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AULA 3

Realismo/Naturalismo
O Realismo/Naturalismo foi um movimento artístico e cultural que se desenvol-
veu na segunda metade do século XIX. A característica principal deste movi-
mento foi a abordagem de temas sociais e um tratamento objetivo da realidade
do ser humano, contrapondo-se ao subjetivismo romântico.

Movimento realista/naturalista se identifica com momento histórico

O breve período de 1830 a 1914 marca o apogeu da Ciência, cujas conquistas não são apenas
numerosas, mas incisivas, revelando a natureza do mundo e do homem e sacudindo a estrutura das
sociedades e seus preconceitos, não raro firmados sob séculos de tradição.
Pasteur desenvolve sua teoria microbiana, prestando valiosa contribuição ao avanço médico, a
par da descoberta da célula, que descerra novos horizontes para os estudos biológicos. É inventado
o telégrafo, e se aperfeiçoam os meios de comunicação e transporte, permitindo intensas relações
comerciais e culturais entre os homens. Tudo isso vem proporcionar maior bem-estar à nova civiliza-
ção, que passa a endeusar a Ciência e proclamar as vantagens da vida prática.
Mas, deixando de lado esse utilitarismo com relação às descobertas científicas, outras vieram
revolucionar o pensamento, a exemplo da teoria da evolução e da seleção natural das espécies, de
Darwin. Este pesquisador procurou explicar a origem do homem sob bases científicas, contrariando
a interpretação bíblica. Aliás, as convicções religiosas, nesse período, acham-se bastante abaladas.
Os pensadores da época chegam, mesmo, a admitir o aniquilamento da religião e da metafísica.
Ainda devemos mencionar, neste breve apanhado da situação na época do Realismo, a teoria
da relatividade de Einstein, de relevante importância no campo da Física.
Os estudos de Freud iniciam a Psicanálise, à luz da qual o homem é visto sob nova dimensão,
como centro de antagonismo entre o “eu” e o meio. Enquanto isso, Augusto Comte dá nascimento à
Sociologia, contribuindo para uma visão mais ampla das relações homem-ambiente.
A Filosofia, nesse período, é apenas uma projeção da Ciência. O pensamento é envolvido pelo
materialismo e determinismo, produtos do evolucionismo de Darwin. Na Literatura, surge uma nova
escola - o Realismo - que se identifica com a filosofia materialista e positivista vigentes.

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Realismo
Contexto histórico
Influências das correntes
O Realismo apresenta um forte caráter de pensamento
ideológico, marcado por uma linguagem política
e de denúncia dos problemas sociais como, por Uma realidade oposta ao que a so-
exemplo, miséria, pobreza, exploração, corrup- ciedade tinha vivido até aquele momen-
ção entre outros. Com uma linguagem clara, os to surgia com o progresso tecnológico: o
artistas e escritores realistas iam diretamente ao avanço da energia elétrica, as novas má-
foco da questão, reagindo, desta forma, ao sub- quinas que facilitavam a vida, como o car-
jetivismo. Uma das correntes do realismo foi o ro, por exemplo. As correntes filosóficas
Naturalismo, onde a objetividade está presente, se destacam: o positivismo, o determi-
porém sem o conteúdo ideológico, mais voltado nismo, o evolucionismo e o marxismo.
para os aspectos naturais e fisiológicos. O pensamento filosófico que exer-
A literatura realista surge na França com ce mais influência no surgimento do Re-
a publicação de “Madame Bovary” em 1857 alismo é o positivismo, o qual analisa a
de Gustave Flaubert; e no Brasil com “Me- realidade através das observações e das
mórias póstumas de Brás Cubas” de Ma- constatações racionais.
chado de Assis, em 1881; e com “O mulato”, Dessa forma, a produção literária
romance naturalista de Aluísio Azevedo. no Realismo surge com temas que nor-
teiam os princípios do positivismo. São ca-
racterísticas deste período: a reprodução
da realidade observada; a objetividade no
compromisso com a verdade (o autor é im-
parcial); personagens baseadas em indiví-
Realismo na Literatura duos comuns (não há idealização da figura
humana); as condições sociais e culturais
Os escritores realistas desejavam re- das personagens são expostas; lei da
tratar o homem e a sociedade em sua totalida-
causalidade (toda ação tem uma reação);
de, a face nunca antes revelada, a do cotidiano
massacrante, do amor adúltero, da falsidade e
linguagem de fácil entendimento; contem-
do egoísmo humano, da impotência do homem poraneidade (exposição do presente) e
comum diante dos poderosos. a preocupação em mostrar personagens
O escritor Gustave Flaubert, ao publicar nos aspectos reais, até mesmo de miséria
“Madame Bovary”, foi processado por imoralida- (sem idealização da realidade).
de, embora absolvido da acusação, demorou mui-
to para que o público aceitasse sua perspectiva
literária (características dos textos realistas).

Na quase totalidade das obras român-


ticas, o casamento é a meta maior a ser al-
cançada pelos amantes e coincide com o final
da história. É como se, resguardados pelo puro
Artists sketching in the white mountains, amor, os amantes tivessem sua vida protegida
Winslow Homer, 1868.
contra o surgimento de qualquer problema.

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Na visão realista, as coisas não são A objetividade no Realismo
bem assim. Os problemas, aliás, começam a
Em sentido amplo, realismo é uma ati-
surgir no casamento, como ocorre em Mada-
me Bovary, obra que deu início ao Realismo tude de percepção dos fatos como eles são,
na Europa. sem mistificações. Neste sentido, pode-se en-
contrar realismo em qualquer obra de qualquer
época. Como estilo literário, surge na França
na segunda metade do século 19 com a publi-
cação de “Madame Bovary”, de Gustave Flau-
bert, como oposição ao Romantismo. Surgia a
necessidade de retratar o homem em sua tota-
lidade, e não de forma idealizada e sonhadora,
como faziam os românticos.

