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HIPÓTESES DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO

A Amaríndia é um Estado costeiro no Pacífico Sul. Em 1998 celebrou


com a Betrónia um Tratado, mediante o qual se obrigou a autorizar
a pesca na suas águas de 120 embarcações da Betrónia, às quais
concederia licenças anuais. Em contrapartida, a Betrónia obrigou-se
a acolher anualmente 20.000 emigrantes amaríndios e a abrir o seu
mercado interno à indústria de sapatos da Amaríndia. O Tratado
seria válido por vinte anos.

Em 2001, porém, a Amaríndia comunicou à Betrónia que


considerava o Tratado sem efeito, com os seguintes fundamentos:

1. O Parlamento da Amaríndia não tinha aprovado regularmente


o Tratado, já que, na reunião em que o mesmo tinha sido
votado, estavam presentes menos de metade dos deputados,
pelo que o mesmo estava ferido de inconstitucionalidade
formal.
2. A Constituição da Amaríndia proibia a cessão plurianual de
direitos de pesca nas águas sob a jurisdição do Estado.
3. Mesmo que tais circunstâncias não se tivessem verificado, o
Tratado tinha deixado de interessar à Amaríndia, já que não
se tinha verificado interesse significativo por parte dos seus
nacionais na emigração para a Betrónia e, por outro lado, os
sapatos amaríndios não conseguiam penetrar no mercado da
Betrónia por terem preços pouco competitivos.

Suponha que é convidado para elaborar uma parecer sobre a


apreciação deste caso à luz da Convenção de Viena sobre Direito

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dos Tratados. Enuncie os aspectos que consideraria mais
relevantes.

II

A Nova Grécia é um Estado centro-americano cuja Constituição é


fortemente inspirada na Constituição Portuguesa, contendo,
designadamente, um artigo idêntico ao artigo 8.º n.ºs 1 e 2 desta.

Em 2002 embarcações de pesca do país vizinho, a Croacilândia, são


apresadas pela Guarda Costeira da Nova Grécia por pesca não
autorizada nas suas águas territoriais desta.

Os armadores da Croacilândia contratam um advogado que


sustenta, no tribunal competente da Nova Grécia, a libertação
imediata e incondicional das embarcações, invocando um costume
bilateral entre os dois Estados, segundo o qual a pesca numa zona
com vinte mil Km2, onde se verificou o apresamento, e que abrange
águas territoriais dos dois Estados, é livre para a faina dos
pescadores de ambos os países.

Estará o tribunal vinculado ao costume invocado?

III

Portugal celebrou com Cabo Verde um tratado que prevê


reciprocamente a concessão da naturalização a cidadãos do outro
Estado, desde que residam um ano no seu território.

Em Portugal, o Tratado é publicado no Diário da República após


promulgação pelo Presidente da República. Em Cabo Verde o
Tratado, após os trâmites constitucionais aplicáveis entra em vigor,

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sendo logo de seguida concedida a naturalização a vários
portugueses.

Carlos Silva, cabo-verdiano residente há quatro anos em Portugal,


dirige-se ao SEF para pedir informações sobre a sua naturalização,
sendo-lhe dito, porém, que não a poderá obter, já que o Tratado
não foi aprovado pela Assembleia da República mas pelo Governo,
pelo que estaria ferido de inconstitucionalidade orgânica.

Deverá Carlos Silva conformar-se?

IV

Comente o seguinte caso:

Imagine que Portugal reconhece por declaração do Presidente da


República em visita oficial a outro Estado da região, a
independência de um novo Estado africano, que proclamou a
independência de parte do território numa guerra civil ainda em,
curso.

Dias mais tarde, o Governo vem declarar que tal reconhecimento


carece de qualquer valor, já que o Presidente não tem competência
constitucional para reconhecer Estados.

Um Estado europeu conclui com uma República insular do Atlântico


Sul um tratado para a entrega a esta de duas ilhas que se
encontravam sob sua administração mas que há muito eram
reclamadas por aquela República.

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Na véspera da entrega do território, o Estado europeu retira da Ilha
todos os arquivos existentes, invocando que alguns têm valor
histórico, visto respeitarem à História da sua expansão ultramarina.
Outros, os de registos prediais, comerciais e civis, porque considera
a sua posse indispensável à defesa dos interesses dos seus cidadãos
no território ou à definição da nacionalidade dos seus cidadãos lá
residentes.

A República à qual o território foi entregue apresenta um indignado


protesto pelo que classifica de “saque colonialista”.

O tratado nada dispõe sobre a matéria. A qual dos Estados assiste,


na sua opinião a razão?

VI

Admitindo que os Estados Unidos, face aos acontecimentos do


passado dia 11 de Novembro, exercem acções de retaliação sobre o
Afeganistão, invocando a protecção dada por este Estado ao
presumível autor moral dos atentados, Bin Laden, refira-se ao
enquadramento desses actos de retaliação à luz do Direito
Internacional.

Tome em consideração que o Conselho de Segurança da Nações


Unidas votou por unanimidade uma resolução, reafirmando uma
resolução anterior, exigindo a extradição do referido Ben Laden
para ser julgado por alegado envolvimento em actos terroristas
anteriores.

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VII

A Industíndia é uma enorme ilha no sudoeste asiático que contém


dois Estados: a República da Industíndia, que ocupa 97% do espaço
da Ilha e a cidade-Estado de Siónia, pequeno sultanato situado
numa península, cuja economia assenta essencialmente na pesca e
no turismo e que depende do seu grande vizinho para
abastecimentos essenciais, designada e principalmente água
potável.

Em 1990 são descobertas importantes jazidas de gás natural numa


zona com 200.000 Km2, situada principalmente na ZEE de Siónia e
no espaço adjacente da ZEE da Industíndia.

As relações, até pacíficas entre os dois Estados começam a ser


perturbadas por pressões da Industíndia para que a delimitação das
ZEEs respectivas sejam objecto de um novo tratado que alargue o
espaço sob a sua jurisdição.

Após várias ameaças e alguns actos menos amistosos, como passar


a exigir vistos de entrada aos súbditos de Siónia que queriam entrar
no seu território, mesmo apenas para viajarem para terceiros
países, já que a Siónia não possuía aeroporto internacional, a
Industíndia corta o abastecimento de água potável e bloqueia a
exportação de produtos frescos para a Siónia, provocando uma
grave crise humanitária.

