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Pensar
A GAZETA
VITÓRIA,
literatura
por OSCAR GAMA FILHO
SÁBADO,
20 DE MAIO
DE 2017

MATCH POINT
Onze anos depois, Oscar Gama finaliza sua resenha de “Kitty aos 22: divertimento”, de
Reinaldo Santos Neves, em mais uma homenagem aos 70 anos do escritor capixaba

R
ARQUIVO FAMILIAR
einaldo Santos Neves não lução é embrulhá-la no mais belo papel de
abriria mão de viver es- presente: a literatura. A questão básica da
teticamente nem para ser humanidade, aqui abordada, é o quanto
autor de um best-seller. vamos aguentar, como vamos aguentar e
Mas “Kitty aos 22: diver- por que vamos aguentar.
timento” (Flor&Cultura, A equação proposta por ‘Kitty’, criada a
Vitória, 2006) tem todos os seus in- partir do sonho, tem suas consequências.
gredientes. Os vivos diálogos e a ação Mostra, pelo princípio clássico da intem-
trepidante dos estranhos personagens porabilidade do belo, por autoevidência,
desta novela de costumes, que critica a que a arte é o eidos, a essência em torno de
banalidade de suas vidas, parecem dig- que a realidade variante muda. O belo, a
nos de um filme de Woody Allen. Evi- arte, é o invariante, o eixo da realidade,
tando tropeçar no caricato e no gro- núcleo imutável ao redor do qual ela se
tesco, misturou sua formação clássica fragmenta, centrifugadora existencial. A
ao pop e à novela policial para trans- arte forma o mundo real como dom que
formar o amálgama em pura energia dela vaza. O que há de belo e atemporal em
estética. Kitty é o eixo-eidos da incompreensível
A visão de Reinaldo sobre Mictória é consciência.
mais europeia, americana e noir, que E para quem deseje posições sociais ou
brasileira. Daí a mordacidade, a aver- políticas engajadas, é bom lembrar que o
são à mediocridade, a ausência da autor viveu num tempo de ditadura mi-
complacência que seria de esperar num litar, terrorismo e censura federal. Des-
nativo. Seu olhar britânico é que o crever e ridicularizar foi a saída. Rindo, ele
torna capaz de capturar o genuíno. Para castigou os costumes: ridendo castigat
ele, o único noir verdadeiro é o es- Reinaldo Santos Neves e Oscar Gama: uma amizade literária mores. O que nossas escassas forças po-
pírito-santense, com suas nuances de dem alterar? Quando os políticos agem
romantismo neorrealista. O contraste como se a corrupção fosse um direito
entre seus claros solares, que empa- quer forma de arte e lê-se em qualquer vocabulário inclui neologismos como ‘pu- adquirido, a mudança é a única guerrilha
puçam a cor, desfazendo-a, e tons es- linguagem ou língua. Ao inventar a cor tamerdalmente’ e ‘adolescentozoides’, gí- ao nosso alcance. Mas a solução apenas
curos, primitivos e bárbaros, compõe das vogais, Rimbaud executou uma rias como ‘mó sexy’ e ‘ficou rox’, e cons- homologa a situação. Resta saber para qual
um filme preto e branco ultrapassado tradução intersemiótica da pintura pa- truções sintáticas que reproduzem o dia- revolução micropolítica possível confor-
pela realidade: cápsula do tempo a ser ra a literatura. Se a passagem da lin- leto contemporâneo. Citações cinemato- maremos nossos gestos, que não podem
apreciada no museu raro desta obra. guagem de uma forma de arte para gráficas e intertextos refletem a formação ser estancados nem paralisados, mesmo
Reinaldo trata de pessoas que, aban- outra é tão impossível quanto escrever do escritor: Camões, Orwell, ‘King Kong’, que aleatórios e perdidos no mundo fútil e
donadas por deus (e, agora, por demônios um divertissement, sua missão de ar- ‘Cabaré’, ‘De Olhos Bem Fechados’, ‘Cin- superficial de Kitty.
que não as suportam), metamorfoseiam-se tista foi realizada. O eidos está cen- derela’... Este ensaio foi escrito entre 2006 e
em mitos pela mão que bate o egoísmo, a trado no sonho, a que se lança para Bruno e Kitty são personagens com- 2017, em marginália, nas páginas do pró-
violência, a crueldade e a indiferença pelo recuperar o tempo perdido. Proust plexos, dinâmicos, contraditórios, dotados prio livro, ou em pedaços de papel avulsos,
próximo — como massa de pão — até que mostrou que é pela memória invo- de primorosa construção psicológica, dig- com garranchos incompreensíveis em que
se convertam em arte. O processo de luntária que se recupera esse tempo na de Dostoiévski. A partir do encontro eu insistia em ver ideogramas autoex-
escrever, para um clássico, passa neces- perdido, momento miraculoso que pos- com o Relinchador, Kitty se humaniza, pressivos, não um texto com início, meio e
sariamente por barreiras que dificultem a sibilita escutar o tão caro silêncio. E há retira-se de um estado primitivo de amo- fim. Em homenagem aos 70 anos de
facilidade criativa. Daí seu processo de descrições minuciosamente proustia- ralidade e egocentrismo para uma se- Reinaldo, concluí o caso. Tirem suas con-
pesquisa ter-lhe granjeado dois momentos nas, como a da alvorada (p. 71-73) e mi-humanidade circunstancial. Já Phil é clusões por si mesmos, pois nem sempre o
em mundos que jamais conheceu: A Crô- (sem ter assistido a nenhum) do desfile plano, linear, paráfrase de Philip Marlowe, mordomo é o culpado, mesmo sendo
nica de Malemort e Kitty aos 22. Desta vez, de moda (p. 183-86). Mas é um mundo detetive durão criado por Raymond Chan- anglo-capixaba seu senso de humor.
lança mão de fragmentos de um sonho real a que só teve acesso pela pesquisa na dler. Estamos diante de um virtuose: esta
para compor um alegado divertissement, internet. novela pode ser usada, por um aprendiz de
gênero musical que vai do ligeiro à sin- Sonhar é crime em 2017, e Reinaldo é prosador, como compêndio de fórmulas de
fonia, passando por tons noturnos de uma réu confesso: culpado. O futuro o ab- realização de narrativas e falas, escalas
atmosfera com toques policiais. solverá. Retrata, com total verossimilhan- literomusicais, ou seja, exercícios de im- Oscar Gama Filho
É uma tradução intersemiótica. O ça, fixando suas características, a Geração proviso em inúmeras variações. é escritor e psicólogo.
eidos, que constitui a essência da obra Y: seu modo de falar (o dialeto internetês), Se a morte é um evento constrangedor, ogamafilho@gmail.com
desmontável, transforma-se em qual- de sentir friamente e de se expressar. O rico mas imprescindível à sua proposta, a so-

Editora: Carol Rodrigues; Textos: Colaboradores; Fotos: Editoria de Fotografia e Agências; Ilustrações: Editoria de Arte; Correspondência: Jornal A GAZETA, Rua Chafic Murad, 902, Monte Belo, Vitória/ES, Cep: 29.053-315