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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PIAUÍ

NÚCLEO DAS PROMOTORIAS DE JUSTIÇA DE DEFESA DA PROBIDADE


ADMINISTRATIVA
44ª PROMOTORIA DE JUSTIÇA

EXMº SR. JUIZ DE DIREITO DA______ VARA DOS FEITOS DA FAZENDA PÚBLICA
DA COMARCA DE TERESINA-PI

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PIAUÍ, através de seu


representante adiante assinado, vem, perante V. Exª, com fundamento nos art. 129, inciso
III da Constituição Federal, artigo 25, inciso IV, alíneas a e b, da Lei 8.625/1993; artigos 1º
e 5º, da Lei 7.347/1985; e artigos 10, 11 e 17 da Lei 8.429/1992 propor a presente

AÇÃO CIVIL PÚBLICA DE RESPONSABILIDADE POR ATO DE


IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
em face de
aa) FLORENTINO ALVES VERAS NETO, brasileiro, Secretário
Estadual de Saúde, CPF 32744811300, com endereço profissional na Av. Pedro Freitas –
s/n – Bloco “A” Centro administrativo,CEP: 64018-200 – Teresina/PI

b) MERLONG SOLANO NOGUEIRA, brasileiro, Secretário Estadual


de Administração e Previdência, CPF 13891820372, com endereço profissional na Av.
Pedro Freitas. S/N Bloco I - Centro Administrativo - Bairro São Pedro Teresina-PI - CEP:
64018-900, em razão dos fatos e fundamentos jurídicos a seguir aduzidos:
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OBJETO DA AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA

A presente Ação Civil Pública visa responsabilizar os atuais


Secretários Estaduais de Saúde e Administração pelos seguintes atos de improbidade
administrativas:
a) contratação irregular de servidores, sem o prévio concurso público
ou processo seletivo simplificado, em total contrariedade ao artigo 37 da Constituição
Federal;
b) ordenação ou permissão da realização de despesas não
autorizadas em lei ou regulamento (artigo 10, inciso IV da Lei nº 8.429/92) e que
provocaram lesão ao erário decorrente do desvio de bens ou haveres da entidade pública
(art. 10, caput, da Lei nº 8.429/92);
c) prevaricação, pois, até a presente data, não adotaram as
providências indispensáveis para apuração da responsabilidade pelos atos de
improbidade administrativa, caso tenham sido cometidas por outros servidores públicos;
d) descumprimento de requisição do Ministério Público (art. 129, VI,
CF; art. 8º, § 1º da Lei nº 7.347/85).

1. DOS FATOS:

1- O Ministério Público do Estado do Piauí instaurou o Inquérito Civil


Público nº 72/2017 tendo por objeto “apurar possíveis contratações irregulares, sem
concurso público, nos estabelecimentos hospitalares no âmbito da Secretaria Estadual de
Saúde (SESAPI)”.
2 Reconhecendo a existência, no âmbito da Secretaria Estadual de
Saúde, de servidores contratados sem o prévio concurso público ou processo seletivo
simplificado, o primeiro denunciado, em audiência realizada no dia 20 de junho de 2018,
“apresentou proposta da realização de concurso no ano de 2019 para substituir o número
de servidores contratados precariamente por efetivos”.
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3 – A partir daí foram realizadas várias audiências a fim de tratar da


operacionalização do concurso público no âmbito da Secretaria Estadual de Saúde:
a) em audiência realizada no dia 9 de abril de 2019, “o Secretário
Estadual de Saúde apresentou o levantamento detalhado de todas as necessidades de
profissionais nas Unidades Hospitalares, englobando as 5 (cinco) Macrorregiões que
compõem a rede de Saúde Estadual, chegando-se a um quantitativo de 3.616 cargos”;
b) em audiência realizada no dia 14 de junho de 2019, com as
presenças dos Secretários Estaduais de Saúde e Administração, para fins de discussão
quanto à operacionalização do concurso público no âmbito da Secretaria Estadual de
Saúde, ficou decidido que, no prazo de 30 (trinta) dias, a contar da data da audiência, os
secretários apresentariam “plano de trabalho de centralização das despesas com insumo
e pessoal; apresentar uma previsão de concurso para as vagas existentes e teste seletivo
para as demais”;
4 – No entanto, em resposta ao Mandado de Notificação nº 99/2019,
para comparecimento à audiência no dia 09 de setembro de 2019, às 9 horas, a fim de
tratar sobre a operacionalização do mencionado concurso público para os
estabelecimentos hospitalares, os Secretários de Saúde e Administração, através do
Ofício conjunto SESAPI/SEADPREV GAB N 001/2019, informaram que “considerando
que a matéria ainda carece de análise da PGE e deve ser submetida à CGFR para a
devida e conclusiva apresentação da proposta ao Senhor Governador do Estado,
solicitamos o adiamento da audiência marcada para qualquer data, entre os dias 20 e 30
setembro deste corrente ano”.
5 - Considerando que as alegações para adiamento da audiência
eram infundadas, eis que, na audiência realizada no dia 14 de junho de 2019, já ficara
determinado que os Secretários de Saúde e Administração consultariam o Governador do
Estado quanto à realização do concurso público e que, embora, devidamente notificado
para comparecimento às audiências anteriores, o Senhor Procurador – Geral do Estado
não compareceu nem prestou qualquer esclarecimento, esta Promotoria de Justiça
expediu a Notificação Recomendatória nº 04/2019, recomendando aos dois denunciados
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que adotassem as providências cabíveis para os fins de:


a) cumprimento da norma do inciso II do artigo 37 da Constituição
Federal, segundo a qual “a investidura em cargo ou emprego público depende de
aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos”, e do Decreto
Estadual nº 15.259, de 11 de julho de 2013, ou, se for o caso, da norma do inciso IX do
artigo 37 da CF, nos termos da Lei Ordinária Nº 5.309 de 17/07/2003;
b) investigar a responsabilidade dos agentes públicos que, ao
contratarem pessoal sem concurso público ou teste seletivo, ordenaram ou permitiram a
realização de despesas não autorizadas em lei ou regulamento (artigo 10, inciso IV da Lei
nº 8.429/92) e que provocaram lesão ao erário decorrente do desvio de bens ou haveres
da entidade pública (art. 10, caput, da Lei nº 8.429/92).
6 – Ressalte-se que, na audiência do dia 14 de junho de 2019, esta
Promotoria de Justiça alertou aos dois denunciados quanto à ilegalidade das contratações
sem prévio concurso público e sem processo seletivo simplificado, bem como quanto à
ilegalidade das despesas correlatas eis que classificadas como “correntes” e não como
despesas de pessoal, infringindo, assim, a Lei de Responsabilidade Fiscal (artigos 16 e
17 da LC nº 100/2000.
7 - Descumprindo a requisição do Ministério Público (art. 129, VI, CF;
art. 8º, § 1º da Lei nº 7.347/85), os dois denunciados, até a presente data, não
responderam quanto as providências adotadas, mormente no tocante à correção das
contratações ilegais e à investigação da responsabilidade dos agentes públicos que, ao
contratarem pessoal sem concurso público ou teste seletivo, ordenaram ou permitiram a
realização de despesas não autorizadas em lei ou regulamento (artigo 10, inciso IV da Lei
nº 8.429/92) e que provocaram lesão ao erário decorrente do desvio de bens ou haveres
da entidade pública (art. 10, caput, da Lei nº 8.429/92).
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2. DO DIREITO:

2.1 DOS FATOS INCONTROVERSOS. CONFISSÃO DO ESTADO ATRAVÉS DA


PRODUÇÃO DE PROVA POR MEIO DE DOCUMENTO PÚBLICO. CONTRATAÇÃO
IRREGULAR DE SERVIDORES, SEM O PRÉVIO CONCURSO PÚBLICO OU
PROCESSO SELETIVO SIMPLIFICADO.
8- O Ministério Público designou audiências para tratar da
substituição dos servidores contratados irregularmente. O Secretário de Saúde, através
do Ofício nº 1920/2018, que tinha como assunto: “Encaminhar documentos conforme
acordado em Ata de Audiência ocorrida em 17/05/2018, referente ao ICP nº 72/2017
(000063-025/2016)” consignou o seguinte:
“Considerando a realização de Audiência ocorrida em 17/05/2018,
referente ao Inquérito Civil Público nº 72/2017 (000063-025/2016),
conforme acordado em ata, encaminho cópia de documentos,
levantados pela Superintendência de Assistência à Saúde
SUPAS acerca da necessidade, relativos a contatos precários
existentes no âmbito dessa secretaria de Estado da Saúde do
Piauí que carecem de regularização.
Encaminho ainda, cópia do OFÍCIO SESAPI/GAB nº 1720/2018,
protocolado na Secretaria de Planejamento sob o nº
AA.17.1.002109/18, solicitando emenda no Projeto de Lei de
Diretrizes Orçamentárias, para o exercício de 2019, visando inclusão
de concurso público para esta Secretaria, posto tratar-se de acordo
entre este Secretário e esse Ministério Público”

9- Em audiência realizada no dia 9 de abril de 2019, “o Secretário


Estadual de Saúde apresentou o levantamento detalhado de todas as necessidades de
profissionais nas Unidades Hospitalares, englobando as 5 (cinco) Macrorregiões que
compõem a rede de Saúde Estadual, chegando-se a um quantitativo de 3.616 cargos”
10- Sobre os fatos narrados é importante ressaltar o que estabelece
o Código de Processo Civil sobre a força probante dos documentos:

Art. 405. O documento público faz prova não só da sua


formação, mas também dos fatos que o escrivão, o chefe de
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secretaria, o tabelião ou o funcionário declarar que


ocorreram em sua presença. (grifos nosso)

11- Documento pode ser conceituado como sendo todo objeto capaz
de cristalizar um fato efêmero tornando-o permanente. O professor MOUZALAS
esclarece:

“O documento pode ter autor material e intelectual. Materialmente, é


autor aquele que elabora o suporte, lançando ideias que não são
suas, pelo que não é responsável pelo conteúdo. Intelectualmente,
autor é quem transmite o pensamento próprio que se tornará
conteúdo do documento, ainda que venha a ser materialmente
lançado por outrem.
O documento fará prova contra o autor intelectual quando
contiver sua assinatura. [....] MOUZALAS, Rinaldo. Processo Civil
– Volume Único. Editora Juspodivm, 2013, 6ª ed. p. 521. (grifos
nosso)
12- Os documentos classificam-se como públicos quando seu autor
é uma autoridade pública no desempenho de sua função. Ou seja, quando se tratar de ato
emanado do Poder Público (STJ. REsp 879.046/DF. DJe 19.05.2009).

13- Ora, existem vários documentos que comprovam a


verossimilhança das alegações exarados pelo próprio Estado do Piauí - através das
autoridades públicas - responsáveis diretamente por gerir os órgãos nos quais existem
situações de flagrante INCONSTITUCIONALIDADE. Os gestores públicos ADMITIRAM
POR MEIO DE PROVA DOCUMENTAL PÚBLICA, ATRAVÉS DE DADOS TÉCNICOS,
TODAS AS DISTORÇÕES LEGAIS existentes.

14- Não há controvérsia a respeito do que foi aduzido e


comprovado. As provas foram sacramentadas em ato administrativo perfeito e
acabado através de fatos líquidos e certos expressamente admitidos.
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2.2 DA VIOLAÇÃO DO ARTIGO 37 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL PELA CONTRATA-


ÇÃO IRREGULAR DE SERVIDORES. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA (art. 11, I e II
da LEI nº 8.429/1992)

15- A Constituição Federal de 1988, nos incisos I e II do artigo 37,


erigiu um verdadeiro direito fundamental de acesso aos cargos públicos, ao estabelecer,
primeiro, que os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros que
preencham os requisitos estabelecidos em lei, e, segundo, que a investidura em cargo ou
emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de pro-
vas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego.
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Po-
deres da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios
obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: (Redação dada pela
Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
I - os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasi-
leiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como
aos estrangeiros, na forma da lei;
II - a investidura em cargo ou emprego público depende de
aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas
e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo
ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomea-
ções para cargo em comissão declarado em lei de livre nomea-
ção e exoneração; (Redação dada pela Emenda Constitucional
nº 19, de 1998)

16- O concurso público, com os contornos em que foi delineado pela


Constituição Federal, é instrumento de promoção da isonomia no acesso ao cargo
público, como bem ressalta Celso Antônio Bandeira de Mello: “A Constituição estabelece
o princípio da ampla acessibilidade aos cargos, funções e empregos públicos aos
brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos
estrangeiros, na forma da lei (art. 37, I), mediante concurso público de provas ou de
provas e títulos, ressalvada a nomeação para cargos de provimento em comissão, (…) O
que a Lei Magna visou com os princípios da acessibilidade e do concurso público foi, de
um lado, ensejar a todos iguais oportunidades de disputar cargos ou empregos na
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Administração direta e indireta (...)” (MELLO, Celso Antonio Bandeira de. Curso de Direito
Administrativo. São Paulo: Malheiros, 2004. Págs. 256-257, grifos nossos.)
17- É pacífica a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça no
sentido de que a contratação de pessoal sem concurso público e sem processo seletivo
constitui ato de improbidade administrativa, nos termos do artigo 11, caput, da Lei nº
8.429/92 e que, nestes casos, “o dolo genérico decorre da própria contratação sem
concurso público, pois é evidente que o gestor público precisa ter ciência de que não
pode haver contração de servidor efetivo sem a prévia aprovação em concurso público. A
vedação ao ingresso no serviço público sem a realização de concurso público deflui dos
princípios assentados no art. 37 da Constituição Federal, motivo pelo qual não se faria
possível afastar o dolo do agente público que realiza contratação sem observar a regra
constitucional” (AgInt no Agravo em Recurso Especial nº 1.366.330-MG, Superior Tribunal
de Justiça, segunda turma, relator Min. Francisco Falcão, DJe 23/05/2019).

