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Gravitação Universal

Fenômenos Mecânicos

Prof. Karl Marx Silva Garcez


29 de Novembro de 2019

Curso de C & T - UFMA


Introdução histórica
Esferas celestes

A ideia mais simples e provavelmente mais antiga sobre o movimento


aparente das estrelas, é imaginar que os corpos celestes estão presos a
esferas celestes, que se encontram em rotação uniforme em torno da Terra.
Entretanto esse modelo não explica o movimento retrógado dos planetas.

No século IV AC, Platão propôs que o universo deveria ser explicável em


termos de formas e figuras perfeitas, como círculos e esferas.
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Modelo Ptolomaico

No século II DC, Cláudio Ptolomeu de Alexandria desenvolveu um modelo


“platônico”, usando círculos e movimentos uniformes. O modelo
geocêntrico de Ptolomeu permitiu reproduzir, com boa aproximação os
aspectos complicados no movimentos dos planetas.

Segundo Ptolomeu a órbita de um planeta em torno da Terra é resultante


de dois movimentos circulares acoplados. O planeta se move sobre o
epiciclo cujo centro se move sobre o deferente com centro na Terra.

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Figura 1: Planetário aristotélico de 1600. Design ptolomaico, com a Terra no centro,
a esfera também exibe o céu de estrelas fixas.
Heliocentrismo

• A ideia de um sistema heliocêntrico, já havia sido proposta pelos


gregos, em particular por Aristarco de Samos no século 3 AC. Mas foi
Copérnico (1473-1543) que estabeleceu a descrição heliocêntrica.
• A obra de Copérnico trouxe um novo fôlego à astronomia de
observação. Graças ao apoio do rei Frederico II, Tycho Brahe
(1546-1601) conseguiu montar um grande observatório.
• Todas as observações eram feitas a olho nú, mas com outros
instrumentos de grandes proporções e cuidadosamente calibrados.

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• Tycho propôs um modelo intermediário entre Copérnico e Ptolomeu,
em que todos os planetas com exceção da Terra, se moveriam em
torno do Sol, mas o Sol se moveria em torno da Terra.
• Johannes Kepler (1571-1630) foi assistente de Tycho Brahe e seu
sucessor no observatório. Kepler, para explicar um desvio na órbita de
Marte, resolveu abandonar qualquer ideia preconcebida, inclusive o
ideal platônico de explicar tudo em termos de movimentos circulares
uniformes.
• Assim, usando os dados de Brahe, Kepler descobriu que as trajetórias
dos planetas em torno do sol eram elipses. E assim chegou às suas
três leis do movimento planetário.

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Leis de Kepler
1ª Lei (leis das órbitas)

“Todos os planetas se movem em órbitas elípticas com o Sol em um dos


focos”

Figura 2: a - semi-eixo maior; b - semi-eixo menor

Uma elipse é o lugar geométrico dos pontos para os quais a soma das
distâncias a dois pontos fixos, chamados de focos F , é constante.
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Seja uma trajetória elíptica de um planeta, o ponto P é chamado periélio e
o ponto A é o afélio.

A distância média entre o planeta e o Sol definida como (rp + ra )/2, é


igual ao semi-eixo maior a.

A órbita da Terra é praticamente circular. O semi-eixo maior é igual a uma


unidade astronômica (1 UA = 1,5 ×1011 m).
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2ª Lei (lei das áreas)

“O raio vetor que liga um planeta ao Sol descreve áreas iguais em tempos
iguais”

Quando um planeta está próximo do sol, ele se move mais rapidamente do


que quando está mais afastado.
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3ª Lei (lei dos períodos)

“O quadrado do período de qualquer planeta é proporcional ao cubo do


semi-eixo maior de sua órbita”

A terceira lei relaciona o período T de qualquer planeta com sua distância


média ao Sol. Portanto, temos que

T 2 = Cr3 ,

onde r é o raio orbital médio e C é uma constante que tem mesmo valor
para todos os planetas.