A Siónia consegue promover a instalação em poucos meses de uma


central de dessalinização da água do mar e encontrar alternativas
para os seus abastecimentos, bem como encontrar alternativas para
o acesso dos sioneses ao exterior.

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Perante esta resistência às suas pressões, a Industíndia declara um
bloqueio naval à Siónia, colocando três vasos de guerra nas suas
águas, ao mesmo tempo que a sua força aérea sobrevoa
constantemente os céus da Siónia.

Em 1992, no auge das pressões da Industíndia, o Sultão da Siónia


surpreende o mundo ao anunciar que a Siónia celebrou um tratado
com a Austrália, colocando-se sob a sua protecção. Nos termos do
tratado os negócios estrangeiros, a defesa e as questões relativas
ao gás natural passam a ser geridas pela Austrália, durante vinte
anos.

No dia seguinte aviões australianos afundam os navios de guerra da


Industíndia, que recorre ao Conselho de Segurança das Nações
Unidas.

Imagine que Portugal é membro não permanente do Conselho de


Segurança e que é consultor da Representação Permanente do
nossos país, sendo encarregado de proceder a um análise destes
factos à luz do Direito Internacional. Elabore um esboço do relatório
que apresentaria.

VIII

O Jacastão é uma república situada no sudoeste da Ásia, com uma


extensa fronteira comum com a Pirolésia. No âmbito de um tratado
celebrado em 1970 entre os dois Estados para o aproveitamento
das águas do Rio Verde, que nasce no Jacastão e atravessa grande
parte dos territórios dos dois países, é estabelecido o regime de
caudais do Rio, ficando o Jacastão com o direito de construir uma
extensa barragem junto à fronteira, desde que assegure um caudal
determinado na parte que corre no território da Pirolésia.

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A barragem é inaugurada cinco anos depois. Entretanto, uma
prolongada seca reduz a mínimos históricos as águas do Rio Verde,
pelo que o governo do Jacastão declara em 1985 não estar em
condições de assegurar os caudais a que estava obrigado pelo
Tratado de 1970.

Na verdade, a contenção das águas do Rio Verde quase que seca a


parte do curso do rio que corre na Pirolésia, causando uma profunda
crise económica e humanitária neste país. Face a esta situação o
Presidente da Pirolésia, Alex Secco é acusado pelos militares de ter
causado a desgraça do país com o tratado de 1970, acabando por
ser derrubado por um golpe de Estado que instala no Poder uma
junta militar encabeçada pelo General Emil Serio.

No dia seguinte ao golpe um ataque da força aérea da Pirolésia


destrói a barragem do Rio Verde, provocando, aliás, a destruição,
pela enxurrada das águas da albufeira da barragem, de várias
povoações do seu próprio país.

À beira de uma guerra, ambos os Estados são persuadidos por uma


resolução do Conselho de Segurança a submeter a arbitragem os
seus diferendos no âmbito do caso designado “Rio Verde”.

O Jacastão exige: o pagamento integral da reconstrução da


barragem, o ressarcimento dos prejuízos causados pelo ataque e a
inoperacionalidade da barragem até à reconstrução e os respectivos
juros. A Pirolésia pretende pôr fim ao Tratado e obter uma
indemnização pelos prejuízos causados pelo incumprimento das
obrigações relativas aos caudais pelo Jacastão.

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Imagine que é encarregado pelo MNE de proceder a uma apreciação
das posições dos Estados envolvidos face ao Direito Internacional.
Quid juris?

IX

Uma empresa portuguesa concorreu, através da sua filial local, à


construção e exploração de um terminal aeroportuário num país
asiático, tendo ficado classificada em primeiro lugar no respectivo
concurso público.

No dia seguinte ao da abertura e classificação das propostas, é,


emanado um diploma legislativo pelo governo do país em questão,
que expropria a filial portuguesa no país em questão, atribuindo a
nacionalidade do país aos técnicos portugueses que aí trabalhavam,
a quem foram apreendidos os passaportes portugueses e impedidos
de regressarem a Portugal.

Três meses depois, os bens expropriados são vendidos a um dos


filhos do presidente, que constitui, com esses activos empresariais,
uma nova empresa.

Indique quais as medidas que a empresa portuguesa que viu


expropriada a sua filial e os cidadãos portugueses retidos podem
tomar em sua defesa no quadro do direito internacional público.

A Belídia e a Estravónia são Estados com uma extensa fronteira


comum atravessada pelo Rio Ialu. A Belídia, que se situa a
montante, autorizou uma empresa privada, a Nucleon, a instalar
junto à margem do rio uma central nuclear em 1980.

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Ambos os Estados são partes, desde 1978, numa convenção
internacional pela qual assumem a responsabilidade pelo risco
decorrente da utilização nos respectivos territórios de instalações
nucleares para fins pacíficos.

Em 1985 ocorre um acidente nuclear na referida central causando


danos materiais e pessoais a pessoas, culturas e explorações
pecuárias nos territórios dos dois Estados.

Responda às seguintes questões:


a) De que meios se podem socorrer os nacionais da Estravónia para
verem ressarcidos os respectivos prejuízos;
b) Qual o tipo de responsabilidade em que a Belídia poderá ter
incorrido e que meios poderão ser utilizados para obter da sua
parte o cumprimento do dever de indemnizar.

XI

A Felíntia é um território da Ásia Central que se entende dos dois


lados da fronteira da Rectóvia e da Rotúndia. Habitado por um povo
que se dedica essencialmente à criação de gado em transumância,
os felíntios foram deixados entregues ao seu destino pelos governos
dos Estados pelos quais se estendem os espaços ancestrais que
habitam. Uma tentativa de obter a autonomia foi esmagada através
de uma repressão sangrenta em 1908.

Contudo no ano 1995 foram descobertas riquíssimas jazidas de


petróleo espalhadas por toda a Felíntia. Os governos da Rectóvia e
da Rotúndia encetam negociações que dão lugar em Janeiro de
2000 ao Tratado de Vailatu, mediante o qual acordam em deslocar

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todos os felíntios para os deserto de Torrasol situado ao no extremo
Norte da Rectóvia, passando os felíntios a ter todos,
independentemente do seu estatuto nacional anterior, a
nacionalidade da Rectóvia.

