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Homem: Um Ser Pensante

AULA 1 O homem é um ser natural que, mesmo que não se encontre entre os mais
fortes, tem superioridade entre as criaturas do universo: é um ser pensante. A
capacidade de pensar, denominada razão, a principal característica que define
o ser humano, é objeto de estudos filosóficos.

Pensamento: a grandeza humana

Qual a grandeza humana diante da natureza? “O homem não passa de um caniço, o mais fra-
co da natureza, mas é um caniço pensante”. Eis o valor humano. Destacando a fragilidade física do
homem comparada a um caniço, Blaise Pascal (1623-1662) procura defender o pensamento como
a essência humana, o diferencial com relação à natureza e a qualidade primeira que dignifica a sua
espécie. O homem não possui garras, não corre rapidamente, não voa, não pode carregar um peso
muito maior do que o seu próprio. De todos os animais parece o mais débil. Se não fosse um animal
pensante, já estaria extinto há muito tempo. Entretanto sua fragilidade é compensada pela capacida-
de de pensar. O pensamento lhe constitui soberania entres os seres naturais.
Pascal procura discutir a pequenez natural humana e a sua grandeza espiritual. Faz isso anun-
ciando o que o homem possui de mais elevado, acima de seu corpo e de suas fragilidades naturais: a
razão. “O pensamento faz a grandeza do homem”, isto é, o homem possui um potencial espiritual que
ultrapassa sua pequenez natural. Em um primeiro momento, o autor procura apresentar a essência
do homem, depois a superioridade que isso lhe dá sobre a natureza. “Posso conceber um homem
sem mãos, pés, cabeça (pois só a experiência nos ensina que a cabeça é mais necessária do que os
pés); mas não posso conceber o homem sem pensamento”.
Disponível em: http://espacocult.wordpress.com/2011/01/27/pensamento-raciocinio-e-imaginacao-em-pascal/.
Acesso em: 23.03.2013. Texto adaptado.

Filosofia 2 - Aula 1 5 Instituto Universal Brasileiro


Razão e experiência no pensamento filosófico
pois através dela vemos como tudo existe. To-
Razão: uma característica humana
davia, nem sempre podemos confiar no que
Há, no homem, um desejo nato de conse- os sentidos nos mostram.
guir entender a realidade, de conhecê-la e, poste- Às vezes eles nos enganam como quan-
riormente, poder transformá-la. Porém não existe do acenamos para uma pessoa julgando ser
uma única maneira de se conhecer a realidade, um amigo e, ao chegarmos mais perto, no-
explicar os acontecimentos, de compreendê-los tamos ser um estranho. Assim, ao tentarmos
e deles tirar algum ensinamento. entender o mundo, explicando-o de um modo
Na história da civilização, o século XVII diferente do físico-motor, da percepção, tenta-
representou o ápice de um processo em que mos fazê-lo através do uso da razão.
se usou a imagem que o homem tinha de si
próprio e do mundo. Tal processo foi influen-
ciado pela nova realidade cultural imposta
pela burguesia e pela ciência física. A revo-
lução científica determinou uma mudança no
modelo aristotélico de inteligibilidade, provo- Razão & Filosofia
cando nos novos pensadores a preocupação Dos atributos humanos, a razão é uma
constante em descobrir a verdade. característica que coloca o homem numa po-
sição distinta dos outros seres vivos. Uma
explicação racional é uma forma de conheci-
mento que estabelece princípios que podem
ser submetidos a questionamentos e, pelo
exercício da reflexão, preocupa-se em provar
seus fundamentos obedecendo, para isto, a
uma sistematização, a uma lógica, ao uso de
argumentos que expressam a reflexão feita
sobre a realidade.
A Filosofia é uma forma de conhecimen-
to, é uma reflexão crítica que procura com-
preender e explicar a realidade. Filosofia é uma
atividade: um modo de pensar sobre certas
Assim, a principal característica do pen- questões, cujo aspecto mais característico é o
samento moderno passa a ser a busca de mé- uso de argumentos lógicos. Na Filosofia, razão
todos, critérios e maneiras de que o homem é a capacidade de coordenar os pensamentos
se pode valer para descobrir a veracidade de a fim de entender o mundo, articulando o pen-
samento em oposição à sensibilidade. A razão
um conhecimento. Das soluções apresenta-
é uma faculdade exclusivamente humana que
das originam-se o racionalismo - centrado
possibilita ao homem planejar, construir, pre-
na razão - e o empirismo - centrado na ex- ver, resolver e comunicar, entre tantas outras
periência. possibilidades de ações.

