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1.

Evolução Histórica dos Cuidados de Saúde


Primários em Moçambique (CSP)
Uma análise histórica correcta das formas de prestação de cuidados de saúde
terá de se basear nas características económicas, políticas e ideológicas das
respectivas sociedades e na sua evolução dialética ao longo da história.

Desde a partir das comunidades primitivas, o desenvolvimento da capacidade


de produção -determinando a criação de excedentes e a sua apropriação para alguns
membros da sociedade privada e das classes sociais, a medicina foi sempre uma
medicina de classe.

Efectivamente, as soluções dadas pela sociedade aos casos de doenças ou


diminuição física e mental dos seus membros e o modo de os tratar, utilizando
experiencia e os conhecimentos que se iam acumulando, eram muito diferentes
conforme o poder económico da classe e que essas pessoas pertenciam.

1.1 Cuidados de Saúde nas primeiras organizações de comunidades

Nas primeiras formas de organização de comunidade primitiva em clãs e tribos com um


nível de desenvolvimento económico, social rudimentar, a diferença no tratamento dos
feridos e inválidos terá sido ditada pela necessidade de sobrevivência colectiva do grupo
social como um todo (Salvaguarda a existências dos membros mais experientes e
possuidores de maiores conhecimentos que transmitem pessoalmente; impossibilidade
de manutenção de doentes incuráveis e de pessoas estropiadas; etc.
Neste período, as comunidades recorriam as plantas, animais, minerais e outros
recursos que a natureza oferece para a prática das curas e tratamento.

1.2 Condições Históricas do aparecimento do conceito de cuidados de saúde


primários em Moçambique

Inicialmente, a FRELIMO, partido de vanguarda e forca dirigente da nação,


sempre seguiu de perto o desenvolvimento das ideias respeitantes a Sistema de Saúde
que visam beneficio dos povos. Procurando constantemente aprender das suas
experiencias e da das organizações especializadas.

Portanto, foram experiencias históricas do povo moçambicano que constituíram


factor decisivo das suas opções em matéria de cuidados de saúde, no entanto,
determinaram a elaboração do conceito de cuidados de saúde primários em
Moçambique, base essencial da política da saúde no país.

1.2.1 No conjunto dessas experiencias, evidenciam-se as seguintes:


 As vividas durante o período da luta de libertação nacional;
 As que se viveram e vivem ainda desde que se iniciou o período da reconstrução nacional
(desde 20 de setembro que se instalou em Moçambique o primeiro governo que
controlava a situação nacional orientado pela linha da FRELIMO).
É certo que, para definir os cuidados de saúde primários em Moçambique, e sobretudo
implementar a escala nacional, tornou se necessário tomar em conta a situação em que
o colonialismo deixou o país.

1.3 Principais características do sistema de Saúde Colonial

Os serviços médicos que o colonialismo português implantou em Moçambique


faziam parte do sistema de opressão e exploração colonialista a que o povo
Moçambicano estava sujeito durante cinco seculos.
A situação sanitária que o governo colonial deixou, refletia, portanto, as
característicassociais e económicas do sistema colonial capitalista. A característica
dominante desses serviços médicos era seu cariz vincadamente discriminatório:
 Descriminação económica;
 Descriminação racial;
 Descriminação Geográfica.

A descriminação económica:

Patente não só na existência de uma medicina privada apenas aceitável à burguesia


urbana, mas também nas diferenças dos serviços e de preços dentro das próprias
estruturas dos serviços médicos governamentais.

A descriminação racial:

Que se manifestava sem disfarces, na existência de enfermarias, consultas e outros


serviços separados para brancos e pretos, assim como para a classificação e
remuneração dos diversos tipos de técnicos médicos e para médicos segundo a cor da
sua pele.