Cena do filme “Madame Bovary”, baseado


na obra de Gustave Flaubert

O Realismo surge em meio ao fracasso


da Revolução Francesa e de seus ideais de
liberdade, igualdade e fraternidade. A socie- Jovem Mulher a Ler, Gustave Courbet.
dade se dividia entre a classe operária e a
burguesia. Logo mais tarde, em 1848, os co- A mulher passa a ser mostrada não mais
munistas Marx e Engels publicam o Manifesto como pura e angelical, mas como um ser dotado
que faz apologias à classe operária. de defeitos e qualidades. Da mesma forma, a
figura do herói íntegro e destemido é substituída
pela figura de uma pessoa comum, cheia de
fraquezas, problemas e incertezas.
Para os realistas, a vida deveria ser ob-
servada não em função de um ideal emotivo,
mas de acordo com os fatos revelados pela
Ciência e Filosofia; o escritor deveria man-
ter-se diante do homem e da sociedade numa
atitude objetiva, tal qual o cientista ante os
fenômenos naturais.

O capital atropela não apenas os limites má-


ximos morais, mas também os puramente físicos Realismo & realismo
na jornada de trabalho. Usurpa o tempo para o cres-
cimento, o desenvolvimento e a manutenção sadia do Assim como apresentamos a distinção
corpo. Rouba o tempo necessário para o consumo de
entre Romantismo e romantismo, é impor-
ar puro e luz solar.
tante deixar clara a diferença entre Realismo
Karl Marx - O capital,1867. Grifo nosso. e realismo.

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O realismo existe sempre que a arte pro- espiritualista dos clássicos; as atitudes das per-
cura expressar o mundo de maneira objetiva, sonagens sempre têm uma explicação lógica
ou seja, tentando eliminar o subjetivismo e o ou científica; dificilmente nos romances desse
sentimentalismo do artista. estilo vão ocorrer acasos e “milagres”.
Neste sentido, é realista qualquer tentati- • A arte documental. Enquanto os ro-
va de reproduzir objetivamente os aspectos ob- mânticos se permitem à utilização de truques
servados na realidade. Aqui, realismo opõe-se e exageros narrativos, os realistas são docu-
à fantasia, imaginação. mentais, buscam a veracidade das informa-
Como estilo de época, Realismo designa ções. O enfoque das obras é sobre a sociedade
o período correspondente à segunda metade contemporânea, o autor aborda os fatos e as
do século 19, em que a arte tende a eliminar circunstâncias que vivencia. Os fatos e fenô-
de sua expressão o sonho, a imaginação, a fan- menos abordados são aqueles que podem ser
tasia, a subjetividade. Na história da Literatura, explicados afastando-se a fuga metafísica.
esse período geralmente é conhecido como Re-
alismo/Naturalismo.

Naturalismo
Principais características do Realismo
A proximidade da literatura com o método
• Objetividade. O narrador deve ser im- de investigação médica do fisiologista francês
parcial e impessoal diante dos fatos a serem Claude Bernard leva o escritor francês Émile Zola
incorporados em sua obra. O autor é como um a designar o romance naturalista também como
fotógrafo, que enquadra os fatos como eles romance experimental. A pretensão científica
são, sem a interferência de suas emoções.
torna-se cada vez mais obstinada. O romance
• Retrato fiel da natureza, com descri-
ções objetivas, tentando captar o real como
experimental é uma consequência da evolução
ele é. A obra de arte deve expressar a reali- científica do século 19. Ele continua e completa a
dade que é materialmente verdadeira, e não a fisiologia; ele se apoia sobre a química e a física;
realidade idealizada do Classicismo, ou a rea- ele substitui o estudo do homem abstrato e me-
lidade imaginada do Romantismo. tafísico pelo estudo do homem natural, subme-
• Linguagem culta, direta e clara. Pre- tido às leis físico-químicas e determinado pelas
ferência pela narração em vez da descrição. O influências do meio. O romance é, em uma pala-
objeto da obra é submetido à mais criteriosa e vra, a literatura de nossa idade científica.
minuciosa análise para que se alcance a ve- Essa tendência acentuou e prolongou as
racidade na arte. A observação é detalhista e principais características do Realismo, na prosa
ocorre em dois planos: o externo, que valoriza
de ficção, muitas vezes confundindo-se com ele.
a descrição das relações sociais; e o contato
da personagem com o meio e o interno, cuja
Além disso, deram-lhe impulso as ideias literárias
análise recai sobre o comportamento íntimo do historiador francês Hippolyte Taine, sobre Lite-
e traços e reações psicológicas das persona- ratura e meio, e os trabalhos de médicos e fisiolo-
gens. Isso também reflete no tempo da narra- gistas, como Bernard, que levou a cabo o método
tiva que é lenta, acompanhando o tempo psi- experimental em Medicina e hereditariedade.
cológico.
• Aspectos em oposição ao Romantis- “Meu desejo é pintar a vida, e para este fim devo
pedir à Ciência que me explique o que é a vida, para que
mo. Mulher não idealizada, mostrada com de- eu a fique conhecendo.”
feitos e qualidades; amor e outros sentimentos
subordinados aos interesses sociais; casamen- Émile Zola.
to como instituição falida, contrato de interesses
e convivências; herói problemático, cheio de “O romance deve ser um estudo objetivo das pai-
xões. Devemos observar escrupulosamente as sensa-
fraquezas, manias e incertezas; personagens ções e os atos das pessoas. Limito-me a fazer em dois
trabalhadas psicologicamente; universalismo corpos vivos aquilo que os cirurgiões fazem em cadá-
materialista, em contraposição ao subjetivismo veres.”
e individualismo românticos, e ao universalismo Idem.

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o leitor as suas próprias reflexões. Por outro
lado, o texto machadiano destaca-se pela per-
feição formal, a linguagem trabalhada e rica.