Ao longo de 2001 e 2002 os felíntios são deslocados em vagões de


gado para o seu novo território. O seu gado é abatido, sendo
declarado que, em contrapartida o governo da Rectóvia disponibiliza
ao povo felíntio, ao qual é concedida “autonomia limitada”, a
possibilidade de se dedicarem à exploração das pedreiras graníticas
do deserto de Torrasol. Logo no primeiro ano de aplicação do
“Programa de Autonomia e Dignificação do Povo Felíntio”, como o
plano foi designado, cerca de 30% dos felíntios morreu de fome,
sede e falta de cuidados de saúde.

Imagine que é encarregado pelo primeiro-ministro da Cilíndria,


Estado vizinho da Rectóvia e da Rotúndia, de elaborar um estudo
sobre as opções que, face ao Direito Internacional poderão existir
para proteger os felíntios. Elabore um relatório preliminar contendo
as suas recomendações.

XII

A República Centro-Asiática (RCA) celebrou em 1957 um Tratado de


Limites com o Sulistão, seu vizinho meridional, na qual é fixada a
fronteira entre os dois Estados pelo curso do Rio Baulu. No mesmo
tratado é ainda regulada a captura dos valioso recursos de esturjão
existentes no rio, bem como a navegação pelo respectivo curso até
ao oceano Índico.

Em 1974 uma violenta erupção vulcânica altera o leito do rio, que


passa a correr mais dez quilómetros para o interior do território que

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pertencia ao Sulistão, abrangendo um área de 1367 Km2 do
território deste Estado.

Este facto desencadeia um diferendo entre os dois Estados,


defendendo a RCA que a parte do território do Sulistão em causa
passou a pertencer-lhe por ficar no seu lado da margem do rio. O
Sulistão recusa-se a aceitar a perda do território sustentando a
caducidade do tratado e reivindicando que a fronteira continue a ser
definida pelo antigo leito do rio, passando o curso de água a ser um
seu rio interior.

Entretanto, surge um movimento de libertação do território em


litígio o Movimento para a Libertação do Baulu-Norte (MLBN), que
sustenta a auto-determinação do território invocando que a sua
população é maioritariamente composta por um povo com
características bem definidas e uma forte identidade histórica. Tal
pretensão é imediatamente repudiada pelos governos da RCA e do
Sulistão.

A mediação do Secretário-Geral da ONU consegue evitar um conflito


que parecia iminente, aceitando as três partes submetê-lo a
arbitragem. Admitindo que é convidado(a) pelo Ministro dos
Negócios Estrangeiros para dar um parecer sobre a aplicação do
Direito Internacional a este caso, diga como apreciaria as seguintes
questões:

1. Efeito sobre a validade do Tratado do desvio do Rio Baulu,


face à Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados.
2. Factos que deverão ser indagados para se apreciar a
pretensão do MLBN à auto-determinação do território.

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3. Caso a auto-determinação seja reconhecida e surja um novo
Estado quais os aspectos essenciais a considerar no que se
refere às regras aplicáveis à sucessão de Estados.

XIII

O Sudistão, Estado africano de grande dimensão territorial e


populacional invade o território do vizinho Nordistão, alegando que
o governo deste último desenvolvia um política desastrosa no que
se refere à conservação dos respectivos recursos hídricos, pondo
em causa a futura sobrevivência do seu povo,

Sustenta a sua acção no quadro da ingerência humanitária,


invocando o precedente da acção da NATO no Kosovo, e o costume
internacional por ele criado.

Aprecie esta situação à luz do Direito Internacional.

XIV

Uma empresa portuguesa, a Sociedade Algodoeira da África


Oriental, que detém investimentos avultados num país da África
Oriental, Truvulanda, sofreu avultados prejuízos, resultantes da
destruição da sua sede e valiosa maquinaria durante incidentes que
resultaram de uma rebelião militar que teve lugar no país.

Em Novembro de 1998 Xanuatu, a capital, foi atacada pelas tropas


de dois regimentos instalados numa área militar próxima. O
Governo pediu auxílio a um Estado vizinho, que interveio,
bombardeando as tropas rebeldes com fogo de artilharia. Durante
este bombardeamento, ou na resposta que se seguiu por parte dos

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rebeldes, foram provocados os danos nas instalações da empresa
portuguesa.

O Presidente de Truvulanda, Saka Massa, veio a celebrar um acordo


de cessar-fogo com os rebeldes que lhe permitiria manter-se
formalmente no poder, mas veio a ser fuzilado, quando se
descobriu que se preparava para desencaminhar as reservas de
ouro do país e fugir para estrangeiro. Os militares decidiram
revogar a Constituição e implantar um novo regime, com carácter
parlamentar, tendo marcado eleições para o final do ano de 1999,
nas quais será também referendada a nova Constituição.

Terá a empresa portuguesa direito a ver ressarcidos as seus


prejuízos? Em caso afirmativo como poderá agir para a defesa dos
seus interesses?

XV

A Sulíndia é um Estado arquipélago situado no Atlântico Sul. Nunca


declarou pretender exercer a jurisdição sobre a zona económica
exclusiva a que teria direito nos termos da Convenção de Montego
Bay.

Em 1993 as autoridades costeiras da Sulíndia procedem ao


apresamento de uma embarcação de pesca do Maraguai, Estado
sul-americano, invocando que esta se dedicava à captura de
lagostas nos fundos marinhos da sua plataforma continental.

O governo do Maraguai protesta firmemente invocando que, não


sendo as lagostas animais que vivam o seu ciclo vital presas ao
fundo marinho, os direitos sobre a sua captura não são abrangidos
pela jurisdição sobre a plataforma continental.

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Imagine que é consultado pelo governo da Sulíndia para o
aconselhar neste diferendo, formule, em traços gerais, o seu
parecer.

XVI

Um conjunto de doze Estados do Pacífico Sul celebrou um tratado


através do qual se obrigaram reciprocamente a condicionarem a
pesca pelas respectivas frotas nacionais nas águas internacionais
adjacentes às respectivas zonas económicas exclusivas, à
observância de determinadas condições, designadamente no que se
refere às artes de pesca a utilizar e à abstenção das actividades
piscatórias a determinados períodos do ano, por forma a permitir a
reconstituição dos stocks.

