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Fisiologia

1ª edição

Microbiologia

Larissa Silva dos Santos

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Microbiologia
DIREÇÃO SUPERIOR
Chanceler Joaquim de Oliveira
Reitora Marlene Salgado de Oliveira
Presidente da Mantenedora Wellington Salgado de Oliveira
Pró-Reitor de Planejamento e Finanças Wellington Salgado de Oliveira
Pró-Reitor de Organização e Desenvolvimento Jefferson Salgado de Oliveira
Pró-Reitor Administrativo Wallace Salgado de Oliveira
Pró-Reitora Acadêmica Jaina dos Santos Mello Ferreira
Pró-Reitor de Extensão Manuel de Souza Esteves

DEPARTAMENTO DE ENSINO A DISTÂNCIA


Gerência Nacional do EAD Bruno Mello Ferreira
Gestor Acadêmico Diogo Pereira da Silva

FICHA TÉCNICA
Texto: Larissa Silva dos Santos
Revisão Ortográfica: Rafael Dias de Carvalho Moraes & Christina Corrêa da Fonseca
Projeto Gráfico e Editoração: Antonia Machado, Eduardo Bordoni, Fabrício Ramos e Victor Narciso
Supervisão de Materiais Instrucionais: Antonia Machado
Ilustração: Eduardo Bordoni e Fabrício Ramos
Capa: Eduardo Bordoni e Fabrício Ramos

COORDENAÇÃO GERAL:
Departamento de Ensino a Distância
Rua Marechal Deodoro 217, Centro, Niterói, RJ, CEP 24020-420 www.universo.edu.br

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universo – Campus Niterói

Bibliotecária:

Informamos que é de única e exclusiva responsabilidade do autor a originalidade desta obra, não se responsabilizando a ASOEC
pelo conteúdo do texto formulado.
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Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, arquivada ou transmitida de nenhuma forma
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da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO).
Microbiologia

Palavra da Reitora

Acompanhando as necessidades de um mundo cada vez mais complexo,


exigente e necessitado de aprendizagem contínua, a Universidade Salgado de
Oliveira (UNIVERSO) apresenta a UNIVERSO EAD, que reúne os diferentes
segmentos do ensino a distância na universidade. Nosso programa foi
desenvolvido segundo as diretrizes do MEC e baseado em experiências do gênero
bem-sucedidas mundialmente.

São inúmeras as vantagens de se estudar a distância e somente por meio


dessa modalidade de ensino são sanadas as dificuldades de tempo e espaço
presentes nos dias de hoje. O aluno tem a possibilidade de administrar seu próprio
tempo e gerenciar seu estudo de acordo com sua disponibilidade, tornando-se
responsável pela própria aprendizagem.

O ensino a distância complementa os estudos presenciais à medida que


permite que alunos e professores, fisicamente distanciados, possam estar a todo
momento ligados por ferramentas de interação presentes na Internet através de
nossa plataforma.

Além disso, nosso material didático foi desenvolvido por professores


especializados nessa modalidade de ensino, em que a clareza e objetividade são
fundamentais para a perfeita compreensão dos conteúdos.

A UNIVERSO tem uma história de sucesso no que diz respeito à educação a


distância. Nossa experiência nos remete ao final da década de 80, com o bem-
sucedido projeto Novo Saber. Hoje, oferece uma estrutura em constante processo
de atualização, ampliando as possibilidades de acesso a cursos de atualização,
graduação ou pós-graduação.

Reafirmando seu compromisso com a excelência no ensino e compartilhando


as novas tendências em educação, a UNIVERSO convida seu alunado a conhecer o
programa e usufruir das vantagens que o estudar a distância proporciona.

Seja bem-vindo à UNIVERSO EAD!

Professora Marlene Salgado de Oliveira

Reitora.
Microbiologia

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Microbiologia

Sumário

Apresentação da disciplina ..................................................................................................7

Plano da disciplina ................................................................................................................. 9

Unidade 1 – Introdução à Microbiologia: Os aspectos gerais da

célula bacteriana.....................................................................................................................13

Unidade 2 – Metabolismo e genética bacteriana ...........................................................39

Unidade 3 – Fatores de agressão bacteriana, análise laboratorial e

antibacteriana. ........................................................................................................................ 63

Unidade 4 – Propriedades gerais dos vírus ......................................................................87

Unidade 5 – Patogênese das infecções virais e diagnóstico laboratorial

das viroses. ...............................................................................................................................109

Unidade 6 – Micologia: uma visão geral ...........................................................................133

Considerações finais ..............................................................................................................155

Conhecendo a autora............................................................................................................157

Referências ...............................................................................................................................159

Anexos.......................................................................................................................................161

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Microbiologia

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Microbiologia

Apresentação da disciplina

Ao estudar microbiologia, será apresentado a você o mundo microscópico que


nos cerca. Você passará a conhecer a classificação, as formas de identificação, a
morfologia e a estrutura dos microrganismos. Através desta disciplina, você será
capacitado a compreender os aspectos gerais da célula bacteriana, da partícula
viral e dos agentes fúngicos.

O estudo da microbiologia permite fazer conexões sobre a etiologia das


doenças e os agentes causadores das mesmas. Motivos pelos quais, desde o século
XVII, a microbiologia vem sendo investigada com tanta dedicação.

Os conhecimentos sobre microbiologia estão aumentando com muita rapidez,


conforme novos estudos são realizados em diversas áreas. Cada unidade deste
material foi cuidadosamente confeccionada, a fim de abranger o que será útil para
você obter um claro entendimento da importância dos microrganismos e de suas
doenças associadas.

O texto foi escrito de forma direta e simplificada, o que facilita a apreensão de


novas informações por meio do ensino à distância. É importante ressaltar que a
busca de material complementar irá auxiliar o seu processo de aprendizagem e
ampliará sua visão sobre o mundo microbiano. No próprio ambiente virtual de
aprendizagem, poderá ser encontrada uma biblioteca virtual com títulos que
podem ser consultados.

Aproveite ao máximo o conteúdo disponibilizado e bom estudo!

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Microbiologia

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Microbiologia

Plano da disciplina

A disciplina de microbiologia tem como objetivo fornecer conhecimentos


sobre os aspectos gerais dos diversos microrganismos que integram o mundo
microbiano que nos rodeia.

Ela está dividida em 6 unidades, que vão dos aspectos estruturais bacterianos
ao estudo das características gerais dos agentes fúngicos.

Para que você possa compreender de forma ampla o que será encontrado na
disciplina, foi confeccionado um resumo de cada unidade. Assim, você pode buscar
fontes que complementem seus estudos.

Unidade 1 – Introdução à Microbiologia: Os aspectos gerais da célula


bacteriana

Em nossa primeira unidade, vamos estudar a estrutura das células


procariontes.

Objetivos:

 Compreender a composição básica da estrutura celular bacteriana;

 Conhecer as diferentes funções dos componentes das células procariontes;

 Aprender a técnica de coloração de Gram;

 Diferenciar os tipos de parede celular bacteriana;

 Entender o processo de multiplicação bacteriana;

 Identificar em que condições as bactérias produzem esporos.

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Microbiologia

Unidade 2 – Metabolismo e genética bacteriana

Na segunda unidade, iremos conhecer os processos que a bactéria utiliza para


obter energia e caracterizar sua genética.

Objetivos:

 Conhecer os elementos essenciais para o metabolismo bacteriano;

 Compreender os processos que a bactéria utiliza para obter energia;

 Entender o fluxo genético da célula bacteriana;

 Diferenciar os tipos de transferência genética entre bactérias.

Unidade 3 - Fatores de agressão bacteriana, análise laboratorial e


antibacteriana.

Na unidade 3 conheceremos as características bacterianas de virulência, as


técnicas mais utilizadas para o diagnóstico laboratorial em bacteriologia e o
mecanismo de ação de alguns antibióticos.

Objetivos:

 Compreender como as bactérias promovem agressão no hospedeiro;

 Compreender como são realizadas a esterilização e a desinfecção de


materiais;

 Conhecer as principais técnicas empregadas no diagnóstico laboratorial de


bactérias;

 Entender quando cada método diagnóstico deve ser aplicado;

 Identificar as diversas formas de ação dos antibióticos.

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Microbiologia

Unidade 4 - Propriedades gerais dos vírus

Na unidade 4, estudaremos a estrutura viral e como os vírus se multiplicam.

Objetivos:

 Conhecer a nomenclatura principal associada à virologia;

 Identificar as estruturas que compõem a partícula viral;

 Compreender as diferentes etapas da replicação viral.

Unidade 5: Patogênese das infecções virais e diagnóstico laboratorial das


viroses.

Nesta unidade, veremos alguns aspectos da patogênese das infecções


promovidas por vírus e as principais técnicas diagnósticas em virologia.

Objetivos:

 Compreender como os vírus são transmitidos e disseminados;

 Conhecer as exigências para que uma infecção viral ocorra;

 Diferenciar os padrões e períodos da infecção viral;

 Identificar as diversas técnicas utilizadas no diagnóstico laboratorial em


virologia.

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Microbiologia

Unidade 6: Micologia: uma visão geral

Na unidade 6, estudaremos as características da célula fúngica, a patogênese


das infecções por fungos e o diagnóstico laboratorial das micoses.

Objetivos:

 Conhecer as estruturas que compõem a célula fúngica;

 Compreender como os fungos se multiplicam;

 Identificar as diversas características do fungo que podem levar ao


surgimento de doenças;

 Conhecer algumas técnicas laboratoriais aplicadas no diagnóstico das


micoses.

Bons estudos!

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Microbiologia

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Introdução à Microbiologia:
Aspectos Gerais da Célula
Bacteriana

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Microbiologia

Em nossa primeira unidade vamos estudar a estrutura das células procariontes,


aprender um pouco sobre a coloração de Gram e compreender como as bactérias
se multiplicam e formam esporos.

Objetivos da unidade:

 Compreender a composição básica da estrutura celular bacteriana;

 Conhecer as diferentes funções dos componentes das células procariontes;

 Aprender a técnica de coloração de Gram;

 Diferenciar os tipos de parede celular bacteriana;

 Entender o processo de multiplicação bacteriana;

 Identificar em que condições as bactérias produzem esporos.

Plano da unidade:

 A célula bacteriana, sua multiplicação e formação de esporos

 Microbiologia: uma introdução

 Aspectos gerais da célula bacteriana

 Divisão celular bacteriana

 Esporos bacterianos

 Concluindo

Bons estudos!

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Microbiologia

A célula bacteriana, sua multiplicação e formação de


esporos

1.Microbiologia: uma introdução

O mundo microbiano que o biólogo holandês Anton van Leeuwenhoek


observou em uma gota de água, em 1674, através de suas lentes de microscópio,
viria a ser, mais tarde, estudado com detalhes e grande interesse. Conforme a
variedade grandiosa de seres microscópicos é estudada, pode-se conhecer melhor
a origem das doenças infecciosas, bem como as formas de preveni-las, desenvolver
antimicrobianos e técnicas diagnósticas, compreender processos epidemiológicos.

A microbiologia é o ramo da ciência que estuda os seres microscópicos. Tais


seres podem ser divididos em 4 grupos gerais: bactérias, vírus, fungos e
determinados parasitas. Cada grupo apresenta seu próprio grau de complexidade.

2.Aspectos gerais da célula bacteriana

Comparando células eucariontes e procariontes

Todos os organismos vivos da Terra podem ser compostos por apenas um dos
dois tipos de células existentes: células procariontes e eucariontes.

As células procariontes exibem características como núcleo não delimitado


por membrana, ausência de organelas membranares e cromossomo diferenciado.
Todas as bactérias e algas cianofíceas são células procariontes.

As células eucariontes possuem núcleo delimitado por uma membrana


(carioteca), além de diversas organelas, tais como retículos endoplasmáticos liso e
rugoso, aparelho de Golgi, dentre outras (Tabela 1.1).

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Microbiologia

Figura 1.1: Principais características de células procariontes (A) e eucariontes (B). (MURRAY, P.R.,
ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 10)

As bactérias apresentam tamanho muito pequeno e sua unidade de medida


encontra-se na casa dos micrômetros (μm).

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Microbiologia

Tabela 1.1: Principais características das células eucariontes e procariontes.


(MURRAY, P.R., ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 11)

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Microbiologia

O formato e a disposição espacial das bactérias

Dependendo de sua forma (figura 1.2), as bactérias podem ser classificadas em


cocos, bacilos ou bastonetes, espirilos, espiroquetas e vibrios:

 Cocos: células de formato esférico.

 Bacilos ou bastonetes: células alongadas, de formato cilíndrico. Algumas


bactérias podem apresentar comprimento semelhante à largura sendo assim
denominadas cocobacilos. A identificação do cocobacilo deve ser realizada
de forma cuidadosa.

 Vibrios: células curvadas, em formato de "vírgula".

 Espirilos: apresentam formato helicoidal ou espiral rígido.

 Espiroquetas: células em forma de espiral tortuosa.

As bactérias podem se apresentar em arranjos ou agrupamentos celulares


característicos. O tipo de arranjo depende do plano no qual as bactérias se
dividem, bem como da tendência de ligação entre bactérias-filhas.

Figura 1.2: Morfologia bacteriana: 1- Coco, 2- Bacilo, 3- Vibrio, 4- Espirilo e 5-


Espiroqueta. (KUMAR, S., 2012, p. 19)

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Microbiologia

A disposição espacial dos cocos (figura 1.3) é classificada em:

 Diplococos: cocos dispostos em pares.

 Cadeias: cocos formando longas fileiras (por exp.: Estreptococos).

 Agrupamentos semelhantes a cachos de uva: cocos agrupados aleatoriamente


(por exp.: Estafilococos)

 Tétrades: grupos de 4 células, formando, espacialmente, um "quadrado".

 Arranjos cúbicos: grupos de 8 cocos, formando, espacialmente, um "cubo".

Os bacilos, por sua vez, assumem uma variedade limitada de arranjos, como o
de cadeia (Estreptobacilos) e de diplobacilos.

Figura 1.3: Disposição espacial dos cocos: 1- em cadeia, 2, 3, 4 e 5- diplococos, 6-


tétrades, 7- arranjos cúbicos e 8- agrupamentos em "cachos de uva". (KUMAR, S.,
2012, p. 20)

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Microbiologia

A estrutura bacteriana

Componentes citoplasmáticos

O citoplasma bacteriano contém várias estruturas, como DNA, RNA


mensageiro (RNAm), ribossomos, produtos do metabolismo e proteínas.

Grande parte do material genético bacteriano encontra-se organizada em um


único cromossomo, diferentemente dos eucariontes. Esse cromossomo trata-se de
uma fita dupla e circular de DNA e o local em que se encontra, na célula
procarionte, é denominado nucleoide. Outra diferença em relação à célula
eucarionte é que nesse material genético não são encontradas histonas. A ausência
de membrana nuclear agiliza o processo de síntese de proteínas, havendo
acoplamento da transcrição e da tradução, ou seja, os ribossomos se ligam
livremente ao RNAm, fazendo com que as proteínas sejam sintetizadas à medida
que esse RNA é formado.

Outra estrutura que pode estar presente no citoplasma bacteriano é


denominada plasmídeo. Os plasmídeos são moléculas menores de DNA circular
extracromossomal. Essas formas genéticas podem ser compartilhadas entre
bactérias podendo conferir-lhes vantagens como, por exemplo, resistência a um ou
mais antibióticos.

O citoplasma bacteriano possui ribossomos em grande quantidade, a


concentração dessas estruturas é tão alta que acaba conferindo uma característica
granular a esse citoplasma. O ribossomo bacteriano é formado pelas subunidades
30S+50S, originando o ribossomo 70S (o ribossomo eucarionte é 80S - 40S+60S). As
proteínas e o próprio RNA ribossômico são diferentes dos contidos nos eucariotos,
o que os torna alvos em potencial para a ação dos antibióticos.

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Microbiologia

Figura 1.4: Esquema representando as estruturas celulares de bactérias Gram


positivas e Gram negativas. (MURRAY, P.R., ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p.
10)

Por fim, o citoplasma bacteriano é preenchido por uma substância aquosa,


espessa e semitransparente. Essa substância é constituída, em sua maioria, por
água, mas também possui proteínas, carboidratos, lipídios, íons. Nela também
podem ser encontrados produtos do metabolismo bacteriano.

Envoltórios bacterianos

Membrana citoplasmática

A membrana citoplasmática da célula procarionte apresenta uma bicamada


lipídica semelhante à de células eucariontes, no entanto, não possui colesterol (os
micoplasmas são exceção a essa regra). Além de lipídios, esse envoltório contém
proteínas transportadoras para captura e liberação de substâncias, bombas iônicas,
para a manutenção do potencial de membrana e enzimas.

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Microbiologia

Funções da membrana plasmática:

I- Permeabilidade seletiva: controle da passagem de metabólitos

II- Ação enzimática: na membrana encontram-se enzimas que participam da


síntese de componentes celulares bem como da secreção de substâncias.

III- Monitoramento de mudanças químicas e físicas através de proteínas


quimiotáticas e sensoriais.

IV- Participação na geração de energia química (ATP)

V- Motilidade celular

VI- Mediação da segregação cromossômica durante a multiplicação.

Figura 1.5: Esquema representativo da membrana plasmática bacteriana. A


parte interna está voltada para o citoplasma e a parte externa para o meio
extracelular. (MADIGAN, MARTINKO, PARKER, 2008, p. 63)

 Parede celular

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Microbiologia

A estrutura e os componentes da parede celular bacteriana permitem a


diferenciação das mesmas em Gram positivas ou Gram negativas. A maioria das
células procariontes possui camada(s) de peptideoglicano (mureína) na parede
celular, o que confere rigidez a esse componente.

Funções da parede celular:

I- Dar forma e rigidez à célula procarionte;

II- Dar suporte à membrana plasmática para que a célula suporte a alta pressão
osmótica interna;

III- Manter o formato característico da bactéria;

IV- Auxiliar a divisão celular;

V- Auxiliar no processo de interação com outras bactérias e células animais;

VI- Disponibilizar receptores protéicos e açúcares.

A coloração de Gram

O método de coloração de Gram é utilizado em larga escala como parte do


diagnóstico laboratorial de quadros associados a infecções bacterianas.

A técnica é simples e permite a diferenciação de bactérias Gram positivas e


negativas de acordo com a coloração que as mesmas adquirem como resultado do
método. A observação de determinada cor, após visualização em microscópio
óptico, implica informações a respeito da constituição da parede celular da
bactéria em questão. Bactérias coradas com roxo são denominadas Gram positivas
e aquelas coradas com rosa/vermelho são Gram negativas.

Descrição da técnica de coloração de Gram:

1- Sob condições adequadas, realizar o esfregaço bacteriano em lâmina estéril.

2- Cobrir o esfregaço com violeta-de-metila ou cristal violeta e deixar o corante


agir por aproximadamente 1 minuto;

3- Lavar rapidamente em água destilada;

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Microbiologia

4- Cobrir a lâmina com lugol (mordente) e deixar agir por cerca de 1 minuto;

5- Lavar rapidamente em água destilada;

6- Lavar a lâmina com álcool etílico (99,5º GL); descorando-a, até que não se
desprenda mais corante (aproximadamente 15 segundos)da mesma;

7- Lavar em água destilada;

8- Cobrir a lâmina com safranina ou fucsina e deixar agir por


aproximadamente 30 segundos;

9- Lavar em água;

10- Deixar a lâmina secar ao ar livre, ou seque-a suavemente, com o auxílio de


um papel de filtro limpo;

11- Colocar uma gota de óleo de imersão sobre o esfregaço;

12- Visualizar a lâmina na objetiva de imersão (100 X) de um microscópio


óptico.

A coloração de Gram não somente permite a classificação bacteriana de


acordo com os componentes de parede celular como também possibilita a
caracterização da morfologia da bactéria, o que facilita a identificação da mesma.

Figura 1.6: Esquema representativo da técnica de coloração de Gram.


(MURRAY, P.R., ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 12)

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Microbiologia

Bactérias que possuem paredes celulares atípicas ou não as possuem poderão


não ser bem coradas através da técnica de Gram, exigindo o uso de métodos
alternativos a esse.

Bactérias Gram positivas

A bactéria Gram positiva é aquela que se cora de roxo ao final da coloração de


Gram. Sua parede celular (figura 1.7) é constituída por uma espessa camada de
peptideoglicano, esse composto é similar ao exoesquelo dos insetos e é poroso o
suficiente para permitir a passagem de substâncias para a membrana plasmática.

Figura 1.7: Diagrama ilustrativo da parede celular bactérias Gram positivas. A


parede celular encontra-se representada na parte superior da membrana
plasmática. (MADIGAN, MARTINKO, PARKER, 2008, p. 72)

O peptideoglicano é fundamental para a estrutura, a multiplicação e a


sobrevivência a condições hostis por parte das bactérias, no entanto, pode ser
degradado por uma enzima denominada lisozima. A lisozima pode ser encontrada

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Microbiologia

na lágrima e no muco humanos. A remoção dos peptideoglicanos promove a lise


bacteriana, já que a célula é desestabilizada osmoticamente.

As bactérias Gram positivas incluem em sua parede celular, além dos


peptideoglicanos, os ácidos teicoico e lipoteicoico, e polissacarídeos complexos. O
ácido teicoico é essencial para a viabilidade celular, já que se encontra ligado
covalentemente aos peptideoglicanos. O ácido lipoteicoico contém um ácido
graxo e ancora-se à membrana plasmática. Ambos os ácidos podem agir como
toxinas e são ativadores da resposta imunológica.

Bactérias Gram negativas

A parede celular da bactéria Gram negativa (figura 1.8) é bem diferente da


presente na Gram positiva. Ela é bem mais complexa e é constituída por uma
camada de peptideoglicanos e uma membrana externa, entre esses dois estratos
está o espaço periplasmático.

Os peptideoglicanos estão presentes nessa parede celular formando uma fina


camada, eles encontram-se ligados a lipoproteínas da membrana plasmática e da
membrana externa.

O espaço periplasmático encontra-se preenchido por um fluido em gel que


contém uma alta concentração de enzimas e proteínas transportadoras.

As lipoproteínas ligam-se aos peptideoglicanos por sua porção protéica e à


membrana por sua porção lipídica, elas estabilizam a membrana externa e se
ancoram à camada de peptideoglicanos.

A membrana externa pode ser encontrada mais externamente à camada de


peptideoglicanos. Sua constituição é de uma bicamada, a parte interna é formada
por fosfolipídios e a externa por lipopolissacarídeos (LPS).

Funções da membrana externa:

I- Barreira protetora: previne ou retarda a entrada de sais, antibióticos e outras


toxinas que podem promover danos à bactéria;

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Microbiologia

II- Proteínas transmembrana ou porinas: além do LPS, a membrana externa


também contém várias proteínas fundamentais para o transporte seletivo de
nutrientes para a célula.

O lipopolissacarídeo, um componente exclusivo de parede celular de bactérias


Gram negativas, é uma molécula complexa e importante ativadora da resposta
imunológica. Uma vez no organismo humano, o LPS age como endotoxina e
promove os mais diversos efeitos no hospedeiro, podendo variar de febre ao
choque e à morte do indivíduo.

Figura 1.8: Diagrama ilustrativo da parede celular das bactérias Gram


negativas. A parede celular encontra-se situada mais externamente à membrana
plasmática. (MADIGAN, MARTINKO, PARKER, 2008, p. 75)

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Microbiologia

- Cápsula

Muitas bactérias sintetizam uma grande quantidade de polímeros extracelulares,


quando esses polímeros formam uma camada condensada e bem definida, ela é
denominada cápsula.

A cápsula é geralmente composta por polissacarídeos, algumas bactérias


apresentam cápsula polipeptídica.

Funções da cápsula:

I- Fator de virulência: cápsulas podem proteger as bactérias da fagocitose;

II- Proteção da parede celular: a cápsula pode proteger a parede celular de


diversos agentes antibacterianos, como bacteriófagos, sistema complemento e
enzimas líticas;

III- Identificação e tipificação bacteriana: o antígeno capsular é específico para


cada bactéria e pode ser utilizado para a identificação da mesma.

Estruturas externas

-Flagelo

As bactérias móveis possuem um ou mais filamentos longos e sinuosos,


denominados flagelos. Os flagelos são estruturas que conferem à bactéria a
capacidade de locomoção.