Uso da razão
Quando tentamos entender o mundo,
O pensamento no racionalismo
conhecê-lo, percebemos que tudo o que sabe- Após o desmoronamento da crença no
mos do mundo externo nos chega através dos cosmos da Antiguidade, o início da crise das
nossos sentidos: visão, audição, tato, olfato autoridades religiosas e o estímulo da ciência
e paladar. A visão é o sentido mais influente, moderna, o homem viu-se entregue a dúvi-
Filosofia 2 - Aula 1 6 Instituto Universal Brasileiro
das, interrogações intelectuais e existenciais
até então desconhecidas. Reconstruir tudo, • A experiência advinda de algo en-
estabelecer um novo princípio era necessário, ganoso pode nos mostrar alguma coisa
diferente do cosmos e da divindade, como di- certa, ou seja, que existimos, uma vez que,
ziam os filósofos. Este novo princípio seria o se não existíssemos, nada (ou ninguém)
sujeito, o homem. haveria para nos enganar ou iludir.

Essa forma de argumentação levou Des-


cartes a comprovar a própria existência pelo
fato de pensar. Trata-se do argumento conhe-
cido como cogito, do latim “cogito, ergo sum”,
que significa “penso, logo existo”. Por meio
dele Descartes tentou provar que podemos ter
certeza de pelo menos uma coisa neste mun-
do louco em que vivemos: existimos porque
estamos pensando neste exato momento.
Dentre muitas dúvidas do ser humano
destacam-se: explicar a existência de uma Da dúvida ao método
ideia, a realidade do mundo exterior e da pró-
pria realidade de seu corpo. Explicar de um
modo racional que nem tudo o que pensamos
ou conhecemos é ilusão foi, durante anos, ob-
jetivo de muitos filósofos.

Descartes: a dúvida cartesiana


Este fato nos remete ao pensamento do
filósofo francês René Descartes (1596-1650),
que colocou em dúvida todas as suas ideias,
tudo em que acreditou até então, mesmo as
coisas mais certas e evidentes. Chegou a du-
vidar da própria existência e da veracidade
de tudo. Ele acreditava que tudo o que sabia
vinha de seus sentidos e que a experiência Descartes colocou como ponto de
sensorial era suspeita. Assim, ele buscou um partida a busca pela verdade primeira
olhar revisionista do conhecimento. que não poderia ser posta em dúvida,
convertendo a dúvida em método.
Argumentos de Descartes

• Tudo pode ser questionado, mas O argumento do cogito tornou-se um


uma coisa permanece de fato: o pensa- brado da Filosofia moderna e foi considera-
mento do pensador, a sua consciência. do convincente para muitos filósofos ao ten-
• Neste mundo caótico uma coisa tar, com uma abordagem mais cética, supor
é certa: para onde quer que sigamos, lá que, se existem pensamentos, deve haver
estaremos. um pensador. Assim Descartes, em sua obra
• Por mais que nos enganemos, Discurso do método, afirma:
que consideremos todas as ideias erra- “... ao mesmo tempo que eu queria
das, para que nos enganemos ou sejamos pensar que tudo era falso, fazia-se neces-
enganados, ainda é preciso que sejamos sário que eu, que pensava, fosse alguma
algo que exista. coisa.”

