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EMPREGABILIDADE E GLOBALIZAÇÃO:

U M B AL A N Ç O C R Í T I C O

Alex Sandre R. de Oliveira

Resumo

O presente artigo pretende apresentar uma visão crítica


sobre o tema atualmente conhecido por empregabilidade. Ele
confronta proposições de autores complacentes com os textos
divulgados na mídia com as de outros que procuram analisar a
questão por um ponto de vista mais amplo. O grande número de
trabalhos que tem sido divulgados, tanto na mídia quanto no meio
acadêmico, vem alardeando uma necessidade urgente, pelas
empresas, de profissionais altamente capacitados. Tais
publicações provocam uma grande busca pela população por
cursos de capacitação e graduação em busca de bons empregos e
ascensão social, que os onera e nem sempre são recompensados.
Isso ocorre, como será visto, pela existência de outros fatores
que influenciam na obtenção de um trabalho.

Palavras chave: Empregabilidade, globalização, educação

Abstract

The present article intend to show a critical vision about an


actual theme known by employability. They confront the
complacents authors propositions with the published texts by the
media with the others that search to analyse the matter by a wider
point of view. The grate number of works that have been
published, bothn in the media and in academical world, come
boasting an urgent need, by the companies, of highly trained
professionals. That publishes causes a grate seek by the people
for training courses and graduations to get good jobs and social
climbing, that overtax their and not always are rewarded. This
occur, as will be seem, because off the existence of other factors
that influence in getting a job.
Key words: Employability, globalization, education

1 Introdução

Diversas mudanças aconteceram, ao longo da história, no


mundo do trabalho. Com as recentes mudanças, decorrentes da
reestruturação produtiva, a empregabilidade passou a ocupar um
lugar de relevância nos assuntos referentes a trabalho,
influenciado principalmente pela Teoria do Capital Humano e
temas como a globalização e as crescentes inovações
tecnológicas.
Esses fatores fazem com que a “mão-de-obra”, influenciada
pela mídia, tenha que buscar um maior aprimoramento de seus
conhecimentos para atender as exigências das empresas e
conseguir manter-se ativa no mercado, que passa por grandes
mudanças com os novos modelos de produção, desenvolvidos
como alternativas aos modelos tradicionais de Taylor e Ford.
O termo empregabilidade surgiu desse cenário, e embora
não conste ainda nos dicionários, passou a fazer parte das
discussões sobre os temas sobre trabalho, economia e educação.
Nos Estados Unidos o termo equivalente é employability que tem
como significado, segundo os defensores dessa tendência, a
“condição de dar emprego ao que se sabe ou a habilidade de
obter ou manter um emprego ou trabalho”. Empregabilidade pode
ser entendida ainda como as atitudes tomadas pelas pessoas, na
intenção de desenvolver habilidades e de adquirir conhecimentos
favoráveis para a obtenção de um emprego, seja ele formal ou
informal, no mercado de trabalho (apud RUENDA, 2004, p. 64).
Apesar do termo empregabilidade ser recente, a idéia de
requalificação profissional e antiga. Segundo Marx, 1983:
O verdadeiro significado da educação, para os
“economistas filantropos”, é a formação de cada
operário no maior número possível de atividades
industriais, de tal sorte que se é despedido de um
trabalho pelo emprego de uma máquina nova, ou por
uma mudança na divisão do trabalho, possa encontrar
uma colocação o mais facilmente possível. (apud
SHIROMA, 1997).

Para HIRATA (1997), o conceito de empregabilidade ainda


está pouco definido. Ela cita ainda que:

Na literatura econômica e nas análises


estatísticas, empregabilidade diz respeito à passagem
de uma situação de desemprego para a de emprego; ou
seja, é formalizada como probabilidade de saída do
desemprego, ou “capacidade de obter um emprego”
(apud SHIROMA & CAMPOS, 1997, p 27).

Para MOROSINI (2001):

A empregabilidade é a probabilidade de o
graduado apresentar atributos que os empregadores
antecipam como necessários para o futuro
funcionamento efetivo de sua organização (apud
RUENDA,MARTINS & CAMPOS 2004).

