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AULA 5

Simbolismo
O Simbolismo, contemporâneo ao Parnasianismo no final do século 19, surge
como reação ao excesso de objetividade. Mesmo mantendo a preocupação com
a linguagem, a poesia simbolista é marcada pelo subjetivismo, pelo misticismo
e pelas impressões sensoriais.

Poesia simbolista inova com sobreposições de cor, som, cheiro...

Beatrice, pastel do pintor simbolista francês


Odilon Redon (1840-1916)

No Brasil, onde o Parnasianismo dominava o cenário poético, a estética simbolista encontrou


resistências, mas animou a criação de obras inovadoras. Desde o final da década de 1880 as obras
literárias de simbolistas franceses, entre eles Baudelaire e Mallarmé, e portugueses como Antonio
Nobre e Camilo Pessanha, vinham influenciando poetas brasileiros. Cruz e Souza, com a publicação
do livro Broquéis, poemas em versos, principiou de fato o Simbolismo no país - embora a importância
desse movimento só tenha sido reconhecida bem mais tarde, com as vanguardas modernistas.
Entre as inovações formais que caracterizam o Simbolismo estão a prática do verso livre, em
oposição ao rigor do verso parnasiano, e o uso de uma linguagem poética em que as palavras são
escolhidas pela sonoridade, ritmo, colorido, a fim de ser captadas pelos sentidos. Traços formais
característicos do Simbolismo são a musicalidade, a sensorialidade, a sinestesia (sobreposição de
impressões sensoriais como cor, som, cheiro). Sugestões de perfumes, cores, músicas perpassam
os poemas, com linguagem vaga e fluida, plena de recursos sonoros como aliterações e assonân-
cias. Há também referências a elementos místicos, ao sonho, a mistérios, ao amor erótico, à morte,
os grandes temas simbolistas.
Enciclopédia Itau Cultural. Literatura Brasileira. Simbolismo. Disponível em: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/
enciclopedia_lit/index.cfm?fuseaction=definicoes_texto&cd_verbete=12154&cd_item=237&cd_produto=84.
Acesso em: 14.06.2013. Texto adaptado.

Literatura 2 - Aula 5 53 Instituto Universal Brasileiro


A estética simbolista
Contexto histórico Viola chinesa
O Simbolismo nasceu na França, em
1890. A atitude do poeta diante da realidade é Ao longo da viola morosa
agora subjetivista, (uma atitude semelhante à Vai adormecendo a parlenda,
Sem que, amadornado, eu atenda
dos românticos no início do século 19). Pode-se
A lengalenga fastidiosa.
dizer que o precursor do movimento, na França,
foi o poeta francês Charles Baudelaire com a Sem que o meu coração se prenda,
obra “As Flores do Mal”, ainda em 1857. Enquanto, nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

Mas que cicatriz melindrosa


Há nele, que essa viola ofenda
As Flores do Mal de
E faz que as asitas distenda
Baudelaire provocou um
Numa agitação dolorosa?
grande escândalo em seu
lançamento. Seis poemas
Ao longo da viola, morosa...
do livro foram condenados
e proibidos de circular, pelo Camilo Pessanha
tribunal de Paris. A primeira
edição era constituída por
1.300 exemplares e os edi-
tores, para não destruírem Correntes de pensamento influenciam
os livros, limitaram-se a retirar as páginas dos produção literária
poemas proibidos. Nasceram assim os exem-
plares amputados. Em 1992, As Flores do Mal O período era de profundas modifica-
foi publicado integralmente pela primeira vez. ções sociais e políticas, provocadas funda-
mentalmente pela expansão do capitalismo,
Mas só em 1881 a nova manifestação é na esteira da industrialização crescente, e que
denominada Simbolismo, em manifesto publi- convergiram para, dentre outras consequên-
cado em 1886 por Jean Moréas, espalhando- cias, a I Guerra Mundial. Na Europa haviam
se pela Europa. Na França, tem como expoen- germinado ideias científico-filosóficas e ma-
tes Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stéphane terialistas que procuravam analisar racional-
Mallarmé. Em Portugal, Camilo Pessanha, mente a realidade e assim apreender as novas
António Nobre e Eugênio de Castro. Veja al- transformações; essas ideias, principalmente
guns versos de Mallarmé e Pessanha. as do positivismo, influenciaram movimentos
literários como o Realismo e o Naturalismo,
O acaso na prosa, e o Parnasianismo, na poesia.
Foi nessa atmosfera espiritual (1890), na
Cai
França, que se iniciou a reação contra as ma-
a pluma
rítmico suspense do sinistro neiras rígidas e a insensibilidade da Escola
nas espumas primordiais Parnasiana. Como a palavra é quase incapaz
de onde há pouco sobressaltara seu delírio a para revelar os nossos mais íntimos sentimen-
um cimo fenecido tos, achavam que a sensibilidade verdadeira é
pela neutralidade idêntica do abismo a que se sente e não se exprime. Daí o uso do
Mallarmé símbolo para traduzir os seus confusos estados
de alma e o nome proveniente da escola.
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Transcrevemos abaixo as quatro primei-
ras estrofes desse poema. Observe a ocorrên-
cia da musicalidade e a sugestão de uma
atmosfera nebulosa e vaga.