Filosofia 2 - Aula 1 7 Instituto Universal Brasileiro


Apesar da aparente simplicidade, a fa- um saber contemplativo e desinteressado,
mosa dúvida cartesiana e o famoso cogito mas um saber que possibilitasse a dominação
suscitou comentários e interpretações diver- da natureza, um conhecimento instrumental.
sas. Lembre-se de que para a época essa Desenvolveu um estudo pormenorizado da in-
ideia foi revolucionária, pois acreditavam, dução, insistindo na necessidade da experiên-
sem questionar, em todas as explicações, cia e da investigação segundo métodos preci-
nas ideias prontas transmitidas pelas autori- sos. Sua falha, contudo, foi não ter construído
dades, divinas ou religiosas. um sistema completo, assim como a falta de
exatidão de seus exemplos indutivos.
John Locke (1632-1704) ficou conheci-
do pela sua contribuição como teórico do libe-
ralismo. Sua reflexão sobre o conhecimento,
apesar de partir da obra de Descartes, deixa
Por meio da dúvida radical, Descartes o caminho “lógico” percorrido por este para tri-
cria ideias fundadoras da Filosofia moderna, lhar o caminho psicológico, estudando as sen-
de acordo com as quais é preciso rejeitar to- sações e percepções que as ideias produzem
dos os argumentos da autoridade tradicional e
nas pessoas. Das duas fontes para as ideias,
da crença religiosa, questionar tudo. Percebe-
a sensação é o resultado da modificação feita
-se, neste método racionalista, uma tendência
forte e absoluta de valorização da razão, do na mente através dos sentidos, e a reflexão é
entendimento, do intelecto. a percepção que a alma tem daquilo que ocor-
re nela, reduzindo-se apenas à experiência
interna do resultado da experiência externa
produzida pela sensação.
Razão e experiência no empirismo David Hume (1711-1776), também empi-
A palavra empirismo vem do grego em- rista, acreditava que o conhecimento provinha
peiria, significando “experiência” e, ao contrário de duas fontes: das experiências diretas, que
do racionalismo, enfatiza o papel da experiên- chamava de impressões, e das memórias das
cia sensível no processo do conhecimento. impressões, chamadas de ideias ou termos.

Racionalismo X Empirismo
No século XVII, dos problemas relacio-
nados ao conhecimento, surgiram duas cor-
rentes opostas: o racionalismo e o empirismo,
um sistema limitando o homem ao âmbito da
razão (racionalismo) e o outro, ao da expe-
riência sensível (empirismo). Todavia, não
queremos dizer que o racionalismo não exclui
a experiência sensível, mas esta é apenas
uma ocasião do conhecimento, estando su-
jeita a enganos. Já para o empirismo a expe-
riência é fundamental, e o trabalho posterior
Francis Bacon e John Locke são da razão está subordinado a ela.
exemplos de filósofos seguidores da tra- Os racionalistas confiam na capacida-
dição empirista, e David Hume, filósofo de do homem de atingir verdades universais
escocês, levou mais adiante o empirismo eternas, enquanto os empiristas questionam o
dos dois filósofos. caráter absoluto da verdade, pois o conheci-
mento parte de uma realidade que se encontra
Francis Bacon (1561-1626), realçando em constante transformação, em que tudo é
o papel significativo da ciência na vida da hu- relativo ao espaço, tempo e às pessoas.
manidade, mostrou como ele procurava não
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O século XVIII, época do Iluminismo (Sé-
Pensar, um desafio humano
culo das Luzes), tratou com otimismo o poder
De acordo com o dicionário, pensar é da razão de reorganizar o mundo humano,
“formar na mente ideias, submetendo-as ao onde o próprio homem, livre dos princípios da
raciocínio, pela reflexão”. Como o homem é autoridade e na busca pelos próprios poderes,
um ser pensante, ele é capaz de fazer uso da teceria seu destino.
razão, do raciocínio. Pensar é uma capacida- A Filosofia do Iluminismo deve a Descar-
de humana presente em várias situações. tes o gosto pelo raciocínio, a busca da evidên-
Pensamos enquanto cozinhamos, en- cia intelectual, a audácia de exercer livremen-
quanto jogamos bola ou namoramos e agora te seu juízo e de levar a toda parte o espírito
mesmo, enquanto você está estudando, você da dúvida metódica. Outra influência, também
também está pensando, refletindo sobre tudo importante nesse século, foi o aparecimento
o que lê, no quanto isto pode influenciar a sua da ciência galileana, cujo método experimen-
vida, ou mesmo mudá-la a partir de uma refle- tal fecundou outros campos de pesquisa e
xão crítica. fez com que surgissem outras ciências, bem
O simples ato de pensar nos remete à como o modelo de um novo homem: o homem
existência de alguém, ou seja, um ser pensan- construtor, artífice do futuro, que não se con-
te, racional. Sendo o homem um ser pensan- tenta apenas em contemplar a natureza, mas
te, ele tem a capacidade de cogitar, isto é, de quer conhecê-la e dominá-la.
refletir, de questionar o mundo onde vive, bem
como seu papel neste mundo.