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Microbiologia

Figura 1.9: Flagelos bacterianos em números diversos em bactérias distintas


(MADIGAN, MARTINKO, PARKER, 2008, p. 77 e 78).

A estrutura do flagelo é descrita como filamentos helicoidais longos,


geralmente bem mais compridos que a célula em si. Ela consiste em uma base
protéica, a flagelina, a qual pertence ao mesmo grupo químico da miosina, a
proteína contrátil dos músculos.

Os flagelos podem estar presentes em bacilos Gram positivos e negativos. A


maioria dos cocos é imóvel, enquanto metade dos bacilos e quase todos os
espirilos possuem flagelos.

Fímbrias (pili)

Estruturas semelhantes a pelos, as fímbrias estão situadas na superfície externa


da bactéria. Elas diferem dos flagelos pelo tamanho reduzido e são formadas por
subunidades de proteínas denominadas pilinas.

As fímbrias promovem adesão da bactéria a outras bactérias ou ao hospedeiro,


elas estão associadas, inclusive, à conjugação, tipo de troca genética que ocorre
entre bactérias (este tema será abordado na unidade seguinte).

Exceções bacterianas

Algumas bactérias são exceções ao modelo estrutural celular visto até então,
as microbactérias, por exemplo, possuem uma camada de peptidoglicano ligada a

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Microbiologia

um polímero diferenciado e envolta por uma cobertura lipídica (ácido micólico,


fator corda, cera D e sulfolipídeos). As micobactérias são consideradas álcool-ácido
resistentes e devem ser corados por uma técnica diferente da de Gram.

Os micoplasmas também são considerados exceções, já que não possuem


parede celular de peptideoglicano, além de incluírem esteroides do hospedeiro em
sua membrana.

Tabela 1.2: Comparativo dos constituintes celulares bacterianos. (MURRAY, P.R.,


ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 12)

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Microbiologia

3.Divisão celular bacteriana

Para que as bactérias se multipliquem, a duplicação do cromossomo


bacteriano dispara a divisão celular. Após a duplicação cromossômica, deve haver o
crescimento e a extensão dos componentes da parede celular, seguidos da
produção de um septo que separe a célula única em duas células-filhas.

A divisão incompleta dos septos pode determinar a disposição espacial das


bactérias (em cadeia, em cachos de uva etc.).

Figura 1.10: Esquema representativo da divisão bacteriano, processo iniciado


pela duplicação do cromossomo bacteriano. (MADIGAN, MARTINKO, PARKER, 2008,
p. 129)

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Microbiologia

4.Esporos bacterianos

Algumas bactérias Gram positivas têm como característica a produção de


esporos (figura 1.11). Essas estruturas representam um estado de dormência, no
qual a bactéria pode entrar em casos de condições inóspitas, como privação
nutricional.

Os esporos possuem vários envoltórios e são desidratados, o que permite que


a bactéria persista no ambiente desfavorável. Além dessa capa, a estrutura contém
uma cópia do cromossomo, quantidades mínimas de ribossomos e proteínas. O
revestimento do esporo inclui uma membrana interna, 2 camadas de
peptideoglicano e 1 envoltório protéico externo semelhante à queratina.

Figura 1.11: Etapas da formação do esporo ou endósporo (MURRAY, P.R.,


ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 21).

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Microbiologia

Nesta unidade iniciamos o estudo da microbiologia, bem como conhecemos


os componentes da célula bacteriana. Na próxima unidade veremos como as
bactérias obtêm energia para seus processos metabólicos e como seu material
genético pode variar, o que implica a possibilidade de modificação das estruturas
celulares procariontes.

É hora de se avaliar

Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão


ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de
ensino-aprendizagem.

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Microbiologia

Exercícios – unidade 1

1.Estruturas filamentosas, de natureza protéica, responsáveis pela locomoção


bacteriana:

a) Fímbrias

b) Flagelos

c) Cílios

d) Pili

e) Cápsula

2.A parede celular é uma estrutura externa à membrana plasmática e é


importante para os organismos microbianos. Cada grupo de organismos tem
peculiaridades na estrutura de sua parede celular. Assim, a opção que apresenta,
respectivamente, os componentes exclusivos de parede de bactéria Gram-positiva
e Gram-negativa é:

a) ácido teicoico e peptideoglicano.

b) ácido teicoico e mananas.

c) peptideoglicano e membrana externa fosfolipídica.

d) ácido teicoico e lipopolissacarídeo .

e) peptideoglicano e enzimas

3.Em relação à estrutura física de bactérias, o grupo que se divide em dois ou


três planos e permanece unido em grupos cúbicos de oito indivíduos é chamado:

a) Estafilococos.

b) Sarcina.

c) Estreptococos.

d) Diplococos.

e) Diplobacilo

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Microbiologia

4.Em condições adversas, as bactérias podem formar internamente uma


estrutura altamente resistente ao calor, falta de água e agentes físicos e químicos.
Esta estrutura se chama:

a) Flagelo

b) Esporo ou endósporo

c) Ácido teicoico

d) Lipopolissacarídeo

e) Pili

5.A coloração pelo método de Gram identifica as bactérias gram-positivas por


apresentarem em sua parede celular, em relação às gram-negativas, um maior
percentual de:

a) Lipídeos;

b) Proteínas citosólicas;

c) Proteínas nucleares;

d) Peptideoglicanos;

e) Carboidratos.

6.Para que a divisão bacteriana seja deflagrada, o processo inicial é:

a) Formação do septo celular;

b) Alongamento da célula bacteriana;

c) Intensa síntese de proteínas;

d) Bipartição da parede celular;

e) Duplicação do cromossomo bacteriano.

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Microbiologia

7.Dentre as funções da cápsula bacteriana encontra-se:

a) Deflagração de transferência de material genético entre células bacterianas;

b) Locomoção;

c) Adesão a superfícies;

d) Informação para síntese de proteínas;

e) Produção de enzimas metabólicas.

8.Qual das opções a seguir apresenta termos associados exclusivamente a


bactérias?

a) eucarionte, cromossomo único, formato helicoidal

b) procarionte, cromossomo único, plasmídeos

c) intracelular obrigatório, procarionte, presença de aparelho de Golgi

d) levedura, hifa, procarionte

e) eucarionte, levedura, filamentoso

9- Ao realizar a coloração de Gram em uma amostra bacteriana, observou-se


bactérias de cor roxa. O que isso significa em relação à estrutura das bactérias em
questão?

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Microbiologia

10- Faça um comparativo entre células eucariontes e procariontes.

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38
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2 Metabolismo e
Genética Bacterianos

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Microbiologia

Nesta unidade, estudaremos os processos empregados pela bactéria para


obter energia e como seu material genético pode sofrer variações.

Objetivos da unidade:

 Conhecer os elementos essenciais para o metabolismo bacteriano;

 Compreender os processos que a bactéria utiliza para obter energia;

 Entender o fluxo genético da célula bacteriana;

 Diferenciar os tipos de transferência genética entre bactérias.

Plano da unidade:

 As características metabólicas e genéticas da bactéria

 O metabolismo das bactérias

 Ciclo de crescimento bacteriano

 Genética bacteriana

Bons estudos!

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Microbiologia

As características metabólicas e genéticas da bactéria

1.O metabolismo das bactérias

Exigências do metabolismo bacteriano

Para que as bactérias se multipliquem são necessárias fontes de energia e


matéria-prima para a síntese de proteínas, estruturas e membranas que formam a
célula procarionte.

As bactérias diferem quanto às exigências metabólicas, algumas, ditas


fastidiosas, requerem insumos metabólicos específicos para seu desenvolvimento.
No entanto, de forma geral, as células procariontes precisam obter ou sintetizar
aminoácidos, carboidratos e lipídios a fim de empregá-los na formação celular.

O requisito mínimo para o crescimento é uma fonte de carbono e nitrogênio,


uma fonte de energia, água e vários íons. Logo, existem elementos que são
fundamentais para todas as bactérias.

Quadro 2.1: Elementos fundamentais para o metabolismo bacteriano geral.

Elementos essenciais para o metabolismo bacteriano

 Componentes de enzimas (Fe, Zn, Mn, Mo, Se, Co, Cu, Ni)

 Componentes de proteínas, lipídios e ácidos nucléicos (C, O, H, N, S, P)

 Íons fundamentais (K, Na, Mg, Ca, Cl)

Considerando a necessidade de oxigênio, as bactérias podem ser classificadas


como:

I- Anaeróbios obrigatórios: quando o oxigênio age como veneno para a célula


bacteriana. Os anaeróbios obrigatórios se desenvolvem apenas na ausência do gás,
um exemplo dessa categoria inclui o Clostridium perfringens, causador da
gangrena gasosa.

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Microbiologia

II- Aeróbios obrigatórios: bactérias que exigem a presença de oxigênio


molecular para seu metabolismo e crescimento, sem o gás a célula procarionte
entra em colapso e não sobrevive. A Mycobacterium tuberculosis, que causa a
tuberculose, é considerada um aeróbio obrigatório.

III- Anaeróbios facultativos: bactérias que crescem tanto na presença como na


ausência de oxigênio. A maioria das bactérias pertence a essa categoria.

De acordo com as exigências metabólicas bacterianas, e os produtos


excretados pelas mesmas, pode-se classificar as bactérias, o que é essencial para a
identificação laboratorial desses microrganismos. Testes laboratoriais conseguem
determinar quais substratos as bactérias utilizam para a obtenção de energia (p.
exemplo lactose), bem como quais substâncias secretam (p. exemplo etanol, ácido
lático, ácido succínico).

As bactérias que utilizam substâncias químicas inorgânicas como fonte de


energia e carbono são ditas autotróficas (litotróficas), as que necessitam de fontes
orgânicas são denominadas heterotróficas (organotróficas).

Obtenção de energia

Para que sobrevivam, todas as células necessitam de energia, até mesmo as


procariontes. A unidade básica de energia utilizada por elas é a adenosina trifosfato
(ATP), obtida a partir da quebra de vários substratos orgânicos (carboidratos,
lipídios e proteínas).

A parte do metabolismo em que ocorre a quebra de um substrato para a


obtenção energia é conhecida como catabolismo. Então, a energia produzida pode
ser utilizada para a síntese de componentes estruturais da célula procarionte, como
material genético, lipídios, proteínas), processo denominado anabolismo

A obtenção de energia começa com a quebra de macromoléculas presentes


no meio externo à bactéria, através de enzimas específicas. Essas macromoléculas
são, então, reduzidas a moléculas menores (monossacarídeos, peptídeos curtos e
ácidos graxos). As micromoléculas são transportadas através da membrana celular
para o interior da bactéria, onde podem ser metabolizadas para a geração de
energia (ATP).

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Microbiologia

Quadro 2.2: Micromoléculas necessárias aos seres vivosa. ((MADIGAN,


MARTINKO, PARKER, 2008, p. 98)
Elemento Função Celular
Cromo (Cr) Requerido por mamíferos no metabolismo da glicose; microrganismos não o necessitam.
Cobalto (Co) Vitamina B12; transcarboxilase (bactérias que metabolizam ácido propiônico).
Cobre (Cu) Respiração; citocromo c oxidase; fotossíntese; plastocianina e algumas superóxido dismutases.
Manganês (Mn) Ativador de muitas enzimas; presente em certas superóxido dismutases e na enzima que cliva a
água, em fototróficos oxigênicos (Fotossistema II).
Molibdênio (Mo) Certas enzimas contendo flavina; nitrogenase, nitrato redutase, sulfito oxidase, DMSO-TMAO
redutases e algumas formato desidrogenases.
Níquel (Ni) Maioria das hidrogenases; coenzima F430 de metanogênicos; monóxido de carbono
desidrogenase; urease.
Selênio (Se) Formato desidrogenase; algumas hidrogenases; no aminoácido selenocisteína.
Tungstênio (W) Algumas formato desidrogenases; oxotransferases de hipertermófilos.
Vanádio (V) Vanádio nitrogenase; bromoperoxidase.
Zinco (Zn) Anidrase carbônica; álcool desidrogenase; RNA e DNA polimerases e muitas proteínas de ligação
ao DNA.
Ferro (Fe)* Citocromos; catalases; peroxidases; proteínas contendo ferro e enxofre; oxigenases; todas as
nitrogenases.

As moléculas obtidas do meio externo são metabolizadas, através de vias


diversas, até um intermediário comum, o piruvato ou ácido pirúvico. Esse
composto pode ser utilizado para obtenção de energia ou síntese de novos
elementos. Para maiores detalhes sobre as reações bioquímicas que promovem a
geração de energia, é aconselhada a consulta de um livro de bioquímica.

 Metabolismo da Glicose (Via Embden-Meyerhof-Parnas)

As bactérias quebram a glicose através de diversas etapas para a geração de


energia. São três as principais vias de catabolismo da glicose, a mais comum é a
glicolítica (figura 2.1), ou via de Embden-Meyerhof-Parnas (EMP), orientada para a
conversão de glicose em piruvato.

A via glicolítica ocorre tanto na presença quanto na ausência de oxigênio. Ela


se inicia com a ativação da glicose para a síntese de glicose-6-fosfato. O saldo
energético líquido da via glicolítica é de 2 moléculas de ATP (são geradas, no total,

4 moléculas de ATP por glicose utilizada na via, no entanto, duas dessas


moléculas são empregadas na formação dos compostos intermediários do
processo). No final da via há geração de piruvato.

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Microbiologia

Figura 2.1: Esquema representativo da via glicolítica. Ao final dessa via é


obtido um saldo energético líquido de duas moléculas de ATP. (MURRAY, P.R.,
ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 24).

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Microbiologia

Fermentação

Em condições anaeróbias (ausência de oxigênio), o piruvato gerado pela


glicólise, é empregado na fermentação. Nesse processo, o ácido pirúvico é
convertido a vários produtos finais, dependendo da espécie bacteriana. São
geradas, nessas reações, duas moléculas de ATP por glicose.

A fermentação lática é a mais comum dentre as bactérias, já a alcoólica é


observada com menos frequência. A conversão do ácido pirúvico em ácido lático é
útil para a produção de iogurte e chucrute. Outras bactérias, através da
fermentação, produzem álcoois, ácidos e gases frequentemente malcheirosos;
esses produtos podem dar sabor a alguns queijos e vinhos, além de odores
desagradáveis a feridas.

Figura 2.2: Fermentação do ácido pirúvico por diversas bactérias. (MURRAY,


P.R., ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 25).

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Microbiologia

 Ciclo dos ácidos tricarboxílicos

Em condições aeróbias (presença de oxigênio), o piruvato é completamente


metabolizado a água e gás carbônico, processo denominado ciclo dos ácidos
tricarboxílicos.

O ciclo dos ácidos tricarboxílicos é muito mais eficiente, em termos de geração


de energia, do que a fermentação, podendo gerar até 38 moléculas de ATP. O ciclo
também permite que carbonos derivados de lipídios sejam empregados na
produção de energia e geração de produtos. Aminoácidos desaminados também
podem entrar no ciclo.

As vantagens do ciclo dos ácidos tricarboxílicos incluem a eficiência de


geração de energia, a oxidação completa de aminoácidos, carboidratos e ácidos
graxos, e a utilização de produtos intermediários para a síntese de outros
compostos (lipídios, aminoácidos).

Figura 2.3: O ciclo dos ácidos tricarboxílicos (MURRAY, P.R., ROSENTHAL, K.S.,
PFALLER M.A., 2009, p. 25).

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Microbiologia

2- Ciclo de crescimento bacteriano

O crescimento bacteriano em um recipiente fechado permite a confecção de


uma curva representativa de dinâmica populacional (figura 2.4). Essa curva pode
ser dividida em 4 fases: lag, log ou exponencial, estacionária e declínio.

Figura 2.4: Curva de dinâmica populacional bacteriana (MURRAY, P.R.,


ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 32).

Fase lag

Quando uma população bacteriana é inserida em um novo meio de cultura,


ela não se multiplica imediatamente, primeiramente passa por um período de
ajuste. Essa fase, em que as bactérias estão se adaptando ao novo meio, é
denominada fase lag.

Fase log ou exponencial

A fase log ou exponencial é marcada pela divisão da célula bacteriana em


duas, promovendo o aumento da população microbiana no meio de cultura.
Normalmente, durante essa fase, as bactérias estão em condições mais "saudáveis",
portanto as que se encontram na metade dessa etapa são utilizadas em estudos
enzimáticos e de componentes celulares.

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Microbiologia

A taxa de crescimento da fase exponencial é influenciada por fatores


ambientais (temperatura, disponibilidade de nutrientes) e por condições do
próprio microrganismo.

Fase estacionária

O crescimento bacteriano exponencial, provavelmente, não acontecerá


indefinidamente. A multiplicação bacteriana é limitada geralmente pelo consumo
de um elemento essencial do meio de cultura e pela excreção de metabólitos
possivelmente tóxicos, por parte dos próprios microrganismos. O momento em
que ocorre a interrupção do crescimento bacteriano marca a fase estacionária.

Na fase estacionária observa-se que não há mais aumento líquido do número


de bactérias no meio de cultura. Algumas células podem continuar a se dividir
menos intensamente, no entanto, outras já estão morrendo.

Declínio

A população bacteriana da fase estacionária, ao permanecer nas mesmas


condições, pode continuar viva metabolizando ou morrer (declínio)

3- Genética bacteriana

O material genético bacteriano é composto pelo cromossomo e eventuais


plasmídeos que a célula bacteriana possa conter. Os genes, que compõem esse
material genético, são sequências de nucleotídeos que apresentam alguma função
biológica.

Expressão gênica

A expressão gênica da célula bacteriana envolve, assim como nos eucariontes,


dois processos separados, mas que se inter-relacionam, a transcrição e a tradução.

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Microbiologia

Quadro 2.4: Alguns fenótipos que os plasmídeos podem conferir à célula


bacteriana (MADIGAN, MARTINKO, PARKER, 2008, p. 272).
Classe fenotípicaa Organismosb
Produção de antibióticos Streptomyces
Conjugação Escherichia, Pseudomonas, Rhizobium,
Staphylococcus, Streptococcus, Sulfolobus, Vibrio
Funções fisiológicas
Degradação de octano, cânfora, naftaleno Pseudomonas
Degradação de herbicidas Alcaligenes
Formação de acetona e butanol Clostridium
Utilização de lactose, sacarose ou uréia e fização de Bactérias entéricas
nitrogênio
Nodulação e fixação simbiótica de nitrogênio Rhizobium
Produção de pigmentos Erwinia, Staphylococcus
Resistência
Resistência a antibióticos Campylobacter, Bactérias entéricas, Neisseria,
Staphylococcus
Resistência a cádmio, cobalto, mercúrio, níquel e/ou zinco Acidocella, Alcaligenes, Listeria, Pseudomonas,
Staphylococcus
Resistência à bacteriocina (e produção) Bacillus, Bactérias entéricas, Lactococcus,
Propionibacterium
Virulência
Invasão da célula hospedeira Salmonella, Shigella, Yersinia
Coagulase, hemolisina, enterotoxina Staphylococcus
Enterotoxina, antígeno K Escherichia
Tumorigenicidade em plantas Agrobacterium
a
Apenas alguns dos fenótipos diretamente associados aos plasmídeos estão listados.
b
Apenas alguns dos exemplos bem caracterizados estão listados. Todos os organismos
citados pertencem ao domínio Bacteria, exceto Sulfolobus, que é um membro de Archaea.

A transcrição envolve a síntese de RNA a partir de um molde de DNA, através


de uma RNA polimerase, para que, posteriormente, sejam sintetizadas proteínas. A
tradução é o processo de decodificação do RNAm, para que as proteínas sejam
formadas

A tradução requer 3 componentes principais, RNAm, ribossomos e RNAt


(transportador), além de várias proteínas acessórias. O RNAm (mensageiro) é uma
cópia temporária de informação genética, ele carrega a informação para a síntese
de proteínas específicas. Os ribossomos são os locais para que a tradução ocorra,

49
Microbiologia

facilitando a ligação de um aminoácido a outro. O RNAt se movimenta através da


molécula de RNAm, transportando os aminoácidos para que o polipeptídeo seja
formado.

Considerando, ainda, o controle da expressão gênica, as bactérias


desenvolveram mecanismos para se adaptar de forma eficiente às mudanças e
desafios do ambiente. Elas apresentam mecanismos para coordenar e regular a
expressão de genes. Por exemplo, uma mudança de temperatura pode significar
entrada em um hospedeiro humano e indicar a do aumento da expressão de genes
que contenham informações para o parasitismo ou para a virulência. Assim como a
falta de nutrientes, e condições inóspitas, podem fazer com que algumas bactérias
expressem genes relacionados à síntese de esporos.

Outra característica interessante do material genético bacteriano é a presença


de transposons (genes “saltadores”), sequências de DNA móveis que mudam de
uma posição do genoma para outra ou entre diferentes moléculas de DNA (por
exemplo, de plasmídeo para outro plasmídeo ou de plasmídeo para o
cromossomo). Os transposons são encontrados tanto em procariontes quanto em
eucariontes, seu tamanho pode variar de 150 a 1.500 pares de base e a sequência
genética contém a informação mínima necessária para o deslocamento. Esses
elementos móveis podem tanto carregar a informação para resistência a
antibióticos, como se inserir em posições genômicas que levem à inativação de
genes, levando a um resultado nem sempre benéfico para a bactéria.

Mutações e mutantes

Uma mutação é uma alteração, transmitida geneticamente, na sequência de


bases que compõem o código genético de um organismo. Uma linhagem em que
tal mudança esteja presente é denominada mutante. O mutante apresenta um
genótipo (conjunto de genes) diferente da linhagem parental, tal diferença pode
fazer com que suas propriedades observáveis (fenótipo) também estejam
alteradas.

Tipos de mutação

a) Mutação espontânea: ocorrem ao acaso, na ausência de agente


mutagênicos.

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Microbiologia

b) Mutação induzida: a frequência de mutações pode ser intensamente


aumentada na presente de agentes mutagênicos (quadro 2.4), sejam físicos ou
químicos.

Quadro 2.4: Exemplos de agente mutagênicos (MADIGAN, MARTINKO, PARKER,


2008, p. 255)
Agente Ação Resultado
Análogo de bases
5-Bromouracil Incorporado como T; ocasional pareamento Par AT  par GC Ocasionalmente
incorreto com G GCAT
2-Aminopurina Incorporado como A; pareamento incorreto com C AT  GC Ocasionalmente GCAT
Agentes químicos que reagem com o
DNA
Ácido nitroso (HNO2) Desaminação de A e C AT  GC e GC  AT
Hidroxilamina (NH2OH) Reage com C GC  AT
Agentes alquilantes
Monofuncionais (por exemplo, etil metano Adiciona um grupo metil em G; pareamento GC  AT
sulfonato) incorreto com T.
Bifuncionais (por exemplo, gás mostarda, Ligações cruzadas no DNA; regiões incorretas Tanto mutações pontuais como
mitomicina, nitrosoguanidina) excisadas pela DNase. deleções.
Corantes intercalantes
Acridinas, brometo de etídio Inserção entre dois pares de bases. Microinserções e microdeleções
Radiação
Ultravioleta Formação de dímeros de pirimidina O reparo pode levar a erros ou deleções
Radiação ionizante (por exemplo, Radicais livres podem atacar o DNA, quebrando O reparo pode levar a erros ou deleções
raios X) as fitas.

c) Mutações pontuais: as mutações pontuais afetam apenas um ponto (par de


base) do gene, elas podem envolver uma mudança ou substituição de um
diferente par de base. Além disso, esse tipo de mutação pode resultar em deleção
ou adição de par de base.

c.1) Substituições: quando um único nucleotídeo é substituído por outro. A


substituição é denominada transição quando a base é trocada por outra de mesma
natureza (por exemplo, uma purina por outra). Se uma purina for substituída por
uma pirimidina, a troca é chamada transversão.

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Microbiologia

c.2) Inserções ou deleções: nesse caso, as bases podem estar duplicadas,


inseridas adicionalmente em algum ponto do genoma ou subtraídas de alguma
posição gênica (figura 2.5).

Figura 2.5: Exemplos de tipos de mutação (modificado de KUMAR, S., 2012, p. 91).

