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AULA 4

Parnasianismo: produção poética


Em Literatura, o Parnasianismo designa escola ou movimento literário essen-
cialmente poético, contemporâneo ao Realismo/Naturalismo, entre 1850/1870.
O termo “parnasiano” deriva de Parnassus, um lugar mitológico da Grécia onde
habitavam as musas, inspiração dos artistas.

A estética da “arte pela arte”

Afresco do Palazzo Vecchio de Florença, Itália.

Teoria parnasiana tem como foco a perfeição formal

O Parnasianismo pretendia reagir contra a anarquia formal, propondo uma volta às formas
clássicas da poesia, consideradas perfeitas. O retorno à Antiguidade Clássica é uma característica
comum aos parnasianos, valorizando as formas fixas, as rimas incomuns.
Esta reação teve como lema “a arte pela arte”, ou seja, a arte como um fim em si mesma,
colocando-a ao serviço da sociedade. A poesia era quase considerada uma religião. O nome deste
movimento deriva do título dado a uma coletânea feita por Lemerre (Parnase Contemporain), na qual
reuniu os poetas novos.
A estética dos parnasianos resume-se em que toda a produção poética deve ser uma obra de
arte. O Parnasianismo valoriza, pois, a estética, a serenidade, o equilíbrio, aproximando-se assim do
espírito clássico, tomando como referência o nome grego de “Parnasso”, monte dedicado a Apolo,
inspirador de poetas.
Na teoria parnasiana, a perfeição formal é necessária para a expressão da realidade. As te-
máticas comuns são o realismo (o homem é um ser integrado à realidade, à vida, à sociedade), o
universalismo (busca dos valores, aspectos gerais e atemporais da realidade, quer estética, quer
moral) e o esteticismo (perfeição quanto à sintaxe, ao léxico, ao ritmo).
Texto adaptado com base no verbete Parnasianismo do E-Dicionário de Termos Literários.
Disponível em: http://www.edtl.com.pt/?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=352&Itemid=2.
Acesso em: 17.11.2013.

Literatura 2 - Aula 4 43 Instituto Universal Brasileiro


O movimento literário parnasiano
Contexto histórico do Parnasianismo E quando junto a mim passas, criança,
O Parnasianismo surgiu na França Revolta a crespa, luxuosa trança,
como reação ao Romantismo. De 1866 a Na espádua arfando em túrbidos negrumes,
1876, publicou-se na França a revista Lê Par-
Naufraga-me a razão em sombra densa,
nasse Contemporain (“O Parnaso Contem-
Como se houvera sobre mim suspensa
porâneo”), em que os poetas empregavam
Uma nuvem de cálidos perfumes!
uma nova maneira de fazer poesia.
Teófilo Dias. Do livro Fanfarras (1882). Poema inte-
grante da série Flores Funestas. In: Poesias escolhidas.
São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960.

