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ARRUDA CAMPOS

A JUSTIÇA
A SERVIÇO DO CRIME

S~
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Sã<> p-",
End. Teleg.: AtwlêmJca - SÃO PAULO 1959

1
fNDICE

Capitulo I - INTRODUCAO '" ....... , .... , ,." ...... ..... .


' 7
II - A LEI GERA 0 CRIME ........................ . 15
III - A JUSTICA APLICA A LEI ................... . 34
IV _ A PENA PERVERTE ........................... . 60
v - A LEI NAO E RESPEITADA .................... 83
VI - NOTAS AVULSAS
1) ,- Limites da a~a:o do /uizo das ExecW;6es ...... 107
2) ,- Trabalho de sentenciados ,....... R.emuneta~ao '" 112
3) ,...... Visita a um reformatorio ingles ."........... 115
4) ,...... Visita a Uniao SOtJietica •.... "............ 120
5) ,.- Uma prisao sovietica (2.1' Brau) ............ 126
CAPITULO I

INTRODU<;;AO

1. 0 direito ainda e uma eristaliza;;ao da for;;a. :ill


uma fie~ao sistematizada, que se eriou para que os ho-
mens possmn viver em sociedade e defender sellS privi-
legios, S8m choques e sem Illtas insoluveis. Constitui de
cuto modo uma pTOjegaO da humanidade, que nao e
fixa nem imutavel, nao tern p1'essnpostos dos quais pos-
sam ser extraidas dedu<;oes 16gieas e exatas, invariaveis
e unifol'mes, no tempo e no espa<;o. Snas regras nao sao
eomo as da fisiea, que permanecem constantes e nao
admitem progress os nem recuos. Diante delas, as leis
dos indivicluos sao garatnjas hesitantes, grotescas e fre-
qiientemcnte ate anti-sociais.
Teorias ocasionais ganham C01'1)0. Palavras adqui-
rem sentido. Principios se solidificam, enquanto outros,
confo1'me se altera 0 regime social se liquefazem ou se
evapo1'am. Mas, enqnanto subsistem, tem 0 lmpeto das
coisas reais. P1'ocluzem efeitos. C1'iam uma certeza
efemel'a, adeqnada as conveniencias de determinaclo ins-
tante, em cletel'minado lugar, durante determinado
tempo.
Ridiculos sao os juristas, quando compaTados aos
que se declicam as ciencias Jlositivas. Porqne allldem
it lei cla SllCeSSaO hcreditaria e as inyen;;oes de Cal'nelutti
e Chiovenda com a mesma cOl1vic<;ao com que 0 fisico
se reporta a lei da graviclade e as teOl'ias de N 8\vton.
8 Atmt:bA CAMPOS .\. ,1 USTTCA A SBítvrÇ'O DO cnnü

Ignoram que uma simples lei - lei que atualmente julga elas suas aplicações. Dos três, o que goza ele menor
vige, ou está sendo cogitada em mais ele metade do grau de autonomia é o Judiciário, de cujo poder só
mundo - poderá acabar com a alegria dos mais reno- muito remotamente se pode dizer que emana do povo,
mados jurisconsultos, com os esquemas complicados dada a circunstância de que é eSCTG1VO da lei, até para a
pelos mais hábeis cultores do xadrez legislativo, dar fim escolha de seus membros. Dos três, o que usufrui maior
a doutrinas, jurisprudências e seqüelas. dose de amplitude, é o Legislativo, uma vez que lhe com-
Basta uma lei que elimine a propriedade privada. pete ditar as normas da vida da Nação. Dos três, o
mais forte é o Executivo, porque tamhém guarda o di-
2. .A grande e ingênua ficção brasileira é a Consti- llheiro e, conseqüentemente, tem duas fontes de energia:
húção Federal, cujo cunho democrático é iniludível. Con- a que lhe vem elo POYO e a que lhe chega através do
sidera que "todo poder emana do povo e em seu nome TesolU'o.
será exercido". Nas eleições supõe que é o povo quem
Excluído o Judiciário, cujos juízes são escolhidos
decide soberanamente. Consagra o binômio - maioria
por concursos orientados por outros juízes, o Legisla-
e minoria - e autoriza o eleitorado a atuar na formação
tivo e o Executivo se organizam por delegação popular
do poder, com liherdade e igualdade. llas eleições.
Eleições, liberdade e igualdade, não implicam, pela
Estas, porém, são falsificadas.
Constituição, em conceitos apriorísticos, definidores de
uma determinada orientação política. A vontade livre No rigor da técnica democrática deveriam os can-
é do povo, que vota de acôrdo com seus anseios. E essa didatos agrupar-se em partidos, ele acôTdo com orien-
vontade pode voltar-se para a direita, para o centro ou tações expostas à escolha do povo. TeríanlOs, então,
para a esquerda, pois, repita-se, o povo é soherano. como sucede em alguns raros países, partidos do centro,
.A ficção se revela quando se verifica, na realidade, da direita e ela esquerda, disputando a preferência do
que o ponto de partida é falso. O povo não é soberano, eleitorado. A maioria formaria o govêrno, até ser der-
não tem igualdade, que equivale a conhecimento, nem mtada na eleição seguinte, ou manter-se no pOdeI'. E
finalmente pode voltar-se, por exemplo, para a esquerda, assim por diante.
ou mesmo, para a dÍTeita. Tal como a soberania da Como ficção que é a Constituição, esquematiza o
divindade, de "infinita" misericórdia, que pode tudo - regime, nessa base, consagranclo a obrigatoriedade do
InCHOS tirar a alma arrependida cIo Inferno. respeito às suas normas. Do contrário, se outros fôs-
sem os alicerces constitucionais, o povo deixaria de ser
3. Na técnica adotada pela Constituição, três são os soberallo, tornando-se vítima da tirania. Não sômente
poderes do lTIsfac1o: Legislativo, Executivo e JueliciáTio, estipula a pel'iodiciclade das eleições, como fixa o tempo
independentes, mas harmônicos enhc si. O Legislativo do mandato. Estabelecendo a época ela ronovação do
elabora as leis, o Executivo as faz cumprir e o J ueliciário govêrno, defere no povo n oportunidacle ele conigil' os

I
iO ARReDA CAUPOS
.\ ,JUSTI(?. A SERVIÇO DO cnnn:: 11

desvios 011 assegurar a mesma orientação ideológica de llsa de um eufemismo vago - é vedada a organização, ()
seus representantes. E cria organismos de autodefesa, registro ou o f'1lnâoncunento de qualquer pm·tido político
para que as suas regras seJam sempre acatadas, entre ou associação cujo programa. 01. ação contrarie o regirnc
os quais o Exército Nacional é a expressão mais elevada, democrático, ba,seado na pluralidade elos partidos e na
porque é a fôrça ao serviço do Direito. gamntia dos direitos f!mdarnentais do homem. Graças
Se um grupo empolga o poder e, derrotado nas a êsse dispositivo, são postos fora da lei todos os partidos
eleições, recusa-se a abandoná-lo, ao J ndiciário compete que, em tese, contrariem os direitos fundamentais dos
eolocá-lo fora da lei. Ao Exército cumpre desalojá-lo homens fortes. Inyersamente, não são molestados os
da posição. Configura-se a usurpação. que, como os monarquistas, querem a subversão do re-
Êsse é o esquema da Constituição Federal, sem gime político sem a eliminação dos lJIivilégios dos
dúvida magnífico. Contudo, corno estamos diante de poderosos.
uma simples ficção, verifica-se em certos casos que,
seguindo o exemplo do Judiciário, as fôrças armadas 6. O primeiro ponto a ser considerado, e que suple-
se acumpliciam aos espoliadores, que dão golpes ele menta os itens anteriores, é o de que a lei do Legislativo
Estado. Homologam a tirania, prestigiando o ditador. está longe de representar a vontade ela maioria do povo.
E mandam espaldeirm o povo soberano. O eleitorado constitui insignificante minoria e a vontade
elos que votam é adulterada pelo emprêgo de fórmulas
4. Em meio do emaranhado dessa crise que asso ber-
eleiçoeiras fraudulentas, desde o engano puro e simples,
ba o mundo, envolvendo o Brasil no roldão, aúnica atitu-
através da demagogia, até a corrupção. Os l)artidos,
de que um cidadão pode tOlllm', com dignidade e respeito
por sua vez, não têm programas definidos, tanto quc,
ao próximo, é o de bater-se para que, efetivamente cum-
Ullla vez eleitos, seus membros se bandeiam ele uns para
prida, deixe a Constituição Federal de ser uma ficção
outros impunemente. Alguns partidos existem, contra
momentânea. Deve obedecê-la, mas deve também pug-
os quais não se exerce a vigilância das autoridades, que "
I
naI' por ela, inclusive através da luta. Ê possível que
o povo se torne realmente soberano e esmague um dia
não passam de conjugado de letras, ou nomes, para rea- i
I
lização ele transações visando a inclusão ele candidatos
aquêles que, dizendo que vão salvá-lo, contra êle esta-
beleeem a tirania, que condenam, lllas que lhes convém. em suas chapas.
Disso resulta que triunfam os mais fortes, que são,
5. Por sm' democrática, a Constituição exige o plu- costumeiramente, os que econômi(;amente são mais po-
ripartidarismo; mas, por seI' uma ficção, permite que derosos. Isso, apesar de inidôneos.
sejam extintos ou vivam partidos que inscrevam em seus Por ser público e notório o fato dispensa compro-
programas a suhvel'são da ordem econômiea. O texto vação.
.\ ,TC':i'1'IÇA A :)EIWIÇO DO CRIME 13
ARRUDA CAMPOS

sellça no instante em que entram em jôgo os grandes


7. A Constituição Federal aceita como fundamen-
inti'rêsses da coletividade.
tais certos princípios que, na prática, não são observados.
Culpa não é dela, senão do POYO, que não é soberano. Quando os repuhlicanos iniciaJ.'am aSila <:alllpanha
Que não tem sabido, ou não tem podido, valer-se dos eontra a monarquia, eram revolucionários que conspi-
l'anUll conha o regime político e queTiam a subversão
direitos que lhe são outorgados. Contudo, não é aqui
o lugar para a análise das causas clêsse clesajuste, uma do govêrno, pela abolição do trono. Foram combatidos.
vez que hem outro é o intuito dêste trabalho. Assinalada lllas apenas no teneno das idéias, porque não preten~
a falha pode-se passar adiante. dimn eliminar as vantagens das classes mais favorecidas.
A prova ele que a luta foi bmnda e serena está em que,
O poder que o povo aborta é o que conduz a Nação.
mesmo lJlantalldo cafezais, os líderes do movimento con-
Ê também o IJOnto de partida do presente ensaio: - um
seguiram ganhar fÔl:ça política até alcançar a vitória,
poder degenerado, mas poder.
sem sang'ue, expulsando o Impel'adOl·.
Poder através do qual os grupos de homens fortes
Hoje, em que, ahás ela luta aparente, está em jôgo
legitimam sua posição. Poder que, conforme se demons-
a subversão da estrutura econômica, apesar ele todos os
trará acliante, é principalmente de ordem econômica,
lH'ogl'€SSOS ela humanidade e do culto das liberdades, a
já que os vitoriosos nunca se cligladiam por cansa de
l'cação é mais violenta. As prisões ficam cheias. No
idéias, senão apenas por motivo ele interêsses materiais.
unge do conflito cria-se, por exemplo, uma côrte espe-
E ê8se poder traz atrelado aquêle terceiro, cujos mem-
(·inl, como o rrl'ihunal ele Segurança Nacional, pois que
bros não são eleitos e que muito remotamente se ligam
os homens fortes não depositam suficiente confiança na
ao pü"l'O, em nome elo qual atuam: - O Poder ;rudiciário.
.Justiça comum. Mesmo agora, quando o perigo parece
llllJaillado, temos uma dupla polícia política; a policial
8. Resulta mais, insista-se, que o povo, privado da
pl'opl'imnente dita, opl'essora do pensamento, e a ouha,
soberania, não pode tomar a orientação que bem entenda,
plpitol'al, senhora elas oportunidades eletiyas, que anula
porque, não tendo amadurecido politicamente, ignora
l'l'gishos de plU'tidm', cassa mandatos e nega inscrição
o exato valor do voto. E, uma vez que uma eleição
aos candidatos que, ael'eclitanclo nas liberclades ins-
sagTou os eleitos, fica subordinado à Autoridaele, a qual,
critas lla Condituição Federal, professam icleolog'ias
assumindo uma tutoria que não encontra raízes na Cons-
([lle não ('ollvêm aos hOlnpllS fortes que 1ll011Oj)01izam
tituição, passa a ditar as correntes doutrinárias que ao
as comodidades da vida. São obrigados l\ yotnr, ma,
seu tutelado é vedado escolher, em nome dos direitos
não têm o direito de seI' yoIaclos 1.
fundamentais dos homens.
,. 1. Expressivo ê -,0, pal'ecer do pro(urador~g('r3.1 da Repúblicd, acolhido em
19:;16 pelo S:-,pr~mo ,1 nbUlwl Federal, no ca.so d~l denúncia formulada contra
9. Poder principalmente ele ordem econômica, dis- um ~el.ler<.d lOSUl)Ol~dlU~do, que manteve em custódia o legitimo Pl'cSidentc <In
I Republlc<'!, Sr. Cafe Filho, por ocasião do golpe de 11 de novembro de 1955,
semos. lJOl'(jlle, efetivamente, êle só faz sentir sua pre-

1
ARRUDA CAMPOS

10. Com êsscs al'gul1lentos pensamos haver comple-


tado o círculo das noções elementares dc Direito Público
que julgamos necessál'io incluir nesta introdução. Ocorre
entre nós um processo degenerativo, em conseqüência do
CAPÍTULO II
qual a Constituição, que teoricamente tem sólidas bases
democráticas, perde a consistência normativa para se A LEI GERA O CRIME
transformar em papel escrito, que certos homens rasgam
e colam novamente, ou rasgam e fazem outra em subs-
tituição, com absoluto desprêzo pela soberania do povo. 11. O dil'eito é uma ficção sistematizada que se
cl'iou para que os homens fortes possam viver em socie-
I dade e defender seus privilégios. Quando os fortes se
I
p reduzem a um pequeno nlunero, que se subordinam a
f
!un, temos a ditadura de Hitler, de Mussolini, de Stalin,
de Salazar ou de Franco.
Por baixo da camada de superfície, na infra-estru-
tura da sociedade, lavra, porém, a permanente revolução,
que vai modificar êsse direito de um, para fazer o de
cem, ou o de cem, mil, podendo-se imaginar que havel'á
um só direito quando êle chegar a ser o direito de todos.
Por isso, porque as famílias das nações ainda vivem
em estágios diferentes de cultura, há um direito sovié-
tico, um direito francês, um direito norte-americano,
um direito italiano, um direito brasileil'O, um dÍTeito
holiviano, um direito paraguaio, um dil'eito abissÍnio,
um direito saudita, cada qual exprimindo um instante
social, sem que signifique que, mais amplo e mais justo,
Diz o representante do Minístério Püblico Federal: ,..- "Ora, não há notícia outro não esteja em ebulição.
nos anais forenses de terem sido submetidos a processo os que hajam tomado
parte em golpes militares ou movimentos revoludonãrios vitoriosos, por não Durante séculos apresentou-se o poder do Rei como
serem considerados criminosos os atos por êles praticados em tais ocasiões".
Arquivando a representação a que alude o parecer. confirmou o Supremo uma expressão do direito de Deus. Sublevar-se contra
Tribunal Federal a tese de que o poder efetivamente não emana do povo, mas
da fôrça triunfante, Se outro general chefiar um contragolpe que acabe ven~
o Rei, mais do que um cl'ime de lesa-majestade, cons-
cedor. não teremos também atos criminosos a ser punidos, e assim por diante, tituía um ato de lesa-divindade, uma insuportável he-
até que o último, peja fôrça da espada, torne bandidos todos os heróis seus
antecessores ,- tal, aliás. _ como aconteceu em Nuremberg. resia que podia ser salva apenas pelo auto-de-fé em fo-
16 ARRUDA CAMPOS A JrSTrçA A SERVJÇO DO CRIME li

guei:ra. Os gnlpos dominados, todavia, continuaram a Numa YÍsão de profundidade percebe-se o vulto elas
fennentm' suas idéias o criannn a guilhotina. reformas. As vigas mestras, porém, são quase as mes-
Isso significa quo há um direito que nasce ao mesmo mas. Imensas e seculares, nos pontos de apoio escon-
vasso em que há outro que morre. Ihering, muito antes, dem-se em bases perdidas no tempo: - a propriedade
já havia chegado a conclusão semelhante. privada, a herança e a escravização do homem pelo
dinheiro.
12. Tôdas as estruturas econômico-sociais têm o
seu princípio, fastígio e têrmo, como igualmente, na 13. Dos romanos nos chegou a noção de que não
Natureza, os homens nascem, crescem e desaparecem. í há crime sem uma lei anterior que o defina: - poena
Illellltàvelmente, o direito acompanha a marcha da es- nonirrogatur, nisi quae qtwque lege veZ quo alio jure
trutura à qual corresponde.
A sociedade organizada de um dado instante tem ,I specialiter h!LÍe delicto únpositn est. Êsse foi o ponto
de partida da fórmula nnlZnm eri1nen, mtlln poena, SÚM
7ege, celebrizada por Feuerbach. Então, traçando os
sempre uma crosta que não pode ser radicahnente rom-
~
,l
limites da figura delituosa, para enquadrar nêles aquê-
pida sem a ocoTI'ência de fenômenos igualmente ,iolentos 'i
ele repercussão. Deve ser reformada para o momento ! les determinados atos que aos fortes convém sejam re-
seg11Ínte, avançando, progressivamente, de acôrdo com primidos, cria a lei o fato punível. E mais: - no Brasil,
os imlnllsos que recebe das camadas infeI'iores. Quando com receio das idéias de Tobias Barreto, que preconizava
se haja ele suhstituir uma vig'a, faz-se mister que outra a adoção do princípio da analogia, para daI' fim à área
(',te,ja pronta, em condições de seI' utilizada, para que, da subdelinqüência, inscreveu-se na Constituição que
"Olll o resultado espeTado, outro, inesperado, não so- "ninguém será processado nem sentenciado senão pela
brevenha. autoridade competente e na forma ele lei anterior" (ari.
A estrutura do chamado mundo ocidental, Coom a1- 141, § 27).
gmnm; alterações, é ainda a de Roma. Enquanto as :6J evidente que, em certos casos, o crime antecede
(·iêneias se c1esenyolvcram, ao illl]JUlso das exigências fUll- à lei. A violação do direito à vida, por exemplo, cons-
eiouais, aleançanc10 as Nações mais ricas elcnlClos pa- tituiu ato eriminoso desde quando a humanidade 8U-
drões de técnica, já o direito, sob um certo aspecto, perOll a fase da harhárie, e ainda que, em certas nações,
peTmaneceu quase parado. rral se deve à cirCHllstàneia suhsista a vena de morte.
ele 'J11e, não tendo havido modificação profunda no re- Na generalidade dos casos, porém, é a lei que
gime eeonômico, iJlso-facto não precisou êle ser reajus- gera o crime, porque ela segue fielmente o direito pôsto
tado suhstaneialmente. Continuou atendendo os inte.rês- ao serviço da definição dos delitos.
ses elas classes dominantes - e <lai fi razão pE'la (lHal
Se o direito varia, de aeôrdo eom as alterações
tanto os .jm·i8tas se npóimn no DÚ'l'ito Romano, das estruturas eeonômieo-sociais, a capitulação dos
18 ARRUDA CAl.\!POS A ,n:STIÇ'A A SERVIÇO Dü CllIMB 19

atos, estigmatizados coomo delitos, fiea ao arhítrio do da economia popular, ou aquêles, que recebem eomin<\-
legislador. ÇÕ8S graYÍ8simas, ehmnados geralmente de crimes ]Joli-

Tudo depende do ponto de vista predominante do tieos ou contra a segurança nacional.


grupo que empolga a superestrlltuTa da sociedade. O
aluguel do trabalho humano, por exemplo, considerado 14. Georges Ripcl't assim se manifesta:
crim8 nos países comunistas, é lícito e constitui até uma
das bases da prospel'idade dos países capitalistas. Da "Os estudos recentes, que possuímos sôbre
. ,
eseravidão humana., como a tivemos até recentemente as transformações do direito privado durante
pode dizer-se a mesma coisa. E assim por diante. o século XIX mostram com perfeição C01110 o
A mudança do regime l'epercute intensamente nas d(lscl1Yolvimento da civilização material e as
ações das criaturas. mudanças na qualidade das riquezas tOTnaram
O Cristo pregou - não furtai'ás - 8, todavia, os necessária a reforma da legislação civil, e tam-
homens continuaram ÍllTtando e em larga escala, por- bém como as nossas idéias e concepções foram
que a vida atual é cheia de tentações. em mais dum ponto transf0l111adas por essas
novas regras. Mas, ao ler êsses estudos, dir-
NaU nião Soviética, restringida a propriedade par-
-se-ia que essa evolução foi ao mesmo tempo
ticular, deixou de haver a UEUTa, acabou a usurpação
fatal e benvinda. A mna sociedade nova COT-
de terras, excluídos fOTam os açambarcamentos de gê-
responde um direito novo; não é para espantar
neros, terminou a exploração da economia popular, pelo
o ensino de que o direito é um produto da
que, ipso-facto, caíram extraordinàriamente os níveis da
vida social, e devemos até felicitar-nos se tôdas
incidência dos furtos, estelionatos e outros crimes contra
as novidades forem cousideradas como um
o patrimônio. Em compensação, surgiTaIl1 figuras no-
progresso" 2.
vas, em substituição, que constituem delitos contTa o
Estado.
IDquivale dizer, rnutatismutandis, que coada civili-
Colocada a (lUestão dêsse ponto de vista, pode-se
zação tem seu crÍIn€. O cavalheiro de indústria tomoll
prever, quando se modifiquem certos conceitos de nossa
o lugar do cayalheiTo de punhal.
sociedade, o quase desaparecimento do crime ele adul-
tério, de contrabando e outros, mediante a simples ado-
15. Eseolhemlo com relativa liberdade os atos o
ção do divórcio e franquia elas Íl'onteiras, pois que há
fatos que devem ser definidos como crime, a lei despreza
sempre um direito novo, em formação, pronto para
o conceito do qU8 seja anti-social, substitnindo-o pelo quc
substituir o \'{"lho, que caduea. Inversamente, teremos
{; antijnrídico.
a lei criando um'os delitos, tomo ainda agora aconteeen
com essas que VIsam, com penas hramlíssimas, a proteção 2, o Regime Democrático e o Direito Cívil 1llodcr11O, ítem primeiro.
20 AURUDA CAMPOS
A .JUST1ÇA A SERVrçO DO CRI:Mlll 21

Não vamos perquirir o que Rejam o bem e o mal.


nwl pmticad o não i1npl'icn na, Ú1fmQão dn lei pennl,
Baste-nos a noçào vulgar, que os homens sentem antes
ainda que cause danos aos indivíduos ou à pTópria
mesmo de compreender, e que subsiste, sempre, no co-
sociedade.
raçào da criatura humana. Tal seria fôssemos dizer
aqui o que seja o mal, o que seja o bem. Todo o esfôrço elas inÍra-estruturas sociais, na pro-
dução de um direito novo, tem por objetivo reduzir a
O delito é um fato. É mn fato que tem a sua re-
largura dessa faixa, para que os dois círculos se con-
percussão, porque cria, modifica ou faz desaparecer uma
determinada situação pré-existente. O delito é também
um ato. É um ato, porque depende da intercorrência
do elemento vontade.
Num conceito amplo, delito deveria ser todo mal
praticado, dolosa ou culposamente, por causa do pre-
juízo causado a alguém, ou à coletividade. Situado no
espaço, seria todo o ato anti-social.
...-
Anti-social, no sentido da comunidade perfeita que (J)
se procura alcançar, não a que subsiste em determinado
momento e que se recobre de um direito para ela feito
sob medida.
A lei da classe dominante, porém, estabelece uma
distinção. L~bandonando o conceito do anti-social, que
envolveria muitos dos atos praticados pelos seus elemen-
tos mais representativos, cria, aTbitràriamente, o concei-
to menOT, do ato emt1:jurídico.
Essa distinção abre caminho à compreensão do quc,
restrito o exame ao campo do direito criminal, em se- fundam. Pode-se até estabelecer um critério para afe-
guida se vai consignar. rição do grau de cultura de um povo através da medida
Figurativamente são dois círculos que se eOlltêm um da largura elêsse espaço que os anseios populares pro-
dcntro elo outro. O maior envolve os atos anti-sociais curam preencher.
e o menor apenas os atos antijnTÍdicos. Entre os dois Há um êrro.
há um espaço. Há uma faixa circular, vazia, uma
O êrro está em que, em vez de constituir uma ação
área que chamaTcmos de subdelinqüência, onde todo o
voltada contra a sociedade, o delito é considerado tão-
ARRt'bA CTMPOS

-SiJlll('nte lllIJa aç50 voltndi! eoutra a lei.