Qual a diferença entre reflexão


e raciocínio?

Refletir a respeito de algo é diferente de


raciocinar. Segundo o dicionário Houaiss da
língua portuguesa (2009), reflexão é a con-
centração do espírito sobre si próprio, suas
representações, ideias, sentimentos. Já ra-
ciocínio é o exercício da razão pelo qual se
procura alcançar o entendimento de atos e
fatos, se formulam ideias, se elaboram juí-
O ato de pensar nos estudos de Filosofia zos, se deduz algo a partir de uma ou mais
Ao estudar Filosofia, passamos a pensar premissas. No campo da lógica, o raciocínio
mais claramente sobre um vasto âmbito de é a atividade mental que, por meio de instru-
mentos indutivos ou dedutivos, fundamenta o
assuntos; isto porque a Filosofia é a primeira
encadeamento lógico e necessário de um pro-
forma de conhecimento que estabelece uma cesso argumentativo.
sistematização, uma lógica, o uso de argu-
mentos capazes de expressar uma reflexão
sobre a realidade.
Foram o racionalismo e o empirismo os
responsáveis pela base filosófica da reflexão:
Descartes, justificando o poder da razão de
perceber o mundo através das ideias claras e Ciência galileana e o método empírico
distintas; Locke, valorizando os sentidos e a
experiência na elaboração do conhecimento; e Galileu Galilei (1564-1642), filósofo ita-
Hume, levantando o problema da exterioridade liano, fez curiosas descobertas no campo da
das relações frente aos termos (ideias).
Filosofia 2 - Aula 1 9 Instituto Universal Brasileiro
Capacidade de julgar
Física, Matemática e Astronomia. Desen-
volveu estudos do movimento uniforme
Em muitas situações, devemos tomar
acelerado e do movimento do pêndulo,
decisões, fazer escolhas e avaliações e, para
descobriu a lei dos corpos em queda e
tal, utilizamos alguns critérios pessoais ba-
enunciou ideias precursoras da mecâni-
seados no conhecimento adquirido, nas expe-
ca de Newton. Aperfeiçoou o telescópio
riências vividas.
refrator e descobriu com ele as manchas
solares, as montanhas da Lua, as fases
de Vênus, quatro dos satélites de Júpiter,
os anéis de Saturno e as estrelas da Via
Láctea. Estes descobrimentos contribuí-
ram decididamente para a defesa do he-
liocentrismo (sol no centro do sistema so-
lar), pois até então a ciência se baseava
no geocentrismo de Aristóteles (a Terra
no centro do Universo). Galileu foi o pre-
cursor do relógio de pêndulo, inventou um
tipo de compasso geométrico que permi-
tia medir ângulos e áreas. Sua contribui-
ção foi fundamental para a revolução na
área da ciência e o desenvolvimento do
método empírico que pressupõe a expe- Chamamos de juízo esta ativida-
rimentação. Galileu é considerado hoje o de intelectual que envolve uma escolha,
pai da ciência moderna. uma avaliação, um conjunto de regras
nas quais nos baseamos na hora de fazer
uma escolha ou avaliação.
Segundo Immanuel Kant, filósofo
alemão que pretendeu superar a dicoto-
mia racionalismo-empirismo, o conheci- Nesse momento, utilizamo-nos de alguns
mento deve constar de juízos universais, critérios na avaliação de tais atividades, mui-
da mesma maneira que deriva da expe- tas vezes sem ao menos nos questionarmos