Antífona

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras


De luares, de neves, de neblinas!
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras

Formas do Amor, constelarmente puras,


De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,


Harmonias da Cor e do Perfume...
Orfeu, Odilon Redon (1898). Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,


A escola simbolista difere do Parnasia-
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
nismo pela criação de uma poesia sem mé-
Dormências de volúpicos venenos
trica, pelo uso da musicalidade, pela difícil
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...
compreensão e a produção de verdadeiros
místicos, sendo a religião dos simbolistas
Turíbulo. Vaso onde se queima incenso nos templos.
simples, humilde e ingênua. O lirismo simbo- Ara. Altar.
lista é indireto, o poeta inventa símbolos tira- Constelarmente. Divinamente.
dos da natureza, como que para encobrir sua Mádida. Umedecida, orvalhada.
sensibilidade. Os simbolistas expressavam Réquiem. Música de cerimônias religiosas para mortos.
a realidade interior lançando mão da cor, da Flébeis. Chorosos, plangentes, fracos.
Surdina. Peça que se usa para abafar o som de ins-
música, da forma. trumentos.
Volúpico. Relativo a volúpia, a grandes prazeres.

Poesia simbolista no Brasil


Principais poetas simbolistas
O Simbolismo no Brasil teve início no
ano de 1893, com a publicação de duas obras Os expoentes máximos da escola no
do autor Cruz e Souza: “Missal” (prosa) e Brasil foram: Cruz e Sousa e Alphonsus de
“Broquéis” (poesia) - e se estende até o mo- Guimaraens. Quanto à poesia, os simbolistas
vimento modernista: (1902 - Publicação de Os realizaram uma revolução temática e formal,
sertões - Euclides da Cunha). Em “Broquéis” que era reflexo de novas ideias científicas,
aparece o poema “Antífona”, considerado um filosóficas e estéticas. No que se refere ao
verdadeiro manifesto simbolista. mundo interior, descobriram o subconscien-
te e o inconsciente, podendo, desta maneira,
Antífona. Versículo recitado ou can- estudar os fatos misteriosos e as forças mais
tado, antes ou depois de um salmo. No profundas da personalidade. A poesia buscou
caso, é a poesia que abre o livro “Broquéis”, a intuição dos sentimentos, das dores, dos an-
transformando-se numa espécie de síntese seios, das angústias e das revoltas.
da obra do poeta. No que diz respeito ao mundo exterior,
redescobriram o sentido lírico da realidade e
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reabilitaram artisticamente a fantasia. Todos
os nossos poetas simbolistas exploraram a Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
fantasia, muito especialmente Alphonsus de
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Guimaraens. Isso deu aos simbolistas um Vou constelando de visões ignotas.
novo cognome: nefelibatas, que designava
não só os que “andavam nas nuvens”, mas os Sutis palpitações a luz da lua,
sonhadores, os independentes, os individua- Anseio dos momentos mais saudosos,
listas em arte. Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.
Cruz e Sousa
(1861-1898) Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
Filho de escravos E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.
que depois foram libertos,
foi educado em Santa Harmonias que pungem, que laceram,
Catarina, sua terra natal. Dedos Nervosos e ágeis que percorrem
João da Cruz e Sousa Cordas e um mundo de dolências geram,
possuía invulgar expres- Gemidos, prantos, que no espaço morrem...
são e inspiração deliran-
te. Foi o mais intuitivo e o E sons soturnos, suspiradas mágoas,
mais espontâneo dos poetas. Os seus versos Mágoas amargas e melancolias,
muitas vezes são obscuros. Foi um descobri- No sussurro monótono das águas,
dor de novas e ricas sonoridades. Sua obra Noturnamente, entre ramagens frias.
possui versos e estrofes de excepcional beleza
Vozes veladas, veludosas vozes,
rítmica e alguns sonetos que podem contar-se
Volúpias dos violões, vozes veladas,
entre os mais belos de nossa literatura. Foi tido Vagam nos velhos vórtices velozes
não só como o maior dos poetas simbolistas, Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
mas também um dos maiores do Brasil. Suas
obras evocam toda a sua mágoa pelo precon- Tudo nas cordas dos violões ecoa
ceito enfrentado devido à sua cor. E vibra e se contorce no ar, convulso...
Destacamos nove estrofes de um dos fa- Tudo na noite, tudo clama e voa
mosos poemas simbolistas de Cruz e Sousa. Sob a febril agitação de um pulso.

