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Corpo Vertical

Parafraseando os ditos populares: A consciência tranquila é o melhor remédio


contra insônia ou não tem prisão maior do que o peso na consciência.

Ao analisar o conto Insônia (Paulo) e São Bernardo (Paulo Honório) podemos


perceber algumas semelhanças relativas à insônia e a solidão, também o
isolamento em formas diferentes dos personagens que de fato os angustiam ao
confrontar a consciência de sua própria realidade.

No início do conto Insônia, o narrador protagonista dialoga utilizando o discurso


em primeira pessoa, pois é responsável pelo relato dos fatos. A pergunta
conflitante permeia-o martirizando “Sim ou Não?” aparece repetidas vezes
como uma voz interior ou como uma força extraordinária e “fantasmagórica”
que exerce o poder de nortear seus sentidos levando ao ponto de alucinações
e inquietudes através de possíveis imagens das mãos que surgem no primeiro
momento, depois como garras, levando o personagem a ficar hora estupefato,
hora assombrado pois ninguém nunca havia despertado dessa similar maneira.

Ao mesmo tempo que o personagem aponta um desmerecimento próprio em


relação ao ocorrido, pensa em retornar ao sono, mais seu corpo inerte e
enguiçado não consegue tolerar a volta da posição horizontal, então questiona
qual posição poderia repousar, sentado contanto carneirinhos até que o sonho
o apanhasse ou com a balada inexistente de um relógio ficcional da mente.

Outro ponto a ressaltar é o jogo verbal utilizado, como se o acontecimento já


tivesse ocorrido, e o mesmo agora relembra voltando ao passado que logo
depois se torna algo concreto como se fosse real na memória presente.

“Esta pergunta surgiu-me de choque no sono profundo e acordou-me.

Nada sei: estou atordoado e preciso continuar a dormir, não pensar, não desejar, matéria fria
e impotente.”

(p.2)
As angustias e sofrimentos são de fato um fator incomodo para o personagem,
confuso não sabe como lidar com suas perturbações e em seus delírios
incomoda-se com supostas crianças, que parecem mais um de seus
devaneios, como ele estivesse preso ao sono da morte, nas trevas, ou seja, a
realidade e a ilusão se fundem.

Percebemos que o individuo basicamente é um elemento constituído de forma


social, porém se vê totalmente isolado. Essa subjetividade atmosférica é
ascendente de forma parcial e seletiva também utilizada em outros contos
dessa obra evidenciando a seletividade e envolvimento fruto da genialidade do
autor.

Comparado ao conto “Paulo” a criatura estranha ou doença que remete ao


nome, possui uma identidade própria como uma presença aflitiva, na qual faz
com que a personagem protagonista se decaia tanto presa no leito hospitalar.
Aparecem outros personagens, porém a mulher nesse caso apenas tem o
papel social, não atrelando nomeação. Essa entidade nomeada tem influência
a tal ponto que consegue afastar o personagem do contato humano
condenando ao isolamento.

A repetição da palavra ruga na testa, pode transparecer certa preocupação,


tristeza, devido ao estado deplorável que se encontra o narrador. Além de
manter a personagem confinada ao leito hospitalar, o sentimento de indigência
e impotência é narrado pois Paulo impede até no contato espacial. O tom
saturnal do conto, pode aludir um tom sombrio representado pelo chão de
petróleo, neblina, urubus, todos interligados possivelmente com o rondar da
morte se aproximando do narrador.

Todavia o conto dá sinais de uma espécie de urbanismo, uma representação


da cidade. Mas ela é de forma imaginaria, uma hipótese de visão do futuro que
foi reprovada por Paulo. Surgem então, o emprego verbal agora no futuro,
especificando esse contato espacial com relação a cidade:

“Entrarei nos cafés, conversarei sobre política. Uma, duas vezes por semana irei com minha mulher ao
cinema. De volta comentaremos a fita papaguearemos um minuto com os vizinhos na calçada.”

(p.55-56).
Observa-se nos contos, os personagens são pessoas afundadas em sua
solidão, fragmentadas do ser, pelo fato de transparecer uma inconsistência do
tempo cronológico ordenado, pelo afastamento da ação positiva com o espaço.

Confrontando com o Romance São Bernardo, Paulo Honório, é totalmente


diferente da criatura “Paulo” do conto Insônia embora ambos são narrados na
primeira pessoa.