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Exemplo 1

O raio orbital médio de Júpiter é de 5,20 UA. Qual é o período da órbita de


Júpiter em torno do Sol?

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Exemplo 2

O novo cometa Alex-Casey tem uma órbita muito elíptica, com um período
de 127,4 anos. Se a aproximação máxima do cometa ao Sol é 0,1 UA, qual é o
seu maior afastamento do Sol?

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Gravitação Universal
Newton e a gravidade

• Apesar das leis de Kepler serem importantes, estas eram regras


empíricas obtidas a partir das observações de Brahe. Newton então,
associou a aceleração de um planeta em sua órbita a uma força
específica exercida sobre ele pelo Sol.
• Usando sua segunda lei, Newton provou que a força gravitacional
resulta uma órbita elíptica, como observado por Kepler. Assim, ele fez
a suposição de que esta força atrativa atua entre quaisquer dois
corpos no universo.
• Antes de Newton, havia a concepção de que as leis da física da Terra
não seriam as mesmas dos corpos celestes.

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Lei de Newton da Gravitação

A lei de Newton da gravitação, diz que, dadas duas partículas 1 e 2. A força


~12 exercida pela partícula 1 sobre a partícula 2 é
gravitacional F
Gm1 m2
F~12 = − 2 r̂12
r12

Onde r̂12 = ~
r12 /r12 é um vetor unitário e G é a constante de gravitação
universal
G = 6, 67 × 10−11 N.m2 /kg 2 .
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~21 , exercida por 2 sobre 1, é igual e oposta à F~21 , de acordo com a
A força F
3ª lei de Newton.

Assim a magnitude da força gravitacional exercida é dada por

Gm1 m2
Fg = ,
r2
onde r é distância entre as duas partículas.

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Força gravitacional exercida pela Terra

A força sobre uma partícula de massa m, distante r do centro da Terra, é

GMT m
Fg =
r2
onde MT é a massa da Terra. Se esta é a única força atuando sobre a
partícula, então sua aceleração é

Fg GMT
a= = .
m r2
Para corpos próximos da superfície da Terra, r ≈ RT , então a aceleração
de queda livre é
GMT
g= ,
RT2
onde RT é o raio da Terra.

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Considerações sobre a gravidade local

O valor da aceleração da gravidade g na superfície terrestre varia


ligeiramente de um lugar para outro. Esta variação deve-se aos fatores:

• O formato de globo da Terra


• Variações na superfície (montanhas e vales)
• Rotação em torno de seu eixo
• Variações na densidade da crosta
• Movimentos tectônicos

Em um modelo simplificado podemos afirmar que o valor de g é função da


altitude e latitude. Segundo relatório elaborado pelo Departamento de
Geofísica do Observatório Nacional, o valor da gravidade em São Luís-MA
(lat. 02º32’01.7” S) é g = 977979,58 ± 0,02 mGal.

Para fins práticos, podemos adotar o valor

g = 9, 780 m/s2

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Princípio da equivalência

A massa gravitacional mG é a propriedade responsável pela atração


gravitacional que um corpo exerce sobre outro.

A massa inercial m é a propriedade de um corpo que mede sua resistência


inercial à aceleração.

As evidências experimentais mostram não precisamos distinguir mG de m,


portanto m = mG .

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Exemplo 3

Algumas pessoas pensam que os astronautas em um ônibus espacial se


tornam sem peso porque eles ficam “além do alcance da Terra”. Isto é, na
verdade, completamente incorreto.

(a) Qual é a magnitude do campo gravitacional g na vizinhança da órbita de


ônibus espacial, que está a 400 km acima do solo?

(b) Por que os astronautas no ônibus sofrem efeitos biológicos, como


atrofia muscular, mesmo não estando, realmente, “sem peso” ?