Descriminação geográfica:

Devido a diferentes facilidades de acesso a assistência medica nas zonas urbanas e nas
zonas rurais, caracterizado pelo reduzido número de unidades samintarias no campo,
mas mesmo a rede de cuidados sanitários urbanos era pobre em cuidados hoteleiros e
em meios auxiliares de diagnóstico, estes só existiam nas grandes cidades onde vivia
apenas 7% da população moçambicana.
As unidades sanitárias localizadas nas zonas de implantação dos colonos, serviam
essencialmente como uma triagem para meter ao colono endinheirado aos três grandes
centros urbanos onde existia uma florescente medicina privada;
A fraca extensão dos serviços médicos governamentais está bem patente no orçamento
para saúde em 1974, o qual consumia 3.7% do orçamento geral do estado.
Os serviços médicos caracterizam-se pela primazia absoluta da medicina privada
e lucrativa, o que tinha como consequência logica o seu caracter curativo sendo a
medicina preventiva quase inexistente.
1.4. Cuidados médicos

Finalmente é preciso acrescentar que as estruturas de assistência sanitária


existentes no país, estavam pulverizadas por uma miríada de serviços autónomos e
semiautónomos, não existindo qualquer unidade nem coordenação entre eles, esse
conjunto compreendia:

I. Serviço de saúde e assistência: competia-lhe dar assistência aos funcionários <<


indigentes>> de um modo geral, a todos aqueles que não tinham acesso às outras formas
de assistência medica.

II. Os serviços de saúde privativos de entidades estatais e paraestatais[1]

Tratava-se de serviços privativos destinados a garantir certas castas privilegiadas de


funcionários (das camaras municipais, correios, caminhos de ferro, linhas Aéreas de
Moçambique e outras).
uma assistência medica superior a aquela que era fornecida à população no geral.

III. Serviços privativos das empresas privadas e dos «sindicatos» fascistas

Caracterizavam se pela ambiguidade: por um lado destinavam-se a dispensar uma


assistência de luxo a castas privilegiadas de pequena burguesia (os quadros do
colonialismo); por outro lado proporcionavam aos restantes trabalhadores da empresa a
assistência indispensável para os manter vivos e conservar a capacidade de trabalho
para poderem continua a serem explorados.

IV. A clínica Privada

Constitui a forma de assistência medica mais confortável para as classes


abastadas, como aliás acontece no resto do mundo.
Um tipo especial de clinica privada fazia se sentir nas unidades sanitárias das
instituições religiosas: ali os preços praticados eram por vezes reduzidos, pois, o objecto
principal destas instituições era a penetração ideológica reacionária no seio das massas
populares, e não o lucro directo.

V. O Hospital da universidade

Foi o instrumento mais referido da burguesia colonial para exercer uma influencia
ideológica reacionária nas várias gerações de trabalhadores de saúde. Ainda hoje se
fazem sentir profundamente sequelas graves desta acção. Houve que dissecar
cuidadosamente este triste legado do colonial-capitalismo para o denunciar perante todos
trabalhadores de saúde a quem é preciso fazer assumir um novo conceito de saúde,
capaz de satisfazer as necessidades e as aspirações profundas do povo.
A assistência do tipo exclusivamente curativo prestado pelo hospital da universidade, era
uma miscelânea de todo tipo de cuidados de saúde anteriormente mencionados e aquela
instituição reaccionária constituía, de facto, um poderoso instrumento da perpetuação e
do culto e de mentalidade elitista de medicina. Destinava-se a desenvolver no seio de
trabalhadores de saúde e na burguesia nacional nascente o culto de medicina privada
capitalista e de tecnologia sofisticada.