Pode o agente 16. .A opinião que pI'edol1lina entro os doutos é a
do ato atingir a sociedade, que não ineidirá na lei penal. de que o princípio mtllurn crlmen sine Icgc visa defender
Permanecerá incólml1e e Ímplmc desde qne não ahan- os cidadãos, colocando-os a salvo de quaisquer violências.
done a área da snbdelinqüência. Não lJodem os governos, nem as polícias, nem os juízes,
cometer ação contrária à lei, donde a conseqüência de
A êsse respeito nunca será excessivo lemhrar que, que não podem perseguir ou fracionar a liherdade de
se a transgressão do dever jurídico, no campo do di- quem quer que seja, se a pessoa visada não praticou
reito civil, eria uma sanção, que, reduzida a números, atos definidos como delitnosos.
pode ser considerada equivalente ao dano, já na esfera
V on Liszt é de opinião diferente, afiançando que
ela criminalidade não há critério fixo que justifique
tal sistema não protege o cidadão comum, nem a ordem
as diferentes graduações estabelecidas pelo legislador.
Não há proporcionalidade constante entre as faltas co- I
,;
legal, nem mesmo a sociedade, mas o indivíduo que
comete o crime - uma vez que lhe outorga o direito de
metidas e as punições que elas acarretam. O crime de
não ser castigado, senão nas condições e dentro dos
abandono de família dá margem a penas ridículas e
limites legais.
mesmo o homicídio, que no Código de 1890 autorizava
a condenação a 30 anos de prisão, no atual se ajusta Parece-nos, todavia, que a questão é outra. O pre-
entre 6 e 20 anos. ceito neulZum crimen sine Zege não visa a proteção do
cidadão comum. O homem normal, vida a fora,. está
Da lei de Talião - ôlho pOJ" ôlho, dente por dente sempre longe da delinqüência, pelo que lhe é indiferente
- pode dizer-se que tem efetiva aplicação no Direito essa modalidade de amparo legal. Igualmente não aco-
Civil. Ê a indenização, são as perdas e danos, são os herta o criminoso, porque constitui justamente o catálogo
lucros cessantes, os juros da mora. Ê a regra, quase elas penas que lhe são cominadas. Quem se beneficia
matemática, de correspondência entre uma COlSa e da aplicação dessa regra é ° agente que pratica atos
outra, entre a infração e a compensação. anti-sociais sem sair da faixa da subdelínqüência. Êsse
No cTÍme, todavia, inclusive no capítulo da legíti- não é o homem comum. Tamhém não é o criminoso. Ê
ma defesa, não há respeito a essa regra de proporção. o indivíduo que usa o Código Penal como uma carta de
O dÍl'eito do eieladão fica à mercê de fórmulas, quase navegação. Que faz o seu contrahando junto dos es-
sempre vazias - da habilidade, ou inaptidão do advo- e01h08 e nunca avança pnJ'a o mal' alto da honestidade.
gado, ou do pn)]l1otOl', e sujeito ao julgamento de cria-
turas que projetam adiante seus próprios problemas 8. 17. O dogma nu1l1l1l'& crimen sine Icge está hoje
geralmente decidem humanamente, ou seja, em função suficientemente desmascarado. Entretanto, sua falsida-
de suas angústias, de suas al0grias e de seus d0- de se ressalta quando se eogita do que, num outro eu-
"enganos. femismo, os jUl'istas chamam de crime político.
24 ARRImA CAMPOS A JUSTIÇA A SERVIÇO DO CRIME 25

Enquanto as connmiências dos grupos dominantes Foram assassinados, eomo eriminosos, em nome da
se ajustaram, certos homGlls da Alemanha, dos E. U . .A., ordem jurídica.
da França, da InglateTra, da Itália, da U. R. S. S. e AgaTa, que desapaI'eccram, podem os tratadistas
do Japão, eTa111 tidos C01110 gTandes individualidades. continuaI' cantando 10as ao p1'incípio de que nulZum cri-
Quando os interêsses dêsses grupos, nas diferentes na- num sine lege e proclamar que êle constitui a garantia
ções em que dominavam, entraram em choque, provocan- do cidadão comum. Mas, os mesmos gOyeTllOS, que
do a conflagração, passaram subitamente à condição de 1'Ca1'111am os alemães, italianos e japonêses vencidos, e
bandidos. E quando a guorl'il terminou, os vencidos lamentam o trucidamento a frio de tão bons cabos de
foram considerados criminosos. guerra, que lhes poderiam ser úteis na próxima guerra
Seguindo a lei do mais forte, os governos triunfantes qne intentam preparar, já revelaram claramente que,
refluÍTam às fontes mais remotas, e conseqüentemente quando convém aos seus grupos dominantes, podem até
mais bárbaTas, e delas retiTaTam novos princípios paTa pisotear o direito.
justificativa da exemplificação que pretendiam fazer.
Com representantes dos juristas dos governos vi- 18. Dentro ainda do eufemislllo - crime político
toriosos, foi criado U111 tribunal internacional paTa jul- - há tamlJém a fórmula do julgamento de mdem pes-
gamento dos antigos gTandes homens. A côrte de Nu- soal. Ê uma pequena digressão, mas o caso ajusta-se
romborg exprimiu, num dado instante, o grau máximo ao tema. Ao propagandista da paz, que quer pacifi-
da cultura jurídica das nações vitoriosas. camente disputar uma inocente eleição pode-se atribuir
Contudo, o dogma nullnm cl'imen sine lege foi ba- a intenção de snbverter violentamente a sociedade, fa-
nido. Guerreiros ilustres, que cumpriam ordens, que zendo inclusive a guerra. Haja vista a decisão almixo
venceram batalhas, foram responsabilizados. Em ne- transcrita do egrégio Tribunal Regional da Justiça Elei-
nhum texto penal se encontravam os dispositivos que toral de São Paulo:
pudessem enquadrar o seu patriotismo e a sua bI'avUJ'a.
Todos os códigos que acaso fôssem consultados - exce- "Os três candidatos que se apresentam nes-
ç'ão feita do Dinamarquês e do Soviético - estipulavam sa qualidade, não como elementos do PTN, mas
uniformemente que não há crime sem a prévia definição assim como candidatos a vereadores pela Alian-
ça Popu.lar pela Paz e contm a Carestia, en-
da figura delituosa. Não ohstante, foram condenados.
Não ohstante, foram mortos '.
elimínarâ o sistema instituído em 1926 "porque a delinqüência está de tal forma
reduzida que não há necessidade de dar essa arma aos julgadores para que
3. O Código Penal Dinamarquês de 1930, revelando o alto grau de ci- ajudem o guvêmo no combate à crírnlnalidadc".
vilização do país, adotou o princípío da analogia. Já o Código Soviético, em A questão não ê de substância, mas simplesmente ilustrativa. Por isso,
elaboração, que substituirá a legislação penal das díferentes repúblíci1S da URSS, fica apenas o reçristro dela.
.\ ,TFSTI('A A SETlV1Ç'O bo enJ-:\rr.

tidacle desconhecida e ilegal, não escondem SHas Constituição (' as leis que cnssarmn seu registro,
tendências, e o seu jôgo nos estribilhos de eleger representantes aos corpos legislativos do
sempre. .. Há, finalmente, as incisivas infor- país. São Paulo, 8 de outubro de UJ51"'.
mações prestadas pelo DelJartamento de Ordem
Política e Social elo Estado.
19. Para melhor preservação de seus interêsses
Merece reparo a afirmação do Dl'. .ruiz os grupos dominantes têm partidos políticos de reserva,
de Direito, com fundamento num exame parcial que surgem apenas nas vésperas das eleições. São agre-
da Constituiç.ão, de (lue ninguém tem o direi- miações fantasmas, que não incomodam os tribunais elei-
to de impedir que o povo se oriente para a torais, apesar do profundo mal que causam ao fllneÍonn-
esquerda ou para a direita, porque o povo é mento do sistema democrático ..
soberano e sua vontade eleve ser respeitada, Não passam de meras legendas, devidamente re-
donde a impossibilidade jurídica da criação de gistradas, que pertencem a determinados grupos, cuja
(lUalquer impccilbo à expressão da vontade função, além da venda de lugares a candidatos avulsos
popular. (para que seja assegurado o mínimo legal de votantes
Ê que a citada Constituição, promulgada necessário à Sl1 hsistência do suposto partido), é a de
1)810s legítimos representantes do povo brasi- servir de cunha no jôgo dos interêsses contrariados, para
favorecimento de alguns em detrimento dos demais.
leiro, sem as influências de ideologias impostas
1)01' estranhos, ao mesmo tempo que declara Em relação a êles não há nenhuma providência
livre a manifestação do pensamento, não tolem i I defensiva do regime. A Justiça Eleitoral nada pode
l)l'Opaganda de guerra e de processos violentos ! fazer - e nada faz.
para subverter a ordem política e social I'('i- Pa/l,tidos, já o dissemos, deveTÍam ser órgãos da
nante no País (art. 141, § 5. Q). Ora, os co- opinião pública. Deveriam ser estruturados del110cràt.i-
munistas ativistas pregam exatamente essa sub- camente, atraindo eleitores de acôrdo com seus progra-
versão violenta de nossos princípios e das nos- mas. Em vez disso, constituem pirâmides invertidas.
sas tradições. Ignorá-la é agir com. evidente São dirigidos de acôrdo com as conveniências elos grupos
má-fé. O Partido Comunista Brasileiro foi que têm os llOInes de seus membros inscritos nos regis-
deelarado fora da lei por decisão ele nosso mais tros eleitorais. Tal, exatamente, eomo slleede ccom os
alto tribunal. Não existe "ele jure", mas existe pTivilégios ele invençã.o, (lHe são propriedade de al-
de fato, na sombra, embora em franco declínio.
Não poderá, conseqüentemente, em ligação wm
\ guénl.

inescrupulosos partidos, enqnanto vigente a \ 4, Acórdão n,~ 18.735 ~ Publicado no "Diário Oficiar do Estado, de

t 23 de outubro de 1951, pág. 46.


A J eSTI~',\ ,\ Slmnço DO CllDm

Grupos inwnsos c podeTosos existem, que se for-


Quando os gTUpOS dominantes se sentem realmento mnnllll como a bôna da guena, eu;jo ganho não on-
em perigo, quando o recnrso da chapa única se revela eontra justificativa nem mesmo nas complacentes normas
ineficaz, quando os Jloderes do Estado não conseguem da vacilante moral dos dias de hoje. Seu dinheiro vem
conter a infra-estrutura, então recorrem ao gesto extre- drenado da infra-estrutura e causa o empobreeimento de
mo, caracteTístico dos Jlaíses subdesenvolvidos, onde a
dezenas de milhares de criaturas. Produz, além do
soberania do povo não passa de uma vaga e inexata ex-
mais, uma concentração Jlerniciosa, que os autoriza a
pressão: - rasgam a Constituição, como foi rasgada em
gastos imoderados, a num vida acintosa na almndância
1930, depois em 1937, como rasgada acabou sendo a de
e no luxo, detenninamlo 11 elevação geral do custo das
1946. Rasgada (1955) e colada de noyo. Para isso ela
utilidades.
é de papel.
}jsse lncro não sUTgill do trabalho normal das na-
ções capitalistas, como a Inglaterra, a França, a Itália,
20. Ê assim que Jlodemos voltar ao início dêste
os Estados Unidos. Veio foi da desarticulação da so-
trabalho, quando escrevemos que o direito ainda é uma
ciedacle, que se anestesiou e já não sabe se defender. Ê
cristalização da fôrça, ou uma ficção sistematizada, que
o lucro do que ganha com o (lue devia dar de graça, e
se criou para que os homens fortes, que se articulam
que Santo Tomás define como. caracterizador do
na superestrutura da sociedade, possam defender seus
privilégios, abafando as reivindicações dos que vivem usurário.
na infra-estrutura. Consolidados 110 seu Jloderio econômico, êsses sub-
Caricatos são os juristas quando comparados aos delinqüentes, que praticam atos genuinamente anti-so-
que se dedicam às ciências positivas, que aludem às ciais, quase num suicídio coletivo, fazem mais. Rei-
doutrinas do Corpus JW'is com a mesma gravidade com vindicam e conseguem o poder político. Para êles não
que a matemático faz a demonstração de um teorema. existem informações da Polícia. Indivíduos que pra-
Nu171l1n ct'imen s!ne 7ege, com exceção de Nnremberg ticaram crimes C01111ms, e que estão sendo processados
- e elo resto. pela Justiça, atravessam fàcilmcnte os largos cl'Ívos da
.Justiça Eleitoral e compram votantes como se fôssem
21. O resto age na área moyediça da subdelin- mel'eadol'ias para cOllsegllÍl' a imunidade pal"lam8ntar
qüência, fazendo uso das sondas para medir a profundi- (lue lhes dará a impunidade.
dade dos lugares por onde conduzem a naye suspeita de Quem semeia votos colhe legislação '.
seus peTversos intuitos. São, em linhas gerais, os quc
rompem o equilíbrio entre o capital e o trabalho e 5 _ Daí i'l notória incapacidade do legislador brasileiro, sobretudo quando
ahrem brechas no sistema capitalista, pelo fato de que se trata de reformat" a legislação, dentro de um plano de conjunto, conseqüen-
temente trab,'I1hoso e dificil de ser lc'vado adiante. E mais fácil ao Parlamento
anferem lncms injustos.
:!II .\llRl.'DA ('.\):1POS:
A ,n'SnçA A SImnç'O DO cnnm :ll

22. São de Ripert êstes conceitos: - "Os jurisbs de organização do país? Se acaso tomáSSCIJ10S uma após
não podem ignorar por quen~ e como é feita a lei. Sabem outra as leis votadas lll'stes últimos anos, poder-Bo-iam
que esta é apenas a expressão da vontade duma maioria intentar cmioBas açôes de paternidade. ,Aliás, um pro-
de parlamentares, por sua vez eleitos por uma maioria jeto inspirado pelos motivos mais diferentes sai muitas
de eleitores. Como os indiferentes são mais numerosos
vêzes do Parlamento dilacerado pelas discussões e re-
do quo os atuantes, trata-se no fundo da expressão da
mendado com disposições cessionais. Tôdas as leis mo-
vontade duma minoria, e, como sôbre mais dum ponto
dernas sofreram uma olJeração cirúrgica e os operadores
nem os eleitores, nem os parlamentares vêem com clareza,
são numerosos, se não desinteressados. Os tratados de
a lei rel)resenta simplesmente a yontade persistente dUlll direito civil não fazem nenhuma alusão a esta influência
homem ou de alglms homens. Sabe-se que determinada do poder político sôbrc a confecção e a transformação
lei foi preparada e proposta por determinada pessoa das leis. Acusam eo111 fl'eqüêneia a inabilidade do legis-
ou gl'llpO, que o yoto foi facilitado por uma campanha lador, mas nunca ousam dizer qual o interêsse político
de imprensa, e que o dinbeiTO pagou determinada p1'O- que ditou o projeto ou deformou a lei. li:nsinam que
pagancla. Nos debates do Parlamento os grupos polí- existe uma evolução elo direito, mas obstinam-se em
ticos OlJÕem-se; os homens lutam pelos seus interêsses desconhecer os (1118 se esforçam por levá-la a cabo" '.
OH a satisfação do seu orgulho; os parlamentares ohe-
decem às exigências imperiosas dum grupo ou dum ill- 23. ",\'marrado à Constituição o Poder Judiciário
diyíduo; e por vêzes, no meio da indiferença geral, um cumpre a lei. Pelo menos em teoria. Não lhe é dado
indivíduo isolado impõe uma reforma, em nome não sei discutir as origens dela, nem investigar a intenção de
de que ideal, int.erêsse ou capricho. Os juristas 8a- seus autores. Não pode TeCOTl'er à analogia para al-
hem-no, mas não o dizem. Desde que a luta dos interês- cançar nas suas malhas os que agem contra a soeiedade,
SGS ou a indiferença geral permitiu o voto dum texto, empobrecendo-a injustamente, levando-a à miséria e, por
f.ste, peja virtude do decreto ele promulgação, tOTna-se fôrça da miséTia, à própria escravidão. Não pode nem
para êles coisa sagrada. li:, no entanto, quem poderia sequer salvar da ignorância as crianças que na época
descobrir na elaboração legislativa moderna um plano propícia aos estudos são forçadas a ajudar seus geni-
tOl'es no ganho do pã.o de cada dia. Ao Judiciário cabe
cuidar de uma reforma constitucional, que vise permitir a prorrogação de assistir ele braços cruzados () desenyolvimellto dêsse dra-
mandatos ou a ree!eíção dos ocupantes das maís altas posições nos governos,
que elaborar lIma pequeniui'l lei que proteja as vitimas dos textos mal en- ma da infância perdida, dêsse ato anti-social pavoTOSO
quadrados.
Assinale~se, todavia, que à falta de espirito democrático do Judiciário,
que constitui um crime de lesa-pátria. Há que se cingir
que o leva a um estado de pe.rmanente acomodação, deve ser carregada uma aos textos, impossibilitado de apanhar os que cÍl:culmn
parte da responsabilidade pelas omissões atuais, O Judiciária não aponta
camínho, não reclama, não reivindiCil ~ prderindo omitir~se, cõmodamente,
a mostrar ao povo que está inocente e não tem meios de agir.
ArtRrDA CAMPOS A JrSTlçA A SERVIÇO 00 CUBlE 33

entre os artigos do Código Penal, sem tocar Plllllellhulll, 11) o .Judiciário, escravo ela lei, mas sem nenhum
porque ellmI'l'll o jUl'alllPllto eOllstitneional e, no campo apoio no povo, serve aos interêsses elêsses
do direito el'Íminal, segue o pl'incípio (h> que Jlll17nm gru]los;
(Timen sine 7ege, c) o elelito, em vez ele abrangm' o ato anti-social,
Daí a razão pela qual a ,Justiça está ao serviço dos envolve apenas o ato ::mtijurídico;
gl'llpOS de homens fOl'tes, que lhe distribuem as tarefas li) o pTiucípio de que n1!llwn crimen s'Í1w lege visa
atI'ay6s de Códigos e leis esparsas, Castiga o "vigal'isb" a proteção elos que, praticando atos anti-so-
(lUe ilndill o paspalho, recebendo dinheiro bom a trôco ciais, não chegam a violar a lei.
de papéis velhos, sem valor, luas não põe a mão no
illeOl'pol'ador de sociedades anônimas iTl'eglllal'cs, ou no
instituidor de condomínios fantasmas, que iludem o mes-
mo inelisíeluo, recebenelo elêle elinheiro bom a trôco de
papéis novos, sem valor, porque, num caso, aginelo sob
a eliscivlina elo Cóeligo Penal, o agente perpetrou um
estelionato, enquanto llOS outros, rnanobranelo sob a pro-
teção elo Cóeligo Civil, realizou apenas 11m negócio, São
sutilezas que distinguem o ilícito civil do ilícito penal
na área da s11hdelinqüêneia,

24. Todo o esfôrç,o da humanidacle tem sielo diri-


gielo no sentido de reduzir a extensão da faixa de 811b-
dp]im[üênein, Em eompensnção, os qne, sem títulos ele
pl'opl'iedaele, a ocupam, e que' nela têm a sua lavoura
(](' voümtes, tratam de alargá-la cad,\ Y<'Z mais.
:B'iquem pois assinalados, fOltemellte assinalados,
2stes qnatl"O pontos que restringem o i'imhito da prím(;il'a
THute clêste pequeno estndo:

(/) 1llei l'C}Jresenta o interêsfw dos gl'npos eeonú-


mieos elominanh's;
A JUSTTÇA A SERVIÇO 00 CRIME

Nesse instante, das grades que se abl'em, é que a


sociedade vai ver se os homens que aceital'<1m a tarefa
de administrar a .Justiça Criminal, são de fato dignos da
missão que pleitearam, ou se, ao contrário, não passam
CAPÍTULO UI
de indivíduos enfatuados, halofos, senão mesmo 1I81'ver80s
A JUSTIÇA APLICA A LEI ou pernICIOSOS.

26. O roteiro da Justiça Criminal é o Código


25. Podemos agora, do plano geral, descer ao par-
Penal, que constitui o dicionário dos crimes e consigna
ticular, ahordando o assunto que nos moveu a compor
o receituário das penas. No rigor com que trata os
o presente trabalho.
crimes contra a propriedade e, por exemplo, na bran-
Para a defesa da superestTutura, bem assim de dura relativa aos delitos contra a honra, ou no esqueci-
algumas camadas privilegiadas da infra-estrutura social, mento do mal decorrente das sonegações de impostos, ou
o poder público estabelece normas, define os delitos e da inércia quanto ao que produz a erosão das terras
atribui a um ramo do Judiciário, - a Justiça Criminal
férteis, tTaz registrada a marca dos grupos dominantes.
- a tarefa de aplicá-las.
Dentro do mesmo exemplo pode-se ver que o Código
O objetivo básico da Justiça é o de selecionar o in- garante a navegação dos snbdeJinqüentes, ainda qne,
frator da legislação, sopesar-lhe a responsabilidade, me- atTavés da evasão dos tributos legais, êles pratiquem
dir o grau de sua periculosidade, puni-lo, reajustá-lo, um típico ato anti-social. Estão impedindo o pode.r pú-
devolvendo-o em seguida à coletividade para que seja blico de prestar henefícios necessários à coletividade e
um elemento útil no convívio social. É o essencial. locupletando-se ilicitamente em prejuízo do povo. Da
Pouco importam os intuitos subjetivos, que animam mesma forma, o indivíduo que não combate a erosão
as discussões acadêmicas, quando se procura indagar do solo está saqueando as gerações futuras.
se a pena constitui vingança, represália, castigo ou exem- O Código Penal de 1940 foi elaborado por alguns
plo. O illterêsse da sociedade é um só. É o de que o juristas, que nnncapassaram de teóricos, não propria-
delinqüente retome curado, para que cuide cOlTetamente mente desumanos, mas anti-humanos. O tBxto que pro-
de suas obrigações eomo a gen8m1idade dos cidadãos. duziram desconhece o homem e ignora a soeiedade.
Quaisquer que sejam, as teorias que procuram expli- Brutal e monstruoso, rasteja ao serviço dos poderosos,
caI' as razões da punição confluem sempre na questão que, afinal, não Jlediram e não precisavam de tanto.
do comportamento do criminoso desde o instante em que Pune o autOI' do desfalque, sem cogitar das cansas
termina o cumprimento da pena. que determinaram o crime. Finge não saber que o
36 ARRUDA CA1\IPQS A .TVf>.TIÇA A SERVIÇO DO CRIME 37

criminoso perdeu o dinheiro no jôgo, e o lJel'deu porque beber, n8m muito menos a faz81: um curso completo de
aprendeu a jogar na infância, apostando estampas nos mbtração do alheio.
álbuns de guloseimas, de cuja venda o govêrno tira A desonestidade dêsses homens é patente. Os ju-
proveitos; viciou-se depois no "jôgo do bicho", que sub- ristas da ditadura, que souberam prever penas k'io exa-
siste porque os banqueiros subornam as autoridades que geradas para certos crimes, também sabiam que não te-
deveriam prendê-los; acabou de desviar-se, pOl' fim, j 0- mos os estabelecimentos de regeneração que descreveram
gando nas corridas de cavalos, antros miseráveis que na Parte Geral. Fíxaram~ as sanções visando tão-somen-
gozam de proteção oficial e são considerados de utilidade te a segregação do elemento reputado mau, pelo maior
pública. tempo possível, para impedir que continuasse pertur-
Castiga o ladrão, sem ter em conta que, regra geral, bando a tranqüilidade coletiva, sem se importar com
êle é produto do meio em que foi abandonado, da miséria a pessoa do delinqüente, nem ainda com o interêsse da
desesperada em que arrasta a sua existêneia. Não toma sociedade que terá um dia de recebê-lo de volta. Um,
conhecimento das maltas de meninos desamparados, em que é acionista de estabelecünentos bancários, majorou
relação às quais o poder público nada faz; filhos de o castigo da apropriação indébita para defender o seu
sentenciados, de alcoólatras, de vagabundos, crianças sem banco; e outro, que é rico e tem jóias em casa, puniu
lar, sem brinquedos, esquálidas, esfaimadas, rôtas, bi- duramente o ladrão para resguardar as jóias de sua
chos que dormem nas ruas e que as autoridades, egolsti- mulher.
camen te, preferem simular que desconhecem. O Código não teve em consideração o elemento lm-
mano na paisagem social brasileira. Não levou em conta
O Código Penal não percebe que aqui o delinqüente
o desajustamento de nossos homens, que se desenvolve
tira o seu diploma nas escolas de crimes que o Estado
de uma forma diferente do que se passa na Escandinávia.
mantém. Passa por cima de todo êsse complexo e os-
Na Suécia, forma-se o cidadão, enquanto aqui temos
tensivo processo de desintegração do (!aráter dos in-
máquinas de entortar cTianças, de perverter jovens e
divíduos, das oportunidades que o Estado cria para que,
adultos. Aqui, deforma-se o homem. O Código, porém,
cedendo às tentações, o adolescente enverede pela senda
tratou-nos como se fôssemos uma nação do mais elevado
da criminal idade.
grau de cultura.
Foi elaborado na frieza dos gabinetes, sem que seus Por tudo isso, e mais coisas ainda, deve defender-se
autores sentissem o cálido arfar de um só sentimento o delinqüente dos rigores do CMigo Penal. Trata-se,
de humanidade. Obra gerada em regime de ditadura, afinal, de causal' o menor mal possível a um homem
surgiu, aberrante no seu rigor, divorciada da vida, so- \ que, condenado, vai seI' sacrificado. Tudo pOI'que
bretudo da vida dos brasileiros. Bom, talvez, pal'a lê meia dúzia de üJóricos, ele coração endurecido, enl-
í
Suécia, onde o Estado não ensina as crianças a :iogar, a

I
pafiados pelas suas culturas germanizadas, italianizadas
A JUSTIÇA A SERYIÇü 00 CHUrE 39
38 ARRUDA CA?IPOS

(lafnmecsadas, nioll essa estrutura desalmada, em que Pune-se a intenção de suhtrair o dinheiro, em ca-
um defendeu o seu banco, outTO as ;jóins da família, ráter prineipal. Quanto à "ida humana roubada, tem
enquanto o tereeiTo, por via das dúvidas, 1,810 art. 240, importância menor elo ([ue a carteira vazia.
tratou de pôr a salvo a própria mulher. Há mais.
A mulher abandonada que pretenda alimentos,
27. Bem longe poderíamos ir se fôssemos compa- mesmo os provisionais, para si e para seus filhos, deve
rar os critérios do legislador na estipulação das penas, ajuizar uma ação contTa seu marido. Arma-se um pro-
cominadas, por exemplo, aos delitos contra o patrimônio cesso litigioso, com depoimeutos pessoais, inquirição de
em relação aos crimes contra a honra. É vergonhosa testemunhas, vistorias, perícias, etc. Sujeito aos aza-
a insignificância destas, sobretndo diante do exagêro res das pautas, prolonga-se o feito, ou arrasta-se, na
daquelas, numa demonstração clara de que, para o Có- conformidade das regras do contraditório. E trata-se
digo Penal, a honra é o de menos, enquanto os valores de obter alimentos para que uma mulher e seus filhos
materiais são o essenciaL não pereçam!
Haja vista o caso do latrocínio, que o legislador Como se a Vida se sujeitasse aos mtigos dos códi-
incluiu entre os crimes contra cc proprieda,de, sem ter gos, meses se passam até que o assunto seja resolvido
sequer a preocupação de lhe dar n01nen juris: está de- ]}TOvisoriamente. Um credor qualquer, porém, munido
finido no parágrafo de um artigo que capitula o roubo. de uma promissória, ou ele uma letra de eâmbio, tem
Daí uma certa jurisprudência no sentido de que êsse meios de exigil' o pagamento do débito em vinte e qua-
delito não se inclui na esfera de competê.ncia de jul- tro horas.
gamento do Tribunal do Júri. É a eontrallTova de que à lei capitalista pouco se
O indivíduo mata para roubar a quantia de dez lhe dá o sofrimento da criatura humana, contanto que
mil cruzeIrOs. o patrimônio do indivíduo seja resguardado.
Pune-se a subtração dos dez mil cruzeiros, com a Inverte-se o velho provérbio.
majoração acessória decorrente da morte do paciente. Vão-se os dedos, mas fiquem os anéis.
O indivíduo mata para roubar a quantia de dez Contudo, nã.o é apenas essa feição, que exaspera o
cruzeIrOs. °
castigo dos que ameaçam Telógio e o quintal do le-
Pune-se a subtração dos dez cruzeiros, com a ma· gislador, que vicia e macula o Código Penal. Outras
joração acessória deconente da morte do paciente. falhas existem, que só não são corrigidas porque até
O indivíduo mata para roubar uma carteira, que aO'ora nenhum hom8m poderoso sentiu na earne os seus
supunha estar cheia de dinheiro. Vendo-a vazia, aban- efeitos.
b
É o caso da concessão do livramento con d"1810na1
dona-a sôhre o cadáyer da yitima. tão-somente para os eondenados 11 penas de reclusão
40 AURrDA CAMPOS 41

ou detenção snperi01'es a três anos, deixanclo, até êsse ensta. Não participa o povo, mm.ca participou, ele ne-
máximo, aberta a porta para a injustiça, pois fica im- nhum modo, do processo de escolha dos que devem jul-
possibilitado de obter o benefício todo o agente cuja gá-lo', As constituições aparecem e desaparecem, mas
condenação foi fixada abaixo dêsse limite. O condenado não interferem na indicação dos que devem ser nomea-
a cinco anos pode liv1'ar-se após dois anos e meio, en- dos ou promovidos. Daí o desenvolvimento da política
quanto o que teve a sua pena graduada em três deve pessoal nos tribunais, que os transformam em conven-
pagá-los integralmente, pois a lei, odiosamente, lhe 1'e- tilhos togados, diante dos quais o povo e os próprios jlÚ-
cusa o direito ao lil'Tamento. zes são totalmente impotentes. Daí, também, o fato já
Veja-se a imprescritibilidade da pena acessória (a1't. apontado por alguns escritores, de que, enquanto o Exe-
118), quando prescrevem as penas principais, e tome-se eutivo e o Legislativo reagem diante dos golpes de fôrça,
tento da inépcia dos que ignoram a regra elementar o Judiciário sempre se rende. Preocupadíssimo com
de que o acessório segue o principal. O acanhado ânl- vantagens para seus membros, aceita a iml)Qsição e se
hito da reabilitação (art. 119), que deveria ser muito ncumplicia aos vencedores, pois, mais apêgo têm certos
mais amplo e alcançar tôdas as conseqüências adminis- magistrados eminentes a seus cargos que aos princípios
trativas da pena; a questão do critério de reincidência que j1lI'aram defender.
para os crimes culposos e dolosos, a negativa do s'wl'sis A soberania do povo é uma simples palavra, desa-
ao reincidente que voltou a infringir a lei depois de companhada de sentido, diante da majestade colosso de
longos anos de separação entre um delito e outro; o
esquecimento da ameaça nos crimes de violêneia arl)i- 7. A tese da eleição dos magistrados, ou pelo menos de certos magis-
hária, com a preocupação apenas da violência física. , . trados, não constitui novidade, nem muito menos nenhuma heresia.
Se o povo indica o presidente da Repúblíca, nada impede que lhe caiba
Bem longe poderíamos ir. Contudo, o que ficou eleger pelo menos os presidentes dos tribunais, O mesmo princípio que levou
o legislador constitucional a determinar que- as cõrtes judiciárias reservem
assinalado é suficiente para nos livrar do prosseglli- um quinto de seus lugares a cidadãos alheios à carreira __ medida salutaríssí-
ma, que vai dando os melhores resultados __ pode ser invocado para justi-
Inento. ,Já é muito. ficativa da escolha dos presidentes dos tribunais pelo processo eletivo popular.
A má administração da Justiça decorre exatamente dessa falha. Pela
vontade dos juizes, o ideal será a justiça cara e demorada, Assim, os pos~
28. Falseado o conceito jurídico de crime, tudo o tuJantes desanimarão antes de ajuizar suas ações. Daí o prestígio crescente
do brocardo segundo o qual ê melhor um mau acôrdo do que uma ótima
mais tem base precária. Não se aperceberam os juízes demanda __ optimae lití mala pactio praeferenda,
É preciso que o povo, que sofre as conseqüências do péssimo regime ju-
ele (pIe estão a serviço, não da Justiça, mas de uma jus- diciário, eleja quem redima a Justiça de suas falhas, ponha escrivães apro~
veitadores na cadeia, numa palavra, faça o que os juizes não se mostram
tiça de classe, de preconceitos, de inteTêsses vulgares. CZlpazes de fazer,
Os próprios magistrados, que vão enquadrar os fatos O eleitorado brasileiro está em condições de atuar na formação do Poder
Judiciário, pela simples razão de que quem pode o mais pode o menos, Quem
à lei, são recrutados de modo vicioso. Embora a Cons- elege o preSidente da República pode escolher o presidente do Supremo Tri-
bunal Federal.
tituição declare que todo o pode?' emana do povo e em Fora d.GÍ será preconceito.
Será a indébita tutela do povo, muito do agrado dos oniscientes que
seu, norne é ca;ercido, o poder dos jnízes emana de nma sabem o que interessa e o que não interessa à coletividade.

