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guimarães laignier marçal & ribeiro

advogados associados

Excelentíssimo(a) senhor(a) doutor(a) juiz(íza) de direito


da 1ª vara cível da comarca de Lavras/MG
Processo nº: XXXXXXXX/XX

ALICE MOREIRA GONTIJO​, solteira, brasileira, autônoma, inscrita no CPF sob o nº


030.951.000-11, portadora do documento de identidade RG nº 03.444.333-6, expedida pela
Secretaria de Segurança Pública do Estado de Minas Gerais, tendo como endereço
eletrônico amcontijo@hotmail.com, domiciliada em Lavras/MG, onde reside na Avenida
Raul Soares, n° 95, centro, CEP 37200-000, vem perante à presença de Vossa Excelência,
com fulcro no art. 335 e seguintes do Código de Processo Civil, apresentar

CONTESTAÇÃO

em face de ação de nulidade de negócio jurídico c/c reparação de perdas e danos ajuizada
por ​BERNARDO ALMEIDA SOUZA​, já qualificado nos autos em epígrafe, pelas razões
de fato e de direito a seguir expostas.

I – Dos fatos
O REQUERENTE alega, em síntese, que em setembro de 2018 firmara contrato
de aluguel com a REQUERIDA, de um imóvel, com valor de locação mensal, no montante
de R$ 6.500 (seis mil e quinhentos reais), cuja finalidade exclusiva do negócio jurídico

 
 
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seria o funcionamento de um posto de abastecimento de veículos e outros serviços


anexos/complementares. Tal fim não fora descrito no contrato e, por isso, era
desconhecido pela REQUERIDA.
Para a consecução desse negócio jurídico, o REQUERENTE alegou: que utilizou
ativos financeiros adquiridos com a venda de um imóvel recebido de herança de seus pais;
que a assunção desse capital fora um dos motivos determinantes do negócio a ser
empreendido; que não percebera a carência de infraestrutura do local locado, pois é
inexperiente no ramo e não possui conhecimento técnico necessário para tal; que realizou o
pagamento de uma, das duas prestações advindas de um termo de assunção de dívidas,
pactuados entre ele e a REQUERIDA; que, vendo-se a impossibilidade de perdurar o
vínculo obrigacional em razão do alegado comportamento contraditório da REQUERIDA,
requer a nulidade do negócio jurídico, bem como a reparação por perdas e danos.

II – Das preliminares
II.I – ausência de legitimidade ou de interesse processual
No caso em análise, resta evidente a ausência de interesse processual e, por
consequência, suscita-se, aqui, a perda do objeto que o REQUERENTE pede a este juízo.
O ordenamento jurídico brasileiro requer, a qualquer um que se preste a exercer seu
direito de ação, requisitos, quais sejam: interesse de agir e legitimidade, como bem-dispõe
o art. 17 do CPC, ​in verbis

Art. 17. Para postular em juízo é necessário ter interesse e legitimidade.

Cabe contestar a carência de interesse de agir, primeira condição da ação, como


ensina Humberto Theodoro Júnior:

O interesse de agir surge da necessidade de obter por meio do processo a


proteção ao interesse substancial. [...] Entende-se, dessa maneira, que há
interesse processual “se a parte sofre um prejuízo, não propondo a demanda, e
daí resulta que, para evitar esse prejuízo, necessita exatamente da intervenção
dos órgãos jurisdicionais. [...] Localiza-se o interesse processual não apenas na
utilidade, mas, especificamente, na necessidade do processo como remédio apto
à aplicação do direito objetivo no caso concreto, pois a tutela jurisdicional não é
jamais outorgada sem uma necessidade (Jr., THEODORO, Humberto. ​Curso de
Direito Processual Civil ​- Vol. I, 59ª edição. p.164 [Minha Biblioteca]).

 
 
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Na presente situação, a falta de interesse pode ser apontada pela ausência de


cláusula que define a finalidade específica pela qual a REQUERIDA e o REQUERENTE
firmaram contrato. O único ponto acordado entre estes, foi que o imóvel seria utilizado
para fins comerciais, não sendo especificado qual o tipo de comércio, como consta na
cláusula 12 do contrato de locação de imóvel, que acompanha a inicial, a saber:

12. A presente locação destina-se exclusivamente para ocupação do


estabelecimento comercial do LOCATÁRIO, vedada qualquer alteração desta
destinação. Ao LOCATÁRIO também não será permitido emprestar, ceder ou
sublocar o imóvel objeto da presente locação, sem prévia e expressa anuência da
LOCADORA​ (grifo nosso).

