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Métodos Comportamentais:

Melhorando a Energia, Concluindo


Tarefas, Solucionando Problemas e
Reduzindo a Ansiedade

Brasília-DF.
Elaboração

Arquiléia Itair Peixoto Gonçalves

Produção

Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração


Sumário

Apresentação.................................................................................................................................. 5

Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa..................................................................... 6

Introdução.................................................................................................................................... 8

Unidade I
REVISÃO TEÓRICA................................................................................................................................ 11

Capítulo 1
Os princípios teóricos e práticos da Terapia Cognitivo Comportamental................ 11

Capítulo 2
Os princípios teóricos e práticos da Terapia Comportamental................................... 20

Unidade iI
MOTIVAÇÃO........................................................................................................................................ 29

Capítulo 1
Operações estabelecedoras............................................................................................. 33

Capítulo 2
Operações Abolidoras...................................................................................................... 41

Unidade iII
FORMAÇÃO DE CRENÇAS................................................................................................................... 44

Capítulo 1
Definições e alguns pressupostos ................................................................................... 45

Capítulo 2
Crenças Cognitivas........................................................................................................... 49

Capítulo 3
Atitudes................................................................................................................................. 56

Capítulo 4
Distorções cognitivas....................................................................................................... 60

Unidade iV
A ANSIEDADE....................................................................................................................................... 64

Capítulo 1
Estratégias para redução de comportamentos de fuga e esquiva............................. 66
Capítulo 2
O tratamento farmacológico e psicoterapêutico no combate à ansiedade........... 70

Capítulo 3
A identificação de situações aversivas e como enfrentar tais situações.................. 78

Para (não) finalizar...................................................................................................................... 84

Referências................................................................................................................................... 89
Apresentação

Caro aluno

A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se


entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade.
Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela
interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da
Educação a Distância – EaD.

Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade


dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos
específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém
ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a
evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo.

Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo


a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na
profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira.

Conselho Editorial

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Organização do Caderno
de Estudos e Pesquisa

Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em


capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos
básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar
sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para
aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares.

A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos
Cadernos de Estudos e Pesquisa.

Provocação

Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor
conteudista.

Para refletir

Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita
sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante
que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As
reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões.

Sugestão de estudo complementar

Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo,


discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.

Atenção

Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a


síntese/conclusão do assunto abordado.

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Saiba mais

Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões


sobre o assunto abordado.

Sintetizando

Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o


entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.

Para (não) finalizar

Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem


ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado.

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Introdução

Se nossos pensamentos forem limpos e claros, estaremos melhor


preparados para alcançar nossos objetivos.
Aaron Beck

O processo de Terapia Cognitiva tem demonstrado bons resultados no tratamento dos


mais variados transtornos e patologias clínicas. A base da terapia cognitiva é a hipótese
da “vulnerabilidade cognitiva” que se baseia no pressuposto de que alguns indivíduos
vivem experiências ao longo de suas vidas que os levam a desenvolver esquemas e
crenças disfuncionais e a interpretar as situações de forma distorcida. Significa que
uma determinada situação pode ser interpretada das mais variadas maneiras por
pessoas diferentes; é a partir dessas interpretações que o sujeito vai definir sua resposta
emocional e comportamental.

Pode-se definir a Terapia Cognitiva Comportamental como sendo uma abordagem mais
específica do que as demais psicoterapias, de solução breve, focada no problema atual
do paciente. É conhecida também como TCC e defende a tese de que o que nos afeta não
são os acontecimentos em si, mas sim a forma como os percebemos e os interpretamos.

Figura 1.

Fonte: <https://psicologaticianaraujo.files.wordpress.com/2015/05/terapia-cognitivo-comportamental-psicologo-
uberlc3a3c2a2ndia-mg.jpg>. Acesso em: 20/01/2017.

Os Métodos Comportamentais, conteúdo dessa disciplina, têm como principal objetivo


auxiliar os pacientes a modificarem o seu pensamento e a sua percepção acerca de
determinado fenômeno, incluindo suas crenças, com a finalidade de obter alteração
emocional e comportamental profunda e duradoura.

Para o estudo do tema “Métodos Comportamentais”, o conteúdo da disciplina foi


dividido em quatro grandes unidades, que são: Revisão Teórica, Motivação, Formação
de Crenças e A Ansiedade.
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Na Unidade I – Revisão Teórica – introduziremos o tema apresentando conceitos,
definições e aplicações. Para esse estudo, a unidade foi subdividida em dois capítulos:
Capítulo 1 – Os princípios teóricos e práticos da Terapia Cognitivos Comportamental e
Capítulo 2 – Os princípios teóricos e práticos da Terapia Comportamental.

Na Unidade II – Motivação – serão discutidas as Operações estabelecedoras e Operações


abolidoras que serão apresentadas nos capítulos 1 e 2, respectivamente.

Na terceira Unidade – Formação de Crenças – serão apresentados os preditores na


formação das crenças. A unidade está subdividida em quatro capítulos, a saber: Capítulo
1 – Definições e alguns pressupostos; Capítulo 2 – Crenças cognitivas; Capítulo 3 –
Atitudes; Capítulo 4 – Distorções cognitivas.

A quarta e última Unidade – A Ansiedade – está dividida em três capítulos: Capítulo


1 – Estratégias para redução de comportamentos de fuga e esquiva; Capítulo 2 – O
tratamento farmacológico e psicoterapêutico no combate à ansiedade; Capítulo 3 – A
identificação de situações aversivas e como enfrentar tais situações.

Este caderno de estudos tem, portanto, o objetivo de proporcionar informações acerca


da disciplina “Métodos Comportamentais: Melhorando a Energia, Concluindo Tarefas,
Solucionando Problemas e Reduzindo a Ansiedade”, com o compromisso de orientar os
profissionais da área de saúde, principalmente os envolvidos com questões psicológicas,
para que possam desempenhar suas atividades com eficiência e eficácia.

Objetivos
»» Ampliar a compreensão de concepções acerca da Terapia Cognitivo
Comportamental.

»» Refletir sobre as respectivas implicações para o exercício das tarefas


relacionadas aos acontecimentos cotidianos.

»» Aprofundar os conhecimentos sobre Terapia Cognitivo Comportamental


a partir das diversas concepções, reconhecendo suas implicações teóricas
e metodológicas para a formação do profissional.

»» Desenvolver habilidades básicas para o reconhecimento do quadro


clínico e indicação das modalidades de tratamentos existentes na Terapia
Cognitivo Comportamental.

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REVISÃO TEÓRICA Unidade I

Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma


alma humana, seja apenas outra alma humana.
Carl G. Jung

A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) baseia-se em um conjunto de teorias


desenvolvidas para a formulação de planos de tratamento e orientação para as ações
que serão aplicadas pelo terapeuta. Este primeiro capítulo tem como foco a explicação
desses conceitos principais. Tem, também, como objetivo, compreender como o modelo
cognitivo-comportamental influenciou o desenvolvimento de técnicas específicas.
Começamos, então, com uma breve visão do histórico da TCC.

Capítulo 1
Os princípios teóricos e práticos da
Terapia Cognitivo Comportamental

Origens da Terapia Cognitivo Comportamental


As expressões Terapia Cognitiva (TC) e Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
são frequentemente adotadas como sinônimas para descrever os tratamentos
psicoterápicos baseados no modelo cognitivo. A literatura não define ou impõe qual
expressão deve ser empregada. Segundo Knapp e Beck (2008), o que se vê é que o termo
“cognitivo-comportamental” é utilizado para definir um grupo de técnicas nas quais há
uma combinação de uma abordagem cognitiva e de um conjunto de procedimentos
comportamentais; nessa definição, observa-se a presença de estratégias cognitivas e
comportamentais no seu arcabouço teórico e metodológico.

A Terapia Cognitiva tem como característica principal, do ponto de vista teórico, a


ideia de que os sintomas e os comportamentos disfuncionais e, consequentemente,

11
UNIDADE I │ REVISÃO TEÓRICA

as psicopatologias podem ser cognitivamente mediadas. Portanto, as abordagens


terapêuticas que não aplicam prioritariamente o modelo com características de
mediação no plano de tratamento do paciente, não poderão ser consideradas como
sendo um tipo de Terapia Cognitiva. Assim, nesse caso, o termo “cognitivo” ou
“cognitivo-comportamental” não poderá ser aplicado. A titulação “cognitivo” ou
“cognitivo-comportamental” exige que no processo terapêutico, para melhorar o
quadro psicopatológico do paciente, haja um trabalho baseado na modificação do
pensamento e nos comportamentos disfuncionais. Sem esse requisito o tratamento
deve ser categorizado em outra modalidade de psicoterapia.

A abordagem da Terapia Cognitivo Comportamental se fundamenta em dois


princípios centrais, que são: o primeiro princípio diz que as nossas cognições têm uma
influência controladora sobre as nossas emoções e sobre o nosso comportamento; já
o segundo princípio, defende que a maneira como agimos ou como nos comportamos
pode afetar profundamente nossos padrões de pensamento e nossas emoções. Essa
teoria é antiga! Beck e cols. (1979) descrevem que esses elementos cognitivos foram
reconhecidos pelos filósofos estóicos (Epíteto, Cícero, Sêneca, entre outros) 2 mil
anos antes da introdução da TCC.

Epíteto afirmou que “os homens não se perturbam pelas coisas que acontecem, mas sim
pelas opiniões sobre as coisas”. (EPITECTUS, 1991)

Campos (2002) afirma que as tradições filosóficas orientais – taoísmo e budismo


– também consideram a cognição como uma força primária determinante no
comportamento humano.

Alinhado com essa mesma perspectiva, Dalai Lama (1999) escreveu que se pudermos
reorientar nossos pensamentos e emoções e reorganizar nosso comportamento, então
poderemos não só aprender a lidar com o sofrimento mais facilmente, mas, sobretudo
e em primeiro lugar evitar que muito dele surja.

Figura 2.

Fonte: <http://grupodepersonalidad112.blogspot.com.br/>. Acesso em: 12/11/2016.

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REVISÃO TEÓRICA │ UNIDADE I

Clark e cols (1999) afirmam que os filósofos europeus Jaspers, Kant, Frankl e Heidegger
também estudaram o tema nos séculos XIX e XX. Esses filósofos também acreditavam
na ideia de que os processos cognitivos conscientes têm um papel fundamental na
existência humana.

Isaacson (2003) escreveu que Zoroastro – filósofo persa da antiguidade – adotava três
pilares como base para seus ensinamentos, que são: pensar bem, agir bem e falar bem.
Dessa forma, Zoroastro, acreditava no pensamento como base para o comportamento
manifesto das pessoas. O autor falou, também, de Benjamin Franklin que estudou sobre
o desenvolvimento de atitudes construtivas, as quais ele acreditava que influenciavam
favoravelmente o comportamento. Para Benjamim Franklin, seus estudos revelaram
que a prática de um estilo saudável de pensamento pode melhorar a sensação de bem-
estar e/ou reduzir os níveis da angústia.

Modificação do comportamento foi, até a década de 1950, a expressão aplicada nos


procedimentos interventivos. A expressão “modificação do comportamento” era
baseada em pressupostos teóricos do behaviorismo e nos conhecimentos empíricos
produzidos pela análise experimental do comportamento. O autor acrescenta que sua
origem está relacionada a três fatos principais:

»» pesquisas fisiológicas realizadas na Rússia, a partir do final do século


XIX;

»» surgimento do behaviorismo nos Estados Unidos em 1913; e

»» avanços obtidos com o desenvolvimento da Psicologia da aprendizagem.

A partir dos anos 1940, os tratamentos baseados na modificação do comportamento


tiveram maior aceitação. Esse avanço está muito relacionado à insatisfação dos
profissionais da área de Psicologia com a psicoterapia tradicional utilizada, que era
fortemente influenciada pela psicanálise, mas carente de estudos mais aprofundados
para comprovação da sua eficácia.

Franks (1996) afirma que quem primeiro fez referência à expressão “terapia
comportamental” foi Lindsley, Skinner e Solomon, em um estudo publicado em
1953. Lindsley, Skinner e Solomon se referiram aos procedimentos que envolviam
condicionamento operante junto a pacientes psicóticos hospitalizados. Outros dois
psicólogos também fizeram referência à mesma expressão, mas a conceituaram de
forma diferente.

»» Na África do Sul, em 1958, o termo “terapia comportamental” foi utilizado


por Lazarus – para esse autor, a Terapia Comportamental seria a inclusão

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UNIDADE I │ REVISÃO TEÓRICA

de procedimentos objetivos provenientes do laboratório na psicoterapia


tradicional.

»» Na Inglaterra, em 1959, o termo “terapia comportamental” foi descrito por


Eysenck como sendo um novo enfoque terapêutico. Para o pesquisador,
terapia comportamental estaria baseada na aplicação das novas teorias
de aprendizagem no tratamento dos distúrbios psicológicos.

Kazdin (1978) categorizou em quatro enfoques diferentes as contribuições para o


estágio atual das terapias comportamentais contemporâneas, que são:

1. Enfoque respondente: as aplicações terapêuticas fundamentadas


no condicionamento respondente no modelo terapia comportamental
resultaram da transição dos estudos e achados derivados da pesquisa
experimental para aplicações clínicas. Pavlov, Bechterev e Watson já
relacionavam os princípios de condicionamento reflexo a comportamentos
mal adaptativos. O estudo mais famoso desse período inicial de aplicação
de técnicas de condicionamento em humanos foi o experimento feito
com o pequeno Albert. Nesse estudo, Watson e Rainer comprovaram que
estímulos neutros podem passar a eliciar reações de medo. O resultado
desse estudo evidenciou como as fobias são criadas ou, ainda, como
podem ser eliminadas.

Outro importante avanço para o desenvolvimento da terapia


comportamental, segundo Kazdin (1978), foi a pesquisa conduzida por
Jones, M. C. em 1924 no estudo “The elimination of children’s fears”.
Watson participou desse estudo, como supervisor. Na pesquisa foram
aplicadas sete técnicas, sugeridas por Watson e Rayner, com o propósito
de inibir reações emocionais de medo em crianças institucionalizadas.
No estudo, Jones comprovou, a partir de uma abordagem direta
do comportamento, a eficácia do tratamento do medo, provocando
questionamentos acerca da crença de que a eliminação do medo
dependeria do tratamento de estados psicodinâmicos subjacentes ao
próprio medo.

Outra contribuição, nessa mesma linha, ocorreu próximo à chegada da


década de 1950, na África do Sul. A contribuição, nessa época, foi dada por
Wolpe que se baseou nos estudos de Pavlov e Hull. Wolpe desenvolveu uma
técnica para o tratamento da ansiedade; propôs a generalização da noção
fisiológica de inibição recíproca, a partir da qual desenvolveu uma técnica
para o tratamento da ansiedade – a dessensibilização sistemática. A técnica

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REVISÃO TEÓRICA │ UNIDADE I

de Wolpe consistia na exposição do indivíduo a um estímulo descrito por


ele mesmo como eliciador de ansiedade, em associação com um estado de
relaxamento que deveria inibir essa reação emocional na presença daquele
estímulo. A forma original da técnica, essa exposição era feita in vivo;
posteriormente Wolpe optou por fazê-la com o uso da imaginação:

Comecei a organizar programas de exposição a estímulos fóbicos


graduados ao vivo para pacientes que tinham adquirido alguma
facilidade em relaxar, geralmente depois de 6 a 10 sessões. Mas esses
programas eram muitas vezes difíceis de executar e comecei, portanto,
a explorar a possibilidade de fazer uso de situações imaginárias, no
lugar das reais.
(WOLPE, 1973/1976, p.115).

Até a década de 1950, o enfoque respondente predominou na terapia, em


se tratando de análise de problemas comportamentais. Esse enfoque era
restrito ao modelo explicativo do tipo estímulo – resposta, S-R. Após esse
período, os resultados empíricos apresentados com o condicionamento
operante promoveram uma expansão na utilização das técnicas baseadas
nesse novo paradigma.

2. Enfoque operante: esse tipo de técnica foi mais difundida nos EUA,
principalmente porque algumas universidades americanas formaram
centros para pesquisas laboratoriais e aplicadas em condicionamento
operante. Outro fator que contribuiu para a disseminação da técnica
operante foi que muitos laboratórios e clínicas atuavam junto às
instituições psiquiátricas, onde tais técnicas costumavam ser empregadas.

Kazdin (1978) afirma que as primeiras aplicações da técnica baseada em


princípios operantes aconteceram a partir de relatos sobre a observação de
mudanças em comportamentos de interesse clínico, como efeitos colaterais
em investigações laboratoriais sobre o comportamento livre operante. O
autor ainda observa que uma das principais técnicas comportamentais,
derivadas do modelo operante foi a elaborada por Ayllon e Azrin. A técnica
consistia em um sistema de reforçamento para alterar comportamentos
de pacientes psicóticos em custódia, reduzindo a frequência de vários
comportamentos disruptivos. Segundo Vandenberghe (2004), esse
sistema ficou conhecido como “Economia de Fichas”; foi considerada uma
estratégia viável para ser aplicada em larga escala em ambientes planejados,
como instituições de ensino, saúde ou do trabalho.

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UNIDADE I │ REVISÃO TEÓRICA

Ainda sobre o modelo operante, do ponto de vista clínico, Kazdin (1978)


afirma que Skinner (1953) descreveu os efeitos da terapia, chegando a
discutir a etiologia e tratamento de alguns transtornos psiquiátricos,
baseado em princípios operantes. Segundo o autor, Skinner, ainda
trabalhando com Lindsley, desenvolveu um programa de estudos cujos
resultados interessaram a outros estudiosos na realização de pesquisas
aplicadas, como a investigação do comportamento psicótico, de processos
comportamentais e características do operante livre em crianças normais
e com atraso do desenvolvimento intelectual, o comportamento de tiques
motores e o comportamento de crianças autistas.

Mesmo considerando o avanço da Terapia Comportamental a partir dos


princípios operantes, a forte ênfase dada nas contingências de reforçamento
pode ter contribuído para um desinteresse dos psicólogos de orientação
comportamental. Outro ponto que pode ter contribuído, também, para
esse desinteresse da classe, é que algumas afirmações de Skinner deram
um valor menos nobre à investigação clínica dos eventos privados.

3. O enfoque da Teoria da Aprendizagem Social: Ferster (1967)


apontou problemas em relação à aplicação das técnicas operantes. Em
sua experiência no tratamento de pacientes infantis com autismo e
esquizofrenia no Linwood Children’s Center, o pesquisador observou
e relatou aspectos semelhantes com os presentes na relação terapeuta/
paciente. Foi o ponto de partida para o pesquisador iniciar estudos
voltados para o desenvolvimento de habilidades pessoais dos profissionais
na relação com pacientes, aperfeiçoando as técnicas comportamentais
com a finalidade de melhorar a eficácia do tratamento. A contribuição de
Ferster na investigação da variável terapeuta/paciente no resultado final
do tratamento valorizou essa relação e deu status de importante variável
para o êxito na aplicação de técnicas comportamentais.

Segundo Kazdin (1978), foi a partir dos anos 1960 que os terapeutas
comportamentais começaram a se preocupar com questões comuns aos
tratamentos psicoterápicos tradicionais, principalmente:

›› relação terapeuta/cliente;

›› queixa relatada pelo cliente;

›› aceitação de evidências clínicas (não experimentais); e

›› valorização dos eventos privados.

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REVISÃO TEÓRICA │ UNIDADE I

Bandura (1986) foi um crítico ferrenho à terapia comportamental.


Segundo o autor, o modelo de aprendizagem por condicionamento
não bastava para explicar a aquisição de comportamentos complexos.
Nesse sentido, o autor adotou a teoria da aprendizagem social como
fundamentação teórica para elaborar o conceito de aprendizagem por
observação ou vicariante.