I
f!
42 A ,rrSTI\,A A sEln'rQo 1)0 ('RBfE

pes de barro. 0 eleitorado, que clege 0 CongressG e 0 E as histol'ias de quod1'inhos, de urn poder detel'ioran-
Presidente ela RCPllblica, naG tern 0 pocler de afastal' te espantoso, que as autoridades snpcriol'es eonscnt0111
urll simples jniz rclapso do exel'cieio clas fUJ1(;oes, para eontaminem a infilncia ~
as qnais, a revelia da coletividade, foi cscolhido. Nao ha necessidade de alongamento de exemplos.
Nao c de se admiral', diante disso, que a Justiga cada Diga-se arenas que os magistrados proenram se eOIll-
vez mais se apl'oxime do poder e se afastc do povo. E, pensar e tranqiiilizam a propria consciencia, iludindo-
se os grnpos dominantes a qnercm dessa forma, e po1'- -se a 8i proprios. Dai 0 rigor com que agem nos hailes,
que assim cIa lhes couvcm. Maleavel, amoldavel, quase teatros e cinemas, impedindo a entrada de menores,
como 0 liquido que toma a forma do vaso que 0 abriga. ainda que aeompanhados de seus genitores.
Em voz de protetores de imatm'os sao J uizes de
29. Os Juizados de Menores, l'egra geral, sao inc'
ficientes e inoperantes.
Nos grandes centros transformam-se em Jufzos de
ilfaiores.
I a((1'nav(tZ.
30. No fnndo os juizes tem lIma vaga idcia da
injusti\;a cle sua jnstiga. A. falsidade da lei penal pro-
Limital11-se a consentir que a Policia prenda os me- duziu a meeaniza<;ao de sua aplicagao. Geron 0 processo
nores infratores, para que nao continuem a dar tra- pnramente formal, frio, imovel, do qual nao se des-
halho aos delegados, a servir a indllstria e 0 com6rcio, prende a manor centelha de humaniclade.
fornecendo-lhes autorizagoes especiais de trahalho a Entre Pedro e Paulo ha a mesma dife1'el1<;a que
menOTes - a criar]()as que ficarao il111tilizadas, pela entre 4 e 5, aincla que 0 Pedro soja Pedro 0, entre 4
impossibilidade de levar adiante os estudos na epoca e 5, modeie um ano de prisao.
apropriada. A jnstificativa da pella - vinganga, castigo, ensejo
Os menoTes pOT ai se COITompem como se seus jui- de recupc1'agao - nao e levada em conta. Pune-se,
zes nao existissem. Mocinhas, 110 proprio scni<;;o, nos quase sempre, porque a lei ilssim 0 determina. 0 resto
halcoes, sao encantadas pOl' individuos de escassos eS- ponco importa. Tanto que os jnizes tem medo de olha1'
CI'llpulos. Sao seduzidas, sao prostituidas, sem que os resultados de sua oh1'a e de eontemplar os destroQos
providencias de amparo sejam tmuadas. Quanto aos humanos que, E'nquanto aVal1<;a111, vao ficando atras.
rapazes, perdem-se nas mas companhias e em numero o wlto das teorias legais, tao do agrado dos ma-
elevadissimo enveredam pela senda da criminalidade. gistrados, posto nan passe de eita~oes supeTiiciais,
o jogo e franco. J oga-se ate atrav8s de gulosei- no fundo constitni 0 desabafo de. 11111 sentimcnto de
mas destinadas a infancia, pOl' meio das chamadas ba- culpa. Bnsca-se, nao a verdacleil'a ,jnstiQa, que 8011s01a
\
lers figuTinhas, que 0 governo federal, inconscientemen- o cora gao, mas 0 brilho de 11ma sentenga que pnvaideee
te, alltoriza sejam fabricadas e vendidas a cnaIH,as.
! o espirito fMil de sen pl'Olator.
. ~

1
AfmUDA CAMPOS I! A J"cR'fI!';A A SETIVH':;O DO CRnfB 45

0, llIngistl'arlos «(11(' mais Sf' destnenm pelo rnnso 1)810 C6digo Penal a imoralidmle do ato, que cons-
]lurea e contamina todo 0 Direito, nao tem nenhuma
Jl1an de sua ori(mtagao, igrejeiros, pnritanos, melifluos I,,
on inquisitoriais, sao os que mais se dedicam a c0111pi- significagao.
la<;ao de antores nucionuis e estrungeiros. Empetecu111 Nos E. U. A., pOT cxemplo, onde a posigao do in-
a maldacle em qne se cOll1praz('m,eitanclo acordaos. Men- di vidno diante dos agcntes do Poder Publico e inver-
cionanc1o frases de mll Iatim, que, regTa geral, nao en- sa, heneficiando-se os cidadaos, ate prova em eontrario,
tcndem, on muis freqiicntemente, os italianos, os fl'an- cla presul1gao de icloneidade, 0 perjurio e 11m dOB de-
eese,s, os espanhois, que nada sabem da realidade bl'a- litos mais graves. As antoridades llol'te-americanas
sileira, mas sel'vem aos pI'opositos desalmados desses sao inexoraveis na perseguigao clos que falseiam suas
qne, julgando 0 proximo, tratam preci"puamcnte da de- afirmag6es, porque esse crime poe em perigo toda a
fesa de seus pToprios interesses. estrutura da justiga, que se haseia no prcssuposto de
honcstidade de toda l)essoa humana. Tanto que, no elvel,
POl' isso e que as referencias eruditas, tao do agrado
sentengas sao proferidas, mesmo a revelia clos TeUS,
dos jnizes bl'asileiros, f'nfeitam a maioria clas suas de-
bastando para iS50 que 0 advogado do autor afirme
cis6es. Sao desculpas, conscientcmente jl1stas, para nma
sob juramento que pessoalmente eiton 0 reqnerido para
injllsti"a as vezcs inconsciente.
a ai,iao.
31. Em eonseqiiencia do principio - que consti- I)' .,i Basta uma palavra e cria-se uma certeza - ell-
tni quase lUna caractel'istica dos povos latinos - se- qua11to entre 110S exige-se a fii publica de um oficial de
gundo 0 qual os h0111ens devem prOya1' sua idoueidade ¥ justiga, que, muitas vezes, entra em conluio com a paTte
antes de merecerem credi to, temos entre nos a consa- contraria, deixa-se Bubornal' - e, principalm8nte, Ja-
mais sofre as conseqiiencias de seus crimes.
gra<;ao do peTjurio. 1
A testemunha falsa, como 0 perito falso, 0 tradu-
32. 0 fato criminoso e sUTpreendido pela autori-
tor on interprete, que minta, ou cale a vCl'dade, cons-
cientemente, ate mediante suborno, tem direito a 1'e-
I clade como um fenomeno isolado, inteiramente clissociado
clo l'cspectivo mcio. E como a ehuva trovical, que num
trata~ao, qne eqllivale a mn bill de impunidade
instante se forma, desaba e depois d(esaparece, sem qne
os hom8ns tenham meios de cvita-ln.
a tato cleixa (Ie ser punivel, se, antes cla sen-
tenga, 0 agente se j"etnda, alL declam a verilade Nao entTa nas eogita~6es cloB que decidem s6bre as
(Cocl. Penal, art. 341, § 3:). a~6es alheias a realiza0aO de um habalho de avaliagao

\ clas responsahilidades do meio soeial no aparecimento


o legisladol' pune apenas as conseqiiencia.s da fal- I da delinqiiencia. N em, alias, adiallta Jemhrar-se alguem
sidacle, 11ao a falsidacle em si meSIno considel'ac1a. desse fato, se as cOllseqiiencias de uma tal h'mbranga nau
J
~
~
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ARRUDA 0A;\IPOS A JrSnçA A SImVrçO DO CRI:ME

podem influir eficazmente na solução do caso. A .Justiça mal'ia é mal aparelhada, se não tem recursos, nCIll por
ignora até me,mo as modernas conquistas da psiquia- isso a pessoa fica ahandonada. Há sempre o médico
tria, talvez (numa interpretação benigna), porque não caI'idoso que desce ao salão humilde e vai tomar, pelo
haja psiquiatras em número suficiente para atendê-la. menos, a temperatura de seu cliente. Para que êsse
O indivíduo acusado é apenas um réu, não uma cl'iatUl'll, gesto de confõrto e solidariedade substitua o remédio
não um indivíduo, em grande parte produto do am- que não existe.
hiente em que VIve. Os médicos olham atrás l' quase todos se orgulham
elo que fizeram.
33. :PJste trabalho seria apenas de ostentação se
não insistisse, se não ferisse, para provocar reação. É 34. O art. 261 do Código de Processo Penal, dis-
preciso que se proclame qne a .J ustiça Penal brasileira põe que nenhum acusado, ainda que ausente ou foragi-
tem mêdo de olhar as conseqüêneias de sua atuação. do, será processado ou julgado sem defensor.
Pode-se compará-la à medicina, porque, em ambos É a regra, que decorre do texto constitucional:
os casos, o objetivo é a Cllra do doente.
É então como, num hospita.l, se os médicos se reu- "É assegurada aos acusados plena defesa, com
nissem paTa diagnóstico de uma determinada enfermi- todos os meios e recursos essenciais a ela, des-
dade. fj como se discutisselll long'amente sõbre o mal, de a nota de culpa, que, assinada pela autori-
em função do paeiente e de seus antecedentes, do local dade competente, com os nomes do acusador e
onde contraiu a doença e das circunstâncias que deter- das testemunhas, será entregue ao prêso den-
minaram a eontaminação. É C01110 se chegassem por fim tTo de 24 horas". - (Al't. 141, § 25).
a uma conclusão definitiva, irremovível, ou coisa julgada,
que faz do prêto branco e de uma pedra um pedaço de Por sua vez o art. 263 do Código de PTOcesso Pe-
madeira. E, uma ,-ez atingido êsse resultado, é como se nal declara que "se o acusado não o tiver, ser-lhe-á no-
os médieos 8nviassern o dO<'llte à enfel'luaria e abando- meado defensor pelo juiz, Tessalvado o direito de, a
IT assem o caso. todo tempo, n0111ea1' outro de sua confiança, ou a SI
A ,Justiça aleança o diagnóstieo final e manda o mesmo defender-se, caso tenha habilitação".
réu para o lazareto. Daí por diante, para ela, acabou-se Por denadeiro, o art. 265 do mesmo diploma es-
o pl'ohlema. Não quer saher se o tratamento dispensado tabelece mais que o defensor não poderá abandonar o
é celto, se, o doente está melhorando ou piorando. se ])7'oce880 senão por rnotivo irnpel'io8o, a critério do ju,iz,
êIr está OH não contaminando os demais. sob pena de 1nulta . ..
Nos hospih1is verdadeiros é difeI'ente. Os doentes A realidade, porém, sobretudo nos grandes centros
são homens, não simplesmente números. Se a 8nfer- urbanos, é muito outra.
48 ARRUDA CA}iIPOS A Jl7STIÇA A SERVIÇO DO cnBIE

o rico, ou mesmo o hOlJlem de recnrsos financeiros abandonada, OH dc' filho de mn senhmciarlo, que erescl?n
normais, que é chamado a prestar contas à Justiça, no lén, em malta de meninos vagalmndos 'lue a família
sempre tem meios de consultar previamente um advo- te o l~stado não ampararam; se do autor ele um desfalque,
gado, de modo a ajustar suas declarações à versão que não pesquisa se o acusado não se viciou no jôgo, mesmo
o profissional vai sustentar nos seus arrazoados. naquele estimulado pelo Estado; se de uma prostituta,
Quanto ao pobre, êsse há de aceitar o dativo, no- não quer saber se a Fazenda Pública não cobrava dela
meado na hora, com o qual não troca palayra e de \uu tributo pela "casa de pensão". O inquérito desco-

quem não recebe nenhuma orientação. nhece o organismo social, como o Código Penal desco-
Nas metrópoles populosas a .Justiça contenta-se nhece o homem. Há por assim dizer um mecanismo
eOlll a defesa f01'nwl do acusado: basta que tenha sido
psicológico que se repete. O Delegado de Polícia qner
nomeado um advogado, basta que o advogado haja assi- a condenação do indiciado para se livrar ele novos ha-
nado os têrmos legais, paTa que a exigência constitn- Imlhos, para se compensar do esfôrço qne o 1)rOC8SSo lhe
elonal seja considerada satisfeita. exige, para provar a seus superiores a sua eficiência.
Desoansa nessa hostilidade, que o faz esquecer de que
Nos corredores dos Palác~os da ,Justiça é comum
não está levando em consideração o outro crime maior,
assistir-se ao espetáculo de escTivães (; escreventes pe-
]>raticado pela sociedade. Daí. a espantosa freqüência
dindo a causídicos que assinem depoimentos de teste-
l11lU1has, ou interrogatórios já consumados, de juízes com que o Judiciário 1'811818 as conclusões dos inquéritos,
que fazem nomeações retroativas, para homologação de ,]nando não acontece, pela prova dos alibis, de apurar
falhas insanáveis e de trilmllais qne se conformam com que "confissões" foram obtidas por meios fraudulentos,
clefesas puramente nominais, quando não ineptas, tElO- não raro pela própria violência física.
-somente porque a regra da Carta :l\Iagna foi teorica-
mente atendida. 36. O inqnéI'ito policial é uma peça indiciária, que
aponta Ulll crime (; um criminoso. Parte do pressuposto
35. Há também o êno de fato, que decorre elo de que a responsabilidade é exclusiva do delinqüente.
def(>ito do sistema de captllm elo conhecimento. Daí não se exigir UIna busca minuciosa dos antecedentes,
c\üompanhemos de novo nm caso, desde que êle che- para dar ao julgador os meios necessários à imposição
ga aos ol1Yidos dc) alltorirlacle policial. Em vez de apu- ele uma penalidad(' .insta. Parte do erime, quando deYÍa
rar a verdade, o delegado se limita a nmnir elementos eomeçar elas cansas do crime. É como o médico que
qlle são proximamente contrários à 1108ição do indicirtclo, atalhasse a fehre sem procurar indagar das causas ela
desprezando os antecedentes remotos, qne possivelmente fehl'p. O pior é que as tC'sten1llnhas e as próprias
der[tll1 eansa à ação. Se, por exeluplo, o caso é o de partps, colocadBs rw1a primeira vez diante de agentes do
lnll ladrão, não cogita sabpl: se se trata de uma criança poder público, deixam-se muitas vêzes amedronta]', omi-
;:;0 .\RRGDA CA:\IPOS
.-\ .n~STIÇ'.\ A RERVIÇO DO CRum Si

Hl1é1óclucxagel'nndo filto's,(;\n'següiéla fixados nas 1'88- razão de qlle só l)odem ser observados pelos euriosos
peetivns declarações, üando ao caso mna versão divm'sa - que, llOr serem curiosos, são cOIlsiderados 111'0'1'0-
da real. cadoTes.
~4.té hoje, não se deu a impmtância devida a êsse Entre nós, mun retôrno à perseguição do pecado,
primeiro contacto, que vai servil' de alicerce a todo o nossa ineficiente Polícia, que não consegue defender a
processo criminal. Certos fatos são levados a ;julgam8n- população, vai além da caça aos pa1'es amorosos (como
to, até a última illstância, em versões deturpadas, tão- se fôsse possível impedir o acasalamento elas criaturas
-somente porque a peça inicial foi movimentada por humanas!) e invade os lugares mais discretos, inclu-
investigador, por comissário, p01' esc1'ivão, por um d("le- sive hotéis, vexando os que lá se encontram. E quase
gado, ou mesmo por uma vítima que não soube ou não sempI'e extorquindo dinheiro de porteiros, ou de seus
quis agi1' com perfeita honestidade. proprietários - e'llt nome da lei.
Os psiquiatras eonhecem casos 1'ese1'vados de sedu-
38. Vale citar, como simples sugestão o episódio
ção eUI que as ofendidas, na defesa do próprio pudor,
relatado por H .•I. Laski, a que êle assistiu na União
inventam histórias as n,ais variadas para justificativa
Soviética:
de sua aquiescência. São necessárias longas, TeiteTadao
e insistentes entrevistas, até que se obtenha uma coneln- "Onvi um p1'ocesso no qual se julgava uma
são que se supõe seja a verdadeira. Entretanto, quando \ mulher, nmdedol'a de uma 1iv1'aria, por haver
uma jovem se vê descoberta, é ouvida snmàriammlte TIOI' furtado desta 170 1'ubl08. Era uma mulher de
11m indivíduo que mais se delícia com a obtenção de 40 anos de idade e se tratava de seu segnndo
pOl'InCnOl'es do ato sexnal elo que 8011] o intuito ele in-
vestigar a existiineia de um delito. E suas declarações
!
! '
delito. Foi interrogada primeiro pelo jniz p1'O-
fiS8iona1 e a l'ispidez das suas p8Tguntas fêz a
passam a servir de base ao processo. Té cair em chôl'o. Quando terminou o interro-
gatório, passou a acusada a um dos juízes lei-
37. Na Inglaterra uma lei do século XIV con- gos, llllla operarIa. Com uma ternura snave,
sidera em estado ele legítima defesa o indivíduo que é impossível de se descrever, logrou que a pro-
importunado pela curiosidade alheia. Pune-se quem es- cessada t'efcrisse tôda a sua história. Ganhava
pia indiscretamente, porque êsse gesto justifica a rea- 90 rnhlos por mês; tinha o marido inutilizado
ção do ofendido, cTÍando ensejo para uma possível per- na guerra e quatro filhos pequenos; não havia
turbação da ordem l)ública. freqüentado nenhuma e8('01a notnrna; nada se
Em cOllseqüência, quem passe à noite pelo Hyde fazia para aliviar-lhe a carga de seus filho:;.
Pal'k, verá casais praticando intimidades, que não cons- Tinha dívidas e se havia deixado arrastar por
tituem .objeto de atenção especial de ninguém pela lmm tenüll;iio repentina. Pelo telefone solleÍ-
52 ARRUDA CA"lI:IPOS
53
A JrSTlçA A SERVIço DO cnBIE

tem-se o auxílio de um n'p1'Gsenttmtc sindica- Vinculam os cnsos a resolver lê tôdas as


lista e de um membro ela eomissão diretora da condições econômicas que podem descobrir. E
casa de apartamentos em que vivia a 1)1'oce8- no caso que acaho de narrar nada se teTÍa
sada. Fomm tomadas as providências neces- O'anho enviando a ré a 11m presídio; e muito
b
sárias para que ela pudesse tomar aulas de ponco se fôsse colocada em liberdade depois de
datilografia e taquigrafia, enquanto seus filhos um período de prova. O que se fêz deu-lhe
visitavam os vizinhos e alguém cuidava de seu oportunidade de um desenvolvimento pessoal
espôso durante tTês noites 1'01' semana. Foi- que lhe fortaleceu o auto-respeito; e isto se
-lhe dito que devolvesse dez rublos por mês realizou com um mínimo de máquinas adminis-
enquanto ganhasse o seu salário atual; e quan- trativas, como parte da expressão natural de
do seus novos conhecimentos lhe 11el'lnitissem 11m ambiente ao qual os juízes pertenciam tanto
obter um aumento, pagaria quinze ruhlos por , . l)l'ocessad a "..
quanto a propna
mês. Ao sair do tribunal a mulher era mna
pessoa transformada; evidentemente, pela pri- 39. Um ensaio, que causou tremendo efeito ao
meira vez, em muitos anos, a esperança havia desenvolvimento do sistema ]Jenitenciário brasileiro vul-
entmdo em sua vida. Mas, ainda mais notável garizou uma expressão fascinante: - Sua Excelência,
foi o que ocorreu depois de haver se retirado o Réu. Partindo de pressuposto errado, seu autor, jogou
a ré. A mulher-juiz dirigiu-se ao seu colega com a comparação entTe o tratamento dispensado ao
profissional e o repreendeu pelos modos que réu e à vítima e tirou falsas conclusões. Deu fôrças
havia manifestado; ao réu deve compreender-se, aos displicentes, aos ignorantes e aos relapsos, que sa-
ajudar-se, não atacar-se. Se, em outra ocasião, colejam os ombros, e, como uma tábua de salvação, re-
OCOl'l'esse uma bl'1üalidade semelhante, disse, ela petem o título da monografia. Se as vítimas não obtêm
levaria o caso ao "soviet" local, porque tal reparação, por que tantos cuidados C011'l os réus ~
atitude era incompatível eom os hábitos da O mal que ê.sse trabalho cansou ao Brasil é espan-
Justiça". toso. PaTece que juízes e tTibunais não queriam outra
coisa senão alguém que lhes empl'estasse fôrças para
E adiante:
desenvolvimento de sua mazelas.
"Creio que 6 importante que os juízes se Ora, a situação do réu é uma e a da vítima é outra
con8idel'cm obl'Ígados a realizar uma tm'efa inteiramente diferente. Pouco importa que a vítima
de saneamento sodal. JDles resolvem prohle- seja quase 88m1)]'(\ ahandonada. É abandonada }Jor culpa
mas de desequilíbrio soeial, não somente apli-

l
cam penas. 8. Laski," El Peligro de Ser: Gentleman y Ofros Ensaios" -- Buenos Aires
s/d ~ págs. 84/85.
ARRT1DA. {\\~\IPOS .\ ,lTsnç,'A A SERVIÇO DO CRL\1E 55

do Estado, não da Jnstiçü. Aos magistrados não COlll- 41. COll1mnente acontece que o criminoso continua
pelA ndar pelas vítimas, senão apenas julgar os dc- em libl'nlmlr após a prática do delito. Corre o ln'oeesso
linqüentes, da mesma fOI'ma como ao médico não cabe lentamente, vagarosamente, porque niio há possibilidade
tratar da pessoa que levou o doente no hospital, mas de qne srja decidido depressa. O réu se arrepende e
tão· somente do enfêrmo. toma rumo na vida. Regenera-se, entTega-se ao trahalho
Se o Estado não se incomoda com as vítimas, êsse honrado, assumo COllll)l'omissos, constrói até o seu lar.
fato não deve agmvar a situação dos réus. Aos juízes, Quatro anos clel'0ís, l1nm tribunal, trava-se uma grave
está reservada a tarefa de médico, a quem os acom- disC118são sóbl'e a arqnitetnra interna de um certo órgão
panhantes não interessam, pois não sã,o doentes. feminino. Tratadistas insigl1es são mencionados. Exal-
tam-se os ;julgndol'cs, muna disputa acirrada, como se
Pugnemos pC'las vítimas, que pagam pelo que não
estivessenl decidindo SÓbl'B UI11 dogma de fé. Surgem os
fizeram. 1<J um dever sonial. Mas, pugnemos tamhém
dell0imentos e as recordações pessoais. Os textos legais
pelos réns, (jue, se pagam pelo que fizeram, em com-
são esmiuçados, com citações de Manzini, Sabbatini, Del
pensação ao seu lado têm eriatmas qne sofrem sem nada
V E'cchio. Bnsea-se, através das interJ)retações, autêntica,
ter feito. É uma ohrigação legal.
analógica, gramatical, autoritáTÍa e lógica, busca-se uma
solução. Naquele instante, dir-se-á que a segurança da
40. A Justiça brasileira não interessa o homem, sociedade depende de n111 pedaço de mucosa, sem qualí-
:iá ficou dito. )\ .Jnstiça não interessa a .Justiça, .iá, ficatiyos, qne há quatro anos, segundo opinião de um
ficou assinalado.
médico recém-formado do interior, tanto podia ser com-
Então - pode perg'lmtm'-se - (lHe afinal a in- placente como iudifenmte. E de repente, pelo voto de
teressa '? Minel'va, que às vêzes é aplicado contra o réu, a con-
}, .Jnsti,a, do modo por que funciona, interessa tão- denação desaba sóbrc a caher:a de um ehefe de família,
-somente o asp.ecto fOTTnal dos casos que lhe são sub- arrastando-o à prisão.
metidos a ;julgamento. Cultna 11 exterioridade, não a ]~ o médico que, \'cl'ificando que o doente sarou,
('ssêneia. Assim, sendo o réu um nome, não uma pessoa ainda () l'(·meie à mesa de operações.
qll8 vive, palpita, anseia e chora, pouco se lhe in~porta
(pie S(;ll procedin10nto seja. .justo.
42. A ,Tustiça hrasileira não lida com homens. Daí
Há aqni mais nma lamentável deformação. () fato de que llw ó indiferente a sorte do sentenciado.
.Justiça teu'da niio é jnstiça. .Tnstiça que passa da O homem pode ter mudado, SCl' outro, sem comparação
pessoa do deli1]{[üpntr' é injustiça. A ,Jnstiça, para qU8 ('0111 o qne existia nlí. ocasião do crime. Seu nome, po-
JnüTeça. fSS(I nOl1H', há de ser l1W 19l'ndo a :nee(,~RáJ'lR re- rém, é o mesmo. O nome se agrega ao indivíduo 8 se
dllmlância -- lllna .insti(~n ;insta.