Violões que choram... Que esses violões nevoentos e tristonhos


São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas do sonho
Almas que se abismaram no mistério.

Observe que na primeira estrofe, o poeta


emprega várias metáforas para sugerir o som
dos violões: soluços ao luar; choros ao vento;
Ah! plangentes violões dormentes, mornos, tristes perfis; vagos contornos; bocas murmure-
Soluços ao luar, choros ao vento... jantes de lamento. Percebe-se que na segunda
Tristes perfis, os mais vagos contornos, estrofe, o eu-lírico (o poeta) volta ao passado,
Bocas murmurejantes de lamento. quando se lembra das noites. As cordas vivas

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dos violões, a música, fazem com que ele sinta No sonho em que se perdeu,
saudade de momentos já vividos. Neste poe- Banhou-se toda em luar...
ma são mais importantes as emoções que a Queria subir ao céu,
cena causa ao poeta, do que o próprio cenário. Queria descer ao mar...
A realidade apresentada no poema é vaga, im-
precisa, como também é muito vago o estado E, no desvario seu,
de alma do poeta. Podemos, pois, notar uma Na torre pôs-se a cantar...
mistura de diversas sensações. Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

Alphonsus de E como um anjo pendeu


Guimaraens As asas para voar...
(1870-1921) Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
Seu primeiro livro
publicado em 1899 é em As asas que Deus lhe deu
forma de poemas, cha- Ruflaram de par em par...
mado “Dona Mística”. Sua alma subiu ao céu,
Neste mesmo ano, tam- Seu corpo desceu ao mar...
bém foi a publicação de
“Setenário das dores
de Nossa Senhora” e “Câmara ardente”.
Um tempo depois, em 1902, escreve e publica
“Kyriale” sob o pseudônimo consagrado de Al-
phonsus Guimaraens. A vida do autor norteia O autor sugere através do emprego
sua obra através dos marcos da morte da noiva das antíteses (subir/descer - perto/longe)
Constança e da devoção à Maria, envoltos em o desejo contraditório de Ismália, que era
um clima de misticismo exacerbado, no qual a subir ao céu e descer ao mar. Esses dese-
morte é vista como o meio de aproximação do jos se encontram sintetizados no penúlti-
amor e da devoção religiosa. mo e no último verso do poema. O autor,
Leia um trecho do famoso poema que tem através da união da matéria e do espírito,
deixa evidente que o corpo de Ismália foi
como título o nome de uma personagem de fim
para o mar e a alma, para o céu.
trágico, e como tema, a loucura.
Ismália
Características marcantes
do Simbolismo

Quando Ismália enlouqueceu,


Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu, Summer, do pintor simbolista francês
Viu outra lua no mar. Pierre Puvis de Chavannes (1824-1898).

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Transcendentalismo Subjetivismo

Os simbolistas têm como princípio bási- Os simbolistas possuem grande interes-


co sugerir por meio das palavras sem nomear se pelo particular e individual, deixando de
objetivamente os elementos da realidade, e lado a visão geral. Possuem visão individua-
davam grande ênfase na fantasia e também lista, pois a visão objetiva não desperta inte-
no imaginário. Para interpretar a realidade, os resse. A poesia simbolista se opõe à poesia
simbolistas se auxiliam da intuição e não da parnasiana, mas se aproxima da estética dos
lógica ou da razão. Os simbolistas dão prefe- Românticos. Os simbolistas voltam-se para
rência ao indefinido ou impreciso e ao vago. As além do coração, eles buscam o mais profun-
produções de obras de arte no Simbolismo se do do “eu”, buscam o sonho, o inconsciente.
baseiam na intuição, dando tratamento metafí- A obra simbolista possui caráter individualis-
sico aos temas universais. ta. O poeta simbolista volta-se para o mundo
interior; guia-se pela subjetividade, penetra
fundo no mundo invisível e impalpável do ser
humano.

