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Homem: um ser autônomo

AULA 4 A palavra autonomia significa independência, autodeterminação ou capacidade


de pensar e agir por si mesmo. Em Filosofia, o conceito está relacionado à mo-
ral e à ética, entendido como o desenvolvimento de um processo sociocultural
de formação e emancipação do ser humano.

Para o filósofo Kant, a educação tem


papel preponderante para a conquista da autonomia

A educação, na visão de Kant, precisa auxiliar a levar o ser humano ao estado de poder atingir
a maioridade, tornando-o um ser esclarecido e autônomo. O grande desejo de Kant é a emancipação
dos indivíduos. Para tanto, é importante lembrar que a educação é a arte de desenvolver no ser hu-
mano a disposição para o bem.
É importante lembrar que, para Kant, a educação está inserida no plano moral. Sua função
é estabelecer os requisitos primários para que as crianças se tornem morais quando adultas. Toda
forma de educação tem como finalidade última conduzir e promover a autonomia do sujeito, porque
o ser humano não é, por natureza, moral, precisando, para atingir tal condição, da educação, tendo
essa a missão de tornar o ser humano um sujeito moral.
De acordo com a perspectiva kantiana, a finalidade mais importante da educação não é apenas
aprender e assimilar conteúdos, não obstante esse aprendizado seja fundamental, mas, na verdade,
é possibilitar ao sujeito aprender a pensar com autonomia, isto é, fomentar em cada ser humano a
ousadia de querer saber, a capacidade de pensar por si mesmo, orientando o sujeito à emancipação.
Fragmento adaptado com base na conclusão de estudo de Paulo César Nodari e Fernando Saugo:
Esclarecimento, educação e autonomia em Kant. Disponível em: http://www.ucs.br/etc/
revistas/index.php/conjectura/article/viewFile/892/615. Acesso em: 20.01.2014.

Filosofia 2 - Aula 4 35 Instituto Universal Brasileiro


Pensar com autonomia
O mundo moderno nasceu com a queda
O conceito de autonomia
da cosmologia antiga, a necessidade de uma
Você estudou o homem como um ser ca- reavaliação das autoridades religiosas e uma
paz de pensar, raciocinar sobre suas ações, revolução científica sem precedentes na his-
como um ser que estabelece alguns critérios tória da humanidade.
de escolha para suas ações e normas para
sua vida. Em seguida, o homem como um ser Todas estas ocorrências influen-
livre, possuidor deste direito que lhe concede ciaram o modo de viver e, sobretudo, de
a capacidade de escolher como viver, o que pensar do homem e da Filosofia moderna.
fazer e refletir sobre esta conduta de vida, esta Desta maneira, além de se perceber como
prática de vida que adotamos sem ao menos um ser social, pensante e livre, o homem
nos darmos conta. é capaz de criar normas de conduta para
Muitas vezes, você deve ter pensado si mesmo - regras pessoais que determi-
que estaria estudando a respeito de assuntos narão o seu comportamento e da socieda-
óbvios, comuns e corriqueiros. Todavia, estas de - e, de acordo com as suas escolhas,
questões filosóficas sobre racionalidade, éti- capaz de se tornar autônomo.
ca, liberdade e outras afins são frutos de uma
evolução do pensamento durante muitos sé-
culos. O modo de pensar sobre algumas ques- Autonomia: a regra dentro de cada um
tões, a maneira como lidamos com alguns as-
suntos, hoje, são resultados desta evolução, De acordo com o dicionário, autono-
da mudança de pensamento por que passou mia é a capacidade de um indivíduo de
toda a humanidade, adicionada ao desenvol- governar a si próprio; é liberdade, inde-
vimento científico e tecnológico. pendência moral ou intelectual. Pela defi-
Assim, graças às mudanças de pensa- nição dada, vimos que autonomia se rela-
mento e à evolução, o pensamento moderno ciona com liberdade.
colocou o homem no lugar e na posição do cos-
mos e da divindade, instalando-o no centro do
mundo enquanto que, para os gregos, o próprio
mundo era o essencial (mais importante).

