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Liberar ou não (EDITORIAL FOLHA DE SÃO PAULO, 18/07/10)

Defensores e adversários da legalização das drogas esgrimem bons argumentos num debate que
merece ser ampliado sem hipocrisias

A iniciativa de um grupo de neurocientistas brasileiros de pedir a legalização da maconha tem o mérito de


provocar o debate sobre o tema do veto ou liberação das drogas, para o qual não parece haver solução
perfeita.
A linha proibicionista, que tem sido a dominante no mundo desde o início do século passado, esgrime um
argumento de peso em sua defesa: proibir impede que um número maior de pessoas se exponha a
substâncias que provocam dependência, não raro com impactos bastante deletérios para o indivíduo e a
sociedade.
Alguns números ilustram bem a situação. No Brasil, pesquisa realizada em 2005 pelo Centro Brasileiro de
Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), órgão ligado à Unifesp, mostrou que 75% da população
entre 12 e 65 anos já havia feito uso de álcool ao menos uma vez na vida, com a proporção dos que podem
ser considerados alcoólatras chegando a 12,3%.
Em 2008, o Undoc, a agência da ONU encarregada do combate às drogas e ao crime, estimou que os
usuários de todas as drogas ilícitas no mundo não passavam de 5% da população entre 15 e 64 anos, e a
parcela dos que podem ser considerados dependentes fica abaixo de 0,6%.
É difícil crer que grande parte da brutal diferença entre as legiões de alcoólatras e o modesto pelotão de
dependentes de drogas ilícitas não se deva ao fato de bebidas serem liberadas e outras substâncias, como
cocaína, não.
Se os 5% de usuários de drogas ilícitas começarem a se aproximar dos 75% de consumidores de álcool,
nossos serviços de saúde teriam de lidar com um número muito maior de problemas.
Já os defensores da legalização observam que drogas são consumidas desde os primórdios da humanidade e
nada indica que a demanda e a oferta desaparecerão. Numa perspectiva liberal, não estaria no poder da lei e
do Estado, na vã tentativa de eliminar essa realidade, ditar as substâncias que o cidadão pode ou não ingerir.
Considerando que o balanço da guerra às drogas é desalentador, líderes e personalidades internacionais,
entre eles o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ministro da Cultura, Juca Ferreira, propugnam
uma mudança de enfoque no rumo da legalização.
Desistir de reprimir a venda ilegal levaria a um aumento do uso? É provável. Qual o custo em dinheiro e em
anos de vida perdidos desse possível crescimento? Não se sabe, mas os defensores da legalização creem que
seria inferior ao que hoje se gasta com resultados entre pífios e modestos.
Outro argumento é que o fim do veto ajudaria a reduzir a violência e a corrupção. Esse entretanto seria um
movimento de longo prazo. Ninguém deve esperar que, com uma eventual legalização, os integrantes de
quadrilhas vistam gravatas e se convertam em respeitáveis homens de negócios. É bem mais verossímil
imaginá-los cometendo outros delitos.
Uma alternativa é reconhecer que há diferenças entre as diversas drogas e legalizar a que seria menos danosa
-a maconha.
Seria, na linha adotada há anos pela Holanda, um passo adiante na legislação brasileira, que já não vê crime
no consumo. Recursos empregados na repressão a uma droga cujos efeitos não parecem mais nocivos do que
os do álcool ganhariam outras finalidades.
O tema é, sem dúvida, complexo. Inscreve-se entre aqueles, como a legalização do aborto, que merecem
debate amplo, sem hipocrisias, e consulta popular.

Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1807201001.htm Acesso em


18/07/10

Segurança no pré-sal (EDITORIAL FOLHA DE SÃO PAULO, 18/07/10)