O modelo proposto pelo autor tem como característica ser um processo


de aprendizagem, no qual o indivíduo aprende uma resposta, a partir
da observação de sua emissão por outra pessoa. Essa aprendizagem
estaria condicionada à intermediação de processos cognitivos; seriam
elaboradas concepções sobre como as respostas observadas ocorrem; e,
por fim, essa “construção simbólica” seria aplicada como base nas futuras
ações. Acrescenta o autor, que o sujeito seria capaz de representar futuras
consequências, ampliando o papel da cognição, tanto para a aquisição
como para a manutenção de certos comportamentos.

O modelo de intervenção terapêutica proposto por Bandura (1977b)


valorizou a presença dos aspectos cognitivos na modificação do
comportamento; isso favoreceu, enormemente, a aproximação da
terapia comportamental com os modelos de psicoterapias que se baseiam
no paradigma de que a mudança das cognições do indivíduo sobre ele
mesmo e sobre o mundo é condição sine qua non para a mudança do
seu comportamento.

4. Enfoque da Modificação do Comportamento Cognitivo: na


opinião de Kazdin (1978) Salter foi o primeiro behaviorista a utilizar a
imaginação de forma terapêutica. O autor afirma que Salter manipulava
a imaginação para promover a alteração do humor e dos sentimentos do
paciente, tanto nas sessões de terapia como na sua experiência diária,
com a finalidade de superar mais facilmente as reações mal adaptativas,
como, por exemplo, a ansiedade. Foi a partir do desenvolvimento da
técnica de dessensibilização sistemática, desenvolvida por Wolpe (1973),
que se passou a utilizar o recurso imaginação com maior frequência,
como estratégia terapêutica na modificação do comportamento.

Kazdin (1978) acrescenta que a Lazarus e Abramovitz ampliaram a


utilização terapêutica da imaginação na terapia comportamental,
utilizando, de forma inédita, a técnica de dessensibilização com crianças.
Lazarus e Abramovitz passaram, então, a utilizar a imaginação de imagens
positivas em substituição à técnica de relaxamento, que funcionava,
supostamente, como a resposta da inibição da ansiedade. A hipótese

17
UNIDADE I │ REVISÃO TEÓRICA

dos pesquisadores sustentava que tais imagens poderiam produzir


sentimentos positivos que atuariam na inibição da ansiedade.

Segundo Kazdin (1978), para Lazarus as técnicas terapêuticas


fundamentadas no modelo de condicionamento respondente não eram
suficientes para o desenvolvimento de uma psicoterapia efetiva. Segundo
o autor, a opinião de Lazarus era compartilhada também por Bandura e
Walsh. Mesmo reconhecendo a técnica comportamental como sendo um
método com eficácia comprovada nas intervenções terapêuticas, o modelo
teórico-metodológico que o sustentou não deixou de ser considerado,
por muitos psicólogos, como muitíssimo rigoroso e inapropriado no
tratamento de problemas de ordem clínica. Nessa linha de pensamento,
Lee (1992), considerou que alguns casos, considerados como tendo
resultado positivo a partir da substituição do real estímulo fóbico na
dessensibilização sistemática por emprego da imaginação, não foram
bem esclarecidos a partir de um modelo com base comportamental.

No final da década de 1960, havia predominância de uma avaliação


antagônica da terapia comportamental. Ao mesmo tempo que
representava uma técnica de interesse geral, com eficácia comprovada,
havia pouco interesse e certa insatisfação pela teoria behaviorista por
parte dos novos terapeutas comportamentais. Para Lee (1992), essa
situação serviu de “start” para a adoção de outras teorias e técnicas na
área da terapia comportamental, com criação de diversificados modelos
de análise, de intervenção e de propostas para a adoção de um ecletismo
teórico como a melhor alternativa para aqueles que desenvolviam uma
prática clínica comportamental.

Já no início dos anos 1970, mesmo com a publicação de livros e artigos e


a criação de sociedades científicas, o modelo “terapia comportamental”
se mostrava mais fragilizado. Como exemplo dessa afirmação, pode-
se observar o artigo publicado revista Behavior Therapy, escrito pelos
seus editores, na edição número um, no ano de 1970. Os autores desse
artigo definiram a terapia comportamental como “multidimensional”,
como forma de tentar unificar várias práticas heterogêneas a partir de
uma denominação abrangente (HALLAM, 1987). Segundo Hawkins e
cols (1992), alguns psicólogos que também se interessavam em valorizar
os aspectos cognitivos no processo psicoterápico, entre eles Michael
Mahoney, Albert Ellis, Donald Meichenbaum e Aaron Beck, elaboraram,
de forma independente, novas propostas de abordagens terapêuticas.

18
REVISÃO TEÓRICA │ UNIDADE I

O termo “terapia cognitivo-comportamental” nem sempre foi empregado na identificação


dessas novas terapias. Pode-se citar como exemplo Ellis e Beck que inicialmente adotaram
o enfoque psicanalítico; ou seja, não eram terapeutas comportamentais. Segundo
Wilson (1978), o termo “terapia cognitivo-comportamental” foi utilizado inicialmente
numa convenção em Nova York, em abril de 1976. Shinohara (1997) afirma que a partir
da proposta de formulação de uma categoria de terapias cognitivo-comportamentais,
pode-se identificar um grupo de técnicas psicoterápicas caracterizadas pela associação
de uma perspectiva teórica enfática quanto ao papel dos processos cognitivos na
mediação do comportamento ao uso de estratégias terapêuticas comportamentais.

Mahoney e Arnkoff (1978) sugeriram a classificação das terapias cognitivo-


comportamentais em três grupos, a saber:
»» As terapias de habilidades para o enfrentamento: nessa categoria,
o foco do tratamento está nas formas pelas quais o cliente poderá
minimizar os efeitos negativos de eventos externos.
»» As terapias de resolução de problemas: nesse grupo, prevalece o
ensino de estilos de reação e estratégias de produção de um maior número
de alternativas possíveis para a solução de problemas.
»» As técnicas de reestruturação cognitiva: essa técnica tem como
alvo a mudança de pensamentos perturbadores.

Dobson e Block (1988) também identificaram fenômenos que podem identificar as


técnicas de terapias cognitivo-comportamentais. Para os autores existem três premissas
básicas partilhadas pelas terapias cognitivo-comportamentais:
»» A atividade cognitiva afeta o comportamento: para o autor, essa
afirmativa resgata a base do modelo mediacional proposto por Tolman,
e suas implicações clínicas são evidentes, já que alterações cognitivas
levariam a alterações comportamentais.
»» A atividade cognitiva pode ser monitorada e alterada: segundo
o autor, os terapeutas cognitivo-comportamentais compartilham dessa
afirmativa; ou seja, os indivíduos tem acesso direto às suas próprias
cognições, portanto, são capazes de alterá-las.
»» A mudança de comportamento almejada pode ser afetada
pela mudança cognitiva: os terapeutas cognitivo-comportamentais
afirmam que as alterações ao nível cognitivo funcionariam como métodos
alternativos para que ocorram as mudanças comportamentais; ainda,
valorizam os procedimentos que levam em conta tal processo.

19
Capítulo 2
Os princípios teóricos e práticos da
Terapia Comportamental

A distinção entre Terapia Comportamental e Cognitivo-Comportamental não é uma


tarefa fácil, como foi descrito no capítulo anterior, são muitas as semelhanças e poucas
as diferenças. Uma taxonomia das técnicas terapêuticas centradas nessas distinções
seria a melhor forma para distingui-las. Pode-se adotar também, como critério para
distinção, as origens históricas das abordagens.

Sendo assim, para melhor compreensão das especificidades da terapia comportamental,


deve-se conhecer sua história. Como a Terapia Comportamental nunca foi considerada
uma corrente unificada, pode-se apontar diferentes escolas com seus próprios enfoques
filosóficos e princípios de tratamento.

Mary Cover Jones, em 1924, foi quem primeiro colocou em prática as propostas de
Watson e Rayner (1920) na aplicação clínica do condicionamento clássico às emoções
e no tratamento de problemas de ansiedade em crianças. Sendo assim, Jones se
tornou, então, a primeira terapeuta comportamental. A partir desse tratamento, feito
por Jones, outros behavioristas norte-americanos adotaram práticas semelhantes no
tratamento de distúrbios neuróticos, baseados nas teorias da aprendizagem de Pavlov,
entre eles Duníap, Guthry e Salter. Nas estratégias aplicadas por esses terapeutas
estão a inundação ou imersão, exposição gradual, inversão de hábito e até a instrução
paradoxal. Essas técnicas, consideradas pioneiras nessa época, tiveram uma maior
divulgação nas décadas seguintes.

Figura 3.

Fonte: <http://aaapucrio.com.br/existencia-finitude-e-transitoriedade-bases-para-uma-psicologia-existencial/>.
Acesso em: 14/11/2016.

20
REVISÃO TEÓRICA │ UNIDADE I

Kazdin (1985) afirma que a Terapia Comportamental evoluiu a partir do nascimento


do Behaviorismo na América, do desenvolvimento das pesquisas em Psicologia da
Aprendizagem e em Fisiologia na Rússia. Esse avanço científico contribuiu para o
surgimento das quatro categorias principais dentro da Terapia Comportamental que são:

1. Orientação do Condicionamento Respondente.

2. Orientação do Condicionamento Operante.

3. Teoria da Aprendizagem Social.

4. Modificação do Comportamento Cognitivo.

A categoria orientação baseada no condicionamento respondente e a categoria


baseada no condicionamento operante foram as primeiras a serem elaboradas. As
duas modalidades surgiram a partir dos trabalhos de Pavlov (1903, 1919, 1921) –
condicionamento respondente – e de Thorndike (1911) – condicionamento operante –,
no início do século XX. O primeiro, Pavlov, estabeleceu os princípios de condicionamento
respondente, também conhecido como clássico. Já o segundo, Thorndike elaborou a Lei
do Efeito. Segundo Queirós (1973), os estudos de Pavlov e Thorndike inauguraram uma
nova visão na ciência Psicológica que passou a restringir a análise do comportamento
aos eventos observáveis.

Outra contribuição que ajudou não só no desenvolvimento da Terapia Comportamental


como também da Psicologia em geral, foi oferecida por Watson, no início do século
XX. Seus estudos foram baseados na teoria do condicionamento respondente. Em
seu artigo “A Psicologia tal como a vê um behaviorista”, publicado em 1913, Watson
sustentou a tese de que o conceito de hábitos aprendidos poderia explicar a maioria
dos comportamentos das pessoas. Watson afirmou que a Psicologia, do ponto de vista
behaviorista, era basicamente objetiva e experimental; desse modo, não considerava a
introspecção como objeto de análise.

Embora a orientação operante tenha sido inaugurada por Thorndike (1911), essa linha
de pesquisa foi popularizada por Skinner. Segundo Calhoun e Turner (1981), Skinner
é sempre citado como “inventor” dos princípios do condicionamento operante, mas
deve-se creditar a Thorndike sua criação.

Considerando a ordem cronológica dos eventos que marcaram o desenvolvimento da


terapia comportamental, temos:

»» Década de 1920: nessa década foram realizadas as primeiras pesquisas


com base no Condicionamento Respondente. Essa década foi marcada

21
UNIDADE I │ REVISÃO TEÓRICA

por pesquisas sobre reações emocionais, como, por exemplo, o medo.


Ainda, na mesma década, pode-se encontrar trabalhos relacionados ao
alcoolismo. O estudo considerado mais importante é o de Watson e Rayner
(1920). Nesse estudo, os pesquisadores demonstraram a generalização
do medo a outros animais e até a bichinhos de pelúcia, a partir do
condicionamento de um bebê a repostas de medo a um rato branco.
Na mesma década, Jones, aproveitando os estudos Watson e Rayner,
demonstrou em seu experimento a possibilidade de extinção do medo
de animais nas crianças. Em 1925, Krasnogorsky apresentou a técnica
de inundação para a superação de neuroses experimentais em pacientes
infantis. Já em 1929, Kantorovich aplicou procedimentos terapêuticos
aversivos para tratamento de pacientes portadores de alcoolismo.

»» Década de 1930: os estudos do behaviorista Watson continuavam


avançando. Os objetivos do pesquisador consistiam em superar estagnação
gerada pelo método introspectivo, além de oferecer uma base mais segura
na produção de conhecimentos. Destaca-se, nessa década, a publicação
da obra de Hull, em 1935, intitulada “The Confliting Psychologies of
Learning”. Essa obra representou uma grande contribuição no sentido
da formulação de uma base teórica mais rigorosa. A partir de então, foi
introduzida a análise de varáveis intervenientes ou de determinantes
internos no comportamento na orientação operante. A Psicologia da
Aprendizagem começou a dar grandes contribuições na explicação da
aquisição do comportamento. Nesse sentido, começaram a surgir diversas
teorias da aprendizagem; entre elas, a Teoria da Aprendizagem Contígua
de Guthrie, em 1935. Na mesma época, destacam-se, ainda, os estudos de
Thorndike, em 1932, que demonstrou a importância das consequências no
controle do comportamento. O estudo de Thorndike contribui para Skinner
desenvolver, entre 1935 e 1937, seu estudo para a elaboração de tese sobre
paradigma do condicionamento operante. Skinner contribuiu também
na formalizar a distinção entre as metodologias desenvolvidas por Pavlov
e Thorndike. Para essa distinção, Skinner introduziu as terminologias
condicionamento respondente e condicionamento operante.

»» Década de 1940: a partir da década de 1940 o behaviorismo passou a


explicar o comportamento a partir, também, das definições de instinto,
percepção e pensamento. Guthrie (1942) definiu o estímulo em termos
perceptuais. Na sua definição, o autor considerou o significado da percepção
para o organismo, tentando avançar em relação à definição da resposta
considerada como sendo um movimento no espaço. Ficaram, desse

22
REVISÃO TEÓRICA │ UNIDADE I

modo, caracterizadas as bases para o surgimento de uma nova postura


behaviorista, que emergiu somente a partir da década seguinte. Skinner,
em 1945, desenvolveu sua própria filosofia da Ciência do Comportamento
– o Behaviorismo Radical. É com esse nome que a posição desse autor é
conhecida até hoje. Na crítica de Skinner ao Behaviorismo Watsoniano, o
pesquisador argumentava que a proposta de Watson não alcançou êxito
por nunca ter conseguido explicar de maneira adequada o comportamento
verbal. Outro estudioso considerado importante na década de 1940
foi Salter. Em 1941, com base nos trabalhos de Pavlov sobre excitação e
inibição, Salter elaborou técnicas de auto-hipnose para o autocontrole,
para o tratamento da gagueira, para o hábito de roer unhas e para a insônia.
O autor apresentou base conceitual de suas técnicas no livro “Conditioned
Reflex of Personality”, publicado em 1949. Kazdin (1985) destaca como
pontos importantes nos estudos de Salter a elaboração das técnicas de
modificação do comportamento semelhantes às práticas de treinamento
assertivo, de dessensibilização sistemática, de autocontrole, de ensaio
comportamental e do tratamento baseado na imaginação, muito utilizadas
até hoje. Na década de 1940, outro estudioso que apresentou trabalho de
destaque nas pesquisas sobre terapia comportamental foi Masserman
(1943). Em suas pesquisas com gatos, o pesquisador investigou as bases
orgânicas das neuroses. O pesquisador encontrou que a aprendizagem tem
um papel muito importante na aquisição de comportamentos desajustados.
Outra pesquisa feita na mesma década foi a de Sherrington, em 1947, que
descobriu o princípio da inibição recíproca, utilizado amplamente na
prática clínica até os dias atuais.

»» Década de 1950: o trabalho de Wolpe, em 1952, na África do Sul, é


considerado um dos mais importantes na década de 1950 na evolução dos
estudos da Terapia Comportamental. Wolpe queria aproveitar os achados
da Psicologia da Aprendizagem para sua utilização no desenvolvimento
de técnicas de tratamento clínico. Para Kazdin (1985), as investigações
de Wolpe foram sustentadas pelos princípios do condicionamento
respondente de Pavlov, na teoria da aprendizagem de Hull, no estudo do
condicionamento de Watson e Rayner e nos resultados da pesquisa de
Sherrington. Wolpe apresentou, então, como resultado do seu estudo, a
técnica de dessensibilização sistemática, em 1958.

Na Inglaterra foram publicados dois trabalhos de destaque por Eysenck


e Shapiro. O primeiro publicou o livro “The Effects of Psychotherapy:
an evaluation”. Nessa publicação, o autor critica abertamente as práticas

23
UNIDADE I │ REVISÃO TEÓRICA

psiquiátricas e psicológicas tradicionais. O autor buscou evidência


científica que comprovasse a melhora do paciente pela terapia e não
por outros fatores que acontecem paralelos ao tratamento. Shapiro, em
1952, adotou procedimentos próprios da Psicologia Experimental na sua
prática psicoterápica. O pesquisador manipulou de maneira sistemática a
variável independente “comportamento anormal”. Shapiro sustentou que
o Psicólogo deveria formular suas próprias hipóteses a respeito do seu
paciente, sem a necessidade de recorrer à bateria de testes. Já na América,
tem destaque o trabalho de Dollard e Miller, em 1950. Os pesquisadores
inovaram ao elaborar um modelo teórico de comportamento anormal. A
partir do modelo criado, elaboraram métodos de tratamento e aplicaram
em estudos de anormalidades específicas. Keller e Shoenfeld, em 1950,
contribuíram na análise experimental do comportamento e na aplicação
dos princípios básicos do comportamento em diversos contextos da
vida diária. Em 1953, Skinner sugeriu que as contingências de reforço
estabelecidas pelo Psicoterapeuta são os principais eventos ambientais
responsáveis por qualquer mudança comportamental apresentada pelo
paciente. Já em 1957, Skinner, em sua publicação “Comportamento
Verbal”, definiu as unidades funcionais do comportamento verbal e
as variáveis da qual este comportamento é uma função. Para Skinner,
o comportamento verbal é mediado pelo ouvinte, enfatizando o papel
da sociedade na modelagem e manutenção do tal comportamento. Da
análise do comportamento verbal como condicionamento operante, se
desencadearam pesquisas sobre condicionamento verbal. Esses estudos
tiveram como propósito investigar a influência do experimentador sobre
as verbalizações do sujeito. Os resultados apresentados pelos estudos
demonstraram a importância do condicionamento verbal operante
para a interação entre o terapeuta e o paciente. Os mesmos estudos
contribuíram, também, para a aplicação dos princípios da aprendizagem
na análise do comportamento verbal em sessões de psicoterapia. Em 1958,
tem-se importante contribuição no avanço da terapia comportamental
com a publicação do primeiro exemplar do “Journal of the Experimental
Analysis of Behavior”, caracterizado como sendo um dos principais
canais de divulgação da produção científica da área.

»» Década de 1960: uma das maiores evidências dessa década foi a distinção,
cada vez mais definida, entre os paradigmas operante e respondente – no
caso do paradigma operante ocorreu uma aplicação mais diversificada;
já em relação ao paradigma respondente, uma aplicação mais restrita.

24
REVISÃO TEÓRICA │ UNIDADE I

Dessa forma, a orientação de aplicação respondente foi sendo cada vez


mais utilizada em situações clínicas, com enfoque nos comportamentos
neuróticos, utilizando técnicas que diminuíssem a ansiedade do paciente.

