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—IGREI Igreja Ensinadora Fundamentos Biblico-Teolégicos ¢ Pedagégicos da Educagao Crista Sherron K. George © 2003 LPC Comunicagées Caixa Postal 130 - CEP 13001-970 - Campinas, SP - Brasil ‘Todos os direitos reservados George, Sherron K. 3491 Igreja Ensinadora: Fundamentos Biblico- Tealdgicos e Pedagdgicas da Educagio Crista. Campinas-SP: Ed. Luz Para o Caminho, 1993. 160p. Bibliografia. ISBN 85-89054-02-0 1. Educagio Crista - Fundamentos Biblicos e Pedagé- gicos. 1. Titulo CDD - 268 Capa: Marcio Baccan Foto Capa: Alessandra Spagnol Projeto Grifico: Rodrigo Duprat Revisao: Rubens Castilho e Elione Gama 2.8 Edigio, N. Chamada LPC COMUNICACOES PREFACIO.. INTRODUGAO..... 1. Contetido QUE E EDUCAGAO CRISTA’ 1.1 CONCEITO 1.2. APESSOA TODA 1.2.1 Intelectual 1.2.2 Emocional 1.2.3. Espiricual 1.2.4 Comportamental 1.3. AIGREJATODA .. 1.4 TODO O TEMPO 1.4.1 O Ensino Informa! 1.4.2 O Ensino Formal 1.5 CONCLUSAO . 1.6 S{NTESE..... POR QUE ENSINAR? JUSTIFICAGAO E MOTIVAGAO PARA O ENSINO NA IGREJA . 2.1 © PROJETO E OBRA DE DEUS 2.2 AORDEM DE JESUS 2.3. AATUAGAO DO ESPIRITO SANTO 2.3.1 O Espirito Santo ca Fé .. 2.3.2 O Espirito Santo eas Escrituras 2.3.3 O Espirito Santo ea Igreja..... 2.4 O DEUS TRINO E AMOR 2.5 S{NTESE.... PARA QUE A EDUCAGAO CRISTA? 3.1 O REINO DE DEUS .... 3.2 34 Oo) O ENSINO NO ANTIGO TESTAMENTO 4 42 43 44 4.5 O ENSINO NO NOVO 5) 5.2: 5:3: 5.4 $5 O ENSINO NA HISTORIA DA IGREJA 6.1 6.2 63 64 6.5 6.6 QUEM ENSINA? A PRATICA DOCENTE 7A ee) #3 FINALIDADES DO ENSINO NA IGREJA . 3.2.1 O aperfeigoamento dos cristaos ..... 3.2.2 Aedificagao de lares cristaos 3.2.3. A transformagao da sociedade . DUAS RESSALVAS 3.3.1 A Tere} 3.3.2 A Biblia EDUCAGAO PARA O REINO SINTESE ... O PENTATEUCO, CONCLUSAO . SINTESE O ENSINO DE JESUS NOS SINOTICOS O ENSINO APOSTOLICO EM ATOS... O ENSINO PAULINO NAS CARTAS CONCLUSAO SINTESE ERA DE CRESCIMENTO ERA MEDIEVAL... 2 ERA DOS REFORMADORES 7 ERA MODERNA (ED) 80 ERA CONTEMPORANEA. 3 6.5.1 Aimportincia do ensino . 6.5.2 Aauséncia do ensino 6.5.3 A recuperagao do ensine 6.5.4 Calvino eo espitito receptivo .. S{NTESE ..... TODOS ENSINAM . @ PAPEL DA LIDERANGA E DO PASTOR A NATUREZA E PAPEL DOS PROFESSORES 7.3.1 Dom, chamado, maturidade, preparo ¢ apoio . 94 7.3.2. Papel e Relacéo Professor-Aluno . 7.3.3. Relagdo Professor-Contetido .... 102 105 7.4 O PAPEL DOS PAIS NO LAR 7.5 SINTESE .. 8. QUEM APRENDE? A NATUREZA E PAPEL DO ALUNO ...... 107 8.1 TODOS APRENDEM . 107 8.2 QUE ESER HUMANO: 108 8.2.1 Criado a imagem de Deus 108 8.2.2 Pecador..... EE 8.3 113 8.4 . 119 9. © PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DA PESSOA TODA 2181 9.1 ERIK ERIKSON. 9.1.1 Fase 1. . 123 9.1.2 Fase IL : 9.1.3. Fase IIL. 2125 9.14 FaselV. . 126 9.1.5 Fase V . 128 9.1.6 Fase V1. 129 9.1.7. Fase VIL 131 9.1.8 Fase VIL . 132 9.2 OUTROS DESENVOLVIMENTISTAS . . 133 9.3. SINTESE . . 138 10. © PROGRAMA DE ENSINO DA IGREJA TODA 139 10.1 A COMUNIDADE CRISTA: UM AGENTE DE SOCIALIZAGAO . 140 10.1.1 Comunidade Social . . 142 10.1.2 Comunidade Lituirgi . 143 10.1.3. Comunidade Diaconal... 144 10.2 ACOMUNIDADE CRISTA: SOCIALIZAGAO INTENCIONAL ..... wee 145, 10.2.1 Comunidade Educacional.. 145 10.2.2 Agéncias e Atividades Educaciona’ . 147 10.3. SOCIALIZAGAO E EDUCACGAO. . 149 10.4 SINTESE . 150 CONCLUSAO ... see BIBLIOGRAFIA .... E55 Prefacio Com certeza o livro da Dra. Sherron Kay George, a /greja Ensinadora: Fundamentos Biblico-Teolégicos e Pedagégicos, vera benéficos efeitos na vida e obra das igrejas em geral, e das Escolas Dominicais em particular. Dentre as caracteristicas positivas gerais da obra, ponho em destaque estas: clareza, boa fundamentagao, bom espectro biblio- grafico, sdlida postura bfblico-teoldgica. E igualmente importante salientar que a autora nao se prende exclusivamente a nenhuma escola, nos aspectos analisados sob perspectivas psicolégicas, pedagdégicas e sdcio-politicas. Antes, procura extrair das varias tendéncias, correntes ou colocagdes os elementos que acha aproveitaveis. Actesce que, embora dando importancia a critica, ¢ ela propria fazendo critica a varios aspectos da obra de educago crista vigente, todavia nao deixa de valorizar o trabalho feito e as estruturas existen- tes. Concluo esta breve nota chamando a atengao para algumas das importantes significativas énfases da sua obra: CRITICA. Sem diivida, ha boa razao para se valorizar a postura critica. Sempre entendi que, sem autocritica e sem critica, nao pode haver progresso real. EDUCAGAO CRISTA COMO OBRA DE TODA A IGREJA. Felizmente em muitos lugares j4 vai longe 0 tempo em que as liderangas entendiam que somente a Escola Dominical realiza a obra de educagao crista. Certamente ainda ha lugares onde aquele conceito insatisfatério prevalece. VALORIZACGAO DO CONHECIMENTO DOUTRINARIO, TEORICO E DA PRATICA. Finalmente, anoto a énfase ao TREINAMENTO, nao sé das lide- tangas existentes, mas também de todos os membros do corpo de Cristo. Agradego 4 irma Sherron sua excelente contribuigao para a li- teratura crista evangélica especializada no Brasil, como o seu livro, A Igreja Ensinadora: Fundamentos Biblico-Teoldgicos e Pedagégicos. Ao Senhor da Igreja rogo que propicie a sua divulgacdo e que o utilize como instrumento da sua béngao para os pastores, para os demais lideres ¢ para todos os outros crentes, em toda a parte. Campinas, agosto de 1993 Odayr Olivetti Introdugao A Igreja Ensinadora. Que ¢ isto? Uma nova denominagao ou seita? Nao. Uma igreja de outro pais ou idioma? Nao. A Igreja. Ea igreja de Jesus Cristo, por Ele fundada, e da qual Ele é 0 cabega. Foi Jesus, o Cristo, enquanto aqui na terra, quem disse: “...edificarei a minha igreja, e as portas do inferno nao prevalecerao contra ela” (Mt 16.18). Paulo usaa imagem, “o corpo de Cristo”, para descrever a Igreja. E um organismo vivo e dinamico. Os membros recebem dons e ministérios do Senhor e vivem em amor € unido. E uma comunidade, pois “todos nés fomos batizados em um corpo” (1 Co 12.13). Essa comunidade é 0 contexto e ambiente onde nos tornamos cristaos, onde crescemos na fé e onde servimos uns aos outros ¢ a Deus. A Igreja de Cristo também é uma instituigao, uma organizagao humana-divina. No livro de Atos e nas Epistolas Pastorais comecam a surgir estruturas e organizacao eclesidsticas. E esta instituicao conseguiu algo que poucas alcangam — ja atravessou dois milénios. Pois-bem, este livro é sobre a Igreja e para a Igreja de Jesus Cristo no Brasil. E um desafio e uma diretriz para a Igreja que adentra o terceiro milénio em um mundo de crises, incertezas, desafios ¢ oportunidades. Ensinadora. Ai esta o enigma. Este adjetivo descreve a prépria natureza da Igreja e indica uma tarefa que lhe é prioritaria. Ensino, educagao, pedagogia, didatica. Sao ocupagées sérias, prioridades claras em toda e qualquer sociedade e cultura. Que aconteceria com uma nagio, ou povo, se nao houvesse o ensino? Qual instituigao ou sociedade sobreviveria sem a educagao? Sim, a Igreja ensina, tem que ensinar. Foi edificada por um Mestre que se dedicou ao ensino. Mas, como vai o ensino da Igreja? Como vai a Educagao Crista hoje? Respostas honestas nos espantam. Alguns dizem que a Escola Dominical esta em crise. Outros alegam que ela j4 morreu ¢ s6 nao foi enterrada. Para algumas pessoas, a Educaco Crista é coisa de “mulheres e criangas”. De acordo com alguns diagnésticos, o progra- ma educacional da igreja ou é um produto importado sem contextua- lizacdo e relevancia, ou é uma atividade retrégrada e ultrapassada sem pertinéncia no mundo moderno. Enfim, estamos em crise. Que fazer para reassumir ¢ revitalizar esta tarefa essencial? Talvez nos falte articular a pergunta certa. Que fundamenta a acdo pedagdgica da Igreja? Quais so os fundamentos biblicos e teolégicos para a Educagao Crista? Quais sao os principios pedagégi- cos que orientam nosso ensino? Estas sao perguntas profundas e vitais. E mister uma reflexdo séria frente a elas. E 0 propdsito deste livro. Algumas igrejas j4 estao debatendo estas perguntas ¢ t¢m um programa educacional digno de reconhecimento ¢ incentivo. Pode- mos aprender muito com suas escolas dominicais vivas e dinamicas, que revelam certa criatividade. Portanto, parecem ser as excegGes. Diante do contexto ¢ dos desafios atuais temos que agir. Nao podemos deixar a Educagao Crista como estd, para assistir a sua morte lenta. Também nao adianta ressuscitar um programa morto, experimentar novas técnicas que estao na moda, cair num ativismo sem direc’, ou mudar estruturas ou dirigentes. E necessdrio e urgente fazer uma reflexao e buscar fundamentos e bases seguras. Tudo que se faz na Igreja deve ter fundamentos biblicos e teoldgicos. Se a Biblia é 0 nosso guia, entao deve configurar-se nao spots come o contetido do ensino, mas também como orientagao peclogtpica. O que a Biblia diz sobre a Educagao Crista? A teologia 10 nao ¢ mera teoria ou doutrina, mas informa e reforma a pratica crista, incluindo o ensino. Recorremos também 4 histéria da Igreja €& pedagogia moderna, a fim de descobrir princ{pios norteadores que sao coerentes com a Biblia e a teologia. Esta obra é 0 fruto de reflexao critica e participagao ativa de um grupo de cristos, a primeira turma de mestrandos em Educa¢ao Crista do Semindrio Presbiteriano do Sul (SPS), em Campinas, SP: Abimael Marques de Melo, Ana Maria Coelho Rocha, André Luiz Ramos, Bezaliel Fausto Botelho, Dinayde Eunice M. Ferraz, Eduardo Rodrigues Silva, José Geraldo Costa Grillo, Levi Emerick Porto, Marcia Alves Guimaraes, Paulo Bronzelli, Queila Rosana Botelho Filho, Wagner Leite Bonfim, Wesley Galvao Porto e Wilson do Amaral Filho. Nés nos educamos mutuamente. Devo muitae sincera gratidao aos meus companheiros ¢ companheiras. Nosso livro é um convite para reflexao, reflexao que funda- menta a agao pedagdgica. Esperamos que cle seja o primeiro de mui- tos outros que virao, produzidos por professores e alunos do mestrado para suprir as igrejas com material adequado na drea vital da educagao crista. Que Deus conceda 4 sua Igreja, aos pastores, 4 lideranga, aos professores ¢ as professoras ¢ a cada discipulo ¢ discfpula de Cristo uma visdo clara e comovente da Igreja Ensinadora, e que nos faga seus agentes formadores até 4 consumagao do Reino. Sherron K. George 4 TAKEN BNSINADORA relacao professor-aluno, com uma preferéncia do ensino centrado no aluno. Pode-se perguntar: ensinamos pessoas ou contetido? Ou mais especificamente: na igreja, ensinamos pessoas ou Biblia? De acordo com os principios biblico-teolégicos apresentados desde o inicio deste livro, a proposta é de formar pessoas na fé crista. Evi- dentemente, usa-se a Biblia como texto principal neste processo € um curriculo formal, porém, sempre relacionado com a pratica. Como 0 professor se relaciona coni o contetido no ensino? A educadora e professora, Maria Harris, no seu livro Teaching & Religious Imagination: an Essay in the Theology of Teaching (Ensino e Imaginagio keligiosa: um Ensaio na Teologia do Ensino), diz que en- sino é a encarnagao do contetido programatico e que os professores usam muitas formas nesta encarnagao. Ela os incentivaa utilizarem © estético (arte), o emotivo (sentimentos e experiéncias), a lingua- gem verbal e nao-verbal, o ambiente fisico (“curriculo oculto”) e, especialmente, a imaginagao. Harris ainda diz que os professores tém que cuidar de si mesmos, de seus alunos ¢ de sua matéria (con- tetido programatico). Uma qualidade do Mestre Jesus era a de encarnar a verdade, sendo exemplo nas acées, nao sé nas palavras. Jesus tinha coeréncia entre sua teoria e praxis (fé crista vivenciada). Portanto, devem os professores em nossa igreja ser exemplos coerentes no viver, nas acdes e palavras. Lawrence Richards destaca a suprema importancia do papel do professor como real modelo e exemplo. A autoridade do mestre vem de seu exemplo. O professor que encarna a verdade é 0 ponto de partida do ensino. Nas palavras de Richards: “A Escritura tem de ser transmitida como realidade vivida e visivel!” (155). No seu livro To Know as We are Known: a Spirituality of Education (Conhecer Como Somos Conhecidos: uma Espiritualidade de Edu- cacao), Parker J. Palmer sugere um relacionamento de paixao e com- prometimento entre os conhecedores (professor/aluno) e o conhe- cido (contetido). A relagao entre o professor € o contetido é profun- do e pessoal, é amor, é paixao. Em outras palavras, os professores sao apaixonados pelo contetido que ensinam, e levam os alunos a comprometer-se com a verdade descoberta na matéria. Para Palmer, 100 Quem Ensina? A Pratica Docente conhecer a matéria é amd-la, é comprometer-se com ela. Em cada aula, o professor tem objetivos especificos que descre- vem o desempenho desejado por parte do aluno em relagao ao con- tetido, e procedimentos especiais de ensino que levam o aluno a descobrir a verdade por sie a comprometer-se com a verdade desco- berta. Palmer diz, portanto, que existem duas epistemologias ou maneiras de relacionar-se com o contetido. Na primeira, 0 professor éo mediador entre o conhecedor ¢ 0 conhecido. O conhecido consis- te em fatos, teorias ¢ a realidade que se encontra “Id fora”. O processo cognitivo se caracteriza pela objetividade e distancia. O aluno € um receptor passivo. Conhecer é possuir para controlar. Paulo Freire denomina esta abordagem de “educagao bancaria”. Na segunda abordagem de Palmer, o professor é 0 modelo de como relacionar-se com 0 mundo e com 0 contetido. Ha interagao com a realidade e a verdade que se encontra “aqui dentro” e o conheci- mento é rec{proco. Conhecemos e somos conhecidos. O processo resulta em comprometimento e paixao. Conhecer é amar. E isto que Thomas Groome chama de uma via de conhecimento experi- mental-relacional-reflexiva. O contetido é de suprema importancia, mas igualmente importante é a maneira de encaré-lo. As perguntas de avaliagao que necessariamente tém que ser fei- tas entre os professores na igreja sao: Encarnamos a Biblia? Somos O ENSINO ATRAS DO ENSINO Dois Modelos Epistemoldgicos em itll sa "LA fora” bettie No mundo F STC das idéias CONHECEDOR CONHECIDO (Alunos) (Contetido) Been cd ‘ eee “Aqui dentro ante Na sala 7 % de aula —> Comunidade Comprometimento 101 TGREAA ENSINADORS uma encarnagao fiel e coerente? Relacionamo-nos pessoalmente com © contetido ensinado? Somos apaixonados por aquilo que ensina- mos? Nosso contetido € relevante e significante? Comprometemo- nos com a verdade que ensinamos? O PAPEL DOS PAIS NO LAR Toda educagao ocorre dentro de um contexto. Por quem e onde é feita a Educagao Crista da crianga? As pessoas que fazem parte de seu contexto séo modelos ¢ padrées que a influenciam. Os primei- Tos ¢ mais importantes modelos sao os pais. Os filhos absorvem as atitudes, o estado emocional e os valores dos pais pelo processo de socializagao. Neste processo todos os relacionamentos emocionais que a crianga tem sao importantes. Enquanto os Ifderes e os professores da igreja tm uma incum- béncia de ensinar na igreja, eles estao realmente complementando ¢ completando o ensino de base, que se faz no lar. O sabio, lembran- do a convivéncia no seu lar, disse: “Quando eu era filho em compa- nhia de meu pai, tenro, e tinico diante de minha mae, entao ele me ensinava” (Py 4.3,4), Durante os anos formativos os pais ttm uma considerdvel influéncia sobre os filhos. A Educagao Crista nao ocorre num espago vazio. Como ¢ feita a Educagao Crista da crianga? A crianga aprende e forma sua identida- de dentro de seu contexto sociocultural e emocional. A crianga cres- ce e desenvolve sua personalidade na cultura dos pais. Aprendiza- gem por meio de contato e convivéncia com outros “andando pelo caminho” (Dt 6.7) é 0 que se chama de processo de socializacgao. Quando comega o processo de socializaga0? Quando a crianga nasce. Onde o processo de socializagao se desenvolve? A influéncia mais importante na vida de uma crianga ¢ a de seu lar. E dos pais que a crianga aprende atitudes, habitos ¢ valores. O lar, a comunidade, a igreja ¢ a escola so os contextos onde o processo de socializacao ocorre. Entio, os responsdveis pela Educacao Crista sao os pais, os Ifderes na igreja e os professores. O lar, portan- to, precede, segue e é completado pela Educagao Crista que se reali- Za Na igreja. Quem Ensina? A Pratica Docente Moisés passou seus anos de educagao formal na cultura paga e materialista do Egito, mas seu cardter e formagao espiritual foram moldados na infancia no seu lar, com sua familia (Ex 2.9,10). A formagao judaica, que determinou o curso de sua vida, foi recebi- da quando ele era crianga. Os pais transmitem seus pontos de vista, sua religiao, e seu es- tilo de vida aos filhos. A crianga aprende mediante imitago, identi- ficagdo e instrugao. Do nascimento até aos cinco anos, a personali- dade e 0 temperamento da crianga sao basicamente formados. O que a crianga absorve do seu contexto nos primeiros cinco anos da sua vida ficard para a vida inteira. Quando a crianga entra na escola e na igreja, 0 processo de so- cializagéo continua. Em cada fase de seu desenvolvimento a crianga tem certas necessidades e conflitos, ¢ o ensino e aprendizagem sao sempre conforme a fase ou a idade. Quando ela chega a adolescéncia, seu contexto jd é bem mais amplo. Os pais cristaos tém a responsabilidade de batizar ou dedicar seus filhos, porque ha uma firme solidariedade na comunidade da fé, ecomo Pedro disse: “Pois para vés outros é a promessa, para vos- sos filhos, e para todos os que ainda estao longe” (At 2.39). Os pais Educagao Crista na Familia Ensino Informal e Formal Modelo dos Pais Disciplina com Amor Batismo e Participagao 103 TGREIA EXSTVADORA que batizam ou dedicam seus filhos reconhecendo a importancia dos anos formativos. Perante os s¢rios compromissos do batismo, os pais assumem a responsabilidade de ser ministros aos filhos e de prepard-los a fazerem sua publica profissao de fé. O dever dos pais esta prescrito em Efésios 6.4; “E vés, pais, nao provoqueis yossos fi- lhos 4 ira, mas criai-os na disciplina e na admoestagao do Senhor.” Este versiculo dé aos pais responsabilidade e autoridade. Os pais usam 0 ensino informal ¢ o ensino formal, juntamente com a disci- plina com amor. A igreja, por sua vez, tem a responsabilidade de preparar os pais, de acompanha-los e ajuda-los nesta imprescindivel tarefa educa- cional. Por meio de aulas e classes espectficas, orientagao sobre culto domeéstico e disciplina, visitas ao lar e divulgacao de bibliografias, a igreja pode subsidid-los. A igreja também ¢ um instrumento de pro- cesso de socializagao. A igreja, pela sua existéncia e sua vida, é um ambiente sociocultural que exemplifica um estilo de vida peculiar, modelos biblicos, valores, atitudes e agdes cristas. Eo processo de socializagao que ocorre no lar e na igreja é sufi- ciente para a formagao e educagao cristas? Thomas H. Groome diz que nao. E preciso também ter programas educacionais intencionais | onde os professores assumem seu papel. O pastor e a lideranga da igreja precisam preocupar-se com a educagao crista. Quando todos s¢ unem no ensino informal e formal, onde a educacao intencional, sistematica, deliberada, dinamica e contextualizada completa a educa- ao nas experiéncias da vida, teremos um desenvolvimento da fé crista e da igreja crista. Que todo leitor assuma responsabilidade docente com zelo. . Enfe: © pastor, com sua visio educadora, € quemtem especificamente a responsabilidade -de educar, orientar lideres ¢ fazer com que cada membro seja diapileda © cumpra, por sua vez, seu papel de discipulador. Oslideres exemplo e modelo para os outros crentes, O ensino é uma das dreas de servico prioricario da igrejac promeve o crescimento espiritual, 0 desenvolvimento dos dons e ministérios de todo: : — Oministério docente da igreja é um chamado que Deus faza algumas pessoas, a comecar do pastor, € que a Igreja : precisa treinar € apoiar. Nas cinco abordagens « pedagégicas que sao apresenta- / i te peal eee Heres da ercia se jam ¢ treinem a outro: eee : oe Oselementos indispensaveis 80.0 relacionamen Quem Aprende? A Natureza e Papel do Aluno AYzr Quem Aprende? A Natureza e Papel do Aluno e todos sao professores, quem sao os alunos? Se todos ensinam, quem aprende? Vejamos outro papel nosso. TODOS APRENDEM Todos os cristdos estao envolvidos no processo de crescimento espiritual. Cada membro da igreja, incluindo 0 pastor e a lideranga, tem sempre algo para aprender e aplicar na sua vida. Em tal situa- 0, assume o papel ¢ a responsabilidade de aluno no proc ‘0 edu- cacional. Quando é professor, tem que saber como relacionar-se com seus alunos. O bom educador é sempre aprendiz e também enten- de seus aprendizes. A Educagao Crista envolve pessoas e objetiva seu desenvolvi- mento nas praxis crista e ministerial. Sua finalidade éa formagao in- tegral e 0 preparo de cristdos, professores e pais, que irao instruir ¢ formar outros. Para instrumentalizar esse processo, é necessdrio en- tender a doutrina do ser humano. 107 TGREIY ENSINADORA QUE E O SER HUMANO? Criado 4 Imagem de Deus! A base da doutrina do ser humano ¢ 0 fato de sermos criados imagem de Deus. Todas as pessoas foram criadas 4 “imagem de Deus (Gn 1.27). Por isto, o ser humano tem valor, dignidade, integrida: de, potencialidade e liberdade. Para um aluno assumir sua responsa: bilidade e seu papel no processo ensino-aprendizagem, precisa conh cer seu valor (Mc 6.26). Para um professor encarar seus alunos, p! cisa reconhecer que, por causa da “imagem de Deus”, cada aluno tem dignidade. ‘Todo aluno (cada membro da igreja) tem dignidade e capaci: dade para aprender, pensar e assumir uma responsabilidade no seu desenvolvimento. Capacidade, grau de inteligéncia e talento pode! ser diferentes, mas todos os alunos numa igreja ou instituicao tem a: mesma dignidade. Porser criado a “imagem de Deus”, também é preciso que todo professor ¢ aluno se conscientizem € assumam a sua responsabili- dade perante Deus. Somos responsdveis pelas nossas acées, decisées, pensamentos ¢ palavras e, por isso, sofremos as conseqiiéncias deles_ (Dt 30.15-20). Na educagao crista nao és6 a lideranca e os docentes que tém responsabilidade, os discentes também. Paulo disse aos presbiteros de Efeso: “Atendei por vés e por to- do o rebanho” (At 20.28). Todos ensinam. Antes de assumirmos responsabilidades para discipular outros, temos que ser responsdveis por nds mesmos, temos que ser alunos. Escrevendo ao jovem Ti- méteo, Paulo 0 exortou: “Nao te facas negligente para com o dom: que hd em ti... Medira estas coisas, e nelas sé diligente, para que 0 | teu progresso a todos seja manifesto, Tem cuidado de ti mesmo e da_ doutrina” (1 Tm 4.14-16). Estes versfculos mostram que tanto os 4. No conceito teolégico “imagem de Deus” refere-se as faculdades racionais, emo- cionais ¢ espirituais que separam o ser humano das outras criaturas, Por ser “imagem de Deus”, o cristéo procura comunhao com Deus e também semelhanca, ou seja, tem como sua meta “ser como Cristo”. A imago Dei, que vem da criacao, € uma doutrina biblica fundamental para entender a natureza do ser humano. Veja as passagens que afirmam esta doutrina: Genesis 1.26,27; 5.1,3; ¢ 9.6; 1 Corintios 11.7; Colossenses 3.10; ¢ Tiago 3.9. 108 Quem Aprende? A Natureza e Papel do Aluno professores, quanto os alunos, tem responsabilidade para com o seu desenvolvimento. O cristao foi chamado ¢ vocacionado por Deus para desenvolver-se e isto implica numa grande responsabilidade. Qual é a responsabilidade dos alunos no processo de cresci- mento ou do ensino-aprendizagem? Os alunos sao responsdveis pe- rante Deus por sua participacao ativa no processo de sua formac¢ao integral. Em Génesis 1.28, Deus deu ao casal que criara a responsabilida- de de multiplicar-se, “sujeitar” e “dominar” a terra. A narrativa de Génesis 2.15 acrescenta as tarefas de “cultivar” e “guardar” o jardim, e 2.19,20 Ihes permite “dar nomes” aos animais. Que significam estes verbos? Que imagens sao usadas no texto para falar da vocagao humana? O ser humano é um procriador, cientista, jardineiro, pastor, mordomo, enfim, co-criador sempre sujeito ao Criador, todavia, coma tesponsabilidade e autoridade para produzir, criar, conhecer, cuidar, servir e trabalhar. Esta participagao ativa significard o qué para o aluno? Qual éa sua vocacao? Ter um espirito receptivo, abrir-se e dialogar nas aulas, pensar, estudar, ler, pesquisar, escrever, investigar, descobrir, anali- sar, sintetizar, confrontar e criar. Tudo isto se faz em didlogo com a comunidade da fé, com a Biblia, com a teologia. A chamada Escola Nova na pratica pedagégica brasileira, com a influéncia de Jean Piaget, Carl Rogers ¢ outros, destaca a participagao ativa do aluno na aprendizagem. Paulo Freire propoe uma “Peda- gogia da Pergunta” que envolve o aluno ativamente no processo € da muita énfase ao didlogo entre educandos e educadores. No desenvolvimento e preparagao dos discfpulos de Jesus, cles sempre estavam fazendo e respondendo perguntas. Havia muito dia- logo informal entre o Mestre ¢ os discipulos. Jesus os deixou participar ativamente e, assim, os leyou a pensar por si prdprios. No relato de Génesis 1 ¢ 2 descobre-se também que o ser huma- no recebeu do Criador liberdade com limites, ou seja, permissao com proibigio. Deus deu ao casal uma sé ordem: “De toda arvore do jardim comerds livremente, mas da drvore do conhecimento do 109 TUREIN EXSTNADORA bem e do mal nao comers (2.16-17). Os limites foram pouco: mas firmes e bem definidos. A liberdade foi bem maior. Um dos primeiros livros de Paulo Freire foi Educagdo Co) Pratica da Liberdade. Perante uma sociedade fechada e dominado a educa¢ao conscientiza ¢ liberta, abre a mente, dialoga, leva a criti cidade e a transformagao do mundo em que vivemos. Aplicando este princfpio ao aluno pode-se dizer que Deus in: centiva a criatividade com parametros, e que 0 ensino deve promt ver espago para essa criatividade. Deus concede ao ser humano poder generativo da vida, a fertilidade, a produtividade, a criatividade estética e a imaginagao artistica. O jardim descrito em Génesis manifesta as delicias e belezas de Deus, em que as duas 4rvores, “da vida’ e a “do conhecimento do bem e do mal” (vs. 9), sao sim- bolos dos seus mistérios, Nesse jardim 0 ser humano tem participa: ao ativa com responsabilidade. As implicagoes destas verdades para os cristios envolvidos ni programa educacional da igreja sao contundentes, O aluno tem privilégio e a responsabilidade de explorar e pesquisar com libe dade, usar criativamente a arte ea imaginagao e, ao mesmo temp tem que respeitar certos limites e parametros. Em Educagito Religiosa Crista, Thomas H. Groome coloca ali- berdade humana como uma das finalidades imediatas da educaca na igreja e, no fim de seu capitulo sobre a liberdade, afirma: Qualquer forma de manipulagéo ou doutrinacéo é tanto md educagdo quanto flagrantemente contraproducente para os pro- pésitos da educagao crista. O processo educactonal que usamos deve, ele proprio, ser capaz de promover a emancipacao huma- na. Qualquer abordagem que, por sua propria natureza, seja de molde a controlar as pessoas ou privd-las de suas palavras, é inadequada ao nosso propdsito... Por outras palavras, nossa atividade educacional deve ser projetada para promover maio- res graus de consciéncia critica, de forma que nosso povo possa responder as exigéncias do Reino em seus préprios contextos soci- ais, pessoais e politicos (161, 162). Quem Aprende? A Natureza e Papel do Aluno HA mais uma implicagao que provém do fato de que somos feitos A imagem de Deus. Na histéria da Criagao em Génesis, Deus disse: “Fagamos o homem 4 nossa imagem” (1.26). Depois lemos, “homem e mulher os criou” (1.27). Somente pode-se entender a humanidade em termos de relacionamento, semelhanga, unidade e muitua responsabilidade. O ser humano nao pode ser definido e de- senyolvido isoladamente. E necessdrio que todo aluno esteja apren- dendo em um contexto de relacionamento com os outros. Quando Deus disse: “Nao é bom que o ser humano esteja sé” (2.18), torna-se claro que Deus nos criou para viver em. comunidade, em solidariedade, em unio ¢ relacionamentos de confianga.* Nao hd formagio espiritual em isolamento. Sabe-se que todos os crentes fazem parte do Corpo de Cristo, somos membros uns dos outros. Quando um membro sofre, todos sofrem. Quando um se alegra, todos compartilham da alegria. H4 uma ligagao emocional entre os membros da comunidade crista. Lawrence Richards, em Teologia da Educacao Crista, deixa evidente que 0 contexto de todo aprendizado é um relacionamento familiar, intimo e amoroso, um ambiente aberto e de confianga. Cada aluno na igreja, seja qual for sua idade, recebe apoio e suporte e, no seio da igreja, desenvolve seu ministério pratico. Pela socializaco na igreja muitas influéncias o moldam e contribuem para seu crescimento integral. A igreja local é uma comunidade crista que faz parte do Corpo de Cristo. Professores ¢ alunos estudam a Biblia e a teologia juntos. Procuram solugGes para problemas ¢ orientacdes para a vida e minis- tério. Faz-se necessdrio, na igreja e na Escola Dominical, procurar, criar e participar da comunhao crista. Os relacionamentos e¢ as atitudes fazem parte do “curriculo 2, Quando © homem encontiou a mulher, ele disse: “Esta, afinal, é osso dos meus ossos ¢ carne da minha carne; chamar-se-d varoa, porquanto do vario foi tomada” (Gn 2.23). Nesse encontro existencial véem-se a base e a necessidade de todo relacionamento humano. © casamento é um paradigma de comunidade. O narrador entao comenta: “Por isso deixa o homem pai € mae, ¢ se une & sua mulher, tornando-se os dois uma sé carne” (2.24). Cristo depois compara esta unido com a unidade no seu corpo, a Igreja, onde ha relacionamentos de uniao espiritual. ll TOREIA EXSINADORA oculto” do programa educacional da igreja. Se nao houver relacio- namentos de amor ¢ confianga dentro da igreja, o ensino e aprendiza- gem ficam prejudicados. E preciso promover cooperagao e nado com- peticao, comunidade e nao individualidade. Pecador Entretanto, na comunhao descobre-se logo o fato revelado em: Génesis 3, de que o ser humano, embora criado a imagem de Deus, é um pecador. O pecado nao destréi a imagem de Deus em nds, - mas, inexoravelmente, corrompe ou deforma esta imagem. Na trans- formacao que Cristo efetua no ser humano regenerado, Ele restaura essa imagem deformada. £ um processo lento € progressivo de trans- formagio. Nesse sentido, o ser humano, redimido por Cristo, é uma nova iatura, mas também é um ser em desenvolvimento fisico, psicoldgi- cl co, social, intelectual e espiricual. Muitos psicélogos tém estudado esse processo de desenyolyimento, mostrando que sempre segue uma seqiiéncia fixa. Jean Piaget foi o primeiro ededicou sua vida a estudar as quatro fases do desenvolvimento moral, ¢ James Fowler 0 desenvol- vimento da fé. Erik Erikson apresenta o desenvolvimento psico- social da personalidade em oito fases, do nascimento até a velhice, mostrando um conflito basico em cada etapa. Os desenvolvimentistas dao subsidios concretos pata lembrar- Mos que os nossos alunos sao incompletos, limitados e imperfeitos, Sao pecadores salvos, procurando libertar-se dia a dia dos pecados ¢ desenvolver-se progressivamente. Quiais sao as implicag6es disto para a Educagao Crista? Para to- dos, professores e alunos, ¢ essencial ter muita humildade, confronta- dos pelos fatos da existéncia, pela falta de conhecimento e pela possi- bilidade de desenvolyimento futuro. Ninguém é dono do saber, Ninguém é completo. O processo de aprendizagem e desenvolvimen- to é continuo ¢ lento. E por isso que devemos ter muita paciéncia uns com os outros. O perdao ¢ essencial no Corpo de Cristo. Nao é ficil disciplinarmo-nos ¢ relacionarmo-nos, porque no somos perfei- tos, mas pecadores. Pecadores necessitam de algumas exortacdes, exigéncias, incentivos, e até adverténcias. 