Alegou o REQUERENTE, ter a REQUERIDA agido com ausência de boa-fé ao


ocultar as avarias do imóvel locado. Fato é que, a REQUERIDA celebrou um contrato de
aluguel com o fim de que o bem fosse destinado à atividade comercial, apenas. Não consta
do instrumento que aqui se discute o fim precípuo almejado pelo requerente. Portanto, não
podia a REQUERIDA, tão pouco saber, o que o REQUERENTE desejava.
Pelo exposto, falta interesse, pois a lide não chegou a configurar-se entre as
partes. É forçoso, ainda, ressaltar que não se pode dizer que exista o interesse processual,
se aquilo que se reclama do órgão judicial não será útil juridicamente para evitar a temida
lesão, uma vez que, como descrita determinada situação jurídica, a providência pleiteada
não fora adequada a essa situação.
O interesse processual, em suma, exige a conjugação do binômio necessidade e
adequação, cuja presença cumulativa é sempre indispensável para franquear à parte a
obtenção da sentença de mérito. Binômio esse não apontado pelo REQUERENTE.

II.II – Do defeito de representação

No caso em tela, carece à inicial ajuizada pelo REQUERENTE os documentos


indispensáveis à propositura da ação, quais sejam: procuração; cópias dos documentos de
identidade e comprovante de endereço do REQUERENTE.
Resta aqui contestar o defeito de representação do REQUERENTE, que ajuizou
ação assinada por advogados, que não tinham poderes para tal.
Dispõe o art. 103 e 104, do CPC, ​in verbis:​

 
 
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Art. 103. A parte será representada em juízo por advogado regularmente inscrito
na Ordem dos Advogados do Brasil.
Parágrafo único. É lícito à parte postular em causa própria ​quando tiver
habilitação legal ​(grifo nosso).
Art. 104. O advogado não será admitido a postular em juízo sem procuração,
salvo para evitar preclusão​, ​decadência ou prescrição, ou para praticar ato
considerado urgente​ (grifo nosso).

Como se vê, não poderiam os advogados que assinaram a inicial aqui contestada,
postularem em nome do REQUERENTE, pois não agiram para evitar preclusão,
decadência ou prescrição ou para praticar ato considerado urgente.

II.III – Da incorreção do valor da causa

No caso em análise, resta evidente a incorreção em relação ao valor da causa, que


foi arbitrada pelo REQUERENTE na inicial, na importância de R$ 170.000,00 (cento e
setenta mil reais). No entanto, conforme disposto no art. 292, VI do CPC., ​in verbis:

Art. 292. O valor da causa constará da petição inicial ou da reconvenção e será:


(...)
VI - na ação em que há cumulação de pedidos, a quantia correspondente à soma
dos valores de todos eles.

Conforme o pedido de nº 5 da inicial ajuizada pelo REQUERENTE, o valor dos


pedidos seriam: R$ 39.000,00 (trinta e nove mil reais), referentes ao reembolso dos seis
meses de aluguéis pagos pelo REQUERENTE, acrescidos de juros e correção monetária
até a data do pagamento, bem como o ressarcimento da quantia já paga em razão da
primeira parcela prevista no termo responsabilizatório firmado, no valor de R$ 66.000,00
(sessenta e seis mil reais), acrescidos de juros e correção monetária até a data do
pagamento. Cabe questionar qual seria a data de início para a incidência de juros e mora,
pois a mesma não foi apontada pelo REQUERENTE em seu pedido.
Portanto, questiona-se o valor apontado de R$ 170.000,00 (cento e setenta mil
reais), visto que a soma, supostamente correta, dos pedidos seria de R$ 105.000,00 (cento
e cinco mil reais).
É forçoso apontar que o REQUERENTE não faz jus aos pedidos elencados em
sua inicial, pelos motivos que serão discutidos adiante. Levando isso em conta, aponta-se
que o valor desta causa deveria ser corrigido à importância de R$ 6.500 (seis mil e

 
 
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quinhentos reais), valor este correspondente ao valor do ato jurídico, como dispõe o
art.292, II do CPC, ​in verbis:

Art. 292. O valor da causa constará da petição inicial ou da reconvenção e será:


(...)
II - na ação que tiver por objeto a existência, a validade, o cumprimento, a
modificação, a resolução, a resilição ou a rescisão de ato jurídico, o valor do ato
ou o de sua parte controvertida;

II.IV – indevida concessão do benefício de gratuidade de justiça

No caso em análise, resta evidente a incorreção em relação à concessão do


benefício de gratuidade de justiça pedido pelo REQUERENTE na inicial, conforme se
esclarece a seguir.
Através de imagens postadas pelo REQUERENTE em sua rede social ​Facebook
(ANEXO I), verifica-se que que esse possui um veículo Porsche modelo 911 Carrera S
Coupe 3.0 (991/992). Veículo esse que possui o valor mínimo de R$ 632.584,00, conforme
tabela FIPE (ANEXO II). Além disso, nesta mesma rede social, o REQUERENTE afirma
possuir um sítio com área de lazer com piscina e sauna (ANEXO III). Sendo o
REQUERENTE proprietário de um veículo como este, cujo valor médio de mercado
aponta a necessidade de vultoso poder econômico para a sua aquisição e manutenção e de
um sítio com os adornos mencionados, nota-se a onerosa vida levada pelo
REQUERENTE, de um indivíduo que possui condições de arcar com o pagamento das
custas processuais e honorários advocatícios. Ainda que tenha trazido na inicial seus
contracheques, a realidade é diversa.
Ainda, é sabido que o REQUERENTE presta serviços de consultoria online para
vestibulandos através de um canal de vídeos no site ​youtube.com.​ O referido meio conta
com mais de 2 (dois) milhões de inscritos (ANEXO IV). Os ganhos de tal ofício não
podem ser provados por contracheque, pois provém de fonte diversa à ordinária trazida
pelo REQUERENTE na inicial.
Logo, é clarividente que o REQUERENTE não se enquadra no requisito posto pelo
caput do art. 98, CPC/15: “A pessoa natural ou jurídica, brasileira ou estrangeira, ​com
insuficiência de recursos para pagar as custas​, ​as despesas processuais e os

 
 
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honorários advocatícios (​grifo nosso)​ tem direito à gratuidade da justiça, na forma da


lei.”
Com efeito, apesar de o CPC, art. 99, §3º, postular que “presume-se verdadeira a
alegação de insuficiência deduzida exclusivamente por pessoa natural”, tal presunção não
pode ser aceita apenas com o pedido do REQUERENTE, havendo a necessidade de
verificação dos elementos apresentados no presente documento, para que possa haver
decisão em relação ao benefício pedido. Isto pode ser observado por meio de decisão do
STJ:

Nos recentes julgamentos de leading cases pelo Plenário do STF - RE 249003


ED/RS, RE 249277 ED/RS E RE 284729 AgR/MG -, relatados pelo Ministro
Edson Fachin, aquele Órgão intérprete Maior da Constituição Federal definiu o
alcance e conteúdo do direito fundamental à assistência jurídica integral e
gratuita prestada pelo Estado, previsto no ​art. 5º, LXXIV​, da CF, conferindo
interpretação extensiva ao dispositivo, para considerar que abrange a
gratuidade de justiça​. Por um lado, à luz da norma fundamental a reger a
gratuidade de justiça e do art. 5º, caput, da Lei n. 1.060/1950 - não revogado pelo
CPC/2015 -, ​tem o juiz o poder-dever de indeferir, de ofício, o pedido, caso
tenha fundada razão ​(grifo nosso) (STJ, REsp 1.548.130/RS, Rel. Ministro
LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, DJe de 17/08/16)

A Constituição Federal postula, em seu art. 5º, LXXIV, que “o Estado prestará
assistência jurídica integral e gratuita ​aos que comprovarem insuficiência de recursos
(grifo nosso)” e, como apontado no Recurso Especial acima, a cláusula em questão abarca
o pedido de gratuidade da justiça, logo, não comprovada a situação de hipossuficiência do
REQUERENTE, é necessário o indeferimento do pedido do benefício da Justiça Gratuita.
Posto isto, requer-se indeferido o pleito de gratuidade da justiça ao
REQUERENTE.