Na década de 1870, quando o Par-


nasianismo começou a ser difundido como
Apolo e as musas - Parnaso, Nicolas Poussin (1594-1665). nova estética literária no Brasil, o país atra-
Museu do Prado, Madri, Espanha. vessava uma série de crises políticas e so-
ciais que assinalariam o colapso do governo
O marco inicial do Parnasianismo no imperial e do regime escravocrata, culmi-
Brasil foi em 1882 com a publicação da obra nando na abolição da escravatura, em 1888,
“Fanfarras” de Teófilo Dias. O movimento e na proclamação da República, em 1889. O
brasileiro, apesar de ter sofrido forte influên- desenvolvimento econômico, que até mea-
cia do Parnasianismo francês, apresenta ca- dos do século 19 se concentrara no Nordes-
racterísticas particulares de expressar a ob- te, a partir dos anos de 1870 passou a des-
jetividade. No Brasil, os princípios estéticos locar-se para o Centro-Sul, onde a cultura
parnasianos influenciaram um grande núme- do café começava a expandir-se. O único
grande centro urbano do Brasil, ainda es-
ro de poetas e se estendem até o início do
sencialmente agrícola, era o Rio de Janeiro,
século XX.
onde se concentrava a vida política e cultu-
ral do país. Mas foram intelectuais de Recife
Leia um dos poemas que compõe a obra ligados à Faculdade de Direito, entre eles
“Fanfarras” de Teófilo Dias: Sílvio Romero e Tobias Barreto, os primeiros
a divulgar as novas ideias literárias, filosófi-
A Nuvem cas e políticas que passariam a influenciar
o pensamento dos escritores nacionais. A
Sulcas o ar de um rastro perfumoso elite brasileira recebia, principalmente da
Que os nervos me alvoroça e tantaliza, França, as ideias republicanas, positivistas
Quando o teu corpo musical desliza e evolucionistas que agitavam os meios in-
Ao hino do teu passo harmonioso. telectuais europeus, além das descobertas
de novas ciências como a Física, a Linguís-
A pressão do teu lábio saboroso tica e a Biologia. O grande veículo de difu-
Verte-me na alma um vinho que eletriza, são das novas teorias, inclusive literárias,
Que os músculos me embebe, e os nectariza, eram os inúmeros periódicos surgidos com
E afrouxa-os, num delíquio langoroso. o desenvolvimento da imprensa nacional. Os

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jornais e revistas eram importantes veículos para a
divulgação de obras e movimentos literários e con-
solidação de autores. Muitos escritores da época,
além de publicarem poemas e folhetins, atuaram
como cronistas em periódicos, contribuindo inclusi-
ve para a profissionalização do escritor brasileiro.
Enciclopédia Itaú Cultural. Disponível em: http://
www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclope-
dia_lit/index.cfm?fuseaction=definicoes_texto&cd_
verbete=12159&cd_item=237&cd_produto=84.
Acesso em: 17.11.2013. Texto adaptado.

Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac - a


tríade brasileira do Parnasianismo.
Aspectos marcantes da poesia parnasiana
Essa nova escola propunha-se a aca- Leia as duas primeiras estrofes do poe-
bar com a excessiva liberdade formal e o ma “Pátria” de Olavo Bilac:
exagero subjetivista dos autores românti-
cos; combateu o subjetivismo, pregando a Pátria
expressão objetiva das coisas através das
formas poéticas. Pregava a expressão de- “Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
sordenada do pensamento, influenciado so-
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
mente pelas verdadeiras emoções sentidas.
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
O verso possui mais esmerado trabalho de
forma, dando grande importância à rima É um seio de mãe a transbordar carinhos.
rica. O soneto aconteceu em todas as for- Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
mas métricas. Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
O grande patriota e poeta Olavo Bilac Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
(1865-1918) liderou o movimento literário
(...)
que surgiu na França, como reação ao Ro-
mantismo, e que predominou nos últimos Olavo Bilac. Pátria. Rio de Janeiro: Ed.
anos românticos, onde os poetas se preocu- Francisco Alves, 1910.
pavam excessivamente com as rimas ricas e
a forma perfeita.
O Parnasianismo como movimento fi-
cou associado ao conceito da “arte pela
arte”. É interessante destacar que, ao con-
trário de outros movimentos que ocorreram
em Portugal e no Brasil, o Parnasianismo O conceito de patriotismo refere-se
apresentou características significativas so- ao amor à pátria, à devoção ao seu solo e às
mente no Brasil e na própria França, onde suas tradições, à sua defesa e integridade.
teve origem. Patriotismo é o sentimento de amor à pátria,
aos seus símbolos nacionais, (bandeira, hino,
brasão, vultos históricos, riquezas naturais e
A tríade brasileira de poetas parnasianos patrimônio material e imaterial). Por mais que
esteja ligado a ideia de soberania territorial,
Os poetas Alberto de Oliveira, Raimun- hoje em dia, é redefinido por uma visão muito
do Correia e Olavo Bilac compunham a cha- mais abrangente. Por meio de um conjunto de
mada tríade de poetas parnasianos no Brasil. atitudes conscientes e pela participação socio-
O movimento, no entanto, tem muitos outros educacional e cultural pode-se identificar um
grandes poetas como Vicente de Carvalho e verdadeiro cidadão patriota.
Machado de Assis.
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O Hino à Bandeira Nacional foi escrito • Gosto pelas coisas e fatos exóti-
pelo grande patriota e importante parnasiano cos. Tudo aquilo que fosse muito comum era
Olavo Bilac. Leia as primeiras estrofes: considerado pelos parnasianos como indigno
de figurar na Literatura.
• Preferência por temas descritivos
(cenas históricas, paisagens). Predomínio de
descrições pormenorizadas.
• Grande enfoque da sensualidade
(davam ênfase na descrição da mulher, de
suas características físicas). Predomina a vi-
são do amor mais sensual, mais carnal, em
oposição à visão mais espiritualizada que
aparecia nos poemas românticos. A poesia
amorosa dos parnasianos apresenta uma vi-
são mais realista do relacionamento entre os
dois sexos. A mulher é descrita com pormeno-
Hino à Bandeira Nacional res antes não permitidos na Literatura.
• Perfeição nas rimas. Muita habilida-
Salve lindo pendão da esperança, de na criação dos versos.
Salve símbolo augusto da paz!
• Vocabulário culto. Emprego de pala-
Tua nobre presença à lembrança
vras raras e incomuns.
A grandeza da Pátria nos traz.
Recebe o afeto que se encerra • Uso da ordem inversa da frase, que
Em nosso peito juvenil, segundo os parnasianos, enobrecia a lingua-
Querido símbolo da terra, gem poética.
Da amada terra do Brasil! • Uso de formas fixas de composição
poética, como o soneto que tinham sido deixa-
(...) das em segundo plano durante o Romantismo.
Letra: Olavo Bilac. Música: Francisco Braga. • Objetividade, em oposição à subje-
tividade, à sentimentalidade e predomínio da
imaginação, que eram comuns nos textos ro-
mânticos. Prevalece a razão no lugar da emo-
Características do Parnasianismo
ção e fantasia.
• A busca da perfeição formal é a preo- • Universalismo, em oposição ao indi-
cupação fundamental do poeta parnasiano. vidualismo romântico.
• O parnasiano é adepto da “arte pela
arte”, concepção segundo a arte que deve
Principais poetas parnasianos brasileiros
existir apenas em função dela mesma, des-
ligando-se de qualquer envolvimento político, Olavo Bilac
moral, religioso ou social. A arte existe apenas (1865-1918)
para criar a beleza.
• Comparação da poesia com as artes Olavo Bilac possuía
plásticas, principalmente com a escultura. Isso in- forma segura, linguagem
dica que, para o poeta parnasiano, é muito mais correta, estilo sublime, ins-
importante a elaboração do texto, o trabalho com piração tropical, grande for-
a construção do poema do que a inspiração. ça expressiva e grande po-
• Revalorização dos valores clássi- der de transmissão de suas
cos com referências a elementos da mitologia emoções. A beleza foi para ele uma obsessão
grega e latina. Total apego às tradições. Res- de toda a vida. No fundo, Bilac é um clássico.
gate do ideal greco-romano de arte, beleza, O seu conceito da beleza aliado à verdade é o
equilíbrio e objetividade. mesmo de todos os grandes mestres do lirismo.
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Os seus versos líricos têm graça, brilho, Comentários
calor, espontaneidade. Trata de temas diver-
sificados: a História Antiga, a História do Bra- Este poema parnasiano foi escrito pelo
sil, o lirismo amoroso. Os amores de Bilac fo- ícone maior do Parnasianismo, Olavo Bilac.
ram meras fantasias de poeta. Tudo, em seus Trata de um tema natureza-homem, escrito
na forma de soneto – poema de forma fixa
versos líricos, parece ter sido simulado. Mais
composto por duas estrofes de quatro versos
tarde, porém, o poeta começa a provar o do-
(quartetos) e duas estrofes de três versos (ter-
loroso sentimento de morte, e ele, em cujos cetos). O soneto possui 14 linhas, ou seja, 14
versos anteriores não há dúvida nem inquie- versos e quatro estrofes. As rimas ricas são al-
tação, sente a angústia do mistério que o en- ternadas quanto à sua disposição, isto é, o pri-
volve. Foi neste novo estado psicológico, feito meiro verso rima com o terceiro e o segundo,
de saudades, de piedade, de vagos remorsos, com o quarto verso. Esse tipo de composição
que escreveu os 99 sonetos de Tarde. Nes- foi comum no Classicismo.
tes poemas, o poeta revelou o melhor do seu No texto predomina a descrição. O poe-
pensamento, os seus sentimentos mais pro- ta (o “eu lírico”) descreve o anoitecer como se
fundos. Nenhum poeta brasileiro, até a sua estivesse num barco, no rio. Emprega em al-
guns versos a ordem inversa como em “Curva
época, encontrou no amor e na mulher tantos
os bambuais o vento”. Ao descrever determi-
motivos de emoção e de beleza.
nados elementos da realidade como as ondas,
o entardecer, o horizonte, o poeta escolheu
Vejamos um soneto de Olavo Bilac palavras e expressões (imagens) de emprego
mais raro, de forma culta. Exemplos: Entarde-
Rio Abaixo ce. (“Desmaia agora no ocaso.”). Escurece. (“A
noite apaga / A derradeira luz do firmamento”).
O poeta apenas descreve o fenômeno que ob-
serva, sem revelar os seus sentimentos. Por
isso, podemos afirmar que no texto predomina
a objetividade. O poeta olha para um reflexo
que vem do alto e reflete o encanto sobre a
água do rio que é nada mais que a vida.