Decorrido um ano sobre a celebração do tratado, a República das


Praias Douradas (RPA), parte no Tratado, declara que irá pescar
livremente na zona delimitada no tratado invocando que o mesmo
não produziu resultados, já que frotas de Estados não partes tinham
aumentado o seu esforço de pesca naquela zona, ficando
prejudicados apenas os Estados partes.

Decorridos quinze dias sobre essa declaração, a marinha do Reino


do Mar Azul (RMA), igualmente parte no Tratado, afunda uma
embarcação pesqueira e apresa outra, invocando que se
encontravam a pescar na época de defeso prevista no Tratado.

Em retaliação, a RPD expulsa 300.000 imigrantes Mar Azulenses e


proíbe a travessia das sua águas territoriais e do seu espaço aéreo
por embarcações e aeronaves da República do Mar Azul, mesmo
tratando-se de passagem inofensiva. Esta situação causa grande

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perturbação à economia da RMA obrigando toda a navegação e
tráfego aéreo que parte ou se destina ao seu território a longos
desvios, com custos elevadíssimos.

A RMA declara então que as embarcações e aeronaves que


pretendam continuar a passar no seu espaço aéreo ou nas águas da
RPD serão escoltados por meios militares.

Com a mediação do Secretário-Geral da ONU, os dois Estados


concordam em submeter o diferendo a um tribunal arbitral.

Suponha que é encarregado de fazer uma análise da situação à luz


do Direito Internacional.

XVII

Durante as celebrações da Festa Nacional da República do


Carabistão, o embaixador da vizinha República de Finistérria,
visivelmente embriagado incendeia a tenda onde decorriam as
celebrações, causando um número elevado de mortos, entre os
quais o Presidente do Carabistão, dois ministros, três embaixadores
de outros Estados, além de 37 empregados que serviam o jantar
comemorativo.

De seguida põe-se em fuga num automóvel que tinha a chave na


ignição, sendo abatido pela polícia que seguia no seu encalço,
quando circulava em manifesto excesso de velocidade.

O Carabistão declara que face a estes acontecimentos rompe


relações diplomáticas com a Finistérria, expropriando, sem direito a
indemnização, todos nos bens públicos ou privados da Finistérria no
seu território, entre os quais uma valiosa colecção de arte que

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estava em exposição na capital do Carabistão e que integrava os
maiores tesouros artísticos e históricos da Finistérria.

Imagine que é convidado para apresentar uma solução que sirva de


base a uma eventual mediação entre ambos os Estados, tendo em
vista a resolução do diferendo de forma equilibrada, combinando a
aplicação do Direito Internacional e o justo equilíbrio dos interesses
envolvidos.

XVIII

Na sequência de um referendo, a República da Dubróvia reconhece


o direito à autodeterminação da província da Tirolíndia, que se vem
a constituir num Estado independente.

Após a declaração da independência, um consórcio de bancos norte-


americanos vem reclamar ao novo Estado um terço do pagamento
da dívida de 3 biliões de dólares que tinham sido emprestados à
Dubróvia três anos antes da secessão, e que tinham sido
parcialmente investidos no território que veio a integrar a Tirolíndia.
O governo da Tirolíndia rejeita de imediato qualquer
responsabilidade na dívida.

José Popov cidadão da Dubróvia, tinha, entretanto doado ao Estado


um valioso espólio documental que constituía o arquivo pessoal do
seu avô, primeiro chefe de Estado do país. Nos termos do acordo de
secessão, a parte desse arquivo que respeitava à Tirolíndia foi
entregue ao novo Estado, o que José Popov indignadamente
contesta, sendo aconselhado por um grupo de amigos a apresentar
uma reclamação no Tribunal Internacional de Justiça.

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Refira-se à responsabilidade da Tirolíndia pela dívida, à licitude da
entrega da documentação às autoridades do novo Estado e à
viabilidade jurídica da reclamação que José Popov foi aconselhado a
fazer.

XIX

O Governo Português celebra com Marrocos um acordo de pescas,


mediante o qual cinquenta embarcações portuguesas são
autorizadas a pescar durante dois anos em águas marroquinas
sendo, em contrapartida, concedida liberdade de acesso de
produtos marroquinos ao mercado português.

O acordo é publicado nos termos constitucionais.

Alguns dias mais tarde, a Comissão Europeia notifica o Estado


Português de que irá instaurar um processo de infracção visto o
acordo incidir sobre matérias – acordos de pescas com países
terceiros e acordos comerciais – transferidas pelos tratados para a
União Europeia.

O Presidente da República, surpreendido por estas notícias numa


visita oficial a Marrocos, declara que, efectivamente, o acordo é
inválido.

Pronuncie-se sobre a validade do tratado, antes e depois das


declarações do Presidente da República.

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Suponha que o governo português resolve celebrar com os países


da CPLP – Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa um

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tratado mediante o qual será atribuída a nacionalidade de cada um
dos Estados a nacionais do outro que a requeiram.

Assinado o tratado, é o mesmo remetido ao Presidente da República


para promulgação, sendo, obtida esta, efectuada a publicação no
Diário da República.

Dois meses após a publicação o Presidente da Assembleia da


República solicita ao Tribunal Constitucional, nos termos do artigo
281.º, n.º 2, alínea b) da Constituição, a apreciação da
constitucionalidade do Tratado, com o fundamento em
inconstitucionalidade orgânica, já que a matéria relativa à
nacionalidade se insere na reserva absoluta de competência
legislativa da Assembleia da República (artigo 164.º, alínea f) da
Constituição), que não interveio no processo, como deveria, nos
termos da alínea i) do artigo 161.º da Constituição.

Decorridos seis meses, o Tribunal Constitucional vem declarar a


inconstitucionalidade.

Trezentos cidadãos da Guiné-Bissau, que tinham entretanto


requerido a nacionalidade portuguesa ao abrigo do tratado,
aguardando o despacho dos seus pedidos, dirigem uma petição ao
Governo invocando que lhes deve ser reconhecido o direito, visto
que no seu Estado de origem o tratado já tinha iniciado a sua
aplicação na respectiva ordem jurídica interna, devendo, assim,
aplicar-se o disposto no artigo 277.º, n.º 2 da Constituição.