112 Quem Aprende? A Natureza e Papel do Aluno Quando assim se entende o ser humano, 9 aluno é tratado com dignidade e respeito, participa responsdvel e ativamente no pro- cesso ensino-aprendizagem, goza de liberdade com limites, desen- volve sua criatividade e vive em comunidade. Ao mesmo tempo, disciplina, paciéncia, humildade e uma compreensao do complexo processo de desenvolvimento necessariamente hao de acompanhar o ensino. QUEM APRENDE? = NOSSA PARTICIPACAO NA EDUCACAO Implicagdes para a E.C. Base Teolégica DOUTRINA DO SER HUMANO imagem de Deus ——+ Dignidade ! Cuidar do Jardim ——-+ Responsabilidade Participagao Ativa Homem e Mulher + Comunhao Pecador ———————> Processo continuo Paciéncia Disciplina COMO O SER HUMANO APRENDE? Se, por um lado, o ser humano tem um imenso potencial por ser criado 4 imagem de Deus, e, por outro lado, tem grandes limita- des por ser pecador, como este ser desenvolve seu potencial? Como aprende? Certa vez Jesus disse aos seus discipulos: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coragao, e achareis descanso para as vossas almas” (Mt 11.29). Noutra ocasiao Ele lhes disse: ‘Aprendei, pois, a parabola da figueira...” (Mt 24.32; Mc 13.28). Jesus quer que seus seguidores aprendam, pois Ele mesmo ‘aprendeu a obedi- éncia pelas coisas que sofreu” (Hb 5.8). A finalidade de sua aprendi- zagem foi a obediéncia. 113 AGREAA EYSINADORA Ha varios niveis de aprendizagem, culminando coma obedién- cia, a pratica, a transformagao. O Mestre ordenou que fizéssemos. discipulos: “...ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.20). Ele também disse: “Bem-aventurados sio os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Le 11.28). Qual é, entao, a dinamica da aprendizagem crista? Como é que pessoas limitadas e pecadoras chegam A aprendizagem e obedién- cia? Para responder a pergunta: que é aprender?, propomos um con- ceito singelo: E uma alteragdo ou mudanca de pensamentos (conheci- mentos), atitudes, valores ou comportamentos. A aprendizagem é uma alteragao ou mudanga que envolve a pessoa toda. Como, porém, ocorre esta mudanga de atitudes, valores, com- portamento e¢ conhecimentos? Como o aluno aprende? Joao Amés Coménio (1592-1670), 0 piedoso e prolixo pedago- go moravio, escreveu um livro, Didactica Magna, que se tem torna- do um classico. Ele queria uma reforma pedagégica com educagao sobre tudo para todos. Uma de suas afirmagGes famosas é que “apren- da-se a fazer, fazendo” (320) Ele assim explica: Mecdnicos néo detém os aprendizes das suas artes com especu- lagoes tedricas, mas poem-nos de imediato a trabalhar, para que aprendam fabricar fabricando, esculpir esculpindo, pintar pin- tando, dangar dangando, etc. Assim, também nas escolas, deve aprender-se escrever escrevendo, falar falando, cantar cantan- do, raciocinar raciocinando, etc., para que as escolas néo sejam apenas oficinas onde se trabalha fervidamente, Assim, final- mente, pelos bons resultados da prdtica, todos experimentarito a verdade do provérbio: fazendo aprendemos a fazer (320). John Dewey (1859-1952), 0 filésofo ¢ educador norte-america- no de maior influéncia, numa tentativa de unir teoria e pratica, afir- mou quea experiéncia é a base, o princfpio e o meio de toda educagao, Em seu liyro Experience & Education’ ele diz que a educagao tem que ser baseada na experiéncia atual de vida de pessoas e sociedades, Esta afirmagao causou uma verdadeira revolucio na educacgao mo- derna. Quem Aprende? A Natureza e Papel do Aluno Conforme Dewey, a pessoa aprende por meio de suas experi- éncias. Aprender é experimentar, participar, sentir, pensar, resolver, viver, obedecer. O aluno que se envolve e aprende é atiyo; a aprendi- zagem parte da sua experiéncia. Muitas experiéncias vém por meio dos cinco sentidos. A vida mental da crianga é muito estimulada pelas sensagdes. Criangas pe- quenas tém mais interesse naquilo que apela aos cinco sentidos. Pelos sentidos de visio, audigao, olfato, paladar e tato, a crianga € levada a experimentar e obedecer a verdade. Os adultos aprendem mais pelo pensamento e reflexao relacionados a experiéncia da vida real. A aprendizagem, portanto, depende do aluno e de suas expe- riéncias. O professor tem que planejar, orientar e acompanhar as experiéncias de aprendizagem dos alunos. Carl Rogers chega ao ponto de dizer que a fungao do mestre é de apenas facilitar a aprendizagem e a mudanga. Ele apresenta o aluno como centro do processo cducativo. Paulo Freire insiste no fato de que o aluno é um sujeito ativo no processo educativo. Ele confronta com veeméncia a passividade do aluno no ensino. E um desafio seriissimo para 0 ensino tradicio- nal da igreja. Jean Piaget também destacou a participagao ativa dos alunos, ¢ propés uma escola ativa, de muitas atividades e experiéncias. Importa, pois, providenciar e dirigir as experiéncias dentro e fora da sala de aula, para que se aprenda. A Educacao Crista inclui cada experiéncia dos crentes no contexto de seu relacionamento com a comunidade cristé. H4 ensino formal ¢ também informal. As experiéncias no processo de aprendizagem podem ser divi- 3, COMENIO, Joao Amés, Didactica Magna. Trad. do texto latino de Joaquim Ferreira Gomes. 3.* ed. Lisboa: Fundagio Calouste Gulbenkian, 1957. E posstvel obter esta tradugio que também contém uma introdugao ¢ notas pelo tradutor. E de grande valor. Coménio foi um reformador educacional e um precursor da pedagogia moderna. 4, DEWEY, John. Experience & Education. Nova York: Collier Books, 1938. O primeiro e mais conhecido livro de Dewey nessa drea foi Democracy and Education (1916), onde ele desenvolveu mais completamente sua teoria educacional. A presente obra, escrita duas décadas depois, revela como Dewey reformulou aperfeicoou suas idéias como resultado de suas experiéncias em escolas e das criticas recebidas. 115 didas em quatro categorias ou nfveis principais. Ja vimos que um dos métodos de ensino que Jesus usava era a parabola. Por que sera? A parabola fazia com que a verdade biblica se tornasse uma realidade concreta. A pardbola levava o discipulo a examinar os fatos contados. Perante 0 exame dos fatos e das circuns- tancias, 0 ouvinte precisa tomar uma decisdo. Portanto, a primeira | experiéncia na aprendizagem € examinar os fatos. Quando Jesus terminou a parabola do semeador, Ele acrescen- tou: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouga” (Mc 4.9). Os doze devem ter examinado e discutido este ensino, pois apds foram a Jesus e “o interrogaram a respeito das pardbolas” (4.10). Examinar quer dizer ouvir, conhecer bem, pesquisar, analisare investigar. Os discipulos sempre faziam perguntas a Jesus, eram inves- tigadores. O bom professor incentiva seus alunos a investigarem 0 que, por que, como, onde, quando, por quem e qual, como também os pais incentivam seus filhos. Os alunos que fazem muitas perguntas tornam-se investigadores. Nao ha aprendizagem quando os alunos sido apenas ouvintes passivos. E por que examinar? Para descobrir algo! A segunda experiéncia na aprendizagem é descobrir significado e valores. O aluno examina os fatos a fim de descobrir significados. Quem descobre para si 0 significado e os valores € um descobridor. Assim, o ensino nao vem pela imposicao de cima para baixo. A crianga, 0 adolescente, 0 jo- vem eo adulto, num processo muito ativo e participativo, pensam e descobrem para si as verdades biblicas. Esta aprendizagem exige reflexao ¢ relevancia, é um ensino pro- fundo e pertinente. Nao haé mais memorizagao sem significagao. Nao hé mais teoria abstrata e irrelevante. O ensino se torna vida, descoberta pessoal e coletiva. John Milton Gregory escreveu um pequeno livro chamado As Sete Leis do Ensino. Duas delas sao dignas de ser citadas aqui. A Lei do Ensino é: “Estimular e dirigir as atividades do aluno, e se poss{- vel nada dizer-lhe do que ele possa aprender por si.” Depois vem a Lei do Processo da Aprendizagem: “O aluno deve reproduzir, em 116 Quem Aprende? A Natureza e Papel do Aluno sua propria mente, a verdade a ser aprendida” (1980:50,59). Estas leis so totalmente coerentes com 0 ensino de Génesis 1 ¢ 2 ¢ com os métodos de Jesus. O senso de dignidade e responsabilidade do aluno o leva a uma participacao ativa no processo educacional. Mas a experiéncia de descobrir nao é suficiente. Um aluno, certa vez, indagou: “Por que eu nao fago, nao pratico, tudo que ja examine e descobri?” A resposta foi: “Ser4 que falta compromisso?” A terceira experiéncia de aprendizagem ¢ comprometer-se com a verdade descoberta. No seu livro To Know as We are Known: a Spirituality of Education, Parker J. Palmer sugere um relacionamen- to de paixao e comprometimento entre o conhecedor e o conheci- do. Em outras palavras, o aluno compromete-se com a verdade desco- berta na aula. Conhecer é amar, é comprometer-se, é ter iniciativa. Assumir um compromisso é ter forga de vontade. Em cada curso e aula 0 professor tem objetivos especificos que indicam o desempenho desejado por parte do aluno e procedimen- tos especiais de ensino que levam o aluno a participar ativamente do processo. O professor apresenta a verdade biblica e leva todo aluno a descobri-la por si e a comprometer-se com a verdade descoberta. A partir do seu compromisso pessoal, é indispensdvel que o aluno aplique & sua vida o significado e os valores descobertos. O compromisso o leva a esta quarta e tltima experiéncia de apren- dizado, que é aplicar o que aprendeu na vida didria, ou praticar a verdade. O bom mestre jamais pode negligenciar os necessdrios compro- missos ¢€ as aplicagées praticas. Thomas H. Groome desenvolve uma abordagem educacional que assegura estas experiéncias. Ele divide o momento pedagégico em cinco movimentos. Nos dois primeiros, por meio de perguntas e respostas, os alunos descrevem sua “agdo presente” ou experiéncia pessoal em relacao ao assunto da aula e re- fletem sobre o “por que” de suas atitudes e crengas. Depois, no tercei- ro movimento, Groome propoe a exposicao biblica, teolégica e/ou histérica do assunto pelo educador. Apés esse momento, nos movi- mentos quatro ¢ cinco, os alunos praticam uma dialética em que confrontam sua pratica atual com a Biblia e chegam as suas conclu- 117 AGRE BASINADORA s6es, tomam decisbes sobre mudangas, comprometem-se e esbogam propostas especificas de aplicagdes. O aluno sincero deve sempre fazer esta pergunta: “Como pos- so aplicar e usar 0 conhecimento que a licdo me traz?” Para Paulo Freire é necessario o desenvolvimento de uma cons- ciéncia critica a fim de que haja compromissos, aplicagoes e transfor- magoes. O aluno consciente se torna agente de transformacgao como resultado do ensino. Qual fase do processo de aprendizagem € mais frutifera e eleva- da? Compromisso e aplicagao. Se nao houver compromisso € aplica- cao do significado a propria vida, nunca se aprende totalmente uma verdade. O aluno tem que se apropriar da verdade aprendida e adoté- la em sua vida didria. Assim os alunos e a igreja toda assumem as responsabilidades e implicacSes pessoais e sociais do evangelho. Como se pode ajudar os cristaos a examinarem os fatos, desco- brirem os significados e os valores, comprometerem-se com a verda- de descoberta e a aplicarem na vida didria? Por meio do conheci- mento profundo dos alunos e da elaboracdo cuidadosa de seu pro- grama educacional, a igreja pode planejar e organizar experiéncias de aprendizagem no seu ensino formal e informal. Nos préximos capitulos examinar-se-do estes aspectos. EXPERIENCIAS DE APRENDIZAGEM Comprometer-se Descobrir Examinar “imagem de De corrompida as _ primeira experiencia na aprendizagem é examinar os fatos, a i jescobri idades criadores ne ee ele. Isto ¢ quer dee que, diante de sua ‘vocago, os alunos tem que participar ativamente de sua educa- éo num relacionamento de relativa liberdade, o que incentiva a criatividade transformacao da sociedade em que vivem. Na educagio crista, isto é acrescido do fato de que os seres humanos foram criados para viverem em comunidade, como Corpo de Cristo, numa comunhao crista. Sendo ambos, : all 9 oes cias, portanto, deve haver um relacionamento ee a amoroso entre si, numa es eS de suas _ Analisase,a seguir, eens hae para uma compreensao de como ele aprende, em que se explicita que a mnificadas ¢ valo: Que é Educagao Crista? als Que é Educagao Crista? ncontramos uma ordem de Jesus em Mateus 28.18-20 dada na véspera de sua ascensao: “Ide, portanto, fazei discfpulos de todas as nagées, batizando-os em nome do Pai e do Filho edo Espirito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.” Freqiientemente utilizamos este texto para sermées ¢campanhas evangelisticas ou missiondrias. Entao, a ordem de Jesus é que apenas evangelizemos? Nao, é que evangelizemos ¢ ensinemos. Educagao Crista ¢ obediéncia a esta ordem de Jesus. No Antigo Testamento, em Deuteronémio 6, é registrado um discurso dirigido ao povo de Israel na véspera da entrada na terra de Canaa. O tema do discurso é: os Mandamentos de Deus que repre- sentam a resposta do povo ao amor de Deus. Sao basicamente dois mandamentos, 0 primeiro é amar a Deus (vv. 5,6). Depois uma segunda ordem € dirigida aos pais judeus acerca das palavras do Senhor: “Tu as inculcards a teus filhos e delas falards assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te e ao levantar-te” (Dt 6.7). Deus quer que 0 ameémos e ensinemos aos nossos filhos, que transmitamos a fé as préximas geracoes. Hoje ainda temos que obedecer as ordens de “fazer discipulos” ede “inculcar a palavra aos filhos”. A Educacao Crista é a continuacao de um processo que se inicia com o “fazer discfpulos”. O discipulado ¢ a educagao dos filhos séo processos em que as pessoas crescem e€ 13 O Processo de Desenvolvimento da Pessoa Toda aQe O Processo de Desenvolvimento da Pessoa Toda ser humano, centro, objeto e sujeito da aprendizagem é magnifico, pois foi criado & imagem do Deus Trino. Também é incompleto, menos do que poderia e deveria ser, € pecador. Cristo usa processos naturais e sobrenaturais para re- cuperar o pecador, Se somos educadores comprometidos com o de- senvolvimento integral de nossos alunos, e também estamos ainda em desenvolvimento, convém estudar este processo. Uma pessoa desenvolve-se fisica, mental, emocional e espiritualmente, do nasci- mento até 4 morte. A Educagao Crista acompanha e promove este processo de desenvolvimento da personalidade, que segue muitas fases, e cada uma possui caracteristicas préprias. Muitos psicdlogos tém estudado este processo e o tém classificado de varias maneiras. Seguem-se as oito classificagdes ou fases de Erik Erikson. Depois considerar-se-4o resumidamente os trabalhos de Piaget, Fowler, Kohlberg ¢ Freire." 1. Daniel Schipani, no seu livro El Reino de Dios y el Ministerio Educativo de la Iglesia, faz um resumo semelhante, abordando rapidamente Erikson, Piaget, Kohlberg Fowler, dando mais atengao e detalhes a Paulo Freire. No presente capitulo 0 enfoque é 121 TGREJA EVSINADORA O objetivo desta breve pincelada nao é de esgotar 0 assunto, nem de aprofundar psicologicamente nele, mas de alertar 0 educa- dor cristio da importancia da psicologia. Desde o primeiro cap{- tulo deste livro, onde conceituou-se a Educagao Crista, 0 fez em termos da pessoa toda. Os esbogos que se seguem tém a finalidade também de ajudar na compreensio do processo de desenvolvimen- to da pessoa toda. ERIK ERIKSON? O processo de desenvolvimento consiste em mudangas constan- tes, transig6es criticas e crises formadoras. Como a Educagao Crista visa ao crescimento da pessoa toda, ¢ importante entender as fases do desenvolvimento humano. Erikson diferencia 8 fases de desenvolvimento. Cada fase é ca- racterizada por uma crise formadora. Os individuos precisam resolver as crises formadoras da vida, para formar ¢ amadurecer sua personali- dade, e, assim, prosseguir para a fase seguinte. As crises formadoras nunca sao completamente tesolvidas. Como o préprio Paulo disse: “Porque nem mesmo compreendo 0 meu préprio modo de agir, pois nao faco 0 que prefiro, ¢ sim, o que detesto” (Rm 7.15). Suas adverténcias em Colossenses 2 mostram que o desenvolvimento dos cristaos de Colossos estava incompleto. Aos Filipenses ele disse: “Nao que eu o tenha ja recebido, ou tenha jd obtido a perfeigao... esquecendo-me das coisas que para tras fi- cam e avangando para as que diante de mim estao, prossigo para o alvo...” (3.12-14). Erikson. Thomas A. Groome apresenta os esquemas de Fowler ¢ Piaget (Educacao Religi- osa Crista), Um texto bésico usado em varias universidades brasileiras € 0 de Angelo Biaggio, Psicologia do Desenvolvimento, Vous. E importante observar que as idades de cada fase nao sio universais ou absolutas, nao sio um calendario, pode haver diferengas entre pessoas ¢ aulturas. O que ¢ essencial ¢ a seqiiéncia, que ¢ fixa. 2. Erikson nasceu em 1902 na Alemanha. A partir de 1927 trabalhou com a equipe de Freud. Por causa do nazismo, emigrou para os EUA em 1933, onde se tornou professor na Universidade de Harvard. Sua especialidade, psicanalista de criangas, 0 levou a escrever Childhood and Society em 1950. Este livro foi traduzido para 0 portagués, e sera citado neste capitulo: /nfiincia e Sociedade. Trad. Gildasio Amado. 2.* ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. O Processo de Desenvolvimento da Pessoa Toda Em todo desenvolvimento ha progressoes, paradas, regressoes e fixagdes. O alvo é adquirir a qualidade positiva presente na crise formadora, e dominar ou adaptar a qualidade negativa. Se as qualida- des negativas nfo forem dominadas e controladas naquela fase, acom- panharao a pessoa durante toda a vida. Quando Josué enfrentou uma tremenda mudanga e transig’o na sua vida, Deus lhe disse: “Sé forte e corajoso, nao temas, nem te espantes” (Js 1.9). Coragem é uma qualidade positiva e medo ¢ uma qualidade negativa. Se ele carregasse consigo 0 medo, nunca teria estabelecido o povo de Deus na terra prometida. FASES DO DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE 0-15 meses 16 - 36 meses 3-4 anos 5-12 anos 13-20 FASE I — Confianga x Desconfianga (0-15 meses) A primeira crise formadora na vida é CONFIANGA x DES- CONFIANGA. Esta crise € principal na Fase I, que vai do nascimen- to aos 15 meses. Por que o primeiro ano de vida ¢ tao decisivo no processo educacional? Por que o fundamento € lancado no primeiro ano de existéncia. A confianga é desenvolvida principalmente neste perfodo. Como € que uma crianga recém-nascida adquire confianga? Por meio de afeicao e calor humano. O afeto é absolutamente indis- 123 TGRESA EXSINADOR pensdvel nos seus primeiros meses de vida. Desde o ventre materno pode haver rejeicao, Logo que a crianga é tomada nos bracos da mie, ela pode sentir amor e aceitacao, que é sua grande necessidade. Nesse periodo a crianga demonstra sua confiancga, mamando e dormindo trangiiilamente. Ela sente seguranga quando suas necessi- dades fisiolégicas sao supridas (alimentagao e higiene). A primeira pessoa na qual a crianca confia é normalmente a mae. A confianca depende da qualidade do relacionamento maternal e do toque amoro- so dos pais. Uma crianga amada sente confianga. Por outro lado, uma crianga que nao recebe amor e aceitagao € cujas necessidades fisicas nao sao supridas, sentird desconfianga. Esta qualidade desenvolvida no primeiro ano é mantidaa vida toda. Um adulto desconfiado adquiriu esta desconfianga durante o primeiro ano de vida, e ficard com ela durante a vida toda, se nao tiver ajuda. FASE II — Autonomia x Vergonha e Duivida (16-36 meses) Uma vez que a crianga vence a desconfianga, ela esté pronta para enfrentar a crise formadora da Fase II, que é AUTONOMIA x VERGONHA. Esta fase normalmente yai dos 16 aos 36 meses. Au- tonomia quer dizer auto-aceitacao do “eu” como identidade. Deseja-se conduzir a crianga & auto-aceitagao ou autonomia. Nesta fase de desenvolvimento a crianga entende que ela ¢ “gente”; éuma pessoa com gostos e movimentos e vontade prdpria. A autono- mia significard que a crianga j4 nao é totalmente dependente. F 0 primeiro passo na dire¢do da independéncia que a crianga terd um dia. Ela alcanga muitos alvos importantes durante esta fase: alimentar- se, andar, falar, usar o peniquinho, vestir-se, tomar banho, recolher seus brinquedos. Ela esta descobrindo o seu mundo e a si mesma. Autonomia é uma qualidade positiva, enquanto vergonha e dui- vida precoce sao negativas. A crianga poderd passar muita vergonha e diivida durante essa fase, porquanto verificard que seu comporta- mento observado pelos outros porque expressam prazer ou irritagao. Para a crianga, é muito doloroso e marcante passar vergonha. Lembra-se vocé de alguma vez ter passado vergonha na sua infancia? Vocé passou a adolescéncia pensando que os outros esta- 124 O Processo de Desenvolvimento da Pessoa Toda vam rindo de vocé? Hoje vocé sente-se envergonhado facilmente? A vergonha pode passar a ser uma qualidade dominante que resulta no complexo de inferioridade. O “supercontrole exterior” pode re- sultar em uma constante tendéncia para dtivida. Quando a crianga pequena comega a assumir autonomia, que- rendo fazer coisas sozinha, est4 desenvolyendo uma auto-aceitagao. Ela quer fazer muitas coisas, mas também aprende que hd limites e disciplina. Quando consegue fazer algo por si mesma, outros devem elogid-la, estimul-la, congratular-se com ela e incentiva-la. Assim um dia, ela poder dizer: “Tudo posso naquele que me fortalece’ (p 4.13). Por outro lado, acrianga que sé passa vergonha ¢ recebe rejeigao e critica dos pais, que nao a deixam fazer nada sozinha, ou criticam o que ela faz, crescerd pensando: “Nada posso”. Ela continuamente sentira vergonha e rejeigao. Necessatio se faz estabelecer limites e comegar a modelar a vonta- de da crianga, incentivando-a a adquirir autonomia, enquanto se protege o seu espirito, ajudando-a a combater a vergonha. Se os mais importantes anos na formacio de uma pessoa sao os dois primeiros, e se estas duas fases sao a base para todo o desenvolvi- mento, por que a igreja dé tanta énfase aos adultos e tao pouca aten- cao aos pequeninos e ao treinamento dos pais? Qual deve ser a classe mais importante na igreja? FASE III — Iniciativa x Culpa (3 a 4 anos) A crise formadora da Fase III é: INICIATIVA x CULPA. O objetivo para a crianga que esté nesta fase é alcangar um equilibrio entre iniciativa e culpa. E uma fase que vai dos trés aos quatro anos. Nesta fase a crianca é ativa e toma iniciativa de movimento, de loco- mogio fisica, tem imaginagao viva, curiosidade e desejo de se expandir e explorar a linguagem. A imaginagao viva ou ativa é um dom de Deus. A crianca precisa deixar a dependéncia total dos pais ¢ comegar a supervisionar a st mesma em algumas de suas atividades, Neste mundo de “faz-de- conta” a crianca esta se preparando para o mundo real, onde ela terd 125 JOREIA EVSINADORA que tomar iniciativa. Esta fase é importante ¢ fascinante. Nao hd outra fase em que a crianga esteja mais pronta para aprender. Ela aprende por meio da brincadeira, da imaginagao e da curiosidade. Ela aprende imitando e “fazendo-de-conta”. Os pais sao modelos imitados pelas criancas e com os quais se identificam. Quando, porém, a crianga comega a tomar iniciativa, as suas ag6es podem ser frustradas por outros, ¢ cla sente culpa. Sua iniciativa pode tornar-se manipulacao agressiva, levando-a a sair dos limites, ser repreendida e sentir culpa. A curiosidade pode causar exploragao que resulta em sentimento de culpa. A crianga nesta fase precisa conseguir um equilfbrio entre iniciativa e culpa. Por que a culpa é tao dominante nesta fase? Porque emocional- mente a crianga é muito sensfvel, e ela est4 desenvolvendo sua consci- éncia moral. A crianga nesta fase j4 sabe o que estd certo e errado, Ela comega a formular um conceito vago de pecado. Ela precisa de orientagao equilibrada e sébia no desenvolvimento da consciéncia e do conceito de pecado, O dilema dela é 0 mesmo do apéstolo Paulo em Romanos 7; é preciso adquirir uma consciéncia crista sem ser dominada pelo complexo de culpa. A culpa excessiva ¢ predominante fecha a porta da graga e do perdao, Se a crianga formar um conceito de um Deus “carrasco”, um Deus que fica vigiando e “nao gosta” de determinado comporta- mento, um juiz severo, mais tarde ter4 muita dificuldade em aceitar o Deus perdoador, o Deus de amor e graga. FASE IV — Habilidade x Inferioridade (5 a 12 anos) Obtendo um equilibrio entre iniciativa ¢ culpa, a crianga esta pronta para a Fase IV, que abrange o desenvolvimento entre 5 e 12 anos. A crise formadora desta fase é: HABILIDADE x INFERIORI- DADE. E 0 inicio do perfodo escolar. A crianga deixa 0 mundo da brincadeira ¢ vai 8 escola para aprender e trabalhar. E uma “entrada para a vida’. E preciso que a crianga desenvolva a capacidade necess4- ria para fazer aquilo que € 0 seu dever, que ela cresca em habilidade. A crianga desenyolve suas habilidades quando seus professores 126 O Processo de Desenvolvimento da Pessoa Toda e pais Ihe ensinam e mostram como fazer certas coisas novas que esto ao seu alcance. Assim, ela pode produzir algo, obter éxito e sentir autoconfianga. A crianga que desenvolve suas habilidades tem um senso de competéncia. Boa maneira de medir as habilidades ¢ por meio da competi- ¢ao. A crianga ¢ motivada pela competigao a tornar-se mestra. Ela gosta de competir com todo mundo, ¢ pode ser competidora baru- thenta e briguenta. Precisa de orientagao e controle. A competigao, que é natural e pode ser util, também pode ser problematica. A crianga precisa aprender a se esforcar, a fazer seu melhor, a ganhar ¢ também a perder. A crianga nem sempre ganhara nas competicées ou tirard as melhores notas. Temos que ensina-la a aceitar seus fracassos e limitagdes (2 Co 12.9,10), e a prosseguir, sempre melhorando. Muito mais perigosa do que a competicao ¢ a comparagao. A raiz da inferioridade est4 na comparagi0. Nunca se deve compa- rar uma crianga com outra. Cada pessoa é um individuo sui generis. Nesta fase, a esfera de influéncia ja se ampliou bastante. Ha real mudanga de dependéncia dos pais agora para dependéncia das instituig6es sociais. As pessoas mais importantes para a crianga nesta fase so seus colegas. As criangas gostam da “turma” ou da “roda”, tanto na escola como na rua. Também os professores sio importantes, porque a crianga estd se identificando com outros adultos. Eles podem estimular, clogiar ¢ ensinar a criangaa desenvolver suas habilidades. Para desenvolver suas habilidades, capacidades manuais e opera- Ges mentais, a crianca necesita de muitas atividades. Ela quer gastar sua energia, estando sempre ocupada e sendo titil na sociedade. As habilidades tém que ser desenvolvidas, senao a crianga en- frentara um complexo de inferioridade. A crianga tem habilidades, mas ela ainda é crianga e se sente incompleta ¢ limitada. Por isto, muitas veres ela sente sua inferioridade. A inferioridade pode surgir se a crianga sempre perde nas compe- tigdes, ou se ela nao alcanga certa competéncia, ou se ela nunca re- cebe a apreciagao dos outros. A risada dos colegas pode ser motivo 127 JGREIA ENSINADORA da crianga sentir-se inferior aos outros. Muitas pessoas passam a vida sentindo-se inferiores aos outros, porque nesta fase nado adquiriram as habilidades necessdrias para vencer a inferioridade e dar-lhes uma auto-imagem saudavel. Quando a pessoa nao foi bem alfabetizada durante esta fase, ela conseqiiente- mente tem dificuldades com a leitura durante toda sua vida escolar, que a deixa insatisfeita consigo e frustrada. A pessoa insatisfeita consi- go mesma tem dificuldades no relacionamento com os outros. A crianga precisa ter capacidade para fazer muitas coisas e pro- duzir resultados visfveis. Nesta fase ela est4 comegando a descobrir, avaliar e utilizar seus dons e habilidades (Pv 1.5; 2 Tm 3.17; Rm 12.3-8). As habilidades descobertas e desenvolvidas nesta fase de desenvolvimento serao aperfeigoadas e empregadas durante a vida inteira. Deus da a cada um de seus filhos a capacidade necessdria para ser-lhe fiel e itil. Deus quer que seus servos sejam competen- tes, como foram Daniel e seus companheiros (Dn 1.4). A crianga que nao adquire certas habilidades crescera tendo medo de enfren- tar responsabilidades e diminuird seu sentimento de valor préprio, sentindo frustracao e complexo de inferioridade. FASE V — Identidade x Confusao de Papel (13 a 20 anos) A confusao de papel esta presente na vida de todo adolescente. Esta quinta fase, dos 13 aos 20 anos, é uma fase de transigdo. Esta deixando de ser crianga para se tornar adulto. Portanto, na entrada da adolescéncia ¢ na safda, vive-se uma crise formadora. Nesta transi- 40, a crise formadora é: IDENTIDADE x CONFUSAO, pois o adolescente precisa estabelecer sua prpria identidade. Esta formando ou fixando sua identidade, sua personalidade, seu “eu”. Até aos 20 anos, na maioria dos casos, seu papel adulto ja est4 tomando forma definitiva. De acordo com as habilidades descobertas e desenvolvidas na fase anterior, o adolescente vai procurar descobrir sua vocagdo, ou seja, a escolha de uma profissao e 0 preparo para uma carreira. Ele deseja tornar-se uma parte integrante da sociedade. Descobrindo sua vocacao, ele esta estabelecendo sua identidade profissional e seu papel na sociedade. O Processo de Desenvolvimento da Pessoa Toda Para estabelecer sua identidade, o adolescente afasta-se do con- trole dos pais e aproxima-se do grupo social por meio de amizades € de “namoros”. No relacionamento 0 adolescente esta estabelecendo sua identidade social ¢ sexual. A identidade religiosa também é importante. O adolescente questiona e duvida da fé paterna, e quer descobrir uma fé auténtica ¢ pratica, uma fé que é sua. Nesta fase o adolescente quer assumir seu papel adulto na igreja e normalmente fara sua profissao de fé. Quem acha significagao na sua profissao de fé, nas suas amiza- des, no seu namoro, na escolha de seus estudos e de sua vocagao, esté superando os peculiares conflitos da adolescéncia e definindo sua prépria identidade. Quem nao consegue definir sua identidade durante a fase da adolescéncia, ficard no estado de confusao de papel toda a sua vida. Ha confusao na vida de todo adolescente devido as dramaticas mudangas fisicas, emocionais, mentais, sociais ¢ espirituais. Duvi- das e perguntas sao normais, As emog6es sao fortes e complicadas. Instabilidade é comum. O adolescente precisa achar-se. Se nao, vai perder-se e passar a vida dominado pela confusao. A confusao vem quando 0 adolescente nao é reconhecido como uma pessoa, como um individuo distinto, quando tudo é despersona- lizado e generalizado. Os pais ea igreja tem que dar espago € liberdade ao adolescente, oferecendo-lhe modelos auténticos, orientagao prati- ca, respostas honestas e muita compreensao. Uma queixa comum do adolescente é: “Ninguém me compreende!” Temos que compreen- der o adolescente. Assim podemos ajuda-lo a estabelecer sua identida- de e vencer a confusio. FASE VI — Intimidade x Isolamento (20 a 30 anos) Passada a crise formadora do adolescente, vem a Fase VI, que € ado adulto na casa dos 20. A crise formadora desta fase é: INTIMI- DADE?x ISOLAMENTO, Freqiientemente durante esta fase vem 3. Erikson define intimidade como “a capacidade de se confiar a filiagbes ¢ associagoes concretas e de desenvolver a forga ética necessdria para ser fiel a essas ligacoes, mesmo que elas imponham sacrificios e compromissos si icativos” (1976: 242-3). 