Os principais autores publicados nessa década foram: Eynseck, duas


publicações – 1900a e 1960b – e Wolpe, uma publicação em 1966. O
primeiro estudo de Eynseck, na década, apresentou casos que utilizaram
variações dos procedimentos de condicionamento respondente; já a
segunda publicação de Eynseck, demonstrou que as reações neuróticas,
tanto de seres humanos como de animais, não são facilmente elimináveis
pela sua simples expulsão; propôs técnicas de intervenção, utilizando
a estratégia inibição recíproca e o contracondicionamento gradativo
da ansiedade. A obra de Wolpe apresentou resultados baseados na
aplicação da dessensibilização sistemática em pacientes fóbicos. Em
paralelo, a orientação operante passou a diversificar sua área de atuação,
fundamentando-se no pressuposto de que o comportamento dos
organismos é uma função direta do ambiente; sendo assim, o ambiente que
ele ocorre seria o melhor lugar para alterar o comportamento-problema
(QUEIRÓS, 1973). Dois autores tiveram grande impacto na atuação dos
terapeutas comportamentais dessa década – Ullmann e Krasner. Eles
tiveram suas obras publicadas em 1965 e 1969, respectivamente. A obra
de Ullmann reuniu uma coletânea de estudos de caso, realizados por
diversos pesquisadores, com orientação respondente e operante. A obra
de Krasner demonstrou resultados de estudo que confirmou a tese de que
o comportamento anormal é aprendido a partir de suas consequências,
igualmente ao comportamento considerado normal. A publicação do
primeiro número do “The Journal of Applied Behavior Analysis”, em
1968 é considerada outra grande contribuição para o desenvolvimento
da Terapia Comportamental. Como primeira consequência, o título desse
periódico introduziu a expressão “Análise do Comportamento Aplicada”,
que passou a ser empregada na denominação da orientação operante.

»» Década de 1970: para Martin e Pear (1983), nessa década a Terapia


Comportamental foi consagrada mundialmente. Segundo os autores,
a partir dos anos 1970, contribuições importantes no desenvolvimento
da Terapia Comportamental foram publicadas em diversas partes do
mundo. Como exemplos, podem ser citadas as pesquisas com treino para
aquisição de comportamento social em crianças pequenas, avaliação
comportamental de crianças portadoras de deficiências, terapia sexual,
autocontrole para tabagismo, obesidade, alcoolismo, entre outras.

25
UNIDADE I │ REVISÃO TEÓRICA

Foi nessa década, também, que os terapeutas comportamentais, de


orientação operante, começaram a se interessar pela avaliação sistemática
e o desenvolvimento de métodos para melhorar diversas áreas da
sociedade, tais como: controle ambiental, integração social, uso de
transporte coletivo, planejamento ambiental, funcionamento da máquina
governamental, reforma de presídios, política de empregos e reforma
econômica. A presença de terapeutas comportamentais foi cada vez mais
vista nas áreas médica, de psicologia comunitária e organizacional, lazer
e educação física.

Já com relação à aplicação da orientação respondente, a dessensibilização


sistemática passou a ser considerada como modelo para o tratamento de
fobias. Ainda nessa década, surgiu a Teoria da Aprendizagem Social de
Bandura, em 1977, e a tese da Modificação de Comportamento Cognitiva
de Ellis, em 1974, e Beck, em 1979. A publicação das obras “Prática da
Terapia Comportamental”, de Wolpe, em 1973, “Behavior Therapy”, de
Yates, em 1970 e “Behavior Therapy”, de Rimm e Masters, em 1979, são
consideradas, também, grandes contribuições no desenvolvimento dos
estudos para a prática da Terapia Comportamental.

»» Década de 1980: nessa década, a publicação Manual de Psicoterapia


Comportamental, organizada por Lettner e Rangé, em 1987, é considerada
muito importante para a Terapia Comportamental no Brasil. Segundo
Barcellos e Haydu (1998), por meio da análise desse material pode-se
constatar a influência da abordagem cognitiva na terapia comportamental.
Mas, por outro lado, diversos autores contestaram essa posição e
apesentaram trabalhos com propostas de intervenção terapêutica baseada
no Behaviorismo Radical e na análise do comportamento verbal. Nessa
linha, destacam-se os trabalhos de Hayes (1987) “A contextual approach
to therapeutic change” e o de Kohlemberg e T´Sai (1987) “Functional
analitic psichotherapy” (BARCELLOS; HAYDU, 1998). Os trabalhos de
Hayes e de Kohlemberg e T´Sai marcaram as tendências contemporâneas
dentro da Terapia Comportamental.

»» Década de 1990: o início da década de 1990 foi marcado pelo


aparecimento de clínicos voltados para uma prática não tecnicista
dentro de uma orientação operante, que tentaram resgatar as ideias do
Behaviorismo Radical. Mais para o fim da década, pode-se encontrar
terapeutas preocupados com a prática da terapia comportamental
baseada nos estudos de Skinner, na tentativa de fazer um trabalho menos

26
REVISÃO TEÓRICA │ UNIDADE I

tecnicista e mais orientado para a análise do comportamento. Follette,


Bach e Follette (1993) propuseram a redefinição do conceito de saúde
mental, assim como a elaboração de um sistema alternativo no Diagnostic
Statistic Manual – DSM III – R.

Para os autores, a avaliação dos resultados da interação terapêutica


deveria discriminar as pessoas e os seus comportamentos, analisando
cada elemento da contingência de três termos e não deveria equiparar-se
à avaliação do comportamento patológico. Ou seja, a definição de saúde
mental deveria considerar os termos para o comportamento saudável e
não o comportamento patológico.

Os autores defendiam que indivíduos psicologicamente saudáveis são


aqueles cujos comportamentos estão sob o controle das contingências em
vez de estarem excessivamente sob o controle de regras. Nessa década,
segundo Barcellos e Haydu (1995), o surgimento da terapia comportamental
cognitiva levou os pesquisadores da área operante a desenvolver várias
investigações com seres humanos o que contribuiu para que Skinner, em
1966, desenvolvesse o conceito de Comportamento Governado por Regra.
Sant’Anna (1994) examinou a importância do papel da história de vida
do paciente no controle e na previsão do comportamento-problema. Esse
autor encontrou que as contingências atuais controlam e determinam o
comportamento manifesto; porém, a intervenção clínica pode contribuir
na história do indivíduo a partir do momento presente. Kohlemberg,
T´Sai Dougher, em 1993, analisaram a interação verbal que ocorre na
sessão psicoterápica, de acordo com os princípios de formação de classes
de equivalência. No mesmo ano, Hayes e Wilson encontraram que, nas
situações clínicas, a mudança na forma de analisar as relações verbais
implica num grande avanço para o tratamento.

27
28
Quadro 1. Resumo dos acontecimentos históricos na evolução da terapia comportamental.

Acontecimentos históricos na evolução da terapia comportamental

Fim do século XIX e Década de 1980 até os


Década de 1920 Década de 1930 Década de 1940 Década 50 Década de 1960 Década de 1970
começo do século XX dias de hoje

Técnicas precursoras Mais aplicações de dessessibilização,


das atuais técnicas de Condicionamento experimental treinamento de assertividade e terapia aversiva
inundação, de terapia de medos infantis (Watson e “Prática Negativa” (Dunlap, a uma variedade de problemas neuróticos Continua a tendência da
aversiva etc. Rayner, 1920). 1932) Pesquisas sobre neurose experimental. Obra de Dollard e Muller (1950). clássicos. Muitos livros e publicações adicionais. década anterior

Desenvolvimento da
Dessensibilização Sistemática
Desenvolvimento da Descondicionamento de medos Teria da Aprendizagem por com base no Princípio da Inibição
fisiologia na Russia. infantis (Jones, 1942) Contiguidade (Guthrie, 1935). Princípios de Extinção/Inibição (Salter, 1949). Recíproca (Wolpe, 1952). Muita pesquisa adicional.
UNIDADE I │ REVISÃO TEÓRICA

Orientação
Surgimento do Procedimentos terapêuticos Tratamento de crianças com Técnicas precursoras de Treinamento Assertivo, Continua a aplicação de dessensibilização
Respondente
Behaviorismo de Watson aversivos para o tratamento do enurese (Mowrer e Mowrer, Dessensibilização Sistemática, Autocontrole, Estudo de casos individuais sistemática para o tratamento das fobias
nos EUA (1913). alcoolismo (Kantorivich, 1929) 1938). Ensaio Comportamental e “Imaginação” (Shapiro). Centros Universitários de treinamento clínicas.

Revista Behavior Research and Therapy


Inibição recíproca (Sherrington, 1947). (Eysenck, 1963).

Behavior Therapy and the neurosis: estudo de


casos em que eram aplicadas variações dos Emergência da Terapia Compportamental
procedimentos de condicionamento respondente Cognitiva e da Teoria da Aprendizagem
e de inibição recíproca (Eysenck, 1960). Social.

Publicação do Manual de
Surgimento da Psicologia Case Studies in behavior modification (Ullman e Psicoterapia Comportamental
Eventos
Experimental (1913). Teoria da Aprendizagem de Hull (1943). Krasner, 1965). (Lettner e Rangé, 1987).
históricos que
influenciaram
Progressos na área do
ambas as
Insatisfação com a comportamento verbal
abordagens
Psiquiatria e a Psicologia Integração da Orientação Respondente e da A psychological approach to abnormal behavior (comportamento governado
tradicionais. Orientação Operante (Ullman e Krasner, 1969). por regras).

Extensão dos princípios experimentais Extensão dos princípios Diversas obras sobre Terapia
operantes a diferentes áreas da vida social experimentais operantes a diferentes Comportamental: Prática da Terapia Abordagens terapêuticas não
Lei do Efeito (Thorndike, humana, por meio da análise funcional do áreas da Análise Funcional do Mais aplicações: Economia de fichas com Comportamental (Wolpe, 1970); Behavior tecnicistas (Haues, 1987;
1931, 1932, 1933). comportamento Comportamento (Skinner, 1953). psicóticos (Ayllon e Azrin, 1965 e 1968). Thrapy (Rimm e Masters, 1979) Kohlemberg e T´Sai, 1987)

Distinção entre aprendizagem Aplicação de procedimentos Condicionamento verbal (Isaacs, Tomas e


operante e respondente Alguns estudos e aplicações: pacientes operantes a pacientes psicóticos Goldiamond, 1960; Richard, Digmam e Homer, Terapia Comportamental consagrada
Orientação (Skinner, 1938). profundamente retardados (Puller, 1949). internos (Lindsley e Skinner, 1953). 1960). como movimento mundial.
Operante
Journal of the Experimental Analysis Pesquisas sobre autocontrole (tabagismo,
of Behavior (1958). obesidade, alcoolismo), terapia sexual.

Trabalhos em: integração social,


controle da população ambiental,
teoria econômica, funcionamento
governamental, educação física etc.

Fonte: Barcellos e Haydu, 1998.


MOTIVAÇÃO │ UNIDADE II

MOTIVAÇÃO Unidade iI

O conceito mais amplo de motivação estabelece que é um processo interno que nos
leva a buscar satisfação para as nossas necessidades. Etimologicamente, a palavra
“motivação” é derivada do latim movere, que significa mover para realizar determinada
ação. O termo motivação é utilizado amplamente em compêndios de Psicologia e em
outras ciências que tratam do comportamento humano; pode ser estudado em diferentes
contextos com diferentes significados. Eis algumas definições:

A motivação é encarada como uma espécie de força interna que emerge,


regula e sustenta todas as nossas ações mais importantes. Contudo, é
evidente que motivação é uma experiência interna que não pode ser
estudada diretamente.
(VERMON, 1973, p.11)

A motivação é um aspecto intrínseco às pessoas, pois ninguém pode


motivar ninguém. A mesma passa a ser entendida como fenômeno
comportamental único e natural e vem da importância que cada um
dá ao seu trabalho, do significado que é atribuído a cada atividade
desse trabalho e que cada pessoa busca o seu próprio referencial de
autoestima e autoidentidade.
(BERGAMINI, 1997, p.54)

Motivo é tudo aquilo que impulsiona a pessoa a agir de determinada


forma, isto é, tudo aquilo que dá origem a alguma propensão a um
comportamento específico.
(CHIAVENATO 1982, p. 414)

É o processo de estimular um indivíduo para que tome ações que irão


preencher uma necessidade ou realizar uma meta desejada.
(MONTANA, 1999, p. 203)

Outros autores, além de definirem o termo motivação, elaboraram teorias que são
utilizadas em diversas situações, principalmente em contextos organizacionais.

29
UNIDADE II │ MOTIVAÇÃO

»» Abraham Maslow: o autor se baseou no pressuposto de que o homem


é um eterno insatisfeito. Sendo assim, para superar sua insatisfação,
apresenta uma série de necessidades que precisam ser atendidas. A partir
de pesquisas realizadas com base no comportamento humano, Maslow
encontrou que todo indivíduo é motivado por cinco tipos de necessidades,
que são: fisiológicas, segurança, sociais, estima e autorrealização. A base
da teoria de Maslow é que à medida que as necessidades básicas que
formam a qualidade de vida são preenchidas, o indivíduo pode deslocar
seu desejo para necessidades mais elevadas.

Figura 4.

Fonte: adaptada de Maslow.

»» Skinner: também estudou motivação. Para ele, motivação funciona


como um condicionamento da mente.

»» Kurt Lewin: em seu estudo sobre motivação, considerou a influência do


meio ambiente sobre o indivíduo.

»» Murray e Maslow: consideraram a questão das necessidades humanas


como ponto determinante da motivação.

Historicamente, motivação tem sido considerada como importante variável no estudo do


comportamento humano. O que desafia cada vez mais os pesquisadores é compreender
que o estudo se refere a um amplo arcabouço teórico e metodológico da psicologia. A
base dos estudos tem sido fundamentada na descrição e no tratamento das variáveis que

30
MOTIVAÇÃO │ UNIDADE II

interferem no comportamento do indivíduo. As análises feitas sobre qual a importância


que a motivação exerce na explicação do comportamento dos indivíduos refletem os
esforços dos pesquisadores para esclarecer uma questão básica: por que os indivíduos
se comportam dessa ou daquela maneira?

O estudo da influência da motivação nos leva a questionar sobre a natureza das


variáveis motivacionais que tem sido caracterizada tanto por processos internos quanto
por eventos do ambiente externo. Os analistas do comportamento defendem que as
variáveis motivacionais são derivadas do ambiente, ou seja, variáveis ambientais.

O conceito de motivação, ao longo dos anos, teve diversas acepções, envolvendo,


principalmente, instinto e impulso como protagonistas da sua causa. O impacto dos
conceitos envolvendo impulso sempre foi mais forte. Exemplo que confirma essa
afirmativa é o de Clark Hull (1884-1952) que fundamentou seu estudo na experiência.
Os behavioristas, nessa época, pesquisavam os processos de aprendizagem –
condicionamentos clássico e operante. Esses estudos, porém, explicavam como o
sujeito aprende determinado comportamento, porém, não deixavam claro o que leva
o indivíduo a realizá-lo. Hull, por sua vez, procurou explicar esse fato, a partir da sua
Teoria da Redução do Impulso. Para o pesquisador, todo comportamento é motivado
por impulsos de homeostase – equilíbrio do corpo. O comportamento cessa quando a
tensão da pulsão é eliminada. Segundo Hull, o processo ocorre da seguinte forma:

Figura 5.
Surge um impulso capaz de mover o
Produz-se uma A necessidade provoca
organismo para satisfazer a necessidade,
necessidade um desequilíbrio interno.
eliminando o desequilíbrio interno.
Fonte: adaptado pela autora.

O conceito de motivação associado à Análise do Comportamento apareceu pela primeira


vez na obra de Skinner “O comportamento dos organismos” (1938). Nessa obra, o autor
discute os conceitos de privação, de saciedade, de estimulação aversiva e de emoção.
Para o autor, os organismos privados de estímulos necessários à sua sobrevivência
estão mais motivados a apresentar comportamentos que resultam na produção desses
estímulos e os organismos saciados estariam menos motivados a apresentar esses
mesmos comportamentos.

Michael (1983), a partir dos estudos de Skinner, propôs a tese de que os estímulos
podem ter dois papéis importantes em uma relação comportamental. Segundo ele,
os estímulos poderão mudar o repertório do indivíduo ou poderão evocar respostas
que o indivíduo já aprendeu anteriormente. E, sendo assim, as operações motivadoras
poderão exercer esses dois papéis diferentes, a depender da ocasião. Assim, segundo

31
UNIDADE II │ MOTIVAÇÃO

o autor, operações motivadoras são eventos que devem ser considerados quando se
trata de comportamento, fazem parte do ambiente que interage com o organismo, e o
resultado dessa interação é: organismo e ambiente modificados.

Pode-se também definir operações motivadoras como sendo os eventos antecedentes


que alteram a intensidade do estímulo reforçador, aumentando ou diminuindo, que
também evocam classes de respostas contiguas ao estímulo reforçador. As operações
motivadoras podem ser divididas em duas principais categorias, que são: Operações
estabelecedoras e Operações abolidoras.

Figura 6.

Fonte: elaborado pela autora.

Com relação à afirmação de que as operações motivadoras alteram a efetividade dos


estímulos, deve-se atentar para as duas possibilidades: aumentar ou diminuir tal
efetividade. Aureliano e Borges (2012) afirmam que o termo operação estabelecedora
refere-se aos eventos ambientais que tornam as respostas de uma classe operante mais
prováveis de serem emitidas por aumentarem a efetividade reforçadora ou diminuírem
a efetividade punidora da consequência. Os autores acrescentam que, por outro lado, o
termo operação abolidora refere-se àqueles eventos que tornam respostas dessa classe
operante menos prováveis de ocorrerem, por diminuírem a efetividade reforçadora ou
aumentarem a efetividade punidora da consequência. Em outras palavras, completam
os autores, as operações estabelecedoras estão relacionadas ao aumento da frequência
de respostas, enquanto as operações abolidoras referem-se à diminuição da frequência
de respostas. Concluem que ambas as operações – estabelecedoras e abolidoras –, são
operações motivadoras.

32
Capítulo 1
Operações estabelecedoras

A expressão operações estabelecedoras refere-se genericamente às operações


motivadoras que aumentam a força de um estímulo reforçador.

Michael (1983) iniciou seus estudos na tentativa de associar variáveis motivacionais


aos conceitos de operações estabelecedoras. O propósito inicial do pesquisador era o de
apresentar um novo conceito que abarcasse os eventos ambientais, tanto os de origem
filogenéticas1 quanto os de origem ontogenéticas2, que produzissem o mesmo efeito
das variáveis estudadas por Keller (1950, 1974), Skinner (1953) e Millenson (1967).
O segundo objetivo de Michael era o de discriminar as funções comportamentais das
atribuídas às variáveis ambientais antecedentes que elevam a probabilidade de respostas
motivadas pela disponibilidade diferente de reforço – estímulos discriminativos.

Michael (1982,1993), ao estudar o conceito de operação estabelecedora, incluiu um


tipo de variável motivacional aprendida que não havia ainda sido estudada pelos seus
antecessores – Skinner, em 1938 e 1953, Keller e Schoenfeld, em 1950 e Millenson, no
ano de 1967.

Michael (1983) definiu a operação estabelecedora como sendo uma variável ambiental
que afeta os organismos de duas formas:

»» altera a efetividade reforçadora de algum objeto, evento ou estímulo,


denominado efeito estabelecedor do reforço – essa alteração ocorre
momentaneamente –; e

»» altera a frequência de um tipo de comportamento que foi reforçado por


aquele objeto, evento ou estímulo, denominado efeito evocativo – essa
operação ocorre momentaneamente.

Pereira (2008) apresenta, como exemplo, uma pessoa privada de alimento por mais
de um dia – operação estabelecedora; um prato de comida será, momentaneamente,
reforçador – efeito estabelecedor de reforço –, para todas as respostas que no passado
tenham sido relacionadas com a sua obtenção e essas respostas serão emitidas numa
frequência maior enquanto a privação durar – efeito evocativo – do que se essa pessoa
estivesse saciada – operação estabelecedora.
1 Filogenia (ou filogênese) – significa estudo da relação evolutiva entre os grupos de organismos, que podem ser espécies,
populações etc., que é descoberto por meio do sequenciamento de dados moleculares e matrizes de dados morfológicos.
2 Ontogenético – estudo da origem e do desenvolvimento de um organismo desde o embrião. A personalidade é formada pela
interação entre as características da espécie – filogenia –, o histórico de desenvolvimento e aprendizagem – ontogenia – e
contexto sociocultural.