i
confunde com a sua personalidade. Não há necessidade
.\ J CSTll.:A ,\ sImVi~O ho cfiDrl<:
56

de se perde]' tempo pm IJ8squisas visando mn resultaclo quc se viciarmn nit· soeiedade e absOl'VCrml1 sens clefeitos
que coincida com 0 desejo real da sociedade. Nao ha pntendem qne e preciso esmagar 0 criminoso.
necessidade, nem ao menos de se inclagar qual seja 0 ob- o juri tern defeitos, mas e um orgao que impede,
jetivo da pena. N esse instante ficam de lado os teoricos no sell setol', a COl1snma<;ao de inumeras e inuteis vio-
que snstel1tam que a pena visa a regeneragao, ou 0 casti- lencias. Mil vezes a absolviQao injusta do que a C011-
go, au mesmo a vinganga. .Ja pode tel' hRVido a vinganga, dena<;ao, I)OI'ventura jnsta, que vai agravar 0 prohlema
ahaves de nll1 ontro crime; ja pode tel' havido 0 castigo, da deli11qiiencia.
atraves de atos positiyo.'i, denotando a plena e acabada Se eada povo tem 0 governo que mere.ee, assim
reforll1a do individuo. bmbem as pequenas comunidades tem 0 juri de que
Qnatro on cinco anos depois do fato, conforme as podem dispor, cujos membros tambiim sofTem as san-
circnl1stancias, expede-se lUn mandado de prisao, no qual <;088 de seus pares e reagem de acordo com 0 amhiente
vai lallgado um nome. A pessoa, que leva esse nome, 8m qne vivem, (londe Ulll equilibrio relativo em suas

e recolhida ao xadrez. A ,Jnstiga, agora se resume na 11<;oes.


eliminagao de 11111 chefe de familia, na desagregaQao de Aos que pretendem 11 eliminaQiio do Trihunal Po-
Hln lar, na pTOstitui<;ao de uma esposa e no abandono de lmlar pode perguntar-se: para suhstitui-lo pOl' magis-
11111as crian<las que vao ser ama11ha delinqtientes. tTados insensivcis, calejados no oficio ~

43, Apesar do que dele dizem seus inimigos, 0 44. N 11 prescngao 0 Estado rennncia ao seu di-
jlui tem as suas vantagens. Sel'ia 8xcessivamente be- reito de 111mir. Considera a a<;ao do tempo e entende
nel'olente. RegTa gera\ POrel1l, os que mais 0 criticam que ela apaga a memoria do delito. Concorda em que
sao os maiorE's facinoras da legalidade. Sao supostos a sua inercia permitiu que 11 situa<;ao se lllodificasse e,
pntendidos, que, ate agoTa, nao compre.enderam que a ao dar 0 dcEto pOl' p1'eserito, liberta, em definitivo, 0
sociedade nao quer apenas ])unir, s8nao 1'ecupe1'a1' 0 agenh> do crime da sua obrigaQao de resgata-lo. 0
t1'ansviado para que ele nao 1'eincida. Que adianta a instituto da prescTigao marca 0 fim. Dali, a persegui-
prisao, se nao produz 0 resultado da 1'egeneragao? ~ao, que come<;ou no instante em que 0 delinqiiente foi
Os hom8ns simples do POl'O sentem essa 1'ealidad .. condenado, nao pode passaro E 0 que se pode chamaI'
que os dOlltoI'(,S ignoram. E pOT iSBO que 0 juri da de ponto final, em oposi<;ao ao ato que constitnin 0 ponto
ro<;a f1'C(ltientemenie se eomove e os das capitais, ile- d(, partida.
galmentp seleeionados, nas mais das vezes sao incle- Ao legisladol' cahe fixal' 0 derracleiro marco. Tanto
mentes. Os jurados, que julgam 0 bto com hom sen so, pode distende-lo, como pode 1'8cua-10, ])01'que a He com·
csUtO fartos de conh8881' a ineficacia dessa jnstiga que pete 0 julgamcnto da convenicncia da maior 011 mellor
ahandona 0 eondenado e ate 0 IWTverte. SOl1wnte os I distancia entre os dois pontos.

I
Ha llma fallm llil 10gislil~ao penal que podemos o delito nac> estiwsse sepm'ado da sel1ten~a conclenatoria
avontnr eorno SPIHlo a (Jue na,o cs(alona. a presel'iQ.ao; 1)('10 flnxo de ,{lrios 'lJ1OS. A pelm C calenlada corno so
de modo a estaheleeer preserigoes Ilflrci'lis nu progressi- pOl'vcntura 0 uilne honvesse siela perpetraclo meses antes
vas. fie 0 impnlso - direito de plmir - vai se perder, e ainda pCTdnrasse na sociHlncle 0 clamor qne a sna
inclusiYc porqne, enquanto 0 tempo £lui, ha a presnn~ao execu<;ao provoco11.
de que 0 criminoso se eOITigill vivcndo dentro da propria \ U III assnnto dessa onlem, nao deve seT enhegue ao
soeiedade, e logico qne. esse fatol importantissimo deve
! ]lllrO arbitrio do jnlgador. A lei cabe a fixagao dos
ser leva do em conta na gradua\'ao da pena para que !
I
limites e 0 estabelecimento de IJrescri~5es l'arciais on
ela possa l'calmente preencher sens objetivos. jlrogressivas. Assim, de 11ma forma segnra, 0 Codigo
.Nos paises onde 0 tra balho dc, captnra e mal or· Pena I tera iucorporado no sistema ela individnalizagao
da penn 0 principio salutar da pr8scri<;ao progressiva,
ganizado, a IJrCscrigao SOb1'8Vem freqilentemente, ou pOT-
forgan do 0 magistrado a considerar, no instante em qne
qne 0 agente do delito procnmu-a deliberadamente, 8n-
vai exercitar a persecuJio criminis, a prova de readap-
hornando por amizade ou pOl' dinheiro os que deviam
ta,ao qne clecor1'e necessariam811te semp1'e 'Inc 0 delin-
JJI'ende-lo, OU 8m conseqiiencia dos proprios defeitos do
qiient.e nao reincidin e yiven llo)'malmente 11a sociedade
sistema repressivo. Contudo, h,l individuos que sao durante nJJ1 cletel'mina,lo lapso de tempo.
condenados quase no fim do lap80 em que perdura 0
direito de pnnir, e entao, .iiI readaptados, com a vida
I
orientada Ilnm hom sentido, sao Sllbitamente arraneados
de sen meio, sem qne ninguem leve em conta que du-
I
rante todo aquele per-indo cHes viveram honradamcnte,
d,mdo mna prova de que, sozinhos e espontaneamente,
reconheceram sna falta e t.rataram de imlledir qne eia
S(' repetisse.

A individuaIiza,ao da penn nclmite em parte a cor-


1'8,aO dessa faUm. .Mas, 0 que se yi" csta longe de
sat.isfazer os que tem sedo de .illstiga. A proporgao
que se pereebe a aproximiv;ao do mareo prescricional
intensHica-se 0 anrlmnento do processo para que 0 li-
mite nao sc.ia alcan~ado. J!J 0 medo dos agontes da Jus-
ti~a de serem chamados a respol1sahiliclade. Entao,
(lUanclo 0 ohjetiyo C atingiclo, it lei e ap1ieacla eomo se
I
I
f
A .n~STT~A A SERYlr;O DO Duum 01

lllPiros eolonizadmes, TiVPJ1loS alguns enforcamcntos,


l'uiclosos esqnal'tejamcntos, fuzilamcntos e ate degl'edo.
COlltndo, talvl'z pOl' causa da falta de pesquisas so-
bre 0 assnnto, parece certo que no BTasi1-colonia millea
CAPITULO IV se passon elo agoite e ela transportagao para as colonias
militares. Celebres fOTaIll 0 presidio de Fernando ell'
A PENA PERVERTE
Noronha, no norte, e as colOnias ell' Itapura e Ignatemi,
na zona 8nl, fnnelaelas estas liltimas inclusive com 0
45. Variam as penas como variaram os delitos objetivo ell' fon;ar a penetragao e 0 dominio das areas
atraves dos tempos. A morte foi imposta sob moelali- ocupaelas pe10s jesuitas espanhois.
dades hizarras e crueis: pelo fogo, nas forna1has ou A cadeia plibliea teve n80 generalizado entre nos,
em praga publica, em piedosos antos-de-fe para os he- porque n0880 desenvo1vimento e contemporaneo da
reges; pelo afogamcnto, para os parricidas; pe1a 1api- sua expansiio em Portugal. Mas, dcsde 0 come<)o, 0
dagao, pam os aeltilteros e traidOTcs; pela erncifica<)ao, carcere foi mnaldi~oado, como se ve elo velho e probo
pelo esquartejamento, ate pelo enterramento, como acon- I Pereira e Souza: "Pois que 0 objeto da prisao e a
tee-ia com as vestais. A morte ehegava as vezes el1ll1lcio segul'an<;a do Reo, nao deve a sna detengao na cadeia ser
de festus, como nm espetacu1o, quando, no ultimo ato, I nma contilluagao de angustias, cnja ideia l'epngna tanto
o condenaclo era atirado as feras. Havia a forca, 0
barago, 0 cutelo, a Toda, 0 emprego do azeite ferventc.
As lllutilagoes, 0 cegarncnto, a amputaQao, a mal'cagao
I a hllmanidade como a J ustiga".
Eis ai, como a prisao eel \lIar e recente. E hasta,
Hesse sentido, nma leitura do livro quinto das Ol'elena-
com ferro Plll brasa. As ga1eras, cheias de homens, os
<;oes do Reino, 1mra que se veja como a detengao indi-
homens que sirgavam as E'mbarcagoes rios acima, os vidual constitnia efetivamcnte uma excegiio, que acabou
degl'edados, os conelenados a trabalhos forgados, os de-
sonrados pOl' varias geTa<;oes. 0 pelollrinho. I transfoTll1acla na base da quase totalielade dos sistemas
peni tenciarios.
S6 l'ecentemente aparecpu 0 carcere, ~~ prisao car-
cerarin (: antiga, mas sempre excepcional; recente, mo-
derna, (: a ma YllJgarizagiio, 0 sen alaTgamento pela
I 46. Senten"a cla A1gada, proferida no Rio de J a-
!Hmo, a 18 de a hril ele 1792:
Europa, pOT volta do 8eculo XVIII, ao ponto de snhs-
titllir a o'eneralidade das ontras l)e11as.
"
No Brasil nao temos uma verdadeira tradigao no
I "PORTANTO, condemnam ao reo.J oaquim
J os6 da Silva Xavier, pOl' alcllnha 0 Tiraclentes,
'l1Ie cliz l'Pspeito a aplicagao de penns. Cabral deixon
alfcl'cs qne foi cla tropa paga dn capitania de
Minas, a que com bara"o e pregiio 5e,ja COll-

I
dois degl'edados, CIIl<' fiearam 11a llistoria eOl1lO os pri-
,,-
'" .\RRUDA CA::\lPOS A ;Jnrl'l{.'.\ A SERVIc,'O DO enDJE

rln7,ido pelas nws publieas no lugar da forca, ma 110'1'0regime de segl'C'gação dos indivíduos pertul'-
" ll'ella morra mortc natural para sempre, c bndol'cs da paz social, ahavós de U111 sistema (lue ae1l'1TC-
(lllC depois de morto lhe sCõja eortada a cabeça , tasse um mínimo de inconvenientes,
e levada à Yilla Riea, aonde em o lugar mais n A característica principal dêsse tipo de punição é
publico d'ella será pregada em um poste alto
!
de trazer pronto alívio, Contudo, seus efeitos ul-
até que o tempo a consuma; o seu corpo será f
dividido em quatro quartos e pregados em pos- II terio1'8s são muito piores. Como sucede com o ópio, a
cadeia, no primeiro instante, produz uma sensação de
tes pelo earninho de Minas, no sitio da Ya1'gi- euforia coletiva. O delinqüente desaparece da circulação
nha e ele Sebo las, aonde o réo teve as suas e êsse fato cria nas comunidades uma sensação de se-
infames praticas, e os mais nos sitios de maio- gurança, O problema lmmano, porém, eontinna em
1'8S IJovoações, até que o tempo também os con-
ense, Pl'iyada do chefe, a Eamí.1ia do delinqüente se
suma, Declaram ao réo infame, e infames seus deeompõe, O l)I'ópl'io criminoso sente que seu pátrio
filhos e netos, tendo-os, e Bens hens aplieamlxl- poder não atravessa as gracles e qne não lhe é dado im-
1'a o fisco e cama1'a real, e a casa em que vivia pedir a desagregação ele seu lar. Em vez de 11m apoio,
em Yi1la Rica será arrasada e salg'ada, e que a par-til' do qual possa se reergncl', recehe a sua ração
nunca mais no chão se edifique, e não sendo de desespêro. A visão da 111ulher, (lue hesita, dos filhos,
])l'OIJI'ÍaS, serão avaliadas e pagas ao seu dono
que se rehelam, E se atola por fim na ociosidade, para
pelos hens confiscados, e no mesmo chão se que se corrompa, em definitivo,
levantará Ulll padrão pelo qual se conserve em
Anos depois, 1'eton1a ao convivio social. Em vez de
memol'Ía a infamía d'este abominavel réo",
voltar arn\]lendido, Teapareee cnTregado de ódios. Ces~
sado o efeito do ópio, não há senão aplicar-se outm dose,
47. O empl'êgo indiscriminado da prisão carcel'á- até qae o organismo soeÍal se torne insensíveL
1'1(.1. é mmt decorrêneia do individualismo desenfreado
A isso, a sociedade dá o nome de Justiça.
que vai minando o oTganis1l1o social. Ê uma conseqüên-
('ia do imediatismo que inspira n maior parte das ações
dos indivíduos em sociedade. :BJ um paliativo, não um
48. Kl'optkille nos descreve uma l)risão modelar
<la Fmnea em fim; do séenlo passado, que "tinha todo
Teméc1io, nem ainda uma tentativa de solu'ião.
o aspect<; ele Ullla pequena "idade manufatureira, ro-
Desaparecendo n vantagem das galés, pela rueeu- deada de hortas e émnpos de trigo e cercada de um lllUTO",
nizaeão elos harcos, surgindo a indústria, lJue sufocon o Os presos eram hem hatados, e0111 refeições (jUentcii,
mte~am1to, eonfiwmclo-se a utilidade elos presídios-co- simples, mas de hoa qualidade, "e cada um de nós pôde
lônia, e, Hobrdmlo, cl'eseendo a eompetição econômiea obter U111 hom 80]10 ele vinho da região, que fI cantina
entre os homens, tornou-se mister o (,stabelecimento du (la pdS80 n'l!dia aos pl"isioneiros pelo preço módico de
ARRUDA CAMPOS A J tTSTIÇA A SERvrçD DO CRIME 65

24 cêntimos o litro". :ilíostrou-lhe o diretOT os quartos tolera, simplesmente porque não desejam que
"e como eu lhe ohservasse que eram muito bons, mas os seus próprios males sejam discutidos e clis-
11lll pouco pequenos para nós, êJe 1108 deu mais alguns secados. "Aquêle que estêve uma vez prêso 1W
compartimentos do edifício que servia outrora de alo- mocidade torna-se lJrisíonei1'o paTCi tôda avirla"
jamento ao supeTÍol' da abadia e onde funcionava agora eis o que ouvi dizer por todos os que se haviam
um hospital", ocupado dessas questões".
Entretanto, falando do sistema dessa pl'Ísão, que está E acrescenta:
tem 1uros acima de qualquer casa de grades do Brasil,
que diz o eminente escritor russo, que, da sua cela re- "Assim, vendo aquelas crianças e imagi-
digia artigos ]mra a Enciclopédia Britânica? naudo o futuro que lhes estava reservado, não
Diz isto: podia deixar de perguntar a mim mesmo: -
Qual o mais criminoso ~ A criança, ou o juiz
"Durante a minha estada em Lião eu co- que a condenou a semelhante destino ~ Admito
meçara a perceber a influência desmoralizan- que o crime dêsses juízes seja inconsciente.
te do regime das prisões sôbre os detentos. Porém, os crimes pelos quais se aprisionam as
Minhas observações, durante a permanência de pessoas, serão todos tão conscientes como em
três anos, em Clairvaux, levaram-me a condenaI' geral se supõe.
mais tarde de maneira ahsoluta tôda institui- Dmante as primeil'as semanas da minha
ção das l)risões. prisão fiquei muito impressionado com uma
A anemia, (lue mata a energia e o gôsto coisa que, entretanto, escapa à atenção dos
pelo trabalho, que enfraquece a vontade, des- juízes e criminalistas. É que a prisão, na maio-
trói a inteligência e perverte a imaginação, ria dos casos, sem falar dos erros judiciários,
instiga mais ao crime do que a pletora, e é pune mais severamente pessoas completamente
precisamente 68se inimigo da espécie humana inocentes do que os próprios condenados.
que é produzido nas cadeias. O ar que se res- Quase todos os meus camaradas, que 1'e-
pira em tôdas as pTÍsões é apenas uma glori- ])l'csentavam a verdadeira média da população
ficação dessa paixão pelos jogos de azar, que operária, tinham mulher e filhos paTa susten-
constitui a verdadeira essêneia do roubo e da tar, ou, então, uma irmã, ou uma velha mãe,
fraude, ela extorsão e de outTos atos anti-sociais que viviam exclusivamente do seu salário.
da n:188ma natureza. Gerações inteiras de fu- Abandonadas agora a si próprias, essas mulhe-
turos prisioneiros criam-se nesses estabeleci- res faziam o possível para encontrar trabalho,
mentos, que o Estado mantém e a sociedade e algumas o encontravam, mas nenhuma che-
66 ARRUDA CA?I-IPOS A ,H:STIÇ'.\ A SEIWIÇO DO CRLMB

gayD, reab11ente a ganhar 11111 franeo e cinqücnhl tnição Política do IlllTJério do Brasil, Carta de Lei de
]lor dia. Nove francos por semana ~ e muitas 25 de março de 1824, al't. 179, §§ 8." e 10, disposições
vÉizes apenas sete - era o máximo que conse- que se l'elacionam à detenção dos indivíduos ~ ningliém
guiam ganhar para viver, com os filhos. Isso podej'á ser J1rêso sem cu7pa fOl'l1Jadn ou (1 exceção ele
significava alimentação insuficiente, privações flagran.te delito a jJrisão não pode scr executada senão
de tôda a espécie, enfraquecimento da saúde, por oJ"ilem escrita da autoridaele legítima) e hem assim
diminuição da inteligêucia, ela energia e da na legislação ordinária subseqüente, desde o Código
vontade. Compreendi, pois, que as condenações Criminal de 1830 ~ odenaT a pT'isão ele qualquer pessoa
pronunciadas pelos tribunais, inflingem a pes- sein ter para isso competente au.to'rúlaele, 1nC!ndar meter
soas inteiramente inocentes, sofrimentos de em prisão, on não 1nanel(f]" soltaj' dela o 1'i3M qJie eler
tôda a sorte, na maioI'ia dos casos piores do fiança legal, receber o cw'cereij·o nlgum prêso sem oY(Zen~
que os impostos aos pl>ÓpI'Íos condenados. cscritl[ da competente autol'iclade etc.
Acredita-se geralmente que a lei pune o Deve suspeitar-se da exata aplicação dêsses dispo-
homem inflingindo-lhe diferentes torturas fí- sitivos, que se limitaram a copiar as cartas constitucio-
sicas ou morais. 11:as o homem é um ser que nais francesa e norte-americana, porque, ainda em 1835,
se habitua pouco a pouco a tôdas as condições pelo Decreto n." 4, de 10 de junho, estabeleceu-se um
de vida que lhe são impostas. Não podendo processo especial para punÍçã.o dos escravos que tentas-
fUI'tar-se a elas, aceita-as, e, ao fim de certo sem contra a vida de seus senhores, pessoas da família
tempo, adapta-se a elas da mesma maneim que dêstes, feitôres, etc., l('i que vigorou até 1886, e que bania
se habitua a uma moléstia crônica. Mas, que para os negros o preceito também constitucional de que
acontece à mulher e aos filhos de um prisio- (I, lei seráiglwl p(l'i"(( todos. Por ela matava-se o escravo,
neiro, criaturas inocentes, cuja existência de- porventura condenado pelo jÚTÍ do têrmo onde fôm o
pende do trabalho dêle? São punidos muito crime cometido, não cabendo recurso da decisão, que
mais cruelmente do que o pTóprio condenado. desde log'o se tornava exeqüível, mun linchamento lega-
E graças ao nosso espírito rotineiro ninguém lizado. Como o regime era patriarcal, como o senhor
pensa na enorme injustiça que assim se comete. de escravos mandava e desmandava, entregava-lhe o le-
Eu mesmo só penseI mS80 quando ohrigado gislador, "rol11àntieamente liberal", como costuma ser
pc Ia eYl·deHCla d os f a t·OS "9 .
A

cantado, entregüya-lhe a vida do eSCl"avo à diserição,


para que a ceifasse, 011 npgoc.iasse, na conformidade do
49. O legislador sempre sentiu o mal do reglll1e grau de seus sentimentos.
carcerário. Ê assim que encontramos, desde a COllsti-
Felizmente o amor do dinheiro salvava os míseros
9. Em Tôrno de uma Vida, trad., Rio, 1946, capo VIL eativos.
68 ARRUDA CAMPOS A JC'S'1'IÇA A SERVIço no cnlMÉ 69

Na sua "Viagem às Províncias do Rio de Janeiro Diante disso pergunta o ilustre embaixador da
e São Paulo", J. J. Von Tschudi, depois de lembrar Suíça: - "Haverá melhor exemplo de decadência moral
(já então!) que havia desaparecido dentre nós o respei- do que êste~"
to ao direi to, pergunta; . A cadeia, porém, aos poucos se generalizou. O
ópio entrou a ser usado. E, à medida que as cidades
"Quantas vêzes aconteceu no Brasil que surgiam ou cresciam, levantavam-se estabelecimentos
um homem rico e influente tivesse sentado no dêsse g'ênero, para centralização do local de cumprimen-
banco dos réus a fim de se justificar de seus to das penas.
crimes ~ Quantas vêzes teria sido condenado A República, prosaica, utilitária e imediatista, ho-
tal homem·~ Certamente nunca. O promotor mologou de uma vez por tôdas o regime carcerário.
público jamais ousaria proceder contra um ho- Viciou-se no uso do alcalóide.
mem de posição. E se um promotor o quisesse
fazer, não havia de faltar dinheiro que abafasse 50. Quando se fala em delinqüente é preciso que
o escândalo; nem faltariam jurados convenci- se tenha em conta o efeito psicológico da palavra, que
dos da suprema importância e do direito oni- induz, a p1'ioTi, a suposição de que se trata de um in-
potente do dinheiro. Ai da testemunha que dividuo de maus sentimentos. Bem outra, todavia, é a
ousasse opor-se a um acusado desta espécie. realidade. A grande maioria dos criminosos é consti-
Ficaria na alternativa de desaparecer durante tuída de 110mens normais, como os antigos degredados
o processo ou sofrer a vingança pessoal do de Portugal. Apenas, nêles predominou, em determi-
acusado quando terminasse o julgamento". nado instante, uma fraqueza, que deu margem à prática
de um ato condenado. Em seguida sobreveio o arre-
Ilustrativo é êste trecho de seu depoimento: Ilendimento, mas, a essa altura, já o delito estava co-
metido.
"Certo escravo assassinou, por motivos ele Êsse fato não pode deixar de ser tido em conta.
vingança, o genro de seu amo e a polícia C011- Ê preciso que se proclame que a maior parte dos de-
tentos não precisa da cadeia para que se regenere, pelo.
seguiu deitar-lhe a mão a tempo de evitar a
simples fato de que não necessita de regeneração. São
justiça privada do amo e o trancou no xadrez.
homens que vão para o xadrez porque a pena visa tam-
:Mas o dono do escravo não poupou esforços
bém a intimidação. São homens para os quais subje-
para libertar o criminoso, a fim de poder ir tivamente, o simples arrependimento é suficiente. E
vendê-lo em outra Província, o que lhe evita- que talvez, na sociedade futurA, nem sejam considerados
ria ao menos prejuízo financeiro". criminosos.
li .rrSnç'A A SERVIÇO DO CRntE 71
70 .\RTIt'DA C':\"l\fP0S

