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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA – UCB

PROGRAMA DE MESTRADO EM EDUCAÇÃO


DISCIPLINA: PROCESSO EDUCACIONAL E DINÂMICA CURRICULAR
PROF.: DRª. JACIRA DA SILVA CÂMARA
ALUNO: WANDERSON WENDEL NORONHA LÔ
SEMESTRE/ANO: 1º/1010

OLIVEIRA, João Batista Araujo e; SCHWARTZMAN, Simon. A escola vista por dentro.
Belo Horizonte: Alfa Educativa Editora, 2002.

A obra “A escola vista por dentro” de Araújo e Schwartzman (2002) é um


resultado de uma pesquisa com um grande rigor metodológico, onde a partir de alguns
protagonistas contemplados entre escolas, dirigentes, alunos, pais e professores de
alfabetização de 1ª a 4ª série e da 5ª série em diante, realizada com questionários aplicados em
48 escolas situadas em 51 municípios de 23 estados brasileiros.
Os autores apresentam uma preocupação com a baixa escolaridade refletindo nos
padrões de consumo de livros, revistas e jornais, bem como nos hábitos de leituras dos pais de
alunos de escolas públicas. Certamente questões estas que interferem diretamente ou
indiretamente no sucesso escolar de seus filhos. Uma vez que eles tendem a imitar alguns
paradigmas apresentados pelos pais.
Em relação aos dirigentes, os que trabalham em escolas particulares, possuem em
média o dobro do tempo de experiência em relação aos dirigentes de escolas públicas. Sendo
ainda os das escolas públicas, na sua maioria, são escolhidos por critérios que não incluem
aferição de suas competências, ou seja, os diretores são escolhidos sem a Necessidade de
comprovar competência ou experiência. Nesse sentido, a reflexão a esta realidade se torna
necessária, visto que, que apenas 13,2% das escolas municipais e 24,2% das estaduais do
universo pesquisado, adotam requisitos de competência técnica para a escolha de diretores.
Nos outros casos são oriundas de influências políticas para tal cargo.
Concernente aos professores, uma problemática antiga no âmbito da qualificação
profissional ainda se faz presente. Onde se acentua mais a partir da 5ª série, sendo que apenas
62% dos professores possuem licenciatura plena. 13,5% e 19,0% têm curso superior
incompleto, os demais não apresentam formação alguma. Tais outras incompatibilidades
também são encontradas como, a forma de regime de trabalho e também as
incompatibilidades e injustiças na questão salarial dos professores das escolas públicas.
Finalizando este primeiro momento faz-se necessário destacar, sobretudo, as diferenças
marcantes de qualificação e de nível de aprovação dos alunos entre as escolas públicas e
particulares.
Prosseguindo a outras temáticas, a pesquisa faz uma análise da qualidade da
escola vista por fora, onde inicialmente questiona a eficácia de testes padronizados usados nas
escolas com objetivo na verificação de conhecimento dos alunos. No entanto, é verificado, no
entanto, imperfeições nos mesmos, que mesmo diante de tais imperfeições, ainda continuam
sendo usados de forma genérica em nossas escolas, tendo como modelo mais popular o
Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Básico (SAEB).
Os dados do SAEB apresentam a grande deficiência no sistema educacional
brasileiro, uma vez que a maioria dos alunos não consegue o desempenho mínimo aos
padrões básicos estabelecidos pelos professores e educadores. Nestas condições, é afastada a
hipótese de que a pobreza do país ou mesmo dos alunos sejam a causa para esse fenômeno,
uma vez que países com índices de pobreza mais acentuados do que no Brasil, tem alcançado
resultados superiores, como o caso de Cuba que vêm conseguindo alcançar e manter padrões
de desempenho próximo aos dos países europeus. Como também ao da Coréia do Sul que
logram resultados bastantes acima dos nossos.
A pesquisa aborda também uma visão da escola vista por dentro, a partir da
particularidade de pais e professores. A percepção que os pais têm, é que a escola apresenta
um total controle sobre os alunos. Para eles, a escola vigia a entrada e a saída, alimentando
uma expectativa elevada de segurança para com seus filhos na escola. O que parece
tendencioso que os pais deixam para a escola uma total responsabilidade para com seus filhos,
sendo postura esta que não colabora para o sucesso educativo dos alunos.
As expectativas dos pais em relação às escolas e ao que esperam dos filhos são
geralmente positivas e elevadas, mas nem sempre realistas. A pesquisa aborda ainda a
preocupação dos pais no que se diz respeito ao medo de reprovação dos filhos. Os que têm
seus filhos nas escolas públicas apresentam ser mais inseguros, temendo que seus filhos sejam
reprovados.
Já os pais cujos filhos estudam nas particulares, apresentaram pouca insegurança,
esperando sempre a aprovação. Os pais ainda, todavia, aqueles que os filhos estudam em
escolas públicas, não apresentam grandes expectativas em relação ao sucesso escolar, eles
temem que seus filhos não concluam os estudos.
Partindo de uma perspectiva dos professores, é possível confrontar informações a
partir de outra dimensão. Começando sobre a questão dos deveres de casa, onde vale ressaltar
duas fortes críticas. A primeira refere-se aos deveres de caráter puramente mecânico e pouco