33
UNIDADE II │ MOTIVAÇÃO

Michael (1982) acrescentou aos seus estudos o esboço de uma primeira classificação
das operações estabelecedoras que, notadamente, distingue as operações que alteram
a eficácia dos reforçadores incondicionados das operações que alteram a eficácia
dos reforçadores condicionados sem, no entanto, provocar alteração na eficácia dos
reforçadores incondicionados, que ele denominou estímulo estabelecedor. Para o autor,
os reforçadores incondicionados têm seus efeitos provocados pela história da espécie;
já os reforçadores condicionados têm seus efeitos advindos da história individual do
organismo.

Figura 7.

Fonte: elaborado pela autora.

Continuando suas pesquisas, em 1988 Michael incluiu variáveis de origem filogenética


e substituiu a denominação operações estabelecedoras por operações estabelecedoras
incondicionadas. Substituiu, também, a denominação estímulo estabelecedor, de
origem ontogenética, por operações estabelecedoras condicionadas. A distinção passa
a ser feita agora pelo tipo de história do organismo – filogenética ou ontogenética,
condição exigida para produzir o efeito estabelecedor e não mais pelo estímulo
reforçador estabelecido – incondicionado ou condicionado.

Em 1993, Michael propõe, então, a categorização das operações estabelecedoras em


dois tipos, a saber:

Operações estabelecedoras incondicionadas

Por se tratarem de operações de origem filogenética, ou seja, variam de espécie para


espécie. Essas operações motivadoras acontecem sem treinamento prévio, isso por que o
organismo possui “sensibilidade” à operação. Os resultados da alteração da eficácia desse
tipo de reforço englobam eventos ou estímulos reforçadores incondicionados. Surge,
portanto, o nome operações estabelecedoras incondicionadas. Cunha e Isidro-Marinho
(2005) argumentam que nascemos com a capacidade de termos nossos comportamentos
reforçáveis por alimentos ou pela cessação ou redução de estímulos aversivos. Porém,
é importante observar que determinados aspectos do ambiente podem aumentar ou
reduzir a eficácia desses reforços. Os autores acrescentam que, apesar desses reforços
serem incondicionados, o comportamento evocado por uma operação estabelecedora

34
MOTIVAÇÃO │ UNIDADE II

incondicionada (verificado pelo efeito evocativo) é sempre aprendido. Como ilustração


da sua afirmação, citam como exemplo a privação de água torna a água mais efetiva
como forma de reforçador para os mamíferos, como resultado dessa operação, sem que
haja história de aprendizagem. Porém, completa os autores, para esses organismos o
repertório comportamental para adquirir água será sempre aprendido.

Cunha e Isidro-Marinho (2005) apresentam exemplos de operações estabelecedoras


incondicionadas e seus respectivos efeitos:

Figura 8.

35
UNIDADE II │ MOTIVAÇÃO

Fonte: adaptado de Cunha e Isidro-Marinho, 2005.

Para Michael (1993) existem quatro tipos de efeitos comuns às operações estabelecedoras,
que são:

1. Efeito estabelecedor de reforçamento: refere-se a uma operação


estabelecedora, que altera a efetividade reforçadora (ou punidora) de
um estímulo, momentaneamente. Por exemplo, a privação de água, em
sendo uma operação estabelecedora, aumentaria a efetividade da água
como reforçador.

2. Efeito evocativo/supressivo da operação estabelecedora:


imediatamente evoca ou suprime comportamentos que no passado
produziram consequências em que a efetividade tenha sido alterada no
efeito estabelecedor de reforçamento. Assim, o fenômeno privação de
água, como um evento antecedente (OE) evoca qualquer comportamento
que tenha sido seguido pela apresentação de água.

3. Efeito evocativo/supressivo do SD: aumenta a efetividade evocativa


ou supressiva de todos os estímulos discriminativos (SDs) que tenham
sido correlacionados com o estímulo reforçador ou punidor no efeito
estabelecedor de reforçamento. Em um experimento de discriminação
simples, uma luz na caixa operante é correlacionada com a disponibilidade
diferencial de reforçamento. A efetividade evocativa da luz depende do
grau de privação do sujeito (OE).

4. Efeito sobre o reforçamento/punição condicionada: aumenta ou


reduz a efetividade reforçadora/punidora de qualquer reforço/punidor
(condicionado) cuja efetividade depende do reforçador/punidor no efeito
estabelecedor de reforçamento.

Para operações estabelecedoras incondicionadas, Michael (1993), identificou nove


tipos, que são:

1. estimulação dolorosa;

36
MOTIVAÇÃO │ UNIDADE II

2. diminuição da temperatura abaixo das condições de adaptação e de


conforto;

3. aumento da temperatura acima das condições de adaptação e de conforto;

4. variáveis relacionadas ao reforçamento do comportamento sexual;

5. de privação e de saciação de água;

6. de privação e de saciação de alimento;

7. de privação e de saciação de oxigênio;

8. de privação e de saciação de atividade;

9. de privação e de saciação de sono.

Figura 9.

Fonte: <http://www.acritica.com/uploads/news/image/61372/show_i1462.jpg>. Acesso em: 23/1/2017.

Operações estabelecedoras condicionadas

As operações estabelecedoras condicionadas estão relacionadas à história de


reforçamento do organismo, ou seja, são de origem ontogenética. Ela pode ser distinguida
das operações estabelecedoras incondicionadas com base no efeito estabelecedor
do reforço, o evento reforçador pode ser inato (incondicionadas) ou aprendido
(condicionadas). Assim, esse grupo de operações estabelecedoras, condicionadas, inclui
as operações em que o efeito de estabelecimento do reforçador é aprendido. Portanto, são
as operações cuja alteração no valor de um evento como reforçador depende da história
individual do organismo. A distinção entre operações estabelecedoras incondicionadas
e condicionadas depende, então, somente do efeito estabelecedor, que poderá ser inato
ou aprendido, eliminando, assim, o efeito evocativo. Como exemplo, a privação de água

37
UNIDADE II │ MOTIVAÇÃO

altera a efetividade de água (reforçador incondicionado) independente de qualquer


aprendizagem. A função evocativa, porém, de qualquer operação estabelecedora, quer
operação condicionada ou operação incondicionada, depende de aprendizagem, já que
só pode evocar comportamento operante.

As operações estabelecedoras condicionadas foram, inicialmente, classificadas por


Michael em apenas duas categorias:

»» As operações estabelecedoras condicionadas constituídas


pelos estímulos aversivos condicionados: sempre que estiver em
vigor, estabelece sua própria remoção, como reforçadora.

»» As operações estabelecedoras condicionadas de resposta


bloqueada: estabelecem a eficácia momentânea de outros eventos
ambientais como reforçadores condicionados. Michael (1982) denominou
esse evento de estímulo estabelecedor.

Em 1993, o autor mantém as duas categorias – incondicionadas e condicionadas –


na classificação geral das operações estabelecedoras, mas inclui outras subdivisões.
No caso das operações estabelecedoras condicionadas, o autor divide em: operação
estabelecedora condicionada substituta, operação estabelecedora condicionada
reflexiva, operação estabelecedora condicionada transitiva.

»» Operação estabelecedora condicionada substituta: é considerada


como a mais simples das categorias definidas pelo autor. Seu principal
requisito é uma correlação temporal sistemática de um evento neutro
com outro que tenha atuado na condição de operação estabelecedora,
que pode ser incondicionada ou condicionada. O resultado da correlação
entre os dois eventos é que o estímulo, previamente neutro, poderá
adquirir as características motivacionais da operação estabelecedora com
a qual foi pareada. Pereira (2008) afirma que a suposição sobre a possível
criação de uma operação estabelecedora condicionada substituta baseou-
se nos dados que já existem sobre o pareamento de varáveis neutras com
outras que tenham algum efeito sobre o comportamento, como maneira
eficaz de conferir às neutras algumas das propriedades comportamentais
das que já produziram algum efeito sobre o comportamento. No exemplo
apresentado, Michael (1993a) sugere parear sistematicamente situações
de privação de alimentos a um som e, em seguida, observar a capacidade
de o som produzir efeitos semelhantes aos produzidos pela privação de
alimentos.

38
MOTIVAÇÃO │ UNIDADE II

»» Operação estabelecedora condicionada reflexiva: foi inicialmente


apresentada por Michael em 1988, mas não havia, na ocasião, um
termo específico para categorizá-la. Pereira (2008) descreve esse tipo
de operação estabelecedora condicionada afirmando que consiste na
relação que ocorre entre um evento que precede sistematicamente
alguma estimulação aversiva e cuja remoção resultará na não ocorrência
da estimulação aversiva como nos procedimentos de esquiva sinalizada.
Completa o autor, o nome reflexivo foi atribuído porque o estímulo
aversivo condicionado estabelece sua própria remoção como reforçador
e aumenta a frequência de respostas relacionadas a essa remoção.
Como exemplo, Michael (1993a) apresenta a situação na qual um som
(até então estímulo neutro) é seguido de maneira sistemática por um
choque (estímulo aversivo incondicionado) e, quando desligado, evita
o choque, passa a exercer funções semelhantes as do estímulo aversivo
incondicionado. Se, portanto, a remoção do choque é um reforçador
negativo incondicionado, a remoção do som torna-se um reforçador
negativo condicionado.

»» Operação estabelecedora condicionada transitiva: em 1982,


Michael a denominou como estímulo estabelecedor e em 1988 como
operação estabelecedora condicionada de resposta bloqueada. Esse tipo
de operação é caracterizado como uma relação condicional entre um
estímulo e um reforçador/punidor condicionado, de forma tal que apenas
a presença do estímulo provoca manifestação do reforçador/punidor
condicionado e evoca as respostas que o produziram anteriormente.
Miguel (2000) descreve o exemplo citado por Michael (1993 a) em que
o pesquisador descreve o comportamento de um eletricista: “frente a um
parafuso precisa, para desparafusá-lo, de uma chave de fenda”. A visão do
parafuso evocaria o comportamento verbal de solicitar a chave de fenda
a um ajudante, não como um SD, mas sim como uma OEC, por não estar
correlacionada diferencialmente com a obtenção de chaves de fenda,
mas por torná-la, nessa situação, um reforçador condicionado efetivo.
Para que o parafuso seja categorizado como um SD, a chave de fenda
precisaria de (1) estar mais disponível na presença do parafuso do que em
sua ausência e (2) funcionar sempre como um reforçador condicionado.
Entretanto, a chave de fenda estaria igualmente disponível na presença
e ausência do parafuso. A probabilidade que o eletricista tem de obter
a chave de fenda (caso peça a seu assistente) é a mesma, independente
da visão do parafuso. Entretanto, é só na presença do parafuso que a

39
UNIDADE II │ MOTIVAÇÃO

chave de fenda funciona como um reforçador. Já a pessoa para a qual o


eletricista pediu a chave de fenda (o assistente) funcionaria como um SD
para a emissão do pedido, pois se supõe ter existido maior probabilidade
de reforçamento por pedir a chave de fenda na presença do assistente,
que em sua ausência.

Como pode ser observado, um estímulo pode adquirir diferentes funções


comportamentais, e produzir variadas respostas. Pode-se observar, também, que um
mesmo estímulo pode exercer diversas funções estabelecedoras. Miguel (2000) afirma
que a situação de esquiva descreve bem como o estímulo usualmente chamado de
sinalizador pode adquirir diversas funções sobre diferentes respostas. Como exemplo,
o autor, cita o estímulo S1 que foi sistematicamente precedido por um aumento
“desconfortável” de temperatura (OEI). Suponha que S1 poderia ser eliminado antes que
a temperatura aumentasse, nesse caso, a eliminação de S1 faria com que a temperatura
permanecesse “confortável” até que S1 ocorresse novamente. Nesse caso, S1 como um
estímulo sinalizador, exerceria diversas funções:

1. eliciaria, como um estímulo condicionado, respostas relacionadas a um


aumento de temperatura;

2. funcionaria como punidor diminuindo a frequência de qualquer resposta


que o precedesse;

3. evocaria, como uma OEC-S (dado o pareamento entre S1 e o aumento de


temperatura), todo comportamento que no passado foi seguido por um
decréscimo de temperatura;

4. evocaria, como uma OEC-R, todo comportamento que foi seguido pelo
término de S1 (seu próprio término) e;

5. evocaria, como uma OEC-T, todo comportamento precorrente3 à


emissão da resposta que elimina S1, por exemplo respostas visuais para o
operandum que produz a remoção de S1.

3 Comportamentos precorrentes são ações operantes que geram estímulos discriminativos que afetam a probabilidade de
ocorrência de respostas subsequentes. (SKINNER, 1969)

40
Capítulo 2
Operações Abolidoras

A expressão ‘operações abolidoras’ foi escolhida por Michael (2000) para fazer referência
às operações ambientais que suprimem a efetividade de um evento reforçador e a
ocorrência de comportamentos que tenham sido reforçados por esse evento reforçador.
Elas podem ser descritas como sendo um processo que não está relacionado à redução
da efetividade reforçadora/punidora de um estímulo.

Mesmo se considerarmos motivação como uma ação de origem interna, não se pode
deixar de considerar que fatores ambientais influenciam as ações, sentimentos e
pensamentos provocados pela motivação.

Assim, torna-se necessário esclarecer o papel do ambiente na determinação do repertório


comportamental dos indivíduos e, consequentemente, na causa da motivação.

Figura 10.

Fonte: <http://www.comportese.com/2017/03/desafios-da-aba-parte-quais-os-criterios-de-qualificacao-analista-
comportamento-aplicado-ao-autismo>. Acesso em: 9/4/2017.

Para o termo ‘ambiente’ pode-se registrar diversas definições, entre elas tudo que
nos cerca ou lugar onde as coisas acontecem, segundo o dicionário Aurélio. Essa
definição admite que ambiente pode ser compreendido como alguma coisa que existe
independentemente da vontade do indivíduo.

O Behaviorismo propõe definição diferente para ambiente. Tourinho (1997) considerou


que o que cerca os organismos de modo geral é o universo. O autor considerou ambiente
numa forma mais restrita; uma parcela do universo que afeta o organismo. Dessa forma,
para o autor, ambiente seria, pois, a parcela do universo que deverá ser considerada
juntamente com o responder que ele afeta para se falar de comportamento.

41
UNIDADE II │ MOTIVAÇÃO

Considerando que o ambiente faz parte do fenômeno comportamental, pode-se estudar,


então, de que formas esses eventos ambientais afetam as respostas dos organismos.
Para Michael (1983), os eventos ambientais podem exercer dois tipos funções, que são:

»» Evocativas: refere-se a uma mudança imediata, porém temporária,


no comportamento produzida por um evento ambiental, e que altera
o repertório. Ou seja, a apresentação de uma resposta já existente
no repertório de um organismo terá sua probabilidade de ocorrer
momentaneamente alterada – tornando-a mais ou menos provável – de
acordo com o evento ambiental.

»» Alteradoras de repertório: este evento pode ser melhor observado


quando as condições que o precederam estão novamente presentes.
Michael (1983) destaca duas funções importantes para esse tipo de
evento: a de selecionadora, que o ambiente exerce sobre o repertório de
um organismo; e a de tornar o organismo sensível a aspectos do universo.

Considera-se operações motivadoras todo e qualquer evento ambiental. Para essa


afirmação, deve-se atentar para as duas possibilidades:

»» aumento da efetividade e

»» redução da efetividade

O termo operação abolidora serve como referência aos eventos que tornam respostas
de uma classe operante menos prováveis de ocorrerem, por diminuírem a efetividade
reforçadora ou aumentarem a efetividade punidora da consequência. Em outras
palavras, as operações abolidoras referem-se à diminuição da frequência de respostas.
Desse modo, tanto operações estabelecedoras como operações abolidoras, são tipos de
operações motivadoras.
Figura 11.

Fonte: elaborado pelo autor.

42
MOTIVAÇÃO │ UNIDADE II

Aureliano e Borges (2012) apresentam exemplos de operações abolidoras:

»» Um rapaz propõe aos amigos uma feijoada no sábado e, após comerem


a feijoada, os amigos agitam um encontro para o dia seguinte para
continuarem se confraternizando. No segundo encontro, não mais
observamos o rapaz propor a feijoada; no segundo encontro, a feijoada
se constituiu como uma operação abolidora que a tornou menos atrativa,
diminuindo a ocorrência de respostas que tenham como consequência
produzir feijoada, pois, além de não propor a feijoada para o dia seguinte,
o rapaz nem mais vai ao bufê fazer outro prato.

»» Um universitário que apresenta um histórico de fracasso na disciplina


de anatomia: devido a seu pequeno esforço de ler a matéria antes da
prova conseguiu uma nota dois (em uma prova que valia de zero a dez);
consequentemente, ficou retido na disciplina, significando o trancamento
da matrícula no curso. Supõe-se que a reprovação funcionou como
operação abolidora, ou seja, tornou o evento ir à faculdade mais aversivo
e suprimiu sua resposta de frequentá-la.

43
FORMAÇÃO DE Unidade iII
CRENÇAS

Aprendi que não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o
que fazer a respeito.
(William Shakespeare)

A atribuição de significado às diversas situações varia de pessoa para pessoa, a depender


de vários fatores como, por exemplo, origem, família, cultura, faixa de idade, sexo, nível
cultural etc. Significa dizer que não existe uma maneira certa ou errada de perceber a
situação; o que existe são percepções diferentes para a mesma situação apresentada.
As crenças fazem parte do repertório do sujeito, interferem na percepção da situação
apresentada, influenciando diretamente nossos comportamentos, emoções e resultados.

As nossas crenças agem com muita força na nossa vida. Elas nos afetam de modo a atingir
nossa bioquímica, nossas percepções, nossa digestão, nossas glândulas, nosso sistema
imunológico; ou seja, afeta todo nosso organismo físico e psicológico. Têm, também, a
força de nos tornar doentes ou saudáveis. Não é possível agir sem a interferência das
nossas crenças.

O estudo da formação de crenças tem se mostrado muito importante para várias áreas
de conhecimento que têm como objeto de estudo o comportamento humano e as suas
ações. Na área de educação, por exemplo, Nespor (1987) pesquisou o tema formação
de crenças, com a proposição de um modelo. Segundo o autor, as crenças podem agir
de forma individual ou por meio de sistemas. Para ele, a compreensão da origem e
a estrutura das crenças de professores é importante para entender a sua prática de
ensino. O autor acredita, também, que as crenças se inter-relacionam com estruturas
cognitivas e estratégias metacognitivas para definir tarefas relacionadas com o ensino
e para solucionar os problemas enfrentados no processo de ensino e aprendizagem.
Na área da psicologia social, Fishbein e Ajzen (1975) propuseram a Teoria de Ação
Intencional, a partir da elaboração de um ensaio na tentativa de compreender a relação
entre crenças, atitudes, intenção e comportamento. Nesse estudo, consideraram
crenças como tema central em cada disciplina relacionada ao comportamento humano
e à aprendizagem. Para os autores, as crenças funcionam como base informacional
que influencia os comportamentos do indivíduo. Os autores afirmam que as crenças
vinculam atributos a um objeto que pode ser uma pessoa ou grupo de pessoas, uma
ideia, um comportamento etc.

44
FORMAÇÃO DE CRENÇAS │ UNIDADE III

Capítulo 1
Definições e alguns pressupostos

A definição do termo ‘crenças’ não pode ser considerada uma tarefa fácil. É um tema de
características muito abstratas e envolve, como dito no parágrafo anterior, diversas áreas
de conhecimento. O tema já foi estudado por pesquisadores das áreas de: Psicologia
Educacional, Psicologia Cognitiva, Sociologia, Filosofia, Linguística e Educação.