129 WR EIA ENSIVADORA o casamento. No casamento 0 adulto esta integrando sua identida- de com a de outro. Este relacionamento fornece a intimidade de que a pessoa precisa. E importante entender 0 conceito de intimi- dade, Refere-se a um relacionamento, ou a relacionamentos, onde se encontra apoio emocional, aceitacao incondicional, comunica- 40 profunda e compreensao. No caso do casamento, inclui a inti- midade e uniao fisicas. A intimidade é necessdria para satisfagao e realizagdo no mun- do adulto. Nao é bom que uma pessoa esteja sé. Precisamos uns dos outros. Muitos adultos encontram intimidade no casamento. Entre- tanto, 0 casamento nao garante intimidade. Muitas pessoas casadas ainda sentem-se isoladas e solitarias. O casal tem de se esforcar para ter intimidade no casamento. O adulto também pode achar intimidade no trabalho. Intimida- de significaré convivéncia ¢ trabalho com outras pessoas. E. participa- cao na comunidade onde temos um senso de pertencer. F fazer coisas com outras pessoas. O que é importante para o adulto é “amar e tra- balhar”. A comunhao dentro da comunidade crista deve preencher a necessidade dos adultos que sao solteiros, juntamente com a convi- véncia no seu trabalho. Paulo mostra a maneira de todos acharem intimidade: “Instru{-vos e aconselhai-vos mutuamente” (Cl 3.16); € “Consolai-vos, pois, uns aos outros, e edificai-vos reciprocamente” (1 Ts 5.11). Ele incentivou os Filipenses a manterem relacio- namentos de intimidade: “...de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo senti- mento” (2.2). Um dos resumos de Atos revela a intimidade da comunidade crista: “Da multidao dos que creram era um 0 coracao ¢ a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuia; tudo, porém, lhes era comum.” (4.32) Entrando no mundo adulto, ainda ha crises, mudangas, e transi- g6es, e ainda se precisa de equilfbrio para que haja desenvolvimen- to. O mundo esté cheio de jovens adultos solitarios que precisam 130 O Processo de Desenvolvimento da Pessoa Toda identificar-se uns com os outros, Quem n4o encontrar no casamen- to, no trabalho, na igreja ou na comunidade a intimidade que pre- cisa, sentird a frustracao do isolamento. FASE VII — Produtividade x Estagnacao (30 a 60 anos) Quando uma pessoa chega aos 30 anos é considerada um adul- to. Uma vez que a pessoa se torna adulta e alcanga uma certa maturi- dade, isto nao quer dizer que jd passou por todas as transig6es da vi- da. Muitos adultos nao sabem que, durante seus “30”, “40” e “50”, ainda enfrentam uma crise formadora, que é: PRODUTIVIDA: DE‘ x ESTAGNAGAO. Na familia e na sociedade 0 adulto precisa manter um senso de produtividade ou generatividade. O adulto tem senso de produtividade quando percebe que os outros precisam dele, que é util, que tem um lugar significativo na sociedade. Quem nao tem produtividade sentird estagnacgao. Na estagnacao o adulto sente-se inutile incompetente. E preciso vencer ou evitar esta qualidade negativa. Paulo tinha senso de produtividade. Aos Tessalonicenses ele escreveu: “a nossa estada entre vés nao se tornou infrutifera” (1 Ts 1). Ele estimulou os Corintios a afirmarem sua produtividade: “Sede firmes, inabalaveis, e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, 0 vosso trabalho nao é vio” (1 Co 15.58). A produtividade evidencia-se na procriagao e na criagio de fi- Thos. Ela leva o adulto maduro a aceitar sua prole, ou seja, a proxima geracdo, como sua responsabilidade. Os pais tem que ensinar seus filhos. Moisés destaca 0 ensino dos filhos nos livros da Lei. Sobre a P4scoa, Deus falou: “Este dia vos sera por memorial, e 0 celebrareis como solenidade ao Senhor: nas vossas geracées o celebrareis por es- tatuto perpétuo” (Ex 12.14). A produtividade também € obtida no seryigo mtituo dos adul- tos dentro da igreja ¢ aos necessitados na sociedade. Competéncia numa profissao também oferece produtividade ao adulto. 4, A palavea que Erikson aqui usa é “generatividade”, portanto, achamos que pro- dutividade traduz melhor o sentido. Para cle & “fundamentalmente a preocupacio relativa guiara nova geracio... ¢ abrange sinénimos mais populares como produtividade e criatividade” (1976:246). 131 TORE ENSIVADORA A estagnacao domina o adulto que sente que ninguém preci: dele ¢ que nao tem um lugar seguro na sociedade. A safda dos filhos do “ninho” é um novo desafio. FASE VIII - Integridade do Ego x Desespero (60 + anos) Mesmo 0 adulto maduro enfrenta varias transigGes. A crise for- madora a ser constantemente resolvida depois dos 60 anos é: INTE GRIDADE? x DESESPERO. Esta é a crise que nos prepara paraa velhice. O desespero domina muitas pessoas na velhice. Esta pode ser feliz para quem vence o desespero e adquire a integridade. A integri- dade para o adulto maduro é relacionada com a confianga infantil. Quando uma pessoa chega ao ponto de aceitagao do ciclo da vida, a sua confianga est4 completa ao ponto de produzir integridade. E in- tegracao ¢ estabilidade emocional. E uma vida de ordem, significado e equilfbrio. Nesta fase o relacionamento com os filhos ¢ diferente. Os filhos comegam a cuidar dos pais, invertendo-se os papéis. Também 0 trabalho comega a ser diferente. Durante esta fase 0 adulto prepara-se para perder seu cOnjuge e para aposentar-se, que também é uma perda. O adulto precisa de integridade para suportar estas crises ¢ dizer: “Fui mogo, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado...” (S1 37.25). O salmista venceu o desespero. Talvez nao tenha sido facil. Notam-se as stiplicas de um anciao no Salmo 71: “Nao me rejeites na minha velhice quando me faltarem as for- gas, nao me desampares” (ys. 9). O desespero nesta fase muitas vezes é resultado da debilidade fisica, sentimento de culpa e do medo da morte. Este medo é uma realidade depois dos 60 anos. Quando se comegam a perder paren- tes e amigos de sua idade, tem-se que enfrentar a realidade de que todos vamos morrer um dia. Sabendo que um dia morrerd, 0 idoso pode deixar o desespero dominar, ou pode vencé-lo com integridade, aceitando a morte como um fato natural. 5. Erikson diz. que a integridade do ego é “a seguranga acumulada do ego relativa a sua predisposigao para a ordem e para a expressao. Fa aceitacao do préprio ¢ tinico ciclo de vida como alguma coisa que tinha que ser... Nesta consolidagao final, a morte perde seu cardter pungente” (1976:246). 132 O Processo de Desenvolvimento da Pessoa Toda OUTROS DESENVOLVIMENTISTAS Além do psicélogo alemao, Erik Erikson, ha também outros que tém estudado outros aspectos do desenvolvimento humano. Jean Piaget, bidlogo, psicélogo e fildsofo suigo, pesquisou o desen- yolyimento cognitivo de criangas e adolescentes durante muitos anos e chegou & conclusao de que a inteligéncia se desenvolve pela interagdo entre uma pessoa e seu meio ambiente. Nesta interagao certas estruturas cognitivas se desenvolyem.’ Piaget deixa claro como a crianga passa por uma seqiiéncia de etapas, nao podendo alcangar a préxima até desenvolver as estruturas cognitivas adequadas e poder realizar as tarefas da anterior. Groome explica assim: De acordo com Piaget, 0 desenvolvimento cognitive duma pessoa passa por certos estdgios distingutveis, mas sobrepostos, que come- cam com os primeiros momentos de vida e geralmente se comple- tam por volta dos quinze anos. Por “estdgio” entende ele 0 con- junto integrado de operacdes mentais ¢ estruturas psicologicas geralmente estdveis que caracterizam cada fase do desenvolvi- mento cognitivo (359). O primeiro estdgio é “sensério-motor” (0-2 anos), durante o qual a crianga aprende a movimentar-se ¢ a lidar com seu mundo pelos movimentos ¢ sentidos. Piaget chama o segundo estdgio de “pré-operacional” (2-6 anos), quando a crianga desenvolye a linguagem e sua capacidade simbdlica. Seu pensamento é intuitivo e seus conceitos sao baseados em per cepgGes, intuigéo e emogao. O egocentrismo é uma caracteristica natural e comum nesta fase. Biaggio conceitua-o assim: “Uma incapa- cidade de se colocar do ponto de vista de outrem” (68), e dé o se- guinte exemplo: Se colocamos sobre a mesa uma casa, uma drvore e uma igreja de brinquedo, e perguntamos a crianca: “Qual dos trés, esta 6, A literatura de Piaget ¢ sobre Piaget ¢ vasta, Veja, por exemplo, O Nascimento du Inteligéncia na Crianga, RJ: Zaher, 1970. Piicologia ¢ Pedagogia. RJ: Forense, 1969. ‘A Piicologia da Crianca. SP: Difusto Européia do Livro, 1968. 133 TARE EXSTADORA mais perto de voce?” , a crianca pré-operacional responde correta- mente: “a drvore”. Porém, se perguntamos a crianga: “Qual dos trés, a casa, a drvore, ou a igreja, estd mais perto de mim (o experimentador)?”, a crianca também responde: “a drvore” , revelando esta incapacidade de se colocar do ponto de vista dos outros (68): O terceiro estégio no desenvolvimento cognitivo chama-se de “operacional concreto” (7-11). A crianga comega processos de racio- cinio Iégico, trabalhando com conceitos e pensamentos concretos. Ela pode descentralizar e aprender a cooperar com os outros. Ela j& é capaz de reflexio. A ccrianga adentra 0 ultimo estagio cognitivo na pré-adolescéncia (11-12), 0 estagio “operacional formal”. Ja é€ capaz de raciocinar sobre hipéteses e conceitos abstratos, formular suas préprias hipé- teses e procurar solucGes para seus problemas. A crianga pode agora usar a reflexdo para interpretar sua experiéncia. Infelizmente, mui- tos adolescentes, jovens ¢ adultos, ainda nao estao neste est4gio, o que dificulta certas abordagens pedagdgicas que exigem o pensa- mento reflexivo e critico. Seguindo o modelo de Piaget, Lawrence Kohlberg, professor no Seminario de Princeton, delineou os estdgios do desenvolvimento moral. Ele o dividiu em trés niveis e demonstrou como se fazem de- cisées morais em cada n{vel. O primeiro nivel ¢ 0 “pré-convencional” (3-11 anos), quando a crianga primeiramente evita certos comporta- mentos por causa do medo de castigo e pratica outros a fim de receber os prémios da obediéncia. No segundo nivel, o “convencional”, a orientagao é de concordancia interpessoal. Inicialmente, dos 12 aos 17 anos, anda em “turmas” e demonstra lealdade ao grupo e confor- midade moral. Depois entra numa fase de “lei e ordem” com consen- soa respeito das regras e moralidade da sociedade e/ou igreja. O ter- ceiro estégio (25 + anos) é 0 “pds-convencional”, onde a moralidade é de contrato social e lei democraticamente aceitos. Ha direitos indivi- duais gerais e padrées aprovados pela sociedade, porém, as leis podem ser mudadas conforme a utilidade social e 0 consenso. Depois se chega 2 moralidade de princ(pios individuais de consciéncia. Muitas 134 O Processo de Desenvolvimento da Pessoa Toda pessoas, portanto, permanecem a vida toda no nivel dois. James Fowler estudou o desenvolvimento da fé, que segue seis estdgios.” A crianga de 3 a7 anos tem uma f€ intuitiva-projetiva. Ela imita os exemplos e agGes dos pais ¢ outros. A afetividade domina, o que ela sente na igreja ¢ importante. O segundo estagio é a fé mitica- literal (7-11) que é uma fé filiativa, é do grupo imediato, da comuni- dade. Ela junta-se conscientemente e participa ativamente de uma igreja e descobre suas histérias ¢ ritos. O terceiro estdgio é a fé sintética-convencional (12-17), onde se faz uma sintese ou escolha das diversas expectativas convencio- nais. Vai-se além da familia e do grupo social primario. Confia na autoridade institucional, o que “eles” dizem. A fé individualizante-reflexiva pode-se iniciar entre os 18 ¢ 30 anos. Nesse momento a pessoa assume responsabilidade pelos seus compromissos de fé e desenvolve seu estilo cristao de vida. Existem tensGes, ambigtiidades e questionamentos. Abre-se sempre para deba- tes e descobertas. O quinto estdgio é a fé conjuntiva (30-40), quando obtém inte- gridade e harmonia com outras posigées. No tiltimo estagio alcanga- se a fé universalizante (40+), que ¢ rara. Finalmente, para completar esta breve visao panoramica, consi- deremos os trés nfveis da consciéncia, conforme o esquema de Paulo Freire.’ Ele fala do desenvolvimento de sociedades (especialmente na América Latina) que eram “fechadas” e caminham para serem “abertas”. Semelhantemente, as pessoas passam por trés niveis na conscientizagao. O primeiro é da “consciéncia semi-intransitiva’, que é um nivel quase sé biolégico, em que a pessoa € impermedvel para a investigagao, fechada aos desafios, nao capta causalidade, segue magia, ¢ faralista, pessimista, alienada, massificada e nao assume compromissos. 7. FOWLER, James. Os Fitdgios da Fé, rad. Juilio 2. T. Zabatiero. S. Leopoldo, RS. Sinodal, 1992. 8. Seus livros sao muitos, Os trés niveis de consciéncia s4o apresentados em Educa- ao Como Pratica da Liberdade. 18.4 ed. RJ: Paz e Terra, 1987. Veja também Pedagogia do Oprimido. 135 TGRES | BNSIVADORS O segundo nivel ¢ da “consciéncia transitiva ingénua”, quando a pessoa comega a objetivar os fatos, aceita desafios, é capaz de sim- ples interpretagdes das situagdes problematicas, é emocional e polémica, susceptivel de pouco didlogo, idealiza o passado, porém permeabilidade e compromisso sao possibilidades. Nesta situacao a pessoa pode mover-se para o terceiro nivel da “consciéncia critica”. Ela é capaz de conhecimento critico de sua realidade, didlogo, inter- PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 1, Sensério- Pré-Convencional Desconfianca motor ey (0-15 meses) (G-2ance). | ease ti Castigo ¢ (8-7 anos) Autonomia x Estagio 2: (es nes frertmerial s) Relativista 2. Fé Mitica- (8-11 anos) Literal (8-12 anos) Iniciativa x Culpa (3-4 anos) 2, Pré-Opera- Convencional cional i : Estagio 3: Moralidade Habilidade x (2-6 anos) | *Bom Garoto" bly Inferioridade: (12-17 anos) 3. Sintética- (5-12 anos) Convencionai Estagio 4: (12-17 anos) “Lei e Ordem" identidade x Autoridade Confusao Mantendo a (13-19 anos) Moralidade (18-25 anos) 4, Individualizante- Reflexiva (18-30 anos) 3. Operacional Concreto (7-11 anos) intimidade x lsolamento Pés-Convencional (20-30 anos) Estagio 5: Woraidade do rato @ Lei Produtividade x Bontrato ¢ Lal ate | 5: Fé Conjuntiva Estagnacao eones (+40 anos) (80-60 anos) (425 anos) A Estagio 6: Integridade x 4. Operacional | Moralidade de Desespero Formal Principios Individuais | 6. Fé (+60 anos) (12-15 anos) | de Consciéncia Universalizante (Adaptado do quadro de Daniel S. Schipani em E/ Reino de Dios y ef Ministerio Educativo de la Iglesia.) 136 O Processo de Desenvolvimento da Pessoa Toda pretagdes profundas, sente inquietagao, ¢ interrogadora, nao polémica, flexivel, permedvel e comprometida com transformagao. E possivel fazer comparagées entre cada desenvolvimentista € também ¢ interessante focalizar nas diversas faixas etarias e seu desen- volvimento integral. O conceito de desenvolvimento humano tem respaldo biblico. Em Lucas 2.52 encontra-se um quadro do desenvol- yimento do menino Jesus: “E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graca, diante de Deus e dos homens.” Era crescimento integral. Para ter-se um crescimento cognitivo, emocional, social, moral e espiri- tual, é necessério entender como a pessoa se desenvolve em cada area, ‘Tratou-se muito superficialmente desses estudos sé para alertar o educador de sua existéncia e importancia. E necessdrio salientar 0 conceito fundamental do desenvolvi- mento humano e sua importancia para o ministério educacional. A Educagao Crista trata do desenvolvimento integral de todas as pessoas na igreja. Tanto a pedagogia como a psicologia do desenvol- vimento sao de inestimavel valor para os professores na igreja. Estamos ensinando, aconselhando e acompanhando pessoas no seu desenvolvimento integral. A escolha de contetido programatico e de métodos depende, em parte, dos estagios dos alunos. Precisa-se conhecer os alunos! Estamos ensinando pessoas e formando vidas! 137 i : posicao de Paulo Freire q trés niveis de consciéncia, demonstrando: a Programa de Ensino da Igreja Toda 2104 Programa de Ensino da Igreja Toda “A educacao cristé é um ministério dinamico do Espirito Santo; um ministério em roe que Ele se desincumbe de sua tarefa, que € transformar os crentes através de processos que Deus inseriu na natureza humana e na natureza da Igreja” (Richards: 97). 0 primeiro capitulo deste livro estabelecemos como defini- cao de Educagao Crista: “Um processo pelo qual Cristo é formado nas pessoas, visando transformagio, formagao ¢ crescimento da pessoa toda e da igreja toda em todo o tempo”. A seguir, tragamos as bases e os fundamentos biblicos, teoldgicos e histéricos do ensino cristéo. Consideramos também a natureza e 0 papel do professor e do aluno a partir de uma perspectiva biblica € pedagégica. No capitulo anterior, apresentamos, resumidamente, varios esquemas que explicam o desenvolvimento da pessoa huma- na em sua totalidade. Para concluir, queremos destacar o papel da Igreja como um todo, no ensino formal ¢ informal, por ser ela a comunidade que forma e¢ ensina pessoas pata viverem a vida crista. Para ser uma verdadeiramente Igreja Ensinadora ou Edificadora tera de cumprir integralmente todos os seus ministérios, visando a pes- soa integral de seus fi¢is. A partir da indagacao: QUEM ENSINA?, discorremos, no capitulo 7, sobre o ministério docente da igreja. Vimos ali que, de maneira geral, todos ensinam, mas, especifica- mente, os pastores, a lideranga, os professores e os pais ensinam. Focalizamos as pessoas que ministram o ensino formal ¢ aquelas que informalmente ensinam por meio do processo de socializagao. 139 TGREIA ENS ADORA naturalmente se desenvolvem. CONCEITO Nossa primeira tarefa é de conceituac4o. Que é educaco crista? Ha muitas maneiras de defini-la. De acordo com a definicio de John H. Westerhoff II], Educagao Crista consiste em “todos os esforgos deliberados, sistematicos € sustentados, pelos quais a comunidade da fé procura facilitar o desenvolvimento de um estilo cristao de vida por parte de pessoas e grupos”.! Pode-se dizer que a Educacao Crista é um processo, tanto de transformagao como de formagao de pessoas e comunidades. A Igreja acompanha e tutora as pessoas desde o nascimento até a morte. Ela se faz presente desde o batismo ou dedicagao infantil até o fim da jornada terrena no funeral. A Educagao Crista facilita, promove, gera, guia, acompanha e estimula o desenvolvimento das pessoas, a partir do nascimento até A maturidade e 4 morte. ‘Talvez uma das raz6es porque a Educagao Crista nao tenha sido valorizada e promovida com seriedade e compromisso maiores no Brasil seja que 0 conceito que prevalece é muito vago ou limitado. Por isso, propde-se neste livro um conceito claro e abrangente de Educagao Cristi como um processo deliberado e intencional pelo qual Cristo é formado nas pessoas, visando a transformacao, formagao e crescimento da pessoa toda e da Igreja toda em todo 0 tempo. A PESSOA TODA Educagao Crista é um processo continuo de crescimento que envolve a pessoa toda. No evangelho de Lucas 2.52 lemos: “E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graga, diante de Deus e dos homens.” O menino Jesus, na sua humanidade, passou pelos estagios de desenvolvimento humano. Ele crescia intelectual, fisica, spiritual, 1. WESTERHOFR, John H, (ed,) A Colloguy on Christian Education. Filadélfia: United Church Press, 1972. P. 63. Daniel S. Schipani usa a definigao de Westerhoff em seu livro £1 Reino de Dios y el Ministerio Fducativo de la Iglesia. Miami: Caribe, 1983. 2.13. A palavra na definigéo traduzida “sustentados” no original & sustained. Schipani a traduz como sostenidos. Em portugués “sustentados” é a melhor tradugao literal, portanto, o sentido continuados, mantidos, apoiados. Que 6 Educagao Crista? emocional e socialmente. Intelectual Comumente, enfatiza-se na educagao a atividade mental, ou seja, Crescimento no conhecimento e no entendimento. O psicélogo suico, Jean Piaget, ofereceu-nos uma grande contribuigao em seu estudo do desenvolvimento cognitivo. Sem dtivida, a Educagao Crista envolve a mente. E 0 processo pelo qual a pessoa serdesetivolye no seul conhiediments de Deus;/de seu Filho Jesus Cristo, de sua palavra e de sua Igreja. Crescer em conhecimento é uma parte vital do desenvolvimento da pessoa toda, mas no se limita somente a este aspecto. Emocional O processo de desenvolvimento inclui também o afeto, ou seja, o desenvolvimento emocional. Deus nos criou com emocoes, contu- do, nem sempre aprendemos a expressd-las, controla-las e viver com nosso temperamento. Acabamos ferindo os outros ¢ sendo feridos. O resultado pode ser represséo ou desequilibrio emocional. O desenvolvimento emocional satisfatério é aquele em que o discfpulo é levado a amar-se a si mesmo, a recuperar sua auto-imagem o mais possivel, sendo, entao, capaz de viver na sociedade, amar a seu préximo e contribuir para seu crescimento. O equilibrio emocio- nal determina o desenvolvimento social. Quando se desenvolve a prdpria vida psicolégica, tem-se capacidade de manter relacionamen- tos bons com os outros. Erik Erikson estudou o desenvolvimento da personalidade ¢ ‘igevajinalienonenenenees arenterdee a cromoven ueniereccunente emocional e social equilibrado.’ Espititnal Nao se pode separar o desenvolvimento espiritual do crescimen- to integral da pessoa. A filosofia grega introduziu uma heresia perigosa 20 CasHanisme, separando “corpo ealma” ow o'material’do espitituall 2. No capitulo 9 deste livro hd um estudo do esquema de Erik Erikson eas oito fases no desenvolvimento da personalidade e também de Jean Piaget e outros desenvolyimentis- tas. 15 JGREIA ENSTMADORA A COMUNIDADE CRISTA: UM AGENTE DE SOCIALIZACAO Neste capitulo destacaremos a igreja como uma comunidade ensinadotra. A igreja crista é um nticleo social e, como tal, um instru- mento de socializagao. Em 1 Pedro 2.9 temos uma descrigao da igreja cristé: “Vés, porém, sois raca eleita, sacerdécio real, nac3o_ santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” Podemos pertencer a diversas sociedades, mas a comunidade que deve ter o maior impacto sobre nds € nossos filhos ¢ a igreja. Qual é 0 papel da igreja na socializacao? Richards (63) descre- ve 0 processo assim: Se nds queremos semelhanea [a Cristo] — nossa meta é discipula- do — entito precisamos concentrar nossos esforgos na educacao néo em verbalizacoes isoladas da Verdade, mas em formar uma comunidade em que a Verdade é vivida como realidade. Preci- samos concentrar nossos esforcos na educacao em compreender e usar a Igreja, 0 Corpo de Cristo, como cultura, dentro da qual as pessoas que recebem 0 dom da vida de Deus devem ser envol- vidas, e nisto socializadas em tudo que significa tornar-se como Ele é. Thomas H. Groome dedica um capitulo de seu livro ao pro- cesso de socializagdo que ocorre na igreja. O titulo deste capitulo é— altamente sugestivo: “Juntos, tornar-se cristaos.” A tese dele é: Para chegar a ser ¢ continuar a ser cristéo, exige-se um proceso de socializagéo em uma comunidade de fé crista (166). Depois ele afirma: E no seio de um meio sociocultural cristéo que as pessoas che- gam a apropriar-se dos stmbolos portadores da tradigao. E ai que elas encontram modelos de funcao, uma visto do mundo e um sistema de valor que podem ser interiorizados como nossa propria auto-identidade crista... todos os nossos empenhos edu- cacionais darao pouco fruto, a menos que se desenvolvam numa comunidade de fé crista (180). 140 Programa de Ensino da Igreja Toda Daniel Schipani apresenta a igreja no seu contexto sociocultural como o ponto de partida da educagao crista e o contexto onde o en- sino se da. Ele diz. que o papel da igreja toda na educacao é de promo- yer apoio mtituo e um senso de auto-estima as pessoas, aceitar as di- ferencas pessoais (1 Co 12.14s; Rm 12.3s), permanecer aberta e em interagdo com o meio sociocultural, admitir a complexidade das si- tuagées humanas € permitir conflitos e suportar verdades incémodas (165s). AGENDAS E PROCESSO DA EDUCACAO CRISTA A Palavra e 0 Espirito AS PESSOAS © Contexto Sociocultural A Comunidade Crista * Contextualizagao * Praxis / Agdo / Problematizagao: Programa - necessidades Educacional: - problemas - integrado - deliberado: * Prioridades/Alvos - sistematico Objetivos da = eentnis Educacéo Crista para: * Atividades -a Igreja toda Educacionais: - criangas - objetivos : - adolescentes/jovens - conteuidos (curriculo) - adultos - recursos humanos - familias - recursos didaticos - professores/ lideres - métodos - avaliagao Para Schipani, a educagio crista tem trés agendas ou compromis- sos: com a Palayra eo Espirito, com a Igreja¢ com a sociedade. H4 uma interacio e dialética entre as trés. E preciso esclarecer os ensi- nos biblicos e discernir o trabalho do Espirito, ter uma compreen- sao critica do contexto sociocultural nosso e uma visdo da natureza 141 TORE A BVSIVADORA e da missao da Igreja (107). A igreja, pela sua existéncia e sua vida, é um ambiente sociocultural que exemplifica um estilo de vida peculiar, modelos biblicos, valores, atitudes e ages cristas. Cada membro forma uma identidade crista no contexto dos relacionamentos ¢ influéncias den- tro da comunidade dos fidis, Isto acontece por meio do processo de socializacéo. Vejamos trés aspectos da participagao dos cristaos na’ comunidade crista. Comunidade Social Primeiramente, participamos da Comunidade Social. A vida social do cristao é seu convivio e comunh3o com os membros da igreja. O cerne da vida social da comunidade é a comunhao de uns com os outros, Temos comunhao porque Deus nos deu uma natureza social. Deus nos criou “homem e mulher” porque “nao é bom que o homem [ou a mulher] esteja s6” (Gn 2.18). Todo ser humano pre- cisa de convivéncia social. Todo aluno precisa ser socializado ¢ discipulado dentro da comunidade. O convivio cristao é prova do fato de que a igreja é uma Comunidade Social. Dentro desta comunidade, com a qual nos identificamos e na qual imitamos modelos cristaos, integramo-nos pelo processo de socializacao, em que modelos biblicos de vida moral, lideranga, na- moro e casamento nos sao transmitidos, Os convertidos da Igreja Primitiva perseveravam “na comu- nhao” (At 2.42), e “todos os que creram estavam juntos, e tinham tudo em comum” (2.44). Eles atendiam as urgentes necessidades fisicas uns dos outros e comiam juntos. Tinham um ministério soci- al, porque para eles a igreja era uma Comunidade Social. Na Igreja nos edificamos mutuamente e assimilamos a verdade biblica. Cristo “designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar” (Mc 3.14). Na convivéncia com Jesus eles aprenderam muito, ¢ no ministério sempre estavam em grupos ou de dois em dois. O ministério cristo se faz em equipe, em comunidade. Por meio de nossa participagao na vida do Corpo de Cristo, a igrcja torna-se um instrumento transformador no processo de sociali- 142 Programa de Ensino da Igreja Toda zagao. Este processo implica necessdria convivéncia numa Comuni- dade Social. Comunidade Liturgica A igreja é uma comunidade batismal. Quando Lucas relata o nascimento da Igreja, em Atos 2, na ocasiao da descida do Espirito Santo no dia de Pentecoste, ele recorda estas palavras significativas no sermao de Pedro: “Arrependei-vos, ¢ cada um de vés seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissao dos vossos pecados, ¢ recebe- reis o dom do Espirito Santo” (At 2.38). A seguir 3.000 pessoas fo- ram batizadas e integradas na Igreja. Desde 0 inicio 0 batismo e a ceia fazem parte do culto cristao. Falando sobre 0 culto, Paulo diz: “Pois em um sé Espirito, nds fomos batizados em um corpo...” (1 Co 12.13). Lucas registra: “No pri- meiro dia da semana, estando nds reunidos com o fim de partir o pao...” (At 20.7). O batismo e a ceia eram o centro do culto domi- nical da Igreja Primitiva. Os sacramentos dao sentido ao culto. No culto, a igreja se manifesta como uma Comunidade Licirgi- ca. A palayra “liturgia” (/eitourg/a) quer dizer “servico” ou “ministé- rio do povo”. O culto € 0 servigo que os crentes prestam a Deus na igreja. Participamos de uma Comunidade Littirgica em que hd certos ritos e simbolos na liturgia. Eis os elementos importantes na celebra- Ao litirgica: a adoracao, a confissao, a intercessao e a administragao dos sacramentos. Contudo, o elemento central e indispensavel do culto cristao é a leitura e a explicagao da Palavra de Deus. A Biblia é pregada e ensinada por meio do sermao, da ministra- co dos sacramentos e de todas as partes da liturgia. Nao hd igreja sem culto. O pastor ensina pregando e prega ensinando. Para serem edificados, todos os batizados precisam participar dos cultos, que definem a existéncia da Igreja. O culto deve ser planejado para incluir todas as idades. As cri- angas, os adolescentes, os jovens, os homens e as mulheres podem participar na liturgia e na diregao do culto. A participagao ativa das criangas € muito importante. Alguns pastores chamam as criangas 143 HERES ENSIVADORA para a frente, descem do ptilpito, sentam-se com elas e lhes fazem - um “minisermao” de cinco minutos numa linguagem apropriada. Os jovens podem participar do culto com seus instrumentos e na direcao de cinticos espirituais. E por isto que afirmamos ser a igreja uma Comunidade Littirgica. Nao € s6 no culto que a igreja presta um servico littirgico a Deus. Na Escola Dominical, no lar e em diversos lugares e ocasides, a igreja se reine como comunidade littirgica e estuda a Palavra de Deus. Comunidade Diaconal A Igreja é também uma Comunidade Diaconal. No Novo Tes- tamento o termo “didcono” muitas vezes refere-se ao suprimento de necessidades e de servicos materiais (Rm 15.25; 2 Co 8.4). O servi- go doméstico de Marta (Le 10.40) e da sogra de Pedro (Mc 1.31) é chamado “diaconia”. Cristo insistiu que sua missao era servir (Me 10.45). Cristo veio para servir e chama a comunidade crista tam- bém para o servigo. O servigo cristao é exercido por meio das varias sociedades in- ternas existentes na igreja (de criangas, adolescentes, jovens, senho- ras e homens), juntamente com a junta diaconal, ou em qualquer outro ministério ou trabalho na igreja. A Igreja Ensinadora é uma forga socializadora pela participa- cio dos membros nesta comunidade social, litvirgica e diaconal. Os membros sao moldados e transformados por meio do convivio, dos cultos e do servigo. A socializagao ocorre naturalmente, no ambien- * Comunidade * Crista Educacional _ Carismatica | Missionéria te sociocultural e emocional, primeiramente no lar, e depois na igreja. Programa de Ensino da Igreja Toda A COMUNIDADE CRISTA: SOCIALIZACAO INTENCIONAL Comunidade Educacional Mas a socializagao em si é suficiente para formar Cristo em cada membro da igreja, para alcangar a maturidade crista? Nao. Por isto, temos também 0 que se pode chamar de “socializagao intencio- nal”.' Isto abrange os ministérios da igreja que tem uma intengao € organizacao educacionais. A Educacao Crista é uma tarefa da igreja toda, que integra o programa educacional na vida da igreja. Assim, éimprescindivel quea igreja tenha um ministério educacional delibe- rado e sistematico. Groome se expressa nestes termos: Hd uma manutencao, uma conservagao e transmissao de nossa tradi¢éo, que é parte da tarefa da educacao religiosa crista. Para isto, “a socializacao intencional’” é essencial. Mas hd também uma atividade transformadora que deve ter lugar & medida que chegamos a nos apropriar da tradicao ¢ nos tornamos mem- bros criativos da comunidade a qual ela dd origem. Assim, se a Igreja deve progredir para tornar-se naquilo em que é chamada a tornar-se, se deve ser “sempre reformanda’, em vez de perma- necer num estado de estagnagdo, entao, por nossa socializagio, nossa educacdo religiosa deve promover constantemente uma atividade dialética crttica (196-7). O programa educacional deve ser elaborado e planejado como um todo, com todas as partes coordenadas. Foi mencionada no capi- tulo 7 a formagao de uma Comissao de Educagao Crista. E essencial e urgente que toda igreja local designe um grupo como este para cuidar do ministério educacional. Precisa ser uma equipe educacional 1. Esta expressdo foi introduzida por John H. Westerhoff III no seu livro Generation to Generation, Filadélfia: United Church Press, 1974. Ele também mostra a importancia da socializagao da crianga pela liturgia em Learning Through Liturgy. Nova York: Seabury Press, 1976. Em Will Our Children Have Faith? San Francisco: Harper & Row, 1976, ele mostra como a educagio é um aspecto da socializacao que envolve os esforgos deliberados € sistemdticos; e que a escola é apenas um aspecto da educacao. Ele ainda diz que na escola nao se pode esquecer o “currfculo oculto” da socializagao (17). 