III – Do mérito

III. I) DA ausência de fim específico pactuado

Alega o REQUERENTE ter celebrado contrato de aluguel de um imóvel com fim


de instalar no local um posto de combustível, bem como serviços anexos e
complementares àquele. Contudo, é necessário dizer que o contrato celebrado entre os

 
 
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pólos da presente ação, não constava da finalidade precípua pela qual o REQUERENTE
alega que locava tal bem.
Ato contínuo, ainda que conste anexa à peça vestibular a planta e fotos do imóvel,
que de fato era um posto de gasolina, não sabia a REQUERIDA qual o fim que o
REQUERENTE daria ao imóvel.
O único ponto acordado entre estes, foi que o imóvel seria utilizado para fins
comerciais, não sendo especificado qual o tipo de comércio, como consta na cláusula 12
do contrato de locação de imóvel, que acompanha a inicial, a saber:

12. A presente locação destina-se exclusivamente para ocupação do


estabelecimento comercial do LOCATÁRIO, vedada qualquer alteração desta
destinação. Ao LOCATÁRIO também não será permitido emprestar, ceder ou
sublocar o imóvel objeto da presente locação, sem prévia e expressa anuência da
LOCADORA​ (grifo nosso).

Imperioso, ainda, dizer que, consta em cláusula do supracitado contrato que


poderia o REQUERENTE, com a anuência da REQUERIDA, realizar as benfeitorias
necessárias à instalação do comércio, como consta na cláusula 4 do contrato que
acompanha a peça vestibular deste processo, a saber:

4.Ficarão a cargo do LOCATÁRIO as obras que forem exigidas pelas


autoridades municipais e sanitárias relativamente à segurança, conservação e
higiene do prédio. A [sic] O ​LOCATÁRIO poderá, ainda, realizar
benfeitorias e modificações no imóvel, desde que com prévia anuência, por
escrito, da LOCADORA, não lhe cabendo, porém, qualquer indenização ou
retenção em função das mesmas​ (grifo nosso).

III. III) DA LICITUDE E POSSIBILIDADE DO OBJETO

É certo que houve entre o REQUERENTE e a REQUERIDA a celebração de um


negócio jurídico válido, em que ambas as partes se comprometeram livremente ao
adimplemento de uma obrigação que tinha como prestação: um objeto lícito e possível. O
que fora alegado e pedido pelo REQUERENTE, isto é, a possibilidade de anulação desse
negócio, em razão da ilicitude do objeto pactuado, não deve ser acatado. No caso em tela,
não se trata de um objeto proibido por lei, ou seja, contrário ao ordenamento jurídico.
Logo, não há que se falar em nulidade do negócio jurídico celebrado em razão da ilicitude
do objeto. Nas palavras de Gustavo Tepedino:

 
 
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Para o exame de validade do negócio jurídico conjuga-se o sentido de objeto aos


requisitos legais, quais sejam, liceidade, possibilidade e deteminabilidade. Como
primeiro requisito tem-se a liceidade ou licitude, vale dizer, a conformidade de
uma forma ampla com o ordenamento jurídico. Deste modo, não há que se
diferenciar, no plano de validade, se a ilicitude é, civil, penal ou de outra ordem,
pois um negócio jurídico que tenha por objeto algo proibido em lei não terá
validade.(TEPEDINO, Gustavo; BARBOZA, Heloísa Helena e DE MORAES,
Maria Celina Bodin, vol. I, 3ª Ed. ​Código Civil Interpretado conforme a
Constituição da República​. Rio de Janeiro: Renovar, 2014, p. 219)

Por conseguinte, tem-se que é equivocada a alegação de invalidade do referido


negócio em razão da ilicitude do objeto, pois tal ​objeto prestacional envolvido – imóvel
para fins de locação - é lícito, não defeso em lei, portanto, válido.
Destarte, é salutar destacar que o objeto prestacional em questão também é
possível, conforme preceitua o art. 104, II do Código Civil - de forma contrária ao que
defende a parte autora. De acordo com Caio Mário da Silva:

Fisicamente impossível é o objeto, se for insuscetível de realizar‑se


materialmente. Se o objeto for ​impossível,​ é frustro o negócio, em razão de não
se poder congurar a relação jurídica, que, na verdade, reclama a existência do
elemento objetivo para armar‑se (cf. cap. II, ​supra)​ e ser impossível o objeto, o
mesmo é que não haver. Mas a impossibilidade há de ser ​absoluta​, que se dene
quando a prestação for irrealizável por qualquer pessoa, ou insuscetível de
determinação. Sendo ​relativa​, a saber, prestação que seja realizável por outrem,
embora não o seja pelo devedor, ou não determinada, porém determinável, não
constitui obstáculo ao negócio jurídico.” (​PEREIRA, Caio Mário Silva,
MORAES, Maria Celina de. ​Instituições de Direito Civil - Vol. I, 31ª
edição, p. 388).

