esticou-se no sofá. – Acho que vou tomar um banho,
fazer um lanche e dormir. Preciso de mais um dia para me preparar psicologicamente para o que vem
por aí.

— Está com algum problema na empresa, minha filha?

— Não, Ana! O de sempre, mas está tudo bem. Não se preocupe! – Thaissa levantou— se deu
um beijo na bochecha da senhora e foi para seu quarto.

Após o demorado banho, ela se preparou e foi repousar. Mais um dia a esperava para se
preparar um pouco mais.

O domingo chegou tranquilo e, embora Thaissa desejasse levantar bem cedo, optou por ficar na
cama um pouco mais. Quando por fim animou-se, ela tomou seu banho e saiu para um passeio no
shopping.

O dia estava muito quente, Thaissa sentou-se na praça de alimentação e pediu um suco. Estava
concentrada, lendo um cartaz informativo, após fazer o pedido, quando surgiu a sua frente a imagem
do homem que desde que acordara, ela evitou relembrar.

— Como vai, Thaissa? – Marcus observou a bela mulher vestida informalmente com seu shorts
jeans, regata e sapatilhas baixas.
— Estou bem, obrigada. E você? – cumprimentou-o ainda surpresa.

— Melhor que ontem. – No dia anterior Thaissa recebera várias chamadas dele, mas ignorara
todas.

— Nada como um dia após o outro. – disse ela vendo-o se sentar na outra extremidade.

— Espero que não se incomode de ter uma companhia. Percebi que chegou sozinha, ou aguarda
alguém? – disse ele Marcus olhando em volta.

— Não! Eu estou só. Vim fazer umas pequenas compras e ver um pouco do movimento.

— Eu não vim comprar, mas também buscava ver pessoas. – Por um instante, Thaissa sentiu-se
mal por não tê-lo atendido no dia anterior. Embora Marcus fosse um homem viajado, era certo que
ele sentia-se solitário. Vivia longe de tudo o que construíra, principalmente da família.

— Às vezes o fato de vermos pessoas passando já é suficiente para tornar o dia menos dark. –
Marcus olhou sorrindo para ela. Embora Thaissa às vezes se mostrasse a mulher que o deixava
desnorteado. Ele acreditava também que havia uma pessoa encantadora ali. Um pouco dela ele já
havia conhecido em sua casa.

— Você tem razão. – concordou ele.

— Gosta de ir ao cinema? – Thaissa constatou que ele certamente a estava observando há


tempos, quando ela olhava as datas e filmes que estariam em cartaz.

— Gosto, mas já faz algum tempo que não vou. – informou, olhando os óculos escuros dele,
preso na camisa gola polo.

— Quando estiver interessada, e faltar companhia me avisa. – Thaissa olhou para ele com um
leve sorriso. O que faria para escapar daquele belo homem. Ela não sabia.

— Combinado. – Ela olhou disfarçadamente para uma de suas sacolas, e em seguida, tomou um
pouco da bebida.

— Eu gostaria que soubesse que não foi ideia minha nos colocar como uma equipe de trabalho.
Embora eu tenha aceitado de bom grado, pois estou mesmo precisando de um suporte. – argumentou
Marcus na tentativa de amenizar o mal-estar entre eles.

— Não se preocupe, está tudo bem. Farei o que for possível para ajuda-lo no bom desempenho
da Fênix. – Era de fato essa a intenção de Thaissa, e ela jamais se negaria a trabalhar com alguém
que estivesse necessitando dela. Mas quando o assunto era Marcus, tudo ficava um pouco mais
difícil, pessoalmente falando. Principalmente depois de eles terem feito amor. Não havia apenas os
colegas de trabalho envolvidos. Haveria corpos se desejando, isso ela tinha plena consciência.

— Agradeço pela compreensão. – disse ele ajeitando as chaves na mão. — Janta comigo hoje
Thaissa? – convidou ele após trocarem olhares calorosos.

— Obrigada pelo convite Marcus, mas tenho que colocar algumas coisas em ordem. Na
verdade eu nem poderia estar aqui. Só vim porque precisava ver um pouco de movimento, como lhe
falei. Além disso, amanhã terei um novo colega de trabalho, e uma nova função. Um bom descanso
irá me ajudar muito. Acredito que não será fácil trabalhar diretamente com ele, sabe. É uma pessoa
agitada e um pouco estressada também – respondeu ela carinhosamente, já não estava tão magoada
com ele depois de perceber que, Marcus, assim como ela, sentia-se sozinho às vezes.

— Que injustiça com um colega. – reclamou ele pegando na mão dela em despedida. – Vou
deixar você tomar seu suco tranquila. Nos falamos amanhã então. – Ela o viu se afastando e uma leve
angústia a tomou. Gostara da companhia dele ali.

Thaissa retornou para casa no final da tarde. Quando entrava, a velha senhora a aguardava
sorrindo.

— Fez um bom passeio, Isa? – Havia tempos Thaissa não ouvia aquele nome. Sua mãe e a
funcionária a tratavam assim quando pequena, com o intuito de fazê-la comer um pouco mais.

— Não me venha com esse jeitinho carinhoso, Ana. Você não vá me convencer de comer em
uma hora dessas. Posso passar mal com o estômago pesado. – Choramingou ela sorrindo.

— Que desculpa mais sem sentido, menina. Não sei se o fato de comer irá te adoecer. – Ralhou
a senhora.

— Não tenho mais o costume de jantar, e isso fez com que meu organismo se acostumasse.
Todas as vezes que janto, me sinto cheia. E se quer saber, já comi algo no Shopping. – Thaissa olhou
desconfiada para a querida funcionária. Ana estava mais dedicada a ela nas últimas semanas, como
fizera quando ela perdeu sua mãe.

— Vou fingir que acredito. Mas se mudar de ideia vou deixar um prato no forno até mais tarde,
é só ir lá e pegar. – Havia tempos Ana não a tratava com tanto zelo. Thaissa começou a acreditar que
a velha senhora estava ficando caduca antes da hora ou a estava observando e percebeu que Thaissa
não parecia bem. Não sabia Ana que o problema dela ia muito além do estresse ou alimentação.

— Olha, vou prometer a você que a primeira refeição eu farei da melhor forma possível. Mas
não espere mais que isso, tá? – Disse indo até a velha amiga, abraçando-a.

— Tudo bem, já é um bom começo. – Thaissa olhou para ela com semblante desconfiado e se
afastou. – Ana ficou observando a sua menina. Embora parecesse que algo a incomodava, ela podia
ver que coisas boas também estavam acontecendo com sua garota, e isso muito lhe agradava. Não era
fácil para ela que trabalhava havia tempos com a família ver tanto sofrimento nos olhos daquela
jovem após a perda da mãe. Tudo lhe indicava que dessa vez Thaissa superaria seu trauma e Ana
esperava que isso fosse mesmo verdade. Pois só assim poderia sentir-se em paz também.
CAPÍTULO 19

Na segunda-feira, quando Thaissa deixava seu carro no estacionamento para iniciar sua nova
jornada, Letícia se aproximou.

— Está preparada para sua nova função? – perguntou a outra com voz melosa.

— Melhor que nunca – respondeu Thaissa colocando as chaves e os óculos de sol na bolsa.

— Boa sorte então! Se precisar de ajuda. – Ofereceu-se novamente Letícia, aparentemente, a


mais intima das amigas de Thaissa.

— Não se preocupe, estarei bem apoiada. – Ela agradeceu devolvendo um pouco do sarcasmo
da outra.

— Se pensa assim. – Letícia saiu deixando-a para trás.

Thaissa caminhou lentamente, não desejava dividir o elevador com a outra mulher. Preferia
começar sua semana sem muitas contrariedades juntas.

Quando chegou, para sua surpresa, Letícia já estava na sala de Marcus.

— Como você demorou Thaissa. Eu estava para substituir você. Pensei que havia desistido. –
falou a mulher sorrindo e olhando para Marcus.

— Eu não demorei Letícia. Você que é muito rápida. – A outra ignorou o comentário dela.
Marcus porém, percebeu a animosidade entre elas.

— Eu estava falando com o Marcus e combinando a reunião que haverá à tarde. – Thaissa
observou a outra sempre oferecida. Como ela conseguia ser grátis o tempo todo. Será que não se
cansava? – Vou deixa-los trabalhar agora, preciso organizar alguns papéis para a reunião. – Até mais
tarde! – disse ela saindo após receber o mesmo cumprimento deles.

— Tenho a impressão de que ela está interessada em você. – falou Thaissa tentando fingir
indiferença.

— Ela não faz meu tipo. – respondeu sério.

— É mesmo, e qual é seu tipo? – Quis saber ela.

— Talvez o seu. – Marcus falou sem olhar para ela e foi pegar alguns documentos para ler,
deixando claro que não gostara do comentário dela. Percebendo a carranca dele, Thaissa sentou-se e
começou suas atividades.

Estava cada um a sua mesa com seus trabalhos quando por um descuido, Thaissa deixou uma
pasta de arquivos cair espalhando todos os documentos no piso. Contrariada pela situação, ela
abaixou-se para recolher. Estava ajoelhada quando Marcus se aproximou para ajuda-la.

— Como conseguiu colocar todos esses papéis nessa pasta? – questionou ele, agachando-se
para ajuda-la.

— Mágica! – Falou no impulso e nervosa pela bagunça que fizera. Ambos sorriram e
começaram a recolher os arquivos no chão. Quando terminavam o que faziam sem que percebessem
suas mãos se tocaram, causando grande eletricidade em ambos. Thaissa levantou o rosto para olhá-
lo. Estavam tão próximos que ela podia ouvir a respiração dele. Marcus a olhou intensamente nos
olhos e deixou de fazer o que se proporá, acariciando a face dela. Thaissa fechou os olhos para sentir
o contato bom em seu rosto. Como era gostoso aquele toque másculo de Marcus. Seduzida, ela se
deixou ser acariciada por alguns segundos. Ele então aproximou-se um pouco mais e a beijou, ali
mesmo joelhados. Thaissa sentiu seus lábios serem massacrados pelos dele em uma urgência sem
fim. Envolvida, ela se abandonou naquele beijo que tanto ansiara saborear, no dia anterior.
Permaneceram ali beijando-se calorosamente enquanto suas mãos envolviam um ao outro com força e
paixão. Embriagada pela emoção Thaissa custou a perceber que o telefone tocava quebrando mais
uma vez o encanto entre eles. Marcus estava tentado a não atender, da última vez que acontecera isso
ele se arrependeu por tê-lo feito, mas a magia havia se dissipado e Thaissa afastou-se um pouco dele,
indicando o telefone.

— Alô! – disse ele ao pegar o aparelho visivelmente contrariado pela interferência. — Não
irei sair para almoçar, Letícia, Obrigado. – Informou Marcus ao telefone. Thaissa permaneceu
calada. A outra mulher estava mesmo interessada em laçar o belo e rico homem. — Pensou ela,
contrariada. Letícia parecia ter uma bola de cristal. Sempre que estavam em um momento quente
entre eles ela surgia para jogar tudo por terra. – Obrigado, Letícia. Até mais tarde!

Ele desligou o aparelho prometendo a si mesmo que nunca mais o atenderia quando estivesse
em um momento daqueles com Thaissa.

— Letícia me convidando para o almoço. Ela se ofereceu para uma ajuda, caso precisemos
dela nos próximos dias. – falou ele olhando-a intensamente, enquanto Thaissa organizava os papéis
sobre a mesa.

— Por que não aceitou? – perguntou ela fingindo desinteresse.


— Porque eu sei bem o que vem por trás de uma oferta de ajuda dessas. – Thaissa ficou
intrigada com o comentário. Percebendo a curiosidade dela, Marcus continuou. – Já usei muito
desses argumentos de tirar dúvidas para falar com você. – Ele não desviou os olhos dos dela, por
nem um segundo.

— Está afirmando que me enganava dizendo precisar de minha ajuda? – Perguntou ela
incrédula. Mas em seu íntimo, estava feliz por tal informação.

— Não exatamente. Eu também precisava, claro! Mas tenho certeza de que você percebia isso
também. – defendeu-se.

— Jamais pensei uma coisa dessas de um colega de trabalho. – falou Thaissa disfarçando sua
satisfação.

— Então você é uma boa garota e não tem maldades na sua mente. – Ele sorriu largamente
deixando Thaissa encantada. – Agora que já esclarecemos nossas reais intenções, que tal
almoçarmos juntos? – convidou ele, ainda sorrindo para ela.

— Você acabou de dispensar Letícia, e me convida? – O clima ficava envolvente entre ambos e
nenhum deles parecia interessado em quebra-lo.

— É verdade, mas pelo que me lembro, não devo nada a ninguém, então, posso almoçar
quando e com quem quiser. Há alguma coisa que te impeça? – Marcus parecia diferente naquele dia.
— Constatou Thaissa.

— Não que eu me lembre – respondeu Thaissa.

— Vou aceitar isso como uma resposta afirmativa. – Thaissa permaneceu calada, não
precisaria palavras naquele momento. Entendiam-se, apesar das diferenças. Cada um voltou aos seus
afazeres e não mais tocaram no assunto.

Alguns minutos restantes para o horário de almoço voltaram a falar sobre o assunto.

— Quando quiser, poderemos ir. – informou Marcus por fim.

— Tudo bem! Mas vamos cada um em seu carro. – percebendo a cara que Marcus fizera, ela se
corrigiu. – Precisarei resolver uma questão em seguida, e não quero incomodá-lo.

— Tudo bem! – Desceram juntos e cada um entrou em seu carro e seguiu para a Avenida T—
10 onde fariam a refeição no restaurante do shopping.

— Fazemos a refeição no piso 01, ou no 03? – Quis saber Thaissa.


— Onde você quiser – respondeu Marcus, observando o vai e vem de pessoas.

— Sendo assim, vamos ao piso 03. Costumo comer lá, às vezes. – Seguiram juntos para o
local.

Quando chegaram, sentarem-se e fizeram seus pedidos. Enquanto aguardava Thaissa começou
uma conversa.

— Quando veio para Goiânia você já havia organizado um lugar para ficar? Achei sua casa tão
parecida com você que custei a acreditar que a tivesse encontrado facilmente. – Comentou Thaissa
lembrando se do dia em que esteve na casa dele e fizeram amor.

— Na verdade, eu vim sem moradia fixa. Fiquei hospedado em um hotel na Avenida Araguaia.
Mas logo decidi que ficaria por mais tempo e comecei a procurar um apartamento confortável e mais
pessoal para residir. O clima de hotel não me agrada por muito tempo. – Thaissa ouviu o relato
imaginando o que o teria feito decidir-se por ficar na cidade por mais tempo que o previsto.

— Então seus planos eram vir para Goiânia e logo retornar? – Quis saber ela curiosa.

— Não exatamente. Eu vim disposto a fazer o que fosse mais viável naquele momento, mas é
lógico que minha intenção era partir logo e já estou aqui há alguns meses. – Ele não parecia
chateado, constatou ela, mas provavelmente sentia falta de pessoas próximas. Sua irmã por exemplo.

— Acredito ser mais fácil não criar expectativas quando se propõem a adquirir ações em
diversos lugares. – Falou ela.

— Certamente é melhor, mas normalmente adquiro ações onde não preciso atuar, como havia
essa opção, aqui achei interessante; mudar os ares um pouco e sair da minha rotina. Foi uma ótima
escolha, embora eu tenha lucros maiores em outros investimentos.

— Acredito que seja assim. – Marcus percebeu o tom de voz dela se alterar.

— Eu não quis dizer que não tenho tido o lucro esperado da Fênix, Thaissa. Tenho aqui o que
esperava obter pelo tamanho da empresa e sua atuação no mercado, mas tenho outros ganhos
melhores, porém, nada que me faça abandonar essa empresa e partir deixando-a sem minha
colaboração. Entendeu? – Ele sabia o quanto importante era para ela aquele ambiente empresarial e
não queria deixa-la chateada.

— Eu entendi. Não se preocupe. – disse Thaissa tranquilamente.

— Gosto do clima daqui. É uma região privilegiada. – A sinceridade dele a deixou mais
receptiva novamente.

— É verdade, temos um clima muito bom. Seria difícil me habituar em outro lugar. Embora
tudo seja questão de necessidade e tempo para aperfeiçoarmos a alguma coisa.

— Você tem razão. Mas é sempre bom não ser necessário passarmos por esse processo. –
Thaissa olhou para ele e viu-se refletida nos olhos de Marcus. Aquela sensação a deixou perturbada.

— Vamos comer ou não chegaremos à empresa hoje. – falou ela começando sua refeição para
disfarçar o arrepio que sentiu.

Dali em diante não conversaram muito, até o término do almoço.

Quando Marcus chegou à empresa, ficou observando para ver se Thaissa logo chegaria. Por
alguns minutos desejou sentir o cheiro bom dela entrar em suas narinas, mas ele não veio.
Certamente, o que ela teria a resolver ainda não havia sido concluído. Quando ela entrou,
cumprimentaram-se rapidamente. Em seguida, Thaissa sentou-se e começou a organizar alguns
documentos que deveriam levar para a reunião.

— Thaissa, onde está a folha da assinatura reconhecida firma desse contrato? – perguntou
Marcus após folhear por duas vezes o arquivo.

— Eu a deixei junto com as demais – respondeu ela olhando os papéis na mão dele.

— Ela estava em uma folha extra junto com a última cláusula, mas não está mais aqui. –
informou Marcus olhando a sua volta. Ambos procuraram pelo documento em vão.

— Isso está ficando chato. É a segunda vez que acontece. Não estou entendendo. – comentou
Thaissa, contrariada.

— Esse documento não será possível substituir agora. Terei que pedir alguns dias para passa-
lo aos demais, caso não o encontremos depois. — informou Marcus, tranquilamente.

— Veremos a respeito, agora precisamos ir. – falou ela, revirando outros documentos que
estavam sobre a mesa, sem sucesso.

— Vamos então e deixamos para mostra-lo quando o tivermos em mãos. – Em momento algum
Marcus deixou transparecer que estava insatisfeito pelos acontecimentos próximos um do outro. Mas
Thaissa estava visivelmente contrariada. Ela não conseguia compreender o que acontecia. Seguiram
juntos para a reunião, e por sorte, o assunto não veio à tona, embora por vezes Thaissa pressentisse
que Letícia falaria a respeito, mas sempre que ela começava, Marcus se sobrepunha e chamava a
atenção dos membros para outras questões. Letícia era uma das poucas pessoas que estavam
envolvidas naquele projeto de onde sumira a assinatura, o que facilitou para que passasse batido
pelos demais.

Terminada a reunião, Thaissa foi buscar alguns documentos na sala do pai, e quando retornou,
Marcus desligava o telefone.

— Não conseguiremos ter o documento tão rápido o quanto eu imaginei. Não poderão enviar
pelos próximos dias e precisamos de assinaturas originais. – Thaissa ficou constrangida, sentindo-se
culpada pelo atraso dos processos.

— Eu sinto muito, Marcus. Isso não irá minimizar o problema, mas precisava te dizer.

— Tudo bem, mas a partir de agora vamos ficar mais atentos a esses documentos. Nada de
deixar sobre a mesa, mesmo estando um de nós na sala. Quando terminarmos de verifica-los,
devemos guarda-los, combinado! – Ele disse sério, porém a voz permanecia branda.

— Sim! – O assunto foi encerrado ali, e por mais que Thaissa desejasse deixa-lo de lado, sua
imaginação a levara a se perguntar o que estaria acontecendo naqueles dias. Parecia que estavam
sabotando seu trabalho. “Será?!” Um rosto veio-lhe à mente ao fazer tal questionamento. Seria
Letícia a responsável pelos dois incidentes? Thaissa acreditava que sim. Embora tentasse
profundamente não ter sentimentos negativos com relação à mulher, não tinha muitas alternativas e a
colega se encaixava bem no quesito trapaça.

— Thaissa, deixaram esses documentos para você. – disse a secretária, entregando-a.

— Obrigada Paula! – Thaissa verificou o destinatário antes de guarda-los na pasta novamente.


Era a resposta impressa do projeto que aguardava análise havia tempo.

— Vamos tomar um café? – Convidou ela.

— Obrigada Thaissa, mas acabei de ir fazer meu lanche. Ficamos combinadas amanhã, pode
ser?

— Claro! Combinado então. – Ela se despediu e foi para a cantina.

Quando retornou com a pasta em punho, Thaissa não viu mais Marcus. Provavelmente estaria
resolvendo alguma questão. Ele lhe deixara um recado dizendo apenas que retornaria só no dia
seguinte.

Thaissa continuou montando suas planilhas de controle até o dia terminar. Ao saiu da empresa
sentindo-se mais leve e foi para casa descansar. Havia pensado muito a respeito de sua vida e do
tempo que perdera se queixando por algo que não podia mudar. Precisava seguir sem arrastar mais
aquele imenso peso que levava consigo. Estava cansada de carregar algo do qual não necessitava
para viver. A mudança já estava mais do que na hora de começar. Havia alguns bons livros na
pequena biblioteca de sua casa e Thaissa optou por uma obra da escritora brasileira Ahtange
Ferreira, que tratava sobre relacionamentos conturbados, e o leu até que o sono viesse.
CAPÍTULO 20

No dia seguinte, nem Marcus nem Letícia surgiram na empresa pela manhã. Thaissa ficou
curiosa pela coincidência, mas logo se esqueceu deles e se dedicou aos afazeres. Foi após o almoço
que a curiosidade a incomodou mais. Conforme havia combinado com Paula, as duas iriam fazer o
lanche da tarde juntas. Thaissa então aproveitou para tentar esclarecer suas dúvidas.

— Paula, você tem notícias de Marcus? – perguntou com fingido descaso. – Não o vi hoje
ainda.

— Sim tenho. Ele ligou dizendo que teve alguns contratempos e provavelmente não virá hoje.
Inclusive me pediu para avisá-la, mas não a vi pela manhã e estive ocupada com alguns cadastros.
Como marcamos de nos encontrar aqui hoje, deixei para lhe dar a notícia agora. – Thaissa gostava
muito da jovem, mas sentiu vontade de belisca-la por ter ficado curiosa por toda a manhã.

— Ele e a Letícia estão trabalhando em algum projeto. Estariam tratando a respeito? –


questionou Thaissa um pouco mais.

— Não sei a respeito de nenhum trabalho que estivessem juntos hoje. O que sabemos é que a
Letícia precisou se ausentar por motivos particulares, mas ela já está na empresa. Você não a viu
hoje?

— Não! – Thaissa não sentira o forte cheiro do perfume da outra mulher naquele dia, por isso
acreditou que ela não estivesse lá. Provavelmente, porque Marcus não estava na empresa e Letícia
não fora até o andar onde eles trabalhavam. Ou talvez estivesse se acostumando com o cheiro da
outra a ponto de não se importar mais com ele! Thaissa preferia acreditar que sim.

— Você tem estado muito ocupada para os amigos, Thaissa. Será que Marcus tem tomado todo
seu tempo? – A moça disse sorrindo, o que a deixou sem graça.

— É exatamente isso, Paula. O homem parece gostar muito de trabalhar e resolveu me incluir
em sua longa jornada desde que chegou aqui. – Mentiu ela.

— Você é uma das pessoas melhores qualificadas na Fênix. Ele fez bem em optar por você a
Letícia. – Thaissa não queria tocar em assunto que envolvesse a outra mulher, principalmente, porque
estava se tratando mentalmente para livrar-se do mau que a outra causara. Além do próprio fardo que
ela insistia em carregar.

— Ele sempre pede ajuda a quem estiver mais próximo e como sou eu, faço o que posso pelo
bem da empresa.

— É verdade! – Como sempre a jovem era discreta. Esse era um dos motivos que fez com que
Thaissa lhe tivesse muita estima.

— O cliente da franquia de cosméticos já respondeu a solicitação que pedimos que enviasse? –


quis saber Thaissa interessada.

— Ainda não. Parece— me que estão em dúvidas quanto a garota que irá representa-los. Eles
possuem duas boas opções.

— Vamos lhes dar mais algum tempo, assim teremos o nosso para nos organizar melhor
também. – Conversaram por mais alguns minutos, e quando terminou o horário estabelecido,
retornaram aos seus afazeres.

A tarde passou lenta e sem novidades. Com isso Thaissa conseguiu colocar muito de seu
trabalho adiantado, e assim poderia dar melhor suporte a Marcus quando fosse solicitada.

À noite quando chegou em casa assustou-se ao ver seu pai. Ele lhe disse que ficaria mais
tempo ausente o que o traria de volta tão rápido. Parecia abatido.

— Não esperava vê-lo tão cedo, pai. – afirmou, esperando que ele lhe tirasse a curiosidade.

— Filha! Precisamos conversar, tenho um assunto delicado para tratar sobre a empresa. –
André estava também cabisbaixo.

— O que tem a empresa, pai? – perguntou ela, preocupada.

— Eu nunca lhe disse, mas desde que sua mãe ficou doente e tivemos que gastar muito com o
tratamento dela, e claro pelas escolhas que eu fiz na minha vida, as coisas não são mais as mesmas
financeiramente para nossa família. – Thaissa percebeu que ele evitava olhá-la nos olhos quando
sentaram-se frente a frente.

— O que quer me dizer com tudo isso, pai? Estamos falidos? – Thaissa perguntou preocupada.

— Eu tive que vender grande parte de nossas ações recentemente para cobrir dívidas antigas e
permitir que a Fênix se tornasse mais forte no mercado financeiro, e a partir de agora, seremos
minoria. Não teremos mais participação na tomada de decisões da empresa. – Parecia irreal o que
ela ouvia. Por vários anos estiveram a frente de tudo, e agora ela ouvia aquilo do pai.

— Por que não me disse isso antes? Poderíamos ter tentado outra opção. – Thaissa falou
carinhosamente, seu pai parecia arrasado.
— Não havia mais nenhuma filha, era isso ou isso. – falou André contrariado. — Mesmo antes
de sua mãe morrer eu tive que desfazer de algumas ações da empresa, que você sabe que passei para
Letícia devido a pressão que ela me fazia constantemente. – Thaissa sentiu novamente a mágoa
tomando conta de seu corpo, mas segurou-se para não alimentá-la.

— Quando isso aconteceu? — É claro que percebi que as coisas mudavam, mas não a esse
ponto. – Thaissa estava tão chateada consigo mesma por não ter ajudado ao pai, quanto com o
acontecido.

— Eu tentei esconder de você o quanto pude filha. Não queria preocupa-la e talvez tenha sido
esse meu erro. Poderíamos ter trabalhado juntos em algum plano estratégico para salvar nossos bens.

— Para quem você vendeu as outras ações? – perguntou Thaissa, desconfiada.

— Para o Marcus. – Thaissa olhou para o pai, admirada.

— Marcus? – Não acredito, é por isso que me disse que ele o orientou a tirar uns dias de
folga? Era para te convencer a vender para ele? – Como ele fora capaz de iludir seu pai. – Pensou
ela.

— As negociações estavam complicadas, filha, e eu preferi fazer a viagem para que ele me
ajudasse a organizar as coisas aqui.

— Você não percebe que era uma jogada dele para te afastar e poder se beneficiar com isso? –
falou ela magoada.

— Filha ele não era o único interessado nas ações. A Letícia também as queria, e caso
conseguisse, a primeira coisa que faria seria nos colocar para fora.

— A Letícia?! Mas onde ela conseguiria uma quantia dessas? – Olhando incrédula para o pai,
ela disse: – O dinheiro dela pertencia a você?

— Sim, filha, parte do dinheiro era nosso. – falou ele, envergonhado. – Ela me convenceu a
investir em ações no exterior, com isso fiz alguns empréstimos grandes para juntar maior capital, já
que não tinha mais tanto. Eu, tolo, fiz conforme ela orientava, mas as ações não eram minhas, eram
dela. Com isso ela ganhou uma quantia boa com as transações e era exatamente com esse
investimento que ela desejava comprar parte de nossas ações. A outra parte ela queria que
partíssemos em duas, pois havia pessoas interessadas em comprar poucas ações, mas Marcus não
aceitou essa abertura do leque das ações e propôs que fossem vendidas apenas juntas, e então apenas
ele pôde comprar.
— Agora seremos funcionários de quem? – Ela já imaginava a resposta.

— O Marcus agora tem 55% das ações e é o sócio majoritário. Segundo nosso estatuto, ele
administrará a empresa e dará a palavra final de tudo.

— Por que ele não me disse nada a esse respeito? – Quis saber Thaissa.

— Ele preferiu que eu lhe desse a notícia. – Informou-lhe André.

– Seremos remanejados dentro da empresa? – questionou derrotada.

— Marcus me disse que falaria com você sobre algumas novas medidas. – Thaissa que estava
angustiada pelos acontecimentos, ficou ainda mais tensa com o que poderia vir.

— Não precisarão de uma assistente e irão me dispensar? – Antecipou ela.

— Claro que não! Você é muito competente para dispensarem-na. Eu te preparei para ser a
diretora um dia. Infelizmente destruí tudo, mas o aprendizado ficou em você e todos sabem bem
disso. – defendeu sério. — Na verdade, ele quer que você seja sua assistente direta. – Thaissa não
estava preparada para tantas notícias difíceis de ingerir em um mesmo dia.

— Eu posso recusar ou essa é a única função que podem me oferecer? – quis saber ela.

— Por que recusar, filha? É uma ótima oportunidade com ganhos compatíveis. Você sabe que
não estará perdendo, deixe o orgulho de lado, querida. – Thaissa ficou calada por alguns segundos. –
Há sim, a possibilidade de remanejamento, mas em nenhuma outra função você será tão bem
aproveitada e valorizada como esta. – concluiu o pai.

— Vou pensar a respeito. – Aborrecida, ela foi tomar o banho para tentar descansar. Porém,
antes de sair, deu um leve beijo na face do pai, demonstrando seu afeto, pois o homem parecia mais
derrotado que nunca.

No banho, ela deixou-se render pela angústia. O que estava acontecendo a sua volta? Tantas
coisas complicadas vindo ao mesmo tempo contra ela. Estava decepcionada consigo mesma por não
ter percebido a situação e ajudado o pai. Como seria a partir de agora para ambos? Seu velho não
precisava passar por aquilo e quanto a ela, como seria sua vida na Fênix fazendo parte da minoria?
Não que isso a desmerecesse. O que a incomodava mais era o fato de que seria submissa à Letícia
legalmente, e isso já era o suficiente para a mulher se aproveitar da situação e tentar humilhá-la ainda
mais. Esse seria seu maior obstáculo a partir de agora. Não seria fácil continuar na Fênix. Deveria
estar preparada caso fosse necessário deixar de atuar na empresa onde sempre trabalhou.
Olhava-se no espelho que refletia a imagem de uma bela mulher de olhos claros, lábios
carnudos e sensuais combinando com o nariz fino e esguio. Seu rosto era harmonioso e delicado.
Embora naquele momento houvesse certa preocupação estampada nele, ela ainda podia ver certo
brilho em seus olhos e sabia bem o motivo daquele contraste todo.

Marcus chegara lentamente e tão cedo se tornaria o último homem a dar a palavra final. Ele
seria seu superior. Tudo conspirava para se afastarem sempre que se aproximavam um pouco mais. –
Lembrando-se do fato de Marcus ter decidido ficar um pouco mais em Goiânia, veio-lhe a mente uma
constatação triste. Provavelmente teria sido aquele o intuito de Marcus desde o início. Deixando-se
molhar pela água fria sobre seu corpo, Thaissa desejou que Letícia e Marcus jamais tivessem
passado por sua vida.
CAPÍTULO 21

Entrar na empresa onde construíra tantos sonhos, sabendo que a partir de agora teria poucos
direitos sobre ela, foi um grande desafio para Thaissa no dia seguinte. Era constrangedor tornar-se
um membro sem muita função naquele grupo. Na noite anterior, mostrara— se forte diante do pai
durante a conversa que tiveram. Mas aquela foi uma das poucas noites de sua vida em que desejou
que não acabasse. Porém, a realidade bateu em sua face, fortalecendo-a um pouco. Seu pobre pai já
tinha feito muito por ela, e cabia a Thaissa agradecer tudo o que recebera dele, e para isso precisava
se mostrar confiante para não deixa-lo ainda mais depressivo. Iria manter-se firme com uma rocha
quando fosse necessário. Essa seria sua única certeza a partir dali. Assim que viu Paula, deu seu
melhor sorriso.

— Bom dia, Paula! – cumprimentou ela.

— Bom dia, Thaissa! Como está hoje? – A moça perguntou com seu sorriso de sempre.

— Tudo bem, obrigada. E você?

— Também estou. O Marcus pediu que você fosse direto para a sala dele. Me parece que ele
precisará de sua ajuda.

— Obrigada! – Certamente a novidade ainda não havia sido divulgada. Concluiu Thaissa
quando recebeu a notícia da jovem.

— Você estaria disposta a sair na sexta-feira à noite? – Thaissa ia agradecer o convite e


recusá-lo, mas voltou atrás.

— Aonde pretendem ir? – quis saber antes de responder.

— Na boate do pai do Lucas. – Thaissa sabia que o ambiente do local era bom, e talvez
conseguisse aliviar sua cabeça um pouco se saísse para espairecer. Aceitaria aquele ponto de
escape.

— Pode me considerar incluída na programação. Acho que estou precisando me divertir um


pouco. – confirmou ela, ainda indecisa se fazia o certo.

— Depois combinamos o horário. – despediram-se e Thaissa foi ao encontro de seu novo


destino. Ao chegar a sua sala, Marcus a aguardava.
— Bom dia! – cumprimentou-o sem saber se poderia colocar seus pertences na mesa ou não.

— Bom dia, Thaissa! – Ele a observou em silêncio. Ela parecia abatida, embora tentasse
disfarçar bem.

— Parabéns pela conquista. – parabenizou-o, sentando-se por fim.

— Obrigado. Espero que tenha entendido a causa. – falou certo de que ela pensava diferente.

— Claro que sim. – Thaissa falou.

— Era eu ou Letícia, os maiores interessados. – Marcus reafirmou o que André havia dito para
ela na noite anterior. Olharam-se rapidamente nos olhos, e ela desviou os seus.

— Você realmente deseja que eu seja sua assistente direta ou fez isso a pedido de meu pai? –
quis saber ela.

— Você é uma excelente profissional, eu seria muito tolo se dispensasse sua ajuda. – Fique
aqui por esses dias e vamos combinando as coisas conforme for possível, tudo bem?– orientou-a
tentando amenizar o assunto. – Thaissa concordou com um movimento de cabeça.

— Vamos deixar algumas coisas claras então. Não gosto de me imaginar tendo um caso com
meu superior. Uma situação dessas poderia me incomodar muito. – falou ríspida.

— Não temos um caso, Thaissa. Apenas trocamos alguns afetos. Somos adultos e podemos nos
permitir isso. Não há nada que nos impeça. – defendeu-se calmo. — Antes você alegava que não
queria porque não perdia seu tempo com relações passageiras que acreditava não valer a pena.
Agora é porque somos, sei lá, colegas de trabalho. E mais, eu não sou seu superior aqui, apenas
tenho um pouco mais de autoridade no ato de resolver as questões. – argumentou ele.

— Somos patrão e funcionária. Essa é a verdade – respondeu Thaissa ainda em tom áspero. –
Prefiro que não sejamos mais que isso a partir de agora. – Concluiu ela.

— Está sendo exagerada, Thaissa. Não precisa de tudo isso. – Marcus a repreendeu pela
infantilidade.

— É isso ou não aceitarei o cargo. – falou firme, deixando-o sem saída.

— É isso mesmo que deseja? Nunca mais nos tocarmos e permitir que morra esse desejo que
sentimos um pelo outro? – questionou ele.

— Será o melhor para ambos, Você sabe disso tão bem quanto eu. – Thaissa estava tão
decidida que ele preferiu não insistir.

— Se prefere assim. – Marcus olhou— a nos olhos longamente. Não seria fácil para ele, mas
para não perde-la de vista aceitaria, por enquanto.

— No final, concluiremos que fizemos bem. – Não seria fácil para ambos conviverem fingindo
que nunca trocaram carícias e que não havia uma paixão acesa entre eles, mas Thaissa acreditava que
deveria deixar que o tempo apagasse aquele fogo e assim pudesse retornar as suas vidas, cada um em
seu lugar.

— Tudo bem então. – aceitou ele encerrando o assunto.

Talvez por opção ou esperteza, Letícia não apareceu na sala do novo diretor geral para fazer
algum comentário maldoso sobre a nova situação dela na empresa. Pela primeira vez, Thaissa ficou
grata à outra. Não tinha a menor vontade de confrontar com a malícia e maldade de mulher naquele
dia. Já tinha muitos problemas a resolver e não queria mais um. Estar com Marcus dia pós dia seria
sua grande prova e precisava acumular forças para não se deixar vencer pela atração que sentia por
ele.

— Quando pretendem fazer as devidas burocracias de transferência de ações? – perguntou ela


que preferira não questionar muito o pai por vê-lo demasiadamente mal na noite anterior.

— Já fizemos uma parte do processo, faltam apenas alguns ajustes. – Informou Marcus.

— Para quem viria para Goiânia por curto período, você acabou de se enterrar aqui por mais
tempo. – afirmou ela seca.

— Não me importo com isso. Sinto— me bem aqui e não será nada extremamente complicado
permanecer. – defendeu- se sério, percebendo que ela estava sentida com a situação.

— A ideia de comprar as ações de meu pai, surgiu quando? Como soube dos problemas pelos
quais ele passava? – Ela queria entende em partes como acontecera.

— O que posso lhe dizer é que seu pai fez alguns empréstimos colocando como garantia a casa
de vocês e os outros pequenos bens que possuem. Conforme o tempo passava, seu pai não conseguiu
mais pagar nos vencimentos e as coisas foram complicando mais. Chegando ao ponto que você vê
agora. Seu pai precisou vender parte das ações que possuía para não ter problemas com a lei e
respingar alguma coisa na Fênix.

— Ele me disse sobre o investimento que fizera em ações. – falou ela certa de que Marcus já
sabia.

— Eu soube quando ele veio me procurar e pedir que o ajudasse. – Thaissa olhou desconfiada
para ele. — Ofereci um empréstimo ao seu pai, depois que nos reunimos e Letícia deixou claro seu
interesse, mas ele não quis. Como não havia alternativa que não fosse vender parte da empresa, ele
preferiu lançar a opção de venda para não perder a casa de vocês. Eu não pude deixar que
acontecesse o óbvio. Letícia compraria a maior parte sem dúvida. Falei com seu pai em off e propus
a venda somente do pacote fechado das ações e assim não haveria concorrente. Ficando apenas eu
como interessado.

— Não precisava fazer isso. – falou Thaissa, embora chateada, estava agradecida pelo que ele
fizera a ela e ao pai.

— Eu sei disso, Thaissa. Mas fiz com prazer. Não se preocupe com minha decisão, ela foi
tomada após boa análise. Não a fiz apenas para ajudar seu pai. – De fato, Marcus fizera seus cálculos
com seu advogado, mas sua decisão final fora tomada de forma pessoal.

— Eu espero sinceramente que não se arrependa pelo que fez, e que possa ter bom retorno. –
disse Thaissa sincera.

— Eu espero o mesmo, Thaissa. – Marcus a olhava disfarçadamente, não se arrependeria


nunca.

Trocaram outras poucas palavras pela manhã e nada mais. Thaissa se dedicou a preencher seus
arquivos enquanto Marcus falava com alguns clientes agendando a divulgação de suas marcas na
mídia. Os acordos pareciam ter sido muitos, constatou ela, vendo-o aparentemente cansado naquele
dia. Muitas empresas queriam se divulgar, mas não tinham a menor noção de como fazê-lo
corretamente e cabia a equipe da Fênix explicar e orientar seus parceiros.

Quando Thaissa deixou a sala para o almoço, Marcus ainda ficou por lá. Ela gostaria de
oferecer sua ajuda, mas percebeu que ele já estava em processo de conclusão e optou por sair antes
que ele fizesse alguma proposta para o almoço a qual ela teria que recusar. Nos corredores, ela
percebeu alguns olhares curiosos. Essa seria sua outra dificuldade ali. Alguns entenderiam o que
acontecia com naturalidade, outros, no entanto, fariam perguntas desnecessárias ou imaginaria algo
sem confirmar sua veracidade. Thaissa, porém, estava ciente de que não devia dificultar nada.
Aqueles que a procurassem para se informar teriam sua curiosidade sanada.

Quando Thaissa chegou a recepção, as amigas a trataram da mesma forma como fizeram pela
manhã. Certamente elas não se importaram mesmo. – O que a deixou com menos grilos.
— Nosso compromisso está firme, Thaissa? – perguntou Paula, lembrando-a.

— Claro que sim, Paula! Confirmado. Na verdade ela não tinha a menor vontade de sair pelos
próximos dias ou meses, mas aceitaria o convite. Talvez assim conseguisse esquecer por algumas
horas os problemas que teria que encarar.

Thaissa fez um almoço rápido no restaurante do Shopping onde estivera com Marcus, e após a
refeição aproveitou para visitar algumas lojas. Passado seu horário, ela retornou para a empresa.
Quando chegou era aguardada por Letícia. Marcus estava ausente.

— Boa tarde, Thaissa. Você poderia rever esses documentos para mim? – perguntou ela,
mostrando os papéis.

— Boa Tarde, Letícia! – Thaissa olhou os arquivos que ela lhe estendia, aparentemente
desorganizado. – Me desculpe, mas o que você precisa que seja feito com eles? – Ela não entendeu o
pedido da mulher.

— Que sejam colocados em ordem de data, e depois passados para um arquivo digital. –
respondeu Letícia sorrindo.

— Talvez você possa pedir a uma das secretárias que façam isso. Infelizmente não poderei
fazer por você. – Thaissa foi direta.

— Como não?! Você agora é secretária também ou estou enganada? – A mulher parecia se
divertir.

— Sim. Você está enganada. Não sou uma secretária, sem desmerecer as meninas, mas eu sou a
assistente do diretor administrativo da empresa. – disse ela, pausadamente.

— Isso não faz de você melhor que as demais. – Retrucou a mulher sem o sorriso que tinha nos
lábios a pouco.

— Você não tem muito mais que eu aqui, então posso te classificar como secretária também? –
Letícia fez uma cara de desentendida para ela. – Qualquer problema ou dúvida que tenha Letícia, fale
com o Marcus. Enquanto isso peça sua secretária que faça seu serviço, tudo bem? – Thaissa foi
guardar sua bolsa no armário.

— Precisa descer de seu pedestal. Isso pode comprometer sua vida aqui. – Ameaçou-a Letícia.

— Fique à vontade para tomar as decisões que acredita ter autoridade para tanto. Enquanto
isso me deixe trabalhar. – Thaissa passou por ela lentamente e foi sentar-se à sua mesa. – A mulher
deu um sorriso forçado e saiu da sala. – Já não era fácil conviver com Letícia quando eram sócios
majoritários. Thaissa já imaginava o quanto seria mais difícil agora que não passavam de simples
acionistas. Que estavam trabalhando ali pela experiência que possuíam, e claro, pela provável
gentileza de Marcus. – Agora mais do que nunca precisaria se manter calma e profissional com a
outra. Que certamente faria tudo e um pouco mais para complicar a vida dela ali dentro. Minutos
depois, Marcus chegou.

— Eu me atrasei ou foi você quem chegou mais cedo? – perguntou ele ajeitando os cabelos ao
entrar.

— Cheguei alguns minutos antes, mas você está sim atrasado. – afirmou ela disfarçando o mal
estar que sentia.

— Será que estamos aprendendo a agir igual ao outro? – perguntou ele sorrindo, aliviando a
tensão que estava nela.

— Pode ser. E acredito que você sairá ganhando nessa mudança. – Thaissa afirmava educada.

— Você pode ter razão. ​ — Marcus a observou melhor. – Está tudo bem por aqui?

— Sim! Por que pergunta? – quis saber Thaissa, disfarçando.

— Não sei, apenas senti algo diferente no ambiente. – Marcus respondeu observando— a
melhor.

— Impressão sua, Marcus. – Como Thaissa não parecia disposta a continuar aquela conversa,
ele encerrou-a.

— Thaissa, se pudesse escolher entre ficar aqui e na sua sala, o que gostaria?

Ela o observou por alguns segundos antes de responder.

— Estou bem aqui, mas na minha sala tinha mais espaço e privacidade para desenvolver meu
trabalho. Por que pergunta isso? – Talvez Marcus desejasse que ela se afastasse depois de ter dito
que não queria nenhuma intimidade entre eles. Por isso Thaissa preferiu ser o mais sincera possível.

— Não há problema algum, se quiser voltar. Aliás, vi que ainda tem muitas coisas suas lá. – O
comentário dele animou-a um pouco mais. Não seria fácil estar na sala dele o tempo todo.

— É verdade, não tive tempo de limpar a sala ainda. Aconteceu tudo muito rápido.

— Eu sei que sim. – Ele falou naturalmente sem demonstrar pena ou algo assim, o que a deixou
mais aliviada. Thaissa não precisava desse sentimento por parte de ninguém. — Então volte para lá.
Estaremos perto, e qualquer coisa que precisemos, podemos ir até o outro ou pelo e-mail ou telefone.
Temos muitas opções de nos comunicarmos. — Marcus preferia tê-la por perto, mas percebeu que
Thaissa parecia deslocada ali. Ela ficaria melhor em seu espaço e dessa forma ele também estaria
bem. Havia ainda o fato de que a presença dela o estava tirando a concentração, mais do que
precisava.

— Amanhã retorno para lá, se isso não atrapalhar. – finalizou ela.

— Claro que não. Pode fazer como quiser. – Thaissa agradeceu com um sorriso discreto
fazendo-o se arrepender por tê-la afastado mais uma vez. Porém, ele não voltaria atrás. Deixaria ela
livre para escolher o que acreditasse ser o melhor. A partir dali discutiram alguns contratos
pendentes até o término do dia.

— Boa tarde, Thaissa! Amanhã falamos sobre esse outro projeto que é mais extenso. –
Informou Marcus, ao olhar para o relógio do computador.

— Boa tarde. Amanhã você me encontra na sala ao lado. – lembrou ela se despedindo.

— Eu sei que sim! Bom descanso! – desejou Marcus.

— Obrigada, para você também! – Thaissa saiu deixando-o observando a porta por alguns
segundos e se perguntando como chegara àquela situação. Não era intensão sua tornar-se ainda mais
ligado a Fênix. Mas quando percebeu que Letícia teria sua vitória e que, certamente refletiria
negativamente sobre Thaissa e seu pai. Não pensou duas vezes em ajuda-la. Jamais se perdoaria se
não o fizesse, mesmo depois de retornar para sua vida em Minas Gerais. Mas agora tudo ficara um
pouco mais complicado após adquirir tantas responsabilidades. No entanto, ele sabia que faria essa
escolha quantas vezes fossem necessárias.

Thaissa desceu pela escada. Precisava caminhar. Sua vida passava por uma transformação
considerada grande, mas não iria se deixar abater por isso mais que o necessário. Ainda havia muito
o que fazer pela empresa, ela e seu pai. Permaneceria firme mesmo quando desejasse se entregar. Era
sua única escolha.

À noite, Thaissa tomou um rápido café com o pai antes de ir para a cama. Ela tinha consciência
de sua dor, e por isso o fez companhia para que não se amargurasse mais. Conforme cuidava das
feridas dele, as suas também iam sendo cuidadas aos poucos e ela conseguia ver com novas
perspectivas os últimos acontecimentos em suas vidas. Teria apenas que continuar atenta para não
deixar que seu pai caísse novamente na depressão. De certa forma, ele se mostrava mais forte e
aceitava os fatos como eram. Isso a deixava mais tranquila e lhe permitia tempo para pensar em sua
vida também. Mas ainda assim estaria atenta a ele, sempre. Thaissa olhou-se no espelho por alguns
segundos, pensativa. Havia muito tempo que não aconteciam novidades em sua vida. Procurara
trabalhar o máximo possível para não pensar nessa questão. Agora algo começava a incomodá-la,
estaria ela desejosa de ter uma companhia masculina? Seria Marcus a causa dessa aparente
necessidade repentina? Por capricho do destino não poderia usufruir da paixão que os rondava. Não
lhe agradava imaginar-se tendo um relacionamento com seu superior. Se antes de vê-lo dessa forma
já não estava satisfeita com os rumos que levavam aquela paixão, agora então, parecia mais
improvável ainda.

No dia seguinte, já instalada novamente em sua sala, Thaissa pôde recolocar suas coisas em
ordem. Longe de Marcus poderia trabalhar com mais empenho, sem desviar sua atenção, o que lhe
renderia e muito as atividades que teria que cumprir.
CAPÍTULO 22

Na sexta-feira, conforme haviam combinado dias atrás, Thaissa, Paula e outra colega foram à
boate se divertir. Havia tempos que Thaissa não se permitia esse lazer. Como estava necessitando
muito se distrair, não se deixara vencer pelo desânimo.

Embora não estivesse muito a fim de curtir a noite, ela foi obrigada a reconhecer que fizera
uma ótima escolha ao aceito o convite das colegas. Suas acompanhantes eram animadas e por várias
vezes Thaissa se divertiu a ponto de esquecer completamente os ruídos emocionais que perturbavam
sua mente. Procurara não ingerir nada que tivesse álcool por estar dirigindo. Ela queria somente se
distrair, qualquer coisa, além disso, poderia tornar aquela noite catastrófica. Estavam sentadas
próximas ao bar quando um homem bonito e bem trajado se aproximou. Ele tinha o corpo malhado e
forte. Usava uma camisete branca justa evidenciando toda sua beleza corporal com calças jeans clara
e um sapato esporte fino casual. Era alto, em média 1.80m, cor clara, mas com toques de
bronzeamento. O formato do rosto quadrado e de expressão zombeteira chamava a atenção.

— Boa noite! – Ele dirigiu seu comprimento diretamente para Thaissa. – Todas responderam
ao cumprimento e ele sentou-se ao lado de Thaissa que estava na extremidade.

— Não me lembro de vê-la por aqui. – disse com um belo sorriso nos lábios.

— Não tenho tido muito tempo para a diversão. Mas já estive aqui em outras ocasiões –
respondeu ela educada.
— Provavelmente eu não estava, pois jamais esqueceria um rosto como o seu. – Thaissa
aceitou o elogio com um leve movimento da cabeça. Embora a cantada fosse antiga, ela simpatizou
com o rapaz.

— Você ainda não me disse seu nome! Eu sou Fred. – Ele levou sua bem cuidada mão na
direção da dela.

— Thaissa! – respondeu aceitando o cumprimento dele.

— Dança comigo? – Sem perder tempo o rapaz pegou-a pela mão e a arrastou para o meio da
pista. Thaissa preferiu entrar no clima e o acompanhou.

— Você dança muito bem. – Elogiou-a Fred em seu ouvido.

— Faço o que posso, mas saiba que não vai me convencer que sou boa dançarina. Isso eu não
irei permitir jamais. – Ambos sorriram e entrelaçaram suas mãos alegremente para um passo mais
ousado. Ouvir a antiguíssima, I Love to Love, era tudo o que Thaissa precisava naquele momento.
Adorava a batida da música de Tina Charles. Porem o que mais desejava naquele momento não era
“Amar o amor” como dizia a música. Queria apenas amar a dança como dizia também na letra. Isso
já a deixaria feliz, mesmo que por alguns minutos. Queria divertir-se sem ter que sentir saudades de
alguma coisa depois. Quando terminaram os movimentos animados que faziam em volta um do outro,
ficaram face a face, e o beijo aconteceu. Embora o rapaz beijasse bem, Thaissa não sentiu o arrepio
percorrer a espinha como desejava sentir para afastar os pensamentos que tinha. O beijo morno e
atrevido não a estimulou tanto. Fred a enlaçou imitando os beijos de cinema deixando tanto suas
bocas quanto os corpos, colados. Por um momento, Thaissa sentiu certa repulsa da reação dele, mas
preferiu se concentrar no beijo e ver até onde ele iria.

— Você é linda! – falou Fred após o beijo quase exagerado que dera nela.

— Obrigada! –Agradeceu Thaissa afastando-se um pouco.

— Espero que não tenha um compromisso lá fora. Eu ficaria muito triste. – Ela teve vontade de
dizer que sim, mas ao se lembrar de Marcus e do pré-conceito que ele tinha em relação a ela,
preferiu ser verdadeira.

— Eu provavelmente não estaria aqui sozinha, e muito menos permitindo— me ser beijada por
você, se tivesse alguém. – declarou séria.

— Eu acredito que não. – falou ele com um enorme sorriso.


Retornaram a dança sem mais contratempos e Thaissa viu-se esquecida de tudo a sua volta e
pode se divertir um pouco com o extrovertido acompanhante. Dançaram várias músicas e quando já
estavam cansados, foram para o bar onde estavam as amigas dela.

— Quando quiserem ir, estou à disposição, meninas. – Embora estivesse gostando da


companhia do rapaz. Thaissa sentiu uma necessidade urgente de ir para casa naquele momento, não
sabia o porquê, apenas queria fazê-lo logo.

— Podemos ir, se quiser. – falou Paula. – Todas as jovens aceitaram a proposta. Percebendo
que iriam embora logo, o rapaz pegou Thaissa pelo braço e a aproximou um pouco dele para se
falarem.

— Me passe seu número de telefone que entrarei em contato. – pediu ele, Cortês.

— Se quiser me passar o seu, posso te ligar também. – Tentou contornar a situação.

— De forma alguma. Eu te ligo! – Thaissa passou o número antes que desistisse. Quando ia
pedir o dele, apenas por educação, Fred foi beijá-la, mas dessa vez ela estava atenta e não aceitou
mais que um cumprimento formal dele, oferecendo— lhe o rosto.

— Foi um prazer dividir essa noite com você. Espero que possamos nos ver mais vezes.

— Claro que sim! Obrigada pela companhia. – Despediram-se e Thaissa foi ao encontro das
amigas.

— Você que costuma vir mais aqui, Paula, já o viu na boate? – perguntou ela assim que as duas
entraram no carro, acompanhadas pelas outras colegas em outro veículo.

— Não, Thaissa. Nunca o vi por aqui. Ele disse que costuma vir na boate? – Perguntou a moça.

— Sim, disse – respondeu sem muito interesse de continuar com o assunto.

— Talvez eu não tenha observado bem, mas não me lembro do rosto dele. – afirmou Paula.

— Tudo bem, deixa pra lá. – Mudaram o assunto e conversaram longamente até que Thaissa a
deixou em casa e seguiu para a sua.

No sábado, Thaissa acordou tarde por ter dormido menos indo à boate, e pelo longo tempo que
ficou refletindo sobre sua última semana antes de adormecer. Um novo dia a aguardava e ela
precisava sentir e vive-lo da melhor forma possível. Ainda sonolenta, levantou-se e foi para o
banheiro.
Após o banho, ela olhava-se no espelho pensativa. Aquela era sem dúvidas a melhor fase de
sua vida, mesmo tendo os problemas que tinha. Sentia-se mais viva e feliz consigo mesma. Isso era o
suficiente. Não poderia esquecer-se jamais disso. O brilho nos seus olhos era evidente. O que seriam
aqueles sinais? Ela não sabia. Talvez fosse o fato de que entre ela e seu pai as coisas se resolviam
com mais clareza a cada novo encontro e abraço fraterno. Era muito prazeroso para ela vê-lo
renascendo das cinzas. Repassando o passado em sua mente ela lembrou-se de quando foram
escolher o nome da empresa e seu pai quis batizá-la como Fênix. Era assim que se sentia naquele
momento, uma fênix. As tribulações eram muitas ainda, mas uma força maior a estava ajudando e ela
conseguia tirar de seu ombro, grande parte do peso que acostumara-se a levar. Inspirando
profundamente o ar, ela sorriu para sua imagem refletida.