O homem passa a ocupar o centro das


preocupações, e os filósofos modernos co-
Quando nascemos e passamos a convi- mungam da ideia de que este homem não só
ver neste mundo, que já nos veio pronto, não tem direitos, mas é o único a possuí-los. O ho-
imaginamos por quantas mudanças ele passou mem precisa ser livre para realizar suas esco-
até chegar ao ponto em que o encontramos. lhas e deve, também, refletir sobre estas, pois
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algumas escolhas podem interferir na vida do
outro, na liberdade e no direito de outro mem- desejos, priorizando aquele que realizará
bro da sociedade em que vivem. agora e aquele que nunca realizará, pois
A ação humana pode ser caracterizada já refletiu a respeito.
pela capacidade de antecipação do resultado
a ser alcançado. Ao conseguir prever o resul-
tado de seus atos e resolver agir, o homem Heteronomia X Autonomia
transforma este ato em um ato moral volun-
tário, ou seja, um ato de vontade que decide Autonomia (auto significa “próprio”; no-
pela busca de um fim proposto, pensado. Tor- mos, “lei”) coloca no homem a capacidade de
na-o um ato responsável, refletido. refletir sobre as limitações que lhe são impos-
tas, a partir das quais orienta a sua ação para
superar os condicionamentos, sem, contudo,
negar a influência externa.
Heteronomia (hetero significa “diferen-
te”; nomos, “lei”) significa a aceitação da nor-
Um ato moral é um ato livre, consciente ma que não é nossa, que vem de fora, quan-
e intencionalmente realizado pelo homem que
do nos submetemos aos valores da tradição e
se sente comprometido com a sociedade em
que vive e, por isso, é um ato responsável. O
obedecemos passivamente aos costumes por
homem consciente e livre assume a autoria dos conformismo ou temor à reprovação da socie-
seus atos, reconhecendo-os como seus e res- dade ou dos deuses.
pondendo pelas consequências deles; é, por-
tanto, responsável.