VI. A inexistência de Medicina Preventiva

A actividade de medicina preventiva era teoricamente de uma serie de organismos que


não tinham qualquer estruturação logica e que não possuíam nenhuma actividade
coordenada.
O combate aos grandes problemas de saúde pública estava a cargo de serviços verticais,
anquilosados, descoordenados, reduzidos a acções de fachadas.
No essencial, limitavam-se a acções conducentes a estabelecer uma cintura de proteção
aos centros urbanos onde viviam os colonos.
No domínio da proteção materno infantil, higiene nutricional, combate as doenças
transmissíveis, combate às doenças venéreas, saúde mental e dentaria, medicina no
trabalho, não existia qualquer programa nem atividade coordenada que desse cobertura
a maioria da população.
Os únicos aspectos dignos de menção foi uma certa acção no campo de saúde
escolar, mas, como não podia deixar de ser, efectuado no quadro das estruturas colonial-
fascistas, isto é, reservada exclusivamente às escolas oficiais, e concentradas
sobre duas maiores cidades.
A inexistência quase completa de acções de medicina preventiva era fruto directo do
sistema de exploração capitalista que caracterizava a prestação de cuidados de saúde,
que estava resumida na prestação de cuidados médicos (quase só curativos) a quem os
podia pagar.

A delegacia de saúde

A delegacia de saúde, que teoricamente teria funções preventivas, tinha


essencialmente um caracter de fiscalização e repressão, não havia qualquer forma de
participação popular.
Todo o sistema se baseava em unidades sanitárias (hospitais, postos médicos e
consultórios) a que se recorria quando se estava doente e se podia pagar.
O pessoal de saúde tinha uma atitude passiva de esperar que o doente viesse
às unidades sanitárias de carater curativo, a única atitude ativa era de angariação de
doentes, ou uma ou outra acção excepcional quando havia risco de que a “doença do
pobre” pudesse por em perigo a burguesia colonial.
Esta atitude de ignorância, não só da importância das acções preventivas como
igualmente da natureza dessas acções, era sabiamente cultivada no pessoal de saúde
que ainda hoje manifesta uma certa descrença nas acções preventivas e em maior grau
ainda nas acções não médicas, como formas de promoção da saúde e de prevenção de
doenças.
Nestas circunstâncias, o conceito dos cuidados de saúde integrados e integrais
eram totalmente desconhecidos.
O conceito de saúde vigente cobria uma parte do que era
medicina, com mais ênfase nos seus aspectos curativos.
A observação cientifica elementar de que a saúde de uma comunidade é o produto
de interação dinâmica de vários factores, dentro os quais a medicina não é senão um
deles e nem sempre o mais determinante, era desconhecida.
Estatísticas dos serviços prestados
Nestas circunstâncias, não é de admirar a ausência quase total das estatísticas,
as poucas estatísticas existentes, eram baseadas em dados que desde o início eram
falseados por falta de meios para os colher ou de interesse e motivação daqueles que
eram encarregados de fornecê-los, ou por outra, os poucos dados existentes, eram
inerentes às populações que procuravam os serviços, não existindo dados sobre as reais
causas da mortalidade e muito menos da morbilidade das populações, pois que nunca
tinha sido realizados inquéritos ou quaisquer tipos de investigação epidemiológica.
Medicina Tradicional
Tomando em consideração a situação apresentada, é fácil concluir que a única
forma de assistência a que a maioria da população moçambicana pudesse efetivamente
recorrer, era a medicina tradicional. Portanto, a medicina tradicional em Moçambique,
como aliás no resto da África baseia-se na transmissão oral de conhecimentos empíricos,
que constitui logo à partida uma séria limitação para o seu possível aproveitamento
científico.
Por outro lado, podemos perceber que as condições destas práticas, fazem com que a
medicina Tradicional esteja muitas vezes engajada no obscurantismo e superstição.
Do resto do colonialismo nunca permitiu qualquer possibilidade de evolução
científica destes conhecimentos ancestrais da comunidade Moçambicana e, muito pelo
contrário, fomentou o desenvolvimento das práticas obscurantistas e da superstição.
1. Experiência da Luta Armada de Libertação Nacional
Quando se constituiu a frente de Libertação de Moçambique e se preparava o
desencadeamento da insurreição popular armada contra o colonialismo português, a
saúde dos combatentes constituiu logo uma preocupação fundamental.
Visava-se sobretudo a assistência médica e os primeiros socorros aos
guerrilheiros. A falta de pessoal médico e paramédico, conduziu a necessidade de utilizar
os poucos moçambicanos formados nas escolas coloniais (um médico e alguns
enfermeiros) e, por outro lado formar mais pessoal nacional.
Numa primeira fase recorreu-se a um treino acelerado em socorrismo militar no
estrangeiro para alguns moçambicanos que não tinham qualquer preparação no campo
de saúde.
A guerrilha espalhou-se rapidamente par áreas bastante extensas e muito
distantes das bases de apoio na retaguarda e os primeiros socorros aos guerrilheiros não
eram satisfeitos de modo algum. Havia que formar elementos capazes de prestarem
assistência médica aos combatentes.
Não se despondo nesse momento de quadros com formação superior a 4ª Classe,
(ensino primário) houve que conceber um curso intensivo com a duração de 10 meses
em que ensinavam noções elementares de saneamento do meio rural, higiene
individual e colectiva e onde se davam noções básicas
sobre o diagnóstico e tratamento das doenças mais frequentes em meio rural. Assim se
formaram em 1966 os primeiros Agentes deMedicina Moçambicanos.
2.1 Cuidados de saúde primários para populações libertadas
A medida que a guerrilha foi se expandindo a administração colonial foi se
colapsando e consequentemente novas zonas libertadas tomaram lugar. A população
moçambicana e as unidades sanitárias passaram a estar sob gestão da frente de
libertação de Moçambique, porem, houve que dar um novo conteúdo aos serviços de
saúde. Já não se tratava somente de prestar primeiros socorros aos combatentes, mas
tratava-se essencialmente de assegurar cuidados de saúde primários a populações livres
da administração colonial.
2.2 Recurso para prestação dos cuidados de saúde nas zonas libertadas
Os poucos recursos que a FRELIMO dispunha, provinham da contribuição dos
camponeses e operários moçambicanos e resultado da solidariedade internacional e
eram insuficientes para acudir ou responder a demanda.
De início fez-se recurso a soluções clássicas