— Os problemas não serão eternos. – falou alto para que ela não somente pensasse, como
também, ouvisse suas palavras.

Banho tomado e astral mais renovado Thaissa se preparava para sair e respirar um pouco
quando seu telefone tocou. Sem se preocupar em conferir quem ligava, ela atendeu.

— Alô! – Disse ainda desatenta.

— Thaissa! Como é bom ouvir sua voz novamente! – Ela sorriu das palavras do rapaz. Ele era
um encanto, pena que ainda usava as frases da adolescência.

— Bom dia, Fred. Tudo bem com você? – perguntou olhando para o sol lá fora.

— Estou ótimo, minha querida. Espero que tenha tido uma noite tranquila, porque a minha foi
maravilhosa. – Thaissa sorriu da expressão de felicidade que ouviu dele.

— Sim, minha noite foi bastante tranquila. – disse ela referindo-se ao período, após ter
adormecido.

— Fico feliz em saber disso. Posso presumir então que também lhe trouxe certa alegria. –
Falou ele.

— Claro que sim. É sempre bom conhecer pessoas agradáveis que nos alegram um pouco. –
Era verdade, Fred seria um bom acompanhante, pois certamente ele não deixaria o astral ficar ruim
onde estivesse. Essa fora a impressão que ele passou.

— O motivo de minha ligação é que gostaria muito de vê-la amanhã. “Tão cedo assim.” –
Pensou Thaissa procurando uma desculpa para se livrar do encontro.
— Estarei bastante ocupada nesse final de semana, Fred. Preciso resolver algumas pendências
aqui. – Inventou ela.

— Caso esteja muito ocupada, escolha um horário em que poderá se ausentar um pouco. Eu
estou à sua disposição. – falou ele com voz suave.

— Não gostaria de estar com você me lembrando dos projetos que deixei parado, Fred. –
Tentou mais uma vez Thaissa.

— Podemos discuti-los, e com isso, talvez, fique mais fácil para você quando retornar às
atividades. Sou advogado e gosto muito de ajudar as pessoas. “Simpatia em excesso também não
era uma boa qualidade.” – Pensou Thaissa.

— Tudo bem então. Se faz tanta questão, me encontre no parque vaca brava às 20 horas. — O
rapaz era persistente e ela acabou por aceitar encontra-lo no domingo à noite. E acaba por descobrir
naquele momento o primeiro defeito do rapaz. Ele era muito insistente e isso não combinava com ela,
mas daria uma chance a ele de mudar suas impressões.

No decorrer do dia Thaissa ocupou sua mente e corpo zelando das flores que havia na lateral
da casa. Sua mãe sempre fazia essa função e dizia que cuidar das rosas lhe dava ânimo. Segundo ela,
não havia forma mais agradável de esquecer do mundo lá fora, quando cultivava suas flores. Thaissa
procurou fazer o mesmo e se viu de fato desligada de tudo por longo tempo enquanto podava e
plantava novos brotos na terra fértil do jardim.

Ana observava tudo à distância. Ela conheceu bem a dona daquele lindo jardim e quando via
Carolina ali, já sabia que sua patroa estava tentando aliviar alguma tensão que a incomodava.
Certamente Thaissa também fazia o mesmo. Deixaria ela em paz cuidando de suas feridas.
CAPÍTULO 23

— Espero não ter me passado por chato ao insistir para nos encontrarmos hoje. – desculpou-se
o rapaz. — É que devo viajar durante essa semana e só retorno no sábado. – Explicou Fred quando
pegava Thaissa no local combinado. — Caso não fosse mal educado de sua parte, ela teria dito que
foi. Mas não poderia fazer isso com ele, não depois de sua justificativa.

— Não tem problemas, Fred – respondeu ela.

— Como passou esses dias? – perguntou ele, educado.

— Bem, obrigada. Como eu havia lhe dito, o meu sábado foi cheio de trabalho. Precisei
colocar alguns arquivos em ordem, mas no geral foi bem tranquilo. E o seu?

— Também foi bom, principalmente porque pensei em você. – Thaissa sorriu para ele sentindo
algo terno pelo rapaz. Não era o sentimento que desejava, mas era o único que seu coração parecia
disposto a dar a ele. Mais uma vez ela começava a crer que não conseguiria o que desejava.
Encontrar alguém que lhe tirasse Marcus da cabeça. Depois de Humberto com todas suas qualidades,
seria difícil mais ainda do que imaginara.

Fred a levou para jantar em um restaurante no centro, perto do local onde esteve com Marcus
dias atrás. As lembranças não a agradaram muito. Precisava se dedicar um pouco mais ao encontro,
mas não conseguia ou era o rapaz que não tinha o poder de chamar sua atenção, deixando-a solta com
seus pensamentos.

— Você me disse que trabalha com assessoria empresarial para a mídia? – perguntou ele.

— Sim! Essa é nossa função – respondeu ela imaginando qual seria sua próxima pergunta.

— E qual é o nome da empresa? – Thaissa preferia não ter que responder, mas a fez em
respeito à dedicação e boa companhia dele.

— O nome da empresa é Fênix Assessoria em Mídia. – disse ela desejando que o assunto
terminasse ali.

— Claro! Eu sabia que conhecia você de algum lugar. Já trabalhei em uma empresa para a qual
prestaram serviços. Antes que ela lhe perguntasse qual a empresa, para ter algumas referências
adicionais sobre ele, Fred continuou. – Vocês prestam ótimos serviços. Parabéns! – Elogiou-a.
— Obrigada. – Agradeceu ela já desinteressada em saber sobre ele.

A refeição fora feita rapidamente. Thaissa desejava retornar para casa logo.

— O que quer comer como sobremesa? – perguntou Fred, mostrando a mesa na outra
extremidade, cheia de delícias.

— Obrigada, já estou satisfeita. – agradeceu, desejando ir embora.

— Quer ir dançar um pouco antes de retornar? – Fred parecia disposto a agradá-la, mas
Thaissa queria apenas ir para casa, nada mais.

— Como te disse, trabalhei muito ontem. Fred. Prefiro ir para casa descansar um pouco.
Amanhã é um novo recomeço no trabalho. – Thaissa justificou sua recusa.

— Claro! Você tem razão. Desculpe-me! É que gosto de sua companhia, mas podemos nos
encontrar novamente quando eu retornar? – perguntou aparentemente vencido.

— Me liga que combinamos algo. – disse ela tentando encerrar o assunto.

Fred a deixou no mesmo local onde a pegara. Ao se despedir dela, ao contrário do que Thaissa
esperava, ele não a beijou. Pegou em suas mãos e ali deixou seu carinho em um rápido toque dos
seus lábios.

— Foi um prazer revê-la. – disse ele quando se despediam.

— Igualmente para mim. Tenha uma viagem tranquila. — Desejou quando saia. Após entrar em
seu carro, ela partiu com o intuito de não repetir aquele encontro novamente.
CAPÍTULO 24

Quando Thaissa chegou ao trabalho na segunda-feira era aguardada por Marcus, e um imenso
buquê de flores sobre sua mesa.

— Bom dia! – cumprimentou-o olhando das flores para ele, em questionamento.

— Bom dia! Pelo que vejo está começando bem a semana. – O comentário sarcástico de
Marcus a fez entender que as flores não poderiam ter vindo dele ou de qualquer outra pessoa da
empresa. Thaissa pegou o ramalhete e enquanto procurava pelo cartão, percebeu que Marcus a
olhava curioso.

— Lindas as flores! – falou alto após ler silenciosamente o cartão. Virando-se para Marcus,
ela abriu o melhor de seus sorrisos. — Acredito que esteja me esperando para falar comigo!? –
Embora não precisasse, ela sentia-se constrangimento.

— Sim, eu preciso. – Ele parecia em dúvidas, o que deixou Thaissa com a impressão de que
não havia nada para tratarem no momento. Então por que ele a estava aguardando? Marcus teria visto
as flores chegando e foi constatar de onde vinham. – Pensava ela curiosa.

— Sim. – Thaissa percebeu que ele ficava irritado.

— Os projetos que deixamos sem concluir na semana passada. Precisamos coloca-los em dia.
Tentei falar com você pelo telefone assim que cheguei, mas não atendeu, então resolvi vir até sua
sala. – Justificou ele.

— Sim, claro! Poderemos começar assim que eu me instalar. Procuro você em alguns minutos.
– informou ela.

— Espero você em minha sala. – Dizendo isso, Marcus saiu rapidamente enquanto Thaissa
abria novamente o cartão. “Estarei aguardando ansioso o final da semana para poder reencontrá-la.”

— Ouvir palavras belas vinda de bocas erradas, as torna tão vazias. – disse enquanto guardava
o cartão na agenda para ir a busca de um vaso.

Quando Thaissa entrou na sala de Marcus, ele a aguardava com a costumeira carranca, o que
não a incomodou em nada.

— Esses projetos, eu gostaria que desse uma olhada e depois me ajudasse a criar algo para
eles. – iniciou ele entregando-a os papéis logo que ela sentou-se.

— Farei isso! – Thaissa o olhou rapidamente.

— Hoje é algum dia especial em sua vida? Aniversário ou coisa assim? – perguntou Marcus,
sério.

— Não! Por que da pergunta? – Thaissa não se sentia feliz em jogar com ele. Mas algo a
levava a isso. Talvez ainda nutrisse mágoa por ele tê-la deixado no baile. Sem dizer uma palavra
sequer, e por pensar mal dela sem conhece-la de fato. Havia muitos motivos para desejar irritá-lo um
pouco.

— Nada, apenas fiquei curioso. – Ela percebeu que ele fora educado, mas por dentro estava
irritado.

— Tudo bem então! – Marcus abriu uma planilha em seu computador e encerrou o assunto.

— Eu gostaria que você desse uma atenção especial ao segundo projeto. Ele é mais ousado e
por isso precisamos analisar com mais detalhes para que não tenha o resultado inverso do que
esperamos.

— Eu percebi que era bem diferente dos demais. – declarou ela abrindo a pasta novamente.

— Esse cliente deixou de trabalhar com seu outro parceiro, porque desejou uma coisa, mas
passou outro entendimento, o que causou certo desconforto entre eles. Falar sobre a libido das
mulheres ainda é um tabu em várias partes do Brasil, sem dizer do mundo. Vamos fazer uma boa
análise de mercado e da região onde o publico é mais acessível sobre o assunto. – Orientou-a,
Marcus.

— Entendi perfeitamente o que espera. – Ambos sentiam-se constrangidos. Um clima tenso


pairava sobre eles, mesmo fingindo serem bons colegas de trabalho. Thaissa tinha a esperança que
passasse logo aquele clima ruim, como tudo passa. Quando seria, ela não sabia.

— Como foi seu final de semana? – quis saber ele.

— Tranquilo. E o seu? – Ela preferia não saber, mas era sua obrigação ser gentil da mesma
forma que ele fora.

— Também calmo. – Olharam-se por alguns segundos em silêncio absoluto, até que Paula
entrou na sala quebrando o encanto.

— Me desculpe incomodar, mas há um cliente desejando falar com você, Marcus. – informou a
moça.

— Claro! Traga-o até aqui, Paula. – pediu ele. Nesse momento Thaissa aproveitou a deixa para
acompanhar a colega. Estava precisando respirar longe dali. O clima estava tenso entre eles.

— Paula, eu preciso de uns arquivos de uma campanha de um pet shop, feita tempos atrás. —
solicitou enquanto a moça se preparava para partir.

— Vamos procurar nos arquivos agora mesmo. – respondeu a moça. As duas saiam quando
Marcus ouviu Paula perguntando sobre as flores a Thaissa. Ela fez algum comentário, porém ele não
conseguiu ouvir e irritou-se por imaginar que algum homem estivesse cortejando-a.

Após a pesquisa, Thaissa pegou o material dentre outros antigos que julgou serem boas fontes
de coleta e retornou à sua sala. O cliente de Marcus ainda estava falando com ele o que a daria algum
tempo livre para iniciar algo para a campanha. E assim ela passou parte do dia.

No final da tarde, Thaissa foi levar uma previa a Marcus e novamente ele estava ocupado.
Desta vez, ele falava com o responsável pela aquisição do material que usariam em algumas
montagens de cenários. Ela preferiu então deixar para o dia seguinte, assim teriam mais tempo para
discutir o assunto.

Naquela noite Thaissa não dormiu bem. Sentia-se exausta, mas o sono não chegava nunca. Sua
vida passava por transformações em todos os sentidos e aquilo estava sugando muito de suas
energias. Descobrira-se quase que totalmente desligada da empresa que vira nascer e na qual
trabalhara por toda a vida. Havia também Marcus, outra de suas preocupações. O belo homem
surgira em sua vida trazendo consigo muitas questões para Thaissa administrar, e agora um rápido
affair a estava encurralando. Que situação complicada era a sua. Mas uma delas ela poderia resolver
rapidamente. Falaria com Fred assim que fosse possível e encerraria aquela brincadeira tola. Além
disso, ainda tinha Letícia, mas esse problema, assim como Fred, já tinha data prevista para deixar de
ser um tormento. Restaria os demais, e que ficasse apenas nesses, ela esperava.

Após muitas tentativas frustradas de ver um documentário, ela adormeceu.

Na manhã seguinte ela acordou cedo e após seu banho de rotina foi tomar seu café sozinha.
Quando chegou à empresa assustou-se ao ver outro imenso buquê. “O rapazinho gosta de se fazer
lembrar.” Pensou aproximando-se. Ela pegava o cartão quando Marcus mais uma vez a flagrou. Ao
ver as flores sobre a mesa, ele nem sequer fez questão de disfarçar a carranca.

— Daqui a pouco irá aparecer um enxame de insetos aqui, guiados pelo cheiro. – Thaissa lhe
sorriu amistosa.

— Eu uso repelente. – disse sorrindo ao perceber que Marcus estava enciumado.

— Assim que estiver disponível, me informe. Gostaria de falar sobre os projetos caso tenha
alguma coisa pronta. – Marcus falara calmo dando a impressão de estar em um dia melhor que o
anterior. Embora sua face ainda aparentasse certo desgosto pelo que via.

— Tenho sim. Prefere discutir o projeto aqui ou na sua sala? – questionou ela.

— Acho que lá é melhor. – respondeu Marcus olhando para os dois buquês de flores que juntos
pareciam mesmo um enorme atrativo para insetos adeptos. Assim que fosse possível, iria se desfazer
das flores que receberá no dia anterior, embora ainda estivessem belas. Ou as levaria para casa e lá
poderiam ocupar um de seus muitos vasos até murcharem.

Marcus saiu deixando-a ainda com o cartão na mão. Dessa vez o rapaz fora prático desejando
apenas um bom dia para ela.

Quando sentaram-se frente a frente na sala de Marcus para mais um dia de projetos, Letícia
entrou com o mesmo sorriso que Thaissa estava acostumada havia anos.

— Que belo jardim é aquele em sua sala, Thaissa? O admirador é dono de uma floricultura? –
perguntou olhando para Marcus, que ficou ainda mais carrancudo.

— Não ele não tem floricultura – respondeu educadamente, desejando que isso fosse verdade
ou teria problemas.

— Há tempos não vejo flores tão lindas. Os homens de hoje acham um desperdício gastarem
com algo que logo morre. Não sabem eles que adoramos tal agrado, ou fingem não saber. – Thaissa
olhou fundo nos olhos de Letícia, como aprendera a pouco. A quem a mulher queria enganar? Ela
sabia muito bem que a única coisa que alegraria a outra ao receber flores seria o fato de elas virem
junto com um gordo maço de dinheiros.

— Você tem razão, o romantismo, tanto masculino quanto feminino, tem se perdido
rapidamente. – Comentou Thaissa naturalmente como se falasse com uma de suas mais nobres
colegas. Embora ela duvidasse das palavras de Letícia, ao menos as suas deveriam ser verdadeiras.

— É exatamente por isso que as relações têm sido tão superficiais. – Mais uma vez Letícia a
surpreendeu. Ou ela estava com problemas emocionais ou Thaissa desconhecia aquela mulher. Não
parecia em nada com a ex-amante de seu pai, que ela conhecia bem. A mulher se mostrava
contrariada com o rumo que levava as relações modernas, o que não fazia qualquer sentido para
Thaissa. Já que a outra fazia parte do grupo seleto, que colaborava tão brilhantemente para que o
respeito e a valorização da relação homem-mulher se banalizassem tanto.

— É verdade! – Thaissa concordou desviando sua atenção para Marcus. Não havia verdades
na voz de Letícia, o que a levou a conclusão de que não valia a pena gastar mais seu vocabulário com
ela.

— Você precisa de alguma coisa, Letícia? – perguntou Marcus assim que percebeu o fim do
diálogo entre elas.

— Eu vim lhe dizer que estarei ausente durante toda a manhã e que passarei aquelas
informações que me pediu ontem, após o almoço. – Informou ela.

— Tudo bem. Não estou precisando delas agora. – respondeu ele esfregando a bela caneta
dourado que tinha nas mãos.

— Então vou indo. Bom dia para vocês! – A mulher saiu deixando em Thaissa um misto de
dúvidas e preocupação.

— Algum problema, Thaissa? – questionou Marcus, vendo-a pensativa.

— Nenhum! Vamos ao que interessa? – Ela pegou as anotações que havia feito e começou a
repassar para ele.

Durante todo o tempo que ficaram juntos, Thaissa percebeu que Marcus mudava seu humor
constantemente. Ora parecia mais tranquilo. Mas logo em seguida se irritava. — É impressão minha
ou você está preocupado com alguma coisa? Se estiver ligada à empresa e eu puder ajudar. –
Ofereceu ela cansada das mudanças de humor dele.

— Estou muito bem, obrigado. – Por que diz isso? – quis saber ele.

— Por que caso não esteja em condições de decidir agora, podemos deixar para depois, ainda
temos muito tempo. Você parece irritado e contrariado com alguma coisa. – falou sem mais rodeios.

Marcus a observou calado. Não sabia ela que a causa por ele agir como ela mesma dissera, era
exatamente a mulher que estava a sua frente. Desde que Thaissa optara por uma relação apenas
profissional, ele não conseguia agir com naturalidade quando estavam próximos. Principalmente
depois de ver que por dois dias seguidos, ela recebia flores. Não era de sua conta o que se passava
na vida dela, mas Marcus desejava muito saber quem era o sujeito que merecia a atenção dela mais
que ele.

— É impressão sua. Não há nada me incomodando. – Ele voltou a leitura disfarçando seu
humor. Como não houve mais reclamações por parte dele , logo entraram em um acordo sobre um dos
projetos e Thaissa retornou para sua sala a fim de estudar os outros. Paula não havia lhe passado
todos os arquivos que pedira sobre os pets shops, então ela foi em busca deles.

— Paula, você conseguiu encontrar aqueles documentos que te pedi? – perguntou assim que a
encontrou.

— Sim Thaissa. Eu os enviei ao seu e-mail enquanto estava na sala do diretor, mas posso
imprimir para você também caso prefira. Embora ele seja um pouco extenso. – informou a moça.

— Vou analisar no computador mesmo e caso precise eu imprimo as partes mais importantes,
obrigada.

— Você não me contou como está seu affair com o rapaz da boate. Irá vingar? – perguntou a
secretária que não soube muito sobre o desfecho da relação quando as duas saiam da sala de Marcus.

— Como eu disse a você. Ele é um rapaz legal, mas é só isso. Não houve química entre nós.
Pelo menos de minha parte não, e acredito que nem da parte dele. Então penso que não passará disso.
— respondeu Thaissa.

— As flores que ele enviou são lindas! – Comentou a secretária novamente.

— De fato são. Mas achei meio exagerado da parte dele enviá-las dois dias seguidos. Não
havia necessidade de tanto. – Paula achou graça das palavras dela.

— É que não estamos mais acostumadas com esse tipo de cavalheirismo. – lembrou a jovem
sorrindo.

— Você tem razão. Hoje em dia achamos estranho ser paparicadas. Aonde foi parar nossa
sensibilidade né? – Thaissa também sorriu.

— Queremos romantismo e quando o temos ficamos com um pé atrás ou não estamos muito a
fim do sujeito. – Ambas concordaram sorrindo.
— Verdade, mas eu confesso que achei mesmo exagero por parte dele. Foi um encontro muito
superficial para que ele me enviasse flores por duas vezes. Fred foi muito infeliz ao dizer no cartão
que pensava em mim a cada hora, minuto ou segundo. Algo assim. – Thaissa lembrou-se da
mensagem no cartão.

— Esmola demais é mesmo estranho, mas talvez seja a forma do rapaz dizer que está a fim de
você.

— Não sei não! Mas nesse momento não estou mesmo interessada. – confessou Thaissa.

— Deixe fluir e chegará a um determinante. – Aconselhou— a Paula.

— Você tem razão. — Thaissa agradeceu o comentário da amiga e retornou ao seu trabalho
para verificar o e-mail. Quando fazia a leitura, voltou seus pensamentos para Marcus. O fato de
sentir-se muito atraída por ele fazia com que enxergasse coisas sem fundamento. Por algumas vezes
tivera a impressão de que ele havia sentido ciúmes por ela ter saído com Humberto. Mas isso logo
passou. Agora mais uma vez ela tinha esse mesmo pressentimento. Estaria ele de fato enciumado ou
era apenas o fator macho dominante que muitos possuem. Certamente seria tolice sua essa
constatação. Marcus não parecia interessado em algo mais que sexo. E claro, ela também não.
CAPITULO 25

Thaissa chegou atrasada na quarta-feira. Havia trabalhado até tarde na noite anterior para
adiantar os projetos que Marcus havia lhe passado. Quando entrou em sua sala, lá estava o terceiro
buquê da semana. O rapaz era mesmo exagerado, pensou ela. No dia anterior ela levara os outros
dois para casa, assim evitaria olhares curiosos, e claro, os possíveis insetos. Mas Fred parecia
disposto a continuar com as gentilezas. Se ela tivesse o número do telefone celular dele, iria pedir
que parasse. Não havia necessidade de fazer aquilo. Ambos sabiam que não tinham de fato um
relacionamento. Não dividiram tanto, a ponto de ele se achar namorado dela. Presenteando-a todos
os dias. Thaissa começava a se sentir acuada.

— Ainda bem que o chefe não está aqui hoje. – falou ela baixinho para si mesma. A voz calou-
se em sua garganta ao olhar para a porta e ver Marcus encostado no pilar.
— Bom dia! – disse Thaissa forçando naturalidade.

— Bom dia para você também! – Ele permanecia parado sem se mover.

— Me desculpe o atraso de vinte minutos. Tive um contra tempo.

— Não se preocupe com isso. – Marcus desviou sua atenção dela e focou nas flores. – Vai
acabar perdendo seu espaço na sala se continuar recebendo flores todos os dias de seu namorado.

— Não tenho namorado. – falou ela percebendo que os olhos cinza se estreitavam. – Marcus
moveu-se rapidamente, parando a sua frente.

— Então, porque você está recebendo flores todos os dias? Não vá me dizer que é um
admirador secreto que não acredito se tratar disso. – Ele estava tão próximo que Thaissa podia sentir
o calor que o corpo dele emanava.

— E se for um namorado, o que você tem com isso? – Marcus pegou no queixo dela e apertou
até que Thaissa abrisse a boca em protesto.

— Está me machucando. – Na verdade não havia nada além de um imenso fogo percorrendo na
pele onde ele tocava.

— Foi por causa desse cavalheiro que você não quis ficar comigo? – perguntou ele observando
os lábios semiabertos se oferecendo para ele.

— Solte-me! – Thaissa tentou se afastar, mas ele a prendia fortemente. Marcus a puxou pela
nuca ainda com a outra mão em seu queixo e a beijou com violência. Havia tanta fúria nos lábios
dele que ela sentiu misturado ao doce sabor, um gosto amargo de sangue. Ele a encostou em seu
corpo beijando-a com paixão, arrepiando-a toda. Thaissa desejava não se render àquele homem, mas
vendo-o enfurecido, possuindo sua boca como fazia, deixava-a excitada demais para raciocinar
corretamente. Beijaram-se ardentemente. Saboreando cada centímetro da boca um do outro, como se
fosse a última vez que partilhavam daquela doçura.

— Você está conseguindo o que nenhuma outra mulher conseguiu comigo. Tirar— me a razão. –
falou Marcus entre os lábios dela.

— Pobre de você! – Aquela frase o deixou ainda mais irritado por não conseguir se
autodominar perto dela. Com um misto de raiva e paixão Marcus a virou arremessando-a contra a
porta que se fechou. Antes, porém, ele a protegeu para que o impacto não fosse grande.

— Está zombando de mim, sua atrevida. – afirmou ainda com a carranca no rosto. Marcus a
pressionou na porta para que sentisse sua excitação. O contato com o corpo rijo deixou Thaissa sem
fôlego. Como desejava aquele maldito pré-histórico.

Aproveitando-se da situação Marcus enfiou sua mão, que estava livre, sob a fina blusa
acariciando com paixão o seio macio que ficou intumescido pelo toque.

— Pare com isso! Eu já disse que não quero intimidades com meu chefe. – tentou convencê-lo
com a voz trêmula e sem fôlego.

— Não sou seu chefe! Somos apenas colegas de trabalho. – Marcus desceu a mão acariciando
o ventre dela. Quando ele a enfiou dentro da saia, tocando-a intimamente, Thaissa suspirou
derrotada. Fazendo surgir dos lábios de Marcus um sorriso vitorioso.

— Fala que você me quer, confessa. – exigiu ele, beijando no pescoço dela, enquanto sua mão
continuava a fazer um rastro de fogo e prazer.

— Eu não te quero. – disse rouca, sem forças para se afastar.

— Eu vejo nos seus olhos. Na sua boca e aqui. – afirmou ele sentindo a umidade dela. – Que
você me quer tanto quanto eu quero você. – Marcus pressionou a região lentamente.

— Você está enganado. Jamais me interessaria por um homem que julga as pessoas sem
conhecer e que não passa de um grosso mal educado. – Thaissa gemeu baixinho quando sentiu o dedo
dele penetrando-a.

— Ele te toca assim? – quis saber Marcus, mordendo na orelha dela.

— Bem melhor. – Mentiu ela trêmula. Quando olhou nos olhos dele, arrependeu-se pela
besteira que disse. Marcus tinha a expressão gélida em sua bela face, como se estivesse pronto para
fazer algo impensado e foi o que ele fez. Pegando no braço de Thaissa, ele a afastou da porta
trancando-a. Em seguida a jogou sobre à mesa.

— O que está fazendo seu louco? – perguntou excitada pela paixão que via acesa nos olhos
dele. – Marcus não respondeu, puxou a saia dela para cima arrancando com força a calcinha.
Deixando Thaissa nua da cintura para baixo.

— Marcus o que está fazendo? Estamos na empresa! – Ela tentou se soltar, mas ele a prendeu
fortemente.

— Não me culpe pelas reações que você causa em mim. – Ele abriu as pernas dela entrando
entre elas roçando o tecido da calça na pele macia de Thaissa, arrepiando-a toda. Quando Marcus a
tocou novamente, estava visivelmente excitada, assim como ele.

— Pare com essa loucura. Eu não quero ficar com você nunca mais! – falou irritada por
Marcus perceber o quanto o desejava.

— Mentirosa! – respondeu bravo. – Como pode me dizer isso se seu corpo todo me relata o
contrário. – Marcus abriu o zíper de sua calça deixando-a cair em seus pés e antes que Thaissa
fizesse qualquer outro questionamento, ele a penetrou com fúria causando um gemido de satisfação
em ambos. Aquele amor selvagem deixou Thaissa languida de prazer. Percebendo que ela se entregaa
Marcus a puxou para perto da lateral da mesa até que pudesse sentir-se todo dentro dela. Como ele
desejara aquele ato novamente.

— Fala que você não me quer. – provocou ele movendo-se ferozmente para dentro dela.

— Eu não te quero. – respondeu com a voz embargada pelo prazer. – Marcus tocava seus seios
deixando-a cega por mais. Quando ela abriu as pernas completamente, rendida, ele se debruçou
sobre ela e lambeu um de seus mamilos enquanto a possuía.

— Nenhum homem irá te possuir como eu possuo. Ninguém irá querer você como eu quero. —
Embriagada e trêmula, Thaissa cravou suas unhas no couro cabeludo dele, prendendo-o entre seus
seios.

— Você gosta que eu te toque assim? – perguntou Marcus percorrendo o corpo dela com mãos
ágeis.

— Sim! – falou Thaissa baixinho.

— Fale mais alto. Eu quero ouvir. – ordenou deliciado por vê-la sedenta de prazer.

— Sim, eu gosto! – confessou ela entre suspiros.

— É claro que você gosta, porque eu faço aquilo que você mais deseja. Eu te dou o prazer que
nenhum outro homem dará. – Marcus apertou as nádegas dela, e segurando firme em sua cintura,
aprofundou a penetração. – Embriagada pela luxúria, Thaissa ergueu suas pernas e as colocou nos
ombros dele, contornando o pescoço de Marcus.

— Sua entrega me excita ainda mais! – falou ele trazendo-a mais para ele, encaixando— se
perfeitamente dentro dela.

— Me faça sua, totalmente. – Sussurrou ela sentindo as mãos firmes percorrendo seu ventre.

— É o que eu mais tenho desejado. – A frase terminou rouca. Ele já não aguentava aquela
maravilhosa tortura. Thaissa ergueu seu corpo e foi ao encontro dele com os olhos em chamas.
Cravando seus dedos entre os cabelos desalinhados, ela o puxou e enlaçou suas pernas em volta da
cintura dele, apaixonada.

— Isso, minha linda. Entrega-se sem reservas. – pediu ele para incentivá-la. – Thaissa
esfregou seus seios nele e o beijou com tamanho prazer que Marcus não resistiu e, penetrando-a
rapidamente, jorrou dentro dela.

Exaustos, renderam-se ao descanso, abraçados. Marcus ficou sobre ela por alguns segundos e
se levantou ajudando-a. Quando Thaissa se ergueu sentiu descer por suas pernas o néctar, resultado
do prazer que dividiram momentos antes.

Ele tocou em seu rosto e Thaissa teve certeza de que ele a queria tanto quanto ela se negava a
aceitar.

— Me desculpe se a forcei ou machuquei. Mas queria muito ter você. E só me incentivou mais,
zombando de mim. – disse ele tocando-a arrependido por se deixar levar por aquela paixão que o
estava cegando.

— Não precisa se desculpar. – Thaissa baixou a cabeça. Estava claro que havia uma grande
paixão entre ambos, mesmo que tentassem loucamente ignorar.

— Eu não suporto mais essa indecisão, Thaissa, precisamos resolver isso. Eu quero você e
vejo o mesmo desejo em seus olhos. – revelou ele.

— Eu preciso de um tempo. Eu também quero muito estar com você, Marcus, mas meu instinto
de autoproteção me afasta.

— Sugiro então que analise bem o que quer de fato. – falou ele calmo. — Pois como estamos
não dá. — Não havia meio termos para ele, era tudo ou nada.

— Eu preciso me recompor, e já faz muito tempo que estamos com a porta fechada. Poderia me
deixar sozinha, por favor. – pediu ela ainda sentindo o calor das mãos dele em sua pele.

— Claro que sim! – Não havia mais o que dizer a não ser deixa-la ter seu espaço. – acreditou
Marcus indo na direção da porta. Antes de sair ele a olhou longamente e partiu em silêncio.

Thaissa foi para o banheiro pensativa. Embora desejasse não levar aquela situação a frente,
parecia muito tentador curtir o momento com Marcus sem perspectivas. Mas caso agisse assim, só
iria afirmar a tese dele de que ela era mais uma das tantas mulheres modernas que só querem se
divertir, usando e sendo usada. Thaissa não tinha nada contra as pessoas que preferiam viver assim,
mas essa não era sua meta de vida. Parecia lhe muito vazia. Como resolver tal situação, ela não
sabia. Sua razão pedia para ter cuidado, mas seu corpo clamava por mais, por Marcus.

Quando saia da empresa ainda em batalha, entre sua mente e seu desejo Thaissa se deparou
com seu outro grande problema.

— Algum problema, Thaissa? Você esta pálida hoje. – O sorriso frio estava na face da mulher,
desde que Thaissa se lembrava de conhece-la.

— Estou bem. – Ela continuou e nada mais disse deixando a mulher visivelmente contrariada
por não conseguir chateá-la. Letícia ficou parada observando seu alvo de transferência de culpa e
fracasso indo embora. Aquela cena a deixou apavorada.

Entrando em seu carro, Thaissa partiu levando consigo o corpo leve e a mente pesada.

Quando chegou em casa, foi que se lembrou da reação da outra mulher. Estava aprendendo a
lidar com Letícia, e isso em parte era por mérito de Marcus, que chamara a atenção das duas para as
desavenças constantes que trocavam. Essa interferência ninguém havia se atrevido a fazer e fora de
grande valia para ela. Thaissa teria uma boa lembrança da passagem de Marcus em sua vida quando
nada mais restasse se não a saudade.
CAPÍTULO 26

— Não acredito nisso! – falou Thaissa assim que abriu a porta de sua sala.

— Fiquei sabendo que você tem recebido flores todos os dias, Thaissa. – comentou Letícia em
suas costas. Era impressão sua ou a mulher estava à espreita para incomodá-la.

— Bom dia para você também, Letícia! Sim, tenho recebido flores – respondeu ela olhando o
lindo buquê de rosas vermelhas sobre a mesa.

— Está mantendo em segredos seu novo relacionamento? Pelo que eu saiba ninguém aqui está
informado de seu namoro. Ele é um galã de televisão ou um dos modelos que contratamos para as
divulgações? – Thaissa olhou para a mulher com as sobrancelhas erguidas. Letícia estaria se dando
ao trabalho de fazer questionamentos aos colegas sobre ela na empresa.

— Se não estão informados é porque não há o que esclarecer. – comentou Thaissa calma.

— Isso é o que você quer que acreditemos? – Thaissa olhou em direção à sala de Marcus. Se
continuasse ali falando com Letícia, ele poderia ouvir alguma coisa e vir saber o que estava
acontecendo. Não queria que ele presenciasse aquela cena mais uma vez.

— Quem é ele, Thaissa? Trabalha aqui na empresa e por isso não quer comentar a respeito ou
é um coroa rico e ainda não está pronta para apresenta-lo? – A mulher estava cheia de vontade de
tirá-la do sério.

— Não tenho nada contra ter uma relação com um coroa, como você diz. Já o fato de ele ser
rico, acredito que seja mais importante para você. – A mulher não gostou da resposta de Thaissa. Ela
percebera que estava atingindo-a.

— Então por que esconder? – Thaissa entrou um pouco mais na sala dando à mulher a
oportunidade de entrar também, para que a conversa ficasse toda do lado de dentro, mas a
espertalhona permaneceu próxima à porta para desgosto de Thaissa.

— Simplesmente porque não há ninguém, aliás, o que você tem com isso? – Thaissa já não
conseguia se controlar como desejava.

— Nossa! Não precisa ficar alterada. Prometo que não contarei a ninguém. – Ela ia pedir a
mulher que saísse de sua sala quando o que temia aconteceu.

— Veja Marcus, a Thaissa está recebendo flores todos os dias e se nega a dizer que tem um
relacionamento. – Letícia comentou maliciosa causando certa ânsia em Thaissa que a observava em
silencio.

— Bom dia! – cumprimentou Marcus olhando para Thaissa com um misto de desejo e mágoa.

— Vamos Thaissa! Agora somos dois curiosos, conta para nós. – Letícia estava sendo mais
baixa que de costume, Todos sabiam que não havia esse tipo de intimidade entre elas, então por que
Deus aquela mulher estava se fazendo de amiga, interessada na vida da outra?!

— Já perdeu a graça essa piada, Letícia. Dê-me licença, por favor! – Sua vontade era se
atracar com a falsa, mas ela sabia que isso alegraria a mulher que parecia se alimentar do mal-estar
que causava nela. Thaissa não lhe daria esse prazer, principalmente, na frente de Marcus.

—Me procure em minha sala após o almoço Letícia, quero falar com você. – Marcus disse
seco e com os olhos cinza gelados fazendo sinal para ela partir. Como boa entendedora, ela se
retirou.

— Você devia contar a esse rapaz que fez amor com outro homem em cima da mesa onde
coloca as flores que ele te envia. – As palavras amargas dele, fora como um soco no estômago de
Thaissa.

— Não costumo comentar assuntos corriqueiros. – Ele não tinha o direito de falar daquela
forma como se ela estivesse traindo alguém.

— É mesmo! Já que não foi nada que possa prejudicar sua relação, que tal repetirmos a dose. –
propôs aparentemente pronto para ir até ela.

— Me poupe, Marcus! Você bem sabe que eu não queria que acontecesse. – afirmou ela
desejando que estivesse usando um vestido mais longo. Marcus a olhava de cima a baixo com a
malicioso que a levava a recordar do dia anterior.

— Não foi isso que seu corpo me disse. – Falou analisando-a com os olhos fixos na face dela.
Parecia que ele buscava uma resposta para algo.

— É impressão minha ou você, assim como a Letícia, gosta de ter o que não deveriam desejar?
– perguntou na tentativa de irritá-lo e assim ir embora logo.

— O que quer dizer com isso?! Que eu desejo você por que pertence a outro homem?

— Me parece que ficou mais interessado depois que comecei a receber flores. Havíamos
conversado antes, e você não insistiu, agora, no entanto, está sempre no meu encalço. – Desabafou
ela.

— Você não sabe o que está falando. – disse ele desviando seus olhos dela. Não sabia ela que
fora um choque para Marcus constatar que havia um concorrente, aparentemente, forte. A única coisa
que ele queria era ter a certeza de que não passava de um flerte. Mas isso não tinha nada a ver com
ele estar mais ou menos interessado agora. Seu interesse por ela existia antes disso. Apenas ficou
mais explícito pela possibilidade de perde-la para outro homem.

— Então por que descumpriu nosso acordo? – questionou Thaissa

— Porque você não fez sua parte. – Acusou-a Marcus.

— Como assim, não fiz? – Ela ficou irritada com a acusação dele.

— Seu papel é muito maior que o meu nesse caso. Não fui eu que decidi não continuar, foi
você. Então cabia a você se manter longe de mim. Eu não disse que faria isso, apenas aceitaria o que
decidisse e ontem você decidiu ser minha. – defendeu-se Marcus.

— Então a culpa é apenas minha. Você me seduz e eu que sou a errada? – Thaissa ficara
irritada com aquela afirmação. Na verdade ela se sentia exatamente como ele falara, mas não
admitiria ser a culpada, isso jamais.

— Nós sabemos que não precisa muita coisa para acender a brasa que existe entre nós. –
completou Marcus se aproximando dela.

— Já que sou eu a única capaz de terminar com isso. Saiba senhor Marcus, que não quero
repetir nenhuma dose. Há bebidas que são feitas para se degustar apenas uma vez. – relatou com o
queixo erguido.

— Não foi a primeira vez e não acredito que será a última. – lembrou ele confiante.

— Veremos! – Thaissa ergueu o rosto em modo de combate e Marcus deu um disfarçado


sorriso no canto da boca.

— Vai ajeitar suas belas flores antes de começarmos o que devíamos ter feito ontem. – disse
ele entregando o jogo por hora.

— Se não for pedir muito, agradeço por me deixar ter esse tempo antes de começarmos. –
pediu ela sarcástica.

— Fique à vontade e depois me procure. – Marcus saiu e a deixou trêmula. Caso ele fosse em
sua direção novamente, Thaissa sabia que não conseguiria se afastar, ainda estava muito aceso dentro
dela o que viveram no dia anterior.

Por alguns minutos, Thaissa ficou apenas calada. Tentando colocar as emoções em ordem. Não
iria permitir que aquele jogo continuasse. Manteria Marcus longe dela já que ele dissera que estava
em suas mãos a decisão. Ela usaria desse poder a seu favor.

Um pouco mais confiante, foi ao encontro de seu maior tormento naquele dia.

— Pensei que não viria mais. Estava quase indo busca-la. Cheguei a pensar até que um enxame
de insetos a havia raptado. – Marcus sorria, mas seus olhos brilhavam como fogo.

— Nem todos são capazes de ver o romantismo que há no ato de enviar flores – respondeu
Thaissa sentando-se ao estilo Letícia.

— Posso enviar quantos buquês de flores você quiser, se isso é ser romântico. – devolveu
sério.

— Não adiantaria nada no seu caso. – Thaissa sentou-se na cadeira mais afastada percebendo
que Marcus não gostara de seu comentário. O punho dele estava fechado fortemente.

— E quanto aos projetos, o que tem de novidade? – perguntou ele com uma educação que a
assustou.

— Estão todos bem adiantados. – Thaissa ergueu a pasta e quando Marcus foi pegá-la fez
questão de roçar sua mão na dela. – Ele a estava testando e Thaissa não lhe daria oportunidade de
culpa-la por terem descumprido o trato.

— Me parece muito bom. – disse ele analisando. Thaissa permaneceu em silêncio enquanto
Marcus olhava todo o conteúdo. Aproveitando o tempo, ela o observou melhor. Os traços marcantes
que lhe chamara a atenção no camarote pareciam ainda mais fortes. A boca bem contornada. Os
braços fortes e aparentemente protetores, as finas linhas que contrastava sua face. Tudo nele emanava
sensualidade e ela tinha certeza de que Marcus sabia disso e as usaria quantas vezes fossem
necessárias a seu favor. Observava as mãos bem tratadas ela lembrou-se de quando as sentiu sobre
seu corpo e um arrepio a tomou. Ao perceber que ele a olhava curiosamente, pegou um dos papéis
sobre a mesa, disfarçando.

— Algum problema, Thaissa? – Ele tinha o mesmo sorriso malicioso que ela vira antes.

— O que achou? – quis saber ignorando o que ele questionara.

— Eu disse que achei muito bom, mas você parecia estar atenta a outra coisa. — insistiu ele.
— Engano seu. Eu estava apenas esperando você concluir. – Retrucou ela com firmeza.

— Vou passar para o pessoal responsável assim que colocar algumas coisas extras que
acredito serem boas.

— Tudo bem! – Thaissa se preparava para levantar e sair. Quando Marcus foi mais rápido e
contornou a mesa.

— Não vai me convencer dessa vez, meu caro. – disse ela sentindo o perigo próximo.

— E por que não? Eu quero e você também quer. Nós sabemos disso. – Marcus parecia
decidido a fazê-la mudar de ideia. O motivo Thaissa não sabia e desejava não saber jamais.

— Mas que audácia a sua! O que acredita que pensarão de um diretor que fica às portas
fechadas com sua assistente? – Ela tentava a todo custos fazê-lo recuar.

— Não precisa ser aqui. Podemos sair agora ou à noite. – Thaissa ficou irritada pela forma
casual com que ele tratava o assunto.

— Com licença. – Ela tentou se desviar dele quando foi presa pelas mãos fortes.

— Não tenho gostado das emoções que causa em mim, sabia? – confessou ele acariciando o
braço dela.

— Talvez na farmácia você encontre um medicamento que o livre desses sintomas. – Thaissa
respondeu sarcástica, na tentativa de irritá-lo e conseguir sair.

— Acho que não está lá o antídoto, mas em você mesma. Você é como cobras que causam o
mal, mas que também possuem a cura. – Marcus a olhava com tamanho magnetismo que Thaissa não
conseguia sair do lugar.

— Está me comparando a uma cobra? – Ela gargalhou na tentativa de disfarçar o tremor que
sentia com a proximidade dele.

— Não! Estou apenas dizendo que o meu remédio é você e nada mais. – Marcus a prendeu com
mais força e tomou-lhe a boca. Mas Thaissa manteve-se parada. Embora desejasse muito, não
participaria daquele jogo.

— Não vai me mostrar o fogo que você tem aí dentro? – Quero você em meus braços como
estava ontem. – Marcus pegou em sua nuca com uma das mãos enquanto a outra a prendia a ele. A
pressão que fazia machucava a boca de Thaissa, e ela acabou abrindo-a. Embora não quisesse
corresponder ao beijo, viu-se traída pelo desejo crescente que sentia por aquele homem. Beijaram-se
com urgência um do outro. A sede por aquele contato os estava matando, embora desejassem
disfarçar. Marcus a abraçou envolvendo-a em seus braços causando um prazer indescritível nela, que
se redeu por completo. Thaissa queria aquele grosseiro desesperadamente. Mas precisava lutar
contra aquela paixão. Tudo dizia-lhe que se ela se rendesse nunca mais conseguia se reerguer
novamente. Era muito intenso o que tinham um pelo outro. As chances de ela sair ferida quando tudo
acabasse, eram enormes. Não podia se arriscar daquela forma. Usando da pouca resistência que
ainda tinha, Thaissa o empurrou e se afastando.

— Não vai conseguir dessa vez. – falou brava com o peito arfando.

— Droga, Thaissa! Para que dificultar se ambos queremos? – Ele parecia ainda mais nervoso
que ela.

— Você não tem o poder de controlar tudo o que deseja, Marcus. Aceite isso. – Ela encostou-
se à mesa, suas pernas tremiam.

— Não estou controlando nada e você sabe disso – respondeu áspero. Por que diabos aquela
mulher teimava em afastá-lo. – pensou Marcus olhando-a profundamente. Era óbvio que se
desejavam, então por que ela não aceitava tal fato?

— Vou para minha sala e, por favor, não me procure, caso o intuito não seja puramente
profissional. – disse saindo rapidamente.

Thaissa sentou-se à sua cadeira com as pernas ainda trêmulas. Se tivesse que andar por longa
distância não conseguiria. Estava exausta pela luta que travara contra Marcus e contra o desejo que a
queimava por dentro. Estava ficando impossível conviver com ele daquela forma. Marcus a estava
acuando a todo o momento, principalmente nos últimos dias. Estaria ele com ciúmes dela? Tolice
sua, ele não seria capaz de tal sentimento. Teria que acabar com aquele joguinho que travavam antes
que alguém se queimasse. Ela, porém não sabia como, se a cada proximidade dele, seu corpo vibrava
de prazer, desejando-o com mais e mais força.

Após alguns segundos sua respiração voltara ao normal. Teria que aprender a lidar com aquele
desejo intenso ou se perderia por ele.

“Por que ele insiste tanto?!” Perguntava-se. Seria mais fácil se cada um fizesse sua parte
ficando o mais longe possível um do outro. Como poderia resolver aquela situação sem mudar os
rumos na empresa? Thaissa começava a pensar na necessidade de pedir mudança de cargo. Faria
exatamente isso, caso ele não colaborasse. Mas o que diria aos outros acionistas e as pessoas que
perguntassem o porquê desejava deixar uma função promissora como a sua? Aquela ideia não daria
certo, ficaria claro que o problema era o relacionamento entre ambos. Precisava pensar em algo, e
urgente. – Conclui ela.

Durante o período da manhã, Letícia passara por três vezes a frente da sala de Thaissa e
sempre lançava um olhar diabólico para ela. Era claro para quem quisesse ver, que Marcus era o
homem da vez para a caça dotes. Embora Thaissa não acreditasse que ele poderia ser tolo a ponto de
cair na rede da pistoleira. Ele poderia querer ter um caso com ela, assim como demonstrava querer
com Thaissa. Imaginar Marcus fazendo amor com Letícia causou imensa tristeza nela. Jamais o
perdoaria por isso.

“Mas o que estou pensando meu Deus?! Não tenho nada a ver com isso e nem tenho o direito
de exigir nada dele. Não somos nem se quer amigos.” – pensou chateada.

Pouco antes de sair para o almoço que Thaissa faria por ali mesmo, Letícia voltou a
incomodar. Quando passava por sua sala ela parou e entrou.

— Thaissa, hoje eu estou muito atarefada ajudando o Marcus com a conclusão de um


merchandising, então eu gostaria de sua ajuda. Poderia ir até a lavanderia pegar algumas coisas que
enviei para lá? Me ligaram agora a pouco informando que aconteceu um acidente com o entregador e
não poderão entregar antes das 16h. Mas eu preciso deles aqui até 14h. Pode me ajudar? – Thaissa
acenou positivamente com a cabeça. Independente de quem fosse o colega de trabalho, sua função era
ajudar.

— Claro, Letícia! Passo lá quando estiver voltando. – disse naturalmente.

— Obrigada. Bom, deixe-me ir que se demorar um pouco mais é provável que Marcus vá a
minha procura. – Thaissa percebeu certa malícia na voz da mulher. Mas preferiu sorriu concordando
com o comentário da outra.

— Acredito que sim – respondeu disfarçando o ciúme tolo que sentiu. A outra saiu deixando o
cheio de sempre. Thaissa não conhecia a colônia dela, mas se soubesse qual era não passaria nem
sequer próxima à loja da marca.

— Não é a colônia que é ruim, mas quem a usa que estraga o cheiro. – falou alto para si
mesma.

— Falando sozinha, Thaissa? – perguntou um dos seus assistentes do estúdio.

— Oi Igor! Não vi você entrando. – Ela tentou disfarçar e torceu para que ele não tivesse visto
Letícia saindo de sua sala ou ficaria fácil para o rapaz compreender o que se passava.
— Eu percebi mesmo. – O rapaz entrou sorrindo. Era um dos mais antigos colegas que tinha e
ela sempre gostara de trabalhar com ele e sua mulher que também era colaboradora.

— Está precisando de alguma coisa? – perguntou ela.

— Eu, na verdade não. É o Marcus, Ele me pediu para te informar que precisa de você assim
que retornar do almoço para conversarem com a garota escolhida para a campanha dos cosméticos. –
Aquela notícia não a agradou muito.

— Eu combinei com Letícia que iria à lavanderia pegar algumas coisas que ela enviou para lá
– respondeu ela.

— Marcus já solicitou que eu pegasse. Não precisa se preocupar – respondeu o rapaz.

— Sendo assim, tudo bem! — Não havia como fugir daquele encontro, constatou ela.

— Então vou indo. E quando retornar eu entrego, a encomenda direto para a Letícia ou passo
para você? – quis saber o rapaz.

— Leve para ela, Igor. Obrigada!

— Nos vemos depois então. – despediu o colega deixando-a.

— Precisarei ir em casa. Não posso ficar sem tomar meu banho após o almoço. – Falou,
lembrando-se do encontro mais tarde. Não que ela desejasse que alguma coisa fora do normal
acontecesse. Mas seria precavida.

Thaissa estava em sua sala 15 minutos antes do horário, e quando Marcus a procurou, ele
continuava com semblante sério e calado.

— Igor te falou sobre nossa visita ao estúdio para falar com a modelo? – perguntou ele
formalmente.

— Sim. Estava aguardando você – respondeu ela tranquilamente.

— Deixei meu carro no acostamento, assim não perdemos muito tempo. Vamos! – Thaissa o
seguiu em silêncio. Embora aquele clima gelado a incomodasse, preferia assim. Dessa forma não
teria que travar nenhuma briga com Marcus e com ela mesma. – Entraram calados no elevador e
assim seguiu até chegarem a rua.

— Ele esta do outro lado. – Marcus apontou o carro e foram até ele. Durante o trajeto não se
falaram. Parecia claro que ele não estava satisfeito com alguma coisa e ela não desejava saber o que
era. Não lhe interessava o que se passava com ele e sua vida particular. A carranca não saiu do rosto
dele desde a saída da empresa até chegarem no local.

— Me informaram que estariam no estúdio 03, vamos até lá. – Thaissa o seguia calada, a
situação ficava mais chata a cada momento. Ela começava a acreditar na impossibilidade de
trabalharem juntos pela tensão que se acumulava entre eles. Como outras pessoas conseguiam
conviver juntas profissionalmente depois de um rompimento, onde ainda havia muito fogo e desejo?
Ela não sabia e acreditava ser impossível haver harmonia entre pessoas que passassem por isso.

Na sala estava apenas o empresário e a bela jovem que contratariam.

Após os cumprimentos, sentaram-se para discutir o contrato provisório. O empresário da


modelo parecia disposto a agradar Marcus mais que o necessário, e contratante também fazia o
mesmo.

— Você já fez alguma campanha para o seguimento? – perguntou Thaissa embora já soubesse
que sim. Perguntou apenas para desviar a atenção da moça que não tirava os olhos de Marcus.

—Várias! Especifiquei no meu currículo quando o enviei. – A delicadeza com a qual


respondeu não se assemelhava com seu olhar esperto e malicioso.

— É verdade eu havia lido essa informação. – Thaissa sorriu para a moça.

— Já ouvi falar de você em Belo Horizonte quando eu estive fazendo umas campanhas lá
alguns meses atrás. Por isso me inscrevi para essa. – disse a jovem para Marcus. Ela sorria de forma
convidativa e Thaissa percebeu contrariada que Marcus parecia gostar.

— Com relação aos meus negócios em Minas Gerais, não se tratam de assessoria. São outros
interesses lá. – Quando Marcus afirmou ter vários negócios, a moça de nome Íris alargou seu sorriso
sedutor.

— Sim, claro. Eu estou falando de você e não especificamente desse ramo de negócios. – A
moça era boa e rápida nas palavras. Thaissa constatou.

— Vocês já leram o contrato e estão de acordo com os termos? – perguntou Thaissa séria.

— Estamos todo de acordo. Já assinamos com sua cliente. Queríamos apenas nos conhecer
para tornar as relações menos formais. – Thaissa teve a leve impressão de que o homem queria na
realidade era conhecer a Marcus e assim aproximá-lo de sua modelo.

— Como está tudo dentro dos conformes, podemos encerrar aqui. – concluiu Thaissa.
— Vocês estarão por aqui acompanhando os processos? – perguntou a modelo olhando para
Marcus.

— Somente quando for necessário – respondeu Thaissa.

— Nada como os olhos do criador. – disse a jovem sem se importar em olhar para Thaissa que
fora quem respondeu as perguntas.

— Estarei acompanhando da melhor forma possível. – falou Marcus olhando disfarçadamente


para Thaissa e pressentindo algo.

— Isso é sinal de que voltaremos a nos ver. – devolveu ela sem qualquer inibição.

— Acredito que sim. – afirmou Marcus educado, além do necessário. Thaissa começava a
sentir suas mãos soarem.

— Não queremos tomar mais o seu tempo. Acredito que deva ter outros trabalhos para fazer
além do nosso. Encontramo-nos em outra ocasião. – Thaissa queria terminar logo aquela conversa.
Estava começando a ter dúvidas se fizera bem ao se dispor para ajudar naquele projeto.

— Prazer conhece-lo! – A moça ergueu-se acompanhada por seu empresário e caminhou


lentamente na direção de Marcus balançando seu corpo magro, porém belo. Os cabelos negros,
levemente ondulados em contraste com a pele branca lhe davam um ar angelical e ao mesmo tempo
malicioso. Ela usava um vestido justo e curto. Marcus também se levantou e os beijos nos rosto
foram mais lentos que o necessário. Constatou Thaissa.

— Até mais! – A modelo pegou na mão de Thaissa rapidamente assim como fez seu empresário
e partiram.

— Por hoje é só. Podemos ir embora? – perguntou ela observando o olhar malicioso de
Marcus.

— Damas primeiro! — Ela saiu a frente irritada por ele estar com o semblante alegre como ela
não via fazia dias. Seria a jovem modelo a causa? – perguntou-se quando iam ao encontro do pessoal
que ficaria responsável por levarem os equipamentos para as gravações.