Alberto de Oliveira
(1859-1937)
Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento Considerado pela
Da água, que as margens em redor alaga, crítica como sendo o
Seguimos. Curva os bambuais o vento. mais parnasiano dos
poetas brasileiros, Alber-
Vivo, a pouco, de púrpura, sangrento,
to de Oliveira, durante
Desmaia agora o ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
seus oitenta anos vida,
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga. presenciou várias trans-
formações políticas e sociais, porém, isso não
Um silêncio tristíssimo por tudo alterou o seu estilo literário, que permaneceu
Se espalha. Mas a lua lentamente sempre fiel ao Parnasianismo. Sua poesia
Surge na fímbria do horizonte mudo: sempre seguiu às rígidas regras da escola par-
nasiana, ou seja, perfeição formal e métrica
E o seu reflexo pálido, embebido rígida. A sua linguagem é cuidadosamente tra-
Como um gládio de prata na corrente, balhada, chegando às vezes a ser rebuscada.
Rasga o seio do rio adormecido. Os temas giram em torno de bibelôs. Como
Olavo Bilac exemplo pode-se citar os sonetos “Vaso gre-
go” e “Vaso chinês”.
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Leia atentamente um poema de Raimundo Correia
Alberto de Oliveira (1860-1911)

Vaso chinês Aos 19 anos, Raimun-


do Correia publicou os “Pri-
meiros sonhos”, tentativa
frustrada da adolescência.
Mas, quatro anos depois,
o poeta fez “Sinfonias”,
onde a sua personalidade e caminho quase se
definiram. Através de sua obra, Raimundo Cor-
reia revela grande espírito de religiosidade. Foi
o primeiro poeta parnasiano do Brasil. Nenhum
outro conseguiu a perfeição da sua forma poé-
tica, nem a delicadeza de sua inspiração, nem
Estranho mimo aquele vaso! Vi-o, a variedade dos seus temas. Através dos seus
Casualmente, uma vez, de um perfumado poemas, retrata assuntos filosóficos. Procura
Contador sobre o mármore luzidio, uma análise psicológica profunda, visando ex-
Entre um leque e o começo de um bordado. plicar os problemas que mais afligem a socie-
dade humana. Para Raimundo Correia, a vida
Fino artista chinês, enamorado, é um mal irremediável. Só a morte salva e li-
Nele pusera o coração doentio berta. Foi um dos mais altos valores da lírica
Em rubras flores de um sutil lavrado,
brasileira.
Na tinta ardente, dá um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura, Leia um dos poemas mais famosos de
Quem o sabe?... de um velho mandarim Raimundo Correia
Também lá estava a singular figura.
As pombas
Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.
Alberto de Oliveira