Émile Zola, estabeleceu a doutrina Natu- Principal representante do


ralista, concebendo, sob a técnica realista, um Realismo brasileiro
romance onde as personagens e os dramas
sociais fossem estudados com o auxílio das
novas teorias sociais e médicas; é o romance Machado de Assis
experimental. Enquanto os realistas apenas se (1839-1909)
limitavam a conservar uma atitude de objetivis-
mo científico diante do homem e da sociedade, Seu nome com-
os naturalistas procuram explicar nossos senti- pleto era Joaquim Ma-
mentos, paixões, vícios e virtudes como sendo ria Machado de Assis.
atávicos. Seus romances apresentam figuras Era de origem humilde.
mórbidas, das camadas sociais mais baixas, e
Aos 16 anos foi apren-
descrição de vícios e aspectos mais chocantes
diz de tipógrafo; aos 18,
da vida.
As características do Naturalismo são revisor de provas; aos
quase que as mesmas do Realismo. Há o exa- 21, repórter; e aos 28, funcionário público. Era
gero do lado pessimista, materialista e deter- mestiço, desprivilegiado fisicamente pela gra-
minista dos fatos da vida humana. Explora os ve doença da epilepsia (doença nervosa), gago
aspectos obscenos dos acontecimentos, das e tímido. Com muito esforço, conseguiu ser o
taras e das anormalidades sociais e humanas. primeiro presidente da Academia Brasileira
Há o exagero da força das influências sociais e de Letras (1897).
naturais sobre o procedimento dos homens. As
anormalidades atávicas do ser humano sem-
pre servem de tema às obras naturalistas.
Para concluir, podemos dizer que os rea-
listas e os naturalistas preferiram temas regio-
nais e citadinos, fixação de aspectos sexuais e
análise psicológica, substituindo desta maneira Atualmente, uma
o romance indianista histórico e moralizante. estátua reproduz a fi-
gura ilustre de Macha-
do de Assis na sede
da Academia Brasilei-
Realismo / Naturalismo no Brasil ra de Letras.
O contexto histórico da transição entre A Academia Bra-
o Romantismo e o Realismo representa uma sileira de Letras é uma
série de mudanças históricas, políticas e so- instituição fundada no
ciais do país que se refletem na literatura. O Rio de Janeiro em 20
de julho de 1897 por es-
movimento realista brasileiro teve início em
critores como Machado
1881 com a publicação de Memórias póstu- de Assis, Lúcio de Mendonça, Inglês de Souza,
mas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Olavo Bilac, Afonso Celso, Graça Aranha, Me-
Abandonando as convenções românti- deiros e Albuquerque, Joaquim Nabuco, Teixei-
cas da primeira fase, Machado de Assis, a par- ra de Melo, Visconde de Taunay e Rui Barbosa.
tir de Memórias póstumas de Brás Cubas, Composta por quarenta membros efetivos e
passa a se concentrar nas personagens, perpétuos e por vinte sócios estrangeiros, tem,
buscando inspiração nas ações cotidianas por fim, o cultivo do português brasileiro e da
do homem comum. Parte então para a aná- literatura brasileira.
lise psicológica, observando a consciência da Wikipédia, a enciclopédia livre.
personagem, transferindo muitas vezes para
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Obra de Machado de Assis divide-se Fragmento, do livro Memórias póstu-
em duas fases mas de Brás Cubas:
Capítulo XXXI – A borboleta preta
1ª fase romântica. Ressurreição (1872);
A mão e a luva (1874); Helena (1876); Iaiá Gar- (...) A borboleta, depois de esvoaçar
cia (1878). muito em torno de mim, pousou-me na testa.
2ª fase realista. Memórias póstumas Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque
de Brás Cubas (1881); Quincas Borba (1891); eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar
Dom Casmurro (1889); Esaú e Jacó (1904); em cima de um velho retrato de meu pai. Era
negra como a noite. O gesto brando com que,
Memorial de Aires (1908).
uma vez posta, começou a mover as asas,
Tendo sido o maior contista brasileiro do
tinha certo ar escarninho, que me aborreceu
século 19 e um dos melhores da literatura uni- muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tor-
versal, Machado de Assis deixou-nos verda- nando lá, minutos depois, e achando-a ainda
deiras obras-primas, tais como: Uns braços, no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos,
Missa do galo, O alienista, Cantiga de es- lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
ponsais, A Cartomante, Noite de almirante, Não caiu morta; ainda torcia o corpo e
Conto de escola e muitas outras. Destacou- movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; to-
se também na poesia: Crisálidas (1864); Fa- mei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril
lenas (1870); Americanas (1875); Poesias da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de
completas (1902). alguns segundos. Fiquei um pouco aborreci-
do, incomodado.
̶ Também por que diabo não era ela
Obras-primas do Realismo brasileiro azul? disse comigo.
E esta reflexão, ̶ uma das mais profun-
“Memórias póstumas de Brás Cubas” das que se tem feito, desde a invenção das
borboletas, ̶ me consolou do malefício, e me
“Ao primeiro verme que roeu as frias car- reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a
nes de meu cadáver, dedico estas saudosas contemplar o cadáver, com alguma simpatia,
memórias póstumas.” confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almo-
çada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora,
Só pela estranha dedicatória, percebe- modesta e negra, espairecendo as suas borbo-
mos que este está longe de ser um livro co- letices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que
é sempre azul, para todas as asas. Passa pela
mum. Este fabuloso romance é, sem dúvida,
minha janela, entra e dá comigo. (...)
uma das obras-primas da literatura brasilei-
Pois um golpe de toalha rematou a
ra e coloca Machado de Assis no patamar aventura. Não lhe valeu a imensidade azul,
dos gigantes. nem a alegria das flores, nem a pompa das
Escrita na primeira pessoa - o suposto folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois
autor é o falecido Brás Cubas (defunto au- palmos de linho cru. Vejam como é bom ser
tor) - esta singular narrativa nada perdeu de sua superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo,
força e originalidade, mesmo após tanto tempo se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria
de sua publicação. Por estar morto, Brás Cubas mais segura a vida; não era impossível que eu
não está mais atado às convenções e hipocri- a atravessasse com um alfinete, para recreio
sias da sociedade e, assim, pode falar sobre dos olhos. (...)
si mesmo e sobre os outros com a isenção de
quem nada mais tem a perder. Comentário sobre o fragmento “A
Aqui Machado de Assis está no seu borboleta preta”, de Machado de Assis
auge, ao aliar a ácida ironia a um humor im-
placável. O livro é repleto de tiradas ines- Machado de Assis possui algumas ca-
quecíveis, tais como a famosa: “Marcela racterísticas peculiares, ou seja, suas obras
amou-me durante onze meses e quinze estão enquadradas no Realismo chamado de
contos-de-réis.” psicológico, quando a prosa de ficção foi mar-
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cada pelo elemento psicológico no registro
psicossocial típico do final do Império. defunto). Como Cubas quer ser original, diz
que vai começar sua história narrando sua
Quando surge a borboleta preta, simbo-
morte e não o nascimento. Moisés, o grande
lizando superstição para muitos, como foi o
Moisés, começou pelo começo, diz ele; para
caso de Dona Eusébia e a filha, Brás Cubas ser original, então, vai começar pelo fim.
ignora o fato, fazendo ironia com o caso. No
dia seguinte, ele pode vivenciar o que, real-
mente, Dona Eusébia sentiu e foi de certa for-
ma, supersticioso, pois se incomodou com a
presença da borboleta, matando-a. Como já
sabemos, a “ironia” é um recurso que o es-
critor utiliza para fazer com que o leitor des-
confie de declarações, pensamentos e con-
clusões do narrador.
No capitulo “A borboleta preta”, o autor
desloca o foco de interesse do romance. Não
trata diretamente da vida social ou da descri-
ção das paisagens, mas da forma como seus
personagens veem as circunstâncias em que Dom Casmurro
vivem. O escritor concentra sua narrativa na
visão de mundo de seus personagens, ex- O personagem principal Bento Santia-
pondo suas contradições. Fica claro o medo go, o Bentinho, recebe o apelido que dá título
à superstição. Depois de ser espantada duas à obra Dom Casmurro (1899), considerada
vezes, a borboleta “foi parar em cima de um uma das melhores de Machado de Assis,
velho retrato de meu pai. Era negra como a sobretudo pela crítica feita à sociedade bra-
noite.” Se já não bastasse, batia as asas de- sileira. A temática do ciúme é explorada em
vagar com ar de zombaria. A solução foi ma- relação ao comportamento feminino da perso-
tá-la com uma toalha. No segundo parágra- nagem Capitu.
fo, acentua-se o medo quando o narrador diz Fragmento da obra Dom Casmurro:
“-Também por que diabo, não era ela azul?”
Percebe-se que a cor preta influência Capítulo CXXIII
a vida da personagem (pelo fato de simboli-
zar luto, morte, escuridão etc.), o que leva o Olhos de ressaca
narrador a matar o inseto “lancei mão de uma
Enfim, chegou a hora da encomendação
toalha, bati-lhe e ela caiu”.
e da partida. Sancha quis despedir-se do ma-
rido, e o desespero daquele lance consternou
a todos. Muitos homens choravam também,
as mulheres todas. Só Capitu, amparando a
viúva, parecia vencer-se a si mesma. Conso-
lava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão
Memórias póstumas, mais um bom era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns
filme de época brasileiro instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixo-
nadamente fixa, que não admira lhe saltassem
O defunto Brás Cubas, um de seus mais algumas lágrimas poucas e caladas...
famosos personagens, o solteirão do romance As minhas cessaram logo. Fiquei a ver
“Memórias póstumas de Brás Cubas” resolve as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando
contar sua vida e seus amores depois da sua a furto para a gente que estava na sala. Redo-
morte. Ele está entediado na eternidade, não brou de carícias para a amiga, e quis levá-la;
tem o que fazer, é um defunto que vira autor mas o cadáver parece que a retinha também.
(é, portanto, um defunto autor e não um autor Momento houve em que os olhos de Capitu