A definição atribuída a crenças por Puchta (1999) estabelece que são filtros de realidade.
Segundo o autor, nossas crenças afetam nossas ações; isso torna difícil separar uma
da outra. As crenças nos levam a interpretar os eventos a partir da percepção do que
acreditamos. Acrescenta o autor, que nossas objeções acabam nos levando a confirmar
nossas crenças. Tendemos a negar o que não acreditamos; assim, nossa realidade é filtrada
e construída a partir daquilo que acreditamos. Segundo o autor, as pessoas interpretam
novas informações e reagem a elas baseadas em ideias pré-existentes sobre esse assunto.

As crenças têm uma função importante, porque elas servem como nossos princípios
orientadores. Elas são generalizações sobre causa e efeito, e elas influenciam a nossa
representação interna do mundo que nos rodeia. Elas nos ajudam a dar sentido a esse
mundo, e determinam a forma como pensamos e agimos. (PUCHTA, 1999)

Figura 12.

Fonte: <http://papsico.blogspot.com.br/2014_02_01_archive.html>. Acesso em 03/12/2016.

A definição dada por Sadalla (1998), admite que as crenças representam uma matriz
de pressupostos que dão sentido ao mundo, não sendo, apenas, um mero reflexo da
realidade, mas vão sendo construídas na experiência, no percurso da interação com
os demais integrantes dessa realidade. Para a autora, conhecer e avaliar as próprias
crenças permite ao indivíduo reorganizar o pensamento e buscar fundamentar um
corpo de conhecimentos. A autora explora, ainda, mais um elemento importante para
reflexão do tema – a experiência. Ou seja, para ela, não é apenas o que acreditamos
que constrói nossa realidade; além das crenças, deve-se considerar, também, nossas

45
UNIDADE III │ FORMAÇÃO DE CRENÇAS

experiências. Existe, segundo a autora, uma interação entre as crenças das pessoas e as
suas experiências.

Outro autor que apesentou definição para crenças foi Silva (2005). Para esse autor,
também a questão da experiência deve ser valorizada na definição de crença. Segundo
ele, as crenças seriam um acervo vivo de verdades individuais ou coletivas, na maioria
das vezes implícitas, (re)construídas ativamente nas experiências, que guiam a ação
do indivíduo e podem influenciar a crença de outros que estejam ou não inseridos na
sala de aula.

Krüger (1993) na sua definição de crenças afirma que elas são conteúdos psíquicos,
representações simbólicas, oriundas da nossa experiência e dos resultados que dela
advêm e que estão incluídas em nosso mundo mental. Para o autor, as crenças estão
presentes na nossa subjetividade e em nossos processos sociais. Ainda, segundo o
autor, as crenças instalam-se na cultura e influenciam nossa existência pessoal e a
nossa vida coletiva. Acrescenta que as fontes de nossas crenças são as interações sociais
e a experiência – a sensorial e a cognitiva –, e são reconhecidas principalmente pela
linguagem, além de outros indícios comportamentais.

Para Krüger, são as crenças que guiam nossas ações, fornecendo-lhes sentido e direção.
Completa o autor, que os sistemas de crenças – conjunto estruturado de argumentos e
teorias, associados de forma lógica – têm várias funções. Entre elas estão:

»» fornecer explicações e alimentam expectativas em relação ao futuro;

»» conferir motivação e norte à conduta.

Convém ressaltar, entretanto, que, para Krüger, as relações interpessoais, além de


gerar, também podem modificar ou eliminar crença.

Para Price (1969), crenças são um tipo de conhecimento ou de afirmações que tomamos
como verdades e acreditamos fortemente na sua validade, mesmo que não estejam
apoiadas em base evidente. Significa, então, que envolve aspectos psicológicos. Esse
aspecto psicológico, por sua vez, enfatiza o caráter social e individual do constructo. O
autor defende que crenças são as verdades as quais aderimos ou não, e são construídas a
partir da história do indivíduo e a partir de sua interação com o meio. Pode-se concluir,
a partir da definição do autor, que as crenças são construídas com base na nossa história
e nas nossas interações.

Pajares (1992) desenvolveu um estudo para compreender o grande número de conceitos


e definições para o termo ‘crenças’. Segundo o autor, o motivo da confusão em relação
aos diversos conceitos do termo ‘crenças’ é que, geralmente, os pesquisadores focam

46
FORMAÇÃO DE CRENÇAS │ UNIDADE III

suas definições na distinção entre crenças e conhecimento. Clandinin e Connelly (1987),


no seu estudo sobre significados de construtos pessoais de conhecimento utilizados
em pesquisas acerca de crenças de professores, identificaram uma gama de termos
incluindo, critério de ensino do professor, princípios de prática, perspectiva / construto
/ teoria / epistemologia / crenças pessoais, concepções dos professores, conhecimento
pessoal, conhecimento prático. Ao final, concluíram que a distinção entre crenças e
conhecimento era difícil de determinar e que a maioria dos construtos era, na verdade,
simplesmente diferentes palavras querendo dizer a mesma coisa.

Bonfim (2008) afirma que concorda com Pajares (1992) com relação à proliferação de
várias definições em relação às crenças ajudou a esclarecer e detalhar o conceito, tanto
que, a partir dessa pluralidade, estabelecem-se alguns pressupostos que poderiam
fundamentar outros estudos em relação às crenças.

Bonfim (2008) relaciona alguns dos pressupostos enumerados por Pajares (1992),
sobre crenças:

»» São formadas muito cedo e têm tendência a se perpetuarem; são muito


resistentes; persistem mesmo perante contradições causadas por razão,
tempo, instrução ou experiência.

»» As pessoas desenvolvem um sistema de crença que serve para abrigar


todas as crenças adquiridas no processo de herança cultural.

»» Tem uma função adaptativa que auxilia os indivíduos a definirem e a


entenderem o mundo que os cerca e a si mesmo.

»» Por ser de natureza fortemente afetiva, avaliativa e episódica as crenças


podem ser transformadas em filtros por meio dos quais novos fenômenos
são interpretados.

»» Existe nível de priorização em relação às outras crenças ou estruturas


cognitivas e afetivas.

»» Podem influenciar o comportamento.

»» A inferência das crenças deve considerar a congruência entre o discurso,


a intenção de agir, e a ação em si.

»» As crenças dos alunos sobre ensino/aprendizagem são estabelecidas no


momento em que o aluno inicia ensino superior.

47
UNIDADE III │ FORMAÇÃO DE CRENÇAS

Barcelos (2006) afirma que um dos aspectos que dificulta a mudança é a natureza das
crenças, por apresentarem uma estrutura bastante complexa. A autora relacionou sete
características sobre crenças do ensino e aprendizagem:

1. São dinâmicas: podem mudar de um período para outro.

2. São emergentes: construídas socialmente e situadas contextualmente


– podem mudar e desenvolvem-se com a interação e com as alterações
de experiências.

3. São experienciais: resultam da interação entre o sujeito e o ambiente.

4. São mediadas: atuam como instrumentos que podem ser usados ou


não, a depender da situação apresentada.

5. São paradoxais e contraditórias: podem agir como instrumentos de


empoderamento ou como obstáculos para o ensino-aprendizagem.

6. Não são facilmente distintas do conhecimento.

7. São relacionadas à ação de maneira indireta ou complexa: não


influenciam as ações necessariamente.

Embora o estudo tenha sido feito no universo ensino aprendizagem, seu resultado pode
ser aplicado em outros contextos. Pode-se verificar, por exemplo, que as afirmações de
Barcelos (2006) estão alinhadas com os pressupostos defendidos por Pajares (1992). A
valorização dada ao caráter social e contextual na formação das crenças é consistente e
pode ser percebida nos resultados dos estudos dos dois autores.

Nos seus estudos, Barcelos (2006) também inclui sua própria definição para crenças.
Para a autora, crenças são opiniões e percepções formadas a partir das nossas
experiências, da interação com o outro e do contexto em que estamos inseridos, sobre
um determinado assunto que não dispomos de um conhecimento certo. Ou seja, é
por meio delas que nos sentimos seguros para agir de forma crítica ou não sobre um
determinado assunto.

Barcelos (2006), para ilustrar sua definição, afirma que um determinado assunto pode
ser considerado verdadeiro em um contexto e falso em outro. Segundo o autor uma
crença não é necessariamente verdadeira nem falsa. Somos nós quem atribuímos um
valor para uma determinada crença.

48
Capítulo 2
Crenças Cognitivas

Há mais na superfície do que nosso olhar alcança.


(Aaron Beck)

De uma maneira geral, são os pensamentos disfuncionais e/ou negativos que causam
ou mantém o sofrimento emocional ou os distúrbios psicopatológicos. As pessoas
acometidas de depressão têm, em geral, um padrão de pensamento negativo/
depreciativo, do tipo “eu não posso”, “eu não vou consegui”, “eu não sou bom”,
“ninguém gosta de mim” etc. Com relação às pessoas ansiosas, elas podem apresentar
pensamentos do padrão “preciso dar conta disso”, “estou muito atarefada”, “nada sai
do jeito que eu planejo” etc.

O modelo cognitivo das psicoterapias adota como regra que as diferenças entre os
transtornos de personalidade estão no conteúdo dos esquemas e das crenças mal
adaptadas, como também nas interpretações enviesadas dos indivíduos. Na depressão,
os esquemas têm relação com a visão negativa que as pessoas têm dos eventos; na
ansiedade, os esquemas estão relacionados à vulnerabilidade e ao medo de ameaças
psicológicas ou físicas. (BECK, 1976)

O modelo cognitivo serve como base para atuação do profissional de Psicologia, tanto
na abordagem cognitiva como também na abordagem cognitiva-comportamental. Esse
modelo leva em consideração a hierarquia existente entre crenças, pensamentos e
emoções.

Figura 13.

Fonte: elaborado pela autora.

49
UNIDADE III │ FORMAÇÃO DE CRENÇAS

De forma genérica, pode-se definir crença como sendo a verdade pessoal do indivíduo
elaborada a partir das suas convicções e da sua experiência de vida.

As crenças podem ser centrais ou intermediárias. As crenças centrais, também chamadas


por alguns autores de crenças nucleares, são, em geral, desconhecidas do indivíduo; são
entendimentos de base tão profunda que nem a própria pessoa é capaz de articulá-lo
para si mesma. A crença sobre si mesmo, sobre as outras pessoas e sobre o mundo
começa a ser desenvolvida na infância. São indiscutíveis e consideradas verdades
absolutas.

As crenças centrais ocupam o nível mais profundo da estrutura cognitiva e são


compostas por ideias generalizadas, rígidas, cristalizadas, absolutistas e globais que o
indivíduo tem sobre si mesmo e o mundo. As crenças centrais sofrem influência direta
da família e da cultura, principalmente. Para Rangé (2001) são aceitas sem grandes
questionamentos, passivamente, são mantidas e reforçadas sistematicamente.

A partir dessa conceituação teórica de que a terapia cognitiva se fortalece ao buscar


produzir mudanças nas cognições, nos processos de pensamento, Beck e cols (1979)
explicam que os objetivos da intervenção psicológica seriam de:

»» controle dos pensamentos negativos automáticos;

»» reconhecimento das relações entre cognição, afeto e comportamento;

»» análise das evidências a favor e contra pensamentos automáticos


distorcidos;

»» substituição das cognições tendenciosas por interpretações mais


orientadas para o real; e

»» identificação e alteração das crenças disfuncionais que predispõem a


distorcer experiências.

Portanto, para Beck e cols. (1979), o foco da intervenção e da análise psicológica seria,
pois, o mundo das cognições do indivíduo. Os autores acrescentam que o ambiente
externo, nesse caso, teria papel menos importante na explicação do comportamento.

As crenças centrais podem ser positivas ou negativas. Quando positivas, podem


acompanhar o indivíduo durante todo seu desenvolvimento. Elas independem de “gatilho”
para serem ativadas. Já no caso de crenças centrais negativas, geralmente precisam de
algum “gatilho” para se desencadearem. Quando desencadeadas, o sujeito identifica
facilmente fatos que a apoiam e desvaloriza os fatos que não se enquadram na sua crença.
As crenças centrais negativas, de modo geral, são ativadas em estado de aflição.
50
FORMAÇÃO DE CRENÇAS │ UNIDADE III

Podem ser categorizadas em desamparo, desamor e desvalor:

Figura 14.

Fonte: elaborado pela autora.

As crenças centrais disfuncionais podem ser categorizadas como de desamparo, de


desamor e de desvalor. Na categoria desamparo, primeiro grupo, o indivíduo acredita
que é impotente, desamparado e necessitado; se coloca como “coitado”, “vitima”. O
segundo grupo de crenças centrais inclui os indivíduos que acreditam não serem capazes
de serem gostados ou amados; são os que apresentam complexo de rejeição. Essas
pessoas sentem-se imperfeitas e pensam que são sempre rejeitados. O terceiro e último
grupo inclui os sujeitos que pensam ser ineficientes, fracassados e desvalorizados;
sentem-se sempre inferiores às outras pessoas.

As crenças centrais tendem a se fortalecerem quando o sujeito foca sua energia na


confirmação da visão negativa; dessa forma, não tem capacidade para perceber
as situações apresentadas pela vida com outro ponto de vista. Esse processo gera
sofrimento psicológico, é involuntário e automático.

Figura 15.

Fonte: <https://thumb1.shutterstock.com/display_pic_with_logo/160669/165092963/stock-photo-so-many-thoughts-165092963.
jpg>. Acesso em: 18/2/2017.

51
UNIDADE III │ FORMAÇÃO DE CRENÇAS

As crenças intermediárias são “subordinadas” às crenças centrais, ou seja, as crenças


intermediárias são criadas com base nas crenças centrais. Podem ser classificadas como
sendo as atitudes, regras e suposições criadas pelo indivíduo de maneira a conseguir se
adaptar e sobreviver à ideia absoluta e negativa que ele tem a respeito de si mesmo.
É uma maneira de aliviar o sofrimento psicológico causado pelas crenças centrais.
Funcionam como mecanismos de sobrevivência criados para adaptação do indivíduo
ao mundo.

Considerando a maleabilidade, as crenças intermediárias são mais maleáveis do que as


crenças centrais, embora não sejam tão facilmente modificáveis quanto os pensamentos
automáticos.

Assim, a hierarquia em termos de maleabilidade das crenças seria como apresentada


no esquema a seguir:

Figura 16.

Fonte: elaborado pelo autor.

As crenças intermediárias se manifestam por meio das atitudes, regras e suposições que,
por sua vez, influenciam na percepção de uma situação e no comportamento da pessoa.
As crenças intermediárias têm relação direta com o conteúdo das crenças centrais e
atua como guia do comportamento das pessoas.

Essas crenças intermediárias têm relação direta com diversos aspectos da vida cotidiana
das pessoas. Diferentemente das crenças centrais – rígidas e generalizáveis – as crenças
intermediárias são mais facilmente manipuláveis. Apesar dessa distinção, existe entre
elas uma conexão que faz com que a manifestação do comportamento siga uma lógica.

52
FORMAÇÃO DE CRENÇAS │ UNIDADE III

Beck (1995) apresenta como exemplo a percepção de cinco pessoas sobre um mesmo
livro:

1. Acreditar que o livro é excelente e que será de grande utilidade e sentir


entusiasmo.

2. Acreditar que o livro é muito simples e que não acrescentará nada e sentir
decepção.

3. Acreditar que o livro é desperdício de tempo e de dinheiro e sentir


aborrecimento.

4. Acreditar que o livro tem conteúdo e pensar, ao mesmo tempo, que terá
que aprender tudo o mais rápido que puder e sentir ansiedade.

5. Acreditar que o livro é difícil e pensar que não tem inteligência para
acompanhar e sentir tristeza.

No exemplo acima, pode-se observar que, para o mesmo objeto – o livro – as pessoas
podem manifestar comportamentos muito diferentes; cada pessoa teve uma reação e
uma interpretação sobre o livro. É a partir dessa reação/interpretação que a pessoa
expressará emoções e sensações corporais que estará alinhada com o seu modo de
pensar.

A percepção do livro tem relação direta com as crenças que o indivíduo tem sobre
leitura, livros, cultura etc. As emoções e comportamentos manifestos das pessoas
são influenciados por sua percepção dos eventos, que sofrem influência das crenças
adquiridas ao longo da vida. Não é uma situação por si só que determina o que as
pessoas sentem, mas, antes, o modo como elas interpretam uma situação.

Outro exemplo: uma pessoa que tem como crença central o desamor, ou seja, pensa:
“Não sou digno de ser amado”. Essa pessoa poderá apresentar uma crença intermediária
orientada pela crença central e pensar, de forma positiva: “Se eu fizer o que os outros
querem, eu posso ser amado”; ou reagir de forma negativa: “Se eu não fizer o que os
outros querem, eu serei desprezado”.

No exemplo acima, enquanto a pessoa tiver forças para se manter motivado e achar que
ainda tem chance de ser amado, poderá se manter ativo, ou seja, adequado à situação.
Se a pessoa pressentir que a estratégia não está dando certo, a parte negativa do
pressuposto entra em ação e provoca depressão. As regras ideais para esse caso seriam:

»» Pensar: “devo me sacrificar sempre”.

»» Atitude: “vou fazer tudo que os outros querem”.

53
UNIDADE III │ FORMAÇÃO DE CRENÇAS

No terceiro nível do modelo cognitivo estão os pensamentos automáticos. Os


pensamentos automáticos surgem a partir das crenças centrais e das crenças
intermediárias. São espontâneos, têm duração breve e coexistem com os pensamentos
manifestos. São pré-conscientes, ou seja, na maior parte das vezes não percebemos.
Outra característica é que se manifestam dando formato à maneira como damos
significado às situações.

Aaron Beck (2006), em seus estudos, descobriu que os sintomas da psicopatologia da


depressão podiam ser melhor explicados examinando os pensamentos conscientes do
paciente, diferentemente de outras linhas de tratamento que estimulam o paciente a
trazer a tona motivações inconscientes e desejos reprimidos. Beck desenvolveu um
tratamento para a cura de pacientes com depressão com base na solução dos problemas
atuais. No modelo de tratamento de Beck, a cura se dá pela mudança dos comportamentos
disfuncionais respondendo de forma adaptativa a esses pensamentos disfuncionais.

Beck (2006) afirma que as autodescrições dos pacientes e o relato das suas experiências
evidenciam pensamentos e visões negativas que eles têm a respeito de si mesmos,
das suas experiências vividas, do mundo e do seu futuro. O autor denominou esses
pensamentos de “pensamento automático”. A expressão “automático” foi escolhida
visto que a manifestação do pensamento, nessa situação, não precisa ser motivada
para vir à tona. Segundo o autor, esses pensamentos são resultado da forma como o
indivíduo interpreta as situações do dia a dia. O que indivíduo registra como sendo
importante é a visão que ele tem sobre o fato narrado e não, necessariamente, o que
está acontecendo de fato.

As visões manifestadas pelo paciente demonstram distorções cognitivas da realidade


vivida. O estudo aprofundado da origem desses pensamentos automáticos permite
chegar às crenças centrais do indivíduo, aceitas por ele como verdades absolutas. As
distorções cognitivas afetam diretamente as respostas emocionais, comportamentais
e fisiológicas das pessoas. É comum que indivíduos que apresentam transtornos
psicológicos interpretem erroneamente situações neutras ou positivas. A interpretação
errada leva as pessoas a manifestarem pensamentos automáticos tendenciosos.

Figura 17.

Fonte: <http://www.contioutra.com/content/uploads/2015/01/1240535_667044503306922_474838831_n.jpg>.
Acesso em: 19/2/2017.

54
FORMAÇÃO DE CRENÇAS │ UNIDADE III

Seguindo a hierarquia do modelo cognitivo, temos que, a depender do tipo de pensamento


automático, uma emoção se manifestará; a emoção manifestada permanecerá enquanto
o pensamento automático for mantido. Voltando ao exemplo do livro, anteriormente
descrito. Caso o livro seja considerado simples demais, temos uma decepção. Se o livro
for considerado difícil demais, temos tristeza e assim por diante.