As áreas libertadas foram divididas em províncias e estas em zonas e sectores. Em


cada uma destas áreas foram construídos hospitais e centros de saúde. Utilizaram
para isso matéria prima tradicional (pau e pique maticado) e organizou-se assim
uma rede hierarquizada de unidade sanitárias.
Em cada uma das províncias havia um hospital provincial, em cada zona um centro
de saúde e em cada sector, um posto de primeiros socorros.

2.3 Diferenciação das funções das Unidades Sanitárias


Num documento de janeiro de 1968 descreviam-se assim as funções das
diferentes unidades sanitárias:

Postos de Primeiros Socorros


Pensam-se os feridos, Dão-se os cuidados de urgência e tratam-se os casos
benignos. Prosseguem-se Também aí tratamentos prescritos por curtas
unidades sanitárias de escalão superior.

Hospitais provinciais
•Tratam-se outros problemas de saúde sobre tudo as doenças infecciosas e
parasitarias;

•Fazem suturas e pequenas intervenções cirúrgicas, tratamento das fracturas.

Os casos que exigiam recursos que as unidades sanitárias não possuíam


eram transferidos para os países vizinhos. Em Mutarara, no Sul da Tanzânia a
FRELIMO possuía o Hospital Américo Boavida.

Os hospitais e centros de saúde eram construídos de baixo de árvores, pois,


mesmo nas zonas libertadas, havia ameaça da aviação colonial que
diariamente lançava grandes quantidades de bombas e napalm[2] nas florestas
onde as forças terrestres coloniais não conseguiam penetrar. Tanto os hospitais e
escolas eram construídos pelo propiá população com base nos recursos que os
possuíam.