O homem, possuidor de uma consciência


moral, como um juízo interno, é capaz de ava-
O comportamento típico do mun-
liar uma situação, consultar as normas estabe-
do infantil caracteriza-se pela hetero-
lecidas, interiorizá-las como suas ou não, tomar
nomia, enquanto no comportamento do
decisões e julgar seus próprios atos. A partir daí,
adulto, o dever de cumprir uma norma
derivaria o comportamento humano, o compro-
parte dele que é o centro da decisão,
misso pela obediência ou não, determinando
a sua própria consciência moral que o
com isso o caráter moral ou imoral do ato.
guia, com autonomia, portanto, com au-
Deste modo, é livre aquele que pode es-
todeterminação.
colher entre o agir, ou fazer e o não agir ou não
fazer, pois, para realizar esta escolha, deve re-
fletir, ponderar, julgar para depois escolher qual
Função das normas sociais
“desejo” realizar, sem nenhuma repressão. A
complexidade de um ato moral está no fato de Estudamos, anteriormente, que em to-
que ele provoca efeitos, não só na pessoa que dos os lugares e em todas as sociedades, há
age, mas também naqueles que a cercam, e na regras, normas que disciplinam a conduta dos
própria sociedade como um todo. homens com o objetivo de organizar o espa-
ço comum a todos. Muitas normas se trans-
formaram em leis, ditando o comportamento e
orientando a vida numa sociedade.
Lembramos que as normas são sem-
pre criadas por influência dos costumes
Repressão é uma força externa que da sociedade ou por aqueles que detêm o
coage, enquanto o controle supõe a auto- poder, a autoridade. Todavia, existem al-
nomia do sujeito que escolhe entre seus gumas regras que não estão escritas, mas
que também orientam o convívio social, tor-
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nando-se necessárias para uma melhor or-
de maneira que possa desejar que a máxi-
ganização dos espaços comuns, bem como
ma de sua vontade seja, ao mesmo tempo,
a valorização da vida.
o princípio de uma lei universal”.
Para ele, máximas eram as intenções
que estão por trás de qualquer ação. Explican-
do melhor o pensamento de Kant: imperativos
são as regras, ou normas, sem um conteúdo
específico, normas que servem para qualquer
pessoa em qualquer circunstância. Simplifican-
do, aquilo que é justo e bom para mim deve,
também, ser bom e justo para todos.
É importante percebermos que nem
sempre as normas auxiliam todos os indiví-
Chamamos de política as normas que duos, porém elas são necessárias para coleti-
devem ser boas para todos. Neste caso, a ra- vidade. Em relação aos tipos de imperativos,
zão se preocupa com regras e normas, volta- os categóricos são aqueles que produzem o
das para a coletividade e não para questões bem através da ideia de dever, enquanto que
individuais. Surge, então, um questionamento os hipotéticos organizam a vontade de uma
de como se criar normas que sejam justas, re- pessoa para conseguir algum objetivo.
gras que sejam imparciais.
De acordo com o filósofo existen-
cialista Gabriel Marcel: “O homem livre é
o que pode prometer e pode trair”. Expli-
cando seu pensamento, isto significa que
Exemplificando, para facilitar o en-
para sermos livres, devemos ter a possibi-
tendimento dos imperativos de Kant, va-
lidade sempre aberta da transgressão da
mos pensar numa situação: uma pessoa
norma, mesmo daquela que nós mesmos
que segue uma dieta alimentar balancea-
escolhemos.
da se deseja emagrecer, mas come mui-
to doce e não faz nenhum tipo de exer-
cício físico. O que ela precisa fazer para
O princípio da universalidade realmente conseguir emagrecer é deixar
Para tentarmos encontrar uma respos- de comer muitos doces e começar a se
ta para estas reflexões, podemos nos apoiar exercitar. O imperativo hipotético nes-
no que dizia Immanuel Kant, filósofo alemão, te caso é: para emagrecer, esta pessoa
em seu livro Crítica da razão pura. Ele dizia deve restringir a ingestão de doces e fa-
que os seres humanos racionais têm certos zer exercícios físicos. Vale lembrar que
deveres que são categóricos: ordens de se o imperativo hipotético é uma regra para
agir de certas maneiras. Também dizia que os se atingir um objetivo, neste caso, ema-
deveres categóricos são contrastados com os grecer. O imperativo categórico é uma
hipotéticos, que informam o que você deve ou regra que serve para todos em qualquer
não fazer se quiser alcançar ou evitar um de- circunstância; neste caso, o imperativo
terminado fim. categórico seria: para emagrecer deve-se
seguir uma dieta alimentar balanceada,
Imperativos de Kant diminuir substancialmente a ingestão de
doces e fazer exercícios regularmente,
Kant acreditava haver apenas um regra válida para qualquer pessoa que
imperativo categórico básico: “Aja sempre deseja emagrecer.

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para conduzir a própria vida quando se dá conta
Ética pessoal x Sociedade ética
de que todos que estão com ela são igualmente
importantes e livres. De acordo com Kant, este in-
A conquista da ética pessoal divíduo trata a todos como gostaria de ser tratado
Podemos chamar de ética pessoal o (imperativo categórico). Ser ético, portanto, é ser
conjunto de normas pessoais que governa as livre, buscando agir de uma maneira consciente
pessoas. Isto não quer dizer que cada um faça e não apenas como os outros dizem.
a seu gosto, como lhe parece mais apropria-
do, o que corresponderia à ética idiossincrá- Regra da universalidade: uma
tica, isto é, a maneira de ver própria de cada versão da regra de ouro
pessoa. Fazer apenas aquilo que interessa a
uma pessoa não é ser ético; esta seria uma Esta regra da universalidade de Kant
opção feita individualmente, e uma opção in- pode, também, ser considerada como uma
dividual não é o mesmo que uma opção ética. versão da chamada regra de ouro do cristia-
Muitos comportamentos são, atualmen- nismo que dizia: “Fazei aos outros como gos-
te, influenciados pelo grupo social no qual uma taríeis que vos fizessem”.
pessoa vive ou pelos meios de comunicação
como a televisão. Porém, quando agimos in- A regra de ouro também apresenta
fluenciados pelo que os outros dizem, ou pela uma forma negativa: “não faças aos outros
televisão, não somos livres, não demonstra- aquilo que não desejas para ti”, que se as-
mos ser autônomos; estamos nos submeten- semelha à lei moral de Kant: “se uma ação
do aos valores dos outros por conformismo, não é correta para todos, não é correta
sem reflexão. para ninguém”. Deste modo, um indivíduo
se comportará socialmente e pautará suas
A conhecida e clássica frase de Só- ações da mesma maneira que gostaria que
crates “Conhece- te a ti mesmo” provoca os outros se comportassem em relação a
a reflexão sobre nossos desejos, sobre ele. Para isto, não é necessário a existên-
o que realmente queremos para nossa cia de normas escritas, mas uma norma
vida e como conduzi-la, sendo necessá- interna que nortearia a conduta de cada
rio, para tal, que a pessoa conheça a si indivíduo na sociedade.
mesma.