Quando chegaram no carro, Thaissa se irritou ainda mais. Marcus correu e abriu— lhe a porta.
Ela entrou em silêncio e o ajudou a fechá-la. O cavalheiro contornou o carro tamborilando os dedos
em seu capô, levando-a ao ápice de sua quase fúria. Quando Marcus se sentou no banco, olhou-a com
o mesmo sorriso que dera a pouco para a modelo oferecida.
— Está com algum problema, Thaissa? – perguntou ele antes de ligar a ignição. — Uma dor de
cabeça.

— Claro que não! Por que pergunta isso? – quis saber olhando-o séria. Estava a ponto de
explodir vendo a alegria descarada nele.

— Não sei, de repente percebi você diferente. – Insistiu ele.

— Engano seu, apenas me comportei como era de se esperar de mim. – Marcus ergueu as
sobrancelhas e ligou o carro em silêncio.

Durante o trajeto Thaissa o observou por diversas vezes e acabou por ficar ainda mais
chateada. Não era ilusão sua, Marcus parecia mesmo alegre com alguma coisa e ela já imaginava
qual era.

— Não precisa entrar no estacionamento. Vou descer aqui que fica mais perto. – pediu Thaissa
assim que chegaram à porta do prédio.

— Acho melhor descermos lá dentro. – Contrariada ela assentiu positivamente. Preferia não ter
que dividir o elevador com ele, mas não houve escolha.

Assim que Marcus desligou o carro, Thaissa saltou e começou a andar.

— Calma! Irei com você. – Marcus deu passos longos e a alcançou. Assim que entraram no
elevador, ele solicitou o andar e foi para junto dela no canto.

— Acredito que faremos uma boa campanha. O que achou? – perguntou ele.

— Se você gostou é o suficiente – respondeu ela com disfarçada calma.

— Eu gostaria de saber sua opinião. Não que ela vá definir sozinha alguma coisa, mas eu
gostaria de ouvir. – falou ele olhando-a de lado.

— Se não irá ser relevante, por que quer minha opinião? – perguntou áspera.

— Gosto de ouvir a posição das pessoas quanto aos meus projetos – respondeu ele sorrindo.

— Então pergunte a outras pessoas. – Thaissa fingiu mexer na bolsa.

— Que bicho te mordeu? – Ele parecia sério, mas seus olhos brilhavam de satisfação.

— Nenhum que você conheça. – respondeu.

— Acha que a modelo dará conta do recado? – A voz de Marcus fora maliciosa o que a fez
explodir.

— Com certeza dará. Não é isso que está pensando? – Thaissa tentava se manter calma, mas
algo a impulsionava para agir e reclamar a forma como Marcus ousou olhar para a modelo.

— Não sei. Pode ser que sim, mas é bastante jovem. – continuou ele.

— Só se for na carreira e na idade. Por que em outros assuntos ela me pareceu bem experiente.

— Como assim, outros assuntos? – quis saber ele inocente.

— Não me venha com ironias, Marcus. A campanha dará certo e é isso que importa. – Marcus
percebera desde o início a mudança de humor dela e queria ver até onde iria.

— Somente isso te importa? – perguntou ele fingindo estar interessado no que ela queria de
fato.

— O que mais poderia me importar, além do nosso bom desempenho com nossos clientes?

— Não sei. Isso é você quem pode dizer. – continuou ele fingindo interesse em ouvi-la.

— Já respondi então. – Marcus parecia brincar com as palavras dela e Thaissa não estava
gostando daquele jogo.

— Caso ela se saia bem nessa campanha podemos tê-la como opção para algum trabalho
futuro, assim não precisaremos perder tempo analisando currículos. – Aquela conversa estava
deixando-a tensa.

— Não seria muito legal se tivéssemos sempre o mesmo rosto nas campanhas que organizamos.
– Thaissa se segurava ao máximo. Não fazia sentido ela estar com aquela raiva dele, precisava se
controlar ou pareceria uma tola.

— Eu não disse que seria em todas. Talvez uma ou outra. – insistiu Marcus. Ela olhou no
painel, irritada. “Esse elevador nunca me pareceu tão lento.”

— Parece que a moça te agradou muito. Onde mais irá dar preferência para ela?

— Vejo sinais de ciúmes aqui. – brincou ele feliz por conseguir um sinal de que estava indo
bem.

— Não sei de onde tirou essa ideia. – Thaissa foi para a porta observar os botões. – Esse
elevador não chega nunca.
— Travei-o – respondeu Marcus.

— Por que fez isso? – questionou virando-se para ele.

— Por que queria discutir o assunto um pouco mais com você. – Ele sorria zombeteiro.

— Acho que deveria discutir isso com a modelo, não comigo. – Marcus chegou próximo dela
em um passo.

— Não costumo aprovar cenas de ciúmes, mas adorei ver sua reação quando a menina
conversou um pouco simpática comigo. – Thaissa tentou se afastar, mas foi impedida.

— Simpática? Ela parecia querer muito mais que isso. Não se faça de bobo, Marcus.

— Então não me enganei. Você está com ciúmes. – disse ele com os olhos brilhando.

— Acho que já é bem grandinho para dizer tolices. Não acha? – O rosto dela já não conseguia
mais disfarçar o que se passava em seu interior.

— Não acho não! Você me faz lembrar um ditado que diz mais ou menos assim: “Não quero
para mim, mas não permito que outros peguem.” É assim que me vê? – Thaissa lembrou-se do
comentário que fizera com ele e se viu na mesma teia que criara.

— Vamos encerrar este assunto, já está me incomodando mais que o necessário. — Thaissa
virou-se para esconder a verdade em seus olhos. – Porem Marcus a trouxe novamente. Ficando
ambos frente a frente.

— Por que não assume que me deseja, é só isso que precisa fazer. – Thaissa ergueu o rosto e o
fitou nos olhos.

— Pare de se enganar! – Ela não conseguiu concluir sua reposta. Marcus pegou em seu rosto e
a puxou para um beijo.

— Me largue seu sem vergonha! Vá se divertir com pessoas como você. – Esbravejou na
tentativa de se desvencilhar do contato. Marcus a beijou novamente com desejo. Estava claro que ela
sentiu ciúmes dele e essa conclusão o agradou imensamente. Aquele poderia ser um bom sinal para
ele e não deixaria de se aproveitar da situação para confirmar o que precisava. Que Thaissa o queria
na mesma intensidade que ele a desejava. Marcus a encostou na parede beijando-a com paixão.
Embora estivesse visivelmente irritada Thaissa não se opôs ao beijo e enlaçando o pescoço dele
aproveitou o momento.

Constatar que outra se mostrara interessada por Marcus, deixou-a mais preocupada do que
poderia imaginar. Era claro para Thaissa que muitas mulheres se ofereceriam para ele. Marcus era
charmoso, tinha presença marcante e ainda era rico. Uma mistura que agradava todas as classes
femininas. Mas presenciar uma situação como aquela não estava em seus planos, e muito menos,
estava preparada para tanto. Embora lutasse contra, era nos braços de Marcus onde ela se sentia
verdadeiramente realizada.

— Há coisas que detesto em uma mulher, mas em você eu simplesmente não vejo como defeito.
Isso tem me tirado o sono, sabia? – Marcus disse beijando levemente os lábios dela.

— Não posso dizer o mesmo de você. Seu jeito de ser é irritante e sempre será. – Thaissa
desejava brigar com ele, mas sempre reagia positivamente ao contato quando Marcus o fazia.

— Você é linda, Thaissa. Se não te disse isso antes quero que saiba. – Como ele conseguia
derrubar em poucos minutos a muralha que ela levara dias para construir entre eles? Thaissa se
perguntava, observando aquela boca de formas arrogante e, ao mesmo tempo, sensual.

— Eu já disse que não quero que haja nada entre nós. – Retrucou, colocando suas mãos sobre
as dele que ainda estavam em sua face tentando tirá-las, mas Marcus as envolveu entre as suas.

— Então pare de me mostrar o contrário. – Ele mordiscou o queixo dela arrepiando-a.

— Não faço isso. E você que não quer ver a realidade. – As palavras dela não coincidiam com
suas reações. Thaissa dizia não, mas seu corpo aclamava pelo sim. — Não vejo final feliz para nós
dois. Precisa aceitar isso, ficará muito mais fácil para ambos. – desabafou ela.

— E quem precisa de final feliz? Eu quero viver e sentir essa paixão até onde for possível,
sem pensar em final. – argumentou ele também em desabafo.

— Não há nada para vivermos juntos. Aceite isso. – Como ela desejava que seu corpo ouvisse
suas palavras. Thaissa suspirou derrotada.

— Antes de pedir algo assim para mim, trate de se convencer primeiro. – Marcus bateu o botão
e o elevador começou a subir novamente.

— Você não entende. – Vê-lo remexer nos cabelos, aparentemente, nervoso, deixou— a com
imensa vontade de tocá-lo.

— Não entendo o quê? Que uma mulher independente e inteligente como você fique fugindo da
vida com medo de sofrer?! É isso que quer que eu entenda? – Marcus estava na outra extremidade
ainda passando a mão na cabeça, aparentemente contrariado.
— Não tenho medo de sofrer se for por algo que acredito valer a pena. – falou ela sem pensar.

— Então eu não valho a pena. É isso? – Antes que ela respondesse, a porta se abriu e Marcus
saiu rapidamente deixando-a para trás.

No decorrer da tarde, Thaissa não se arriscou a ficar em sua sala. Marcus pareceu ter ficado
muito contrariado com o comentário dela, e caso fosse tentar desfazer o mal entendido, ela já sabia
aonde iriam parar. Preferiu deixar que as coisas se acomodassem devagar e por si só.

Somente quando ela se viu fora da empresa, após o termino do expediente, sua tensão diminuiu.
Aquele dia fora muito estressante. Tanto, que preferiu evitar se encontrar na saída com as duas
pessoas que tinham o poder de lhe tirar o sossego, e quando percebeu que conseguira, sentou-se mais
leve dentro do carro e foi embora para casa.
CAPITULO 27

Mais uma vez, lá estava outro belo buquê de flores. Thaissa evitaria se estressar até o dia que
tivesse notícias de Fred. Em algum momento ele teria que aparecer. Não ficaria enviando flores
todos os dias sem procura-la e dizer quais suas reais intenções. Embora não precisasse de muito para
Thaissa entender quais seriam.

Durante a manhã, ela acreditou que poderia receber uma chamada, pois o final de semana se
aproximava e provavelmente o rapaz estaria de volta à cidade. Porém não houve qualquer contato e
ela resolveu se dedicar a seus afazeres, assim tiraria aquele problema e também Marcus de seus
pensamentos.

Thaissa adiantou ao máximo os projetos que tinha em mãos. Com isso não viu que o dia
passara. Embora Marcus não a tivesse procurado. Era óbvio que ele estava chateado com ela. Não
que isso a incomodasse, mas sentiu-se mal por deixar o assunto inacabado levando ele a crer que ela
o considerasse abaixo do que merecia em sua vida. Talvez no dia seguinte surgisse a oportunidade, e
então ela poderia desfazer o equivoco, mas naquele momento a única coisa que desejava era pegar
suas coisas incluindo o belo buquê de flores e ir embora.

Quando saia, ela sentiu-se observada, mas preferiu não alimentar sua curiosidade. Se fosse
Marcus quem o fazia era sinal de que não estava tão chateado. Mas caso fosse Letícia, que fizesse o
favor de permanecer às escondidas para não perturbá-la com seus fingimentos.

Em casa, e já acomodada, ela fez uma análise de sua vida nos últimos dois anos. Foi obrigada
a conviver com a ausência de sua mãe. Tivera muitos conflitos com a ex de seu pai, que ainda insistia
em lhe chamar a atenção, mas que Thaissa aprendia mesmo que lentamente, a não revidar aos ataques
dela. E agora sentia-se perdidamente envolvida por um homem que mal conhecia suas
particularidades. Estava precisando decarregar-se.

O final de semana chegava. Era sexta-feira e prometia que pelo menos uma coisa se resolveria,
era o que Thaissa esperava, ou teria que pedir ao porteiro que não aceitasse que entrassem flores
para ela no prédio onde ficava a empresa. Tomaria tal atitude caso não tivesse notícias do rapaz nos
próximos dias.

Para surpresa de Thaissa, naquele dia não havia buquê em sua sala. Teria o rapaz desistido ou
traçava outros planos? Ela esperava que ele optasse pela primeira opção.
Durante as primeiras três horas de trabalho, ela fez ligações, contratou serviços e organizou
suas planilhas dos meses seguintes. Tudo parecia colaborar para que o dia fosse tranquilo e
produtivo. Embora estivesse cansada por ter ido dormir tarde na noite anterior, desdobrou-se e fez
um pouco além do que poderia e assim passou a amanhã.

Thaissa estava centrada em uma leitura após seu retorno à tarde, quando seu celular tocou. O
número não era familiar.

— Alô! – disse ela ainda analisando a leitura que fazia de um e-mail.

— Boa Tarde, Thaissa! Tudo bem com você? – perguntou a voz masculina educadamente.

— Sim estou bem, obrigada. Com quem eu falo? – Não se lembrava de já ter ouvido aquela
voz.

— Pensei que seria mais bem recebido depois de tê-la agraciado com lindas flores todos os
dias. – “Finalmente.” Pensou Thaissa.

— Fred, que bom falar com você! – Talvez ele pudesse pensar que ela estaria a fim de vê-lo,
mas sua alegria em ter notícias do rapaz era exatamente por acreditar que os envios cessariam a
partir dali. Não havia nada entre eles que justificasse tal ato.

— Agora sim, me senti bem recebido. – Thaissa sorriu sozinha pela forma que o rapaz falou.
Era de fato um homem engraçado, mas apenas isso.

— Obrigada pelas flores. – Agradeceu desejando que ele a convidasse para saírem e assim ela
poria um fim naquela relação que nem começara. Não gostaria de fazer isso por telefone.
Principalmente, depois que ele fora exageradamente gentil com ela no decorrer da semana.

— Poderíamos combinar um jantar, assim colocaremos as conversas em dia. O que acha? –


perguntou o rapaz.

— Seria ótimo. Onde podemos nos encontrar? – Quando terminava de fazer a pergunta Marcus
surgiu na porta. Ela ficou sem graça, pois ele parou na entrada e ali ficou.

— Pego você onde, em sua casa? – Thaissa não sabia o que responder no encontro anterior
disfarçara e marcara no parque. Iria dar o mesmo endereço.

— Vamos combinar de você me pegar no parque Vaca Brava novamente. Ela não passaria seu
endereço para o rapaz. Mesmo sendo aquele o segundo encontro deles. Certamente ele enviaria mais
flores para lá. Enquanto falava Thaissa sentia-se o único ser do universo sendo observado naquele
momento. Marcus fingia indiferença, mas ela sabia que ele ouvia a tudo.

— Te pego às 20h. – falou o rapaz do outro lado.

— Combinado então. Até mais tarde! – disse desligando o telefone antes de ouvir a resposta do
rapaz.

— Precisa de alguma coisa? – perguntou após colocar o telefone celular do lado.

— Esse sujeito certamente vale a pena. – Thaissa percebeu que o sarcasmo fora grande.

— Por que esta falando isso? – Ela perguntou mesmo sabendo a resposta.

— Costuma se esquecer do que fala com muita rapidez, Thaissa. – Retrucou ele.

— Você entendeu errado. Eu não disse que você não valia a pena. Afirmei que não estou
disposta a investir em uma relação com você. Apenas isso!

— Tudo bem, mas com ele você quer! Seu namorado sabe que enquanto ele está ausente você
transa com outro homem? – Marcus parecia disposto a feri-la.

— Seu grosso, arrogante e preconceituoso. Eu pensei que depois que me conhecesse um pouco
mais perceberia que não sou essa mulher fácil, como você havia presumido. Mas vejo que me
enganei mais ainda a seu respeito. – Assim como ele, Thaissa falava baixo para que somente eles
ouvissem.

— Mais ainda? – perguntou ele.

— Exatamente o que ouviu. – Embora ele tivesse fechado a porta quando entrou. Thaissa ainda
tinha receio de que os ouvissem.

— Talvez seja você a preconceituosa aqui, e não eu. – O tom de voz dele era ríspido, parecia
estar bastante chateado com ela. Homens quando são rejeitados se mostram os ferozes caçadores que
são por natureza. – concluiu ela chateada por ter levado a relação deles ao ponto de se magoarem
com palavras. Mas seria melhor agora que depois.

— Eu já disse que não foi minha intenção deixa-lo chateado. Quer que eu peça desculpas? Eu
peço. Desculpe-me tá! – Marcus a olhava com um misto de mágoa e paixão que quase a derretia.

— Quando está com ele você age como faz comigo? Encanta, seduz e depois deixa de lado?! –
A intenção dele era mesmo de atormentá-la, concluiu ela.

— Não sei por que ainda perco o meu tempo com você. – O fato de ele ter falado da forma
como falara sobre terem ficado juntos, deixou-a chateada.

— Você não quer se envolver comigo por que tem alguém fixo e não pode abrir mão dessa
relação. Mas quer se aventurar às vezes. Conheço muita gente assim, e te garanto que o final quase
nunca é compensador. – Ele queria ensiná-la sobre a vida, mas Thaissa não precisava de suas
orientações.

— Me dando lição de moral? — Seria você a pessoa certa para fazer isso? – Rebateu ela.

— O que você sabe sobre mim, Thaissa? Nada! Conhecemo-nos há pouco e já acha que sou um
homem sem valor e que não compenso o investimento por parte sua. – Isso ele tinha razão, mas fora
Marcus um dos culpados por ela o ver dessa forma. – concluiu Thaissa desviando seus olhos dele.

— Eu não disse isso e você, sabe bem. Está tentando me confundir, mas não vai conseguir. Eu
já te falei que não quero me envolver, é só isso. Logo irá embora e tenho certeza de que você é o
típico homem que por onde passar deixa alguém para trás. Não entro em relações assim quando há
uma química como a nossa.

— E o que te dá garantias sobre esse homem com quem irá sair hoje? Não existem garantias em
relação alguma Thaissa. Você já é bem grandinha para saber disso. Há risco, mas isso não é motivo
para simplesmente se negar a viver as coisas. – A verdade na voz dele, confundiu-a.

— Tudo o que você está falando, eu sei Marcus. Não sou nenhuma criança. Mas preciso me
sentir um pouco confortável em uma relação. Mesmo aquelas que eu sei que serão mais breves. Eu
sou assim e não tenho problemas com isso.

— Não se sente bem quando está comigo? – Ele perguntou prendendo-a com os olhos mais
lindos que ela já vira. O cinza da íris dos olhos dele parecia ainda mais escuros, confundindo com o
azul. O que o deixava ainda mais sexy.

— Não preciso responder isso. – Thaissa tentava a todo custo se convencer que fazia o melhor
para ambos.

— Responda, por favor! – pediu ele se aproximando.

— Atração sexual não precisa ter respostas ou você vai e sacia sua vontade, ou espera até que
ela passe. – Não queria ser rude a ponto de leva-lo a acreditar que já havia se fartado dele. Mas
parecia ser a melhor resposta naquele momento.

— Então estava apenas satisfazendo uma vontade, e depois de provar e se entupir dela, ponto
final e nada mais.

— Nada do que eu falo você entende. Faça como quiser. – Aquele assunto não os levaria a
nada, e Thaissa ficava cada vez pior ouvindo-o falar.

— Talvez eu devesse ter usado você também. Assim estaríamos quites. – Agora ele voltava ao
ar esnobe e grosseiro de costume.

— Mas foi exatamente isso que fez Marcus. Ficamos juntos e foi ótimo, mas amanhã ou depois
você irá embora e nunca mais nos veremos. Nem sequer, lembraremos com facilidade um do outro.

— Eu não disse que iria embora ou que iria ficar. Como pode presumir o que nem eu mesmo
sei?

— É assim que as coisas são. – devolveu Thaissa desejando colocar um ponto final naquela
conversa, antes que se jogasse nos braços dele e pedisse que a fizesse feliz enquanto fosse bom para
ambos, e por que não, para sempre.

— Espero que esse homem que escolheu seja tudo o que deseja. – Marcus abriu a porta e saiu
rapidamente sem esperar respostas. – Thaissa ficou olhando por longos segundos por onde ele
partira. Estaria perdendo uma grande chance de viver sua vida por medo?

Sem entusiasmo, ela voltou ao trabalho parando por várias vezes sem compreender o porquê
de tanto desanimo após a conversa com Marcus. Ela tinha convicção que fazia a coisa certa, então
por que algo a queimava por dentro?

Quando saia no final do expediente, olhou na direção da sala dele. Por que estava sendo tão
difícil encerrar aquela história com Marcus? Todos os dias precisava travar uma batalha para não se
perder nas lembranças dos momentos vividos com ele. Precisava seguir sem mudar os seus planos.
No final, tudo se resolveria e ela concluiria que fizera o melhor. Por parte dela não cabia uma
relação passageira. Pelo menos nesse sentido sua razão ainda imperava e lhe dizia que seria ainda
mais dolorido vê-lo partir do que doía agora.
CAPÍTULO 28

Quando Fred chegou para pegá-la, Thaissa desceu do carro sorridente.

— Como vai, Fred? – perguntou cumprimentando-o formalmente com um beijo no rosto.

— Melhor agora vendo você. – O sorriso dele era encantador, mas Thaissa não se deixou
persuadir. – Fred abriu a porta do carro para que ela entrasse.

— Sua viagem foi tranquila? – quis saber Thaissa assim que ele sentou no banco do motorista e
ligou o carro.

— Foi bastante produtiva. A única coisa que me chateou um pouco fora o fato de que ela me
pareceu maior que o de costume. – relatou olhando-a com os olhos brilhantes.

— Eu achei a semana tão rápida. – falou ela.

— Então não sentiu a minha falta. Se isso tivesse acontecido estaria pensando como eu. –
Thaissa nada disse. Deixaria para falar o que desejava depois.

Fred a levou em um dos restaurantes na Avenida Goiás. Quando lá chegaram, ele quis pegar na
mão dela, mas Thaissa fingiu procurar algo na bolsa e seguiram sem qualquer contato íntimo. Após
instalados e os pedidos feitos, ele ainda tentou uma aproximação.

— Você não me disse se gostou das flores que enviei. – A simpatia dele a impedia de ir direto
ao assunto que desejava.

— Não tem o que dizer. Eram lindas. Eu fiquei bastante lisonjeada, obrigada! Mas achei a
atitude um pouco exagerada, não precisava ter enviado tantas flores por dias seguidos. – Comentou
ela.

— Quando estamos diante de uma linda mulher, isso e o mínimo que podemos fazer. –
Argumentou ele observando o belo rosto de Thaissa.

— Não precisava se incomodar tanto. – Thaissa falava com ternura, pois o rapaz não tinha
culpa se ela não fora capaz de tirar o outro homem da cabeça.

— Eu realmente fiz por prazer. – afirmou ele para dificultar ainda mais o que Thaissa tinha
interesse em dizer.

— Você é um homem adorável, Fred. Certamente é muito bem aceito em qualquer lugar e fico
feliz por você. – Ela estava sendo sincera com ele.

— Obrigado. Mas eu gostaria de ouvir algo a mais. – Thaissa sorriu discretamente e para sua
alegria o jantar chegou.

Depois de servidos, iniciaram o jantar e as conversas diminuíram. – Ao contrário de Marcus,


Fred era bastante seleto com a comida. Thaissa achou interessante ele escolher carne de peru, salada
e uma pequena quantidade de arroz. Outros homens não aprovariam aquela escolha. Irritada, ela se
alto criticou por fazer comparações entre Fred e Marcus. Por que ela adquirira a mania de fazer
comparações e sempre era a favor de Marcus? Thaissa começava a acreditar que sua razão, assim
como seu coração, a estava traindo.

Embora tivesse sido um jantar agradável, Thaissa não via a hora de irem embora. Percebendo
que ela permanecia calada, Fred a convidou para partirem alguns minutos após a refeição.

No caminho de volta, quase não se falaram. Deixando claro que o clima não era promissor.
Assim que Thaissa avistou seu carro, ela começou a planejar seu discurso. Quando se sentiu segura,
começou.

— Fred, você é uma pessoa encantadora, eu realmente gostei muito de seu jeito, mas não estou
disponível para um relacionamento agora. Então acredito que devemos parar por aqui. – disse ela.
— Não precisamos ter um relacionamento como você diz, Thaissa. Podemos sair de vez em
quando e isso está ótimo para mim, por enquanto. – propôs sorrindo e parando o carro alguns metros
antes de chegarem. Thaissa já havia provado de uma relação assim com Humberto e não dera certa, e
no caso do pediatra, ele era uma opção bem mais segura e confiável que Fred. Thaissa conhecia a
história de Humberto, do outro rapaz, nada além do charme e da simpatia.

— Eu sinto muito, mas não estou interessada em qualquer espécie de relacionamento. Entende?

— Não entendo não. – afirmou o rapaz, agora sem o grande sorriso nos lábios. – Te enviei
flores demonstrando meu interesse e você me diz não estar interessada. Não foi isso que me
demonstrou naquela noite.

— Eu não deixei nada claro a você sobre minhas intenções naquela boate. Fui simpática como
fora comigo. É isso. – Thaissa não estava gostando da reação dele.

— Não topa nem sair comigo algumas vezes para conversarmos. Então o que quer? – perguntou
ele

— Que não nos encontremos mais. – preferiu ser franca.

— Tem outro cara na jogada? – As palavras e o tom da voz dele não coincidiam com o que ele
se mostrara até o momento.

— Se estou lhe dizendo que não quero compromisso é porque não quero você e nem outra
pessoa. – O clima ficava tenso cada vez mais.

— Dificilmente uma mulher se desinteressa pelo homem sem ter outro à disposição. – Thaissa
não gostou do jeito seco e acusador com o qual falou.

— Você está enganado, Fred. Eu não preciso de desculpas para decidir quando é hora de parar
com alguma coisa. E sinceramente, eu não estive e nem estou interessada em você, embora seja uma
boa companhia. – Falou ela perdendo o pouco de paciência que ainda tinha. O rapaz parecia querer
cobrar dela a atenção que dispensara sem que ela pedisse ou demonstrasse querer.

— Você não é mais uma menina para ficar com esses joguinhos comigo. É claro que você está
interessada, eu posso ver o brilho nos seus olhos. – Pobre Fred, se houvesse algum indicio de que ela
estava interessada em alguém, certamente não seria por ele. – Thaissa espirou lentamente para o
próximo passo.

— Foi um prazer conhece-lo. Mas é só isso. Espero que possamos ser amigos – responde
Thaissa se preparando para sair do carro.

— Acho que preciso de algo mais, que uma simples amizade com você. – falou o rapaz.

— Isso não será possível. Nos vemos por aí! – quando ela foi abrir a porta do carro para sair,
ele a puxou.

— Me solte, por favor! – pediu Thaissa fingindo calma.

— O que te fez desistir de mim? Fui educado, romântico. O que mais você deseja, querida? –
O tom de voz dele causou repulsa em Thaissa.

— Eu já te disse que não rolou, Fred. Você nunca levou um não em sua vida? É super normal
acontecer de uma parte não sentir o que a outra deseja que ela sinta. Você é um homem muito
interessante, mas não aconteceu. – Thaissa sentiu a pressão da mão dele em seu braço e começou a
ficar tensa.

— Mas você nem nos deu uma chance de tentarmos. Pode dar certo. – A insistência não era
algo que Thaissa admirava quando o assunto era relacionamento. Ela sempre preferiu a ideia de que
se uma das partes queria o fim, cabia a outra aceitar e seguir. Sem se humilhar para alguém que
desejava cair fora. Aquilo que ele fazia era sinal de pouco amor próprio. Certamente não seria capaz
de amar o outro.

— Fred! Não torne as coisas chatas. Não se pede afeto, entendeu? – Ela tentava ser
compreensiva com ele.

— Não costumo desistir fácil do que quero, sabia? — Ele a trouxe para perto e foi beijá-la.

— Me solte seu louco. Você é um descontrolado repulsivo. – Thaissa foi lhe dar um tapa no
rosto, mas ele desviou. Desesperada para se soltar, deu um puxão no braço, deixando parte de sua
blusa na mão dele. Ficando a mostra o soutien e partes dos seios dela. O crápula levou uma das
mãos e a enfiou dentro da blusa rasgada, acariciando seu seio fortemente. Cega de raiva, Thaissa
tentou agredi-lo sem olhar a direção. Quando de repente ouviu um gemido vir do lado do motorista.
Assustada ela viu Fred sendo arrancado do carro.

— Seu cretino! Vou ensiná-lo a não colocar suas mãos sujas nela nunca mais em sua vida.

Tão atordoada estava ela que demorou a reconhecer a voz de seu salvador. – Ainda trêmula
Thaissa saiu do carro sentindo suas pernas falharem de tão grande era seu nervosismo.

— Vá embora daqui e agradeça se amanhã não for processado por tentativa de estupro. –
Thaissa viu quando Marcus o atirou contra o capô do carro e logo em seguida, o barulho forte da
arrancada do motor e o veículo saindo em alta velocidade. Da calçada, ela observava a tudo,
envergonhada.

— Você está bem? – perguntou Marcus aproximando-se dela. — Ele machucou você? – Os
olhos dele pareciam sair faíscas de fogo.

— Estou bem e não, ele não me machucou. – Thaissa se aproximou dele lentamente.

— Se não fosse o fato de te expor muito, amanhã mesmo eu iria pessoalmente a delegacia fazer
uma denúncia contra esse moleque. – Marcus estava aparentemente transtornado. — Ele te feriu? –
perguntou novamente. Ao ver a blusa dela rasgada. Aquela visão o deixou ainda mais contrariado.

— Eu estou bem! – As lágrimas pareciam querer vencê-la, mas Thaissa ainda as segurava.

— O que o fez agir dessa forma? – perguntou Marcus.

— Não sei. Eu apenas disse que não queria nada com ele. Nem namorando estávamos. Trêmula
e envergonhada pelo acontecido, Thaissa não conseguiu mais se segurar e começou a chorar.

— Não chore meu amor! – Marcus se aproximou, abraçando-a.

— Se você não tivesse chegado eu não sei o que teria acontecido. Eu nunca vi alguém tão
desequilibrado daquela forma. – Ela se aninhou nos braços dele, esquecida de qualquer trato que
fizera de se manter distante dele. Marcus a abraçava novamente em um momento de angústia. Era
apenas isso o que importava. Sentir-se confortável naquele abraço aconchegante dele.

— Eu o mataria se ele tivesse feito alguma coisa a você. Meu Deus! Eu realmente o mataria. –
Marcus acariciou os cabelos dela, abraçando-a fortemente. – Venha, vou te levar para casa.

— Deixei meu carro próximo daqui. – Thaissa apontou para a direção onde ele estava.

— Tudo bem! Vamos no seu. Depois eu peço que levem o meu. – Thaissa lhe entregou as
chaves e Marcus a levou até o local onde deixara o veículo estacionado.

Chegando lá Marcus abriu a porta para ela, que entrou em silêncio. Rapidamente ele contornou
e acomodando-se no assento deu a partida e seguiu.

Como doía ver aquela mulher fragilizada a sua frente. – pensou Marcus olhando-a algumas
vezes disfarçadamente. Por qual razão um homem se prestava a uma coisa daquelas? Ele sentia como
se estivessem ferindo a sua própria carne.
Quando chegaram, Marcus colocou o veículo na garagem e lhe devolveu as chaves.

— Não sei como agradecer por estar lá na hora certa. – disse Thaissa um pouco menos tensa.

— Eu tenho tido insônia, Depois que estivemos no parque vou sempre que o sono falha e faço
uma caminhada rápida para ajudar na hora de ir para a cama. Gostei muito de lá.

— Obrigada! – Olharam-se longamente até que Marcus começou a caminhar para a saída.
Thaissa o acompanhou após um breve suspiro.

— Vou chamar um táxi para você. – disse ela procurando o celular dentro da bolsa.

— Não precisa, tenho um amigo taxista. Chamarei ele. Fique tranquila!

— Tudo bem! – concordou ela guardando o aparelho. Embora o clima estivesse aparentemente
tenso pelo ocorrido. Pairava no ar algo bom que nem mesmo os dois sabiam ao certo do que se
tratava. Ficaram calados por alguns segundo até que Marcus se aproximou dando-lhe um beijo em
sua testa e partiu. Thaissa acionou o controle do portão após vê-lo sair e entrou na casa.

Marcus chegou em casa arrasado. Se tivesse deixado seu orgulho lhe cegar a razão, não teria
ido ao parque observar Thaissa com o provável namorado. Por várias vezes pensou em desistir. Mas
sentia algo incomodá-lo ao imaginá-la com outro homem. Havia também a questão de o pai de
Thaissa estar em viagem, e cabia a ele zelar pelo bem dela. Por sorte ou experiência, Marcus
resolvera observar melhor o sujeito. Não é muito normal nos dias de hoje um homem enviar de forma
desesperada, enormes buquês de flores a uma mulher. Ou esse cara estaria com ela há muito tempo
para se permitir tal demonstração de afeto, ou havia alguma coisa obscura nele. E como Marcus,
embora tentasse ignorar, não acreditava na possibilidade de Thaissa ter um relacionamento antigo,
ele optou pela segunda opção. O cavalheirismo do moço o deixou de antenas ligadas e agora depois
de tê-la livrado do crápula, agradecia por ter feito tal constatação a tempo. Sua vontade era de pegá-
la no colo e leva-la para dentro da casa, passar a noite toda protegendo-a, e claro, fazendo amor com
ela, deixando-a segura e realizada. Mas não seria justo fazê-lo. Thaissa havia passado por um
momento muito constrangedor e infeliz. Tudo que ela precisava dele naquele momento, ele deu-lhe.
Mas o instinto de macho protetor queria mais. Gostaria de poder estar com ela, envolvendo-a em
seus braços, naquele momento. Ainda inconformado, ele foi para o banheiro.

Marcus tomou um banho frio, para aliviar a raiva que sentia daquele homem que ousou tocar
em Thaissa sem o consentimento dela. Se o encontrasse outra vez, daria em dobro a surra que ele
merecia. Embora o tivesse visto a noite e apenas uma vez, nunca mais esqueceria aquele rosto.
Thaissa sentou-se na cama pensativa imaginando o que teria acontecido se Marcus não tivesse
aparecido naquele momento. Como se permitiu correr um risco como aquele. Fred parecia ser um
homem meio distraído, mas acreditar que ele fosse violento, jamais lhe passou pela mente. Também
havia a questão de que o encontrou apenas uma vez. Não teve tempo de observar bem o rapaz e por
isso poderia ter tido outro desfecho sua história. Fora muito tola de marcar um encontro com um
completo desconhecido à noite. Deveria ter combinado em um shopping ou qualquer outro lugar
movimentado. Mas agira assim por acreditar que o rapaz era uma pessoa de bem. E não fora.

Na segunda-feira iria agradecer novamente a ele. O homem que julgara não valer a pena fora
seu herói. Teria de deixar de lado o constrangimento por ele ter presenciado um momento tão
desconfortante e agradecê-lo por toda a vida.

No sábado, Thaissa acordou tensa. Não tivera a noite muito agradável acordando várias vezes
com pesadelos. Mas logo procurou se esquecer do que vivera. Naquele dia, seu pai retornaria e
poderiam passar um tempo juntos.

Durante a manhã, permaneceu dentro do quarto sentia-se sonolenta e ficou na cama até mais
tarde. Quando levantou-se e tomou um banho foi procurar algo para se alimentar. A velha senhora que
estava com a família havia anos a recebeu com um enorme sorriso.

— O que a prendeu na cama até essas horas? Você não tem costume de dormir até tarde.

— Não sei Ana. Acho que não dormi muito bem à noite e por isso quis aproveitar um pouco da
manhã e ficar lá. – Ela não iria comentar nada com a querida funcionária. Provavelmente a deixaria
preocupada, desnecessariamente.

— Seu pai chegará à tarde. Quer almoçar agora ou prefere um lanche reforçado? – perguntou
Ana organizando alguns talheres.

— Acho que vou ficar com o lanche. – A velha senhora foi preparar algo, enquanto ela fazia
um suco de laranja para acompanhar.

Após se alimentar, Thaissa foi para o jardim. Deitou-se em uma das redes onde costumava
ficar com sua mãe, ou quando precisava estar sozinha. Lá, ela passou longo tempo ouvindo música
em seu MP4, em silêncio. Tentaria esquecer-se do que vivera na noite anterior, pois em nada
ganharia se lamentando por aquele incidente que felizmente terminou bem.

Quando o pai de Thaissa chegou, ela já estava mais tranquila.

Olá filha, como estão às coisas por aqui? – Thaissa foi ao encontro dele.
— Está tudo bem pai. – Abraçaram-se fraternalmente.

— Tenho estado muito ausente, minha querida, mas espero que entenda que tem sido muito bom
para mim essa mudança em minha vida. – Ele parecia triste por sua alegria o afastar da filha, mas
esperava que ela compreendesse.

— Se você está feliz dessa forma, pai, eu também me sinto feliz. Não se preocupe já estou bem
grandinha e posso passar algumas noites sozinha. – brincou ela.

— Eu sei que pode filha, mas ainda assim, me incomoda deixa-la por tanto tempo.

— Viva sua vida, pai. Trabalhe da forma que quiser. O seu papel já foi muito bem feito com
relação a mim. Nada de se culpar por alguma coisa. Eu estou muito contente em ver que você está
voltando a viver. – Thaissa lhe beijou a testa e foram juntos para a sala.

— Me conta como tem sido essa sua nova jornada. – quis saber ela interessada.

— Se eu soubesse que seria bom para mim como está sendo, eu teria feito antes. Mas é lógico
que jamais poderia fazer isso sendo o diretor da Fênix. Só agora que pude mudar os ares e está sendo
muito bom para mim. Se algum dia tiver que voltar a minha função, estarei renovado. ​— Ele falava
com tamanha alegria que Thaissa não conseguia deixar de sorri. — Sei que isso é quase impossível e
que já não sou importante para o direcionamento da empresa, mas não se sabe o que pode acontecer.

— Você é muito importante, pai! Aquela empresa e todos lá te devem muito. Dedicou grande
parte de sua vida a Fênix e já estava na hora de se dedicar a você mesmo. – falou afagando a mão
dele.

— Obrigado, filha! Muito me ajuda sendo compreensiva e não me culpando por colocar todo
seu patrimônio em risco. – agradeceu o homem.

— Não era meu patrimônio, pai. Ele foi construído por você, então era seu. – Mas ainda me
deixou bastante. Até mais do que devia.

— Filha! Quero falar com você sobre outro assunto também. – Ele pareceu indeciso, mas
continuou. — Eu sempre amei sua mãe e quando soubemos do diagnóstico, me senti caindo em um
buraco profundo. Eu sei que fui fraco por muitas vezes, mas ver minha esposa lutando contra um
inimigo tão forte, me deixou sem chão. Doía vê-la guerreira diante de uma doença sem cura. –
Thaissa ouvia a tudo calada. Seu pai certamente precisava desabafar. — Mas o que me arrasava
mesmo era não ter forças para lidar com aquela situação como ela fazia. Eu me via como um fraco.
Ela que passava por tudo sem reclamar, era mais positiva que eu. Por muitas vezes eu desejei não
voltar para casa para não ver o sofrimento de sua mãe ao descobrir que um novo caroço surgira em
seu corpo. – As lágrimas começaram a rolar pela face dele. – Me perdoe por ser um fraco no
momento em que mais precisaram de mim. – falou ele, abraçando-a.

— Seu amor foi tão grande a ponto de deixa-lo cego com a ideia de perde-la, pai. E eu sei que
ela via isso e entendia sua dor. – falou ela abraçada a ele.

— Eu não tinha o direito de sofrer mais que ela. Eu devia ter sido seu suporte e não fui. —
reclamou ele.

— Sim, você foi. Por várias vezes, mesmo depois de se afastar mais de nós, minha mãe falava
de você com carinho. Ela sabia que fez o seu melhor. Minha mãe não tinha qualquer sentimento
negativo por você, pai. Tenho certeza disso. – disse ela tentando confortá-lo. Thaissa o perdoou
havia tempos. Porque sempre soube que sua mãe o faria se tivesse qualquer mágoa do marido. − Não
sofra mais. Siga em frente! Eu tenho certeza que ela ficaria orgulhosa de você. – Abraçada ao pai,
Thaissa também se deixou render pelas lágrimas da saudade.

— Me orgulho muito de você, sabia? – falou André para ela. – Thaissa o abraçou um pouco
mais apertado e ficaram assim aproveitando aquele momento de carinho e libertação.
CAPÍTULO 29

Após o final de semana tranquilo o qual Thaissa pôde aproveitar a boa companhia do pai, a
segunda-feira chegou trazendo lembranças as quais procurara esquecer. Logo estaria frente a frente
com Marcus e não sabia se o agradeceria ou sentiria vergonha por ele ter presenciado aquela infeliz
situação com Fred.

Quando chegou à empresa, ele ainda não estava. Thaissa então aproveitou para deixar na mesa
dele alguns arquivos que imprimira. Assim ele teria bastante trabalho antes de desejar falar com ela.
Em seguida, retornou a sua sala e iniciou seu trabalho.

Haviam se passado apenas 30 minutos e Marcus estava a sua frente, contrariando as


expectativas dela.

— Bom dia! Por que não me aguardou? Poderíamos ter discutido algumas coisas. – Disse
simpático.

— Me desculpe! Mas eu tinha algumas coisas a resolver e pensei que gostaria de rever o
material antes de falarmos a respeito.

— Eu fiz isso. – Marcus a olhava discretamente, mas era claro a curiosidade nos olhos dele.

— Podemos discutir quando quiser. – falou ela, tentando amenizar o clima tenso.

— Ótima ideia. – Marcus sentou- se na frente dela e começou a discorrer sobre o que lera
apresentando seu ponto de vista. Embora fossem muito diferentes como pessoas, ambos sabiam que
tinham os mesmos pontos de vista no âmbito profissional o que criava um clima bom entre eles,
enquanto discutiam questões relacionadas.
Por vezes, Thaissa percebeu que Marcus parecia desejar falar algo, mas não o fazia por alguma
razão. Ela disfarçava abrindo um leque para alguma questão e nunca terminavam. Preferia falar sobre
o que realmente importava a empresa.

Quando concluíam a programação, Marcus a olhou fixamente e Thaissa soube que ele falaria
sobre o ocorrido naquela noite.

— Como passou seu final de semana? Teve notícias daquele sujeito? – perguntou ele meio
indeciso.

— Foi muito tranquilo. E não tive notícias dele. – disse ela tentando disfarçar o
constrangimento.

— Você sabe alguma coisa concreta sobre ele, onde vive e como? – Thaissa estranhou o
interesse dele.

— Não sei nada. Tivemos apenas um contato superficial antes daquela noite. Acho que nem o
número do telefone dele eu tenho na agenda de meu celular.

— Caso ele te procure, independente das intenções, não deixe de pedir ajuda. Eu estarei à
disposição a qualquer momento que precisar de mim. – Havia tanta verdade na voz dele, que Thaissa
sentiu-se acolhida e protegida.

— Obrigada! Eu nem sei como agradecer por sua intervenção. Eu poderia ter uma triste
lembrança pelo resto de minha vida. – disse ela sentindo-se mais segura em falar.

— Eu sei que é uma pessoa independente e sabe o que quer da vida, mas tome cuidado. Há
homens extremamente perigosos por aí. – Aconselhou com voz fraterna.

— Você tem razão. Na verdade meu único intuito era de ser grata após de ter sido gentil
enviando todas aquelas flores. – justificou ela.

— E aí pode estar o problema! A bondade de algumas pessoas é uma arma forte nas mãos de
mal intencionados. – Continuou ele sem dar a impressão que a reprimia pela tola inocência que
tivera.

— É verdade. Ficarei mais atenta da próxima vez. – Há muitos rostos com máscaras por aí.
Muitas das vezes só depois de cairmos em algum golpe que percebemos isso. – afirmou ela.

— Torço para que isso aconteça, e para que saiba reconhecer a verdadeira face das pessoas
que se aproximam de você. – Thaissa olhou fundo nos olhos dele. Não parecia haver uma máscara na
frente de Marcus. Porém algo a impedia de se abrir. Talvez fosse o medo, não dele, mas de si mesma.

— Eu também! – respondeu após se perder no brilho dos olhos dele.

— Vou resolver alguns assuntos pendentes. Falamo-nos depois. – Marcus precisava sair dali
logo ou poderia fazer algo do que se arrependeria depois. Desejava muito beijá-la naquele momento.

— Fique à vontade. – Marcus saiu deixando-a pensativa. Não fosse a intervenção dele, Thaissa
poderia estar agora no mínimo traumatizada, mas ele estava lá. Ela não sabia como e por que, sabia
apenas que seria grata a ele, por toda a vida. Ela teve a impressão naquele dia, que Marcus era o tipo
de homem que defendia a todos que necessitassem de sua ajuda. Era um homem de princípios,
embora fosse ranzinza, às vezes. Um leve sorriso aflorou no rosto dela quando se lembrou da forma
com ele pegara no colarinho de Fred jogando-o contra o carro. Ele parecia furioso. Caso o rapaz
tentasse alguma coisa, certamente teria apanhado feio. Felizmente, coragem era algo que Fred parecia
não ter, e tudo acabou bem.

Marcus olhou a sua volta depois de retornar para sua sala. Tinha tantas coisas para colocar em
ordem. No final de semana teria que ir até Uberlândia e não sentia a menor vontade de fazê-lo.
Embora tentasse disfarçar, ele sabia o motivo que o estava deixando daquela forma. Thaissa era a
razão. Aquela atrevida o estava desorientando a ponto de ele ter ido bisbilhotar o encontro dela. O
que já não o causava arrependimentos, pois fizera o certo e a defendeu. Mas estava passando dos
limites o desejo que ele tinha de estar com ela. Zelar pelo seu bem.

Thaissa tinha um poder imenso de contrariá-lo e ao mesmo tempo lhe trazer a paz que nunca
teve ao lado de mulher alguma. Precisava resolver aquela questão de uma vez por todas. Zangado por
sentir-se impotente diante de seus pensamentos, ele procurou algo para se enganar até que tivesse
alguma solução.

A estratégia dera certo até o meio do dia. Quando Thaissa surgiu a sua sala, toda luta que ele
travara em sua mente, fora por água abaixo.

— Paula me disse que teremos de abreviar uma campanha de um cliente. Você está sabendo a
respeito? – Thaissa entrou e sentou-se na frente dele.

— Não! – Marcus disse observando-a. Ela parecia mais bela que da última vez que a viu. E
isso fora há tão pouco tempo. Como podia uma coisa dessas acontecer com um homem na idade dele.

— Então ela preferiu passar para mim a informação, ciente de que chegaria a você. A questão é
que há um concorrente de nosso cliente que, segundo ele, está preparando algo semelhante e ele não
quer a divulgação do outro antes da dele.

— Para que isso? Há espaço para todos que trabalharem bem. Quem expos primeiro não será
determinante em nada. – justificou Marcus.

— Eu sei disso também. Mas o cliente não quer ver dessa forma e pede rapidez. Temos que
atendê-lo.

— Então sinto lhe dizer, mas teremos que passar do horário normal de trabalho para concluir
essa campanha. Sei que não gosta disso, mas é a única opção que temos, já que os horários normais
já estão todos agendados com alguma coisa.

— Acho que você me entendeu mal durante todo esse tempo Marcus. Não me importo de fazer
serão quando é necessário, mas não sendo, acho perca de tempo fazê-lo. Quando sei que irá gerar
bons resultados, faço com prazer. – Ela falou com tanta naturalidade o que o deixou sem respostas. –
Quando podemos começar?

— Acredito que no máximo amanhã, pois na sexta-feira não estarei aqui. – Thaissa o olhou
curiosa. – Viajarei para Minas Gerais bem cedo e só retorno no domingo à noite. — Thaissa nada
disse. Ela sentia imensa curiosidade em saber sobre a vida dele lá. Marcus teria alguém o esperava
além de sua irmã e família. Muitos tinham e não estranharia caso soubesse que ele não era diferente.
– Um aperto em seu coração a alertou que aquela notícia não a agradaria.

— Amanhã começamos e aproveitamos para fazer um planejamento de quantas horas extras


serão necessárias até na quinta-feira. – disse Marcus. — Se não se importa, estaremos juntos um
pouco mais que o costume. – Concluiu ele.

— Tudo é válido quando o assunto é a satisfação de nossos clientes e o fortalecimento de


nossa marca. – Brincou ela embora sentisse grande tensão surgir ao se imaginar sozinha com ele na
empresa após o expediente.

— Compromisso confirmado! – Marcus sentiu que aquela poderia ser a oportunidade que
precisava para resolver a questão que os envolvia.

Encerrado mais um dia, Thaissa foi para casa. Antes, porém, fizera alguns rascunhos que
pudessem adiantar aquele trabalho que dividiriam. Embora sua criatividade não estivesse em alta
naquele momento, tentara alguma coisa e apresentaria no dia seguinte.

Em casa, Thaissa tomou seu banho e foi analisar novamente o que fizera. Parecia-lhe que suas
anotações estavam piores do que se lembrava. Não conseguira adiantar nada. Sua mente trabalhava
contra ela naquele dia. Jogaria tudo fora e deixaria para o horário combinado. Não estava em
condições de criar naquele momento.

Deitada em sua cama relembrava seu comportamento, desde que conhecera Marcus.

Estava cada vez mais certa de que cada pessoa trazia consigo um aprendizado por onde
passava. Embora tentasse afastar Marcus de sua vida, ela constatava agora que ele fora uma das
pessoas que só lhe trouxe bons aprendizados. Sim, era isso o que acontecia e ela tentava a todo o
momento disfarçar. Marcus ajudava-a em seu melhoramento pessoal e ela nem percebera isso,
deixando-se levar pela certeza de que eram muito diferentes e que não tinham o que dividir um com o
outro. “Não é essa a função do amor?” – Pensou ela um pouco mais perceptiva do que acontecia.

Um sentimento bom que traz consigo o melhoramento dos apaixonados? – Muitos diziam que o
amor transformava, seria isso que acontecia com ela em relação a Marcus?
CAPÍTULO 31

Conforme Thaissa acreditava, a terça-feira começou cheia. Teria que organizar-se para não
deixar acumular seus afazeres e assim conseguir ter alguma coisa adiantada para apresentar nos
encontros após o expediente.

Marcus não a procurou o que facilitou muito para ela. Colocaria as prioridades de forma que
pudesse desenvolver um pouco de cada uma e desta forma nada ficaria para trás. Haveria ainda seu
trabalho extra com ele, o qual exigiria um pouco de sua atenção e dedicação. Faria tudo conforme o
combinado para terem sucesso em mais aquele trabalho em parceria. Confiante, porém ainda
insegura, dedicou— se a seu trabalho sem interrupções até o final da tarde, quando recebeu a visita
de sua nobre colega de trabalho.

— Thaissa, eu gostaria que me informasse sobre o projeto que Você e o Marcus estarão
desenvolvendo após o expediente. Eu não compreendi quando soube. – A mulher perguntava com voz
inocente e boa.

— Foi o Marcus quem te deu essa notícia? – quis saber Thaissa.

— Não! – respondeu ela sem dar muita importância a expressão de desagrado de Thaissa.

— Se não foi ele, então procure-o que ele poderá sanar suas dúvidas melhor que eu. Eu posso
lhe dizer apenas que fui incumbida de ajudar nesse processo. – Thaissa falava com ela com
espontaneidade. Deveria ver em Letícia uma colega de trabalho nada a mais.

— Pergunto isso, porque não soube nada a respeito, e sendo esse um projeto importante,
deveria ser repassado aos demais, não acha? – perguntou ela educada.

— Não penso assim Letícia. – O fato de ele ser e não estar sendo divulgado a todos, não faz
dele algo sem importância. Talvez Marcus não visse necessidade de comentar a respeito com aqueles
que não estarão ligados diretamente ao processo. – Era verdade o que ela dissera e seria apenas isso
o que adiantaria para a colega. Se desejasse mais que procurasse o criador dessa campanha pós-
expediente.

— Tudo bem! Bom trabalho para vocês. – A mulher percebeu que ela não lhe diria nada a mais
e se deu por satisfeita naquele momento.

— Obrigada, para você também! – falou Thaissa vendo um leve movimento na testa da mulher
como se estivesse chateada com alguma coisa.
— Se eu não estiver muito cansada, dou uma passadinha lá para ajuda-los. – disse Letícia
quando saia.

— São sempre bem-vindas as boas ideias. – Thaissa analisou melhor a mulher. Letícia também
havia mudado. Estava mais insegura e também receptiva. Certamente começava a sentir um pouco do
próprio veneno. — pensou ela voltando sua atenção para a tela do computador.

Quando o horário combinado chegou, Thaissa pegou seu material e foi se encontrar com
Marcus. Algo lhe dizia que teriam companhia extra e não demorou para ela confirmar suas suspeitas.
Aquela seria uma noite de provações. – pensou quando entrava na sala.

— Entre Thaissa. Sente-se aqui. – indicou Letícia sorrindo.

— Obrigada! – Thaissa cumprimentou a ambos.

— Todos a postos! – disse Marcus observando-a. – Vejo que trouxe algo! – disse ele olhando
no arquivo que ela tinha em mãos

— É verdade! Mas os apresento no final após ter mais consciência de sua posição. – Letícia
ouvia a tudo em silêncio.

— Então se sente e vamos colocar o assunto. – Ambas se atentaram para o notebook onde
Marcus lhes apresentaria o projeto. Enquanto ele falava, Thaissa se conscientizava que Letícia o
olhava fixamente.

— Esse mapa mostra onde acontecerá a divulgação, e como pode ver, o público alvo é
extenso. – falou ele apontando.

— Como você não estava muito informada sobre o assunto, Letícia, eu irei compreender se
preferir não comentar. A decisão é sua. — informou Marcus.

— Claro que quero participar ativamente do assunto. Só me dê um tempo para eu interagir com
a situação. Fale um pouco mais. – pediu ela docemente. Marcus olhou disfarçadamente para Thaissa
antes de voltar-se para os slides.

— Então já sabem sobre o público e onde estão concentrados. Agora vamos ver quais produtos
dessa linha normalmente estão nas listas deles. — Após abrir o próximo arquivo, ele apenas
continuou a passa-los sem nada comentar. Enquanto via as imagens, Thaissa tentava não se importar
com a intrusa. Era exatamente assim que via a ex de seu pai. Ela não tinha que estar ali atrapalhando
o trabalho deles.
— Muito bom o esqueleto do projeto, Marcus. – falou a mulher ajeitando as pernas deixando-
as mais as vistas.

— O que está achando, Thaissa? – perguntou ele olhando- a, como se estivessem apenas os
dois na sala.

— Como já havia me enviado por e-mail eu já o conheço e gostei muito dele. – Embora
disfarçassem ambas jogavam contra a outra. Marcus por vezes parecia perceber, mas nada dizia ou
deixava claro.

— Precisa terminar quando, Marcus? – perguntou Letícia.

— Na próxima semana. O cliente deseja antes do combinado e embora podemos não atendê-lo
pelo contrato firmado, ainda assim, optamos por fazê-lo. – falou ele.

— Sim, claro! Vocês têm razão. – Eu acredito que esses produtos selecionados poderiam ser
diminuídos, a gama está muito grande. Não acha? – perguntou Letícia.

— Não achei não. Quando a montamos tivemos bases muito boas. Acredito que podemos
seguir assim. – Ele fora firme como das vezes em que chamara a atenção delas pelas picuinhas tolas
que tinham uma contra a outra. Marcus acreditava serem tolas, não elas.

