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Metodologia de projeto na prática escolar

Teoria e prática = ação transformadora


Anamelia Bueno Buoro1

Eu lido com gente, com alunos, mas lido


transformando e sendo importante na vida deles.
Acredito que o conhecimento transforma. Por que
me transforma. Minha visão de mundo, minhas
formas de interagir com os outros, minhas opções
políticas, minhas convicções religiosas: não existe
um único aspecto da minha existência que não
dialogue com meus anos de estudo e formação.
Leandro Karnal

Este artigo busca pensar e dizer sobre a prática de uma professora que mantém vivo o
interesse do ensino das artes, tão presente em escolas formais no século XXI, e que desenvolve
um trabalho por intermédio de assessorias às escolas, em cursos para professores, em
palestras e estudos e no fomento a pesquisas sobre o tema.
Portanto, o texto reflete sobre minhas experiências pessoais e tenta manter um diálogo
com o professor que está em sala de aula.
Vamos pensar juntos...

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Doutora e Mestre em Comunicação e Semiótica pelo Departamento de Comunicação e Semiótica da
PUC-SP. É pesquisadora da Anpap e do Atelier Semiótica Visual do Centro de Pesquisas Sociossemióticas
(CPS) da PUC-SP. É professora de História da Arte e de Análise da Imagem em cursos de pós-graduação e
graduação - Sinpro-PUC/Cogeae. Publicou Olhos que pintam (Educ: Cortez, 2002), O olhar em construção
(Cortez, 1996) e vários artigos em revistas. Coordenou a produção do material educativo Arte br
(Instituto Arte na Escola, 2003) e a coleção O leitor de imagens (Ed. Nacional, 2008). Realiza diferentes
trabalhos para o Ministério da Educação (MEC), a TV Escola e Secretarias de Educação da Prefeitura e
Estado de São Paulo.

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Atualmente, o processo de formação contínua tem estado presente na vida dos
professores, em geral, assim como também daqueles que trabalham com as diferentes
linguagens artísticas.
Bem me lembro de quando meu pai um dia me disse: “Agora que você está formada, é só
trabalhar”. Esse tempo vai longe e remete à geração de professores da época de minha mãe,
cuja formação acontecia antes de se assumir uma sala de aula. As transformações que se
processavam no fazer profissional do professor e no desenvolvimento de sua prática eram
consequência das mudanças provocadas pela vida. As buscas de soluções para resolver as
situações-problema eram de cunho intuitivo.
Minha vida profissional foi bastante diferente. Cumpri a formação na graduação,
complementando-a com diversos cursos de pós-graduação, em diferentes capacitações, com
mestrado e doutorado e com reflexões para palestras, congressos e grupos de estudos. Tudo
isso sempre alimentando o desejo de ser uma boa profissional, cada vez mais competente na
minha prática educativa como professora das linguagens artísticas.
Aprendi que para atingir esse objetivo seria preciso elaborar planejamentos significativos,
sequências didáticas muito coerentes, sem deixar de lado a consciência das necessidades de
transformar o conhecimento dos alunos, reforçando o desenvolvimento da autonomia deles,
no quesito relações de ensino-aprendizagem.
Sempre percebi que ao fazer um curso de formação contínua, as transformações que
conseguia propor nas minhas práticas de trabalho em sala de aula aconteciam com muito mais
segurança e em tempo mais rápido do que quando assistia somente a alguma palestra. As
reflexões sobre as palestras, mesmo com proposições didáticas muito relevantes,
necessitavam de mais tempo para serem repensadas e incorporadas.
Mas, e sempre existe um mas, é daquela exceção que confirma a regra que eu vou tratar
aqui. Houve uma palestra que mudou minha prática em sala de aula. Ela foi ministrada em
1997 na Escola Nossa Senhora das Graças, em São Paulo, pelo professor Antoni Zabala, um
teórico espanhol que trabalha com teorias de ensino e aprendizagem
O professor Zabala abordava a temática de ensino por meio de projetos e centrava sua fala
na possibilidade de esse ensino ser capaz de conseguir fortalecer a autonomia dos alunos na
construção de seus conhecimentos.