Estes dois pilares, a ação desinteres-


sada e a ação orientada para o bem comum
e “universal”, serão, até nossos dias, acei-
tos por todos e, inclusive, caracterizam a
moral moderna, principalmente por intermé-
dio da ideologia dos direitos do homem, que
poderosamente contribuíram para sua ela-
boração. É realizar uma ação baseando-se
no senso de dever, sem ter um objetivo es-
pecífico como ascensão social, notabilida-
Uma pessoa se torna autônoma quando é de, lucro etc., com tendências naturais que
capaz de se conhecer, de refletir e discernir o que se fundamentam no egoísmo. Uma pessoa
é o seu desejo e aquele desejo que resulta da verdadeiramente autônoma é capaz de rea-
influência dos outros, sem uma reflexão pessoal, lizar ações desinteressadas.
sem uma análise. Uma pessoa autônoma é livre
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A formação de uma sociedade ética cidadão que realiza a “coisa certa” indepen-
dente de receber ou não elogios, é autônomo
Ultimamente, muito se tem falado em e ético na sua ação, decidindo cumprir uma
ética social e pouco da ética pessoal. No en- norma por decisão própria.
tanto, não existe uma sociedade ética sem
pessoas éticas. Vivendo numa sociedade que Aristóteles afirmava que “uma ando-
valoriza o trabalho, com os meios de comu- rinha não faz verão” para dizer que o agir
nicação operando em larga escala na infor- autônomo virtuoso como ele dizia, não é
mação, no entretenimento e na formação de ocasional e fortuito, mas deve se tornar
ideias, o homem moderno assume um papel um hábito, e sua repetição, a base para o
muito importante na formação de uma socie- agir moral de toda a sociedade.
dade mais justa e ética.
A maneira como ele conduzirá sua vida
é seu trabalho, fazendo não aquilo que é visto Homem: um ser racional, livre,
e valorizado, mas realizando o que ninguém autônomo e ético
vê e sabe. A demonstração de estar preocu-
pado com os deveres pessoais e profissionais O homem, ao afirmar que o mundo não
e, principalmente, com os deveres sociais, é acabado, fechado, hierarquizado e ordena-
com as outras pessoas da sociedade em que do como se pensava antigamente, mas que
vive, é o fator que contribuirá para a formação constitui um caos infinito e desprovido de sen-
de uma sociedade ética. tido, passa a se questionar e reavaliar os con-
ceitos até então tidos como absolutos.
Através da dúvida constante, do ques-
tionamento geral, ele se descobre como um
ser racional, capaz de conhecer e explicar o
mundo, compreender suas ações, identificar
seus limites e refletir sobre alguns critérios de
escolha para as ações que realiza.