riência sensível. se estão certos ou não. Um exemplo é quando
opinamos sobre algo, dizendo ser bonito ou
feio; fazemos isto baseando-nos em um con-
Funções do pensamento junto de valores que muitas vezes nem ava-
liamos em profundidade, apenas repetimos
Muitas são as formas como pensamos, padrões. A atitude de cada um, no momento
ou seja, as funções do intelecto; contudo, há de uma avaliação, depende deste conjunto de
de se ponderar sobre a importância do uso do regras e da reflexão que se faz dele.
pensamento. Desta maneira, podemos citar como
De que maneira podemos utilizar o exemplo o fato de que pelo paladar experi-
nosso intelecto para transformar o mundo mentamos o sabor de uma refeição, mas ja-
onde vivemos? Como criar condições para mais podemos dizer se as pessoas que estão
o desenvolvimento de um ser humano ético se alimentando estão felizes ou satisfeitas
que, conhecendo em profundidade o mun- com ela. Para isso, usamos a percepção e,
do, seja capaz de refletir sobre questões através da visão, avaliamos as feições, a
que envolvem as relações sociais? Eis aí o reação das pessoas ao experimentar a comi-
desafio do ser humano racional: não basta da e, comparadas a um padrão pré-estabe-
ser capaz de pensar, mas é preciso refletir lecido de comportamentos, fazemos a nossa
sobre a sua ação. avaliação.
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Percepção e razão Para facilitar a compreensão, pense
numa simples situação de ir ao cinema com
Outra atividade do pensamento é uma amiga e sua relação com as capacida-
o exame das sensações que temos do des do intelecto. Quanto à capacidade do
mundo, adquiridas através dos sentidos e juízo, analise o filme a que deseja assistir e
trabalhadas pelo intelecto. avalie também se sua amiga deseja ver, para
depois decidir em comum acordo sobre o fil-
me. Em relação à percepção, pense se o fil-
me escolhido será mesmo a melhor opção,
se vai gostar do enredo, se aproveitará o pas-
seio, se a amiga gostará do convite ou não
conseguirá se divertir e se esta constatação
irá aborrecê-lo. No quesito razão, pensamos
no aspecto lógico, organizando algumas in-
formações como: qual o melhor cinema para
ver este filme, como chegar lá, a que horas
sair e qual sessão escolher, quanto gastar no
passeio e outras variáveis que influenciarão
nas decisões.
Como você pode perceber, o homem,
sendo um ser racional, pensa a todo o mo-
mento, e este ato é determinante na sua
condição humana. Todavia, os próprios
pensamentos, percepções e sentidos do
A percepção é, também, um modo de se
ser humano podem enganá-lo, confundin-
conhecer e aprender sobre o mundo, é a ma-
do-o. Pensar pressupõe algumas capaci-
neira como, por exemplo, o sentimos, o per-
dades, faculdades do intelecto, dentre elas
cebemos.
a percepção, o juízo e a razão que influen-
Pela percepção, pode-se experimentar e ciam e dão condições para o desenvolvi-
conhecer sensações que não o seriam pela mento racional de um indivíduo mais ético,
razão, como saber se as pessoas estão ou reflexivo e capaz de transformar o mundo
não gostando, se estão felizes com uma refei- em que vive.
ção ou uma atividade, atitudes impossíveis de
se avaliar pela razão.