Transferência genética entre células bacterianas

Outra forma pela qual as bactérias podem variar seu material genético é
através das trocas genéticas. Existem 3 mecanismos para que isso ocorra:
transformação, conjugação e transdução.

Transformação

A transformação (figura 2.6) é uma forma de troca genética em que as


bactérias podem capturar fragmentos de DNA livre, no meio extracelular, e
incorporá-los em seus genomas.

Esse processo foi o primeiro mecanismo de transferência descoberto em


bactérias. Tanto bactérias Gram positivas quanto Gram negativas podem capturar e
manter estável o DNA exógeno. Bactérias competentes são aquelas que
naturalmente são capazes de capturar DNA do meio extracelular, Haemophilus
influenzae, Streptococcus pneumoniae, Bacillus e Neisseria são exemplos de gêneros
e espécies bacterianas que são competentes.

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Microbiologia

A engenharia genética utiliza métodos químicos ou eletroporação (utilização


de impulsos elétricos) para fazer com que células bacterianas incorporem
plasmídeos e outros DNAs. A técnica é empregada, por exemplo, em
procedimentos de clonagem gênica, a qual possui os mais diversos objetivos, de
multiplicação de um determinado fragmento genômico à tentativa de expressão
de novas proteínas e estruturas na bactéria receptora do material genético.

Figura 2.6: Esquema representativo da transformação. Para que a troca ocorra,


uma bactéria sofre lise celular, liberando fragmentos de DNA. Uma segunda
bactéria incorpora esse DNA livre ao seu material genômico (MURRAY, P.R.,
ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 35).

Conjugação

A conjugação (figura 2.7) geralmente acontece entre microrganismos da


mesma espécie ou entre espécies relacionadas e já foi descrita entre procariontes e
células vegetais, animais e fúngicas.

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Microbiologia

A maior parte dos grandes plasmídeos conjugativos, aqueles que participam


da conjugação, codifica proteínas que conferem característica de resistência a
antibióticos.

A troca genética baseia-se na transferência, em apenas uma direção, de DNA


plasmidial de uma célula doadora (ou macho) para uma célula receptora (ou
fêmea) através de um canal denominado pilus sexual. Alguns plasmídeos
conjugativos, que carregam genes de resistência a antibióticos, característicos de
bactérias Gram positivas, podem ser transferidos de uma célula para outra através
de outras moléculas de adesão, ao invés do pili.

A célula doadora é aquela que possui o plasmídeo conjugativo, enquanto a


receptora não. Esse plasmídeo é assim denominado por transportar toda a
informação genética necessária para que seja transferido, processo que envolve a
produção dos pili sexuais e indução da síntese de DNA plasmidial.

54
Microbiologia

O DNA transferido é uma cópia de fita simples do plasmídeo conjugativo,


resultando na transferência de parte dessa sequência e de alguma porção do DNA
cromossômico bacteriano até que a frágil conexão entra as duas células se rompa.

Transdução

A transdução é a transferência genética mediada por vírus bacterianos


(bacteriófagos ou fagos).

A transferência ocorre quando os bacteriófagos infectam uma dada célula


bacteriana, ao transferirem seu material genético para o interior da célula
bacteriana, a multiplicação viral (replicação) ocorre dentro dessa célula. Ao se
formarem novas partículas virais, acidentalmente alguns desses fagos carregam
fragmentos genéticos da bactéria primeiramente infectada. Essas partículas virais
são liberadas e, ao infectarem uma nova célula bacteriana, acabam por transferir o
material genético da primeira bactéria para a segunda que, então incorpora esse
DNA ao seu próprio.

Figura 2.8: Esquema representativo da transdução (MURRAY, P.R., ROSENTHAL,


K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 35).

55
Microbiologia

A transferência genética pode ser classificada como especializada se os fagos


transferem genes específicos ou generalizada se a seleção de sequências é
aleatória, como resultado de um empacotamento acidental de DNA do hospedeiro.

Nesta unidade estudamos os mecanismos pelos quais as bactérias obtêm


energia. Refletimos sobre o fluxo genético bacteriano, bem como sobre as trocas
genéticas realizadas por essas bactérias . Na próxima unidade veremos como pode
ser realizado o diagnóstico laboratorial das infecções bacterianas e conheceremos
conceitos relacionados a esterilização e desinfecção.

Leitura Complementar

Sugestões de material complementar para leitura e vídeos

No site youtube.com podem ser encontrados vídeos de domínio público


sobre as trocas genéticas bacterianas.

Transformação bacteriana/ Bacterial transformation:

https://www.youtube.com/watch?v=jOmDkr8AU0s, por Biomedicina Brasil

Conjugação bacteriana / Bacterial conjugation

https://www.youtube.com/watch?v=lwzNOdF7L2c, por Biomedicina Brasil.

Transduction (Generalized) [HD Animation

https://www.youtube.com/watch?v=An9oItt7U9I, por Biology / Medicine


Animations HD

É hora de se avaliar

Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão


ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de
ensino-aprendizagem.

56
Microbiologia

Exercícios – unidade 2

1.Um estudante escreveu a seguinte descrição sobre o processo de


reprodução das bactérias:

“A bactéria doadora (macho) se une por meio de um pilus sexual a uma


bactéria receptora.”

Qual o processo de reprodução descrito na frase acima?

a) Bipartição

b) Conjugação

c) Transformação

d) Transdução

e) Fissão

2.História de duas bactérias

A bactéria Zi e a bactéria Wu encontram-se em um meio de cultura contendo


um antibiótico A.

Zi comenta com Wu:

- “Esse antibiótico me deixa muito mal. Estou com dificuldade de sintetizar


moléculas de RNA”.

Responde Wu:

- “Puxa, eu continuo produzindo normalmente proteínas e sinto-me muito


bem. Zi, farei imediatamente uma ponte citoplasmática com você e vou lhe
transferir um plasmídeo especial”.

Um pouco depois, Zi comenta:

- “Wu, muito obrigada, meu processo de síntese de proteínas se normalizou.


Sou uma nova bactéria!

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Microbiologia

Com relação ao trecho descrito, é incorreto afirmar que

a) a bactéria Zi, inicialmente, teve dificuldade de sintetizar moléculas de RNA


e isso interferiu na síntese de proteínas.

b) a bactéria Wu tem constituição genética que permite sobreviver em meio


contendo o antibiótico A.

c) ocorreu conjugação entre as bactérias Wu e Zi.

d) a bactéria Zi recebeu molécula de RNA mensageiro presente no plasmídeo


conjugativo, o que lhe garantiu resistência ao antibiótico A.

e) a bactéria Wu transferiu DNA para a bactéria Zi.

3.Os microrganismos que sobrevivem somente na presença de oxigênio são


denominados:

a) Anaeróbios facultativos

b) Aeróbios obrigatórios

c) Anaeróbios obrigatórios

d) Lipofílicos

e) Psicrotrófilos

4.Em condições anaeróbias, o piruvato gerado na glicólise é empregado em


que reação para a obtenção de energia?

a) ciclo dos ácidos tricarboxílicos

b) via da pentose alcalina

c) fermentação

d) cadeia respiratória

e) hidrólise de macromoléculas

58
Microbiologia

5.Uma bactéria estritamente aeróbia pode obter energia através de que vias?

a) glicólise - ciclo dos ácidos tricarboxílicos

b) via da pentose fosfato - fermentação

c) ciclo dos ácidos tricarboxílicos- fermentação

d) fermentação - via da pentose fosfato

e) glicólise- fermentação

6.Durante a transformação:

a) O DNA bacteriano é transferido de uma bactéria para outra através do


bacteriófago.

b) O DNA bacteriano é transferido de uma bactéria para outra através de


transposons

c) Há transferência de material genético bacteriano através de canais de


membrana

d) A bactéria incorpora DNA livre, do meio externo, ao seu próprio material


genético

e) A bactéria incorpora DNA de bacteriófagos ao seu próprio material


genético.

7.Para que consigam energia, as bactérias devem obter micromoléculas


(monossacarídeos, peptídeos curtos e ácidos graxos) a serem utilizadas em vias
diversas. Como elas conseguem essas micromoléculas?

a) hidrólise de macromoléculas, no meio extracelular, através de enzimas


específicas

b) transporte enzimático de macromoléculas pela membrana

c) quebra intracelular de macromoléculas

d) transporte passivo de estruturas protéicas

e) oxidação de micromoléculas lipídicas

59
Microbiologia

8.Todas as opções a seguir caracterizam formas de uma bactéria sofrer


variações em seu material genético, exceto:

a) mutação

b) glicólise

c) conjugação

d) transdução

e) transformação

9.Após a inserção de bactérias em um meio de cultura sem reposição, como


poderia ser descrita a dinâmica de crescimento da população bacteriana em
questão?

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60
Microbiologia

10.Uma população bacteriana presente na laringe de crianças africanas era


causadora de laringite aguda. Ao constatar a condição, médicos da região sempre
receitavam tetraciclina e, assim, eliminavam a fonte do problema. Em um
determinado momento, o antibiótico em questão passou a não mais funcionar. Ao
analisar-se uma das crianças em que o medicamento não surtiu efeito, encontrou-
se na laringe da mesma bacteriófagos T3 até então nunca observados nos casos.
Tendo em vista a problemática, os médicos passaram, então, a prescrever outros
medicamentos mais potentes.

Considerando o texto anterior e com base nos conhecimentos sobre


transferência genética bacteriana, responda:

Qual seria uma possível explicação para o comportamento bacteriano de


resistência observado?

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61
Microbiologia

62
Microbiologia

3 Fatores de Agressão Bacteriana,


Análise Laboratorial e
Antibacterianos

63
Microbiologia

Nesta unidade, estudaremos os mecanismos de patogênese bacteriana, alguns


métodos para diagnóstico laboratorial bacteriano e as principais classes de
antibacterianos.

Objetivos da unidade:

 Compreender como as bactérias promovem agressão no hospedeiro;

 Compreender como são realizadas a esterilização e a desinfecção de


materiais;

 Conhecer as principais técnicas empregadas no diagnóstico laboratorial


de bactérias;

 Entender quando cada método diagnóstico deve ser aplicado;

 Identificar as diversas formas de ação dos antibióticos.

Plano da unidade:

 Patogênese bacteriana

 Diagnóstico laboratorial em bacteriologia

 Antibacterianos

 Concluindo

Bons estudos!

64
Microbiologia

Patogênese, análise laboratorial e antibacterianos

1- Patogênese bacteriana

O corpo humano, para as bactérias, é uma fonte de umidade, calor e


alimentos. Elas possuem características que fazem com que tenham capacidade de
invadir um hospedeiro, permanecer (adesão ou colonização) nele, conseguir fontes
de nutrientes (enzimas degradativas) e evadir da defesa do hospedeiro.

Ao tentarem persistir no hospedeiro, os mecanismos utilizados pelas bactérias,


bem como seus produtos do crescimento, podem causar danos e prejudicar o
corpo humano.

As bactérias podem ser encontradas em todos os ambientes, uma vez que


dispõem de mecanismos que possibilitam a conservação da sua viabilidade por
longos períodos de estresse. São capazes de desempenhar diversas funções
quando em equilíbrio com os seres vivos que compartilham o mesmo habitat e
ainda com os seres que mantém relações.

O crescimento bacteriano no organismo do hospedeiro, sem causar agressão é


chamado de colonização, no entanto, o mesmo microrganismo é capaz de
promover infecção, podendo ou não estar associada a manifestações clínicas, que
caracterizam diversificadas patologias, sendo adquiridas tanto no ambiente
comunitário como no hospitalar.

No meio hospitalar, as bactérias sofrem várias pressões do ambiente,


enfatizando o uso de múltiplos antimicrobianos que selecionam cepas mais
resistentes. Infecções relacionadas a ambientes hospitalares são adquiridas pelos
pacientes no decorrer de sua internação, tendo relação direta com o tempo de
internação e a alta morbimortalidade, dispondo de um acompanhamento de alto
custo, tornando-se oneroso para todas as partes envolvidas.

O manejo dessas infecções ainda é um desafio a ser controlado nos sistemas


de saúde e pelas práticas epidemiológicas. Superfícies secas e aparentemente
limpas, em ambiente hospitalar, podem ser possíveis reservatórios de bactérias,
que conseguem manter a capacidade de sobrevivência, através de um estado de

65
Microbiologia

bacteriostase (sem multiplicação), sendo capaz de garantir seu potencial


patogênico por longos períodos nessa condição.

As bactérias possuem, como um de seus mecanismos de agressão, a produção


de toxinas, produtos bacterianos que danificam diretamente o tecido ou
promovem atividades biológicas destrutivas. Essas toxinas podem ser classificadas
como:

-Exotoxinas: proteínas que podem ser produzidas por bactérias


Gram positivas ou Gram negativas e incluem enzimas citolíticas e proteínas, que se
ligam a receptores que alteram a função ou destroem as células. São exemplos de
exotoxinas as enzimas degradativas (proteases, colagenases etc), as toxinas A-B
(como a botulínica) e os superantígenos (afetam a função do sistema imunológico).
-Endotoxina: constituinte bacteriano que pode ser liberado no hospedeiro,
somente as bactérias Gram negativas produzem endotoxina. Um exemplo de
endotoxina é o LPS.

Figura 3.1: As diversas ações do LPS. CID: coagulação intravascular disseminada, IFN-γ:
interferon γ; IgE: imunoglobulina E; IL-1: interleucina 1; PMN: leucócito polimorfonuclear
(neutrófilo); TNF: fator de necrose tumoral. (MURRAY, P.R., ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p.
185).

66
Microbiologia

Enfermidade e seus Determinantes

A doença não ocorre ao acaso na população. A forma como ocorre é previsível


porque existem determinantes ou fatores que interferem e que aumentam o risco
de doença mais em uma população do que em outra.

Doença: A doença ocorre quando há perturbação funcional dos processos


fisiológicos a nível celular. Isto ocorre quando o indivíduo, ou população, é exposto
a condições ambientais desfavoráveis, a agentes e / ou aos fatores genéticos que
levam a essas alterações. A alteração dos processos fisiológicos é exteriorizada em
sintomas e/ou sinais de doença.

Sintomas/Sinais Clínicos: Sintomas são os efeitos das alterações fisiológicas


sentidos pelo próprio indivíduo (dor, tontura, náusea). Os sinais (clínicos) são os
efeitos das alterações fisiológicas que podem ser observados ou medidos por
outros indivíduos. São exemplos: a febre, inapetência, o vômito, alteração da
locomoção etc.

Quando o indivíduo é exposto a um agente pode ser que haja doença. Para
que isso aconteça: (i) O agente deve estar presente numa concentração suficiente e
durante um tempo determinado. (ii) deve haver interação com outros fatores
(genéticos e / ou ambientais) que contribuam para aumentar a capacidade do
agente (maior dose ou maior contato) de causar doença ou de diminuir a
resistência do hospedeiro (desnutrição, stress).

Período de incubação: É o tempo que decorre desde a exposição até


aparecerem os sinais clínicos.

Infecção: Definida como invasão do hospedeiro por outro organismo

A perturbação da relação entre hospedeiro-agente-ambiente e o


desenvolvimento do estímulo da doença pode ocorrer quando:

a) O agente torna-se virulento, é aplicado em grandes doses ou teve mais


contato com o hospedeiro.

b) A resistência do hospedeiro foi diminuída por causa de desnutrição,


exposição, stress, fatores genéticos.

67
Microbiologia

c) O ambiente pode contribuir para a invasão do hospedeiro pelo agente ou


para a ruptura da resistência do hospedeiro.

2- Diagnóstico laboratorial

Esterilização e a desinfecção de materiais

A escolha e a organização dos métodos de desinfecção e esterilização devem


ser baseadas em recomendações de cunho científico e reconhecidas a nível
nacional e internacional. Para adequada escolha nos processos de utilização e
tratamento dos materiais, estes devem ser divididos nas categorias críticos,
semicríticos e não críticos. Materiais críticos são aqueles que entram em contato
tecidos ou líquidos estéreis, apresentando alto risco de contaminação; materiais
semicríticos são os que entram em contato com mucosas e os não críticos aqueles
que só entram em contato com pele íntegra. De uma forma geral, durante os
processos de tratamento, os materiais críticos devem ser esterilizados ou de uso
único (descartáveis), os materiais semicríticos devem passar por esterilização ou, no
mínimo, desinfecção. Já os materiais não críticos devem ser desinfetados ou no
mínimo limpos. Para uma melhor compreensão do processo de tratamento de
materiais, alguns termos devem ser definidos, conforme descrito a seguir:

Descontaminação: eliminação parcial ou total de microrganismos de materiais


ou superfícies inanimadas.

Antissepsia: eliminação de microrganismos da pele, mucosa ou tecidos vivos,


com auxílio de antissépticos, substâncias microbicidas.

Assepsia: métodos empregados para impedir a contaminação de determinado


material ou superfície.

Limpeza: remoção mecânica e/ou química de sujidades em geral, (oleosidade,


umidade, matéria orgânica, poeira, entre outros) de determinado local.

Desinfecção: eliminação de microrganismos, exceto esporulados, de materiais


ou artigos inanimados, através de processo físico ou químico, com auxílio de
desinfetantes.

68
Microbiologia

Esterilização: destruição de todos os microrganismos, inclusive esporulados,


através de processo químico ou físico.

Todo o processo de limpeza, desinfecção ou esterilização de materiais deve ser


realizado em um local especial, uma sala de tratamento de materiais. Portanto,
após cada uso, todos os materiais utilizados devem ser levados para a sala de
materiais, para seu adequado processamento.

LIMPEZA DE MATERIAIS: Antes da desinfecção ou esterilização de qualquer


tipo de material é fundamental que seja realizada uma adequada limpeza, para que
resíduos de matéria orgânica que possam ficar presentes nos materiais não
interfiram na qualidade dos processos de desinfecção e esterilização. A limpeza dos
materiais pode ser realizada através de métodos mecânicos, físicos ou químicos.
Durante a limpeza mecânica é fundamental uma vigorosa escovação dos materiais,
com auxílio de sabão e escovas de diferentes formatos. As escovas também devem
sofrer processo de limpeza e desinfecção. Para uma adequada descontaminação,
as escovas podem ser mergulhadas em hipoclorito de sódio a 1%, em recipiente
plástico, durante 30 minutos, posteriormente enxaguadas e secas (em cima da
estufa, por exemplo).

Devem ser utilizadas barreiras de proteção pelo profissional que exerce a


limpeza dos materiais, através de luvas de borracha grossas e de cano longo,
máscaras e óculos de proteção. Os materiais devem ser devidamente enxaguados e
secos após sua limpeza. As compressas ou panos utilizados para secar o material
devem ser somente para este fim e devem ser substituídos frequentemente.
Processos químicos também podem auxiliar na limpeza dos materiais, como por
exemplo, através do uso de desincrustantes, soluções enzimáticas ou aparelhos de
ultrassom, que auxiliam na remoção de matéria orgânica. Podem ser utilizadas
soluções anti-ferrugem em instrumentos e materiais metálicos, para aumentar a
vida útil dos mesmos.

DESINFECÇÃO DE MATERIAIS: A decisão para a escolha de um desinfetante


deve levar em consideração aspectos que envolvam efetividade, toxicidade,
compatibilidade, efeito residual, solubilidade, estabilidade, odor, facilidade de uso
e custos, entre outros. Além disso, é importante que o desinfetante seja
recomendado e aprovado pelo Ministério da Saúde. A desinfecção e/ou

69
Microbiologia

esterilização através de agentes químicos muitas vezes não se apresenta como um


método seguro e confiável devido às interferências pertinentes ao uso de
desinfetantes e suas dificuldades durante o processo, referentes à possibilidade de
inadequada desinfecção ou recontaminação do material. A escolha do tipo de
desinfetante, métodos adequados de desinfecção, bem como a organização de
todo este processo, não é uma tarefa fácil. Vários guias e manuais de
recomendações têm sido publicados com o objetivo de orientar os profissionais
para uma adequada desinfecção de materiais. Os agentes químicos desinfetantes
comumente utilizados são os alcoóis, compostos clorados, formaldeído, iodóforos,
peróxido de hidrogênio, ácido peracético, compostos fenólicos e quaternários de
amônia.

ESTERILIZAÇÃO DE MATERIAIS: A esterilização de materiais pode ser realizada


através de métodos químicos ou físicos. A esterilização química compreende a
utilização de agentes esterilizantes líquidos, que são os mesmos utilizados no
processo de desinfecção, porém com maior tempo de exposição. A esterilização
química apresenta alguns aspectos negativos, especialmente referentes ao risco de
recontaminação do material após o processo, dificuldade de armazenamento e de
controle de qualidade ou monitoramento do processo. A esterilização física pode
ser conseguida através de métodos ou equipamentos que empregam calor seco
(por exemplo, estufa) e através de vapor saturado (por exemplo, autoclaves).

- Esterilização através de estufa: A estufa, na prática, ainda é o método de


escolha para esterilização de instrumentos metálicos utilizados em
estabelecimentos de saúde. Através deste método, não é possível esterilizar
materiais plásticos ou outros materiais termossensíveis, assim como não é
recomendável esterilizar roupas, papel, nem instrumentos metálicos cortantes.
Para uma efetiva esterilização dos materiais, a estufa deve ser mantida fechada
ininterruptamente durante 60 minutos com a temperatura a 170° C, ou 120
minutos com a temperatura a 160° C, ou seja, a porta não deve ser aberta neste
período. Todos os materiais devem ser esterilizados dentro de recipientes
metálicos.

- Esterilização através de autoclave a vapor: A esterilização por autoclave a


vapor tem se apresentado como o método que reúne mais vantagens para o

70
Microbiologia

tratamento de instrumentos clínicos nos últimos anos. As vantagens deste método


baseiam-se na sua maior segurança, menor dano aos materiais e menor tempo
requerido. A desvantagem encontra-se na impossibilidade de esterilização de
materiais termossensíveis ou não resistentes ao calor, como por exemplo, materiais
plásticos delicados.

Toda matéria orgânica, independente da fonte, deve ser considerada


potencialmente infectante. Portanto, todo material após o contato com o
organismo humano é considerado contaminado, independentemente do processo
a ser submetido, sem levar em consideração o grau de sujidade presente.

Principais técnicas empregadas no diagnóstico laboratorial de bactérias

O diagnóstico microbiológico, especialmente o bacteriano, é uma medida


essencial no estabelecimento da etiologia das enfermidades infecciosas por ter a
capacidade fundamental de identificação do agente patológico e, mais
atualmente, a sensibilidade in vitro a antimicrobianos. Os métodos de diagnóstico
em bacteriologia são altamente dependentes da comunicação entre o médico que
acompanha o paciente e o laboratório responsável pelos exames. Nessa
comunicação são repassadas informações necessárias ao direcionamento da
escolha do teste a ser realizado. Contudo, a comunicação é o primeiro passo que
caracteriza o diagnóstico, vários outros itens devem ser observados como:

- Amostra: para que no laboratório seja feito um diagnóstico eficaz, a amostra


colhida precisa respeitar preceitos de higiene que evite a contaminação desta por
microrganismos que “mascarem” o verdadeiro agente infeccioso. Outro quesito
essencial é observar a procedência da amostra, por exemplo, amostras de pus em
geral são ricas em bactérias anaeróbias (morrem na presença de oxigênio), sendo
assim, deve-se estar atento à melhor metodologia para diminuir o contato da
amostra com o ar a fim de não inviabilizar os microrganismos.

- Coleta: etapa que requer vários cuidados como observar se o paciente fez
uso de algum medicamento, antibióticos por exemplo. Esses medicamentos
podem afetar o agente patogênico tornando ineficazes os outros passos para
diagnóstico laboratorial. O paciente deve ser aconselhado pelo clínico, caso seja
ele próprio que realize a coleta, para que não haja erros nessa etapa.