Houve que preparar mais pessoal num curto espaço de tempo e não podendo
dispor senão elementos com baixo nível escolar.

Houve também que se criar programas adaptados a estas circunstâncias

Pela primeira vez em Moçambique o pessoal treinado era oriundo das classes
exploradas e, portanto, em elas identificado, mas mesmo assim só se iniciava a
preparação técnica no campo de saúde após um treinamento militar que
garantisse a identificação destes trabalhadores de saúde com as massas
camponesas.
Todos estes trabalhadores de saúde, assim como os guerrilheiros, não eram
pagos, pois, eram militantes da FRELIMO que viviam no seio do povo.

A produção agropecuária do hospital não tinha exclusivamente objectivo de


alimentar o paciente e pessoal de saúde. Ela tinha também um papel educativo
do ponto de vista nutricional, pois, lá se cultivavam produtos hortícolas, árvores
de fruto e se criavam animais de capoeira. Assim se foram transformando os
hábitos alimentares tradicionais das populações, pela introdução de alimentos
ricos que não faziam parte da dieta tradicional ou mesmo que não eram
consumidos devido a tabus alimentares retrógrados.
As machambas constituíam na realidade óptimos centros de educação
nutricional.

No mesmo documento relativo a situação da saúde nas zonas libertadas em


Janeiro de 1968 fazia-se um apelo à solidariedade internacional.
A medicina preventiva já começava a ser encarada, diz-se nomeadamente:
Desenvolvimento de um programa intensivo de educação sanitária entre a
população civil. Consideramos este programa como as fundações de toda nossa
estratégia na luta contra as doenças parasitárias e tropicais do país.
No que se concerne a vacinação, já se apresentava nesse documento o
balanço da vacinação contra varíola em 1966 e 1967 de mais de 200 000 pessoas
das zonas libertadas e já se anunciavam em curso uma campanha organizada
de vacinação contra variólica a toda população das zonas libertadas, no
decorrer da qual vieram a ser vacinadas cerca de 800 000 pessoas. Nas
condições difíceis de guerra, não se dispondo de veículos nem cadeia de frio
apropriada, mostrava-se contudo o optimismo de levar a cabo com o sucesso
esta campanha baseada na organização da FRELIMO.
A educação sanitária da massa popular tornou-se um dever político. Iniciaram-
se campanha para introduzir hábitos higiénicos nas populações.
O saneamento do meio, higiene individual e das habitações e educação
nutricional tornaram-se armas decisivas no combate e prevenção das doenças,
na promoção de saúde. Construíram-se milhares de latrinas. Vacinaram-se mais
de um milhão de pessoas (quase todas pessoas das zonas libertadas) contra a
varíola e cólera.
A promoção da saúde da comunidade torna-se uma tarefa da própria
comunidade. A medicina promotiva assume então sua verdadeira dimensão.

2. Experiencias do Período de Construção Nacional

A actual Política de Saúde, em particular a concepção moçambicana dos


Cuidados de Saúde Primários, é consequência directa da história do país e do
quadro politico dela resultante.
Sendo o partido (FRELIMO) a forca dirigente do estado e da sociedade
moçambicana, o plano de acção do ministério da saúde, destina-se a
materializar o programa definido pela FRELIMO no campo da saúde para esta
etapa de desenvolvimento do País em que o povo, sob a direcção do partido
de Aliança Operário-camponesa, se engaja na construção de bases
ideológicas, politicas e materiais que conduz a edificação do socialismo em
Moçambique.
No programa da FRELIMO, diz-se textualmente:
“Constituir tarefa essencial do Partido a organização de um Sistema de Saúde
que beneficie todo o Povo Moçambicano.
A preocupação do partido, é preservar e melhorar continuamente o imenso
capital revolucionário constituído pela saúde das massas. Nesse sentido, o
partido aplica o seguinte plano de acção:
A. Estender a todos os pontos do Pais as estruturas e os benefícios do Serviço
Nacional de Saúde;
B. Dar prioridade à prática de Medicina Preventiva.
No sector de Medicina Preventiva deve dedicar-se particular atenção a criação
de condições para o desenvolvimento de educação sanitária e nutricional da
população, do saneamento do meio, da proteção materno-infantil, para o
combate a doenças evitáveis e organização dos serviços de saúde escolar e de
medicina de trabalho.
C. Organizar e dirigir um serviço de medicina curativa, tanto nas zonas rurais como
nas zonas urbanas, e apoiar prioritariamente o estabelecimento de postos e
centros de saúde nas zonas rurais.
D. Definir e aplicar uma política nacional de combate às grandes endemias que
flagelam os moçambicanos.