Entender o mundo de uma maneira


que possibilite produção intelectual, com-
preendendo-o e coordenando os pensa-
mentos sob regras precisas, é outra fun- Homem: um ser pensante
ção do intelecto. Este conhecimento é
Razão e experiência no pensamento
possível através da razão, de um pensar
filosófico
que obedece às regras de uma argumen-
tação lógica, diferente da percepção. O ser humano sempre procurou conhecer
a realidade, entendê-la para depois poder trans-
Assim, numa determinada situação ado- formá-la. Desde os pré-socráticos já se procura-
ta-se uma atitude que depende do conheci- va uma explicação diferente da religiosa, o que
constituiu o início da Filosofia ocidental.
mento que se tem dela e, como resultado, o
O século XVll, influenciado pela classe
indivíduo terá uma reação de acordo com sua burguesa e pela nova realidade cultural graças
percepção: da escolha feita (juízo) e da refle- à revolução científica, mudou a imagem que o
xão sobre esta.
Filosofia 2 - Aula 1 11 Instituto Universal Brasileiro
homem tinha de si próprio e do mundo. A princi- Racionalismo X Empirismo
pal característica do pensamento moderno pas-
Estas duas correntes do pensamento filo-
sa a ser a questão do método para verificar se
sófico se contrapõem. Para os racionalistas, o
um conhecimento é verdadeiro ou não.
homem é capaz de atingir verdades universais
eternas. Embora não excluam a experiência
Razão: uma característica humana
sensível, esta é vista como uma ocasião do co-
Os sentidos humanos - visão, audição, tato, nhecimento, estando sujeita a enganos.
olfato e paladar - são os canais que nos levam a per- Os empiristas questionam o caráter abso-
ceber a realidade. Entretanto, nem sempre podemos luto da verdade, pois o conhecimento parte de
confiar neles, razão por que os filósofos afastaram a uma realidade que se encontra em constante
ideia de entender o mundo pelo modo físico-motor, transformação.
passando a usar a razão. A razão é, dos atributos
humanos, uma característica que coloca o homem Pensar, um desafio humano
numa posição distinta dos outros seres vivos.
Segundo os dicionários, uma das acepções
de “pensar” é formar ideias, submetendo-as ao
O pensamento no racionalismo
raciocínio lógico.
A mudança do pensamento aristotélico de O homem, sendo um ser pensante, é capaz de
entender a realidade trouxe dúvidas aos filósofos fazer uso da razão, de refletir, de questionar o mundo
quanto à existência das ideias, à realidade do mun- onde vive, bem como seu papel nesse mundo.
do exterior, à realidade de seu próprio corpo. Foram o racionalismo e o empirismo os
O pensamento do filósofo Descartes, que responsáveis pela base filosófica da reflexão.
colocou como ponto de partida a busca pela A Filosofia é a primeira forma de conheci-
verdade primeira, que não poderia ser pos- mento a estabelecer uma sistematização, uma
ta em dúvida, converteu a dúvida em método. lógica, com o uso de argumentos capazes de
Pelo fato de pensar, Descartes, que duvidara expressar uma reflexão sobre a realidade.
da própria existência, passa a crer que ela exis- Com o iluminismo, no século XVIII, tratou-se
te. Este argumento é o “cogito, ergo sum”, que com otimismo a respeito do poder da razão de re-
se traduz por “penso, logo existo”. organizar o mundo humano, onde o homem, livre
Desta forma, Descartes cria ideias fundado- dos princípios da autoridade e na busca pelos pró-
ras da Filosofia moderna, em que se rejeitam todos prios poderes, teceria seu destino.
os argumentos de autoridade, divinas ou religiosas.
Percebe-se, neste método racionalista, a valoriza- Funções do pensamento: capacidade
ção da razão, do entendimento, do intelecto. de julgar e perceber
É pelo pensamento que podemos criar con-
Razão e experiência no empirismo
dições para o desenvolvimento de um ser ético, ca-
Ao contrário do racionalismo, o empirismo paz de refletir sobre questões que envolvem as re-
mostra a importância da experiência sensível lações sociais. Também devemos tomar decisões,
no processo do conhecimento. fazer escolhas e avaliações e; para isso, usamos
Francis Bacon, John Locke e David Hume alguns critérios pessoais baseados no conhecimen-
seguiram a tradição empirista. O primeiro, Fran- to adquirido, nas experiências vividas. Chamamos
cis Bacon, procurava um saber que possibili- de juízo esta atividade intelectual que envolve uma
tasse a dominação da natureza. Desenvolveu escolha, uma avaliação, um conjunto de regras nas
um estudo profundo da indução, insistindo na quais nos baseamos na hora de fazer uma escolha
necessidade da experiência e da investigação ou avaliação. Outra atividade do pensamento é a
segundo métodos precisos. percepção, que é a maneira como podemos conhe-
John Locke foi o teórico do liberalismo, cer e aprender sobre o mundo; é a maneira como o
mas deixou a lógica para desviar-se para a psi- sentimos, como o percebemos.
cologia, estudando as sensações e percepções Dentre as faculdades do intelecto a percep-
que as ideias produzem nas pessoas. Hume ção, o juízo e a razão dão condições para o desen-
acreditava que o conhecimento provinha de ex- volvimento racional de um indivíduo mais ético, refle-
periências diretas e das memórias destas. xivo e capaz de transformar o mundo em que vive.