Comentários
Vai-se a primeira pomba despertada…
Alberto de Oliveira, como alguns parna- Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
sianos, distanciados dos problemas sociais, De pombas vão-se dos pombais, apenas
com muita objetividade, utiliza em seus po- Raia sanguínea e fresca a madrugada…
emas a própria arte. Por exemplo, descreve E à tarde, quando a rígida nortada
com precisão obras de arte, como vasos, pe- Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
ças de escultura, bordados etc. Os parnasia- Ruflando as asas, sacudindo as penas,
nos defendiam o princípio da arte pela arte, Voltam todas em bando e em revoada…
isto é, achavam que a poesia devia voltar-se Também dos corações onde abotoam
para si mesma, em busca da perfeição for- Os sonhos, um por um, céleres voam,
mal. Alberto de Oliveira identifica a magia e Como voam as pombas dos pombais;
o amor com um vaso chinês, na sua visão de No azul da adolescência as asas soltam,
poeta. Ele transmite seu amor através dos Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
ramos vermelhos, como sangra seu coração E eles aos corações não voltam mais…
apaixonado. Raimundo Correia

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Comentários
O eterno sonho da alma desterrada,
Os poemas de Raimundo Correia im- Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
pressionam pela estrutura métrica e descrição É uma hora feliz, sempre adiada,
objetiva que giram em torno da perfeição. A E que não chega nunca em toda a vida.
analogia entre as pombas em voo e os sonhos
que habitam o coração humano dá o toque de Essa felicidade que supomos,
encantamento ao poema, destacando que “as Árvore milagrosa que sonhamos,
pombas voltam aos pombais”, “mas os sonhos Toda arreada de dourados pomos,
não voltam mais...” O autor usa diferentes
recursos poéticos: a organização em versos Existe, sim, mas nós não a alcançamos,
em forma de soneto; a repetição inicial para Por que está sempre apenas onde a pomos,
indicar o movimento progressivo das pombas E nunca a pomos onde nós estamos.
em voo; a adjetivação quase que visual, colo- Vicente de Carvalho
rindo as passagens como em “raia sanguínea
e fresca a madrugada” e “no azul da adoles-
cência”. O poema apresenta outras caracte-
rísticas próprias do parnasianismo como rimas
ricas, palavras rebuscadas e perfeição de ver-
sos decassílabos..

Vicente de Carvalho
(1866-1924)