Tudo se veste de uma igual grandeza


A linguagem é evocadora, plena de ele- Quando a alma entre grilhões as liberdades
mentos sensoriais: som, luz, cor, formas; há o Sonha e, sonhando, as imortalidades
emprego de palavras raras; o vocabulário obs- Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.
curo, vago; as palavras vêm ligadas ao tema
Cruz e Sousa
da morte; referência a coisas misteriosas, va-
gas, místicas; presença de motivos religiosos;
uso da sugestão, as coisas não são ditas cla-
ramente, ficam subentendidas, por isso se fala
em símbolo, que representa algo, e daí vem
simbolismo; uso frequente de letras maiúscu-
las para escrever palavras comuns.
A poesia simbolista expressa o que há de
Que é necessário para que eu resuma
mais profundo no poeta; por isso, ele se vale
As sete Dores dos teus olhos calmos?
de adjetivos que despertem emoções vagas,
Fé, Esperança, Caridade, em suma.
sugestivas. A descrição é essencialmente sub-
Alphonsus de Guimaraens jetiva; é uma espécie de pretexto para identifi-
car o poeta com o íntimo das coisas.
Dá meia-noite na ermida,
Do céu no estrelado luxo
Passa o fantasma de um bruxo. Musicalidade
Cruz e Sousa
A estética simbolista possui muita musica-
lidade (sonoridade). Para que haja uma aproxi-
Associando o texto à característica pre-
mação da poesia com a música, os simbolistas
dominante, o poeta faz referência a coisas mis-
teriosas, vagas, místicas.
empregaram alguns recursos como, por exem-
plo, a aliteração (repetição sistemática de um
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
mesmo fonema consonantal) e também a as-
De luares, de neves, de neblinas!... sonância (repetição de fonemas vocálicos),
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... ecos, rimas. Os versos são musicais, sonoros
Incenso dos turíbulos das aras... e expressivos. A poesia é separada da vida so-
Cruz e Sousa
cial, confunde-se com a música, explora o in-
consciente através de símbolos e sugestões e
dá preferência ao mundo invisível.
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Sinestesia é uma palavra que vem do
grego synaísthesis, em que syn significa
“união” e esthesia significa “sensação”, as-
sim, uma possível tradução literal seria “sen-
sação simultânea”. Em literatura, refere-se
à figura de linguagem em que as sensações
de cor, luz, som, perfume são percebidas de
maneira simultânea.

Leia um dos poemas de Charles Baude-


laire, retirado da obra “As Flores do Mal”, es-
Vozes veladas, veludosas vozes,
crito por volta de 1855. Este é considerado um
Volúpias dos violões, vozes veladas, poema-teoria de Baudelaire que antecipa as
Vagam nos velhos vórtices velozes tendências do Simbolismo, traçando as cor-
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas. respondências entre sensações de perfumes,
Cruz e Sousa
sons e cores.

Correspondências

A Natureza é um templo onde vivos pilares


Deixam escapar, às vezes,
confusas palavras;
A estrofe apresenta musicalidade - efeitos O homem ali passa por entre
sonoros no texto, conseguidos através de alite- florestas e símbolos
rações (repetições sistemática do fonema con- Que o observam com olhares familiares.
sonantal v), ecos, rimas.
Como longos ecos que ao longe
se confundem
Numa tenebrosa e profunda unidade,
Sinestesia
Vasta como a noite e como a claridade,
A característica que se caracteriza pela Os perfumes as cores e os sons
aproximação de sensações diferentes se correspondem.
numa mesma ideia: visual + auditiva; visual
+ olfativa; auditiva + olfativa etc. Há perfumes frescos como
carnes de crianças,
Mais claro e fino do que as finas pratas Doces como os oboés, verdes
O som da tua voz deliciava... como as pradarias,
Na dolência velada das sonatas -E outros corrompidos, ricos e triunfantes,
Como um perfume a tudo perfumava.
Tendo a expansão das coisas infinitas,
Era um som feito luz, eram volatas Como o âmbar, o almíscar, o
Em lânguida espiral que iluminava, benjoim e o incenso,
Brancas sonoridades de cascatas... Que cantam os transportes do
Tanta harmonia melancolizava. espírito e dos sentidos.