Quase três meses após a explosão da plataforma da BP no golfo do México, a empresa britânica conseguiu
estancar, de forma provisória, o jorro de petróleo no oceano. Estimativas ainda imprecisas para o total de
óleo derramado oscilam entre 350 milhões e 700 milhões de litros.
O desastre derrubou o valor das ações da BP e ajudou a diminuir os índices de aprovação do presidente
Barack Obama.
O acidente ocorreu no momento em que o governo brasileiro alimenta a euforia com o pré-sal. O anúncio da
contenção do vazamento no golfo do México veio no mesmo dia em que o presidente Lula comemorava o
início da extração regular da nova riqueza.
Extrair óleo do pré-sal, a grandes profundidades, é tarefa complexa. É natural que o caso da BP provoque
apreensões quanto à segurança do empreendimento brasileiro. O país precisa saber quais são os planos de
emergência e as salvaguardas ambientais providenciadas pela Petrobras e pelas instâncias responsáveis.
As respostas a essas dúvidas ainda não são satisfatórias. E o presidente Lula parece considerar inaceitável
qualquer questionamento sobre o tema. Nas solenidades de que participou, atacou o jornal "O Globo", que
havia destacado em manchete a decisão europeia de evitar exploração em grandes profundidades. "É preciso
saber qual país da Europa tem petróleo no fundo do mar", disse. "O pouco que tem no mar Morto está
acabando, no mar do Norte está acabando", prosseguiu.
Pode-se entender que o presidente erre feio em geografia e esqueça que Reino Unido e Noruega exploram
petróleo no mar. Mas é dever do Estado brasileiro, que ele chefia, exigir e tornar públicos planos para evitar
que tragédias ambientais ocorram no pré-sal.

Disponível em :< http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1807201002.htm> Acesso em


18/07/10.

A Copa não pode se tornar um grande Pan (EDITORIAL de O GLOBO - 21/07/10)


Ao assinar a medida provisória com benefícios financeiros para as cidades que sediarão jogos da Copa de
2014, o presidente Lula alertou para o risco de a organização do Mundial repetir os erros registrados nos
Jogos PanAmericanos de 2007, no Rio. Na época, os atrasos nas obras (de construção ou de reformas das
praças esportivas, no sistema viário e na rede de transportes), o planejamento tíbio e a falta de articulação
entre os governos federal, estadual e municipal levaram a União a aumentar para R$ 2 bilhões sua
participação nos gastos com a competição, inicialmente orçada entre R$ 400 milhões e R$ 600 milhões.
A advertência é justificada, mas está com o prazo de validade vencido. O Brasil ganhou o direito de
promover a Copa há três anos, e até agora os passos dados — ou que deixaram de ser dados — indicam que,
se o roteiro do Mundial não for radicalmente alterado, o país promoverá um novo e mais encorpado Pan,
naquilo de mais condenável que se registrou em todo o processo de organização dos Jogos do Rio.
A começar pelo tamanho do aporte financeiro, sob quaisquer rubricas, do governo federal. Se no Pan a
participação da União aumentou de quatro a cinco vezes entre o resgate do caderno de compromissos e o fim
da competição, desta vez Brasília deixará espetada no bolso do contribuinte uma fatura dez vezes maior do
que a dos Jogos cariocas.
Pior: isto, depois de a CBF ter garantido que o Mundial seria feito com recursos privados.
Assim como a promessa do hexa na África não passou de uma bravata, o ideal de uma Copa que convocasse
o empreendedor privado não está passando de um devaneio, devido a uma equação bem conhecida no Brasil,
cuja fórmula foi aperfeiçoada no Pan: quanto mais os prazos para as obras encolhem, maior é a distância do
capital privado e, na mesma medida, maior a necessidade de recurso ao socorro oficial.
Não se questiona a participação do poder público num evento que há de trazer divisas para o país. Mas é
deplorável que, depois de três anos, as verbas sejam preferencialmente de fontes oficiais. Neste jogo em que
se desenha, outra vez, uma corrida aos cofres públicos para saldar compromissos, é preocupante o
desconhecimento de critérios de um socorro financeiro que libera créditos para construção/reforma de
estádios sem que se saiba sequer qual a dimensão das obras. A mesma falta de transparência encobre a
retirada do Morumbi da Copa — e corre-se o risco de legar ao maior estado da Federação apenas jogos de
médio porte.
Mais grave ainda do que a questão dos estádios é a dos aeroportos. Anunciam-se créditos de R$ 5,6 bilhões
para o setor, mas sem que se fale em mudar o sistema de administração dos terminais, controlados pela
Infraero, uma estatal cobiçada pelo clientelismo, e hoje o maior entrave ao sucesso da Copa.
Injetar mais dinheiro na incompetência estatal, apenas por interesses políticos da máquina companheira do
Planalto, é dar combustível para um desastre administrativo.
Diante das críticas aos atrasos, Lula argumenta que era preciso tempo para escolher as cidades-sede e
discutir reformas e construção de estádios. Mas a questão dos aeroportos já poderia ter sido resolvida desde
o anúncio da Copa no Brasil.
É um erro que o Mundial seja feito preferencialmente com dinheiro público