2.3 DA ORDENAÇÃO OU PERMISSÃO DA REALIZAÇÃO DE DESPESAS NÃO


AUTORIZADAS EM LEI OU REGULAMENTO (ARTIGO 10, INCISO IV e XI DA LEI Nº
8.429/92) E QUE PROVOCARAM LESÃO AO ERÁRIO DECORRENTE DO DESVIO DE
BENS OU HAVERES DA ENTIDADE PÚBLICA (ART. 10, CAPUT, DA LEI Nº 8.429/92)

18- A contratação de pessoal sem concurso público e sem processo


seletivo constitui dano ao erário, nos termos do artigo 10 da Lei nº 8.429/92, decorrente
da aplicação irregular da verba pública para o pagamento de pessoas que não podem
assumir a condição de servidores ou contratados do Poder Público, eis que não foram
submetidas a processo seletivo ou a concurso público.
19- Impõe-se, portanto, a responsabilização daquele que possuía o
domínio da situação e que, por isso, poderia e deveria ter agido como regra os
mandamentos constitucionais.

““AÇÃO CIVIL PÚBLICA - IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA - ATO DE


IMPROBIDADE COMETIDO POR PREFEITO E TESOUREIRO
COMPETÊNCIA DO JUÍZO DE 1º GRAU -ATO DE IMPROBIDADE
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QUE NÃO SE CONFUNDE COM CRIME DE RESPONSABILIDADE -


CARÁTER CIVIL DA SANÇÃO - INEXISTÊNCIA DE
INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL NA LEI Nº 8.249/92.
INEXISTÊNCIA DE INCONSTITUCIONALIDADE MATERIAL,
TAMPOUCO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA - IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA. O Ministério Público tem legitimidade ativa "ad
causam" para a proteção do patrimônio público, perseguindo e
combatendo a ilegalidade e imoralidade administrativa através da ação
civil pública, com o fito de recompor danos, tanto ao erário, quanto
danos imateriais decorrentes da imoralidade no trato da coisa
pública. (TJ-SP - APL: 994092410975 SP , Relator: Regina
Capistrano, Data de Julgamento: 14/09/2010, 1ª Câmara de Direito
Público, Data de Publicação: 23/09/2010) [...]
Com efeito, as provas produzidas são contundentes no sentido de
que os apelantes, então Prefeito e tesoureiro da Municipalidade de
Guaraci, contrataram de forma ilegal e verbalmente, sem concurso
público ou quaisquer outras mínimas formalidades, pessoas para
serviços temporários em funções diversas, não havendo qualquer
comprovação de excepcional interesse público de que fala a
Constituição Federal, tampouco existindo indicação de urgência
absoluta para as contratações irregulares [...]
O dano concreto é evidente e cristalino. Porém, EXISTE UM
OUTRO DANO CONSEQUENTE A TODOS OS ATOS DE
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA, QUE É EXATAMENTE AQUELE
DECORRENTE DA PRÓPRIA IMORALIDADE, APTA A DIMINUIR
PERANTE A POPULAÇÃO O VALOR E SERIEDADE QUE
DEVERIAM GUARDAR AS ADMINISTRAÇÕES E SEUS
FUNCIONÁRIOS, FAZENDO DESMERECER MAIS E MAIS O PODER
PÚBLICO, COMO UM TODO E A CADA ESCÂNDALO, FRENTE À
POPULAÇÃO. ESTE DANO É IMATERIAL E URGE SEJA
IGUALMENTE RECOMPOSTO, NA FORMA DETERMINADA NA
SENTENÇA HOSTILIZADA.
Brilhantes as palavras da Ministra Eliana Calmon quando do
julgamento do REsp 708170/MG (Segunda Turma, j . em 06/12/2005,
DJ 19/12/2005, pág. 355): "PARA A CONFIGURAÇÃO DE ATO DE
IMPROBIDADE NÃO SE EXIGE QUE TENHA HAVIDO DANO OU
PREJUÍZO MATERIAL, RESTANDO ALCANÇADOS OS DANOS
IMATERIAIS" ” [...] [Grifos nosso]
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20- Boa parte das contratações sem concurso público no âmbito da


Secretaria Estadual de Saúde não são empenhadas como gastos com pessoal, mas sob
a rubrica “Outros Serviços de Terceiros - Pessoa Física”, o que constitui burla aos artigos
19 e 20 da Lei de Responsabilidade Fiscal, pois conforme entendimento do STF o
serviço público de saúde é essencial, jamais se pode caracterizar como precário,
razão pela qual não assiste razão à Administração contratar temporariamente
servidores para exercer tais funções. Em sendo assim, tais contratações deveriam ser
empenhadas como gastos com pessoal.
21- É importante ressaltar que parte das contratações sem concurso
público no âmbito da Secretaria Estadual de Saúde são pagas com recursos do Sistema
Único de Saúde.
A conduta de liberar verba pública sem a estrita observância das
normas pertinentes, ou quando existe a influência do gestor sob qualquer forma para sua
aplicação irregular (principalmente quando do desvio de finalidade – REVELA UMA VEZ
MAIS O DOLO DO GESTOR PÚBLICO EM FUNÇÃO DA OMISSÃO REITERADA) e, por
conseguinte, configura o ato de improbidade administrativa do art. 10, XI da LIA, cuja
consumação se dá no momento da destinação diversa dos valores, vejamos o que diz o
STF sobre a consumação dessa espécie de ato ímprobo pelo gestor público:
“ocorre no momento que há efetiva destinação diversa do dinheiro ou valor de que
tem a posse o agente, independentemente da obtenção material de proveito próprio
ou alheio”. (AP 916/ AP -Relator(a): Min. ROBERTO BARROSO, Julgamento:
17/05/2016, Órgão Julgador: Primeira Turma, DJe-207 DIVULG 27-09-2016 PUBLIC 28-
09-2016)
A gestão financeira irresponsável se manifesta na celebração de
operações financeiras ilegais ou irregulares, a outorga ilegal de benefícios, a ordenação
ou permissão de despesas ilegais e, também, a liberação de verba pública ou sua aplica -
ção fora dos parâmetros orçamentários1. Senão vejamos.

1 FAZZIO JÚNIOR, Waldo. Improbidade Administrativa – doutrina, legislação e jurisprudência. 4ª ed. São Paulo,
Atlas 2016, p. 215.
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Ementa CONSTITUCIONAL. ADMINISTRATIVO. PROCESSUAL CIVIL.