Poeta e político nas-


cido em Santos, foi grande
artista do verso, da fase Comentários
criadora do Parnasianis-
mo. Através de seus ver- O soneto “Velho tema” é um dos mais
sos, procurou cantar prin- conhecidos da obra de Vicente de Carva-
cipalmente o mar, por isso lho. Como bem mostram suas obras, foi um
burilador do verso tal como prega o Parna-
foi cognominado (apelidado) “o poeta do mar”.
sianismo.
Vicente de Carvalho está colocado entre os mais
De uma sensibilidade muito profunda,
profundos poetas líricos. Soube dizer em versos sem recorrer a devaneios e com apuro de
perfeitos os sentimentos mais delicados da alma forma, de acordo com os moldes de sua
humana. Tudo o que Vicente de Carvalho escre- escola, esses sentimentos subiam à tona
veu de pessoal acha-se reunido nos “Poemas e com objetividade e realismo. “Velho tema”
canções”. A sua poesia, “Palavras ao mar”, é a pertence à obra “Poemas e Canções” publi-
mais bela da língua brasileira. Pescador e poeta, cada em 1908. Com esse poema, Vicente
passou a maior parte das horas de lazer ouvindo de Carvalho nos envia uma profunda men-
o murmúrio das ondas, de modo que o mar se sagem: nós mesmos construímos a nossa
transformou no seu velho confidente. felicidade. Ela existe e, para que a encon-
tremos, precisamos construí-la dentro de
nós mesmos.
Leia um poema de Vicente de Carvalho
O título e contexto estão intimamente
Velho tema relacionados, pois que tema é mais do que
a felicidade, ou melhor, do que a procura
Só a leve esperança em toda a vida, da felicidade? Como diz Vicente de Carva-
Disfarça a pena de viver, mais nada, lho, esse é um “Velho tema”. É a mola pro-
Nem é mais a existência, resumida, pulsora que impulsiona todas as ações do
Que uma grande esperança malograda. mundo.

Literatura 2 - Aula 4 49 Instituto Universal Brasileiro


A face feminina da Parnasianismo
poesia parnasiana
Escola ou um movimento literário essen-
Quase não se cialmente poético, contemporâneo do Rea-
fala da representante lismo/Naturalismo. Um estilo de época que
feminina do Parnasia- se desenvolveu na poesia a partir de 1850. O
nismo brasileiro: Fran- marco inicial do Parnasianismo brasileiro foi
cisca Júlia (1871-1920). em 1882 com a publicação de “Fanfarras” de
Mas no universo domi- Teófilo Dias. O grande patriota e poeta Olavo
nado por poetas mas- Bilac liderou o movimento literário que sur-
culinos, a face feminina giu na França, como reação ao Romantismo.
da poesia parnasiana O Parnasianismo é o movimento que ficou co-
revela uma produção nhecido como a “arte pela arte”. Os poetas se
de alta qualidade. A poeta foge dos padrões fran- preocupavam excessivamente com as rimas
ceses de impessoalidade e impassividade, com ricas e a forma perfeita.
versos que representam a “arte pela arte” por
meio de recursos plásticos e sonoros, com rigor Principais características
formal e retórico. Seu primeiro livro de poemas, do Parnasianismo
Mármores (1895), conquista a admiração dos
círculos literários do país. O gosto pelo vocabu- • Revalorização dos valores clássicos.
lário erudito pode ser observado nos versos do • Preferência por temas descritivos.
soneto Musa impassível, que integra a obra. O • Grande enfoque da sensualidade.
poema inspira a escultura feita por Victor Bre- • Predominância da ordem inversa.
cheret (1925), em memória de Francisca Júlia. • Gosto pelas coisas e fatos exóticos.
Atualmente, a estátua faz parte do acervo da Pi- • Vocabulário culto.
nacoteca de São Paulo. • Os sonetos voltam a ser muito comuns
no período parnasiano.
Musa impassível • Objetividade, em oposição à subjetividade.
• Universalismo, em oposição ao indivi-
Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero dualismo romântico.
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo Principais autores
orgulho, e diante
De um morto, o mesmo olhar e Alberto de Oliveira, Raimundo Correia
sobrecenho austero. e Olavo Bilac - a tríade brasileira do Parnasia-
nismo. Vicente de Carvalho também participou
Em teus olhos não quero a lágrima; não quero da fase criadora do movimento parnasiano.
Em tua boca o suave o idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante; A face feminina da poesia parnasiana
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.
Francisca Júlia. A poeta foge dos padrões
Dá-me o hemistíquio d’ouro, a imagem atrativa; franceses de impessoalidade e impassividade,
A rima cujo som, de uma harmonia crebra, com versos que representam a “arte pela arte”.
Cante aos ouvidos d’alma; a estrofe limpa e viva; Seu primeiro livro de poemas, Mármores (1895),
conquista a admiração dos círculos literários do
Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos, país. No universo dominado por poetas masculi-
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra, nos, a face feminina da poesia parnasiana revela
Ora o surdo rumor de mármores partidos. uma produção de alta qualidade.

