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TRIBUNAL DE JUSTIÇA

PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Registro: 2019.0000504488

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos do Apelação Cível nº


1015015-67.2018.8.26.0161, da Comarca de Diadema, em que são apelantes/apelados
ANA MARIA DE JESSUS SILVA (JUSTIÇA GRATUITA) e DOUGLAS MIICHEL DA
SILVA (JUSTIÇA GRATUITA), são apelados/apelantes TECNISA CONSULTORIA
IMOBILIÁRIA LTDA e ACAPULCO INVESTIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA.

ACORDAM, em 5ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça


de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Deram provimento, em pequena parte, ao
recurso das rés e deram provimento ao apelo dos autores, V.U.", de conformidade
com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores JAMES


SIANO (Presidente sem voto), FERNANDA GOMES CAMACHO E JAIR DE
SOUZA.

São Paulo, 26 de junho de 2019.

FÁBIO PODESTÁ

RELATOR

Assinatura Eletrônica
TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

APELAÇÃO CÍVEL nº 1015015-67.2018.8.26.0161

APTES/APDOS: ANA MARIA DE JESSUS SILVA E DOUGLAS MIICHEL DA


SILVA
APDOS/APTES: TECNISA CONSULTORIA IMOBILIÁRIA LTDA E ACAPULCO
INVESTIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA

COMARCA: DIADEMA

VOTO Nº 22264

OBRIGAÇÃO DE FAZER C.C. DANOS MORAIS – Sentença de


parcial procedência. APELO DAS RÉS – Ausência de cerceamento
de direito de defesa - Prescrição inocorrente – Ilegitimidade de parte
não constatada, a teor do art. 7º, parágrafo único, do CDC – Dever de
indenizar bem reconhecido, a teor do art. 35, do CDC e do art. 389,
do Código Civil – Admissibilidade do recurso, todavia, no que toca à
fixação dos danos materiais, como pleiteado na inicial. APELO DOS
AUTORES – Admissibilidade – Danos morais cognoscíveis in re ipsa
– Entrega de imóvel em desconformidade com o que foi pactuado,
que gera abalo psíquico relevante. Sentença parcialmente reformada –
RECURSO DAS RÉS PROVIDO EM PEQUENA PARTE, APELOS
DOS AUTORES PROVIDO.

ANA MARIA DE JESUS SILVA e DOUGLAS MICHEL

DA SILVA ajuizaram “ação de obrigação de fazer c.c. danos morais” em face de

TECNISA CONSULTORIA IMOBILIÁRIA LTDA. e ACAPULCO

INVESTIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA., a afirmar que celebraram com

as rés compromisso de compra e venda, mas o imóvel adquirido foi entregue

sem as venezianas nos dormitórios e sala (fls. 03), pretendendo a sua

condenação na obrigação de instalar as venezianas e no pagamento de

indenização por danos morais no importe de R$. 10.000,00 (fls. 16).


APELAÇÃO CÍVEL Nº 1015015-67.2018.8.26.0161 DIADEMA VOTO Nº 22264 PP 2/9
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A r. sentença a fls. 244/254, cujo relatório é adotado, julgou

parcialmente procedente o pedido, condenando as rés, solidariamente, na

instalação das venezianas na sala e nos dormitórios, ou, caso a medida se

mostre inexequível em virtude de regras técnicas de engenharia civil e

arquitetônicas, alternativamente, no pagamento de indenização por perdas e

danos correspondentes à desvalorização do imóvel, a ser objeto de liquidação

por arbitramento. Deferida a tutela de evidência, foram carreados ônus

sucumbenciais a ambas as partes, determinando-se a cada uma que arque com

honorários dos respectivos patronos.

Opostos embargos declaratórios (fls. 263/271), foram

rejeitados a fls. 277.

Irresignados, apelam tanto os autores, quanto as rés.

Os primeiros, a sustentar, em síntese, que sofreram dano

moral indenizável (fls. 274), pretendendo a reparação no importe de R$.

10.000,00 (fls. 275).

O recurso é tempestivo, isento de preparo (fls. 96) e foi

contra-arrazoado (fls. 297/304).

Arrazoam as requeridas, por seu turno: a) necessidade de

recebimento do recurso no efeito suspensivo (fls. 309); b) cerceamento de

direieto de defesa, pois não houve prazo para especificação de provas (fls.