Assim, uma sociedade necessita de mui-


tos cidadãos éticos e autônomos para se tornar,
também, uma sociedade ética. Cabe ressaltar
que a atitude inadequada de um indivíduo atra-
palha o resultado final. Deste modo, aque-
la desgastada frase “por que devo agir deste
modo se ninguém o faz?”, demonstra o quanto
um indivíduo não é autônomo, mas heterôno-
mo, pois não age corretamente por saber que
é seu dever, independente de estar ou não
sendo cobrado ou observado. Também não
se conscientizou, ainda, que a soma das atitu- Aos poucos, o homem vai se descobrin-
des éticas é que resulta numa sociedade ética; do e, nesta descoberta, percebe que a sua
logo, sua ação faz toda a diferença. existência necessita e depende da existência
Ação desinteressada é aquela que se do outro, bem como da liberdade dos dois.
realiza a partir de um senso de dever, sem Essa nova visão do mundo e do papel do ho-
nenhuma inclinação, sentimento ou possibi- mem neste novo mundo, agora no centro de
lidade de algum tipo de lucro, ou vantagem, tudo, onde anteriormente estavam os cosmos
por parte de quem a executa. Resumindo, o e a divindade, faz com que, pelo esforço do
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pensamento, ele dê sentido e coerência a um
mundo que parece não possuir mais nenhum. perspectivas individuais e sociais. Hoje,
Cabe ao homem fundamentar a moral, discutir somos o produto de todas estas mudan-
situações e problemas novos e se posicionar ças e reflexões. Sem percebermos, agi-
diante deles; diferente da Antiguidade, ou da mos de uma maneira ou de outra porque,
religião, em que as regras criadas orientavam antes de nós, pessoas tiveram a ousadia
os comportamentos. de ver o mundo de outro modo, de ques-
Toda esta evolução demorou séculos e tionar o funcionamento e a organização
ocorreu graças ao estudo e a reflexão de mui- de tudo, de dar liberdade de pensamento
tos filósofos e cientistas. Foi o conjunto das e ação ao homem, colocando-o como o
descobertas e dos questionamentos que con- senhor de sua vida.
tribuiu para a mudança de pensamento e ati-
tudes humanas.

Da autonomia individual à social


O desafio, agora, é construir um mundo
onde todos realmente tenham seus direitos Pensar com autonomia
conquistados e realizem todos os deveres ne-
cessários, sem serem coagidos, para que este O conceito de autonomia
mundo seja como na Antiguidade: um modelo
de perfeição para o homem. Além de se perceber como um ser
social, pensante e livre, o homem é ca-
paz de criar normas de conduta para si
mesmo - regras pessoais que determina-
rão o seu comportamento e da socieda-
de - e, de acordo com as suas escolhas,
capaz de se tornar autônomo.

Autonomia: a regra dentro


de cada um

De acordo com o dicionário, auto-


nomia é a capacidade de um indivíduo
de governar a si próprio; é liberdade, in-
dependência moral ou intelectual. Pela
Daí a função da reflexão filosófica que, definição dada, vimos que autonomia se
neste fascículo, associa o desenvolvimento relaciona com liberdade.
da autonomia individual à social. Os princípios
mostram-se os mesmos tanto para a autono- Heteronomia X Autonomia
mia individual como social, como num proces-
so de ampliação. E neste sentido, a reflexão Autonomia (auto significa “pró-
filosófica pode contribuir para o exercício da prio”; nomos, “lei”) coloca no homem a
autonomia de pensamento individual como capacidade de refletir sobre as limitações
forma de participar na construção de uma so- que lhe são impostas.
ciedade mais autônoma e justa. Heteronomia (hetero significa “di-
ferente”; nomos, “lei”) significa a acei-
Segundo o pensamento de grandes tação da norma que vem de fora, impõe
filósofos, a autonomia pode ser enten- os valores da tradição e são obedecidas
dida como a capacidade de coordenar

Filosofia 2 - Aula 4 41 Instituto Universal Brasileiro


passivamente por conformismo ou temor à e discernir o que é o seu desejo e aque-
reprovação da sociedade ou dos deuses. le desejo que resulta da influência dos
outros, sem uma reflexão pessoal, sem
Função das normas sociais uma análise.