Literatura 2 - Aula 3 35 Instituto Universal Brasileiro


nas constata a semelhança entre o antigo
fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pran-
colega de seminário. Ezequiel volta a via-
to nem palavras desta, mas grandes e abertos,
como a vaga do mar lá fora, como se quisesse
jar e morre no estrangeiro. Bentinho, cada
tragar também o nadador da manhã. vez mais fechado em suas dúvidas, passa
a ser chamado de casmurro pelos amigos e
vizinhos e põe-se a escrever de sua vida (o
Enredo de “Dom Casmurro” romance). Para o leitor, fica a eterna dúvida
se Bentinho fora mesmo traído ou se tudo
Dom Casmurro foi publicado em 1899 não passou de imaginação sua.
e é um dos romances mais conhecidos de Elaborado por Marisa Lajolo, em “Literatura
Machado. Narra em primeira pessoa a es- comentada”, da Abril Editora.
tória de Bentinho que, por várias circuns-
tâncias, vai se fechando em si mesmo e
passa a ser conhecido como Dom Casmur-
ro. Órfão de pai, criado com desvelo pela
mãe (D. Glória), protegido do mundo pelo
círculo doméstico e familiar (tia Justina, tio
Por que ler Machado?
Cosme, José Dias), Bentinho é destinado
à vida sacerdotal, em cumprimento a uma Machado de Assis foi um escritor do tem-
antiga promessa de sua mãe. po de D. Pedro II. Por que, então, ler as obras
A vida do seminário, no entanto, não de alguém que morreu há mais de cem anos?
o atrai, só o namoro com Capitu, filha dos Na verdade, poderíamos dar muitas razões
vizinhos. Apesar de comprometido pela acadêmicas e culturais: ele é o maior símbo-
promessa, também D. Glória sofre com a lo do Realismo brasileiro, fundador da Acade-
ideia de separar-se do filho único, interno mia Brasileira de Letras, era genial, veio das
no seminário. Por expediente de José Dias, classes baixas etc. Mas o fato é que a melhor
razão as pessoas não dizem: ler Machado é
o agregado da família, Bentinho abandona
muito engraçado. Suas histórias são irônicas,
o seminário e, em seu lugar, ordena-se um reveladoras de coisas que todo mundo sabe,
escravo. mas não comenta... Elas falam de valores mo-
Correm os anos e com eles o amor de rais que todos criticam, mas têm.
Bentinho e Capitu. Entre o namoro e o ca- Machado desmascarou com sutileza a
samento, Bentinho se forma em Direito e falsidade de homens e mulheres de sua época
estreita a sua amizade com um ex-colega de, sua cidade, de nosso país. Só que as situa-
de seminário, Escobar, que acaba se ca- ções e temas de que trata em sua obra são tão
sando com Sancha, amiga de Capitu. universais (amor, adultério, egoísmo, cinismo,
Do casamento de Bentinho e Capitu apadrinhamentos, pobres e ricos, casamentos
nasce Ezequiel. Escobar morre e, duran- por interesse etc.) que nosso escritor pode ser
lido em qualquer outro país. Ou seja, temos
te seu enterro, Bentinho julga estranha a
um escritor brasileiro (na época em que havia
forma como Capitu contempla o cadáver. poucos) tão importante quanto Eça de Queirós
A partir daí, os ciúmes vão aumentando e (marco da história da literatura do Realismo
precipita-se a crise. À medida que cresce, português) e Gustave Flaubert (escritor do Re-
Ezequiel se torna cada vez mais parecido alismo na França).
com Escobar. Bentinho, muito ciumento,
chega a planejar o assassinato da esposa
e do filho, seguido pelo seu suicídio, mas
não tem coragem. A tragédia dilui-se na se- Machado Poeta
paração do casal. Vejamos agora um poema do escritor
Capitu viaja com o filho para a Europa, Machado de Assis. Com a perda de sua espo-
onde morre anos depois. Ezequiel, já moço, sa, Carolina Augusta Xavier de Novais, deu-
volta ao Brasil para visitar o pai, que ape- lhe um soneto sentimental.
Literatura 2 - Aula 3 36 Instituto Universal Brasileiro
o negro, o mestiço, a luta pela vida num
A Carolina ambiente tipicamente brasileiro. Escreveu
obras para o teatro e contos, mas desta-
ca-se mesmo no romance. Outras obras:
“O mulato” (1881); “Memórias de um
condenado” ou “A condessa Vésper”
(1882); “Mistérios da Tijuca” ou “Girân-
dola de amores” (1882) “Casa de pPen-
são” (1884); “Filomena Borges” (1884);
“A mortalha de Alzira” (1894); “O coru-
ja” (1890); “O esqueleto” (1890); “Livro
de uma sogra” (1895).
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Obras naturalistas de Aluísio de Azevedo
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
O cortiço
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida, O livro foi o mar-
Fez a nossa existência apetecida co inicial da corrente
E num recanto pôs um mundo inteiro. literária do naturalismo
no Brasil, abordando
Trago-te flores, - restos arrancados polêmicas temáticas
Da terra que nos viu passar unidos como: a zoomorfiza-
E ora mortos nos deixa e separados.
ção, a qual dá qualida-
Que eu, se tenho nos olhos malferidos de de animais a seres
Pensamentos de vida formulados, humanos; o grotesco,
São pensamentos idos e vividos. que é caracterizado
pela escrita exagerada e destruição da reali-
Machado de Assis dade; o determinismo, que diz que o meio,
o território e o momento influenciam nas deci-