Aprecie as seguintes questões:


1. Conformidade do tratado com a Constituição.
2. Deverá ser acolhida a pretensão dos cidadãos da Guiné-
Bissau?

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XXI

I
Durante um voo de uma companhia aérea da República do Suristão,
o embaixador do Nordistão acreditado em Belleville, capital daquele
país, trava-se de razões com outro passageiro, acabando por
cravar-lhe a faca que lhe tinha sido fornecida com o jantar,
provocando-lhe morte imediata. O incidente ocorreu quando o avião
sobrevoava águas internacionais. Ao chegar a Belleville, o
embaixador é conduzido sob escolta policial até à embaixada.

Na sequência de uma campanha jornalística que apelava à


retaliação imediata, é marcada uma manifestação em frente à
embaixada com 48 horas de antecedência.

No dia da manifestação, reúne-se uma multidão de cerca de 15.000


pessoas que, perante a passividade policial ataca e saqueia o
edifício da embaixada, amarra o embaixador, que é barbaramente
agredido e passeado pelas ruas de Belleville, até ser finalmente
resgatado pela polícia.

Face a estes acontecimentos, o Governo do Nordistão coloca o seu


exército de prevenção junto da fronteira entre os dois Estados,
exigindo a imediata reparação dos danos causados na embaixada e
na pessoa do seu embaixador.

O Conselho de Segurança da ONU reúne-se de emergência,


conseguindo uma suspensão da escalada dos acontecimentos

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durante trinta dias para encontrar uma solução negociada que
reponha a normalidade das relações entre os dois Estados.

Imagine que é encarregado pelo Ministério dos Negócios


Estrangeiros de analisar os factos e os eu enquadramento à luz do
Direito Internacional.

XXII

No âmbito de uma operação policial destinada a combater o tráfico


de pessoas que teve lugar em Solana, pequena República da
América Central, são detidos 20 cidadãos norte-americanos
implicados numa rede de aliciamento de mulheres que, iludidas por
falsas promessas de trabalho numa empresa de informática em
Madrid, eram sequestradas e mantidas numa situação de
escravatura e prostituição na vizinha República de Vila Rica.

Os detidos são julgados e condenados a prisão perpétua e trabalhos


forçados numa pedreira situada numa zona de clima
particularmente agreste no interior de uma floresta equatorial.

O Governo do Estados Unidos exige o repatriação imediata dos seus


cidadãos, alegando não terem sido julgados de forma justa e ter-
lhes sido aplicada uma pena desproporcionada e contrária aos
direitos humanos. O governo de Solana recusa a repatriação,
alegando que não existe qualquer tratado que a preveja e
sustentando que a pena aplicada é a prevista no seu Código Penal,
não tendo havido qualquer discriminação dos cidadãos norte-
americanos.

Após meses de tensão, uma força aerotransportada norte-


americana ataca a instalação prisional onde cumpriam pena os seus

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cidadãos, que são levados para um porta-aviões que se encontrava
ao largo das águas de Solana.

O governo de Solana decide romper as relações diplomáticas com


os E.U.A. e expropriar sem indemnização os bens de empresas e
cidadãos norte-americanos no seu território. Em resposta os E.U.A.
impõem um embargo comercial a Solana, que causa uma crise
humanitária, já que priva a sua principal produção, o ananás, do
mercado para onde é exportada a quase totalidade da produção.

Qualifique e analise os actos dos Estados envolvidos à luz do Direito


Internacional.

XXIII

Durante 200 anos as embarcações da Borlíndia pescaram


livremente nas águas do Estado vizinho da Estravónia, sendo esta
prática descrita em muitos manuais de Direito Internacional como
um exemplo de costume internacional bilateral. Por ocasião da
entrada em vigor da Convenção de Montego Bay, a Estravónia
declara ter estabelecido uma zona económica exclusiva que abrange
aquelas águas. Algumas semanas mais tarde, são apresadas pela
marinha de guerra da Estravónia embarcações da Borlíndia que
pescavam, como habitualmente, na agora ZEE da Estravónia.

A Borlíndia apresenta um protesto, declarando que, não tendo


ratificado a Convenção de Montego Bay, não está obrigada a
reconhecer o estabelecimento da ZEE da Estravónia. Esta, por seu
turno, vem responder que o direito ao estabelecimento de uma ZEE
constitui um direito que resulta de um costume internacional geral

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que se formou antes da entrada em vigor da Convenção de Montego
Bay e a que a Borlíndia está, assim, vinculada.

Elabore uma apreciação da validade jurídica das posições dos


Estados envolvidos.

XXIV

A República de S. Tomás (RST), após uma prolongada crise


económica e financeira, celebra um acordo com o seu principal
credor, um consórcio de bancos suíços, mediante o qual amortizará
a sua dívida para com esse consórcio com as receitas da venda de
metade da sua produção de petróleo. Obriga-se, para tanto, a
incluir em todos os contratos de venda de crude uma cláusula
prevendo o pagamento directo dessas vendas ao banco líder do
referido consórcio.

Resolvido desta forma um problema que afectava gravemente a sua


credibilidade internacional, o governo de S. Tomás consegue
negociar com uma grande potência vizinha, os Estados Aglomerados
do Atlântico (EAA) um projecto de reconstrução de infra-estruturas,
financiado por este último Estado.

No tratado que formaliza o acordo entre a RST e os EAA, prevê-se


que a RST se obriga a manter um rigoroso cumprimento dos seus
pagamentos internacionais.

Seis meses após a conclusão do tratado, um furacão danifica


gravemente as estruturas de exploração do petróleo da RST,
comprometendo por cerca de sete meses 75% da produção. Face a
esta situação a RST suspende o cumprimento do acordo com o
consórcio de bancos.

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Responda às seguintes questões:
a) Como poderá o consórcio de bancos agir se entender que a
RST violou as suas obrigações e que a suspensão do
pagamento não resulta de uma impossibilidade objectiva?

b) Como poderia a RST justificar o incumprimento do tratado


à luz da Convenção de Viena sobre o Direito dos tratados?

XXV

A República da Ilha Azul (RIA) celebra com o Estado vizinho, as


Ilhas de S. João (ISJ), um tratado, mediante o qual transfere para
este último Estado as suas competências na gestão do respectivo
espaço aéreo durante dez anos. Em contrapartida, as ISJ obrigam-
se a entregar à RPA a quantia de 50 milhões de dólares por ano e a
permitir a livre circulação de cidadãos da RIA no seu território.

Dois anos após a celebração e entrada em vigor do tratado, as ISJ


suspendem o pagamento invocando insuperáveis dificuldades
cambiais.