No presente caso, é mister esclarecer que o objeto realiza-se materialmente, fato


este que pode ser comprovado quando o próprio REQUERENTE afirma que fez
benfeitorias no local. Ainda que o imóvel possa apresentar alguma falha geológica, como
alegado, isso não importaria em sua impossibilidade. De tal sorte, a prestação é susceptível
de realização, não constituindo, assim, qualquer entrave ao negócio jurídico, que reputa-se
válido.
Nesse sentido, faz-se importante rechaçar a argumentação que diz que objeto
pactuado é ilícito e impossível, uma vez que cuida-se de uma prestação de imóvel para fins
de locação, o que é permitido por lei. Além disso, o imóvel locado é susceptível de se
destinar à finalidade a que se presta -ser um estabelecimento comercial (cláusula 12 do

 
 
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contrato de aluguel que acompanha a inicial)-, ainda que sejam necessárias algumas
benfeitorias posteriores. É oportuno destacar que o negócio jurídico deve ser mantido, em
consonância com o princípio de conservação dos negócios jurídicos, trata-se, nas palavras
de Antônio Junqueira de Azevedo:

de imperativo segundo o qual tanto o legislador quanto o intérprete, o primeiro,


na criação das normas jurídicas sobre os diversos negócios, e o segundo, na
aplicação dessas normas, devem procurar conservar, em qualquer um dos três
planos – existência, validade e eficácia –, o máximo possível do negócio
realizado pelo agente (Antônio Junqueira de Azevedo, ​Negócio jurídico​:
existência, validade e eficácia, 4. ed., São Paulo: Saraiva: 2002, p. 66).

Em lógica decorrência dos fatos narrados, compreende-se que o acordo firmado


deve ser mantido, haja vista que foi concebido levando em conta o acordo de vontades
com o claro objetivo de conformá-lo à ordem jurídica, além de atender aos requisitos de
validade previstos pelo art.104 do Código Civil.

III.IV DA BOA-FÉ OBJETIVA


Como já fora mencionado, o REQUERENTE alega que há uma falha geológica
no imóvel, objeto do negócio jurídico em questão. O que o REQUERENTE sustenta é que
houve, por parte da REQUERIDA, violação do princípio da boa-fé, ao denunciar a vosso
juízo que o comportamento exteriorizado por esta tornou a obrigação mais onerosa do que
deveria. Contudo, como pode ser extraído da peça vestibular deste processo, não apontou o
REQUERENTE qual seria o comportamento da REQUERIDA.
Por isso, o que se busca defender aqui, é que a REQUERIDA sequer possuía
conhecimento acerca do fim específico pelo qual o REQUERENTE locou o imóvel e da
falha no local, bem como não foi notificada dessa avaria.
É imperioso, por se tratar se aluguel, que sejam expostos os deveres de ambas
partes, da REQUERIDA como locadora, e do REQUERENTE como locatário. Nessa
seara, dispõe a Lei 8.245/91, Lei de Inquilinato, em seus artigos 22, V, e 23, IV, ​in verbis:

Art. 22. O locador é obrigado a:


(...)
V - fornecer ao locatário, ​caso este solicite, descrição minuciosa do estado do
imóvel, quando de sua entrega, com expressa referência aos eventuais defeitos
existentes;(grifo nosso).
(...)

 
 
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Art. 23. O locatário é obrigado a:


(...)
IV - levar ​imediatamente ao conhecimento do locador o surgimento de qualquer
dano ou defeito cuja reparação a este incumba, bem como as eventuais turbações
de terceiros;(grifo nosso).
(...)