Filosofia 2 - Aula 1 12 Instituto Universal Brasileiro


a) ( ) o empirismo surgiu das reflexões
de Descartes a respeito do conhecimento,
que só poderia ser obtido por meio da razão.
b) ( ) para o racionalismo a experiência
sensível é fundamental.
1. No século XVII alguns acontecimen- c) ( ) a experiência sensível é funda-
tos históricos mudaram a forma de pensar do mental para a obtenção do conhecimento, se-
ser humano, que passou a ser o centro des- gundo os empiristas.
se processo. Exerceram influência nessa mu- d) ( ) os racionalistas não confiam na capa-
dança: cidade do homem de atingir verdades universais.

a) ( ) a nova realidade cultural introduzi- 6. Segundo o filósofo alemão Immanuel


da pela classe burguesa. Kant:
b) ( ) a ciência física.
c) ( ) a questão do método para verificar a) ( ) o conhecimento deve constar de
se um conhecimento é ou não verdadeiro. juízos universais, ao mesmo tempo que deriva
d) ( ) Todas as afirmativas são corretas da experiência sensível.
e se completam. b) ( ) o conhecimento não deriva da ex-
periência sensível.
2. Segundo Blaise Pascal, qual a gran- c) ( ) a exemplo de Descartes, os pen-
deza humana diante da natureza? samentos, percepções e sentidos do ser hu-
mano podem enganar o homem.
a) ( ) A capacidade de pensar. d) ( ) Nenhuma das alternativas é correta.
b) ( ) A habilidade de agir.
c) ( ) A força mental e física. 7. Leia as afirmativas abaixo e assinale
d) ( ) A comunicação gestual. a alternativa correta.
I - Galileu Galilei é considerado o criador da
3. Filósofo que converteu a dúvida em ciência moderna e um dos maiores astrônomos de
método de reflexão e desenvolveu ideias fun- todos os tempos, devido às observações experi-
dadoras da Filosofia moderna. Estamos falan- mentais pioneiras que fez com o telescópio.
do de:
II - De acordo com René Descartes, que
escreveu o Discurso do método, ficaram esta-
a) ( ) René Descartes. belecidos quatro preceitos do método, através
b) ( ) John Locke. dos quais se chega à verdade, a partir da dúvida
c) ( ) Francis Bacon. universal.
d) ( ) David Hume.
a) ( ) I e II estão incorretas.
4. René Descartes tentou comprovar a b) ( ) Somente I está correta.
própria existência por meio da: c) ( ) Somente II está correta.
d) ( ) I e II estão corretas.
a) ( ) experimentação científica.
b) ( ) experiência sensível. 8. Segundo a tradição filosófica, quais
c) ( ) argumentação (cogito). as atividades intelectuais que se destacam
d) ( ) percepção dos sentidos. por influenciar e criar condições para o desen-
volvimento do pensamento reflexivo?
5. Empirismo e racionalismo são duas
correntes filosóficas relacionadas ao co- a) ( ) Ação, ética e experimentação.
nhecimento que surgiram no século XVII. b) ( ) Razão, juízo e percepção.
Podemos afirmar, quanto a tais correntes, c) ( ) Experimentação, lógica e ação.
que: d) ( ) Raciocínio, ação e sensação.
Filosofia 2 - Aula 1 13 Instituto Universal Brasileiro
que pensa”. Esse argumento é fundamental para
a Filosofia moderna, pois coloca o sujeito como
uma necessidade do conhecimento.