J\. detenção dE' indivídnos assÍln cOllstituídos, em


I11Ill1eTOSaS condenações converteram-se em en-
pTomisenidade com ontros de fOITnllção moral defo]'- genheiros, advogados, funcionários mlmilllstra-
nmda, deveria constituir um delito previsto no Código tivos, diretores comerciais de êxito, de que
Penal. Aos juízes não lhes assiste o direito de impor alguns ingl'eSSaT<llll no ExéTcito Ver1110lho e no
1l alguém a vida em comum com pervertidos. A socie- Partido Comunista e justificaram amplamen-
dade, pelos sens magistrados, tem a obrigação de pI'O- te sua escolha, demonstl'a pelo menos que exis-
mIraI' redimir os vencidos, de lutar pela elevação, pela tem fundamentos para expeTimentar, com a
regeneração dos que se perderam. Êsse trabalho não teoria russa, em um grau que nenhuma admi-
deve ficar afeto ao detento de hons sentimentos, porque, nistração cal'cel'ária ocidental estêye disposta
na l)l'isão, êle deve lutar contra a revolta que domina, a fazer até o momento" 10.
mas precisa ser executado, de fora paTa dentro, através
da mão estendida por entre as grades. 52. .Mesmo sem estatísticas pode dizer-se que, na
Infelizmente o problema é descurado. A realidade, cadeia encontram-se cêrca de 90ro dos presidiários, se-
dura de ser dita, é a de que a promiscuidade faz as suas jam sentenciados ou presos que aguaTdam julgamento.
vítimas dentro da própTia prisão. Em vez de s08rgui- Uns, reincidentes, outros primários. Outl'OS, ainda, nem
mento, o que ocorre, nas cadeias brasileiras, é uma coisa sabem se vão 801' condenados ou absolvidos.
só: o rebaixamento moral a um nível inferior ao das A cadeia se compõe de uma· série de quartos, de-
próprias sarjetas das ruas, o depauperamento, até a
vidamente gradeados, providos cada um de uma latrina.
JwóPTia inutilização física.
Em algumas cidades o xadrez tem um chuveiro. Nas
outras, que constituem a grande maioria, nada mais há,
51. Estudando a lei e a justiça na Rússia Sovié-
Helll cama, nem mesa, nem cadeÍTa, nem sequer uma
tica, refere () insiglHe e insuspeito Harold J. Laski que
janela envidraçada que possa ser fechada nos dias de
GOTig, na sua famosa investigação nos cárceres da
chuva ou nas noites de frio.
U.R.S.S., verificou que não há uma razão geral para
que se sllpImha que o criminoso comum seja muito N esse recinto os pl'esos pagam a pena que lhes foi
diferente do homem que compõe a população ordinária. imposta. As necessidades fisiológicas êles as satisfazem
em públieo. Dormem no chão, sôhl'e colchões e esteÍTas,
"O vinco saliente do sistema TUSSO, tal co- (pIando existem esteiras e colchôes. Comem ele marmita
mo fuueiona, é a sua capacidade de educar a uma comida muitas vêzes roubada pelo fornecedor. En-
massa de reclusos para o trabalho útil, de modo tretanto, o mesmo poder público que assim os trata,
que podem retornar à vida normal sem temor
da l'eineidilneia. O fato de que hOlllel1s eom 10. Laski, ob. dt, pág. 89,
72 ARRUDA CAMPOS A .nJSTI(,A A l:mnVHjO DO CItIMt 73

exige nos bares que os sanihirios sejam afastados das delinqlieneia; e ehminat6rias, aplicadas HOS delinqilen-
salas de cOllsumagao e cstas sejam rcvcstidas de azulejos! tes habituais.
Escrevemos que os presos pagall1 a pena que Ihes No Brasil, de acordo com 0 Codigo Penal, as me-
foi imposta, mas e obvio que escrevemos mal. Sofrem didas de seguranga - que alcangam ate objetos inani-
a pena. 0 jovell1 tempestuoso, que reincidiu no crime mados - sao de duas ordena: patrinwniais, pela inter-
de lesoes corporais, e colocado junto do ladrao, que tem digao de estabelecimento ou sede de sociedade ou asso-
a malieia de quem ja nao encontra em si 0 menor res- ciagao e pelo confisco; e pessoais pela interna<;ao em
quieio de uma no gao de moral. 0 homicida, que ll1atou manicomio judiciario ou em casa de custodia e trata-
em legitima defesa, que foi absolvido no juri, mas de mento, on em colOnia agricola, ou em instituto de tra-
cujo julgamento pende recurso para 0 Tribunal, e con- halho, de l'eeducagao ou de 8n8ino profissional (deten-
servado em contacto com 0 estelionatario ou com 0 assas- tivas), 011 pela liberdade vigiada, pela proibiQao de
freqlientar determinados lugares e }Jelo exilio local
sino pro fissional. Ha, pois, uma grande desigualdade,
(nao detentivas).
que 0 juiz nao considera ao lavrar sua sentenga: U11S
suportam mais, outros, men os, 0 sofrimento da prisao. Tecnicamente, a medida de seguranga nao e pena.
Ate Ia nao desce a justi<;a, como 0 medico no hospital Entao, pOI' nao se tratar de pena, muitos juizes car-
para vcrificar 0 estado de seus clientes. Como nUln regam na medida de seguranlia, llna vez que estao p~'o­
zoologico, os homens manuseiam apenas dados nume- tegendo os delinqlientes. E os pobrea ficam na mesma
l'iCOS e nomes; e, se foge um tigre, ou Ulna raposa, ou prisao comum, porque 0 Estado, que se arroga 0 di-
me81110 um gato selvage111, para eles 0 problema e iden- reito de puni-los, nao cumpl'e a sua obrigaQao de cons-
tico e ae resume mmla coisa so: - no envio de gual'das truir os estabelecimentos adequados que He proprio
para que 0 fugitivo seja l'ecapturado. criou - no papel.

54. Cerea de tres quartos dos detentos sao homells


53. As medidas de seguranga, tecnicamente con- validos, que estavam em plcna faina quando foram
H
sideradas, nao sao penas. Eusebio Gomez as divide em i'
recolhidos a prisao. Em muitas cadeias do interior a
(lurativas, educativas, tutelal'es e eliminatorias.
Gnrativas, quando consistem no tratamento ade-
quado, em estabelecimentos especiais, dos delinqilentes
II pOl'centagem chega a ser de cem pOl' ccnto, quebrada
apenas pelos ladr6es e pOI' alguns poucos de delinqlien-
tes mais agressivos. Regra geral nao ha pl'esos peri-
declarados inimputaveis, em razao de anomalias men-
tais; edncativas e lutelal'es, quando adotadas em rela-
I
i
gosos. Estes dificilmente tem rcsidencia fixa e aflnem
para os grandes ccntl'os, onde, com maior dose de
~ao aos menores delinqtientes, pam suprir a falta de L segurall<;a, podem ex€rcer a sua atividade. N as pris6es
educagao e de amparo, ordinariamente a causa da sua do interior encontram-se ordinal'iamente homens que

\
74 7;')

foram retirados do trabalho () q11e, em \'8Z de eontímwr 'lHe se 1118 nega o (liTeÜO de manter relações carnaIS
a prestar 'Cl'YÍços à coletiyidadr, passam, sem lHml11l1n 00111 a sua pTópl'Ía espôsa, recorre ao onanismo ou à
pro,rito, a constituÍT um pÉ\so morto para o Estado. pederastia. O primeiro é inofensivo pôsto que depri-
A cadeia destrói a família. O detento casado cor- mente no adulto. A segunda, eolocaclos de lado os que
re o risco de perder a mulher. Se ela tem boa conduta, se divertem CO]11 ela, constitui uma violência à pessoa,
entre os dois se interpõem sentimentos de dúvida, ou que as leis Ilenais punem com rigor.
pelo menos de indiferença. Os filhos, livres de fisca-
Para a eliminação dêsse mal, já foram tentados nos
lização, consomem-se no abandono, tendo de um lado
estabelecimentos bem organizados variados recursos,
o exemplo pateI'11o, de outro as tentações cotidianas. O
desde o emprêg'o do regime aliIllentar adequado, até a
amor desaparece, da 1118S111a forma como se extingue o )
princípio da autoridade patema e marital. Com ex- í! dureza do serviço diário, visando o tolhimento das li-
eepcional gravidade, reponta o problema econômico. Por berdades ela imaginação. Tndo tem sido feito sem pro-
último, ao lado da insensibilidade, que liquida os laços ,'eito, conforme se vê dos desenhos que os detentos lan-
familiares, surge fi tuberculose, que é doença dos cár- çam nas pared0s e que exprimem as formas de evasão
ceres. de q11e se sentem possuídos. A natureza impera, a na-
O indivíduo prêso e que - diga-se outra vez de tureza domina, a natureza empresta ao indíviduo fôrças
passagem - na maior parte elas vêzes é um homem desconhecidas que, mesmo na prisão, o emp\1na111 para
normal, sente feneT em si o geTme da Tcvolta. Assiste a delinqüência.
à del'Tocada de seu lar, aumenta a sua própria agressi- A lei penal prevê sanções para os que ajudam ou
vidade contra 11111a sociedade que o trata com tamanha eriam facilidades à fuga d(l presos. Mas não há pena
m·ueldade. Se não cOl1segne dominar-se, sozinho, resolve
para os que submetem os detentos a mn regime dessa
vingar-se, reincidindo.
ordem, levando-os às vêzes, conforrne as condições pes-
"A qufJle que cstêvc 1011(1 vez prêso lUt mocidade, tor- soais de cada 11m, à prática de atos de desespêTO, para
n.arse prisioneiro para. tôdn ({ vida." . .. satisfação de uma necessidade fÍsiea como outTa qnal-
(luer. Não há pena para a autoridade insensível que
55. Há ainda um assnnto que merece item
11111 ohriga um homem a viver llUm lugar onde sabe que
(,sJlGcial. Referimo-nos à questão sexual, tão aguda que, VaI ser violentado.
frCtlÜentemente, desata paixões aherrantes e chega a dar O regime carcerário é assim: destrói os hábitos
margem à perpetTação de horrorosos crimes passionais. sociais, abala a saúde, animaliza o indivíduo, detennina
O prêso é U111 homem que tem a suas necessidades, grandes despesas ao Estado e por fim ainda estimula
pnhe as qnais figura a da satisfação genésica. Desde o erime em quem já S8 encontra prêso.
76 ARRUDA CAMPOS
A JVSTIÇ,".\ A SERYJÇO DO CRIME 77

56. O Código do Processo Penal, no art. 295, tí- os fnncionários públicos federais pertencentes à Gum:-
tulo relativo à prisão e à liberdade provisória, estipula da Civil, à Polícia Marítima e Aérea e à Polícia Espe-
que "serão recolhidos a quartéis ou a prisão especial, cial, bem como os lotados nas delegacias de polícia, quan-
do em função estritamente policial, os jornalistas, os
à disposição da autoridade competente, quando sujei-
cOlIl<?I'ciantes matriculados, etc.
tos a prisão antes de condenação definitiva: I, os mi-
nistros de Estado; 11, os governadores ou intervento- A odiosidade dos regimes de excessão aí está, numa
res de Estados, ou Territórios, o prefeito do Distrito de suas mais repugnantes manifestações!
Federal, seus respectivos secretários e chefes de Polí-
cia; III, os membros do Parlamento Nacional e das 57. Há meia verdade na frase de Machado de
Assis quando afirma que o provérbio está errado.
Assembléias Legislativas dos Estados; IV, os cidadãos
inscritos no "Livro de Mérito"; V, os oficiais das Fôr- "Não é a ocasião que faz o ladrão", dizia
ças Armadas e do Corpo de Bombeiros; VI, os magis- êle a alguém; o provérbio está errado. A for-
trados; VII, os diplomados por qualquer das faculda- ma exata deve ser esta: - "A ocasião faz o
des superiores da República; VIII, os ministros de furto; o ladrão nasce feito".
confissão religiosa; IX, os ministros do Tribunal de (Esaú e Jacó, capo LXXV).
Contas; X, os cidadãos que já tiverem exercido efeti-
vamente a função de jurado, salvo quando excluídos da Meia verdade, porque ninguém nasce ladrão, como
lista por motivo de incapacidade para o exercício da- ninguém nasce assassino, como ninguém nasce religioso.
quela função". Admite-se que a influência hereditária deforme o caI'áter
e as tendências do indivíduo - é uma possibilidade; mas
A lista dos privilegiados, porém, paulatinamente qne o meio social modela o cidadão - é uma certeza.
aumentou. É a legislação de favoritismo. Hoje, de um O ladrão, como já assinalamos em outro item, é
certo ponto de vista, a prisão chamada comum consti- formado na eSCoola do crime, tolerada pelo Estado, ou
tui a exceção. oficializada pelo Estado. Os menores, que passam pelos
Fazem jus à regalia da detenção especial mais os institutos especializados, raramente se salvam, ordinà-
oficiais da marinha mercante, os dirigentes das entida- riamente se peI'dem. Há institutos de menores que são
des sindicais e empregados no exercício de representa- verdadeiras academias de criminalidade, perdendo ape-
ção profissional, os secretários do prefeito do Distrito nas para as cadeias e casas de detenção, que são as
Federal, os prefeitos, vereadores, chefes de Polícia, os universidades. Um inquérito realizado na Penitenciária
funcionários públicos federais em serVIço de Polícia, de São Paulo chegou à seguinte e monstruosa conclusão;
Alutl!DA C,\":\lPO~ A Jl;STIÇA A SEUnçn DO CUDIE 79

de C({da nlÍl erianças do Estado de 81ío I)allJo unw é reco- idéia prevalecer, se pr(T<11 eco]', e possivelmente prova-
lhida em abl'igo de l)]'ote.,,1ío; ele cada ma abrigados, lec81'á, os eOll(]enados de ho;jo ficarão na lllesma situação
140 encontravam-se condenados na Penitenciária, com dos jon'llS pOl'tllgnêses degredados por haverem dor-
sentença transitada em julgado, com exclusão portanto
dos detidos nas cadeias e sujeitos a processo crime! 11
I
1
mido com freiras, ou queimados em praça pública por
não ahraçarem a religião católica.
Significa que, pelo menos êsses chegaram à gatu- Que pessoas de COTação bem formado atentem llO
llClgem por causa do mau encaminhamento que lhes foi
dado, na adoIescê.ncia, pelo próprio Estado. Por aí a
I que fica assinalado. A índole dos detentos é boa, 11
maioria dos reclusos é eonstituída de indivíduos quase
fora, bá, pois, ladrões que se fOI'luaJu sob a proteção
oficial, embora, no instante da condenação, nenhum
punho hesite em adotar contra 1'1es a sanção máxima pre-
\-ista no Oódigo Penal!
I
I
.I
normais, seus atos podem não ser eonsidel'ados crimes
amanhã. Dentro das cadeias e das penitenciárias o pior
elemento é ordillàriamente o ladrão. E, por causa elo
ladrão, institui-se Ul1l regime de tratamento dos sen-
Haja compreensão, haja remorso, haja mna reação tenciados verdadeiramente desumano.
visando corrigil' os grandes enos. Vá lá mna palavra
58. Dizia-nos um amigo elo alheio, elo flU1do ele
ele simpatia por êsses indivíduos que, na maioria das
uma prisão: - Regenerar-se é o de menos. O difícil é
vêzes, são muito mais vítimas, porque fOl'am furtados
permanecer regenerado com 11 polícia que aí existe!
na opOTtunidade de levar nma vida honesta. . O ladrão
subtrai o supérfluo de quem tem sobras e para tanto 59. Não ficaria o quadro completo se aqui não
arrisea a 8na liberdade, cnqnanto homens importantes fôsse incluído mn tópico sôbl"e o carcereiro, essa figura
existem que agem na área de suhdelinCJüêneia, que pro- genial a quem a Justiça comum entrega o trabalho elo
mcam desequilíbrio social mais pronunciado. Êsses enfermeiro na cura ele seus doentes.
furtam ela coletividade até lllesmo o neeessário e, não Como sucede aos sacristãos, o cal'ceTeiro é de or-
ohstante, gozam da proteção da lei. dinário um cretino, quando não U111 delinqüente, no
Ladrão que fmt.a ladrão tem cem anos de perdão - rnú1Ímo em potencial. O contacto permanente com cri-
diz o provérbio popular. O ladrão investe contra a minosos desperta-lhe estranhos sentimentos. Quase sem-
pro]Jriedade. E houve um homem, que era também um 1ll'e desalmado, sádico, é miniatura do carrasco medieval.
gn111de homem, ,T. P. Proudhon, que escreveu um liv-To Explora os detentos, c.obl'a-lhes comissões nas vendas de
para provar o axioma qne adoton no título de sua obra: pequenos objetos da insignificante indústria carcerária.
- a ])]'opriedade é um roubo. Amanhã, quando essa Se o detento é pessoa ele reeursos, comlU118nte lhe
outorga certas vantagens a trôco de dinheil'O - cela
11. Anais das "Semanas de Estudos do Problema de Menores", São
Paulo, 1952, pág. 125. especial, cama, rádio, saída para banhos, cerveja e até
80 ARRUDA CAMpOS .\ JUSTIÇA A SERVIÇO DO CRUll'J 81

mulher. Se o prêso é miserável, dispensa-lhe uma aten- antol'izados a ernzar os hraços. Se algum magistrado
ção igualmente miserável. A alguns chega à perfeição cll'seja realmente dar desempenho às suas funções, há
de transformar em feras. Tanto assim que nesses casos de tentar pelo menos cumprir o que a lei lhe determina,
confessa-se incapaz de entrar desacompanhado no xa- em vez de, antes de começada, abandonar a luta.
drez em que o delinqüente se encontra. Todos estão cansados de conhecer juízes que se
Exerce flmções importantíssimas. Decide sôbre as ton1alll conhecidos pelo l'igor das suas decisões e pela
transferências de celas, coloca em contacto, no mesmo ,;ua atuação no combate à criminalidade. São os qne
recinto, assim o ladrão de cavalos, criminoso veterano e c:ostumam aliviar a consciência quebrando a pena da
malicioso, assim o primário que furtou um terno pela eaneta que lhes serviu para subscrever a sentença con-
primeira vez e confessou, chorando, o delito. Raros os denatória. Quebram. Em seguida, compram nova pena.
delegados, promotores ou juízes que lhe cerceiam o ar- Bem poucos, todavia, têm notícias dos juízes que adqui-
bítrio discricionário nesse mister. riram nomeada pelo carinho que dispensam aos presos,
J!rocurando lenUltar-lhes o físico e o moral, dando-lhes
Nas prisões maiores êsse indivíduo transaeiona eom
trabalho lJara o corpo, com remuneração para amparo
maconha e vende o seu silêneioquando um prêso .jovem
da família, mais uma assistência espiritual constante,
é estuprado pelos mais antigos.
direta ou indireta, paTa que sejam Tealmente recupera-
O carcereiro é mn homem vencido que tem sob as dos e voltem à sociedade como homens CÜSIJOstos a ser
suas ordens outros homens vencidos. Então saboreia dignos dela.
o seu poderio, porque está nas suas mãos a alegria e o
sofrimento daquelas pobres criaturas, como agente que Juristas r:onsagl'ados, aferrados à rotina, sem ne-
é da Justiça. nhmlla experiência de regime carcerário, que vivem a
vida através das suas exterioridades, e (lue, numa pa-
lavra, nunca sentiram a crueza dêsse problema, são os
60. Estamos diante de uma realidade, que não
<lue maior dose de interêsse revelam em ignorar o que
podemos alterar de uma hora para a outra, e que reclama
,(' passa nas cadeias. Fogem a um exame do assmIto,
Ullla atitude, já que se não consegue para ela uma so-
paI'a que não sintmn o dedo acusador que se levanta do
lução. Uma atitude, que implique na abertuTa ele um
-fundo de suas consciências. Acostumados a tonull' o
caminho novo. meio pelo fÍln, l'CC\lSmll-Se mudar de atitude e perma-
N a sua insinceridade interesseira, o legislador limi- 1l8CClll impenetráveis atrás de uma COluaça de propo-
tou-se a repetir o que lhe vinha de trás, e que vinha sitada ignorância. Í~ mais uma pTO\'a ela falsidade ge-
vindo sempre sem aplicação. Recorreu aos princípios Tal (lU(' minou o direito, l'l'incipalmente o dÍTeito cri-
ela labortcrapia, embora não cogitasse de dar meios de minal: depois do desvirtuamento do princípio nullun~
emprêgo dessa terapêutica. NpJ11 por isso os juizes estão crimc}l) nlllla poenn sine lcge, para proteção dos semi
82 ARRUDA CAMPOS

delinqüentes, surge o amolgmnento final, do julgamento


dos resultados da aplicação da lei.
A ação dos juízes acaba quando o prêso é recolhido
ao xadrez. É o grande mal. Deveria acompanhá-lo en- CAPÍTULO V
qnanto cumpre a pena e quando de novo é restituído ao
convívio social. Meia justiça ou justiça pela metade. A LEI NÃO É RESPEITADA

61. O homem criou Deus à sua imagem e seme-


62. Se a lei está cheia de defeitos, sua execução
lhança. Deus é apenas juiz. O executor da pena é
é ainda pior. Não podendo modificá-la, ao magistrado
o Demônio. E o clamor desesperado dos que, por causa
compete cumpri-la. Contudo, nem todos os direitos e
de uma falha, sofrem a condenação eterna, nunca che-
garantias individuais, assegurados pela Constituição Fe-
ga ao ouvido do excelso magistrado. deral, encontram amJ)aro por parte da maioria dos
juízes. A vigilância do Judiciário freqüentemente se
esvai, conforme os humores dos magistrados.
Dispõe o art. 141:
§20 - Ninguém será prêso senão em fla-
grante delito ou por ordem escrita da autori-
dade competente, nos casos expressos em lei;
§21 - Ninguém será levado à prisão ou
nela detido se prestar fiança permitida em lei;
§ 22 - A prisão ou detenção de qualquer
pessoa será imediatamente comunicada ao juiz
competente, que a relaxaTá, se não fôr legal,
e, nos casos previstos em lei, promoverá a res-
ponsabilidade da autoridade coatora.
Estabelece o Código Penal:
Art. 350 - Ordenar ou executar medida
privativa de liberdade individual, sem as for-
malidades legais, ou com abuso de poder:
Pena -- Detenção, de um mês a um ano.
84 ARRUDA CAMPOS A JUSTJ~A A SER"r~() DO CRtME 85

Paragl'afo {mico - rm mcsma pena incol'- caliza<;ao do .J lldici[rl'io, poueas vezea encontra quem,
1'0 0 funcionario que: pOl' sistema, se de ao traba1ho de executa-lao 0 que
ha, nessa parte, e 0 relaxamento gera!. Para que a
I - ilegalmente recehe e 1'ecolh8 alguem
policia nao seja desprestigiada l11uitos juizes permitem
a prisao, on a estahelecimento destinado a exe-
que ela tome 0 freio nos dentes.
cu~ao de pena privativa de liherdade on de
medida de segnral1(,a. 63. Nao ha nenhuma inova<;ao nas disposi<;;oes do
CMigo Penal que tratam das penas de 1'eclusao e de
Nao e de hoje que se luta eontra a v"iolencia po- deten<;ao. Nao ha novidade nem mesmo na desfagatez
licial. Sao de ;roao Mendes estas palavras, comel1tando com que 0 legislador 1'edigiu 0 texto dos respectivos ar-
as circulares imperiais que, desde 1865, verbera1'am as tigos, com diferentes tipos de evasivas. Seguin 0 exem-
deten<;oes simp1esmente policiais, atraves das quais, 1310 do Codigo Penal de 1890, como este repetiu 0 de
contra a Constituigao, algumas autoridades se investiam 1830, ambos elegantemente formais, quando falavam em
em poderes que jamais tiveram: estabelecimentos penitenciarios inexistentes, em regimes
impraticaveis, nos quais aos detentos seria dispensado
"Sirva isto de estigma as autoridades que o tmtamento 111ais perfeito ate entao imagillado pelos
buscavam e de estil11ulo as autoridades que mai8 insignes penitenciaristas.
buscam coonestar arbitrios, alegando a preten- A materia e disciplinada pelos seguintes artigos:
dida necessidade de saltar pot' cima da lei,
com t6da a coragem da prevaricagao, com 0 REGRAS COMUNS AS PENAS PRIVATI-
cinismo da af1'ollta aos mais sagrados direitos, VAS DE LIBERDADE
hipocritamente cohrindo a 1'ila11ia do seu ca-
Art. 29 - A pena de reclusao e a de de-
rater, on a negligel1cia no cnmprimel1to do
tengao devem ser cumpridas em penitenciaI'ia,
dever, com 0 pretexto da imp08sibilidade de,
ou, a sua falta, em s8<)ao especial de prisao
em todos os casos, se sllbordillarem as forma-
com11111.
lidades legais".
§ 1.' - 0 sentenciado fica sujeito a traha-
Aplica-se 0 Codigo Penal contra os delinqiientes Iho, que deve ser remune.rado, e a isolamento
que vio1am as 110l'mas garantidas pe1a policia. Rara- dUI'ante 0 Tepouso noturno.
mente, por8m, sabe-se de alguma alltoridade policial § 2.' - As mu1here8 cmIlprem pena em
punida pelas 1'iolencias perpetmdas. A propria Cons- estabelecimento especial, ou, a falta, em segao
tituigao Federal, na parte em que cerceia 0 campo de adequada de penitenciaria on prisao commn,
a'lao dos agentes policiais, submetendo-os a direta fis- ficando sujeitas a traba1ho interno.
86 ARRUDA CAMPOS A J US'l'IQA A SERVIQO DO cnn\'IE 87

§ 3." - As penns de reclusao e de detenQao


imposhls pela juStigl1 de urn Estado podem ser
cumpridas em estabelecimento de outro Estado
Art. 31 - 0 condenado a pena de detengao
ou da U niao.
fica sempre separado dos condenados a pena
de reclusao e nao esta sujeito ao periodo i11i-
RECLUS.AO
cial de isolamento diurno.
Paragrafo unico - 0 trabalho, desde que
Art. 30 - No periodo inicial do cumpri- tenha carateI' educativo, pode ser escolhido pe-
ll1Emto da pena de reclusao, se 0 permitem as 10 detento, na confOTmidade de suas aptid6es
suas condig6es pessoais, fica 0 recluso tambem ou de suas ocupaQ6es anteriores.
sujeito a isolamcnto durante 0 dia, pOl' tempo
11ao snperior a tres meses. Nao 5e diga que esses dispositivos se referem tao-
-somente aos estabelecimentos penitenciarios especiais,
§ 1." - 0 1'80111S0 pas sara, posteriormente, devidamel1te aparelhados, nem muito menos que, em
11trabalhal' em comum, dent1'o do estabeled- conseqiiencia, deixam de tel' a11licagao nas cadeias co-
mento, on em ohras on servigos Pllblicos, fora muns. Nao ha na lei n8nhuma determinagao 11e8se 8en-
dele. tido, ou mesmo, vagamcnte, que autorize semelhante en-
tendimento. 0 que 0 art. 32 declara e que:
§ 2." - 0 reclnso de hom procedilllento
pode ser transferido para colOnia penal on es-
tahelecimcnto similar: REGULAMENTO DAS PRISOES

Art. 32 - Os regulamentos das pri86es


I - se Ja cUll1priu metade da pena, devem estabelecer a natureza, as condig6es e
(lUando esta nao e superior a hes anos; a extensao dos favores gradativos, bem como
II - se ja cllmpriu lU11 tergo da pena, as l'estriQ6es ou os castigos disciplinares, que
quando esta e supeTior a hes anos. merega 0 condcnado, mas, em hipotese alguma,
podem autorizar medidas que exponham a pe-
§ 3.' - A pena de l'eclusao nao admite rigo a saude ou of end am a dignidade hum ana.
8nsp8n8ao condicional, salvo quando 0 conde- Pal'agrafo unico - Salvo 0 disposto 110
nado e menol' de vinte e Ulll aIlOS ou maior art. 30, ou quando 0 exija interesse relevante
de setenta, e a condenaga.o nao e pOl' tempo da disciplilla 0 isolamellto nao e permitido
snp8J:ior a dois anos. fora das horas de repouso noturno.
ARRUDA CA,,{l~OS

