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Fichamento de texto

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“A dupla face dos hábitos” - Ivo A. Ibri.

Maria Luísa Acioli Falcão de Alencar

O texto se inicia colocando a Fenomenologia como uma espécie de abertura para as outras
doutrinas de Peirce, onde partindo das categorias fundadas no interior desta, começaria uma
prática pragmática: “pragmática porque a Fenomenologia [...] convoca quem com ela se
envolve, a observar sua própria conduta diante de uma facticidade que lhe é ubíqua” (p. 2).
Ou seja, existe esta relação entre conduta e experiência, incitando o leitor a observar a própria
vida cotidiana, e que o autor coloca como plano de ação – “ uma forma de se prever o curso
futuro dos fatos, permitindo, com isto, desenhar qual conduta face a eles seria mais adequada,
de modo a atingir determinado fim que se queira” (p. 2).
A experiência de um plano que não dá certo significa que não houve o resultado esperado,
apresentando reação e sentido de independência frente ao que se tinha pensado primeiramente
(previsto). A capacidade de aprender e mudar o plano, ajustando-o ao objeto, é colocada como
central no pensamento de Peirce.
Considerando esta situação, coloca-se a reação e independência de comunicação que
caracterizam os elementos Segundos em relação aos Primeiros (que no caso, seria a mente
conjecturante, aquela que está em estado hipotético). Este estado hipotético envolve a
capacidade de prever o futuro, interpretando signos e selecionando-os através do critério de
relevância que é a busca de significados. Assim, as consequências práticas de um conceito
envolvem um diálogo semiótico, para determinação de seu significado; e a verificação de fatos
positivos diante do próprio fato na experiência fenomenológica. “Uma mente cognitiva, assim,
submetida a um ambiente fenomênico, experiência aquilo que poderá ser reflexionado, [...] e
afetar o modo como está disposta a agir” (p.3).
Nisto, coloca-se também que a experiência do “erro” é um exemplo de alteridade do objeto, e
que leva à gênese da filosofia realista – as teorias não têm o poder de se interpôrem aos fatos.
O autor coloca que a realidade, para Peirce, envolve relações de ordem reais entre os fatos.
Estas relações aparecem nos fatos em sua determinação espaço-temporal, as quais teríamos
acesso. Segundo o texto, estes fatos aparecem no possuir de algum teor de alteridade, uma
reação ou objeção. Como tal fato reativo não pode se repetir, há ausência de redundância ou de
relação geral que dê origem a esta redundância.
“Toda nossa esperança de encontrar sucesso para nossos planos ou, em esferas cognitivamente
mais complexas, para nossas teorias científicas, reside no aparecer da redundância” (p.4), com
isto, que dizer que a previsão de nossos atos (que geralmente buscam um resultado positivo)
depende da continuidade dos fatos, e de que estes sejam redundantes o suficiente para que se
repitam em contextos parecidos.
Para Peirce, a uniformidade na Natureza seria a existência de relações gerais, que repliquem
ou repitam situações ou atos. “Pensar em qualquer recorte de mundo que se torna foco
cognitivo humano é representar relações lógicas que produzem previsões com boa aderência
ao curso futuro dos fatos” (p. 4). Esta aderência referida no trecho seria fruto da
correspondência entre as relações lógicas e representadas, uma “homologia de formas lógicas
entre a teoria e realidade” (p.4), que poderá sofrer alterações depois do resultado dos fatos, mas
que influencia nossas ações. Penso que podemos colocar como previsões que de fato
acontecem, levando em consideração os fatos reais e imaginários que a “permitem” acontecer,
e de certa forma, vão se regulando de acordo com o nível de “sucesso” ou correspondência ao
real.
Pensando junto à Fenomenologia, a alteridade é experiência presente a todos os seres que
participam do universo fenomênico, independente de como se experiência uma reação. A partir
desta experiência, surge a necessidade de uma mediação de nossas ações futuras; Segundidade
como origem da racionalidade humana e o início da capacidade de mediar. Dito isto, coloca-
se também a Terceiridade, que abrigaria esta construção de mediações, sendo um modo de ser
universal da experiência. “Seu caráter genuíno é extenso no tempo e deve ter poder preditivo,
para que as ações de cada ser atinjam os fins desejados” (p. 5). Isto é, na Terceiridade se
formariam as conexões, racionalidades e mediações que permitiriam a boa aderência das ações,
prevendo corretamente o futuro. Esta construção de mediações permitiria também nossas
escolhas. Assim, coloca-se a importância dos fatos regulares para a possibilidade de fazer
previsões lógicas, já que em um mundo de acidentalidade, estaria tudo à mercê do Acaso, sem
racionalidade.
A criação de planos implica o desejo de fazer boas escolhas (em que as probabilidades de acerto
seriam maximizadas), mesmo havendo noção de que existe grau de falha ou incerteza e todos
os casos. Nesta situação, a Segundidade é representada, tornando-se mediação genuína e
perdendo seu poder reativo. “Mediação genuína é o que permite a inserção de uma
racionalidade eficiente no tempo” (p. 6), e assim permitindo previsões satisfatórias e assumindo
papel de guias da ação futura. Tornam-se hábitos de ação, ou crenças, como define Peirce.
Estas crenças seriam definidas de acordo com o grau de diálogo semiótico que estabelecem
com a alteridade.
A seguir, o autor levanta considerações sobre a dificuldade de apreensão da Primeiridade
através do estudo da Fenomenologia, já que seria mais difícil atentar para o que não nos chama
atenção, fenômenos não-regulares e que não permitem a generalização, logo, não permitem
previsões e a criação de mediações. Nos interessa aquilo que pode manter o sistema de
mediações e hábitos que se mostrem eficientes como guias de conduta. “Sob eles, podemos
agir em um estado da mente que se poderia considerar de baixa energia, em contraposição à
alta energia que o esforço cognitivo dos objetos ainda não mediados requerem de nós” (p. 7).
A construção dos hábitos é cognitiva, investigando o objeto e buscando representa-lo com boa
aderência. A atuação do hábito como um guia de conduta seria uma operação de recognição.
Esta cognição e recognição seriam dois estágios semióticos que dialogam com a experiência.
Assim, relacionando-se ao Sinequismo peirceano, a questão da continuidade seria ligada à
regularidade, e o singular (Primeiro) quebraria esta continuidade por sua irregularidade. A
atividade cognitiva está sempre contida no tempo, já que a experiência passada acaba por servir
de repertório para a criação de critérios de relevância, o que posteriormente influenciaria a
seleção de signos e interpretantes da experiência presente. Da mesma forma, através deste
repertório passado se encontram aspectos preditivos de instantes futuros.
Inicia-se um questionamento sobre a forma como a mente operaria face à irregularidade, aquilo
que não segue a regras que permitam a previsão de acontecimentos futuros. O que se busca
considerar é, contrapondo os casos em que o desinteresse vem do aspecto irregular das coisas
não chamar atenção, seria possível haver momentos em que a mente optasse por abandonar sua
função cognitiva ou recognitiva.
É colocado que na primeira categoria, são exibidas as irregularidades nos fenômenos
exteriores, onde atentar para eles evidencia que estas irregularidades “não podem ser
produzidas por uma regra lógica que as vincule no tempo” (p. 10). Cada indivíduo ou coisa
possui singularidades que são associadas a princípios de espontaneidade e diversidade (Acaso).
Este Acaso, constituindo internamente um contínuo de possibilidades que se apresenta
externamente como irregularidades, possibilitaria uma variedade infinita de reações potenciais,
desconectadas de um contínuo espaço-temporal. Apesar de destituído de regras, este Acaso é
abrigado pela realidade, em conjunto às leis que ordenam “os fatos de seu teatro de reações”
(p. 10), havendo ação conjunta de Acaso e Lei, e possibilitando a adoção de signos de natureza
probabilística. “Os fenômenos não estariam, portanto, submetidos a uma necessidade estrita
que definiria um determinismo ontológico” (p. 11).
Cada elemento teria uma face tripla categorial, referente ao que o faz existir como algo; ao que
partilha com os outros elementos de sua categoria; e às suas singularidades.
No realismo, a origem ontológica da generalidade seria uma suposição à predição das teorias
e à boa aderência aos fatos. “Uma homologia entre as formas gerais do signo e do objeto,
aproximada e falível que seja [...] é a melhor hipótese justificativa do sucesso de corretamente
se antecipar o curso futuro dos fenômenos” (p. 12). A continuidade da aderência desta
homologia estabeleceria os hábitos como bons guias de conduta.