Cruz e Sousa Baudelaire

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Características marcantes
do Simbolismo
Transcendentalismo
Simbolismo Princípio simbolista básico que con-
siste em sugerir por meio das palavras
O Simbolismo nasceu na França, sem nomear objetivamente os elementos
em 1890. A atitude do poeta diante da da realidade, e dava grande ênfase na fan-
realidade é agora subjetivista. O perío- tasia e também no imaginário.
do era de profundas modificações sociais
e políticas. Na Europa haviam germinado Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
ideias científico-filosóficas e materialistas Incenso dos turíbulos das aras...
que procuravam analisar racionalmente a Cruz e Sousa
realidade.
Subjetivismo
Poesia simbolista no Brasil
O poeta simbolista volta-se para o
O Simbolismo no Brasil teve início mundo interior; guia-se pela subjetividade,
no ano de 1893, com a publicação de duas penetra fundo no mundo invisível e impal-
obras do autor Cruz e Souza. pável do ser humano.
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Principais poetas simbolistas Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.
Cruz e Sousa
Os expoentes máximos da escola no
Brasil foram: Cruz e Sousa e Alphonsus de
Guimaraens. Quanto à poesia, os simbo- Musicalidade
listas realizaram uma revolução temática
e formal, que era reflexo de novas ideias Para que haja uma aproximação da
científicas, filosóficas e estéticas. poesia com a música, os simbolistas empre-
garam recursos como a aliteração (repetição
Cruz e Sousa sistemática de um mesmo fonema consonan-
(1861-1898) tal) e também a assonância (repetição de fo-
nemas vocálicos), ecos, rimas.
Sua obra possui versos e estrofes de Vozes veladas, veludosas vozes,
excepcional beleza rítmica e alguns so- Volúpias dos violões, vozes veladas...
netos que podem contar-se entre os mais
Cruz e Sousa
belos de nossa literatura. Foi tido como o
maior dos poetas simbolistas.
Sinestesia
Alphonsus de Guimaraens
A característica que se caracteriza
(1870-1921)
pela aproximação de sensações diferen-
tes numa mesma ideia: visual + auditiva;
A vida do autor norteia sua obra atra-
visual + olfativa; auditiva + olfativa etc.
vés dos marcos da morte da noiva Cons-
tança e da devoção à Maria, envoltos em Era um som feito luz, eram volatas
um clima de misticismo exacerbado, no Em lânguida espiral que iluminava...
qual a morte é vista como o meio de apro- Cruz e Sousa
ximação do amor.

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a) ( ) Versos sem rima.
b) ( ) Musicalidade.
c) ( ) Sinestesia.
d) ( ) Rimas igualadas.

1. Analise as afirmativas a respeito do 4. Leia:


Simbolismo e assinale a alternativa correta.
“Todo o céu se recama
I - O movimento simbolista teve início na
De argêntea luz...
França (1890), como reação ao rigor do verso
Uma voz clama
parnasiano.
Por Jesus”.
II - Entre as temáticas características do
Simbolismo estão a subjetividade e o transcen- Nos versos acima, da autoria de Alphon-
dentalismo. sus de Guimaraens, a principal característica
simbolista é:
a) ( ) Somente a afirmativa I está correta.
b) ( ) Somente a afirmativa II está correta. a) ( ) a referência a elementos religiosos.
c) ( ) I e II estão corretas. b) ( ) a linguagem objetiva e rigor métrico.
d) ( ) I e II estão incorretas. c) ( ) a sobreposição de impressões
sensoriais.
2. Complete a afirmação abaixo com os d) ( ) o uso frequente de letras maiúsculas.
recursos poéticos correspondentes e assinale a
alternativa com a ordem correta das palavras. 5. Assinale a única alternativa que não
se refere ao Simbolismo.
Há vários recursos usados pelos poetas
simbolistas: a ____________ que representa a) ( ) Na busca de uma linguagem exó-
sensações visuais, olfativas e sonoras simul- tica, colorida, musical, os autores não re-
tâneas; a _________________ que consiste
sistem, muitas vezes, à ideia de criar novos
termos.
na repetição sistemática de fonema conso-
b) ( ) Há assuntos relacionados ao espi-
nantal; e a _______________ que se refere à
ritual, místico, religioso.
repetição de fonemas vocálicos.
c) ( ) Nota-se o emprego constante de
aliterações e assonâncias.
a) ( ) sinestesia - aliteração - assonância d) ( ) Busca-se uma poesia formalmente
b) ( ) assonância - aliteração - sinestesia perfeita, impassível e universal.
c) ( ) aliteração - assonância - sinestesia
d) ( ) sinestesia - assonância - aliteração 6. Qual o nome do poeta simbolista, au-
tor dos versos abaixo?
3. Leia os versos escritos por Eugênio
de Castro, poeta do Simbolismo português, e
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
identifique a característica predominante. De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
“Na messe, que enlourece, estremece Incenso dos turíbulos das aras...
a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos a) ( ) Alphonsus de Guimaraens.
Fogem fluidas, fluindo à fina b) ( ) Cruz e Sousa.
flor dos fenos...” c) ( ) Camilo Pessanha.
d) ( ) Eugênio de Castro.
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mas /s/, /l/, /o/, /e/; no terceiro, a sequência
sonora /enas/, /enos/; e no quarto verso, o fo-
nema /f/, com os desdobramento /flu/, /flo/.