— Se você pensa assim, tudo bem! – fora concedido cinco minutos para cada um fazer sua
análise pessoal colocando-a em papel. Terminado o tempo, começaram a discutir com suas
colocações pessoais. Thaissa por vezes concordava com Letícia, embora não fosse sua melhor
colega de trabalho, ela reconhecia ser uma boa profissional. Vendo-a dessa forma foi possível chegar
ao final da programação sem desgastes desnecessários. A não ser o fato de que a outra insistia em se
oferecer para o macho ali presente. Thaissa esforçou-se para não se preocupar muito com a outra
mulher, principalmente porque não parecia ser recíproco o interesse. Ainda assim, não lhe agradava
presenciar aquela cena tão parecida com a da modelo que Thaissa achou muito parecida com Letícia.
Ao erguer a cabeça após os pensamentos negativos. Um lindo par de olhos cinza a observavam.

— Algum problema, Thaissa? – perguntou Marcus aparentemente curioso.

— Não! Estou bem. Perdi alguma coisa? – perguntou olhando para Marcus que ainda a fitava
da mesma forma máscula de antes.

— Não, apenas te perguntei se teria mais alguma pergunta. – informou ele.

— Por hoje não! – De repente o clima ficara ruim e Thaissa sentiu vontade de sair dali logo.
— Já que finalizamos hoje, estou indo Marcus. Nós nos falamos amanhã. – Ela não esperaria
os dois decidirem quando sairiam. Preferia ir à frente.

— Obrigado por sua colaboração hoje. – disse ele enquanto ela se levantava. Letícia
permaneceu onde estava.

— Boa noite para vocês! – disse ela Olhando de um para o outro rapidamente. – Digo ao
guarda que estamos todos descendo e que logo ele poderá acionar o alarme? – perguntou Thaissa
desejando saber quando os dois iriam embora.

— Sim, diga. Sairei em dez minutos. — disse Marcus. Thaissa pegou sua pasta e foi embora.

Após informar o guarda, ela foi para o estacionamento pegar seu carro. Sentia uma angústia
dominá-la. Por que se preocupava se sairiam logo ou não? Eram bem crescidinhos, e ela, querendo
ou não, fariam o que bem entendessem de suas vidas. Não que ela estivesse com ciúmes, mas deixar
uma mulher tipicamente fácil ao lado de Marcus a incomodava muito.

Em casa, um pouco menos chateada, Thaissa organizou o que tinha a fazer, e após seu lanche
noturno, foi descansar para o próximo dia com Marcus e, provavelmente, com Letícia também, que
esteve muito interessada no projeto.

Chegar cedo ao trabalho tornou-se uma função difícil para Thaissa. As constantes noites mal
dormidas que vinha tendo estava deixando-a demasiada cansada.

Instalada em sua sala, ela foi à procura de algo para ajuda-la a se recompor. O bom e velho
café provavelmente lhe ajudaria.

— Parece abatida, Thaissa, o que foi? – perguntou à copeira.

— Acho que é só cansaço Marta, mas daqui a pouco passa. – Thaissa tomou seu café e
retornou ao trabalho.

Quando entrou havia alguns documentos sobre sua mesa. Marcus passara lá e não a aguardou.
Estaria muito atarefado, provavelmente. Independente de qual fosse o motivo, Thaissa já tinha muito
que fazer para se preocupar com ele. Trabalharia tudo o que pudesse para afastar de sua mente o que
a incomodava tanto.

Após algumas horas, Thaissa precisou ir buscar uns acessórios para terminar a impressão de
alguns documentos. Quando passava pela sala de Letícia, pensou ter visto a silhueta de Marcus. Ele
estaria se rendendo aos dotes da outra. Thaissa acreditava que ele fosse diferente, mas talvez se
enganara.

Marcus ligou no ramal de Thaissa e ninguém o atendeu. Interessado em saber o que acontecia
ele, foi até lá. Quando chegava se encontrou com ela que retornava.

— Algum problema, Marcus? – perguntou entrando e sendo seguida por ele.

— Estou tentando falar com você há alguns minutos e como não atendia seu telefone, vim
pessoalmente.

— O que precisa? – Marcus a observou sem entender o porquê da aspereza em sua voz.

— Eu queria confirmar se viu os documentos que deixei em sua mesa e se já começou a ler.

— Eu os vi sim, mas não li ainda. Tenho algumas coisas para adiantar e pensei que por se
tratar do projeto que estamos analisando após o expediente, poderia deixar para fazê-lo mais tarde.

— Tudo bem! Eu apenas queria saber sobre o andamento. – Thaissa preparou a impressora e
comandou que continuasse o trabalho que fazia antes.

— Se está tudo em ordem eu vou continuar aqui. Tenho que organizar essas planilhas. – Marcus
olhou os papéis impressos sobre a mesa.

— Pensei que poderíamos trabalhar hoje aqui na sua sala. O que acha?

— Para mim, tudo bem! – Ela não estava para conversa naquele momento. Percebendo que
acontecia algo com ela, Marcus se despediu e a deixou.

— Preciso ocupar minha mente ou vai me faltar inspiração hoje. – Thaissa falou alto pegando a
pasta de arquivos e começou a ler para se interagir mais com o assunto.

Após seu momento de irritação, conseguiu se concentrar e pôde ter o período da manhã
proveitoso.

A tarde foi lenta, e mesmo que Thaissa estivesse muito ocupada o tempo parecia não colaborar
com ela. Desejava ver Letícia e Marcus juntos, pois tinha certeza de que perceberia se estivesse
rolando algo entre eles. Quando chegou o momento do encontro, organizou seus pertences e aguardou
a chegada.

Marcus apareceu poucos minutos antes do combinado, e após cada um pegar seu material, a
forasteira se juntou a eles.

— Espero que não tenham começado ainda. Estou muito interessada nessa campanha e quero
acompanhar tudo. – Thaissa a observou discretamente. A quem Letícia queria enganar? Era óbvio
que o único interesse dela era Marcus.

— Sente-se, Letícia! – Convidou Thaissa indicando o lugar próximo a Marcus. – A mulher


sentou-se e fez a mais espetacular das cruzadas de pernas.

— Hoje o Marcus me enviou o mesmo e-mail que passou a você, assim não ficarei para trás.

— Ótimo! – disse Thaissa sem entusiasmo.

— Como todos já estão a posses de seus materiais, começaremos a discussão. – interveio


Marcus ciente da necessidade de seguirem logo.

— Conforme falamos anteriormente, essa campanha precisa de impacto já que o seguimento de


acessórios femininos já está bem diversificado, e o que não falta é novidades e concorrência. – Por
alguns segundos Thaissa deixou de prestar atenção no que ele falava e relembrou o momento que
dividiram sobre sua mesa. Desde o ocorrido ela não pensara no assunto com tanta ênfase como fazia
agora. Talvez o fato de estarem ali próximos, e ao mesmo tempo, distantes como sempre acontecia
com eles, a estivesse levando a relembrar com tantos detalhes a paixão que viveram ali. Quando
Thaissa se libertou das lembranças e retornou a reunião, Marcus e Letícia a olhavam intrigados.

— Desde ontem que a Thaissa tem estado muito desligada. – comentou Letícia aparentemente
insatisfeita.

— Me desculpem. Eu estava imaginando alguma coisa para ajudar em nosso projeto e acabei
perdendo o assunto. – Thaissa começava a se chatear com seus deslizes.

— Tudo bem! – Marcus disse sem dar muita atenção a sua resposta. Ele não parecia disposto a
perder tempo. – Seguiram a partir dali sem interrupções. Por vezes, Thaissa observava o
comportamento de ambos, mas nada conseguia deduzir. Provavelmente estavam sendo discretos, ou
de fato não havia nada a esclarecer. Constatou achando-se tola por perder seu tempo pensando neles.
Continuaram no desenvolvimento até que Marcus o finalizou por aquele dia.

— Por hoje, encerramos aqui. – disse ele começando a organizar seus arquivos.

— Poderíamos aproveitar e jantar juntos. O que acha? – perguntou Letícia sem estender o
convite a Thaissa. Parecia haver apenas os dois na sala. — Obrigado, Letícia, mas estou exausto. O
dia foi cansativo. Vão vocês duas. – Thaissa o fuzilou com os olhos.

— Fica para outra hora então. – A mulher disse olhando para Thaissa pela primeira vez com
um sorriso no rosto. Organizaram suas coisas e seguiram juntos para o elevador. Quando chegaram
ao estacionamento, cada um pegou seu carro e se dirigiu para seu destino.

Faltava apenas mais um dia. Pensou Thaissa, quando foi repousar cansada, física e
mentalmente.
CAPÍTULO 32

Conforme combinaram, quinta-feira seria o último dia que teriam para deixar a campanha
pronta. Tudo indicava que conseguiriam, pois estavam adiantados. No decorrer do dia cada um
seguiu com suas funções. Thaissa não viu Letícia passar por sua sala o que a fez pensar que a outra
se preparava para atacar naquela que seria sua grande e última oportunidade fora de expediente.

Para contrariedade de Thaissa, o tempo pareceu conspirar contra ela. Surgiram muitas questões
para resolver e não foi possível se dedicar um pouco mais ao projeto, o que a deixou despreparada
para o trabalho após o expediente daquele dia. Embora tivesse acelerado o que tinha a resolver, não
fora possível que ela se organizasse melhor como fizera nos dias anteriores. Quase nunca tinha tantas
tarefas a concluir. Mas naquele dia tudo recaiu sobre ela. Estava tentando se adiantar um pouco na
leitura quando chegou o horário combinado e ambos chegaram para concluírem o projeto em sua
sala.

— Preparadas para finalizarmos? – perguntou Marcus mais amistoso que nos dias anteriores.

— Com certeza. – Letícia também irradiava simpatia.

— Não tive tempo de adiantar o projeto, mas acredito que poderei acompanhar vocês. – Seria
sincera, pois tinha a impressão que apenas ela não tinha se preparado.

— Você não precisa estudar muito quando o assunto é criar. – Ouvir aquele elogio partindo de
Marcus deixou-a desarmada. Thaissa agradeceu com um singelo sorriso. Já Letícia pareceu não se
importar com o comentário, mas ficara claro para Thaissa que ela não gostou.

— Paramos no preparativo do ambiente. Então vamos seguir a partir daqui. – disse ele
apontando para as fases do projeto. Como acontecera nos dois dias anteriores a discussão fluiu de
forma tranquila e profissional. Desta vez, fora Letícia quem mais se destacou, porém Thaissa não se
importou com o fato. Tivera um dia cheio que não a permitiu fazer uma pré-análise. Já a parceira de
equipe dela parecia ter o assunto na ponta da língua. Marcus as ouviu com tranquilidade, e embora
por algumas vezes não concordasse com algum ponto de vista, foi o profissional que ela já conhecia
e um pouco mais. Aquela constatação por alguns instantes tirou da mente de Thaissa, o homem
arrogante que ele demonstrava ser. Durante a fase da conclusão, divertiram-se com alguns
comentários colocados e todos se sentiram realizados. Quando se despediam do projeto, Letícia
voltou a fazer seu joguinho.

— Hoje nós merecemos um jantar. O que acham? – A mulher desta vez a havia incluído.
Aquele fato a surpreendeu.

— Fica a critério de vocês. Se quiserem, eu topo. – A estratégia dela dera certo. Marcus estava
disposto a jantar com ambas.

— Você vai, Thaissa? – A pergunta a levou a concluir que a outra continuava não desejando
sua presença. Isso a motivou a dizer sim.

— É uma boa ideia – respondeu. Não iria facilitar as coisas para a outra mulher. Havia
também o fato de que seria justo que dividissem a refeição depois da dedicação que fizeram ao
projeto.

— Querem ir no meu carro e depois deixo-as aqui ou preferem cada um ir no seu? – perguntou
Marcus olhando de uma a outra.

— Eu prefiro no meu. – falou Thaissa rapidamente.

— Então vamos cada um no seu. – Adiantou ele.

— Eu preferia a carona, mas se ela já não esta mais de pé, tudo bem. – foram para o
estacionamento, e quando se afastavam Marcus as informou.

— Me sigam! – Cada um pegou seu carro e saíram em fila. Thaissa optou por ser a última. Não
se arriscaria a ser atropelada pela rival. Deixaria que Letícia seguisse a sua frente sem problemas.

O trajeto foi rápido e logo chegaram ao restaurante. Quando desceram, Marcus as aguardava na
calçada.

— Como estamos em três, não poderei dar o braço às duas. Então sigamos em fila indiana. –
Riram do comentário dele e o acompanharam.

— Fiquem à vontade com seus cardápios, eu normalmente sou simplório e prefiro o arroz com
feijão, bife e salada. – Thaissa riu da forma tranquila com que ele falara, sem se importar com o que
diriam de sua simplicidade com a comida. Ao mesmo tempo, ela se preocupava com o fato de estar
gostando de alguma característica dele. Não era um bom sinal.

— Não sabia que você era assim, tão básico. – falou Letícia aparentemente contrariada. –
Embora eu prefira um pouco mais. Entendo sua escolha já que esse é o alimento mais popular do
Brasil. “Claro que ela entenderia!” — Pensou Thaissa. Aquela mulher aceitaria que o homem fosse
adepto ao arroz, feijão e ovo, desde que a conta bancária dele fosse grande.

— E você Thaissa, qual é seu cardápio? – perguntou Marcus descontraído.


— Sou básica também, mas prefiro não comer muita massa. Gosto mais de folhar, verduras e
frutos.

— Não precisa se privar dessa forma. Você está muito bem. – Marcus disse, olhando-a. Os
elogios estavam aumentando e a pressão de Thaissa também. Embora tivesse gostado desse elogio e
do anterior que recebera. A satisfação dela não estava apenas no que ouvia, mas por Letícia também
ouvir, assim talvez a colega aprendesse que para uma mulher chamar a atenção de verdade, não
precisa usar de truques e sensualidade.

— Não é esse meu maior motivo. É pela minha saúde mesmo. – justificou sorrindo para ambos.

— Sendo assim, concordo com você. – Letícia observava esperando o seu momento de brilhar.

— Meu cardápio também é um dos melhores. Tenho uma nutricionista que me acompanha e
embora ela seja bem flexível, sou rígida com minha alimentação. Penso que a saúde do corpo é muito
importante.

— Vejo que vocês duas tem algo em comum. Isso é novidade para mim. – Aquele comentário
Marcus poderia ter deixado para si mesmo. – pensou Thaissa contrariada com a comparação.

Após os pedidos feitos, a estrategista atacou novamente.

— Pretende fixar lar por aqui, Marcus, ou esta só de passagem? – Ela olhou disfarçadamente
para Thaissa após fazer a pergunta.

— Não sei ainda, Letícia. Tenho meus planos, claro! Mas por enquanto prefiro não pensar
neles.

— Teria algo aqui que esteja mudando seus projetos? – perguntou novamente ela se ajeitando
no assento.

— Eu não diria alguma coisa. Posso te dizer que gostei do povo Goiano. — Quando cheguei
me senti meio que em casa. Sou Mineiro e somos muito parecidos. Talvez seja isso que me ajuda
muito a gostar dessa terra tranquila e amistosa.

— Eu já não posso dizer a mesma coisa. Para uma paulistana, custei muito a me acostumar com
o estilo daqui. – comentou a mulher sarcástica.

— Você não pode se queixar, Letícia. Aqui você deve ter conseguido tudo o que não pôde lá,
caso contrário, já teria retornado, estou errada? – Era óbvio para Thaissa que a outra mulher se dera
muito bem no centro-oeste. Principalmente, financeiramente. Pensou ela.
— Você tem razão. Não posso mesmo reclamar. – Ela concordou educadamente.

— Como estamos todos satisfeitos com o lugar onde vivemos, agora vamos à comida, algo que
também me agradou muito. – falou Marcus vendo que o garçom se aproximava.

Durante a refeição falaram-se pouco sobre a empresa e os projetos que chegavam a suas mãos.

Quando finalizavam, Thaissa se sentiu no dever de reconhecer que estando com Letícia à mesa,
não faltaria assunto.

— Você retorna na próxima semana, Marcus? – Mais uma vez Thaissa precisou apenas ouvir
para ter suas perguntas respondidas.

— Sim! É minha intenção Letícia. Estarei resolvendo algumas questões que não demoram
muito. Eu acredito.

— Então deve estar aqui já na segunda-feira? – perguntou ela olhando-o como se estivesse
apenas os dois ali.

— É o que desejo – respondeu ele. – Thaissa olhava para o copo a sua frente quando foi
surpreendida por uma pergunta de Marcus.

— Você nunca cogitou a possibilidade de morar em outro Estado, Thaissa? Principalmente


depois de ver eu e Letícia que somos de fora e nos demos bem longe de casa? – Embora houvesse
muitas diferenças ali, o clima estava muito ameno e agradável. – Ela constatou.

— Não, Marcus! Nunca houve a necessidade, mas caso surja algum dia, não há problemas para
mim. Sei que sempre posso voltar quando quiser – respondeu ela segura.

— Thaissa me parece daquelas mulheres que se fincam às raízes. Eu, ao contrário, gosto de
variar os ambientes. – Thaissa a observou com naturalidade extrema

— Nem sempre o que é bom está lá fora – respondeu Thaissa sorrindo, por fora.

— Verdade! – Marcus parecia querer amenizar a situação como sempre fazia e ela sentia certo
pesar por ele pensar que não era capaz de se defender sozinha.

— Acho que já vi essa frase em algum lugar. – Letícia falou olhando para Marcus que sorriu
com o comentário dela. O jantar havia terminado e Thaissa sentiu necessidade de ir embora.

— Eu gostaria de ficar discutindo a vida com vocês um pouco mais, porém, preciso ir. – Disse
ela ajeitando sua bolsa para se levantar. Não iria ficar ali servindo de vela para ambos.
— Espere Thaissa! Já vamos também. – disse Marcus para visível desgosto de Letícia.

— Já pretendem ir? Pensei que iríamos nos divertir um pouco mais. – falou a outra.

— Fiquem à vontade. Eu realmente preciso ir. – Thaissa levantou-se.

— Se ela prefere assim, vamos tomar um pouco mais de vinho, Marcus, assim você aproveita
para me falar sobre sua vida nas terras mineiras ou sei lá onde mais vive. – Thaissa não esperou a
resposta dele. Partiu em disparada para a porta de saída.

Quando entrou em seu carro, voltou a respirar normalmente. Estava irritada pela atitude de
Letícia, e mais ainda por constatar que Marcus parecia gostar das jogadas da outra mulher. Ela ligou
seu carro e foi embora. Durante o percurso, se lembrou de que precisava comprar alguns de seus
cereais, e dirigiu-se para o mercado próximo de sua casa.

Depois das compras feitas ela retornava um pouco mais tranquila. Havia deixado de pensar no
jantar com Marcus e Letícia, mas ainda se sentia mal por se deixar abater pelas atitudes deles. Nada
tinha a ver com o que faziam ou deixavam de fazer.

Quando Thaissa estacionou o carro na porta para acionar o portão. Aproximou-se uma figura
masculina. A princípio, ela ficou assustada, embora fosse uma rua bastante iluminada e movimentada,
Thaissa ainda sentia certo receio por encontros noturnos depois do que passara com Fred. Quando
observou melhor viu, a bela silhueta de Marcus chegando próximo a dela. Curiosa por saber o que o
traria ali, Thaissa abriu o vidro rapidamente.

— Algum problema? – perguntou ela pensando que podia ter havido alguma coisa com seu pai.

— Não se preocupe, Thaissa está tudo bem. Eu queria apenas desfazer alguma má impressão
que tenha ficado no jantar de hoje. – Ele chegou tão perto que ela podia sentir o cheiro bom que a
seguia sempre.

— Não sei por que diz isso. Houve alguma coisa que eu não percebi que o fizesse gastar seu
tempo vindo aqui? – quis saber ela sem entender ao certo o que se passava ali.

— Está vindo do mercado? – perguntou ele disfarçando sem responder a pergunta, após olhar
no banco de trás do carro, onde ela colocara as sacolas para não ter que abrir o porta-malas.

— Sim, às vezes gosto de comprar algumas coisinhas no decorrer da semana — respondeu


ainda curiosa.

— Saia do carro, por favor, Thaissa! – Ele pediu pegando na maçaneta.


— Para quê? – Marcus permaneceu calado. Envergonhada ela desceu.

— Não precisava ter vindo até aqui. Não sei o que te levou a pensar que havia algo para se
desculpar. – Thaissa acionou o controle para que o portão se abrisse logo e ela pudesse entrar.

— Não estou me desculpando já que não fiz nada que justifique isso. Apenas não queria viajar
deixando em você alguma má impressão sobre mim.

— Por que diz isso? Não pretende voltar mais aqui? — perguntou ela com o coração
acelerado.

— Agradaria a você se eu não retornar? – Marcus se aproximou dela.

— Por que me pergunta isso? – perguntou ela mexendo constantemente no dispositivo em sua
mão.

— Talvez porque eu queira saber o que pensaria se eu não voltasse mais. – Ele a olhava
intensamente.

— É o que irá acontecer? – Ela sentia que faltava-lhe o ar.

— Espero que não, mas como não sabemos o que nos espera amanhã. – Marcus encostou-a ao
carro. – Talvez seja melhor aproveitar o dia de hoje, não é mesmo? – Como Thaissa nada disse ele
continuou. — Quer me ver longe de você? – Thaissa tinha a impressão que ele já sabia a resposta,
mas insistia apenas para incomodá-la.

— Talvez devesse fazer essa pergunta a Letícia e não a mim. – disse ela ríspida.

— Não quero saber a resposta dela. Quero a sua. – Marcus a olhava sério e com os olhos fixos
nela.

— Divertiram-se depois que eu saí? – Ela queria saber, mesmo que não lhe agradasse.

— Assim que você saiu, eu paguei a conta e nos despedimos lá mesmo. – Me parece
interessada no que aconteceu depois de sua saída. Por que, Thaissa? – Ele ria embora seu rosto
parecesse apreensivo.

— Não fui eu quem procurou por você. Se há alguém aqui interessado em algo, acredito que
seja você – respondeu Thaissa desejando vê-lo longe para não se deixar vencer.

— Já te disse que não gosto das reações que me causa? – perguntou ele encostando-se mais
nela.
— Sim! Você já me disse. – Thaissa começava a tremer, mas não estava disposta a se render e
dar o prazer a ele de culpa-la depois.

— E você não faz nada em relação a isso? – Marcus não esperou resposta. Beijou-a prendendo
seu corpo frágil contra o automóvel. Embora o consciente de Thaissa pedisse para não se permitir
aquele contato. Algo maior puxava-a para saborear aquela emoção.

A noite fria tornou-se quente tamanho o desejo que os dominavam. Marcus acariciou levemente
a cintura dela e a puxou para seu corpo. Ele queria que Thaissa sentisse o poder que exercia sobre
ele. Aquela linda mulher precisava saber que ele desejava possuir seu corpo mais uma vez e tantas
outras quanto fossem possíveis.

Sentir o membro rijo deixou-a arrepiada. A química que os envolvia era de fato única. Não se
lembrava de desejar tanto um homem como desejava Marcus.

Se estivessem em outro lugar já estariam se amando, mas lembrando-se de onde estavam,


Thaissa se afastou.

— Aqui não é lugar para isso – reclamou ela em tom baixo.

— Então venha comigo. – Chamou ele segurando no braço dela.

— Acho melhor não. – Ela permaneceu onde estava, embora seu corpo parecesse lutar contra
sua razão.

— Por quê? – quis saber ele com os olhos ardendo em chamas.

— Não vamos piorar as coisas. – Não era o que desejava dizer, mas sabia ser o melhor para
ambos.

— Será que elas podem piorar? – Ele perguntou com voz rouca.

— Talvez possam. – Ele a trouxe novamente para seu corpo e Thaissa não esboçou qualquer
reação negativa.

— Você também me quer. Eu vejo em seus olhos, no seu corpo. Por que dificulta tanto isso? –
Marcus a olhava sério.

— Eu já te disse. – falou ela tentando se afastar.

— Não posso aceitar sua teoria. Ela é sua, não minha. – Marcus roçou no pescoço dela com
sua língua e mordiscou a ponta da orelha de Thaissa deixando-a com as pernas bambas. Em seguida
buscou sua boca e a tomou agressivamente. Rapidamente ela sentiu o fogo acender-se em sua
intimidade. Desejosa dele enfiou seus dedos nos cabelos macios de Marcus e grudou suas unhas no
couro cabeludo deixando-o mais excitado ainda. Beijaram-se longamente até que uma buzina os tirou
do transe.

— Por favor, Marcus, vá embora! – pediu sem fôlego.

— Nenhum de nós quer isso. – disse ele segurando-a no rosto.

— Eu quero! – Thaissa disse recolhendo toda sua força.

— Não acredito em você. – falou ele arrasado.

— Se deseja viver uma paixão avassaladora e sem responsabilidades, por que não aproveita e
fica com Letícia? Tenho certeza que ela não recusaria.

— Isso não é hora para palavras tolas Thaissa. – Ele chamou a atenção dela.

— Não estou com tolices. – Ela arrependeu-se no mesmo instante que viu a expressão gelada
no rosto dele.

— Talvez fosse mesmo melhor fazer isso que ficar implorando por uma pessoa que quer esta
comigo, mas que não o faz sabe-se lá por quê. – falou ele com um misto de fogo e gelo em seus olhos.

— Então faça isso! – Algo lhe doeu à alma ao dizer tais palavras para ele.

— Boa noite, Thaissa! – disse Marcus dando-lhe um leve beijo nos lábios e partiu.

— Droga! – Praguejou ela entrando novamente no carro. Estava jogando Marcus nos braços de
Letícia sem perceber. Irritada ela entrou, estacionou o veículo e saiu batendo a porta.

Estava chateada com Marcus, Letícia e com ela mesma. Thaissa agradeceu por não haver
alguém a esperando. Assim não perceberiam sua frustração. Se Marcus atendesse ao seu pedido, o
problema será dele. Com o orgulho tomando-lhe os pensamentos, ela foi se deitar.
CAPÍTULO 33

A sexta-feira havia chegado. Os raios de sol entraram pelas frestas na cortina chamando
Thaissa para o novo dia de trabalho. Marcus não estaria lá o que tornaria seu expediente mais
tranquilo e, provavelmente, vazio também. Melhor assim! – pensou ela se levantando e correndo para
o banheiro.

Quando chegou Thaissa não viu o carro de Letícia, o que aumentou ainda mais sua curiosidade.
Teria que se segurar até que a outra mulher chegasse. Caso ela e Marcus tivessem passado a noite
juntos, certamente a mulher lhe diria para chateá-la.
Haviam se passado horas e nada da outra mulher surgir. Embora tentasse disfarçar refazendo
planilhas que já estavam prontas, Thaissa mantinha sua mente nos corredores a fim de ouvir o
barulho dos saltos ou o cheiro do perfume, avisando que Letícia se aproximava.

Eram pouco mais das 11h quando Thaissa não resistiu e foi saber informações sobre a colega
que não chegava nunca. Para sua satisfação, era Paula quem estava na recepção.

— Paula! Eu não vi a Letícia hoje. Ela não veio? – Sua voz saiu com tamanha naturalidade que
Thaissa chegou a acreditar que a convivência com Letícia a estava afetando.

— Não Thaissa! Ela ligou informando que visitaria alguns clientes fora da cidade
provavelmente não viria à empresa hoje. Posso te ajudar em alguma coisa?

— Obrigada, mas está tudo bem. – perguntei por que não a vi nos corredores hoje.

— Me parece que foi algo de última hora. – falou a moça sem suspeitar de nada.

— Então deixe-me voltar ao meu trabalho também. Obrigada. – disse ela sorrindo.

— Disponha! – respondeu a moça retornando ao que fazia.

De volta a sua sala, Thaissa procurou se conformar. Não saberia nada até a segunda-feira que
seria quando ambos retornariam. Estariam juntos naquele momento? — Perguntava-se com uma
pontada de curiosidade corroendo-a. Um mal estar a acompanhou por todo o dia lembrando-a
constantemente da possibilidade de estarem juntos.

Após deixar a empresa, Thaissa dirigiu-se ao parque. Sentou-se em um dos seus bancos e ficou
observando o lago a sua frente. Como não estava muito cheio de pessoas, ela pôde descansar sua
mente. Aquele ambiente era palco de boas lembranças e talvez seja por isso que se sentia bem ali.
Thaissa se deixou levar até ficar em harmonia com aquele local. O silêncio em sua mente foi o que
buscara ali e se sentiu renovada por conseguir permanecer alguns instantes sem pensar ou fazer
qualquer coisa que fosse, apenas observando o nada.

O sol já haveria se posto quando ela partir. Iria para casa passar o final de semana sozinha, já
que o pai continuava com as peregrinações pela região. Talvez devesse viajar um pouco também.
Pois seu pai parecia bem melhor depois que começara a viver em viagens. Suas próximas férias
estavam longe. Teria que esperar um pouco.

Conforme era de costume, fez seu lanche noturno e após dar boa noite a sempre presente Ana,
s, ela então foi para seu descanso. O corpo havia trabalhado em excesso para dispersar a mente e
isso a deixou mais cansada que o habitual. Após observar por alguns minutos as paredes em tons
frios de seu quarto e as cortinas brancas em renda. O pequeno abajur de madeira que ganhara da mãe
quando era adolescente, e as várias fotos que havia sobre seu criado. Thaissa adormeceu.

No sábado, ela acordou tarde. Ainda sentia-se incomodada com algo. Parecia lhe faltar
determinada coisa que ela não sabia do que se tratava. Não faltava lhe nada na vida. Tornara-se
independente desde muito cedo. Concluíra sua graduação em Marketing, em seguida fez MBA.
Falava três línguas. Não tinha muitas ambições, mas as que tivera, incluindo um belo carro
conseguirá. Tinha um apartamento no setor Bueno e só não morava lá pelo pai. Fizera poucos amigos,
mas todos ainda permaneciam em sua vida mesmo que às vezes distantes, ainda se comunicavam às
vezes. Sentia-se completa até então. O que poderia estar faltando, ela não sabia. Sua mãe certamente
seria uma ausência jamais preenchida, mas conhecia bem o sentimento que tinha por ela. Não se
tratava dessa questão, era outra. Com relação aos namorados, bem, estes foram poucos embora
satisfatórios. Não queria se prender a qualquer pessoa, por isso não levava muito a sério os
pequenos romances que tivera. Sua intenção era deixar para mais tarde as questões conjugais, as
crises que cada fase dos relacionamentos possui. Tudo parecia acontecer conforme o planejado. Ela
precisava apenas seguir o cronograma que montara para sua vida e provavelmente logo passaria
aquela fase de abstinência de algo que ela nem sabia o que era. Mas estava sendo difícil continuar a
mesma pessoa depois de Marcus. Essa certeza ela tinha.

O dia transcorreu bem, sem que algo novo surgisse. Thaissa aproveitou o tempo livre para
aprender com Ana a fazer uma deliciosa torta de bolachas que adorava. Após muitos risos e algumas
perguntas infundadas por ela, a receita dera certo e puderam degustar uma das poucas obras- primas
em doces que conseguiu aprender com a velha senhora.

Todas as boas receitas que aprendera fora com a cozinheira. Sua mãe assim como ela não era
dada as tarefas do lar, e sobrava a paciente Ana orientá-la, quando essa se interessava em aprender
algo.

À noite, quando todos se retiraram o mesmo sentimento voltou a atormentá-la. Se estava feliz
com o que construíra e possuía o porquê daquele vazio a perturbá-la? Estaria sentindo a falta de um
homem ou mais precisamente de Marcus? Não seria isso! Não podia ser isso! – pensou ela
contrariada com sua suposta louca dedução.

Não havia nada de concreto entre eles a não ser uma grande atração, mas Thaissa sabia que de
atração apenas nenhum relacionamento poderia viver por muito tempo. Não levaria a sério tal
conclusão. Thaissa estava se preparando para dormir quando seu telefone tocou. Ela foi atendê-lo
rapidamente acreditando ser o pai já que não se falaram naquele dia devido ao celular dele estar fora
de área.

— Alô! – respondeu ela ao ver que o número não lhe era familiar.

— Boa Noite, Thaissa! Como está você? – Aquela voz a tirou do chão por alguns segundos.

— Marcus? – perguntou ainda em dúvidas. O barulho dos batimentos de seu coração a estavam
confundindo.

— Sim, sou eu. Parece surpresa ou decepcionada. – falou ele em voz baixa.

— Não é isso. Na verdade eu não esperava uma ligação sua. Estou surpresa apenas. – Disse
ela espirando baixo para ele não ouvir. — Está conseguindo resolver o que fora fazer aí? – perguntou
ela desejosa de ouvir um pouco mais aquela voz.

— Sim, estou! – Ficaram em silêncio por alguns segundos até que ele voltou a falar. – Na
verdade, te liguei para dizer que não poderei retornar na segunda-feira conforme havia dito. – Algo
começou a se remexer na cabeça de Thaissa. Ela voltou a sentir aquele mesmo sentimento que a
estava incomodando durantes os dois dias, só que agora mais intenso.

— Thaissa, você esta aí? – perguntou ele após não ouvir uma resposta.

— Sim, estou aqui. – disse ela ainda agitada. – Está me informando que não tem data prevista
para retornar, é isso? – perguntou ela tentando se manter tranquila.

— Eu acredito que devo passar toda a semana fora. Já falei com os outros acionistas que
haveria essa possibilidade, mas eu esperava que não acontecesse.

— Está com algum problema mais sério na empresa? – perguntou preocupada com ele.

— Se eu estivesse você me ajudaria como fez nos últimos dias que ficamos juntos? – A
pergunta a pegou de surpresa.

— Talvez sim – respondeu ela mais calma.

— Seria de grande ajuda, mas não irei fazer isso com você. Na verdade eu quis te dizer
pessoalmente que devo ficar ausente por alguns dias. Não vou te explorar novamente. – Por que
razão ele fora se preocupar em avisá-la? Thaissa não sabia, mas o fato de Marcus lhe comunicar a
deixou feliz.

— Não precisava se incomodar. – Afirmou ainda agitada.


— Não é incomodo algum. Assim eu posso ouvir sua voz também. – Thaissa sentiu um arrepio
descer dentro dela.

— Não sabia que minha voz poderia te ajudar de alguma forma. – Brincou ela para disfarçar a
tensão que sentia.

— Sim, ela pode. – Marcus falou sem rodeios.

— Vai aproveitar e visitar sua irmã? – A conversa familiar trouxe certa harmonia entre eles.

— Não acredito que disporei de tempo ela esta em Uberlândia e eu em Belo Horizonte. Quero
resolver o que tenho aqui o mais rápido possível para retornar. – Ele ia dizer alguma coisa mais
parou antes de concluir.

— Certo. – Thaissa respondeu. Mais uma vez o silêncio tomou seu espaço entre eles.

— Não sei você, mas estou me sentindo um idiota. Ligo para uma mulher para dizer que estou
sentindo a falta dela e não consigo passar a mensagem de forma correta. – Marcus parecia
contrariado.

— Talvez ela também esteja com um problema semelhante ao seu. – Thaissa disse sem pensar.
Aliás, ela deixara de pensar muito desde que Marcus surgiu em sua vida.

— Eu não sei de onde veio essa saudade, Thaissa, mas está me incomodando muito. E isso
começou desde o dia que saí daí. – Ele suspirou baixo antes de continuar. — Não sei o que te falar.
Ainda tenho a convicção de que não devemos dar espaço a essa paixão, mas preciso lhe dizer que
tenho tido os mesmos sintomas. – Ele pareceu sorrir do outro lado da linha.

— Desde há muito tempo eu já deixei claro que quero você. Quem tem dificultado as coisas,
não sou eu. – falou ele com voz grave. −Acho que tem razão, mas acredite, essa foi a forma mais
plausível que achei de não me entregar a uma relação com tantos contratempos como a nossa. –
Marcus sorriu do outro lado novamente. A conversa a distância parecia surtir mais efeito.

— Como pôde dizer isso? Acredito que muitos gostariam de sentir o calor e o desejo que há
entre nós pelo menos uma vez na vida. Esse é o nosso momento, Thaissa, e se não o aproveitarmos
teremos perdido algo lindo.

— Está quase me convencendo. – disse ela, soltando-se um pouco mais.

— Eu quero apenas que veja a verdade a sua frente. Eu estou disposto a amá-la e sei que posso
fazer isso muito bem. — Mais uma vez, Thaissa sentiu seu coração ficar acelerado. Estava recebendo
uma declaração por telefone. – Fale alguma coisa, por favor. – Pediu ele com a voz embargada em
dúvidas. Ela não podia mais fingir depois de ouvi-lo falar com tanta clareza que a queria.

− Droga, Marcus! Eu estou aqui tremendo parecendo uma adolescente, louca para me entregar
para você. – disse baixo. Eu estou apaixonada e tenho certeza que sabe disso. – Declarou por fim.

− Agora eu posso ficar em paz aqui. – falou ele com a voz rouca. Você não vai se arrepender,
minha linda. Prometo!

— É o que eu espero ou vou jogá-lo dentro do Rio Paranaíba para que suma daqui. – Ambos
sorriram abertamente.

− Com uma ameaça dessas não da nem para arriscar. – Falou ele feliz por conseguir quebrar o
gelo entre eles, mesmo que a distância.

— Obrigada por insistir tanto por nós. – Agradeceu ela com um alivio tomando- a.

— Eu não podia abandonar algo tão forte assim. Você o queria fazer porque tinha medo desse
sentimento, eu não tenho – respondeu ele.

— Espero merecer tudo isso. – falou ela realizada.

— Nós merecemos Thaissa. Obrigado também por nos dar uma chance. E para provar que sou
um homem digno e promissor, não a incomodarei durantes esses dias para que tenha absoluta certeza
do que deseja. Sem se sentir pressionada. Tudo bem?

— Obrigada! – Agradeceu ela.

— Vou deixa-la dormir já é tarde. Boa noite, Thaissa!

— Boa Noite. Espero que resolva tudo da melhor forma possível. – Desejou Thaissa
sinceramente.

— Eu irei. – ficaram em silêncio até que Thaissa tomou a decisão e desligou o aparelho.

— Que situação caótica. Estou parecendo um adolescente. – Disse Marcus para si mesmo. Há
muito tempo não se sentia assim, talvez por isso estivesse passando por esses deslizes. Embora o
fato de estar naquelas circunstâncias estava o fazendo muito bem. Marcus não se sentia à vontade
com aquela situação de ver-se dependente de alguém para estar bem. Nunca passara por isso.
Tentaria se dedicar ao máximo ao que fora fazer ali. O que tivesse de ser seria quando retornasse.
Ele já havia lançado sua última cartada e seguiria com ela até o fim.
Thaissa olhou para o telefone em sua mão. Sentia que a partir dali teria alguns problemas e
ilusões, dos quais se desviava há tempos. Talvez sentisse falta exatamente disso. Sentir-se viva com
alguém e por alguém, além dela mesma. Uma nova história poderia começar depois daquela ligação.
CAPITULO 34

Depois de passar o domingo se revirando, tentando achar uma resposta racional sobre a
conversa que tivera com Marcus por telefone, Thaissa dedicou-se mais uma vez na tarefa de cuidar
das flores no jardim que muito lhe ajudara anteriormente. Terminando seu dia ainda em dúvidas,
porém mais serena e confiante de que faria a melhor escolha logo.

A segunda-feira começara com tudo. Thaissa entrava apressada e logo a atrás, veio Letícia.
Embora não gostasse da presença da mulher tão cedo em sua sala, agradou- a vê-la e assim poder
constatar se houve alguma coisa entre eles na noite em que quase expulsou Marcus de sua casa.
Embora em seu íntimo a dúvida já estivesse quase que totalmente sanada depois da conversa que
tiveram.

— Bom dia! Está sabendo que o Marcus não deve retornar nessa semana? – perguntou ela
cheia de se.

— Bom dia, Letícia! Sim, eu soube. – A mulher a olhou desconfiada.

— Como assim, você já sabe! Marcus informou apenas aos acionistas por e-mail, que eu sei.

— Você foi um deles, deve mesmo saber. — disse Thaissa, tranquila.

— Exatamente! Então como soube tão cedo? – perguntou a mulher parecendo não acreditar.

— Marcus me ligou no final da semana informando. – A notícia tirou o sorriso sarcástico do


rosto de Letícia.

— Vocês tinham projetos abertos para esta semana? – perguntou Letícia.

— Não! Está tudo em ordem, e o que surgir eu posso ir resolvendo sozinha – respondeu feliz
por ver nos olhos da outra mulher o sentimento de derrota.

— Então por qual motivo ele precisou te ligar informando? – Letícia parecia não acreditar no
que ela dissera.

— Você às vezes faz cada pergunta descabida, Letícia. Apenas Marcus pode lhe responder a
isso, mas acredito que ele tenha se esquecido de que não tínhamos nada de importante para essa
semana. – Thaissa preferiu amenizar a questão.

— Faz sentido sua observação. – A mulher ficara enciumada quando soube que eles se falaram.
Não havia indícios de que estiveram juntos na sexta-feira ou a mulher já teria dito algo para se sentir
melhor que Thaissa.

— Questão resolvida, vamos ao trabalho porque a semana será curta. – Thaissa queria se
livrar da colega, antes que seu dia ficasse azedo.

— Se precisar de alguma coisa que eu possa ajudar durante a ausência do Marcus, me procure.
– falou Letícia disfarçando sua carranca.

− Obrigada, mas acredito que consigo desempenhar bem a função. Caso surja a necessidade,
peço ajuda. – Thaissa descobrira que aquela seria sua melhor estratégia, Ao invés de atacar,
esperaria por ele e caso não acontecesse, ótimo.

O primeiro dia transcorrera melhor do que ela esperava. Resolvera algumas pequenas questões
e iniciou o planejamento de um projeto, em médio prazo, de um amigo que pretendia abrir um
negócio e lhe solicitara ajuda para expor de forma certeira sua marca no mercado.

Quando Thaissa saia no final do expediente, Paula a chamou.

— Não a vi hoje! – disse a boa moça. – Estive tão ocupada que nem fui oferecer minha ajuda
caso precisasse.

— Obrigada Paula, mas parece que não terei muito trabalho nessa semana, mas prometo pedir
socorro, caso precise. – A moça sorriu alegre.

— Peça sim, que terei prazer em ajuda-la. – Thaissa se despediu da amiga e seguiu.

No estacionamento, não viu o carro de Letícia e presumiu que ela já havia partido. Lembrando-
se do semblante dela, Thaissa deu um leve sorriso. Era claro que a mulher ficara surpresa por ela ter
sido informada pelo próprio Marcus de que ele ficaria ausente. O que ela pensaria se soubesse que
os dois conversaram um pouco além e que começara naquela ligação um provável compromisso entre
eles. Os dois dias seguintes foram também tranquilos e Thaissa tivera que se desdobrar para não
pensar em demasiado no que conversara com Marcus. Decidira que deixaria as coisas caminharem
naturalmente. Embora a cada novo dia sentisse um leve Friozinho lhe percorrer a espinha, com a
certeza de que se aproximava o reencontro. Conforme combinaram não fizeram nenhum contato,
permitindo que cada um tivesse seu tempo para decidir o que queria de fato. Não havendo
imposições as intenções de ambos seriam preservadas para que não houvesse constrangimentos
futuros. Uma das intenções de Thaissa era preservar sua imagem na empresa. Questões como o caso
de seu pai com Letícia gerara muitos constrangimentos para todos e ela não desejava passar por algo
semelhante novamente.

Naquele dia, ela não teve qualquer dificuldade ou problema que lhe roubasse a calma. Passara
quase todo o tempo reavaliando os projetos já arquivados a fim de retirar dali alguma nova criação.
Quando ela percebeu, o dia havia acabado. Tudo em ordem, ela foi para sua casa onde adormeceu
imaginando qual seria a reação de Marcus quando se encontrassem provavelmente na segunda-feira,
já que ele deveria chegar ao final da semana. A dela ainda era um enigma até para si própria.

O final de semana chegava. Quinta-feira despontou cheia de atrasos e Thaissa precisou se


dividir em duas. Embora estivesse adiantada em quase todos os projetos ela se viu sendo solicitada
por muitos colegas para a organização e solicitação de materiais. Letícia estava sumida o que de
certa forma a agradava muito. Porém o fato de a mulher tê-lo deixado em paz aumentava ainda mais
sua certeza de que ela incomodava apenas para passar a Marcus uma imagem negativa sua. Thaissa já
não via Letícia com os mesmos olhos e não estava mais preocupada com o que ela fazia. Perdera
muito de seu tempo pensando e vivendo do que acontecia entre as duas. Era hora de seguir adiante.

Thaissa chegou vinte minutos atrasada na sexta-feira e para não tardar mais seu dia passou
despercebida pelas colegas de trabalho na recepção e seguiu para sua sala. Entrava apressada e
quando chegou a porta, parou abruptamente. Marcus estava a sua frente sentado, esperando-a.

— É só eu me ausentar, que você chega vinte e quatro minutos atrasada. – Ele disse com o
sorriso mais lindo que ela já vira.

— Na verdade são vinte e cinco minutos agora. – Olharam-se profundamente como se um


esperasse por uma reação do outro. Thaissa sentia o coração em sua boca e tremia ligeiramente as
pernas. Quando Marcus se levantou e foi ao seu encontro sem tirar seus olhos dos dela, Thaissa
pensou que iria desmoronar. Ele estava mais belo que nunca. Ficou sério e seus olhos brilhavam.
Então Ela se perdeu naquele cinza que não via há dias, e quando percebeu, estava nos braços dele
sendo beijada com paixão. Marcus a envolveu pela cintura apossando-se de sua boca
apaixonadamente. Havia uma magia os circulando e podiam sentir o clima bom que pairava no
ambiente. Marcus acariciou os cabelos dela, carinhosamente. Não se lembrava de ter sentido a falta
de outra mulher como sentiu a de Thaissa. Todas as noites desejava ligar para ouvir sua voz
adocicada. Só não o fizera porque prometera deixa-la ter seu espaço para pensar. Muitas foram as
vezes que selecionou o nome dela na lista dos contatos e ficou olhando para a tela por alguns
segundos até desistir de completar a chamada . Agora estava ali, sentindo-a tremer em suas mãos e
aquilo o deixava extremamente realizado.

O compasso forte das batidas do coração de Marcus pareciam música para os ouvidos de
Thaissa. Provavelmente ele a estava desejando assim como ela o queria. Abraçados beijaram-se até
ficarem sem fôlego.

— Posso tomar isso como um compromisso! Estamos oficialmente namorando? – perguntou


Marcus ainda com a mão em sua cintura.

— Para um bom entendedor um pingo é uma letra. – Ele a observou cuidadosamente. Que
mulher linda era aquela. Por que tolice quase perdera a oportunidade de tê-la se passando por
preconceituoso e fingindo querer com ela apenas um caso. Na verdade seu único intuito era não se
apaixonar. Marcus sabia que se caísse na rede de Thaissa dificilmente sairia. E não saiu. Conclui
feliz.

— Acho que isso então é um sim. – Ele desceu sua mão até tocar a dela. – Senti sua falta! –
falou sem medo na voz.

— Eu também. – confirmou ela aceitando o carinho que ele fazia em suas mãos.

— Como foram esses dias aqui? – perguntou Marcus se ajeitando e convidando-a para se
sentar próxima a ele.

— Muito tranquilo. Adiantei algumas coisas e revi outras. Nada demais. – O sorriso nos lábios
de ambos era radiante.

— Que bom que passou bem. Tive alguns contratempos como você pode ver, mas resolvemos
tudo. – disse ele olhando-a, terno.

— Algum problema que precise de ajuda? – Thaissa perguntou deixando claro que não se
importaria se ele preferisse nada comentar.

— Tivemos um pequeno desvio em uma das empresas e foi preciso que todos se reunissem
para solucionar. Mas no final, tudo se resolveu e o responsável foi afastado.

— Não há mais o que fazer por lá? – perguntou Thaissa, imaginando-o partindo novamente.

— Puxa vida, eu mal cheguei, e você já quer me ver longe? – Brincou ele.

— Não é isso. Queria apenas saber se terei que me acostumar com esse vai e vem constante. –
Ela não queria vê-lo partir. Essa era a verdade.

— Acredito que ficou tudo finalizado. Apenas se houver algum imprevisto, o que espero que
não aconteça. Quer ir comigo da próxima vez? – Ele a convidou apertando em sua mão.

— Quando surgir à oportunidade, combinamos. – Thaissa retribuiu ao carinho novamente.

— Preciso voltar para minha sala. Estive lá apenas para deixar minha pasta e vim vê-la.

— Hum! – Marcus a olhou com o jeito malicioso que ela sentira tanta falta.

— Por que dessa expressão? – perguntou curioso.

— Me senti importante agora. Eu pensei que dificilmente você deixaria sua mesa e trabalho
para vir a minha procura. A não ser para discutir comigo. – Riram juntos.

— E você tem sido importante, Thaissa. Em todos os sentidos. – A verdade estava nos olhos
dele.

— Obrigada! Embora eu tenha dificultado muito, você também tem me feito muito bem. De
várias formas possíveis. Falou ela. – Levantaram-se de mãos dadas.

— Nos falamos depois. Você janta comigo hoje? – perguntou ele, beijando-a levemente nos
lábios.

— Claro! Combinamos mais tarde caso não surja um imprevisto. – Despediram-se e Marcus
saiu deixando-a ainda nas nuvens.

— Não faço a mínima ideia no que irá dar isso, mas vou me arriscar.

“Afinal, não sou mais uma menina, e caso não seja o que ambos esperamos, qualquer um
pode abandonar o barco a qualquer hora e seguir sua vida como já fizemos em outras situações.”
– pensou ela confiante. Abrindo sua pasta, que colocou o notebook ao lado e começou seu dia de
produção.

Marcus sentou-se lentamente em sua cadeira. Depois de ter ficado afastado por aqueles dias, a
única coisa que lhe fizera voltar antes do previsto foi Thaissa. Deveria ter ficado pelo menos mais
dois dias, porém queria resolver logo aquela situação. Precisava ter uma posição definitiva dela, e
teve a melhor possível, o que afirmava que fizera bem em abandonar o que fora fazer em Uberlândia.
Havia também outras pessoas competentes à frente. Ele não faria tanta falta e isso o ajudou a tomar a
decisão que tomara. Há muito tempo não se dedicava a si mesmo. Construíra bens em três Estados,
mas em nenhum deles havia construído seu verdadeiro lar. Talvez, essa fosse sua chance. Faria o
possível para que acontecesse.

Embora Thaissa desejasse ter alguma desculpa para ir à sala de Marcus, teve que se contentar
com a sua própria. Não havia nada que justificasse sua ida lá, e teve que se manter onde estava. Não
se passaria por oferecida. Quando fosse o momento de se verem, aconteceria. Depositaria naquela
relação suas boas expectativas, mas não esperaria muito de Marcus para não correr o risco de se
decepcionar.

— Meu Deus, a que ponto chegamos? Em pleno século XXI, onde temos todas as
oportunidades em nossas mãos, temos medo de nos envolvermos afetivamente com pessoas.
Enfrentamos centenas de problemas e gente de todos os gênios possíveis, mas quando o assunto é
relacionamento, somos medrosos. – Thaissa falou em bom tom para que pudesse ouvir a si mesma e
abandonar mesmo que por algum momento a insegurança que a rondava. – Vamos em frente e que
dure o quanto puder e for bom. – Falou entusiasmada.

Depois do desabafo, feito para si mesma, Thaissa trabalhou com maior tranquilidade até o
momento em que de fato precisou ir à sala de Marcus, e quando lá chegou, sua ex-madrasta lá estava.
— Boa tarde! – disse Thaissa sentindo em seguida o olhar gelado da outra mulher.

— Boa Tarde, Thaissa! Fiquei sabendo agora sobre você e o Marcus. Parabéns! – Era óbvio
que ela não estava feliz pelos dois, mas Thaissa não se importou. Ficara feliz em saber que ele falara
à mulher que estava com ela. O que demonstrava que Marcus estava de fato interessado na relação.

— Obrigada! – falou ela indo até a mesa de Marcus. – Eu precisava que você visse esses
relatórios e os assinasse antes de eu arquivá-los. – Thaissa colocou os papéis sobre a mesa.

— Claro Thaissa! Você precisa para agora ou posso te repassar depois? Estou meio atarefado
aqui. – Ele sorria para ela, formalmente, mas seus olhos o traiam.

— Pego com você depois. Não há urgência. – Thaissa sentia que os olhos de Letícia iam de um
ao outro, analisando-os. – Me deem licença! Continuem o assunto de vocês. Eu também tenho
algumas coisas a concluir ainda hoje. – Thaissa saiu com uma imensa vontade de permanecer até que
sua rival se afastasse, mas sabia que fizera a coisa certa. Não ganharia nada criando ilusões, e muito
menos, se perdesse seu precioso tempo tentando evitar o que não dependia diretamente dela.
Retornaria às suas funções segura de que desejava em sua vida, e isso já lhe era o suficiente.

Quando faltavam poucos minutos para finalizarem o expediente, Marcus a chamou em sua sala.

— Thaissa! Peço-lhe desculpas. Mas não poderemos jantar hoje. Acabei de receber a
informação de que haverá uma reunião agora com o pessoal da montagem. Podemos combinar para
amanhã? – Ele parecia contrariado.

— Tudo bem, Marcus! Não há problema, nos vemos depois. – disse com um sorriso no rosto.
Não iria bancar a adolescente naquela hora e reclamar da ausência do namorado.

— Talvez você queira que eu te ligue após a reunião, e você poderá ir para a minha casa. – Ele
agora estava com um sorriso no rosto e malícia em seus olhos.

— Não quero vê-lo se desgastando. Teremos todo o final de semana. – Ele sorriu com o
comentário dela.

— Então nos falamos depois. – Marcus levantou-se e foi até ela. — Espero que esteja com a
mesma vontade que estou de ficar com você novamente. – disse ele, jogando por terra todo o
profissionalismo dela.

— Isso você irá descobrir depois. – Ele trouxe-a para si, apertando-a contra seu corpo e a
beijou longamente.
— Mal posso esperar – respondeu ele entre os lábios dela. – Thaissa lhe deu um beijo em
retribuição, e foi embora sentindo suas costas queimarem. Provavelmente ele a olhava. Constatou ela
sorrindo.

Assim que chegou em casa, deu uma geral em suas roupas íntimas e concluiu que precisava
comprar algumas peças a mais. Após o banho, foi até o shopping reparar isso. Quando comprava
lingeries, percebeu que alguém se aproximava. Contrariada, ela viu que era Letícia. Parecia que uma
força superior estava sempre as aproximando para testar o alto controle de Thaissa.

— Hum! Comprando peças íntimas. Garota esperta! – Thaissa não gostou da forma como a
outra falara, mas preferiu ignorar.

— Olá Letícia! Veio organizar seu arsenal também? – Ela resolveu brincar com a mulher.

— Infelizmente não fui privilegiada como você, mas estou sempre a postos, vai que o momento
pode ser hoje ou amanhã. – ela não perdia a postura de ataque nem mesmo longe da empresa.

— Assim você nunca é pega de surpresa. – Thaissa disse enquanto olhava um conjunto lilás
rendado que lhe chamou a atenção.

— Essa cor irá te deixar muito linda, mas acredito que Marcus seja do tipo de homem que
curta mais um vermelho. O que você me diz? – perguntou a mulher com voz casual.

— Não é só ele que gosta desta cor. Acredito que todas as mulheres tenham várias peças de
lingerie vermelha. Adoramos a cor. – Letícia estava querendo tirar sua alegria, mas não deixaria.
Pelo menos na frente dela não se permitiria fraquejar.

— Você é bem mais entrosada do que imaginei. Você me enganou, Thaissa. – falou a mulher
com malícia.