A emoção serve de “start” para que o indivíduo pare e comece a questionar os próprios
pensamentos. O indivíduo deve, então, interromper o pensamento que provoca a
emoção não desejada e iniciar outro pensamento mais adequado. Essa passagem não
é fácil, mas é o caminho, segundo o modelo cognitivo para o tratamento. No processo
de tratamento, o paciente deve aprender a colocar as situações numa perspectiva mais
real, e, assim, aprender a interromper a reação que até então é automática.

Knapp (2004) diz que existe uma interação entre os pensamentos, os sentimentos e os
comportamentos, fisiologia e ambiente; alterar qualquer um destes componentes pode
iniciar modificações nos demais. Alinhado com essa linha de pesquisa, Beck (1997)
afirma que o terapeuta cognitivo concentra o tratamento buscando produzir mudanças
no pensamento e no sistema de crenças do paciente e, assim, promover mudanças
duradouras.

Segundo Knapp (2004) todos os indivíduos têm pensamentos involuntários, chamados


de pensamentos automáticos; podem ser, segundo o autor, exagerados, distorcidos,
equivocados, irrealistas ou disfuncionais. Esses pensamentos representam um
importante papel no tratamento psicológico, porque moldam as emoções e as ações do
indivíduo.

55
Capítulo 3
Atitudes

Diversas ciências têm interesse no estudo do constructo ‘atitude’, isto porque atitude
pode estar relacionada à determinação do comportamento social das pessoas. Uma das
ciências que demonstra maior interesse no tema, ao longo da história, é a Psicologia,
com destaque para os ramos social e da personalidade.

Figura 18.

Fonte: <http://www.misab.com.br/tag/atitude/>. Acesso e 19/2/2017.

Na linguagem comum, as pessoas utilizam os termos ‘atitude’, ‘juízo’, ‘avaliação’ e


‘opinião’ como se fossem sinônimos. Ou seja, qualquer das expressões para se referir a
um mesmo evento. Alguns profissionais, entre eles os psicólogos, têm mais cuidado e
evitam utilizar os termos como se fossem sinônimos.

A referência forte ao comportamento humano faz com que o constructo ‘atitude’ seja
objeto de estudo para pesquisadores em Psicologia. Mas, ou apesar de, o forte interesse
no estudo e na pesquisa do tema, é muito difícil encontrar uma definição que possa
garantir suficientemente que o termo abranja todas as nuances que deve englobar.

Alguns estudos, por exemplo, podem levar em conta o juízo de valor sobre determinado
evento, outros podem considerar a natureza emotiva, ou a comportamental, ou ainda a
cognitiva. Podem-se adotar muitos outros critérios na definição do termo atitude.

Cavazza (2008) relata que o termo ‘atitude’ foi utilizado primeiramente pelos sociólogos
Thomas e Zinaniecki, em 1918, por ocasião da publicação dos resultados de sua pesquisa.
A pesquisa girou em torno do estudo sobre os camponeses poloneses, emigrados em
massa para diversos países europeus e para os EUA. A autora descreve que os sociólogos
iniciaram seu texto afirmando que a relação de dependência recíproca entre cultura e
indivíduos pode ser aprendida na condição em que os problemas sejam interpretados a
partir da caracterização dos valores sóciais e das atitudes.

56
FORMAÇÃO DE CRENÇAS │ UNIDADE III

Thomas e Zinaniecki (1918), segundo Cavazza (2008), fazem a distinção entre valores e
atitudes, afirmando que os primeiros são constituídos por qualquer objeto que possuir
um significado em conexão com determinadas ações do sujeito. Já as atitudes, segundo
os autores, são definidas como sendo os processos da consciência individual que
determinam a ação.

Na Psicologia Social, Allport (1935) formulou uma definição para atitude a partir da
análise e síntese de 16 definições. Segundo o autor, a definição para atitude é um estado
mental ou neurológico de prontidão, organizado por meio da experiência, que exerce
uma influência diretiva ou dinâmica sobre a resposta do indivíduo nos confrontos de
todo objeto e toda situação com os quais entra em relação.

Ao experimentar uma situação, um sujeito apresenta comportamentos organizados


e manifestados pelas atitudes construídas/desenvolvidas ao longo da sua vida, na
interação com seu meio social. O tipo de atitude escolhida está diretamente relacionado
ao contexto no qual ocorre a situação. O contexto da situação é apenas um dos fatores
que provocam o comportamento manifesto.

Para Rokeach (1981) a definição de atitude é uma organização de crenças, relativamente


duradouras, em torno de um objeto ou situação que predispõe que se responda de
alguma forma preferencial. Nessa definição o autor considera o objeto e o contexto
como variáveis importantes na atitude da pessoa.

Uma forma de compreender melhor o conceito de atitude seria retomar a definição


de crença, descrita nos capítulos anteriores, nesse caderno de estudos. É preciso
compreender que a definição de crença estabelece relação com as atitudes. Rokeach
(1981) define crença como sendo qualquer proposição simples, consciente ou
inconsciente, inferida do que uma pessoa diz ou faz, capaz de ser precedida pela frase
‘eu creio que...’. Para o autor, as crenças são constituídas por três elementos básicos:

»» Cognitivo: revela o conhecimento das pessoas quanto às suas convicções.

»» Afetivo: dependedo da situação a crença pode provocar reações


emocionais específicas à determinada situação.

»» Comportamental: tipo de ação proveniente da ativação da crença em


questão.

No campo da aprendizagem, a partir da observação de modelos sociais, Bandura (1972)


percebeu que as pessoas tendiam a reproduzir os comportamentos e assim modificavam
suas atitudes. Sendo assim, para o autor, esse tipo de modelação poderia exercer

57
UNIDADE III │ FORMAÇÃO DE CRENÇAS

influência importante na aquisição, na consolidação e também no enfraquecimento das


atitudes e por consequência, na emissão de comportamentos.

Segundo Rokeach (1981), o conjunto de crenças dos indivíduos relacionado às


atitudes iguais/semelhantes pode variar. Ou seja, para o autor, o fato de os indivíduos
apresentarem ações semelhantes mediante um acontecimento não significa que
o conjunto de crenças que determinaram as atitudes que regeram tais ações teve
necessariamente a mesma origem.

Moura (2014) apresenta um exemplo para ilustrar a afirmação de Rokeach (1981):

[...] ao analisar a possibilidade de cometer uma falta contra seu


adversário, diversos atletas podem optar pelo comportamento de
desviar no último instante e não cometer a falta. Mesmo sendo a mesma
atitude (não fazer falta), o conjunto de crenças relacionado a essa
atitude é peculiar a cada atleta. Um sujeito pode não cometer a falta por
observar que o local em que o adversário se encontra trará perigo ao seu
time por ser muito próximo ao gol, enquanto a decisão do outro atleta é
regida pela crença de que fazer falta é errado independente da situação.

No exemplo acima, pode-se perceber que as crenças interferem diretamente na atitude


que o sujeito toma frente a uma mesma situação.

Krüger (1995) trata o tema atitude, a partir de sentido cognitivista, afirmando que valores
são estruturalmente similares às atitudes sociais. Considerando essa perspectiva, o
mesmo autor, em 2015, retoma o estudo afirmando que na estrutura psicológica dos
valores encontram-se três componentes interligados:

1. Os sentimentos relativos ao objeto – uma pessoa, a sociedade ou qualquer


outro ente concreto ou abstrato.

2. As representações mentais – predominantemente simbólicas, assumem


o formato de crenças, as quais descrevem e avaliam o objeto da percepção
ou da imaginação.

3. A motivação particular para agir ativada pelos dois componentes


mencionados anteriormente.

O autor chama atenção para a necessidade de equilíbrio entre os componentes dessa


estrutura. Para o autor, o sentido desses três elementos pode ser positivo ou negativo,
ou seja, de aceitação ou de rejeição, e tende a ser uniforme. Por isso, segundo o autor,
as atitudes sociais positivas apresentam uma congruência entre os sentimentos,

58
FORMAÇÃO DE CRENÇAS │ UNIDADE III

cognições, motivações e tendências para a ação, favorável ao objeto considerado. As


atitudes sociais negativas percorrem o mesmo caminho.

A semelhança entre os constructos ‘valores’ e ‘atitudes’ é de ordem estrutural. Mas


importantes aspectos os tornam diferentes. Krüger (1995) apresenta quatro aspectos
que destacam essas diferenças:

1. Valores têm como objeto um ente mais geral que pode ser, um estilo
artístico, uma disciplina científica, o conhecimento, a saúde, a justiça,
Deus ou um ideal de beleza; já atitudes referem-se a objetos sociais bem
destacados, estão subordinadas aos valores.

2. O sentido positivo dos valores é constituído a partir da combinação


equilibrada de afetos, representações cognitivas e motivações para agir,
favorável ao objeto valorizado.

3. Valores são mais estáveis que as atitudes sociais; é possível ocorrerem


mudanças nesse nível, quer no sentido do abandono ou até mesmo rejeição
de algum valor que tenha sido internalizado, quer na hierarquização deles
no âmbito pessoal.

4. Valores são estruturas desenvolvidas no plano subjetivo; eles podem ser


socialmente compartilhados, no entanto, sua vivência é subjetiva.

Ainda sobre valores, há que se observar que são formados no desenvolvimento infantil,
durante o processo de socialização e a partir das vivências pessoais.

Voltando ao tema atitude, pode-se afirmar que, em muitas ocasiões, uma pessoa pode
esconder das outras pessoas e até mesmo de si próprio atitudes, crenças e valores que
não estão alinhadas ou não são aceitas socialmente. A esse fenômeno dá-se o nome de
desejabilidade social4. É justamente a manifestação do fenômeno ‘desejabilidade’ que,
muitas vezes, pode afetar o autorrelato de alguns indivíduos. A verbalização do fato não
coincide com as suas ações quando esses estão sendo observados ou julgados por outrem.

4 Desejabilidade social – expressão utilizada para representar tendências de distorção de autorrelatos para uma direção
favorável, negando, assim, traços e comportamentos socialmente indesejáveis. (FURNHAM, 1986)

59
Capítulo 4
Distorções cognitivas

Distorções cognitivas podem ser definidas, de maneira geral, como sendo erros
sistemáticos da percepção e do processamento das informações. São responsáveis pelo
desencadeamento da depressão. As pessoas portadoras de depressão estruturaram suas
experiências de forma absoluta e inflexível; essa rigidez provoca erros na interpretação
com relação ao seu desempenho pessoal e ao julgamento das situações apresentadas.

A Psicologia Cognitiva parte do princípio de que as emoções e os comportamentos


manifestados das pessoas sofrem influências diretas da percepção que eles têm dos
eventos. O modelo defende que não são as situações apresentadas ao indivíduo que
estabelecem o que as pessoas sentem ou o que fazem, mas, sim, o modo como as pessoas
pensam e interpretam as situações apresentadas. (BECK, 1997)

Figura 19.

Fonte: <http://www.escolapsicologia.com/wp-content/uploads/2011/05/pensamentos.jpg>. Acesso em: 19/2/2017.

Aaron Beck foi quem primeiro identificou e popularizou as distorções cognitivas. São
elas:

»» Filtragem: foca a atenção nos detalhes negativos enquanto filtramos


todos os aspectos positivos de uma situação. A pessoa escolhe um detalhe
único, desagradável, focando exclusivamente nele para justificar a sua
visão destorcida da realidade.

»» Pensamento polarizado: as coisas são “preta ou branca”. Ou


somos perfeitos ou fracassados, não existe meio termo. As pessoas são
classificadas em apenas duas categorias. Se o desempenho fica um pouco
abaixo do ideal, a pessoa é classificada como fracassado total.

60
FORMAÇÃO DE CRENÇAS │ UNIDADE III

»» Generalização: a conclusão geral é baseada em apenas um único


incidente ou elemento. A ocorrência de algo de ruim uma vez, é esperada
que aconteça mais vezes. A pessoa adota um único evento desagradável
como padrão de derrota sem fim.

»» Tirar conclusões precipitadas: a pessoa julga saber o que as outras


estão sentindo e porque estão agindo de determinada forma e quais
suas razões sem possuir informações que sustentem esse julgamento.
Em outas palavras, são capazes de determinar como as pessoas estão se
sentindo em relação a elas. A pessoa pode antecipar que as coisas sairão
mal, convencendo-se de que a sua previsão já é um fato estabelecido.

»» Catastrofização: a pessoa espera que a catástrofe aconteça,


independentemente de motivos para esse pensamento. Alguns
autores definem esse fenômeno como “ampliação ou minimização” ou
“maximização e minimização”. A partir da ocorrência de um problema,
realiza a questões do tipo: E se a tragédia acontecer? E se isso acontece
comigo? Podem, também, igualmente, negligenciar/reduzir de forma
inadequada a magnitude de algum evento significativos, até que pareçam
muito pequenos.

»» Personalização: a pessoa acha que o que as outras pessoas fazem ou


dizem está relacionado a nós. Usa muito a comparação com os outros,
tentando determinar quem é mais inteligente, mais bonito etc.

»» Falácias de controle: ao sinal de controle externo a pessoa se considera


uma vítima impotente do destino. A pessoa assume a responsabilidade do
mal-estar ou da felicidade de todos ao nosso redor. Por exemplo: Porque
é que você não está feliz? É por causa de algo que eu fiz?

»» Falácia da justiça: a pessoa sabe o que é justo, dentro de critérios


definidos por ela; nem sempre as outras pessoas concordam com o
mesmo ponto de vista. As pessoas que passam a vida aplicando uma
régua de medição para julgar cada situação dentro do seu modo de ver a
sua “justiça”.

»» Culpa: a pessoa atribui aos outros a responsabilidade do seu sofrimento.


Utilizam frases do tipo: “Pare de me fazer sentir mal comigo mesmo!”.
Ninguém pode “nos fazer” sentir de uma determinada forma. Essa é uma
forma da pessoa se defender. O controle das nossas emoções e reações é
feito pela própria pessoa.

61
UNIDADE III │ FORMAÇÃO DE CRENÇAS

»» Os “deverias”: a pessoa tem uma lista de regras rígidas sobre os outros


e acerca da forma como devem se comportar. Quando uma alguma regra
é quebrada a pessoa se aborrece; esse tipo de pessoa também se sente
culpada quando viola essas regras. Exemplos dos pensamentos das
pessoas do tipo “deverias”: “Eu realmente devia fazer atividade física. Eu
não deveria ser tão preguiçoso”.

As distorções cognitivas podem ser responsáveis pelo desencadeamento de diversos


transtornos, como, por exemplo, a obesidade.

Luz (2013) cita exemplos de distorções cognitivas comuns em pacientes com excesso de
peso, são eles:

»» Abstração seletiva: consiste em valorizar as informações que


confirmam as suas suposições. A pessoa pensa que o fato de ter comido
um doce significa que não tem controle sobre o seu comportamento
alimentar.

»» Pensamento tudo ou nada: consiste em pensamentos extremos e


absolutistas. É quando uma pessoa enquadra os alimentos em duas
categorias extremas como: proibidos e permitidos

»» Pensamento supersticioso: consiste em acreditar que existe relação


de causa e efeito em situações que não existe evidência que comprove
essa relação. É quando alguém pensa que ir ao shopping significa sair da
dieta.

»» Padrão duplo: a preocupação com a sua própria imagem corporal pode


ter um padrão rígido e um padrão mais flexível para avaliar características
dos corpos de outras pessoas.

Dattilio (2004) também identificou e categorizou as distorções cognitivas mais comuns.


Algumas delas seguem o mesmo padrão de Aaron Beck.

»» Inferência arbitrária: a pessoa conclui um tema antes de obter


comprovação de evidências. Exemplo: um homem conclui que a esposa
está fazendo algo errado pelo simples fato de ter chegado em casa atrasada.

»» Leitura de pensamento: é também um tipo de inferência arbitrária.


A pessoa acredita saber o que a outra está pensando e sentindo sem se
comunicar diretamente com ela. Exemplo: a esposa, ao perceber que o
marido está muito quieto, conclui que ele está infeliz e vai abandoná-la.

62
FORMAÇÃO DE CRENÇAS │ UNIDADE III

»» Abstração seletiva: informações são tiradas de contextos e certos


detalhes ganham destaque, enquanto outros são ignorados. Exemplo: a
esposa não responde ao cumprimento do marido de manhã, ele conclui:
“ela está me ignorando”.

»» Hipergeneralização: um acidente isolado é visto como sendo


representação de situações semelhantes em outros contextos relacionados
ou não com o acidente. Exemplo: a esposa que recebe crítica do marido
por não jogar o lixo fora, conclui “ele sempre me critica”.

»» Maximização e minimização: um caso é julgado como tendo maior


ou menor importância do que realmente tem. Exemplo: quando a esposa
lembra ou esquece da data de aniversário de casamento, o marido pensa
“ela ainda gosta de mim depois de tantos anos de casados” ou “ela está
deixando de gostar de mim”.

»» Personalização: eventos externos são atribuídos à própria pessoa


quando não existem evidências suficientes para tirar aquela conclusão.
Exemplo: a esposa percebe que o marido não está comendo o jantar como
ela havia previsto, pensa “ele detesta minha comida”.

»» Pensamento dicotômico: as experiências da pessoa são classificadas


em categorias extremas mutuamente exclusivas, como êxito ou fracasso
total. Exemplo: o marido pode concluir após uma discussão “se ela não
me ama, me odeia”.

»» Rotulação: tendência da pessoa representar a si mesma ou a outro a


partir de características estáveis ou globais, com base em ações passadas.
Exemplo: depois que o marido cometeu vários erros no planejamento do
orçamento familiar, a esposa conclui que “ele é negligente”.

Pode-se dizer que as distorções cognitivas são formas que a nossa mente arranja para
aliviar o sofrimento psíquico, convencendo-se de algo que é ou não realmente verdade.
De modo geral, as distorções cognitivas são pensamentos imprecisos normalmente
utilizados para reforçar emoções negativas e confirmar sensações que parecem
racionais e precisas, mas que, na verdade, alimentam sentimentos negativos acerca de
nós mesmos.

Ao identificar corretamente o pensamento impreciso/desajustado, o indivíduo pode


agir de forma construtiva sobre o pensamento negativo e rejeitá-lo. Quando o indivíduo
refuta o pensamento considerado desajustado, aos poucos estará aprendendo a
substituí-lo por um pensamento mais racional, equilibrado e adequado àquela situação.

63
A ANSIEDADE Unidade iV

A etiologia do termo ‘ansiedade’ deriva do grego anshein que significa sufocar,


estrangular, oprimir. O estudo da ansiedade ganhou maior importância a partir dos
estudos de Freud. Graeff (1999) afirma que Freud dá destaque à ansiedade, nos estudos
de medicina, por distinguir neurose de ansiedade da neurastenia e a ansiedade crônica
dos ataques de ansiedade, mais conhecidos como ataques de pânico.

A ansiedade pode ser descrita como sendo um estado emocional com traços fortes
de medo. Manifesta-se como resposta a situações de perigo ou ameaças, estresse ou
desafios do cotidiano.

O fenômeno ansiedade passa a ser considerado um transtorno patológico quando surge


sem estar associado a algum estímulo externo que permita explicá-la ou quando se
torna uma emoção incômoda e desagradável. Outros fatores que podem identificar a
ansiedade como transtorno patológico são a intensidade, a duração e a frequência em
que ocorrem, se estão aumentadas e afetam diretamente o desempenho profissional e/
ou social do indivíduo, podem ser descritas como patológica.

Aparece em todas as fases de desenvolvimento das pessoas e podem ser percebidas


desde a infância. Funciona como uma forma de adaptação, preparando o indivíduo para
lidar com uma situação considerada ameaçadora (BEESDO-BAUM; KNAPPE, 2012).
Mesmo considerando o contexto ameaçador em que aparece, em algumas situações é
considerada desproporcional e exagerada em relação ao estímulo que a provocou.