311); c) a pretensão se encontra fulminada pela decadência (fls. 315), pelo

transcurso do prazo de trinta dias previsto no art. 26, do CDC (fls. 316); d)
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ilegitimidade passiva da Tecnisa Consultoria (fls. 318); e) inexistência de

publicidade enganosa e divergência na entrega da unidade, conforme

memorial descritivo a demonstrar que as venezianas não compunham o

projeto (fls. 320); f) impossibilidade material de substituição das janelas (fls.

324), pelo que requerem, subsidiariamente, a conversão da obrigação em

perdas e danos (fls. 327), que deve ser fixada em R$. 10.000,00 (fls. 330).

O recurso é tempestivo, preparado (fls. 331/332) e não foi

contra-arrazoado (fls. 340), a despeito da concessão de oportunidade (fls. 337).

É o relatório.

O recurso interposto pelas rés prospera em pequena parte,

enquanto o dos autores comporta integral acolhimento.

Apelo das requeridas

O pedido de atribuição de efeito suspensivo ao recurso já

foi rejeitado no bojo da petição n. 2051818-93.2019.8.26.00001, que inclusive,

ensejou a distribuição preventa, cf. fls. 341.

Afasta-se o alegado cerceamento de direito de defesa. O

protesto por produção de provas não torna obrigatória a sua produção. Cabe

ao juiz, destinatário da prova, determinar aquelas que são pertinentes para a

instrução do feito, indeferindo as inúteis ou protelatórias (art. 370, parágrafo

único, NCPC).

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Já decidiu esta Corte que: “para que se tenha caracterizado o

cerceamento de defesa em decorrência da ausência de dilação probatória, faz-se

necessário que, confrontadas as provas que foram requeridas com os demais elementos

de convicção carreados ao processo, elas não só apresentem capacidade potencial de

demonstrar o fato alegado, como também se mostrem indispensáveis à solução da

controvérsia, sem o que fica legitimado o julgamento antecipado da lide” (Apelação n.

990.10.076540-0, Comarca de São Paulo, 21ª Câmara de Direito Privado, j. em

9.2.2011, rel. Des. Itamar Gaino).

E, no caso, desnecessária a dilação probatória, eis que as

fotografias trazidas aos autos são suficientes para documentar a situação fática

do imóvel. Ademais, as próprias rés confessam a ausência de venezianas nas

janelas, invocando, tão-somente, em seu favor, conformidade com o projeto e

folder (fls. 117).

Não há falar-se em decadência, porquanto o documento de

fls. 94/95 dos autos revela que a posse foi transmitida aos autores em

19.04.2016 (fls. 95) e a pretensão não se confunde com a quanti minoris prevista

nos artigos 500 e 501, do Código Civil, mas se trata de demanda reparatória,

como claramente se infere de fls. 16.

Desse modo, o prazo, que, no caso, é prescricional, é

aferido com esteio no art. 27, do Código de Defesa do Consumidor, de sorte

que, em 15.11.2018, quando ajuizada a lide, ainda não haviam se passado os

cinco anos legalmente previstos.

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Afasta-se, também com fulcro no diploma consumerista,

porém, na disposição contida no parágrafo único do art. 7º, da norma, a

afirmada ilegitimidade passiva da corré Tecnisa, na medida em que os

documentos de fls. 05 revelam que ela participa, inequivocamente, da cadeia

de consumo.

Tocante ao mérito, a irresignação também não prospera.

Com efeito, o contrato, a fls. 21, indica claramente que os

autores adquiriram imóvel no empreendimento denominado Flex Imigrantes,

que é o mesmo identificado nas fotografias de fls. 05 e 09 e que contém,

claramente, venezianas nas janelas, em total divergência com a unidade

entregue, conforme fls. 10.

Sendo os autores consumidores, por óbvio que sua escolha

foi influenciada pelas imagens contidas em todos os informes publicitários

notadamente o site das rés e, consoante o art. 35, do Código de Defesa do

Consumidor, elas deveriam manter a oferta feita a público, entregando

exatamente o que foi prometido.