4. a) ( x ) a referência a elementos re-


1. c) ( x ) I e II estão corretas. ligiosos.
Comentário. As duas alternativas es- Comentário. Nesta estrofe, da auto-
tão corretas. O Simbolismo nasceu na Fran- ria de Alphonsus de Guimaraens, a principal
ça, em 1890. A atitude do poeta diante da característica simbolista é a referência a ele-
realidade é subjetivista, (uma atitude seme- mentos religiosos, portanto, a alternativa a é
lhante à dos românticos no início do século a correta. As alternativas c (sobreposição de
XIX). O movimento é considerado uma reação impressões sensoriais) e d (uso frequente de
ao rigor parnasiano. A escola simbolista difere letras maiúsculas), mesmo que caracterizam
do Parnasianismo pela criação de uma poe- muitos poemas simbolistas, não se aplicam a
sia marcada pelo uso da musicalidade, pela esta estrofe, especificamente. Já a alternativa
produção de verdadeiros místicos. O lirismo b (linguagem objetiva e rigor métrico) traz ca-
simbolista é indireto, o poeta inventa símbolos racterísticas aplicadas à poética parnasiana, e
tirados da natureza, como que para encobrir não simbolista.
sua sensibilidade. Entre as temáticas caracte-
rísticas do Simbolismo estão a subjetividade e 5. d) ( x ) Busca-se uma poesia for-
o transcendentalismo. malmente perfeita, impassível e universal.
Comentário. A única alternativa que
2. a) ( x ) sinestesia - aliteração - as- não se refere à estética simbolista é a d,
sonância que, na verdade, tem a ver com os preceitos
Comentário. Observe a ordem das pa- parnasianos. As afirmações das demais alter-
lavras que completam o trecho. A sinestesia, nativas têm tudo a ver com o Simbolismo: (a)
por definição se refere à união de sensações, Na busca de uma linguagem exótica, colori-
que em literatura refere-se à figura de lingua- da, musical, os autores não resistem, muitas
gem em que as sensações de cor, luz, som, vezes, à ideia de criar novos termos. (b) Há
perfume são percebidas simultaneamente. Os assuntos relacionados ao espiritual, místico,
simbolistas utilizaram também recursos como religioso. (c) Nota-se o emprego constante de
a aliteração, que consiste na repetição siste- aliterações e assonâncias.
mática de um mesmo fonema consonantal, e
a assonância, caracterizada pela repetição 6. b) ( x ) Cruz e Sousa.
de fonemas vocálicos. Comentário. Essa estrofe compõe o
poema “Antífona” de Cruz e Sousa. Portan-
3. b) ( x ) Musicalidade. to, a alternativa correta é a b. João da Cruz e
Comentário. Nesta estrofe de Eugênio Sousa é considerado um dos maiores poetas
de Castro, a característica predominante é a do simbolismo brasileiros, dando início oficial
musicalidade, uma das mais marcantes da ao movimento com a publicação, em 1893,
estética simbolista, segundo o ensinamento de Missal e Broquéis. Nesta estrofe, as pa-
de um dos mestres do simbolismo francês, lavras alternam os sons em aliterações e as-
Paul Verlaine, que em seu poema “Arte poéti- sonâncias, além das construções semânticas
ca”, afirma: “A música antes de mais nada...”. que detalham a cor (branca) e a transparência
Nesta estrofe, para conseguir aproximação da (fluidez), com sequências como “alvas, bran-
poesia com a música, Eugênio de Castro, no cas, claras”, “de luares, de neves, de nebli-
primeiro verso, lança mão de aliteração + as- nas”, para definir as “Formas” - grifadas com
sonância, utilizando a repetição sistemática letras maiúsculas para imprimir o tom religioso
do fonema consonantal + fonema vocálico -, aspecto presente também na referência ao
/éce/; no segundo verso, repetição dos fone- incenso queimado nos altares.
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