Demonstrando a falta de consenso e clareza na definição


entre os autores sobre o tema.
Nos anos 80 os sociólogos do trabalho discutiam sobre as
tendências de qualificação e desqualificação. Na educação esse
debate chegou muito mais tarde girando em torno do tipo de
formação necessária á formação dos estudantes: polivalente ou
politécnica. As duas áreas se mostraram pouco hábeis para
definir se a reestruturação tenderia à qualificação ou
desqualificação do trabalhador. Mas a realidade é heterogenia e
tentar dar uma resposta única calcada na tentativa de enquadrar
a realidade nos “modelos” prescritos na literatura pode lavar a
erros (SHIROMA & CAMPOS, 1997).
Gitahy (apud SHIROMA & CAMPOS, 1997, p 28) sugere que,
para o tema ganhar capacidade explicativa, as abordagens
precisariam libertar-se dos modelos bipolares, reconhecendo que
há um leque de possibilidades de práticas na diversidade de
contexto nacionais e regionais que ficam negligenciados nas
análises de efeitos positivos e negativos.
Para a maioria dos autores, e defensores, do tema, a
propriedade de ser empregável passa a ser mais importante do
que ter uma formação superior de qualidade ou até mesmo ter um
emprego formal. Com a alta competitividade, as empresas estão
procurando alternativas de melhorias de seus processos
produtivos e passando por constantes enxugamentos em seu
quadro de pessoal, exigindo que as pessoas adquiram mais
capacidade de aprender e de se adaptar às novas realidades.
Os defensores afirmam que essas alterações do mundo do
trabalho, que resumiram na idéia de empregabilidade, devem
mudar, com o tempo, as relações dos funcionários com as
empresas, das empresas com a sociedade e, indiretamente, a
distribuição dos trabalhadores nos setores da economia. Os
defensores afirmam ainda que as pessoas que quiserem ascender
profissionalmente devem procurar desenvolver novas habilidades
e competências, que vão além dos encontrados no ensino formal,
sob pena de não ascender profissionalmente ou se tornarem
ultrapassadas devido à alta obsolescência de conhecimentos,
como ocorre em algumas áreas de maior qualificação técnica.
OLIVEIA (1999) diz que para se manter no mercado de
trabalho é necessário mudar atitudes, ter fluência em outros
idiomas, ter domínio da informática, saber trabalhar em equipe,
ter empatia, ter curiosidade intelectual, saber planejar, ter garra,
determinação e vontade ilimitada de vencer.
Outros autores, porém, defendem que a capacidade de
conseguir um emprego não depende apenas das capacidades
intelectuais. Para SHIROMA & CAMPOS (1997):

A empregabilidade envolve, porém, outras


variáveis como idade, sexo, experiência prévia, rede de
relações sociais, origem social, concepções, valores,
aspirações, trajetórias de vida etc., que se tornam
dominantes na conquista de um emprego, passando a
constituir-se em um “currículo oculto” de formação de
competências.

Considerando a citação anterior e as definições de alguns


autores que incluem como características de empregabilidade a
obtenção de uma reserva financeira e o desenvolvimento de
qualidades empreendedoras, entre outras, fica claro que a idéia
vem sendo usada de forma limitada. A correlação do termo com o
emprego formal é apenas um dos aspectos das mudanças que
estamos vivendo e, conseqüentemente, uma das formas de lidar
como o problema da falta de emprego.
Frigotto (2001) considera uma violência ideológica
responsabilizar apenas os indivíduos por não conseguirem uma
posição no mercado dado que outros fatores influenciam nessa
conquista. (apud BALASSIANO, SEABRA &LEMOS, 2005, p 7).
Como responsabilizar uma pessoa que cresceu em uma
região deficiente economicamente e no acesso a educação? Em
um país com tantas regiões deficientes, como o Amazonas, Acre e
Amapá, se torna questionável a viabilidade da aplicação dessa
teoria, que embora importante para o desenvolvimento da
competitividade das empresas, é apenas parte de outra mais
ampla e pouco divulgada pela mídia.
Para Rifkin (1995) e Castel (1998), a reestruturação
produtiva é a principal responsável pelo decréscimo da oferta de
postos de trabalho, à medida que permite que se produza mais
com menos mão-de-obra (apud BALASSIANO, SEABRA &LEMOS,
2005, p 33).
Autores, como OLIVEIA (1999), vêm usando o tema dando
ênfase ao emprego formal, desconsiderando outros enfoques
importantes para a sociedade como as ações empreendedoras, as
carreiras públicas e até mesmo o emprego informal. Prática
comum no Brasil. Apesar de constituir um empecilho ao
crescimento nacional, as empresas informais empregam milhões
de pessoas e encontram grandes dificuldades em sair da
ilegalidade frente à alta carga tributária.
O governo tem sua cota de responsabilidade. Segundo um
estudo da OIT (organização Internacional do Trabalho) e da OMC
(Organização Mundial do Comércio), a grande parcela de
informalidade na economia dos países em desenvolvimento
impede que eles se beneficiem da abertura do comércio, pois
aprisionam os trabalhadores ao subemprego. O estudo, intitulado
Globalization and Informal Jobs in Developing Countries, informa
que as taxas de informalidade variam demasiadamente de um país
para outro, oscilando entre 30%, em países da América Latina, e
mais de 80%, em certos países da África Subsariana ou do
Sudeste Asiático (UNRIC, Bruxelas, 2009).