sões das pessoas, entre outras. É constituído
Principal representante do de 23 capítulos ao todo e foi o primeiro roman-
Naturalismo no Brasil ce que carregou a ideologia sobre o homos-
sexualismo.
Aluísio Gonçalves
de Azevedo Resumo do livro “O cortiço”
(1857-1913)
João Romão, dono do cortiço, pensa ape-
Começou sua car- nas em enriquecer na vida. Para isso, se aproxi-
reira literária com o ro- ma da negra Bertoleza, dando-lhe uma carta de
mance: Uma lágrima de alforria falsa, em troca, ela trabalhava de graça e
mulher (1880). Aluísio de realizava seus desejos sexuais. Seu vizinho Mi-
Azevedo explorou o mais randa pertencia à alta sociedade, deixando João
cru realismo, descreven- Romão com inveja de seus status.
do com elegância e exatidão os costu- Para se tornar um homem poderoso,
João aproxima-se aos poucos da família de
mes do povo. Sua obra mais expressiva
Miranda e num determinado dia pede a filha
é O cortiço, onde ele resume os vários
do vizinho, Zulmira em casamento. Porém an-
aspectos da sociedade daquela época: o tes de se casar, João Romão precisa se livrar
português ambicioso, o fidalgo burguês,
Literatura 2 - Aula 3 37 Instituto Universal Brasileiro
de Bertoleza. Como este já tinha enriquecido choros abafados de crianças que ainda não an-
bastante à custa da escrava, entrega-a para a dam. No confuso rumor que se formava, desta-
polícia, que chega ao cortiço enquanto Bertole- cavam-se risos, sons de vozes que altercavam,
za estava preparando um peixe para a alimen- sem se saber onde, grasnar de marrecos, can-
tação. Assim ela descobre que sua carta era tar de galos, cacarejar de galinhas. De alguns
falsificada e sabendo que não conseguiria fugir, quartos saiam mulheres que vinham pendurar
enfia uma faca em sua barriga, enquanto João cá fora, na parede, a gaiola do papagaio, e os
Romão recebia os nobres que o dariam o título louros, à semelhança dos donos, cumprimen-
de sócio dos abolicionistas. tavam-se ruidosamente, espanejando-se à luz
O livro ainda conta a história da Rita nova do dia.
Baiana, uma mulata que se apaixona por Je-
rônimo, casado com Piedade, mas que larga O mulato
a mulher para viver com Rita. O envolvimento
homossexual ocorre com as personagens de
Pombinha com sua madrinha Léonie, que no
Considerado o pri-
final do romance tornam-se duas prostitutas. meiro romance naturalista
da literatura brasileira, a
obra “O mulato” foi publi-
cada no auge da campa-
“O cortiço” é tão importante que seu nha contra a escravidão,
enredo virou filme, o que confirma a singula- criticando-a severamente,
ridade do romance e a contribuição de Aluísio assim como a igreja (Pa-
para a literatura nacional. dre Diogo aparece como
vilão). Descreve a sociedade maranhense, en-
Fragmento do romance O cortiço: fatizando seus costumes e particularidades e
faz uma crítica à sociedade
Eram cinco horas da manhã e o cortiço
acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua
infinidade de portas e janelas alinhadas. Resumo da obra “O mulato”
Um acordar alegre e farto de quem dor-
miu de uma assentada sete horas de chumbo. O autor inicia o romance descrevendo a
Como que se sentiam ainda na indolência de cidade de São Luís do Maranhão, como en-
neblina as derradeiras notas da última guitar- torpecida pelo calor, atmosfera abafada, sem
ra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz viva alma em muitos lugares, com exceção da
loura e tenra da aurora, que nem um suspiro região comercial, a Praia Grande e a Rua da
de saudade perdido em terra alheia. Estrela. Em seguida fala sobre o viúvo, per-
A roupa lavada, que ficara de véspera sonagem Manoel Pescada, um português co-
nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe merciante próspero, que mora com a filha Ana
um farto acre de sabão ordinário. As pedras Rosa e a sogra D. Maria Bárbara. Ana Rosa
do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem é filha única e está apta para casar, mas ne-
e em alguns pontos azuladas pelo anil, mos- nhum pretendente lhe causa interesse. Ela
travam uma palidez grisalha e triste, feita de tem em mente seguir o conselho de sua finada
acumulações de espumas secas. mãe e casar-se por amor.
Entretanto, das portas surgiam cabeças Havia um empregado no armazém de
congestionadas de sono; ouviam-se amplos Manoel Pescada, um rapaz, português, de
bocejos, fortes como o marulhar das ondas; nome Luís Dias, com quem Manoel Pescada
pigarreava-se grosso por toda a parte; come- quer fazer sua filha se casar. Ana Rosa sonha
çavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do com um casamento romântico. Idealiza um he-
café aquecia, suplantando todos os outros; rói, não alguém como Dias. Em dado momen-
trocavam-se de janela para janela as primeiras to, chega a São Luis, um sobrinho de Manoel
palavras, os bons-dias; reatavam-se conver- Pescada, o jovem e rico advogado Raimun-
sas interrompidas à noite; a pequenada cá fora do. Tem estatura alta, elegante, tez morena e
traquinava já, e lá dentro das casas vinham amulatada, mas fina, que pretende conhecer