significativo, e que refletem um problema de despreparo do professor, não uma deficiência
intrínseca da atividade. A segunda refere-se a falta de condições para alunos de classes mais
desfavorecidas- falta de espaço, de tempo, de livros, de orientação (Kralovec & Buell, 2000).
Diante disso, os professores consideram ainda como normais ações, comportamentos, práticas
e resultados que são fortemente associados ao sucesso escolar.
A freqüência dos alunos também chama atenção, principalmente na relação que
ela desenvolve frente ao fracasso escolar. A freqüência à escola está fortemente relacionada a
dois fatores importantes para a aprendizagem: O tempo em que o estudante passa em tarefas
de aprendizagem e o cumprimento do programa previsto para o ano letivo.
Além do caráter legal e formal, a freqüência as aulas também está relacionada a
outras funções pedagógicas da escola, tais como a aquisição de hábitos de responsabilidade e
trabalho e ao aproveitamento do tempo escolar. Mas há uma forte relação entre infrequência e
abandono escolar (OLIVEIRA, 2001a).
Outro fator que na visão dos professores favorece para o fracasso escolar ou a
reprovação é a questão de que alunos não alfabetizados sejam inseridos com alunos
alfabetizados. Evidências coletadas pelo programa “acelera Brasil”, do instituto Ayrton Sena,
revelam a existência de 20 a 40% de alunos analfabetos entre alunos defasados. (OLIVEIRA,
2001b). Isso significa que a promoção automática não contribui sequer para alfabetizá-los.
A Academia de Ciências dos Estados Unidos, revendo a literatura, não recomenda
colocar alunos não alfabetizados em séries posteriores de ensino. E acentuando mais essa
problemática, o que parece ainda mais assustador, é o fato de que para os professores, a
reprovação de 20 ou 50% de uma turma, é algo normal nas escolas públicas.
A escola vista de dentro para fora: Como os professores avaliam a eficácia de sua
ação pedagógica, é uma questão interessante onde as incompatibilidades entre o que eles
dizem e o que realmente acontece é bastante contraditório. Os professores segundo a pesquisa
apresentam um elevado nível de autoconfiança em relação à sua competência e preparo para
alfabetizar.
Sendo que essa autoconfiança não corresponde com os baixos índices
relacionados ao sucesso escolar, podendo assim explicar que os professores não sabem o que
é preciso para serem um alfabetizador, ou porque não sabem que não estão alfabetizando. E
que nem os pais nem a direção das escolas nem o sistema de educação emitem sinais que lhes
permitem saber que existem problemas e onde estão localizados. E o curioso é que quando
isso acontece, existe uma “panacéia” para aliviar qualquer responsabilidade ou problema de
consciência que é a “capacitação dos professores”.
As deficiências na formação acadêmica dos professores são tão alarmantes, que
75,8% dos professores responderam que aprenderam de fato mesmo foi na prática, ignorando
eles o conhecimento acadêmico. E é bom lembrar que o que está em questão segundo esses
dados, é uma rede mais complexa de relações, que começa na seleção de professores, que não
apenas não possuem uma competência profissional adequada, como sequer adquiriram uma
formação acadêmica básica que lhes permitam fazer um bom curso profissional.
Então diante do exposto, a discussão dos dados a respeito das efetivas
competências dos professores põe em dúvida sua capacidade de julgamento, inclusive sobre si
próprios, e ajudam a explicar em grande parte o baixo desempenho dos alunos nos testes da
Fundação Carlos Chagas e nos testes recorrentes SAEB, ENEM, do Provão e das
comparações internacionais.
A escola vista em sua própria perspectiva, encerra a discussão tratando questões
bastante significativas como, por exemplo, quais os fatores internos ou externos aumentam a
probabilidade de que certas escolas ou redes de ensino sejam mais eficazes do que outras?
Uma possibilidade de causa para responder tal fenômeno é a massificação de
crenças que interferem na prática, que dentre essas crenças podemos citar: É normal não
cumprir o ano letivo, é normal perder entre 30 a 40% dos alunos entre abandono e repetência,
é normal inserir aluno analfabeto juntos com os que já são etc. São estas e outras
normalidades que vêm interferindo o nosso sistema educacional.
Com o intuito de superação dessa realidade, finaliza-se então esta produção,
deixando três lições para alcançar o título de “escola eficaz”. A primeira é a definição dos
fins, apresentando uma existe uma clareza sobre o que são e o que esperam. A clareza produz
luz, facilitando assim todas as etapas para melhor desempenho dos alunos. A segunda é a
provisão de meios, que trata das dificuldades de quem pode ser um gestor ou professor, ou
seja, provendo e corrigindo falhas dos meios, aumentando a possibilidade de alcançar o fim. E
por último as questões de autonomia, poder e responsabilização. A autonomia das escolas
tem como contrapartida avaliação externa. Permitindo assim as práticas vigentes necessárias
para uma solidificação em todos os aspectos da escola. Para que a escola dos pobres se
assemelhe com as dos rios, é preciso criar condições para que ela funcione de forma efetiva.