— Toda mulher sabe de seu potencial, só não usa as que não querem. Por outro lado, muitas
abusam dele e o tornam previsível demais.

— Há aquelas que também não têm nada a dar. – Letícia falou em gargalhadas.

— Acredito que todas tenham algo a oferecer, sempre. – A outra deu de ombros parecendo não
concordar.

— Você me parece muito bem intencionada com todas essas sacolas. – Letícia parecia desejar
ver as peças, mas Thaissa se afastou discretamente.

— Tenho as melhores intenções quando o assunto sou eu mesma. – Logicamente que ela
comprara algumas das peças pensando em usá-las para Marcus. Mas havia também suas
necessidades básicas. Letícia, por outro lado, deveria ser do tipo que na maioria das vezes pensava
somente em satisfazer a vontade de outra pessoa, sem pensar nela própria. Thaissa sentiu um pesar
pela mulher. Esse sentimento estava aos poucos substituindo a mágoa que nutrira por ela. Deveria
pensar mais vezes em como a colega deveria ser fútil e infeliz vivendo assim. Não restaria nada mais
em seu coração pela mulher a sua frente, se não, pena.

— Eu poderia te dar algumas dicas, mas acredito que você não aceitaria. Então te desejo boa
sorte com suas compras e seu relacionamento. Mas não se apegue muito, Thaissa. Normalmente não
compensa. – falou ela aparentemente cansada de usar e ser usada.

— Depende muito do que temos a oferecer e a quem escolhemos para fazê-lo. Em algumas
ocasiões vale a pena sim. O que precisamos fazer antes de nos doar a outra pessoa é amar a nós
próprios, assim não há coisa ruim que fique por muito tempo, e o que compensa não vai embora sem
aviso prévio.

— Romântica você! Olha que já passou da idade. – falou a mulher com desdém.

— Sou realista Letícia e prefiro dar oportunidade às pessoas de me mostrarem quem são de
fato, ao invés de rotular a todas.

— Cada um tem sua forma de ver e crer na vida. Você se acha realista, já eu me considero
assim. – Thaissa observou melhor a mulher. Letícia não era realista. Ela havia perdido no decorrer
de suas escolhas erradas, a palavra confiança e renovação. Certamente ela colhera apenas desilusões
e deixara de acreditar e permitir que algo novo e bom chegasse.

— Deixar de acreditar que nem tudo são espinhos e perder a esperança é uma forma de não
viver a vida. Acredite mais nas coisas, nas pessoas e principalmente em você. – Thaissa percebia
que suas palavras não surtiam efeito na mulher, porém ela podia sentir o seu poder, nela mesma.

— Tudo bem! Agora deixe-me ir pois também preciso fazer minhas comprinhas. Até mais! –
Letícia saiu caminhando elegantemente pela loja e sumiu entre as vitrines.

Quando já havia comprado tudo o que acreditava necessitar, Thaissa foi embora.

Ela estava chegando a casa quando seu telefone tocou. Marcus a ligava. Havia arquivado o
número quando se falaram durante a viagem dele.

— Alô! – disse ela, após estacionar o veículo.


— Thaissa! Terminamos a reunião agora. Era para ser mais longa, mas apenas dois dos
presentes e eu colocarmos algumas questões e então acabamos mais cedo. É um pouco tarde para um
jantar, então liguei para te desejar boa noite.

— Obrigada, Marcus! – Espero que sua noite seja tranquila também. – disse carinhosamente.

— Com certeza será muito mais calma do que pretendia. – Thaissa sorriu do outro lado da
linha.

— Que pena! Mas amanhã é outro dia e você pode termina-lo bem melhor que hoje. – disse
maliciosa.

— É o que espero minha querida. – Marcus pareceu mais animado. – Até amanha. Te pego às
20h. – falou ele.

— Combinado. Boa noite! – Thaissa desligou o aparelho e o colocou novamente na bolsa


dando partida em seu carro.

— Agora que me toquei que a Letícia não participou da reunião. Estariam resolvendo alguma
questão sem a presença dela? A mulher adorava estar a par de tudo. – Certamente não era nada que a
desrespeitasse ou estaria lá sorrindo para Marcus. – Thaissa teria que se acostumar com o fato de
que a colega não facilitaria sua vida sentimental, como já fazia com relação a seu pai.

Quando deitou-se na cama, Thaissa teve tempo para relembrar seu encontro com Marcus. Fora
uma surpresa vê-lo ali em sua sala, esperando-a naquele dia. Marcus estava lindo e confiante. Algo
que Thaissa admirava muito em um homem. Se não fosse o ambiente de trabalho, certamente teriam
selado aquele momento na cama. Era isso o que ambos desejavam. Havia muita química entre eles,
embora tivessem tentado em vão, disfarçar.

Um novo dia os aguardava. Ela estava feliz e isso era o que importava. O que viesse depois
seria tratado conforme a necessidade.
CAPÍTULO 35

No dia do encontro, Thaissa acordou cedo para se organizar. Como era de costume, tinha
muitas coisas a fazer em seu corpo, mas naquele momento faria um pouco mais, e por esse motivo,
logo se viu acelerada e sem tempo para pensar como seria a partir dali.

O dia passou rapidamente e apenas no final da tarde foi que Thaissa teve uma folga. Unhas
feitas, cabelos sedosos como sempre gostava. O corpo esfoliado, depilação em dia e algumas coisas
a mais. Estava pronta! Após tomar seu longo banho e se produzir ela foi escolher a lingerie daquele
encontro. Havia tantas belas opções que não foi difícil escolher uma. Um conjunto de renda branca
foi a selecionada para a ocasião. As mini peças ficaram lindas em seu corpo. Constatou ela, olhando-
se no espelho.

“Mas por que tanta escolha se já fizemos amor antes?” – Thaissa perguntou-se em
pensamento enquanto analisava sua imagem. Parecia que aquele seria seu primeiro encontro com
Marcus. Talvez ela se sentisse de fato assim, o que aumentava ainda mais as expectativas.

Marcus chegou pontualmente. Estava vestindo com camisa rosa clara e calça esporte fino
cinza, realçando com seus olhos. Sua barba bem cuidada também favorecia a beleza do rosto
másculo. Os ombros largos chamaram a atenção de Thaissa, e ela se imaginou dormindo sobre eles
novamente.

— Você está linda. – Thaissa olhou- se para disfarçar o quanto ficou mexida ao ver o belo
espécime a sua frente. Ela usava um vestido reto amarelo claro e sandálias pretas combinando com
os acessórios. Preferira um porte básico por não saber aonde iriam, e também, por não gostar de
exageros.
—Obrigada! – falou olhando-o nos olhos. – Marcus lhe indicou o caminho e a seguiu porta a
fora.

— Vou leva-la a um restaurante do qual gostei muito quando cheguei aqui. Não estive mais lá,
porém acredito que a comida continue boa. – Marcus abriu a porta do carro e ela entrou. Quando ele
contornou o veículo e sentou-se, Thaissa observou as belas mãos contornando o volante e se lembrou
delas em seu corpo quando fizeram amor em sua sala.

— Como passou de ontem? – Marcus perguntou quando saiam.

— Muito bem obrigada e você alguma novidade? – O clima ainda era brando, começavam uma
história e as formalidades ainda eram visíveis.

— A única novidade que tive hoje, está acontecendo agora. – Ele a olhou com seu lindo sorriso
estampado. — Tive apenas que fazer duas ligações para Uberlândia.

— Algum problema por lá? – perguntou curiosa, pois acreditava que já estava tudo resolvido.

— Não! Eu precisava confirmar algumas coisas, mas nada de importante. – Thaissa entendeu e
não fez mais perguntas sobre o trabalho dele. Não era o momento para especulações sobre sua vida
particular, quando chegasse o momento certamente, Marcus lhe diria.

— Conseguiu visitar sua irmã? – perguntou, lembrando-se da conversa que tiveram na noite em
que ele a ligou.

— Liguei para ela e almoçamos juntos com as crianças em Uberlândia. Por sorte ela precisou
ir até lá naquela semana. Em minha próxima viagem, deixarei um tempo reservado para visita-los. –
falou ele.

— Fico feliz que pôde vê-los, mesmo rapidamente. – Thaissa viu grande alegria no roso dele
ao falar da família.

— Ela mandou um beijo para você. – disse Marcus, tirando sua atenção do percurso para olhá-
la.

— Obrigada! Quando se falarem diga que lhe mandei um também. – O fato de saber que
Marcus havia comentado sobre eles, deixou-a mais confiante.

— Mais adiante, combinaremos de fazermos uma visita para ela e família. – Marcus falou sem
desviar os olhos do transito.

— Boa ideia! – Mais um ponto para a relação, constatou ela.


O restaurante que Marcus a levou, de fato era muito bom. Thaissa ficou surpresa por não tê-lo
conhecido antes. Ficava em uma via bastante movimentada e talvez por isso não percebesse como
boa referência para fazer as refeições. Quando fizeram os pedidos, mais uma vez ele optou por pedir
o tradicional e Thaissa preferiu acompanha-lo.

— Posso convidá-la para ir até minha casa após o jantar? – Marcus perguntou quando faziam a
refeição.

— Respondo no final. Pode ser? – Embora Marcus fosse um homem de certa forma fechado,
Thaissa percebia algo terno nele. Provavelmente havia outro lado dele e ela queria conhecer.

— Quando você quiser. Só peço que não me martirize muito. Sou um homem apreensivo e
posso ter um infarto aqui a sua frente. Não vai desejar isso no nosso primeiro encontro oficial, vai? –
Ele perguntou cobrindo a mão dela com a sua sobre a mesa.

— Se é assim, então nada de prolongar as coisas. Eu aceitarei seu convite. — O garçom se


aproximou e os serviu.

— Teve dificuldades em minha ausência? Recebeu suporte de alguém? – Quis saber, Marcus.

— Não foi preciso. Tudo correu naturalmente e pude concluir sozinha. – Thaissa tomou um
pouco do vinho sentindo o sabor da bebida aquecendo seu corpo.

— Você tem preparo suficiente para comandar aquela empresa. – Ele tinha um brilho nos olhos
que a deixou acesa.

— Faço o que posso. Eu acredito que tenha sim. – falou sem modéstia. — Desde que haja
pessoas também competentes a minha volta.

— Com certeza isso é muito importante para qualquer administrador. Sempre gostei de ter
pessoas interessadas e promissoras ao meu lado. Por isso não abri mão de ter você por perto desde o
início. – confessou ele.

— Me queria por perto apenas pela profissional que sou? – perguntou ela, decepcionada.

— Claro que não! A princípio, eu queria desvendá-la e irritá-la um pouco também. – Thaissa
o desafiou com as sobrancelhas erguidas. – Eu precisava ter ambas ao meu lado. A mulher e a
profissional. – corrigiu ele, sorrindo da expressão fechada do rosto dela.

— Sabendo disso por que não colaborou um pouco para nosso bom convívio? – Tiveram
vários atritos, e ela por vezes não os entendia.
— Porque o fato de me sentir dependente das duas, me deixava de certa forma, irritado. Nunca
gostei muito de depender de algo sabe. – Thaissa compreendia o que ele dizia. Não gostava da
palavra dependência também.

— Eu entendo o que quer dizer. Mas foi difícil conviver com suas mudanças de humor. –
Informou ela sorrindo.

— Tenho certeza que foi. Na verdade, não sou um homem que age sempre dessa forma. Como
eu lhe disse, o fato de me sentir necessitado de você me tornou assim. Mas isso irá mudar prometo. –
Marcus havia deixado a comida de lado e acariciava a mão dela. Ele parecia gostar muito de tocá-la
nas mãos. O que a agradou.

— Fico feliz em saber disso. – Afirmou ela sentindo o calor agradável do toque dele.

Fizeram a refeição tranquilamente sem pressa, embora desejassem finalizar o encontro daquela
noite com certa urgência um do outro.

Após Marcus efetuar o pagamento, ele a ofereceu seu braço e seguiram juntos para o
estacionamento. Novamente, Marcus lhe abriu a porta para que entrasse.

— Assim irá me deixar mal acostumada e quando fizermos aniversário de namoro, você deixar
de me fazer esses galanteios, irei reclamar. – disse ela quando ele sentou-se ao volante.

— Há coisas que de fato mudam com a convivência, mas não pretendo deixar de abrir a porta
para minha garota. Isso não. – Afirmou ele decidido.

— É o que espero. – Brincou ela.

— Farei o possível. – Marcus foi até ela e lhe deu um leve beijo nos lábios deixando-os em
brasas. Aquele homem estava lhe dando a atenção que Thaissa não esperava que tivesse. Estavam
começando bem demais. – Um dos problemas de se estar solteira aos 30 anos era a desconfiança. Ela
crescia conforme os anos se passavam e com eles vinham também à certeza de que construir um
compromisso duradouro e bom, estava cada vez mais difícil. Thaissa precisaria deixar essas neuras
de lado e viver o momento. Não havia muito com o que se preocupar. A não ser com o fato de que
deveria manter-se com os pés no chão e desejar muito, porém esperar pouco.

Quando chegaram à casa de Marcus Thaissa sentiu um leve calor correr em seu corpo. Já
estivera lá em outra ocasião, mas aquela era diferente. Começavam um compromisso o que tornava o
momento necessitado de mais dedicação que apenas explosão de prazer.
— Não irei fazer as honras, já que conhece o local, mas espero que se sinta em casa e não saia
às pressas amanhã. – Marcus a olhou como se a despisse.

— Vai depender do que acontecer aqui hoje. – Thaissa falou gentilmente.

— Sou um homem que gosta muito de viver sob pressão. Costumo produzir em dobro nessas
condições.

— Hum! – Ela resmungou como se estivesse em dúvidas.

— Não acredita? – Marcus se aproximou e a pegou pela cintura trazendo-a.

— Tenho desejado ter você aqui, desde aquela noite. Então não duvide de mim, amor. –
Thaissa gemeu baixinho ao sentir a mão dele correr pelo vão do vestido em suas costas.

— Que bom saber disso – respondeu ela sentindo a respiração alterar-se.

— Desejou ser possuída novamente por mim? – Marcus beijou suavemente em sua orelha, e
Thaissa encostou seu corpo no dele para se sustentar.

— Sim! – falou ela sentindo o arrepio percorre-la toda.

— Se tivesse me pedido, eu a teria amado quantas vezes desejasse, onde quisesse. Sabia? – O
suspiro dela o convidou a continuar com as carícias.

— Onde gosta de ser tocada, Thaissa? – quis saber ele.

— Onde você quiser. – Ela estava entregue e qualquer que fosse o local onde ele a acariciasse,
Thaissa sentiria prazer.

— Quero ouvir você me dizer em quais partes sente mais prazer. – Ele mordiscou o pescoço
dela suavemente.

— Gosto de carícias em minha cintura. – Marcus a abraçou descendo lentamente pelo quadril
dela e subindo.

— Onde mais, querida? – perguntou ele, afagando-a.

— Toque em meus seios. – pediu ela, oferecendo-se. – Marcus abriu o zíper em suas costas e
tirou as alças do vestido, deixando-o cair aos pés dela, restando-a somente com as minúsculas peças
íntimas cobrindo seu corpo.

— Sente muito prazer aqui? – disse Marcus retirando o soutien dela, contornando o bico de um
dos seios com a ponta do dedo, deixando-o intumescido.

— Muito. – Foi o que ela conseguiu dizer antes de sentir a boca morna cobrir parte do belo
seio à mostra. Marcus o sugou suavemente. Sentir a boca dele percorrendo a pele sensível e desejo
por mais, deixou Thaissa cega de prazer. A sensação era maravilhosa. Um imenso calor percorreu lhe
a espinha, arrancando de sua garganta um gemido de prazer.

Marcus abandonou o seio que tocava e acariciou o outro trazendo a tona toda sensação que ela
sentira antes.

— Que delícia! – Ela quase não conseguiu pronunciar as poucas palavras. Marcus deu uma
leve mordida no mamilo dela levando-a ao delírio. Thaissa o prendeu contra seu seio, desejosa por
mais. – Marcus então sugou-o com mais pressão. Sua intenção era fazer daquela mulher a mais amada
de todas. Em seguida ele a soltou carinhosamente e afastou-se. Aproximando-se da poltrona, ele a
trouxe para perto, ficando frente a frente com ela. Lentamente, tirou- lhe a bela calcinha deixando-a
nua. Marcus acariciou suas pernas torneadas subindo até sua intimidade tocando-a. Ao perceber que
Thaissa estava excitada, Ele a beijou na intimidade, tocando-a um pouco antes de se erguer.
Carinhosamente, pegou-a no colo e a levou para seu quarto.

Quando Marcus a ergueu em seus braços, Thaissa sabia que seria levada para o paraíso. Os
braços fortes a sustentavam sem serem muito exigidos, e Thaissa pôde sentir novamente o belo tórax
junto dela. A sensação do contato das peles deixava-a ainda mais excitada. Tudo nele emanava
sexualidade. Antes de ser colocada na cama, Thaissa acariciou a pequena penugem que cobria o
peito em boa forma visível pela abertura da camisa. Quando Marcus a colocou no chão tirou suas
roupas rapidamente sem tirar seus olhos dela.

— Desejei tanto ter você de novo aqui. – disse ele, aproximando-se novamente.

— Eu também desejei muito ser sua. – Ele a sorriu discretamente.

— Não poderei esperar muito, Thaissa. Sinto uma vontade imensa de penetrá-la e me sentir
dentro de você. Você deve compreender que fui muito castigado nos últimos dias.

— Pobrezinho dele. – Thaissa deitou-se oferecendo seu corpo á Marcus. – Então vem
satisfazer sua carência. – Ela o chamou e foi prontamente atendida. Thaissa abriu suas pernas
convidando-o. Quando ele sentiu a maciez da pele dela próxima da sua, penetrou-a suavemente. O
contato úmido e quente lhe causou enorme prazer.

— Que mulher maravilhosa você é, Thaissa. – Sustentando as pernas dela Marcus aprofundou a
penetração até o fim. Por alguns segundos, ele ficou parado sentindo o calor misturado ao prazer
daquele contato bom entre os corpos. Em seguida, ele iniciou os movimentos da paixão. Enquanto
Marcus entrava e saia daquela imensidão de prazer, Thaissa sentia um forte desejo percorrendo-a.
Nunca sentira tanto prazer em ser penetrada como sentia ao estar com Marcus. Incansável, ele ia e
vinha dentro dela. Parecia querer possuí-la por todas as vezes em que a desejou e não pode realizar
sua vontade.

Admirada pela paixão que ele mostrava sentir, Thaissa o prendeu entre suas pernas e o trouxe
para ela beijando-o longamente. Marcus aproveitou para deitar-se sobre ela, sentindo a maciez dos
seios dela.

— Quero ser sua de todas as formas. – Ao ouvi-la, Marcus prendeu sua respiração parando por
alguns segundos. Não aguentaria muito.

— Não quero gozar ainda. Preciso sentir você um pouco mais. Só tem um detalhe. – disse ele
tentando respirar normalmente. — Não estou aguentando de tanto desejo, amor. – Ouvi-lo chama-la
de amor, embora ainda fosse cedo, fez com que Thaissa se sentisse no céu.

— Teremos muitos outros momentos assim, meu querido. Fique à vontade. – Thaissa percebia
que ele se segurava ao máximo. Certamente não fazia amor há algum tempo e ela queria vê-lo aliviar-
se dentro dela. – Marcus a possuiu por mais alguns segundos e não suportando mais a pressão, jorrou
seu néctar dentro dela. Ao fazê-lo, gemeu alto e Thaissa grudou-se nele para finalizar aquele
momento mágico.

Marcus ficou sobre ela. Cada um sentindo o acelerar do coração do outro. Aquela era uma
prova de que ambos estavam em harmonia no desejo de um pelo outro. Em seguida, ele rolou para o
lado, envolvendo-a em seu abraço.

— Você passará comigo essa noite? – perguntou ele beijando-a nos cabelos.

— Sim! – respondeu Thaissa, aconchegando-se a ele.

— Que bom. – Ele a cobriu, aninhando-a. Não foi preciso palavras, apenas se abraçaram e
assim ficaram até adormecerem juntos.
CAPÍTULO 36

Pouco antes de o novo dia raiar, Thaissa acordou desconfortável. Não estava acostumada a
dividir a cama, o que a fez perder o sono. Marcus parecia dormir tranquilamente, envolvendo-a pela
cintura. Uma pequena claridade envolvia o quarto e ela pôde ver melhor o ambiente. Assim como
ela, Marcus não parecia gostar de muitas coisas ocupando espaço. Havia apenas a grande cama no
centro, com um criado mudo em cada lateral. Porém, ao contrário do quarto dela, ali não havia fotos
ou qualquer outra coisa que não fosse a extensão de um aparelho telefônico. Uma pequena
escrivaninha onde provavelmente ele colocava seu notebook quando precisava trabalhar em casa. Os
armários tomavam toda uma parede. O quarto possuía um único tom perolado. As cortinas finas, em
cor azul céu traziam certo encanto ao ambiente. Após alguns minutos de análise, Thaissa sentiu o
abraço de Marcus ficar mais apertado, e quando olhou em sua direção, ele a observava meio à
penumbra.

— O que fez essa jovem mulher perder seu sono? – perguntou ele beijando a nuca dela.

— Acho que o costume de dormir sozinha em minha cama. – disse ela sorrindo.

— Pois trate de perder esse hábito. – disse ele em um tom autoritário, e quando Thaissa foi
questionar, ele a virou para ele e beijou-lhe no colo. – Estou brincando. – defendeu-se.
— Acho bom mesmo que esteja. – Ralhou ela.

— Mulheres do século XXI, diante de qualquer confronto que apareça, estão sempre bem
armadas e prontas para lutar. – disse ele fingindo pesar.

— Trate de se acostumar com isso. – Thaissa usou o mesmo tom que ele usara.

— Prometo que vou me lembrar. – disse Marcus carinhosamente. – Quer comer alguma coisa?

— Se tiver algo comestível por aí, aceito sim.

— Não se preocupe que não deixarei você passar fome. Pode usar o banheiro se quiser, que te
encontro na cozinha. Marcus saiu deixando-a.

Quando chegou ao banheiro, Thaissa se olhou no grande espelho. Seu rosto parecia mais feliz.
Os olhos, que por vezes ficavam distante e sem vida, agora brilhavam intensamente. Ela sabia que
aquele momento não era indício de que teriam uma relação promissora. Estavam no período da
paixão onde somente os corpos pensam. Mas acreditava que assim que passasse a euforia estariam
prontos, para reconhecer o futuro daquela relação.

A água morna caindo sobre seu corpo, a deixava mais relaxada. Com isso Thaissa não
percebeu o tempo passar. Desejava permanecer ali pelo período que fosse possível. Assim quem
sabe uma luz surgisse em seu caminho.

Lembranças iam e viam em sua mente da noite em que conheceu Marcus. Como olharam-se e se
tocaram. Tudo fora especial até mesmo quando ele sumiu sem lhe dizer adeus. Pouco tempo depois,
ele surge em sua vida. Como se tivesse sido colocado a sua frente por algo além de sua
compreensão, e dali por diante, sentiu por diversas vezes um misto de paixão, raiva e dúvidas em
relação a ele. Todos esses sentimentos faziam sentido, pois a estavam preparando para um recomeço.
Onde teriam a chance de viver o que não se permitiram antes.

Quando Thaissa se preparava para sair, Marcus surgiu na porta apenas com uma toalha em
volta da cintura.

— Minha dama estava demorando muito, então pensei que talvez ela desejasse dividir o banho
comigo, mas parece que me enganei, ela está saindo. – Ele pareceu contrariado.

— Estou mais dentro do que fora, posso continuar aqui, se você pedir. – Marcus entrou e
fechou a porta atrás de si. Quando se livrou da peça que o cobria, Thaissa deliciou-se com a bela
visão a sua frente.
Marcus se aproximou lentamente permitindo a ela maior tempo de contemplação. Ele podia ver
nos olhos de Thaissa, o desejo crescer e queria vê-la assim um pouco mais.

— Você parece uma menina observando algo encantado. Mas ao olhar bem fundo nos seus
olhos, vejo uma mulher quente e sexy. Que mistura maravilhosa você possui Thaissa. — Ele roçou
seu corpo no corpo dela, arrepiando-a toda. Thaissa ergueu suas mãos e roçou no peito másculo dele.
Levemente ela deslizou suas unhas até a barriga e subiu novamente. Ela fez o percurso por duas
vezes. No último toque, deslizou levando a carícia um pouco a baixo do abdômen e pôde perceber a
respiração dele ficar alterada. Vendo que o agradava, ela o tocou intimamente, sentindo a já
avançada excitação. O deslizar o deixou ainda mais aceso. Thaissa pegou o sabonete massageou lhe
o membro enquanto jogava um jato de água morna sobre ele. Marcus a observava em silêncio, e com
o fogo correndo em seu corpo. Afastando-o, Thaissa ajoelhou-se para acaricia-lo melhor. Embora
tivesse poucas experiências mais prazerosas, não se deixou intimidar tamanha era o desejo de
satisfazer o homem que a levara ao céu horas antes.

Quando Marcus sentiu o contato morno sobre sua intimidade, faltou-lhe o ar. Feliz, ele a
observou maravilhado. Não havia limites entre duas pessoas que se desejavam e Thaissa queria lhe
mostrar isso. Havia tempos que não se permitia tanta intimidade com uma mulher como estava tendo
com Thaissa. Muitas das mulheres com as quais se relacionou, certamente saberiam trata-lo muito
bem no quesito sexual, mas Marcus não se permitia tanto e impunha limites quando sentia
necessidade. Apegos desnecessários não o levariam longe. Preferia não ter boas lembranças que o
pudessem confundir futuramente. Mas com Thaissa, não estava conseguindo colocar barreiras, aliás,
ele nem tentara impor qualquer coisa que fosse. Seu único desejo era fazê-la realizada e sentir-se
assim também.

Após agradá-lo por algum tempo, Thaissa levantou-se calmamente. Virando-se de costas, ela
arqueou seu corpo para trás, oferecendo-se para ele.

Vê-la daquela forma com o belo traseiro roçando em sua intimidade, o deixou extremamente
excitado. Apoiando-a melhor, entre ele e a parede, Marcus a penetrou encantado com a entrega dela.

Enquanto a água caia próxima aos corpos sedentos, Marcus ia e vinha com as mãos apoiadas
na cintura de Thaissa. O contato macio dos glúteos pressionados em sua carne. Era uma das melhores
sensações de que ele podia se lembrar. Grudando-se nela, Marcus bombeou por alguns segundos até
que exausto, abraçou-a contra a parede deixando-se vencer pelo desejo de jorrar mais uma vez
dentro dela.

Ficaram ali, juntos e realizados pelo ato partilhado. Thaissa sentia a respiração acelerada dele
em suas costas, e se viu como a mais realizada das mulheres. Causava grande excitação e desejo em
Marcus. No momento era tudo o que queria. Fazer aquele homem desejar estar com ela até que o
amor chegasse e os dominasse por completo.

— Você é maravilhosa, Thaissa. – falou ele arrastando-a para irem juntos para debaixo do
chuveiro.

— Sabia que grande parte das atitudes da mulher na cama depende do parceiro! – Informou ela.

— Então posso entender com isso, que tenho merecido o que estou recebendo? É isso?

—Sim. – falou ela virando-se e o abraçando frente a frente. Marcus a beijou apaixonadamente.
Aquela mulher o podia seduzir o quando desejasse. Não fugiria dela jamais.

— Minha querida, você usa a pílula? – perguntou ele depois que já estava mais descansado.

— Sim, eu tomo. – disse Thaissa, acariciando o tórax dele.

— Toma-a sempre? – Ele pareceu enciumado, mas ela não entendeu aquela pergunta como uma
crítica. Ele estava apenas curioso.

— Não gosto das sensações da TPM e tantas outras que o ciclo menstrual nos traz. Por isso
tomo a pílula sempre e sem intervalos. – Esclareceu ela. Marcus parece compreender e ficaram
juntos por mais alguns minutos.

Terminado o banho. Marcus a envolveu em uma das toalhas e a levou até a porta. Thaissa saiu
sentindo-se revigorada em todos os sentidos. Marcus a seguiu logo atrás com sua toalha agora sobre
os ombros.

— Precisa de ajuda para se secar? – perguntou ele malicioso.

— Obrigada, mas não irei abusar tanto. Na verdade estou faminta. Algo me tirou as energias
hoje.

— Então, se vista que vou leva-la para se alimentar. Não quero você fraca. Aliás, quero-a com
muita energia sempre. – Ele lhe piscou sedutoramente arrancando dela um sonoro sorriso.

— Então, alimente-me! – Marcus a pegou pela mão após se vestirem e foram juntos para a
cozinha.

O ambiente era muito limpo e organizado. Anteriormente, quando Thaissa esteve ali, não pôde
conhecer muito da casa. Ela saíra apressada pelo desentendimento que tiveram. Agora as
circunstâncias eram outras, e ela podia saber um pouco mais sobre a vida doméstica dele.

— Sente-se! Vou servir um café para você. Uma das poucas coisas que faço com prazer.

— Obrigada! – Thaissa aguardou enquanto ele organizava a xícara a sua frente. Além da
bebida fumegante, ele lhe trouxe suco de frutas e chá, pão de queijo e um bolo de ótima aparência.
Marcus cortou uma generosa fatia de queijo branco e a serviu.

— Não sinto tanta fome assim, mas aceitarei de bom grado.

— Me desculpe! Mas sou mineiro legítimo e aprecio as coisas da minha terra.

— Você está certo. Eu gosto muito de queijo também. Ele só perde para o meu pequi. – Ambos
sorriram alegremente e saborearam a massa branca com traços caseiros.

— Não direi nada a esse respeito, eu também aprendi a gostar desse fruto nativo, embora tenha
achado muito forte seu sabor e cheiro, já que ele nos lembra de sua presença grande parte do dia. –
falou Marcus após comer uma generosa fatia.

— Ainda assim é de um sabor inigualável. – defendeu Thaissa. – Aliás, ainda não é tempo do
fruto, como você conhece o sabor dele? – perguntou ela curiosa.

— Eu já disse a você antes que tive um rápido negócio aqui anos atrás, não se lembra? Nessa
ocasião, eu o conheci. – Thaissa havia se esquecido dessa informação.

— Há muitas empresas que também fornecem o pequi durante o ano em conserva. – finalizou
Marcus.

— Você tem razão, me esqueci desse detalhe. – Ambos sorriram pela expressão de derrota
dela.

— Vamos combinar de fazermos um piquenique ou jantar com comidas típicas de nossa terra
um dia desses? – convidou Marcus.

— No meu ponto de vista, a diferença entre o mineiro e o goiano é bem pequena. Não teremos
maiores problemas. A não ser que seu queijo role por uma ribanceira e meu pequi vá por outra, aí
vamos ter sérios problemas para nos mantermos juntos. – Além do desejo estavam descobrindo outro
prazer entre eles, as piadas que diziam.

— Marcamos de nos encontrar no final dela. – Marcus se apoiou na mesa e foi até Thaissa,
dando-lhe um leve beijo nos lábios.
— Não gosto de ser muito mimada, sabia? Posso me acostumar com esse zelo todo. – Ela
brincava, mas em seu íntimo sempre procurara sua independência para não se acostumar a esperar
muito das pessoas.

— Desde que não haja exageros entre as duas partes. Deixe acontecer. A única forma que não
gosto é quando há excessos por parte de um apenas, pois acaba vendo no outro, um filho ou coisa
assim. E por outro lado, quem se acostuma muito a receber, logo começa a pedir mais e mais e
normalmente quem muito ganha não tem muito a oferecer, ou esquece-se disso. Equilíbrio, eu
acredito ser uma palavra necessária nas relações.

— Conhece muito do assunto. Já dividiu as escovas com alguma pessoa? – Não havia
cobranças ou algo assim na voz dela. Thaissa queria somente conhecer mais sobre a vida dele.

— Não, querida. Sempre tive esses pensamentos, e talvez por tê-los, não me permitia ir muito
longe, nos relacionamentos que tive. Só agora resolvi dar uma chance.

— Que bom – respondeu ela.

— Chega um momento em nossas vidas que você precisa tentar algo, ou porque a idade esta
avançando, ou por deseja de fato um porto seguro que lhe traga novos sonhos e caminhos, os quais
serão bem mais aproveitados e valorizados devido o amadurecimento adquirido.

— Estaria o senhor se sentindo maduro? – Thaissa perguntou, sorrindo.

— De forma alguma, ainda posso caminhar sozinho sem uma mulher do meu lado me
lembrando que é a hora de tomar meu remédio da pressão, do colesterol ou algo assim. Estou
investindo em nós, porque diferente de outros momentos, eu acredito que tenha grandes chances de
dar muito certo. – Ele falava com a mesma seriedade quando tratava de algum assunto importante na
empresa, o que a convenceu.

— É bom saber disso. – Assim como Marcus, Thaissa também desejava uma relação mais
tranquila e madura. Não que precisasse ter alguém. Sua vida não tinha grandes atrativos, mas seguiria
sozinha por longo tempo ainda. Embora Marcus tivesse balançado um pouco essa convicção dela.
Ainda continuava certa de que estar só não era sinal de solidão. Marcus parecia ter as mesmas
convicções. Algo positivo para ambos e a relação que começavam.

Thaissa observou o homem já admirado por ela várias vezes. Marcus possuía fisionomia forte
e presente. Seu rosto expressivo chamava a atenção por onde passasse. Sem contar os belos olhos
cinza, que embora o deixasse ainda mais misterioso e bonito. Era também um fator de intimidação
para algumas pessoas por demonstrar muita observação e sabedoria. “Marcus será um coroa muito
charmoso.” - pensou ela.

— Um real por seus pensamentos. – Marcus disse, observando- a com os olhos descritos por
ela há pouco.

— Tão pouco? – perguntou desaminada.

— Vai depender do que me falar. Posso aumentar a oferta se começar agora.

— Só estava imaginando que você será um senhor atraente.

— Não acredito que já esteja me vendo velho. Nunca mais farei qualquer comentário sobre a
questão. – disse ele contrariado antes de tomar um pouco do líquido preto.

— Não se preocupe. Minhas visões só me apresentaram coisas boas a seu respeito. – Thaissa
aproveitou e bebeu um pouco do seu. A conversa estava animada a ponto de deixarem o café de lado.

— Ainda bem. Já com relação a você não saberei ao certo como será. Não tive o prazer de
conhecer sua mãe para fazer a premonição. – Marcus tomou o restante do café, olhando-a.

— Saiba que ela foi uma mulher muito bonita e cheia de vida até o câncer derrota-la. Acredito
que serei um pouco semelhante a ela. Embora essa mania de preverem o futuro de uma mulher
observando sua mãe, não seja nada convincente. Cada qual possui suas características principais. O
seu próprio organismo que define qual será sua reação diante do clima, dos problemas, da
alimentação e do estresse. Isso, e muito mais, influenciam de forma diferente em cada pessoa.

— Você me convenceu, não irei analisar mais dessa forma. – As mãos se tocaram com ternura
enquanto os olhos expressavam a alegria de estarem ali juntos, se descobrindo.

— Você sempre trabalhou na empresa de seu pai? – perguntou Marcus.

— Sim! Quando adolescente minha única preocupação era estudar e fazer cursos de
aperfeiçoamento e de línguas. Quando me tornei adulta e fazia faculdade, meu pai começou a me
sondar. Havia tempos eu lhe disse que não pretendia trabalhar com ele, que desejava traçar meu
próprio caminho, administrando algo meu, talvez em área semelhante, mas que fosse meu mundo,
sabe! Porém ele precisou de mim, e não pude negá-lo. Hoje sei que foi muito importante começar na
Fênix. Lá meu pai que era muito conhecedor pode me moldar e me ajudar a ser o que sou hoje. Não
teria meu conhecimento e desenvoltura se não tivesse atendido ao pedido dele.

— Fico feliz que tenha escolhido o caminho certo. Eu, ao contrário de você, não tive um
exemplo a seguir. Não que meu pai não fosse digno de tal, mas ele não tinha muito a me passar
profissionalmente. Era um homem simples que trabalhou em indústria grande parte de sua vida para
trazer o sustento à família. Quando tiveram a mim e Julia, as coisas ficaram um pouco mais difíceis e
ele pôde apenas nos repassar os valores morais que possuiu, e que foram muito importantes para eu
chegar onde estou. – Havia tanto respeito nas palavras dele que Thaissa se viu desejando conhecer o
pai de Marcus que certamente fora tão bom quanto o seu.

— Embora tenha feito algumas coisas erradas, ele sempre fora um bom exemplo de pai. Não
posso reclamar. Ele me propiciou muitas oportunidades na vida. Trabalhou arduamente para construir
um patrimônio para nós. Sempre me incentivou a seguir por caminhos bons e com consciência. –
disse ela, lembrando-se do pai. — Você não teve as mesmas facilidades que eu tive, mas soube
aproveitar tudo o que recebeu e hoje esta muito bem colocado no mercado. – Concluiu Thaissa.

— Sim! Tive muitas lutas para travar, e que você certamente não precisou passar por elas, mas
cada um aproveita as oportunidades conforme sua vontade e formação. Você poderia ser uma jovem
problema, apegada a gastos. Despreocupada e sem visão de futuro, mas preferiu ser responsável e
independente. Não foi mais fácil para você, apenas teve mais opções em sua vida e soube escolher as
melhores. – Thaissa sorriu agradecida.

— Obrigada! – Não se alimentavam mais de tão interessante que se tornara a conversa.

— Nunca sentiu vontade de mudar de cidade ou, sei lá, de país? – Ele a fazia a mesma pergunta
novamente. Por que será? – Pensou ela.

— Sinceramente, não. Já cogitei fazer mestrado em outras capitais, mas tenho aqui grandes
oportunidades de adquirir conhecimento. – disse ela sorrindo. – Antes de minha mãe descobrir sua
doença, eu chegue a comentar com ela sobre a possibilidade de eu ir para o Rio de Janeiro ou São
Paulo passar uma temporada para me aperfeiçoar, mas ela precisou de mim e não pensei mais na
questão. Agora tenho meu pai que também não desejo deixar só. Se me perguntar se sinto por não ter
ido adiante, digo que não, acredito que estou no lugar certo e sempre estive.

— Fico feliz que você tenha se encontrado tão jovem. Tantos são os momentos em que nos
sentimos deslocados onde estamos. Pensando se nossas escolhas foram de fato as melhores. –
Thaissa percebeu que ele falava de se mesmo.

— Pensamentos dessa natureza são presentes hora ou outra em nossas vidas, mas se olharmos
bem a nossa volta, descobriremos poucas coisas que não desejaríamos ter dentre as que temos. –
Thaissa sentia-se assim.
— Precisei caminhar um pouco mais para descobrir isso, mas estou avançando bastante. Já
andei muito em busca de aprimoramento e maior qualidade de vida. Posso te garantir que isso está
muito comum no século XXI e a tendência é aumentar. Buscamos incansáveis, a realização financeira
e nos esquecemos das demais. Essa confirmação só nos é dada após certa idade e então vemos a vida
com mais clareza e desejamos viver o que ela tem a oferecer de verdadeiro e concreto.

— A maturidade é nossa maior glória. Pena que às vezes seja um período tão curto para
colocarmos a casa em ordem depois das bagunças que fizemos enquanto jovens.

— A juventude é isso. Momento de colocar em risco o que temos e somos, porque na


maturidade não poderemos agir assim não. – Ele falava tão concentrado que Thaissa o observava em
silêncio absoluto.

— Deseja ter filhos, Thaissa? – A pergunta e pegou desprevenida.

— Acredito que quase todas as mulheres desejem, mas assim como a maioria, eu não me
importo de demorar um pouco mais. Assim estarei mais tranquila e disponível para uma criança.
Estamos em uma geração onde colocamos primeiro a formação e depois os prazeres da vida, como
falávamos há pouco. O que acho justo, pois os pais muito jovens estão preocupados em construir
algo e acabam por deixar os filhos meio de lado. Não os culpo por isso. Querem se preparar para o
futuro, mas seria muito mais fácil se construíssem primeiro e depois formassem família. – Falou ela
certa do que dizia.

— Muito justo o que você disse. – Ele não entrou em detalhes sobre seu ponto de vista e
Thaissa não questionou. Esse assunto ainda teria muito tempo para ser discutido.

— Acho que o nosso domingo será de discussões a cerca da atualidade. – Falou ela tocando a
alça da xícara vazia. – Mas é sempre bom um bate-papo, nos ajuda a entender muitas coisas.

— É verdade! – concordou Marcus.

— Mas por hoje, acredito que seja o suficiente. Que tal sairmos um pouco? O que gosta de
fazer nos finais de semana? – Sentiam-se tão bem ali que poderiam passar todo o dia conversando a
respeito da vida, mas o sol já brilhava fortemente lá fora.

— Quando não tenho algo para colocar em ordem costumo ir ao shopping. Aos parques da
cidade observar o movimento. Gostava também de visitar o zoológico com minha mãe.

— Não me passou pela cabeça que gostasse das simplicidades da vida. A primeira impressão
que tive ao conhecê-la era que gostasse de coisas, mais agitadas. – Marcus sabia que ela não gostava
daquele assunto, mas precisava colocar um ponto final nele.

— Espero que não esteja com seu pré-conceito aflorado hoje. – Thaissa fora educada, mas
deixou claro que não iria aceitar qualquer menção por parte dele que a ofendesse.

— Eu entrei nesse assunto justamente para finalizarmos ele. Peço que me perdoe pela infeliz
interpretação que fiz de você. Na verdade, Thaissa, eu tenho sido alvo de muitos tipos de mulheres e
em sua maioria, interesseiras, farristas e despreocupadas, que querem apenas um homem para
sustenta-las e esse tipo não me interessa. Gosto de festas como o carnaval pela sua beleza e encanto
cultural. E por esse motivo, posso te garantir que já vi muitas coisas nada agradáveis por lá e em
tantos outros lugares. O fato de você ter se rendido talvez um pouco rápido demais, a meu ver, me fez
criar uma autodefesa que me bloqueou os olhos e me impediu de ver a bela mulher que havia por trás
daqueles beijos quentes que trocamos. Não quero que aceite meu ato como normal. Não tenho direito
de rotulá-la, qualquer outra mulher que seja por causa de um problema antigo. – Thaissa ficou
curiosa pelo fato de ele ter mencionado alguma experiência vivida, mas achou melhor continuar
ouvindo-o. − Fui tolo e peço desculpas por tudo o que lhe disse antes. Na verdade, eu nunca acreditei
que o carnaval não seja um local onde relações boas e verdadeiras não possam acontecer. Eu apenas
prefiro não esperar nada dessas ocasiões, já que as possibilidades são remotas.

— Nesse tipo de festas as máscaras são internas também. Há pessoas que estão somente para
aparecerem e nem curtem a festa. Chegam lá abafando, e na verdade, usam máscaras que escondem o
que de fato pensam ou fazem. Então não é correto criar expectativas, tanto negativas ou positivas
sobre as pessoas em ambientes como este. Posso fingir estar feliz enquanto danço um belo samba,
assim como posso me passar por recatada desejando muito me expor ao máximo e por alguém ou por
um motivo íntimo, e disfarço isso no meu dia a dia. – falou Thaissa serena.

— Você está coberta de razão. – Thaissa queria ouvi-lo um pouco mais. Por isso lhe passou a
palavra em gesto para que prosseguisse. Havia algo que ela desejava saber.

— Bem é isso. Espero que não tenha te incomodado muito e que possa me entender. – Ele não
aprofundaria o assunto, se ela não desse um pequeno empurrão.

— Você tem algum motivo verdadeiro para criar esse tipo de ilusão em sua mente? – perguntou
ainda insegura se deveria de fato mexer no terreno pessoal dele. — Marcus ficou em silêncio. —
Quer me dizer alguma coisa? – Insistiu Thaissa, que percebeu nele o desejo de falar a respeito.

— Tive uma experiência rápida a respeito, mas nada que compense comentar. – Ele calou-se e
Thaissa o observou, desejando que continuasse. – Bem, me parece que quer ouvir. Alguns anos atrás
eu fiquei com uma linda jovem em um evento semelhante ao carnaval. Foi tudo tranquilo e feliz,
porém no dia seguinte, ela começou a me incomodar. Eu havia passado o telefone para ela em um
momento de euforia. A jovem começou a dizer que queria me conhecer melhor, mas a descartei, pois
foi apenas uma curtição para os dois, eu pude ver isso nos olhos dela também. O que eu não sabia era
que ela havia se informado sobre mim após ter descoberto meu nome quando mexeu em minhas
coisas antes de nos despedirmos. Acreditei que estava tudo resolvido, quando ela surgiu novamente
se dizendo grávida. Eu fiquei chocado com aquela notícia. Em momento algum desejei um filho com
ela. Sem contar que acreditei a todo o momento que estava prevenido, mas quando se bebe um pouco,
acabamos não acreditando muito no que fizemos ou não. Fica sempre a dúvida. Daí por diante, tive
que ajuda-la e atender seus caprichos por pensar que a criança poderia ser minha. Ajudei-a à
distância até que chegou o terceiro mês e ela aceitou fazer o exame de DNA, após eu ter lhe
garantido algum beneficio financeiro. O resultado saiu e ela nem me procurou mais para dar qualquer
notícia que fosse.

— Você não soube se o filho era seu?

— Ela estava grávida de quatro meses. Ou seja, o filho não podia ser meu já por este motivo.
Eu tinha quase que total certeza de que não era, mas algo me impedia de deixa-la na mão e não me
custava muito ajudar financeiramente, não por ela, mas sim pela criança que não tinha nada a ver com
a situação. Mas ela sempre soube que o filho não era meu. Ela poderia apenas me ligar agradecendo
a ajuda que lhe dei. Já seria o bastante.

— O que se pode aprender com isso é que são consequências que às vezes temos que passar
por atitudes impensadas que temos, mas que não podemos fazer de um ato desses algo generalizado.
– Comentou Thaissa.

— Você tem razão. – concordou Marcus. – Mas esse não é o único motivo de minha frustração.
Na verdade, sempre fui muito cauteloso e a me ver naquela situação tão absurda e óbvia, me chateei
comigo mesmo.

— Parece que costuma se cobrar muito, Marcus. Isso não é bom. – Aconselhou Thaissa.

— Não é isso, minha querida. Mas há tantas situações nas quais nos colocamos que se tivermos
um pouco de bom senso, não passaríamos por elas. Não me cobro tanto assim. Apenas fico frustrado
por não fazer algo que parece óbvio, e com isso ter consequências negativas, desnecessárias. Um
pouco de atenção nos livra de muitos problemas.

— Eu sei que há situações pelas quais ficamos nos lamentando, mas passado não traz
respostas, essa é função para o presente e o futuro. – Embora Thaissa nem sempre agisse assim com
relação a sua história com Letícia. Falar de forma positiva sobre tal questão já era para ela um bom
incentivador para conseguir esse objetivo.

— Você tem razão! Vamos sair e depois procurar um almoço?

— Eu preciso ir em casa me trocar. – Disse Thaissa lembrando-se que aquela era sua primeira
noite na casa do namorado e que não tinha nada seu lá.

— Então te levo até lá, e saímos em seguida. – Ela o acompanhou para pegar suas coisas.

No trajeto para casa, Thaissa observava em silêncio o pequeno movimento bem diferente do
ocorrido durante a semana. Tivera longa conversa com Marcus a respeito de suas vidas e frustrações.
Todos tinham suas feridas no decorrer de sua existência, cabia apenas a cada um decidir o quanto
isso refletiria em sua vida. A sua já estava bem antiga e precisava ser curada ou esquecida logo. Não
havia motivos para alimentá-la mais do que fizera. Ela olhava pensativa para as ruas quando Marcus
a chamou.

— Estou vendo que seus pensamentos me custarão muito caros. Costuma refletir muito? –
Thaissa se virou sorrindo para ele.

— Não tanto. Mas confesso que nos últimos meses tenho me dedicado mais ao assunto. Tem me
feito bem, eu precisava.

— Se é assim, não se incomode comigo. Pode voltar ao que pensava. – Ele fora compreensivo
e Thaissa agradeceu em silêncio.

— Obrigada, mas como já estamos chegando acho que darei um pause agora. — Marcus sorriu
para ela e voltou sua atenção para o trafego.

Quando chegaram, Thaissa foi procurar a querida funcionária para lhe informar sobre sua
chegada.

— Alguma notícia de meu pai, Ana? – perguntou ela, sentindo o cheiro bom na cozinha.

— Ele ligou e disse que chega hoje à tarde.

— Então não precisa se incomodar com almoço, Eu comerei fora. Deixe para fazer o jantar,
que trarei uma visita.

— Será o responsável por você ter dormido fora? – Havia muito carinho e respeito entre as
duas, e Thaissa não viu a pergunta da senhora como intromissão.
— Ele mesmo! – Ela foi até a mulher e lhe deu um beijo na testa. – Guarde esse banquete que
começou para a noite.

— Se você prefere assim. – Quando Ana começou a organizar a cozinha. Thaissa foi se vestir.
Marcus a aguardava na sala, e quando retornou, havia sobre à mesa, uma xícara vazia.

— Me desculpe! Nem me lembrei de oferecer café a você. Ainda bem que tenho a Ana. –
Brincou ela.

— Na verdade, eu não aceitaria se você oferecesse. Acabamos de tomar o nosso em casa.


Aceitei apenas porque foi aquela simpática senhora que ofereceu. – Thaissa sorriu por ouvi-lo falar
baixinho.

— Vamos então! – Ela se aproximou e pegou na mão dele.

— Adorei essa sua roupa despojada. – Quando não estava no trabalho, Thaissa gostava de usar
regata, sapatilhas baixas e shorts mais soltos de algodão.

— Em um dia quente como hoje promete ser, eu prefiro não vestir nada que me faça arrepender
pela escolha errada.

— Vejo tantas mulheres sofrendo com roupas e sapatos desconfortáveis apenas para se
sentirem bem vestidas.

— É o preço que temos que pagar por sermos mulheres. Cada vez mais, nos cobramos beleza e
somos cobradas pela sociedade. Mas não me prejudico tanto, faço o que está ao meu limite e com um
pouco de senso, tudo fica bem. – Marcus apertou sua mão em acordo com o que disse.

No carro, ele novamente lhe abriu a porta para que entrasse.

— Quando saímos de casa, você foi mais esperta que eu e não pude ser cavalheiro. –
Reclamou ele.

— É o hábito, meu querido. Não tenho o costume de receber esse tipo de atenção. Mas vou
tentar não atrapalhar seu instinto cavalheiro. Prometo! – Marcus fechou a porta e contornou o carro
após dar-lhe um leve beijo nos lábios.

— O que acha de jantarmos em minha casa hoje? — pergunto ela assim que Marcus se sentou.

— Já quer oficializar a relação para a família? Estou gostando disso! – O bom humor dele
levava-a ao riso involuntário.
— Claro que sim! Não é todo dia que encontro um homem disposto a abrir portas para mim.

— Puxa vida! Esse é o maior de todos os motivos por estar comigo! – Marcus a olhou
profundamente. Como se buscasse ali respostas.

— Esse é um dos motivos, não o maior e nem o único. É preciso uma junção, sabe.

— Adoro ver mulheres filosofando. – A gargalhada dele foi tão grande que a Thaissa sorriu
com ele.

— Não pensa assim? O que considera importante então? – Quis saber Thaissa.

— No início considero importante a amizade, a química, a comunicação entre ambos. A


aparência ajuda também, e por fim, umas boas gargalhadas como essa. – Ele parecia bastante
animado.

— Se me dissesse isso uns 12 anos atrás, você estaria com problemas, pois eu lhe perguntaria
onde está o amor, porque não o mencionou, mas já superei isso. – Disse Thaissa lembrando-se de sua
época de adolescência onde só se pensava na paixão e nada mais importava.

— Mentira! – Thaissa assustou-se com a palavra pronunciada por ele. – Todos nós queremos o
amor, jovens ou não. Mas sabemos que ele não nasce de uma noite passada juntos, ou um encontro de
carnaval, isso é a paixão porque o sentimento que ficará só vem depois. E chegar até esse momento
não costuma ser uma trajetória fácil. Precisamos nos dedicar à relação. Ter muita paciência e tantos
outros requisitos que nos dias de hoje não estamos dispostos a investir. É trabalhoso construir uma
relação estável e feliz. – Ele voltou a ser o homem sério que ela estava acostumada a ver. — Nos
parece muito mais prazeroso viver a relação enquanto há aquele fogo ardendo dentro de nós, e
depois que ele se abranda, saímos à procura de mais fogo. O mais lamentável é que muitos de nós
terminaremos a vida procurando o amor sem jamais ter dado a ele qualquer chance de ser vivido de
fato. – Thaissa ouvia a tudo contente pela maturidade dele.

— Costuma ter amores ou fogos em sua vida? – Quis saber ela.

— O que estiverem dispostos a ser. – A resposta nada esclarecedora dele causou-a uma
carranca.

— Como assim? – Quis saber ela.

— Se você quiser ser fogo, será apenas fogo. Mas se desejar ser amor, estou disposto a ser
amor também. – Não havia o que rebater, pensou ela.
— Vamos tentar ser amor então. – disse Thaissa tranquilamente. Marcus tocou na mão dela
sobre a perna, consentindo com ela. – E se tiver uma boa pitada de fogo também é ótimo. – Terminou
ela.

— Com certeza. – Ambos sabiam que química existia entre eles, o que já era um grande aliado
para a relação.

Durante o rápido almoço que faziam no restaurante de um shopping, conversaram sobre a


empresa com intuito de fazerem alguns ajustes para a volta de Marcus. A conversa fluiu calmamente e
puderam aproveitar o momento para a relação. Conversaram um pouco mais sobre assuntos diversos
até que a refeição fosse finalizada. Estavam se preparando para partir quando o celular de Marcus
tocou.

— É de Belo Horizonte. Me desculpe! Mas preciso atender. – informou ele aceitando a


chamada. – Alô! Sim, Henrique, pode falar. – Thaissa viu o empresário tomar posse do homem com
quem conversava a pouco. – Certo, eu já previa que isso aconteceria. – Thaissa olhava
disfarçadamente para o lado como se desejasse se atentar a outra coisa, mas não conseguia deixar de
ouvir a conversa.

— Não há problemas, Henrique, vamos resolver isso logo. É mais uma questão de tempo que
atitude, entendeu? – Havia uma pequena ruga na testa de Marcus que o deixou ainda mais atraente
aos olhos de Thaissa quando o olhou disfarçadamente. Certamente não era nada muito urgente,
concluiu ela. Marcus parecia muito calmo e seguro. Embora Thaissa acreditasse que em quase todas
as ocasiões ele permanecia assim no âmbito profissional. Mas algo lhe dizia que de fato não era
muito importante. Thaissa aguardou ele concluir a conversa, fingindo estar atenta às duas crianças
que brincavam ao lado.

— Tivemos um pequeno contratempo. – disse ele guardando o aparelho no bolso. – Nada


preocupante, mas que precisa ser resolvido logo.

— Se precisar de ajuda ou tiver que resolver alguma questão agora. Fique à vontade.

— Agradeço pela oferta, minha querida, mas não precisarei. Com relação a me ausentar, bom,
terei sim que resolver algumas coisas ainda hoje e nosso passeio precisará ficar para outro dia.

— Tudo bem. O jantar, podemos combinar para outra ocasião, se quiser. – Lembrou ela.