AÇÃO CIVIL PÚBLICA. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. EX-PREFEI-
TO MUNICIPAL. CONVÊNIO Nº 1076/1998 FIRMADO ENTRE O MUNICÍ-
PIO DE CAMARAGIBE/PE E A FUNASA. IMPLÇÃO DE AÇÕES DE CON-
TROLE DA ESQUITOSSOMOSE EXECUÇÃO DO CONVÊNIO NÃO RE-
ALIZADO EM SUA TOTALIDADE. IRREGULARIDADES NA APLICAÇÃO
DAS VERBAS PÚBLICAS. AUSÊNCIA DE DOCUMENTAÇÃO COM-
PROBATÓRIA DE APLICAÇÃO DAS VERBAS. DOLO. ATO ÍMPROBO
DO ART. 10, XI, DA LEI Nº 8429/92. PENA APLICÁVEL DO INC. II, DA
LEI Nº 8429/92. RESSARCIMENTO AO ERÁRIO DOS VALORES NÃO
APLICADOS. NECESSIDADE. APLICAÇÃO DA PENA DE SUSPENSÃO
DE DIREITOS POLÍTICOS. AUMENTO DA PENA REFERENTE À PROI-
BIÇÃO DE CONTRATAR COM O PODER PÚBLICO OU RECEBER BE-
NEFÍCIOS OU INCENTIVOS FISCAIS OU CREDITÍCIOS. CONDENA-
ÇÃO DO RÉU AO PAGAMENTO DE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.
APELAÇÃO DO RÉU PROVIDA EM PARTE. APELAÇÕES DO MPF E DA
FUNASA PROVIDAS.
1. Ação de Improbidade Administrativa manejada pelo Ministério Público
Federal contra o ex-Prefeito do Município de Camaragibe/PE, ajuizada
com o objetivo de condená-lo pela prática de irregularidades na aplica-
ção das verbas federais destinadas pela FUNASA para a implementa-
ção de ações de combate á esquistossomose. Conduta prevista no art.
10, XI, da Lei nº 8.429/92.
2. Sentença que condenou o Réu pelo ato ímprobo descrito no art. 10, da
Lei nº 8.429/92, aplicando as penas do art. 12, III, da Lei nº 8.429/92, con-
denando-o no ressarcimento ao Erário do valor total do convênio, corres-
pondente a R$(quinhentos e cinqüenta e dois mil, cento e cinqüenta e
seis reais e trinta e quatro centavos) com acréscimos legais, desde a data
do repasse dos recursos alocados no Convênio nº 1076/98; à suspensão
dos direitos políticos, por um período de 03 (três anos); ao pagamento de
multa civil, equivalente a 3 (três) vezes o valor da remuneração, recebida
pelo Réu, no último ano do mandato de Prefeito do Município de Camara-
gibe-PE; à proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefí-
cios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que
por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo pra-
zo de 03 (três) anos. 3. Apelação do Réu fundamentada na aplicação par-
cial dos recursos do Convênio nº 1076/1998 e no pedido de restituição
parcial das verbas públicas; na ausência de comprovação de sua má-fé
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na gestão dos recursos em questão e no emprego dos valores remanes-


centes em obras nas residências do Município de Camaragibe, apesar de
ter alterado, de forma unilateral a execução do objeto conveniado. 4. Re-
curso do MPF requerendo a aplicação das penas de suspensão de direi-
tos políticos e o aumento da pena de proibição de contratar com o Poder
Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou
indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja
sócio majoritário, pelo prazo de 03 (três) anos para 05 (cinco) anos, nos
termos do art. 12, II, da Lei nº 8.429/92. Apelação da FUNASA para con-
denar do Réu ao pagamento de honorários advocatícios. 5. Além de alte-
rar unilateralmente o objeto conveniado, em total desconformidade com
cláusula expressa do Convênio, não há prova das alegações do Réu de
que teria aplicado 51% das verbas em finalidades públicas no município,
posto que não houve registro formal destas aplicações, porque ele não
apresentou as contas referentes ao Convênio, inexistindo qualquer docu-
mentação acerca da aplicação das verbas. Note-se que o dolo de não
prestar contas está presente, no intuito de ocultar o real destino das
verbas públicas, indo além da desorganização administrativa da Pre-
feitura, restando comprovado o prejuízo ao erário. 6. O Relatório da
FUNASA acerca da execução do Convênio nº 1076/98 atesta que foram
atingidas apenas 49% das metas do convênio, com relação aos equipa-
mento e realização de exames para detectar a doença, restando 51%
(cinqüenta e um por cento) das verbas sem aplicação). Redução da pena
de ressarcimento ao erário, para corresponder ao percentual não aplicado
na execução do convênio. 7. Havendo prejuízo ao erário, nos termos do
art. 10, da lei nº 8.429/92, deve incidir o disposto no art. 12, II, da LIA.
Aplicação da pena de suspensão dos direitos políticos e da pena de proi-
bição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incenti-
vos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermé-
dio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário pelo prazo de 05 (cin-
co) anos, de acordo com o inciso. II, do art. 12, da Lei nº 8.429/92. 8. A Lei
nº 7.347/1985, em seu art. 19, prevê a aplicação, quanto às custas e ho-
norários advocatícios a serem pagos pelo Réu, do disposto no art. 20, do
Código de Processo Civil. Condenação do demandado ao pagamento de
honorários advocatícios no valor de R$(dois mil reais), com fulcro no pará-
grafo 4º do art. 20, do Código de Processo Civil. 9. Apelação do Réu pro-
vida em parte, para reduzir o valor do ressarcimento ao erário para cor-
responder ao percentual de 51% não aplicado na execução do convênio.
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10. Recurso do MPF provido, para aplicar a pena de suspensão dos direi-
tos políticos e para aumentar a pena referente à proibição de contratar
com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou credití-
cios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica
da qual seja sócio majoritário, ambas pelo prazo de 05 (cinco) anos.
Decisão UNÂNIME. [Tribunal Regional Federal da 5ª Região TRF-5 -
AC - Apelação Civel - : AC 200983000174054 Processo AC
200983000174054 Orgão Julgador Terceira Turma Publicação
26/03/2013 Julgamento 14 de Março de 2013 Relator Desembargador
Federal Geraldo Apoliano]