O governo da RIA notifica o governo das ISJ que, face a esse


incumprimento, deseja pôr fim ao tratado, com efeitos imediatos.

Em resposta, o governo das ISJ lembra o governo da RIA que, ao


abrigo do tratado, fixaram residência no seu território 30.000
cidadãos da RIA e que cerca de metade adquiriu a nacionalidade
das ISJ pelo que, caso a RPA não reveja a sua decisão, retaliará
com a expulsão de todos esses indivíduos, naturalizados ou não, do
seu território.

23
Analise esta hipótese, respondendo às seguintes questões:
a) Licitude das posições assumidas por cada um dos Estados à
luz da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados;

b) Licitude da eventual retirada da nacionalidade aos cidadãos


naturalizados por parte do governo da ISJ.

XXVI

Durante três séculos as águas do Estreito de Karapau foram


livremente atravessadas por embarcações de todos os Estados,
existindo a convicção generalizada de que tal atravessamento não
estava sujeito a quaisquer restrições, designadamente por parte da
República da Carélia, entre cuja parte do território continental e
uma ilha, que também lhe pertence, se situa o referido Estreito.

Em 2003, sem qualquer aviso, o Governo da Carélia, invocando a


realização de manobras navais, interrompe indefinidamente a
circulação no Estreito.

A interrupção obriga os navios que transportam mercadorias de e


para a Donália a utilizar rotas alternativas, com custos muito mais
elevados e, em muitos casos ao pagamento de elevadas
compensações a empresas de transporte.

Enquadre esta hipótese à luz do Direito Internacional, referindo o


que pode, na sua opinião, o Governo da Donália fazer para defender
os seus interesses e os dos seus cidadãos e empresas?

24
XXVII

Em Junho de 2006 a Marinha de Guerra da Nortlândia apresa duas


embarcações pesqueiras da República de Santa Marinha (RSM),
conduzindo-as, sob ameaça de afundamento, a um porto no seu
território. Segundo se vem a apurar, as referidas embarcações
pesqueiras estavam a pescar numa zona de águas internacionais
que um grupo de Estados, entre os quais a Nortlândia e a RSM se
tinham obrigado, mediante um tratado, a abster-se de pescar,
durante dez anos, entre 2000 e 2010, para permitir a reconstituição
dos stocks de algumas espécies de pescado que se reproduz
principalmente naquela zona.

O armador das embarcações alega não ter cometido nenhuma


ilicitude, visto desconhecer em absoluto a existência do Tratado,
que nunca foi publicado na RSM.

O Governo da RSM reconhece a falta de publicação do Tratado, mas


declara que nada no mesmo ou de acordo com quaisquer regras
vigentes de Direito Internacional autoriza o Governo da Nortlândia a
apresar embarcações em águas internacionais.

O Governo da Nortlândia recusa-se a libertar os navios, a menos


que lhe seja paga uma indemnização de 20 milhões de dólares,
quantia que estima corresponder ao valor dos danos causados aos
stocks de pescado.

Responda às seguintes questões:


a) O acto do Governo da Nortlândia é lícito?

b) O armador das embarcações pesqueiras está obrigado pelo


Tratado?

25
c) A exigência do Governo da Nortlândia é razoável face ao
Direito Internacional?

XXVIII

Mediante um tratado celebrado em 1995, a Kirguíndia e a


Lamarósia regularam a utilização das águas do Rio Quente, que
nasce naquele Estado e atravessa, até à foz, o território deste
último.

Nos termos do referido tratado, a Kirguíndia obrigou-se a controlar


o caudal das águas do rio, podendo utilizá-lo para finalidades
agrícolas ou produção de electricidade, desde que o caudal
respectivo na parte que corre para o território da Lamarósia se
mantivesse constante durante todo o ano.

Tudo decorreu de acordo com o previsto, até que, em 2002, o


governo da Kirguíndia resolveu proceder a importantes trabalhos
numa grande central hidroeléctrica junto à fronteira. Um acidente,
provocado por negligência dos responsáveis da firma empreiteira,
provocou uma ruptura na barragem, inundando os campos vizinhos
no território da Lamarósia e provocando a perda total das colheitas
respectivas.

O governo da Kirguíndia promoveu a reparação da barragem no


mais curto espaço de tempo possível, declarando, após essa
reparação, que teria que reduzir drasticamente o caudal libertado
para a Lamarósia até encher a albufeira da barragem, o que
demoraria dois anos. Caso o não fizesse, alega, provocaria uma
solução de grave e duradoura penúria para uma parte importante
da sua população que vive nas margens dessa albufeira,

26
essencialmente da agricultura, pesca e turismo. Essa redução de
caudal provoca entretanto uma terrível crise na produção agrícola
da Lamarósia.

Após uma fase de grande tensão, ambos os Estados decidem


submeter a arbitragem internacional a decisão das seguintes
questões:

1. É a Kirguíndia responsável pelos danos causados à Lamarósia


e seus nacionais pela rotura da barragem?
2. É justificável a redução doa caudal do rio após a reparação da
barragem?
3. Terá o governo da Kirguíndia de indemnizar pelos danos
causados por esta sucessão de incidentes?

XXIX

Em Junho de 1997 um grupo de turistas norte-americanos que se


encontrava em viagem de vilegiatura na República do Mar Azul, na
América Central, é detido pela Polícia sob a acusação de integrarem
uma organização subversiva ligada a uma igreja evangélica
americana.
Efectivamente os referidos turistas eram membros da “Igreja da
Salvação Imediata”, que defende ser o destino manifesto dos
Estados Unidos (por revelação divina ao seu fundador John Greed) a
expansão por todo o continente americano, dispondo de células
organizadas em outros países do Continente que vêm com
vantagem a incorporação dos seus Estados de origem nuns Estados
Unidos alargados.
A detenção e a intenção de julgar os cidadãos americanos, que
ficaram sujeitos à pena capital, desencadeia uma onda de
indignação nos Estados Unidos, que assumem de imediato a

27
protecção dos seus cidadãos, utilizando todos os meios diplomáticos
ao seu dispor.
Face ao fracasso dessas medidas, os EUA impõem um embargo
comercial total à República do Mar Azul, causando uma catástrofe
económica e financeira a este país, largamente dependente das
suas relações económicas com os Estados Unidos.
O Governo da República do Mar Azul denuncia a conduta dos EUA
como colonialista e declara a expropriação sem indemnização de
todos os bens de cidadãos e empresas norte americanas no seu
território.
Como qualifica à luz do Direito Internacional a os actos praticados
pelos EUA e pela RMA?