Hepila-se, portanto, desele logo, qual(l1wl' interpre- quando falham os órgãos que os auxiliarn. Contudo,
tação mais indolente, baseada numa atitude intelectual embora se trate de um dever ]pgal, nem sempre se mo-
de quem se limita a desconhecer o problema, para não Y8m. Exemplo típico é o Cjl1e sucedeu em São Paulo,
senti-lo, e que não quer senti-lo, para não se ver na quando 11m ímproho administrador tTazia o Ministério
eontigência de enfrentá-lo. Público de rédeas curtas e montava a polícia. O jôgo
A maior parte dos pn'sos cumpre penas, não nas ilegal campeou. Delegados existiam, sem resquício de
penitenciárias, mas nas cadeias. Em tôdas deve haver dignidade, qne se incnmbiam de proceder à arrecadação
um regulamento que atenda ao direito dos detentos de do numerário destinado ao l)agamento da impunidade
receber atenção favorável quando a mereçam. Essa é !los ('ontraventoTcs. Dentro dessa deletéria sitnação,
uma regra de caráter geral, imperativa, que não pode raros foram os magistrados que deixaram de sacrificar
deixar de ser obedecida. Pois, se há meios de se man- a lei ao seu comoclismo.
ter nm indivíduo no xadrez, também os há de se tirá-lo Mais damoroso é o que se pássa em relação ao
de lá. Para que tome sol, paTa que preste serviços in-
Jw.ueas-coTpns. O remédio heróico, que a Constituição
ternos, para que acabe, como prêmio, trabalhando em
manda que os magistrados administrem de graça, sem
obras ou serviços públicos, dentro ou fora do estabe-
requerimento, pràticamenü, só heneficia os (lue têm
I ecimento.
dil1heiro para pagá-lo. Somente nos casos de maior
É espantoso conto se poele só do delinqüente exigir
repercussão é impehado por algum promotor desejoso
o respeito à lei. Quando chega o instante dela ser CU111-
dE' publicidade. Apesar de inscrito na Magna Carta, o
prida pelos agentes ela Justiça, as autoridades se re-
habeas-corpus de ofício, se assim o podemos chamar,
fugiam no argumento ela impossibilidade, que às mais
não existe.
elas vfizes, nada significa senão simples e acabado
descaso. A Constituição FedeTal, art. 141, dispõe:

64. O clesfibrall1\lllto dos juízes, que, recrutados " § 22 - A prisão ou detenção ele qualquer
à reyelia do POYO, eevam-se nas garantias de inamovi- ]l8SS0a será imediatamente comunicada ao juiz
hilidadE:, vitaliciedade e irredutíbiliclade de vencimentos, (;ompetente, q11e a relaxará, 8e não fôr legal,
h'ans11arece llO ele,'pTêzo que votam ao poder que lhes (', nos casos previstos em lei, promoverá a res-
foi concedielo de agir independentemente de pTOvocação ]1ol1sabilicladp ela autoridade (;OatOTa".
da Ilolícia ou elo MinistéTio Público e, principalmente,
ao instituto de habeas-corpus. O texto, como eliTia Ruy, é incisivo como uma lâ-
A persecutio crl1nmis originária não foi deferida mina ele aço e infrangív(,l COUlO um cí1'(mlo de ferro.
nos magistrados em vão. Devem êks agiT de ofício 'I'ôda prisão OH ddenção será comunicada ao juiz (lOlll-
90 AltnUDA C\},IFOs A ,Jt1STI~~A A SERVIÇO DO cnnm

potente, qne a relaxará, se não fôl' legal e promoverá a tende e o que todos sabem. E o Ministério Público,
rcspollsahilidade elo coator. tão desfigurado quanto a magistratura, apesar de scr
Não há possibilidade de duplo entendimento. As- o fiscal da lei, nenhuma iniciativa toma para que o
sim, os juízes que, para se livrar de trabalhos, fingem preceito da Constituição seja cumprido.
ignorar o texto da Constituição, e que não impõem a
seus delegados o sistema da pronta comunicação de tô- 65. Apesar da relevância do assunto, que passa
das as lil'isões efetuadas, estão sobrepondo seu indiferen- despercebido porque os humildes não têm quem os de-
tismo a uma norma de fundamental importância lJara fenda, a verdade é que, diante da omissão dos magis-
sobrevivência das instituições. trados, qualquer pessoa poele fazer a comunicação da
prisão ao juiz competente, para que a relaxe e promova
Com que direito agem dessa forma? Quem os
a responsabilidade do culpado. Trata-se de gaTantia
autorizou pisotear a determinação legislativa superior rg
eonstitucional 8, assim, a iniciativa de terceiros (Cons-
Que fôrça moral podem ter para condenar delinqüentes,
tituição, art. 141, § 37), é perfeitamente legítima.
se são réus do crime comum de prevaricação '?
Consultem-se as coleções dos provimentos dos tri- Que fazem os Promotores Públicos que não suprem
blmais. Não há um que, diante do abuso, tenha uma a desídia do .Judiciário?
só frase de recrimiuação aos magistrados de primeira Tecnicamente não se trata de habeas-corpus, pela
instância que se julgam em condições de revogar a razão de que não há o recurso ex-off1:âo, mas de medi-
Constituição. Reclamam contra os que excedem prazos, da simplesmente cOTI'ecional, que se enquadra na alçada
contra os que simplificam demasiado as audiências, con- do Ministério Público.
ha os que usam carbono nos têrmos dos processos, contra Como observa o Professor Vicente Ráo, o § 22, do
08 que residem fora das respectivas comarcas, mas não art. 141, do estatuto básico, confere ao juiz a atribuição
têm uma ÚllÍca palavra visando lembrar os juízes de que de receber comunicação das prisões ou detenções efe-
têm obrigações a cumprir. Nem mesmo os titulares das tuadas para os fins ali determinados. "Se a Constitui-
Execuções Criminais, do Distrito Federal ou de São ção lhes outorga essa competência, impllcitamente, mas
Paulo, prestam obediência a êssB preceito da :Magna 118cessàriamente, também lhe impõe o dever de exercê-la,
Carta, numa comprovação evidente ele que o mal é geral. e, pois, o de exigir das autoridades policiais o cumpri-
Já se pensou em quanto as populações seriam res- mento efetivo de sua obrigação de comunicarem as pri-
guaI'dadas se os investigadores, os soldados, os cabos, sões ou detenções que efetuarem. ~4.ssim sucede, IJor
sargentos e delegados, soubessem que as detenções que se tratar de garantia constitucional de direitos, razão
efetuassem. seriam comunicadas ao .Juiz de DiTeito ~ pela qual a inércia dos juízes, diante do não cumpri-
O habeas-corpus de ofício, de caráter correcional, é mento sistemático do precf;ito constitucional, não se
uma impostura constitucional. A Polícia faz o que eu- jllstifiea.
02 ARRUDA C.\:M:POS A .JrSTI('.\ A SEH\'IÇO DO ('RD,rn

f; óbvio que no :\1iní"t6l'Ío Púhlico também (oompetc Denho elo sisümm do Oódigo Penal o lJl'êso pode
prOlllowr a obsl'l'v5neia da mencionada prescrição con8- pleitear o livralllento condicionaL É o princípio da in-
titueional, pelos meios de direito de que dispuser; mas, (1jyidnalização ela l)('na que se prolonga e vai, atraYcs-
daí não se infere devam, ou possam, os juízes, aguardar sando os Conselhos Peniteneiários - a cujo ]XUeCCT,
a iniciativa de quem quer que seja para tornar efeüI"U obrigatório, o ,juiz não está adstrito - influir na própria
11 acenada competência que, dada a sua natureza, C01'- extPl1são do castigo.
responde a um derer funcional. A função principal do Entretanto, de nenhum magistrado se sabe que
juiz é, sem dúvida, a de julgar, - mas não é, essa, sna tenha ol'g'anizado um prontuário para o fim de aeOll1-
ímica função, pois à vista do art. 141, § 22 da Oonsti- ]lanhar o cOlllportamento do recluso, habilitando-se a
tuição também lhe incumbe ser fiscal do respeito da infOTlIlar eom precisão o respectivo Oonselho Peniten-
liberdade física, como direito fundamental dos cidadãos. 1 ciário, quando da forll1ulação do requerimento de graça.
E mantendo ou relaxando uma prisão, comunicada, nada De nenhum que haja determinado aos delegados que lhe
mais faz senão proferir uma decisão preliminar sôbre prestem informes periódicos, úteis a êsse esclarecimento.
a leg'alidade ou ilegalidade dessa prisão. Ao conhecer O prêso não tem sequer oportunidade de mostrar que
dos processos criminais instaurados contra seus presos, está desenvolvendo suas boas qualidades, paTa fazer jus
ou ao conhecer de pedidos de conversão da simples de- ao ]iyramento. Oom êle, ninguém se incomoda. A Jus-
tenção em prisão preventiva, os juízes têm ensejo de tiça esvai-se quando o trancafia na pequena cela. Tal
ycrificar a falta de cumprimento do citado preceito cons- como se a sua missão fôsse apenas a de impol' conde-
titucional e, no entanto, não nos consta que, 1)01' sua vez, nações.
promovam a responsabilidade dos infratores, por inter-
médio do Ministério Público. 67. Na técnica do Oódigo Penal os presos ficarão
É certo que os juízes não deverão condenar as au- repartidos em dois grupos, conforme hajam sido conde-
toridades infratOTas, setn denúncia, sem processo; mas nados a penas de detenção ou de reclusão. A separação
é tamhém certo qne podem e devem ordenar ao Minis- tem um fundo IJl'ático, porque a detenção abrange os
téTÍo Público que promova a apuração da responsabi- menos desadaptados, ou os que mais fàcihnente podem
lidade" 12. ser recuperados. Incluem-se no segundo grupo os res-
66. Recolhido ao xadrez, o detento também julga tantes, ainda qUE' entre êles se encontrem indivíduos de
a Justiça que o COnd<211ou. Sabe que tem dÍTeitos e que boa formação.
êstes não lhe são reeonheeidos. É um homem como qual- Oonhecidos os reclusos através da observação, a
quer outro que sente a iniqüidade do tratamento que questão prineipal do pequeno presídio se resolve na es-
lhe é dispensado. colha das celas e na distribuição - lJor alguém que
12. Vicente Râo, O Direito c t:l Vida dos Direitos, 2,~ vol., item n,9 134,
tenha real inteTêsse - das pessoas que devem ocupá-las.
..\RRUDA CAIUPOS A n~STIçA A ~ERVIÇO DO CRUIE

Várias regras - isolamento diurno, transferêl1cia hém, embOTa de grandes pl'Oporções, nas quais os pro-
]JaTa (;olôllÍa penal ou cstabelceimcllto similar - não hl emas crescem na razão direta do vulto d.a população
passam de disposições estabelecidas sem scntido prático. carcerária, se, sabidamente, nelas o tratamento é inferior
Já a prisão de mulheres depende de cuidado maior, ao que pode ser dispensado aos presos no interior. En-
porque a lei, em quanto a elas, ficou abaixo daquele mí- quanto essa situação perdure, o princípio predominante
nimo de respeito à dignidade humana. No fundo do há de ser o que manda o magistrado defender o sen-
palavreaclo frouxo, que admite a falta do essencial, fica tenciado 1Jela sua colocação no lugar onde melhor possa
apenas a prisão C0111tnn, o xadrez no estilo medieval, que, I
reencontrar as fôrças que o abandonaram.
para a mulher é degradante. O trabalho, na prisão, será forçosamente de natu-
Os juízes devem exigir trahalho educativo para os reza simples. Ainda que se permaneça no artesanato,
detentos. Note-se que os presos geralmente indicam o muita coisa se poderá fazer pela dignificação do homem,
caminho. Fahricam canetas, cahides, tinteiros, rêdes de contanto que se tenha amor. A melhor política será a
pesca, covos, ehapéus de palha, jacàzinhos, etc. Cedendo elo desenvolvimento da iniciativa do prêso, que desco-
a um impulso interior incoercível, muitos prOCUTam fu- hriTá a tarefa que lhe convém - exatamente como se
gir do ócio e se entregam ao trahalho. Faz-se mister preceitua na lei.
nsar dessa fôrça regenerativa, que é como um protesto
contra a inatividade forçada e uma prova de que o 69. Tolice é negar-se ao detento a posse de certos
detento querganhal' a vida honestamente para prover
instrumentos de trahalho, sob o fundamento de que as-
a própria subsistência e a dos seus.
sim se torna possível o cometimento de outros delitos.
68. Os membros do Judiciál'io só servirão a J us- O estupro é comum nas prisões e nem por isso se cuida
tiça quando, estipulando o cumprimento intransigente impedi-lo. Nos grandes estabelecimentos penitenciários
da lei, acompanharem de perto o processo recuperativo de todo o mundo os sentenciados de bom comportamento
e se utilizarem, em benefício da regeneração dos indi- manuseiam nos a"ougues internos facas afiadíssimas e
yíduos, de todos os elementos que estiverem ao seu rar1.ssimamente delas se utilizam para matar os com-
aleance: - o ambiente familiar, a religião, o interêsse
econOll1leo. O detento do interior deve permanecer no J panheiros; nem os barbeiros das navalhas, nem os sa-
pateiros das sovelas; e, outros, têm em mãos serras
interior, a não ser 110S etl.SOS excepcionais. Há uma série capazes de eliminar quaisquer barras de ferro, sem que
de fatôl'cs de fixação e de fortaleeimento ético, que se lembrem de empregá-Ias a não ser no serviço que
existem nos meios provincianos e desaparecem nos gran- lhes está afeto. Em compensação, onde tudo é negado
des centros, e que não podem ser desprezados. ao pl'êso, acha êle meios de trazer em seu poder naYa-
De nada adianta a remessa do recluso para os es- lhas, facas, sovelas e serras, com as quais, ou pratica
tahelecimentos das capitais, quase sempre cadeias talll- novos delitos, ou então consegue a almejada evasão.
Df; AHRl'D,\ C.\:\IPOS A JUSTIÇA A SERVIço DO CRIME 97

Tudo llrpl'llde de 11ma ,wlpção arlpqmldn de P(',:;01\:; seja produto de negligência, impnldência ou imperícia,
(' soln·etudo de vigilâlll:Ía. A detenção é ganmtida, nfto ou de dolo, praticada por funcionário ou por estranho.
tanto pelas grades materiais, mas ]Jrineipalmente por Uma dose de compreensão há que envolver os resp011-
outras, de tipo diferente, (jue vão desde o olhar vigi- sáveis quando se apure que agiram, ainda que eulposa-
lante elo gnal'Cla armado de metralhadora, até as barras mente, movidos por sentimentos generosos, com o obje-
(la bondade e da eonfiança. tivo de alcançar, pela bondade, um resnltado superior.
Entre nós êsses pormenores não são levados em
70. O que mais contribui para as desfigurações do conta. O soldado tem mêdo do carcereiro. O carcereiro
sisü'ma penal, impedindo o cmprêgo ele novas práticas, tem mêdo do delegado. O delegado tem mêdo do juiz.
que visem o aperfeiçoamento e até f1. eliminação do regi- O juiz tem ll1êdo do triblmal. Quando ocorre uma fuga,
me carcerário, é o horror da responsabilidade. Há um o mêdo se canaliza e ganha fôrça. Busca-se o culpado,
sentimento difuso de mêdo que domina todos os setores. com mais afã do que o empregado na captura de um
J\fêdo sobretudo de que o rechlso se evada. delinqüente, porque o mêclo da responsabilidade tem que
Em certas nações a fuga <5 examinada de outro ân- ser fixado numa pessoa, para que as outras respirem
gulo. Sabe-se qne é eonsíderada um episódio normal, desafogadas. Para que sintam a sensação do dever
ou, pelo menos, quase natnral. Nas oficinas o f1.eidentc cumprido.
do trabalho é também nm evento que não pode sc.]' evi-
taclo, porque, em meio de uma coletividade de indivíduos, 71. A fuga deve ser combatida, mas desarrazoado
de quando em vez um ou outro sempre se deixa apanhar e que se lhe empreste importância que não tem.
pelos dentes de uma engrenagem. Do mesmo modo nu-
O foragido tem dois caminhos a seguir: ou se ajusta
ma cadeia, ou numa llenitt'neiária, não deve causar es-
à vida normal, ou permanece à margem da conduta usual.
h'an]wza que llm detento, qne parecia recuperado, maR
'1ne na realidade era um simnlador, ganhe liberdade à I No pI'Íllleil'o caso passa desapercebido, e, então, não há
inconveniente em que continue em liberdade; no seglmdo,
(,l1sb ele um descnido ou em conseqüência de um f1.lmso
rle ('ol1fial1ça. atrai sôhl'e sua pessoa a atenção dos agentes da auto-
ridade, retornando afinal à prisão.
As evasões devem ser estudadas, }JOl'que as suas
cansas podem residir em defeitos do próprio sistema As conseqüências de uma fuga, a não ser em casos
adotado no estabelecimento. A dureza do tTatamento, multo especiais, nada têm de alarmante. Não obstante,
por exemplo, costuma estimular fugas que em outras pam que um não fuja, os presos, regra gemI, são todos
C'Íl'Cllllstâncias não ocorreriam. Só deve caher l)TOcedi- l'smagados. }'Ol' êsse preço é adquirido o descanso dos
mento criminal para llunição elos culpados quando BC) (lne não querem ter respollsabilidf1.des,
wrifiqllc a e::\'Ístência de alguma interferência indéhita,
A ,TUSTIÇA A SERVIÇO DO CRIME 99
98 ARRUDA CAMPOS

72. Há 1ll11a curiosa inversão cl(" valores, digna 73. Inversamente, há desvalorização quando se tem
ele mn estudo mais apl'ofll1l(lado, no eapítnlo qn8 diz peja frente um mandado de prisão não emnpTido. .Tá
respeito à evasão ele sentenciados. não há mêdo. A responsabilidade é diluída. O tribunal
não pode inculpar o juiz. O juiz não pode se voltar
Ficou assinalado que uma fuga constitui sempre ('ontra o delegado. O deleg'ado está impedido ele agir
objeto ele 111Jl processo administrativo especial, de ex- contra o investigador e o soldado. Na frente de todos
traoI'ClináTio rigor, no qual se busca um responsável. se encontra o delinqüente, o qual tem o poder de se
Ficou demonstrado também que a fuga pode ser compa- ocultar quando percebe a aproximação dos agentes da
l'aela ao acidente do trabalho, prosseguindo a fábrica lei, isentando a pirâmide hierárquica do ônus da res-
na sua faina, sem que a produção seja paralisada para ponsabilidade 13.
a realização de um inquérito. Ficou salientado, por úl-
timo, que o prêso evadido, como decorrência necessária 74. Se foge 11111 pl'êso deve providenciar-se a sua
dessa situação, não cria, para a sociedade, qualquer pe- recaptul'a. Deve averig'uar-se ainda se, para atingir êsse
rigo extraordinário. resultado, não foi ajudado por terceiros.
Como se explica então, além do mêdo, êsse senti- Assinalamos que não há inconveniente em (lue o
prêso foragido permaneça em liherdade: - o mal repon-
mento que invade a maioria dos agentes do poder público
ta quando êle volta a delinqüir.
e que poderia ser chamado de cornplexo da evasão? A compreensão dêsse fato, pela eliminação do receio
É possível que as autoridades se sintam diminuídas da fuga, serviria pm'a o estabelecimento ele um regime
e queiram se compensar da injúria sofrida. É possível maior de compreensão pela sorte dos sentenciados. Faz-
também que sejam ll10yidàs por mn impulso sádico quan- -se mister uma radical mudança de atitude psicológica
do percehem que alguém logrou escapar elos ferros que
o prendiam. É possível ainda que se vejam na situação 13. Neste momento existem no Estado de São Paulo cêrca de 26.821
mandados de prisão a ser cumpridos, São 26.821 indivíduos condenados que
de quem foi rouhado de determinado objeto cuja gual'cla permanecem em liberdade. No fundo são exatamente iguais aos que se eV3 m

diram das cadeias, com a única diferença de que êstes já foram presos e oS
lhe fôra confiada. É possível, e até provável, que pre- outros ainda devem ser presos. Désses 26.821 inúmeros já faleceram, ou al~
CEmçaram a prescrição, ou, fugiram para outros estados ou outras nações.
tendam demonstrar que a falha foi de terceiros. Dá~se com éles a mesma coisa do mesmo dilema a seguir: ~ ou se ajustam
à vida normal. ou permanecem à margem da conduta usual. No primeiro caso
Tudo é possível, em se tratando de uma reação do passam desapercebidos e então não há inconveniente em que continuem em
liberdade: no segundo atrairão sõbre as suas pessoas, novamente, a atenção dos
espÍTito humano diante ele um fato inesperado e inde- agentes da autoridade.
A situação não admite paralelos. Os que foram presos e fugiram não
sejado. Daí a valm'ização do evento; que é logo comen- chegam a trezentos; os que ainda não foram presos sobem a 26,821. Contudo
o alarme é dado por causa daqueles, e não por causa dêstes. E, entre êstes,
tado púhheamente, noticiado 1108 jOI'Ilais, e que cl'ia am- muitos são os que compram a liberdade mediante subõrno, °que significa que
biente para agravos de amoT-própl'io e sugere represálias continuam delinqüindo, corrompendo. sem que haja comentários, noticias nos
jornais, ou mesmo inquérito policial para apuração de responsabilidades pelos
em vários sentidos. mandados não cumpridos (cf, "Diârio Oficial" do Estado, de 25-1,.1959, pâg. 8).
100 ARRU DA CA~IPOS
A .tUSltlÇA A SlmVlço no CRÍl\I~ 101

a respeito de 11m assunto que se reveste de tamanha sim- se não acompanha ele Pel·to a sorte dos homens por cujo
plicidade. É preciso resistir, é preciso, às vêzes, en- destino é em grande parte responsáveL
frentar a crítica, até que se imponha êsse ponto de vista,
em benefício da própria sociedade. Na U.R.S.S. - diz o eminente jnrista inglês - a ad-
ministraeão carceI'ária se vê submetida a uma constante
Na situação atual não há outra alternativa. Já
corrente> crítica pública que a obriga a cnidar atenta-
que se não dá ao prêso o tratamento mínimo que lhe
mente de seus atos. Por isso, conclui:
deve ser dispensado, então pelo menos que se reconheça
na fuga um ato de legítima defesa de quem se vê rou-
bado em anos de vida. Que o foragido ganhe êsse mundo, "Todos os reelusos realizam mn trabalho
não reincida e viva honradamente. industrial nOl1nal e todos recebem seu salário.
Têm o diI'eito de gozar férias; recebem visitas
75. O carcereiro deve ser restituído à sua verda- em abundância; sua faculdade de escrever e de
deira função. Em cada cadeia precisa existir mIl au- receber cartas é pràticamente ilimitada e não
xiliar do Juízo das Execuções Criminais, cargo não re- está submetida a censura. - Podem fumar
111l111crado, pl'ov-ido sem quaisquer formalidades pelo quando não estão trabalhando. Não lhes é
magistrado responsável pela recuperação dos detentos. proibido conversar com os outTos presos, nem
É fácil a obtenção de quem se incumba dêsse mister, com os guardas. Ninguém que haja percor-
porque, felizmente, ainda há generosidade no coração Tido uma prisão russa, comparando-a com Ulna
dos homens. prisão inglêsa, duvidará das vantagens do sis-
tema russo. Os presos com os quais conversei,
Elementos recrutados nas diferentes seitas religio" jovens e velhos por igual, eram homens empe-
sas estão sempre prontos a servir e, costumeiramente, nhados em sna regeneração. Sem dúvida eram
revelam nesse mister uma dedicaç.ão que chega a ser fracassados. Todav-ia, tive a impressão defi-
comovente. Éles se incumbirão de prestar aos senten- nida de que aquêles com quem palestrei re-
ciados o apoio de que necessitam, elentro e fora da prisão, gressariam ao mmldo mnito melhor prov-idos
até mesmo depois do cumprimento da pena, mediante que antes para lutar com sens problemas. A
a simples remuneração que consiste no sentimento de disciplina não os havia convertido em máqui-
um dever cumprido. Há mesmo necessidade da gra- nas. Compreenderam o valor do trabalho re-
tuidade da flmção, para que o móvel do trabalho seja gular. Não se lhes fêz sentir que estavam
a})enas a satisfação elo coração. excluídos do mnndo exterior. Não temiam a
sensação de estar sob a supervisão contínua de
76. Observou Harold J. Laski que nenhum agente nn1 ôlho inamistoso. Não são estas grandes
da autoridade pode realizar adequadamente a sua tarefa vantagens as que permitem apreciar com acêrto
AnurDA r.UIPOS A Jt'STI('A A SEHVIÇO DO CRÜIE 103

a teoria l'1il que se haseia ôste regime de tra- 77. Até aqui tratamos da máquina judiciál'ia e
tamento. A realização do trahalho indnshial elos homens que a movimf'ntmll, Paltam outros que
norl11i\1 a trôco do pagamento eOrJ'C'nte é, por exercem funções paralelas, como o Delegado, o Promo-
suposto, a tese básica dêste sisf011l1l. Contu- tor e o Advogado. A êles cabe a erítica formulada aos
do, Sllrpreendel'-me-ia se a experiência não juízes, porque são coniventes com o descalahro. Ad-
demonstTasse que o uso orgânico das horas mitem, como 11reSsllposto, que é assim, pOTque há de
de óeio pelo detento seja apenas menos im- scr a8SH11. Na polícia estamos hahituados a encontrar'
portanh'. O rádio, aulas sôhre temas cul- no noticiário dos jomais infonnações sôbre barbarida-
turais e profissionais, livro''', T0presentações des ali cometidas. Há delegados que procuram suprir
dramáticas, concertos para os presos ou exe- a própria indigência intelectual pelo emprêgo de mé-
cutados por êles mesmos, um jornal do cárcere todos inquisitoriais, chegando ao ponto de matar as suas
cuja característica principal é o direito de for- vitimas, ou levá-las ao suicídio. No Ministério Público
muI ar queixas, são manifestações correntes. reina, domina e fulgura a hipocI'isia, ()leVada ao apogeu.
Conheci presos que nas suas horas de ócio Há promotores que se gabam do seu I'igorismo e somam
assistiam a aulas na uninJI'sidacle. Iam e vi- as condenações e os anos de cadeia que conseguiram,
nham da prisão sem guardas, nem temor de supondo - pobres infelizes - que assim estão subindo
que pudessem eS<lapaI'. Conheci dois homens os degraus de uma noya escada de Jacó. Na advocacia,
que cumprindo as suas penas, haviam sido di- o Cllxurro dos inco11111etentes, contribui pal'a mn des-
plomados em advocacia e química na Univer- caimento elo nível fnncional da classe e permite a luta
sidade de .Moscou. Em um estabelecimento desigual entre o promotor calejado no ofício e o pro-
penal, a admirável escola secundária tinha de- fissional ignorante, em prejuízo do desgraçado réu, que
corações murais realizadas por um grupo de é qnat.ro v<'ZGS réu: - réu da opinião pública, réu do
presos qmé haviam aprendido essa arte nas processo, réu do seu próprio defensor e réu do seu juiz.
classes noturnas da pTisão. Chamaram-me a A espantosa cTisc que assola o Brasil se manifesta
atenção as excelentes relações entre os presos na esfem da Justiça fechando os olhos às criaturas que
. e os guardas. E tive a sensação de homens ,-êem, entupindo os ouvidos às que ouvem, tapando a
(Iue viviam uma vida útil, livre da tortura que bóca às que falam, que gritam e que proclamam o sen
significa a impossibilidade de exteriorizar a prot.esto,
própria personalidade, característica predomi- Se, no dia elo .Juízo Pinal, o Senhor interpelar os
nante de nosso sistema" ". que participaram da tragicomédia da .Justiça Pública
hrasileira, indagando o que fizeram pelos que por êles
14, LaskL ob. dt, págs, 90;91.
foram sent.enciados, bem poucos terão o que responder.
104 ARRUDA CAMPOS A JUSTIÇA A SERVIÇO DO Cnr:M& 105