71
Microbiologia

Tabela 3.1: Coleta de amostras para diagnóstico laboratorial. (MURRAY, P.R.,


ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 189).
Sistema de Volume de Outras
Amostra Transporte Amostra Considerações
Sangue - Frascos de Adultos: Deve ser realizada a assepsia da pele com álcool - 70%, seguida de
cultura hemocultura 20mL / cultura iodo 2%; 2-3 amostras coletadas a cada 24 horas, a menos que o
bacteriana de contendo meio Criança: paciente esteja em choque séptico ou a administração de
rotina nutriente 5 - 10mL / antibióticos tenha que ser iniciada imediatamente; a coleta de
cultura sangue deve ter intervalos de 30-60 min; o sangue é aliquotado em
Neonatos: partes iguais, que devem ser inoculadas em dois frascos contendo
1 - 2mL / meio nutriente.
cultura
Sangue - Semelhante a Semelhante a As considerações são as mesmas que as de hemoculturas de rotina;
bactéria hemoculturas de hemoculturas a liberação de bactérias intracelulares para o meio pode otimizar o
intracelular (p. rotina; sistema de de rotina isolamento do organismo; espécies de Neisseria são inibidas por
ex., Brucella, lise-centrifugação alguns anticoagulantes (polianetolsulfonato de sódio).
Francisella,
Neisseria spp.)
Sangue - Tubo heparinizado 1 - 5mL As amostras são úteis apenas durante a primeira semana da doença;
Leptospira spp. estéril depois, amostras de urina devem ser cultivadas.
Fluido Tubo com tampa de Cultura A amostra deve ser coletada assepticamente e enviada
cerebrospinal rosca estéril bacteriana: imediatamente ao laboratório; essa amostra não deve ser exposta
1 - 5mL; ao calor ou frio.
Cultura de
micro-
bactérias: o
maior volume
possível
Outros fluidos Pequeno volume: O maior As amostras são coletadas por seringa; swab não é utilizado porque
normalmente tubo com tampa de volume a quantidade de amostra coletada é insuficiente; ar não deve ser
estéreis (p. ex., rosca estéril; grande possível injetado no frasco de cultura, porque inibirá o crescimento de
abdominal, volume: frasco de anaeróbios.
torácico, hemocultura
sinovial, contendo meio
pericardial) nutritivo
Cateter Tubo com tampa de N/A Deve ser realizada assepsia do local de entrada do cateter com
rosca estéril ou álcool 70%; o cateter deve ser removido assepticamente no
frasco de coleta momento da recepção da amostra pelo laboratório; o cateter é
utilizado para inocular, por meio de rolamento, toda a superfície da
placa de Petri, contendo agar sangue. Em seguida deve ser
descartado adequadamente.
Respiratório - Swab é imerso em N/A Material da área de inflamação é coletado com swab; quando
garganta meio de transporte presente, o exsudato é coletado; o contato com a saliva deve ser
evitado, pois pode inibir a recuperação de estreptococos do grupo A.
Respiratório - Coleta de sangue Semelhante à Coleta com swab pode precipitar o completo fechamento das vias
epiglote para cultura hemocultura aéreas; hemoculturas devem ser realizadas para diagnóstico
específico.
Respiratório - Tubos ou pequenos 1 - 5mL As amostras devem ser coletadas por seringa; culturas de material
seios faciais frascos estéreis para da orofaringe ou nasofaringe não têm valor diagnóstico; a amostra
anaeróbicos deve ser cultivada em meios para bactérias aeróbias e para
anaeróbias.

72
Microbiologia

Sistema de Volume de Outras


Amostra
Transporte Amostra Considerações
Respiratório - Frascos com tampa de 1 – 2mL Escarro expectorado: se possível, o paciente deve lavar a boca com água
vias aéreas rosca estéril; tubo ou antes da coleta da amostra; o paciente deve tossir intensa-mente e
inferiores pequeno frasco para expectorar as secreções das vias aéreas inferiores direta-mente no frasco
anaeróbios apenas para estéril; deve-se evitar a contaminação com a saliva.
as amostras coletadas, Amostra coletada por broncoscopia: anestésicos podem inibir o
evitando a contaminação crescimento de bactérias, assim as amostras devem ser processadas
da microbiota do trato imediatamente; se broncoscópio “protegido” é utilizado, culturas para
respiratório superior anaeróbios podem ser realizadas.
Aspiração direta do pulmão: amostras podem ser processadas para
bactérias aeróbias e anaeróbias.
Ouvido Seringas com agulhas Qualquer volu- A amostra deve ser aspirada por seringa; cultura do ouvido externo não
cobertas me coletado tem valor preditivo para otite média.
Olho Inocular placas com o Qualquer Para infecções oculares superficiais, as amostras são coletadas por swab ou
material coletado à beira volume por raspado da córnea; para infecções profundas, a aspira-ção de líquido
do leito (selar e trans- coletado aquoso ou vítreo é realizada, todas as amostras devem ser inoculadas em
portar para o laboratório meios adequados, no momento da coleta; o adia-mento resultará em uma
imediatamente) perda significativa de organismos viáveis.
Exudatos Swab imerso em meio de Bactérias: A contaminação com material de superfície deve ser evitada; as amostras
(transudatos, transporte; acondicionar 1 - 5mL; geralmente são inadequadas para a cultura de anaeróbios.
secreções, material aspirado em Microbactérias:
úlceras) tubo com tampa de rosca 3 - 5mL
estéril
Feridas Acondicionar material 1 – 5mL de pus As amostras devem ser coletadas por seringas estéreis; a cureta é utilizada
(abscesso, pus) aspirado em tubo com para coletar amostras na base da ferida; coleta por swab deve ser evitada.
tampa de rosca estéril ou
tubo / pequeno frasco
estéreis para anaeróbicos
Tecidos Tubo com tampa de Amostra A amostra deve ser acondicionada assepticamente em recipiente
rosca estéril ou tubo / representativa apropriado estéril; quantidade adequada de amostra deve ser coletada
pequeno frasco estéreis do centro e das para recuperar um número reduzido de organismos.
para anaeróbicos bordas da lesão
Urina - jato Frasco para urina estéril Bactérias: A contaminação da amostra com bactérias da uretra ou vagina deve ser
médio 1mL; evitada; primeiro jato deve ser descartado; os organismos podem crescer
Microbactérias: rapidamente na urina, assim, as amostras devem ser imediatamente
10mL transportadas para o laboratório, mantidas em presença de agente
bacteriostático ou sob refrigeração.
Urina - Coletor para urina estéril Bactérias: O cateterismo de rotina não é recomendado (risco de induzir infecção); a
cateterismo 1mL; primeira amostra coletada pode estar contaminada com bactérias da uretra,
Microbactérias: de modo que deve ser descartada (semelhante à urina - jato médio); a
10mL amostra deve ser transportada rapidamente ao laboratório.
Urina – punção Tubo ou pequeno frasco Bactérias: Este é um procedimento invasivo, de modo que bactérias da uretra devem
suprapúbica estéreis para anaeróbicos 1mL; ser evitadas; único método válido disponível para coleta de amostras para
Microbactérias: cultura de anaeróbios; também é útil para a coleta de amostras de crianças
10mL ou adultos incapazes de evitar a contaminação de amostras.
Genitália Swabs especialmente N/A As amostras devem ser coletadas na área de inflamação ou de exsudato;
desenvolvidos para para uma ótima detecção, devem ser cultivadas amostras endocervical (e
sondas de Neisseria não vaginal) e uretral.
gonorrhoeae e Chlamydia
Fezes Recipiente com tampa de N/A O transporte rápido para o laboratório é necessário para prevenir a
(evacuação) rosca estéril produção de ácidos (bactericida para alguns patógenos entéricos) por
bactérias fecais normais; imprópria para cultura de anaeróbios; swabs não
devem ser utilizados para coleta, por causa do grande número de meios
diferentes a serem inoculados.

73
Microbiologia

Chegando ao laboratório, a amostra é processada de acordo com os


protocolos previstos para o diagnóstico. O primeiro teste realizado é a coloração de
Gram (considerada o “carro chefe” dos testes bacteriológicos), através dela é
possível classificar a bactéria em dois grandes grupos de acordo com a estrutura de
sua parede celular que lhe confere diferente sensibilidade ao corante. Bactérias
Gram-negativas adquirem cor rosa avermelhada quando visualizadas no
microscópio óptico e, por sua vez, bactérias Gram-positivas detém cor arroxeada
na visualização. Entretanto, existe um gênero de bactérias no qual o teste de Gram
não pode ser utilizado, por elas não serem sensíveis a ele, as microbactérias. Para
estas é empregada metodologia diferente.

Em muitos casos a simples descrição clínica da patologia junto da coloração de


Gram e visualização da morfologia da bactéria já é suficiente para a conclusão do
diagnóstico. Por exemplo, uma amostra de pus, vinda de um paciente do sexo
masculino, o qual se queixe de ardência durante a micção e liberação desse líquido
através do pênis, que chega ao laboratório e passa pela coloração de Gram e
microscopia; ao observar-se a presença de diplococos (bactérias em formato
arredondado agrupados em pares) Gram-negativos, pode-se claramente fornecer o
diagnóstico de infecção por gonococos (o paciente apresentando manifestações
clássicas de gonorreia).

Por determinadas vezes a amostra não fornece uma quantidade eficaz de


bactérias para que se possa realizar outros testes caso a coloração de Gram seja
insuficiente para elaboração do diagnóstico. Assim é necessária a cultura do
microrganismo que pode ser feita em diversos meios, sejam eles sólidos (ágar) ou
líquidos (caldos).

O ágar é um polímero viscoso extraído de algas marinhas que, em temperatura


ambiente, fornece ao meio de cultura uma consistência gelatinosa, sólida.
Atualmente, existe uma variedade enorme desses meios de cultura indo desde o
ágar nutriente (que apresenta quantidades definidas de carboidratos, vitaminas e
permite crescimento de várias espécies de bactérias até mesmo fungos) ao ágar
complexo (com extrato de carne, leite ou ovo, sangue de carneiro, cérebro e
coração de coelho ou diversos outros componentes).

74
Microbiologia

Outros testes também são essenciais na rotina laboratorial, podem ser citados:

*Teste da catalase, que diferencia bactérias que utilizam oxigênio em seu


metabolismo e apresentam a enzima catalase daquelas que não possuem.

*Teste da coagulase, para bactérias que utilizam esta enzima e promovem a


formação de coágulos.

*Teste da hemolisina, feito no meio de cultura Ágar sangue, onde se observa


um halo claro ao redor das colônias de bactérias que possuem a enzima hemolisina
e quebram as hemácias para obtenção de ferro.

Muitos outros testes são conhecidos no meio laboratorial. Eles são


importantes devido ao caráter de urgência para emissão de laudos com os
respectivos diagnósticos. A rapidez e a segurança na elaboração desses pareceres
são essenciais e podem significar a diferença entre a vida e a morte de algum
paciente. Como já mencionado, a comunicação entre os profissionais responsáveis
pelo paciente são de caráter impar e demonstra que nenhuma profissão pode
atuar sozinha.

3- Antibacterianos

Algumas bactérias são normalmente resistentes a determinados antibióticos,


enquanto outras são sensíveis. As bactérias podem ser classificadas como sensíveis
ou resistentes aos antimicrobianos. A resistência pode ser natural ou adquirida.

Identificando as diversas formas de ação dos antibióticos.

Antibióticos são compostos naturais ou sintéticos capazes de inibir o


crescimento ou causar a morte de fungos ou bactérias. Podem ser classificados
como bactericidas, quando causam a morte da bactéria, ou bacteriostáticos,
quando promovem a inibição do crescimento microbiano.

O grande marco no tratamento das infecções bacterianas ocorreu com a


descoberta da penicilina, por Alexander Fleming, em 1928. A atividade da
penicilina era superior à das sulfas e a demonstração que fungos produziam
substâncias capazes de controlar a proliferação bacteriana motivou uma nova
frente de pesquisas na busca por antibióticos: a prospecção em culturas de
microrganismos, especialmente fungos e actinobactérias.

75
Microbiologia

A penicilina G, ou benzilpenicilina, foi descrita em 1929 como agente


antibiótico, porém somente foi introduzida como agente terapêutico nos anos
1940. Após o processo de industrialização da penicilina, especialmente em
consequência da Segunda Guerra Mundial, foi observado um rápido crescimento
na descoberta e desenvolvimento de novos antibióticos.

Entre os anos 1940-1960, vários antibióticos foram descobertos através de


triagens de produtos naturais microbianos, sendo a maioria deles eficazes para o
tratamento contra bactérias Gram positivas: β-lactâmicos (cefalosporina),
aminoglicosídeos (estreptomicina), tetraciclinas (clortetraciclina), macrolídeos
(eritromicina), peptídeos (vancomicina) e outros (cloranfenicol, rifamicina B,
clindamicina e polimixina B). Neste período apenas três derivados sintéticos foram
introduzidos no mercado: isoniazida, trimetropim e metronidazol.

Entre os anos 1960-1980 foram introduzidos no mercado antibióticos semi-


sintéticos eficazes para o tratamento de patógenos Gram positivos e Gram
negativos, análogos aos antibióticos naturais já existentes. A maioria deles foi
obtida a partir de protótipos naturais microbianos, como derivados β-lactâmicos
(análogos de penicilina e cefalosporina, ácido clavulânico, aztreonam), análogos da
tetraciclina, derivados aminoglicosídicos (gentamicina, tobramicina, amicacina).

Entre os anos 1980-2000 as principais ferramentas utilizadas para a busca de


novos antibióticos foram a genômica e as triagens de coleções de compostos, em
detrimento às triagens de produtos naturais microbianos. Porém, houve uma
redução dramática na identificação de novos protótipos antibióticos, ao mesmo
tempo em que ocorreu um aumento na incidência de resistência bacteriana. Este
período foi marcado pela modificação do mercado de antibióticos e pela
introdução da classe das fluoroquinolonas sintéticas, na metade dos anos 1980,
desenvolvidas a partir do ácido nalidíxico. Alguns antibióticos baseados em
protótipos naturais, como imipenem (derivado β-lactâmico) e análogos da
eritromicina (derivado macrolídeo) também foram introduzidos neste período.

A partir de 2000, poucos antibióticos foram introduzidos para a terapêutica


antimicrobiana. Em 2001, apenas um antibiótico de origem sintética da classe das
oxazolidinonas foi introduzido no mercado farmacêutico, a linezolida.

76
Microbiologia

Principais classes de antibióticos

Os antibióticos de origem natural e seus derivados semissintéticos


compreendem a maioria dos antibióticos em uso clínico e podem ser classificados
em β-lactâmicos (penicilinas, cefalosporinas, carbapeninas, oxapeninas e
monobactamas), tetraciclinas, aminoglicosídeos, macrolídeos, peptídicos cíclicos
(glicopeptídeos, lipodepsipeptídeos), estreptograminas, entre outros
(lincosamidas, cloranfenicol, rifamicinas etc). Os antibióticos de origem sintética
são classificados em sulfonamidas, fluoroquinolonas e oxazolidinonas.

- Antibióticos β-lactâmicos

Os antibióticos β-lactâmicos são agentes antibacterianos que inibem


irreversivelmente a enzima transpeptidase, que catalisa a reação de
transpeptidação entre as cadeias de peptideoglicana da parede celular bacteriana.
A atividade desta enzima leva à formação de ligações cruzadas entre as cadeias
peptídicas da estrutura peptideoglicana, que conferem à parede celular uma
estrutura rígida importante para a proteção da célula bacteriana contra as
variações osmóticas do meio.

- Aminoglicosídeos

Os aminoglicosídeos são agentes que possuem um grupo amino básico e uma


unidade de açúcar. A estreptomicina, principal representante da classe, foi isolada
em 1944 de Streptomyces griseus, um microrganismo de solo. Os aminoglicosídeos
apresentam atividade melhorada em pH levemente alcalino, em torno de 7,4, onde
estão positivamente carregados, facilitando a penetração em bactérias Gram
negativas.

Os antibióticos aminoglicosídicos apresentam efeito bactericida por ligarem-


se especificamente à subunidade 30S dos ribossomos bacterianos, impedindo o
movimento do ribossomo ao longo do mRNA e, consequentemente,
interrompendo a síntese de proteínas.

- Macrolídeos

Os macrolídeos naturais caracterizam-se pela presença de lactonas


macrocíclicas ligadas a um açúcar e um amino-açúcar. Derivados semissintéticos
podem apresentar anel macrocíclico de 15 membros (azitromicina). Os macrolídeos

77
Microbiologia

são agentes bacteriostáticos, que atuam pela ligação ao RNA ribossomal 23S da
subunidade 50S, assim bloqueando a biossíntese de proteínas bacterianas. São
usados em infecções respiratórias como pneumonia, exacerbação bacteriana
aguda de bronquite crônica, sinusite aguda, otites médias, tonsilites e faringites.

- Eritromicina

A eritromicina age frente à maioria dos patógenos respiratórios, é considerada


segura e amplamente prescrita a crianças. Entretanto, seu limitado espectro de
ação e sua limitada estabilidade em meio ácido resultam em uma fraca
biodisponibilidade e uma variedade de outros efeitos colaterais, tais como
influência na motilidade gastrointestinal, ações pró-arrítmicas e inibição do
metabolismo de fármacos.

- Cloranfenicol

O cloranfenicol foi isolado a primeira vez do microrganismo Streptomyces


venezuela. O medicamento liga-se à subunidade do ribossomo e parece inibir o
movimento dos ribossomos ao longo do mRNA, provavelmente pela inibição da
peptidil transferase, responsável pela extensão da cadeia peptídica.

- Tetraciclinas

As tetraciclinas são antibióticos de amplo espectro e bastante eficazes frente a


diversas bactérias aeróbicas e anaeróbicas Gram positivas e Gram negativas. A
clortetraciclina foi o primeiro derivado a ser descoberto. As tetraciclinas inibem a
síntese de proteínas através da ligação com a subunidade dos ribossomos,
impedindo a ligação do aminoacil-tRNA. Como resultado, a adição de novos
aminoácidos para o aumento da cadeia protéica é bloqueada. A liberação de
proteínas também é inibida. A seletividade frente aos ribossomos bacterianos em
relação aos ribossomos de eucariotos deve-se a diferenças estruturais e também à
concentração seletiva do antibiótico nas células bacterianas.

- Lincosamidas

As lincosamidas têm propriedades antibacterianas similares aos macrolídeos e


agem pelo mesmo mecanismo de ação. A lincomicina e seu derivado
semissintético clindamicina foram introduzidos na prática clínica como antibióticos
de uso oral em 1960 e 1969, respectivamente. A lincomicina foi isolada do

78
Microbiologia

microrganismo de solo Streptomyces lincolnensis. A clindamicina é um antibiótico


amplamente utilizado, que possui melhor atividade e maior absorção por via oral.
A clindamicina é o fármaco de escolha para o tratamento de infecções periféricas
causadas por Bacillus fragilis ou outras bactérias anaeróbicas penicilina resistentes.
Este fármaco é também topicamente utilizado para o tratamento de acne.

- Glicopeptídeos

Os antibióticos glicopeptídicos, vancomicina e teicoplanina, têm se tornado os


fármacos de primeira linha no tratamento de infecções por bactérias Gram positivas
com resistência a diversos antibióticos. A vancomicina, o primeiro antibiótico
glicopeptídico, introduzido na prática clínica em 1959, foi isolada de amostras de
Streptomyces orientalis (reclassificada como Amycolatopsis orientalis). O
desenvolvimento de resistência bacteriana a estes antibióticos é mais lento, apesar
de algumas linhagens de Staphylococcus aureus hospitalares já apresentarem
resistência desde 1966. Eles são restritos para o tratamento de infecções causadas
por bactérias Gram positivas por serem incapazes de penetrar nas membranas de
bactérias Gram negativas. A vancomicina em geral é o antibiótico de última escolha
frente a patógenos Gram positivos resistentes, em particular contra espécies de
Enterococcus.

- Lipodepsipeptídeos

A daptomicina é um lipodepsipeptídeo isolado de Streptomyces roseosporus e


aprovado em 2003 para tratamento de infecções causadas por bactérias Gram
positivas. Seu mecanismo de ação envolve a desorganização de múltiplas funções
da membrana celular bacteriana. É provável que todos os antibióticos
lipopeptídicos apresentem alguma penetração na membrana devido às cadeias
alquílicas, o que promove sua desorganização.

- Rifampicinas

A rifamicina B foi isolada de Streptomyces mediterranei, reclassificado como


Nocardia mediterranei. A rifampicina é um inibidor da RNA polimerase, utilizada
clinicamente como parte da combinação de fármacos para o tratamento da
tuberculose. É o único fármaco em uso clínico que bloqueia a transcrição
bacteriana.

79
Microbiologia

- Estreptograminas

A pritinamicina é uma mistura de substâncias macrolactonas obtidas de


Streptomyces pristinaespiralis, ela pode ser utilizada oralmente no tratamento de
infecções por bactérias Gram positivas. Dois derivados semissintéticos desta classe,
quinupristina e dalfopristina, têm sido utilizados por via intravenosa em
combinação.

- Sulfonamidas e trimetoprim

As sulfonamidas, também conhecidas como sulfas, foram testadas pela


primeira vez nos anos 1930 como fármacos antibacterianos. Um exemplo de sulfa
ainda utilizada na terapêutica é o sulfametoxazol, em associação com o
trimetoprim, para o tratamento de pacientes com infecções no trato urinário e
também para pacientes portadores do vírus HIV que apresentem infecções por

Pneumocystis carinii. Cada um desses fármacos bloqueia uma etapa no


metabolismo do ácido fólico. O sulfametoxazol bloqueia a enzima di-hidropteroato
sintetase, presente apenas nas bactérias, enquanto o trimetoprim inibe a di-
hidrofolato redutase.

- Quinolonas e fluoroquinolonas

As quinolonas e fluoroquinolonas são fármacos bactericidas muito utilizados


no tratamento de infecções do trato urinário e também no tratamento de infecções
causadas por microrganismos resistentes aos agentes antibacterianos mais usuais.
O ácido nalidíxico, sintetizado em 1962, foi o protótipo desta classe de antibióticos.
É ativo frente a bactérias Gram negativas e utilizado no tratamento de infecções do
trato urinário, porém, os microrganismos podem adquirir rápida resistência a esse
antibiótico. Vários outros análogos têm sido sintetizados, com propriedades
similares ao ácido nalidíxico. A enoxacina, desenvolvida em 1980, é um fármaco
que apresenta elevado espectro de atividade frente a bactérias Gram positivas e
Gram negativas. É também ativo frente a Pseudomonas aeruginosa, bactéria
altamente resistente a antibióticos.

80
Microbiologia

As fluoroquinolonas agem inibindo a topoisomerase IV de bactérias Gram


positivas e apresentam seletividade 1000 vezes maior para enzimas bacterianas em
relação às enzimas correspondentes em células humanas. Em bactérias Gram
negativas, o alvo das fluoroquinolonas é a topoisomerase II, também conhecida por
DNA-girase, que apresenta as mesmas funções da topoisomerase IV.
Topoisomerases são essenciais para a viabilidade celular em células procarióticas e
eucarióticas. As quinolonas apresentam boa seletividade para células bacterianas.

Nesta unidade, estudamos os mecanismos patogênicos bacterianos, a forma


como o diagnóstico laboratorial bacteriano pode ser realizado e refletimos sobre
as principais classes de antibióticos existentes. Na próxima unidade, veremos a
estrutura geral dos vírus e como eles se multiplicam.

É hora de se avaliar

Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão


ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de
ensino-aprendizagem.

81
Microbiologia

Exercícios – unidade 3

1.Em relação às exotoxinas bacterianas, marque a alternativa incorreta:

a)As enzimas degradativas são um tipo de exotoxina.

b)A toxina A-B é uma exotoxina.

c) O lipopolissacarídeo (LPS) é uma exotoxina.

d)Os superantígenos são exotoxinas que comprometem o funcionamento


do sistema imunológico.

e)Somente os Gram negativos produzem endotoxina.

2.Quanto ao lipopolissacarídeo, é correto afirmar:

a) É uma exotoxina produzida por Gram positivos.

b) É uma exotoxina produzida por Fram negativos.

c) É uma endotoxina produzida por Gram positivos.

d) É uma endotoxina produzida por Gram negativos.

e) Não é uma toxina.

3.O diagnóstico laboratorial em bacteriologia:

a) requer correta coleta e armazenamento de amostras.

b) é realizado apenas através do técnica de coloração de Gram.

c) nunca requer a cultura de microrganismos.

d) é realizado na consulta médica.

e) Nenhuma das alternativas anteriores.