XXX

Em 1980, o governo da República da Costa Dourada (RCD) lançou


uma grande campanha internacional para promover o turismo no
seu território, dotado de grandes belezas naturais.
Na sequência desses esforços, são construídos vários
empreendimentos turísticos de grande qualidade, gerando-se um
fluxo crescente de visitantes, com grande benefício para e economia
do país.
Dez anos mais tarde, em plena época alta, dá-se um greve da
polícia da Costa Dourada e os resorts turísticos são atacados por
bandidos de todo o tipo que aterrorizam os turistas, roubando-os e
cometendo atrocidades como homicídios, violações e agressões de
todo o tipo. Quando finalmente a ordem é restaurada, após quinze
dias de verdadeira anarquia, os turistas conseguem regressar a
casa.
Organizam-se então três movimentos internacionais de turistas
lesados, com o objectivo de obter reparações da RCD. Um dos
movimentos pretende instaurar um processo judicial nos tribunais

28
dos Estados Unidos, pedindo de imediato o congelamento de todos
os bens da RCD no território dos E.U.A. Um segundo grupo
pretende ver a RCD julgada no TIJ e um terceiro pretende iniciar os
procedimentos com um processo judicial nos tribunais da RCA.
Como valia a adequação destas intenções à luz do Direito
Internacional?

XXXI

O Rio Quente é um vasto curso de água que nasce no Lago


Esperança, situado no coração de África, e atravessa os territórios
de três Estados: o Alongo, o Bilongo e o Calongo, antes de
desaguar no Oceano Índico. O aproveitamento hidroeléctrico, a
navegação e a pesca no Rio estão regulados no tratado de Imunctu,
celebrado em 1964
O Lago Esperança tem, além do Alongo, outros dois Estados
ribeirinhos: o Dauru e o Esterpe. Estes três Estados dividiram entre
si as águas do Lago através do Tratado de Finzé em 1965.
Em 1998, o governo do Dauru decide iniciar a construção de um
canal para ligar o lago Esperança a um vasto vale no centro do seu
território, que se tornaria um novo lago, permitindo tornar
produtiva uma enorme extensão de terras estéreis.
A construção implica uma significativa descida do nível das águas
do Lago Esperança e uma redução para menos de metade do caudal
do Rio Quente, com assinaláveis prejuízos para os Estados que
atravessa. Perante os protestos dos outros cinco Estados, o
Governo do Dauru declara não estar a violar qualquer obrigação
internacional pois não é parte no Tratado de Imunctu e o Tratado de
Finzé apenas estabelece as fronteiras lacustres, nada dizendo sobre
o desvio de águas.
Como enquadra a posição destes Estados à luz do Direito
Internacional?

29
XXXII

Em 2005 quando as forças armadas da República da Catalândia, no


Extremo-Oriente, procediam a testes de um novo tipo de míssil de
médio alcance, um defeito no dispositivo provocou a queda do
objecto sobre um navio da Japónia que navegava em águas
internacionais.
O governo da Catalândia propõe-se indemnizar o armador do navio
e os familiares dos tripulantes mortos, mas o governo da Japónia
declara não considerar tal suficiente por se estar, segundo alega,
face a um crime internacional, já que o míssil fora desenvolvido
para transportar ogivas nucleares, armas a que a Catalândia
renunciou ao aderir ao Tratado de não Proliferação de Armas
Nucleares.
O governo da Japónia pretende assim responsabilizar pessoalmente
todos os responsáveis da Catalândia envolvidos no desenvolvimento
e produção do míssil, apelando ao Conselho de segurança das
Nações Unidas para aplicar as medidas necessárias à concretização
desse objectivo.
O Governo da Catalândia admite que o engenho fora produzido para
transportar ogivas nucleares mas nega-se a qualquer sanção, à
excepção da reparação que, logo de início ofereceu.
a) Admitindo que o Conselho de Segurança das Nações Unidas
considera provado o crime internacional, que medidas poderá
tomar?
b) Se o Conselho de Segurança não tomar nenhuma medida
concreta que poderá a Japónia, na sua opinião, fazer?

30
XXXIII

A República da Ilha Azul (RIA), o Reino do Mar Verde (RMV) e as


Ilhas Luxuriantes (IL) constituíram em 1960 uma organização
supranacional com o objectivo de promover a integração
económica, numa primeira fase, e a integração política, numa fase
posterior, dos Estados Membros. A organização, denominada
Comunidade dos Mares Meridionais (CMM), foi dotada de órgãos
próprios, executivos, legislativos e judiciais, e mereceu amplo
reconhecimento internacional.
Em 1995, o Estado dos Corais Refulgentes (ECR) requereu a sua
adesão à CMM, tendo esta aceite a candidatura, embora tenha
sujeito a adesão a uma série de pré-requisitos, como a liberalização
económica, a privatização de amplos sectores da economia e a
abertura à importação dos produtos industriais dos Estados
Membros da CMM. Os termos e condições da futura adesão foram
objecto de um tratado entre a CMM e o ERC.
O ECR cumpriu todas as imposições, que tiveram como
consequência uma degradação acentuada da sua balança comercial
e uma profunda alteração da sua economia, tendo as suas principais
empresas públicas sido adquiridas por grupos empresariais da RIA,
do RMV e das IL.
Em 2001, quando deveria ocorrer a adesão plena, o RMV declara
que o seu consentimento dependeria de referendo interno, que se
realiza, tendo 60% do eleitorado votado contra. A CMM declara
então ao ECR que todo o processo fica prejudicado e, portanto,
encerrado.
O ECR, declara que as alterações a que procedeu na sua estrutura
económica para cumprir as obrigações assumidas no tratado de pré-
adesão lhe causaram prejuízos de 10 biliões de dólares, reclamando
uma indemnização desse montante à CMM. Esta declara que não
tem o dever de satisfazer esse pedido, visto ter sido um acto de um

31
Estado soberano, o RMV, que inviabilizou a adesão. Por sua vez, o
governo do RMV declara que não violou nenhuma obrigação, pois
não é parte no tratado de pré-adesão celebrado entre a CMM e o
ECR.
Imagine que é funcionário do MNE e encarregado de elaborar um
memorando sobre esta questão. Delineie os aspectos fundamentais
desse memorando.