Em outro momento, busca-se explorar sobre a face interior da primeira categoria, referente às
qualidades de sentimento (quali-signos); que aparecem fenomenologicamente em infinita
multiplicidade. Quanto a isto, o realismo de Peirce propões que “estas qualidades de sentimento
se correspondem com qualidades que estão nos fenômenos, e que constituem contínuos reais
de qualidades” (p. 12). De acordo com o Sinequismo, estes contínuos de qualidades seriam
contínuos de possibilidades. “As formas lógicas [...] afeitas à Terceiridade, se originaram de
um teatro de reações onde a indeterminação do possível da Primeiridade, determina-se como
existência, pertinente à Segundidade” (p. 13). Assim, este contínuo de possibilidades
apareceria em sua existência como singularidades, exibindo espontaneidade pelas suas
irregularidades.
Em seguida, o autor coloca que a primeira categoria, em seu contínuo de possibilidades, é
também de natureza geral. “Não se tem acesso direto a continuidades, sejam eles de relações
lógicas, sejam eles de qualidades. Lei e Acaso são supostas realidades cognoscíveis somente
por inferência” (p. 14).
Em relação ao tempo e as categorias, é claro que a Terceiridade se relaciona com o contínuo
do tempo, e a Segundidade não apresenta relações temporais (já que reações acontecem na
presentidade). A inserção de tempo na Segundidade indicaria possível Terceiridade.
Quanto à Primeiridade, as singularidades não estariam em relação temporal (já que esta é
exclusiva de semelhanças ou regularidades). A consciência que sente age em imediatidade,
onde está ausente o tempo: “é uma consciência imediata, uma vez que o continuum de
qualidades não encerra em si quaisquer regras que atuem como mediações” (p. 15) – esta seria
a experiência interior de Primeiridade; e os lados interno e externo desta categoria são alheios
ao tempo.
Também é colocado que, apesar de o sentimento e ato de sentir ser considerado exclusivo da
Primeiridade, as categorias são inclusivas da terceira para a primeira: há um conteúdo de
Segundidade na terceira categoria; assim como a Primeiridade também se insere na
Terceiridade. Isto se reflete no “conteúdo de espontaneidade que as instâncias sob a lei exibem
como fenômenos, fazendo com que eles sejam de natureza probabilística” (p. 15-16), o que
seria uma espécie de embate entre o lógico e o emocional.