O estudo confirma o que a experiência nos


ensinou, isto é, que os países em desenvolvimento que
favorecem a complementaridade entre os seus
objectivos de trabalho digno e as suas políticas
comerciais, financeiras e de emprego estão em
melhores condições para tirar partido da abertura do
comércio, promover a dimensão social da globalização e
enfrentar a crise actual”, declarou o Director-Geral da
OIT, Juan Somavia (UNRIC, Bruxelas, 2009).
Em outra pesquisa, realizada pelo IBOPE a pedido do FIESP
e intitulada “A Carga Tributária no Brasil: Repercussões na
Indústria de Transformação” (2010) foram pesquisados os
impactos das taxas tributárias nas indústrias de transformação
Brasileiras. Segundo resultados da pesquisa, além de ser o
principal obstáculo ao investimento, a carga tributária reduz a
competitividade dos produtos nacionais no comércio internacional.
A mesma pesquisa informa que se a carga tributária fosse
reduzida de 59,5% para 34,4% a arrecadação líquida de tributos
aumentaria considerando o potencial dinâmico do setor e a
expectativa de crescimento de 5% do PIB em 2010. Essa queda
nas taxas, também seria capaz de criar 2,9 milhões de empregos
e R$66,3 bilhões em salários e remunerações do capital investido
(DECOMTEC, 2009).

Os tributos sobre bens e serviços somados aos


incidentes sobre a mão-de-obra totalizaram 69,8% da
carga em 2007. Esses tributos penalizam a produção e o
consumo, reduzindo o emprego (DECOMTEC, 2009).

O Conselho de Desenvolvimento Econômico e


Social também assinalou que [...] “a persistência de
distorções significativas na incidência dos impostos
sobre as empresas, influencia negativamente as
decisões sobre investimentos e geração de empregos”.
Ou seja, a estrutura tributária brasileira prejudica a
competitividade dos produtos nacionais e onera o
emprego formal (DECOMTEC, 2009).

A hipótese a se sustentar é a de que, com a


redução de preço gerado pela diminuição da carga
nessa indústria, o aumento da produção geraria um
efeito de encadeamento na sua cadeia produtiva e um
aumento no emprego e renda, os quais seriam,
considerando o crescimento do PIB, suficientes para
manter o mesmo nível de arrecadação prévio, não
prejudicando as contas governamentais e sustentando
um nível maior de crescimento (DECOMTEC, 2009).

Essas pesquisas mostram que as ações dos Governos são


decisivas tanto para a inserção dos indivíduos como para o
crescimento profissional dos que já se encontram no mercado
formal. Com o crescimento da economia, a abertura de novas
vagas seria inevitável e, conseqüentemente, a criação de postos
de trabalho hierarquicamente superiores.
Com isso, essa visão parcial vem servindo como ferramenta
ideológica e política pelas empresas no incentivo da formação de
uma mão de obra mais qualificada e na seleção de novos
funcionários, transferindo a responsabilidade pela não
contratação aos candidatos quando se sabe que o fenômeno da
falta de emprego é mais amplo e influenciado por outros fatores
que contribuem para essas situações individuais (SHIROMA &
OLIVEIRA 1997, p 28).
Metodologia

A pesquisa foi realizada, inicialmente, coletando livros na


biblioteca do CNE de Rio das Ostras. Foram escolhidos livros de
Administração e recursos humanos que falavam sobre o tema
empregabilidade e feita uma seleção dos tópicos que abordavam o
assunto. Foram feitas cópias dos referidos tópicos para que
fossem analisados e pudessem ser devidamente inseridos no
conteúdo da pesquisa.
Após essa primeira seleção, foi feita uma busca em sites
especializados em trabalhos científicos como
www.radarciencia.org,www.artigocientifico.com.br, www.scielo.org
e www.scribd.com. Após a busca, foi feita a análise dos
conteúdos dos artigos encontrados para verificar a
compatibilidade com o assunto em questão e selecionados os
trabalhos mais relevantes.
O presente artigo foi iniciado em sala de aula sob a
coordenação do professor Cláucio, que determinou o tema e
acompanhou o desenvolvimento fazendo correções e sugestões
para seu desenvolvimento. Posteriormente, texto foi sendo
desenvolvido na residência do autor e semanalmente apresentado
ao professor Cláucio para as devidas correções.
Referências

MAGALHÃES, M. de O. Tecnologia e subjetividade: novas


perspectivas sobre o trabalho, a educação e a regulação social.
Aletheia, v. 43, n. 6, 1997.

MINARELLI, J. A. Empregabilidade: como ter trabalho e


remuneração sempre. São Paulo: Gente, 1995.

RUENDA, Fabián. J. M; MARTINS, Luciana J; CAMPOS, Keli C. L.


Luciana J. Empregabilidade: o que os alunos universitários
entendem sobre isto? Psicologia: Teoria e Prática – 2004, 6(2):
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OLIVEIRA, Sílvio Luiz. Sociologia das Organizações. Thonson


Learning. 1999.

SHIROMA, Eneida Oto. Qualificação e reestruturação produtiva:


Um balanço das pesquisas em educação. Educação & Sociedade,
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BALASSIANO,Moiséis; SEABRA, Alexandre Alves de; LEMOS,


Ana Heloísa, 2005, Escolaridade, Salários e Empregabilidade:
Tem Razão a Teoria do Capital Humano?

UNRIC, Bruxelas: Globalization and Informal Jobs in Developing


C o u n t r i e . 2 0 0 9 . D i s p o n í v e l e m http://www.unric.org/pt/actualidade/26152-
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DECOMTEC: A Carga Tributária no Brasil: Repercussões na


Indústria de Transformação. CADERNO I Panorama da Carga
Tributária. 2010.