Muitos dirão, ao ouvir um nome conhecido: - conde- sentido de que mandasse cerrar as cortinas do Cristo
nado. Bem poucos exclamarão com firmeza na voz: que pendia ela pareele. O advogado argumentou dizen-
- recuperado. do que era materialista e se sentia mal falando diante
do símbolo de uma religião que não professava.
78. Trata-se em resumo, de uma simples mudan- O juiz respondeu: - "Deferido. O Cristo é em1
ça de ponto de vista. Em lugar de presos, deve con- símbolo da religião católica e a Igreja está separada do
siderar-se que nas cadeias vivem homens. O homem Estado. O senhor Oficial de Justiça que cerre a cortina".
tem uma dignidade que é preciso seja preservada, ainda Nos instantes finais do julgamento, quando interpe-
mesmo no cárcere, ou principalmente no cárcere, porque lou os jurados sôbre se tinham algum esclarecimento
todo o trabalho de reconstrução do delinqüente visa a pedir ou algeml requerimento a formular, um jurado,
justamente o fortalecimento elêsse sentimento de digni- que era religioso, elisse mais ou menos o seguinte: -
dade. Ê óbvio que se a dignidade é esmagada, nada "Senhor juiz. Sou católico e só posso decidir tendo dian-
sobra para ser salvo. te dos olhos a visão do Cristo. RequeiTo portanto a
Se os homens são desiguais, tratá-los com igualda- · ".
V. Ex.' que mande d escerrar a cort ma
de, significa tratá-los com injustiça. É preciso que haja Então o magistrado decidiu: - "Se o senhor jurado
coragem e que o princípio de que todos são iguais pe- é católico deve ter o Cristo no coração e não precisa
rante a lei seja entendido em tênuos, como manda a dêle na parede. Indeferido".
Justiça. Êsse episódio, que até parece anedótico, tem con-
Dentro da cadeia deve haver um culto. Ali, mais tudo um fundo expressionista admirável. Ê que a gran-
do que em qualquer outro lugar, a noção do justo deve de maioria dos homens não qner saber do Cristo, como
ser venerada. Como a justiça humana é falha, ali tam- Cristo, senão como um objeto decorativo, ou o símbolo
bém, mais do que em qualquer outro lugar, deve ser do poderio de uma religião sôbre as demais. Entroni-
cultivado nos detentos a noção do perdão. zam o Cristo no salão nobre, porque se trata do salão
Que se possa dizer amanhã, aos 1,re808 que se sen- nobre. Ninguém se lembra que o Cristo também de-
tirem vítimas, que nos perdoem; e aos que se sentirem veria ser colocado no xadrez, na cela imm1da, para
simplesmente justiçados, que se reammem, porque os edificação dos sentenciados. Para que êles, contem-
juízes os ajudarão. plando dia e noite aquela figura triste, do homem
pregado na cruz, C0111 a cabeça coroada de espinhos,
79. Chegamos ao fim. Antes, porém, queremos pudessem reencontrar as fôrças que os haviam desam-
nos referir a um caso que oconeu com um magistrado, parado e voltar curados ao convivio dos bons.
que era agnóstico, e que, presidindo um júri, foi sur- O problema ela criminalidaele tem Ullla prof\mdi-
preendido pelo advogado de defesa com um pedido no dade que ninguém até hoje conseguiu medir. Ê o
1(16 ;\lm ('DA CA:\lpnS

rl1'oblCllW do hOlllC'm, na mais dramática das suas ex-


pl'cssões. Porque não adianta apenas educar. Os maio·
res delinqüentes são justamente os mais inteligentes e
mais cultos. São às vêzes educadíssimos.
O que adianta é entronizar o Oristo no coração de OAPÍ'I'ULO VI
cada criatlll'a, visando a purificação dos sentimentos NOTAS AVULSAS
lmmanos.
A linha que separa o líei to do i Hei to é vária e ir-
I
regular. Ela é traçada pelo legislador, que exprime
num tendênüia, uma conjuntura social e econômica. POl' j LIMITES DA AÇ1\0 DO JUíZO DAS
isso, temos a esperança de que surja, 110 mundo novo EXEOUÇÕES 15
que se está formando e cujos prenúncios sentimos nessas

I
lutas que se travam em todos os países, que llesse nllmdo
J~ste ensaio aborda o problema das pequenas ca-
novo apareça também um direito novo, qne puna igual-
mente o vi.garista e o incorporador de certas sociedades, deias e não o das penitenciárias. Oomo estas não têm
e puna também o índnshial G o eomel'ciante podero- eapacidade para abrigo da maioria dos detentos, nem
sos, que, à custa de lucros extraordinários, conhihuem é conveniente o deslocamento de certos delinqüentes para
para o encarecimento da vida e criam a pohreza e a os grandes centros urhanos, continua tendo atualidade,
miséria coletivas. porque abrange o geral e não o especial.
Êsse mundo novo está à vista, embora ninguém saiba
15, Em 1956, na Capital paulista, por haver um repórter encontrado
como se constituirá. Nêle haverá mais igualdade e pos- na rua um sentenciado. pràticamente recuperado, que, com licença de viajar
sozinho de uma prisão para outra, se desviara do trajeto normal, o egrégio
slyelmente mais justiça. Os homens, llessa altura cum" Conselho Superior da Magistratura baixou tlma determinação que até hOje
pl'irão o preceito divino do com.erás o teu pão com o não foi revogada:
"PROVIMENTO XLVI
suor do teu rosto. E, em vez de se cligladiarem na podia
O Conselho Superior da M agistrafura, no uso de suas atd~
do lncI'o, do ganho à custa ela perda de terceiros, res- buíções legais,
DETERMINA aos senhores Juízes de Direito da Capital e
peitarão a palavra do Oristo, dêsse Oristo suave e amoc do Interior do -Estado que fica proibida a saida de presos das
1'OSO, dêsse Oristo tii.o eXIllorado, quando disse às pobres
cadeias publicas locais e estabelecimentos penais do Estado de
São Paulo, para visitas em geral, casos de moléstia ou morte de
criaturas que somos nós: amai-vos. Amai-vos 11ns aos pessoas da família, bem como por qualquer outro motivo, exceto
para atos judiciais ou remoção de detentos pata hospitais~ em
outros. casos de enfermidade pessoal. por determinação expressa dos
juízes competentes.Publique-se, registre e cumpra-se,
Slío Paulo, 10 de janeiro de 1956".
(Diário Oficial, de 12-1~1956).
Daí o pronunciamento do diretor do Departamento de Presidios do Es-
tado, que transcrevemos ~ data venia ,-' pela circunstância de que traz va-
liosos subsídios para melhor estudo do assunto.
108 ARR"FDA c.nrPos
A rCSTlç'A A SERVIÇO DO CRIME 109

Quanto ao es})ceial, saliente-se que até agora nem e os limites do direito à execução ou às Illodalidades
o Legislativo, nem a Justiça, decidiram a quem compete essenciais desta, abrangendo o conjunto do regime car-
a orientação da reeducação dos reclusos nos estabele- eerário".
cimentos de maior vulto, se às autoridades administra- "O ProL Jorge Americano, em conferência proferi·
tiyas, se às judiciárias. da em 1943 nesta capital, numa semana de estudos
A êsse respeito parece oportuna a transcrição de penitenciários proIllovidos pela Secretaria da Justiça,
trechos de um trabalho que sôbre o assunto foi publicado escreveu: "Nessas condiçõe8, uma vez IJroferida uma
na imprensa pelo Dl'. João Gomes da Silva, quando sentença pelo juiz, está cessada a sua função jurisdicio-
diretor do Departamento de Presídios do Estado, no nal. O Poder Judiciário, em princípio, não a tem na
qual reinvidica sua competência, então negada pelo Con- execução da l)ena, em face de não haver colisão de in-
selho Superior da Magistratma de São Paulo: terêsses da parte da sociedade em relação ao réu que
H • •
om1SS18 ... vai cumprir a pena. Há coincidência de interêsses, em-
bora o réu não tenha dela consciência plena". E mais:
Cite-se, a propósito, Roberto Lira, que escreve:
"Condenado êsse homem, entrega-se, então, à autoridade
"Em alguns Estados existe o juízo de execução, mas a
representativa do interêsse social o cumprimento da pe-
tendência é desenvolver a ação dos conselhos penitenciá-
na. Deve se1" só a autoridade administrativa a que
rios, sem retirar às autoTidades carcerárias a indispen-
providencie a execução da pena, ou deve ainda prolon-
sável margem de iniciativa e orientação. O problema
gar-se a função da autoridade judiciária durante a exe-
da liltervenção do juiz na execução preocupcL e divide
eução da pena? Não seria possível entregá-lo à auto-
os especialistas, assumindo importância fundamental
I ridade judiciária para ela mesma providenciar sôbre
para os que preconizam a indeterminação da pena.
a execução da pena. Existe uma série de estabelecimen-
Mesmo sob o regime de indeterminação relativa, como o
tos confonlle a natureza da pena a eumpl'ir, uma série
nosso, sobretudo pela adoção das medidas de segurança,
a matéria merecc o maior aprêço. Estudaram-na a
Sociedade Geral das Prisões, na sessão de 12 de março
1 de providências, de tratamentos que distrairiam comple-
tamente a autoridade de sua função jurisdicional para
tl'ansfol1ná-la em mera autoridade administrativa. E
de 1932, estabelecendo conclusões em tôrno dos debates
se, em principio, resolvêssemos atribuir à autoridade ju-
ele 23 de dezembro de 1931, 27 de janeiro e 27 de fe-
dicial a direção total na execução da 1'8na, teríamos
yereiro de 1932; a União Belga de Direito Penal, a
apenas nominalmente uma função jurisdieional. A au-
2 de junho de 1934; o Congresso Penal e Penitenciário
Internacional, de Berlim, em agôsto de 1935; o IV Con- tOl"idade se transformaria em uma autoridade adminis-
gresso Internacional de Direito Penal, de Paris, em trativa para providenciar o tTatamcnto penal devido ao
;julho de 1937. No Congresso de Berlim predominou a condenado". Por fim, aereseentn o mestre: "A inter-
solução alternativa. O conflito envolve a subsistência venção da autoridade jmliciária na execução da pena que
110 AHnrDA cnrros J11

wráter reveste 'I Em centos casos, o em'áter jurisdicional. (18 13 de maio de 1955, entre en,jos "c01l.úderallclos" COllS-
]~lll eertos outros Casos, n ml'áter adminishat.ivo. E ta êste: "cowlidcl'uw1o qm, aqllêle decreto-lei necessita
em certos outros casos, o caráter de lUera fiscalização Sel' aplicado de forma a permitir que a ol'gllm:,zaçlLo
e snpervisão. Dail'CS1.17ta a, possibilidade de confusão penitenâária paulista te1171a um órgüo qlW a 8~tperden­
de atribwições entre autol'iclades (1.dministmtivas e jndi- da, dirija e oriente, a fim de preenche'!' plenconente as
clárias, c, )1.(1. prática, ú!.tervençõesindébitas de atl'ibui- ,luas finalidades, i11clusive () cumprimento das deternú-
cões. Esta confusão que, em tese, pode ser prevista e nações constantes cio Código Penal e do Código do P'J'O-
~el'á delimitada, suprimida ou reduzida a um mínimo cesBO Penal", decreta, etc, Êsse "órgão", pelo decreto,
(lesde quelww legislação wZeq1Ladc1. deter'mine a rigor outro não é senão o D€1)al'tam8nto, ele que sou o diretor-
qual a f'unçüo da autoridacZe administrativa, qlWZ a in- -gera,J com essa at 1'1'1)\Uçao
. - de " . t en d'"
supenn er, "d',' . "
lUgl1'
tervenção da cudorúlade jucliciá,l'ia, dist'inguinclo o poder 8 "orientar" (al't. 5."). Aí está, lJOrtanto, o Executivo
,iwrisdl:cional do administrativo, e, dentro do poder ad- ]Jroclamando a intenellção da autoridade administra-
ministrativo, qnal aquela autoridade a que deve COIl1})('tir tiva. E também o LegislatiYo o faz, pois pela Lei H."
e em que proporção, e conferindo à autoridade judiciária 2.699, ele 17 de junho de 1954, importante atribuição se
a faculdade de supervisão, do contrôle da execução da eonfere ao Departamento (art. 5.'), no sentido de levar
peua que ela mesnia pronunciou". Infelizmente, ainda presidiários a cultivarem "as terras devolutas situadas
não existe, entTe nós, essa "legislação adequada". Um nos arredores ou nas cidades cu.ios presídios não dis-
antepl'O.ido de Código Penitenciário se fêz, após a IV I '
f pon1iam de areas aproveI't'aV81s.
."
Reunião PenitenciáI'Ía Bntsileira, que teve por sede Belo liI
Horizonte, a fim de que se viesse a "regular, de forma "O que há, pois, fi uma divergência deintcl'pretação,
elara e definitiva, em todo o telTitól'io nacional, tuelo o e 11unca, jamais, falha ou abuso da autoridade admi-
(lue diz respeito à execução das penas criminais e às nistrativa. O Código de Processo Penal regula o poder
lIledidas de segurança detentivas" ( Da Justificação do do juiz na execução ela pena e seus incidentes, não me
anteprojeto). Êsse anteprojeto, entretanto, apesar de parecendo que lhe atribua função administrativa. Esta,
a meu ver, cabe ao órgão executivo. De outra parte,
entregue ao Oov1'1'no PedemJ, ainda não foi tnmsfOTma-
note-se que a concessão "dos favores gradativos", a que
do em lei".
se refere o art. 32 do Código Penal, é matéria l)ertinente
H , ••
0ll11SS1S •• , à administração prisionaL"
Cita em seguida uma cota do ProL Plamínio Pá-
"\"ül'O:

"O ntnaI gO\"êI'110 por sua vez, reportalldo-se ao


lko'eto-lei Jl.' J:3,2H8, de 194:3, lmixon o de ll." 24,5;1l,
112 ARRUDA CA::\Il'OS .\ JUSTIÇA A SfmVlçO DO CRIME 113

801ução pa1'>\ O caso do" detentos que 'lucrem trabalhar,


II não se pode deixar de obsol'var que ambos partem de
])rcssupostos inteiramente errados. Aliás, trata-se de
TRAJ3ALHO DE SENTENCI.ADOS
uma reiteração, porque até o Conselho Penitenciário
REMUNERAÇ"\O 16
claudicou nesse mesmo ponto quando, examinando um
A Delegacia Regional do Trabalho, consultada pelo processo oriundo de UIna comarca do interior, onde exis-
DelJartamento de Presídios do Est.ado sôbre a legali- tem pl'esos que trabalham, bateu na mesma tecla da
dade elo trahalho dos sentenciados na construção da existência de contrato.
Casa de Detenção, na qual vão receher salários da firma O pl'êso não trabalha porque assim o deseje. O
vencedora da concorrência, opinou que o contrato de h'abalho é uma decorrência legal, um imperativo do Có-
trabalho não poderá ser feito entre a companhia elll- digo Penal, pouco impOI-tando que poucos o respeitem
pl'egadora e os sentenciados. Admitiu, contudo, o con- nesse ponto. Não há contrato, porque o contrato supõe
t.rato de trabalho indÍTeto, isto é, entre a fiTl1la e o cli- acôrdo de vontades e não há vontade num detento que
l'etor-geral elo Departamento de Presídios do Estado, vai para o serviço porque a êle está obrigado. U go
Conti esclarece bem a questão ao afirmaI' que o prêso
Essa foi a notícia que um jornal publicou e que
"não presta o trabalho por livre contrato, mas justa-
não foi desmentida nem retificada. "Deverão ser res-
ll1cmte por obrigação inerente à pena". Um dos elabo-
peitados os direitos comuns aos operários em geral, como
radores de nosso Código Penal, Roberto Lira, suste11ta
o salário mínimo, hOl'ário de trabalho, descanso semanal
o mesmo ponto de vista, que aliás transparece do texto
remunerado e demais direitos previstos na Consolidação
do Código com melidiana clareza: - "O trabalho car-
das Lt'is Tra haJhistas, tendo em vista o regime ,igorant.e
em'ário não se confunde, porém, com o trabalho espontâ-
na Penitenciária, quanto [la "modus vivendi" elos 8en-
neo e éontratual da vida livre, pois entra no conjunto
teneiados qne se propõem a executar tais obras denho dos deveres que integram a pena". Conseqüentemente,
das snas respectivas funções e possibilidades técnicas tl são insustentáveis as afirmativas, e descabidos os receios
profissionai.s." Isso, entre aspas, consta da resposta da tmüo do Conselho Penitenciário quanto do relator da
eOlIsnlta, o que sig'llifica que a notícia se reveste de resposta da Delegacia Regional do Trabalho, qnando
inteiro teor de yemcidade, J)odendo sel"Yir de base ao admitem a possibilidade de existência ele contrato conmm,
]lrcsfmte comentário. bilateral, entTe duas pm'tes lines c plenamente capazes,
Apesar da boa yontade que se nota nas dnas partes, pela simples razão de que uma delas tem a fma vontade
eonsnltante e eOllsnltado, que pl'Oélll'mn encontrar uma coada ]lor um pn:ceito de lei.
O assunto não é todavia muito claro quando se co-
16, Sol !las Cadeias, artigo do A. in "O Estudo de São Paulo", de
2,11-1952. g-ita da dellominac;ão que se deve dar à retribuição do
.\ JTSTIÇA A SERVI!',:D DO CRIME 115
114 ARRUDA CA".l\fPOS

trabalho do detento, POHj1l8 ,l([lli há divisão de opiniões, qnanto aqui fonl UllS pensam assim, c assegul'am a 1)1'6-
Plltcnclendo uns que 813 trata de salário, enquanto outros pria tranqüilidade, niio criando easos, no eárccre c(mtiJ-
aludem a mera gratifieação. Questão secundária. A nas de criaturas sofrem l'01'que não podem nem mesmo
nosso ver nã.o há saláTÍo, mas llma compensação econô' dar provas de que estão animadas de bons p1'Opósitos e
mica que decorre do principio geral do direito civil de querem demonstrar de fOTll1a inequívoca que nêles a
que o trahalho não se preS1ll11C gratuito. Com o dinheiro pena atuou beneficamente.
conseguido através da prestação de seniços o recluso
tem meios de pn,parar a sua vida hOllrada após o cum-
primento da pena, em vez de sair da prisão, como agora, 111
desajustado e sem dinheiro, ou preparado para reinci-
dir na infração da lei penal. VISITA A UM REFORMATÓRIO INGLÉS 17

Os presos podem trabalhar. Os presos devem tra- Os inglêses não relutaram quando lhes manifestei
balhar. É neeessário que os presos trabalhem. A lei o desejo de abril' mão de Cambridge por um simples
exige que os presos trabalhem. Assim como ela foi reformatól'io de menores. Através de uma explicação
al1licada contra o delinqüente, pOTque êle a violou, assim pTeliminar, percebi que muito mais desejariam mos-
também deve ser aplicada a favor elo delinqüente, para trar-me a famosa universidade, onde a mocidade se pre-
qne êle encontre meios de se recuperar. para e se faz britânica. Contudo, nem foi preciso insis-
Se a doutrina não é clara, se há dificuldade na in- tir. Nosso "guia", o magnífico 11:1'. Stow, da embaixada
terpretação de eertos textos, se não se esclareceu per- no Rio de J anei1'O, deixou transparecer que somente es-
:feitamente a questão da responsabilidade no caso de tava desapontado por causa do desapontamento que eu
aeidente, ainda assim às autoridades cumpre levar por sentiria. E foi só. Levou meus companheiros ao tTa-
diante a execução do programa de tratamento dos cri- dicional centro de ensino e deu-me um carTO para uma
minosos, deixando os· casos futuros para serem resolvi- visita a Lewes.
dos quando apareçam. Se não há jurisprudência oTÍ.cn- Foi assim, às nove e meia da manhã, num dia nu-
tadOTa, pouco im]Jorta; à medida que as questões forem blado e triste, que lHe pus a caminho Tumo sul, C01110
surgindo, os tribunais formarão a jurisprudência que ([uem S8 dirig'e para () Canal da Mancha.
falta, provoeando a ação do próprio legisladOT paTa Londres demorou, mas cedeu. A cidade imensa
que regulamente melhOT a matéria. acabou diluída em bairros e por fim numa rua. Al-
O que não <3 possível é a continuação dês se regime cançamos a estrada de asfalto, Tampemos por uma
atual, em que todo o mundo vê fantasmas, supõe lJcrigos
e reagiJ em função de riscos imaginários. Porque, en- 17. Um Reformatório Inglês,. artigo do A, inédito (1950),

[
I
116 ARRUDA CAMPOS A ,JUSTIÇA A SERVIÇO DO CRUtE 117

encantadora zona SCmi-I'111'nl, cntremeacla ele casas Após o almôço, no \Vhíte Art Hotel, encaminhamo-
de campo e de aldeias. Cinqüenta e oito quilôme- -nos paTa o reformatório de menores. Aqui nos esperam
tros, como de São Paulo a J tmdiaí, cruzando carros pela Mr. Mitchell "deputy goyernor", diretor do estabeleci-
esquerda, a perna cansada de tanto comprimir a tábua mento. Por primeiro mostra-nos o museu, no qual se
de apoio dos pés na procura de um pedal inexistente. destacam as peças de um processo universalmente fa-
Pelas tantas alcançamos os limites do condado de SU8-
\ moso, muito recente, do cidadão que usava ácido sulfú-
sex, onde a paisagem entrou bruscamente a se modi-
I' rico para dissolver os C01])OS de suas vítimas. Entre-
ficar. Começaram a aparecer montanhas de forma<:ão I tanto, muito mais interessante que a visão dos vestígios
calcárea, índice da aproximaç.ão de Doyer. de seus crimes, mais importante que a contemplação dos
Ao longe delineou-se a região de Hastings, em que antigos instrumentos de suplício das várias idades pas-
os inglêses perderam a última batalha travada no solo sadas, é nm certo fato ocorrido com o célebre criminoso,
da Grã-Bretanha. E de repente, por hás de uma dobra que já estava na prisão de Lewes quando foi chamado
de terra, Lewes se incorporou aos meus olhos, como uma I de "vampiro" por um jornalista londrino. Pois bem.
t Da cadeia onde se encontrava, o prêso moveu uma ação
cidadezinha antiga, muito quieta, de ruas estreitas e tor-
tuosas, subindo e descendo elevações, criando o proble- por injúria contra o autor do qualificativo e conseguiu
ma máximo das autoridades policiais, que é apenas o fôsse êle condenado a três meses de detenção e ao paga-
do tráfego. mento de dez mil libras de multa.
Vou direto para a cadeia, cujas instalações são mo- Êsse fato, possível na Inglaterra, parece-me ver-
destas, limpas e se apresentam 11a mais perfeita ordem. dadeiramente espantoso. Imaginem se tal regime pu-
Celas semelhantes às nossas, pôsto mais confortáveis, desse ser aplicado no Brasil. ..
sem o aspecto de indignidade que caracteriza o xadrez O reformatório é destinado a menores delinqüentes.
típico brasileiro. As instalações sanitáTias estão 110 pró- Como aqui tudo é tradicional, penso que suas regras
prio quarto, mas a descarga é dada do lado de fOTa, para datam do século passado. Prédio velho, rodeado de
que sejam evitados suicídios. Há camas c aparelhos muros altíssimos, de oitenta anos mais ou menos. Trin-
de aqueeímento para o inverno. O detento enfim é tra- ta guardas para 250 rapazes, dos quais 5,/0 reincidentes
tado como gente. e 23,/0 duplamente reincidentes. Daí o motivo pelo
qual os restantes, primários, so"frem h01'1'ores. Não é
O delegado, MI'. Breffit, me exibe os livros comuns à toa que eUl todos os cantos são vistas grades de arame
de l'egistro de presos e lmrwnta não haver nÍJ1gném na tipo "pago", estendidas horizontalmente, como as rêdes
prisão para que eu o interrogue. Há três mp,S8S não que defendem os acrobatas nos circos de cavalinhos.
aparece nem mesmo mn bêbado. Para que os rapazes não sintam vontade de se matar.
A JT.~S'rIçA A SER\'IÇO DO CRIME 119
J18 ARRUDA CAMPOS

foram julgados. Isso é contra a lei, mas não há outro


O trabalho é forçado e cxecutaelo sob cOllStante remédio. Jb pl'cferivel qU0 fÍfllwm aqlli do qne soltos ...
vigilância. Fui informado de que poclem conversar,
A linguagem não me é desconheeida. O problema
mas o que notei foi um silêncio pesaelo, em tõdas as
ocasiões em que pude observá-los sem ser pressentido.
é ielêntico ao de São Paulo e os inglêses não levam
Trabalhos de marcenaria, sapataria, trabalhos ele pe- nenhuma vantagem quanto ao fator egoísmo. Lá e
elreiro e fabricação ele tapêtes. Anoto esta última ati- cá ...
vidaele e vejo como é fácil proeluzir capachos. Penso Tenho ponto ele vista firmado a respeito elo asslU1to
em que pelo menos êsse tipo de serviço poderia ser e acho que o menor delinqüente eleve ser sôlto, para que
adotaelo no Brasil, como fonte ele renda para os deten- roube à vontaele, até que a socieelaele aprenela e elê meios
tos, mas Mr. Mitchell me informa que vai abolir a fa- às autorielaeles paTa que possam tratá-lo. Não se poele
bTicação elo artigo por ter ficado provado que o serviço. sacrificar o menor porque a socieelaele é desleixaela,
é anti-higiênico. descuielaela, elesumana, e não procura socorrê-lo. Por-
À medi ela que percorro as diferentes salas do ca- que o l'esultado é êsse: - liquiela-se um jovem, COTTom-
sarão vou colhendo informações. Chaves em abundân- penelo-o no contado com elementos ela pior espécie, por
cia, caeleados a três por dois. Na biblioteca verifico que calma ela ineliferença ela coletividaele; e ela, venelo-se
os rapazes lêem méelia ele quatl'o livros por semana, livre daquele elemento que podia sel' recuperado, mas
que é o máximo que se lhes concedé. Não têm propria- que entrega à 11crelição, não sente necessidade de reagir.
mente jantar, mas chocolate, seguido de uma hora de Gasta fortunas imensas em festas, em recepções, em
silêncio, nas celas, cujas portas ficam abertas. Então, "boites", numa ostentaçã,o ele riqueza que é uma aÍTonta
os mais atrevielos se passam para os quartos vizinhos para os humildes e recusa apoio a uma campanha séria
e quando apanhaelos são duramente castigados. Vinte e paTa concêrto da situação. Um abominável círculo vi-
oito e.stavam senelo pm1Íelos. cioso, que deveria ser quebrado por uma pTOvidência
violenta e escandalosa, capaz ele proeluzir pelo menos
Hospital vazio, o que à primeira vista significa-
alg'um reslútaelo prático.
ria bom indício. Todavia, mostram-me objetos que os
reclusos engolem, pregos in.clusive, na esperan.ça ele ser Chego ao fim da visita. Da janela gradeada da
tratados fora, quando então poderiam tentar a fuga. enfermaria distenelo os olhos e avisto uma faixa azul-
Êsse pormenOT elá bem idéia do elesespêro daquela mo- -cinzenta que rebrilha aos l'eflexos do sol. Já é o mal'.
cielaele tranSviada e da revolta que ela há ele sentir ao Do outro lado do canal famoso aelivinho o continente
se ver trataela com tamanha frieza. europeu.
MI'. Mitchell fala-me ela limpeza rigorosa do esta-
O diretor lamenta a situação. O pior - eleclal'a-
beleciment.o, dos banhos de imersão que os inteTllados
·m.e - é que aqui s() encontram m('nOl'es que ainda não
J20 ARRUDA CAMPUS
A JT·STJ~.\ ;\ SERVIÇO DO CRI;\m 121