Paulo Honório decide escrever um livro para contar sua história, da ascensão
social, de certa forma abre mão da sua humanidade, devido as dificuldades do
meio que vive, torna-se rígido, bruto e violento. O romance se desenvolve de
forma central em planos diferentes: O Paulo Honório narrador e o Paulo
Honório personagem. Esses traços evidenciam através do tempo verbal usado
na narrativa: onde o Paulo Honório narrador é delimitado pelo tempo pretérito,
onde o narrador irá encurvar sobre seu passado, buscando o entendimento de
si mesmo, do mundo e confrontando- se com esse mundo exterior.

Antes o narrador demonstra no primeiro capitulo como ele planejava contar sua
história, pensa em delegar essas funções para pessoas que considerava mais
cultas. Como de praxe Paulo Honório percebe que esse método é falho, pelo
fato de ninguém falar de forma como ele queria escrito e não se via
representado ali. Então o próprio protagonista resolve tomar partido e ele
mesmo escreve suas próprias lembranças. Com processos metalinguísticos
expostos na escrita do livro, percebe-se uma discussão sobre o próprio ato de
escrever.

O personagem no início se apresenta para o leitor:

"Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos
e completei cinquenta anos pelo São Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas
cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo, têm-me rendido muita
consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era
menor."
Desse modo podemos perceber uma inverossimilhança na obra, o
questionamento de como um homem rustico, que diz ser um semi- analfabeto
poderia escrever um livro bem escrito? Porém, essa questão da crítica ser
apropriada a linguagem utilizada é enxuta direta típica do estilo de Graciliano
Ramos, combinando com o estilo de Paulo Honório.

Por ser de origem humilde e desconhecida, Paulo Honório, não mediu forças
para conquistar sua posição social, valendo-se muitas vezes de meios sórdidos
como ameaças, assassinato e roubo. A visão de mundo que consiste o
personagem é centrada na relação de poder entre “opressor” e “oprimido”, pois
o que importava na verdade era “ter”. Todavia, essa visão de mundo entra em
conflito com a esposa Madalena, essa considerada na esfera do “ser”, não se
preocupando com bens materiais, mas com o capital humano.

Contudo, Paulo Honório é o tipo de homem que gosta de acumular posses em


sua vida de forma cruel e fria, isso inclui o casamento com Madalena. Ele não
consegue ou não faz esforço para compreender sua esposa, que demostra
mais humanidade em relação aos trabalhadores da Fazenda, isso é um fator
que destrói seu casamento, levando ao suicídio de Madalena.

A obra mergulha na alma humana profundamente no que ela pode ter de mais
umbroso, fragmentada de forma psicológica, Paulo Honório vai tentar buscar
quem ele é, o porque dos acontecimentos de tudo aquilo aconteceu. Desse
modo a obra apenas não trata das questões sociais, também existe um
aprofundamento nas discussões psicológicas. Além disso, também podemos
destacar que ao contrário de Vidas Seca, a narrativa parte do ponto de vista do
oprimido (Fabiano), enquanto em São Bernardo, é narrado do ponto de vista do
opressor (Paulo Honório). Pois a respeito da caracterização, observando Paulo
Honório, ele não fala quem é de forma direta, a descoberta é feita através da
narrativa. Ele não cita seus defeitos, mas com a relação com o mundo ao seu
redor pode-se deduzir como é Paulo Honório.

Para Faciolli, o argumento de P.H, foi a crise dele com Madalena, levando ao
abatimento, uma espécie de crise subjetiva devido a morte da mulher,
remetente ao capitulo 33 onde a crise já se instaura. Em consequência no
capitulo 35, a crise é objetiva independente da morte da Madalena devido a
nova revolução de 30. Resta a dúvida se a crise foi sobre a morte da mulher ou
a chegada da Nova República.

A objetividade representada é atingida pela subjetividade do narrador, segundo


aponta Lafetá, onde compõe a unidade dialética. “O sujeito poético, que se
emancipa das convenções da representação objetiva, confessa ao mesmo
tempo a própria impotência, a prepotência do mundo.” Ou seja, a hipótese de
humanização de P.H na tentativa de encontrar o sentido perdido, do encontro
final e trágico consigo mesmo e com sua solidão angustiante devido ao
abandono dos amigos e de Madalena : “ E vou ficar ás escuras, até não sei que
hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça á mesa e descanse uns
minutos.”

Com isso tanto o romance e o filme se encerram, expondo uma possível


retificação, a derrota do herói, inerte, preso a sua crise de consciência.
Referências bibliográficas

Há também motivações político-econômicas para a crise: Cap.35, pp.162-3 – quebra econômica


Caps. 33 e 34 Rev. 158ss
RAMOS, Graciliano. Insônia. 27. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001

Texto O Mundo Á Revelia – João Luiz Lafetá