Literatura 2 - Aula 4 50 Instituto Universal Brasileiro


5. Leia a estrofe de Olavo Bilac, antes de
escolher a alternativa que indica corretamente
as características parnasianas presentes nes-
te fragmento poético.

1. (UEL. Adaptada) O Parnasianismo “Torce, aprimora, alteia, lima


brasileiro foi um movimento: A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
a) ( ) poético do final do século 19 e iní- Como um rubim.”
cio do século 20.
Olavo Bilac
b) ( ) lítero-musical do final do século 18
e início do século 19. Altear. Tornar sublime.
c) ( ) poético do final do século 18 e iní- Engastar. Embutir; encaixar.
Rubim. O mesmo que rubi.
cio do século 19.
d) ( ) teatral do final do século 20.
I - Bilac retorna aos temas clássicos.
2. (FESP. Adaptada) Com relação ao II - Bilac busca a perfeição formal.
Parnasianismo, é correta a afirmação. III - Bilac busca a rima rica.
IV - Bilac apresenta uma visão carnal do
a) ( ) É sentimentalista. amor.
b) ( ) Assume uma visão crítica da so-
ciedade. a) ( ) As afirmativas I e IV estão corretas.
c) ( ) Seus autores estiveram sempre b) ( ) As afirmativas I e III estão incorretas.
atentos às transformações do final do século c) ( ) As afirmativas II e III estão incorretas.
19 e início do seguinte. d) ( ) As afirmativas II e III estão corretas.
d) ( ) O seu traço mais característico é o
endeusamento da forma. 6. Leia as estrofes do poeta Alberto de
Oliveira e coloque nos parêntese (F) falso ou
3. Ao apresentar uma visão mais car- (V) verdadeiro para as afirmações abaixo e
nal do que espiritual do amor, o poeta par- escolha a alternativa correta.
nasiano:
Cabelo errante e louro, a pedraria
a) ( ) não apresenta a mulher idealizada Do olhar faiscando, o mármore luzindo
e aproxima-se do relacionamento humano co- Alvirróseo do peito, - nua e fria,
mum. Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.
b) ( ) distancia-se da mulher amada. Alberto de Oliveira
c) ( ) coincide com a visão romântica do
amor. Alvirróseo. Que é branco
d) ( ) apresenta a mulher idealizada e (“alvo”) com tonalidade
rósea; ou branco e rosa.
distante.

4. A escolha de temas exóticos pelos ( ) Uso da ordem indireta.


parnasianos revela: ( ) Abordagem de tema romântico.
( ) Emprego de vocabulário erudito.
a) ( ) a falta de temas interessantes. ( ) Uso da descrição minuciosa.
b) ( ) o desprezo pelas coisas comuns
que os levava a buscar o diferente. a) ( ) V F V V
c) ( ) um grande mau gosto. b) ( ) V V V F
d) ( ) interesse pelos fatos comuns e co- c) ( ) F F V F
tidianos. d) ( ) V V F F
Literatura 2 - Aula 4 51 Instituto Universal Brasileiro
4. b) ( x ) o desprezo pelas coisas co-
muns que os levava a buscar o diferente.
Comentário. Tudo aquilo que fosse muito
comum era considerado pelos parnasianos como
indigno de figurar na literatura, daí o gosto por
1. a) ( x ) poético do final do século 19 e temas exóticos, explorando lugares e objetos
início do século 20. pouco conhecidos e exaltando culturas e civiliza-
Comentário. O período histórico do mo- ções por meio da linguagem. Há de se pensar
vimento na Europa vai de 1866 a 1876, mas no que a temática estava ligada à questão estética.
Brasil a primeira publicação data de 1822. As in- O poeta é um artista, um escultor, um construtor
fluências da estética parnasiana na produção poé- e seu poema, também se apresenta como uma
tica, sobretudo brasileira, se estendem até o início obra de arte, quase que materializada. Mais do
do século 20. Portanto, a alternativa correta é a. que o sentimento, o que importa é a técnica, a
Observe também que os principais poetas parna- capacidade criativa de construir a obra de arte.
sianos brasileiros viveram até o início do século A linguagem parnasiana, por vezes, mostra uma
20: Raimundo Correia (1860-1911); Olavo Bilac face tão rebuscada e culta que dificulta o enten-
(1865-1918); Vicente de Carvalho (1866-1924); dimento, o que a faz ser considerada como uma
Alberto de Oliveira (1859-1937). arte para as elites.