22- As despesas acima mencionadas violam os artigos 16 e 17 da


Lei de Responsabilidade Fiscal, sendo, portanto, nulas de pleno direito, nos termos do
artigo 21 da LRF.
23- A computação das despesas citadas como gasto com pessoal
pode implicar na necessidade de cumprimento do disposto nos §§ 3º e 4º do artigo 169 da
Constituição Federal.
Art.169. A despesa com pessoal ativo e inativo da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios não poderá exceder os
limites estabelecidos em lei complementar.
§3ºPara o cumprimento dos limites estabelecidos com base neste
artigo, durante o prazo fixado na lei complementar referida no caput ,
a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios adotarão as
seguintes providências:
I-redução em pelo menos vinte por cento das despesas com cargos
em comissão e funções de confiança;
II-exoneração dos servidores não estáveis.
§4ºSe as medidas adotadas com base no parágrafo anterior não
forem suficientes para assegurar o cumprimento da determinação da
lei complementar referida neste artigo, o servidor estável poderá
perder o cargo, desde que ato normativo motivado de cada um dos
Poderes especifique a atividade funcional, o órgão ou unidade
administrativa objeto da redução de pessoal.
24- Expedir ato que provoque aumento da despesa com pessoal em
desacordo com a lei constitui crime previsto no artigo 359-D do Código Penal.
Ocorrência de resultado naturalístico para sua configuração. Correta
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se revela a condenação pela prática de crime capitulado no


artigo 359-D do Código Penal, ante a certeza de que as
despesas ordenadas pelo apelante e seus comparsas não foram
previamente autorizadas por lei. A ordenação de pagamentos por
serviços supostamente prestados pelo ICS – Instituto Candango de
Solidariedade à Novacap, sem dotação orçamentária específica ou
previsão no programa de trabalho, configura o delito referido. Não
socorre ao apelante a afirmação de que apenas cumpria ordens
superiores, pois ninguém é obrigado a obedecer à ordem
manifestamente ilegal. (TJ-DF – APR: 846044120088070001 DF
0084604-41.2008.807.0001, Relator: HUMBERTO ADJUTO ULHÔA,
Data de julgamento: 17/05/2012, 3ª Turma Criminal, Data de
Publicação: 24/05/2012, DJ-e Pág. 230).

25- Ordenar, autorizar ou executar ato que acarrete aumento de


despesa total com pessoal, nos cento e oitenta dias anteriores ao final do mandato ou da
legislatura constitui crime previsto no artigo 359-G do Código Penal.
O art. 21, parágrafo único, da Lei de Responsabilidade Fiscal é
categórico ao dispor que “é nulo de pleno direito o ato que resulte
aumento de despesa com pessoal expedido nos cento e oitenta dias
anteriores ao final do mandato do titular do respectivo Poder ou
órgão referido no art. 20”. Assim, desrespeitado o preceito acima
referido, deve ser confirmada a liminar que determinou a suspensão
do ato, tanto mais porque implica em dispêndio de patrimônio
público uja reversão é sempre difícil”. (TJMG – Agravo de
Instriumento-Cv 1.0443.13.002631-5/001, Relator(a): Des. (a)
Antônio Sérvulo, 6ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 04/02/2014,
publicação da súmula em 18/02/2014).
O vereador que, cento e oitenta dias antes do término do mandato,
aprova leis que aumenta despesas com pessoal, pratica, em tese, a
conduta capitulada no artigo 359-G do Código Penal, pois prejudica
o próximo governante que deverá arcar com o aumento das
despesas de pessoal, motivo pelo qual pode ser investigado pela
prática de tal ato, não havendo falar em falta de justa causa para a
instauração de inquérito policial”. (TJMS – HC Rel. Des. Carlos
Stephanini. DJ. Nº 1050, 23/05/2005).
26- Como restou demonstrado, os requeridos, ao ordenarem ou
permitirem a realização de despesas não autorizadas em lei ou regulamento provocaram,
apenas de janeiro a setembro deste ano de 2019, um dano ao erário no valor de R$
17.969.637,30 (dezessete milhões novecentos e sessenta e nove mil, seiscentos e
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trinta e sete reais, e trinata centavos) incorrendo, em consequência, nos termos do


artigo 10 ,caput, e inciso IV da lei nº 8.429/92.
Requer-se, ainda, a realização de perícia contábil nas despesas
com contratos precários realizadas pelas Secretaria Estadual de Saúde a fim de
quantificar o real valor do dano ao erário, eis que os valores acima mencionados
referem-se apenas de janeiro a setembro deste ano.

2.4 DA PREVARICAÇÃO, POIS, ATÉ A PRESENTE DATA, NÃO ADOTARAM AS


PROVIDÊNCIAS INDISPENSÁVEIS PARA APURAÇÃO DA RESPONSABILIDADE
PELOS ATOS DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA, CASO TENHAM SIDO
COMETIDAS POR OUTROS SERVIDORES PÚBLICOS. IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA CARACTERIZADA (ART. 11, INCISOS I e II)

27- Em função do princípio hierárquico, a responsabilidade pelos


atos acima mencionados pertencem aos secretários estaduais de saúde e de
administração, seja por ter efetuado diretamente contratações sem concurso público ou
teste seletivo, seja por não ter tomado as providências cabíveis para sanar as
irregularidades e/ou punir os responsáveis pelas contratações.
“Omite ato de ofício, incluindo nas cominações do art. 319 do
CP, o funcionário que, movido a princípio por comodismo e
depois pelo prazer do mandonismo e da prepotência, se recusa a
atender durante horário normal de expediente, os contribuintes que
desejavam recolher, tempestivamente, seus débitos fiscais” 2 [grifos
nossos]

28- Ressalte-se que esta Promotoria de Justiça, por intermédio da


Notificação Recomendatória nº 04/2019, expedida no dia 11 de setembro de 2019,
recomendou EXPRESSAMENTE QUE OS DOIS REQUERIDOS INVESTIGASSEM:
“a responsabilidade dos agentes públicos que, ao contratarem pessoal
sem concurso público ou teste seletivo, ordenaram ou permitiram a realização de

2 BEZERRA FILHO, Aluizio. Manual dos crimes contra o erário. Anotados e Comentados. Salvador: Editora
Juspodivm, 2017, p. 141.
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despesas não autorizadas em lei ou regulamento (artigo 10, inciso IV da Lei nº 8.429/92)
e que provocaram lesão ao erário decorrente do desvio de bens ou haveres da entidade
pública (art. 10, caput, da Lei nº 8.429/92)”.
29 - O Ministério Público teve o cuidado de REALIZAR audiências
com esses mesmos gestores para tentar facilitar o deslinde das questões. O MP os
alertou das consequências do não adimplemento da Notificação Recomendatória, bem
como do que ficou consignado em ata nas audiências. Ainda assim, numa omissão
dolosa, os gestores não adotaram as providências indispensáveis para apuração da
responsabilidade pelos atos de improbidade administrativa comprovados.
30- Aqui estamos a tratar da contratação ilegal de servidores ilegais
pelos gestores públicos bem como a inércia desses gestores públicos por omissão
específica (não exonerar os servidores ilegais mesmo tendo conhecimento da situação)
além de não envidar esforços para apurar os atos de improbidade administrativa
comprovados, atentando, portanto, contra o princípio da legalidade.

31- A máxima do âmbito da gestão pública é que a Administração


deve aplicar a lei de ofício.