Literatura 2 - Aula 3 38 Instituto Universal Brasileiro


acrescenta um novo elemento ao Realismo:
um pouco de suas raízes, vender suas terras a técnica impressionista. É difícil definir com
e se mudar para o Rio de Janeiro. Hospeda-se exatidão o impressionismo na literatura. O
na casa de Manoel Pescada. termo surgiu nas artes plásticas e refere-se à
Ana Rosa apaixona-se pelo primo, que
forma de pintar em que o artista tenta regis-
corresponde a esta paixão e o pressiona a
pedi-la em casamento. Quando Raimundo
trar a impressão que a realidade provoca em
decide fazê-lo encontra oposição na figura de sua sensibilidade.
Manoel Pescada sem desconfiar que seja por Fragmento da obra “O ateneu”:
conta de seu passado. Raimundo desconhece
sua origem: era filho bastardo de José Pedro “Vais encontrar o mundo, disse-me meu
da Silva, irmão de Pescada, com uma escra- pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”
va: Domingas. Bastante experimentei depois a verdade deste
Raimundo exige que Manoel Pescada aviso, que me despia, num gesto, das ilusões
lhe conte sobre o seu passado. Sabe que não de criança educada exoticamente na estufa de
é aceito devido às suas origens negras. Ana carinho que é o regime do amor doméstico, di-
Rosa não se importa com suas origens, quer ferente do que se encontra fora, tão diferente,
Raimundo como marido, entrega-se a ele, en- que parece o poema dos cuidados maternos
gravida. Planejam uma fuga, porém o cônego um artifício sentimental, com a vantagem única
Diogo consegue ardilosamente impedir. de fazer mais sensível a criatura à impressão
Ana Rosa assume a gravidez perante rude do primeiro ensinamento, têmpera brus-
a família, exigindo a aceitação do casamen- ca da vitalidade na influência de um novo cli-
to com Raimundo. O Padre intervém na con- ma rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com
fusão e pede calma. O padre manipula Luís saudade hipócrita, dos felizes tempos; como
Dias, dizendo que Raimundo é o único obs- se a mesma incerteza de hoje, sob outro as-
táculo para seu casamento com Ana Rosa; pecto, não nos houvesse perseguido outrora e
convence-o de que deve eliminar Raimundo. não viesse de longe a enfiada das decepções
Raimundo é morto por Luís Dias. Ana Rosa ao que nos ultrajam.
saber da morte perde a criança que esperava Eufemismo, os felizes tempos, eufemis-
de Raimundo. mo apenas, igual aos outros que nos alimen-
Os anos passam, Ana Rosa casa-se tam, a saudade dos dias que correram como
com Dias e têm três filhos, parecem levar uma melhores. Bem considerando, a atualidade é a
vida feliz e próspera. Conclusão: o mal triunfa, mesma em todas as datas. Feita a compensa-
estando associado à corrupção da igreja e à ção dos desejos que variam, das aspirações
burguesia. que se transformam, alentadas perpetuamente
do mesmo ardor, sobre a mesma base fantás-
tica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a
coloração cambiante das horas, um pouco de
O estilo impressionista ouro mais pela manhã, um pouco mais de púr-
de Raul Pompéia pura ao crepúsculo - a paisagem é a mesma
de cada lado beirando a estrada da vida.
Eu tinha onze anos.
O ateneu Freqüentara como externo, durante al-
guns meses, uma escola familiar do Caminho
A obra mais importante de Raul Pom- Novo, onde algumas senhoras inglesas, sob a
péia é O Ateneu, publicada em 1888, que direção do pai, distribuíam educação à infân-
não se enquadra numa classificação muito cia como melhor lhes parecia. Entrava às nove
exata. É um romance autobiográfico que foge horas, timidamente, ignorando as lições com
aos moldes do Realismo/Naturalismo devido a maior regularidade, e bocejava até às duas,
torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos
à emotividade do narrador. Mas, determina-
bancos que o colégio comprara, de pinho e
dos momentos do romance tendem para o
usados, lustrosos do contato da malandragem
Naturalismo. Portanto, fugindo à exatidão e de não sei quantas gerações de pequenos. Ao
à frieza da narração objetiva e aos exageros meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta
do Naturalismo, o estilo de Raul Pompéia
Literatura 2 - Aula 3 39 Instituto Universal Brasileiro
recordação gulosa é o que mais pronunciada- Um dia, meu pai tomou-me pela mão,
mente me ficou dos meses de externato; com minha mãe beijou-me a testa, molhando-me
a lembrança de alguns companheiros - um que de lágrimas os cabelos e eu parti.
gostava de fazer rir à aula, espécie interessante
de mono louro, arrepiado, vivendo a morder, nas
costas da mão esquerda, uma protuberância ca-
losa que tinha; outro adamado, elegante, sempre
retirado, que vinha à escola de branco, engoma-
dinho e radioso, fechada a blusa em diagonal do
ombro à cinta por botões de madrepérola. Mais Realismo/Naturalismo
ainda: a primeira vez que ouvi certa injúria crespa,
um palavrão cercado de terror no estabelecimen- O Realismo foi um movimento artístico e
to, que os partistas denunciavam às mestras por cultural que se desenvolveu na segunda metade
duas iniciais como em monograma. do século 19. A característica principal deste mo-
Lecionou-me depois um professor em vimento foi a abordagem de temas sociais e um
domicílio. tratamento objetivo da realidade do ser humano.
Apesar deste ensaio da vida escolar a O Realismo como estilo literário surge na
que me sujeitou a família, antes da verdadeira França na segunda metade do século 19 com a
provação, eu estava perfeitamente virgem para publicação de Madame Bovary (1857), por Gus-
as sensações novas da nova fase. O internato! tave Flaubert. Na história da Literatura, esse perío-
Destacada do conchego placentário da dieta ca- do geralmente é conhecido como Realismo/Natu-
seira, vinha próximo o momento de se definir a ralismo. O movimento realista brasileiro iniciou-se
minha individualidade. Amarguei por antecipa- em 1881 com a publicação de Memórias póstu-
ção o adeus às primeiras alegrias; olhei triste os mas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
meus brinquedos, antigos já! os meus queridos
pelotões de chumbo! espécie de museu militar Características
de todas as fardas, de todas as bandeiras, esco- O Realismo possuía um forte caráter ideo-
lhida amostra da força dos estados, em propor- lógico, marcado por uma linguagem política e de
ções de microscópio, que eu fazia formar a com- denúncia dos problemas sociais como, por exem-
bate como uma ameaça tenebrosa ao equilíbrio plo, miséria, pobreza, exploração, corrupção
do mundo; que eu fazia guerrear em desordena- entre outros. Com uma linguagem clara, os artis-
do aperto - massa tempestuosa das antipatias tas e escritores realistas iam diretamente ao foco
geográficas, encontro definitivo e ebulição dos da questão, reagindo, desta forma, ao subjetivis-
seculares ódios de fronteira e de raça, que eu mo do romantismo. Uma das correntes do rea-
pacificava por fim, com uma facilidade de Provi- lismo foi o Naturalismo, onde a objetividade está
dência Divina, intervindo sabiamente, resolven- presente, porém sem o conteúdo ideológico.
do as pendências pela concórdia promíscua das
caixas de pau. Força era deixar à ferrugem do Principais autores e obras
abandono o elegante vapor da linha circular do
Machado de Assis. Foi o primeiro presi-
lago, no jardim, onde talvez não mais tornasse
dente da Academia Brasileira de Letras (1897).
a perturbar com a palpitação das rodas a sono-
Os principais romances de Machado de Assis são:
lência morosa dos peixinhos rubros, dourados,
Helena (1876); laia Garcia (1878); Memórias
argentados, pensativos à sombra dos tinhorões,
póstumas de Brás Cubas (1881); Quincas Bor-
na transparência adamantina da água...
ba (1891); Dom Casmurro (1899); Esaú e Jacó
Mas um movimento animou-me, primei-
(1904); Memorial de Aires (1908).
ro estímulo sério da vaidade: distanciava-me
da comunhão da família, como um homem! ia Aluísio de Azevedo. Escritor naturalista,
por minha conta empenhar a luta dos mere- foi autor de diversos livros, entre eles os mais im-
cimentos; e a confiança nas próprias forças portantes: O mulato (1881) (marco inicial do Na-
sobrava. Quando me disseram que estava a turalismo) que provocou escândalo na época de
escolha feita da casa de educação que me devia seu lançamento, Casa de pensão (1884), que o
receber, a notícia veio achar-me em armas para consagrou e O Cortiço (1890), conhecido como
a conquista audaciosa do desconhecido. sua obra mais importante.