Em todas as sociedades, há regras, Regra da universalidade: uma


normas que disciplinam a conduta dos ho- versão da regra de ouro
mens com o objetivo de organizar o espaço
comum a todos. Muitas normas se transfor- A regra da universalidade de Kant
maram em leis, ditando o comportamento e pode ser considerada uma versão da
orientando a vida em sociedade. chamada regra de ouro do cristianismo
que dizia: “Fazei aos outros como gosta-
O princípio da universalidade ríeis que vos fizessem”.

Immanuel Kant, filósofo alemão, A formação de uma sociedade ética


em seu livro Crítica da razão pura, afir-
ma que os seres humanos racionais têm Não existe uma sociedade ética
certos deveres que são categóricos: or- sem pessoas éticas. Uma sociedade ne-
dens de se agir de certas maneiras; que cessita de muitos cidadãos éticos e au-
contrastam com os deveres hipotéticos, tônomos para se tornar, também, uma
que informam o que você deve ou não sociedade ética.
fazer se quiser alcançar ou evitar um de-
terminado fim. Homem: um ser racional, livre,
autônomo e ético
Imperativos de Kant
Por meio do questionamento o
Kant acreditava haver apenas um homem se descobre um ser racional,
imperativo categórico básico: “Aja sem- capaz de conhecer e explicar o mun-
pre de maneira que possa desejar que a do, compreender suas ações, identifi-
máxima de sua vontade seja, ao mesmo car seus limites e refletir sobre alguns
tempo, o princípio de uma lei universal”. critérios de escolha para as ações que
realiza.
Imperativos são as regras, ou nor-
mas, sem um conteúdo específico, nor- Da autonomia individual à social
mas que servem para qualquer pessoa
em qualquer circunstância. Em relação A reflexão filosófica associa a auto-
aos tipos de imperativos: os categóricos nomia individual à social. Os princípios
são aqueles que produzem o bem através mostram-se os mesmos, num processo
da ideia de dever; enquanto que os hipo- de ampliação. O exercício da autonomia
téticos organizam a vontade de uma pes- individual é uma maneira de participar na
soa para conseguir algum objetivo. construção de uma sociedade mais autô-
noma e justa.
Ética pessoal x Sociedade ética
Segundo o pensamento de gran-
A conquista da ética pessoal des filósofos, a autonomia pode ser en-
tendida como a capacidade de coorde-
Uma pessoa se torna autônoma nar perspectivas individuais e sociais.
quando é capaz de se conhecer, de refletir

Filosofia 2 - Aula 4 42 Instituto Universal Brasileiro


a) ( ) autonomia - heteronomia - tradição.
b) ( ) heteronomia - autonomia - tradição.
c) ( ) heteronomia - tradição - autonomia.
d) ( ) tradição - autonomia - heteronomia.

1. Assinale os acontecimentos que in- 4. O filósofo alemão, Immanuel Kant, em


fluenciaram o surgimento da Filosofia e do sua obra Crítica da razão pura, distingue os im-
mundo modernos. A seguir, escolha a alterna- perativos - que seriam regras ou normas sem con-
tiva correta. teúdo específico - em categóricos e hipotéticos.
Leia as afirmativas a respeito dessas dis-
I - A queda da cosmologia da Anti- tinções e identifique as verdadeiras (V) ou falsas
guidade. (F), antes de assinalar a alternativa correta.
II - A colocação do homem como
centro do universo. ( ) Kant acreditava haver apenas um
III - A revolução científica e, conse- imperativo categórico básico: “Aja sempre
quentemente, cultural. de maneira que possa desejar que a máxi-
ma de sua vontade seja, ao mesmo tempo,
a) ( ) I e II estão corretas. o princípio de uma lei universal”.
b) ( ) I e III estão corretas. ( ) Em relação aos tipos de imperati-
c) ( ) I, II e III estão corretas. vos: os categóricos são aqueles que produ-
d) ( ) I, II e III estão incorretas. zem o bem através da ideia de dever; enquan-
to que os hipotéticos organizam a vontade de
2. Qual a ligação entre os conceitos uma pessoa para conseguir algum objetivo.
de autonomia e liberdade na concepção de
Kant? a) ( ) V, V.
b) ( ) F, F.
a) ( ) Autonomia e liberdade são con- c) ( ) F, V.
ceitos essencialmente vinculados. d) ( ) V, F.
b) ( ) Ser autônomo é ser livre no sen-
tido moralmente relevante. 5. No texto de introdução à aula, o tre-
c) ( ) A liberdade moral se expressa ou cho “a finalidade mais importante é possibilitar
se torna evidente na ação autônoma. ao sujeito aprender a pensar com autonomia,
d) ( ) Todas as alternativas estão cor- isto é, fomentar a capacidade de pensar por
retas e se completam. si mesmo e orientar o sujeito à emancipação”
refere-se ao objetivo da:
3. Complete a frase, assinalando a alter-
nativa que traz os vocábulos corretos.