Como se vê, deveria o REQUERENTE ter: (I) solicitado à REQUERIDA


descrição minuciosa do estado do imóvel, quando de sua entrega, com expressa referência
aos eventuais defeitos existentes, e (II) imediatamente levado ao conhecimento daquela as
avarias que obstavam o fim pelo qual havia firmado o contrato.
Ato contínuo, resta evidente que a finalidade almejada pelo REQUERENTE não
era explícita, portanto, não tinha a REQUERIDA obrigação de saber, partindo do
REQUERENTE este ônus. Não tinha, também, a REQUERIDA, ciência das avarias, pelo
mesmo motivo que alegou nos fatos o REQUERENTE, i.e., carência de conhecimento
técnico.
Faz-se necessário dizer que o REQUERIDO, em seus fundamentos, diz que a
avaria era visível, até mesmo, por olhar leigo. Ora, se em um primeiro momento não pôde
nem a REQUERIDA e nem o REQUERENTE vislumbrar tal defeito, como poderia ter
este a visto tempos depois que ambos celebraram o contrato?
Cabe então apontar que, tendo o contrato sido celebrado, independentemente de
quem foi a culpa pelas avarias, deveria ter o REQUERENTE tê-lo rescindido a partir do
momento que tal obrigação se tornara mais onerosa que o esperado. Uma vez quebrado o
sinalagma contratual, deveria ter agido o REQUERENTE no sentido de mitigar o próprio
prejuízo.
A atitude controversa do REQUERENTE vai de encontro, até mesmo, com o que
dispõe o contrato celebrado entre aquele e a REQUERIDA, a saber:

14.Fica estipulada a multa equivalente a 2 (dois) meses de aluguel, na qual


incorrerá a parte que infringir qualquer cláusula deste contrato, com a faculdade
para a parte inocente de considerar simultaneamente rescindida a locação,
independente de qualquer notificação​ (grifo nosso).

Sobre essa temática, têm os tribunais brasileiros decidido no seguinte sentido:

Eficácia irradiante do artigo ​422​, do ​Código Civil - ​boa-fé objetiva que


constitui cláusula geral do sistema jurídico - standard de conduta que impõe
aos indivíduos o dever de mitigar os danos ('duty to mitigate the loss'),

 
 
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enunciado n. 169, da III Jornada de Direito Civil. Inadmissível a tutela


jurídica do credor que se mantém inerte em vista do aumento da multa diária da
parte adversa; (STJ - AREsp: 1219908 SP 2017/0318733-7, Relator: Ministro
SÉRGIO KUKINA, Data de Publicação: DJ 19/02/2018) (grifo nosso)

Boa-fé objetiva. Standard ético-jurídico. Observância pelos contratantes em


todas as fases. Condutas pautadas pela probidade, cooperação e lealdade. 2.
Relações obrigacionais. Atuação das partes. Preservação dos direitos dos
contratantes na consecução dos fins. Impossibilidade de violação aos
preceitos éticos insertos no ordenamento jurídico. 3. Preceito decorrente da
boa-fé objetiva. Duty to mitigate the ​loss​: o dever de mitigar o próprio
prejuízo. Os contratantes devem tomar as medidas necessárias e possíveis
para que o dano não seja agravado. A parte a que a perda aproveita não
pode permanecer deliberadamente inerte diante do dano. Agravamento do
prejuízo, em razão da inércia do credor. Infringência aos deveres de cooperação
e lealdade. (STJ - REsp 758.518/PR, Rel. Ministro VASCO DELLA
GIUSTINA, DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/RS, TERCEIRA
TURMA, julgado em 17/06/2010, REPDJe 01/07/2010, DJe 28/06/2010).

Dentre as decorrências do princípio da boa-fé objetiva, informador da nova


teoria dos direitos obrigacionais, deve-se destacar para a solução do caso
concreto o duty to mitigate the ​loss​, isto é, o dever de cada uma das partes
de mitigar as próprias perdas. (TJ-RS - AC: 70078486735 RS, Relator:
Deborah Coleto Assumpção de Moraes, Data de Julgamento: 23/08/2018,
Décima Sexta Câmara Cível, Data de Publicação: Diário da Justiça do dia
29/08/2018)

A Norma Maior repele práticas incompatíveis como o postulado


ético-jurídico da lealdade processual. No plano do direito material o "duty
to mitigate the ​loss​" - à letra: dever imposto ao credor de mitigar suas
perdas - vem sendo entendido como uma vertente da boa fé objetiva,
bastando que se atente para os termos do Enunciado nº 169 do CJF/STJ.
Verbis: "O princípio da boa fé objetiva deve levar o credor a evitar o
agravamento do próprio prejuízo". (TJ-PE - APL: 4661005 PE, Relator:
Frederico Ricardo de Almeida Neves, Data de Julgamento: 21/08/2018, 1ª
Câmara Cível, Data de Publicação: 27/09/2018)