82
Microbiologia

4.Certas infecções hospitalares podem ser de difícil combate por meio de


antibióticos comumente utilizados. Este feito deve-se:

a) à utilização de antibióticos de maneira controlada.

b) à seleção de linhagens de bactérias resistentes aos antibióticos.

c) à correta aplicação de métodos diagnósticos.

d) ao desenvolvimento de cepas multirresistentes em laboratório.

e) nenhuma das alternativas anteriores.

5.Dentre os efeitos que o lipopolissacarídeo pode exercer no organismo


humano:

a) Trombose.

b) Papilomas.

c) Vesículas herpéticas.

d) Meningite.

e) Nenhuma das alternativas anteriores.

6.Os superantígenos são exemplos de:

a) Endotoxinas.

b) Técnicas laboratoriais.

c) Antibacterianos.

d) Técnicas de limpeza.

e) Exotoxinas.

83
Microbiologia

7.A assepsia:

a) é a eliminação de microrganismos, exceto esporulados, de materiais ou


artigos inanimados, através de processo físico ou químico, com auxílio de
desinfetantes.

b)é a remoção mecânica e/ou química de sujidades em geral.

c) é a eliminação de microrganismos da pele, mucosa ou tecidos vivos, com


auxílio de antissépticos, substâncias microbicidas.

d) É um método empregado para impedir a contaminação de determinado


material ou superfície.

e) nenhuma das alternativas anteriores.

8.Os antibióticos são medicamentos que possuem como alvo:

a) apenas componentes da parede celular da bactéria.

b) apenas o DNA bacteriano.

c) os mais diversos componentes bacterianos, dependendo da classe


antibacteriana.

d) apenas o RNA bacteriano.

e) nenhuma das alternativas anteriores.

9.Descreva o mecanismo de ação dos macrolídeos.

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Microbiologia

10- Por que é importante a limpeza de materiais antes de uma desinfecção ou


esterilização?

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Microbiologia

86
Microbiologia

4 Propriedades gerais dos


vírus

87
Microbiologia

Na unidade quatro, estudaremos a estrutura viral e como os vírus se


multiplicam.

Objetivos da unidade:

 Conhecer a nomenclatura principal associada à virologia;

 Identificar as estruturas que compõem a partícula viral;

 Compreender as diferentes etapas da replicação viral.

Plano da unidade:

 Estrutura viral e estratégias de replicação

 Classificação internacional dos vírus proposta pelo ICTV


(International Comittee on Taxonomy of Viruses)

 Morfologia viral

 Replicação viral

Bons estudos!

88
Microbiologia

Estrutura viral e estratégias de replicação

Introdução

Os vírus são os menores e menos complexos microrganismos existentes, são


bem menores que as células eucariontes e procariontes. Eles não possuem as
características necessárias para terem metabolismo próprio e se multiplicarem.
Logo, necessitam de uma célula viva para se replicarem, sendo um parasita
intracelular obrigatório.

Uma vez dentro da célula hospedeira, as partículas virais adquirem atividade


biológica e subvertem a maquinaria celular em prol de sua própria multiplicação.
Fora de uma célula viva, elas são apenas estruturas químicas.

Classificação internacional dos vírus proposta pelo ICTV


(International Comittee on Taxonomy of Viruses)

O ICTV se baseia em algumas propriedades virais para a classificação geral dos


vírus. Essas propriedades são as seguintes:

 Morfologia: são considerados o tamanho e a forma do vírion, a


presença de glicoproteínas, de envelope e a simetria do capsídeo.

 Propriedades físico-químicas: esta categoria considera


características como a massa molecular do vírion, estabilidade em
variações de pH e outras condições, tipo e tamanho do material
genético, dentre outras.

 Proteínas: analisa-se o número, o tamanho e a atividade das


proteínas virais, a sequência de aminoácidos, a estrutura 3D etc.

 Lipídios e carboidratos: composição dos mesmos.

 Replicação viral e organização gênica: levam-se em conta as


estratégias de replicação do vírus e como o mesmo se organiza.

 Propriedades antigênicas e biológicas: reações sorológicas,


hospedeiro natural, modo de transmissão, tropismo etc.

89
Microbiologia

 Ordem, família, subfamília, gênero e espécie virais:


agrupamentos virais baseados em níveis de semelhança existentes
entre os vírus. Quanto mais próximo do nível de espécie, mais
similaridades os agrupamentos virais compartilham.

Morfologia viral

O tamanho, a forma e a complexidade das partículas virais variam muito entre


os vírus das diferentes famílias. A maior parte dos vírions possui dimensões
ultramicroscópicas, com diâmetro em nanômetros (nm), o que os torna passíveis
de visualização apenas sob microscopia eletrônica (ME).

Figura 4.1: Escala métrica representando um comparativo de dimensões de diversas


estruturas biológicas. (FLORES, EF, 2007, p. 21)

A estrutura da partícula viral varia entre os diversos vírus conhecidos. No


entanto, de forma geral, toda partícula viral infectiva deve conter ácido nucléico e
proteínas, na forma de um envoltório denominado capsídeo.

O capsídeo viral envolve o material genético da partícula, ele é formado por


proteínas e cada unidade morfológica que forma o capsídeo é denominada
capsômero.

90
Microbiologia

Fora de uma célula viva, o vírion contém apenas um tipo de material genético,
RNA ou DNA, porém esse material pode estar presente em diversas organizações
(figura 4.2).

Figura 4.2: Esquema representativo da organização genômica das famílias virais que
infectam mamíferos. A: famílias compostas por partículas virais que contêm DNA. B: famílias
compostas por partículas virais que contêm RNA. * genoma composta foi fita dupla
incompleta de DNA. **presença de duas fitas de RNA e capacidade de transcrição reversa.
***alguns membros dessa família podem apresentar RNAs com polaridade positiva e
negativa. (SANTOS, NSO, ROMANOS, MTV, WIGG, MD, 2008, p.13)

91
Microbiologia

Quadro 4.1: Definições importantes em virologia. (FLORES, EF, 2007, p. 21)

Alguns aspectos devem ser ressaltados em relação à organização genômica


das partículas virais. O vírions compostos por RNA de fita simples (uma única fita)
podem ser, ainda, classificados em polaridade positiva ou negativa. O RNA que
apresenta polaridade positiva, após o vírus infectar uma célula hospedeira, tem a
característica de RNAm, podendo ser traduzido diretamente em proteínas. Já o
RNA de polaridade negativa serve como base para a produção de uma cópia
complementar ao mesmo, após início da replicação viral na célula hospedeira, essa
cópia complementar, então, tem o papel de RNAm.

Outra característica interessante das partículas virais compostas por RNA é a


transcrição reversa apresentada pela família Retroviridae. Os retrovírus têm a
capacidade de síntetizar DNA a partir de moléculas de RNA - a transcrição reversa-
utilizando a enzima viral transcriptase reversa. O representante mais conhecido
dessa família é o vírus da imunodeficiência humana, o HIV.

Alguns vírus, além do capsídeo e do material genético, podem conter em sua


estrutura enzimas associadas ao genoma, lipídios e carboidratos.

As enzimas associadas ao genoma geralmente são essenciais para a replicação


viral no interior de células hospedeiras, por exemplo, polimerases e transcriptases
reversas.

92
Microbiologia

Alguns vírus são envelopados, ou seja, apresentam um envoltório lipídico, o


envelope, mais externamente ao capsídeo. Nesse envelope estão contidas
glicoproteínas (carboidratos+proteínas) que medeiam à interação entre vírus e
célula hospedeira. Na ausência de envelope, as proteínas do capsídeo que
propiciam essa interação.

Figura 4.3: Estrutura geral das partículas virais. A: vírus não envelopado. B: vírus
envelopado. (FLORES, EF, 2007, p. 22)

As subunidades protéicas que formam o capsídeo, os capsômeros, podem se


organizar em formatos distintos, fazendo com que o capsídeo adquira uma
simetria específica. Essas simetrias podem ser classificadas como icosaédrica,

helicoidal e complexa. A simetria icosaédrica é aquela em que o capsídeo forma 20


triângulos equiláteros e 12 vértices, ela é muito comum dentre as diversas
partículas virais. Os capsídeos de simetria helicoidal apresentam arranjo em hélice,
já os de simetria complexa incluem aquelas que são exceção aos dois tipos citados
anteriormente.

93
Microbiologia

Figura 4.4: Diagrama representativo de simetrias do capsídeo. 1A e 1B: Capsídeos de


simetria icosaédrica. 2A e 2B: Capsídeos de simetria helicoidal. 3: Capsídeo de simetria
complexa. (FLORES, EF, 2007, p. 22)

94
Microbiologia

Replicação viral

Os vírus, para se multiplicarem, necessitam infectar uma célula hospedeira, já


que não possuem metabolismo próprio. Uma vez no interior dessa célula, o
microrganismo tem a capacidade de utilizar todo o metabolismo celular de acordo
com sua necessidade, voltando à maquinaria da célula infectada para a confecção
de novas cópias virais.

Replicação viral é o termo que se refere ao processo de biossíntese de novas


partículas virais. Os detalhes desse processo variam amplamente dentre as diversas
espécies virais existentes, no entanto, ele pode ser dividido em 6 etapas gerais:
adsorção, penetração, desnudamento, expressão gênica e síntese de componentes
virais, maturação e liberação. Cada etapa será descrita a seguir.

Adsorção

A primeira etapa da replicação compreende a ligação entre partículas virais e a


célula hospedeira, a adsorção. A ligação ocorre através do contato entre proteínas
da superfície do vírus e receptores celulares, vírus não envelopados utilizam
proteínas do capsídeo, já os envelopados contam com as glicoproteínas existentes
no envelope. Os receptores das células para os vírus são geralmente proteínas
(glicoproteínas) ou carboidratos (presentes em glicoproteínas ou em glicolipídios
da membrana).

Alguns vírus necessitam de receptores específicos (como o vírus da febre


aftosa, os poliovírus), outros podem utilizar receptores variados para realizar a
adsorção (por exemplo, herpesvírus). A quantidade de receptores na superfície de
uma célula varia bastante.

Ás vezes, a interação entre as proteínas virais e os receptores celulares não é


suficiente para que a adsorção ocorra de forma eficiente. Nesse caso, são
necessárias proteínas celulares adicionais, co-receptores, para estabilizar a ligação.

95
Microbiologia

O contato entre um vírus e uma célula parece ser ao acaso. Ou seja, a célula
hospedeira não atrai a partícula viral a distância. Assim que entra em contato com a
superfície celular, componentes externos das partículas virais interagem
quimicamente com moléculas da membrana plasmática, podendo resultar ou não
em penetração e início da infecção.

Apesar de a adsorção viral à superfície celular ser a etapa inicial e


indispensável para o início da replicação, ela nem sempre resulta em infecção
produtiva. Estima-se que um grande número de interações entre vírions e células
não resulte em penetração, pela falta de receptores específicos para o vírus ou pela
debilidade dessas interações. Partículas vírais podem se ligar à superfície da célula
e não penetrarem na mesma. Outra situação que pode ocorrer é a adsorção,
seguida de internalização do nucleocapsídeo, mas liberação do mesmo em
compartimentos celulares inapropriados, como os lisossomos. Enfim, a ligação viral
à membrana celular é necessária para a replicação, no entanto ela nem sempre
garante a continuação do processo replicativo.

Susceptibilidade é um termo que se refere à capacidade das células de serem


infectadas naturalmente pelo vírus, enquanto já permissividade refere-sassocia-se
às condições intracelulares para a ocorrência da replicação viral. Logo, as células
nas quais os vírus conseguem, de fato, completar a replicação são susceptíveis
(permitem a penetração) e permissivas (permitem a ocorrência das etapas
intracelulares).

Penetração

A penetração é a etapa que ocorre após a adsorção e envolve a transposição


da membrana plasmática, permitindo a entrada do nucleocapsídeo (genoma viral
+ proteínas) no interior da célula, local onde ocorrerão a expressão gênica e a
replicação do genoma. A transposição da membrana pode ocorrer na superfície
celular ou já no interior do citoplasma, a partir de vesículas produzidas por
endocitose, fagocitose ou macropinocitose.

96
Microbiologia

As principais formas de prenetração viral são:

a) Penetração direta

Após a adsorção, o material genético de vírus não envelopados é introduzido,


diretamente, no citoplasma da célula hospedeira. Este material genético, então,
pode seguir a próxima etapa do ciclo replicativo e servir como base para a síntese
de proteínas virais e de cópias de material genético para a formação de outras
partículas virais.

b) Fusão do envelope viral com a membrana plasmática.

Os vírus envelopados podem usar como estratégia de penetração a fusão de


seu envelope com a membrana da célula hospedeira. Após a ligação a receptores
celulares, o envelope do vírus, que possui estrutura muito semelhante à membrana
celular, simplesmente se junta ao envoltório da célula hospedeira, havendo a
liberação do nucleocapsídeo no citoplasma celular.

c) Endocitose

Esse mecanismo de penetração é utilizado por vários vírus envelopados (p. ex.:
flavivírus e ortomixovírus) e por alguns vírus sem envelope (p. ex.: adenovírus,
picornavírus e reovírus).

A via endocítica parece ser a melhor via para a internalização dos vírus, já que
i) a endocitose é um processo fisiológico que ocorre na maioria das células; ii) ela
ocorre somente em células com transporte de membrana ativo, evitando a
penetração em eritrócitos e plaquetas, locais nos quais a infecção seria
improdutiva; iii) as partículas virais podem se ligar em qualquer local da superfície
celular para serem internalizadas; iv) a endocitose garante a internalização e o
transporte dos vírions para os locais de expressão gênica e replicação; v) a
penetração a partir dos endossomos reduz a detecção viral pelo sistema
imunológico, pois não deixa proteínas virais expostas na superfície celular,
constituindo um mecanismo de evasão da resposta imunológica e vi) o
microambiente endossomal se acidifica gradativamente, o que auxilia na ativação
dos mecanismos de fusão e penetração.

Na endocitose, após a adsorção, a célula hospedeira capta a partícula viral e a


mesma é internalizada em vesículas endocítica. Os vírus envelopados podem ser
liberados no citoplasma através da fusão de seu envelope com a membrana da
vesícula endocítica, já os vírus não envelopados necessitam de mecanismos que
rompam a membrana vesicular para que sejam liberados da mesma.

97
Microbiologia
Tabela 4.1: Receptores celulares e mecanismos de penetração dos principais
vírus animais. (FLORES, EF, 2007, p. 112)
Forma / Local
Família Vírus Receptor Viral
de Penetração
Sulfato de heparina / receptor homólogo
Herpesviridae Herpes simplex ao fator de necrose tumoral (TNF) e fator Fusão na membrana plasmática
de crescimento neuronal (NGF)
Sulfato de heparan (HS), proteoglicanos
Pseudoraiva Fusão na membrana plasmática
(HSPG) e coreceptores
Receptor para adenovírus e vírus Endocitose dependente de
Adenoviridae Adenovírus 2
Vírus DNA

Coxsackie B (CAR) clatrina


Membrana plasmática e/ou
Poxviridae Vaccinia Fator de crescimento epidermal (EGF)
macropinossomo
Moléculas do complexo maior de Endocitose caveolar e/ou retículo
Polyomaviridae SV-40
histocompatibilidade (MHC) classe I endoplasmático
Integrina -6 e moléculas semelhantes Endocitose dependente de
Papilomaviridae Papilomavírus bovino
ao heparan clatrina
Parvoviridae Papilomavírus canino Receptor de transferrina Endossomos
Asfarviridae Peste suína africana Não determinado Endossomos
Vírus elevador da Moléculas do complexo maior de
Arteriviridae Endossomos
desgrogenase láctica histocompatibilidade (MHC) classe II
Vírus da Hepatite dos Glicoproteína biliar dos murinos /
Coronaviridae Endossomos
Murinos antígeno carcinoembriogênico
Coronavírus humano 229E CD13 (Aminopeptidase) Membrana plasmática
Endocitose dependente de
Orthomyxoviridae Vírus da influenza Ácido siálico
clatrina
Paramyxoviridae Vírus do sarampo CD46 Membrana plasmática
Endocitose dependente de
Togaviridae Semliki Forest Moléculas do MHC classe II
clatrina
Vírus da diarreia viral
Vírus RNA

Flaviviridae CD46 bovino Endossomos


bovina
Endocitose dependente de
Rhabdoviridae Vírus da raiva Receptor da neurotropina (p75NTR)
clatrina
Filoviridae Vírus Ebola e Marburg Receptor folato (FR-) Caveola
Retroviridae HIV-1 CD4 e receptor de citocinas Membrana plasmática
Endocitose dependente de
Bunyaviridae Vírus Hantaan Integrinas ( 3)
clatrina
Picornaviridae Vírus da febre aftosa Integrinas ( v) Endocitose
Caliciviridae Não determinado Não determinado Endossomos
Ácido siálico e molécula 1 de adesão
Reoviridae Reovírus Endossomos
juncional (JAM 1)
Integrinas V3 e proteínas cognatas Membrana citoplasmática (lipid
Rotavírus
do choque térmico (hscp70) rafts)
a
CAR: receptor de virus coxsackie B e adenovirus. bnão determinado.

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Microbiologia

Desnudamento

O termo desnudamento (do inglês uncoating) refere-se aos eventos que


ocorrem logo após a penetração, em que os constituintes do nucleocapsídeo são
parcial ou totalmente removidos, resultando na exposição parcial ou completa do
genoma viral.

A remoção das proteínas do nucleocapsídeo é absolutamente necessária para


a exposição do genoma às enzimas e fatores responsáveis pela transcrição (vírus
DNA e RNA de cadeia negativa) ou tradução (vírus RNA de cadeia positiva).

Biossíntese viral

Uma vez dentro da célula, o genoma viral deve ser direcionado para a síntese
de mRNA e proteínas virais e gerar cópias idênticas de si mesmo. O material
genético é inútil, a menos que possa ser transcrito em mRNAs funcionais capazes
de se ligar aos ribossomos e ser traduzidos em proteínas.

A forma como cada vírus cumpre estas etapas depende da estrutura do


genoma e do sítio de replicação. Geralmente, vírus de DNA utilizam a maquinaria
nuclear para realizarem a síntese de RNA e de cópias de DNA (as proteínas são
sintetizadas no citoplasma) , já os de RNA realizam todas as etapas, tanto de síntese
de cópias de RNA como de proteínas, no citoplasma.

A maquinaria celular para a transcrição e o processamento do mRNA encontra-


se no núcleo. A maioria dos vírus DNA utiliza a RNA polimerase II DNA-dependente
e outras enzimas celulares para a síntese de mRNA.

Embora, por exemplo, os poxvírus sejam vírus de DNA, eles se replicam no


citoplasma, então, devem codificar enzimas para todas estas funções. Como citado
anteriormente, a maioria dos vírus de RNA replica-se e produz mRNA no
citoplasma, exceto os ortomixovírus e os retrovírus. Os vírus de RNA devem
codificar as enzimas necessárias à transcrição e à replicação, já que a célula não
possui meios para replicar RNA.

99
Microbiologia

Geralmente, o mRNA para proteínas não estruturais é sintetizado primeiro.


Essas proteínas normalmente servem para se ligar ao DNA e enzimas, incluindo as
polimerases codificadas pelo vírus.

Figura 4.5: Etapas da síntese macromolecular viral: o mecanismo de síntese de mRNA e


proteína viral e a replicação do genoma são determinados pela estrutura do genoma. 1. O
DNA de fita dupla (DNA FD) usa a maquinaria hospedeira no núcleo (exceto os poxvírus) para
fazer mRNA, que é traduzido em proteínas pelos ribossomos da célula hospedeira. 2.O DNA
de fita simples (DNA FS) é convertido em DNA FD e replica-se como DNA FD. 3.O RNA (+)
assemelha-se a um mRNA que se liga aos ribossomos para fazer uma poliproteína que é

100
Microbiologia
clivada em proteínas individuais. Uma das proteínas virais é uma RNA polimerase que faz um
molde de RNA (−) e então mais progênie de genoma RNA (+) e mRNAs. 4. O RNA (−) é
transcrito em mRNAs e em um molde de RNA (+) de tamanho total pela RNA polimerase
carreada no vírion. O molde de RNA (+) é usado para fazer a progênie de genoma RNA (−). 5.
O RNA FD age como um RNA (−). As fitas (−) são transcritas em mRNAs por uma RNA
polimerase no capsídeo. Os RNAs (+) são transferidos para o capsídeo e os RNAs (−) são feitos
no capsídeo. 6. Os retrovírus são RNA (+) que são convertidos em DNA complementar (cDNA)
pela transcriptase reversa carreada no vírion. O cDNA integra-se ao cromossomo hospedeiro
e o hospedeiro sintetiza mRNAs, proteínas e cópias de genoma de RNA de tamanho total.
MURRAY, P.R., ROSENTHAL, K.S., PFALLER M.A., 2009, p. 49).

Montagem

A montagem do vírion é similar a um quebra-cabeça tridimensional


entrelaçado que se coloca em uma caixa. A partícula viral é construída a partir de
partes pequenas, facilmente fabricadas, que abrigam o genoma em um pacote
funcional.

Cada parte do vírion possui estruturas de reconhecimento que permitem ao


vírus formar interações proteína-proteína, proteína-ácido nucleico e proteína-
membrana (para os vírus envelopados) apropriadas.

Durante a montagem, as proteínas sintetizadas na etapa de biossíntese


geralmente se organizam para que a estrutura do capsídeo viral seja montada,
abrigando em seu interior o material genético do vírus.

Liberação

Os vírus podem ser liberados das células por lise celular, por exocitose ou pelo
brotamento da membrana plasmática.

Os vírus não envelopados são geralmente liberados após a lise da célula. A


liberação de muitos vírus envelopados ocorre após o brotamento da membrana
plasmática sem matar a célula, nessa situação, a partícula viral adquire o envelope a

101
Microbiologia

Figura 4.6: Exemplos de liberação viral. A) Lise celular; B) Brotamento e C) Exocitose.


(FLORES, EF, 2007, p. 132 e 133) partir da membrana plasmática da célula hospedeira. A
lise e o brotamento da membrana plasmática são formas eficientes de liberação.

102
Microbiologia

Os vírus que adquirem seu envelope no citoplasma (p. ex., flavivírus, poxvírus)
permanecem associados à célula e comumente são liberados por exocitose.

Figura 4.7: Representação esquemática do ciclo replicativo de um vírus DNA.1)


Adsorção; 2) Penetração; 3) Desnudamento; 4) Transcrição dos genes virais; 5) Tradução dos
RNA mensageiros (mRNA) e produção das proteínas virais; 6) Replicação do genoma; 7)
Morfogênese; 8-9) Liberação. (FLORES, EF, 2007, p. 132 e 110).

Nesta unidade estudamos a morfologia viral e as etapas da replicação dos


vírus. Na próxima unidade veremos a patogênese das infecções virais e o
diagnóstico laboratorial das viroses.

É HORA DE SE AVALIAR

Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão


ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de
ensino-aprendizagem.

103
Microbiologia

Exercícios – Unidade 4

1- A alternativa que apresenta uma propriedade comum a todos os vírus é:

a) replicam-se independentemente.

b) possuem ácido nucleico e proteínas.

c) são formados por DNA e carboidratos.

d) reproduzem-se de forma similar à das bactérias.

e) possuem metabolismo próprio.

2- Marque a única opção correta que apresenta uma característica a respeito


da estrutura viral:

a) todos os vírus são constituídos por proteína, DNA e lipídios.

b) o material genético viral existe apenas sob a forma de DNA.

c) todos os vírus infectivos são basicamente constituídos por proteínas e


material genético .

d) o envelope viral é formado apenas por carboidratos.

e) nenhuma das respostas anteriores.

3-O termo “susceptibilidade” em virologia refere-se a:

a) Células que não permitem a penetração viral.

b) Tropismo de um vírus por um hospedeiro.

c) Período em que um indivíduo se recupera de uma infecção sintomática.

d) Infecção persistente latente.

e) Células que possuem um determinado receptor que permite a ligação de


um determinado vírus.