— Deixe confirmado. Acredito que resolvo tudo antes. – Marcus pegou em suas mãos sobre a
mesa, acariciando-a, e logo em seguida chamou o garçom para acertar a conta.
No trajeto de volta pouco se falaram. Marcus parecia estar bem, mas Thaissa percebeu que ele
já estava analisando a questão que resolveria, logo que a deixasse em casa. Preferiu então não
perturbá-lo.

— Novamente, peço desculpas, meu amor. Teremos outros momentos, prometo. – disse ele
quando chegavam.

— Eu sei como é a vida de um empresário, Marcus. Hora ou outra precisam resolver alguma
questão. Não se preocupe comigo. – Thaissa vivera isso por muitas vezes com seu pai. Embora não
gostasse muito da ausência dele quando pequena. Ainda assim, procurava entender.

— Não permito que meu trabalho influencie muito em minha vida pessoal. Mas em casos como
esse eu preciso mesmo estar presente de alguma forma na tomada de decisões. Quando saí de
Uberlândia já sabia que isso poderia acontecer.

— Estarei esperando você às 20h. Caso não possa vir, é só me avisar.

— Obrigado linda! Eu farei o possível para estar lá, mas aviso com antecedência se não puder.
– Ele a envolveu em seus braços beijando-a longamente e após ela descer do carro, ele foi embora.
CAPÍTULO 37

Thaissa aproveitou a tarde livre e selecionou seus livros que já havia lido e alguns até relido,
para doá-los a projetos que eram feitos nos bairros e que incentivavam a leitura. Vira algo
semelhante em redes sociais onde pessoas comuns procuravam ajudar suas comunidades a
adquirirem o hábito da leitura, e achou que poderia colaborar doando livros.

Realizada a seleção, organizou todos que doaria e os colocou em uma caixa, deixando-os em
um canto para serem entregues na semana seguinte.

Após o banho, Thaissa vestia-se para ir à cozinha acompanhar a organização do jantar, e talvez
aprender mais alguma receita, quando seu telefone tocou. Era de um número privado e embora não
gostasse de atender ligações dessa natureza, optou por aceitar.

— Alô! – disse ela. – A linha ficou muda por alguns segundos, e então a pessoa do outro lado
desligou, encerrando a chamada. – Thaissa não se importou, certamente era um desocupado ou
alguém que percebeu ter feito a discagem errada. Ela deixou o aparelho sobre a cama e foi terminar
de se vestir.

Quando chegou à cozinha, Ana e sua ajudante já haviam feito muitas coisas. Cabia a ela apenas
observar.

— Ana, acho que não precisa caprichar tanto, Marcus é bem simplório com relação a comida.
– Informou ela.

— Não estamos fazendo tanto, minha filha. É que você e seu pai quase nunca se alimentam
corretamente. Por isso está achando demais. – Thaissa sorriu do comentário dela. Embora tivesse
certeza de que se alimentava corretamente e de todas as fontes necessárias, a velha senhora sempre
dizia o contrário. Para ela, quantidade também era qualidade e Thaissa procurava comer pouco e
com variedade. Contrariando a velha amiga.
— Você nunca muda, Ana! – Thaissa brincou com ela.

— E você também não. Sempre magra. – As três sorriram do comentário contrariado da


mulher.

— Marcus ainda não confirmou, mas deixarmos para organizar as coisas em última hora não
será bom. Caso ele não venha, vamos precisar de um batalhão para comer tudo o que fizeram. –
Brincou Thaissa mais uma vez.

— Exagero seu minha, filha. Não estamos fazendo mais que o necessário.

— Tudo bem. Você me convenceu Ana. – Thaissa a observou reservar o arroz, a salada e
algumas outras coisas que seriam feitas mais tarde. Vendo que não cabia ela ali, foi procurar outra
ocupação até o entardecer.

Marcus não ligou informando se iria ou não, o que a fez acreditar que o jantar estava
confirmado.

Seu pai chegou de viagem no início da noite e logo foi se encontrar com a filha.

— Minha querida, como está? – perguntou ele abraçando-a ternamente.

— Estou bem pai, e você? – Thaissa lhe deu um leve beijo no rosto.

— Cansado, mas satisfeito – respondeu André.

— Isso é o que importa pai. – Ele a beijou novamente em agradecimento pelas palavras dela.

— Então a senhora e Marcus estão namorando! Eu confesso que já torcia por vocês. Mas nada
disse esperando que percebessem o que acontecia entre ambos. Com minha experiência, eu já sabia
que chegaria aonde chegou.

— Obrigada, pai. – Agradeceu ela. – Na verdade, sempre quando há conflitos como os que
haviam entre nós é indício de algum outro sentimento, podendo ser o amor ou o ódio. Optamos pelo
melhor. – Afirmou ela.

— Espero que tenham uma relação de muito amor e respeito, querida. Esses predicados são
muito importantes em um casamento. Hoje mais do que nunca, sei disso. – Aconselhou-lhe o pai.

— Você foi um bom marido. – disse ela vendo a tristeza nos olhos dele.

— Não fui não. Me deixei levar pelas tentações mundanas quando sua mãe mais precisou de
mim. Posso lhe dizer apenas que aprendi muito com isso, e quando se aprende verdadeiramente com
um erro, ele não volta a acontecer. – disse o pai de Thaissa seguro.

— Espero que encontre uma mulher disposta a valorizar isso, pai. – Thaissa começava a
pensar na possibilidade de vê-lo com outra esposa e aceitava tal fato.

— Não vou me preocupar com isso, querida. Quando for o momento, ele chegará. – Abraçados
foram para a outra sala conversar sobre as viagens e projetos dele.

— Como viram a relação de vocês na empresa? – Quis saber André depois de relatar suas
aventuras empresariais.

— Poucos sabem a respeito. Não iremos divulgar aos sete ventos, deixaremos que descubram
por si só, e caso perguntem, responderemos.

— Letícia sabe? – Ouvir aquele nome pronunciado pelo pai, fazia-a relembrar o que a outra
mulher causara de ruim na vida dele.

— Ela foi a primeira pessoa. – O pai a olhou com carinho.

— Tome cuidado, querida. Mulheres como aquela não medem esforços para conseguir o que
desejam. Não a subestime nunca, isso pode ser sua ruína. Ela joga sujo para ter o que acredita
merecer e todos sabemos que ela tem um certo interesse em Marcus. – O conselho do pai era cheio
de preocupação.

— Isso vai depender mais do Marcus que de mim, pai. Não posso afastá-lo de todas as
mulheres como ela. Seria impossível. Quanto a mim, eu sei que ela não irá afetar.

— Eu sei disso, Thaissa. Mas não facilite aos truques dela. Ignore seus comentários maldosos
e finja não perceber quando ela se oferecer para ele. Seja mais esperta que ela.

— O que ela fizer não me importa, desde que não ultrapasse os limites. O que pode me
incomodar é a reação de Marcus às oferecidas dela. Isso sim. – declarou Thaissa.

— Se está ciente do que fazer então só posso torcer por vocês. Como eu já havia lhe dito, tive
várias e boas referências dele quando se tornou sócio da Fênix, e isso se reflete na vida pessoal dele,
com certeza.

— Também acredito nisso, pai.

— Conte comigo sempre que precisar e jamais tome decisões precipitadas. Sem analisar os
fatos como são. – As palavras fraternas eram sempre muito bem-vindo.
— Prometo não me esquecer desses conselhos, pai.

— Marcus estará aqui às 20h. Pai, eu vou para meu quarto me preparar e aguardo você
também.

— Claro, minha querida. Vou desfazer minhas malas e tomar um banho também. — Saíram
cada qual para seus aposentos.

Thaissa tomou seu novo banho e colocou uma leve maquiagem. O vestido florido a deixou com
aspecto angelical. Combinando com as sandálias também delicadas. Os cabelos caiam soltos em suas
costas. Estaria em casa com sua família, e não precisaria de grandes preparações. Sentia-se bonita
daquela forma mais casual.

Faltavam poucos minutos para o horário combinado, quando ele chegou. Thaissa deixou que o
pai o recebesse, assim poderiam se familiarizar mais. Quando foi juntar-se a eles, encontrou-os
tranquilamente falando sobre a empresa.

— Boa noite, Marcus! – Ele a olhou dos pés a cabeça enquanto ela se aproximava. “Como
poea uma mulher combinar e ficar linda com tudo o que vestia?” — Pensava ele, observando-a.
Thaissa se aproximou oferecendo seus lábios para ele, que os aceitou sem demora.

— Boa noite, Thaissa! – Ainda pegados nas mãos, sentaram-se em frente ao pai dela.

— Estávamos falando sobre a função de André, e caso não saiba, Thaissa, seu pai tem rendido
muitos elogios e colaborado muito com nosso pré e pós-venda. – O comentário de Marcus deixou
Thaissa orgulhosa.

— Fico feliz em saber disso. – Comentou ela satisfeita por ver o brilho nos olhos do pai.

— Chega um momento na vida em que precisamos soltar as amarras e fazer algo diferente para
nos sentirmos mais útil. Já trabalhei muito por necessidade de manter o que construí, mas agora estou
bem melhor trabalhando por aquilo que me faz bem. – comentou André.

— Pretendo chegar a esse ponto logo, André. Após os 40 anos eu quero me dedicar um pouco
mais a mim e ao que realmente importa. – Não passara pela cabeça de Thaissa que ele teria essa
intenção tão cedo, mas ela ainda não o conhecia bem para fazer suposições tão pessoais.

— Acredito que precisamos construir arduamente até os quarenta e cinco ou no máximo


cinquenta anos, porque depois disso, a vida passa mais rápido e precisamos aproveitá-la um pouco.
– falou André, alegre.
— É o que eu costumo dizer a alguns colegas. – Marcus comentou.

— Infelizmente não são todos que conseguem esse feito, ou por não terem condições de fazê-lo,
ou porque se acostumaram tanto com a agitação que não conseguem viver sem ela. – comentou
Thaissa, participando da discursão.

— Você tem razão, filha. Mas quando digo descansar, não falo, largar todas as atividades e
somente usufruir do que conquistou. Trabalhar é essencial ao corpo e ao cérebro, mas precisamos
fazê-lo conforme nossas possibilidades e preparo físico e psicológico. – Concordavam com ele
quando a cozinheira entrou.

— O jantar está pronto! – Disse a senhora gentilmente. Todos a seguiram até a sala de jantar.

Quando Marcus se sentou, foi servido seu prato predileto. – Agradecido, ele sorriu para
Thaissa. Ela não havia esquecido se da simplicidade dele, no quesito alimentação.

— Soube que você esteve em Minas Gerais dia desses. – falou o pai de Thaissa assim que se
sentaram.

— É verdade. Precisei ir até lá resolver uma questão com uma das empresas que sou acionista.

— Burocracias? – perguntou André.

— Não exatamente. Temos tido bons lucros com a companhia, mas a administração tem feito
maus investimentos, e como sou um dos maiores sócios, tivemos que nos reunir para resolver a
questão antes que ela se tornasse irreversível. – Thaissa observava em silêncio a conversa deles.
Quando Marcus lhe dissera a respeito, ela preferiu não fazer questionamentos embora tivesse ficado
curiosa por saber o que de fato o teria levado de volta a sua terra. Provavelmente, Marcus não lhe
falara a respeito por pensar que a incomodaria com tais chateações. A naturalidade com a qual ele
falou ao seu pai lhe passava essa ideia ou ele teria disfarçado e não respondido com a verdade.

— Sei como é isso! – falou o pai dela. – Mas não pretende se casar com minha filha e leva-la
para longe, eu espero. – Thaissa assustou-se com o comentário de seu pai.

— Vai depender das circunstâncias, André. Ainda é cedo para fazer planos, mas posso lhe
garantir que não estou pensando neste assunto. – Ela olhava de um ao outro sem saber o que dizer.
Seu pai fora precipitado ao mencionar casamento, por outro lado, Marcus respondera tranquilamente
bem.

— Eu sei que é cedo para falar a respeito. Perguntei, porque, caso chegue esse momento, eu
espero estar preparado para ele. – Thaissa sentiu um grande pesar na voz do pai. Vendo-o daquela
forma, ela chegou à conclusão de que não poderia se afastar dele. Pelo menos enquanto André não
organizasse sua vida pessoal novamente.

Marcus observou a cena em silêncio. Thaissa e seu pai podiam ter tido seus desafetos, mas
ambos se amavam e seria injusto intervir entre eles. Se a relação tivesse o desfecho que ele
desejava. Teria que criar raízes ali. Surgia-lhe o primeiro dos contratempos de uma relação estável.
Deixaria acontecer, e se preocuparia com isso mais adiante.

O jantar transcorreu normalmente e quando todos já haviam terminado, retornaram para a sala
de estar. Estavam sentados conversando novamente quando o telefone de Thaissa que ficara sobre o
aparador, tocou. Ela foi até ele atender. Novamente era uma chamada restrita.

— Alô! – disse ela, aguardando a resposta. – Olá! – chamou mais uma vez e a linha continuava
muda. – Thaissa então desligou o telefone.

— Algum problema, filha? – perguntou seu pai.

— Acredito que não, pai. Hoje pela manhã recebi uma chamada restrita e assim como essa, não
houve resposta do outro lado. Eu podia ouvir o som de uma respiração, mas era só isso.

— Estranho isso acontecer duas vezes seguidas. – comentou Marcus.

— Acredito que seja apenas um desocupado que gosta de incomodar as pessoas. Não é nada
preocupante. – falou Thaissa para desfazer as impressões que começavam a surgir.

— Você pode estar certa. Mas caso aconteça por mais vezes, me informe filha.

— Não se preocupe com isso, pai. – Thaissa retornou ao seu assento.

— Você sai de viagem amanhã, André? – Questionou Marcus.

— Não. Acredito que devo ficar aqui na cidade por alguns dias. Precisarei atender alguns
clientes locais e muitos deles precisam divulgar nessas ocasiões festivas

— É verdade. – falou Marcus observando o aparelho de telefone que Thaissa deixara sobre o
aparador.

— Em qual período do ano a Fênix é mais procurada por empresários para ter assessoria nas
divulgações de mídia? – perguntou Marcus.

— Não há um período propriamente dito, já que durante todo o ano há seguimentos que querem
se manter na mídia. Mas posso lhe dizer que no primeiro semestre temos um pouco mais de procura.
— Aquela linha de cosméticos que solicitou uma modelo foi uma de nossas clientes que fez
orçamento e discutimos sobre o que ela desejava no final do ano passado, mas eles queriam colocar
a propaganda só em maio e junho deste ano. Que são respectivamente o mês das mães e dos
namorados.

— Poderíamos criar algo tipo uma promoção para alguns segmentos quando eles estiverem
meio mornos para poderem divulgar todo o ano e não apenas sazonalmente. Assim eles divulgam
mais e ambos ganhamos. – Comentou Marcus.

— Vamos analisar essa possibilidade. – Thaissa já havia pensando em tal projeto, mas não o
levou a frente pelas barreiras que enfrentaria. Sendo Marcus quem administraria a ideia, tudo seria
mais fácil.

— Falando na empresa de cosméticos, eu soube que a jovem contratada está com crise de
estrelismo, e exigiu coisas fora do comum. – disse o pai de Thaissa, sorrindo.

— Está sabendo de alguma coisa, Thaissa? – perguntou Marcus.

— Foi algo rápido, e o pessoal que estava à frente da criação me informou que ela logo
aterrissou e tudo ficou bem. O resultado da campanha deve estar sendo mostrado ao cliente logo, por
Letícia e sua equipe. – Thaissa optou por resolver a questão sem que Marcus tomasse conhecimento.
Ela sabia que a intenção da moça era chamar a atenção dele novamente. Mas não tivera resultado, e
então ela se conformou.

— Vamos providenciar isso – respondeu ela.

— Peço desculpas a vocês, mas terei que organizar alguns documentos para amanhã. Foi um
prazer recebê-lo em minha casa, Marcus. – André ergueu-se sendo acompanhado por Marcus.

— Fique à vontade, o prazer foi meu. – Pegaram-se nas mãos um do outro. – Quando o pai de
Thaissa se afastou, Marcus se sentou mais próximo dela.

— Deve estar cansada. Vou indo também. – Ele tocou no rosto dela, beijando-a em seguida. –
Se não estivesse com esse rostinho demonstrando tanto cansaço, eu a convidaria para passar a noite
comigo. – Ele preferiu falar de forma que ela teria a opção de se decidir sem se sentir acuada. Mas
desejava tê-la novamente ao seu lado naquela noite.

— Eu adoraria, Marcus, mas de fato prefiro não ir. Também preciso organizar algumas coisas
que devo levar amanhã e acho que ainda não é o momento de chegarmos juntos na empresa.
— Está tentando esconder dos colegas que agora é comprometida? – Brincou Marcus.

— De forma alguma! Na verdade estou é tentando livrar você de olhares curiosos e perguntas
maliciosas.

— Mas que desculpa esfarrapada é essa, Thaissa? – disse ele sorrindo largamente. – Desde
que respeitemos o local de trabalho, não temos o que esconder. E perguntas maliciosas, eu não
acredito que alguém as faça, pois não costumo dar espaço para isso.

— Respeitar o local de trabalho. Isso é muito importante, senhor diretor! – Marcus entendeu a
mensagem dela.

— Naquela ocasião eu estava cego de desejo por você. – Justificou.

— Agora não está mais? – perguntou Thaissa com uma carranca no rosto.

— Estamos em outro nível neste momento. Quando sinto sua falta, posso estar perto de você a
qualquer hora. Se te desejo não há nada que nos impeça de nos amarmos. Não digo que acabou o
tesão, minha querida. A diferença é que agora ele pode ser saciado com maior facilidade. É isso.

— Espertinho! – Marcus se apoiou sobre ela no estofado e a beijou ardentemente lhe tirando
um suspiro.

— Tem certeza de que não quer ir comigo? – perguntou ele se ajeitando.

— Adoraria, mas vamos deixar para outro momento.

— Tudo bem! Acompanha-me? – Levantaram-se e seguiram para a saída de dedos


entrelaçados.

— Bom descanso. – Disse Marcus circulando a cintura dela abraçando-a fortemente.

— Obrigada, amor. Durma bem também. – Beijaram-se e permaneceram abraços por alguns
instantes até que Marcus se afastou e entrando no carro partiu.

“Que delícia esse sentimento, meu Deus. Eu pensei que não o experimentaria mais!” – falou
Thaissa entrando na casa.

Marcus entrou em sua casa observando o ambiente organizado e limpo. Ainda podia sentir o
cheiro de Thaissa ali ou suas narinas o estavam traindo. Desde muito cedo aprendera a viver sozinho
sem muitos apegos. Isso ele só permitia a sua irmã e aos sobrinhos. Porém, algo lhe dizia que tal
situação mudaria e ele não estava interessado em evita-la. Sorrindo, ele se deixou cair no estofado
para se permitir um descanso.
CAPÍTULO 38

Quando Thaissa entrou na empresa, sentiu alguns poucos olhares a sua direção. Caso não
estivesse enganada, já sabiam sobre ela e Marcus. Ao passar pelas secretárias, cumprimentou-as
rapidamente e seguiu para sua sala. Lá, um grande buquê de flores a aguardava. Esclarecendo o
porquê dos olhares que recebeu ao chegar. Nunca havia recebido flores no trabalho. Apenas Fred se
dera a esse direito por desejo próprio.
— Ele não precisava fazer isso. – falou constrangida por mais uma vez ser alvo de olhares
curiosos. Haviam combinado que não se exporiam tão logo.

— Não precisava fazer o quê? – Marcus falou em suas costas. Quando Thaissa se virou
sorrindo, ele permanecia calado e sério.

— Fazer isso! – disse ela mostrando as flores.

— Não fui eu quem as enviei. – disse ele se aproximando.

— Como não? – Thaissa então começou a vasculhar o arranjo à procura de um cartão, o qual
parecia não estar lá. – Pensei que fosse você! – falou depois de constatar que não havia nem um.

— Acho que não dei uma boa lição ao jovem rapaz naquela noite. – Marcus ficou carrancudo
como Thaissa costumava ver.

— Não acredito que seja Fred. Eu não tive mais qualquer notícia dele.

— Talvez seja ele. Não se sabe. Quem mais poderia ser? — Marcus a observava
aparentemente enciumado, embora disfarçasse.

— Está duvidando de mim, Marcus? – perguntou contrariada.

— Eu não disse isso – respondeu seco.

— Pensei que já havia superado seu pré-conceito em relação a mim. – Thaissa deixou o maço
de flores sobre a mesa ficando de costas para ele.

— Desculpe-me Thaissa. Eu não queria magoá-la.

— Você precisa superar esse seu conceito errôneo. Já ficou bem claro que não sou o tipo de
mulher que você pensou. Ou ainda não está claro? – perguntou ela, virando— se e olhando fixamente
nos olhos dele.

— Está sim. Eu me precipitei. – Ele se aproximou e a enlaçou.

— Estamos em ambiente de trabalho, Marcus. – Ela ainda estava chateada com ele.

— O que há de errado em cumprimentar minha garota? É só isso. – Ele a beijou rapidamente e


a soltou. – Não faz ideia de quem enviou essas flores? Acredita mesmo que aquele rapaz não faria
isso novamente?

— Não. Ele não me parecia tão corajoso. – Argumentou ela.


— Recebeu mais ligações restritas depois de ontem?

— Não! Você acha que uma coisa tem a ver com a outra? – Thaissa o olhou surpresa pelo
comentário dele.

— Não sei. Esperamos que não. – Marcus a olhou carinhosamente. – Vamos começar nosso dia
de trabalho. – Falou ele colocando as mãos dentro do bolso da calça.

— Quando você quiser – respondeu mais calma. Ela percebeu que a reação dele fora mais por
ciúmes que desconfiança. Por esse motivo, não insistiu em expor o assunto um pouco mais.

— Pode me acompanhar até minha sala? – solicitou Marcus.

— Claro, só me dê um tempinho que chego lá. – Marcus a viu pegar as flores sobre a mesa
antes de disfarçar seus ciúmes. Thaissa olhou o belo arranjo antes de coloca-lo em um canto.

Quando Thaissa entrou na sala, Letícia estava lá, sorridente como sempre.

— Olá, Thaissa! – Cumprimentou-a antes que Thaissa o fizesse.

— Bom dia, Letícia! – respondeu polida.

— Atrapalho alguma coisa? – A infantilidade da mulher deixou-a muda. ”Por qual razão ela
se comporta dessa forma tola?” – pensou Thaissa contrariada.

— Não se preocupe, Letícia, o melhor a gente faz em off – Não sabia de onde tirou aquela
frase, mas Thaissa ficou satisfeita por tê-la usado. – Marcus sorriu discretamente de sua resposta.

— Você tem toda razão. – disse a mulher seca. – Eu estava aqui conversando com Marcus
sobre a campanha daquele grupo de grãos que estão implantando uma nova unidade em Aparecida de
Goiânia e precisam colocar isso na mídia.

— Ainda não vi o esboço da empresa e o que desejam de fato mostrar, mas acredito que
poderemos incluir ele nessa fase dos projetos dos próximos dois meses. – Disse Marcus com os
documentos em mãos, que Letícia trouxe.

— Bom, vou deixa-los trabalhar agora. Preciso fazer o mesmo também. – Quando ficaram a
sós, Marcus a olhou malicioso.

— Hoje poderei confirmar sua visita ao meu recanto solitário?

— Em plena segunda-feira, Marcus? – Thaissa achou graça do comentário dele.


— No domingo é um ótimo dia. Mas como você preferiu não ir, pensei que talvez gostasse das
segundas-feiras. – Ela riu do comentário dele.

— Combinamos para a quarta-feira. Pode ser? – respondeu Thaissa segura.

— Aceito sua proposta. – Ambos sabiam que o desejo de estarem juntos era forte, mas
precisavam deixar as coisas acontecerem naturalmente.

— Você gostaria de dar uma olhada nesse projeto que Letícia trouxe para mim? – Quis saber
Marcus apontando a pasta.

— Se você quiser minha opinião, eu analiso sim, embora prefira deixar para vocês.

— Gosto de sua colaboração. Tem alma os projetos que você participa. – Elogiou-a.

— Como sabe disso? Você conhece pouco do meu trabalho para elogiá-lo assim. Vou acreditar
que está tentando apenas me agradar e se isso se confirmar, ficarei muito chateada.

— Participamos de poucas coisas juntos, eu sei, mas desde que cheguei aqui tenho revisto
alguns trabalhos já realizados para conhecer mais da nossa capacidade e para saber o que posso
esperar dessa empresa que se torna mais minha a cada dia, e que saber o que descobrir, senhorita! —
Que a maioria dos projetos que vi e gostei, eu soube que você estava envolvida, então posso afirmar
sim o que disse a pouco. – A confiança dele era tão grande que ela preferiu não discutir. Aliás,
Thaissa ficou feliz.

— Se é assim, retiro o que disse.

— Aceito suas desculpas. – Marcus pegou na mão dela sobre a mesa e acariciou-a indo até a
ponta dos dedos.

— Gostaria de almoçar com você hoje, mas terei uma reunião nesse horário. – Falou ele
apertando a mão dela.

— Algum problema com a empresa? – Embora a ligação a Fênix não fosse mais a mesma,
Thaissa ainda nutria grande amor pela empresa onde seu pai dedicou seus últimos anos e ela também.

— Não há nada com o que se preocupar, minha querida. São apenas questões burocráticas. –
Marcus disse para acalmá-la.

— Essa empresa sempre foi muito importante para meu pai e para mim. Não gostaria de vê-la
perder seu prestígio conquistado com muito trabalho e amor.
— Enquanto eu estiver aqui, prometo que farei o possível para manter o que construíram. Não
se preocupe. E caso tenha algum problema futuramente, eu irei te deixar a par, combinado?

— Obrigada pelo respeito com que tem tratado a mim e a meu pai, Marcus. Você agora é o
sócio majoritário e ainda assim nos trata como iguais, ao contrário de alguns. – Thaissa vinha
percebendo que vários membros da empresa não mais a tratavam da mesma forma respeitosa de
antes. O fato de não terem mais a maioria das ações, não era motivo para que a diminuíssem, mas
infelizmente alguns não pensavam assim e por vezes ela precisou fingir não perceber a indiferença de
colegas para manter um bom convívio profissional com todos.

— Você é e sempre será igual a mim ou a qualquer outra pessoa aqui. – Ele afirmara sério.

— Eu sei disso. Na verdade, não me importo com tais futilidades, apenas não me agrada saber
que algumas pessoas por aqui tratam aos outros conforme sua posição.

— Acontece com frequência coisas assim. Digo isso com experiência própria já que não nasci
tendo o dinheiro que tenho agora. Eu vivi isso, meu amor, e posso lhe garantir que sempre existirá,
cabe a nós determinar até onde irá nos afetar. – Marcus falava com o olhar cheio de calor.

— É verdade. Então deixamos que sigam conforme suas crenças, enquanto isso, vamos
trabalhando. – disse ela retribuindo o olhar dele.

— Sempre disposta em todos os sentidos. – Havia certa malícia nas palavras dele e Thaissa o
enviou um olhar irônico que fez Marcus sorrir largamente mostrando os belos e alinhados dentes
brancos. – Então vamos começar! Ajude-me com essa planilha aqui. – Marcus puxou a cadeira dela
para próximo da sua.

— Eu já te expliquei como funciona essa planilha, Marcus. Você a observa do final para o
início nessas duas a cima e da direta para a esquerda. – disse ela apontando para a tela do
computador. – Marcus se aproximou o suficiente para tocar no ombro dela com um leve beijo.

— Me desculpe se esqueci, mas não consigo me acostumar com esse sentido. – Marcus parou
de falar e a beijo um pouco mais até chegar ao pescoço dela, arrepiando-a toda.

— Poderia prestar atenção aqui, por favor. – Thaissa ralhou com ele embora estivesse
adorando a intenção de Marcus de seduzi-la. — O que está pretendendo com isso?

— Apenas dar um pouco de carinho a minha garota. – disse ele com fala mansa.

— Você está parecendo um adolescente, sabia. – Marcus girou o assento dela deixando-os
frente a frente.

— E quem não tem saudades dessa época onde acreditávamos cegamente no amor e queríamos
estar com o outro pela vida toda. Não me diga que não foi assim com você?

— Claro que foi, mas s sabemos que é uma fase de ilusões e que quase nunca sabemos de fato
o que desejamos.

— Eu sei disso, Thaissa, mas tenta lembrar o quanto era bom se sentir apaixonado mesmo que
durasse pouco tempo. Era mais gostoso, e se você está me achando um adolescente, então é porque
está gostando. – Thaissa tocou na face dele acariciando o belo rosto masculino.

— Esse amor vai passar logo? – perguntou ela carinhosamente ainda acariciando-o.

— Sinceramente, espero que não – respondeu Marcus com os olhos fechados sentindo o toque
dela.

— Que bom, porque eu também quero que dure. – Ela foi até ele e lhe beijou os lábios
convidativos. – Marcus a puxou para perto e beijaram-se ternamente.

— Acho que não renderemos nada no trabalho hoje. – disse Thaissa se ajeitando após se
separarem.

— Não temos muito o que fazer mesmo, agora pela manhã. – justificou ele.

— Então vou levar as cópias do projeto comigo e estuda-las, pode ser?

— Claro, meu amor. Se prefere fugir de mim, tudo bem. – Marcus se levantou e foi até o
scanner copiar os documentos. – Aqui estão e bom trabalho para você! — falou após as folhas
ficarem prontas. – Thaissa foi até ele pegar os papéis que tinha em mãos.

— Vou para sua casa hoje. – Disse ela, próxima ao ouvido dele.

— Puxa! Ainda bem que você percebeu minha carência. – Quando ela pegava as folhas Marcus
as prendeu do outro lado.

— Poderia soltá-las, por gentileza! – Thaissa forçava uma carranca.

— Estamos combinados, então, hoje? – perguntou ele sorrindo e mordendo o lábio inferior.

— Eu já disse que sim. – Marcus a entregava o que pedia quando a secretária entrou e ambos
se afastaram.
— Vou fazer a leitura e depois discutimos. – disse Thaissa virando-se para sair. – Bom dia,
Camila!

— Bom dia, Thaissa – respondeu a moça, abrindo espaço para Thaissa passar.

No corredor, Thaissa ainda os ouviu falar sobre o provável almoço que Marcus teria e que o
manteria ausente.

Já em sua sala, Thaissa folheou o documento e começou a lê-lo.

Faltavam poucos minutos para sair, quando ela ouviu o elevador. Acreditou ser Marcus que já
descia para o encontro, mas para sua surpresa era Letícia quem o usou.

— Vejo que está lendo o esboço que passei ao Marcus. – Comentou ela, entrando e se
aproximando da mesa dela.

— Sim, estou conhecendo um pouco dele. – Thaissa continuou com a leitura.

— Me parece que a relação de vocês é promissora. Parabéns, Thaissa! – disse a outra se


sentando.

— Espero que seja. – Thaissa não tinha a intenção de abrir sua vida particular a alguém,
principalmente a ela. Com isso, deixou-a perceber que desejava que o assunto terminasse ali.

— Boa sorte para você. Acredito que precisará muito, pois manter um homem rico e bonito
como Marcus é privilégio de poucas.

— Não acredito que seja um privilégio. Eu preferia dizer merecimento, pois há muitas pessoas
por aí que mesmo se quisessem não teriam esse prazer. Não fazem questão alguma de merecer algo
bom. Vivem quebrando a cabeça e ainda reclamam da vida.

— Bonitas palavras as suas. Mas na prática não é bem assim. – criticou Letícia percebendo a
indireta.

— Cada um tem seus próprios conceitos. Respeito o seu. – Thaissa ergueu os olhos fixando-os
na mulher.

— Eu vou indo, desejo mesmo que tudo dê certo entre vocês.

— Obrigada! – disse Thaissa vendo-a partir.

O almoço de Thaissa fora rápido. Havia optado por fazer a refeição em um restaurante
próximo à empresa onde costumava ir com frequência nos últimos anos. Quando retornou, percebeu
que Marcus não estava como ela havia previsto. Com tempo livre, leu e releu o projeto. Quando se
encontrassem, ela já teria alguma ideia para ajudar a montar a campanha para a mídia.

Havia se passado uma hora depois do retorno de Thaissa, e ela não teve notícias de Marcus.
Caso não o visse até o final do expediente, ligaria cancelando o encontro. Provavelmente ele estaria
cansado. Retornando às suas anotações, ela perdeu-se no tempo e só percebeu as horas quando seu
telefone tocou.

— Meu amor, eu não retornarei à empresa hoje. Ficarei te esperando após às 20h. – disse ele
do outro lado da linha, assim que ela atendeu.

— Se estiver muito cansado, podemos combinar para outro dia.

— Você tem razão quanto ao cansaço, minha linda, mas tenho certeza que sua presença aqui irá
aliviar meu corpo e me permitirá um melhor descanso depois que fizermos amor. – Thaissa sorriu
baixinho pelo comentário dele.

— Você é quem decide, mas saiba que eu não me importo se preferir adiar nosso encontro. –
Insistiu ela.

— Quero você aqui no horário combinado ou irei do outro lado da cidade busca-la. O que vai
ser? – Marcus parecia irredutível e Thaissa encerrou o assunto.

— Estarei aí à noite – reafirmou ela.

— Beijos, até mais tarde. – despediu-se ele.

— Outro para você também. – Thaissa desligou e foi organizar suas coisas. Olhando o buquê
dentro de um vaso ao canto, Thaissa decidiu que o deixaria ali. Não levaria para casa já que não
sabia quem era o destinatário, e isso tornava as belas rosas, sem nome e sem importância. As
deixaria ali por consideração a beleza do arranjo, apenas por isso. No dia seguinte se desfaria delas.

Em casa, Thaissa tomou seu banho demorado e depois hidratou seu corpo calmamente. Em
seguida separou uma de suas lingeries nova e foi cuidar do cabelos.

Faltava cerca de meia hora para o encontro com Marcus quando saiu de casa. Deixara um
recado ao pai que fora jogar baralho com alguns amigos, dizendo que passaria a noite na casa de
Marcus.

Thaissa pegou a via principal de seu bairro e seguiu. No meio do caminho, percebeu que havia
uma 4x4 que a acompanhava há tempos. Havia percebido que o carro estava sempre em seu ponto de
visão, e começava a achar que o percurso estava ficando muito longo para seguirem juntos. Após
dirigir um pouco mais, decidiu que pararia no próximo local movimentado e deixaria que o outro
automóvel seguisse em sua frente. Quando ela estacionou a frente de um restaurante, o carro passou
lentamente por ela. Como os vidros eram fumês, não pôde ver o motorista, mas acreditou que ele a
olhava. Alguns minutos depois, e mais tranquila, ela seguiu viagem. Talvez fosse apenas impressão
sua. Estaria criando ilusões. Goiânia, assim como todas as cidades maiores, eram muito
movimentada e cheias de perigo, o que deixava seus moradores com neuras em excesso.

Quando chegou, Marcus a esperava na varanda.

— Algum problema? – Marcus se aproximou percebendo que o semblante dela estava com
certa tensão.

— Não! Está tudo bem. Tive apenas um pequeno transtorno no percurso. – Ela não queria
entrar em detalhes. As chances de estar errada eram grandes.

— O que aconteceu? — perguntou ele se aproximando dela.

— Eu acho que foi tolice minha, mas tive a impressão que um carro me seguia. Durante grande
parte da viagem uma 4x4 estava atrás de mim e, algumas vezes, diminui a velocidade para deixar que
ela me passasse, mas o motorista parecia não querer fazer isso. Mas no final deu tudo bem. Deve ser
só uma coincidência. – disse aparentemente tranquila.

— Pode ser, mas é bom ficarmos atentos. Ultimamente têm acontecido fatos com você que tem
começado a me preocupar. – Marcus a abraçou e começaram a seguir para dentro.

— Talvez eu esteja criando muitas coisas em minha imaginação. – disse ela para amenizar a
tolice que fizera ao comentar com ele aquele assunto sem importância.

— Tudo bem, mas não custa ficar mais atenta aos detalhes que surgirem a partir de agora, e
quero saber quando acontecer, por menor que seja, combinado? – Perguntou ele a virando e ficando
frente a frente com ela.

— Combinado! – A sala estava com pouca claridade e Thaissa aconchegou-se nos braços dele
por alguns segundos quando entraram.

— Você devia deixar algumas peças de roupas suas aqui, assim não precisaria ficar carregando
malas. – Marcus deixou na poltrona a necessaire dela que pegara no banco do passageiro.

— Isso não é uma mala, meu querido. – Argumentou Thaissa sorrindo e um pouco menos
agitada.

— Tudo bem, mas continuo acreditando que seria muito bom trazer algumas coisas suas para
minha casa. – Ele gostaria de ter um pouco dela ali quando Thaissa não pudesse estar.

— Se esse é o seu desejo, vou providenciar isso. – Abraçaram-se carinhosamente, e Thaissa se


sentiu como quando criança e era abraçada pela mãe quando ralava os joelhos.

— Venha que eu fiz uma massa para nós. – Marcus a levou ainda abraçado a ela para a cozinha,
impecavelmente limpa.

— Você não quer que eu acredite que você fez molho e a cozinha permanece assim, tão limpa
depois disso. Você quer? – Marcus a abraçou fingindo estrangulá-la.

— Eu fiz quase tudo. Só não cozinhei e nem fiz o molho. Minha funcionária fez antes de ir
embora. Mas eu coloquei o macarrão no refratário e adicionei o molho. Organizei os copos, os
talheres, o vinho tinto e suave que você gosta. Ou seja, fiz quase tudo.

— É verdade. Tenho que admitir que você trabalhou muito mesmo. Desculpe-me ter duvidado
de você? – pediu ela abraçando-o.

— Claro que sim, meu amor. Sente-se. – Marcus a ofereceu a cadeira e sentou-se à sua frente.

— Havia me esquecido que seu pai está em casa. Se tivesse me lembrado disso teria deixado
para busca-la mais tarde, assim jantaria com ele. – falou Marcus, assim que se sentou e começou a
servi-los.

— Meu pai não gosta muito de ficar em casa e já havia saído para jogar pôquer com os amigos.

— É mesmo! Então não atrapalhei vocês.

— Não havíamos combinado nada e talvez ele tenha ido pensando que eu viria para sua casa.
Eu fico feliz em saber que ele esta vivendo a vida dele, estando próximo ou não de mim, isso é o que
importa de fato.

— Você tem razão, minha querida.

— Eu sei que tenho. Na verdade eu e meu pai tivemos um período ruim entre nós, porém isso
já passou e quero apenas que ele seja feliz. Que siga sua vida.

— E você Thaissa, está conseguindo seguir com a sua? Com seus medos? – perguntou ele,
amorosamente.
— Tenho tido avanços. Sinto que irei vencer minhas dificuldades logo. – falou confiante.

— Você irá conseguir. É uma mulher forte e correta. – disse ele, apoiando-a.

— Sim eu irei. Muito do que nutria dentro de mim já consegui minimizar. Agora é praticar e
praticar até que minha mente aceite o que pede meu coração.

— Quero ajuda-la no que for preciso. – Marcus pegou em sua mão e a levou aos lábios,
beijando-a.

— Você pode não ter percebido, amor, mas tem me ajudado muito. Principalmente com suas
broncas. – Era verdade e Thaissa precisava lhe dizer isso.

— Fico feliz que tenha compreendido que meu único intuito era tornar a convivência de vocês
mais pacifica possível. Jamais pedi que fossem amigas e acho até que isso seria muita pretensão
minha. Mas a partir do momento que você deixa de alimentar uma mágoa ou algo assim, ela se torna
mais branda, pois você não se rende a ela e não a dá vida dentro de você. Quando menos esperar, ela
terá morrido.

— Tenho percebido isso. – Thaissa provou da massa mostrando-se satisfeita.

— Tenho a impressão que terei dificuldades em manter o peso com você por perto – reclamou
ela.

— Meu amor, você está muito bem. Não há com o que se preocupar. Você esta linda assim.
Alias, tenho um mousse de maracujá no refrigerador. — Obrigada, mas prefiro continuar com os meu
peso de costume que já tenho há alguns anos intactos, e quero permanecer. Mas também não posso
deixar de comer o que gosto, então, aceito o mousse.

Fizeram a rápida refeição e Marcus buscou a sobremesa no refrigerador o trazendo para a


mesa.

— Saiba que trazer toda a sobremesa para perto é um perigo. O melhor seria colocar uma
pequena quantidade para cada um e guardar o restante.

— Vocês mulheres inventam cada uma. – Marcus abaixou-se após colocar uma pequena
quantidade da sobremesa em sua boca e a beijou com sabor de maracujá.

— Hum. Sobremesa deliciosa! – disse Thaissa passando a língua em volta dos lábios com
vestígios da fruta.

— Já não está mais preocupada com a balança? – Brincou ele.


— De forma alguma. Até esqueci disso agora. — Marcus sentou-se próximo dela e lhe deu um
pouco mais com a ponta dos dedos passando na boca dela.

— Posso provar da sua sobremesa? – perguntou ele, aproximando-se e passando a língua no


lábio inferior onde deixara o mousse. – A mistura dos sabores se tornou afrodisíaca e se
abandonaram no beijo. A sensação fora tão maravilhosa que quando percebeu, Thaissa já estava com
seu vestido caído em sua cintura e Marcus colocava uma pequena quantidade da mistura fria no bico
de seu seio arrepiando-a toda. Lentamente ele começou a lamber em volta da aureola retirando o
mousse, pouco a pouco, até que sobrasse apenas a pele clara e macia pronta para ele. Marcus sugou
deliciado o mamilo intumescido. Dando leves mordidas no bico e deixando-a cega de desejo.
Enroscando seus dedos nos cabelos dele, Thaissa o trouxe para mais perto deliciando-se com a
agradável sucção que ele fazia em seu seio.

— Que delícia, amor! – disse ela em sussurros.

— Adoro te ver assim, minha querida, totalmente entregue ao prazer. Isso me excita ainda mais.
– Marcus a levantou fazendo com que o vestido caísse no chão, deixando-a seminua.

— Adoro também uma mulher de lingerie e você fica linda em uma. – Marcus acariciou os
seios dela beijando-os juntos. Enquanto Thaissa se segurava para não gritar de prazer.

— Seus toques me deixam sem razão. Parece um deus da paixão me possuindo. – Confessou
sentindo o delicioso contato da língua morna percorrendo seus mamilos.

— Eu devia mesmo te castigar por ter me atormentado tanto antes de me deixar sentir seu
corpo, seu cheiro e seu sexo. – Ele desceu uma das mãos e a tocou intimamente, acariciando-a.

— E você adorava não é. Gostava de ser maltratado e ignorado por mim. – Marcus a penetrou
com o dedo, castigando-a mais.

— Eu não gostava não. Isso nunca aconteceu comigo antes e acredito que este fato tenha
despertado ainda mais os meus desejos primitivos, aponto de não conseguir mais resistir e querer te
possuir de qualquer jeito. Correndo todos os riscos que fossem necessários. Até de ser acusado por
assédio. Eu te queria muito, Thaissa, e continuo querendo, acho que até mais. – Ouvir aquela
confidência a encheu de alegria.

— Você também foi o homem que mais mexeu comigo em toda minha vida. Não pense que foi
fácil resistir a você. Eu o desejava cada vez que o via surgir em minha frente com seus lindos olhos
cinza, cheios de promessas e fogo. – Marcus pegou na mão dela levando-a até sua intimidade.
— É isso o que faz comigo, desde o momento em que chegue aqui e a reencontrei. – Thaissa
acariciou a rigidez dele, apertando-a o quanto pôde sobre a calça.

— Me possua agora. – pediu ela abrindo o zíper da calça dele.

— Só mais um pouco, meu amor. Quero tocá-la mais. – Marcus acariciou o ventre dela subindo
lentamente até a cintura delicada. Desviando seu percurso ele levou suas mãos para as costas
lindamente femininas e a tocou nas nádegas firmes, trazendo o corpo de Thaissa e esmagando-a
contra a dureza de seu membro. Rapidamente ela lhe abriu a calça, puxando-a para baixo e se
encostou nele novamente para sentir mais próximo o contato de seus corpos. Marcus abandonou suas
roupas ali mesmo e empurrou, carinhosamente, Thaissa para a parede onde se livraram das peças que
restavam. Ele a ergueu em seus braços e então a penetrou.

Ao sentir-se possuída, Thaissa cruzou suas pernas em volta da cintura dele enquanto Marcus
acariciava seu corpo lentamente, começando a deliciosa dança do vai e vem sentindo-se totalmente
sua. Após alguns deliciosos segundos naquela posição, ele percebeu que Thaissa estava realizada, e
entregou-se também sentindo o alívio que todos os mortais apreciavam quando concluíam o ato de
amor.

Ficaram abraçados ali por algum tempo, até que Marcus se afastou a ajudando se recompor.

— Venha, meu amor. Vamos tomar um banho. – Foram abraçados para o banheiro, lavar-se.

A água morna caindo sobre os corpos, deixou-os ainda mais leves. Ajudaram-se no banho
como dois adolescentes descobrindo o corpo um do outro.

Terminada a ducha Marcus a cobriu com uma toalha macia e cheirosa, abraçando-a.

— Quer ver TV um pouco, meu amor? – perguntou ele enquanto se enxugavam.

— Prefiro uma caminha gostosa.

— Eu também! – respondeu ele pegando as toalhas e as levando de volta ao banheiro. –


Quando retornou, Thaissa estava nua na cama, chamando-o.

— Venha meu amor! – Marcus obedeceu prontamente e se aninharam.

— É tão gostoso esse contato aqui. Por que será que fugimos tanto dele nos dias de hoje.
Fingindo que não é importante ter alguém para dividirmos uma cama, os sonhos? – perguntou
Thaissa.

— Talvez porque pensamos mais nas dores que poderemos ter aa beleza do que viveremos
quando estamos apaixonados. – Marcus acreditava muito no que dissera. Se incluía prontamente
nessa estatística do mundo moderno.

— Temos medo de amar. Essa é a verdade. – falou Thaissa segura.

— Até que o amor chegue e nos prove o contrário. – Conclui Marcus.

— Ou até que esqueçamos o quanto é bom viver nele. – Thaissa senti-a se envolvida por uma
magia única. Que muitas mulheres talvez jamais teriam o prazer de experimentar em toda sua vida.

— É verdade, muitos acabam por esquecer e perde a chance de desfrutar de tudo isso aqui. –
disse ele, abraçando-a fortemente.

— Nem sempre reconhecemos no simples o lado bom da vida. Estamos em constante evolução
e precisamos ficar atentos antes que o tempo termine e só então descubramos que o bom da vida é
poder viver as coisas pequenas e belas dela. – Ambos sabiam dessa verdade assim como a maioria
das pessoas que a conheciam como eles estavam tendo o prazer.

— Então fica aqui juntinho de mim, que não quero perder uma só grama desse precioso tempo.

Marcus a envolveu pelas costas e assim ficaram até adormecerem.


CAPÍTULO 39

Marcus acordou antes que Thaissa e aproveitou para observá-la um pouco. Ambos tinham
maturidade, gostavam das coisas simples e desejavam estabilidade na relação. Tudo isso era muito
importante, mas havia outra coisa entre eles que o estava agradando e muito. Conversavam sempre
sobre a vida, os medos e as angustias. Nas relações anteriores que tivera, em nenhuma houve tanto
entrosamento no diálogo quanto estava tendo com Thaissa. Isso lhe permitia se abrir como jamais
fizera, podendo ser o homem que guardara dentro de si por anos. Em certos momentos, sentia-se
como um adolescente, e isso o incomodava um pouco. Ele não gostava de parecer um tolo diante
dela, embora fosse nesses momentos que Marcus se descobria mais apaixonado. Thaissa lhe passava
segurança para se abrir sem medo. Tudo nela inspirava verdade e se mostrara digna de receber o
afeto dele da forma mais verdadeira possível. Thaissa se mexeu na cama. Tivera uma noite tão
tranquila e feliz que não queria abrir seus olhos para a realidade. Sentia-se tão feliz e em paz ali ao
lado de Marcus, que tudo que deseja era não precisar sair daquele conforto. Contrariada, ela
concluiu que precisa abri-los olhos para o novo dia que surgia e que fosse belo enquanto possível.
Ao abri-los, deparou com os mais lindos pares de olhos, observando-a.

— Bom dia! – falou Marcus, beijando-a levemente nos lábios.

— Bom dia meu amor! – Thaissa ajeitou-se melhor para vê-lo. – Está acordado há muito
tempo? – Quis saber ela.

— Não! Foi agora há pouco. Quer comer alguma coisa antes de ir para o trabalho? – perguntou
Marcus.

— Que horas são? – Thaissa olhou para o lado a procura de um relógio.

— São 06:30h. É possível tomar seu banho tranquila e comer antes de irmos para a empresa. –
falou Marcus mexendo nos cabelos dela sobre o travesseiro

— Ótimo, então vou ao banheiro. – disse ela se levantando.

— Vou tomar meu banho no quarto ao lado, porque se o fizermos juntos, penso que iremos nos
atrasar. – Comentou ele vendo o corpo dela nu e sentindo-se tentado.

— Acho uma boa ideia. – Thaissa entrava no banheiro quando percebeu que Marcus a
acompanhava com os olhos. – Vá tomar seu banho e pare de me olhar como se fosse uma fera
faminta! – Ralhou ela, entrando sem esperar pela resposta dele. Marcus sorriu em silêncio. Além de
linda e inteligente, Thaissa ainda tinha bom senso de humor. Era perfeita para ele.

Quando Thaissa chegou à cozinha já pronta para o trabalho com roupa trocada e leve
maquiagem, Marcus a aguardava.

— Você prefere chegar sozinha à empresa ou iremos juntos? – Marcus perguntou quando
pegava uma fatia de bolo. Havia receio em sua voz e Thaissa compreendeu que ele não desejava
fazer a pergunta.

— Vamos cada um em seu carro, mas podemos chegar juntos se é o que deseja meu querido. –
Ela percebeu que o rosto dele ficara mais suavizado.

— E o que você deseja Thaissa? – Quis saber ele.

— Entrar na Fênix com você, claro! – falou ela sem desviar os olhos dele. – Marcus mordeu
em um pedaço do bolo visivelmente feliz. Comeram rapidamente e cada um pegou seu carro seguindo
juntos. Durante o trajeto, Thaissa se lembrou do ocorrido na noite anterior. Agora sentia-se tão
segura que qualquer carro que passasse por ela devagar ou acelerado não a assustaria como
acontecera quando fazia o trajeto para a casa de Marcus.

Thaissa foi a primeira a entrar no estacionamento. Marcus vinha logo atrás como fizera durante
todo o percurso. Assim que ela estacionou seu carro, ele fez o mesmo ao seu lado.

— Quer ir pelo elevador ou escadas. – perguntou a Marcus assim que ele também saiu do
veículo dele.

— Vamos pelo elevador. – Ajeitando sua bolsa no ombro e a pasta em uma das mãos, Thaissa
lhe ofereceu a outra para seguirem juntos. Entraram no elevador vazio e solicitaram o andar. Quando
a porta se abriu no quarto andar, saíram de mãos dadas como pedia a ocasião. Um friozinho
percorreu a espinha de Thaissa quando percebeu que eram alvos de vários olhares disfarçados. Um
leve aperto da mão de Marcus sobre a sua, tirou-lhe o mal estar que sentia. Se estivessem curiosos
ou pensando que ela estava com Marcus por ele ser agora o sócio majoritário da empresa, o
problema era de quem pensasse assim. Não daria espaço para esse tipo de bobagem em sua mente e
na relação deles. Ambos sabiam da paixão que nutriam antes mesmo de ela deixar de ser acionista
majoritária com seu pai.

— Bom dia! – Cumprimentou-os Paula educadamente e com um leve sorriso no rosto.

— Bom dia! — Retribuiu Thaissa, alegre. De todos ali, Paula era uma das poucas pessoas que
falaria algo sobre sua vida pessoa. Marcus também cumprimentou a jovem e seguiram juntos.
— Pronto você não perdeu nenhum pedaço. – Brincou ele quando já entravam na sala dela.

— Eu sei que não. – Thaissa deixou suas coisas sobre a mesa e virou-se para ele.

— Adorei desfilar com você por aí. – Marcus a pegou pela cintura e a beijou levemente para
não borrar a maquiagem linda e suave que ela fizera.

— Vou colocar algumas coisas em ordem, meu amor. Nos vemos mais tarde. – Marcus saiu
deixando-a nas nuvens.

De volta à realidade total, Thaissa percebeu que não era ruim como pensou que seria. Apenas
os vários documentos que a secretária deixara sobre sua mesa a incomodava naquele momento.
Sentando-se, ela começou a analisa-los.

Tempos depois, Thaissa fez suas análises do projeto e já tinha sua impressão dele, mas não
procurou Marcus. Ele havia dito que teria muito trabalho a fazer, e ela preferiu não incomodá-lo.
Teriam disponibilidade suficiente para verem-se fora do ambiente empresarial, e não precisavam
estar juntos, o tempo todo.

O horário de almoço chegou, e Thaissa saia despreocupada quando Letícia se aproximou dela.

— Bom dia, Thaissa! Soube que já assumiu seu relacionamento em público com Marcus. Por
que demorou tanto? Estava com medo que pensassem que você se envolveu com ele apenas por que
agora é ele quem comanda tudo? – A mulher tinha a maldade estampada em sua voz.

— Imagine, Letícia, se tenho essa preocupação. As pessoas que me conhecem bem aqui, jamais
pensariam isso de mim. E os que pensam, bom, certamente não me conhecem e isso já é o suficiente
para eu não me importar com suas opiniões. – Thaissa falou com tamanha calma que ela mesma se
assustou.

— Será mesmo que não se importa? Acho que se importa sim. – Thaissa ficou chateada por se
deixar transparecer diante daquela mulher diabólica.

— Quando foi que você começou a estudar psicologia, Letícia? Pensei que sua formação fosse
outra mais mundana. – disse ela, devolvendo na mesma moeda o sarcasmo da outra mulher.

— O que quer dizer com isso? – Ambas se olhavam com naturalidade extrema como se
falassem de um assunto qualquer. Mas seus olhos mostravam-se diferentes.

— Que desconheço essa formação em você – respondeu Thaissa sem dar detalhes. Estava
claro que a outra entendeu bem seu recado.
— Pobre Thaissa! Quando perceber você já terá sido esquecida a muito tempo. É sempre
assim, querida. Não se apegue muito aos homens. Como dizia Merilyn, “deixe os antes que a
deixem”.

— Quanto ressentimento, Letícia. Vindo de você, eu poderia até acreditar que levou um
tradicional chute na bunda e nunca conseguiu se reerguer novamente, tornando-se rancorosa dessa
forma.

— Sou apenas uma mulher racional, querida. Mas tudo bem, se divirta. – O assunto parecia ter
ficado chato para a mulher.

— Obrigada e você também. – Agradeceu, Thaissa.

— Com certeza, vou me divertir. – Thaissa começava a perceber que por baixo daquela
máscara de promiscuidade de Letícia havia uma mulher ferida e disposta a nunca mais se sentir
usada. O que ela provavelmente não conseguia concretizar pela forma baixa de agir em especial com
ela própria. isso.

Thaissa fora almoçar em casa com o pai que lhe contou ter chegado altas horas em casa devido
ao jogo de pôquer. A conversa correra tão amistosa que quando percebeu, estava passando o horário
de retornar a Fênix.

— Pai, preciso ir, já é tarde. – disse se levantando.

— Me desculpe atrasá-la, minha filha, também não percebi que o tempo correu. Vá! Falaremos
mais em outra ocasião. – Thaissa o deixou e foi para a garagem em busca de seu carro.

O trânsito estava horrível no horário de pique naquele dia. Thaissa optara pela Avenida
Anhanguera sem perceber, e acabou atrasando-se ainda mais.