32- A omissão específica daquele que ocupava o cargo de gestor


público em não exonerar os contratados ilegalmente é aquilo que a doutrina e a
jurisprudência denomina de “Cegueira Deliberada”
33- A “Cegueira Deliberada” "também denominada conscious
avoidance doctrine (doutrina do ato de ignorância consciente), ela é aplicável à
responsabilização por improbidade administrativa que congrega o dolo direto e o
eventual. Se o agente tinha conhecimento da elevada probabilidade da imoralidade ou
lesividade do ato de seu resultado e atuou de modo indiferente a esse conhecimento, é
óbvio que não portava boa-fé, ou, em outras palavras, que quis jactar-se de sua vilania” 3.
Ação Civil Pública. Prejuízo ao erário devidamente confirmado
pelas provas produzidas. Contratação de serviços de plantões
3CAMPBELL, Mauro Marques...[et al.]. Improbidade administrativa: temas atuais e controvertidos. Rio de Janeiro,
Forense, 2017, p. 237-238.
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médicos junto ao Pronto-Socorro de Avaré por intermédio de


Termo de Parceria, em valor muito superior ao contrato
anterior, e sem a realização de licitação. Superfaturamento
constatado. Aplicação da Teoria da Cegueira Deliberada.
Ato de improbidade administrativa devidamente
comprovado ante a constatada cavilosidade dos corréus.
Procedência da ação mantida. Diferimento do recolhimento das
custas deferido. Apelação do réu Joselyr não provida e provida
em parte a da ré IBDPH. [TJSP, AC 009252-56.2010.8.26.073,
Avaré, 9ª Câmara de Direito Público, Rel. Des. Rebouças de
Carvalho, v.u., 09.04.2014] [grifos nosso]

34- Ainda que ausente a intencionalidade, a má gestão resultante da


cegueira que beneficia ou agente ou terceiros é que deve ser reprimida. E não se trata de
assunção, pelo direito pátrio, da responsabilidade derivada de conduta ou por fato alheio,
o que se pune é a associação, pelo descuido manifesto de um dever que é próprio e típico
do agente público, o dever de evitar a causação da violação do primado da moralidade
administrativa.

35- Dessa forma, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é


pacífica no sentido de que, inexistindo motivo plausível para a não realização sequer do
teste seletivo simplificado, não há que se falar em ausência de dolo, pois:
“O elemento subjetivo que justifica a condenação por improbidade é o
dolo genérico, caracterizado pela manifesta vontade dos réus em
realizar conduta contrária aos deveres de honestidade e demais
princípios constitucionais que regem a Administração Pública”.
“o elemento subjetivo necessário à configuração de improbidade
administrativa previsto pelo art. 11 da Lei 8.429/1992 é o dolo
eventual ou genérico de realizar conduta que atente contra os
princípios da Administração Pública, não se exigindo a presença
de intenção específica, pois a atuação deliberada em desrespeito às
normas legais, cujo desconhecimento é inescusável, evidencia a
presença do dolo. Nesse sentido, dentre outros: AgRg no AREsp
8.937/MG, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, DJe
02/02/2012”. (AgRg no AREsp 73968/SP, Rel. Min. Benedito
Gonçalves, T1, j.02/10/2012, DJe 29/10/2012).
“AGRAVO REGIMENTAL. PROCESUAL CIVL. INTIMAÇÃO. NÃO
INDICAÇÃO DO DISPOSITVO LEGAL. FUNDAMENTAÇÃO
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DEFICENTE. SÚMULA 284/STF. IMPROBIDADE ADMINSTRATIVA.


CONTRATAÇÃO SEM CONCURSO PÚBLICO. AUSÊNCIA DE
EXCEPCIONALIDAE. PRIMEIRO MANDATO. ATO ÍMPROBO.
ELMENTO SUBJETIVO. DOLO GENÉRICO CARACTERIZADO.
PRECDENTES. SÚMULA 83/STJ. RAZOABILDAE E
PROPORCIONALIDADE. ANÁLISE. REXAME DE MATÉRIA FÁTICO-
PROBATÓRIA. SÚMULA 7/STJ”. (AgRg no AgRg no Agravo em
Recurso Especial n. 533.495-MS, rel. Min. Humberto Martins, T2-
Segunda Turma, DJe 17/11/2014).

36- Como se percebe, restou igualmente constatada a má-fé dos


réus, políticos experientes que deveriam cercar-se de cuidados, seguindo as regras de
trato da coisa pública. Ao efetuarem “contratações diretas”, sem o devido concurso
público ou, pelo menos, teste seletivo simplificado, ou ficarem inertes diante desta
situação, mesmo sendo alertados pelo MP-PI, os representados feriram de morte os
princípios constitucionais da Administração Pública, coadjuvados pela patente má
intenção dos administradores.
37- Existe clara violação ao artigo 11, incisos I e II da LIA:

Art. 11.Constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra


os princípios da administração pública qualquer ação ou omissão
que viole os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade, e
lealdade às instituições, e notadamente:
I - praticar ato visando fim proibido em lei ou regulamento ou
diverso daquele previsto, na regra de competência;
II - retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício;

A CONDUTA DOLOSA DOS RÉUS ESTÁ DEVIDAMENTE


COMPROVADA E FUNDAMENTADA.

2.5 DO DESCUMPRIMENTO DE REQUISIÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO (ART. 129,


VI, CF; ART. 8º, § 1º DA LEI Nº 7.347/85). IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
CARACTERIZADA (ART. 11, INCISO II)
38- O poder de requisição dos Membros do Ministério Público
encontra-se previsto em diversas leis, nacionais e estaduais, além da própria Constituição
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Federal, revelando-se irrecusável o seu cumprimento, sob pena de responsabilização dos


recalcitrantes.
39- Cumpre ressaltar que a Lei Complementar nº 75, de 20/05/1993,
que dispõe sobre a organização, as atribuições e estatuto do Ministério Público da União,
reza em seu artigo 8º, in verbis:
“Art. 8º. Para o exercício de suas atribuições, o Ministério
Público da União poderá, nos procedimentos de sua
competência:
(...)
II - requisitar informações, exames, perícias e documentos de
autoridades da Administração Pública direta ou indireta; (...)
§ 3º. A falta injustificada e o retardamento indevido do
cumprimento das requisições do Ministério Público implicarão a
responsabilidade de quem lhe der causa.
40- Ainda, dispõe o artigo 80 da Lei nº 8.625, de 1993, que as
normas da Lei Orgânica do Ministério Público da União aplicam-se subsidiariamente aos
Ministérios Públicos dos Estados.
41- Não fosse isso, assim preceitua o artigo 26 da Lei nº 8.625, de
1993:
“Art. 26. No exercício de suas funções, o Ministério Público
poderá:
I – instaurar inquéritos civis e outras medidas e procedimentos
administrativos pertinentes e, para instruí-los:
a) expedir notificações para colher depoimento ou
esclarecimentos e, em caso de não comparecimento
injustificado, requisitar condução coercitiva, inclusive pela
Polícia Civil ou Militar, ressalvadas as prerrogativas previstas
em lei;
b) requisitar informações, exames periciais e documentos de
autoridades federais, estaduais e municipais, bem como dos
órgãos e entidades da administração direta, indireta ou
fundacional, de qualquer dos Poderes da União, dos Estados,
do Distrito Federal e dos Municípios”.