145 JGREIS EASTVADORA SOCIALIZACAO E EDUCACGAO Finalidades da E.C. na “Socializagdo Intencional” Ze * Manter e transmitir a tradigao * Promover a atividade dialética critica. Socializacao polite lo @ ie om com representantes da lideranga (Conselho, Junta, Diretoria, etc.), especialistas na drea e representantes de todos os segmentos da igre- ja. O pastor deve acompanhar o funcionamento do grupo de perto e dar-lhe todo o seu apoio. Nas palavras de Schipani, a Igreja “tem que cumprir uma tare- fa e um ministério educativo para o qual comissiona a alguns de seus membros de forma especial” (141). Para fazer isto, ele d Z que hd “uma yocacao e chamamento para servir em termos dos dons previstos pelo Espirito Santo para a edificacao da Igreja e 0 cultivo da fé” (142), Além de ter “dons” ¢ “ministérios” especificos para esta sua tarefa, Schipani incentiva o grupo a trabalhar e refletir em cola- boragao com a comunidade toda. E preciso, portanto, que o Pastor/Mestre da igreja tenha uma viso do programa educacional total e que ele transmita esta visio aos lidefes, que, por sua vez, nomeario uma equipe educacional que a transmitird aos professores que edificardo os alunos. Quando a igreja tem uma visao educacional e uma equipe responsdvel por este ministério, ela ser uma Comunidade Educacional. 146 Programa de Ensino da Igreja Toda As tarefas da Comissao de Educagao Crista ou Ministério de Ensino incluem sondagem das necessidades das pessoas e das realida- des do contexto da comunidade, planejamento ¢ avaliagao, elabora- cao de metas, objetivos e prioridades educacionais, organizagao e coordenagao do programa educacional total, selecao de curriculos e selecao € treinamento dos professores. Agéncias e Atividades Educacionais A Comunidade Educacional desenvolve 0 seu ministério docen- te por meio de varias agéncias e atividades educacionais. Todas fazem parte do programa educacional total e devem ser relacionadas e inte- gradas. A agéncia que tem o papel educacional principal ¢ a Escola Dominical. O alyo da Escola Dominical é a edificacao dos membros. Entende-se este alvo nas palavras de Paulo a igreja em ‘Tessalénica: “Edificai-vos reciprocamente como também estais fazendo” (1 ‘Ts 5.11). Estuda-se a Biblia na Escola Dominical. Paulo encomenda os lideres da igreja em Efeso & Palavra que “tem poder para'vos edificar” (Ar 20.32). A Escola Dominical ¢ um agente educacional que visa 4 edifica- 40 € ao treinamento de todas as idades. Cada idade ou faixa etdria tem certas caracteristicas e necessidades. A maior forca da Escola Dominical é que ela tem classes para cada idade com curriculo, mé- todos e salas apropriadas. E impossivel colocar todas as criangas juntas em uma ou duas classes ¢ ter um ensino eficaz. A capacidade, a atencao e as proprias necessidades fisicas ¢ emocionais de uma cri- anga de 4 anos e de uma de 10 anos sao diferentes. As classes devem ser sempre pequenas, para facilitar a partici- pacdo e o relacionamento na aprendizagem. Os jovens ¢ adultos podem ser divididos de acordo com suas necessidades, estégios de desenvolvimento e interesses. Pode haver cursos sobre assuntos es- pecificos, aulas de preparacao para diversos ministérios, aulas para novos convertidos, para noivos, casais, pais e outros assuntos. A Comissao de Educagao Crista deve sondar as variadas necessidades dos alunos da Escola Dominical para elaborar com criatividade um programa que atenda a estas necessidades. Uma classe muito importante na Escola Dominical é a de Cate- VAT TGREAN EASINADORA ctimenos, Integracio ou Primeiros Passos. E uma Ppreparacao inten- sa e séria para pessoas que desejam tornar-se membros ativos da igreja. Abrange estudos doutrindrios, éticos e eclesidsticos. E neces- sario que os integrantes nao apenas passem pela classe, pelo contra- rio, que discutam, compreendam e vivam de acordo com os ensi- nos. Depois devem continuar seus estudos em outras classes. A Escola Dominical nao deve ser um fim em si mesma € nao deve objetivar apenas a transmissao de informagées biblicas e doutri- ndrias. Ela deve trabalhar a pessoa toda, sua vida intelectual ¢ espiri- tual, emocional ¢ comportamental. Ela deve preparar os alunos para desenvolyerem seus ministérios ¢ yiverem a ética crista. Obviamente, uma ou duas horas no domingo no sao suficien- tes para o ensino cristao. Por isso, toda igreja deve planejar alguma atividade educacional durante a semana. Uma das mais inovadoras e eficientes atividades hoje sao os Grupos Familiares nos lares. Sao grupos pequenos, intergeracionais, informais, que cantam, estudam a Biblia, oram e se confraternizam. Tém um enorme potencial para unir, envolver e edificar os cristaos. Uma outra agéncia de suprema importancia no programa de “socializagio intencional” é a Escola Biblica de Férias. O objetivo educacional de uma E.B.F. é edificar as criangas da igreja. Elas rece- bem uma semana de ensinos biblicos em seqiiéncia, e tém contato significante com seus professores na E.B.F. Também é bom progra- mar uma semana de Conferéncia na igreja com ensinos biblicos, praticos, atuais e relevantes para edificar, despertar, estimular e de- safiar todos os membros da igreja. Pode-se também edificar, treinar, preparar e apoiar os cristaos por meio de cursos oferecidos na igreja. E possivel promover cursos de treinamento ou reciclagem para professores ¢ lideres, de atualiza- ¢a0 teoldégica ou doutrindria, com enfoques éticos, politicos ou so- ciais, ou cursos abordando temas interessantes como o Espirito Santo, a Evangelizacao, Missdes, etc. Outras agéncias da Comunidade Educacional s4o os acampa- mentos ou retiros. E bom ter um local apropriado e equipado para 148 Programa de Ensino da Igreja Toda acampamentos, retiros e encontros de criangas, jovens, casais, I{de- res, familias, e qualquer outro grupo. Os acampamentos dos jovens € os encontros de casais tém surtido efeitos de excelente resultado em nossos dias. Cada evento deverd ter um programa definido com objetivos educacionais cognitivos, afetivos e comportamentais. Outra agenda ou atividade da igreja que tem contribuido gran- demente para a maturidade da comunidade crista ¢ 0 discipulado. E um método usado com pessoas novas na fé, de pessoa a pessoa, estudando a Biblia e orando juntas regular e sistematicamente, que inclui uma convivéncia e um acompanhamento pessoal. A igreja tem a incumbéncia de treinar discipuladores e de ajud4-los a obter bom material diddtico pedagégico. A Comunidade Educacional também deve organizar uma boa biblioteca em que haja livros, fitas cassetes e de video, e outros mate- riais dispontveis para atender as variadas necessidades dos membros. A igreja também pode alugar filmes para ocasies especiais. Eimpor- tante usar todos os recursos no programa educacional da igreja. Com criatividade e sensibilidade, a Comissao de Educagao Cris- 14 ira descobrir e inovar outras atividades educacionais. SOCIALIZAGAO E EDUCAGAO Concordamos plenamente com Groome: “A educagao religiosa crista precisa do contexto de uma comunidade de fé crista, e uma comunidade tal necessita de uma atividade educacional critica que seja mais do que qualquer outro canal de socializagao” (199). Esta “atividade educacional critica” é 0 programa educacional da igreja com todas as suas atividades ¢ experiéncias de aprendizagem, sejam formais ou informais. O ponto de partida deste programa é a igreja local e sua equipe pedagdgica. Os fundamentos biblico-teolégi- cos e pedagégicos foram-lhes tracados neste livro! Toda a agao do- cente da igreja depende destes fundamentos. Que Deus nos oriente nesta tarefa urgente, prioritaria ¢ formadora. Que sejamos partici- pantes ativos, escrevendo a histéria de uma lgreja Ensinadora para a gléria de Deus. Amém! 149 rocesso ntinuo de onde o culto, os simbolos € os sacramentos definem a para servir, e¢ ee convivio que a Igreja & ensinadora, enfim. _munhio uns com os outros; de sua comunidade tuirgica, Conclusao Em Efésios 2.20, 0 apédstolo Paulo utiliza a metéfora de um edificio e diz que os cristaos sao “edificados sobre o fundamento dos apéstolos ¢ profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular”. Ele emprega a mesma analogia em 1 Corfntios 3.10,11, onde diz: “Segundo a graca de Deus que me foi dada, lancei 0 fundamento como prudente construtor; e outro edifica sobre ele. Porém cada um veja como edifica. Porque ninguém pode langar outro fundamen- to, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo.” Nao ousamos afirmar que os fundamentos estabelecidos neste livro sejam os tinicos ou que tém autoridade apostélica. Ha muitas maneiras de articular a teologia da Educagao Crista, ¢ a pedagogia € uma disciplina dinamica. Portanto, como Paulo, tentamos colocar o Deus Trino, e, de uma maneira especial, 0 Mestre Jesus, como 0 fundamento principal de todo o ensino na Igreja. Vez por outra, um grupo de cristaos dos Estados Unidos vem ao Brasil para passar suas férias construindo uma escola, ambulatério ou templo para comunidades carentes. Normalmente pedem para que especialistas preparem com antecedéncia o alicerce. Depois, os pastores, leigos, jovens e profissionais liberais se tornam “pedreiros” e levantam as paredes. O segredo de qualquer construgao ¢ 0 alicerce. Requer ago e concreto suficiente e a orientagao de engenheiros. Este livro foi de alicerces, fundamentos, bases. O aco e concreto foram a Biblia e a Teologia Reformada. Os engenheiros foram mui- 151 tos pedagogos. Agora, cabe aos leitores levantar as paredes ¢ abrir portas ¢ jane- las. A reflexao se junta & agao educadora. Nenhum prédio fica sé no alicerce. Ele é sé 0 comego, como é este livro. Como prosseguir? Quais sao os préximos passos? Oferecemos algumas sugestdes: 1. Prossiga em oragao. \nterceda por sua igreja local, para que ela seja uma Igreja Ensinadora. Ore pelo pastor, para que seu cora- ¢ao se inflame com uma visao educacional. Pega a Deus ungio, ori- entacao e revitalizagao para os professores. Em oragao busque o car- go que Deus lhe designa no ensino educacional. 2. Aprofunde sua reflexdo. Talvez seja titil reler o livro, desta vez lenta e reflexivamente. Faga uma auto-avaliagao de seu ministério educacional, de seu desenvolvimento integral e da Educagio Crista de sua igreja. Faga como Maria, pondere estas coisas. 3. Continue o didlogo. Através do livro, vocé entrou em didlogo com muitos autores. Agora precisa dialogar com as pessoas na sua comunidade, com seu pastor, com os lideres, com os professores € com seus alunos, Este assunto pode ser debatido. E preciso compar- tilhar sua nova visio com os outros. E bom formar um grupo espe- cifico, uma Comissao de Educagao Crista, para ter didlogo e atuagao continuos. 4. Parta para outras leituras. Além dos livros citados, que podem ajud-lo a aprofundar e verificar 0 assunto, os outros inclufdos na bibliografia podem dar-lhe seguimento ¢ orientagdo em Areas especificas, tais como: planejamento, métodos, dinamica de grupo, etc. 5. Procure preparagao e treinamento. Uma vez que 0 educador tem fundamentos confidveis e seguros, é preciso buscar meios de preparagao ¢ treinamento. Toda igreja local deve promo- ver cursos de treinamento com assuntos especificos, para atender as necessidades de seus docentes. E possfvel também participar de cur- sos breves ou extensos oferecidos por igrejas, agéncias ou escolas. 6. Comprometa-se com o ensino. Muitas vezes Jemos um livro que julgamos de valor mas, quando terminamos, 0 guardamos em algum canto e nos esquecemos dele. Por que nao Bescatnos o que lemos ou aprendemos? Por que nao nos comprometemos? Agora € o momento de tomada de decisdes, de fazer compromisso sério consigo mesmo, com a comunidade crista ¢ com Deus. Que di renga este livro fara em sua vida, na sua igreja? Qual ser4 seu com- promisso de hoje em diante? 7. Entregue-se ao engajamento. O alicerce est4 pronto. Levante as paredes! Edifique a Igreja Ensinadora! Bibliografia de Educacao Crista e Pedagogia ANTUNES, Celso, Manual de técnicas. Petrdpolis, Vozes, 1988. ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar, 24.4 ed. Sao Paulo, Cortez, 1991. . Estérias de quem gosta de ensinar, 14.* ed. Sao Paulo, Cortez, 1990, BIAGGIO, Angela M. Brasil. Psicologia do desenvolvimento. 9.* ed., Petrdpolis, Vozes, 1988. BORDENAVE, Juan Diaz e PEREIRA, Adair Martins, Estratégias de ensino-aprendizagem. 10.4 ed. Petrépolis, Vozes, 1988. BRUEGGEMANN, Walter. The Greative Word. Filadélfia, Fortress Press, 1982. . A imaginagéo profética. Sao Paulo, Paulinas. CALVINO, Joao. As Institutas. Trad. Waldyr Carvalho Luz. 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Comportamental’ O desenvolvimento integral da pessoa inclui o conhecimento, oafeto e também 0 comportamento. Educagao Crista é um processo em que aprendemos a viver. Cristo fala daquele que “ouve estas minhas palavras eas pratica” (Mt 7.24), Parker Palmer diz que “ensi- nar € criar espaco onde obediéncia a verdade é praticada” (69), Na visto dele nao comega a p' a depois da aula, mas prati verdade ensinada mesmo no momento da aula. Sem pratica nao ha aprendizagem. Quando a epistemologia visa comprometimento com a verdade, a pratica sempre acompanha o conhecimento. se a O famoso pedagogo brasileiro, Paulo Freire, usa a palavra prdxist para referir-se 4 reflexao e acao que ele denomina “momentos gé- meos”. A teologia tedrica leva-nos inevitavelmente a teologia prati- ca. Ensinamos a Palavra de Deus com o fim de desenvolyer dons ¢ ministérios e viver a ética crista. 3, Nao s por ser mais 6b 4, Paulo Freire nasceu no Recife em 1921, desenvolveu um método dealfabetizacio de adultos que teve grande éxito no movimento de educagao popular e aleangou destaque nacional, Em 1964 foi exilado, passando tempos no Chile, nos E.U.A. ¢ Suiga. Voltou 20 Brasil em 1980, Sua obra prima, Pedagogia do Oprimido, apresenta seu conceito de pi E mais do que teoriae pratica. E pensar a pritica da liberdade. E. participacao ativa ¢ auto- reflexao sobre a situacao problematizadora que resulta em transformacao do mundo. falara aqui do crescimento fisico, nao porque nao seja importante, mas 16 Que é Educagao Crista? A PESSOA TODA Espiritual Rr iter Valor AIGREJA TODA A Educagao Crista envolve a pessoa toda, mas nao é apenas um crescimento ou piedade individual. O ministério de ensino envolve aigreja toda. Nao sao apenas alguns membros da igreja que partici- pam do processo educativo, mas a igreja toda. Todos ensinam de uma forma ou de outra, ¢ todos aprendem. Em Efésios 4.15 e 16 Paulo assim fala do crescimento da Igre- ja: “Mas, seguindo a verdade em amor, crescamos em tudo naquele que é 0 cabeca, Cristo, de quem todo 0 corpo, bem ajustado e conso- lidado, pelo auxilio de toda junta, segundo a justa cooperagao de cada parte, efetua o seu proprio aumento para a edificagao de si mesmo em amor.” Paulo ensina que o crescimento e cooperagao de cada junta, ou cada membro, promove a edificacao de “todo o cor- po”. O verbo “cresgamos” sugere crescimento corpéreo. Entao, a Educagao Crista se desenvolve por meio de ministérios e relaciona- mentos muituos entre professores e alunos, pais e filhos, mestres e discfpulos, alcancando a igreja toda. Lawrence Richards em Teologia da Educaedo Crista assim se expressa: Considerando a fungdo da edificagao e dos dons espirituais, te- mos de ver que a Educagao Crista, para promover adequada- mente o crescimento progressive da vida de Cristo nos crentes, tem de tratar do Corpo como um todo! solar 0 “ministério edu- 17 TWREJ ENSIVADORA cacional da Igreja” da vida geral da congregagio é um erro fa- tal. A Educacao Crista tem de levar todos os membros do Corpo 4 servir uns aos outros (20). Para o apdéstolo Paulo a Educacao Crist envolve a pessoa toda ea Igreja toda e também abrange o crescimento cognitivo ¢ 0 afetivo. Ele diz: “Seguindo a verdade em amor, crescamos em tudo naquele que € o cabega, Cristo”. Percebe-se que nao é somente a verdade, mas também o amor, que é necessdrio para o crescimento espiritual. Richard diz: “Verdade transmitida em um contexto de relacio- namento {ntimo e amoroso serd usada por Deus para reformar ¢ te- novar a personalidade do crente, para que ele seja como Cristo.” sto. (35) O amor ¢ importante na Educagao Crista que visa igreja toda, “com vistas ao aperfeigoamento dos santos para o desempenho do seu servigo” (Ef 4.12). Toda a comunidade crista sera envolvida no processo de desenvolvimento por meio do seu amor cristio, de seus ensinos e do desempenho do seu servigo ou ministério. O reformador Joao Calvino disse que cada cristéo tem uma santa vocagao, ou seja, uma drea de servigo, que deve ser realizada para a gléria de Deus. Crescemos por meio do servico, do amor e do ensino. TODO O TEMPO Se a Educagao Crista é promovida pela Igreja toda, qual é 0 tempo? Quando se faz? E durante duas horas no domingo de manha na Escola Dominical, ou durante os hordtios de estudo biblico e das aulas de treinamento? Mais uma vez, propde-se um conceito mais amplo e mais biblico. A Igreja toda estd envolvida na Educacao Crista em todo o tempo. Ja dissemos que a Educaco Crista € um processo continuo de crescimento a partir do nascimento até 4 morte. Para alcangar a pessoa toda e a Igreja toda, em todo tempo, é preciso que a Educagao Crista se desenvolva por meio de dois tipos de ensino: 1) ensino informal e 2) ensino formal ou intencional. Thomas H. Groome e John Westerhoff III denominam-nos “sociali- zagao” e “socializacao intencional”. Que é Educagao Crista? UM PROCESSO CONTINUO A IGREJA/ EDUCAGAO fost Aposentadoria Bete * facilita Casamento Profissdo de Fé Batismo Velhice Infancia Juventude O Ensino Informal Talvez nao saibamos como é importante 0 ensino informal dentro e fora da sala de aula, e dentro e fora da igreja. Nas conversas, nos didlogos, nas perguntas e nos relacionamentos, 0 ensino é informal. H4 um bom exemplo de como isso ocorre no lar em Deute- ronémio 6.7, onde os pais sao instrufdos a inculcar as palavras do Senhor aos seus filhos, “e delas falards assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te e ao levantar-te”. Na hora das refeigdes ou quando estamos viajando, o ensino é informal, Enfim, esse tipo de ensino ou formagio pode ocorrer em qualquer lugar por meio de palavras ou de exemplos. O Ensino Formal No inicio deste capitulo citou-se Westerhoff quando diz que a Educagao Crista envolve esforcos “deliberados, sistematicos e sustentados”. Isto implica em instituigdes, estruturas, processos, planejamento e metodologia. Existem escolas teoldgicas ¢ biblicas para pastores, leigos, missiondrios, adultos, jovens e criangas. Essas instituigdes possuem seus curriculos, calenddrios e métodos. Dentro e fora da igreja tém-se aulas, cursos e recursos pedagégicos para o estudo formal individual e em grupos. 19 TURES! BYSIVADOR CONCLUSAO Nossa intengao, neste capitulo, foi ampliar e dinamizar 0 concei- to da educagao crista, como parte imprescindivel da tarefa e missio da igreja. Com uma conceituagio clara e singela, tentamos criar espaco para examinarmos e refletirmos sobre o assunto. Temos a plena consciéncia de que hé muitas outras boas definigdes, ¢ também muitos conceitos erréneos e extremamente limitados. Cada leitor é estimulado, partindo dos seus préprios conceitos, a entrar em did- logo ¢ debater com as idéias aqui apresentadas, a responder a per- gunta feita no capitulo, e, enfim, formular sua propria definicdo. 20 Por Que Ensinar? Justificagéio e Motivagao Para o Ensino na Igreja G2Qs Por Que Ensinar? Justificacao e Motivacao Para o Ensino na Igreja ara tudo que se faz na igreja, deve-se perguntar o por qué? Por que a igreja nao pode prescindir do ensino? Por que a igreja toda, comegando com o pastor e a lideranga, precisa dedicar-se & Educagao Crista? Por que planejar? Por que educar? Por que ensinar? Se nao houyer bases e motivos biblico-teoldgicos para justificar e dar embasamento a uma a¢ao, ela nao ¢ licita, Todo aspecto da vida e ministério da Igreja tem justificativas e fundamentos bibli- cos. O ensino nao é excegao. Nosso ponto de partida no capitulo anterior foi a ordem de Jesus em Mateus 28.19,20, a instrugao aos pais em Deuterondmio 6.4-9, e aos crentes em Efésios 4, A partir destes textos e outros pode-se descobrir que a motivacao para o ensino ¢ divina. Qual é a justificagao e a motivacao para 0 ministério educacio- nal? Que nos impulsiona nesse empreendimento? Qual é a forga catalisadora atras dos desempenhos educacionais? Se chegarmos 4 primeira causa, nao descobriremos o Deus Trino, um Deus apaixona- do, que impele os seus a amar, evangelizar e ensinar? Ensinamos porque a Trindade Santa nos move a aprender e a ensinar. 23 TOREA| BYSINADORA PROJETO E OBRA DE DEUS Nos relatos da criagao em Génesis | e 2 encontram-se as linhas mestras do projeto do soberano Criador. A ordem do Criador e 0 poder de sua Palavra ficam patentes nestes capftulos. Quando Deus criou os seres humanos, deu-lhes o imenso privilégio e responsa- bilidade de serem seus co-criadores. Diz o texto: “Deus os abencoou, e lhes disse: ‘Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terrae sujeitai- a; dominai sobre os peixes do mar...” (1.28). Nesse ato Deus lhes concedeu um mandato cultural, educacional e cientifico. Depois ainda “o colocou no jardim do Eden para o cultivar e 0 guardar” (2.15), jardim que mirava a criacdo artistica, a estética ¢ beleza de Deus. A obra espléndida e continua da criacdo torna-se o cixo de todo o projeto do Deus Trino desde o Génesis até o fim do Apocalipse com © “novo céu © nova terra” d’Aquele que disse: “Eis que faco novas todas as coisas” (21.5). Entretanto, Génesis 3 registra um fato tragico, inglério, com- plexo, complicador —o pecado humano. A liberdade foi pervertida. Avocagao foi negligenciada. Porém, encontra-se o Criador amoroso no jardim, atrds do pecador, ainda usando linguagem para se comu- nicar, perguntando: “Onde estas?” (3.9). O Deus santo torna-se o Deus missiondrio, buscando o perdi- do, restaurando o pecador, O restante da Biblia conta o plano mis- siondrio e salvifico de Deus, por meio de Abraao, de Israel, de Cris- to e da sua Igreja. O que da sentido e motivacao para qualquer projeto em nossa vida é a obra da criagao e da missao de Deus. A iniciativa da missio educadora édivina. O Missio Dei é a causa da missdo € do ensino da igreja, Deus continua sua majestosa obra. Pode-se entender esta atuagao divina quando se lé a parabola da semente em Marcos 4.26- 29. A pardbola comega com estas palavras: “O reino de Deus é assim como se uma pessoa lancasse a semente & terra”, e termina com a colheita de frutos maduros. Evidentemente, para que haja cresci- mento e fruto, necessdrio se faz semear a semente. 24 Por Que Ensinar? Justificagao e Motivagao Para o Ensino na Igreja Por causa do uso de uma singela metéfora da linguagem agri- cola, facilmente os ouvintes do Mestre entendiam este ponto. Mui- tos eram agricultores que langavam as sementes. Na interpretagao da parabola anterior (Mc 4.1-20), onde a metdfora também fora usada, Jesus explica: “O semeador semeia a palayra” (4.14). A semente aqui representa a palavra da verdade. Os semeadores sao instrumentos humanos. O pregador e 0 professor sio semeadores. Até aqui é evidente a instrumentalidade humana. No decorrer da parabola nota-se outro fato. Um dia a semente ctesce e dé fruto, “nao sabendo ele (o semeador) como” (4.27), Que explica o crescimento? Como ocorre? A obra de Deus. No ensino 0 agente divino age antes do desempenho educativo do agente huma- no e continua atuando depois. Sao instrumentos humanos que obe- decem 4 ordem de Jesus, porém os resultados dependem do Senhos, sao obras de Deus. Somos motivados porque a obra ¢ de Deus. Paulo disse: “Eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus” (1 Co 3.6). Nés participamos da obra de Deus quando ensinamos, “porque de Deus somos cooperadores...” (1 Co 3.9). Quando igrejas ¢ missio- ndrios envolvem-se em missdes, esto participando da missao de Deus. Os que ensinam na igreja sao cooperadores com Deus, que esta levando o ser humano de volta ao convfvio com o seu Criador e moldando e formando seu povo. A ORDEM DE JESUS A missio € a revelacao de Deus tém suas raizes no Antigo Tes- tamento, e recebem seu cumprimento na pessoa de Cristo. A mis- sao do Deus Trino torna-se concreta na missao do Filho. Deus man- da seu Filho para morrer na cruz, demonstrando assim todo o seu amor ¢ compaixao pelo pecador. Jesus foi um missiondrio e um mestre. O modelo da acao missiondria e pedagégica de Cristo éa encarnagao, ou seja, “o Verbo se fez carne e habitou entre nds” (Jo 1.14). O Filho de Deus identificou-se com a humanidade para cum- prir cabalmente a missao a Ele conferida pelo Pai. Cristo definiu sua 25 HEREIN BNSIVADOR | missao em Lucas 4.18,19. Quando se ofereceu na cruz, disse: “Est4 consumado.” Ele realizou perfeitamente a obra redentora, obra esta integral, completa ¢ universal. Ji foi citado o texto biblico de Mateus 28,19,20: “Ide, portan- to, fazei discfpulos de todas as nagées, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espirito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.” Estes versiculos nos dao uma or- dem de Jesus por meio da qual Ele define a missao da Igreja. A expresso “em nome de...” nos confere o direito de representatividade nos ministérios de ensino e de evangelizacao. Na redagao de seu Evangelho, Mateus situa este texto no fim. E um desfecho marcante. O Cristo ressurreto aparece aos discipu- los; consciente de que em breve os deixard e subird ao Pai, Ele Ihes da suas Ultimas instrugées e esta ordem. Ele sabia que, em poucos dias apds sua ascensdo, sobre este pequeno grupo de seus seguidores desceria o Espirito Santo. Naquele dia inédito do Pentecoste a Igre- ja nasceu. Pode-se dizer que a igreja ¢ um resultado ou continuagio da missio de Jesus. Ao mesmo tempo, ela é também um instru- mento na grande missao do Deus Trino. Mateus, portanto, termina seu Evangelho com a ordem de Je- sus que definiu a missao da igreja. Para cumprir a ordem em Mateus 28.1 9,20, a igreja tem que exercer os ministérios de evangelizacao e ensino. Portanto, ensina-se na igreja por que Jesus ensinou ¢ assim ordenou. A ATUAGAO DO ESPIRITO SANTO Em Atos fica evidente que a igreja sé pode cumprir sua mi no poder do Espirito Santo. De fato, quem executa a obra e missao do Deus Trino ¢ 0 Espirito Santo. Ele se fez presente na criagao, “pairando sobre a face das 4guas”. Ele foi ativo na vida e no ministé- tio de Jesus. A igreja nasceu somente por que 0 Espirito desceu, ¢ ela existe para continuar a missao do Filho no poder e diregao do Espi- rito Santo. Em seu livto.O Espirito Santo na Educagito Crista, a grande educadora e professora em varios semindrios dos Estados Unidos, 26 Por Que Ensinar? Justificagao e Motivagao Para o Ensino na lgreja Dr Rachel Henderlite, aborda trés dimensdes da atuagao do Espi- rito Santo, Seguem-se alguns de seus pensamentos. O Espirito Santo e a Fé Henderlite comeca com o relato de Pentecoste em Atos 2 € a grandiosa transformacao nos discfpulos apdés aquele evento, que enfrentaram tarefas impossfveis e superaram imensos obstéculos. Nada os segurava na proclamagao da sua fé. O alvo da Educagao Crista é o desenvolvimento da fé manifesta a partir do Pentecoste pela obra do Espirito Santo. Esta fé é dom divino. Eo Espirito quem tem a iniciativa e o poder de conversao e crescimento, quem convence a pessoa “do pecado, da justiga e do juizo” (Jo 16.8). A fé crista nao depende de agentes humanos, e sim do poder e presenga do Espirito. A igreja ¢ 0 material humano; fornece e promo- ve os meios logisticos ao Espirito, para propagacio e amadurecimento da fé, por meio dos programas evangel{sticos e educacionais. E im- portante reconhecer as limitagGes dos programas da igreja sem a atuagao do Espirito. Embora educadores nao tenham o poder para suscitar fé nas pessoas, eles, ¢ a igreja toda, tém a responsabilidade de ensinar tudo sobre a fé. Além de ensinar o evangelho e “todo o designio de Deus”, aigreja confronta as pessoas com a necessidade de tomarem decisdes livres e fazerem compromissos sérios a partir do ensino. O Espirito Santo e as Escrituras A Biblia é, sem diivida, o documento central na Educagao Cris- ta. Pode-se afirmar que a igreja é formada, diariamente transformada e reformada pela Palavra de Deus. A responsabilidade dos educadores éa de abrir e interpretar a Biblia para a igreja. A Biblia é um dos meios que Deus utiliza para se comunicar com 0 coragao humano. Mas Joao Calvino disse “que a propria Palavra nao nos é absolutamen- te certa, a no ser que seja confirmada pelo testemunho do Espirito” (v. 1.110). 1. CALVINO, Joao. Institutas. Trad. de Waldyr Carvalho Luz. $P: CER, 1989. Todas as citagbes das Institutas neste livro serio da uadugao de Luz com 0 respectivo volume ¢ pigina indicados. Ny S TOR EIA EXSINADOR | Sabe-se que a Biblia foi inspirada pelo Espirito Santo de uma forma toda especial. Em 2 Timéteo 3.16,17 lé-se: “Toda Escritura é inspirada por Deus e titil para o ensino, para a repreensio, para a corregao, para a educacao na justica, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” E de novo em 2 Pedro 1.21: “Porque nunca jamais qualquer profe- cia foi dada por vontade humana, entretanto, homens falaram da parte de Deus movidos pelo Espfrito Santo.” Ao prometer um outro Consolador em Joao 14.26, Jesus diz que “o Espirito Santo... vos ensinard todas as coisas e vos fard lem- brar de tudo 0 que vos tenho dito”. q ‘Torna-se evidente nestes versiculos a instrumentalidade divina 4 priori e também a instrumentalidade humana. Deus serviu-se de pessoas para escrever ¢ preservar as paginas sagradas, e ainda serve- se de pessoas para as ler, interpretar e ensinar. O mesmo Espirito que inspirou 0s escritores bfblicos é a verdadeira fonte de ilumina- ¢4o para os leitores, levando, assim, o ser humano a entender a reve- lacdo ¢ os mistérios de Deus. Lemos, estudamos, examinamos, pre- gamos ¢ ensinamos a Biblia, mas o Iluminador é 0 Espirito Santo. Calvino disse: “E a Palavra o instrumento pelo qual o Senhor dispensa aos fidis a iluminagao de seu Espirito” (v. 1.111).O Espiri- to Santo nos convence de que a Biblia é Palavra de Deus, usa as Escrituras para testemunhar de Cristo, ilumina a Palavra para que seja atual, pessoal e eficaz hoje na vida do cristao. Por causa desta obra do Espirito, é possivel ao ser humano pecador conhecer a Deus € seus propésitos. O Espirito Santo ea Igreja “..mas recebereis poder, ao descer sobre vés 0 Espfrito Santo, ¢ sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (At 1.8). Talvez o dia mais emocionante da histéria humana tenha sido o de Pentecoste. Comegando em Jerusalém, a i igteja nascente explodiu até seus inimigos se lhe referirem como “estes que tém transtornado o mundo” (At 17.6). 