5. c) ( x ) a experiência sensível é fun-


1. d) ( x ) Todas as afirmativas são cor- damental para a obtenção do conhecimento,
retas e se completam. segundo os empiristas.
Comentário. Com a ascensão da classe Comentário. A alternativa c é correta. Já a
burguesa e a revolução científica, introduziu-se a está errada, pois Descartes era racionalista. A b
um novo conceito de ser humano e de mundo (al- também é falsa, pois o racionalismo baseia-se na
ternativas a, b e c). Centralizando no homem a razão. E a d também é falsa, porque os raciona-
questão do conhecimento, estabeleceram-se mé- listas acreditavam na capacidade do homem de
todos e critérios para que se pudesse constatar a atingir verdades universais.
veracidade desse conhecimento. Portanto, todas
as alternativas estão corretas. 6. a) ( x ) o conhecimento deve constar
de juízos universais, ao mesmo tempo que de-
2. a) ( x ) a capacidade de pensar. riva da experiência sensível.
Comentário. Blaise Pascal procura defen- Comentário. Foi Kant quem enunciou o pen-
der o pensamento como a essência humana, o di- samento acima. As alternativas b, c e d não corres-
ferencial com relação à natureza e a qualidade pri- pondem à verdade. Para Kant, o conhecimento deve
meira que dignifica a sua espécie. Segundo esta constar de juízos universais, assim como deriva da
linha de pensamento, se o homem dependesse experiência sensível. Neste sentido, matéria (ex-
apenas de sua força física, e não fosse um ani- periência sensível) e forma (sensibilidade e enten-
mal pensante, já estaria extinto há muito tempo. dimento) atuam ao mesmo tempo: a sensibilidade
Entretanto sua fragilidade é compensada pela ca- como faculdade receptiva, pela qual captamos as
pacidade de pensar. O pensamento lhe constitui representações exteriores; e o entendimento como
soberania entres os seres naturais. faculdade de pensar ou produzir conceitos.

3. a) ( x ) René Descartes. 7. d) ( x ) I e II estão corretas.


Comentário. Descartes colocou em dúvida Comentário. Galileu e Descartes deram à
todas as suas ideias, mesmo as coisas mais certas e Filosofia iluminista as novas perspectivas da ciência
evidentes, chegando a duvidar da própria existência. experimental e do método da dúvida. Portanto, as afir-
Tudo que sabia vinha dos sentidos, e por isso suspei- mativas I e II estão corretas. Mas, Galileu difere de Des-
tava da veracidade de seu saber. Entretanto, através cartes: a dedução em Galileu não está separada da ex-
de argumentações e reflexões, chegou à conclusão periência, mas unida a ela. A dedução para Descartes,
de que se ele pensava é porque existia, célebre frase por sua vez, resulta do pensamento lógico que se abre,
“cogito, ergo sum” (“penso, logo existo”). As alterna- a cada etapa, às possibilidades; e a experiência teria
tivas b, c e d são falsas, porque John Locke apenas unicamente a tarefa de averiguação. Dois grandes ex-
começou o caminho de Descartes, tendo contribuído poentes no campo da Filosofia e da Ciência: se Gali-
como teórico do liberalismo (b); Francis Bacon procu- leu é considerado o pioneiro da ciência experimental,
rou um conhecimento instrumental, insistindo na in- Descartes, com a obra Discurso do método, lança os
vestigação e experiência segundo métodos precisos fundamentos do método científico moderno.
(c); e David Hume levantou o problema da exteriori-
dade das relações frente às ideias (d). 8. b) ( x ) Razão, juízo e percepção.
Comentário. Há várias maneiras de dividir
4. c) ( x ) pela argumentação (cogito). as atividades do intelecto. A tradição filosófica des-
Comentário. Depois de duvidar de tudo, taca a razão, o juízo e a percepção. Razão vem do
Descartes comprovou sua própria existência pelo latim ratio, que se traduz “raciocínio”, capacidade
argumento do cogito - “penso, logo existo”. Por- de estabelecer relações lógicas. Juízo vem do latim
tanto, a alternativa correta é a c. O argumento do judicium que significa “julgamento, discernimento”,
cogito mostra que é necessário intuir o pensamen- portanto, diz respeito à atividade intelectual de es-
to e a existência de um modo unificado: eu pen- colha, avaliação e decisão. Percepção vem do latim
so, eu existo. Após essa intuição, podemos extrair perceptio, que em sentido amplo refere-se à “função
algumas certezas como “eu sou uma substância cerebral que decifra os estímulos sensoriais”.

Filosofia 2 - Aula 1 14 Instituto Universal Brasileiro