Inegável a responsabilidade das requeridas, inclusive, com

supedâneo no art. 389, do Código Civil, aplicáveis, ainda, ao caso, os

princípios da boa-fé e da função social, nos contratos (art. 421, do CC).

Ausente o interesse das rés, no ponto em que pretendem a

conversão da obrigação em perdas e danos, em caso de impossibilidade

material de execução, porquanto a sentença já deliberou nesse sentido (fls.


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253).

Cabível, todavia, o pedido subsidiário inicial (fls. 330) para

o fim de que perdas e danos sejam desde já estipulados, no montante

pretendido na exordial.

Deveras, a fls. 16, no item “a”, os autores pleitearam que

“alternativamente/sucessivamente” fossem as rés “condenadas em perdas e danos, na

cifra de R$. 10.000,00, corrigidos monetariamente e acrescido de juros de mora de 1%

ao mês desde a data do evento danoso”.

Assim, esse pedido subsidiário deve ser acolhido, para o

fim de já serem estipuladas as perdas e danos materiais no importe de R$.

10.000,00. A correção monetária sobre esse montante incide desde o

ajuizamento da lide (momento em que estimado o dano material) e os juros,

desde a citação, consoante art. 405, do Código Civil (cuidando-se de

responsabilidade civil contratual).

Apelo dos autores

Comporta acolhida o pedido de reparação moral.

Presumível o sofrimento relevante dos compromissários

compradores que se viram vítimas de oferta não cumprida, recebendo um

apartamento sem venezianas, o que, decerto, traz transtornos expressivos,

especialmente quanto ao sono, devido à luminosidade excessiva que não é

impedida pelo vidro.

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Em hipóteses semelhantes de inadimplemento contratual,

nos compromissos de compra e venda, esta C. Câmara tem lançado

condenação por reparação moral no valor pretendido de R$. 10.000,00, que fica

adotado como quantum indenizatório.

Nessa linha de raciocínio, confira-se:

Compromisso de venda e compra de imóvel - Ação de

indenização por danos morais - Procedência - Atraso caracterizado Danos morais

configurados Frustração quanto à aquisição do imóvel Valor satisfatório - Na ação

de indenização por dano moral, a condenação em montante inferior ao postulado na

inicial não implica sucumbência recíproca Súmula 326 do STJ - Sentença mantida

Recurso desprovido.” (Apel 0208674-91.2011.8.26.0100, 5ª Câm. Direito Privado,

rel. Des. Moreira Viegas, j. 17.02.2016).

Ressalta-se que, diferentemente dos danos materiais, que

são corrigidos desde o ajuizamento da lide (momento em que estipulados

pelos autores), os danos morais sofrem correção monetária desde a fixação por

este órgão julgador.

Dispositivo

Comporta, pois, parcial reparo a r. sentença, para o fim de,

mantidas as condenações nela lançadas, ser: i) desde já estimado o valor das

perdas e danos materiais em R$. 10.000,00, como pleiteado no item “a”, de fls.

16, corrigidos desde o ajuizamento da lide e acrescidos de juros a partir da

citação (art. 405, do CC); ii) acrescida a condenação das requeridas, também
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solidária, no pagamento de indenização por danos morais, no importe de R$.

10.000,00, corrigidos desde a presente fixação e acrescidos de juros a partir da

citação (art. 405, do CC); e iii) com fulcro no art. 86, parágrafo único, do

NCPC, diante da alteração no julgado, carrear os ônus sucumbenciais

integralmente às requeridas, com honorários advocatícios fixados em 15% do

valor da condenação, já computada a majoração prevista no art. 85, § 11, do

NCPC e observado o provimento, em pequena parte, do apelo das rés.

Quanto ao pré-questionamento, cumpre ressaltar a norma

positivada no art. 1.025 do novo diploma processual:

“Art. 1.025. Consideram-se incluídos no acórdão os elementos

que o embargante suscitou, para fins de pré-questionamento, ainda que os embargos de

declaração sejam inadmitidos ou rejeitados, caso o tribunal superior considere

existentes erro, omissão, contradição ou obscuridade.”

Ante ao exposto, DOU PROVIMENTO, EM PEQUENA

PARTE, ao recurso das rés e, DOU PROVIMENTO ao apelo dos autores.

FABIO HENRIQUE PODESTÁ

Relator

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