28 Por Que Ensinar? Justificagao © Motivagdo Para o Ensino na Igreja E até hoje o mesmo Espirito Santo age por meio da igreja para trazer o mundo a Cristo. A Educagao Crista vai mal nao apenas por falta de métodos ou por no se usarem as melhores abordagens edu- cacionais, mas sim por falta do poder, do dinamismo, da capacitagao do Espirito Santo. Hd necessidade urgente de um novo Pentecoste entre educadores eclesidsticos! O DEUS TRINO E AMOR Ha mais um fato que é o fundamento, “o pano de fundo” de tudo que foi abordado neste capitulo. E 0 amor. A uniao de Pai, Filho e Espirito Santo com certeza procede deste amor. Paulo ora pelos efésios para que possam “compreender, com todos 98 santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, ea profundidade, e conhecer 0 amor de Cristo que excede todo entendimento” (3.18,19). Quando percebemos as ilimitaveis dimensdes do amor de Deus para conosco, 0 amor que nos criou, ¢ nos salvou, e nos protege, e nos cerca, ¢ nos conforta e nos guia, como respondemos a este imenso amor? Nossa resposta é uma entrega total em amor. Nao fazemos Educagao Crista por obediéncia & obediéncia, 0 que tornaria nossa tarefa educacional amarga e pesada. E sim por obediéncia-resposta, resposta a0 amor com que nos amou. “Nés amamos porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4.19). Tudo que fazemos, é porque Deus nos ama. Somos motivados e impulsionados, e, enfim, apaixonados, por- que “o amor de Cristo nos constrange” (2 Co 5.14). Conforme as justificativas biblicas apresentadas neste capitulo, somos cooperadores no maravilhoso projeto de um Deus que nos criou e nos ama. Obedecemos com alegria 4 ordem d’Aquele que nos amou e para cumprir sua missao morreu na cruz. Temos experi- mentado a presenga constante e a poderosa operagao do Espirito Santo em nossa vida dia apés dia. E porque Deus nos amou primeiro que nés 0 amamos, que amamos a sua Palavra, que amamos a nossa igreja, nossa familia, nosso préximo ¢ nosso mundo, A paixao de Deus se torna também nossa ¢ ensinamos e apren- demos com amor, com paix4o. Sem o amor, a Educagao Crista seria 2 HGREIN ENSTNADORA uma tarefa impossfvel. Jd se falou: “Ensinar € um ato de amor.” Por isso, Bordenave e Pereira em Estratégias de Ensino-Aprendizagem di- zem que o “segredo do ensino é 0 entusiasmo pessoal do professor que vem de seu amor a ciéncia ¢ aos alunos” (56). Rubem Alves, por sua vez, em Conversas Com Quem Gosta de Ensinar, faz uma compa- racao entre educadores e professores, ¢ uma das diferencas é a pai- x40 do educador. Diz Alves: “Ah! Como a paixao é doce. Somente os apaixonados sabem viver e morrer. Somente os apaixonados, como Dom Quixote, vislumbram batalhas e se entregam a elas. A paixao é o segredo do sentido da vida” (21). A razao ultima a motivar e justificar tudo que se faz na igreja é 0 imenso amor e paixao de Deus. E nada menos do que este imen- surdyel amor que explica e realiza a missio de Deus junto ao mundo pecador e nos impulsiona a ensinar. Cada qual, ao terminar este capitulo, assumird, por sua vez, seu compromisso. Resumindo, coloca-se aqui uma justificativa biblica e teoldgica, uma justificativa que dé embasamento 2 agao do ensino, fundamental também para todo 0 ministério da Igreja ¢ cada aspecto da vida. A forca propulsora para a obra de Deus, a motivagao para o ensino, vem do Espirito Santo, com a nossa resposta ao chamamento 4 ordem de Jesus, como um compromisso de entrega total em amor. Amissdo: uma Igreja Ensinadora do amor de Deus pelos pecadores. Para Que a Educagao Crista? Finalidades do Ensino na Igreja aZ2 Para Que a Educagao Crista? o capitulo anterior tentou-se justificar biblica e teologica- mente o ensino cristao. Descobriu-se que a motivagao tiltima do ministério educacional ¢ o préprio Deus Trino. Ensina-se em ultima andlise por que o Deus de amor nos ensina e nos leva a ensinar. Agora, necessario se faz refletir sobre as finalidades do ensino, ou seja, os alvos e metas finais, Onde se quer chegar ao ensinar na Igreja? E importante na Educagao Crista que, nao somente as moti- vagoes, mas também as finalidades sejam coerentes com a teologia biblica. Hoje na América Latina uma chave hermenéutica! usada para interpretar a Biblia e articular a teologia ¢ O REINO DE DEUS. Thomas H. Groome, no seu livro Educagao Religiosa Crista, e Daniel S. Schipani, em El Reino de Dios y el Ministerio Educativo de la Iglesia, utilizam esta chaye e tema. E um tema biblico de grande importan- cia e significado (veja Mt 6.10,33; Mc 1.14,15 e Jo 3.3,5) com am- plas referéncias no AT e no NT. 1. A expresso “chave hermenéutica” quer dizer um ponto de partida que se torna o prisma principal por meio do qual se Ié e interpreta a Biblia. 33 TURBIL ENSTVADORA A tese de Schipani é que uma Educagao Crista “criadora e trans- formadora deve orientar-se segundo a imagem biblica do Reino de Deus” (79). De acordo com Schipani, o Reino de Deus e as impli- cagdes deste Reino sao abrangentes. O Reino é um “simbolo da acao libertadora e recriadora de Deus, sua vontade e promessa” (80) e também “a manifestacao da soberania e do senhorio de Deus sobre todas as coisas” (81). Groome sugere como finalidade tltima ou metapropésito da Educagao Crista o Reino de Deus.” Ele diz: “O Reino de Deus em Jesus Cristo é proposto como nosso fim ultimo” (61). Portanto, inicia-se nossa reflexao neste ponto. Por qué? EDUCAGAOCRISTA Para qué? O REINO DE DEUS O REINO DE DEUS Nas pardbolas registradas em Marcos 4° percebe-se que um sim- bolo ea finalidade da obra de Deus na histéria sao 0 Reino de Deus. Semelhante a parabola da semente, a proxima, do grao de mostarda, comega assim: “A que assemelharemos o reino de Deus?” Jesus pro- clamou como ponto central de sua mensagem o Reino de Deus, que era um dom de Deus, ¢ Ele viveu a mensagem do Reino e dese- jou-a intensamente (Mt 26.29). Em Jesus o Reino de Deus se fez presente. Ele trouxe a concretizacao ¢ inauguragio do Reino na sua 2, Groome entende 0 Reino de Deus como sua soberania, sua autoridade; seu ‘einado”, ou seja, seu estado de autoridade. Diz ele: “o Reino de Deus é sua intencao para a criacao” (89). 3. Note a expresso “o reino de Deus” em Marcos 4.26,30: ¢ a expressio paralela, “o reino dos céus”, em Mateus 13.24,31,33. 34 Para Que a Educagao Crista? Finalidades do Ensino na Igreja propria pessoa, € prometeu a consumagao do Reino no futuro.* O Reino “ja” chegou, mas “ainda nao” em sua plenitude. Embora a vitéria final e completa jé esteja assegurada pela morte e ressurrei- cao de Jesus, a luta ainda nao terminou. Pode-se dizer que o préprio Jesus, respaldado nos profetas, visualizou o Reino de Deus como a finalidade ultima da criagao, da hist6ria, da salvacao e da Igreja. O desfecho das Sagradas Escrituras em Apocalipse 21 ¢ 22 traz uma visao deslumbrante e gloriosa do “novo céu € nova terra”, ou seja, do Reino consumado. O Reino de Deus, tanto nas Escrituras Hebraicas, como no préprio Novo Testamento, apresenta-se como uma promessa mara- vilhosa de Deus. E por causa desta promessa que 0 povo de Deus mantém uma viva esperanca num mundo de pecado e miséria. Portanto, além de compartilhar a promessa, a visao ¢ 0 anseio pelo Reino com os seus discipulos, Jesus também exigiu dos membros do Reino certas responsabilidades. Ao fazer discfpulos Jesus trans- feriu-lhes seus valores, resumidos por Ele mesmo em “Amards 0 Senhor teu Deus... Amards 0 teu préximo como a ti mesmo” (Mt 22.37-39). Groome faz notar: “Os membros do Reino nao sao obje- tos sobre os quais age a atividade de Deus, mas sim sujeitos chamados a responder ao Reino de Deus, vivendo em muitua participagao uns com os outros. Jesus, pois, pregava o Reino como um simbolo de esperanga e comando” (76). A conversao € 0 inicio da “resposta ao Reino de Deus”, pela qual “entramos” no Reino (Jo 3). Quem faz parte do Reino precisa aceitar as responsabilidades e os valores do Reino. O uso do Reino como simbolo permite ampla aplicagdo na qualidade de vida que 4. Avinda de Jesus a0 mundo, do dom de Deus, na “plenitude dos tempos”, € mensagem central tem a ver com a finalidade ultima da Criagao, o Reino de Deus, inaugurado, embora “ainda nao” totalmente completo como 0 seré no fim dos tempos. Jesus evidenciou a mensagem do Reino por meio da pregacao de um novo estilo de vida; por meio de sinais de poder sobre a ordem estabelecida (restauragao spiritual ¢ fisica das pessoas, ordens a natureza —ventos, mar, etc., ¢ evidente poder sobre a morte); pela pro- messa ¢ distribuigao deste poder mediante seu Espirito aos discfpulos, para que testemu- nhassem o Reino de Deus autorizadamente; pela promessa de reuni-los, em definitive, no fururo, na presenga de si mesmo e do Pai, numa situacio absolutamente superior a esta presente. OF TERESA RASIVADORS sera evidenciada pelo cidadao do Reino. Sempre que os cristaos, individual ou coletivamente, praticam um ato segundo os valores ensinados por Jesus Cristo, 0 Reino objetivamente est4 manifes- tando-se. Os principios do Reino devem fazer parte da vida das pessoas nao como uma realidade agregada a outras, mas, sim, como realidade primeira e tiltima. Groome termina seu capitulo sobre o Reino de Deus como “metapropésito” da Educagao Crista assim: Para os cristéios, 0 Reino de Deus e 0 Dominio do Cristo que subiu ao Pai devem permanecer juntos no cerne de nossa pregaciio e educagao. Sem divida, pregar Cristo como Senhor e Salvador é implicitamente pregar 0 Reino de Deus, Mas 0 Reino néo pode ser tratado apenas como uma mensagem implicita em nosso querigma. Ambos os temas, Cristo como Senhor e Salvador eo Reino como o pregava Jesus, devem estar constante e inten- cionalmente presentes em nossa proclamacao e educagéo. Sem os dois nosto querigma estd incompleto (91). Aobrae o Reino sao de Deus, mas nés temos certas responsabili- dades como membros do Reino de Deus. Almejamos a vinda ¢ a consumagao do Reino. Entrementes, na parabola do semeador em Mateus 13.4-23, a conclusao é: “Mas 0 que foi semeado em boa terra € o que ouve a palavra e a compreende; este frutifica, ¢ produz acem, a sessenta € a trinta por um” (vs. 23). Nossa responsabilidade no Reino é produzir frutos. Isto se faz pela pregagao, ensino e pratica da Palavra de Deus. Pelo ensino as pessoas compreendem a Palavra ¢ se comprome- tem a pratica-la. Se nao ha ensino, pode-se ver o que acontece com a Palavra semeada (veja Mt 13.18-22). Quando se ensinam os valo- res do Reino, é preciso viver de acordo com esses valores. Entramos no Reino do Amado e assumimos as responsabili- dades do Reino ¢ suas implicag6es para o individuo, para a familia e para a sociedade. Vejamos agora estas trés esferas onde o Reino se manifesta. Encontram-se nelas trés finalidades imediatas da Educa- Gao Crista, Para Que a Educagao Crista? Finalidades do Ensino na Igreja FINALIDADES DO ENSINO NA IGREJA O Aperfeicoamento dos Cristios Quando se fala das responsabilidades do Reino ou da resposta humana ao comando do Reino, existem implicagdes em varias esferas. ‘Talvez pensemos primeiramente sobre as implicagées para o indivi- duo. Ensinamos para que as pessoas crescam na fé e vivam a vida ctista como stiditos do Reino em obediéncia ao Rei. O apéstolo Paulo descreveu a finalidade de seu ministério assim: “...ensinando toda pessoa em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos toda pessoa perfeita em Cristo; para isso é que eu também me afadigo, esforgando-me o mais possivel...” (Cl 1.28,29). Paulo ensinaya por- que desejava ver o desenvolvimento integral de cada cristao. Em Efésios 4.12 ele fala que os dons e ministérios da Igreja existem “com vistas ao aperfeigoamento dos santos para o desempe- nho do seu servico, para a edificacao do corpo de Cristo”. Para Paulo a finalidade dos ministérios ¢ 0 desenvolvimento da fé crist vivenciada, o crescimento e aperfeigoamento da pessoa toda e da Igreja toda. A convivéncia da comunidade crista, formal e informalmente, resulta em “edificagdo mtitua” (1 Ts 5.11). Neste convivio, Paulo ainda exorta os santos; “Instrui-vos ¢ aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria” (Cl 3.16). No Sermao do Monte deparamos com uma descrigao clara da pratica do Reino na vida cotidiana. Nesta pratica, ou obediéncia radical, o Reino se materializa entre ndés aqui na terra, Na atuagao vivencial do cristao, seu modelo e meta é Cristo, que viveu o que pregou no Sermao do Monte. Em Teologia da Educagao Crista, Lawrence Richards escreve sobre este alvo: “O propésito é ser como Cristo. Por esta razao a educagao crista se concentra em ajudar o crente a crescer até ser como Cristo. Ela visa ao processo de transfor- macao de personalidade e cardter” (21). O objetivo do ensino cristao ¢ formar cidadaos do Reino. As qualidades que Cristo exibiu devem ser as mesmas exibidas por seus seguidores. 37 TORE ENSTVADONA A Edificagao de Lares Cristaos Uma segunda esfera onde ha implicagées na resposta ao Reino de Deus é no lar cristao. Ha implicagoes para a familia. Para a Igreja ser edificada e a sociedade fortalecida, para que “venha 0 teu Reino, assim na terra como est nos céus”, € necessrio que a edificagao € 0 ensino comecem no lar. Deus instituiu o casamento ¢ nos colocou em familias. O Senhor mandou que os pais ensinassem a seus filhos. A educagao deve ser responsabilidade dos pais, e nao pode ser transfe- rida para a Igreja. Para se edificar a Igreja, visando 4 consumagao do Reino, tem que haver nutrigao espiritual no lar. Alguém disse: “Uma sociedade é 0 que sao suas familias.” Desejando-se promover os valores do Reino de Deus, ha que se reconhecer que os valores comecem no lar. No seu liyro, Os Valores Comegam no Lar, 0 professor Dr. Ted Ward afirma: “A familia tradi- cional est4 desaparecendo. Esté morrendo devido ao desinteresse ¢ negligéncia e... poucos lamentam o desaparecimento da familia es- tavel” (25). Ward resgata a familia como valor e 0 lugar de onde procedem os valores cristaos. As criangas véem o certo e errado nas palavras, atitudes e agdes dos pais. Os pais ensinam antes de tudo pelo exemplo. Sao modelos formativos que se ensinam formalmen- te e informalmente no lar. A Transformacao da Sociedade Quando 05 cristaos se aperfeigoam e os lares cristaos so edifi- cados, até onde a acao e influéncia se Ihes estendem? Finalmente, queremos lembrar-nos de nossa responsabilidade pela transforma- go da sociedade. Jesus trouxe consigo o Reino de Deus (Mc 1.15). Jesus nao apenas pregou por meio do Reino; demonstrou sua reali- dade temporal e histérica pelos “sinais do Reino”. O objetivo da Educagao Crista nao pode ficar aquém da abrangéncia do ministé- rio docente de Jesus. Depois de enumerar os valores do Reino nas bem-aventurangas em Mateus 5.1-12, Jesus, de maneira contundente e enfitica, diz aos discipulos: “Vés sois o sal da terra... Vés sois a luz do mundo” (5.13,14). E na sua vida material e social na terra, na sua insergao no mundo, que 0 cristéo age manifestando os valores do Reino. Os 38 Para Que a Educagao Crista? Finalidades do Ensino na Igreja valores eternos do Reino devem ser confrontados pelos valores pas- sageiros do século, John R.W. Stott mostra isto claramente no seu comentario A Mensagem do Sermao do Monte e no seu livro O Cris- tao em uma Sociedade Nao-crista. Diz ele que o chamado cristao é para “viver no mundo sob a Palavra” (1989:14). Como sal e luz, a Igreja deve exercer influéncia necessdria sobre a sociedade. Ele con- tinua: “uma preocupacao social genufna tanto deve abranger servi- go social quanto acao social” (29) e também ago politica. Sobre os seus remidos, Jesus é Rei e Senhor de fato, mas sobre o mundo ea sociedade paga que jaz no maligno, Ele é Rei e Senhor de direito. Quando os valores cristios, como justiga, paz, reconci cao, alegria e esperanga sio introduzidos nas sociedades do mundo, hd transformagao. O Reino de Deus nao é algo puramente “espiri- tual” no sentido de estar fora deste mundo; ¢ a manifestagao da so- berania de Deus e 0 seu senhorio sobre este mundo. A Igreja que segue o paradigma de Jesus pratica 0 engajamento social, desafia as estruturas pecaminosas do mundo e se desdobra em criar 0 que a= Groome denomina “estruturas sociopolitico-econémicas capazes de promover os valores do Reino” (86). Percebe-se, portanto, que as trés finalidades imediatas, o aperfei- goamento dos cristaos, a edificacao de lares cristaos e a transformagao da sociedade, tem como finalidade ultima o Reino de Deus em Jesus Cristo. Caminhamos para uma escatologia em que o Reino de Deus se estabelecer4 integralmente no aperfeigoamento dos cristaos, na edificagao de lares cristaos e na transformagao da sociedade. Faz-se mister trabalhar tanto na teoria quanto na pratica, a fim de que se desenyolya uma Educagao Crista que responda as demandas de nossa realidade sociocultural ¢ atente positivamente 4 sua vocagao funda- mental, que é compartilhar, anunciar, viver o Reino de Deus. O Reino de Deus é muito mais amplo do que imaginamos e daquilo que freqiientemente aprendemos em nossas igrejas. A Igreja hoje dever4, com urgéncia, dar énfase total ao ensino e significado real do que € 0 evangelho do Reino de Deus. Sé assim teremos igre- jas fortes, edificadas, servindo ¢ atuando no mundo com autenticida- de nas 4reas politico-social e econdmica. 39 TGREIA ENSINADORS Quando se faz a Educagao Crista com uma visao do Reino, ela se torna de inestimavel importancia e urgéncia, e evita-se uma série de problemas. Schipani diz que nao se pode “espiritualizar” ou “tegionalizar” o Reino, “identificando-o com a Igreja ou com um determinado sistema social” (86). Queremos, portanto, concluir este capitulo com duas ressalvas ou consideracées a respeito da Igreja da Biblia. DUAS RESSALVAS A Igreja Se o Reino de Deus é 0 fim tiltimo de todo esforgo educativo, com implicagGes para os individuos, para as familias e para a socie- dade, qual é 0 papel ¢ importancia da Igreja na Educagao Crista? A Igreja nao é o Reino. A Igreja se torna “sinal” do Reino ¢ trabalha em prol do Reino. Seus valores ¢ ideais, seus padrdes morais e seu estilo de vida sao sinais do Reino, Pode-se afirmar que o Reino e a Misséo de Deus tém uma Igreja. Deus confiou Igreja a continuacio e a realizacao de sua prépria missao salvadora. A Igreja é um instrumento ou agente mis- siondrio de Deus. Portanto, ela existe e trabalha como instrumento ¢ propagadora do Reino. Todo 0 seu ministério educacional, ou seja, a edificagao, ensino, crescimento ¢ obediéncia da Igreja efetivem a consumagao do Reino. A Igreja tem como alvos imediatos 0 aperfeigoamento dos cristaos, a nutrigao de lares cristaos e a transformacao da sociedade. Contudo, ao cumprir sua missao evangelistica, educativa e social, a Igreja serve ao Reino e a0 Rei. Nao se colocou a edificagao da Igreja como finalidade tiltima do ensino, porque a Igreja nao é um fim em si. Em Apocalipse 21 nao ha “santuério” ou Igreja, mas “os povos de Deus”. A visio do Reino transcende a Igreja. Esta existe no interim entre a ascensao e a vinda do Rei Jesus como instrumento histérico de ensino e trans- formagao visando a consumagio do Reino. 40 Para Que a Educa¢ao Crista? Finalidades do Ensino na Igreja A Biblia Vale notar também que a Biblia ou o ensino da Biblia nao foram propostos como o fim da Educagao Crista. A Igreja de Deus tem uma Biblia, a Palavra inspirada e autorizada de Deus. Respeita- se essa autoridade suprema da Igreja como “regra de fé e pratica”. No ensino cristao, a Biblia se faz necessdria como contetido vivo e eficaz. Estuda-se e ensina-se a Biblia. E 0 texto central e definitivo na Educacao Crista, a fonte de doutrina ¢ ética. Jd se falou do papel do Espirito Santo e as Escrituras. Portanto, a Biblia, como a Igreja, nao é um fim em si. Por isto, nem a Biblia, nem a Igreja, pode ser idolatrada. Ela serve como instrumento de revelagao divina, para conhecer a Deus e viver de acordo com os padrées do seu Reino. Havendo feito estas duas ressalvas, fica evidente que, se o Rei- no de Deus ¢ afirmado como finalidade tiltima da Educagao Crista, evitam-se problemas como dénominacionalismo, isolacionismo, in- dividualismo, pragmatismo, misticismo, biblicismo, tradicionalis- mo e modismo. EDUCAGAO PARA O REINO Em resumo, propde-se uma Educagao Crista para o Reino de Deus, com fundamentos ¢ finalidades biblicas. Tal visio leva-nos a objetivar o aperfeicoamento dos cristaos, a edificagao de lares cris- taos e a transformacao da sociedade de acordo com os valores do Reino. Neste processo Deus serve-se da Igreja e da Biblia, mas 0 fim ultimo é seu préprio Reino. 41 tém a ver com o Reino de Deus “jd” inaugurado, embora_ E Deus. Em conclusio, a vinda de Jesus 20 mundo, o dom de Deus, na “plenitude dos tempos”, ¢ sua m¢ 1 central “ainda nao” totalmente completado como 0 seré no fim dos _ Aaceitacao desta graca de Deus pela Igreja, Corpo de Crisco, traz a explicagao fundamental de prépria existéncia, €, com isso, suas intrinsecas responsabilidades como sudita do Reino, isto 6, a de produzir frutos. . Isso € feito a nivel de um aperfeicoamento dos cristaos, da edificacao de lares cristaos e da transformacao da sociedade. : A praxis da Educagao Crista consiste em dar uma respos- ta as demandas socioculturais, atendendo a sua vocacao fun- damental, que ¢ compartilhar, anunciar, viver 0 Reino de Ensino no Antigo Testamento Gh Ensino no Antigo ‘Testamento uando se lé a Biblia numa perspectiva pedagdgica, percebe- se que Deus foi o primeiro professor por exceléncia, preocupado com o desenvolvimento do ser humano em todas as dreas e sentidos. Descobre-se no Antigo Testamento que o ensino era muito importante para os judeus. As criangas judaicas recebiam instrugao religiosa no lar. As Escrituras hebraicas podem ser divididas em trés partes. Jesus usou esta divisao quando se refe- riua “tudo o que de mim estd escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Le 24.44). Convém olhar e examinar sistematica- mente cada divis4o para descobrir o que 0 Antigo Testamento diz sobre o ensino e para demonstrar a funcao diddtico-pedagégica do proprio AT, um paradigma para o educador cristao. O PENTATEUCO Que é que se aprende sobre o ensino nos cinco primeiros livros da Biblia, ou seja, no Pentateuco? Os livros da Lei relatam as hist6rias fundamentais do povo de Israel (a Criagdo, a chamada de Abraao, o éxodo, a peregrinago até a terra prometida), que se tornam a “his- toria da salvagio”. De geragao em geragao 0 povo de Israel contava estas histérias que explicavam a sua fé e comemorava anualmente os grandes feitos de Deus nas suas festas religiosas. Gragas ao aspecto 43 VOREJ\ ENSIVADORA repetitivo do seu ensino, a heranga histérica, as orientacdes éticas € 0s ensinamentos que os judeus transmitiam a seus filhos chegam até nés por meio do Antigo Testamento. Um dos métodos de ensino e transmissao de cultura mais antigo € onipresente nas sociedades humanas é 0 de contar ou narrar as historias fundamentais de um povo. Os antropélogos verificam este fendmeno nas tribos da antiguidade e nas atuais. Os gregos tinham seus mitos elaborados. Em 1976, Alex Haley publicou Raézes, a saga de geragGes afro-americanas. O Pentateuco, a primeira das trés partes do Antigo Testamento, € a que mais se caracteriza como processo de ensino diretivo de Deus. O contetido programatico jd estd pronto. A primeiraea segun- da geracoes aprenderao juntas, no momento da implantagao do ensi- no, mas dali em diante caberd 4 geragao mais velha o desenvolvimen- to do processo dialdgico de ensino, ea geragao mais novaa continui- dade da transmissao desse ensino. O Pentateuco conta uma histéria, a histéria de Deus e seu po- vo, desde suas origens até sua peregrinacao no deserto e chegada & terra prometida. Apds as emocionantes narrativas do Génesis e do Exodo, repletas de histérias de amor e intrigas familiares, onde a mao de Deus sempre se faz presente e soberana, vém as instrucdes € raizes cuilticas ¢ os fracassos do povo peregrino em Levitico e Nuime- ros. Quando se chega ao tiltimo livro do Pentateuco, Deuteronémio, encontra-se uma reflexao teoldgica sobre as historias ¢ leis j4 conhe- cidas e uma preparacao pedagégica para o novo futuro na terra pro- metida. No capitulo 26 de Deuteronémio, encontra-se algumas instrugGes referentes ao culto de um agrénomo. Ele levaria um cesto de primicias ao lugar de adoragao, apresentd-lo-ia ao sacerdote ¢ confessaria sua fé. O relato comega narrando como “eles” (seus ante- passados) desceram ao Egito depois o adorador muda para o pronome “nés” (embora ‘nunca tivesse estado no Egito, o agrénomo se identifica e entra na histéria) e, finalmente, usa o pronome “eu”, demonstrando sua participacao ativa na histéria de Deus e seu povo: Arameu, prestes a perecer, foi meu pai, e desceu para o Egito, e ali viveu como estrangeiro com pouca gente; e ali veio a ser 44 Ensino no Antigo Testamento nagdo grande, forte e numerosa. Mas os egipcios nos maltrataram e afligiram e nos impuseram dura servidao. Clamamos ao SENHOR, Deus de nossos pais: ¢ ele ouviu a nossa voz, € atentou para a nossa angustia, para o nosso trabalho ¢ para a nossa opressdo; e nos tirou do Egito com mao poderosa, e com braco estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com milagres; e nos trouxe a este lugar, e nos deu esta terra, que mana leite e mel. Eis que agora trago as primtcias dos frutos da terra que tu, éSENHOR, me deste... (Dt 26.5-10) Ha, portanto, duas énfases didaticas no Pentateuco, as diretas narragoes das histérias ocorridas no passado com significado no presente, e, em segundo lugar, as instrugées. Outra nomenclatura para os cinco livros da Lei é a Tord, que quer dizer lei ou instrugao. A Tord contém muitas instrugdes dadas por Deus a Moisés e por Moisés ao povo. Em Exodo e Levitico ha detalhadas instrugées cuil- ticas, cerimoniais, legais e éticas. Os Levitas eram responsaveis pelo ensino (Lv 10.11; 2 Cr 35.3). Nos livros da Lei, portanto, descobrimos a grande importancia das instruges no processo educacional. No Pentateuco, a Histéria da Salvacio é ensinada 4s criancas no lar. No meio das histérias e das instrugdes, hé muitas perguntas feitas pelas criancas aos pais ou pelos discfpulos aos mestres. No seu livro, The Creative Word (A Palavra Criativa), Walter Brueggemann estuda 0 canon (a lista ou colegio de escritos sagrados inspirados ¢ reconhecidos como 0s livros da Biblia) como um modelo para a educagao. Ele cré que a Tor, com sua autoridade mosaica, é fundamental para tudo que se segue no Antigo Testamento e para a educagao judaica. Brueggemann examina a Tord, a partir de seis textos que revelam perguntas feitas aos pais pelas criangas, ou pelo discfpulo ao sacerdote/ mestre, todos com a mesma énfase: “Quando vossos filhos vos perguntarem: Que rito é este? Respondereis...” (Ex 12.26); i “Naquele mesmo dia contards a teu filho...” (Ex 13.8); “Quando teu filho amanha te perguntar: Que é isso? Responder- 45 WORE ENSTVADOR A lhe-ds...” (Ex 13.14); “Quando teu filho de futuro te perguntar, dizendo: Que signi- Jficam os testemunhos e estatutos e juizos que o SENHOR nosso Deus vos ordenou? Entao dirds a teu filho...” (Dt 6.20,21); “..para que isto seja por sinal entre vds; e quando vossos filhos no futuro perguntarem, dizendo: Que vos significam estas pe- dras? Entito thes direis...” (Js 4.6); “Quando no futuro vossos filhos perguntarem a seus pais, dizendo: Que significam estas pedras? Fareis saber a vossos fi- thos...” Js 4.21)! O ponto principal nos seis textos é: desde 0 comego da Biblia existe uma preocupagao com o processo educativo. E os educadores sao os pais. Nestas passagens, instrugGes sao dadas aos pais, porque cles cram responsdveis pela educagao dos filhos. Os pais utilizaram os rituais religiosos para instruir seus filhos. O culto, com seus simbo- los (figura do pastor, o templo, o ofertério, etc.) ¢ ritos dramatizados (a Santa Ceiae o batismo), tém uma fungao pedagdgica. Os simbolos ajudam a crianga a entender aquilo que seus pais créem. Por isso, a Participagao ativa e mesma intuitiva da crianga no culto, com a instrugao dos pais quanto & educagao de seus filhos, sao imprescin- diveis. Nota-se também que a importincia vetero-testamentario é mais dialégico do que monolégico. Talvez o livro mais intencional e diretamente diddtico na Tord seja Deuterondmio. E um livro de instrugdes ou de preparo para entrar na terra prometida, e entre as instrugdes h4 muita orientacio para os pais. Todos os pais eram professores, ¢ o lar era o centro da educagao religiosa. Isto se torna claro em Deuteronémio 4.9,10; 6.4-9; 7.17 € 32.7. Quem ama ao Senhor é motivado a ensinar seus filhos, aproveitando todas as oportunidades e respondendo a todas as perguntas. 1, O livto de Josué nao esta propriamente no Pentateuco; entretanto, Brueggeman continua a narracio, por motivos didaticos inclui estes dois versiculos para completar seu raciocinio, 46 Ensino no Antigo Testamento OS PROFETAS E ESCRIBAS A segunda divisao das Escrituras hebraicas é os Profetas. Esta divisao do canon inclui os “profetas anteriores” (Josué, Juizes, Samucl, Reis) e os “profetas posteriores” (Isaias, Jeremias, Ezequiel e os doze Profetas Menores). Esta segunda parte do Antigo Testamento revela a falta da vida de “fé vivenciada”. Demonstra claramente a auséncia de perseveranga no processo educacional e no contetido programiatico divinos. Nos Profetas a educagao desloca-se do lar e agora é centrada no trono. Torna-se “palaciana’. Os profetas sao os pedagogos da propria nagao. Apés o registro das narrativas e instrugdes na Lei de Moisés, que se tornou autoridade para o povo de Israel, ¢ relatado um periodo na sua histéria caracterizado por tumulto, incerteza e tensao. O livro de Jufzes termina com um versiculo triste: “Naqueles dias nao havia rei em Israel; cada um fazia 0 que achava mais reto.” E um livro de fracasso, derrota e pecado. Depois a monarquia ¢ estabelecida. Apds quarenta anos da lideranga forte de Davi, Salomao em 962 AC sobe ao trono e os fundamentos da vida e fé em Israel passam por uma radical mudanga.* Havia crises politicas e espirituais. Israel se divide em dois reinos, eeventualmente o do norte é destruido pela Assfria. Depois o Templo é destrufdo eo reino do sul, Judd, é exilado na Babilénia. Em tempos de crise e incerteza, 0 profeta anunciava a mensagem do Senhor. Era um pregador que trazia a palavra do Senhor por meio de proclamagdes muitas vezes dramaticas. Este perfodo distin- to na vida do poyo de Israel tinha como base a palavra do Senhor. 2. Walter Brueggemann trata de Salomao como tipo e simbolo da “consciéncia real”, no seu livro A Imaginagao Profética (Paulinas). A “consciéncia real” refere-se ao Esta- do monérquico e suas instituigées como um sistema centralizado do poder mantenedor do status quo, Brueggemann mostra como Salomao desenvolveu uma economia de afluén- Ga (1 Rs 4.20-23); uma politica de opressio ( 1 Rs 5.13-18; 9.15-22); e uma religizo de eminéncia (1 Rs 8.12,13), na qual Deus estava presente e “controlado”, ou seja, 3 disposi- cao dos desejos reais. Fra uma religido de legitimacao do poder real, caracterizada pelo comodismo ¢ otimismo. 