Quando chegou, haviam se passado vinte minutos do horário. Apressada, ela conseguiu chegar
logo até sua sala. Estava guardando sua bolsa quando mais uma vez se deparou com seu maior
obstáculo emocional.

— Vim procurar por você e não a encontrei. – Letícia parecia disposta a conseguir o que não
tivera horas antes.

— Me atrasei em casa. – Não tinha que justificar seu atraso para ela, mesmo assim o fez.

— Acontece, às vezes.

— Seu pai, como vai Thaissa? Não o tenho visto.


— Ele está muito bem, obrigada. – Thaissa pegou uma pasta de arquivos e começou a folhear
os papéis.

— Agora ele está trabalhando muito menos que antes. Acredito que esteja muito bem mesmo. –
Thaissa não gostou do comentário dela.

— Ele trabalha menos, porque já fez muito por essa empresa. E só não está aqui agora dando
seu sangue como sempre fez, porque não é mais sócio majoritário e você sabe os motivos.

— É óbvio que não sei! A única coisa que posso lhe garantir é que seu pai deixou de ser
empresário de grande visão que era, e por isso perdeu seu lugar. – Thaissa ficou com o rosto pálido e
Letícia se mostrou satisfeita por conseguir atingi-la dessa vez. – Aliás, acho que ele fez muito bem
em se afastar da diretória. Agora estamos conseguindo mais espaço no mercado que durante a
direção dele.

— Poderia sair daqui, Letícia? – pediu ela, olhando fixamente para a mulher.

— Desculpe-me querida! Mas essa empresa é mais minha que sua, ou seja, não tenho que fazer
o que pede. — Thaissa cerrou o punho em busca de paciência.

— Não importa o quanto eu ou você tenha aqui dentro. Devemos nos respeitar por igual. Foi
essa a forma de trabalhar do meu pai em todos esses anos.

— Seu pai não tem mais palavra aqui e nem você. – A mulher sorria alegre. Quando percebeu
que Thaissa vinha em sua direção ela recuou disfarçadamente.

— Você tem sido a pior de todas as mulheres que conheci em minha vida. É suja, tanto por
dentro quanto por fora. Não tem qualquer respeito por você. É digna de pena e é exatamente isso que
sinto por você agora, Letícia. Muita pena por ver que sua vida é tão vazia e cheia de tristeza. Só não
sinto mais, porque sei que foi você mesma quem plantou isso. Agora saia daqui! – A mulher
permaneceu onde estava e quando Thaissa deu mais um passo disposta a jogar para fora o resto da
mágoa que ainda tinha por aquela mulher. Marcus surgiu no corredor.

— Algum problema com vocês? – perguntou ele se aproximando.

— Marcus, você precisa dar mais atenção para ela. – disse Letícia apontando a grande unha
vermelha para Thaissa. — Ela está estressada, e isso pode torna-la agressiva. – Marcus olhou para
ambas em busca de resposta. Como não teve se pronunciou.

— Eu sei que vocês duas tem suas desavenças, mas já disse que isso precisa ser superado. Já
fiz essa solicitação diversas vezes. – Ele parecia tão cansado quanto Thaissa daquele joguinho.

— Letícia que é muito exagerada, amor. Discutíamos como qualquer colega de trabalho. Ela
que não entendeu minhas palavras e as interpretou erroneamente. Se falávamos de forma áspera uma
com a outra é porque defendemos a todo custo nosso ponto de vista individual. Ela expos o dela e eu
estava colocando o meu no momento. Foi apenas isso! – Letícia a observou calada. – Não está
havendo nenhum tipo de desavenças aqui. – Afirmou Thaissa.

— Se é assim, tudo bem. – Marcus preferiu entrar no jogo delas, assim aquela conversa
terminaria ali. – Mas evite se defenderem em excesso, porque essa moda pode pegar. – disse
disfarçando um sorriso.

— Chegando agora, Marcus? – perguntou Letícia olhando de um ao outro.

— Sim, Letícia. Como você já sabia, eu tive um almoço demorado com um cliente que veio de
outra cidade. – Thaissa olhou para a outra mulher com olhar gelado. Ela sabia que o almoço seria
longo, e ainda assim fez todo aquele drama. Por alguns instantes, Thaissa se sentiu mal por dar
atenção àquela mulher. Mesmo inconsciente, ela se sentiu mexida pelas palavras da outra.

— Vou organizar minhas coisas e assim que precisar de mim, ligue no meu ramal! – Thaissa
deu um leve sorriso para ambos e começou suas atividades, ignorando-os. Logo viu-se sozinha e
pôde refletir um pouco. Thaissa abriu uma gaveta que há muito tempo não abria e pegou uma pequena
caixinha que sua mãe lhe dera quando pequena e soprou dentro dela lentamente. Sua amada mãe
costumava dizer que ali ela deveria colocar suas angústias, ira e tristezas. Sempre que fazia aquilo
quando pequena, parecia surtir efeito. Lembrando-se do quanto era bom aquele ato, Thaissa o fez
para espantar a saudade e o peso que ainda carregava em sua alma.

— A mágoa é algo que se enraíza muito rapidamente dentro de nosso corpo. Quando se
percebe o quão vazio é ela, é que vemos sua real profundidade e dificuldade de vencê-la. – disse
Thaissa olhando a foto de sua mãe sobre a mesa, como se a confessasse sua fraqueza. – Mas eu vou
conseguir me livrar dela. Prometo! – Thaissa colocou a caixinha em seu lugar novamente e após
alguns segundo em silêncio, voltou sua atenção para os arquivos que precisava colocar em ordem de
montagem.

Tempos depois do que acontecera, Marcus ligou no ramal de Thaissa.

— Pode vir aqui agora, Thaissa? – perguntou ele assim que ela atendeu a chamada.

— Sim! Estou indo. – Thaissa encheu-se de confiança e foi ao encontro dele. Provavelmente,
Marcus falaria alguma coisa sobre ela e Letícia. Ouvir sermão de namorado não deveria ser nada
bom.

Quando Thaissa entrou, ele a recebeu com o mais belo de seus sorrisos deixando-a rendida e
curiosa. Mais tranquila e acreditando que não haveria comentários sobre o ocorrido, ela sentou-se
na frente dele.

— Fechei um ótimo contrato hoje com um fabricante de cervejas que deve trabalhar conosco
até a copa de 2.014, divulgando-o. Segundo eles, a partir do final do ano irão intensificar a
divulgação nos Estados onde a marca ainda não é muito consumida e também onde haverá jogos do
evento, e seremos nós, os responsáveis pelo processo de montagem para âmbito nacional. – Aquela
notícia a levou às nuvens.

— Thaissa, eu posso contar com você? – perguntou Marcus entusiasmado.

— Claro que sim. Sempre! – Marcus acariciou as mãos dela sobre a mesa.

— Fiquei muito feliz com a notícia e imagino que para você, ela seja ainda mais importante. –
Comentou ele, olhando-a com um brilho em seus olhos que deixava Thaissa encantada.

— Minha relação com essa empresa é de fato mais íntima – respondeu Thaissa retribuindo ao
sorriso dele.

— Essa marca de bebida tem políticas boas? O que sabe sobre ela? – perguntou ela mudando o
assunto.

— Aparentemente, sim. Havia feito uma pesquisa sobre ela antes do encontro, mas pouco
soube a respeito, já que é nova aqui no Brasil. Mas conversando com seu dirigente percebi se tratar
de uma empresa promissora. Aparentemente, trabalham com qualidade no produto. O capital que
pretendem injetar aqui também é muito satisfatório. No mais a clientela ajudará e muito. – Ambos
sorriram do comentário dele.

—É verdade embora cada região pareça ter sua preferência, o brasileiro, no geral, gosta muito
dessa bebida. Com relação às preferências e gostos, discutiremos depois. – comentou ela.

— Sim, veremos tudo isso para montarmos o projeto de divulgação deles. Agora eu preciso
dar uma olhada no documento que Letícia passou, e sei que você já deve ter feito isso também.
Preciso juntar os pontos de vista para enviar para ela novamente, pois já irão precisar organizar os
primeiros passos na próxima semana. Tem um tempinho disponível hoje à noite para fazer isso, já
que agora não poderei. Vou apresentar esse projeto da cerveja a dois colegas logo. – Thaissa olhou
para ele visivelmente desacreditada do que ouvia.

— Será que teremos bons resultados com essa reunião noturna e fora daqui? – perguntou ela,
batendo os dedos na madeira da mesa.

— Claro que teremos de uma forma ou de outra. – Havia um lado garoto em Marcus, quando
estavam juntos, que a agradava muito.

— Imagino que sim. Mas que fique bem claro que não gosto de trabalhos em horas extras.
Aceitarei este, porque vejo que você está muito empolgado e se trata de uma empresa de grande
porte e necessitará de mais trabalho de análise de mercado.

— Agradeço a compreensão e prometo lhe restituir. – A última palavra pronunciada a fez rir.

— Vai convidar Letícia para ajudar nessa campanha? – perguntou ela, fingindo inocência.

— É óbvio que não, meu amor. Em minha casa o espaço está meio pequeno. Seremos apenas
nós dois. Falarei com ela sobre o projeto amanhã. – Thaissa observou atentamente o belo rosto de
Marcus, imaginando se viveriam aquela fase por longo tempo ou logo um deles procuraria outro
porto.

— Por que me olha assim? – Quis saber ele curioso.

— Estou enamorada, não posso? – respondeu ela, fingindo estar contrariada com a pergunta.

— Fique à vontade. – Thaissa descobria que o bom humor era um grande aliado nas relações.

— Tem sido muito bom ter você comigo. – Marcus disse sem desviar os olhos dela.

— Para mim também! – respondeu Thaissa.

— Que bom que estamos partilhando dos mesmos sentimentos. – Falou ele. – Trocaram um
leve beijo e Thaissa se levantou anunciando que retornaria para seus afazeres.

— Nos falamos à noite. Chego em sua casa no mesmo horário. – disse ela, virando-se e
partindo.
CAPÍTULO 40

Thaissa estava pronta para seguir para a casa de Marcus quando seu pai chegou.

— Vai jantar em casa hoje, pai? Imaginei que não iria e marquei um compromisso. – Disse ela
ao vê-lo.

— Não se preocupe, filha. Vou me recolher bem cedo e não pretendo jantar. Amanhã retorno às
minhas andanças e devo ficar uns bons dias fora.

— É verdade, havia me esquecido. Então vou me despedir hoje, pois acredito que não o verei
amanhã. – Deram-se um abraço fraterno e após algumas palavras, Thaissa partiu.

Durante o trajeto, ela se sentiu novamente vigiada. Sempre que saia à noite nos últimos dias,
estava tendo a impressão de que era observada. Ficara paranoica com aquela situação desde o dia
em que seguia para a casa de Marcus. Precisava deixar essas tolices de lado, mas era uma sensação
muito forte para que ela a ignorasse.

Thaissa seguia certa de que aquilo fora ilusão sua quando em uma parada no semáforo, algo
chamou-lhe a atenção. Uma 4x4 semelhante a que vira na noite anterior, estacionou ao lado de seu
carro. Assim que o sinal abriu, ela seguiu devagar esperando que a caminhonete seguisse a sua frente.
Porém, o motorista desacelerou e entrou na mão de Thaissa, seguindo atrás dela. Aquela atitude a
deixou alarmada. Tentando se manter calma, ela seguiu e quando chegou em uma rua pouco
movimentada, acelerou o veículo para passa logo por aquele trajeto isolado. Para sua satisfação, o
outro carro não estava mais atrás do seu, porém a sensação de medo continuou com ela até chegar a
casa de Marcus.

Thaissa entrava no portão quando viu que passou atrás dela, a mesma caminhonete. Um frio lhe
percorreu a espinha. Ela estava sendo seguida, agora não havia dúvidas disso. Quando Marcus a
recebeu na porta, ela estava pálida.

— Thaissa, você está bem? – perguntou ele, vendo-a descer branca do carro.

— Não sei se estou ficando louca ou coisa assim, mas acredito que estou sendo seguida por
uma caminhonete 4x4. – disse ela, ainda nervosa.

— O que aconteceu pra você chegar a essa conclusão? – perguntou ele, pegando a bolsas dela
e a encaminhando para dentro.

— Ontem quando estava vindo tive essa impressão, mas hoje ela ficou mais clara ainda. O
mesmo carro me seguiu por alguns metros de forma lenta, sempre atrás, e depois sumiu. Só que agora
quando eu entrava aqui, ele passou na porta e tenho certeza que estava olhando para dentro de sua
garagem, e era, sem dúvidas, a mesma caminhonete. Há dias me sinto observada, mas acreditei ser
paranoia minha. Todos os dias lemos ou vemos alguma coisa relacionada ao aumento abusivo da
criminalidade nesse país. E isso faz crescer o receio em nós. Nos levando a criar situações pelo
medo que nos ronda constantemente, mas começo a acreditar que é mais real do que parece. – Ela
ainda tinha dúvidas, mas algo lhe pedia atenção ao fato.
— Isso é sério, meu amor. Se de fato estão seguindo você, precisamos acionar a polícia. Você
conseguiu ver a placa dela? As ligações restritas, você as tem recebido ainda? – perguntou ele,
preocupado.

— Nem pensei nessa possibilidade, Marcus. Fiquei tão preocupada que me esqueci de fazer
isso. Com relação às ligações, não recebi novamente, foram apenas aquelas. Talvez eu esteja
precipitando, afinal, há muitas caminhonetes 4x4 na cor preta por aqui. Mas isso está me deixando
inquieta. – Ela não queria incomodá-lo ainda.

— Precipitação ou não, vamos ficar atentos. Seu pai está em casa? — Quis saber Marcus com
expressão séria.

— Sim. Por quê?

— Ele ficará na cidade por quantos dias?

— Ele me disse hoje que viajará amanhã e deve ficar vários dias fora.

— Então você não ficará em sua casa sozinha. Venha passar esse período aqui. Pelo menos, até
isso se acalmar e seu pai retornar.

— Não acho necessário, Marcus. E lá há outras pessoas também, eu não ficarei sozinha. – Ela
começava a se arrepender de ter feito o comentário.

— À noite ficam apenas você a Ana e a outra jovem, não é isso?

— Sim, mas é um bairro vigiado por segurança terceirizada.

— Venha para minha casa. Assim não fico preocupado aqui. E você lá com receio de alguma
coisa. – Thaissa estava chateada com a situação. Embora não fosse culpa sua. Ela agora tinha a
impressão de que estava forçando sua presença na casa de Marcus. Não devia ter feito qualquer
comentário sem ter uma certeza. Poderia ser alguma tolice sua, e agora não poderia deixar que
Marcus ficasse preocupado com sua segurança.

— Tudo bem, mas não vejo necessidade de fazermos tudo isso agora. – Ela aceitou
contrariada.

— Amanhã em horário de almoço, vamos eu e você a sua casa pegar roupas e alguns objetos. E
não se esqueça de deixar Ana informada e atenta a qualquer movimento estranho nas proximidades.
Ela poderá nos ajudar.

— Vou pedir ao neto dela que fique por lá nos próximos dias.
— Faça isso que será uma pessoa a mais ajudando, mas nada de tornar isso público Thaissa,
que fique apenas entre seus principais funcionários e nós. – Marcus tomara a situação como ela não
esperava. — Já tomou seu banho? – Quis saber ele, sentindo um cheiro bom que sempre estava na
pele dela.

— Sim. Preciso apenas comer alguma coisa. Meu estômago está roncando, não sei se é de fome
ou ansiedade.

— Venha comigo, vamos comer algo. – Marcus pegou em seu ombro, levando-a abraçada a ele.

Fizeram uma breve refeição de saladas e peito de peru, que a funcionária de Marcus deixara
para eles.

— Você acha mesmo necessário que eu fique aqui em sua casa? – perguntou ela ainda relutante.
Essa mudança brusca iria tirar a liberdade de Marcus na casa dele.

— É melhor precaver, meu amor. Fique aqui e nada te acontecerá. – Mais uma vez, ele a
abraçou e Thaissa desistiu de questionar.

Quando foram dormir, Thaissa estava exausta e adormeceu rapidamente deixando Marcus ainda
acordado.

Embora Marcus preferisse não criar ilusões, poderia estar acontecendo alguma coisa sim, com
Thaissa. Ficaria atento para qualquer sinal que o levasse a acreditar que ela corria riscos. Não
permitiria que algo ruim acontecesse a ela. Se pudesse evitar o faria em qualquer instância.

Na madrugada, Thaissa acordou sentindo a rigidez de Marcus encostada em suas nádegas. Ele
parecia excitado e ela ficou também excitada com o contato. Devagar, ela o tocou no membro rígido,
e Marcus logo se movimentou em sua direção mostrando estar acordado. – Thaissa fez um breve
carinho nele e encostou novamente seu corpo ao dele, oferecendo-se para ser amada. Ele se ajeitou
por trás dela e a possuiu acariciando o corpo da mulher que tanto desejava.

Um ato simples e sublime foi assim que Thaissa considerou aquele momento. Fazer amor com
Marcus, mesmo que fosse da forma mais tradicional, era uma das mais belas sensações sexuais que
podia experimentar. Pressionando seu bumbum nele, ela o acompanhou em seus movimentos até que
não suportando mais, Marcus jorrou seu néctar, e logo em seguida adormeceram abraçados.

Na manhã seguinte, após tomarem seus respectivos banhos, ambos foram fazer a primeira
refeição do dia. Quando Thaissa chegou à cozinha com Marcus havia uma senhora preparando o café.
— Bom dia! Me desculpe o atraso, mas não consegui chegar a tempo de fazer o café antes de ir
organizar outras coisas da casa. – Thaissa percebeu que a funcionária ficará com vergonha por eles a
terem encontrado lá.

— Imagine Solange, fique à vontade. Essa é a Thaissa, de quem lhe falei. – Thaissa adiantou-se
e foi cumprimentar a mulher que muito se parecia com Ana. E por isso fora um prazer conhece-la.

— Prazer, sou Thaissa! – disse estendendo a mão.

— Igualmente, filha. Como Marcus disse, meu nome é Solange. – Apertaram a mão uma da
outra no cumprimento. Assim que ela os serviu, pediu licença e saiu deixando-os.

— Simpática, ela. – falou Thaissa.

— É uma ótima pessoa. – Fizeram a refeição, e quando Thaissa ia pegar suas chaves, Marcus a
barrou.

— Talvez seja melhor irmos juntos em meu carro amor. – Ele falara sem impor, mas Thaissa
percebeu que caso não aceitasse, poderia deixa-lo chateado e, mais uma vez, rendeu-se àquela
situação.

— Tudo bem, Marcus. Mas ainda penso que estamos exagerando um pouco. Não acha?

— Por que dessa recusa tola, meu amor? Afinal, teremos que dividir o teto em algum momento.
Assim vamos adquirindo certa prática Ou não pretende se casar comigo? – perguntou ele atento a
resposta que teria.

— É claro! Não está estampado no meu rosto que desejo um futuro com você? – Falou ela com
voz doce.

— Pronto então. Assunto encerrado. – Marcus pegou na mão dela encerrando assunto, e a levou
para a saída, após pegarem sua bolsa sobre o aparador.

Seguiram juntos e, durante o trajeto, Thaissa imaginava o que falariam. Havia poucos dias nem
namorados eram e agora já estava praticamente vivendo na casa de Marcus. Seu receio era que a
comparasse a Letícia. Principalmente depois dessa quase mudança para a casa dele,
inesperadamente.

Entraram na empresa da mesma forma que no dia anterior, e para a surpresa de Thaissa, os
olhares foram menores. Pareciam ter perdido o interesse por eles. Um alívio a invadiu. Ali haviam
muitas pessoas que conhecia há anos, e Thaissa não gostaria que pensassem mal dela. Subiram juntos
e, daquela vez em diante, ela acreditava que não mais teria que se preocupar com nada.

— Você ficará bem? – perguntou Marcus quando estavam na porta da sala dela.

— Com um homem desses, me escoltando e cuidando, é claro que eu ficarei muito bem. – disse
ela sorrindo.

— Quero apenas seu bem. Veja dessa forma também, que será mais fácil aceitar. Não quero
criar situações constrangedoras para você aqui. – Thaissa constatou que Marcus percebera que
estava se sentindo mal com a rapidez com que tudo acontecia.

— Eu acredito que seja esse seu intuito, querido. Não se preocupe, estou bem. – Marcus lhe
deu um leve beijo e seguiu deixando-a a salvo.

Thaissa sentou-se aliviada em sua cadeira. Talvez devesse ficar mesmo atenta, como Marcus
dizia. O que ela não conseguia compreender era quem poderia estar fazendo aqui. Não havia motivos
suficientes, ela acreditava. Thaissa não era uma pessoa rica. Tinham alguns poucos imóveis, mas
nada que chamasse tanto a atenção. Ela espera que aquela situação se resolva logo e pudesse retornar
a sua normalidade.

— Bom dia! – Thaissa olhou para a pessoa que acabara de entrar desapontada por mais uma
vez ter seu autocontrole testado tão cedo.

— Bom dia, Letícia! Você está precisando de alguma coisa?

— Eu preciso ter algum motivo para vir aqui? – Thaissa ergueu a sobrancelha e espirou um
pouco mais de ar antes de responder.

— Seria bom se tivesse. Afinal, ultimamente você tem vindo muito até minha sala e quase
nunca tem um bom motivo. – Thaissa fora direta para que a mulher não fizesse rodeios.

— Percebi que seu carro não está no estacionamento. Teve algum problema com ele? –
perguntou Letícia ignorando o comentário dela.

— Não. Eu o deixei na casa do Marcus. – A mulher ergueu a sobrancelha.

— É mesmo! Já está morando lá? – perguntou com seu costumeiro sorriso.

— Ainda não, mas pode ser que aconteça – respondeu Thaissa com o mesmo tom de voz.

— Essa relação engrenou muito rápido. Serão almas gêmeas ou estão muito entusiasmados?
Independente do que seja, espero que se deem bem e sejam felizes.
— Obrigada! – O assunto já estava findado e Thaissa não queria mais falar com a outra mulher.
Havia muita falsidade em seus votos para ela e Marcus.

— Bom, vou indo. Um bom dia para você! – Letícia saiu rapidamente deixando-a preocupada
com o grande interesse que a outra estava tendo sobre a relação deles. Parecia que ela desejava
acompanhar de perto em busca de uma brecha para atacar. Embora estivesse sendo mais fácil para
ela, o convívio com Letícia. Não lhe agradava ser procurada por ela com tanta frequência.

Thaissa voltou ao trabalho e procurou se esquecer da colega que parecia gostar de ser
lembrada. No horário de almoço, saiu um pouco menos tensa, iria se encontrar com Marcus que
havia ligado em seu telefone e a aguardava no estacionamento. Ele tivera que ir visitar um cliente e
não retornaria à empresa, indo apenas busca-la — Quando Thaissa entrou no carro, ele a recebeu
com um beijo.

— Como foi sua manhã, minha querida? – perguntou ele quando Thaissa fechou a porta.

— Tranquila! E você, teve boa negociação com o cliente que foi visitar?

— Sim, tive. Aquele horário em que te enviei o e-mail informando que iria me ausentar, eu
ainda precisei falar com outro colaborador terceirizado da Fênix, e isso me atrasou um pouco mais.

— Não se preocupe, está tudo bem. – disse ela percebendo que ele se justificava do atraso.

Por vários momentos, Marcus flagrou Thaissa olhando pelo retrovisor do carro em busca de
algo. Estaria ela procurando o bendito carro que a estava perseguindo. Marcus não sabia ao certo,
mas estava decidido a protegê-la, custasse o que fosse, e caso aquela situação permanecesse, ele
planejava a possibilidade de tirá-la dali por algum tempo. Não falaria nada a ela, mas essa era sua
intenção caso aquela angústia não terminasse logo. Talvez a levasse para Uberlândia ou Belo
Horizonte, que é bem maior, aproveitaria para ir junto e tiraria umas férias com ela. Ele estava
fazendo muitos planos sem o consentimento dela. Thaissa aceitaria deixar tudo por um tempo? Ele
não sabia. Mas isso não importava no momento, a única coisa de fato a ser observada era a
segurança dela.

Durante o almoço, Thaissa estava tranquila e Marcus pôde então baixar a sentinela
aproveitando a ocasião.

— Você me parece preocupado, Marcus, algum problema com a empresa?

— Não, meu amor, está tudo bem. Estou um pouco cansado, apenas isso.
– Eu ainda apareço com uma conversa tola de estar sendo seguida para tomar mais de seu
tempo. – Thaissa parecia contrariada pela situação e ele quis aliviá-la.

— Imagine Thaissa. Esperamos que seja apenas impressão sua, mas é melhor se precaver que
remediar, não acha?

— Sim! Mas caso não seja confirmado nada, eu ficarei constrangida por mudar sua rotina
dessa forma, por uma tolice minha. Fui eu quem criou essa situação, Thaissa, e se a convidei a ficar
comigo por algum tempo, foi porque não á problema algum para mim tê-la em minha casa. Não se
martirize por isso. – Marcus falou sério deixando claro para ela o que pensava a respeito.

— Você tem razão. – Continuaram a refeição, e após finalizar, Marcus a deixou um pouco e foi
fazer uma ligação para outra de suas empresas. Thaissa aproveitou e foi ao quarto lavar-se. Quando
estava revendo sua agenda, Marcus entrou chamando-a para irem.

— Vamos, meu amor! – retornaram para a empresa e assim fizeram o mesmo percurso nos dias
seguintes.

Tudo parecia caminhar bem e, embora Thaissa desejasse retornar para sua rotina e sua casa,
algo bom crescia dentro dela todas as vezes em que ela e Marcus retornavam para a casa dele, após
mais um dia de trabalho. Dividiam conversas, confidências e muito prazer durante as noites. A
convivência estava sendo muito importante para que vissem a profundidade daquela relação.
Embora, por vezes, Thaissa sentisse a falta de sua casa e de seu espaço. Ela precisou reconhecer
estar sendo um período muito prazeroso e importante para a relação deles. Aquela situação poderia
fortalecer a certeza em ambos de que desejavam estar juntos sempre. Não apenas como namorados e
colegas de trabalho, mas como um casal.
CAPITULO 41

Passaram-se quatro dias que Thaissa estava na casa de Marcus e embora tudo estivesse muito
bem entre eles, por vezes Thaissa ainda sentia-se intrusa ali em alguns momentos. Tirara a liberdade
de Marcus e sentia-se perdendo a sua também. Marcus parecia muito satisfeito em tê-la em sua casa e
em sua cama. Faziam amor sem pressa e com extremo prazer e luxúria. Mas quando o dia raiava e a
realidade se apossava deles, Thaissa por vezes pensava se não seria melhor retornar logo para a sua
casa. Porém, no final de semana seguinte, a ideia desapareceu de sua mente durante todo o tempo.
Fizeram um pequeno turismo pelo zoológico, aonde ela não ia há muito tempo e pôde rever animais
que nem se lembrava mais que existiam. Aquelas situações simples que viviam juntos tornavam-se
cada vez prazerosas e importantes para eles.

Marcus a observava satisfeito por ver que Thaissa ainda nutria dentro de si, a menina que
outrora fora. Vê-la aparentemente com receio de alguns animais, causou nele intensa sensação de
proteção e viu-se zelando dela como nunca fizera com outra mulher. A proximidade deles era mais
forte do que ele esperava e mais prazerosa impossível.

À noite, assim como todas as anteriores, se amaram entusiasmados e adormeceram um no


corpo do outro.

A segunda-feira chegou fria lembrando que o inverno se mostraria logo. O vento soprando fez
Thaissa aninhar-se mais em Marcus até chegarem ao conforto do carro dele.

O percurso fora feito tranquilamente e mais uma vez e chegavam à empresa. Não havia mais
olhares e nem receio por parte de Thaissa. Todos se acostumaram rapidamente com a relação deles e
deixaram de ser alvos de curiosos.

Thaissa sentia-se bem com Marcus e ele da mesma forma. A paixão predominava e, por vezes,
se beijavam apaixonados em suas salas. Aquela fora a semana deles. Como o pai de Thaissa ficaria
vários dias ausente, ela não se afastou mais de Marcus e seguiam firmes na relação que parecia ter
um único desfecho, iriam viver juntos logo. O sentimento tornava-se cada vez mais estável e embora
ainda reinasse a paixão das primeiras semanas. O amor sereno e mais tranquilo começava a surgir
proporcionando aos dois, momentos de euforia em algumas vezes e, em outras, de conversas e
abraços ternos e sinceros que apenas com o tempo um casal começa a dividir.
Embora Letícia os observasse com certa frieza, Thaissa fingia não ver. E os belos dias
seguiam.

No final de semana seguinte, Marcus a convidou para ir com ele a Minas Gerais conhecer sua
irmã e Thaissa aceitou de prontidão. Seria aquela uma das muitas provas de que ele a levava a sério
e desejava apresenta-la como sendo sua futura esposa.

A viagem rápida na aeronave lhes permitiu maior tempo com a família de Marcus que os
recebeu com muita simpatia. A irmã dele, seu esposo e os dois filhos a trataram com gentileza e
muita atenção. Thaissa aproveitou aquele momento íntimo dele para observar seu modo de ser em
família, pois acreditava que muito poderia lhe ajudar caso permanecessem juntos e tivessem seus
próprios filhos. Em família, normalmente é onde nos mostramos de fato sem máscaras. E Marcus não
a decepcionou. Fora um tio amável e pelo apego das crianças a ele, ficara claro para ela que eles
também o amavam. Julia, assim como ele, era mais discreta, ainda assim Thaissa gostou muito da
jovem de vinte cinco anos que já tinha família formada e parecia feliz com sua rotina doméstica.

Presenciar uma família feliz, onde o marido era parceiro e amoroso com sua esposa, levou
Thaissa a desejar formar a sua. Não que invejara o harmonioso casal. Ela apenas sentira que era
possível ter uma relação saudável ainda nos dias de hoje.

Durante a noite que passaram na casa da irmã de Marcus, Thaissa ouviu muitas histórias sobre
eles e sua infância no Estado Mineiro. Soube também que devido a diferença de idade, Marcus
tornou-se o pai de Julia quando perderam seus pais precocemente, e ele não falhara nunca com ela.
Orgulhosa, ela ouvia as histórias até que chegou o momento de se retirarem para o descanso.

— O que achou da família, meu amor? – perguntou Marcus quando foram para o quarto.

— Encantadora querido! – respondeu ela, abraçando-o.

— Fico feliz que tenha gostado. Essas pessoas são tudo o que tenho e seria muito bom que te
agradem, e que eles também se sintam bem com você.

— Então espero que sejam recíprocos nossos sentimentos e tenham gostado de mim também.

— Seria muito difícil não gostarem de você. – Thaissa sentiu-se gratificada pelo comentário
dele.

— Já é madrugada e estou exausto, vamos dormir quietinhos? – Thaissa achou graça da forma
como ele falou.
— Claro, meu amor. Um descanso vai bem às vezes. – Conforme já estavam acostumados,
adormeceram abraçados.

Durante a manhã do domingo, aproveitaram para fazer um passeio por Uberlândia, Thaissa não
conhecia a cidade e embora tivesse desejo de conhecer mais o interior com suas belas cidades
antigas e históricas. Contentou-se em ver as belezas locais devido ao tempo curto.

Marcus a levou para conhecer o museu municipal de Uberlândia com seus mais de 1.500
acervos históricos e mais de 2.581 peças em sua reserva técnica onde faziam o processo de
restauração, conservação e recuperação das peças que traduziam a história mineira.

Após o almoço, organizaram-se para a partida.

— Foi um prazer conhecer vocês Julia, sua família é linda. – Disse Thaissa abraçando a jovem
e bela mulher.

— Obrigada, o prazer também é nosso. Espero que possa retornar mais vezes aqui e que nos
tornemos uma única família futuramente. – A sinceridade e simplicidade da jovem deixou Thaissa
encantada.

— Eu também espero que sim. – Abraçaram-se e após as despedidas, partiram.

Em pouco mais de duas horas de viagem entre Uberlândia, Brasília e Goiânia, já estavam em
casa novamente.

– Quer fazer alguma coisa, meu amor. Um passeio mais tarde ou jantar fora? – Convidou
Marcus após estarem instalados.

— Prefiro ficar quieta se você não se importar. – Ele a abraçou beijando-a nos olhos fechados
dela.

— Eu também prefiro. Só te convidei porque acreditei que desejasse sair um pouco.

— Então vamos ficar em casa. Não há muito que fazer hoje. Ambos concordaram e passaram o
resto do dia conversando sobre a viagem e a visita que fizeram à família de Marcus.

No dia seguinte, após uma noite revigorante e cheia de amor, começaram a rotina novamente.
O movimento acelerada do início da semana logo os separou. Marcus foi chamado assim que entrou
para a sala de reuniões onde apresentaria alguns pontos sobre as campanhas que precisariam estar
concluídas no mês seguinte. Thaissa foi para sua sala e lá ficou até ser chamada para outra reunião
onde tratariam os assuntos deixados em aberto durante os planejamentos feito por Marcus, na reunião
acontecida naquele dia. Foram mais de duas horas de reunião impedindo que ambos almoçassem
juntos. Ao termino, Thaissa fez um breve lanche e logo retornou aos seus afazeres.

Durante a tarde recebera um e-mail de Marcus dizendo sentir saudades e ela o retribuiu
prometendo que a noite recompensaria sua ausência.

No final do dia, Thaissa foi chamada pelo departamento de marketing para resolver algumas
pendências e, devido a pressa, deixou alguns arquivos que precisavam ser impressos sem o fazer.
Como ela havia deixado seu e-mail aberto, pediu a uma das secretárias que os imprimisse e levasse
para ela na sala onde estava. A moça saiu apressada chocando-se com Letícia no corredor.

Não demorou muito e a secretária retornou com os documentos solicitados, e Thaissa pôde
concluir seu projeto. Quando retornava para sua sala, Marcus a aguardava visivelmente contrariado
com alguma coisa.

— Algum problema, meu amor? – perguntou ela indo lhe dar um beijo e foi recebida com
frieza. Marcus se quer movimentara os lábios para corresponder. – Pode me dizer o que está
acontecendo aqui? – Quis saber ela, não compreendendo o porquê daquela rejeição.

— Você se comunica com aquele tal de Fred até hoje? – Thaissa não entendeu a pergunta dele,
mas respondeu para evitar maus entendimentos.

— Nunca mais o vi. – disse ela. – Por que me pergunta isso?

— Por isso, Thaissa. – Disse ele apontando o Computador para ela. — Vim pegar uma planilha
aqui, porque uma das secretárias deixou por engano, e quando chego na frente de seu computador
vejo na tela um e-mail de resposta que você enviou para ele. – Thaissa contornou a mesa sem
acreditar no que ouvia. Ao se deparar com o que ele afirmava, ela ficou surpresa.

— Isso é impossível! A única coisa que fiz foi passar meu telefone para ele e me arrependi no
primeiro instante que o fiz. – Thaissa olhou a tela e ficou perplexa com o que viu. Uma mensagem
melosa e sexy fora enviada de um destinatário de nome Fred para o e-mail dela dizendo estar com
saudades e que ela desse uma fugidinha para se encontrarem. Como resposta a mensagem enviada
também era sacana e maldosa.

— Isso é alguma brincadeira? – Perguntou ela, abrindo mais a foto do homem e confirmando se
tratar de Fred.

— Eu que pergunto isso a você, Thaissa. – Marcus falava manso, mas ela podia ver brasas em
seus olhos que não se desviavam um segundo dela, parecendo disposto a detectar alguma coisa em
seus traços que confirmasse o que ele via.

— Isso estava aberto aqui ou você o fez? – perguntou ela, ainda sem entender como acontecera
aquilo.

— Isso não vem ao caso agora, não acha? Quero que esclareça. Apenas isso! – Thaissa
continuou olhando-o sem nada dizer. – Estava aberto da mesma forma que você o vê. Não mexi em
nada. – disse ele com a voz um pouco mais amarga.

— Eu não fiz isso, Marcus. Se olhar bem no histórico verá que não há mensagens anteriores
desse endereço. Eu nunca mais falei com o Fred depois daquela noite que você presenciou e nem tive
notícias dele.

— Como você quer que eu acredite nisso, se estou vendo na minha frente uma mensagem que
você enviou a ele. Thaissa você postou uma mensagem para ele. Se tivesse apenas recebido eu
poderia aceitar com menos dificuldade, mas assim não dá.

— Eu nunca postei qualquer mensagem para ele, Marcus. Você precisa acreditar em mim. Eu
amo você e jamais faria algo dessa natureza. Sei bem o que quero da minha vida e não tenho mais
idade para ficar fazendo joguetes com homens. Eu me respeito, entendeu?! – Thaissa estava
angustiada. Como aquilo fora parar lá? Como aconteceu de ser enviada uma mensagem de seu
computador para aquele homem desprezível de quem ela nem se lembrava mais. Thaissa olhava sem
resposta para a tela quando Letícia entrou na sala.

— Só me faltava essa agora. – disse Thaissa baixinho.

— Marcus, aquele cliente que te passei a proposta dele dias atrás, está aqui e quer que o
atendamos agora. Posso contar com você? – Marcus olhou de Thaissa para Letícia, tentando disfarçar
um pouco de seu mal-estar.

— Chego em sua sala em alguns minutos, Letícia. – A mulher olhou de um para o outro e saiu
com semblante sereno. — Eu preciso ir lá. Quando eu voltar, por favor, me dê uma resposta
convincente sobre isso. – Marcus saiu deixando-a sem saber o que fazer.

Thaissa olhava para o computador a fim de encontrar algo que a ajudasse. A única coisa da
qual tinha certeza era de que nunca tivera qualquer contato com Fred via e-mail. Mas como iria
provar isso a Marcus, principalmente sendo ele quem era? Demorara tanto para provar a ele que não
era a mulher que julgara. Agora Thaissa se via de mãos atadas. Não sabia o que fazer, era inocente e
ao mesmo tempo precisava agir com lógica e entender a posição dele. Em seu lugar, agiria da mesma
forma. Precisaria agir com maturidade. Era tudo o que não desejava no momento, sua vontade era
explodir com tudo, incluindo Marcus por duvidar dela, mas talvez fosse isso que esperavam dela.
Mas quem? Letícia. Não podia ser. A mulher não tinha a senha de seu e-mail, e certamente nunca
ouviu falar de Fred. Estava muito perturbada para pensar a respeito agora. Talvez a resposta
estivesse a sua frente, mas não a via. Deixaria passar um pouco aquela tempestade e depois refletiria
melhor. Tomaria um café com sua amiga da cantina. Era apenas isso que poderia fazer no momento.
Muitas coisas passavam em sua cabeça e isso não a ajudaria muito a resolver aquilo.

Após o passeio pela empresa, Thaissa voltou a sua sala. Marcus ainda não havia retornado da
reunião, ela soube pela secretária. Teria mais tempo para refletir com calma sobre aquele e-mail
mentiroso. Thaissa mexeu em todas as janelas que podia, e mais uma vez não encontrou nada que a
pudesse ajudar. Desistiria por aquele dia. Não tinha a menor condição psicológica de continuar.

Quando ela organizava alguns documentos que estavam sobre sua mesa, tentando aliviar sua
tensão, Marcus entrou.

— O que tem a me dizer? – perguntou com o semblante cansado.

— Nada! – Foi a resposta dela. Marcus a olhou intensamente por alguns segundos que
pareceram horas para Thaissa. – A única coisa que sei, Marcus, é que desconheço esses e-mails.
Pode parecer ironia para você, há uma prova a nossa frente, mas é a verdade. Não fui eu quem
enviou essa mensagem para ele.

— Diz a verdade, que você continua com ele. Que nossa história foi apenas diversão para
você. Isso é melhor do que o seu silêncio, Thaissa. – pediu Marcus se aproximando dela.

— Não posso afirmar o que não fiz Marcus, me desculpe, mas não farei isso conosco. –
Aproximava-se do final do expediente e Thaissa não sabia como seria dali por diante.

— Nada te impede de fazer o que quiser da sua vida. Fale o que desejar e seguimos em frente.
Cada um a sua forma. Eu só quero que me diga o que está acontecendo aqui. – Ele pedia com voz
sofrida.

— Posso lhe dizer apenas uma coisa, Marcus, eu amo você! – Os olhos dela se inundaram de
lágrimas. Mas Thaissa não permitiu que elas caíssem. – Marcus deu um passo em sua direção e
parou. Sem nada dizer ele ficou ali olhando-a.

— Eu vou chamar um táxi e irei para minha casa. Amanhã peço a alguém que pegue meu carro.
– disse ela, após perceber que o problema não se resolveria naquele momento.
— Não precisa fazer isso. – Ele disse com voz sumida.

— Sim, eu farei. Amanhã com a cabeça mais tranquila vou descobrir o que aconteceu. –
Marcus se aproximou colocando em terra toda a força que ela tentava demonstrar.

— Se está tão segura de que não tem nada a ver com essa questão, mostre-a para mim, Thaissa.

— Eu farei isso, Marcus. Agora me deixe sozinha que preciso arquivar esses documentos antes
de ir.

— Eu quero seu bem e mesmo que esteja de fato com aquele cara e comigo, eu desejo o melhor
para você. Só não me peça para participar disso. É pedir muito para mim. – Embora Marcus
estivesse com os olhos em chamas, ele a tratava por vezes com carinho.

— Não sou uma mulher baixa que fica com uns e outros. Nunca fiquei com dois homens ao
mesmo tempo e jamais ficarei. Tenho absoluta certeza de que isso em nada combina comigo e nada
ganharei também. – Ela parecia tão certa em suas palavras, que Marcus sentia imensa vontade de
passar por cima de tudo e acreditar nela. Mas seu amor próprio não permitia. Ele precisava de algo
mais que palavras para seguir com ela ou nunca se esqueceria daquele fato e a relação deles poderia
tornar-se um inferno. Sem nada mais dizer, Marcus saiu rapidamente deixando-a com seus fantasmas.
CAPÍTULO 42

Em casa, após se justificar com pequenas mentiras, Thaissa se retirou para seu quarto. Lá, pôde
cair na cama para refletir sobre o grande problema que surgira em sua vida. Estava totalmente certa
que não fora a autora daquele e-mail e tão pouco conhecia o destinatário. Fizeram aquilo por ela,
mas quem? Thaissa chegou a pensar em Letícia, mas a única pessoa que sabia sobre Fred, era Paula e
Marcus, e a colega também não gostara muito dele, então estava descartado a participação dela
naquela mentira. Havia também o fato de que Thaissa confiava muito na jovem, e em nenhum
momento desconfiara dela. Como fora parar lá, aquele e-mail? Por que entre tantos contratempos da
tecnologia, tinha que acontecer justo com ela? E havia ainda a grande coincidência de ser Fred, o
pivô daquela situação descabida. Haveria de ter uma resposta, e ela a buscaria. Não iria permitir que
um plano enfadonho colocasse tudo o que estava construindo por terra. Isso ela não aceitaria. Estava
sendo acusada por algo que não fizera e ainda corria o risco de perder o homem que amava. Havia
muito a perder para que ela ficasse de braços cruzados esperando acontecer algo. Iria até o fim para
esclarecer aquela farsa.

A não ser que Marcus não a quisesse mais. Ainda assim, Thaissa não desistiria dele por um
engano fútil daqueles.

Marcus terminou o banho pensativo. Como Thaissa fizera aquilo com ele? Por qual razão ela
se mostrou tão diferente do que ele julgara e agora o fazia se sentir tolo. Olhando para o quarto, de
um lado ao outro, Marcus inquietava-se. Sentia-se um tolo, descrente e apaixonado. Tudo o que via
lembrava-a. Thaissa já havia tornando-se parte de sua casa e ele nem percebera até aquele momento
em que não a tinha mais ali. Desejava aquela mulher com toda sua essência, mas não sabia o que
fazer. Ela parecia tão confiante, que Marcus as vezes se sentia desnorteado. Como saber se de fato
Thaissa falava a verdade? Não havia resposta que solucionasse a questão. Pelo menos, não para ele.
Teria o enganado por todo esse tempo, fugira por anos de mulheres sem conteúdo, não podia ter
caído em uma cilada dessas na idade em que se encontrava. Precisaria esperar o dia seguinte. Mas
estava sendo muito difícil para ele manter-se calmo diante daquela situação. Embora soubesse por
experiência própria, que fazer deduções antecipadas poderia ser destrutivo a qualquer
relacionamento amoroso ou de qualquer outra natureza. Estava difícil não fazê-lo. O ciúme o estava
cegando, tirando-lhe sua razão lentamente. Em um misto de amor e ódio, Marcus esmurrou a parede
violentamente antes de sentar-se e se deixar render pela angústia que estava o abafando o peito desde
que viu aquela mensagem simbolizando que fora enganado pela mulher que amava. Nunca em sua
vida chorara por mulher alguma, até aquele dia.

A noite foi cansativa para Thaissa. Não tivera o repouso que precisava devido as tantas vezes
em que acordou sentindo a falta de alguém ao seu lado. Ela não imaginava que pudesse ser tão fácil
se acostumar a dividir uma casa e uma cama com alguém. Sentia falta de Marcus sempre que seu
corpo ficava frio, sem o calor dele. Precisaria resolver aquela questão e ter novamente as pequenas e
tão agradáveis sensações de bem-estar que compartilhara com ele.

Após o banho, ela se vestiu e foi tomar rapidamente o café para ir ao trabalho. Desejara tanto
que o novo dia chegasse para poder buscar alguma solução para seu problema, mas agora se sentia
meio desolada. Se procurasse meios mais burocráticos para ter as respostas que precisava apresentar
para Marcus, certamente teria muito estresse e, talvez, ele não estivesse disposto a esperar.

Com a cabeça um pouco menos tumultuada, ela esperava resolver tudo ou a relação deles
estaria correndo risco.

Quando chegou sozinha à empresa, ela cumprimentou rapidamente os colegas e foi para sua
sala. Ao chegar, soube que haveria uma reunião em que precisaria estar presente. Sem qualquer
ânimo, foi para o local indicado. Naquelas ocasiões de conclusão de projetos como estava sendo nos
últimos dias, as reuniões eram constantes para as finalizações necessárias. Quando chegou, avistou
Marcus no fundo, e ao seu lado, estava Letícia. A mulher parecia cheia de razão e feliz. Ao vê-la,
Marcus a olhou de forma interrogativa, como se perguntasse por alguma coisa. Thaissa o
cumprimentou discretamente e se foi sentar na outra extremidade, deixando-o visivelmente
contrariado.

A reunião começou logo que o último membro entrou. Thaissa procurou focar sua atenção na
apresentação do responsável pelas pesquisas de mercado, mas não estava tendo muito resultado. Por
vezes olhava para Marcus e ele também fazia o mesmo. Letícia que observava disfarçadamente os
dois, sempre que percebia os olhares pedia a atenção de Marcus para si. Vê-la tão próxima dele,
tendo a oportunidade de sentir seu cheiro e tocar em seu braço, deixou Thaissa com raiva da mulher.
Certamente, a espertalhona tinha percebido o que se passava entre eles. Ela tinha a impressão que
Letícia parecia se divertir quando seus olhos se encontravam com os dela. A mulher estaria
aproveitando do momento de conflitos deles para se aproximar, Isso só podia significar uma coisa,
Letícia estava por trás daquele suposto e-mail.

A reunião transcorreu normalmente, e embora Thaissa estivesse desfocada, pôde colaborar


com alguns comentários e assim seguiam os projetos.

Assim que se deu o final, Thaissa saiu da sala sem falar com alguém. Precisava voltar a sua
pesquisa para talvez encontrar uma forma de desvendar aquela forjada mensagem em seu
computador.

Inconformada ela observava a tela a sua frente. Por várias vezes abriu e fechou o e-mail. Era
difícil chegar a alguma conclusão. Onde estaria a falha daquele envio, ela não sabia.

Passou alguns minutos, e Thaissa precisou abandonar sua investigação. Teria que resolver
algumas questões que cabiam apenas a responsável pela área de compras. Retornaria mais tarde.

Devido às várias ocasiões em que foi solicitada naquele dia, ela não pôde se dedicar ao e-
mail, e viu mais um dia acabar, permanecendo aquela angustiante situação. Thaissa mais uma vez foi
para sua casa. Estava tão focada no problema referente ao falso e-mail que não se lembrou da outra
questão que a incomodara anteriormente, e que a uniu a Marcus. Durante o trajeto, sentiu-se
desamparada, mas seria forte e venceria aquela prova em sua vida. Quando chegava, percebeu que
havia um carro nas proximidades que não conhecia. Ele estava lá no dia anterior quando saiu de
casa, mas não era a 4x4, e por isso preferiu pensar que se tratava de algum novo vizinho. Nada lhe
importava mais naquele momento, que esclarecer o desentendimento entre ela e Marcus.

Aquela foi mais uma noite de pouco sono para Thaissa. Durante os vários momentos em que
acordou a noite, Thaissa fez uma oração e pediu ajuda dos céus para esclarecer aquele equívoco.
Olhando para a foto de sua mãe sobre o criado, um leve conforto a dominou levando-a para o
descanso que tanto desejava.

Na manhã seguinte, ela encontraria a solução de seu problema ou teria que deixar a cargo do
tempo que a tudo esclarecia. Ainda assim, ela deseja poder ajuda-lo e se ajudar também.

Mais uma vez, Thaissa estava diante da tela de seu computador. Observava o e-mail enviado e
sua resposta. Ela girava o mouse levando a barra para cima e para baixo, buscando algo que não
sabia o que era. Em um determinado momento, Thaissa olhou para o horário do envio e ficou
analisando-o. Algo a chamava a atenção ali, mas sua mente cansada por buscar respostas não
conseguia interpretar. Angustiada, ela socou a mesa, e nesse momento, Marcus entrou.

— Bom dia! – Disse ele formal.

— Bom dia, Marcus! – respondeu sem muito entusiasmo, mas mantinha a cabeça erguida. –
Marcus se aproximou e se sentou na frente dela. Olharam-se por alguns segundos que pareceram
minutos para ambos.

— Você não tem ideia de quem possa ter feito esse envio? – Marcus perguntou carinhoso,
deixando-a surpresa.

— Infelizmente não. – Não podia falar sobre suas suspeitas até ter uma prova concreta.
Olhando-o melhor ela ficou mais chateada ainda. Ele parecia tão abalado que Thaissa desejou tocá-
lo.

— Não teve problemas quanto àquela outra questão de ser seguida por alguém? – Mesmo
estando duvidando dela, Marcus se preocupou com sua segurança. Essa constatação deixou Thaissa
ainda mais tocada.

— Confesso que nem me lembrei disso Marcus, tamanha era minha necessidade de esclarecer
essa farsa para você. – Ela não iria bancar a ofendida, ambos precisavam resolver a situação sem
que um deles se fizesse de vítima e aproveitasse para ofender o outro. Ambos não queriam isso. –
Thaissa virou a tela do computador para ele. – Estou com aquela impressão de que há algo aqui me
dando pistas, mas não consigo ver. Poderia me ajudar? – O amor imperava sobre a dúvida e isso
estava explícito. – Marcus olhou interessado para o e-mail.

— Aparentemente nada de estranho, Thaissa. Você verificou o endereço do IP do computador?

— Sim, já fiz isso. – Embora a mesa os separasse, Thaissa se sentia tão próxima dele que
aspirou um pouco mais o ar para sentir o perfume do homem que tanto lhe fizera falta nos últimos
dias.

— Eu sinto que você esteja sendo cobrada por isso, mas procure entender minha situação. É
lógico que isso pode ter sido forjado, mas eu preciso dessa confirmação para seguir em frente,
entende? – Ele falava sério.

— Claro que entendo, E é exatamente por isso que quero resolver a questão. Não precisamos
de dúvidas entre nós, e caso não chegamos a uma resolução plausível, daremos um tempo um ao
outro. – Aquela frase a feriu profundamente, mas Thaissa sabia que seria melhor assim.

— Estive pensando que talvez estejamos sendo exagerados com esse primeiro obstáculo que
estamos tendo juntos. – Marcus disse pensativo. Tivera uma noite de cão e por tão pouco.

— Será que você pensa realmente dessa forma? – Era óbvio para ela que Marcus desejava
finalizar logo aquela situação, porém caso não esclarecesse a dúvida poderia continuar em seu
íntimo e ele não confiaria mais nela, como ficariam após este abalo?

— Nada aqui te chama para uma possível dúvida? – Perguntou ela decidida a esclarecer tudo.

— As poucas informações são o local do IP, data e horário, Thaissa. Não vejo nada mais, além
disso. – Thaissa olhou novamente a data e seus olhos prenderam-se nela.

— Alguma coisa? – perguntou ele com os olhos esperançosos.

— O horário do envio do meu computador. Se não me engano, eu estava em uma reunião. –


Thaissa parecia tentar se lembrar de algo. – Sim, eu estava em reunião e pedi a Juliana que viesse a
minha sala e imprimisse alguns relatórios que estavam em meu e-mail, que deixei aberto.

— Seu e-mail ficou aberto aqui? Pensei que o havia deixado assim apenas para uma rápida
saída, e não durante todo o tempo da reunião. – Marcus falou pensativo.

— Sim, ele ficou! Mas não acredito que ela tenha feito esse envio. Juliana não tem
conhecimento sobre Fred. Pelo menos acredito que não. – Vou chama-la aqui. – Pensou ela alto.

— Eu sei que você estava em reunião nesse horário, lembra que sou o diretor aqui. Não
precisa ligar para a moça.

— Mas alguém enviou esse e-mail e não fui eu. Preciso saber quem foi. – Disse ela mais
confiante de sua defesa. – Ela já estava com o telefone na mão.

— Deixe isso para lá, por enquanto. – Thaissa não entendia a repentina vontade de Marcus em
deixar de concluir o assunto que ele tanto deseja ver esclarecido.

— Por que está me dizendo isso agora? – Ela ficou curiosa por ele ter se convencido tão
rapidamente.

— Pensei a respeito e cheguei a conclusão que isso é muito pouco para destruir nossa relação.
Vamos resolver juntos, tá? – Thaissa não se convenceu, mas deixou passar.

— Eu posso provar para você que não estava aqui nesse horário e pelo IP do computador que
prova ter sido enviado desse aparelho, e você não quer isso. – Falou ela.

— Eu sei que e-mails podem ser corrompidos e acredito que tenha acontecido isso. Você já me
provou sua inocência desde aquele dia. Vi em seu rosto a verdade, Thaissa. Eu não queria ter apenas
aquilo como certeza, mas agora eu tenho o suficiente.

— Não estou satisfeita com isso, mas se prefere assim. – falou ela aceitando por horas o que
ele pedia, mas levaria a diante até resolver.

— Eu estou satisfeito. – Marcus pegou na mão dela enquanto com a outra Thaissa girava a
caneta lentamente olhando-o.

— Se prefere assim. – Thaissa optou por não insistir mais, embora desejasse colocar tudo a
limpo. – Espero apenas que não me cobre nada futuramente. – Ainda falou.

— Não irei, prometo! – Marcus a puxou e a beijou longamente. – Senti muito sua falta amor. –
falou Marcus quando se afastou um pouco.

— Eu também. – disse Thaissa.

— Quero você de volta na minha cama, ou melhor, na minha casa hoje. – Thaissa o fuzilou com
os olhos e sorriu em seguida.

— Estarei lá. – Afirmou ela.

— Te vejo mais tarde. Terei um almoço com um cliente que Letícia agendou. – Thaissa franziu
as sobrancelhas em negativa. – Não se preocupe amor, sei o que quero em minha vida. Não sou mais
um rapaz cheio de ilusões e disposto a quebrar a cara.