À face do exposto, analisando a atitude do REQUERENTE sob o prisma do


referido instituto, considera-se que aquele manifestamente o violou, uma vez que se
tratava-se de dever do REQUERENTE de diminuir O PRÓPRIO PREJUÍZO. Portanto,
verifica-se que o REQUERENTE violou a previsão do próprio contrato, a boa-fé,
conforme se esperava (art. ​422 ​CC/02​), bem como seus deveres de cooperação e lealdade
provocando, de forma indevida, um aumento significativo do encargo.

III.V - DA AUSÊNCIA DA RESPONSABILIDADE DE REEMBOLSO

Em razão dos fatos alegados pelo REQUERENTE, no que tange ao reembolso do


valor de seis meses de aluguéis, tal tese não merece prosperar, uma vez que, conforme

 
 
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exposição alhures mencionada, houve a celebração de um negócio jurídico lícito e


possível. Além disso, cumpre destacar que também foram preenchidos os demais
requisitos previstos no art.104 do Código Civil, sendo estes, a determinabilidade do objeto,
a capacidade dos agentes e a ausência de forma prescrita em lei. Ademais, é indubitável
que houve, além dos requisitos previstos taxativamente, o requisito essencial interpretativo
de um negócio jurídico válido, o qual consiste na manifestação de vontade, que ficou
evidenciada, de maneira expressa, com a celebração do contrato.

A regra fundamental de interpretação do negócio jurídico volitivo está


exposta no CC, art. 112, relativamente às declarações de vontade:
prevalece a intenção nelas consubstanciada​, e não o sentido literal da
linguagem. O que interessa é a intenção exteriorizada, ​e não o
pensamento íntimo do declarante. Essa regra tem raízes romanas.
(Antônio Junqueira de Azevedo, ​Negócio jurídico​: existência, validade e
eficácia, 4. ed., São Paulo: Saraiva: 2002​, p. 116) (grifo nosso)

As c​ ircunstâncias que envolveram e envolvem o negócio jurídico


devem ser consideradas na interpretação deste: as negociações
preliminares, a habitualida- de de negócios, a compreensão que a
comunidade empresta a certas atitudes negociais, as manifestações
havidas anteriormente e durante a execução do ne- gócio, os
comportamentos das partes durante a execução, o significado corrente
das palavras empregadas, o lugar, o tempo, o modelo das normas
dispositivas aplicáveis e a mudança objetiva de circunstâncias. Deve ser
levado em conta, principalmente, o significado que corresponde ao uso
do tráfico jurídico, não só em relação às partes, mas também nos setores
e ramos dos respectivos negócios. (LÔBO, Paulo. ​Direito civil: ​parte
geral. 6. ed. São Paulo, SP: Saraiva, 2017.) (grifo nosso)

Em virtude do exposto, não há que se falar em nulidade do negócio jurídico em


análise, pois, é clarividente que foram satisfeitos todos os pressupostos de validade.
Nessa toada, ainda cabe ressaltar o dever dos contratantes previsto no art.422 do
Código Civil, o qual dispõe sobre os princípios da probidade e da boa-fé, também
observáveis na conclusão do contrato. Nesse sentido, cabe mencionar saudosa doutrina:

A boa-fé objetiva, além de ​princípio fundamental do direito civil​, é


regra de interpretação do negócio jurídico volitivo ou não volitivo. Como
princípio, é​ norma cogente que se incorpora ao negócio jurídico,
tendo como consequência a nulidade de qualquer estipulação das partes
que a contrarie. Como regra de interpretação, infunde em todas as
estipulações das partes o sentido que melhor realize os deveres de
lealdade, de probidade, de correção, de confiança. (LÔBO, Paulo.
Direito civil: ​parte geral. 6. ed. São Paulo, SP: Saraiva, 2017.) (grifo
nosso)

 
 
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Nesse diapasão, o que se observa no presente caso, é a ausência de violação do


princípio cogente da boa-fé objetiva por parte do REQUERIDO, tendo em vista que desde
as negociações preliminares, até a presente data, agiu em consonância com o referido
princípio. Dessa forma, afasta-se a proposição de qualquer reembolso, considerando,
também, que não há respaldo legislativo para que essa tese possa prosperar.