47 TOREIA ENSIVADORS Nao s6 0 profeta, mas o Rei deveria buscar esta palavra do Senhor, conforme 1 Reis 22.5: “...consulta primeiro a palayra do Senhor”. O profeta anunciava as boas novas do Reino de Deus e denunciava as praticas incoerentes com os valores desse Reino. Os profetas ques- tionavam 0 rei € 0 povo, uma tensao constante entre “reino de Deus” e reino de Israel. Para introduzir seu capitulo sobre os Profetas, Brueggemann cita uma pergunta de Jeremias 37.17: “Ha alguma palavra do SENHOR?” No episédio relatado em Jeremias 37.16-21, o profeta se encontra com o rei num momento de crise ptiblica. A palavra profética sempre se dé no contexto sdcio-politico perturbado. O rei na literatura profética, a partir de Salomao e aqui no vacilante Zedequias, é simbolo do detentor de poder e conhecimento. Entre- mentes, 0 profeta nao aceita 0 status quo, mas 0 questiona, critica-o, transcende-o. Assim, 0 sistema educacional divino est4 direcionado para o aspecto corretivo. A andlise critica do profeta nao é direcionada ao contetido programdtico, mas 4 atitude do aprendiz. Sea primeira divisao do Canon do Antigo Testamento, o Penta- teuco, representa a tarefa de conservagao, transmissao e manuten¢io do legado e heranga do passado, a segunda divisao, os Profetas, por sua vez, representa outra tarefa educacional, a de questionar, examinar criticamente, refletir contextualmente. A énfase do profeta esté nas experiéncias presentes do povo, porém sua “imaginacao profética” (frase de Brueggemann) leva-o a visualizar um novo e diferente fu- turo. Enfim, o profeta imagina a prometida realidade do Reino de Deus e incentiva 0 povo a viver de acordo com esta visio. Na educagao se faz necessdrio manter uma tensao fecunda entre conservagao do passado, descoberta no presente e imaginagao do futuro. O povo de Deus no Antigo Testamento, com a Igreja hoje, precisa da palavra profética e do ensino tradicional. Em termos pedagdgicos atuais, precisa-se da educagao tradicional, moderna ou progressista, que envolye uma participagdo ativa e a imagina¢ao ctiativa. Com a imaginacao criam-se noyas possibilidades, verdadeiras reformas e profundas transformagées. E fundamental na educacdo 48 Ensino no Antigo Testamento para mudanga. Brueggemann evidencia como a “critica profética” é seguida pela “energia profética”, ou a revitalizagao do povo. A imaginagao, o sonho, ¢ preponderante para mudangas. Sem eles a vida é pura mesmice, um cfrculo vicioso. Com o sonho, a imaginagao, a vida é uma espiral que se amplia em todos os horizon- tes. O desafio para o profeta era manter os ensinos tradicionais perti- nentes € promover a nova abordagem educacional, apontando mu- dangas e transformacées! Toda criatividade do perfodo dos profetas tem sido escanteada em nossos dias pela supervalorizagao de apenas uma de suas contri- buigdes, a pregacao. Na pregacao s6 uma pessoa lé, estuda, reflete, fala, ¢ 0 resto do povo pouco aprende, enfim. Constata-se um crime muito grande quando os poderosos de- rém o saber, oprimindo os carentes ¢ levando-os gradativamente a morte do saber. Nao podemos calar-nos, temos que fazer algo, te- mos que criticar, desafiar, levar as pessoas para dentro de uma estru- tura onde reina a yerdadeira democracia! Os profetas nado apenas pregavam, criticavam as estruturas, € imaginavam a realidade do Reino, pois tinham seus discfpulos (Is 8.16). Sabe-se que os profetas tinham o costume de ter discipulos. Esses discipulos receberam os ensinamentos dos profetas mestres, partilharam sua visao e vitalidade, ea eles devemos a preservagao de muitos dos ensinos proféticos. Outro fato digno de nota é a didatica dos profetas. Eles usavam freqiientemente métodos visuais. Isaias andou despido e descalgo (Is 20), Jeremias despedacou o vaso do oleiro (Jr 19) e Ezequiel cercou uma cidade em miniatura (Ez 4). Enquanto o profeta representa uma nova énfase e abordagem educacional sociocultural e critica, a manutengao dos ensinos tradi- cionais da Tord nunca cessou. Para esse fim surgiu uma nova figura, que serve de transi¢ao entre a segunda ea terceira divisdes do Anti- go Testamento. Durante e depois do exilio babilénico, desenvol- yeu-se 0 ensino especializado. A Lei de Moisés foi ensinada ao povo pelos escribas, que tomaram o lugar dos profetas. Os escribas eram 49 TERESA ENSIVADORA uma classe de mestres profissionais da lei, ¢ a estudaram diligen- temente. Eram homens das sagradas letras, que juntaram, copiaram, preservaram e interpretaram a Lei. O surgimento das sinagogas naquele petiodo vem ao encontro das necessidades populares. Num ambiente estranho ¢ hostil ao mo- notcismo judaico, a sinagoga torna-se um “ods: ; *, onde se recorda a ‘Tord eas promessas de repatriamento. Como os escribas, intensifica- se o ensino formal. A sinagoga é a escola, a lei mosaica seu texto. Esdras era um escriba por exceléncia, um dos primeiros doutores da Lei, ¢ um sacerdote. “Ele era escriba versado na lei de Moisés” (Ed 7.6). O texto ainda diz: “Esdras tinha disposto 0 coragao para buscar a lei do SENHOR e para a cumprir e para ensinar em Israel Os seus estatutos € os seus juizos” (Ed 7.10). Ele tinha um ministério de ensino persistente. Em Neemias 8 lemos: Esdras, 0 sacerdote, trouxe a lei perante a congrega¢do, assim de homens como de mulheres, e de todos os que eram capazes de entender o que ouviam... E leu no livro, diante da praca... desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres, ¢ os que podiam entender; e todo 0 povo tinha os ouvidos atentos ao Livro da Lei (vv. 2,3), Depois descobre-se que “os levitas ensinavam o povo na lei... Leram no Livro, na lei de Deus, claramente, dando explicagées, de maneira que entendessem o que se lia” (vv. 7,8). Neste texto o livro da Lei de Moises foi lido e depois os levitas devem ter dividido o povo em grupos de reflexao. Percebe-se que importante cumpre-se nao apenas ler, narrar, ensinar ou memorizar, mas descobrir e en- tender o significado e a relevancia daquilo que ¢ ensinado. O escriba ensinava 0 povo. Esdras nao era um pregador, mas um professor trabalhando no meio da congregaco, lendo e expli- cando as Escrituras. Neste periodo da histéria de Israel, 0 ensino do escriba foi importante, mas, na hist6ria do Judafsmo, a interpretacio da Lei as vezes se tornou em legalismo (como vemos nos escribas das sinagogas no tempo de Jesus). 50 Ensino no Antigo Testamento OS ESCRITOS A terceira divisao do canon hebraico, os Escritos, contém uma coletanea de livros diversos, portanto, varios tém uma intengao ¢ uma forma obviamente didaticas. Os livros de Jd, Provérbios e Ecle- siastes procuram responder 4 pergunta: “Onde se achara?” (Jé 28.12). Enquanto as perguntas nos livros da Lei sao mais objetivas, as pergun- tas nos Escritos tm um cardter mais subjetivo e existencial, e nem sempre as respostas sao faceis ou claras. As reflexdes, indagagoes e diividas registradas especialmente em Jé¢ Eclesiastes demonstram que uma finalidade da educagao € criar espago para questionamentos, investigagGes cientificas € filosdéficas, observagoes, debates e descobertas. Enfim 0 processo educativo se torna uma busca existencial que envolve didlogo com muitas pessoas e pesquisa de todos os temas da vida. Nao ¢ um processo fechado, controlado, manipulado ou abafador. Ao contrario, € um processo aberto, que envolve todos os aspectos da vida e da experiéncia huma- na no mundo, E permitida a Jd, servo “integro e reto” de Deus, uma imersao total nas perplexidades, sofrimentos e contradigées da vida humana. As respostas de Deus nao lhe vém automaticamente, mas no fim de um longo processo de reflexao introspectiva e emotiva e de didlogo com os outros e com Deus. Sim, é um processo dialégico pelo qual o Soberano, o detentor de toda a sabedoria, sustenta, nutre e molda seu servo. Porém, a descoberta da sabedoria se faz por meio das experiéncias no mundo. Tratando também da sabedoria, 0 livro de Provérbios tem muita instrugdo que é diretamente diddtica. Os Provérbios nao contém teorias ou filosofias especulativas, mas ensino muito pratico. Um problema bastante sério na histéria da educagao e filosofia ocidental éa demasiada prioridade dada a teorias cognitivas, ou seja, ao inte- lectualismo académico, no ensino. O resultado freqiiente tem sido uma dicotomia entre teoria ¢ pratica, e, enfim, a negligéncia ou até o desprezo da pratica nas instituig6es educacionais. No seminario aprende-se a teologia. Na Igreja estuda-se a Biblia e a doutrina. Porém, na vida se pratica uma ética divorciada da teoria, caindo 51 VGREIA ENSIVADONA em mil incoeréncias e hipocrisias. Pois bem, é sé ler Provérbios, um manual de instrugao, e enten- de-se a importancia da vida pratica, da moralidade, da ética. Por exemplo, encontramos um ensino pratico em Provérbios 3.7: “Nao sejas sdbio aos teus préprios olhos: teme ao Senhor e aparta-te do mal.” Outro ensino pratico esta em Provérbios 1.8: “Filho meu, ouve o ensino de teu pai, ¢ nao deixes a instrugado de tua mae.” No Oriente, o aluno é tratado desta maneira, mas também esté bem claro em Provérbios 4.1-4; 10.1 € 13.24 que os pais sao responsdveis pela educacao dos seus filhos. Eles recebem a ordem ea promessa: “Ensina a crianga no caminho em que deve andar, ¢ ainda quando for velho nao se desviard dele.” (Pv 22.6) O ensino pratico de Provérbios € dirigido aos pais, aos filhos, referindo-se também as criangas e aos joyens, enfim, hd ensino para todas as faixas etdrias. O objetivo do livro de Provérbios é levar o leitora “...aprender a sabedoria, ¢ 0 ensino... obter o ensino do bom proceder... dar aos jovens conhecimento e bom siso” (1.2-4), Além de abranger todas as idades com seus ensinos, Provérbios aborda uma gama enorme de assuntos, incluindo a lingua, 0 estado psicolégico de calma e tranqiiilidade, orientagao para o futuro, disci- plina da crianga, sono suave, seguranga, seducao, adultério, mentira, negécios ¢ a mulher virtuosa. Todos sio assuntos eminentemente atuais e prdticos. Embora 0 livro dos Salmos seja mais dedicado ao culto e a ado- ragdo, também existem nele recursos pedagégicos. Por exemplo, o titulo do Salmo 78 é: Salmo Didatico de Asafe. Este Salmo fala da transmissao da fé biblica dos pais a seus filhos, a vindoura geracio. Os Salmos 105 ¢ 106 relatam a histéria do povo de Israel, Sao exem- plos de como a narragao faz parte do culto. Nos Salmos se expressa a resposta humana 4 iniciativa divina. Os aspectos de confianga e obediéncia se destacam. O fim de todo ensino é 0 desenvolvimento de um telacionamento de confianga em Deus ¢ 0 comportamento caracterizado por obediéncia a sua vontade. Por fim, os Salmos, nada mais, nada menos sao que todo o ey 8 Ensino no Antigo Testamento contetido da fé vivenciada de Israel expressada artisticamente. Sa0 acrésticos, poemas, cangoes de lamento ou louvor, hinos, tudo para confirmar em culto a alianga de Deus com seu povo. CONCLUSAO Apés esta breve apresentagao de énfases ¢ evidéncias didaticas em todas as trés divisdes do Antigo Testamento, chega-se 4 conclusao de que o ensino tem rafzes profundamente biblicas. O Antigo Testa- mento em si é um instrumento pedagégico. O Pentateuco apresenta as singulares narragdes do povo de Israel e as instrugGes morais € cerimoniais de Deus. Os Profetas criticam e desafiam as estruturas que se desviam da Lei de Deus e pregam uma alternativa no seu Reino. Nos Escritos 0 ensino € pratico, existencial, reflexivo e abrangente. Na prépria estrutura do canon hebraico temos um modelo de ensino. Tal andlise deve conduzir-nos a reflexao sobre a pedagogia que estamos usando. Se detectarmos um ensino mantenedor do status quo, vazio de experiéncia pratica de vida crista, sem transformacao alguma, uma revisao profunda e significativa precisa ser iniciada de nossa parte, no que diz respeito ao nosso proceder pedagdgico. So- mente assim teremos um ensino que verdadeiramente seja biblico e dinamico. 53 Demonstra este capitulo nao s6.a feichimientaras biblica e teoldgica do ensino na Biblia, como também a instrumen- talidade didatico-pedagdgica do préprio Velho Testamento, um paradigma para o educador cristao. Desta forma, agrupam-se os livros biblicos de acordo com seus métodos de ensino em diferentes momentos da hist6ria do povo de Deus: no Pentateuco, a reflexao teolégica em Deuteronémio mostra que a tradigao tem significado presente no processo educativo ¢ socializante dos filhos da promessa; nos Profetas, andlise critica ¢ questionadora, con- textualizante, mostra inovagGes diddticas ¢ dramdticas para levar 0 Povora compreender as Escrituras. Com os Escritos, a experiéncia humana é vivida na carne. Em suma, no oo hebraico, um modelo de ensino. Ensino no Novo Testamento Gy 5% Ensino no Novo ‘Testamento o capitulo anterior, descobriu-se muito material, e funda- mentos profundamente didaticos, nas trés divisdes do Antigo Testamento. Contudo, é no Novo Testamento que se encontra o Mestre, o Professor dos professores, Jesus. Ele ensinou as afluentes massas € treinou os doze discipulos. O Novo Testamento também registra a visdo de ensino da Igreja Primitiva e do apéstolo Paulo. Examinemos o ensino de Jesus nos Evangelhos, 0 ensino apostélico no livro de Atos e 0 ensino paulino nas suas Cartas, para descobrir mais embasamento biblico para o ensino. O ENSINO DE JESUS NOS SINOTICOS Os quatro Evangelhos registram a vida e os ensinos do Mestre, Jesus. Jesus é apresentado nos Evangelhos principalmente como um Mestre. Ele era conhecido como Mestre ou Rabi, que quer dizer, instrutor ou professor. Nicodemos disse: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus” (Jo 3.2). Os dez leprosos gritaram: “Jesus, Mestre, compadece-te de nds!” (Le 17.13). (Veja também Mt 19.16; Mc 5.35; Jo 11.28; 20.16, etc.). Jesus afirmou: “Vés me chamais o Mestre ¢ o Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” (Jo 13.13). 55 TGREA ENSINADORA J. M. Price diz: “Nos Evangelhos, Jesus € chamado mestre nao menos de quarenta e cinco yezes, ¢ nunca se fala nele como pregador... Fala-se em Jesus ensinando, quarenta e cinco vezes; ¢ onze apenas pregando, e, assim mesmo, pregando ensinando” (15,16). Price continua, dizendo: “Toda a obra de Jesus estava envolta em atmosfera didatica” (17). O ministério de Jesus estava voltado para o ensino de uma forma altamente didética ao trabalhar intensamente a relacao: profes- sor-aluno-mensagem (curriculo). Qual, porém, foi a marca ou caracteristica dominante do Mes- tre? Foi, sem dtivida, a encarnagito da verdade. Jesus também encarnou seus ensinamentos. Antes de tudo, Ele era um exemplo e modelo de tudo que ensinava. Sua autoridade vinha de seu exemplo. Ele vivia o que ensinava. Com total coeréncia, Jesus ensinaya primeiramente pelas acdes e, em segundo plano, pelas palavras. Ele ensinava por meio de sua prépria vida, ¢ incentivava os discfpulos a amar ao pré- ximo a partir de seu exemplo: “Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15,17). No relacionamento com seus alunos, 0 professor tem a opor- tunidade de comunicar a verdade biblica, de modelar esta verdade na sua vida e de levar 0 aluno a dela se apropriar. O aluno tem o privilégio de participar ativamente nesse processo de aprendizagem. Se os nossos professores seguissem hoje em dia o exemplo de Jesus ¢ vivessem vidas dignas de ser imitadas, 0 ensino seria mais eficaz. A educagao secular requer de seus professores apenas conhe- cimento ¢ formagao técnica adequada ao ensino que serd ministra- do, ao passo que a educagao crista, para atingir seus objetivos, ne- cessita de professores que tenham uma vida digna do evangelho que proclamam. E necessdrio negar-se a si mesmo, tomar a cruz e segui-lo, nao apenas de palavras, mas de atitudes. Os trés primeiros Evangelhos sao conhecidos como os Sinéti- cos,' porque hd neles muitos paralelos e semelhangas (sindtico quer dizer “visto junto”), Havia muito ensino oral sobre a vida de Jesus, € logo sentia-se a necessidade de escrever breves manuais para instruir 56 Ensino no Novo Testamento os cristaos sobre Jesus. Cada autor utilizou certas fontes ou tradi- coes sobre a vida e os ensinos de Jesus, e os Evangelhos foram conce- bidos e gestados no contexto de uma comunidade especffica com suas peculiaridades e necessidades. Eis por que as énfases ¢ inten- g6es sao variadas. Cada evangelista conta a histéria de Jesus com sua ética e dentro das suas perspectivas ¢ propésitos definidos. Mas, para atingir seus objetivos pedagégicos, cada autor recorre ao Mes- tre € ao seu ensino. Mateus escreve seu relato da vida de Jesus para ensinar sobre a vida interior da comunidade crista e as implicag6es éticas do Cristia- nismo. Por isso, ele d4 grande importancia aos ensinamentos de Jesus, o Messias. Ele escreve para cristaos de fala grega, a maioria dos quais era de origem judaica ou eram elementos que estavam engajados em conflitos com o Judafsmo. Por isso, faz muitas cita- ges e alusdes ao Antigo Testamento e patenteia uma reinterpretagao da lei mosaica. Ele também apresenta uma “apologética”, ou seja, uma defesa da fé crista, para ajudar a comunidade a atingir pessoas indiferentes ou judeus militantes. Com énfase no ministério diddtico, Mateus apresenta cinco discursos de Jesus: 1) Discurso no Monte (Mt 5-7); 2) Discurso sobre Missao (Mt 10); 3) Pardbolas do Reino (Mt 13); 4) Discurso sobre Disciplina (Mt 18); 5) Discurso sobre 0 Fim e 0 Julgamento (Mt 23-25). Mateus identifica a tematica principal do contetido programa- tico do Messias logo no inicio, apés o batismo e a tentagao de Jesus: “Arrependei-vos, porque estd préximo o reino dos céus” (4.17). Com 1. Tratar-se-4 apenas dos Sindticos neste capitulo, O quarto Evangelho, Joao, tem rmuitas diferengas em estilo ¢ linguagem. Nao ha parabolas, apenas sete milagres. Os discursos so mais relacionados com a pessoa de Jesus do que com a ética. Hii bastante encontros pessoais. O aspecto pedagégico de relacionamentos pessoais ¢ importante. Este Evangelho Eessencialmente teoldgico. Nao 0 consideraremos, porque © ensino de Jesus esta bastante daro nos Sindticos, € principalmente porque no esbogo do capitulo ligam-se os livros de Lucas ¢ Atos. 57 WORE SA BNSIVADORA este versiculo comega uma segio do Evangelho que vai até 11.30 ¢ focaliza a mensagem, o ministério e os discipulos do Messias. Em Mateus 4.23, o evangelista nos apresenta um resumo do ministério de Jesus: “Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando 0 evangelho do reino e curando toda sorte de doengas e enfermidades.” O ministério mencionado primeiro aqui em Mateus 9.35 e outros textos é 0 ministério de ensino. Os capitulos 5, 6 e 7 de Mateus sao conhecidos como o Ser- mao do Monte. E interessante, portanto, notar 0 inicio e o fim des- ta passagem. Ela comega assim: “Ele passou a ensind-los, dizendo...” (5.2), € o evangelista encerra o relato com estas palavras: estavam as multid6es maravilhadas da sua doutrina: porque Ele as ensinava como quem tem autoridade, e nao como os escribas” (7.28,29). E claro que nao foi um sermao. Mateus 5-7 contém um discurso ou uma coletanea de ensinamentos de Jesus, um resumo da sua mensagem da ética do reino, entregue com a autoridade do Rei. Os doze receberam muito ensino de Jesus, e em Mateus 10.5 Ele os enviou. Neste capitulo Mateus amplia consideravelmente as instrugdes dadas no discurso sobre missao (10.5-42; compare Mc 6.7-13; Le 9.1-6). Esta parte do evangelho, que destaca o contetido, o ministério ou exemplo, e os discfpulos/alunos do Mestre, termina com um convite, em 1 1.28-30. Para os judeus oprimidos pelos pesados fardos da Ici impostos pelos fariseus, ¢ para os cristaos aflitos e confusos no momento de organizacao da Igreja diante de perseguicao, o Mestre disse: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre yés o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coragao...” (Mt 11.28,29). “Aprendei de mim...” Jesus se coloca como Mestre sui generis e exemplo. “E ser aluno de Jesus é ter um Professor muito gentil e inclinado a humildade, que nunca se impacienta com os que sao lentos para aprender, ¢ jamais é intolerante com os que tropecam (Tasker, 1991:97). Apés mais trés discursos, antes de voltar ao céu, Jesus dé suas 58 Ensino no Novo Testamento ultimas instrugdes A comunidade, conhecidas como a Grande Comis-sao: “Ide, fazei discipulos... batizando-os... ensinando-os” (Mt 28.19,20). Ele define a missao e 0 propésito da Igreja. O batismo assinala 0 ingresso do cristao na Igreja. Mateus é 0 tinico sindético que usa a palavra “Igreja” (16.18). O ensino assegura o sipulo de Jesus e a edificagao de processo de crescimento do di: sua Igreja. O Evangelho de Marcos foi escrito para uma comunidade crista de origem gentia que sofria perseguicao. Enquanto Mateus destaca temas ou t6picos e discursos, o Evangelho de Marcos é um livro de agao que relata fatos. Seu estilo ¢ claro e sucinto. Com grande obje- tividade, Marcos relata fatos importantes na vida de Jesus, o Servo de Deus. O Servo, portanto, tem divina autoridade, e entra em con- flito com os lideres religiosos. Jesus estd cercado por seguidores ¢ perseguidores. Contudo, as atividades nao diminufram o ensino. Marcos apresenta-o muitas vezes e em muitos lugares ensinando (1.21,22; 4.1,2; 8.31; 9.31; 12.35). Parece que a maior ocupagao de Jesus foi o ensino. Os Evangelhos apresentam o Mestre ensinando as multiddes, mas, de maneira especial, Ele ensinava os discipulos. Apés 13 breves versos (Mc 1.1-13) que destacam a preparagao do Mestre, o contetiido programatico de Jesus ¢ esbogado: “O tempo esta cumprido € o rei- no de Deus esta préximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (1.15). O centro da mensagem de Jesus era o Reino de Deus. Esse Reino exige dos stiditos uma resposta de vida. Marcos destaca a presenga dos discipulos. Logo no primeiro capitulo, Jesus chama Simao e André (1.16-20), ¢ a seguir, Levi (2.13,14), dizendo-lhe: “Segue-me!” No terceiro capitulo, Marcos jd relata a escolha dos doze (3.13-19). Jesus os chamou, antes de tudo, “para estarem com ele” (3.14). Seu método de formagao co- mega de um relacionamento pessoal, {ntimo e constante, de convi- véncia diaria. Deste modo, destaca-se a relacao aluno-professor. No ensino informal ha comunicagao por meio de relacionamento. Jesus ensi- nava-os, ¢ os discipulos participavam ativamente no processo. Nes- 59 TOKEN BYSIVADORL te relacionamento, os discipulos observavam, ouviam, pergunta- vam, respondiam, agiam, seguiam, imitavam e obedeciam. Os doze receberam um treinamento intensivo e extensivo. Eles foram treinados pela convivéncia com Jesus. Lawrence Richards diz: “Fazer disctpulos é um processo de rela- cionamento interpessoal, que envolve professor e aluno em muitas experiéncias da vida real... parece exigir um contexto de vida, um mo- delo do qual o discipulo pode aprender, por meio do relacionamento intimo.” (26) Portanto, a convivéncia nao é um fim em si. Marcos 3.14 diz: “Ele designou doze para estarem com ele ¢ para os enviar a pregar e a exercer a autoridade de expelir deménios.” O plano era ensinar ou treinar para enviar com propésitos ministeriais especificos. Quando o ensino biblico nao objetiva treinar, preparar, equipar e enviar, nao segue o modelo de Jesus. Os discipulos estéo sempre presentes no relato de Marcos, as vezes imaturos, impulsivos, timidos, até incrédulos, nem sempre compreendendo o seu ensino, mas tentando segui-lo e imitd-lo. En- fim, praticaram o que Jesus ensinava: “Chamou Jesus os doze e pas- sou a envid-los de dois a dois” (6.7). Sem um modelo e sem ins- trugdes o Mestre nao os enviava, mas 0 ensino nunca ficou sé na teoria. A pratica era imprescind{vel. Quando Marcos relata a missa0 dos doze (6.7-13), ele diz que voltaram e “Ihe relataram tudo quanto haviam feito e ensinado” (6.30). Os estagios dos disc{pulos segui- ram o modelo de todo bom ministério supervisionado, com relaté- tios e feedback. Dos trés Evangelhos Sinédticos, Lucas ¢ 0 tinico que se inicia com uma introdugao esclarecendo seus propdsitos ¢ métodos. Esta introdugao (Le 1.1-4) é uma chave ao livro. Seu alvo é fazer “uma exposigao em ordem” da vida, morte e ressurreigao de Jesus. Ele escreve para “Teéfilo”, um individuo, ou um representante dos cris- téos que “amam a Deus” ¢ buscam orientagGes ¢ informagées. No seu segundo volume, Atos, Lucas faz outra introdugao assim: “Es- crevi o primeiro livro, 6 Teéfilo, relatando todas as coisas que Jesus comecou a fazer e a ensinar, até ao dia em que, depois de haver dado 60 Ensino no Novo Testamento mandamentos por intermédio do Espirito Santo aos apéstolos que escolhera, foi elevado as alturas (At 1.1,2). Ele apresenta Jesus como o centro da histéria e evidencia como a Igreja dé continuidade na missao aos gentios. O autor de Lucas-Atos era gentio, talvez convertido em Antio- quia uns quinze anos apds o dia de Pentecoste, amigo e colega de Paulo. Em Colossenses 4.14 ele recebe 0 tftulo de “o médico amado”, mas também era pregador, missionario, historiador e apologeta. Lucas enfatiza a humanidade de Jesus, comecando com o relato detalhado do nascimento do “Salvador, que ¢ Cristo, o Senhor” (2.11) €0 tinico quadro de sua juventude (2.41-52), Ele destaca o contato e compaixao de Jesus para com os pequenos e marginalizados, pobres, mulheres, criangas, enfermos, pecadores e gentios, mas nao deixa de travar seu didlogo também com lideres e doutores. Ele aborda bastan- te as quest6es materiais do discipulado, como posses ¢ dinheiro e também destaca o lado espiritual com énfase na oracao e no Espirito Santo. A parte do relato sobre 0 ministério de Jesus na Galiléia comeca em 4,.14,15 com um resumo onde a acao pedagégica esté destacada: “E ensinava nas sinagogas, sendo glorificado por todos” (vs. 15). Em sintonia com os temas destacados em Lucas, Jesus define seu contetido programatico servindo-se das palavras de Isafas: “O Espirito do Senhor esta sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres; enviou-me para proclamar libertacdo aos cativos e restauragao da vista aos cegos, para pér em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitavel do Senhor’” (Le 4.18,19). A préxima e maior divisao do Evangelho comega em 9.51 € vai até 19.28. Jesus, o Mestre determinado e vocacionado, “manifestou no semblante a intrépida resolugao de ir para Jerusalém” (9.51). Durante dez capitulos, o evangelista registra a caminhada para Jeru- salém. O foco estd nos discipulos que o acompanham. E um curso avangado do discipulado. Jesus prepara-os para pagar 0 prego. Os assuntos sao profundos e o ambiente estd carregado com tensao € antecipacao da oposic¢ao, e conseqiiente morte em Jerusalém. No caminho havia muito didlogo, comunhao de mesa, interrupg6es e 61 TGREI\ ENSINADORA perguntas. Além de seu cardter id6nco, 0 proprio estilo do ministério de Jesus foi altamente didético. Como qualquer habilidoso pedagogo, o Mestre Jesus usava muitos métodos de ensino. Desde os tempos de Sécrates ¢ Platao, até a “pedagogia da pergunta” de Paulo Freire, usam-se perguntas com intengdo didatica. Desde os doze anos no templo com os mestres (Lc 2.46), Jesus fazia e respondia perguntas. Alguém diz que ha 154 perguntas suas registradas na Biblia. Como exemplo, vejamos 0 texto de Lucas 10.25-37. Chega-se um “intérprete da lei”, um doutor, e diz-lhe: "Mestre, que farei para herdar a vida cterna?” (vs. 25). Como ¢ que Jesus responde sua per- gunta? Ninguém sabe a resposta com perfeicao maior do que Jesus. Ele é “dono da verdade” e poderia expo-la na hora. Mas, em vez de dar uma resposta, Jesus lhe faz duas perguntas: “Que esta escrito na lei? Como interpretas?” (vs. 26). As perguntas de Jesus exigiam leirura e interpretagdo ou pensa- mento critico por parte do doutor. Jesus respeitava o conhecimento ea experiéncia dele e Ihe deu oportunidade e espago para comparti- lhé-los. Ea resposta do doutor, foi correta? Sim! Citou Deuteronémio 6.5 e Levitico 19.18, os mesmos textos que o prdprio Jesus também usou em outra ocasiao (Mc 12.30,31). Jesus reconhece e elogia sua resposta: ”Respondeste corretamente”, ¢ acrescenta mais um aspecto fundamental na sua pedagogia, “faze isto” (vs. 28). Quando Jesus deixa claro que o conhecimento deve ser mais profundo do que o cognitivo, o intelectual, que envolve também o comportamental por meio de acées coerentes, o doutor sente-se desa- fiado a tomar posigao pessoal, e para continuar em um nivel especu- lativo e tedrico, f, (vs. 29). Jesus, por sua vez, lanca mao de outro recurso didatico, recurso esse que lhe era caro, e conta uma histéria sobre um bom samaritano. No fim dela, sem dar uma conclusao ou liao moral, Ele faz mais uma pergunta: “Qual destes trés te parece ter sido 0 préximo do ho- /-lhe outra pergunta: “Quem é 0 meu préximo?” 