— Se pensa assim, ótimo. – Marcus a beijou novamente e saiu deixando-a feliz por ter
praticamente concluído aquela questão, mas ainda sentia-se um pouco insegura. Precisava descobrir
o que aconteceu. Ela sabia que caso se repetisse algo daquela natureza, a relação deles poderia não
suportar. O criador daquela intriga poderia estar perto e suas chances de conseguir algo mais bem
planejado eram grandes. Thaissa iria pesquisar até descobrir o que ou quem causara aquela situação.

Thaissa aproveitou que estaria sozinha em horário de almoço e foi ao shopping onde comprou
alguns acessórios e almoçou. Quando retornou, soube que Letícia a procurava. Sem perder tempo,
Thaissa ligou no ramal da outra mulher.

— Na verdade, Thaissa eu procurava por Marcus, e como não o encontrei, pensei que
estivesse com você. Está tudo bem? – Thaissa entranhou o interesse da mulher.

— Você pergunta por mim, ou por Marcus e mim? – perguntou ela, embora já soubesse a
resposta.

— Por quem você quiser falar. – A outra não se intimidou.

— Não o vejo faz algum tempo. – disse Thaissa educada.

— Almoçamos juntos e depois não o vi, preciso discutir algumas coisas com certa urgência
para ele.

— Eu soube! Não se preocupe que assim que o encontrar darei seu recado.

— Obrigada, Thaissa! – Letícia desligou o telefone. – Thaissa colocou o fone no gancho


pensando somente no encontro que teriam após o expediente.

— Nem mesmo minha nobre colega irá tirar minha alegria hoje. – disse ela em voz baixa.

Quando ela se preparava para partir Marcus surgiu em sua sala.

— Muito trabalho hoje, meu querido? – perguntou Thaissa retribuindo ao beijo que recebeu.

— Um pouco meu amor. Estou louco para irmos para casa. – Aquela intimidade toda não
assuntou mais Thaissa.

— Estou com meu carro. Teremos de ir cada um no seu. – falou ela colocando seus pertences
na bolsa.

— Não quer deixar aqui no estacionamento? Amanhã em horário de almoço você vai com ele.

— Prefiro não. – Marcus não insistiu e seguiram juntos. No elevador encontraram Letícia que
também descia. Assim que entraram a mulher forçou o espaço para Marcus e ele roçou nela
afastando-se em seguida. Thaissa se colocou entre eles pegando na mão de Marcus.

— Hoje o dia foi bastante cheio para todos. – comentou Letícia observando a intimidade deles.
— É verdade, foi turbulento, mas muito proveitoso também – respondeu Thaissa colando seu
corpo em Marcus. – Letícia concordou com um fingido sorriso e não se falaram mais.

Quando saiam do elevador, a mulher voltou a falar.

— Estão morando juntos? – perguntou com falso desinteresse.

— Praticamente Letícia. – respondeu Thaissa. Vendo que o carro da outra estava ao lado de
Marcus, Thaissa os acompanhou e assim que Marcus desativou o alarme ela entrou junto com ele.

— Não pretendia ir no seu carro amor? – Questionou ele fingindo não entender a atitude dela.

— Eu iria, mas agora acho que vou com você. – Ela se fez de desentendida e partiram. Letícia
os observava quando saiam.

— Não imagina o quanto desejei buscar você em sua casa. Só não o fiz por que acreditei que
você não viria. – Confessou Marcus no trajeto.

— Será que não foi por orgulho que não o fez? – perguntou Thaissa, abraçando-o.

— Pode ter certeza que não. – Confirmou ele. Marcus já estava ciente que Thaissa talvez não
tivesse nada a ver com naquela questão. Algo lhe dizia isso, mas ele desejava que ela o convencesse
um pouco mais. Sua insegurança ainda o incomodava e por isso deixou as coisas seguirem
naturalmente. Estava atento e permaneceria assim para não se ariscar em perdê-la.

— Eu também senti muito sua ausência quando acordava durante a noite e não tinha seu corpo
perto do meu aquecendo-me. Essas foram as duas noites em que menos dormi nos últimos anos.

− Eu amo você, Marcus, e tive muito medo de perde-lo esses dias. – A confissão o pegou de
surpresa. Estavam em uma rua tranquila e Marcus optou por parar o carro em um estacionamento
privado.

− Embora você já tenha me demonstrado isso, saiba que estou imensamente feliz por ouvi-la
dizer tão espontaneamente. – disse ele enquanto fazia a manobra para desligar o carro.

− Eu não fiz aquilo, meu amor. – Thaissa estava decidida a quebrar qualquer barreira que se
formara entre eles.

− Eu acredito em você. – Marcus tocou no rosto dela carinhosamente.

− O que é isso? – perguntou ela vendo uma mancha roxa na parte superior da mão dele entre os
dedos.
− Digamos que em um momento de incertezas eu tenha esmurrado uma parede. – Um brilho
intenso surgiu nos olhos dele.

Thaissa acariciou a região antes de leva-la a boca para um beijo. Marcus enfiou a outra mão
nos cabelos dela e fez um agrado trazendo- a para ele.

− Estou muito envolvido com você, e quando percebi que podia estar sendo enganado e que
talvez fosse preciso me afastar, fiquei furioso. – Thaissa ergueu-se e ajeitando-se sentou no colo
dele.

— Eu não iria abrir mão de você com tanta facilidade assim. Se preciso fosse, iria até o fim do
mundo para resolver aquela armação que fizeram. – Ela puxou a camisa dele para fora e começou a
abrir o zíper da calça dele. Marcus acariciou o traseiro dela enquanto ela mordicava seu peito nu.
Assim que tocou o membro firme dele, Thaissa ergueu sua saia e colocou-se sobre ele tirando um
gemido de Marcus que estava encantado com a atitude dela.

— Adoro fazer amor com você. – disse ela antes de Marcus tirar por completo seu vestido. –
Sentada, ela se movimentava em um ritmo lento e constante, enquanto Marcus sugava seu mamilo e
acariciava suas costas. Subindo lentamente, ele se apossou da boca dela e beijaram-se sedentos
enquanto dançavam juntos no ritmo do prazer. Instantes depois gozaram juntos e permaneceram
abraçados como gostavam de fazer após o ato sexual.

— Vamos, minha linda. – disse Marcus ajeitando os cabelos dela atrás da orelha dela. –
Marcus pegou um rolo de papel no porta luvas para ela se limpar.

— Agora terei mais um lugar para me lembrar de você quando não estivermos juntos. Já não
bastava a empresa e minha casa. – disse brincando, ajudando-a se vestir.

— A intenção é essa mesmo. – disse ela sorrindo. – Marcus acariciou a coxa dela e deu partida
no carro.

— Acho que você ainda não conhece meu canto de trabalho em casa. – Disse Marcus ao abrir a
porta. A sala era ampla na cor pérola com uma linda mesa ao centro com detalhe em madeira atrás
dela. Havia fotos de Marcus, os sobrinhos e sua irmã com o esposo no aparador. Um carpete grande
e macio ficava no centro da sala e em suas extremidades algumas poltronas em tom claro
contrastando com o vinho do carpete que Thaissa adorou. Uma impressora multifuncional ficava no
canto próximo de alguns livros atas onde Marcus provavelmente registrava suas anotações. As
cortinas caiam em cascatas até o piso. Eram leves num azul claro como ela jamais vira igual. Havia
ali muito do necessário para uma pessoa trabalhar tranquilamente. Um banheiro e um frigobar
também compunham o ambiente. Os móveis antigos e bem conservados assim como os quadros com
lindas paisagens serranas, deram grande requinte ao escritório de Marcus.

— Que agradável essa sala, meu amor. Gostei muito dela. – disse Thaissa entusiasmada.

— Que bom que gostou, querida. Não sei se percebeu, mas os quadros representam os grandes
casarões e ruas das cidades históricas de Minas Gerais, e aqueles de natureza magnífica são retratos
do cerrado Goiano. – Ele fora detalhista em suas escolhas.

— São lindos. Quando montar minha casa, vou adquirir alguns neste estilo.

— Se gostou deles, pode incluí-los em sua decoração. Assim não precisaremos nos desfazer
deles – falou olhando-a com malícia.

— Eu adoraria leva-los e o proprietário também – respondeu ela sorrindo.

— É claro que sim. Não são vendidos, separadamente. Terá que ficar com o pacote completo.
– Thaissa foi até ele e contornou seu pescoço em um abraço.

— Será um prazer em dobro então. – Beijaram-se novamente.

— Quero que conheça um pouco mais do empresário, Marcus. – disse ele convidando-a para
sentar.

— Hum! Parece-me se tratar de um homem bastante ocupado e preocupado também. – Brincou


ela.

— Na maioria das vezes, é exatamente assim, mas estou começando a traçar metas em minha
vida e quero que saiba que é parte disso. – Marcus abriu uma página em seu computador e começou a
mostrar fotos para ela. – Sempre trabalhei muito, Thaissa, com isso adquiri um bom patrimônio
financeiro. Conforme lhe falei, quero me organizar para que aos quarenta anos eu possa me afastar
um pouco mais dessa rotina. Ainda sou bastante requisitado embora não pareça, pois desde que
cheguei aqui tenho deixado muitas questões em mãos de pessoas que confio tanto em Minas Gerais
quanto em São Paulo e Rio de Janeiro a causa disso, em grande parte, é você. – Thaissa permaneceu
calada, ouvindo-o. Dentro dela havia dois sentimentos, um de alegria por ser uma das prioridades
dele, e outro de preocupação por Marcus estar mudando sua rotina por sua causa.

— Espero que não esteja atrapalhando suas coisas. – falou ela, por fim.

— Não interprete dessa forma, Thaissa. Eu estou apenas lhe dizendo que estou tentando
reestruturar minha vida aqui. Eu preferia retornar após estar seguro do caminho que segue a Fênix,
mas fui ficando e acabei me ligando mais ainda nela após adquirir as outras ações que tenho. Mesmo
sendo esse o menor de todos os meus investimentos, pois a Fênix se trata de uma empresa de pequeno
porte que esta crescendo, mas ainda é pequena.

— Você tem razão. Mas aonde pretende chegar a final?

— Pode acontecer de eu ter que retornar para Minas e gostaria de saber sobre sua posição a
esse respeito. Não digo que seria definitivo, mas pode acontecer de eu ter que ficar por lá algum
tempo. – Thaissa ficou calada. Já esperava por aquele momento, embora preferisse ignorá-lo.

— Seria muito ruim se isso acontecesse, Marcus, mas não pretendo impedir que siga com seus
projetos.

— Estaria disposta e me acompanhar, caso seja necessário por alguns meses? – Ele a
perguntara com receio, mas precisava fazê-lo sem muito rodeio.

— Não sei. Precisa de uma resposta de imediato? – Thaissa queria dizer sim, mas havia muitas
outras questões que precisavam ser pensadas antes.

— Não amor. Só quero que pense a respeito, e caso surja a necessidade, esteja pronta para
uma nova fase em nossas vidas.

— Posso responder depois então? – pediu ela.

— Claro que pode. – Marcus retornou a mostrar os slides para ela. – São no total de quatro
empresas que tenho parte nelas. Duas não precisam muito de mim. Posso ficar ausente e participar
quando quiser. Já as duas outras, sou um dos maiores sócios, então preciso atuar mais. – Thaissa
olhava as imagens interessada. Marcus a deixava feliz por abrir á ela seu mundo e no momento
pensaria apenas nisso.

— Aqui na Fênix, tenho tido certa flexibilidade que me permite um tempo para cada
investimento, mas caso surja a possibilidade de adquirir mais ações posso ficar muito
sobrecarregado e precisarei mais de você.

— Acho pouco provável que adquira mais ações, meu amor. Os dois outros sócios tem apenas
essa empresa, e pelo que sei, não abririam mão facilmente de sua parte e a Letícia então nem se fala.

— Não sabemos do dia de amanhã, meu amor. Mas caso eu precise, você estaria disposta para
assumir a direção comigo ou talvez sozinha? – Thaissa ficou surpresa com o comentário dele.

— Quanto mais conversamos, menos entendo a finalidade disso tudo. – disse Thaissa sorrindo.
— Estou preparada para isso caso surja a oportunidade Marcus, mas confesso que não estou
entendendo muito aonde quer chegar.

— Gosto de ter estratégias montadas antes que surja a oportunidade, meu amor, apenas isso.
Posso contar com você então? – Ele pegou na mão dela e a levou aos lábios.

— Sempre. – Marcus sorriu satisfeito.

— Eu só precisava saber disso. Agora veja as fotos para se familiarizar e depois vamos nos
preparar para descansar. A apresentação continuou e sempre que Marcus queria fazer uma
observação, parava o clipe e depois dava continuidade. Thaissa percebeu que o patrimônio dele era
de fato grande. Provavelmente, Letícia soubera disso e, por esse motivo, cortejava-o tanto.

Finalizada as apresentações, foram juntos para o quarto.

— Meu amor, enquanto toma seu banho vou fazer algumas rápidas ligações. Tudo bem?

— Claro, querido. – Thaissa foi para a ducha e logo começou a ouvir Marcus ao telefone. Ele
parecia falar com algum de seus representantes em uma das empresas fora. A voz calma e segura
parecia ser sua marca tanto na Fênix quanto nas outras unidades. A conversa transcorreu por alguns
minutos e somente quando Thaissa estava prestes a sair do banho ele terminou a chamada.

— Acho que estou tornando sua vida bastante agitada. – falou ela sentindo— se um pouco
culpada.

— Agitada ela sempre foi, minha querida. Você esta dando vida a ela, essa é a verdade.

— Que bom! – disse Thaissa se aproximando e deixando a toalha cair.

— Eu adoraria usufruir desse banquete agora, mas preciso de um banho antes. – Marcus pegou
na cintura dela e a trouxe para ele. – Até nos momentos em que me irritava, eu preferia ter você
comigo sabia.

— Tenho esse poder sobre as pessoas. Para o bem ou o mal elas precisam de mim por perto. –
falou ela beijando o nariz dele.

— No meu caso, desejo que seja sempre para o bem. – Marcus tocou levemente no seio dela,
deixando-a arrepiada. – Vou para o banho antes que seja tarde. – Ele se afastou deixando-a.

Após a hidratação, Thaissa vestiu-se com um short de brim branco e uma regata verde água que
deixara na casa dele.
Logo ele saiu, e enquanto vestia-se, era observado por ela. Terminado o processo que ambos
não sabiam se fora de vestir-se ou um ato de exposição do nu másculo. Quando ele se juntou a ela na
cama deitaram-se de bruços para um bate papo informal.

— Já te falei que tem sido muito feliz esse tempo aqui com você? – Thaissa disse meio
envergonhada. Ele merecia ouvir suas verdades.

— Para mim também, minha linda, já percebeu isso né! Tenho procurado deixar claro para
você, o que não é fácil para mim e acredito que nem para a maioria de nós. – Thaissa sorriu do
comentário verdadeiro dele.

— Não é fácil para ninguém, meu amor. Os tempos atuais nos levam a crer que revelar nossas
emoções é sinal de fraqueza e todos queremos fingir, sermos fortes e donos de si. O que nunca dura à
vida toda.

— É verdade, sou prova viva disso. – Thaissa o beijou levemente desejosa de que fizessem
parte da pequena minoria que deixava-se levar pelos bons sentimentos e pareciam ser mais felizes
que os demais.

— Logo estavam aninhados um no outro e adormeceram juntos.


CAPÍTULO 43

Na manhã seguinte, ambos estavam sonolentos. Por duas vezes acordaram no meio da noite e se
amaram lentamente.

— Não sei porque, meu amor, mas estou tão cansado. Hoje seria um ótimo dia para ficar em
casa. – Reclamou Marcus com um sorriso nos lábios.

— Não acredito que estou ouvindo isso de você! – falou Thaissa levantando o ombro para ver
o rosto dele melhor.

— Só hoje, podemos? – Marcus a abraçou e a trouxe colocando Thaissa na frente de seu corpo.

— Não vou perder meu tempo concordando com você, pois tenho certeza que esta blefando e
logo mudará de ideia. – Ela sorriu abraçada a ele.

— Então levanta para me inspirar a fazer o mesmo. – Thaissa levantou-se e após tirar o
coberto do corpo dele, foi para banheiro. Quando ela lavava-se, Marcus entrou sonolento.

— Há dois dias que não tenho dormido bem, acho que agora acumulou o cansaço. Ele a
acompanhou sob a água e tomaram o banho juntos.

Ao terminarem, Marcus estava mais animado e Thaissa se divertiu da lembrança de vê-lo na


cama.

— O que fez isso com você, querido? – Perguntou enquanto se vestia.

— Você, claro! Não bastava eu ter dormido mal desde que me deixou aqui sozinho, agora me
suga toda a energia nessa noite. Não sou mais um rapaz de vinte anos, meu amor. – Thaissa o abraçou
sorrindo.

— É verdade. Você não é um garoto, mas posso garantir que está num nível mais alto. – Marcus
a beijou em agradecimento.

— Vamos! Que o tempo está passando. – disse Thaissa soltando-se dele para que terminassem
de se vestir.

Tomaram o café rapidamente e seguiram para a empresa. Quando lá chegaram a secretária


informou a Marcus que ele era aguardado. Despediram-se no elevador, e Marcus foi para o
compromisso dele.
Thaissa começou o dia com muitos relatórios para analisar sobre o desenvolvimento de
algumas campanhas e as estatísticas dos resultados delas. Teria que organizar toda a papelada e as
enviar uma a uma para os interessados. Esse trabalho lhe tomaria todo o dia podendo se estender,
então começaria logo.

Passaram-se duas longas horas e Thaissa sentindo o cansaço, decidiu ir tomar um suco para
animá-la um pouco.

. Estava conversando com a senhora que cuidava do local quando Letícia chegou.

— Bom dia, Thaissa! – Aproveitando um horário de lazer?

— Não exatamente, Letícia. Vim aliviar um pouco a cabeça para retornar ao trabalho maçante
que estou fazendo hoje. – Justificou-se, embora não houvesse necessidade de fazê-lo. A mulher sabia
como era ler e fazer todos aqueles dados.

— Pensei que sua função fosse apenas atender aos pedidos da diretoria. – Thaissa percebeu a
insinuação dela, mas preferiu ignorar. Estava tendo sucesso com a megera e assim pretendia
continuar.

— Atendo a quem precisar inclusive a você. Procure-me quando necessitar. – Thaissa


levantou-se despediu da senhora que a olhou com grande respeito e foi embora deixando Letícia
visivelmente irada.

Thaissa retornou a tarefa repetitiva que fazia com ânimo ainda maior. Havia tido mais um ponto
positivo sobre a mágoa que ainda restava nela, e isso era motivo de alegria para ela que tanto sofrera
pelos constrangimentos e tolices que a outra lhe causara por longo tempo.

Em sua tranquilidade de corpo e alma, ela não percebeu que Letícia entrava em sua sala.

— Preciso falar com você. – disse a mulher olhando-a com aparente superioridade.

— Sou toda ouvidos. O que precisa? – perguntou Thaissa desviando sua atenção do que fazia.

— Você não pode me tratar daquela forma na presença dos outros funcionários. Aliás, em lugar
algum, mas sendo na presença de um membro dessa empresa é ainda mais intolerável. – Ela olhava
para a mulher a sua frente sem entender o porquê de tanto drama.

— Não a maltratei na cantina, Letícia. – disse ela calma.

— É claro que você o fez. Daqui a pouco estarão falando pelos corredores que qualquer um
pode me distratar aqui e que nada acontecerá. – A mulher estava preocupada com sua reputação, mas
ela não tinha nenhuma para preservar. – constatou Thaissa.

— Como assim, qualquer um. Eu não sou qualquer um aqui. Ninguém o é. Todos têm seu valor
e importância na Fênix.

— Sim, você é. Ainda não se colocou em seu lugar, principalmente agora que está de caso com
o diretor. Mas independente de com quem tenha um caso aqui, você, é sim, uma simples funcionária.
– Como Thaissa desejava expulsar aquela louca de sua frente, mas era exatamente isso que ela queria
e não iria cair na jogada da outra.

— A palavra caso é familiar a você, Leticia? Eu não costumo aceitar esse tipo de
relacionamento. Já, você, não pode dizer o mesmo. Devolveu-a sem alterar a voz.

— Estou cansada de ouvir essa sua frase repetitiva, Thaissa. Acho que na verdade você
gostaria de ser como eu. Que posso me dar ao luxo de descartar quando não quero mais. Ao invés de
ser abandonada, sou em quem o faço antes. – Havia na voz de Letícia uma aparente dor que não se
assemelhava a confiança que ela forçava a mostrar.

— Pelo amor de Deus, Letícia! Eu sou grande o suficiente para saber que alguém que se julga
assim tão superior e intocável, na verdade, são as pessoas que mais mendigam afeto e carinho. Pare
de fingir o que não é! – Thaissa não mudava o tom de voz em momento algum.

— Você não é nada. É apenas a filha de um homem quase falido e que está aqui de favor. Pois
eu compraria o restinho de ações que vocês possuem com prazer, e trataria de tirar essa sua face de
linda moça daqui, em um instante. – Esse desejo, Thaissa já conhecia há tempos. Mas jamais se daria
tal prazer de permanecer na empresa que seu pai fundou com muito esforço.

— Faça isso, Letícia. Vai conseguir o dinheiro onde? Já sei você tinha a intenção de tê-lo
através do Marcus. Mas não conseguiu. É isso? – A mulher ficou com o rosto em brasas com o
comentário dela.

— Não se julgue a dona dele, menina. Ninguém é dono de ninguém e quando menos esperar, ele
se cansará de você e então posso ser a próxima da lista. Estarei aqui pronta.

— Pobre Letícia! Vive dos restos de outras, ou melhor, é usada apenas para substituir aquilo
que ela jamais conseguirá ser, uma mulher de valor. Ao invés de ficar me perturbando, porque não
vai à luta e busque-se aonde se deixou no seu passado? Perdeu-se por aí e não sabe como se
encontrar, é isso? – Thaissa falava com imensa tranquilidade.

— Você está enganada, querida, eu me dou valor sim e costumo sempre cobrar alto por dar aos
homens que passam por minha vida o que esperam de mim. Você e tantas outras que não se valorizam
e perdem seu tempo sem ter nenhum retorno compensador. Foi assim comigo e seu pai e sempre será.
Eu o deixei e te garanto que se o procurar, ele ainda volta feliz para mim. Pena que já não me
interessa, porque, além de velho, ele já não tem muito mais a oferecer. – Letícia descobrira o ponto
fraco de Thaissa e a atacara.

— Pois lhe garanto que meu pai jamais se deixará levar por uma vadia como você. Ele
aprendeu bem a lição e não se permitirá ser jogado na lama junto aos porcos novamente. – A mulher
quis voar em Thaissa, mas permaneceu onde estava.

— Não irei permitir que me trate da forma que tem feito. Saiba que vou usar de minha
autoridade aqui para expulsar vocês dessa empresa. – Ameaçou-a, furiosa.

— Vai lá! – disse Thaissa apontando para o corredor. – Irá me fazer um favor, pois vejo que só
assim não precisarei vê-la nunca mais e nem respirar o mesmo ar que você. Vá e traga minha
demissão assinada. Faça esse favor! – Thaissa falava com o mesmo tom de voz macio que usara
desde o início, Letícia era quem se mostrava desiquilibrada. Doía nela abrir mão da empresa que
tanto se dedicara e amava, mas se fosse essa a única forma de conseguir ter paz, estava disposta a
fazê-lo.

— Fala da boca para fora. Tanto você quanto seu pai, não deixariam essa empresa. São
apegados demais a ela. Mas eu vou fazer esse favor para você, querida. Aliás, vou fazê-lo por mim.
– Falava a mulher tentando imitar a mesma calma que Thaissa mostrava.

— Vá, então, e me faça outro favor. – Thaissa olhou fixamente nos olhos da outra. — Não
passe na minha frente em outra ocasião, pois posso não ter a mesma calma que tive com você por
esses anos. Você é seca, infeliz e tudo o que toca faz mal, mas não pense que meu pai permanecerá
morto como você, isso eu não vou permitir, sabe por quê? Porque ele tem a mim para ajuda-lo a se
reerguer, já você tem apenas sua beleza superficial e nada mais. É fútil, vazia e solitária. – As
palavras dela pareceram atingir Letícia como a um tapa. Mas logo ela ergueu novamente sua falsa
segurança e postura.

— Darei notícias! – Após fazer a ameaça, saiu deixando-a.

Thaissa ficou por alguns segundos olhando por onde a outra se fora. Depois de trinta minutos
que Letícia saiu da sala, uma das secretárias entra com o semblante pálido. − Thaissa, estão
requisitando sua presença na sala de reuniões.

− Não seria apenas para a diretoria Carla? – Quis saber ela intrigada pela expressão da jovem.
− Sim. Mas parece que houve um imprevisto e precisam de você lá.

− Tudo bem! Irei em um minuto. – Assim que se viu sozinha, Thaissa desligou seu computador,
já havia tido problemas demais por causa de sua imprudência. E foi ao encontro dos sócios.

Assim que entrou na sala sentiu-se observada por todos os presentes. Marcus a indicou que se
sentasse próxima dele e ela o atendeu.

− Como eu havia dito, há um grande rombo na empresa. Calculando os gastos realizados ano
passado foi confirmando um valor abusivo e inaceitável. Cerca de vinte mil reais foram desviados
com compras inexistentes neste período. — Letícia falava e ao mesmo tempo mostrava seu dossiê
que preparara uma cópia para todos os presentes. — Para terem uma ideia do quanto fomos lesados,
a compra de papéis de parede e luzes para os ambientes externos que deveriam ficar entre sete mil
reais. Consta na nota, nove mil. Esse é apenas um dos tantos superfaturados que descobri.

− O que deseja revelar com isso, Letícia? – perguntou Thaissa inconformada com os olhares
que recebia. Marcus pegou em sua mão debaixo da mesa. Pedindo calma.

− Estou dizendo que a responsável pela compra de materiais nos roubou. – Falou claramente a
mulher.

− Isso é um absurdo. Jamais retirei qualquer valor que fosse do cofre dessa empresa.

− As provas estão todas aqui. – disse a mulher apontando o arquivo que tinha em mãos. –
Thaissa olhou para Marcus e ele parecia sereno, porém os demais presente começavam a se agitar.

− Esperamos que você tenha de fato provas para acusar uma colega dessa forma, Letícia. –
falou Marcus calmamente.

− Ela é a responsável direta, deve saber o que acontece em seu departamento. Se fingiu não ver
algo tão óbvio é claro que fora ela quem fez o desfalque. – Alguns dos funcionários do setor de
Thaissa, que estavam presente no momento, começaram a ficar tensos. Poderiam ser acusados junto
dela.

− Não há a mínima possibilidade de haver esses desvios. Tanto eu, quanto minha equipe,
somos profissionais respeitáveis e acredito ser um grande equivoco o que você está dizendo. Espero
que saiba disso.

− Não vou me deixar ser intimidada por você, minha jovem. As provas estão aqui e eu exijo
uma posição da diretoria. – Letícia olhou para Marcus intimando-o.
− Vou pedir uma averiguação completa. — Falou ele.

− Você, como diretor da empresa, deveria tomar uma atitude mais sensata, Marcus, e afastar a
responsável do seu cargo, durante as averiguações. – Letícia falava com voz confiante. − Quero
também fazer parte desse processo. — falou a mulher.

− Letícia tem razão quanto a afastar a Thaissa do cargo. – falou um encarregado ligado ao setor
de marketing onde Letícia era diretora. Os presentes começavam a tomar partido mesmo que
discretamente.

− Tanto você, quanto a Thaissa, e até mesmo eu, ficaremos afastados durante esse processo.
Contratarei pessoal terceirizado para isso. – falou Marcus decidido. Com relação a afastar a Thaissa,
isso não será necessário, já que ela tem desempenhado outros papéis na empresa. E pelo que sei, ela
sempre foi um exemplo aqui. Não se esqueçam disso – Marcus disse sério sem dar espaço para mais
comentários. Thaissa observava a tudo em silêncio. Aquela análise poderia levar dias, e até lá ela,
seria apontada como uma ladra. Aquilo não fazia sentido.

− Até lá, eu gostaria que não acusassem a colega de vocês. Pode ser apenas uma falta de
comunicação e tudo se resolverá.

− No seu lugar, eu também a defenderia, Marcus. Nem precisava dizer isso. – A mulher disse
com tom meloso. Mas aqui precisa ser imparcial. – Começaram os murmurinhos e Thaissa ficava
mais contrariada ainda com aquela situação.

− Não preciso que alguém defenda-me, Letícia. Sei bem da minha inocência e isso ficará
provado logo. – Ela acariciou a mão de Marcus em agradecimento.

− É o que todos esperamos, Thaissa. Ou teremos que fazer essa averiguação desde o primeiro
instante em que tomou posse dessa função.

− Sua naja. – falou ela baixo. – Pense antes de falar Letícia, eu posso te processar por isso. – A
mulher a olhou, sínica, demonstrando não estar intimidada pela ameaça.

− Bom, acredito que tudo esteja concluído por enquanto. Deixarei todos a par dos próximos
procedimentos. Marcus disse na intenção de encerrar aquele bate boca que tendia a piorar. – Thaissa
olhava contrariada, as pessoas saindo. Certamente alguns haviam acreditado no que Letícia falara.

− Como ela foi capaz de me expor dessa forma diante de todos? – falou Thaissa quando
ficaram a sós.
— Calma, meu amor. Fique tranquila que resolveremos isso logo. Vou contratar uma empresa
que conheço e tudo será esclarecido.

− Até lá, ficarei sendo apontada pelos corredores e algo me diz que é exatamente isso que ela
deseja. – Falou Thaissa.

− Eu estarei com você, não entre na neura dela. – Marcus pegou em seu ombro e a trouxe para
ele.

− Obrigada por ficar do meu lado. – Agradeceu ela encostando-se nele.

− Eu não poderia tomar outra atitude que não fosse essa. – Disse ele levando-a para a saída. –
Agora seja firme e não se deixe derrotar por olhares acusadores.

− Vou tentar. – disse ela erguendo seus ombros.

Os dias seguintes foram desafiadores para Thaissa. Embora, Marcus deixasse claro a todo
momento seu apoio a ela, ainda sentia-se mal a cada nova manhã quando tinha que ir à empresa.
Algumas pessoas fingiam que nada havia acontecido, outras no entanto, a olhavam de lado. Letícia
fizera questão de divulgar o problema e por vezes ela via a mulher olha-la disfarçadamente
parecendo se divertir com a situação.
CAPÍTULO 44

Marcus a informara naquela manhã antes de sair para uma reunião fora da empresa que estavam
prestes a concluir o suposto rombo e Thaissa alegrou-se um pouco mais desde então. Seu pai também
lhe ligara confortando-a certo de que logo tudo estaria resolvido.

Marcus seguia para sua sala, após a manhã estressante que tivera. Além dos seus muitos
afazeres, estava acompanhando o processo de averiguação das informações de compra, o que lhe
tomava muito do tempo, mas valeria a pena esclarecer logo a situação para que Thaissa voltasse a se
sentir bem. Quando viu um rapaz que lhe chamou a atenção passar na outra extremidade da recepção.
Curioso, ele foi à secretária informar-se de quem se tratava já que ele tinha a nítida impressão que o
conhecia.

— Ana Carla, aquele homem que acabou de sair do elevador, sabe me dizer a quem ele visitou
aqui? – A jovem olhou na direção que Marcus discretamente apontava.

— O nome dele é Adriano, e ele pediu para falar com a Letícia. – disse a moça de forma
educada.

— Você quem informou a ela de quem se tratava? – Quis saber ele.

— Sim, fui eu. O senhor precisa de alguma coisa? – Marcus percebeu que a moça ficara
curiosa pelas perguntas dele e preferiu encerra ali o questionamento.

— Obrigado. É apenas isso. Paula não veio hoje? – Ele perguntou, mudando o rumo da
conversa e certo de que a outra moça conheceria o visitante.

— Ela está em um curso interno que foi organizado para as secretárias e retorna amanhã pela
manhã. – Informou a jovem educadamente.

— Tudo bem. Poderia levar esses documentos à sala da Letícia? Em alguns minutos precisarei
deles lá. – pediu ele entregando-os à jovem.

— Eu os levo lá, assim que terminar de receber esse fax.

— Obrigado! – Agradeceu ele.

Marcus saiu intrigado com o que vira a pouco. Embora preferisse não tomar qualquer atitude
pelo que vira dias atrás, agora não haveria alternativas, iria resolver aquela situação antes que ela
gerasse mais transtornos.

Letícia estava em sua sala, pensativa. Quando viu Marcus chegando, sorridente, ela esperou
que ele entrasse.

— Boa tarde, Letícia! – disse ele sentando-se na frente dela.

— Boa tarde Marcus! Em que devo a honra? Normalmente sou eu quem vai a sua procura. –
disse com voz adocicada.

— Quem era o rapaz que saiu daqui a pouco? – perguntou ele, sem rodeios, olhando-a nos
olhos.

— Não recebi visitas hoje, Marcus, acho que se enganou. Deve ter sido João Lucas. – A
mulher respondeu sem qualquer vacilo na voz.

— Foi você, eu já confirmei. – Letícia diminuiu o sorriso. Mas permaneceu com o semblante
inabalável.

— Vi passando um jovem pelo corredor, e ele foi até a sala de João Lucas pelo que deduzi. –
disse ela segura.

— Tudo bem, se você diz que não foi aqui, não foi. – Marcus permaneceu sentado, aguardando
o próximo passo e quando a secretária entrou, ele sorriu para Letícia, que ficou pálida.

— Ana Carla, por favor, deixe esses documentos que te pedi com Letícia para ela rever. – A
moça se aproximou tranquilamente e os entregou para ela que os pegou mecanicamente. — Eu não
havia reconhecido o Adriano, Letícia, quando a Ana Carla me disse que ele havia procurado por
você, foi que me lembrei dele. – falou Marcus olhando de uma a outra. – A moça sorriu para ambos.
Jogando por terra a mentira da mulher.

— Acredito que nem a própria Letícia o reconheceu quando falei o nome, ela hesitou um pouco
antes de aceitar recebe-lo. – Comentou a secretária de forma inocente.

— São tantos que nos procuram que as vezes esquecemos os rostos. – Comentou a farsante
fingindo calma. – A moça pediu licença e saiu deixando-os a sós.

Marcus permaneceu calado esperando que ela desse seu parecer da história. Como Letícia não
o fez, ele se pronunciou.

— Sabe Letícia, eu gosto e admiro as mulheres que lutam e correm atrás do que desejam, mas
apenas quando isso não prejudica outra mulher. – Ele calou-se por alguns segundos. – Mas quando
essa pessoa, ou qualquer outra que seja, faz isso passando por cima de tudo que cruzar em seu
caminho, aí eu não sinto nada que não seja desprezo. Há alguns dias você causou um clima pesado
entre Thaissa e eu. Sua maldade quase a separou de mim. Por sorte eu vi e deduzi, posteriormente, o
que fez com aquele e-mail, e o pior não aconteceu. Eu preferi ignorar sua falta de caráter por pensar
que pararia ali. Mas agora você me mostrou que é ainda mais perigosa e baixa com suas atitudes e
não fingirei não ver novamente. E para que você não diga que sou desumano, te darei 48 horas para
comprar minhas ações aqui na empresa ou me vender as suas, com preço de mercado. Nenhum real a
mais ou a menos para ambas as propostas. Quero você longe daqui e longe de Thaissa de uma forma
ou de outra.

— Você sabe que não tenho dinheiro suficiente para comprar sua parte. – falou ela ciente de
tudo que ele lhe falava. – Essa é minha única fonte de renda, não posso abrir mão dela.

— Compre ações em outra empresa. Faça o que quiser. Mas terão apenas essas duas
alternativas ou direi aos demais sócios o que fez e será obrigada de qualquer forma a se afastar. Sem
contar a história do rombo, que tenho plena certeza, foi forjado por você, para denegrir a imagem da
Thaissa aqui dentro. O que estou te oferecendo é um pouco melhor, porque não pretendo comentar
sobre o ocorrido caso me venda as suas. – Letícia ficou calada como se preparasse um texto para
representar e quando o fez foi delicada e submissa.

— Não precisamos chegar a esse extremo, Marcus. Podemos nos entender e muito bem, basta
você me dar uma oportunidade. – Ela levantou-se passando as mãos pelo corpo sensualmente e foi
até ele. – Você sabe que meu único objetivo era chamar a sua atenção, e agora que chamei, vamos
conversar um pouco em off. Sou uma mulher extremamente discreta e criativa. Letícia prostrou-se
atrás da cadeira onde ele estava sentado e acariciou a nuca de Marcus. – Posso ser o que você quiser
e desejar na cama.

— E fora dela consegue ser alguma coisa? – perguntou friamente. Letícia o ignorou e continuou
a tocá-lo. Virando-o Ela se abaixou e se aproximou dele. Quando foi para beijá-lo Marcus segurou
seu pulso que estava sobre o ombro dele. Naquele instante, Thaissa entrou.

— Atrapalho alguma coisa? – Ela fuzilou Marcus com os olhos e ficou aguardando uma
resposta. – A mulher se afastou lentamente dele.

— Eu disse a você que homens são assim, meu amor. – disse Letícia percebendo que aquela
era sua última cartada. – Além do mais, você não é mulher para um homem como Marcus.

— Se preferir não complicar ainda mais sua vida aqui, Letícia, eu te aconselho a fechar sua
boca. – Ambas as mulheres se assustaram com o tom de voz dele. – Você a conhece muito melhor que
eu, Thaissa. Então não há muito que esclarecer. – Começou ele.

— É claro que há o que dizer sim. Eu a vi encostada a você, Marcus, e tudo indicava que ia
beijá-lo – disse Thaissa impedindo-o de prosseguir.

— Por conhecer tão bem sua ex-madrasta, acredito que saiba que ela pode forjar qualquer
coisa para se beneficiar. – Ao ouvi-lo, Thaissa pareceu refletir um pouco mais, porém ainda os
olhava com desprezo.

— Diga logo o que está acontecendo aqui e tomamos uma decisão a respeito. – Thaissa disse
segura embora por dentro sentia-se em pedaços.

— Eu estava negociando com ela e lhe dei duas boas opções aqui na Fênix. Que ela compre
minhas ações. – Thaissa ficou aparentemente surpresa pela notícia. – Ou me venda as dela. —
Concluiu Marcus, tranquilamente.

— Por que fez isso? Para o caso de vocês não ficar muito na cara? É isso Marcus? – Aquela
constatação fez Thaissa reviver toda mágoa que tentava afastar de sua vida.

— Fiz isso para afastá-la de você. – Thaissa não entendia aonde ele queria chegar. – Quando
Marcus dava continuidade, Letícia foi à direção dela para agredi-la. Assim que ela levou suas mãos
nos cabelos de Thaissa, Marcus foi ao socorro dela. Mas antes de o fazer, Thaissa empurrou a mulher
contra uma poltrona.
— Sua louca! Não sou do tipo que disputa a atenção de nenhum homem, principalmente se ele
estiver brincando com minha cara. Fique com ele. Devem se merecer. – Quando ela virou-se para
sair, Marcus a prendeu pela cintura.

— Espere, Thaissa! – Ela tentou me seduzir porque se sentiu acuada. Ela forjou aquele e-mail
em seu computador e também tem ligações com o tal de Fred. Eu o vi saindo daqui hoje. – Thaissa
olhou incrédula para Marcus.

— O que você está me dizendo? – perguntou ela olhando dele para Letícia que ficara pálida.

— Que Letícia esteve por trás de todos os problemas que teve em sua vida nos últimos meses.
Menos esse problema aqui. – disse ele apontando para si mesmo. – Thaissa tranquilizou-se um
pouco, mas ainda estava nervosa.

— Por que fez isso? – Perguntou ela, olhando para a mulher fria a sua frente. — Eu nunca lhe
fiz mal algum. Aliás, foi você quem me fez nesses últimos anos. – Vencida, a mulher baixou os
ombros e a cabeça. Sentando-se derrotada.

— A única coisa que eu queria era afastar vocês. Quando Marcus chegou aqui eu já imaginava
que ele se interessaria por você, com essa cara de bobinha que encanta os homens, sem ter nada que
lhes oferecer para conseguir isso. Por esse motivo eu tentei a todo custo impedir que se envolvessem.
Contratei Adriano que foi um caso meu do passado, e pedi que chamasse sua atenção e a afastasse do
meu caminho. Quando eu soube que iria a boate com as amigas, coloquei meu plano em prática.
Adriano se passou por Fred e foi se encontrar com você para tentar seduzi-la e se apaixonar por ele.
– Letícia calou-se por alguns segundos e retornou a falar depois que espirou longamente. — Tudo
parecia correr bem, mas quando percebemos que ela não havia se envolvido emocionalmente com
ele, eu quis dispensá-lo do serviço. Mas ele começou a me incomodar e pedir dinheiro. Para me
pressionar, ele a seguiu algumas vezes. Fui obrigada a lhe dar o que pedia, e então tentei minha
última cartada, forjando aquele e-mail que Fred nunca soube que existia, mas como eu tinha os dados
dele e algumas fotos nossas, foi fácil prosseguir. Criei a conta, e eu mesma enviei e respondi a
mensagem. Hoje, depois de me negar a atender as ligações dele, Adriano, veio até aqui e fui
obrigada a recebê-lo e passar um cheque para ele sumir por algum tempo. E para meu continuado
azar, Marcus o viu saindo da empresa. É isso! – Concluiu ela seca, erguendo o queixo.

— Por que dessa perseguição comigo, Letícia? – Thaisa perguntou enojada.

— Simplesmente porque tudo a sua volta é bom e verdadeiro, o que não acontece comigo. Com
isso a vontade de ter o que estava a sua volta crescia constantemente e fiz de você meu porto. Onde
eu recarregava minhas energias, através de sua raiva por mim. Eu a incomodava para conhece-la
mais, para tirar essa sua costumeira positividade sobre tudo. Quando você foi à escolhida pelo
homem que eu havia planejado ter, eu tinha apenas uma coisa em mente. Destruir a relação de vocês
custasse o que fosse. Se eu não poderia ficar com ele, você também não ficaria. – Thaissa pegou na
mão de Marcus que estava parado ouvindo a mulher e a apertou carinhosamente.

— Você tirou tudo de mim, Thaissa. Agora ficarei sem minhas ações por sua causa. – Acusou
ela.

— Você está enganada, Letícia, a única culpada por seu fracasso é você mesma, por querer ter
o que não lhe é de direito e merecimento. Por ser uma mulher fútil de baixa estima e amor próprio.
Jamais a vi conseguir algo por seu talento apenas. Sempre usou de seus atributos para atingir seus
objetivos. – falou Thaissa, soltando a mão de Marcus. – Tudo o que construiu foi tão superficial e
passageiro quanto sua beleza. Não me culpe pelo que é. Nada tenho a ver com isso. – Letícia
permaneceu calada como se preparasse seu próximo passo.

— Amanhã faremos uma reunião e você deverá dizer o que deseja. Se pretende comprar
minhas ações ou venderá as suas. – disse Marcus ao perceber que ela se calara.

— Sabe que não tenho como comprar a sua parte. – disse Letícia nervosa.

— Então ofereça as suas ações na reunião e dê preferência para eu adquiri-las. Procure alguém
que possa orientá-la e traga seu valor amanhã. Estarei aguardando e ciente do preço de mercado
delas. – Informou ele sério.

— Você não se contentará com ela, Marcus. Nenhum homem se realiza plenamente com uma
mulher sem graça e certinha como Thaissa. Logo você se cansará. – falou a mulher, certa do que
dizia.

— Como eu já estou mal vista aqui na empresa, não fará diferença alguma se eu colaborar um
pouco mais para isso. – Thaissa foi até a mulher e lhe deu uma bofetada no rosto.

— Sua louca, eu poderia processar você por isso sabia? – disse a mulher devolvendo a
ameaça que Thaissa lhe fizera dias atrás.

− Então se prepare para isso, minha querida, porque vou lhe dar o que precisa. – Mais uma vez
ela acertou a face da mulher que, cambaleando, sentou-se na poltrona a frente. Marcus ergueu-se para
impedir que Thaissa prosseguisse com a agressão quando ela virou-se para ele e ergueu a mão
pedindo que ficasse onde estava. Thaissa pegou a mulher pelos cabelos e a levou para fora da sala
percebendo que algumas pessoas presenciavam a cena.

− Suma da minha frente, sua vadia. Da próxima vez que passar pelo meu caminho, não me
responsabilizarei pelo que pretendo fazer com você. Thaissa a empurrou para o elevador e a mulher,
vencida, ajeitou suas roupas e seguiu elegantemente para a saída sem olhar para trás. Marcus a
aguardava na sala, e quando ela entrou, ele viu um sorriso discreto na face dela.
CAPÍTULO 45

Passados alguns dias, tudo estava resolvido. Letícia vendera sua parte na empresa ficando
apenas Marcus e mais outro acionista com exceção de Thaissa e seu pai que tinham uma pequena
parte. Thaissa preferiu não perguntar a Marcus se de fato ele tinha interesse pela empresa ou o fizera
apenas por ela. Torcia para que ele também pudesse ter bom retorno do que investira ali. Embora não
se falaram sobre valores, ela soube que Marcus abriu mão de uma considerável quantia para comprar
as ações. Ela soube também, por Paula, que esteve presente nas transações, que Letícia permanecera
com a mesma expressão de superioridade até o último instante. Thaissa optou por não estar presente
durante o processo de compra e venda. Mas adoraria estar lá para ver pela última vez aquela mulher.
Thaissa esperava que fosse de fato à última vez. Ela soube ainda que Letícia jogou seu charme para
Marcus e que ele a desprezou como pessoa e mulher.

Um alívio tomou conta do corpo e da alma dela, ao ver a sua frente toda a papelada assinada e
registrada. Havia sido colocado um fim naquela longa história que tivera que dividir com Letícia. A
mágoa que não seria mais alimentada por ela, secava como uma poça de lama no duro verão
nordestino e Thaissa procuraria criar uma forte camada sobre essa crosta que ficou, para que jamais
renascesse novamente, nem por Letícia ou por qualquer outra pessoa que fosse. Agora sentia-se livre
de um fardo que a consumia silenciosamente.

Como era de se esperar, Thaissa foi convidada para atuar na direção junto com Marcus e seu
pai logo após a confirmação de que o dossiê fora de fato forjado por Letícia. Ela ficara agradecida
por tal confiança. Marcus tinha seus outros investimentos e pelo que Thaissa percebeu, ele os havia
deixado por longo tempo nas mãos de outras pessoas e agora estava trabalhando muito para se
inteirar deixando ela e André decidindo pela Fênix novamente. Ela sentia-se de certa forma culpada
por esse transtorno, pois era o grande motivo de Marcus ter permanecido em Goiás. Com isso o
ajudava em tudo o que podia, tentando retribuir o que fizera por amor a ela.

Embora não falassem de casamento, Thaissa já se sentia unida a ele. Muitos de seus pertences
mais utilizados já estavam na casa de Marcus. Seu pai parecia mais feliz e não se importava em ver a
filha com menor frequência. Para alegria de Thaissa, ele estava começando um novo relacionamento
e ela sentia-se feliz por ele recomeçar sua vida. Tudo estava se encaixando para todos.

— Meu amor, precisamos conversar. – disse Marcus com aparência cansada.

— Aconteceu alguma coisa? – perguntou percebendo apenas naquele momento que ele de fato
parecia abatido.

— Eu preferia que isso não acontecesse cedo assim, Thaissa, mas precisarei ir para
Uberlândia por algum tempo. – Thaissa ficou surpresa, embora sentisse que poderia um dia acontecer
tal fato. Ela desejava que demorasse um pouco mais. Não estava preparada para aquela possível
mudança, não ainda – Eu gostaria muito que fosse comigo. – Marcus parecia coagido enquanto
falava. Ela percebia que ele sentia-se mal por coloca-la naquela situação.

— Eu não me sinto pronta para essa mudança drástica Marcus. Quero muito ficar com você e
dividirmos nossas vidas. Mas ter que deixar tudo aqui e seguir sem ter certezas, não estou pronta
ainda. – disse constrangida. Havia muito a pesar, principalmente, seu pai que precisava dela por
perto.

− Eu tentarei respeitar sua posição, Thaissa, mas saiba que muito me dói não poder contar com
você nesse momento. – Ele estava visivelmente contrariado.

− Podíamos manter a relação à distância, por enquanto, e ver no que dará. – Sugeriu ela certa
de que não era o que ele desejava.

− Pode ser! Quem sabe vingue. – Ele estava ciente de que não daria certa daquela forma.
Queria Thaissa por perto, sempre.
CAPÍTULO 46

Havia se passado uma semana desde a conversa deles e Marcus decidira que era hora de
partir. Naquele intervalo acreditou que Thaissa mudaria sua posição e o acompanharia, mas estava
enganado. Criou-se um gelo entre eles, que a distância certamente transformaria em saudade e
desapego. Fizeram amor poucas vezes, e Thaissa havia retornava para sua casa alegando que assim
tornaria as coisas mais fáceis na partida dele.

Marcus não imporia nada a ela. Não forçaria sua decisão por nada, mesmo que seu desejo
fosse pegá-la pelas mãos e levar consigo. Aquela atitude deveria partir de dela. Ele deixara claro
seu desejo de tê-la ao lado, até cogitou dar-lhe uma aliança, mas aquela atitude poderia ser vista por
ela como uma coação e não faria isso com o amor deles. Um dia antes de sua partida, Thaissa foi a
casa dele para a despedida.

− Eu sinto muito, Marcus. Mas há coisas que me prendem aqui. Peço que entenda. – disse
insegura.

— Eu entendo sua decisão, Thaissa. – Não, ele não entendia. Mas a respeitaria mesmo que isso
lhe custasse muito. Beijaram-se e abraçaram-se longamente com a promessa de que se comunicariam.
Marcus, no entanto, estava certo de que aquela seria a última vez que a teria em seus braços.

Thaissa não suportaria acompanha-lo até o aeroporto no dia seguinte. Estava destruída por
dentro, mas aquela seria sua única opção. Não podia deixar a Fênix e seu pai sozinho. Mesmo que
ele agora recomeçasse sua vida e a empresa estivesse sob seu comando e de outro responsável que
Marcus contratou por certo período. Ela ainda precisava ficar por um tempo.

O dia amanheceu chuvoso. Thaissa olhava para a janela e enquanto a água caia lá fora, em seu
rosto corria as lágrimas da indecisão. Estaria de fato tomando a atitude correta? Não dormira
naquela noite, tamanha era sua angústia. Logo mais o homem que amava partiria e talvez não mais se
veriam. Caso Marcus optasse por vender sua parte na empresa em breve, os laços estariam cortados
para sempre. Aquela palavra a feriu profundamente. Uma batida na porta a trouxe para a realidade.

— Sim! — Seu pai entrou olhando-a sério.

— O que pensa que está fazendo, moça? – Thaissa o olhou sem entender o porquê daquelas
palavras. – Vai deixar o homem que ama partir assim? – Chorando, ela foi ao encontro do pai buscar
refúgio.
— Não posso seguir com ele, pai. – disse, abraçando-o.

— Claro que pode. Não há motivos para não fazer isso, filha. Veja a sua volta, tudo aqui está
em seus devidos lugares. Apenas você não está, e caso não faça nada, não estará daqui para frente, e
nunca mais. – Thaissa ergueu seu rosto olhando-o nos olhos.

Marcus colocou seus pertences no táxi. Seu carro ficaria com o diretor que trouxera para
Goiânia, assim como a casa dele. Olhando para trás, uma saudade dolorosa lhe dominou. Era hora de
partir.

Marcus aguardava ansioso no aeroporto Santa Genoveva, o horário de sua viagem. Quando
ouviu a chamada sendo feita, ainda lhe restava uma esperança que fora destruída pela bela voz
solicitando o embarque dos passageiros. Pegando sua bagagem, ele seguiu na direção informada.

— Marcus Henrique Gusmão Antunes! Eu te amo e o proíbo de entrar nesse avião sem mim! –
Com as mãos trêmulas, ele deixou sua bagagem no chão e virou-se. – Thaissa estava entrando às
pressas no saguão com um megafone na mão, sendo observada por todos os presentes. Ainda assim
caminhava com a segurança de uma deusa. Aquela linda visão se aproximando fazia com que o
coração de Marcus descompasse ao ritmo dos passos rápidos dela.

Quando Thaissa se aproximou, ela se joelhou ao lado dele e lhe ofereceu uma caixinha de
veludo vermelha. Seus olhos brilhavam como fogo e sua boca rosada parecia tensa.

— Case-se comigo, Marcus, e me permita fazer de você o homem mais feliz do mundo. –
dizendo isso, ela abriu a caixa deixando a mostra o seu conteúdo. Duas alianças de ouro com os
nomes de ambos trabalhados em sua parte externa. Com dois cristais nas extremidades. Estavam
enroladas em confetes carnavalescos de vários tons. – Marcus a ergueu do chão e entre lágrimas
beijaram-se apaixonadamente. Foi ouvido ao longe alguns aplausos, mas estavam demasiadamente
envolvidos que não se deram ao trabalho de agradecer naquele instante.

— Pensei que nunca mais provaria do seu sabor. – disse Marcus secando as lágrimas que
desciam do rosto dela.

— Me perdoe por isso, meu amor. Eu não me sentia confiante o suficiente para o próximo
passo. Mas descobri que estou menos ainda para ficar longe de você. – Marcus a beijou novamente
cobrindo o rosto dela com suas mãos protetoras.

— Quando eu optei por comprar as ações e vir para o Centro-Oeste, um dos motivos foi o
desejo de reencontrá-la. Eu sabia que tínhamos uma história para vivermos juntos, meu amor. Só não
imaginava que seria algo tão mágico e que me traria tanta vida. Eu te amo, Thaissa! E faria tudo
novamente para tê-la ao meu lado, quantas vezes fosse preciso.

— Desde aquele encontro que eu também não conseguia ser mais eu. Amei você desde a
primeira vez que nos olhamos e prometo fazê-lo feliz até meu último dia de vida. – Marcus retirou da
caixa a aliança menor e a colocou no dedo anelar esquerdo dela, levando-o a boca em seguida. O
rosto dele ainda estava molhado pelas lágrimas e Thaissa sentiu o líquido percorrer entre seus dedos.
Levando-a ao mais pleno dos sentimentos entre homem e mulher — Prometo amá-la na saúde, na
doença, na riqueza e na pobreza. Em tudo o que for preciso, até a eternidade. – disse ele carinhoso. –
Thaissa pegou a outra aliança e fez o mesmo gesto que ele.

— Prometo estar com você aonde quer que vá. Acompanhando-o e amando-o, sem jamais me
deixar vencer pelos obstáculos que surgirem a nossa frente. Porque a cima de tudo estará esse amor
eterno e verdadeiro que construímos sobre pedras. Beijando a joia, ela o olhou no fundo dos olhos.
“Atenção senhores passageiros, esta é a última chamada para o voo destino a Belo Horizonte.” A
chamada os tirou daquele transe mágico.

— Vamos, minha amada! – disse Marcus afastando-se um pouco.

— Agora e sempre, meu amor – respondeu ela retirando sua passagem da bolsa
acompanhando-o. Enquanto isso agradecia os últimos sorrisos que recebiam. Abraçados, seguiram
juntos. Certos de que viveriam felizes a cada novo amanhecer, independente do brilho do sol lá fora.
Por que do lado de dentro estariam sempre aquecidos, um no outro.