A ansiedade é, muitas vezes, confundida com outras emoções: medo, por exemplo.
É possível, porém, distinguir os dois fenômenos a partir de algumas características
encontradas na manifestação de cada uma dessas emoções.

64
A ANSIEDADE │ UNIDADE IV

Figura 20.

Fonte: <http://sucessomental.com/wp-content/uploads/2016/01/como-vencer-a-ansiedade-0.jpg>. Acesso em: 20/2/2017.

O medo, segundo Sweeney e Pine (2004), é uma emoção específica, provocada por
estímulos potencialmente perigosos; sua função é alertar o organismo para o perigo real
iminente e dar condição ao organismo para reagir. Diferentemente, a ansiedade, segundo
Barlow (2004), pode ser distinguida do medo por ser uma reação desproporcional
em termos de duração, intensidade e sofrimento em relação ao nível do estímulo que
provocou a reação. O autor destaca que a ansiedade tem também como característica
ser um tipo de reação mais difusa, vaga e imprecisa a estímulos pouco específicos.

Lang (1968) desenvolveu um modelo onde descreve três componentes envolvidas na


ansiedade.

»» Sintomas somáticos: taquicardia, palpitação, calafrios, calorões,


dificuldade respiratória, tremor, náuseas, tensão muscular, sudorese, dor
de cabeça, entre outros.

»» Sintomas cognitivos: pensamentos distorcidos, dificuldade de


concentração, medo de perder o controle, hipervigilância.

»» Sintomas comportamentais: esquiva, isolamento e inquietude e


sintomas emocionais, como o medo, apreensão e irritabilidade.

Cordioli e Manfro (2004) acrescentam outros sintomas característicos da ansiedade:

»» Sintomas perceptivos: desrealização, hiper-reatividade aos estímulos,


despersonalização.

65
Capítulo 1
Estratégias para redução de
comportamentos de fuga e esquiva

O Behaviorismo nasceu com Ivan Pavlov que a partir do condicionamento clássico


ensinou cães a salivarem ao som de um sino. Mais tarde Skinner aperfeiçoou a
teoria de Pavlov acrescentando os conceitos de reforço e punição na sua teoria do
condicionamento operante.

Reforço e punição podem ser positivos ou negativos, mas esses conceitos causam uma
certa confusão. As expressões positivo e negativo não têm relação com bom e ruim
ou certo e errado. No caso de reforço ou punição positiva refere-se à adição de uma
consequência; já com relação à punição ou reforço negativo a ação é de remover estímulo.

O reforço positivo acontece quando uma recompensa é oferecida para um


comportamento desejado que faz com que aumente a probabilidade do comportamento
ocorrer novamente no futuro.

Exemplos de reforço positivo:

»» Depois de se apresentar no teatrinho da escola, o professor grita,


“Parabéns, bom trabalho!” – reforço positivo: elogio do professor.

»» O vendedor que supera a cota de vendas do mês, seu chefe lhe dá um


bônus – reforço positivo: bônus.

»» O marido faz um jantar romântico, a mulher faz muitos elogios – reforço


positivo – elogio da mulher.

A chance de ocorrência dos comportamentos se repetirem é muito maior comparando


com o mesmo evento sem o reforço positivo.

É importante observar que a aplicação do reforço positivo nem sempre representa uma
coisa boa. Pode-se citar o exemplo de mau comportamento de uma criança e ela ganhar
um presente como forma de evitar o mau comportamento. Rapidamente as crianças
aprendem que com essa ação podem ganhar os presentes que querem. O presente seria,
então, um reforço positivo aplicado de maneira errada. Nesse exemplo, os pais estariam
reforçando o mau comportamento da criança. A solução mais indicada, nesse caso, é
utilizar o reforço positivo quando a criança estiver exibindo bom comportamento.

66
A ANSIEDADE │ UNIDADE IV

Figura 21.

Fonte: <http://psicoativo.com/wp-content/uploads/2016/04/Refor%C3%A7o-positivo-Condicionamento-operante-500x375.
jpg>. Acesso em: 20/2/2017.

Os reforçadores utilizados para confirmar/manter comportamentos podem ser de


diversos tipos. No entanto, é importante observar que a efetividade do tipo de reforçador
utilizado vai depender do indivíduo e do contexto onde ocorre a situação. Os prêmios
que reforçam comportamentos de alunos do ensino fundamental não funcionam da
mesma forma que prêmios de incentivo para alunos universitários. Da mesma forma,
prêmios para funcionários de uma empresa situada numa área rural, podem não ter o
mesmo efeito para funcionários de uma empresa localizada numa grande capital. Os
tipos de reforçadores positivos são:

»» Reforçadores naturais: são efeitos diretos do comportamento. Por


exemplo, o aluno estudioso e muito aplicado ter notas altas.

»» Reforçadores sociais: é expresso pela aprovação de um comportamento.


O professor, o pai ou o chefe diz ou escreve manifesta um elogio, como,
por exemplo, “Bom trabalho” ou “excelente trabalho”.

»» Reforçadores de símbolos: são reforçadores materiais. Por exemplo,


pontos ou símbolos que são concedidos para a realização de determinadas
ações. Esses símbolos podem ser trocados por algo de valor. Muito
utilizados em campanhas promocionais.

»» Reforçadores tangíveis: é expresso por meio de recompensa física,


que pode ser: brinquedos, dinheiro ou outros objetos desejados.

O reforço negativo, ao contrário do reforço positivo, tem o propósito de promover um


comportamento desejável por meio da remoção de um estímulo aversivo.

O reforço negativo, se manifesta a partir da retirada de alguma coisa do ambiente do


organismo, para que o comportamento continue. Os reforços retirados mantêm os
comportamentos desejados por trazerem consequências esperadas pelos organismos
que as procuram quando emitem uma resposta. No caso do reforço negativo, o

67
UNIDADE IV │ A ANSIEDADE

organismo deseja fugir, se esquivar ou eliminar algo aversivo. Se o seu comportamento


resulta no êxito dessa fuga ou esquiva, grandes são as chances da sua manutenção e
também de ter sua frequência aumentada.

Como exemplos de reforço negativo, imagine as seguintes situações:

»» A pessoa muda os horários de trabalho (o comportamento) para evitar


engarrafamentos (remoção do estímulo aversivo).

»» O marido decide limpar a cozinha (o comportamento) para evitar entrar


em uma briga com sua mulher (remoção do estímulo aversivo).

»» Para ser atendido rapidamente, chega no consultório no primeiro horário


(o comportamento), para evitar ficar esperando para ser atendido
(remoção de um estímulo aversivo).

»» A pessoa usa vários cremes (o comportamento) para evitar envelhecimento


da pele (remoção de um estímulo aversivo).

Nos exemplos acima, temos como resultados negativos engarrafamentos, briga conjugal
e envelhecimento da pele. Esses eventos foram evitados a partir da adoção de um
comportamento específico. Ao eliminar os resultados indesejáveis, os comportamentos
desejados tornam-se mais prováveis de acontecer no futuro.

É muito comum a confusão entre as expressões reforço negativo e punição. Não


são a mesma coisa e não têm o mesmo valor e indicação. Reforço negativo, como já
foi dito, é a remoção de uma condição negativa para reforçar um comportamento
desejado. Já a punição envolve apresentar ou retirar um estímulo para enfraquecer um
comportamento.

A adoção de estratégia de reforço negativo pode ser eficaz para conseguir o


comportamento desejado. Deve-se considerar que a efetividade dessa estratégia
tem mais chances de ocorrer se utilização do reforço for feita imediatamente após o
comportamento. Quando há um tempo maior decorrido entre o comportamento e o
reforçador, a resposta poderá ser mais fraca.

No reforço negativo, pode-se destacar dois principais processos, que são a esquiva
e a fuga. O comportamento de fuga é aprendido primeiro que o comportamento de
esquiva, isso por que, para o organismo fugir, é necessário estar no mesmo ambiente
que o estímulo aversivo. A fuga ocorre quando o organismo emite uma resposta que
finaliza uma estimulação aversiva que está presente, no caso de esquiva, o organismo
emite uma resposta que evita ou atrasa a apresentação de um estímulo aversivo. Catania

68
A ANSIEDADE │ UNIDADE IV

(1999) afirma que as respostas que finalizam, evitam ou atrasam a apresentação de


uma estimulação aversiva, que tem maior probabilidade de ocorrência em situações
similares, o que caracteriza o reforço negativo. Por isso, Cameshi e Abreu-Rodrigues
(2005) argumentam que as duas estratégias – fuga e esquiva – pertencem ao mesmo
universo comportamental – reforço negativo.

Considera-se, então, fuga aquele comportamento que retira o estímulo aversivo do


ambiente no qual o organismo está: uma música muito alta, o choro de um bebê, um
sapato apertado, a sujeira no para-brisa do carro, o sol forte nos olhos.

Para esses exemplos, teríamos como fuga abaixar o volume da música, cuidar do bebê,
trocar o sapato, limpar o para-brisa do carro e colocar os óculos de sol, respectivamente.

Figura 22.

Fonte: <https://i0.wp.com/portalcomportamental.com.br/wp-content/uploads/2016/02/os-gordos-mais-engracados-dos-
desenhos-animados-8.jpg?w=500>. Acesso em: 20/2/2017.

No caso da estratégia esquiva, o indivíduo adota um comportamento para prevenir a


ocorrência ou reduzir os efeitos do segundo estímulo que também é aversivo. Como
exemplo, a pessoa que vira o rosto ao saber que receberá uma medicação por meio
injetável. O simples fato de a enfermeira iniciar os procedimentos com a agulha
anuncia a dor que a injeção vai provocar. Tapamos ou ouvidos para evitar o som ou
reduzir o barulho de fogos de artifício. A esquiva seria, então, a estratégia caracterizada
pelo reforço negativo condicionado (aprendido) e a consequente ação que o reduz é
reforçada pelo condicionamento operante.

O comportamento de esquiva é considerado por alguns autores como sendo uma


consequência da fuga. Isso porque, segundo os autores que defendem essa tese,
o comportamento de fuga, posteriormente, tende a se tornar de esquiva, já que, no
processo, o organismo fugiu anteriormente ao estímulo e agora busca evitar entrar em
contato. Só saberia que o volume da música não o agradava por que entrou em contato
com ela e teve de fugir (diz-se comportamento de fuga, uma vez que e o organismo estava
no mesmo ambiente). Posteriormente o organismo passa a evitar (comportamento de
esquiva) entrar em contato por já saber que não o agrada.

69
Capítulo 2
O tratamento farmacológico e
psicoterapêutico no combate à
ansiedade

A ansiedade pode ser vista, considerando o aspecto técnico, como um fenômeno


tanto positivo, que nos beneficia, como negativo, que nos prejudica, a depender das
circunstâncias, do contexto e da intensidade. No caso negativo, um dos efeitos, é tornar-
se um transtorno patológico, o que prejudica imensamente o funcionamento psíquico/
mental e somático/corporal afetando as atividades pessoais.

De modo positivo, a ansiedade estimula o indivíduo a entrar em ação, porém, em


excesso, age ao contrário, impedindo reações. As causas mais comuns da ocorrência
dos transtornos de ansiedade são doenças relacionadas ao funcionamento do corpo e
às experiências de vida.

Pode-se citar exemplos de pessoas que se sentem ansiosas na maior parte do tempo
sem nenhuma explicação aparente. Já, em alguns casos, pode ter ansiedade apenas às
vezes, mas de forma muito intensa que pode provocar diversas reações. A sensação de
ansiedade, para muitas pessoas, pode ser tão desconfortável e causar sofrimento tão
grande que, para evitar esse desconforto e sofrimento, deixam de fazer coisas simples,
do dia a dia, como, por exemplo, andar de ônibus, subir numa escada rolante.

A ansiedade pode manifestar-se por meio de sintomas de origem física, como, por
exemplo, a sensação de aperto no peito e calafrios ou por meio de sintomas de origem
emocional como a preocupação ou medo sem causa aparente e presença de pensamentos
negativos. Os sintomas podem surgir isoladamente ou vários ao mesmo tempo.

Figura 23.

Fonte: <https://static.tuasaude.com/media/article/rk/49/sintomas-de-ansiedade_16086_l.jpg>. Acesso em: 20/2/2017.

70
A ANSIEDADE │ UNIDADE IV

Tratamentos medicamentoso da ansiedade


O tratamento da ansiedade pode ser feito por meio de medicamentos. O tratamento
medicamentoso só poderá ser feito se acompanhado de médico. Nenhum outro
profissional está habilitado a prescrever medicamentos.

As manifestações da ansiedade patológica estão dentro do grupo de transtornos da


ansiedade. Bernick (1999) considera que os principais sintomas desse grupo de patologia
são compartilhados por indivíduos classificados como normais com características
tanto de baixa como de alta resposta de ansiedade.

Pode-se considerar um paciente como portador do transtorno da ansiedade, aquele


que apresenta o transtorno mental no qual a manifestação da ansiedade é a principal
sintomatologia. A DSM-IV (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 1994) e a CID-
10 classificam os transtornos de ansiedade em categorias diagnósticas, agrupadas em
cinco grupos de transtornos:

1. Transtorno de ansiedade generalizada.

2. Transtorno de estresse pós-traumático.

3. Transtornos fóbicos.

4. Transtorno de pânico.

5. Transtorno obsessivo-compulsivo.

No estudo dos transtornos da ansiedade são considerados vários neurotransmissores,


já que eles participam, em maior ou menor grau, da modulação e regulação dos
comportamentos de defesa. Graeff e Hetem (2004) afirmam que dentre esses
neurotransmissores destacam-se as aminas biogênicas (noradrenalina, serotonina e
dopamina), aminoácidos (Ácido ã- Aminobutírico - GABA, glicina), peptídeos (fator de
liberação de corticotropina, colecistocinina) e esteroides (corticosterona).

»» Noradrenalina: tem sido associada com transtornos de ansiedade; é


uma monoamina comumente implicada na defesa e na ansiedade.

»» Serotonina: Graeff e Hetem (2004) argumentam que este


neurotransmissor desempenha atividade tanto estimulatória como
inibitória, de modo que várias teorias explicam sua relação, bem como de
seus receptores, com drogas ansiolíticas.

71
UNIDADE IV │ A ANSIEDADE

»» GABA: neurotransmissor encontrado em todo o sistema nervoso


central; exerce ação inibitória sobre neurônios serotoninérgicos dos
núcleos dorsais da rafe, da matéria cinzenta periaquedutal e do sistema
extrapiramidal.

Segundo Almeida e Barbosa Filho (2006), os tratamentos farmacológicos disponíveis


para transtornos da ansiedade incluem as seguintes classes de medicamentos:

»» Benzodiazepínicos: diazepam, clordiazepóxido e lorazepam.

»» Antidepressivos: tricíclicos: como imipramina e amitriptilina.

»» Inibidores seletivos da recaptação de serotonina: fluoxetina e


sertralina.

»» Inibidores da monoaminoxidase: fenelzina e moclobemida e outros.

»» Barbitúricos: amobarbital e mefobarbital.

»» Carbamatos: hidroxifenamato e meprobamato.

»» Noradrenérgicos: clonidina e propanolol.

»» Antihistamínicos: hidroxizina e cinarizina.

»» Outros como o ácido glutâmico e a buspirona.

Abaixo são apresentados os principais medicamentos para o tratamento da ansiedade.


Esses medicamentos têm, além da ansiedade, outras indicações de uso.

»» Alenthus XR: esse antidepressivo é indicado para alguns tipos de


depressão do espectro monopolar. É indicado, também, para o tratamento
da depressão, incluindo depressão com ansiedade associada, e para
prevenção de recaída e recorrência da depressão, para o transtorno de
ansiedade generalizada, do transtorno de ansiedade social (também
conhecido como fobia social) e do transtorno do pânico.

»» Alprazolam: ansiolítico da classe dos benzodiazepínicos (tarja preta).


Tem prescrição restrita devido ao fato de afetar a memória, causar
dependência e levar à depressão. Também pode desenvolver tolerância
no uso sistemático. O alprazolam é indicado no tratamento de transtornos
de ansiedade.

72
A ANSIEDADE │ UNIDADE IV

»» Amplictil: é indicado no tratamento de quadros psiquiátricos agudos,


no controle de psicoses de longa evolução, nos casos de manifestação de
ansiedade e agitação, soluços incoercíveis (soluço que não para), náuseas
(enjoo) e vômitos e neurotoxicoses (aceleração da respiração e convulsão
com os olhos dilatados) infantis.

»» Ansitec: ansiolítico que não causa dependência como causam os


medicamentos de faixa preta benzodiazepínicos. É indicado no tratamento
de distúrbios de ansiedade, como o transtorno de ansiedade generalizada
e no alívio em curto prazo dos sintomas de ansiedade, acompanhados ou
não de depressão.

»» Apraz: ansiolítico da classe dos benzodiazepínicos (tarja preta). Tem


indicação restrita pelo fato de afetar a memória, causar dependência e
levar à depressão.

»» Bromazepam: ansiolítico da classe dos benzodiazepínicos (tarja


preta). Tem prescrição restrita devido ao fato de afetar a memória,
causar dependência e levar à depressão. O bromazepam é indicado para
ansiedade, tensão e outras queixas físicas ou psicológicas associadas à
síndrome de ansiedade. É indicado, também, como medicamento auxiliar
no tratamento de ansiedade e agitação associadas a quadros psiquiátricos,
como transtornos do humor e esquizofrenia.

»» Clonazepam: indicado para distúrbio epiléptico, para transtornos de


ansiedade, transtornos do humor, transtorno afetivo bipolar, síndromes
psicóticas, síndrome das pernas inquietas, vertigem e distúrbios do
equilíbrio, síndrome da boca ardente.

»» Cloxazolam: ansiolítico da classe dos benzodiazepínicos. Tem prescrição


restrita devido ao fato de afetar a memória, causar dependência e levar
à depressão. Indicado para o tratamento de distúrbios emocionais,
distúrbios comportamentais, distúrbios do sono, sintomas somáticos,
funcionais de origem psicogênica, sentimentos de opressão e certos tipos
de dores.

»» Diazepam: é indicado como sedativo antes de procedimentos


diagnósticos ou terapêuticos ou cirurgias para aliviar a tensão, ansiedade
ou o estresse agudo e para diminuir a lembrança de tais procedimentos.

73
UNIDADE IV │ A ANSIEDADE

»» Donaren: é indicado no tratamento da depressão mental com ou sem


episódios de ansiedade, na dor neurogênica (neuropatia diabética) e
outros tipos de dores crônicas e no tratamento da depressão maior.

»» Efexor XR: antidepressivo indicado para alguns tipos de depressão do


espectro monopolar. É indicado no tratamento da depressão, incluindo
depressão com ansiedade associada e na prevenção de recaída e
recorrência da depressão no tratamento em longo prazo, do transtorno
de ansiedade generalizada, no transtorno de ansiedade social (também
conhecido como fobia social) e do transtorno do pânico.

»» Frisium: ansiolítico da classe dos benzodiazepínicos (tarja preta). Tem


prescrição restrita devido ao fato de afetar a memória, causar dependência
e levar à depressão.

»» Fluoxetina: o cloridrato de fluoxetina é indicado no tratamento da


depressão, associada ou não à ansiedade e no tratamento da bulimia
nervosa.

»» Frontal: ansiolítico da classe dos benzodiazepínicos (tarja preta). Tem


restrição devido ao fato de afetar a memória, causar dependência e levar
à depressão.

»» Hixizine: é um medicamento indicado no tratamento sintomático de


afecções dermatológicas pruriginosas. É indicado também no tratamento
sintomático de náuseas, vômitos, vertigens, doença de Meunière, tosses
alérgicas e manifestações menores de ansiedade.