IV – Dos pedidos

Por tudo o que foi exposto, a REQUERIDA pede ao Excelentíssimo(a) senhor(a) doutor(a)
juiz(íza) de direito da 1ª vara cível da comarca de Lavras/MG, que sejam julgados
procedentes os seguintes pedidos:
I. Que o processo seja extinto sem a resolução de mérito, nos termos do art. 485, VI;
II. Que os pedidos do REQUERENTE sejam indeferidos, à face do que foi exposto
nesta peça.
III. Que o valor da causa seja corrigido à importância de R$ 6.500 (seis mil e
quinhentos reais), com fulcro no art. 292, II;
IV. Que deseja indeferido o benefício da gratuidade de justiça, nos termos do art. 100
do CPC;
V. Que seja pedido ao REQUERENTE que este junte aos autos extrato bancário e
comprovante de declaração de imposto de renda, a fim de comprovar sua real
situação financeira;
VI. Subsidiariamente, requer que, caso não sejam juntados os documentos acima
pedidos, que o Exmo(a) Sr(a). Dr(a). Juiz(íza) determine as medidas necessárias
para a entrega desses dados, como a quebra de sigilo bancário, nos termos do art.
773 do CPC;
VII. Que o presente contrato seja extinto, a fim de que não cause ônus a nenhuma das
partes que figuram a presente ação, com fulcro na teoria do ​duty to mitigate the
loss​, extraída da interpretação extensiva dada ao art. 422 do CC.

Termos que pede deferimento.


Nepomuceno, 22 de outubro de 2019

 
 
guimarães laignier marçal & ribeiro
advogados associados

___________________________________
Gabriela Faria Guimarães Trindade
OAB/MG nº 132.282

___________________________________
Graziane Ribeiro
OAB/MG nº 137.384

___________________________________
Isabela Carvalho Moraes
OAB/MG nº 112.027

___________________________________
João Pedro Guimarães
OAB/MG nº 135.487

___________________________________
Lara Rezende Laignier
OAB/MG nº 132.182

 
 
guimarães laignier marçal & ribeiro
advogados associados

Anexo i

 
 
guimarães laignier marçal & ribeiro
advogados associados

Anexo ii

 
 
guimarães laignier marçal & ribeiro
advogados associados

Anexo iii

 
 
guimarães laignier marçal & ribeiro
advogados associados

Anexo iv

 
 
ALICE MOREIRA GONTIJO, solteira, brasileira, autônoma, inscrita no CPF sob o nº
030.951.000-11, portadora do documento de identidade RG nº 03.444.333-6, expedida pela
Secretaria de Segurança Pública do Estado de Minas Gerais, tendo como endereço eletrônico
amcontijo@hotmail.com, domiciliada em Lavras/MG, onde reside na Avenida Raul Soares, n°
95, bairro centro, CEP 37200-000, neste ato nomeia e constitui como seus bastantes
procuradores os advogados Gabriela Faria Guimarães Trindade, brasileira solteira, inscrita na
OAB/MG sob o nº 132.281, Graziane Ribeiro, brasileira, solteira, inscrita na OAB/MG sob o
nº 137.384, Isabela Carvalho Moraes Marçal Pires, brasileira, solteira, inscrita na OAB/MG
sob o nº 112.027, João Pedro Guimarães Rocha, brasileiro, solteiro, inscrito na OAB/MG sob
o nº 135.487, e Lara Rezende Laignier, brasileira, solteira, inscrita na OAB/MG sob o nº
132.182, com escritório na Rua Monsenhor Luiz Gonzaga, nº171, Nepomuceno/MG,
registrado sob o nº 09.145.285/0003-53, outorgando-lhes os poderes de cláusula ad judicia,
especificamente para que proponha contestação em ação proposta por Bernardo Almeida
Souza, podendo, ainda, receber, dar quitação, transigir e substabelecer, com ou sem reserva de
poderes, tudo para o bom e fiel cumprimento do mandato.

Nepomuceno/MG
22 de outubro de 2019

_________________________________________________________________
ALICE MOREIRA GONTIJO

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