A ___________________ diz res-


peito à capacidade humana de refle-
tir e orientar sua ação para superar os
condicionamentos impostos, sem,
contudo, negar a influência externa. A
_____________________ significa a acei-
tação da norma que vem de fora, de acordo
com valores da ___________________,
obedecidas passivamente por conformis- a) ( ) política.
mo ou temor à reprovação da sociedade b) ( ) Filosofia.
ou dos deuses. c) ( ) educação.
d) ( ) Sociologia.
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dade humana de refletir e orientar sua ação
para superar os condicionamentos impostos,
sem, contudo, negar a influência externa. A
heteronomia significa a aceitação da norma
que vem de fora, de acordo com valores da
1. c) ( x ) I, II e III estão corretas. tradição, obedecidas passivamente por con-
formismo ou temor à reprovação da socieda-
Comentário. O papel e o modo de de ou dos deuses.
pensar do homem moderno e da Filosofia mo-
derna foram influenciados por mudanças e 4. a) ( x ) V, V.
rupturas como o desmoronamento da cosmo-
logia antiga. O pensamento moderno coloca Comentário. As afirmativas foram retira-
o homem no centro do universo, no lugar e das do texto dessa aula e ambas são verda-
na posição antes ocupada pelo cosmos e pela deiras (V), portanto, a alternativa correta é a
divindade. a. Kant distingue os imperativos - que seriam
regras ou normas sem conteúdo específico
- em categóricos e hipotéticos. Em relação
aos tipos de imperativos: os categóricos são
aqueles que produzem o bem através da ideia
de dever; enquanto que os hipotéticos organi-
zam a vontade de uma pessoa para conseguir
algum objetivo. Kant ainda acreditava haver
apenas um imperativo categórico básico: “Aja
sempre de maneira que possa desejar que a
máxima de sua vontade seja, ao mesmo tem-
po, o princípio de uma lei universal”.

Outro fator que caracterizou a era mo- 5. c) ( x ) educação.


derna foi a grande revolução científica e, con-
sequentemente cultural, sem precedentes na
história da humanidade.

2. d) ( x ) Todas as alternativas estão


corretas e se completam.

Comentário. Na concepção de Kant,


autonomia e liberdade são conceitos essen-
cialmente vinculados. Segundo o pensamento
do filósofo alemão, ser autônomo é ser livre
no sentido moralmente relevante, e a liberda- Comentário. O trecho em questão se
de moral se expressa ou se torna evidente na refere ao objetivo da educação. De acordo
ação autônoma. Portanto, todas as alternati- com a perspectiva kantiana, a finalidade mais
vas estão corretas e se completam. importante da educação não é apenas apren-
der e assimilar conteúdos, não obstante esse
3. a) ( x ) autonomia - heteronomia - aprendizado seja fundamental, mas, na ver-
tradição. dade, é possibilitar ao sujeito aprender a pen-
sar com autonomia, isto é, fomentar em cada
Comentário. A definição correta de ser humano a ousadia de querer saber, a ca-
cada termo corresponde à sequência da alter- pacidade de pensar por si mesmo, orientando
nativa a. A autonomia diz respeito à capaci- o sujeito à emancipação.
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