42 – A Lei Complementar nº 75, de 1993, e a Lei nº 8.625, de 1993,


estão em perfeita consonância com o artigo 129 da Constituição da República, que
preceitua:
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“Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público:


(...)
VI – expedir notificações nos procedimentos administrativos de
sua competência, requisitando informações e documentos para
instruí-los, na forma da lei complementar respectiva.”

43 – Eis aí o permissivo constitucional para que tanto o Ministério


Público da União quanto o Ministério Público dos Estados possam ter acesso a dados
referentes a quaisquer pessoas, físicas ou jurídicas, públicas ou privadas, desde que
sejam usados somente para os fins a que se destinem. Tais regras são sistematicamente
repetidas nas Leis Orgânicas dos Ministérios Públicos dos Estados.
44 – Não apenas as leis institucionais trataram do poder de
requisição do Ministério Público, mas, também, a Lei n. 7.347/85, conhecida como Lei da
Ação Civil Pública, que no artigo 8°, § 1°, outorga ao Ministério Público este poder.

44 – A referida lei, inclusive, tipificou como crime, em seu artigo 10,


“a recusa, o retardamento ou a omissão de dados técnicos indispensáveis à
propositura da ação civil, quando requisitados pelo Ministério Público”, revelando-se
indiscutível o dever de resposta, a irrecusabilidade ao cumprimento das requisições
expedidas pelo Ministério Público.
45- O STJ, por sua vez, decidiu, recentemente, que nem mesmo a
instauração de procedimento é necessária para que o Ministério Público expeça
requisição, podendo fazê-lo autonomamente, sem prévio procedimento administrativo. Por
sua importância, transcreve-se a seguinte ementa:
“EMENTA: MANDADO DE SEGURANÇA. PREFEITO
MUNICIPAL. REQUISIÇÃO DE INFORMAÇÕES PELO
MINISTÉRIO PÚBLICO. PESSOAS CONTRATADAS PELA
PREFEITURA. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. VIOLAÇÃO
AO ARTIGO 535, DO CPC. SÚMULA 284/STF. DIREITO DE
CERTIDÃO. DECISÃO NOS LIMITES CONSTITUCIONAIS.
INDEPENDÊNCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. DIRETRIZES
TRAÇADAS PELA ADMINISTRAÇÃO SUPERIOR DO
PARQUET ESTADUAL. OBRIGATORIEDADE. AUSÊNCIA DE
PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA 282/STF.
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DESNECESSIDADE DE PRÉVIA INSTAURAÇÃO DE


INQUÉRITO CIVIL OU PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO.
ARTIGO 26, I, "B", DA LEI Nº 8.625/93.
I - Trata-se de mandado de segurança impetrado pelo ora
recorrente, prefeito municipal de Minas Gerais, contra o ato do
Ministério Público consubstanciado na requisição de
informações sobre as pessoas nomeadas, contratadas e
terceirizadas por aquela Prefeitura a partir de 05.10.98.
(...)
V - Não se faz necessária a prévia instauração de inquérito civil
ou procedimento administrativo para que o Ministério Público
requisite informações a órgãos públicos - interpretação do
artigo 26, I, "b", da Lei nº 8.625/93.
VI - Recurso parcialmente conhecido e, nessa parte,
improvido”. (REsp 873.565/MG, Rel. Min. Francisco Falcão,
Primeira Turma, julgado em 05.06.2007, DJ 28.06.2007 p.
880).

46 - José dos Santos Carvalho Filho, in Ação Civil Pública, Rio de


Janeiro: Lumen Juris, 2004, p. 294, sobre a requisição de provas pelo Ministério Público,
destaca:
“A requisição constitui um direito subjetivo de caráter
institucional conferido ao Ministério Público. Trata-se de
mecanismo indispensável para o regular exercício das funções
que lhe foram confiadas. A Constituição Federal previu
expressamente que é função institucional do Ministério Público
expedir notificações nos procedimentos administrativos de sua
competência, requisitando informações e documentos para
instruí-los, na forma da lei complementar respectiva (art. 129,
VI). Como se trata de meio para alcançar suas atividades-fim,
caracteriza-se tal faculdade como função instrumental da
Instituição”.

47- Com efeito, o poder de requisição dos Membros do Ministério


Público é previsto na Constituição Federal e em diversos outros diplomas legais, além de
encontrar-se consagrado pelo Superior Tribunal de Justiça, não podendo o destinatário
recusar-se ao cumprimento, sob pena de responder criminalmente e, como consequência,
haja vista violação de dispositivos legais e constitucionais, por ato de improbidade
administrativa.
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48- Sobre o dever de resposta do destinatário das requisições do


Ministério Público, o mesmo José dos Santos Carvalho Filho salienta:
“Pode-se dizer mesmo que o poder conferido pela Constituição
corresponde a uma verdadeira prerrogativa. Esta comporta o
poder jurídico de exigibilidade de obtenção de elementos
instrutórios, seja qual for a pessoa que deles disponha. Sendo
assim, não é lícito a qualquer pessoa, pública ou privada,
recusar-se a atender às requisições oriundas de órgãos do
Ministério Público” (ob. cit., p. 294).
18- E, mais à frente, afirma:
“Não temos dúvida em afirmar, portanto, que, na busca de
proteção a interesses coletivos e difusos indisponíveis, precisa
o Ministério Público de todos os elementos que possam dar
suporte à ação civil que vai ajuizar, de modo que não podem as
pessoas, públicas ou privadas, deixar de cumprir seu dever de
colaboração no sentido de também proporcionar a defesa
daqueles interesses. Cabe-lhes, em decorrência, prestar todas
as informações ou fornecer todos os elementos necessários,
quando forem destinatários de requisição oriunda do Ministério
Público” (ob. cit.,p. 295).

49 - Destarte, as principais fontes do direito, vale dizer, a legislação,


nesta incluída a Constituição Federal, a jurisprudência e a doutrina, reconhecem o poder
de requisição do Ministério Público, bem como o dever de o destinatário respondê-la, sob
pena de violação ao princípio da legalidade, com repercussão nas áreas civil e criminal.