104
Microbiologia

4- Quanto à replicação viral, marque a alternativa correta:

a) A penetração é a etapa em que o material genético do vírus se separa do


capsídeo.

b) A liberação é a etapa em que o vírus egressa da célula.

c) O desnudamento é a fase em que ocorre a biossíntese viral.

d) Durante a biossíntese viral somente são sintetizadas as proteínas do


capsídeo.

e) A adsorção ocorre quando o vírus organiza seu capsídeo.

5- Considerando a simetria que o capsídeo viral pode apresentar, marque a


alternativa correta:

a) Coco.

b) Bastão.

c) Espirilo.

d) Icosaedro.

e) Levedura.

6- A etapa da replicação viral conhecida como adsorção compreende:

a) A ligação entre proteínas virais e a célula hospedeira.

b) A liberação da progênie viral a partir da célula hospedeira.

c) A internalização do material genético viral.

d) A síntese de proteínas estruturais do vírus.

e) A montagem do nucleocapsídeo.

105
Microbiologia

7- Alguns vírus podem conter, além de sua estrutura básica, outros


constituintes. Em relação a esses constituintes, marque a alternativa correta.

a) alguns vírus contêm lipídeos, os quais podem ser encontrados nos mesmos
sob a forma de espículas.

b) alguns vírus contém lipopolissacarídeos em suas cápsulas.

c) alguns vírus podem contêm enzimas, as quais estão presentes no envelope


viral.

d) a) alguns vírus contêm lipídeos, os quais podem ser encontrados nos


mesmos sob a forma do envelope.

e) alguns vírus podem contem carboidratos, os quais formam o capsídeo.

8- A replicação viral:

a) Ocorre dentro de uma célula hospedeira, já que os vírus não possuem


metabolismo próprio.

b) Requer gasto de energia por parte da partícula viral.

c) Ocorre somente em células epiteliais.

d) Independe da permissividade apresentada por uma célula.

e) Não apresenta variações dependendo do tipo viral.

106
Microbiologia

9- Explique a diferença entre RNAs de polaridade negativa e positiva.

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10- A família Retroviridae possui a característica de transcrição reversa. Do que se


trata essa característica?

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Microbiologia

108
Microbiologia

5 Patogênese das infecções


virais e diagnóstico
laboratorial das viroses.

109
Microbiologia

Nesta unidade, veremos alguns aspectos da patogênese das infecções


promovidas por vírus e as principais técnicas diagnósticas em virologia.

Objetivos da unidade:

 Compreender como os vírus são transmitidos e disseminados;

 Conhecer as exigências para que uma infecção viral ocorra;

 Diferenciar os padrões e períodos da infecção viral;

 Identificar as diversas técnicas utilizadas no diagnóstico laboratorial


em virologia.

Plano da unidade:

 Patogênese viral e diagnóstico laboratorial

 Patogênese das infecções virais

 Diagnóstico laboratorial em virologia

Bons estudos!

110
Microbiologia

Patogênese viral e diagnóstico laboratorial

Introdução

O termo patogenia – ou patogênese –, relacionado às infecções virais, refere-


se ao conjunto de mecanismos pelos quais os vírus promovem doença em seus
hospedeiros (pato = doença, gênese = origem, produção).

Alguns conceitos devem ser definidos:

 Patógeno: agente infeccioso capaz de promover doença.

 Patologia: estudo da origem e das alterações estruturais e/ou


funcionais induzidas por doença em um organismo.

 Patogenicidade: capacidade do agente de infectar um hospedeiro e


causar doença.

 Patogênese ou patogenia: etapas envolvidas no desenvolvimento


de doenças.

 Virulência: geralmente utilizado como sinônimo de patogênico.

Patogênese das infecções virais

Transmissão dos vírus na natureza

Os vírus, por serem parasitas intracelulares obrigatórios, são mantidos na


natureza se transmitidos de um hospedeiro para outro, da mesma espécie ou não..
Essa transmissão pode ser horizontal ou vertical.

- Transmissão horizontal

Esse tipo de transmissão compreende a passagem viral de um indivíduo para


outro, da mesma espécie ou não. Ela pode ocorrer de diversas formas:

111
Microbiologia

Contato: diretamente de um indivíduo infectado para outro susceptível,


através da via sexual, saliva, pele, ou indiretamente, através de fômites (objetos
contaminados) e perdigotos.

Vetores: via animais vertebrados ou invertebrados.

Veículo: água ou alimentos contaminados.

-Transmissão vertical

Trata-se da transmissão viral da mãe para o embrião/feto, seja durante a


gestação ou no momento do nascimento.

Exigências para o início de uma infecção viral

Para que uma infecção viral seja bem sucedida geralmente são necessários 3
requisitos: inóculo viral suficiente, acessibilidade e permissividade no sítio de
entrada e fragilidade dos mecanismos de defesa local do hospedeiro.

- Inóculo viral: mesmo que as partículas virais permaneçam infecciosas ao


passarem de um hospedeiro para outro, a infecção poderá não prosseguir se a
concentração de partículas for insuficiente.

- Sítio de entrada: as células da porta de entrada necessitam ser acessíveis ao


vírus, além de suscetíveis (presença de receptores celulares) e permissíveis
(presença de produtos intracelulares necessários para a replicação viral).

- Defesa local do hospedeiro: para iniciarem a infecção, os vírus necessitam de


mecanismos de evasão da ação do sistema imunológico ou de falhas nesse mesmo
sistema de defesa.

Entrada dos vírus no organismo

Geralmente os vírus penetram no organismo através de células da superfície


do corpo. Os sítios de entrada mais comuns incluem os tratos respiratório,
gastrointestinal e urogenital, além da conjuntiva e da pele.

112
Microbiologia

- Mucosas

As mucosas estão frequentemente em contato com antígenos estranhos, logo


elas representam tecidos imunologicamente ativos. A ação dessas defesas
minimiza a penetração de patógenos e a infecção das mucosas.

Entrada via trato respiratório

O trato respiratório é a via de entrada mais comum em termos de infecção


viral. Geralmente, a invasão deste trato está associada ao contato com perdigotos
(aerossóis) ou saliva.

A via respiratória apresenta barreiras mecânicas que dificultam a penetração


de patógenos, tais como células ciliadas, além de células e glândulas secretoras de
muco, o que faz com que muitas partículas estranhas sejam deglutidas e digeridas.
Nos alvéolos pulmonares encontram-se macrófagos intimamente associados à
defesa contra invasores. Partículas maiores não atingem os pulmões.

Trato gastrointestinal

O trato gastrointestinal é uma rota comum de entrada e disseminação dos


vírus. No entanto, para que o vírus persista no organismo, ele deve ser resistente a
extremos de pH, ação de proteases e aos sais biliares.

Como fatores de proteção deste trato são exemplos o muco, IgA, a acidez do
estômago, a alcalinidade do intestino, os sais biliares e a presença de células
fagocitárias.

Trato urogenital

O trato urogenital é uma importante porta de entrada para os vírus,


principalmente quando se trata de transmissão sexual. A atividade sexual
naturalmente promove abrasões na região genital, o que facilita a entrada dos
vírus no organismo.

113
Microbiologia

As principais defesas associadas a esse trato são o muco e o pH ácido vaginal.

Conjuntiva

Qualquer tipo de abrasão na conjuntiva aumenta a possibilidade de infecção


viral, porém a disseminação a partir desse sítio é rara.

A conjuntiva conta com a secreção ocular e o movimento das pálpebras como


formas de proteção contra a entrada de patógenos virais.

- Pele

Todo tipo de abrasão, picadas de vetores, perfurações e mordidas aumentam a


possibilidade de entrada viral a partir da pele. A infecção viral geralmente é local
quando o patógeno não atinge a derme.

A pele além de ser queratinizada, apresenta células de Langerhans para sua


defesa.

Quadro 5.1: sítios de replicação viral no trato respiratório. (SANTOS, NSO, ROMANOS,
MTV, WIGG, MD, 2008, p.45)

Trato Respiratório Superior


Sítio de Manifestação
Exemplo de vírus
infecção clínica
rinite, faringite, rinovírus, coronavírus, vírus da parainfluenza,
boca, cavidades
laringite, vírus da influenza, vírus sincicial respiratório,
nasais, faringe,
tonsilite, adenovírus, metapneumovírus humano,
laringe, tonsilas
sinusite bocavírus humano

Trato Respiratório Inferior


Sítio de Manifestação
Exemplo de vírus
infecção clínica
traquéia, traqueíte,
vírus da parainfluenza, vírus da influenza,
brônquios, bronquite,
vírus sincicial respiratório, metapneumovírus
bronquíolos, bronquiolite,
humano, bocavírus humano
alvéolos pneumonia

114
Microbiologia

Tropismo viral

Muitos vírus não replicam em todos os tipos celulares do hospedeiro, ficando


restritos a algumas células específicas. A predileção viral para infectar alguns
tecidos do hospedeiro é chamada de tropismo.

O tropismo viral pode ser determinado pela presença de receptores nas células
(susceptibilidade), bem como pela presença de constituintes intracelulares
necessários para que a replicação viral se complete (permissividade). Apesar de
uma célula apresentar essas características, a infecção viral não prossegue se essa
célula não estiver acessível. Ainda que a célula seja permissiva e suscetível, e esteja
acessível, a infecção pode não ocorrer devido às defesas imunológicas presentes
no local de entrada.

Disseminação viral

A disseminação viral ocorre quando o vírus invade um organismo e consegue


transpassar barreiras físicas e imunológicas.

Alguns vírus promovem infecções localizadas, geralmente restritas às


proximidades dos sítios de penetração e replicação primária. Esse tipo de infecção
é característico de vírus respiratórios (vírus da influenza e parainfluenza),
gastrointestinais (coronavírus e rotavírus) e de alguns vírus que infectam a derme e
a epiderme (papilomavírus, alguns poxvírus). Essas infecções estão comumente
limitadas ao epitélio, no entanto a penetração e o envolvimento de tecidos
próximos e a disseminação sistêmica podem eventualmente acontecer. As
infecções que se restringem aos sítios de replicação primária e suas proximidades
são ditas localizadas.

115
Microbiologia

Figura 5.1: Trajeto dos vírus que penetram pela pele ou mucosas superficiais para atingir o
sangue e se distribuir sistemicamente. (FLORES, EF, 2007, p. 203).

Outros vírus possuem a capacidade de se disseminar a longas distâncias pelo


sangue ou pela linfa e infectar órgãos específicos ou promover infecções
generalizadas. As infecções que vão além dos sítios de replicação primária são
denominadas disseminadas e as que acometem vários órgãos ou sistemas são
chamadas de sistêmicas ou generalizadas.

- Disseminação local através da superfície do epitélio

Após a penetração viral nas células do epitélio, há replicação e espalhamento


de novos vírus formados para as células vizinhas. É a forma de disseminação
utilizada por vírus que promovem infecção localizada em pele e mucosas.

- Disseminação via nervos periféricos

Existem vírus que se disseminam a partir de sítios primários para terminações


nervosas locais. Para alguns vírus o sistema nervoso é o objetivo final, enquanto
para outros ele é apenas um desvio do seu sítio de replicação.

116
Microbiologia

Quadro 5.2: Disseminação viral através do sistema nervoso (SANTOS, NSO,


ROMANOS, MTV, WIGG, MD, 2008, p.48)

Rota de Entrada Exemplo de vírus


poliovírus, vírus da febre amarela,
Neural vírus da encefalite venezuelana, vírus da raiva,
reovírus tipo 3, vírus herpes simplex tipos 1 e 2
vírus herpes simplex, vírus da varicela-zoster,
Nervo olfatório
coronavírus, vírus da raiva
poliovírus, vírus do sarampo, coxsackievírus,
Hematológica arenavírus, vírus da caxumba, vírus herpes simplex,
citomegalovírus, vírus do oeste do Nilo

- Disseminação linfática

Os capilares linfáticos são mais permeáveis do que capilares sanguíneos, o que


facilita a passagem viral. Como os vasos linfáticos acabam se ligando aos
sanguíneos, os vírus têm acesso ao sistema circulatório.

- Disseminação através do sangue (viremia)

Os vírus que escapam das defesas locais podem ir para o sangue. A


disseminação pelo sangue dá aos vírus a oportunidade de atingir, a princípio, todos
os órgãos e tecidos em poucos minutos a partir dos sítios de replicação primária. As
partículas virais podem atingir a corrente sanguínea diretamente através da parede
capilar, após a infecção de células endoteliais ou pela inoculação direta por insetos
ou por instrumentos contaminados.

117
Microbiologia

Figura 5.2 : Etapas da patogenia das infecções virais localizadas e sistêmicas: papel da
viremia na disseminação das infecções. (FLORES, EF, 2007, p. 204).

118
Microbiologia

A disseminação, por via hematogênica, começa quando os vírions produzidos


nos sítios primários de replicação são liberados no líquido extracelular e drenados
pelo sistema linfático. As partículas virais veiculadas pela linfa eventualmente têm
acesso à corrente sanguínea.

Denomina-se viremia ativa quando há replicação viral e passiva quando ocorre


a introdução de partículas virais no sangue sem que haja replicação no sítio de
entrada.

A viremia primária pode ser caracterizada pela liberação viral no sangue após
replicação inicial no sítio de entrada, já a secundária é aquela que ocorre quando
uma grande concentração de partículas virais pode ser encontrada novamente no
sangue após a viremia primária.

Padrões de infecção

As infecções naturais podem ser rápidas ou autolimitadas ou de longa duração,


variações podem ocorrer.

I. Infecções agudas:

Caracterizadas por uma rápida produção de vírus seguida da resolução e


eliminação da infecção. Ela pode não resultar em doença, ocorrendo de
forma inaparente ou assintomática.

II. Infecções persistentes

Nesse caso, a infecção não é eliminada rapidamente, havendo produção


viral contínua ou intermitente.

Infecção persistente crônica: nesse caso o vírus é continuamente replicado


e excretado.

Infecção persistente lenta: ocorre um longo período entre a infecção


aguda primária e o surgimento de sintomas, há produção contínua de
partículas virais.

119
Microbiologia

Infecção persistente latente: nesse tipo de infecção as partículas virais


permanecem em forma “não infecciosa” por períodos, podendo haver
reativação e retomada da replicação.

III. Infecções abortivas

O vírus infecta um hospedeiro ou célula susceptível, no entanto a


replicação não se completa (gene viral ou celular não é expresso). Logo,
trata-se de uma infecção não produtiva.

Períodos da infecção

Período de incubação: compreendido entre o início da infecção até o


aparecimento dos primeiros sintomas.

Período prodrômico: período em que o indivíduo apresenta sintomas clínicos


generalizados e inespecíficos (febre, mal-estar, dor de cabeça etc), antecede o
período dos sintomas característicos da doença.

Período da doença: quando o indivíduo apresenta os sintomas característicos


da doença.

Período da infecciosidade: período durante o qual o indivíduo permanece


excretando e transmitindo o vírus.

Período da convalescença: período durante o qual o paciente se recupera.

Excreção dos vírus do organismo

O último estágio da patogênese é a excreção do vírus infeccioso do organismo,


e ela é necessária para a manutenção da infecção na população.

- Secreções respiratórias

Vírus que causam infecções localizadas no trato respiratório e também que


promovem infecções sistêmicas.

- Fezes

Via de excreção relacionada todos os vírus que infectam o trato entérico.

120
Microbiologia

- Pele

Vírus que replicam na pele são, muitas vezes, transmitidos por contato direto
entre hospedeiros.

- Trato genitourinário

Principal via de excreção associada à transmissão sexual. Alguns vírus são


excretados na urina.

- Leite materno

- Sangue

Fonte importante para a veiculação de vírus por artrópodes, transmissão


vertical, transfusão sanguínea ou por agulhas e seringas contaminadas.

Diagnóstico laboratorial em virologia

A elaboração do diagnóstico laboratorial das infecções virais humanas


depende de ações coordenadas do médico e dos analistas laboratoriais. Os
resultados dos testes laboratoriais, isoladamente, possuem pouco significado se
não forem interpretados com base nos conhecimentos de epidemiologia,
patogenia e imunologia das doenças.

O diagnóstico de certeza de um processo infeccioso é a demonstração do


patógeno ou de seus produtos nos tecidos ou fluidos biológicos. Essa
demonstração, no caso de uma infecção viral, pode ser realizada de forma direta ou
indireta.

Como demonstração direta, tem-se o isolamento do agente etiológico (por


exemplo, ovos embrionados, animais de laboratório ou cultura de células), a
observação das partículas virais ao microscópio eletrônico, a detecção de
antígenos virais por técnicas de hemaglutinação ou imunológicas ou a pesquisa do
genoma viral por técnicas de biologia molecular.

O diagnóstico indireto baseia-se na investigação de anticorpos produzidos pelo


organismo infectado em resposta a uma determinada infecção viral. Ele pode ser
realizado através da sorologia pareada, isto é, pela coleta de amostras de sangue
na fase aguda e convalescente da infecção. Uma diferença de, pelo menos, 4 vezes
no título de anticorpos específicos entre as duas fases representa a conversão

121
Microbiologia

Método Princípio Propriedades Restrições Aplicações


- Rápida (poucas horas);
Visualização das - Detecta vírions viáveis e -Equipamento caro;
- Infecções entéricas (rotavírus,
partículas víricas inviáveis; - Exige pessoal treinado;
Microscopia coronavírus, astrovírus);
coradas com metais - Útil para vírus que não -Baixa sensibilidade;
Eletrônica - Infecções cutâneas (poxvírus,
pesados em um replicam em cultivo; - Aplicação restrita a alguns
herpesvírus).
microscópio. - Pode permitir a vírus.
identificação do agente.
- Demorado (até semanas);
Observação do
- Sensível; - Não aplicável a alguns vírus;
efeito citopático
- O agente fica disponível - Somente detecta vírus que - Todos os vírus que replicam
e/ou detecção de
Isolamento em para estudos posteriores; estejam viáveis; em cultivos celulares;
produtos virais após
cultivo celular a sua multiplicação - Implementação e - Contaminação bacteriana e - Qualquer material clínico pode
execução relativamente fúngica; ser submetido ao isolamento.
em células de
simples. - Contaminação com vírus
cultivo.
adventícios.
-Aplicável a um grupo restrito de
- Aplicável aos vírus
Observação da - Rápida; vírus; hemaglutinantes de aves e
Hemagluti- capacidade do vírus - Boa sensibilidade; - Hemaglutinação inespecífica;
mamíferos;
nação (HA) de aglutinar - Boa especificidade; - Necessidade de espécies - Fluidos corporais, suspensões
eritrócitos. -Fácil execução. doadoras de hemácias;
de tecidos.
- Não automatizável.
- Rápida (minutos ou
poucas horas);
Proteínas virais são
- Simples, baixo custo;
detectadas por - Aplicável a qualquer vírus para
Imunofluores- - Boa sensibilidade e
anticorpos - Equipamento caro (IFA); o qual se disponha de
cência (IFA) especificidade;
específicos - Reações inespecíficas (uso de anticorpos específicos;
- Detecta também vírus
conjugados com um anticorpos policlonais); - Materiais: tecidos (frescos,
Imuno- inviável;
marcador - Reagentes para alguns vírus congelados, fixados), esfregaços
peroxidase - Pode informar sobre
fluorescente (IFA) podem não ser disponíveis. (sanguíneos, de secreções),
(IPX) ou com uma enzima sorotipos; células de cultivo.
- Disponível em kits;
(IPX)
- Aplicável a virtualmente
todos os vírus.
A presença do
antígeno que reage - Aplicável a vários vírus de
- Simples e prática;
Testes imuno- com o anticorpo -Não automatizável; pequenos animais;
- Disponível em kits;
enzimáticos / específico - Especificidade e sensibilidade - kits disponíveis para uso em
- Rápida;
cromato- imobilizado ou após podem deixar a desejar; clínicas;
- Boa sensibilidade e
gráficos a migração, é - Custo alto por amostra. - Também para alguns vírus de
especificidade.
revelada pela aves, suínos e bovinos.
mudança de cor.
Ácidos nucléicos - Específica;
(RNA, DNA) do vírus - Sensível;
Detecção de são detectados por - Necessita quantidades - Custo alto; - Aplicável a virtualmente todos
ácidos sondas marcadas mínimas da amostra; - Requer equipamento e pessoal os vírus conhecidos;
nucléicos (PCR, (hibridização) ou - Potencialmente aplicável treinado; - Pode ser realizada em
hibridização) após amplificação a todos os vírus. - Técnica sofisticada. qualquer amostra clínica.
por reações - Rápida (PCR);
enzimáticas (PCR). - Automatizável (PCR).

122
Microbiologia

Método Princípio Propriedades Restrições Aplicações


Observação de - Reações inespecíficas
linhas de frequentes;
-Simples execução e
precipitação no - Sensibilidade limitada;
Imunodifusão implementação; - Anemia infecciosa equina,
ágar, produzidas - Qualidade do antígeno é
em ágar - Custo baixo; língua azul, leucose enzoótica
pela formação de
(IDGA) - Sensibilidade razoável; crítica; bovina.
complexos - Somente qualitativa (não
- Resultados em 24-72h.
antígeno- permite a quantificação dos
anticorpos. anticorpos).
- Sensível;
Anticorpos - Exige cultivos celulares;
- Específica;
presentes no soro - Implementação / execução
- Custo reduzido;
Soroneutra- previnem a - Qualitativa (sim/não) e podem ser problemáticas; - Virtualmente todos os vírus
replicação do vírus e - Contaminação bacteriana; que replicam em cultivo
lização (SN) quantitativa (título de
a produção de - Toxicidade do soro; celular.
anticorpos);
efeito citopático nos - Detecta somente anticorpos
- Similar à neutralização
cultivos. neutralizantes.
in vivo.
Anticorpos - Utilizada para inúmeros
presentes no soro vírus;
- Rápida (2-3h);
ligam-se aos - Requer equipamento; - Pode ser qualitativa e
- Sensível;
antígenos - Kits comerciais podem ter quantitativa;
- Específica;
imobilizados em custo alto; - Utilizada para detectar
- Automatizável;
ELISA placas de - Não disponível para todos os anticorpos totais ou classes
poliestireno e são - Disponível em kits; vírus; específicas no soro ou
- Pode detectar classes
detectados por - Qualidade do antígeno é secreções (leite);
específicas (IgG, IgM,
anti-anticorpos crítica. - Variações da técnica são
etc.).
conjugados com disponíveis para a detecção de
enzimas. antígenos.
- Somente aplicável a vírus
Anticorpos hemaglutinantes;
- Rápida;
Inibição da antivirais impedem - Requer animais doadores de
- Sensível; - Vírus hemaglutinantes de
hemagluti- a atividade eritrócitos;
- Específica; aves e mamíferos.
nação (HI) hemaglutinante do - Inibidores inespecíficos
- Custo baixo.
vírus. podem dar falso positivo;
- Não-automatizável.
A presença de - Demorada;
anticorpos leva à - Boa sensibilidade e - Trabalhosa; - Já foi muito usada para
Fixação do
ativação do - Não-automatizável; vários vírus, atualmente está
complemento especificidade.
complemento e lise - Requer animais doadores de em desuso.
de eritrócitos. eritrócitos;
Anticorpos
presentes no soro se - Reações inespecíficas;
Imunofluores- ligam em antígenos
- Rápida; - Exige microscópio de UV; - Já foi usada para vários vírus;
cência (IFA) específicos - Boa sensibilidade; - Pode não detectar níveis - Uso atual restrito a alguns
para imobilizados e são
- Simples. baixos de anticorpos; vírus.
anticorpos detectados por - Não-automatizável.
anticorpos
marcados com FITC.
- Aplicável a vários vírus de
A presença do - Simples e prática; - Não-automatizável;
pequenos animais;
anticorpo que reage - Disponível em kits; - Especificidade e
Imuno- - Kits disponíveis para uso em
com o antígeno é - Rápida; sensibilidade podem deixar a
cromatografia clínicas;
revelada pela - Boa sensibilidade e desejar; - Também para alguns vírus
mudança de cor. especificidade. - Custo individual alto.
de aves, suínos e bovinos.

123
Microbiologia

Tabela 5.1: Princípios, propriedades e restrições dos principais métodos diretos


de diagnóstico virológico (FLORES, EF, 2007, p. 301) imunológica do indivíduo. Esse
evento é denominado conversão sorológica e a verificação de sua ocorrência pode
ser feita por testes de imunodifusão em gel de ágar e inibição da hemaglutinação.