Literatura 2 - Aula 3 40 Instituto Universal Brasileiro


a) ( ) 1 1 1 2 1 2
b) ( ) 2 1 1 1 1 2
c) ( ) 2 1 2 2 1 1
d) ( ) 2 1 1 2 1 2

1. Assinale a única alternativa incorreta. 3. (ENEM. Adaptada) No trecho abaixo,


o narrador, ao descrever a personagem, criti-
a) ( ) O Realismo é a apresentação do ca sutilmente outro estilo de época: o Roman-
mundo de maneira objetiva. A arte realista procura tismo.
apresentar os dados observados na realidade.
b) ( ) O movimento Realismo sempre exis- Naquele tempo contava apenas uns
tiu e a expressão do mundo de forma objetiva, ra- quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais
cional e lógica pode ocorrer em qualquer época. atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza,
c) ( ) O estilo literário chamado Realismo a mais voluntariosa. Não digo que já lhe cou-
surgiu em oposição ao Ultrarromantismo. Em ter- besse a primazia da beleza, entre as mocinhas
mos mundiais, o Realismo teve seu principal mar- do tempo, porque isto não é romance, em que
co em 1857, com a publicação do romance “Mada- o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos
me Bovary”, de Gustave Flaubert. às sardas e espinhas; mas também não digo
d) ( ) No Brasil, o Realismo inicia-se em que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou
1881, com a publicação de Memórias póstumas espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos
de Brás Cubas, de Machado de Assis. da natureza, cheia daquele feitiço, precário e
eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo,
2. Compare a linguagem dos textos I e II. para os fins secretos da criação.
Com base nas observações, relacione as caracte- ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de
rísticas apresentadas nos textos aos respectivos Brás Cubas. Rio de Janeiro: Jackson,1957.
movimentos literários, colocando: (1) Romantis-
mo, (2) Realismo/Naturalismo. A seguir escolha A frase do texto em que se percebe a crítica
a alternativa correta. do narrador ao Romantismo está transcrita na al-
ternativa:
Texto I
a) ( ) “...o autor sobredoura a realidade e
Era linda a situação da fazenda de Nossa fecha os olhos às sardas e espinhas...”
Senhora do Boqueirão. b) ( ) “...era talvez a mais atrevida criatura
As águas majestosas do Paraíba regavam da nossa raça...”
aquelas terras fertilíssimas, cobertas de abundantes
c) ( ) “Naquele tempo contava apenas uns
lavouras e extensas matas virgens.
A casa de habitação (...), vasto e custoso
quinze ou dezesseis anos...”
edifício, estava assentado no cimo de formosa co- d) ( ) “...o indivíduo passa a outro indivíduo,
lina, donde se descortinava um soberbo horizonte. para os fins secretos da criação.”