Dados: RT = 6370 km, MT = 5,98 ×1024 kg e G = 6,67×10−11 N.m2 /kg2 .

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Dedução das leis de Kepler

A lei da gravitação de Newton implica a terceira lei de Kepler, para o caso


especial de uma órbita circular com raio r . Considere um planeta em órbita
circular com velocidade v . A força gravitacional do Sol produz a aceleração
centrípeta v 2 /r . Aplicando a segunda lei de Newton, temos

GMS MP v2
2
= MP ,
r r
onde MS é a massa do Sol e MP a massa do planeta. Em função de v 2

GMS
v2 =
r
O planeta se move 2πr em período T , então a velocidade está relacionada
por
2πr
v=
T

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Substituindo essa expressão, temos uma relação para o período

4π 2 r2 GMS
=
T2 r

reorganizando, temos a terceira lei de Kepler:

4π 2 3
T2 = r
GMS
Essa equação também se aplica às órbitas dos satélites de qualquer
planeta, se substituirmos a massa do Sol MS pela massa do planeta.

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Energia Potencial Gravitacional

Quando estamos longe da superfície da Terra devemos levar em conta que


a força gravitacional não é uniforme.

~ · d~l.
Devemos aplicar a definição geral de energia potencial dU = −F
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E assim temos que a energia potencial de um sistema constituído de um
corpo esfericamente simétrico de massa MT e a uma distância r de seu
centro, é dada por
GMT m
U (r) = −
r
Esta função energia potencial tende a zero quando r tende a infinito
U (r → ∞) = 0.

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Velocidade de escape

É a velocidade inicial mínima necessária para que projétil escape da Terra.


Esta pode ser obtida a partir da conservação de energia:

Ui + Ki = Uf + Kf ,

1 GMT m
0+0= mv 2 −
2 e Rt
logo r
2GMT
ve = .
Rt
substituindo os valores, temos que ve = 11,2 km/s. Um corpo com esta
velocidade escapará da Terra, mas não escapará do sistema solar.

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Exemplo 4

Um projétil é disparado verticalmente, para cima, do pólo sul da Terra, com


uma velocidade inicial vi = 8,0 km/s. Determine a altura máxima que ele
atinge, desprezando a resistência do ar.

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Energia total em órbitas ligadas

Seja um satélite em órbita circular em torno de um corpo de massa M em


repouso. A energia mecânica total do sistema é

1 GM m
E= mv 2 −
2 r
Se aplicamos a segunda lei de Newton, temos que
GM m mv 2
2
= .
r r
Uma substitição nos leva a seguinte expressão
GM m
E=−
2r
Ou seja a energia total E é negativa para qualquer órbita circular. O que
classifica o sistema como ligado.

No caso de um órbita elíptica, a energia é dada por


GM m
E=−
2a 25
Classificação das órbitas pela energia

Órbita Sistema
E <0 Elipse; Círculo ligado
E =0 Parábola não ligado
E >0 Hipérbole não ligado

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Mudança de órbita

Uma nave em órbita circular pode alterar sua energia mecânica por meio
do acionamento de foguetes.

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Transferência de Hohmann

Esta órbita de transferência permite viajar entre dois planetas que estejam
em torno do Sol.

O foguete é acionado de modo que a nave entre em órbita elíptica em


torno do Sol no seu periélio e encontre o planeta destino no afélio da
órbita de transferência. 28
Referências Bibliográficas

• NUSSENZVEIG, H. M. Curso de Física Básica vol 2. 4ª ed., São Paulo:


Edgard Blucher, 2002
• TIPLER, P. A.; MOSCA, G. Física para cientistas e engenheiros, volume 1:
Mecânica, Oscilações e Ondas, Termodinâmica. 6ª ed., Rio de Janeiro:
LTC, 2009.
• CARVALHO, R. P. de, O globo terrestre na visão da física, Belo Horizonte:
Autêntica 2012.

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