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Nessa palestra, ficou claro para mim que:
- poderia trabalhar com uma sequência didática, cujo primeiro passo seria examinar os
conteúdos para saber se eles eram os mais adequados para conseguir os objetivos planejados;
- deveria selecionar conteúdos que pudessem atingir os objetivos, mas que ao mesmo
tempo dessem ênfase à autonomia dos alunos na construção e aquisição dos seus
conhecimentos.
A partir dessas questões, o professor Zabala sugeriu a utilização de uma metodologia para
se trabalhar projetos que abordassem os seguintes passos:
1- Apresentar um tema para o grupo/classe em que os alunos mostrassem seus
conhecimentos sobre o assunto.
2- Propor uma questão desafiadora:
O que vocês gostariam de saber sobre esse tema?
Nota- Os professores deveriam anotar e deixar expostas as respostas com os desejos de
conhecimento dos alunos, em uma das paredes da sala de aula.
3 – Construir possíveis respostas para as perguntas formuladas.
Nota- As hipóteses seriam construídas pelo grupo/classe, e também ficariam anotadas e
penduradas ao lado da primeira, na parede da sala.
4 – Encaminhar uma pesquisa a ser realizada em casa para todos os alunos da classe.
Nota – A pesquisa deveria levar em consideração todas as perguntas levantadas, de tal
forma que tivessem 2 ou 3 alunos envolvidos com cada questão.
5 – Compartilhar com o grupo/classe as pesquisas realizadas e também compará-las com
as respostas hipotéticas elaboradas pelo grupo.
6 – Construir um trabalho final sobre tudo que foi aprendido a respeito do tema.
7 – Revisar os passos da metodologia vivida, nessa proposta de trabalho.
8 – Compartilhar o trabalho final, para que todos os alunos pudessem ter contato com
tudo o que foi aprendido.
Poderíamos resumir essa metodologia em :
1 - Apresentação do tema
2 - Levantamento de questões
3 - Construção de hipóteses

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4 - Pesquisa
5 - Elaboração de conclusões
6 - Revisão dos passos metodológicos
7 - Exposição
Essa palestra do professor Antoni Zabala foi muito significativa para mim, diferentemente
do que foi para alguns colegas que afirmavam que na nossa escola já trabalhávamos assim.
Resolvi rever meu planejamento a partir da proposta de trabalho dele e experimentar essa
metodologia em algum projeto a ser desenvolvido durante o ano.
Escolhi o Projeto Carnaval, realizado com alunos de primeira a quarta série ano do Ensino
Fundamental I, que acontecia tradicionalmente todos os anos em uma escola privada na
cidade de São Paulo. O objetivo era discutir com todos os nossos alunos o significado do
carnaval, observando os vínculos estabelecidos dentro da nossa cultura, no primeiro mês de
aula e no momento em que o clima nas cidades e nas TVs focavam o tema. Como professores,
sabemos que muitas escolas públicas e privadas têm alguns projetos orientados em seu
programa pedagógico, porém, isso não invalida que outros projetos sejam desenvolvidos a
partir do desejo e da necessidade dos estudantes.
Vale lembrar que antes da palestra do professor Zabala o Projeto Carnaval era trabalhado
assim:
1ª série – Conteúdo: Marchinhas de carnaval
2ª série – Conteúdo: Carnavais de rua
3ª série – Conteúdo: Desfile de escolas de samba
4ª série – Conteúdo: Outros carnavais no Brasil
Para colocar em prática toda a fundamentação teórica que havia sido exposta naquela
palestra do professor Zabala, convidei alguns professores generalistas da escola, os que
trabalhavam com alunos da 1ª a 4ª série, para participarmos juntos do Projeto Carnaval.
Depois de conversas e ajustes necessários no planejamento, estávamos prontos para levar
para a prática aquelas informações teóricas, desafiando o nosso trabalho anterior. Regidos por
algumas inseguranças, mas muita vontade de repensar o projeto e fortalecer o objetivo de
despertar o protagonismo dos alunos nas relações de ensino-aprendizagem, começamos.
Nosso grupo de professores esteve bastante envolvido durante todo o tempo em que fomos

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cumprindo o nosso passo a passo do planejamento. Destacarei alguns fragmentos do processo
da 3ª série para ilustrar a metodologia vivida:
- Na primeira etapa, o tema “Carnaval e as Escolas de Samba” foi muito bem aceito por
todos os alunos, ajudado pelo fato de estar presente, no mês de fevereiro, nos meios de
comunicação, o que fortaleceu a sua pertinência. Ninguém se opôs. Alguns chegaram a dizer
que não gostavam de carnaval; outros mostraram que só conheciam esse tema a partir das
informações fornecidas pela TV. No entanto, poucos percebiam esse momento embasado em
raízes culturais ou mesmo como uma festa que mobiliza o tempo e o espaço de um país inteiro
durante muitos dias.
- Ao perguntar aos alunos o que gostariam de saber sobre o tema, algumas questões me
chamaram a atenção porque, em mais de 15 anos de trabalho com esse projeto, eu nunca
havia abordado em minhas aulas tais questionamentos.
São eles:
1- Eu gostaria de saber por que as mulheres aparecem fantasiadas com os peitos de fora?
2- Como aquelas pessoas que ficam nos carros alegóricos nos lugares mais altos conseguem
subir até lá?
3- Como são feitas as fantasias das escolas de samba?
4- Como a baiana é levada para os desfiles?
Enfim, muitas outras perguntas, interessantes como essas, tiveram respostas hipotéticas
construídas pelos alunos. Alguns exemplos:
1- Eu acho que as mulheres ficam de peitos de fora para deixar seus maridos muito bravos.
2- Eu acho que só um guindaste consegue colocar essas pessoas com as enormes fantasias
lá em cima nos carros alegóricos.
3- Acho que cada pessoa faz a sua fantasia.
4- Acho que a baiana é levada para o desfile assim: um caminhão aberto passa na casa de
cada uma delas, pega a baiana e leva para o desfile.
A resposta a essa última questão foi dada por uma baiana de escola de samba de São Paulo
que trabalhava na casa da avó de uma das crianças e que convidamos para ir até a escola, falar
sobre a experiência de desfilar no carnaval. Ela chegou com uma roupa comum e trocou por
outra, transformando-se em uma baiana. Ao passar pela porta da sala para contar suas