50- Entre os princípios da administração pública que, lesados, fazem


nascer a possibilidade de sancionamento em decorrência da prática de ato de
improbidade administrativa, encontra-se o princípio da legalidade, que impõe ao
administrador público estrita obediência às normas jurídicas, posto que, como sabido, no
âmbito da administração pública somente é permitida conduta que obedeça estritamente
aos ditames da lei.
51- Nesse sentido é evidente a agressão dirigida ao princípio da
legalidade pelos gestores públicos que ocupam o polo passivo desta ACP, posto
encontrar-se suficientemente comprovado, documentalmente, que os referidos agentes
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públicos, no exercício das atribuições do cargo, deixaram, deliberadamente, de


atender à requisição do Ministério Público.
52- Assim agindo, deixaram de praticar, indevidamente, ato de ofício
(observando o que estabelecem os transcritos artigos 26, I, “b”, da Lei n. 8.625/93, e 54, I,
“b”, da Lei Complementar Estadual n. 057/2006), com o que, indubitavelmente,
desrespeitou um dos princípios basilares da Administração Pública, o da legalidade,
conduta que, obviamente, deve ser repelida pelo Poder Judiciário.
53 - Tratando dos atos atentatórios aos princípios regentes da
atividade estatal como causa geradora de improbidade administrativa e, em especial, da
ofensa dirigida ao princípio da legalidade, leciona Emerson Garcia, em substancial obra
escrita com Rogério Pacheco Alves: “Além da tipologia eminentemente aberta constante
do caput do art. 11, idêntica técnica legislativa foi adotada na confecção dos incisos do
referido dispositivo, alcançando um vasto espectro de atos ilícitos praticados pelos
agentes públicos.
54- O princípio da legalidade ganhou maior especificidade,
sendo violado, v.g., com a prática de ato visando fim proibido em lei ou regulamento ou
diverso daquele previsto na regra de competência (inc. I – nítida hipótese de desvio de
finalidade), com a omissão indevida na prática de atos de ofício (inc. II), com a
revelação de fato nos casos em que a lei tenha previsto o dever de segredo (inc. III), com
o descumprimento da norma que determine a publicação dos
atos oficiais (inc. IV), com a inobservância da lei regente dos concursos públicos (inc. V) e
com a não-prestação de contas nos casos em que a lei o determine (inc. VI)”
(Improbidade Administrativa, 4ª ed., Rio de Janeiro : Lumen Juris, 2008, pg. 259, com
grifos nossos).
55- Em nota específica acerca da hipótese prevista no inciso II do
art. 11, Emerson Garcia complementa: “O inciso em enfoque tem múltiplas aplicações,
podendo ser citadas, à guisa de ilustração, as seguintes: a) o descumprimento de
ordem judicial; b) o não-atendimento às requisições do Ministério Público; (...)
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2.6 INDISPONIBILIDADE DOS BENS

56- Para assegurar o completo ressarcimento dos danos causados e


a imposição das sanções de cunho patrimonial, requer-se a decretação judicial da
indisponibilidade dos bens em nome dos réus acima qualificados como dispõe o art.
7º da Lei nº 8.429/92.
“Art. 7° Quando o ato de improbidade causar lesão ao
patrimônio público ou ensejar enriquecimento ilícito, caberá a
autoridade administrativa responsável pelo inquérito
representar ao Ministério Público, para a indisponibilidade dos
bens do indiciado.
Parágrafo único. A indisponibilidade a que se refere o caput
deste artigo recairá sobre bens que assegurem o integral
ressarcimento do dano, ou sobre o acréscimo patrimonial
resultante do enriquecimento ilícito.
57- Os fundados indícios de responsabilidade do ato de improbidade
administrativa, representativos do fumus boni iuris da medida, encontram-se devidamente
comprovados, por meio dos documentos acostados aos autos.
58- Ressalte-se que, quanto ao periculum in mora, a jurisprudência do
Superior Tribunal de Justiça entende seja ele presumido:
“O provimento cautelar para indisponibilidade de bens, de que
trata o art. 7º, parágrafo único da Lei 8.429/1992, exige fortes
indícios de responsabilidade do agente na consecução do ato
ímprobo, em especial nas condutas que causem dano material
ao Erário.
O requisito cautelar do periculum in mora está implícito no
próprio comando legal, que prevê a medida de bloqueio de
bens, uma vez que visa a 'assegurar o integral
ressarcimento do dano'.
A demonstração, em tese, do dano ao Erário e/ou do
enriquecimento ilícito do agente, caracteriza o fumus boni iuris.
Fixada a premissa pela instância ordinária, inviável de
modificação em recurso especial, ante o óbice da Súmula
7/STJ.
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É admissível a concessão de liminar inaudita altera pars para a


decretação de indisponibilidade e seqüestro de bens, visando
assegurar o resultado útil da tutela jurisdicional, qual seja, o
ressarcimento ao Erário. Precedentes do STJ”. (REsp 1167776
/ SP , Ministra ELIANA CALMON, T2, DJe 24/05/2013 ).
59- Assim, requer-se, liminarmente, a decretação judicial da
indisponibilidade dos bens em nome dos réus, quantos bastem para o
ressarcimento integral do dano ao erário, qual seja a quantia de R$ 17.969.637,30
(dezessete milhões novecentos e sessenta e nove mil, seiscentos e trinta e sete
reais, e trinta centavos), devidamente corrigidos.

3 DO PEDIDO:
60- Posto isto, requer-se:
a) A notificação dos réus para, querendo, apresentarem
resposta escrita, em quinze dias, nos termos do artigo 17, § 7o da Lei n. 8.429/92
(acrescentado pela Medida Provisória n. 2.225-45, de 04 de setembro de 2001);
b) após, seja recebida a petição inicial, citando-se os réus para,
querendo, contestá-la (artigo 17, §§ 8o e 9o, Lei n. 8.429/92);
c) ao final, a condenação dos réus nas sanções do artigo 12, II,
Lei n. 8.429/92 perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio, se
concorrer esta circunstância, perda da função pública, suspensão dos direitos políticos de
cinco a oito anos, pagamento de multa civil de até duas vezes o valor do dano e proibição
de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou
creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual
seja sócio majoritário, pelo prazo de cinco anos
d) ao final, a condenação dos réus nas sanções do artigo 12,
III, Lei n. 8.429/92: perda da função pública que ocupar ao tempo do julgamento,
suspensão dos direitos políticos de 3 (três) a 5 (cinco) anos, pagamento de multa civil de
até 100 (cem) vezes o valor da remuneração percebida e proibição de contratar com o
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PIAUÍ
NÚCLEO DAS PROMOTORIAS DE JUSTIÇA DE DEFESA DA PROBIDADE
ADMINISTRATIVA
44ª PROMOTORIA DE JUSTIÇA

Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou


indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário,
pelo prazo de 3 (três) anos;
e) sejam os réus condenados em custas processuais e demais
ônus da sucumbência;
f) seja o Estado do Piauí intimado para, querendo, atuar como
litisconsorte ativo, passando a integrar a lide, nos termos do artigo 17, § 3º da Lei n.
8.429/92, c/c artigo 6º, § 3º da Lei n. 4.717/65;
g) a produção de provas, em todos os meios em Direito
admitidos, em especial o depoimento pessoal dos réus e a oitiva de testemunhas, cujo rol
será apresentado oportunamente, bem como a juntada de novos documentos.
Dá-se à causa o valor de R$ 17.969.637,30 (dezessete
milhões novecentos e sessenta e nove mil, seiscentos e trinta e sete reais, e trinta
centavos)
Teresina, 16 de dezembro de 2.019.

FERNANDO FERREIRA Assinado de forma digital


por FERNANDO FERREIRA
DOS
DOS SANTOS:22691790304
SANTOS:2269179030 Dados: 2019.12.16 09:10:31
4 -03'00'

Fernando Ferreira dos Santos


Promotor de Justiça