XXXIV

Em 1995, uma erupção vulcânica ocorrida no Atlântico Norte dá


origem ao surgimento de três ilhotas com cerca de 5.000 m2 cada.
Decorridos dois anos já se tinha desenvolvido alguma flora, ervas e
arbustos, bem como alguma fauna, pássaros que passaram a
nidificar no local.
Em 2004 a Gelândia, Estado insular situado a 300 milhas das
referidas ilhotas, vem reclamar a sua soberania sobre o local,
invocando a proximidade em relação ao seu território, bem como o
facto de terem sido marinheiros gelandeses os primeiros a
avistarem as ilhotas e a desembarcarem no local.
Passados alguns meses, é anunciado que foram descobertas a 75
milhas das ilhotas, denominadas Ilhas da Esperança, importantes
jazidas de petróleo e gás natural, que a Gelândia vem declarar
serem suas, sustentando que se situam na plataforma continental
das Ilhas da Esperança.
Imagine que é encarregado pelos MNE de proceder à análise da
licitude da reclamação da Gelândia.

XXXV

O petroleiro Glory of Oil, navio muito antigo e em péssimo estado, navegava


com uma carga de 100.000 toneladas de petróleo bruto a 125 milhas da

32
costa da República dos Ananases (RA), quando uma tempestade provocou
um rombo no costado da embarcação, que ficou em sério risco de se
afundar, derramando toda a sua carga.
Face a esta situação, as autoridades da RA dão instruções à sua marinha de
guerra para recolher a tripulação e afundar o navio, de modo evitar que se
aproximasse mais da costa, aumentando o risco de poluição das praias e dos
viveiros de peixe e marisco das suas costas.
A marinha de guerra da RA age de acordo com essas instruções.
O Glory of Oil pertence a uma companhia liberiana, a Oil Maritime Ventures,
ostentando o pavilhão de conveniência da Libéria, já que a totalidade do
capital daquela companhia pertence a uma sociedade inglesa, com sede em
Londres.
O governo da Libéria apresenta um protesto junto do governo da RA,
declarando que o afundamento do navio foi contrário ao Direito do Mar, já
que o mesmo navegava em águas com total liberdade de navegação, embora
situadas na ZEE da RA.
A RA declara que, sem conceder nessa argumentação, a Libéria não pode
prestar protecção diplomática, já que a sociedade que detém a totalidade do
capital da armadora é inglesa, bem como os seus accionistas.
Responda às seguintes questões:
a) Licitude do afundamento do Glory of Oil.
b) Conformidade da protecção diplomática da Libéria.
c) Poderia o Reino Unido exercer protecção diplomática?

XXXVI

A Rectóvia, Estado insular situado a leste do cone sul da América do Sul


Inicia a exploração de jazidas de petróleo e gás natural situadas nos fundos
marinhos, para além da sua plataforma continental.
Perante o protesto de inúmeros Estados que vêm sustentar que se trata de
uma zona do património comum da Humanidade sob a jurisdição da
Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, a Rectóvia declara que, não
tendo ratificado a Convenção de Montego Bay não está pela mesma obrigada

33
e que as riquezas minerais situadas no solo e no subsolo marinhos são res
nullius podendo ser apropriadas por qualquer Estado.
Terá a Rectóvia razão? Fundamente.

XXXVII

Em Maio de 2010 Israel impôs um bloqueio naval à Faixa de Gaza com o


alegado objectivo de impedir a entrada de elementos terroristas e armamento
no território.
Na sequência de uma tentativa de entrada de navios com auxílio humanitário
num porto da Faixa de Gaza, as forças armadas israelitas desencadearam
uma acção militar com descida por helicópteros de soldados num dos navios,
de pavilhão turco.
Nessa operação, que decorreu em alto-mar, foram mortas e feridas várias
das pessoas que se encontravam no navio, tendo o mesmo sido conduzido a
um porto israelita, onde permaneceram detidos, durante 48 horas, todos os
elementos, tripulação e passageiros, que se encontravam a bordo.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas reuniu a pedido da Turquia,
tendo resolvido instaurar um inquérito internacional aos acontecimentos.
Israel alega que a bordo do navio se encontravam, armas e elementos
terroristas e que o assalto ao navio, tal como, aliás, o bloqueio, é um acto de
legítima defesa. Alega, ainda, que os soldados israelitas foram atacados com
barras de ferro e armas brancas quando desceram no convés da
embarcação.
Responda às seguintes questões:
a) Licitude da imposição de um bloqueio em águas internacionais. (3
valores)
b) Validade do argumento de legítima defesa. (3 valores)
c) Eventual responsabilidade internacional emergente dos
acontecimentos. (3 valores).

XXXVIII

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Em 2005 a União Nórdica, poderosa potência nuclear e membro permanente
do Conselho de Segurança das Nações Unidas, invadiu sem pré-aviso a
vizinha República da Juliónia, com a justificação de que as autoridades desta
ultima oprimiam de forma consistente a minoria de etnia nórdica residente no
seu território há muitas gerações, pelo que se tratava de uma ingerência
humanitária. Refira-se que a Juliónia tinha obtido a independência uma
década atrás, na sequência do desmembramento da União das Repúblicas
Populares Nórdicas, que se fragmentou em vários Estados, sendo o maior
deles, que se assumiu e foi reconhecido como seu sucessor, a União
Nórdica.
Após uma resistência pouco mais que simbólica, as tropas da União Nórdica
ocuparam cerca de 40% do Território da Juliónia, onde foi declarada de
imediato a independência de duas novas repúblicas, imediatamente
reconhecidas pela União Nórdica, que se assumiu como aliada e protectora
de facto dos novos Estados. A Juliónia recorreu ao Conselho de Segurança
das Nações Unidas, mas deparou com o veto da União Nórdica.
Apesar dos protestos internacionais e de as novas repúblicas apenas serem
reconhecidas por mais cinco Estados muito dependentes economicamente
da União Nórdica, a situação não se alterou nos anos seguintes.
Responda às seguintes questões:
a) Licitude do uso da força pela União Nórdica?
b) Consequências jurídicas do não reconhecimento dos novos Estados?
c) Responsabilidade internacional dos Estados envolvidos, à luz de
critérios estritamente jurídicos?

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