Texto II 4. Assinale a única afirmativa incorreta em


relação à obra-prima “O Cortiço de Aluísio de
A população da cidade triplicava com a ex- Azevedo.
traordinária afluência de retirantes. (...) Eram pe-
daços da multidão, varrida dos lares pelo flagelo, a) ( ) Demonstra a influência do meio so-
encalhando no lento percurso da tétrica viagem cial no comportamento das personagens.
através do sertão tostado, como terra de maldição b) ( ) Retrata a vida dos migrantes que se
ferida pela ira de Deus. abrigam em acomodações coletivas e suas impli-
cações deterministas.
( ) Apresentação da realidade. c) ( ) Em linguagem objetiva, descreve a
( ) Sentimentalismo e descrição subjetiva. dura realidade social e consagra a prosa natu-
( ) Idealização e adjetivação excessiva. ralista.
( ) Exposição de ambientes miseráveis. d) ( ) Apresenta características básicas da
( ) Imaginação de ambientes agradáveis. prosa romântica: ambientação e tipos humanos
( ) Linguagem objetiva e degradação humana. idealizados.

Literatura 2 - Aula 3 41 Instituto Universal Brasileiro


Isto é o romance realista. O verbo “sobredourar”
pode apresentar as seguintes significações: “en-
volver com capa dourada; iluminar determinadas
partes; tornar feliz, agradável, suave; colorir com
artifícios para ficar com uma bela aparência”. Por-
1. b) ( x ) O Realismo sempre existiu tanto, isto (o realista), não é romance em que o
e a expressão do mundo de forma objetiva, autor fecha os olhos para a realidade ou a apre-
racional e lógica pode ocorrer em qualquer senta com uma capa dourada (o romântico é que
época. é assim). O Realismo é contra o tradicionalismo
Comentário. A única afirmativa incorreta é romântico. Trata-se de uma arte que pretende ino-
a b. Mesmo se nos conceitos de realismo e Realis- var, que tem compromisso com os problemas de
mo a característica da objetividade esteja presen- seu tempo. A linguagem reflete esta tendência em
te, há diferenças sutis entre estas duas palavras. textos com construções sintáticas em ordem dire-
O Realismo, escrito com letra maiúscula, identifica ta. Nesse caso, o fragmento de texto foi retirado
o estilo literário de época que surgiu na segunda da obra “Memórias póstumas de Brás Cubas”,
metade do século 19; já o conceito realismo é o de Machado de Assis, romance realista em que
que se aplica para expressar o mundo de manei- predomina a crítica feita por meio de recursos
ra objetiva. As demais alternativas estão corretas e como o humor e a ironia. Observe que o comentá-
sintetizam as informações sobre o Realismo como rio sobre as espinhas é feito como uma hipótese:
estilo literário que surge em oposição ao Roman- “não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sar-
tismo e que apresenta os dados de realidade com da ou espinha, não”. O comentário é feito apenas
linguagem objetiva. No âmbito mundial o Realismo para deixar claro como são tratados os dados de
teve seu principal marco em 1857, com a publica- realidade no romance realista.
ção do romance “Madame Bovary”, de Gustave
Flaubert. No âmbito nacional, o Realismo inicia-se 4. d) ( x ) Apresenta características bá-
em 1881, com a publicação de “Memórias póstu- sicas da prosa romântica: ambientação e tipos
mas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. humanos idealizados.
Comentário. A única alternativa incorre-
2. d) ( x ) 2 1 1 2 1 2 ta em relação à obra de Aluísio de Azevedo, “O
Comentário. A sequência numérica que cor- cortiço”, é a d. Isto porque o romance não apre-
responde corretamente às características românti- senta características básicas da prosa romântica
cas e realistas dos textos 1 e 2 é a da alternativa d. e sim da prosa naturalista, desenhando um painel
Lembre-se de que o texto 1 pertence ao Romantis- da vida urbana e das relações sociais e econô-
mo em que a linguagem vem carregada de subjeti- micas da sociedade brasileira no final do século
vismo e sentimentalismo, apresentando ambientes 19. As demais alternativas estão corretas e fazem
e personagens de forma idealizada; e o texto 2, ao um resumo dos pontos principais do conteúdo da
Realismo em que a realidade é apresentada de for- obra que: descreve aspectos da dura realidade
ma clara e objetiva, sem deixar de mostrar a degra- social de segmentos da população; retrata a vida
dação humana ou as condições miseráveis da am- dos migrantes que se abrigam em acomodações
bientação. Confira a numeração das características coletivas, conhecidas como cortiços; demonstra a
de cada texto apresentadas na questão. influência do meio social no comportamento das
personagens. No romance “O cortiço”, o Natu-
( 2 ) Apresentação da realidade. ralismo brasileiro é consagrado. Os personagens
( 1 ) Sentimentalismo e descrição subjetiva. são envolvidos pelo meio promíscuo e insalubre
( 1 ) Idealização e adjetivação excessiva. do cortiço, emergindo temas como o cruzamen-
( 2 ) Exposição de ambientes miseráveis. to de raças, a explosão da sexualidade e da vio-
( 1 ) Imaginação de ambientes agradáveis. lência, a exploração e a degradação humana. A
( 2 ) Linguagem objetiva e degradação humana. teoria determinista de Darwin que demonstra a
influência que o meio exerce sobre o comporta-
3. a) ( x ) “...o autor sobredoura a reali- mento dos indivíduos servia de inspiração para os
dade e fecha os olhos às sardas e espinhas...” autores naturalistas. Para comprovar tal tese os
Comentário. A crítica aparece de maneira ambientes coletivos e os problemas relacionados
direta na frase: “porque isto não é romance em que às camadas mais pobres da população parecem
o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos...” mais apropriados.

Literatura 2 - Aula 3 42 Instituto Universal Brasileiro