Dentre as técnicas imunológicas mais usadas atualmente, destacam-se a


imunofluorescência e o ensaio imunoenzimático (ELISA). Além dessas, com o
avanço das pesquisas na área de genética e biologia molecular, foram
desenvolvidas técnicas de detecção do genoma viral, as mais importantes são as
reações de hibridização de ácido nucleico e a reação em cadeia da polimerase
(PCR).

A seguir podem ser encontradas informações de dois dos principais testes


laboratoriais utilizados atualmente.

- Ensaio imunoenzimático (ELISA)

O ELISA é um método no qual a reação antígeno-anticorpo é monitorada por


medida da atividade enzimática. Ele possui um papel muito importante no
laboratório clínico, pois, além da elevada sensibilidade, apresenta as vantagens de
utilizar reagentes estáveis, estar livre das exigências de trabalhar com
radioisótopos e poder ser adaptado tanto a testes simples como à automação
sofisticada. O ensaio pode ser utilizado com uma variedade de sistemas de
detecção, que vão de leituras visuais a fotométricas, com substratos coloridos,
fluorescentes ou luminescentes, fato que tem contribuído para sua ampla
utilização nos últimos anos.

Principais métodos imunoenzimáticos

a) ELISA direto (detecção de antígenos)

1. Ensaios para antígenos (ELISA direto)

A fase sólida é sensibilizada com anticorpo específico. A amostra em teste,


na qual ocorre a pesquisa do antígeno, é incubada com a fase sólida e, a seguir,
incuba-se a reação com anticorpo específico marcado com uma enzima. A
reação é revelada pela adição do substrato. A taxa de degradação é
proporcional à concentração do antígeno.

124
Microbiologia

Figura: Esquema representativo do ELISA direto.

b) Ensaios para anticorpos (ELISA indireto)

A placa na qual será realizado o ensaio é sensibilizada com o antígeno.


Segue-se a incubação com a amostra teste. O conjugado (anticorpo + enzima)
empregado utiliza uma anti-imunoglobulina humana que reage com o
anticorpo da amostra capturado pelo antígeno. A reação é revelada com a
solução cromógena.

- Reação em cadeia da polimerase (PCR)

A técnica de reação em cadeia pela polimerase (PCR) possibilita a


produção de um enorme número de cópias de uma sequência específica de
um DNA, explorando certas características do processo de replicação do DNA.

A DNA polimerase é uma enzima que usa o DNA de fita única como molde
para a síntese de uma nova fita complementar. Esse molde de DNA de fita
simples pode ser produzido pelo aquecimento a temperaturas próximas da
ebulição. A DNA polimerase também requer uma pequena porção de DNA de
fita dupla para o início de sua síntese. São os oligonucleotídeos iniciadores
(primers). Sendo assim, o ponto inicial para a síntese de DNA pode ser
determinado pelo fornecimento de um oligonucleotídeo iniciador que se liga
ao molde naquele ponto.

125
Microbiologia

As duas fitas de DNA podem servir como molde para a síntese, desde que
se forneça um oligonucleotídeo iniciador para cada fita. Os primers escolhidos
irão demarcar a região do DNA que deve ser amplificada, de maneira que novas
fitas de DNA sejam sintetizadas, iniciadas a partir de cada primer. Elas irão se
estender além da posição do oligonucleotídeo da fita oposta. Então, novos
sítios de ligação dos iniciadores são gerados para cada nova fita de DNA
sintetizada.

O resultado final da PCR é disponibilizado ao final de n ciclos e a reação


contém o valor máximo de 2n moléculas de DNA de fita dupla, que são cópias
de sequências de DNA entre os primers.

A reação de PCR

Após a extração do genoma da amostra clínica, este é adicionado à mistura de


reação que contém: H2O, dNTPs (mistura de nucleotídeos), 1 par de primers
(iniciadores), cloreto de magnésio (MgCl2, cofator da DNA polimerase), tampão da
enzima e a enzima Taq polimerase (DNA polimerase termoestável derivada da
bactéria Thermus aquaticus) . A seguir, a mistura da reação é colocada em um
termociclador e procede-se a PCR que é constituída de vários ciclos (30-40 ciclos).
Cada ciclo da PCR apresenta 3 fases:

Quadro 5.3: Fases contidas em cada ciclo da PCR

Conversão do DNA dupla fita em


 Desnaturação 95ºC 30seg – 1min
simples fita
ligação dos primers às fitas
 Anelamento 55ºC 30seg – 2min
complementares do DNA
Taq polimerase sintetiza uma fita
 Extensão 72ºC 30seg – 2min
complementar de DNA

A visualização dos possíveis fragmentos amplificados na PCR pode ser


realizada através da eletroforese em gel de agarose.

126
Microbiologia

Neste capítulo estudamos a patogênese e o diagnóstico das infecções virais.


No próximo capítulo, veremos as principais características relacionadas ao estudo
dos fungos.

É HORA DE SE AVALIAR

Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão


ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de
ensino-aprendizagem.

127
Microbiologia

Exercícios – Unidade 5

1- “O vírus Epstein-Barr (EBV) exibe tropismo por linfócitos B, mas também é


capaz de infectar outras células, como as epiteliais. Após um período de replicação
inicial, o genoma do EBV pode permanecer em linfócitos B sem haver replicação.
Frente a algum estímulo, o EBV é reativado e volta a replicar, logo, a infecção pelo
vírus é caracterizada por produção viral intermitente”.

De que padrão de infecção trata-se o fragmento acima?

a) Infecção aguda.

b) Infecção persistente crônica.

c) Infecção persistente lenta.

d) Infecção persistente latente.

e) Infecção abortiva.

2- Um indivíduo apresenta artralgia, mialgia e febre (período 1). Um dia depois,


seu quadro evolui para coriza, tosse e espirro (período 2); suspeitando-se, assim, de
infecção por Influenza. Frente aos seus conhecimentos sobre os períodos da
infecção viral, de que se tratam os períodos 1 e 2?

a) período 1: incubação, período 2: doença.

b) período 1: doença, período 2: incubação.

c) período 1: prodrômico, período 2: doença.

d) período 1: convalescença, período 2: prodrômico.

e) período 1: janela imunológica, período 2: convalescença.

128
Microbiologia

3- Dentre os sistemas vivos que podem ser usados para o cultivo de vírus, são
incluídos:

a) culturas de células e ensaio imunoenzimático.

b) Ensaio imunoenzimático e animais de laboratório.

c) culturas de células, animais de laboratório e ovos embrionados.

d) culturas de células, animais de laboratório, ovos embrionados e ensaio


imunoenzimático.

e) Todas as alternativas acima.

4- O termo “susceptibilidade” em virologia refere-se a: (0,75 pontos)

a) Células que não permitem a penetração viral.

b) Tropismo de um vírus por um hospedeiro.

c) Período em que um indivíduo se recupera de uma infecção sintomática.

d) Infecção persistente latente.

e) Células que possuem um determinado receptor que permite a ligação de


um determinado vírus.

5- O termo “permissividade” em virologia refere-se a:

a) Células que possuem componentes intracelulares que permitem que um


vírus prossiga com a replicação.

b) Tropismo de um vírus por um hospedeiro.

c) Período em que um indivíduo se recupera de uma infecção sintomátic.

d) Infecção persistente latente.

e) Células que possuem um determinado receptor que permite a ligação de


um determinado vírus.

129
Microbiologia

6- Uma dada infecção viral foi caracterizada por rápida síntese de partículas
virais prosseguindo para resolução. A qual padrão de infecção viral podem ser
atribuídas essas características?

a) Infecção aguda.

b) Infecção persistente crônica.

c) Infecção persistente lenta.

d) Infecção persistente latente.

e) Infecção abortiva.

7- Assinale a opção incorreta sobre os períodos de uma infecção viral?

a) a incubação é a fase do início da infecção até o surgimento dos primeiros


sintomas.

b) no período prodrômico os sintomas são inespecíficos.

c) na fase da doença os sintomas não são específicos do quadro em questão.

d) na convalescença o indivíduo doente já está se recuperando.

e) nenhuma das opções anteriores.

8- Uma dada infecção viral foi caracterizada por persistência viral no


hospedeiro com produção contínua de partículas virais. A qual padrão de infecção
viral podem ser atribuídas essas características?

a) Infecção aguda.

b) Infecção persistente crônica.

c) Infecção persistente aguda.

d) Infecção persistente latente.

e) Infecção abortiva.

130
Microbiologia

9- Quanto às técnicas indiretas de diagnóstico viral, por serem INDIRETAS, o


que elas detectam?

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10- A reação em cadeia da polimerase é uma técnica de biologia molecular


que pode ser utilizado no diagnóstico de infecções virais. Em que ela se baseia?

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Microbiologia

132
Microbiologia

6 Micologia: o estudos dos


fungos

133
Microbiologia

Nesta unidade, faremos uma análise do das características gerais dos fungos,
sua morfologia, metabolismo, patologias associadas e diagnóstico laboratorial.

Objetivos da unidade:

 Conhecer as estruturas que compõem a célula fúngica;

 Compreender como os fungos se multiplicam;

 Identificar as diversas características do fungo que podem levar ao


surgimento de doenças;

 Conhecer algumas técnicas laboratoriais aplicadas no diagnóstico


das micoses.

Plano da unidade:

 Características gerais dos fungos

 Classificação, morfologia e biologia dos fungos

 Outras características fúngicas

 Diagnóstico laboratorial das micoses

Bons estudos!

134
Microbiologia

Características gerais dos fungos

Introdução

A Micologia compreende um vasto campo de estudo, envolvendo micro-


organismos conhecidos por fungos, leveduras e actinomicetos, embora estes
últimos estejam hoje classificados entre as bactérias. O estudo interessa a vários
setores científicos e industriais. Os fungos são organismos heterotróficos que,
tempos atrás, foram considerados plantas primitivas ou degeneradas, sem clorofila.
No entanto, atualmente está claro que as únicas características comuns entre
fungos e plantas – diferentemente dos outros eucariotos – são a natureza séssil e a
forma de crescimento multicelular (poucos fungos, incluindo as leveduras, são
unicelulares). Evidências recentes no campo da biologia molecular sugerem que os
fungos são mais relacionados com os animais do que com as plantas. Os fungos
têm forma de vida bem distinta dos outros seres vivos.

Histórico

No período pré-histórico, os fungos comestíveis, os venenosos e os


alucinógenos já eram conhecidos. No período histórico, gregos e romanos
escreveram sobre o modo de separar os fungos comestíveis dos venenosos,
interesse que chegava ao ponto de perpetuá-los em pinturas (ruínas de Pompeia -
Lactarius deliciosus) e gravação em monólitos (Tingad - Argélia).

Aparentemente, o primeiro trabalho da era microscópica é o de HOOK: HOOK'S


OBSERVATIONS ON FUNGI - MICROGRAFIA, que foi apresentado à Real Sociedade de
Londres em 1667. Sobressai, depois, Michelli, com Nova Plantarum, introduzindo a
nomenclatura binária. De 1821 a 1832, na Suécia, Elias Fries publica os 3 volumes
do System Mycologicum, considerado ponto de partida para muitos grupos de
fungos. Um trabalho notável teve início em 1822, com Saccardo, e foi até 1931,
constituindo os 25 volumes do Silloge Fungorum, descrevendo mais de 80 mil
espécies. No campo estritamente técnico e de interesse industrial, a obra pioneira é
Technische Mycologie, publicada entre 1904 e 1907. De Barry, considerado pai da
Micologia moderna, publicou Morphologie and Physiologie Derpilze, Flechten, and
Myxomyceten.

135
Microbiologia

A Micologia Médica Humana começou a ser observada por Schoenlein,


Langenbeck, Gruby, sobre as micoses superficiais, a partir de 1839. Estudos sobre
micetoma começaram com Gill, 1842. Estudos de aspergiloses, com Virchow,
datam de 1856. No princípio do século, Sabouraud inaugura praticamente a
Micologia Dermatológica. Este autor deixou um livro até hoje consultado com
interesse: LES TEIGNES, de 1910.

A imunologia micológica desenvolveu-se após 1940 com os estudos de


coccidioidomicose e da histoplasmose. Em virtude desses estudos, nasceu o
conceito de micose doença e micose infecção. Um novo campo de interesse surgiu
por volta de 1950, sob o título de Infecções Micóticas Ocasionais ( Micoses por
Fungos Oportunistas), como consequência do progresso da terapêutica que nos
deu antibióticos, corticosteroides e citostáticos valiosos no combate às doenças a
que se propõem, mas não isentos de perigo, em virtude do desequilíbrio
imunológico que por vezes provocam, abrindo portas de entrada para numerosos
micro-organismos, normalmente saprófitos (sapróbios), mas agressivos ao se
defrontarem com um organismo imunocomprometido.

No âmbito da micologia médica e veterinária, no fim da década de 50, obteve-


se o conhecimento de que os fungos do gênero Aspergillus e outros, após ingestão
alimentar, são capazes de produzir variadas alterações orgânicas, culminando com
a produção de hepatomas (câncer hepático), provocados por toxinas fúngicas,
como a aflatoxina e outras semelhantes.

Classificação, morfologia e biologia dos fungos

O fungo verdadeiro é denominado Eumycophyta. A divisão Eumycophyta


subdivide-se, por sua vez, em 4 classes:

a) Zigomicetos (Ficomicetos)

b) Ascomicetos

c) Basidiomicetos

d) Deuteromicetos ou Fungos Imperfeitos.

136
Microbiologia

Em Micologia, imperfeito significa assexuado. As 3 primeiras classes são de


fungos perfeitos, embora a maioria deles também reproduza-se por via assexuada.

Morfologia

Hifa é o termo usado para designar os filamentos dos fungos. Micélio é o


conjunto das hifas. A hifa de um fungo diferencia-se de um filamento bacteriano
(bacilos, bastonetes), porque é, geralmente, ramificada, coisa que ocorre raras
vezes entre as bactérias. Podemos estudar as hifas sob vários aspectos.

a) Quanto à espessura: são delgadas nos Actinomicetos, produtoras de


micoses profundas (micetomas) e micoses superficiais (eritrasma e tricomicose
axilar).

b) Quanto à presença de septos - as hifas podem ser asseptadas ou contínuas,


sendo próprias da classe zigomicetos (ficomicetos), agentes das zigomicoses. As
hifas septadas pertencem às outras 3 classes.

c) As hifas podem ser encaradas ainda como verdadeiras e falsas - As hifas


verdadeiras são as que crescem sem interrupção, a partir de germinação de um
esporo. As falsas hifas ou hifas gemulantes ou pseudo-hifas são as que crescem por
gemulação ou por brotamento sucessivo. Estas últimas são características das
leveduras ou fungos que se reproduzem por gemulação (brotamento) e produzem
as leveduroses (sapinho) bucal, sapinho vaginal, unheiro das donas de casa etc.

d) Uma quarta maneira de estudar as hifas é pela coloração: As hifas hialinas


de cores claras são chamadas mucedíneas. As hifas de tonalidade escura ou negra
são hifas demáceas; neste caso, as micoses por elas produzidas são chamadas
Demaciomicoses. Exemplos: Cromomicose- Tinea nigra.

Esporos

a) Artroconídios - São esporos que se formam pelo simples desmembramento


das hifas septadas. Juntamente com estas últimas, servem para diagnosticar, em
um raspado cutâneo, as dermatofitoses (impingens, "frieira", onicomicoses). É o
único tipo de esporo encontrado no gênero Geotrichum sp. É um esporo
importante na disseminação da coccidioidomicose.

137
Microbiologia

b) Blastoconídio - É o esporo que se forma por gemulação (brotamento).


Encontrado normalmente nas leveduras. O micélio gemulante ou pseudomicélio
das leveduras também produz blastoconídios. Alguns fungos que apresentam
normalmente micélio septado na fase saprofítica, na natureza ou nas culturas de
laboratório, ao passarem para a fase parasitária no organismo humano ou animal,
transformam-se em simples elementos arredondados, reproduzindo-se por
gemulação. No Brasil, podemos citar como micose mais importante desse grupo a
paracoccidioidomicose (antigamente Blastomicose Sul Americana ou Micose de
Lutz).

c) Conídios - São os esporos mais frequentes entre os fungos. Para sua


formação, há necessidade de uma hifa diferenciada chamada conidióforo. O
conidióforo pode ser uma simples hifa, na extremidade da qual se implantam os
conídios (exemplos: gêneros Sporothrix, Acremonium - antigo Cephalosporium etc.)
ou, então, vão aumentando em complexidade, de modo a constituir um verdadeiro
aparelho produtor de conídios, como acontece com o conidióforo em forma de
pincel do gênero Penicillium, ou com a cabeça do Aspergillus.

Os conidióforos podem ser uni, bi ou multicelulares.

Os conídios estão presentes em todas as classes dos Eumicetos (o mesmo que


Eumycophyta ou Fungos Verdadeiros), com exceção dos Zigomicetos.

d) Esporangiósporo - É o equivalente assexuado do conídio na classe dos


Zigomicetos. É assim denominado, porque se forma em um esporangióforo, que
termina por uma formação arredondada chamada esporângio, dentro da qual se
formam os esporangiósporos.

Esses 4 tipos de esporos formam-se por via assexuada.

Ainda há muitos outros tipos de esporos assexuados. Entretanto, devemos


citar alguns esporos que se formam por via sexuada, que são importantes porque
justamente vão caracterizar as diversas classes da divisão Eumycophyta
(Eumicetos).

Assim, o Oosporo e o Zigosporo são os dois esporos de origem sexuada que


caracterizam as duas subclasses da classe dos Zigomicetos.

138
Microbiologia

O basidiósporo é o esporo sexuado da classe dos Basidiomicetos, e o


ascósporo o da classe dos Ascomicetos.

A classe Deuteromicetos não apresenta esporos sexuados, por isso é chamada


de classe dos Fungi Imperfecti – fungos imperfeitos.

Atualmente usa-se o termo esporo para designar aqueles formados dentro de


estruturas reprodutoras (ex.: esporangiosporos formados nos esporângios) e
conídios, os formados fora destas estruturas. Outro nome utilizado para esporo é
propágulo.

Biologia dos Fungos

Os fungos são classificados em um reino isolado, o reino Fungi. Eles são


organismos eucariontes distinguidos dos outros eucariotos através de uma parede
celular rígida composta de quitina e glicano, e uma membrana plasmática na qual
o colesterol é substituído pelo ergosterol como o principal componente esteroide.
Desprovidos de clorofila, restam duas alternativas aos fungos: viverem no
saprofitismo ou no parasitismo. São, portanto, heterotróficos, ao contrário das
algas e das plantas, seres clorofilados, autotróficos.

Retiram o carbono de que necessitam dos compostos orgânicos vivos


(parasitismo) ou mortos (saprofitismo), das proteínas, dos carboidratos, dos
lipídios, dos álcoois.

Os fungos retiram o nitrogênio de nitratos, de sais de amônio, de ácidos


aminados, de ureia, da peptona, do ácido glutâmico. Para utilizarem C e N, muitos
fungos necessitam de fatores de crescimento (nutrilitos), como ácidos aminados e
vitaminas, específicos para esta ou aquela espécie, eventualmente um sal orgânico
como tauroglicocolato de sódio (para o fungo leveduriforme Malassezia furfur,
habitante normal de nosso couro cabeludo), quando se deseja cultivá-lo
artificialmente, ou ainda o soro fetal bovino, quando também se deseja cultivar no
laboratório o Corynebacterium tenuis e o C. minutissimum, agentes de infecções
superficiais.

139
Microbiologia

Figura 6.1: Diagrama ilustrando a célula fúngica. MURRAY, P.R., ROSENTHAL, K.S.,
PFALLER M.A., 2009, p. 59).

Quanto ao oxigênio, os fungos são normalmente aeróbios, podendo


desenvolver-se em anaerobiose, sob certas condições. Dos actinomicetos,
devemos salientar que os do gênero Actinomyces, alguns dos quais vivem na boca
do homem e dos animais, são anaeróbios ou semi-anaeróbios (o mesmo que
microaerofílicos).

Outros elementos químicos fundamentais são: K - Mg - Fe - P - S - Ca (menos


valor).

Quanto ao pH do meio, a sua importância é relativa, mas podemos dizer que,


em geral, está em torno de 6,0. A maioria dos fungos que se desenvolvem neste pH
também cresce relativamente bem, acima e abaixo deste número. Os
actinomicetos do gênero Actinomyces, bem como o Corynebacterium tenuis e o C.
minutissimum, comportam- se como as bactérias, sendo mais exigentes quanto ao
pH.

140
Microbiologia

Temperatura

Também são muito liberais quanto à temperatura, mas a maioria desenvolve-


se melhor entre 25º a 30º C. Alguns fungos isolados do estado parasitário preferem
temperaturas próximas de 37º C.

Umidade

Um ambiente saturado de umidade é melhor para os fungos. Haja vista o bolor


que aparece nos lugares mais úmidos de nossas casas.

Termogenia

Principalmente pelas propriedades fermentativas das leveduras, pode haver


um aumento da temperatura do meio em que alguns fungos se desenvolvem;
originando são reações exotérmicas. A oxidação total de 180g de glicose pela
levedura Saccharomyces cerevisiae produz cerca de 700.000 calorias. As
fermentações são devido a enzimas diversas: Glicidases (sacarases, maltases etc.),
enzimas proteolíticas (proteases, peptidases) e ainda fosfatases, asparaginase,
oxirredutase, dehidrogenase etc.

Cromogenia

Os fungos são cromóparos, quando difundem no meio os pigmentos que


produzem. Cromóforos, quando os pigmentos permanecem no micélio e nos
esporos. As culturas apresentam- se com variadas colorações: negra, vermelha,
amarela, branca, acastanhada, verde etc.

Metabólitos

O metabolismo dos fungos pode tanto produzir uma vitamina como uma
toxina, tanto um antibiótico como outro produto industrial (leucina, serina,
arginina, metionina, ácido oleico, ácido esteárico, prolina, histidina e muitos
outros).

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Microbiologia

Exemplos de alguns antibióticos e respectivos fungos produtores:

GRISEOFULVINA ..................................... Penicillium griseofulvi

PENICILINA ............................................... P. notadum

TERRAMICINA ........................................ Streptomyces rimosus

NEOMICINA ............................................ S. fradii

AUREOMICINA .................................... S. aureofaciens

ESTREPTOMICINA ............................... S. griseus

ANFOTERICINA B. ................................. S. nodosus

A griseofulvina e Anfotericina B têm lugar destacado na terapêutica


micológica. O primeiro, para as micoses superficiais, e o segundo, para as micoses
profundas.

Ecologia

A maioria dos fungos vivem nos mais diversos substratos da natureza e são
isolados do: solo seco, pântanos, troncos apodrecidos ou nas frutas, leite, água,
poeira. São denominados geofílicos (preferência para o solo), zoofílicos (animais) e
antropofílicos, os que só têm sido isolados do homem até o momento, como
alguns agentes de micoses superficiais: Trichophyton rubrum, Epidermophyton
floccosum etc.

Origem dos Fungos

Por estranho que pareça, os fungos estão mais próximos dos protozoários do
que das algas; estas armazenam amido como substâncias de reserva, ao passo que
os fungos mais primitivos armazenam glicogênio. Ainda, as formas móveis das
algas são multiflageladas, enquanto os fungos móveis (zigomicetos inferiores) são
uniflagelados.

142
Microbiologia

Outras características fúngicas

a) Fungos Comestíveis - Valor Alimentar dos Fungos

Desde os tempos mais antigos que o homem utiliza os fungos como


alimentos: os chamados fungos carnosos (como o champignon), quase todos da
classe basidiomicetos e alguns ascomicetos. Muitos autores consideram os fungos
como de pouco valor calórico. Todavia, outros acham que seu valor nutritivo pode
equivaler ao dos vegetais frescos. Admite-se que os fungos Psalliota campestris
(também chamado Agaricus campestris) e o Boletus edulis têm apreciável valor
proteico - cerca de 32% da substância seca. Algumas espécies comestíveis são
mencionadas a seguir: Psalliota campestris, Boletus edulis, Lepiota procera, Lactarius
deliciosus, Pleurotus ostreatus, Coprimus cometus, Armillaria sp. São mais apreciados
os conhecidos por Mórula (Morchella esculenta) e Trufas (Tuber aestivum).