62 Ensino no Novo Testamento mem que caiu nas maos dos salteadores?” (vs. 36). Outra vez, 0 doutor acerta, e a ultima palavra de Jesus é um desafio a agao: “Vai, e procede tu de igual modo” (vs. 37). Jesus sempre levava o discipu- lo a reflexao e agao. O Mestre valorizou o “aluno”, deu-lhe espaco para responder perguntas, leyou-o a pensar, refletir ¢ tirar suas préprias conclusdes edesafiou-o a comprometer-se com uma ago coerente com 0 conhe- cimento ea reflexao. Portanto, deu-lhe liberdade para ouvir, entender e responder, ou nao. E as perguntas foram fundamentais no processo pedagdgico-reflexivo-decisério. Em contraste com o intérprete da lei, a pericope que se segue apresenta Maria, “e esta quedava-se assentada aos pés do Senhor a ouvir-lhe os ensinamentos” (Lc 10.39). O Mestre aqui rompe barrei- ras culturais, pois um Rabi nunca ensinaria a qualquer mulher. Um dos mais populares vefculos pedagégicos de Jesus foi a para- bola. Marcos 4.2 diz: “Assim lhes ensinava muitas coisas por pardbo- las, no decorrer do seu doutrinamento” (veja Mt 13.3). A parabola prendia o interesse dos ouvintes, tornava 0 ensino concreto € contex- wualizado, ¢ provocava uma deciséo ou compromisso. Pardbolas constituem 50% do Evangelho de Lucas. Ha pelo menos vinte parabolas em Lucas 9.51-19.28, na jornada de Jesus para Jerusalém. No caminho, Ele ensinava especialmente seus disci- pulos numa tentativa de aprofundar sua compreensao do significado do.verdadeire distipalade: Para este etisitio Elena woul umateoloy gia sistemdatica”, mas seu préprio exemplo ¢ as pardbolas. A parabola levava os discfpulos a pensarem, a refletirem, a se posicionarem. Ela nao trazia respostas prontas, nem impunha compromissos ou deci- sdes. Cada ouvinte tinha que fazer suas préprias identificag6es ¢ aplicagdes, A posigao impossivel era a neutralidade. A parabola for- cava algum posicionamento, o discfpulo é que definia seu compro- misso. O objetivo era de conduzir o discipulo/aluno ao compromis- so de uma vida coerente com suas descobertas, isto é, seus atos € suas palavras estariam em perfeita harmonia com o Reino de Deus. Tal énfase de Jesus no uso criativo das pardbolas chama-nos a atengao para o fato de que a Igreja de hoje nao é artistica. Resta 63 TGRESA ENSTNADORA perguntar: devemos ter hoje nossas prdprias pardbolas, contextua- lizar as de Jesus ou buscar a sua interpretagao? Como método peda- gdgico, cada uma das propostas acima tem o seu espaco no ensino. Portanto, a excessiva preocupagao em repetir a “sa doutrina” nao nos deixa espago para criar novas pardbolas. Logo, até pecas teatrais, literatura de ficgao, romances sao malyistos ¢ desincentivados em nosso meio. Nao se incentiva a “imaginagao” das criangas ou dos jovens. Chega-se a Jerusalém e 0 evangelista relata a paixao e morte de Jesus. Apds sua ressurreigao, Jesus se encontra com dois discipulos no caminho de Ematis. Aquele que durante todo o Evangelho foi o companheiro dos fracos, “se aproximou e ia com eles” (Le 24.15). De acordo com seu estilo didatico, Ele entra dialogicamente no assunto deles e lhes faz vdrias perguntas: “Que é isso que vos preocupa e de que ides tratando 4 medida que caminhais?” (ys. 17). Quando eles quase o repreendem por sua “ignorancia” dos fatos ocorridos, Ele ainda pergunta: “Quais?” (vs. 19). Isto é incrivel. Quem sabia mais dos fatos do que Jesus? Ele foi o ator principal, o sujeito, a vitima! Mas o Mestre deu-lhes espago para contarem sua histéria de tristeza, decep¢ao, confusao e esperanca que falhou. Somente depois de ouvi-los, Ele, “comecgando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (24.27). A exposigao sistematica deixou-os curiosos ¢ interessados. Que- riam mais, e 0 “constrangeram” a ficar. Foi no momento de co- munhao mais pessoal e fntima ao redor da mesa, quando Jesus partiu 0 pao, “ento se lhes abriram os olhos, e o reconheceram” (vs. 31). Imediatamente agiram de acordo com o conhecimento e voltaram a Jerusalém para compartilhar com os demais discipulos. O Evangelho de Lucas termina com uma promessa e uma ordem: “Permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revesti- dos de poder” (24.49), ¢ a ascensao de Jesus, um marco histérico e altamente significativo. O livro de Atos comeca com a ascensio, os 64 Ensino no Novo Testamento discfpulos esperando a promessa e a descida do Espfrito Santo. No livro de Atos encontra-se a continuagao do ministério de Jesus por intermédio da Igreja Primitiva. Os apéstolos seguiram o exemplo de Jesus: pregando, curando ¢ ensinando. O ENSINO APOSTOLICO EM ATOS Na introdugao Lucas faz um elo de ligacao entre seus dois volumes, lembrando os “quarenta dias” entre a ressurrei¢ao ea ascen- sao, quando Jesus estava “falando das coisas concernentes ao reino de Deus” (1.3), 0 contetido principal de seu ensino. Atos narra a continuagio do ministério de Jesus por meio da Igreja. A Igreja Primi- tiva pregava as Boas Noyas do Reino, atendia as necessidades do povo, e também ensinava. A medida que a Igreja crescia em ntime- ro, os novos convertidos recebiam instrugdes e “a doutrina dos apédsto- los” (2.42). A palavra traduzida “doutrina” é didaché (ensino). A Igreja nao vivia na emogao de Pentecoste, mas prosseguia no ensino continuo. A educagao era incumbéncia de pessoas qualificadas, “os apéstolos” que estiveram com Jesus. Eventualmente, 0 ensino apos- tdlico tornou-se parte da Biblia. A evangelizacao e o crescimento da Igreja sao sempre acom- panhados, fundamentados e consolidados pelo ensino. A Igreja Pri- mitiva experimentou crescimento ¢ edificagao em todo sentido (2.47; 5.14; 6.7;9.31; 12.24; 19.20). Esta edificagao visava a uma profun- didade na fé, uma firmeza apesar das persegui¢des, uma acao social eum desenvolvimento da pessoa toda e da Igreja toda. Isto aconteceu por acaso? Nao, porque o livro de Atos, do primeiro versiculo até 0 ultimo, fala da centralidade do ensino. Os freqiientes resumos do evangelista revelam estes dois ministé- rios sempre relacionados ¢ constantes. Por exemplo, Atos 5.42 diz: “E todos os dias, no templo e de casa em casa, nao cessavam de ensi- nar, e de pregar Jesus, o Cristo.” Sugere um ensino continuo, formal e informal. Se, por um lado, o livro de Atos fala da centralidade do ensino, por outro, a acao do Espirito Santo é uma constante em todo o livro, Isto nos faz refletir ¢ invocar sempre a plena atuacao do Esp(- 65 TGREIA ENSIVANORA rito ao ensinar para que, enquanto seus instrumentos, sejamos cri- ativos, perspicazes e objetivos. Ensino cra um ministério integrado e impulsionado pelo Espi- rito na Igreja Primitiva. Em Atos percebe-se 0 desenvolvimento de uma instituigao-modelo, comprometida com a Palavra e coma socie- dade. A Igreja como instituigao cumpre seu papel, atendendo as inadiaveis necessidades de seus membros e da comunidade e envi- ando mestres a todas e quaisquer novas comunidades. Quando Barnabé e Saulo (Paulo) foram mandados & nova igreja em Antioquia, sua tarefa principal entre os discfpulos era ensind-los. Atos 11.26 relata: “E por todo um ano se reuniram naquela Igreja, ¢ ensinaram numerosa multidao.” Este foi o primeiro pastorado de Paulo. O grande apéstolo destacou-se como um mestre cristao. Ele, sem dui- vida, pregava, persuadia e testemunhava. Portanto, na estratégia dele, © ensino ocupava um lugar muito importante. Em Corinto, Paulo “permaneceu um ano ¢ seis meses, ensinan- do entre elesa palavra de Deus” (At 18.11), Em Antioquia ¢ Corinto, o ensino do apéstolo era prioritdrio, demorado e sustentado. A Educagao Crista é um processo demorado e continuo, pois envolve uma transformagao progressiva de pessoas e de igrejas. Encontra-se um exemplo deste processo em Atos 18.24-28. Apolo era um mestre de muito talento ¢ estudo, porém, limitado, Os amigos de Paulo, Priscila e Aquila, ofereceram a Apolo uma instrugao mais profunda e completa para que cle pudesse progredir para um estdgio mais avangado na fé. Este processo continuo nao se encerrou no livro de Atos. O fi- nal deste livro parece ser incompleto. No ultimo versiculo Paulo ainda estava em Roma, “pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum. Ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo.” A cortina se abaixa com o velho apéstolo numa prisao domiciliar, pregando e ensinando. A agao dos verbos esta incompleta ¢ continua. Do comego até o fim de seu ministério, Paulo pregava ensinava, desempenhava o ministério de “pastor e mestre”, seguindo 0 exemplo de Jesus. Com os fundamentos que Jesus e Paulo estabeleceram, ambos com raizes no Antigo Testamen- 66 Ensino no Novo Testamento to, devemos ainda continuar o ensino cristao hoje. O ENSINO PAULINO NAS CARTAS No livro de Atos encontra-se 0 mestre Paulo. Seguindo 0 mo- delo de Jesus, 0 apdstolo dedicou-se ao ensino e viveu 0 que ensi- nou. Por isso, ele dizia aos crentes a imitarem-no (1 Co 4.16; Fp 4.9; 2 Tm 3.9). Vé-se 0 processo apologético de Paulo ao entrar nas sinagogas dos judeus, antes de pregar aos gentios. Em sua pedagogia, Paulo inovou e contextualizou, ao utilizar-se de varias linguagens de comu- nicagéo no ensino. Aos judeus de Jerusalém e arredores usou a lin- guagem do judafsmo rabinico; aos judeus da diaspora, a linguagem da Septuaginta; aos gentios, a linguagem helenistica. O ensino foi feito na cra apostdlica nao apenas pessoalmente, mas também por meio de cartas, As suas comunidades receberam 0 ensino pessoal ¢ 0 ensino epistolar. Em ambos pode-se observar a doutrina e a pratica em interagao saudavel e frutffera numa abor- dagem deliberada, organizada e sisternatizada. Nas Cartas é distinto o seu papel ensinador doutrindrio, sua preocupagao em treinar ¢ determinar um estilo cristao de conduta. Ea fé vivenciada, que Paulo mesmo exortou a que fosse imitado. Podemos usufruir da riqueza dos ensinos do perfodo apostélico eda Igreja Primitiva, e especialmente de Paulo, por causa das Cartas. Aquelas igrejas nao mais existem, nem tampouco aquelas pessoas Portanto, o valor pedagégico das Cartas permanece até hoje. A Epistola aos Romanos é uma apresentagao sistemdtica das grandes doutrinas cristas (capftulos 1-11), e também da aplicagao destas doutrinas na vida pratica (capitulos 12-16). Desta carta percebe-se que o ensino neotestamentario é deliberado, organ do esistematico. Notam-se também seus aspectos doutrindrios, ou seja, a teoria, juntamente com os aspectos praticos, ou seja, a aplicagao. Ambas, doutrina ¢ aplicagao, sao essenciais no ensino do cristao. Paulo escreveu aos Romanos, cuja comunidade nao havia visi- tado ainda, e aos Corintios, cuja Igreja ele fundou. Em Corinto, ele se dedicou ao ensino por um ano e meio. Apés a sua partida, surgi- 67 TGREJA EASIVADORA ram alguns problemas e muitas perguntas na Igreja, e Paulo escre- veu-lhes para confrontar os problemas e responder as perguntas. Descobre-se, portanto, a natureza histérica ou contextualizada do ensino cristio. O Mestre trata dos problemas atuais no contexto ¢ responde as questdes relevantes ¢ urgentes, O ensino do apéstolo Paulo evidentemente foi altamente contextualizado ¢ problema- tizador. Tanto que, ao surgirem novas circunstancias e problemas, ele escreve nova carta. Peter Wagner, em um estudo sobre a primeira carta aos Corin- tios, propds uma chave hermenéutica em que estuda o livro “pro- blema por problema”; a chave é: problema, princfpio, solugao. O que é “absoluto” e deve permanecer até hoje é 0 principio, e nao ne- cessariamente a solugao ou aplicagao especifica naquela situagio.” Uma das perguntas dos Corintios referia-se ao assunto de dons espirituais na Igreja. Em 1 Corfntios 12.28, Paulo enumera alguns dos dons ou ministérios principais. “A uns estabeleceu Deus na Igreja, primeiramente apéstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro lugar mestres...” Este versfculo, juntamente com outros (12.7,11; Ef 4.12), nos deixa claro que todos os membros do Corpo de Cristo possuem dons e ministérios, e que o unico doador é Deus. Nas listas de dons e ministérios em Romanos 12.6-8 e 1 Corin- tios 12.8-10 ¢ 28, eles sao sugestivos e contextualizados, por isso, podemos acrescentar outros com critérios biblico-teoldgicos. De acordo com a teologia dos dons e ministérios desenvolvida nas Cartas, é possfvel propor paradigmas para a Educagao Crista. Ela tem funda- mentos biblicos quando visa a treinar, preparar, equipar, guiar, moti- var ¢ apoiar a fé crista vivenciada ou um estilo cristao de vida. Necessério se faz que cada cristao descubra seus dons especificos e receba treinamento e orientacao para o uso correto deles, Contu- do, falar sobre dons hoje é um problema quando os mesmos nao s40 acompanhados de objetivos globais de edificagao e mudanga de com- portamento no povo de Deus. A Igreja precisa fazer ligagao entre os 2. WAGNER, C. Peter. Se Nao Tiver Amor... 2.8 Ed. Tad. Hans Udo Funchs. Curitiba: Luz e Vida, 1987. pp. 28-30. 68 Ensino no Novo Testamento dons e os ministérios. Alguém exerce um ministério na Igreja por- que tem o chamado de Deus, o dom, e a Igreja lhe dé a oportuni- dade para usd-lo. Nas Cartas do apéstolo Paulo, teologia é 0 embasamento de ministérios que edificam a Igreja e de ética regulativa que orienta o “andar” cristéo. Em Efésios 4.1 0 mestre roga “que andeis de modo digno da vocagao”, Depois, nos versiculos 1-16, ele expde 0 processo de edificagao pelo desenvolvimento dos ministérios. Em Efésios 4.11 encontram-se algumas das pessoas do “corpo docente” que equipa e treina Os outros para os ministérios, ou seja, para uma vivéncia que leve 4 edificagao do todo. A partir do versiculo 17 ele fala da ética crista, usando a palavra “andar” como metéfora-chave (5.2,8,15). Um cuidadoso estudo das Cartas Paulinas escritas aos cristaos do primeiro século revela que, se o ensino é um fim em si, perde sua forga e vitalidade. Porém, quando é um processo integral € ativo no desenvolvimento de ministérios ¢ fé vivenciada, pela dinamica do Espirito Santo, os resultados sao vida e crescimento na Igreja. Nas Cartas que Paulo escreveu ao seu discipulo Timédteo, vé-se como 0 mestre cristao era importante. Paulo deu muitas instrugdes a Timéteo. Entre elas esta: “E necessdrio, portanto, que o bispo scja... apto para ensinar” (1 ‘Tm 3.2). No tempo de Timéteo, como hoje, uma das qualificagées dos oficiais da Igreja é que saibam ensinar. E além de ensinar era importante treinar a lideranca: “E 0 que de minha parte ouviste... isso mesmo transmite a homens fiéis e tam- bém idéneos para instruir a outros” (2 Tm 2.2). Ao jovem ministro Paulo exorta: “...ensina estas coisas... apli- ca-te & leitura, A exortag3o, ao ensino” (1 Tm 4.11,13). O Mestre destaca a suprema importancia do estudo, do ensino, da “boa dou- trina” ¢ das Escrituras, pois “Toda Escritura ¢ inspirada por Deus ¢ util para o ensino, para a repreensao, para a correcao, para a educa- a0 na justica” (2'Tm 3.16). CONCLUSAO Ao analisar 0 ensino e a metodologia de Jesus, dos apéstolos e da Igreja Primitiva, e de Paulo, é importante notar que a forga de 69 TGREIA ENSENADORA todo 0 ensino neotestamentario, sem dtivida nenhuma, é a fé viven- ciada. O exemplo a ser seguido pelo discipulando é fundamental. Neste particular, a vida do mestre precisa ter a transparéncia que seu ensino requer, ¢ af est4 o segredo do sucesso. Fica evidente, portanto, nas Escrituras Hebraicas e também no préprio Novo ‘Testamento, em todas as suas partes, que o ensino é fundamental e central. As bases ¢ as diretrizes biblicas para a Educagao Crista sao contundentes. Sao destacadas nesta parte as trés divisdes de ensino que podem ser encontradas no Novo Testamento: Nos méto- dos de ensino de Jesus, o exemplo para os mestres, com sua pedagogia de agao precedendo palavras, o que levava scus discipulos a reflexao. Nos Evangelhos, o ministério de ensino conforme a Igreja Primitiva, ¢ sua continuidade da propagacao das Boas Novas, atendendo ao necessitado no processo. Finalmente, no empenho ensinador doutrindrio de Paulo, nas Cartas, com sua preocupacio em treinar ¢ deter- minar um estilo cristao de conduta. Ea fé vivenciada, a exortacéo para que seja por todos imitada — inclusive pelos educadores cristaos dos dias de hoje! Ensino na Historia da Igreja aQ*% Ensino na Hist6ria da Igreja A Igreja levou a sério a ordem de Cristo: “Fazei discfpulos.” O livro de Atos, que conta a histéria da Igreja de 30-60 D.C., é um relato emocionante do crescimento da Igreja “em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, ¢ até aos confins da terra” (1.8). Sem duivida, aquela Igreja era uma Igreja Ensinadora. Eela tem sido fiel no ensino através dos séculos, ¢ até ao dia de hoje? Neste capitulo trata-se dos altos ¢ baixos no ministério de ensi- no durante varios perfodos da histéria da Igreja. ERA DE CRESCIMENTO (33-311) Ja falou-se no capitulo anterior sobre o lugar central do ensino no livro de Atos. A Igreja Primitiva cresceu rapidamente nao apenas em ntimero, mas também em maturidade. Ela cresceu porque a Pala- vra estava sendo pregada, e também amadureceu espiritualmente, porque foi dada muita importancia ao ensino. Os discfpulos “perseve- ravam na doutrina dos apéstolos” (2.42) e ensinavam “todos os dias, no templo e de casa em casa” (5.42). Havia um ministério distinto na Igreja Primitiva, o do chama- do “mestre” (diddskalos). Fala-se de “profetas e mestres” na Igreja de Antioquia (At 13.1). A lideranga nesse periodo consistia em apésto- 73 TGREIA EASTVADORA los, profetas e mestres. Depois, elegeram bispos, presbiteros e didconos. Estes deveriam ser “aptos para ensinar”. Parece que foram tais Iideres que assumiram a fungao didatica na Igreja Primitiva. O apéstolo Paulo preocupou-se com a formacao e treinamento de li- deres “fidis e também idéneos para instruir a outros” (2 ‘Im 2.2). A primeira época da histéria da Igreja foi uma ERA DE CRES- CIMENTO. Esta época durou aproximadamente 300 anos. Um documento do primeiro século ou inicio do século II, que servia de instrugao moral ¢ doutrindria, era a Didaché. Um grande destaque na Didaché era dado 4 vida pratica, ou seja, a ética crista. Seguindo 0 exemplo de Cristo e dos apéstolos, surgiram os grandes mestres na Igreja, como Clemente de Alexandria, Irineu, Tertuliano, Origenes. A Igreja enfrentou perseguicées de fora e here- sias de dentro. E quem sistematizaya e defendia a doutrina crista eram os grandes mestres. Durante os trés primeiros séculos, enquanto os grandes mestres instrufam a Igreja, muitos gentios se converteram ao cristianismo. A Igreja achou necessdrio um perfodo de preparo e de prova, ou seja, um perfodo de “catecumenato”, por meio de um programa de educagao dos neo-convertidos antes do batismo. Por isso, foram cri- adas as escolas de catectimenos. A duragao da instrucao era de trés anos. Na Igreja Primitiva havia muita preocupagao em se instruir 0 candidato ao batismo. Os primeiros cristaos, portanto, recebiam um profundo estudo antes do batismo. Naquele perfodo havia muita énfase dada ao Credo dos Apés- tolos como instrumento pedagégico, uma simples apresentagao e resumo da fé. A escola catequética de Alexandria, sob Clemente (150-215) e seu sucessor, Origenes (185-254), comecou a formular uma “paidéia crista”' com os ensinos do cristianismo nos termos da filosofia e a cultura gregas. Esta escola catequética enfatizou a importancia da 1. Paidéia ¢ uma palavra grega que tem como raiz pats, que significa “crianga”. Paidgia, entretanto, tefere-se 3 io da crianga. No sentido mais amplo, 08 gregos entendiam paidéia como processo total de desenvolvimento € crescimento. Talvez a melhor tradugio fosse “educagao”, como se vé em 2 ‘Timéreo 3.16. Era um conceito 74 Ensino na Histéria da Igreja doutrina, ou seja, o aspecto cognitivo da fé. Pode-se concluir que, durante a Era de Crescimento, 0 ensino continuou a ser muito importante na Igreja. Nos trés primeiros séculos vigorava uma forte Educacéo Crista. Mas os anos foram passando, o cristianismo foi declarado religiao oficial pelo Imperador Constantino e, em seguida, houve a Idade Média. ERA MEDIEVAL (311-1500) Ao comegar a Idade Média, 0 triunfo absoluto do cristianismo sobre todas as religiGes rivais estava quase consumado. O edito de tolerAncia do Imperador Galério (311) importava j4 numa confissao de que a fé crista era demasiadamente forte para ser climinada pela perseguicao. Sendo o cristianismo a religiao oficial, todos os membros do Império foram batizados em massa e tornaram-se “cristaos”. A Igre- ja que estava no Império e por cle perseguida virou a Igreja do Im- pério e por ele privilegiada. Toda a pompa e ceriménia da corte entrou na Igreja. Em tal perfodo também houve um aumento na urbanizagao e uma decadéncia geral dos costumes Na Era Medieval os clérigos (padres ou sacerdotes) nao rece- as grandes massas que seriam batizadas biam, nem davam instru¢ e que assistiam as suas missas, € os pais normalmente nao recebiam, nem davam orientagao aos seus filhos. Parecia que a Igreja havia ido muito, mas, na realidade, o crescimento era mais uma parti- cipagao nominal. Durante a Era Medieval, havia grandes dificuldades eaté negligéncia do ensino. Em conseqiiéncia, alastrou-se a ignoran- cia e surgiram muitas praticas erradas, ¢ até sincretismos. cre! Desde a antiguidade e durante a Idade Média, 0 oficio docente na Igreja Catdlica Romana era conhecido como 0 magisterium. O titulo magister era concedido primeiramente aos lideres, e, mais tarde, especificamente aos docentes e, finalmente, a hierarquia da Igreja. O ensino muito cedo veio a ter uma centralizagao na autoridade do importante na cultura grega ¢ a palavra ocorre com freqiiéncia no N'I: (Veja o artigo de Bertram sobre o verbete no Theological Dictionary of the New Testament. Vol V, pp. 596- 625.) TORE ENSIVADONA bispo, e, de maneira especial, do bispo de Roma. Esta centralizacao permitiu influéncias polfticas ¢ afastou o ensino dos leigos. A autori- dade papal retinha infalibilidade no ensino. Os Colégios de Bispos, ou Concilios, também tinham certa autoridade no ensino ¢ estabele- ne importantes doutrinas cristas sobre a trindade e a pessoa de Cristo. Uma das provas da atividade docente nesse perfodo é 0 fato do surgimento de sérias controvérsias doutrindrias. Arianos e nestoria- nos combatiam a doutrina ortodoxa da trindade. Gnésticos e mani- queus acentuavam o cardter emotivo do cristianismo. Essa intensa atividade “docente” exigia do magisterium uma definigao sobre o corpo da doutrina crista para a identificacao das crengas heréticas. ; Durante esta época, entretanto, existiam lugares onde havia mais autonomia e menos influéncia hierdrquica na instrugao crista As universidades medievais possuiam certa autoridade e influéncia pedagégica. Em contraste com a autoridade dos bispos, a autoridade dos tedlogos era o magisterium cathedrae magistralis. As universidades com seus tedlogos tiveram um papel importante na definicao de ortodoxia. Por outro lado, algumas pessoas, declarando que a Igreja se tornava cada vez mais mundana, separaram-se para viver uma vida de rentincia. Elas viviam nas escolas mondsticas, ou nos mosteitos, ¢ Os monges eram os professores. As Escrituras ali foram preservadas e copiadas. Devemos a essas escolas a presetvagao da cultura secular e religiosa. A existéncia dessas escolas foi um dos pontos mais positivos do ensino nesta época. Quando nao hd ensino adequado, quando 0 povo nao estuda as Escrituras, a Igreja facilmente cai na ignorancia espiritual. A Era Medieval foi a época em que a Educacio Crista foi mais negligen- ciada. Por isso, em alguns sentidos foi uma época de decadéncia. __ Havia possibilidade para a Igreja voltar a gozar das béngaos da Era de Crescimento, caracterizada pelos mestres ¢ pelas escolas de catectimenos? 76 Ensino na Histéria da Igreja ERA DOS REFORMADORES (1500-1780) No século XVI, Deus novamente levantou grandes mestres que queriam corrigir os erros prevalecentes na Igreja, e de novo instruir o povo nas Escrituras. Estes homens foram os Reformadores, assim, a terceira época €éa ERA DOS REFORMADORES. Os Reformadores abriram um debate sobre a autoridade docente e rejeitaram a autoridade do magisterium, da monarquia papal, argu- mentando que ela havia usurpado prerrogativas que pertenciam so- mente a Cristo. Um dos grandes reformadores foi Martinho Lutero. Ele desa- fiou as estruturas e autoridades docentes do Papado, e, por isso, eventualmente, foi excomungado. Quando esse monge agostinho completou seu doutorado em teologia em 1512, ¢ recebeu os titulos de “mestre” e “pregador”, ele tornou-se professor das Sagradas Es- crituras, dando aulas sobre os Salmos e, depois, sobre Romanos. Foi ali que redescobriu Romanos 1.17: “O justo viverd por 6.” Depois de seu novo entendimento da fé crista, Lutero comegou a bater numa tecla, o despreparo e relaxamento dos clérigos. Eles que tinham a responsabilidade de nutrir 0 rebanho, nao o estavam fazendo. Dessa critica € preocupagao com a vida espiritual dos cris- taos, o préximo passo foi a condenagao da venda de indulgéncias. A esta altura, Lutero insistia na autoridade das Escrituras, dos Concilios, dos Pais da Igreja e do Papa. Logo, para ele, o Papa nao possuia absoluta autoridade docente, ¢ nem Papa, nem Concilios podiam definir artigos de fé que contradiziam os ensinamentos da Biblia. Surgiu, entretanto, a prioridade das Escrituras, sola scriptura, como fundamento da Reforma, Conseqiientemente, um grande dese- jo de Lutero era que cada cristao tivesse a Biblia na sua propria lingua. Daf, outro passo no programa de Educagao Crista na Reforma foi a tradugao da Biblia para o alemao. Com esta tradugao, a Biblia foi redescoberta pelo povo como foi por Lutero nos seus estudos como professor. A imprensa ajudou muito nesse projeto. Outra contribuigio do ex-monge agostiniano Martinho Lutero na ERA DOS REFORMADORES foi a preparagao de dois catecis- WORE EXSTVADORA mos (no ano 1528 para criancas e em 1529 para adultos, clérigos e catequistas).* Os catecismos, seguindo a metodologia escoléstica® continham perguntas e respostas que orientavam o povo no estudo da Biblia, os pastores no preparo de seus sermdes e as criangas na aprendizagem da fé crista. A grande diferenca entre a Era Medieval ea Era dos Reformadores era que 0 povo agora ouvia e estudava a Biblia. Havia mais outro grandioso mestre reformador que deu gran- de impulso 4 Educagio Crista. Foi o francés, Joao Calvino. Ele se dedicou ao estudo e as obras literdrias. Seu alvo era de estudar as crituras a fim de escrever sobre a nova fé. “Portanto, seu principal projeto era um breve resumo da fé crista do ponto de vista protes- tante” (Gonzalez, v. 6.110). Calvino deu um passo de imensa significagao para ajudar os cristaos a compreenderem melhor as Escrituras e a doutrina biblica. O titulo que ele deu ao seu breve manual era Institutas da Religiao Crista, A primeira edigao saiu em 1536 com 516 paginas em formato pequeno. O sucesso foi assombroso e ele foi constantemente revisa- do ¢ aumentado até 0 texto definitivo sair em 1559, uma obra mo- numental, a sistematizacao da teologia protestante em quatro livros € oitenta capitulos. Houve constante desenvolvimento no pensa- 2. Catecismos foram produzidos antes, mas houve uma explosdo na produgio a partir da Reforma. Depois de Luteto, muitos pastofes luteranos escreveram 0 seu. Depois vem os de Calvino, o de Heidelberg c, finalmente, os dois da Assembléia de Westminster. Serviram de papel histérico importantissimo, portanto, talyez hoje em dia precisemos buscar outros instrumentos pedagdgicos ou atualizar o catecismo, como acaba de faret a Igreja Carslica Romana. Veja 0 artigo sobre “Catecismos” por D. F. Wright em Enciclopé- i ico-Teolégica da Igreja Crista Vida Nova, 1990), vol I, pp. 249-252. 3, Excolasticismo era uma tendéncia filosdfica, teolégica ¢ metodoldgica que foi desenvolvida durante 0 periodo medieval. Esta abordagem insistia num sistema claro definitivo, ou seja, uma sintese de idéias ou doutrina. Havia grande influéncia dos sistemas de logica derivados dos gregos (especialmente Aristétoles) e romanos € muita confianca na tazao humana. Apés a sistematizacao, exigia-se uma pura memorizagao do conjunto de dogmas. Tomas de Aquino, na sua Suma Teolégica usou 0 método com brilho e alcangou © apogewr do pensamento escoldstico. No século XV 0 escolasticismo perdeu sua Popularidade, mas foi reavivado no século XVI. Embora Lutero e Calvino censurassem 0 escolasticismo medieval, eles usavam alguns de seus métodos ¢ utilizaram a razio como apropriado meio para desenvolver sua teologia. (Veja os artigos de T. J. German sobre “Escolasticismo” e de R. J. Vandermolen sobre “Escolasticismo Protestante” em Enciclo- Pédia Histérico-Teolégica da Igreja Crista [SP: Vida Nova, 1990], vol II, pp. 41-45.) 78 Ensino na Historia da Igreja mento do Reformador e mudangas de énfases e estrutura nesse pro- cesso de revis6es, marca de um bom educador, e o desenvolvimento de uma teologia verdadeiramente reformada e reformando-se. Calvino era um grande mestre. Com inten¢gao claramente peda- gogica ele escrevia e revisava as /nstitutas. Enquanto lecionava exegese numa faculdade, Calvino também escreveu comentarios sobre quase todos 0s livros da Biblia. Foi também 0 autor de dois catecismos ¢ opinava sobre a instru- cao catequética (Institutas. 4.19.4,13). Para ele essa instrugao servia para manter uniao dentro e entre as igrejas, para preservar a doutri- na ¢ para ajudar as criangas batizadas a apropriarem pessoalmente a fé crista. Era, portanto, a responsabilidade dos pais ensinarem 0 ca- tecismo aos filhos, O ministro também daya aulas de catecismo as criangas. Ele deu muita énfase a essa atividade no seu projeto de reforma em Genebra. De pleno acordo com Lutero sobre a suprema autoridade das Escrituras, Calvino identificou trés formas da autoridade ou poder da Igreja. “Esse [poder], porém, consiste em doutrina, ou em juris- digo, ou em formular leis. O ponto quanto a ola duas partes: a autoridade de estabelecer dogmas e sua explicacao. Esta autoridade, portanto, é derivada de Deus ¢ falivel. Nas Institutas, fica bem claro que, para Calvino, uma das fungoes priori- tarias, se nao a principal, da Igreja é a pedagdgica. Falaremos mais sobre isto no fim deste capitulo. Calvino tinha uma visio e paixao educacionais muito grandes © uma aguda sensibilidade sociocultural. Percebeu os reclamos da sociedade e da Igreja no seu momento histérico, inclusive a grande necessidade de instituicGes e estruturas educacionais para a populagao em geral (ele propés escola publica e gratis para as criangas pobtes) e para a Igreja. Por isso, nos tiltimos anos do seu ministério, ele fundou a Academia de Genebra. O currfculo continha o melhor da tad. de Waldyr Carvalho Luz. SP: CEP, 1989, 4, CALVINO, Joao. Institutas. Sees Vol. IV; p. 133. Ele discute cada um desses 3 aspectos do poder da Igre dos figis no Livro IV, cap. 8-12. 