tomam uma vez por semana, da alimentação que é ahllll. cometido delitos de menor gravidacle. Observa-me que
dante e sadia. Perceheu minha tristeza em voltar de- 110S80 Código mais defende a propriedade privada do
cepcionado, sem uma idéia nova para trazer à minha que o indivíduo e quer saber dos índices de reincidência,
terra. .Eu olho e vejo. Vejo a limpeza rigorosa das pois não é possível que, ignorando a pessoa do crimi-
coisas, os baldes vermelhos sempre cheios de água na noso, tal regime possa produzir resultados práticos no
previsão de um incêndio de colchões e conseqüentemente sentido de reeducar o delinqüente. Depois, sorrindo,
do velho prédio da prisão. O piso encerado, as paredes diz-me que seu interêsse é puramente científico, pois na
imaculadas. Tudo rebrilhante. .E, melancolicamente, U.R.S.S. mtútos CITOS têm sido cometidos e é necessária
concluo comigo que a limpeza é só das coisas inanima- uma atitude de permanente vigilância para que as fa-
das. Lá, como aqni, ninguém cuida de limpar o lhas sej am corrigidas. Assim, não faz críticas por mal,
homem. senão apenas porque quer permanecer sempre atenta,
contribuindo com sen quinhão para a redenção dos
IV homens .
.Em seguida entra a explicar-me que na União So-
VISITA À UNIÃO SOVIÉTICA 18 viética, não havendo propriedade privada, nem a explo-
A camarada Tatiana Sergueiva, professôra do Ins-
tituto de Direito da Academia de Ciências da U.R.S.S.,
que me concedeu uma entrevista especial para colheita
II ração do homem pelo homem, forlUll de plano eliminadas
as principais causas dos desajustes que entravam o
progresso nas demais nações capitalistas. Não obstante,
fr
de informes sôbre a situação atual do direito penal so- I. diz, ainda há muito que se fazer, pois é grande o número
viético, conhece com alguma profundidade a legislação dos inadaptados que, por vícios educativos, derivam pa-
ra a delinqüência.
específica dos países da .América Latina. Comeca a
conversar livremente e me pede a opinião sôbre po~ltos Na U.R.S.S. o princípio constitucional de que "quem
de intel'êsse prático tão vaTiados que, às vêzes, me em- não trabalha não come" só não é cumprido por uma par-
haraço na resposta. Pergunta-me como há tantos anos cela Ínfima da população. É justamente aquela que
admitimos no Brasil () absurdo existente no Código Pe- acaba na criminalidade. A experiência mostra que o
nal do liVl'amento condicional na metade do prazo de- trabalho constitui o melhor derivativo. Onde o homem
ferido apenas ao sentenciado qne deve cumprir uma se entreg'a às fainas produtivas, não ocorrem crimes a
pena superior a três anos, ficando os outros, de menos não ser por fôrça de motivos especialíssimos.
de tTês anos, obrigados a, permanecer no cárcere por O furto ainda produz dores de cabeça e seu combate
todo o período, sem qualquer benefício, ainda que hajam é feito indiretamente, pelo ataque às suas causas, pela
educação dos que trabalham com bens alheios, pela or-
18. Notas de um caderno de vingE'l1l à União Soviética (1955). ganização de sistemas de "col1trôle" dêsses bens (geral-
122 ARRUDA CA1.1PO$ A ,TUSTtÇA A SEltVIÇO no Cllt::\U<: 123

mente do Estado) c, pl'ineipalmoute, pela melhoria das 1m 1'a menos, caso se YCl'ifiquc que houve exagêro no
condições de vida do povo. cálculo, lllas nunca maj orada. O máximo é de 25 anos,
Em 1947 foram tomadas IJelo govêrno duas reso- excepcionalmente; na prática, não vai além de dez anos.
luções: - por uma se cogitou da defesa dos bens pú- Existe a pena de morte em tempo de paz, para os
blicos e, por outra, da dos bens particulares. A res- réus de crimes extraorclináTios: - homicídios qualifica-
ponsabilidade 1Jenal imlepende do valor do objeto dos, com requintes de perversidade, atos de banditismo,
subtraído e as sanções foram tomadas ainda mais seve- sabotagem, espionagem e traição ela pátria. A pena de
morte foi abolida em 1947 mas acabou sendo restabe-
ras, por se ter verificado que as Plillições anteriores
lecida por exigência da opinião pública entre 1950/52.
não atingiam o resultado visado. Não obstante, certos
delitos de escassa gravidade fOl:am contemplados com Laborterapia nas prisões, gozando o detento das re-
castigos menores, por se ter apurado que, nesses casos, galias comuns dos operários. Não quis responder sôbre
a parte sexual. Há livramento condicional, existindo
o abrandamento da pena facilitava a recuperação.
institutos especializados que se incumbem de verificar
Os delinqüentes primários fazem jus a um trata- se o liberado de fato se readaptou.
mento que varia do trabalho de coneção, em lugares A responsabilidade pessoal começa aos 14 anos, de
que não constituem prisões (fábricas com assistência de i acôrelo com os atos pmticados e previamente definidos
pesquisadores sociais), ou de detenção de segundo grau, i em lei. . Em outros, como no caso de homicídio e de
até um ano. No IJTimeiro caso o sentenciado deve inde-
nizar o Estado, pagando-lhe multa até 255"0 do salário, I furto, desde os 12, podendo a Justiça suspender o an-
damento do processo e confiar o menor infrator aos seus
conforrne a condenação. Perde ainda direito ao tempo genitores, bem assim,conforme a periculosidade, entre-
paTa o efeito de aposentadoria, mas não o de fruição de gá-los a institutos ele reeducação. Há também a plena
férias, pois que estas são uma exigência biológica e não imputabilidade, ou maioridade criminal, aos 18 anos,
um prêmio. Em certos códigos das repúblicas sovié- limite que a Dr.' Tatiana acha que vai ser elevado,
ticas há o direito ele opção, cabendo ao condenado a es- em virtude das ponderações dos estudiosos SOviéticos.
côlha da punição que melhor consulte seus interêsses Refere que o Código Penal deverá ser modificado, aca-
pessoais ou familiares. Finalmente há o instituto do bando-se inclusive com o instituto de analogia, o qual,
81['1'8/:8, que é ordinàl'iamente concedido, quase sem res- diz, vem sendo muito mal compreendido no exterior.
trições de qualquer natureza, depois de fixada a sanção. "A analogia é do crime, não da condenação. Cri-
As penas são sempre detemlÍnadas, isto é, têm pra- me é uma ação perigosa contra a sociedade que esteja
zo certo, embora os dirigentes dos estabelecimentos pe- prevista em lei. Ora, o homem pode ser condenado se
nais tenham o arbítrio de reduzi-las. Ê, conseqüente- o ato que praticou é semelhante a outro definido em
mente, uma sanção provisória, que pode ser alterada lei como crime."
12-1 ARRl'DA C.UIPOS

Faz uma pausa c, ao procurar o exemplo, repete o Em tôda a U llião Soviética passarIam a VlgOTnr
que já sei: - no Brasil os indivíduos furtavam energia estas normas principais:
elétrica e não eram punidos, porque a lei, que só previa
o furto de objetos, não enquadrava na sua defil1icão o 1) O aeusado teria direito a um advoga-
fluido da eletricidade. Havia o ato anti-social ; não do, a paTtir de 11111 certo ponto da instrução
havia a defesa da sociedade. Só mais tarde o legislador preliminar;
(midou de ampliar a figura delituosa, apanhando tam- 2) Alguns delitos não mais seriam pu-
hém os ladrões de energia elétrica. nidos, segundo o Código Criminal, em parti-
Observa que essa é uma questão por assim dizer cular quanto ao artigo que prevê a condenação
do acusado por analogia entre os delitos, o
acadêmica, sem nenhum interêsse prático, porque o Có-
digo Penal da U.R.S.S. é semelhante aos outros e está
I qual seria suprimido;
suficientemente aperfeiçoado, de modo que podemos dis- 3) As penas por propaganda contra-re-
pensar a analogia. RaTÍssimas vêzes a analogia é apli- 1 volucionária e vários outros delitos análogos
seriam reduzidas.
cada, a tal ponto que cogita o govêrno eliminá-la, por
dt'snecessária.
1 O novo Código comportaria duas partes. Na pri-
Prossegue: - a emoção não elimina a responsabili-
dade, bem assim a emhriaguez, a não ser quando total. meira, seriam definidos os princípios gerais de juris-
Para fixação da responsabilidade entra em jôgo como dição soviética. Na segunda, seriam enumerados os
fator preponderante a execução dos atos preparatórios. crimes e delitos que acarretam o procedimento criminal,
Quanto aos delitos políticos, são todos aquêles atos que em cinco capítulos:
se voltam eontra o intel'êsse do Estado, ou contra o in-
terêss: do povo, os quais são julgados pelos tribunais (I) Crimes contra a segurança do Estado
Snp81'10re8. e contra a paz;
li) Crimes e delitos· qne atentem contra
A U.R.S.S. também se utiliza da anistia e, em 1953,
os bens públicos c contra a economia
houve um al111Jlo decreto que beneficiou centenas de de-
socialista;
linqüentes, inclusive políticos. Cogita-se agora de uma
reforma total da legislação, com abrandamento de penas c) Crimes e delitos (lne atentem eontra
11 administração do Estado, contra a
par~ os crimes comuns e estabelecimento de bases para
llmfleação das leis penais, instituindo-se um Código Pe- .Tnstiça e contra o Partido;
na~ ún~co,. com perfeita caracterização da norma de que d) Crimes e delitos contra as pessoas;

I
a ll~OCenCla se presume, cumprindo à aeusação a 1)1'0- c) Crimes que atentem contra a defesa
duçao de prova em contrário. nacional (delitos militares). -
126 ARRUDA CA:\fPOS
A Jl;STIÇ'A A 8EUnç.'O DO CRD.lE 127

A pena de morte apenas será mantida em easos psicológieo elo delinqüente, para que êle se arrependa e
exccpeiowtÍs. No ([\w eoncerne às outras penas, seriam resolva retomar o bom caminho.
as seguintes:
A biotipologia é uma superfetação cal)italista. Os
Privação da liberdade (em prinCÍpio, dez anos llO presos são selecionados rnais ou, menos e postos a tra-
máximo) ; trabalhos de "reeducação"; privação dos di- balhar. Êsse é o sentido da expressão "trabalho for-
reitos civis; proibição de permanência, multa, infâmia çado" do Código Penal Soviétieo, pois, tôda a faina
pública.

v
'
Ij recuperativa oficial é baseada na laborterapia. Se não
há no presídio a especialidade do recluso, deve êle pro-
curar outro seTviço e aprender novo ofício.
,
UMA PRISAO SOVIÊTICA (2,' grau) 19 I A fábrica produz utensílios de alumínio, filtros de
óleo para automóveis e tratores, mostradores de relógios
Partimos para a colônia ele reeducação de Kriukovo, despertadores. Nada mais senão isso, o que me parece
nos arredores ele Moscou, que é a única das imediações. ridículo, dada a ciTcunstância de que estão aqui reco-
Não é propriamente uma colônia, mas uma fábrica, lhidos cêrca de oitocentos delinqüentes, os quais são
tendo ao Tedm as demais instalações do estabelecimento. remunerados na forma comum, peça por peça, na média
Sou festivamente recebido e a lllesa posta 110 gabinete de 300 a 400 rublos por mês.
do diretor 1ll0stTa que o dirigente da prisão já sabia da EmbOTa seja uma penitenciária fechada e l'eservada
minha ida. ao sexo masculino, vejo que trabalham, ao lado dos re-
A.dianta-me que aqui são abl'igaclos os reclusos con- clusos, 1111meT08as mulheres, contra tôdas as regras pre-
denados por crimes comuns (que envolvem os delitos conizadas pelos penitencial'istas que conheço. O diretoT,
de trabalho), os quais são inicialmente examinados para porém, sorTindo, chama a primeira môça que aparece
verificação de suas aptidões físicas e mentais, condições e a submete a um breve interrogatório. Ela, que não
ele família, etc. Os que são casados não devem sofrer conta mais do que 30 anos, trata-o de igual paTa igual
preocupações, pois, como a pena não pode passar da pes- e, depois de uma breve troca de palavras, em russo,
soa elo delinqüente, se o salário fôr insuficiente, o Es- atende minha curiosidade. Através de intérprete asse-
tado garante o restante necessário à subsistência dos gurou-me que nunca foi desrespeitada por ninguém,
seus, criando dessa forma condições propícias para que mesmo porque não teria cabimento uma coisas dessas
a readapbção se processe com rapidez. Constitui par'l. num lugar de trabalho, sobretudo como êste. Ao con-
o gOVêl'110 um excelente negócio a outOl:ga do perdão trário, recebe a todo instante Inovas de considcTação.
no prazo mais llT8V8 possível, donde o amaciamento Í~ solteira e vive com um operário que tmbalha nos
arredores. Antes de se retirar quer que eu saiba e
19. Notas de um caderno de Viagem à União Soviétita (1955). proclame que o povo soviético é pela paz ...
128 Al1Ilt'DA CAMPOS A .n::SnçA A SERYIÇO DO ('num ] 29

o diretor me acrescenta (lue, alóm das nmlheres, ]lal'tieulal'es de cada deliu'liienh'. J~sse eOIlficlho faz
'existem outros trabalhadol'us voluntários, que serVellJ admoestações aos rebeldes te pede providências adminis-
mediante salários mais altos, para que os presos não trativas nos casos de falhas do estabelecimento. Existe
percam o contacto com o muudo exterior e sintam o também um tl'ilmnal de camaradas paTa .iulgamento dos
desejo de voltar à vida livre, onde pod8r\1 ganhar im- atritos mais graves, cujos membros são escolhic1os pelos
portâncias mais elevadas. presidiários, e que aplica sanções como a de privação
A alimentação ó servida três vêzes por dia, gra· de troca de cartas pOI' periodos ele 13 a 30 dias, ou de
tllitan18nte. r\S roupas, entretanto, são adqlúridas pelos recehimento de visitas.
detentos. Não há censura na correspondência e as \"Í- Ao ser liberado o senteneiado recehe passagem de
sitas das espôsas são livres, havendo apartamentos onde \-olta e dinheiro para sua alimentação até o lugar de
elas podem passar alguns dias, periodicamente, com OrIgem.
,pus maridos. Continuo a repl'Oduzil' as minhas notas, tal como
O trahalho ocupa oito horas. O prédio tem bi- as colhi na ocasião, donde uma certa desordem na enu-
hljoteca, com 7.500 volumes (freqüência de 86'10), ci- meração dos fatos.
nema grátis (duas ou três sessões por semana), campo Os serviços da colônia podem ser criticados nos
de esportes, yoleibol, hola-ao-cêsto, xadrez, etc. Conta jornais murais manticlos pelo Conselho dos Ativistas.
com médico, díniea e ambulatório. Há uma escola para os de escassa instrução, chegando
Ao que me aS5egura o diretor do estabeleeimento, alguns a completm na prisão o eurso secundário. Quan-
a lll'oclm:ão da fábrica é ,le boa qualidade', a despeito to ao mais, procura-se dar ofíeio a (ll1PIll nada sallP.
ela heterogeneidade do elenwnto ImmmlO com qne 1Jode O diretor me afiança que llO ano passado, 1954, onze
contar. Há uma grande emulação elJtre os reclusos, presos não tinham experiência alguma e que 29 mal
não SÔlllC'nte porq1le são ajudados }lelos orientadores téc- conheciam o trabalho. PaTa êles foi aberto um ClUSO
nicos e assistentes sociais, eOI1lO ainda porqUG, "sentem" de tratoristas e hoje estão Tlrestes a tirar diploma, po-
a c1illlinni,ão da pena, eonforllw o grau ele compol'ta- dendo conseqüentemente ganhar a vida honradamentc.
lIH'nto flIJl'esentado. l-m dia de bom habalho vale até A fáhI'Íca dá lucros, os quais são aplicados em
:1 dias de abatimento no castigo, quando sc trate ele parte na outorga de }Jl'êrnios aos melhores elementos.
'C'ITíço pesado, nas cOllstTnções ]lara ampliação da co- Aliás, conta duas handeiras, que são os seus títulos prin-
lônia; o, na indúsh'ia, leves, :justificam ahono de nnl a cipais, conquistados, um pela produção e, outro, pela
dois dias. eficiência na reeducação, dado que não se verificam
T0m organizações sotiais (' um Conselho de Ativis- reineidências .
tilR, escolhido pelos p1'6pl'ios preso,;, ellja função 6 n penas VUTÜlln, de UHl Inês a dez anos. A WHr101'
.L:\S
<1(' estlldnl' os j'Jl'ohlemas da VJ'odnção e as difie.llldades parte, porém, é de condenações entre um e três anos.
130 AItRTIH CAMPOS A ,TFSTH;;A A SERVIQO DO CRIME 131

N esse pel'iodo 0 criminoso perde 0 dinMo no n80 do privada constitui nm estimulo pam 0 furto. r1.qui nem
titu 10 de camal'ada. lui 0 que rollllar, a nao ser pequ8110s objetos nos apa1'-
Os presos trabalbam em "brigadas" e l'ccebem llO- tamentos, ou dinheiro abandonado sem cuidado nas mo-
tas diiirias de comp0l'tamento e apl'oveitamento qne in- radias. Facilmente, porem, os gatunos sao IJresos, por-
flnem na COl1CeSSaO do perdao, chda a cil'cnnstancia de que nao sabem explicar a origem de seus bens.
que, quando todas as informa~oes coin eidem, nao hii ra- Nesta hora penso comigo em que, no meu pais, se
zao para que 0 individuo fique retido na prisao. A fOssemos chamaI' a contas todos que nao sao capazes de
soltnra e detel'minada pelo ]lropTio diretor do presidio, explicaT a origem de seus bens, terramos de executar 0
sem andiencia senao de sens anxiliares diretos, entre os
quais figul'am alg,ms Pl'CSOS. Hii 0 caso de ml1 que
cumpriu a pena e nao quis sail': - ficou como operiirio
voluntiirio, pOl' sentir-se litil ao trabalho de recupcTagao
I plano sarciistico de Oliveira Filho, de mudar 0 Brasil
para a ilha de Fernando de N oTollha, de gradeii-la con-
Yellientemente e deixar 0 COlltinente reservado a fU11gaO
de presidio aberto ...
dos demais.
o diretoI' prossegue: - os piores elementos que
Pe<;o explicagoes ao 1n8U informal1te sobre as difi-
culdades que tem encontrado no exercieio de seu misteT.
Existem homicidas? lDk me responde que nao. Diz que
I
i
jii tivemos llesta colonia foram alguns vadios e ladroes
que ofendiam os seus superiores, jogavam eaTtas e TOU-
bavam seus colegas de pTisao. El'am dois e nao tivemos
os mais dificcis de screm tratados sao os prcsos (lue nao
ontro recul'SO senao 0 de envia-los a uma peniteneial'ia
telYl oficio definido, os quais sao assim justamente pOl'
causa da yagahHndagem anterior que os ealejou. Igual- I de terceiro gran.
mente, tanto os SPlll 1'8sic!encia fix a como os sem familia A colOnia de Kriukovo funciona. ha 21 anos e nunca
cOl1stituem problemas para a administl'agao. eegistrou, nem fuga, nem suicidio. Nao ha razao, pam
Os vadios sao tel'riveis - assegura-me - mas neles Ul11a coisa nem outra. Afinal, 81es sabem que aqui 110SS0
os castigos surtcm resultados, emboTa nao haja 8olita1'i[[ intuito Ii 1'efo1'ma-los, devolvendo-os a coletividade tao
11em pnni!tao corporal. 0 simples fato cIa prisao seT logo quanto nos seja possive1. Recebem 11111a boa ligao,
feehada .iii constitui um clemento favoriivd ao trabalho. afiam 0 SCll senso de justiga, eompreendem que erra1'am
o vice-diretol' faz comentiil'io em russo e 0 diretor I c nao quercm sabel' de voltar. Regm geral basta ensi-
me obsE'l'Ya: - 0 men col ega esta dizendo que os ladl'oes Hal' um oficio ao sentcl1ciado para que ele reencol1tre
raTamente el'iam outros casos a nao seT 0 de que 58 a satisfagao de ViVCT e de tmbalhar hOl1mdamente. No
reeusam trabalhar ... Brasil }Jareoe qUB nao e bem assim, diz, e a essa altura
-- Entao ha muitos ladroes nn U.R.S.S.? procura na memoria, recordar Ullla certa revolta, 11U-
A resposta e vecuwnte. Sim, nmitos, mas nao tan- ma certa ilha de um certo territorio.
tos quanto nos paises capitalistas, oude a propriedade - Ilha Anchieta.
132 ARRUDA CAl\fPDS A ,TT'STIÇ;A A SERYIÇO DO CRIME 133

Êlle não lembra o nome. Sabe apenas que foi numa Explica-me o dÜ'ctor que são indivíduos que se em-
ilha no Brasil e condena as prisões isoladas, so- briagam habitualmente e criam incidente.s de, certa ~r~­
bretudo assim, num lugar rodeado pelo mar, longe de vidade. inclusive com agressões. A bebIda e um VIClO
tudo. Faz mn comentário: - até o diretor se trans- terrív~l, diz-me êle. E, num gracejo, ingere mn cálice
forma em sentenciado ... de vodca. Olha o vidro, {unido, pensa um instante, e,
Peço nma estatística dos detentos, classificados se- quando baixa o braço, faz uma afirmação peremptória:
gtmdo os delitos cometidos. Depois de algum tempo a _ mas está acabando. O povo precisa de álcool, por
intérprete traduz-me o rol que demorou ser encontrado: causa do frio. Contudo, o govêrno subiu o preço do
f vodca e baixou o do vinho. O vinho demora mais para
Roubo (propriedade particular e estatal) 432 i embriagar.
estupro ............................... 15 I. Quero saber se tem notíeia de casos de homosse-
crime militar ........................ 21 xualidade e obtenho resposta negativa. Aqui, não. Nos
porte de armas ...................... 11 estabelecimentos de terceiro grau já ouvi dizer que sim.
especulação .......................... 17 Nossos presos são tratados como homens, recebem suas
perturbação da ordem pública .......... 258 I mulheres e companheiras, não precisam descer a essas
outros motivos ........................ 81 baixezas. No regime severo, porém, é possível que a:é
isso aconteca. Não afirmo, mas acho possível. Se for
835 i v;rdade, t;ata-se de lmla falha que temos de corrigir.
i, Tento novas investidas, mas o russo fecha-se no
Tento explicações, já que não estou a par das de- silêncio. Não acha correto falar sôbre assuntos sôbre
finições legais e não posso formular um juízo seguro os quais não tem elementos seguros. Propõe obter pa-
sôbre tais delitos. Roubo da propriedade do Estadú, ra mim uma visita a uma prisão dêsse tipo, mas acha
por exemplo, é, entre nós, geralmente o peculato, em- também que é longe, porque essas penitenciárias estão
bora outras figuras também possam coexistir. A intér- associadas aos "sovcozes" mais distanciados. De minha
prete, todavia, encontTa dificuldades na pesquisa dos parte agradeço, porque preciso retornar à min~a terra.
vocábulos adequados. Entendi que a maior parte dos !~ Lembro-me de ter ouvido que os sentencIados na
"ladrões" é constituída de indivíduos que dilapidaram D.R.S.S. têm direito a férias e não quero deixar passar
bens da Nação, bem assim que os crimes militares são o enseJo.
delitos comuns, de escassa importância, que dispensam O diretor faz uma cara de espanto.
julgamento militar, na maioria desordens. _ Mas, claro! Êles não são máquinas. Gozam férias,
Por que tantas condenações por fôrça de perturba- vão paTa casa, descansam e depois retornam. Isso é na-
ção da ordem pública 1 \ :: tural. ..
I!
A ,TL'STIÇA t\ SERVIÇO 00 CRIME
135
134 ARReDA CAMPOS

,< ]1, ,'lH,«,S()",


moça opel'ana
A lIa ll<ll'nha frente e me roubou a
À saída os dois diretores mo observam que esqueci 'u

de bater fotografias. De fato, a câmara estava ao meu palavra.


lado e não me ocorrera utilizá-la. Voltamos ao pátio A pTincípio não compreendo. É a intérprete quem
e tiro várias chapas quando um prêso, engenheiro cons- me esclarece: - êle se refere à que lhe falou em paz.
trutor, se aproxima. Enquanto curiosamente inspeciona Olho para os dois e digo-lhes, quase com solenidade:
a máquina, indagam de mim se quero ouvi-lo. Segue-se - Mi1'!
um diálogo rápido: Êles vêm ao meu encontro e me abraçam calorosa-
- Sim, a condenação foi justa. Eu me aproveitei mente. A tal ponto que meu coração sentiu o ritmo daR
de muita coisa para construir minha "datcha". Me- batidas dos seus corações. E, no mesmo mstante, sen-
reci a pena que me foi imposta. timos os três qne êles batiam no mesmo ritmo.
Pergunto aos que me acompanham se não há in- Paz, para os homens de boa vontade. .
conveniente numa indagação sôbre a eficiência da ad- Paz, para que êles se compreendam e m~tuamente
ministração. Dizem-me que não e a resposta é pronta. se ajudem, e mutuamente se perdoem, e mutuame~te
- No geral é boa, mas há muita pulga. Além dis- se amenl _ tal como, mml velho, antigo e e~quecido d1a,
so, acho a direção muito frouxa. Penso que se deveria recomendou-nos, de coração sangrando, o FIlho de Deus,
agir com mais rigor, porque há muitos abusos. Se feito Homem.
houvesse a necessária energia muitos sentenciados CUI-
dariam de sair da prisão mais depressa.
A resposta do engenheiro fêz rir a todos, inclusive
a êle.
No portão quero fotogl'Sfar meus dois amáveis
acompanhantes, mas êlesse esquivam. Não é costume,
dizem-me, e não insisto.
Oferecem-me de presente uma panela de alumínio,
anedondada, capaz de abrigar um frango, fabricada no
estabelecimento, que, apesar do pêso, faço questão de
trazer de avião para tê-la em minha casa. E, no ins-
tante da despedida, o diretor me diz, com integral se-
riedade: Eu queria dizer-lhe alguma coisa da qual o
senhor pudesse se, reeordar. Vejo, pOTém, que aquela