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histórias, a baiana teve que deixar na vertical o bambolê que ajudava a compor a anágua de
sua saia. Aí as crianças viram que aquela saia enorme facilmente poderia entrar numa porta de
ônibus.
As pesquisas puderam gerar conhecimentos e discussões bastante pertinentes nos
diferentes grupos de alunos que, ao checarem com as hipóteses, puderam confirmar ou
desfazer conceitos equivocados e construir conhecimentos específicos sobre o tema.
Aprenderam sobre as fantasias, como elas eram produzidas, assim como as relações que elas
tinham com o samba-enredo. Puderam perceber a importância do samba-enredo na
organização geral do desfile, a importância das baianas, das alas, dos carros alegóricos, da
música que determina o ritmo de cada desfile, dos puxadores do samba-enredo, da bateria, da
velha-guarda etc. Enfim, aprenderam como se forma e como funciona uma escola de samba
em um desfile de carnaval, assim como perceberam relações dessa festa com a nossa cultura e
com os contextos locais.
Apesar de a hipótese que explicava como o destaque é colocado no alto do carro alegórico
ter sido uma resposta correta, tal fato levou as crianças a perceberem a importância da
pesquisa, porque apenas com a comparação entre hipótese e pesquisa é que puderam ter
certeza de que o destaque era colocado no alto do carro com a ajuda de um guindaste.
A surpresa que tive usando essa metodologia de projeto foi ter trabalhado os mesmos
conteúdos sobre carnaval de uma maneira muito diferente do que havia feito em tantos anos
anteriores, quando o tema era tratado a partir das informações trazidas pelo professor.
A metodologia que eu praticava antes afirmava que o conhecimento se construía do
professor para o aluno. Depois da palestra de Antoni Zabala e colocando na prática a
metodologia de projeto por ele proposta, pude perceber que o interesse das crianças sobre o
tema foi muito maior, pois proporcionava a cada novo encontro um desafio diferente,
privilegiando a curiosidade delas, o que fez com que, de uma maneira muito tranquila, se
mantivessem interessadas no assunto até o final do trabalho. Outra surpresa foi que as
crianças aprenderam muito mais do que nos anos anteriores sobre o tema carnaval e as
escolas de samba.
Posso também afirmar que os colegas professores que participaram do trabalho, ao colocar
a teoria em prática, perceberam como essa metodologia de projeto não estava realmente

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presente na rotina da escola e que, se a utilização dela se tornasse mais frequente, os temas
dos projetos seriam abordados com mais profundidade e aumentaria a possibilidade de os
alunos serem capazes de gerar com mais autonomia sua própria construção de conhecimento.
Para terminar, faço minhas as palavras do professor Karnal: “Eu lido com gente, com
alunos, mas lido transformando e sendo importante na vida deles. Acredito que o
conhecimento transforma”.
Nossos cursos de formação atuais partem também da crença de que o professor pode
sempre transformar os conhecimentos dos alunos, por intermédio de suas ações educacionais,
mas entendendo também que cada sujeito é o próprio construtor de seus conhecimentos, o
que, além de consolidar o conteúdo aprendido, fortalece a sua autoestima. O professor na
escola é o regente dessas ações em que aluno e professor transformam conhecimentos
transformando-se.

Bibliografia
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares
Nacionais: arte: 1ª a 4ª série. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em:
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BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros


curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental: arte. Brasília, 1998. 116 p.
Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/arte.pdf>. Acesso em: jul. 2016.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros


Curriculares Nacionais: Ensino Médio. Brasília, 2000. Disponível em: <
http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/14_24.pdf>. Acesso em: jul. 2016.

BUORO, Anamelia Bueno. O olhar em construção: uma experiência de ensino e aprendizagem da


arte na escola. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2001.

HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Trad.


Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre: Artmed, 1998.

______; VENTURA, Montserrat. A organização do currículo por projetos de trabalho: o


conhecimento é um caleidoscópio. Trad. Jussara Haubert Rodrigues. 5. ed. Porto Alegre: Artmed,
1998.

KARNAL, Leandro. Conversas com um jovem professor. São Paulo: Contexto, 2012.

ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. Trad. Ernani F. da F. Rosa. Porto Alegre:
Artmed, 1998.