79 TOKEN EVSIVADORS educagao humanistica, juntamente com os princfpios calvinistas. Os doutores-mestres da escola eram considerados representantes da Igreja. O discfpulo de Calvino na Escécia, Joao Knox, reformou o ensino secular de seu pais com o lema: “Uma escola em cada paré- quia” ¢ “Um mestre ao lado de cada pastor”. ERA MODERNA (1780-1980) Esta era comegou em 1780 na cidade de Gloucester, Ingla- terra, quando Robert Raikes, um decidido jornalista e homem de negécios, iniciou um movimento que mudaria o sistema de Educacao Crista dentro da Igreja, o que resultou na Escola Dominical. Raikes tinha uma grande preocupac¢ao com os problemas sociais, especialmente os grandes barcos-prisoes ancorados no porto de Glou- cester, os grupos de delingiientes juvenis. Certo dia, ao chegar em casa apds 0 culto, ele reclamava dos problemas, e uma senhora o in- terrompeu e disse que os problemas existiam porque, “quando crian- gas, foram ignorantes, pobres ¢ sem instrugao” (Brasil Presbiteriano, set. de 1985:8). Raikes entao perguntou por que nao iam as escolas existentes, cela lhe respondeu: “Porque eles trabalham em fabricas num regime de 12 horas por dia, durante os seis dias da semana.” Nasceu-lhe a visao de abrir uma Escola Dominical, usando a Biblia como texto central para alfabetizar os delinqiientes, e lares como salas de aula. Em pouco tempo, eles tinham 77 rapazes ¢ 88 mogas. Raikes exigiu limpeza ¢ higiene pessoal ¢ freqiiéncia assfdua aos cultos. Chegou a fundar doze escolas. O objetivo de Raikes era “de ensinar as criangas a ler as Escritu- ras, a aprender por si mesmas a Palavra de Deus, a identificar-se com a Igreja, visto que os jovens da sua geragao, apesar de viverem num pais cristao, eram tao pagaos como os do mundo pagio” (Bra- sil Presbiteriano, set. de 1985:9). i Trés anos depois, John Wesley visitou uma das Escolas Domini- cais, viu as varias classes, pensou e disse: “Quem sabe se estas escolas ainda nao virao a transformar-se em escolas para cristaos?!” Raikes 80 Ensino na Historia da Igreja publicou a idéia no seu jornal, ¢ o movimento cresceu por toda a In- glaterra, Em 1788 havia em torno de 250 mil alunos matriculados s6 na Inglaterra. O movimento encontrou certa oposicao por parte das igrejas, mas, no fim, Robert Raikes foi reconhecido ¢ elogiado pela Rainha. A Escola Dominical, que comegou para educar ¢ alfabetizar meninos de rua, cumpriu seu papel histérico quando o Parlamento da Inglaterra libertou as criangas das fabricas e tornou a educagao gratuita para todos. Desde sua fundagao, ha mais de duzentos anos, o movimento da Escola Dominical tem exercido uma enorme influéncia sobre o ministério educacional de igrejas protestantes. Surgiram classes tam- bém para adultos, Expandiu-se paraa América e dominou 0 desenvol- vimento da Educagao Crista nos Estados Unidos e, trazida para o Brasil pelos primeiros missiondrios, também floresceu e manteve as mesmas caracteristicas de sua origem. Carl Hahn, em Histéria do Culto Protestante no Brasil, mostra como 0 escocés Dr. Robert Reid Kalley ¢ sua esposa Sarah, estabe- leceram a primeira Igreja protestante permanente no Brasil. A Sra. Kalley foi lider no movimento da Escola Dominical na Inglaterra ¢ a introduziu no Brasil no dia 19 de agosto de 1855. Hahn diz: “A Sra. Kalley deu inicio a primeira Escola Dominical permanente no Brasil, ¢ tao forte foi a sua influéncia sobre os anos formativos do trabalho fundado pelo casal Kalley que, quando a Igreja fundada por Kalley celebrou seus setenta ¢ cinco anos de organizagao, as comemoragées foram feitas pelo aniversdrio de fundagao da Escola Dominical” (138). Até hoje, em nossas igrejas, a Escola Dominical tem tido 0 pa- pel principal na Educagao Crista, ¢ uma agéncia educacional que abrange membros da Igreja de todas as idades. E a marca da ERA MODERNA. O modelo tradicional da Escola Dominical ¢ de ensino em classes normalmente no periodo matinal aos domingos por profes- sores voluntarios. Hoje em dia, no Brasil, muitas das escolas domini- cais est4o passando por um momento de crise de identidade ¢ de 81 TGREIA ESINADORA questionamentos. A freqiiéncia e o interesse tem diminufdo. Ha muitas mudangas culturais e sociolégicas ocorrendo no pais. Sera que a Escola Dominical tem o mesmo papel relevante de décadas atrds? Com 0 decorrer dos anos, a Escola Dominical e 0 mi- nistério educacional tornaram-se um departamento a mais da Igreja? Perderam sua finalidade util ¢ 0 seu sentido de ser por estarem sendo renegados & condigao de um simples ministério complementar. Qual éa rela do entre o ensino ea vida total da Igreja? A Escola Dominical precisaria estar mais integrada as atividades da Igreja. Deve estar comprometida com a problematica do dia-a-dia. Deve ser dinamica ao ponto de desafiar, convocar para um viver cristao ¢ nao to somen- te a pratica da religiao. Para qué a Escola Dominical? E realmente uma escola? ; Ela é uma agéncia educacional ultrapassada que ja teve sua uti- lidade € tempo? Quais sao seus problemas principais? Curriculo? Métodos? Estrutura? E preciso substicuf-la ou mudé4-la? Como? Quais NOVO PARADIGMA PARA A ESCOLA DOMINICAL Treinar Eqipar: + Fé Vivenciada Guiar * Fé em Acao Motivar ers Apoiar * Estilo Cristéo de Vida Ensinar MINISTERIOS ETICA Louvor Pessoal Intercessao Social Evangelizacao Familia Missoes Estudos Diaconia Profissao Ensino Economia Lideranga Politica ee ee EDIFICAGAO DO CORPO sao as opgdes? Quais sao alguns novos modelos ou paradigmas? No seu livro £7 Reino de Dios y el Ministerio Educativo de la 82 Ensino na Historia da lgreja Iglesia, Daniel S. Schipani apresenta um desafio quando aborda os seguintes problemas com a Educagao Crista na América Latina: se- gue os modelos da educagéo “bancdria”; usa materiais € métodos estrangeiros; falta curriculo; falta contextualiza¢ga0; a Escola Domi- nical esta “desconectada” ou separada da vida total da Igreja; os objetivos so somente “espirituais” ¢ “internos”, ou seja, dentro das paredes da Igreja: a administragao € hierdrquica ¢ os métodos sao ultrapassados. Até que ponto cada um desses problemas se torna uma realidade em nossa Escola Dominical e em nosso programa educacional? ERA CONTEMPORANEA (1980-) Apés ter refletido sobre o ministério docente de Jesus e da Igreja primitiva, medieval, reformada ¢ moderna, que se pode dizer a respei- to do ministério educacional na Igreja hoje? Para onde vai o ensino? Onde se encontram diretrizes? Quem é responsvel pelo ministério docente da Igreja contemporanea? Qual ¢ sua importancia e sua fungao? A Importancia do Ensino Mesmo quea Escola Dominical venhaa falir, nao se pode aban- donar o ensino. O ministério educativo da Igreja faz parte da sua es- séncia, Sem ensino a Igreja nao seria a Igreja. Por meio deste minis: tério essencial, os membros das igrejas adquirem conhecimentos biblicos e doutrindrios, crescem na vida crista, comprometem-se com uma ética crista pessoal e social, e descobrem ¢ desenvolvem seus dons e ministérios. O ministério docente fica a servigo de todos os outros ministérios da Igreja: miss6es, evangelizagao, diaconia, adora- cao e comunhio. Por meio do ensino, a Igreja combate as intimeras seitas ¢ ideologias que se multiplicam dia a dia e ameagam a “sa doutrina”. A Auséncia do Ensino Quando 0 ministério de ensino nao é deliberado ¢ sistematico, quando ¢ fraco ou ausente, os resultados sao desastrosos. Em muitas de nossas igrejas hoje, mesmo no meio de ativismo e tradicionalismo, ou na experiéncia de novas formulas litirgicas ou pedagégicas, carece- 83 TARE) ENSIVADORA mos do verdadeiro e efetivo ensino que transforma ¢ edifica. Encon- tram-se poucos com uma clara visio educacional. O ensino nao tem um lugar central na Igreja hoje. Um professor de Educagao Crista num semindrio presbiteriano nos Estados Unidos, Dr. Richard Robert Osmer, escreveu um livro com 0 titulo: A Teachable Spirit: Recovering the Teaching Office in the Church (Um Espirito Ensinavel: Recuperando 0 Oficio Docente na Igreja). Sua tese ou diagndstico é a seguinte: as igrejas hoje estao em crise porque 0 ministério ou o oficio docente est4 muito enfraquecido ou quase ausente em muitas delas ¢ precisa ser recuperado com urgéncia. A proposta de solucio éa redescoberta do ministério docente que foi desenvolvido pelos Reformadores. Osmer usa a expressao “the teaching office”, ou seja, 0 oficio ou ministério docente, para referir-se ao ministério de ensino como fungao da Igreja e também para designar as instituicées, estruturas ou processos pelos quais a Igreja realiza este ministério. A Recuperacao do Ensino Ele vé duas grandes ameacas enfrentadas pelo ministério de ensino no Protestantismo Norte-Americano: um moderno individua- lismo nas igrejas mais liberais e um contra-moderno autoritarismo nas igrejas mais diretamente conservadoras. Podemos acrescentar ao individualismo o excesso de liberdade que resulta em anarquia, 0 relativismo que perde referenciais ¢ a secularizagao que nega a presen- ade Deus. O tinico absoluto é 0 individuo, o egoismo € 0 narcisismo tomam conta. O fim justifica os meios, Bens materiais ¢ prazeres sdo mais importantes do que pessoas. Adora-se a si mesmo, encontra- se todos os recursos dentro de si, € usa-se 0 préximo como objeto de consumo. O individualismo é muito perigoso e predominante. Junta- sea ele um pantefsmo, onde as energias do universo s4o impessoais, Por causa destas tendéncias associadas com o individualismo, é urgen- te a recuperacao do ensino. * Portanto, o autoritarismo é igualmente ameagador. Também falta amor ao préximo e respeito pela dignidade de todos. Predomi- nam demagogos, dogmaticos, doutrinadores. H4 muita critica, bem pouco amor. Ditaduras negam o amor de Deus ea liberdade humana. 84 Ensino na Historia da Igreja Impéem condutas e dogmas, geram legalismo e hipocrisia. Oo autori- tarismo tem marcado presenga em nossas sociedades latino-americ - nas e em nossas igrejas. Eas vezes as igrejas sao as tiltimas a libertarem- se do autoritarismo. Neste momento realmente critico, quando as préprias estruturas da familia, da Igreja ¢ da sociedade estao ameagadas, numa era pos- moderna, para onde busca-se orientagao? Num mundo de mudangas tao rapidas € radicais, como a Igreja deve prosseguir? Osmer propde uma terceira opgao: uma redescoberta do minis- tério docente que foi desenvolvido pelos Reformadores, ou seja, uma compreensao e uma revitalizagao da autoridade docente sera auton tarismo. E um resgate de nossas rafzes reformadas, uma andlise critica do passado, para encontrar algo que nos propulsiona para um novo futuro. Para efetuar sua proposta, Osmer destaca duas importantes di- mens6es: (1) uma piedade caracterizada por um “espirito aberto ao ensino”, uma expressao utilizada por Joao Calvino, e (2) estruturas institucionais que promovam o ensino (47). Esta segunda dimen- sao tem muita influéncia sobre a primeira. Logicamente, para haver uma interacao entre a primeira ea segunda, é mister que a lideranga tenha o primeiro componente. Este espirito de piedade esta relacio- nado principalmente com atitudes e disposigoes. As estruturas, por outro lado, incluem seminarios, agéncias denominacionais € 0 pro- grama educacional da Igreja local. Entretanto, agora queremos fazer uma reflexao sobre © que Calvino denomina o “espirito brando ou décil”,’ ou seja, 0 espirito receptivo e disposto para aprender. Utilizam-se as idéias de Osmer ¢ os ensinos de Calvino. Calvino e o Espirito Receptivo Que quer dizer “espirito aberto ao ensino”? Para Calvino, ° espirito décil e receptivo é um elemento fundamental da piedade 5. Dr. Waldyr Carvalho Luz na sua tradugao das Instituras (SP: CEP, 1989) na nota 167 do Cap. 1 do Livro IV diz, que docilis literalmente significa ensindvel; capaz de ser ensinados pronto a deixar-se ensinar. 85 TGHEJA BNSIVADORA ou espiritualidade crista. A disposigao do falfvel e limitado ser hu- mano perante o transcendente e soberano Deus hd de ser receptiva. S6 na mudanga de vida efetuada pelo Espirito Santo de Deus, a pessoa é capaz de aprender. Por isto, 0 cristao deve sempre ler ¢ ouvir a Biblia lida e pregada com humildade e abertura ao ensino. Converter-se é dispor-se a receber 0 ensino. Este processo continua durante toda a vida do cristéo, como Paulo indica em Efésios 4.20,21, quando diz: “Mas nao foi assim que aprendestes a Cristo, se € que de fato o tendes ouvido, e nele fostes instrufdos, segundo é a verdade em Jesus. O espitito do cristao sempre ha de ser receptivo ao ensino. O espirito décil deve existir no educador e no educando. A amabilidade do educador propicia uma disposicao no educando para assimilar o ensino, Por outro lado, é necessdrio que haja da parte do educando o espirito décil para a receptividade. Nas Jnstitutas, Calvino mostra claramente que o ministro € orde- nado a fim de ensinar ¢ pregar a Palavra de Deus e quea Igreja Visi- vel tem uma fungao pedagdgica (Livro IV, cap. 1,5). Por isto, tanto © arauto quanto os ouvintes devem possuir um “espfrito brando e décil”, Calvino emprega a palavra latina, docilis que significa “a dis- posigao de pessoas que sao aptas a aprender e especialmente atentas a instrugao” (Osmer: 54). Os cristaos, de acordo com Calvino, devem ter uma atitude de receptividade para com Deus ¢ as Sagradas Escrituras. Mas 0 racio- cinio do Reformador nao para por aqui. Também os membros da Igreja devem estar prontos a se deixar ensinar frente aos ministros, tedlogos toda autoridade docente da Igreja, nado porque sao infalf- veis, mas devido a autoridade de sua fungao ou officio. Pode-se discor- dar e dialogar com eles, mas estando sempre aberto para aprender. Comentando 0 ministério eclesidstico no ensino da Escritura no Livro IV das Jnstitutas, ele mostra os beneficios de tal piedade que é ensindvel em relacdo aos ministros ordenados. Ele assim se ex- pressa: 86 Ensino na Historia da Igreja Entrementes, se aos ministros, a quem Deus [lhe] poe a frente, docil cada um se ofereca, do fruto reconhecerd a Deus néio im- proficuamente haver aprazido este modo de ensinar, nem im- proficuamente haver também sido aos fitis imposto este jugo de moderagao (v. 4:9). Ele ainda diz: Otimo e utilissimo exercicio a humildade é este, enquanto nos acostuma a obedecer-lhe 2 Palavra, conquanto seja [ela] prega- da mediante homens semelhantes a nés, por vezes até inferiores em dignidade... Quando, porém, um homenzinho qualquer surgido do pé fala em nome de Deus, aqui, de mui excelente testemunho declaramos nossa piedade e deferéncia para com o proprio Deus, se déceis nos exibimos a seu ministro, quando, no entanto, em coisa nenhuma [este] nos exceda® (y. 4. 43-44). No seu comentario sobre Efésios, John Stott, tratando dos cin- co dons mencionados em 4.11, diz que todos sao relacionados ao ensino, E ensino que edifica a Igreja. Precisa-se muito de mestres. Stott continua dizendo que no século XVI resgatou-se “o sacerdécio de todos os cristaos”, e que, na sua opiniao, no século XX, precisa resgatar-se “o ministério de todos os cristaos”. E isto se faz por meio do ministério docente. Hoje, na Era Contemporanea, que muitos designam, Pés-Mo- derna, entre os extremos de individualismo e autoritarismo existe uma alternativa. Suas raizes encontram-se na Reforma Protestante, especialmente em Calvino. Um aspecto central é a piedade que pro- move um espirito décil, receptivo ¢ ensindvel, que é modesto na sua avaliagao de si mesmo ¢ que respeita altamente 0 ensino de Deus. Por isso, é ensindyel e receptivo em relagao as autoridades das Escri- turas, lideranca ministerial e teologia, pois cada um tem um papel na comunicagao da verdade de Deus. Para que essa piedade seja pra- ticada, necessdrio se faz ter um espirito sensivel moldado por Deus e também instituigées ¢ estruturas educacionais competentes. 6. Verbo de origem latina que significa: ser excelente; superar; exceder. 87 TGREJA EXSIVADORA A recuperagao do ministério docente atual deve-se dar uma vez que a lideranga das estruturas seja de pessoas de piedade caracteriza- da por um espfrito aberto ao ensino. Uma lideranga com mente nao tao agarrada a tradicao ¢ imprescindivel para este resgate. Contudo, no espirito de Daniel Schipani, é necessdrio traba- lharmos um conceito identificavel com o contexto brasileiro; onde este “espirito” aberto ao ensino seja algo de significativo para a men- talidade do povo brasileiro, e as “estruturas” sejam coerentes com a sua formagao sociocultural. Nao podemos novamente correr 0 risco de importagées inadequadas. Paulo Freire é exemplo desse espirito no Brasil. Promover hoje um ensino em que haja um espirito décil ¢ ensi- navel, serd o grande desafio frente a uma sociedade egoista, avarenta, jactanciosa, arrogante, blasfemadora, desobediente aos pais, ingrata, irreverente, desafeigoada, implacavel, caluniadora, sem dominio de si, cruel, inimiga do bem, traidora, atrevida, enfatuada, mais amiga dos prazeres do que de Deus, com forma de piedade mas negando- lhe o poder (2 Tm 3.2-5a). Nao sera impossivel diante de tantos testemunhos que a histéria do ensino tem-nos mostrado neste capitulo. Em todas as ocasiées Deus levantou aqueles que seriam capazes de transformar 0 mundo. “Ora, € necessdrio que 0 servo do Senhor nao viva a contender, e, sim, deve ser brando para com todos, apto para instruir...” (2 Tm 2.24). Realmente, que Deus nos ajude a cumprir nosso papel histéri- co como educadores e educadoras! 88 fhe, oe quea Igreja teve altos ¢ baixos em seu ensino: A Era de Crescimento, desde a Igreja Paine, pasando pelos grandes mestres da Igreja, as escolas de catectimenos até sua oficializacao pelo Imperador Constantino; A Era Medieval, em que as grandes massas foram es- quecidas, houve a reclusdo em monastérios por pequenos grupos, como uma reacao ao mundanismo da Igreja, o que preservou as Escrituras, A Era dos Reformadores, com a tradugao da Biblia e criagao de escolas para a populagao em geral, e os catecismos: A Era Moderna, com a ee da Escola Homie = finalmente, A Era Contemporanea, cuja visio de Igreja no pode ser dissociada de sua missio ensinadora por ser inerente 4 sua esséncia cumpridora dos mandamentos ¢ ensinamentos de Deus. Deve ela ter uma verdadeira mensagem bike. mensa- gem propria para nosso contexto atual, como uma alternativa que cerca nossa sociedade conremporanea. Quem Ensina? A Pratica Docente G 7 BL, Quem Ensina? A Pratica Docente om fundamentos claros na Biblia e na histéria da Igreja, chegou o momento de fazer umas considerages e indagagoes praticas. Quem é responsével pelo ensino na igr: sio as responsabilidades e as qualificagdes necessdrias aos lideres, aos professores, aos pastores e aos pais da Igreja? TODOS ENSINAM As palavras do sabio: “Ensina a crianga no caminho em que deve andar” (Pv 22.6), sao dirigidas a todos os que tém contato com criangas. Num sentido geral, pode-se dizer que todos os crentes, homens e mulheres, sao professores, porque todos ensinam. Quem nao ensina formalmente, ensina informalmente. Aos Colossenses Paulo diz: “Instruf-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sa- bedoria” (3.16). Este versfculo diz que todos os crentes ensinam. Cada crente é discfpulo ou ensina outros. Lawrence Richards diz: “‘Treinar’ um discfpulo é fazer dele uma pessoa completa, um crente maduro” (26). Para que a igreja seja uma Igreja Ensinadora, é preciso que todos os membros reconhegam a importincia do ensi- no. Todos 0s crentes sao educadores na igreja e nos seus lares. Quando Paulo escreveu a Igreja de Tessaldnica, ele deu gragas pela fidelidade daquela igreja e disse: “Vos tornastes 0 modelo para todos os crentes na Macedénia” (1 Ts 1.7). Ele mostra que a igreja toda ensina, sen- 91 TGREIA BNSIVADORA do modelo. A Igreja como 0 Corpo de Cristo, isto é, 0 conjunto de crentes no mundo, por meio de sua unidade (Jo 17.21,23), de seu modo de adorar a Deus, de sua visao sobre 0 ensino, de seu servico e exemplo no mundo, causa impacto. Perante a sociedade, perante crentes de outras igrejas e perante os seus membros, cada igreja local como corpo e cada membro da mesma ensinam. O PAPEL DA LIDERANCGA E DO PASTOR Num sentido especifico, os lideres tem uma responsabilidade maior para com o ministério docente da igreja. O lider que orienta os outros lfderes na igreja ¢ o pastor. Necessdrio se faz que o Pastor esteja consciente de suas responsabilidades como Pastor/Mestre. Todo pastor tem que assumir a funcao de mestre, enquanto alguns pasto- res terao um ministério docente especializado. Para ser uma Igreja Ensinadora, precisa-se de que o pastor tenha uma visao educacional eum compromisso com o ensino. O pastor é um mestre indispensdvel na Educagao Crista (Ef 4.11). Quando o pastor tem uma visio cducadora, ele ensina for- malmente no pulpito e nas aulas, e informalmente na sua vida did- tia € no seu contato pessoal com o rebanho. A chaye do programa educacional é a visao docente do pastor. Muitos lideres que estao indo bem no ministério tém contra si o fato de que, se safrem de suas igrejas, estas desmoronam, pois todo © seu servigo esta na dependéncia do pastor. Por isso, é necessdrio preparar um “grupo de lideres”. A visao educacional do pastor o levar a transmitir esta visio a “homens [e mulheres] fidis e também idéneos para instruir a outros” (2 Tm 2.2). O pastor precisa ensinar e também preparar outros para assumirem suas responsabilidades no ministério total da igreja. E preciso criar espago para o ministério educacional ser desenvolvido ¢ orientado por uma cquipe educacional. O pastor nao deve € nao pode fazer tudo sozinho. Paulo ensinou os Ifderes da igreja de Efeso durante trés anos, e depois lhes disse: “Atendei por vés e por todo o rebanho sobre 0 qual o Espirito Santo vos constituiu bispos, para 92 Quem Ensina? A Pratica Docente pastoreardes a igreja de Deus” (Atos 20.28). Em Efésios 4.11 ele lhes mostrou a importancia dos dons na formacao da equipe educa- cional. Paulo seguiu o exemplo de Jesus e preparou e ensinou aos lideres da igreja. Os lideres da igreja como individuos ¢ como uma coletividade dao um exemplo para os outros membros da igreja. Deus usa os li- deres como apropriados modelos. Lé-se em 1 Pedro 5.2,3: “Pastoreai o rebanho de Deus que ha entre vés... nao como dominadores dos que vos foram confiados, antes tornando-vos modelos do rebanho.” Lawrence Richards, no seu livro Teologia da Educagao Crista, explica este ponto assim: Quem, entao, pode servir de modelo para 0 Corpo? O pastor nao. Ele é um individuo. Ele pode servir de exemplo para individuos, mas nao para o Corpo. Um grupo de lideres pode ser modelo em seu relacionamento entre si, sua maneira de trabalhar junto, para a vida eo relaci- onamento de todo 0 Corpo. Um grupo de lideres, servos da con- gregacao, chamados para dar exemplo de vida crista, podem servir de modelo para a vida do Corpo! Este grupo... na congregacao local é a chave educacional para o desenvolvimento da vida do Corpo (1980:123). A igreja olha para seus lideres como seus modelos. Em Mateus 20.25-28 Jesus descreveu o lider como um modelo. Esse nao é 0 que manda ou domina. Ele disse: “Quem quiser tornar-se grande entre vés, sera esse 0 que vos sirva e quem quiser ser o primeiro en- tre vés, serd vosso servo.” E necessdrio que o pastor e os lideres da igreja tenham a mesma atitude que Jesus teve: “...antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo... a si mesmo se humilhou” (Fp 2.7,8). O grande lider serve a igreja, ¢ uma das reas prioritdrias des-se servico éa do ensino. O resultado ser crescimento espiritual eo desenvolvimento dos dons e ministérios de todos os membros. E preciso, portanto, que o préprio pastor, a lideranca e cada crente estejam crescendo espiritualmente, desenvolvendo os seus dons e entendendo sua fungao de modelos ¢ mestres da igreja. Richards diz que nao somos modelos de perfeicdo, mas “um modelo do pro- 93 AGRE \ ENSIVADORA cesso de transformagao” (1980:37). O pastor é um servo que ensina, prepara e treina os lideres para 0 ministério educacional. Juntos, eles podem elaborar a meta ¢ os objetivos da educagao da igreja. Podem procurar, recrutar ¢ treinar homens e mulheres que tenham o dom de ensino, ou seja, os pro- fessores para a igreja. A NATUREZA E PAPEL DOS PROFESSORES Dom, Chamado, Maturidade, Preparo e Apoio Os professores na igreja sao as pessoas que tém o dom de ensi- no ¢ o desenvolvem para usar no ministério de ensino. Cada crente tem algum dom (ou dons) e algum ministério. Paulo fala da diversi- dade de dons € ministérios em Efésios 4.11; Romanos 12.6-8; e 1 Corintios 12.28. O pastor é chamado ao ministério de ensino. Também hd mui- tas outras pessoas que tém o dom de ensino, ¢ estas pessoas devem ensinar na igreja. Deus chama os professores que Ele tem equipado com o dom de ensino para ensinarem na igreja. As duas qualificagées mais im- portantes para os professores da Escola Dominical, ou de qualquer eure Oisescution avo tes act cet de erate eee vas Deus. Todo crente tem que se examinar a si mesmo e fazer duas per- guntas. A primeira pergunta é: Serd que eu tenho o dom de ensino? E a segunda: Sera que eu tenho maturidade e qualidade de vida crist para ser professor? (At 6.3; Tg 1.6; 1 Tm 3.2). A lideranga da igreja tem que escolher e avaliar os professores da igreja, fazendo as mesmas perguntas. Quem tem este dom e uma vida crista exemplar deve servir a Deus como professor. Quem sente o chamado de Deus para o ministério docente da igreja deve receber da igreja o preparo e o treinamento necessdrios para cumprir sua responsabilidade como professor. Antes de Jesus enviar os doze, Ele lhes deu preparo ¢ treinamento. Quem € responsdvel pelo preparo, treinamento e¢ apoio dos 94 Quem Ensina? A Pratica Docente professores é a lideranga da igreja. No sistema presbiteriano, é 0 Conselho da igreja. Importante se faz que a lideranga tenha a convic- cao de sua responsabilidade educacional e se desperte para cumpri- la. O Conselho pode nomear uma Comissao de Educagao Crista. Seo conselho ou a comissao nao providenciar aulas de treinamento, os professores nao estarao prontos para ensinar. Além de preparar ¢ equipar seus professores, os lideres ¢ o pastor da igreja tem que lhes dar o seu total apoio para que nao se sintam abandonados ou isola- dos na sua tarefa. E dificil ser professor sem apoio e preparo. Importante se faz que os professores sintam que fazem parte de uma equipe coesa que contribui para o ministério total da igreja. Nesta equipe educacional todos devem ter a mesma visao € os mes- mos objetivos. Todos devem estar crescendo e ajudando outros a crescerem. Todos precisam de maturidade espiritual e de constante reciclagem pedagégica. Papel e Relacao Professor—Aluno Na histéria da educagao € nos estudos pedagégicos recentes, hd diversas opinides sobre como ensinar e sobre o papel dos profes- sores, Maria da Graga Nicoletti Mizukami escreveu sua tese, com- parando cinco abordagens pedagégicas que tém sido utilizadas no Brasil. No seu livro Ensino: as Abordagens do Processo, ela apresenta sua pesquisa. Seguir-se-d uma sintese do papel dos professores em cada uma das abordagens. Na abordagem tradicional, Mizukami diz: “A relagao professor- aluno é vertical, sendo que um dos pélos (0 professor) detém o poder decisério quanto 4 metodologia, contetido, avaliagao, forma de inte- ragao na aula, etc.” (14). Ela continua: “O papel do professor esta intimamente ligado a transmissao de certo contetido que é predefini- do e que constitui o préprio fim da existéncia escolar” (15). O profes- sor 60 centro do processo educacional, e a transmissao do contetido programatico também tem imensa prioridade. Segundo, a abordagem comportamentalista, que segue B. F. Skinner, diz que “o professor teria a responsabilidad de planejar e desenvolver o sistema de ensino-aprendizagem” (31). E ainda: “A fungao basica do professor consistiria em arranjar as contingéncias 95 TORE IA BYSINADORA de reforgo de modo a possibilitar ou aumentar a probabilidade de ocorréncia de uma resposta a ser aprendida” (32) . O professor planeja 0 processo e o produto e quase manipula o aluno e o ensino a fim de alcancar o comportamento desejavel. Na abordagem humanista, com os enfoques de Carl Rogers ¢ A. Neill, 0 ensino esta centrado no aluno, mudanga suscetivel. O professor assume uma nova fungao, a “de facilitador da aprendiza- gem’ (52). Arelacao com o aluno é mais importante do que a compe- téncia do professor ¢ seu conhecimento da matéria. “As qualidades do professor (facilitador) podem ser sintetizadas em autenticidade, compreensao empatica — compreensao da conduta do outro a partir do referencial desse outro — ¢ 0 aprego (aceitagao e confianga em telagao ao aluno)” (53). A quarta abordagem € a cognitivista, que tem como principal representante Jean Piaget. Neste caso: “Caber4 ao professor criar situag6es, propiciando condigSes onde possam se estabelecer recipro- cidade intelectual ¢ cooperagao ao mesmo tempo moral ¢ racional” (77). O papel do professor ¢ “simplesmente propor problemas aos alunos, sem ensinar-lhes as solugGes. Sua fFungdo consiste em provo- car desequilfbrios, fazer desafios. Deve orientar o aluno e conce- der-lhe ampla margem de autocontrole e autonomia. Deve assumir © papel de investigador, pesquisador, orientador, coordenador, levan- do o aluno a trabalhar o mais independente possivel” (77-8). Na ultima abordagem, a sociocultural de Paulo Freire: “a rela- go professor-aluno ¢ horizontal ¢ nao imposta” (99). Em Pedagogia do Oprimido, Freire diz que “Educador e educandos, co-intenciona- dos a realidade, se encontram numa tarefa em que ambos sao sujei- tos no ato” (1874:G61). Professor e alunos se educam mutuamente pelo engajamento e participa¢ao ativa de todos. Freire ainda destaca aimportancia do didlogo no processo pedagégico. O didlogo ocorre entre sujeitos (professor e alunos) com humildade, amor e colabo- ragao. Freire é enfatico, quando diz: “Nosso papel nao é falar ao po- vo sobre a nossa visio do mundo, ou tentar imp6-la a ele, mas dia- logar com ele sobre a sua ea nossa” (1984:102). Para ele, o conteti- do programitico nao ¢ da escolha exclusiva do professor mas dele ¢ 96 Quem Ensina? A Pratica Docente dos alunos. Diante destas abordagens, que se pode concluir? E necessdrio que a igreja esteja disposta a convidar especialistas ou pedagogos para orientarem seus professores quanto as op¢ées ¢ possibilidades. Tém que avaliar cada abordagem A luz de principios biblico-teolégi- cos ¢ aprender a preparar suas aulas com coeréncia e criatividade. Sem dtvida, a abordagem tradicional tem sido a predominan- te na igreja e com alguns resultados positivos. Contudo, ha perigos e extremos a serem evitados. Nao é bom cair na “educagao bancd- ria’, expressao de Paulo Freire, onde ha apenas memorizagio meca- nica de-eonesides naemadod Gs vers sem sine ificadio o deseonccedlids da realidade) pelos professores. Os perigos de inibir 0 pensamento crftico e criativo do aluno, de deixar os alunos numa passividade total e de ser professor “dono da verdade” separado dos alunos devem ser evitados. Devemos evitar este perigo e 0 ensino autoritirio. Cremos que hd importantissimos contetidos a serem transmiti- dos pelo docente e que isto deve ser feito com competéncia, autorida- de e amor. Esta autoridade vem do conhecimento do contetido, comprometimento com ele e sua aplicagao na vida. Também ha um grande perigo de controle e manipulagao na abordagem comportamentalista. Pelos reforgos conseguem-se os resultados desejados, sejam quais forem. Podemos usar estimulos e reforgos no ensino, mas sempre com muito critério e discernimento, evitando toda manipulacao. Nossas abordagens preferidas sao a humanista, cognitivista e a sociocultural. Portanto, fazemos uma dialética, afirmando certos as- pectos e rejeitando outros, chegando assim a uma sintese pessoal. Embora a abordagem humanista no considere a natureza peca- minosa do ser humano, que é uma séria falha, ela respeita o potencial ea liberdade do aluno de uma forma que a tradicional muitas vezes nao 0 faz. Achamos que a liberdade com limites do aluno é impor- tante. Tanto essa abordagem, quanto a cognitivista, concedem ao aluno mais responsabilidade e independéncia no processo educaci- onal, pontos também favordveis. Ambas também dao enfoque 4 97 TOREIS EXSTNADORA participagao ativa dos alunos, que é muito bom. Paulo Freire também oferece muitas sugestdes titeis na sua sensi- bilidade ao contexto sociocultural dos educandos e no desenyolvi- mento da consciéncia critica. Pensamos que o ensino deve valorizar imensamente os edu- candos, e, a0 mesmo tempo, é mister o professor assumir sua res- ponsabilidade de conhecer e amar a matéria, os alunos ¢ a pedago- gia. Enquanto a posicao deste livro coloca os alunos num lugar im- portante, o papel do docente como seu modelo ¢ essencial e central. O contetido a ser comunicado também é importante. O ensino exi- ge muito dos educadores ¢ dos educandos. Afinal de contas, com orientac4o pedagégica e teoldgica, os professores da igreja precisam conscientemente modelar seus esti- los educacionais. Um outro livro que os pode ajudar imensamente nesta escolha da abordagem educacional é 0 de J. M. Price, A Pedago- gia de Jesus. Price apresenta Jesus como o exemplo maior de Mestre. Jesus conhecia seus alunos ¢ os valorizava imensamente. Seu ensino era centrado no aluno. Por isto, é essencial conhecer o aluno a quem se ensina. O aluno deve saber que para o mestre ele é prioridade; acima do contetido a ser ensinado. O contetido ou curriculo deve ser rele- vante para o aluno, pois parte de suas necessidades e de seu contex- to. Jesus atendia as imperiosas necessidades humanas e ia ao encon- tro delas. Mais importante ¢ estar interessado na qualidade do alu- no que na quantidade deles, sem esquecer-se da importancia do aluno crescer. E imprescindivel identificar 0 aluno como pessoa, procurando leva-lo a uma fé crista vivenciada. Richards também destaca a importancia do modelo ¢ exemplo, tanto dos lideres, quanto dos professores, e escreve assim sobre a relagao professor-aluno: “Verdade transmitida em um contexto de relacignamento {ntimo ¢ amoroso serd usada por Deus para reformar e renovar a personalidade do crente, para que ele seja como Cristo!” (35). Mais um livro de grande valor no treinamento de professores é 98 Quem Ensina? A Pratica Docente Ensinando Professores a Ensinar, por Donald Griggs. Ele diz: “alvez a fungao mais importante que um professor desempenha € a de amigo dos alunos... enfatizando o relacionamento pessoal de cuidado, de amor, que é tao importante para que as pessoas possam comunicar- se ¢ crescer juntas” (18). Consideramos esta fungio significante, e acreditamos que é possivel manter 0 papel docente com respeito e autoridade, e simultaneamente ser amigo dos discentes. Os alunos em nossas igrejas e escolas carecem de professores amigos. Uma segunda fungao do mestre é a de intérprete, que é mais do que mero transmissor. O intérprete “facilita a comunicagao entre pessoas” (19). Assim, vé-se a importancia da comunicagao no ensi- no. Esta importante comunicagao ¢ sempre de duas vias, o mestre fala e também ouve. Quando visa a interpretacao e significagao, evitam-se os perigos da transmissao sem sentido, sem utilidade, sem vida. O intérprete faz uma ponte entre contetido e vida. Griggs ainda apresenta uma terceira fungao do mestre: é como escritor de curriculo. Por esta expressao ele nao quer dizer que nao se usam curriculos e materiais preparados pela denominagao ou por outros, E que o professor, com o material ou revista e Biblia na mao, tem que “adapré-lo, ajusté-lo e encaixd-lo para um grupo de alunos, com pericia, interesses, habilidades especificas e experiéncias prévi- as” (20). Nesta adaptagao e contextualizagao, o mestre também es- colhe as atividades e procedimentos apropriados. Para fazer tudo isto, tem que ter 0 dom de ensino, preparo pedagégico e muita sabedoria para discernir 0 momento ¢ a maneira de aplicar o ensino. E, finalmente, Griggs desafia o mestre com a exortagao “e que continue a ser aprendiz” (21). Nunca se aprende tudo. Nunca ter- mina o processo de desenvolvimento. E interessante comparar a pedagogia de Jesus com as varias abordagens pedagégicas. Encontra-se nelas muito do que jd estava presente no ensino de Jesus. Relagado Professor-Conteido No ensino ha trés elementos indispensdveis: 0 professor, o alu- no e o contetido. O destaque até aqui tem sido na importancia da 99