É neste contexto que os cuidados de saúde primários aparecem como a


base em que assenta toda a nossa política de saúde e que se espelha, as imensas
transformações já operadas no domínio da saúde desde que, em 20 de setembro
de 1974, se instalou em Moçambique o primeiro governo dirigido pela FRELIMO.
Neste período de reconstrução nacional, foi necessário nacionalizar a medicina
(24 de Julho de 1975) e interditar qualquer forma de seu exercício privado.
O objectivo da revolução era libertar o homem e estabelecer a justiça
social. A medida mais elementar era colocar a todo em pé de
igualdade perante a adversidade e impedir que a doença constituísse motivo de
exploração.
Pela nacionalização da medicina, o estado passou a assumir a responsabilidade
da prestação dos cuidados de saúde à totalidade da população e assim se da
o primeiro grande passo para a roptura do sistema discriminatório da assistência
colonial.
Em outubro de 1975 realizou-se o primeiro seminário, que reuniu durante uma
semana os responsáveis de saúde da Nação Moçambicana, analisa e compara
as experiencias das áreas libertadas com a situação das outras zonas do território
nacional que só foram libertadas quando a FRELIMO venceu.
Foi nesse seminário que lançou-se a campanha de Saneamento do Meio
Ambiente que vem a ter execução prática em toda a extensão do território
nacional.

A saúde passou a se um direito real do cidadão e um dever do Estado.


Ao criar obrigatoriedade dos cidadãos de recorrer em primeiro lugar ao centro
de saúde ou posto de saúde do local de residência ou de trabalho, a lei veio
permitir por em prática o conceito socialista da área de saúde, adstrita ao Centro
de Saúde – que por sua vez constitui unidade básica a partir da qual os cuidados
de saúde primários poderão irradiar para todos Moçambicanos.
Os hospitais passaram assim a desempenhar o seu verdadeiro papel de unidades
especializadas nos níveis secundários, terciários e quaternários de cuidados
médicos, o que se traduz numa maior eficiência do sistema com benefício
evidente para as populações.
O novo Serviço Nacional de Saúde, organizado em moldes socialistas, considera
o cidadão na sua integridade e deixa de ter uma única preocupação atender
o homem doente.

Ficaram pois assim criadas todas as condições para a organização de


um Serviço Nacional de Saúde (S.N.S) a partir de um conceito verdadeiramente
científico de saúde da comunidade. Esse conceito deriva de uma visão dialética,
total da realidade a qual tem em conta que o bem-estar físico e mental do
homem é resultado da interação dinâmica integrada de uma multiplicidade de
factores sócio-económicos, positivos ou negativos para saúde, dos quais a
medicina é apenas uma parte e nem sempre é a mais determinante.
Assim nasce o conceito moderno de cuidados de saúde primários,
constituídos por conjunto de actividades e elementos susceptíveis de melhorar o
estado de saúde da comunidade e que representam o primeiro escalão de
promoção da saúde e prevenção de doenças, cura e reabilitação, devendo
cobrir a população que neles participa activamente.

Referência bibliográfica
MISAU. Cuidados de Saúde Primários em Moçambique, Republica Popular de
Moçambique. 128pp.

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