Quanto ao tempo (Chronos), o texto coloca que este flui e sua realidade se dá
independentemente da representação que se faça dele. Esta alteridade é demonstrada no futuro
possível, por exemplo, onde “os signos que o Chronos legitima como boas representações
somente assim o são por lhe darem a última palavra sobre si mesmo” (p. 16). A partir deste
Chronos, seria possível pensar também em uma temporalidade interior, de processo judicativo
universal, de reflexão e planejamento futuro; tempo este denominado de Kairós. Este definiria
o momento interno em que a mente decidiria agir (ou existir), a partir de uma mobilização
causada por interpretantes emocionais e oportunidades elucidadas por interpretantes lógicos.
Segundo Peirce, o tempo é contínuo, mas não é perfeito (havendo aspectos de
descontinuidade), sendo coerente com o indeterminismo ontológico: “nenhuma lei é acabada e
final, e o Tempo seria, assim, da natureza da lei, apropriadamente sob a terceira categoria” (p.
18). Já que o Acaso atua desviando elementos de uma uniformidade, supõe-se que este aja
também sob o tempo, em algum aspecto de descontinuidade; considerando que o Acaso não se
vincula ao passado nem ao futuro, o presente seria este ponto de acesso:
“Esta descontinuidade aparece sob uma forma nas ações conservativas, onde o instante exato
difere absolutamente de todos os outros instantes, enquanto aqueles outros só diferem em grau;
e a mesma descontinuidade aparece sob outra forma em todas as ações não-conservativas, onde
o passado é rompido do futuro, tal qual em nossa consciência”.
CP 6.86 apud p. 18

Com esta descontinuidade no tempo presente, podemos confirmar também certa simetria entre
tempos interno e externo (Kairós e Chronos).

Por fim, o texto coloca os hábitos como uma regra de conduta bem-sucedida, mas que para
continuar relevante e eficiente à experiência, deve conceber a possibilidade da mudança de
conduta, se necessário (aprendizado); objetivando a boa aderência de suas previsões sobre
fatos.
Esta seria uma face lógica e positiva dos hábitos, que “constituem generalizações feitas pela
mente a partir da experiência redundante” (p. 19), acontecendo tanto em situações cognitivas
corriqueiras quanto complexas. O sucesso preditivo reforçaria a própria estrutura lógica dos
hábitos, representando bem a alteridade, rompendo sua força bruta, e assim permitindo que a
mente trabalhe em baixa energia.
Todo hábito, como estrutura lógica e regulas, está inserido na temporalidade do Chronos e
Kairós. “A linguagem que descreve o mundo da experiência sob o olhar lógico dos hábitos
estaria, assim, definitivamente comprometida com o continuum da lei, e consequentemente
com o continuum do Chronos” (p. 20).

A face negativa dos hábitos seria um desdenhar do que não importa ser interpretado, baseado
em seus critérios de relevância; como aquilo que não chama atenção da mente. Os fatos
irregulares e assimétricos, frutos do Acaso, acabam por não constituir conceitos e não receber
nomes, apesar de serem mais frequentes. Para percebê-los, deve haver um hiato no Kairós (e
consequentemente no Chronos), permitindo reconhecer a parte do mundo que não obedece às
estruturas lógicas.
Nisto, o autor coloca a importância de haver essa percepção daquilo que “aguarda
representação e significado” (p. 21), já que onde há assimetria e irregularidade também há
sentimento, porém sem continuidades de forma e tempo.
Seria o caso da Arte, servindo como uma mediação de outra natureza daquela dos hábitos, e
concebida na interioridade do artista. Pode ser percebida através da contemplação
desinteressada do mundo, dando lugar à Primeiridade (seja em seu interior de continuum de
sentimentos; ou em seu exterior de diversidade e liberdade). Assim, o texto deixa
questionamentos sobre o que a Arte traria quanto àquilo que se mostraria desinteressante,
logicamente falando, mas que seria capas de “desvelar valores aptos a dar um sentido maior
que aquele que se sugere” (p. 22).

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