2. d) ( x ) O seu traço mais característi- 5. d) ( x ) As afirmativas II e III estão cor-


co é o endeusamento da forma. retas.
Comentário. A alternativa correta é d. O Comentário. O trecho pertence ao poema
enunciado é outra maneira de descrever a esté- Profissão de fé de Olavo Bilac. Nestes versos,
tica da “arte pela arte”, traço marcante do Parna- a atividade do poeta é comparada à do ourives,
sianismo: o culto à forma. As expressões culto, ambos buscam a perfeição das formas. Os pri-
endeusamento, sacralização são utilizadas para meiros versos descrevem o trabalho árduo do
tentar descrever a relação dos poetas parnasia- poeta que “torce, aprimora, alteia, lima a frase”.
nos com a estética formal. O rigor técnico parece Bilac destaca o cuidado com a frase, que deve
um recurso adequado à objetividade e à imparcia- ser construída com palavras precisas, e realça
lidade que os poetas parnasianos querem imprimir o polimento dos versos, tratados como precio-
em seus versos. Por isso a retomada dos moldes sidade. Tanto que “enfim, no verso de ouro, en-
clássicos, a começar pelo nome escolhido para o gasta a rima como um rubim”; uma referência
movimento, uma referência à publicação da cole- à joia rara que se revela o verso em que se a
tânea Parnasse contemporain (Parnasso Contem- rima ricamente se encaixa como pedra precio-
porâneo), obra que preconizava a volta à estética sa. Observe que a palavra “rubi” se transforma
clássica dos gregos. A forma deveria sobrepor-se em “rubim” para atingir a rima perfeita. Nestes
ao conteúdo com o objetivo de alcançar o rigor for- versos, o destaque fica para a perfeição formal
mal de modo efetivo. e utilização de rimas ricas, portanto, conside-
ram-se corretas as afirmativas II e III (alternativa
3. a) ( x ) não apresenta a mulher ideali- d); mesmo se as demais afirmativas também se
zada e aproxima-se do relacionamento huma- apliquem ao Parnasianismo.
no comum.
Comentário. Os parnasianos apresentam 6. a) ( x ) V F V V
uma visão mais carnal da mulher, portanto mais Comentário. A estrofe faz parte do poe-
próxima da realidade. Neste sentido não apre- ma Afrodite, que compõe a obra Meridionais
sentam a mulher idealizada como os românticos. de Alberto de Oliveira, um dos poetas mais re-
Alguns críticos chegam a considerar o Parnasia- presentativos dos valores parnasianos. Nestes
nismo como uma espécie de Realismo da poesia. versos, a única característica que não se aplica
As descrições ganham objetividade e proximidade é a abordagem de tema romântico, já que o foco
como numa pintura, postura contrária à idealização é um tema clássico: a deusa Afrodite. Os usos
romântica que requer o distanciamento. Tal obje- de ordem indireta, de vocabulário erudito e de
tividade era estratégica para alcançar a finalidade descrição minuciosa podem ser observados ao
maior de evidenciar as características estéticas da mesmo tempo no verso “o mármore alvirróseo
poesia entendida como expressão de arte. do peito luzindo”.

Literatura 2 - Aula 4 52 Instituto Universal Brasileiro