Por conta da procura crescente por fungos comestíveis, muitos países tentam
cultivá-los, inclusive o Brasil.

c) Patologia dos Fungos

I) Micoses

As infecções fúngicas da pele e seus membros (pêlos, unhas) são muito


comuns. Essas infecções são geralmente classificadas pelas estruturas que o fungo
coloniza ou invade:

a) Micoses superficiais: restritas às camadas mais externas da pele e dos pelos.

b) Micoses cutâneas: envolvem as camadas mais profundas da epiderme e


seus anexos, os pelos e as unhas.

c). Micoses subcutâneas: envolvem a derme, tecidos subcutâneos, músculo e


tecido conjuntivo.

d) Micoses sistêmicas: causadas geralmente por fungos dimórficos, que são


organismos que existem na forma de fungo filamentoso na natureza ou em

143
Microbiologia

laboratório, quando cultivados entre 25°C e 30°C, e na forma de levedura ou


esférula em tecido, ou quando cultivados em meios enriquecidos em laboratório, a
37°C. As micoses sistêmicas geralmente partem de um ponto de infecção primária
e podem se disseminar por outros sítios orgânicos.

II) Quadros provocados por alimentos contaminados por fungos:

A maior parte dos fungos produtores de toxinas ocorre nas forragens e nos
cereais estocados em silos, celeiros e depósitos. Os animais são atingidos muito
mais frequentemente do que o homem. Embora o fato fosse conhecido há mais
tempo, foi somente a partir de 1961 que o problema suscitou a curiosidade de
numerosos pesquisadores, a partir do grande número de animais de interesse
comercial atingidos, especialmente perus e gansos. Demonstrou- se que estes
animais haviam sido alimentados com tortas contaminadas pelo fungo Aspergillus
flavus. Logo em seguida, descobriu-se a toxina: aflatoxina. Experiências com a
toxina em animais de laboratório (patos jovens) mostraram a indução de
hiperplasia dos canais biliares, ao passo que, em ratos e trutas, provocaram
hepatoma.

Alimentos contaminados por diversos representantes do gênero Aspergillus


produziram variadas manifestações patológicas como transtornos hepáticos e
renais nos bezerros, hiperqueratose no gado adulto, síndrome hepato-hemorrágica
em porcos, bovinos, perus e outros animais.

No Japão já se observou que, pelo menos, 5 espécies de Penicillium e alguns


Aspergillus produzem toxinas em arroz estocado.

Certas espécies de Fusarium, já foram associadas à Aleucia Tóxica Alimentar, na


Rússia, por ingestão de forragem ou cereais contaminados. O quadro inicia-se com
diarreia, vômito, queimação epigástrica, terminando com manifestações evidentes
de depressão da medula óssea, com aplasia evidente, sangramento,
trombocitopenia secundária e leucopenia. A toxina é a esporofusariungenina e
forma-se com o alimento estocado na temperatura entre 8º e 10º C.

144
Microbiologia

Outro Fusarium - Fusarium roseum ou Fusarium graminearum - promove


síndrome semelhante, no entanto muito benigna, pois os sintomas cessam tão
logo o organismo deixa de receber novas cargas de toxinas: é a chamada síndrome
do pão tóxico, também descrita na Rússia.

Conhecido há séculos, porém hoje quase inexistente, é o quadro chamado de


ergotismo, produzido por diversas toxinas do fungo Claviceps purpurea, que invade
o grão de centeio, aumenta o volume do mesmo, transformando- o no que os
franceses chamam Ergot (esporão do centeio). O pão feito com esses grãos
contaminados, misturados aos sadios, provocam desde simples transtornos
circulatórios até gangrena de extremidades.

Em certas gramíneas mortas pode crescer o fungo Pithomyces chartarum, que


produz uma micotoxina agente do Eczema Facial de Bezerros.

Em nossos lares vemos frequentemente queijos, pães, frutas e mesmo carnes


cobrirem-se de fungos esverdeados, acinzentados, negros, brancos, amarelos,
pertencentes a vários gêneros: Aspergillus, Penicillium, Rhizopus, Mucor, Fusarium,
Curvularia, Helminthosporium, Geotricum e Leveduras. Ainda não se isolou toxinas,
às quais se pudessem atribuir alterações patológicas graves, das espécies que têm
sido estudadas, nesses casos, como a aflatoxina do Aspergillus flavus, que possui
propriedades carcinogênicas (hepatomas). Entretanto, vez ou outra, a
contaminação por esses fungos pode provocar gastrite e vômitos, principalmente
se a carga de fungos nos alimentos for alta.

III) Quadros provocados por ingestão de fungos venenosos:

Esses quadros patológicos resultam do engano cometido pela vítima ao


ingerir fungos supostamente comestíveis. De fato, os fungos venenosos são muito
parecidos com os comestíveis. As substâncias tóxicas neles contidas atuam por
suas propriedades hemolíticas, gastrotóxicas, hepatotóxicas, nefrotóxicas,
neurotóxicas e psicotrópicas, algumas espécies fúngicas podem englobar duas ou
mais destas propriedades. A tais quadros, denominamos MICETISMOS:

145
Microbiologia

a) MICETISMO GASTROINTESTINAL - provocado por fungos dos gêneros


Russula, Boletus, Lactarius, Lepiota, Enteloma (R. emetica, Boletus satanas, L.
torminosus, L. morgani). Sintomas: náuseas, vômitos, diarreia. Em geral, o quadro se
resolve em 48 horas.

b) MICETISMO COLERIFORME - produzido pela ingestão da Amanita phalloides


a qual contém 3 substâncias tóxicas a saber: Amanitina (nome também empregado
para designar o pigmento vermelho da Amanita muscaria) inibidora de
RNApolimerase II e III, Falina, de propriedades hemolíticas e a mais importante, a
Faloidina, considerada tóxica para o sistema nervoso central. Nos EUA., 90% das
mortes por fungos venenosos ocorrem por causa da A. phalloides. Sintomas
semelhantes podem ser provocados por outros fungos como o Psaliota autumnalis,
Higrophorus conicus e outras espécies de Amanita. A alta mortalidade deve-se ao
aparecimento tardio dos sintomas - 6 a 15 horas após a ingestão. São eles: dor
abdominal, vômitos, diarreia, fezes sanguinolentas e mucosas, cilindrúria,
enfraquecimento progressivo, cianose; a morte podendo ocorrer de 2 a 3 dias após
o início dos sintomas. A necropsia revela lesões renais, necrose externa e
degeneração gordurosa do fígado, além de edema cerebral.

c) MICETISMO NERVOSO - Provocado pela ingestão de diversos fungos:


Amanita muscaria, A. pantherina, Inocybe infelix, I. infida, Clitocybe illudens. Ao
contrário do micetismo coleriforme, a taxa de mortalidade é baixa. Os sintomas
aparecem geralmente um hora após a ingestão, com ação depressiva sobre o
coração, salivação profusa, lacrimejamento, cólicas abdominais, vômitos, diarreia,
excitação nervosa, delírio, coma. A muscarina estimula as terminações nervosas,
mas este efeito é anulado pelo emprego da atropina. Em pequenas doses, a
muscarina tem ação semelhante à da Cannabis indica (hachiche), por isso, na
Sibéria e na mitologia sueca (Viking), a Amanita muscaria era usada para provocar
sonhos e alucinações.

d) MICETISMO SANGUÍNEO - provocado por hemolisinas da Helvella esculenta.


Vários fungos contêm hemolisinas, que são destruídas pelo calor e pela digestão. A
toxina da Helvella esculenta é resistente ao calor e produz hemoglobinúria
transitória, desconforto abdominal, icterícia. É de bom prognóstico, mas ocorrem
óbitos. A transfusão sanguínea é útil no tratamento.

146
Microbiologia

e) MICETISMO CEREBRAL - Substâncias com propriedades alucinogênicas são


encontradas em diversos fungos "comestíveis", tais como Psilocybe mexicanus
(Psilocibina), Stropharia cubensis (Psilocina), Paneolus, Conocybe. Seu uso eleva a
percepção ao nível de percepção extrassensorial, por isso são largamente
utilizados em certas comunidades mexicanas, em ritos religiosos ou não. Um outro
fungo - Claviceps purpurea, causador do ergotismo, também contém substâncias
dessa natureza, aliás a mais famosa, atualmente - o LSD 25. Todos esses produtos
também são chamados psicomiméticos, porque seus efeitos são parecidos com os
da PSICOSE MIMÉTICA, em que os indivíduos se identificam com os objetos do
meio ambiente; ou então psicodélicos, nome proposto pela psiquiatria canadense,
por conta da capacidade em se despertar o potencial imaginativo latente no
indivíduo. Há tentativas experimentais no sentido de se esclarecer o mecanismo
das disfunções psicológicas, visto que a sintomatologia provocada por estes
alucinógenos assemelha- se a certas psicoses.

IV) Micoses Ocasionais ou Micoses por Fungos Oportunistas:

São micoses produzidas por fungos normalmente saprófitos, que se tornam


parasitas quando invadem organismos em que o sistema de defesa está abalado
por doenças graves, crônicas, ou submetidos a medicação intensiva por
antibióticos, corticosteroides e citostáticos, resultando em desequilíbrios
imunológicos sérios.

V) Mícides ou Alérgides Micósicas:

São manifestações cutâneas provocadas por reação de sensibilidade aos


fungos.

VI) Alergia Provocada por Fungos:

Trata-se, em geral, de manifestações do aparelho respiratório: rinites, asma


brônquica. É produzida por fungos, especialmente quando as pessoas sensíveis
vivem em ambiente quente e úmido, que favorece o emboloramento das paredes
e dos objetos. Aspergillus, Alternaria, Penicillium, Cladosporium (Hormodendrum),
Curvularia e outros estão geralmente a causa.

147
Microbiologia

Diagnóstico laboratorial das micoses

Quanto ao diagnóstico das micoses, no laboratório, podem ser empregadas


algumas etapas:

1º - Exame direto

2º - Cultura

3º - Biópsia - Histopatologia

4º - Provas Imunológicas

5º - Exame Radiológico

6º - Inoculação Animal

1º - Exame Direto

Qualquer tipo de material patológico pode ser utilizado no exame direto:


raspado cutâneo, pelos, cabelos, unhas, exsudatos diversos, escarros, urina, fezes,
sangue, líquor, medula óssea, fragmentos de tecidos. O exame pode ser a fresco,
sem fixação, entre lâmina e lamínula, misturados ou não com certos líquidos de
exame, como potassa, em percentagens diversas, Lactofenol de Amann, Lugol ou,
então, o material pode ser fixado na lâmina e corado por um método, tal como o
Gram, o Ziehl, o Giemsa, o PAS.

2º – Cultura do material patológico

Muitos meios de cultura são utilizados em micologia. Dentre os mais comuns:

Meio Sabouraud

Glicose .......................................................... 40 g
(ou maltose) ................................................. 50 g
Peptona .......................................................... 10 g
Ágar ............................................................... 15 g
Água ..............................................................1000 mL

148
Microbiologia

Esse meio serve, praticamente, para o isolamento de todos os fungos.


Entretanto, o actinomiceto do gênero Actinomyces, pela sua característica de ser
microaerófilo (semi-anaeróbio), requer meios especiais de cultivo.

Muitas vezes material, ao ser cultivado, está contaminado não somente por
numerosas bactérias, como também por outros fungos. Logo, pode-se acrescentar
certos antibióticos ao meio, para torná-lo mais seletivo.

3º - Biópsia - Histopatologia

Histopatologia: nas micoses profundas, sempre que possível, o diagnóstico


pode não dispensar a pesquisa histopatológica. Não pela peculiaridade das reações
tissulares que, embora muitas vezes elucidativas, não são específicas, mas pelo
achado do agente etiológico. De um modo geral, os agentes das micoses
profundas apresentam-se sob a forma arredondada, com características suficientes
para serem diferenciados uns dos outros. Dentre os que se apresentam
arredondados, há um grupo em que essas formas são gemulantes e as micoses, por
eles produzidas, são denominadas granulomatose blastomicoides ou, às vezes,
blastomicoses.

4º - Provas Imunológicas

As provas imunológicas, em micologia médica, apresentam um valor


diagnóstico relativo, não sendo dispensados os métodos clássicos que visam o
achado do agente etiológico, pelo exame direto ou pela análise histopatológica, ou

mesmo pelo isolamento do mesmo em cultura. Entretanto, com os progressos


recentes no setor laboratorial, esse valor relativo pode, em certos casos, subir tanto
a ponto de quase equivaler ao achado do fungo.

149
Microbiologia

5º - Exame Radiológico

O exame radiológico é indispensável em muitas eventualidades, visto que as


micoses não poupam região alguma do organismo, pulmões, cérebro, ossos,
aparelho digestivo, etc.

6º - Inoculação Animal

Os animais de laboratório são úteis para: testar fungos quanto ao seu poder
patogênico. Pode-se inocular material patológico nesse sistema hospedeiro, com a
finalidade de se obter, depois, culturas puras de fungo (da histoplasmose, por
exemplo), e fazer diagnóstico diferencial, por exemplo, entre
paracoccidioidomicose e tuberculose, por inoculação de material patológico em
testículo de cobaia. São utilizados com mais frequência os camundongos, ratos
brancos, hamsters, e embrião de pinto.

Neste último capítulo, estudamos as características gerais dos fungos. Que sua
jornada pelo mundo da microbiologia continue de forma curiosa e prazerosa!

É HORA DE SE AVALIAR

Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão


ajudá-lo a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de
ensino-aprendizagem.

150
Microbiologia

Exercícios – Unidade 6

1 - Durante muito tempo, os fungos foram classificados no reino Plantae,


juntamente com as plantas. Entretanto, uma característica evidente nos permite
reconhecer os motivos de estes serem separados em reinos distintos. Que
característica tão evidente pode ser essa?

a) O fato dos fungos serem procariontes.

b) O fato dos fungos possuírem clorofila b, diferente da clorofila a presente nas


plantas.

c) Os fungos não fazem fotossíntese.

d) Os fungos se reproduzem por esporos, diferentemente das plantas que o


fazem por sementes.

e) os fungos são autótrofos decompositores.

2 - Substância presente na parede das hifas fúngicas, também presente no


esqueleto de alguns animais como crustáceos e insetos:

a) Celulose.

b) Quitina.

c) Oxalato de cálcio.

d) Glicogênio.

e) Amido.

151
Microbiologia

3 - Todos os itens indicam alguma importância ligada à atividade de fungos,


exceto:

a) Podem causar doenças chamadas micoses.

b) Desempenham papel fermentativo.

c) Produção autotrófica de substâncias orgânicas para consumo de outros


seres.

d) Alguns produzem antibióticos.

e) Participam na formação de liquens.

4 - As afirmações abaixo se referem ao grupo dos fungos.

I – Fungos dimórficos podem promover micoses sistêmicas e mudam sua


morfologia dependendo de condições ambientes;

II – Fungos patogênicos são os principais causadores de doenças de pele em


pessoas que estão com o sistema imunológico afetado, como, por exemplo, as que
estão contaminadas com o vírus HIV;

III – Aflatoxinas são metabólitos secundários produzidos por alguns fungos,


que frequentemente contaminam amendoim, milho, trigo, entre outros, podendo
causar câncer de fígado em pessoas e animais que as ingerem.

Quais estão corretas?

a) Apenas I.

b) Apenas II.

c) Apenas I e II.

d) Apenas II e III.

e) I, II e III.

152
Microbiologia

5- Dentre os fatores que diferem a célula fúngica da humana, assinale a única


alternativa correta:

a) A célula fúngica é procarionte, a humana é eucarionte.

b) A célula fúngica não possui parece celular e a humana sim.

c) A célula fúngica.apresenta ergosterol na membrana plasmática e a humana


colesterol.

d) A célula fúngica não possui organelas e a humana sim.

e) Nenhuma das alternativas anteriores.

6- Um fungo demáceo: (0,75 pontos)

a) É pigmentado.

b) Não apresenta cor.

c) Apresenta-se apenas sob a forma de levedura;

d) É assim chamado por ser dimórfico;

e) Todas as alternativas anteriores.

7-- Os fungos denominados hialinos: (0,75 pontos)

a)São pigmentados;

b) Naturalmente não apresentam cor; .

c) Apresentam-se apenas sob a forma de levedura;

d)São assim chamados por serem dimórficos;

e) Todas as alternativas anteriores.

153
Microbiologia

8- Os fungos são organismos que integram o Reino Fungi e que apresentam as


seguintes características:

a) células procariontes, fotossintetizantes.

b) células eucariontes, autotróficas.

c) células procariontes, nutrição heterotrófica.

d) células eucariontes, nutrição heterotrófica.

e) nenhuma das alternativas anteriores.

9 – Se os fungos não se locomovem, como eles podem se espalhar por toda a


Terra?

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____________________________________________________________________

____________________________________________________________________

____________________________________________________________________

____________________________________________________________________

10- Alguns fungos são comestíveis e, inclusive, comercializados como iguarias


únicas. No entanto, em micologia, existe um quadro denominado micetismo. Do
que ele se trata?

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____________________________________________________________________

____________________________________________________________________

____________________________________________________________________

____________________________________________________________________

154
Microbiologia

Considerações finais

Após essa breve viagem pelo mundo da microbiologia, espero que seu
interesse tenha sido despertado e que você, caro aluno, busque cada vez mais
informações sobre o mundo microbiano que nos cerca.

Tenha em mente que o entendimento sobre bactérias, vírus e fungos vai


muito além do que foi lhe apresentado, já que a microbiologia não é uma ciência
estática, ela está em constante mudança.

Espero que esse material tenha sido útil, auxiliado em seus estudos e
contribuído para seu sucesso acadêmico.

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Microbiologia

156
Microbiologia

Conhecendo a Autora

Larissa Silva dos Santos é biomédica, com habilitação em análises clínicas,


formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Microbiologia e
Parasitologia Aplicadas (UFF) e doutorando em Ciências Médicas (UFF). É docente
da Universidade Salgado de Oliveira desde 2012, atuando em disciplinas
ministradas aos cursos de Ciências Biológicas, Nutrição e Enfermagem. Ocupou o
cargo de professora auxiliar da Universidade Federal Fluminense, ficando
encarregada da disciplina de Microbiologia II (módulo virologia) oferecida para o
curso de Enfermagem. Desde os tempos de graduação atua em análise laboratorial
prática em virologia e considera a pesquisa científica um dos norteadores
acadêmicos mundiais.

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Microbiologia

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Microbiologia

Referências

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de insetos. Piracicaba: FEALQ, 1998.

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Fundação Tropical de Pesquisa Tecnológica “André Tosello”, 1990.

Capítulo 4 – Micologia http://www.epsjv.fiocruz.br/upload/d/cap4.pdf

CHAN, E. C. S. Krieg, Noel R. Pelczar Jr. Microbiologia. São Paulo: Pearson,


1997.

CRUZ, L. C. H. Micologia Veterinária. Itaguaí: Imprensa Universitária, 1985

FLORES, EF. Virologia Veterinária. Santa Maria: editora UFSM, 2007

JAWETZ, E.; MELNICK, J. L.; ADELBERG, E. A. Microbiologia médica. 26 ed.


Porto Alegre: AMGH, 2014.
KUMAR, S. Textbook of Microbiology. 1 Ed. Jaypee, 2012.

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MADIGAN, MARTINKO, PARKER, Microbiologia de Brock. 10ª ed. São Paulo:


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MOORE-LANDECKER, E. Fundamentals of the Fungi. 4. ed., New Jersey:


PrenticeHall, Inc., 1996.

MURRAY, P.R.; ROSENTHAL, K.S.; KOBAYASHI, O.S.; PFALLER, M.A.


Microbiologia Médica. 6a ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

OLIVEIRA, A. M. F.; SANTOS, J. E. F.; OLIVEIRA, L. L.; SOUZA, L. B. S.; SANTANA, W.


J.; COUTINHO, H. D. M. Fatores de virulência de Neisseria spp. Arq. Ciênc. Saúde
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PUTZKE, J. ; Putzke, M. T. L. Os Reinos dos Fungos. Vol. I. Santa Cruz do Sul:


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TORTORA, G. ; FUNKE, B.; CASE, C. Microbiologia. 8ª. Edição, São Paulo:


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TRABULSI, L. R.; Althertum, F. Microbiologia. 4ª edição. Editora Atheneu, 2008.

160
Microbiologia

A nexos
 

161
Microbiologia

Gabaritos

UNIDADE 1

1) b

2) d

3) b

4) b

5) d

6) e

7) c

8) b

9) O achado da cor roxa após a aplicação da coloração de Gram indica que as


bactérias analisadas são Gram positivas. Bactérias Gram positivas exibem, em sua
parede celular, uma espessa camada de peptideoglicano, além dos ácidos teicóico
e lipoteicóico. A grossa camada de peptideoglicano impede, durante a aplicação
da técnica, que o álcool retire o corante cristal-violeta do interior das bactérias

10) As células procariontes exibem características como núcleo não delimitado


por membrana, ausência de organelas membranares e cromossomo diferenciado,
já as eucariontes apresentam núcleo delimitado por membrana e diversas
organelas membranares.

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Microbiologia

UNIDADE 2

1) b

2) d

3) b

4) c

5) a

6) d

7) a

8) b

9) Após a descrita inserção, o comportamento da população bacteriana pode


ser dividido em fases. A fase lag é caracterizada pela adaptação, a população ela
não se multiplica imediatamente. Logo em seguida ocorre a fase log ou
exponencial, marcada pela divisão da célula bacteriana em duas, promovendo o
aumento da população microbiana no meio de cultura. A fase estacionária é o
momento em que ocorre a interrupção do crescimento bacteriano, nela a
multiplicação bacteriana é limitada geralmente pelo consumo de um elemento
essencial do meio de cultura e pela excreção de metabólitos possivelmente
tóxicos, por parte dos próprios microrganismos. marca a fase estacionária. Por fim,
o declínio ocorre quando a população bacteriana, já sem condições de manter seu
metabolismo, morre.

10) Provavelmente, através da troca genética conhecida como transdução,


foram transferidas informações genéticas, de uma bactéria para outra, para a
geração de resistência ao primeiro antibiótico administrado.

163
Microbiologia

Exercícios – Unidade 3

1. c

2. d

3. a

4. b

5. a

6. e

7. d

8. c

9. R: Os macrolídeos são agentes antibacterianos, que atuam pela ligação ao


RNA ribossomal 23S da subunidade 50S, assim bloqueando a biossíntese de
proteínas bacterianas.

10. R: A limpeza é necessária para que resíduos de matéria orgânica que


possam ficar presentes nos materiais não interfiram na qualidade dos processos de
desinfecção e esterilização.

Exercícios – Unidade 4

1. b

2. c

3. e

4. b

5. d

6. a

7. d

8. a

164
Microbiologia

9. R: RNAs de polaridade positiva são diretamente traduzidos em proteínas


durante a replicação viral. Já os RNAs de polaridade negativa servem como molde
para a síntese de um RNA complementar que, então, pode ser traduzido em
proteínas.

10. R: Os retrovírus têm a capacidade de sintetizar o DNA a partir de moléculas


de RNA - a transcrição reversa- utilizando a enzima viral transcriptase reversa. O
representante mais conhecido dessa família é o vírus da imunodeficiência humana,
o HIV.

Exercícios – Unidade 5

1. d

2. c

3. c

4. ?

5. a

6. a

7. c

8. b

9. As técnicas indiretas de diagnóstico viral permitem a detecção de anticorpos


na amostra em questão.

10. A PCR baseia-se na amplificação de um segmento gênico específico. Esse


fragmento é amplificado com base nas propriedades de uma enzima DNA
polimerase e através do uso de primers, ou seja, oligonucleotídeos que permitem a
evidenciação de um fragmento genômico específico.

165
Microbiologia

Exercícios – Unidade 6

1. c

2. b

3. c

4. e

5. c

6. a

7. b

8. d

9. R: Os fungos se reproduzem por produção de esporos, os quais podem ser


levados pelo vento, assim, se espalham por novos ambientes.

10. R: O micetismo ocorre após a ingestão de fungos tóxicos, resultando em


diversas manifestações patológicas que podem, inclusive, levar o indivíduo à
morte.

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