»» Lexotan: ansiolítico da classe dos benzodiazepínicos (tarja preta). Tem


prescrição restrita devido ao fato de afetar a memória, causar dependência
e levar a depressão. É indicado para ansiedade, tensão e outras queixas
físicas ou psicológicas associadas à síndrome de ansiedade.

»» Lorax: ansiolítico da classe dos benzodiazepínicos (tarja preta). Tem


prescrição restrita devido ao fato de afetar a memória, causar dependência
e levar à depressão. É indicado para controle dos distúrbios de ansiedade
ou para alívio, a curto prazo, dos sintomas da ansiedade ou da ansiedade
associada com sintomas depressivos, no tratamento da componente
ansiedade em estados psicóticos e depressão intensa, quando estiver
indicada terapia adjuvante (complementar) e como medicação pré-

74
A ANSIEDADE │ UNIDADE IV

operatória, tomada na noite anterior e/ou uma a duas horas antes do


procedimento cirúrgico.

»» Lorazepam: ansiolítico da classe dos benzodiazepínicos (tarja preta).


Tem prescrição restrita devido ao fato de afetar a memória, causar
dependência e levar à depressão. É indicado para controle dos distúrbios
de ansiedade ou para alívio, a curto prazo, dos sintomas da ansiedade
ou da ansiedade associada com sintomas depressivos, no tratamento da
componente ansiedade em estados psicóticos e depressão intensa, quando
estiver indicada terapia adjuvante (complementar) e como medicação
pré-operatória, tomada na noite anterior e/ou uma a duas horas antes do
procedimento cirúrgico.

»» Mirtazapina: antidepressivo indicado para alguns tipos de depressão


do espectro monopolar. É indicado para tratar a depressão.

»» Olcadil: ansiolítico da classe dos benzodiazepínicos (tarja preta). Tem


prescrição restrita devido ao fato de afetar a memória, causar dependência
e levar à depressão. Indicado para distúrbios emocionais, distúrbios
comportamentais, distúrbios do sono, sintomas somáticos, funcionais de
origem psicogênica, sentimentos de opressão e certos tipos de dores.

»» Paroxetina: é uma medicação usada no controle das depressões e da


ansiedade.

»» Risperidona: neuroléptico usado para tratamento de casos psicóticos


em pacientes esquizofrênicos ou do espectro bipolar.

»» Rivotril: é indicado para tratar crises epilépticas, espasmos infantis


(Síndrome de West), transtornos de ansiedade, transtornos do humor,
síndromes psicóticas.

»» Sertralina: antidepressivo indicado para alguns tipos de depressão do


espectro monopolar.

Tratamento psicoterápico da ansiedade


A ansiedade nem sempre deve ser vista como um transtorno. Se causada por um
motivo adequado à situação é vista como manifestação normal do organismo. Torna-
se patológica quando a avaliação de perigo de uma determinada situação está fora dos
parâmetros normais, ocorre com frequência, causando prejuízo no desempenho social

75
UNIDADE IV │ A ANSIEDADE

e profissional do indivíduo e permanecendo tempo superior ao esperado. Clark e Beck


(2012) acrescentam a essa descrição de ansiedade patológica dois requisitos:

1. Existência de medo intenso mesmo na ausência de sinais de ameaça ou


estar associado ao menor estímulo de ameaça.

2. Medo em variedade maior de estímulos ou em situações de intensidade


relativamente leve de ameaça.

A ansiedade patológica é considerada como sendo, entre os transtornos psiquiátricos,


o de maior incidência. Nem sempre são corretamente diagnosticadas, deixando, assim,
de serem tratados.

Nesse capítulo serão apresentados estudos de caso de transtornos de ansiedade:

Estudo de caso 1 - Transtorno de Ansiedade Social:


um estudo de caso

Apresentação: Daniel (nome fictício), sexo masculino, adulto jovem, filho único,
estudante de nível superior e heterossexual. Suas principais queixas eram a presença
da ansiedade em diversas situações sociais, dificuldades para realizar seu trabalho de
conclusão de curso e dificuldade na escolha da profissão.

Exemplo 1 de tratamento psicoterápico de transtorno da de ansiedade.

Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cclin/v8n1/v8n1a08.pdf>.

Estudo de caso 2 – Intervenção cognitivo-


comportamental em transtorno de ansiedade:
relato de caso

Apresentação: Paciente do sexo masculino, 30 anos, solteiro. Passou a viver com o


irmão, a cunhada e três sobrinhos menores após um período de aproximadamente um
ano de desemprego. O paciente morava com sua mãe e dois irmãos mais novos também
solteiros e estudantes até dois meses após a perda do emprego com carteira assinada
em uma empresa de ônibus como cobrador. Com o advento do desemprego, veio a
necessidade de mudança de residência, por dois motivos: primeiro porque precisava
procurar outro emprego. Segundo, por não ter como se manter na casa da mãe, já que
não estava mais colaborando nas despesas domésticas.

76
A ANSIEDADE │ UNIDADE IV

Exemplo 2 de tratamento psicoterápico de transtorno da de ansiedade.

<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808
-56872011000100006>.

Estudo de caso 3 – Ansiedade em vestibulandos:


um estudo exploratório

Apresentação: Durante a preparação para o vestibular, o adolescente enfrenta, além


das incertezas e inseguranças inerentes à sua condição desenvolvimental, a cobrança
da família, de amigos e da própria sociedade para que ele obtenha a aprovação. Esse
contexto contribui para o surgimento da ansiedade, que, em muitos casos, ultrapassa os
limites da normalidade e pode prejudicar o desempenho do candidato durante a prova.

Exemplo 3 de tratamento psicoterápico de transtorno da de ansiedade.

Disponível em: <https://www.researchgate.net/profile/Catula_Pelisoli/public


ation/247853713_Ansiedade_em_vestibulandos_um_estudo_exploratorio/
links/5536572b0cf268fd00174b5b/Ansiedade-em-vestibulandos-um-estudo-
exploratorio.pdf>.

Estudo de caso 4 – Transtorno de ansiedade


obsessivo-compulsivo (TOC) e transtorno da
personalidade obsessivo-compulsivo (TPOC): um
“diagnóstico” analítico-comportamental

Apresentação: A cliente atendida, que aqui terá o nome fictício de Maria. É uma
senhora casada e mãe de três filhas (todas casadas). É dona de casa, mas também vende
bombons. No início do tratamento, sua filha mais nova ainda residia com a cliente
por ser a única filha ainda solteira. Posteriormente se casou, mudando-se para outra
residência.

Exemplo 4 de tratamento psicoterápico de transtorno da de ansiedade

Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid


=S1517-55452004000200007>.

77
Capítulo 3
A identificação de situações aversivas e
como enfrentar tais situações

A identificação de um problema, no conhecimento popular, significa que ele já está


50% solucionado. A adoção de um tipo de comportamento com a função de eliminar
ou postergar situações aversivas ao organismo – comportamento de esquiva – pode
assumir várias formas.

Trazendo mais uma definição para ansiedade, pode-se citar a apresentada por Allen,
Leonard e Swedo (1995) em que afirmam que ansiedade é um sentimento vago e
desagradável de medo, apreensão, caracterizado por tensão ou desconforto derivado de
antecipação de perigo, de algo desconhecido ou estranho.

A ansiedade sai do campo “normal” e passa a ser reconhecida como um transtorno


patológico quando se apresenta de forma exagerada e desproporcional em relação ao
estímulo, ou qualitativamente diversa da observada em população e contexto similares.
Leva-se em consideração também, para que seja classificada como patológica, a
interferência na qualidade de vida, o desconforto emocional que causa e o desempenho
social e profissional do indivíduo. Rosen e Schilki (1998) argumentam que as reações
exageradas ao estímulo ansiogênico se desenvolvem, mais comumente, em indivíduos
com uma predisposição neurobiológica herdada.

Um fator que facilita a identificação do fenômeno como sendo patológico ou não


patológico é avaliar o tempo da reação ansiosa – se de curta duração, a abrangência –
autolimitada e a relação efetiva que tem com o estímulo apresentado.

Os transtornos de ansiedade não são derivados de outros transtornos psiquiátricos,


ou seja, são sintomas primários. Podem levar a outros transtornos psiquiátricos como
depressão e psicose.

Já os sintomas ansiosos, que não são necessariamente transtornos de ansiedade, podem


aparecer com frequência em outras enfermidades psiquiátricas. É uma manifestação
de ansiedade explicada pelos sintomas do transtorno primário, como, por exemplo,
a ansiedade manifestada no início de um surto esquizofrênico; a ansiedade gerada a
partir do medo da separação dos pais.

78
A ANSIEDADE │ UNIDADE IV

Figura 24.

Fonte: <http://www.depressaoansiedade.com/tratamento-aliviar-sintomas-ansiedade-criancas.html>. Acesso em: 21/2/2017.

Atualmente, para os sistemas classificatórios, o transtorno de ansiedade de separação


é o único transtorno mantido na seção específica da infância e adolescência (CID-10,
DSM-IV). Os transtornos de ansiedade excessiva da infância e o de evitação da infância
(DSM-III-R), passaram a ser incluídos nas classificações atuais como transtorno de
ansiedade generalizada (TAG) e fobia social, respectivamente.

Na avaliação e na proposição de um processo terapêutico para esses transtornos, é


importante conhecer a história detalhada sobre o início dos sintomas, os possíveis
eventos desencadeantes (brigas conjugais, perda de ente querido, doença em pessoa
da família, desemprego, violência urbana, nascimento de irmãos) e o histórico de
desenvolvimento desde criança.

Na fase de avaliação, torna-se importante, também, conhecer o temperamento do


paciente (inibido, extrovertido, alegre, carinhoso), o tipo de apego que tem com a
família e com os amigos e o estilo de cuidados que tem com as pessoas mais próximas.

Outro ponto que deve considerado/avaliado é a presença ou não presença de


comorbidade5.

Classificação dos Transtornos emocionais com início especificamente na infância:

»» CID 10 - F93 – Transtornos emocionais com início especificamente na


infância.

»» CID 10 - F93.0 – Transtorno ligado à angústia de separação.

»» CID 10 - F93.1 – Transtorno fóbico ansioso da infância.

»» CID 10 - F93.2 – Distúrbio de ansiedade social da infância.

»» CID 10 - F93.3 – Transtorno de rivalidade entre irmãos.

5 Comordidade – ocorrência de duas ou mais doenças etiologicamente relacionadas.

79
UNIDADE IV │ A ANSIEDADE

»» CID 10 - F93.8 – Outros transtornos emocionais da infância.

»» CID 10 - F93.9 – Transtorno emocional da infância não especificado.

Apresentaremos neste conteúdo exemplos resumidos de tratamentos para alguns tipos


de transtorno de ansiedade.

Transtorno de ansiedade à angústia da separação

O transtorno de ansiedade da separação tem como principal sintoma um significativo


e inapropriado sofrimento adquirido, com ocorrência de medos irreais e excessivos,
após a separação de entes próximos (comumente os pais) ou até do lar (American
Psychiatric Association, 2000). Existem três características principais do transtorno
de ansiedade de separação:

»» medos ou preocupações excessivos e persistentes antes e no momento da


separação;

»» ocorrência de sintomas comportamentais e somáticos antes, durante e


depois da separação; e

»» evitação persistente ou tentativas de escapar da situação de separação.

Existe a preocupação na criança que algo ocorra com seus pais; ocorrem sensações de
abandono e ausência por parte dos pais ou mesmo que ela mesma venha a se perder,
ou que algo trágico aconteça com ela. Apresentam sintomas comportamentais como
choro, chamego exagerado com os pais, perguntas sobre separação. Os sintomas físicos
são semelhantes aos de um ataque de pânico ou transtorno de somatização: dores
diversas, desmaios, vertigens, tonturas, pesadelos, insônias, náusea, vômitos, câimbras,
palpitações etc.

Por causa dos diversos sintomas físicos apresentados, o transtorno de ansiedade da


separação é uma causa frequente de ausência na escola e de muitas consultas médicas.
De modo geral, os sintomas aparecem nos dias de escola e normalmente desaparecem
quando os pais decidem deixar a criança em casa.

Critérios diagnósticos para identificação do transtorno de ansiedade da separação:

»» Presença de, pelo menos, 3 dos 8 sintomas de ansiedade possíveis que


aparecem durante situações de separação.

»» Sintomas devem estar presentes durante as últimas quatro semanas, e


devem começar antes dos 18 anos de idade.

80
A ANSIEDADE │ UNIDADE IV

»» Sintomas causam pelo menos prejuízo moderado e não são melhor


explicados por outro transtorno psiquiátrico.

Tratamento psicoterápico indicado

Existem muitos estudos e pesquisas que oferecem opções de tratamento para pacientes
que sofrem com o transtorno de ansiedade da separação. A escolha do tratamento deve
ser feita depois de considerar fatores associados ao transtorno, como:

»» a severidade do transtorno, a duração e a disfunção devido aos sintomas,

»» o paciente e sua família – idade cronológica e mental, conhecimento,


preferências de tratamento, motivação familiar e disponibilidade,
recursos financeiros;

»» clínico – disponibilidade, habilidade e experiência.

Em casos de tratamento do transtorno de ansiedade da separação grande parte


da informação sobre resultados efetivos de tratamento se refere a terapias não
farmacológicas: psicoeducação, manejo comportamental e formas de terapia cognitivo
comportamental. Portanto, essas devem ser a primeira escolha do clínico.

Fobias específicas

O transtorno fobia específica é identificado pela presença de medo excessivo e persistente


relacionado a uma situação ou a um determinado objeto, excluídos nessa definição a
situação de exposição pública ou medo de ataques de pânico. Ao ser apresentada ao
estímulo fóbico, a criança procura correr para perto de alguém que a faça se sentir
protegida e segura, normalmente um dos pais. A reação poderá vir acompanhada de
choro, imobilidade, agitação psicomotora, desespero ou ataques de pânico.

As crianças, de modo geral, têm medo de pequenos animais, escuridão, aplicação de


injeções, altura e barulhos intensos. Pode-se diferenciar as fobias específicas dos medos
comuns na infância pela intensidade e frequência das reações apresentadas. São, de
modo geral, excessivas e inadequadas, fogem do controle da criança, são persistentes e
causa comprometimento no desempenho social da criança.

Tratamento psicoterápico indicado

O tratamento mais utilizado para fobias específicas tem sido a terapia comportamental,
de acordo com a prática clínica. Resumidamente, as técnicas aplicadas nesse tipo de
tratamento exigem exposição da criança ao estímulo fóbico de forma a produzir a extinção

81
UNIDADE IV │ A ANSIEDADE

da reação exagerada de medo. A técnica que mais tem sido aplicada é a de dessensibilização
progressiva, seguindo uma lista hierárquica das situações ou objetos temidos. Esse tipo de
tratamento, baseado na exposição, é acompanhado, na maioria das vezes, da combinação
com outras técnicas cognitivo-comportamentais (modelagem, manejo de contingências,
identificação e modificação de situações relacionadas ao estímulo fóbico, que não o
próprio estímulo, procedimentos de autocontrole e relaxamento).

Fobia social

Assim como identificado em adulto, o medo persistente e intenso de situações em que


o indivíduo julga estar exposto à avaliação de terceiros, ou o medo de se comportar
de maneira humilhante/vergonhosa, é a principal característica da Fobia social em
crianças e adolescentes. A ansiedade pode ser expressa por choro, acessos de raiva ou
afastamento de situações sociais com pessoas menos íntimas – não familiares.

As crianças com fobia social apresentam desconforto e sofrimento em inúmeras


situações: falar na sala de aula para a turma, comer próximo a outras pessoas, frequentar
festas, usar banheiros públicos, se dirigir a autoridades ou professores, evitar convívio/
brincadeiras com outras crianças. Na possibilidade de ocorrência dessas situações,
comumente há manifestação de sintomas físicos como: palpitações, tremores, calafrios
e calores súbitos, sudorese e náusea.

A depressão é uma comorbidade frequente em crianças e adolescentes com fobia social.

Tratamento psicoterápico indicado

Existe uma série indicações terapêuticas cognitivo-comportamentais para o tratamento da


fobia social em crianças. O tratamento foca inicialmente na modificação de pensamentos
mal adaptados que parecem provocar o comportamento de evitação social. Autodiálogos
negativos são comuns em crianças com ansiedade social (“todo mundo vai olhar para
mim”; “e se eu fizer alguma coisa errada?”). A base do tratamento comportamental
consiste na exposição gradual à situação temida. Os procedimentos dessa intervenção
seguem os mesmos princípios do tratamento para adultos, crianças e adolescentes. O que
se modifica é a graduação da exposição aos estímulos temidos, que deve ser, no caso de
crianças e adolescentes, planejada com um maior número de etapas.

Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)

As crianças são mais vulneráveis à violência e ao abuso sexual. O reconhecimento


crescente que experiências traumáticas podem ter um impacto grave e duradouro

82
A ANSIEDADE │ UNIDADE IV

sobre as crianças tem sido evidenciado, com um número cada vez maior de pesquisas e
estudos sobre o tema.

O diagnóstico do transtorno de estresse pós-traumático é feito a partir da ocorrência


de um acontecimento que ameace a integridade ou a vida da criança e passam a ser
observadas alterações importantes no seu comportamento. Dentre as possíveis reações,
estão: os comportamentos manifestos de inibição ou desinibição excessiva, agitação
e reatividade emocional aumentada, hipervigilância. As reações podem ser, também,
pensamentos obsessivos ou pesadelos com conteúdo relacionado à vivência traumática.
Também pode ser observado comportamento que evite os estímulos associados ao
evento traumático.

Tratamento psicoterápico indicado

Existem evidências sobre resultados positivos na abordagem cognitivo-comportamental


e da psicoterapia dinâmica breve. Em crianças com pouca idade, devem ser utilizados
objetos intermediários como brinquedos ou desenho de modo a facilitar a comunicação,
evitando interpretações sem confirmações concretas sobre o que ocorreu, e, ao mesmo
tempo, fornecendo subsídios que permitam a elaboração da experiência traumática.

A abordagem cognitivo-comportamental tem o propósito de focar o tratamento nos


sintomas-alvo, para reverter o condicionamento da reação ansiosa, pela habituação ao
estímulo. A terapia deve servir para auxiliar o paciente a enfrentar o objeto temido.

Há até poucas décadas, as manifestações de comportamentos desajustados de crianças,


medos, temores e preocupações durante a infância eram transitórios e positivos para
o desenvolvimento infantil. Hoje, no entanto, há um reconhecimento de que podem
constituir transtornos de grande importância, muito frequentes e que provocam dor
física e emocional, causando sofrimento e disfunção na criança e no adolescente. A
identificação precoce de transtornos, como os relacionados à ansiedade, pode evitar
graves problemas na idade adulta e evitar, também, consequências negativas na vida
da criança, tais como o absenteísmo e a evasão escolar. Outra consequência causada
pelos transtornos de ansiedade é a utilização demasiada de serviços de pediatria,
com consequente uso de terapia medicamentosa, por queixas somáticas associadas à
ansiedade e, possivelmente, a ocorrência de problemas psiquiátricos na vida adulta.

83
Para (não) finalizar

A prática das terapias comportamentais baseia-se num conjunto de estudos pesquisas e


teorias bem desenvolvidas, utilizadas para formular planos de tratamentos, bem como
fundamentar as ações do terapeuta.

Foi visto, ao longo do conteúdo deste caderno de estudos, que as terapias comportamentais
se baseiam em dois princípios:

»» A influência que nossas cognições têm sobre nossas emoções e


comportamentos.

»» A forma de nos comportarmos e como agimos pode afetar diretamente


nossos pensamentos e emoções.

O desenvolvimento de uma prática saudável de pensamento pode afetar positivamente


os níveis de angústia ou oferecer melhor sensação de bem-estar às pessoas. Essa é uma
perspectiva adotada em muitas culturas e se perpetua há várias gerações.

Os conceitos básicos das terapias comportamentais são descritos por Beck e cols. (1979)
que identificaram três níveis do processamento cognitivo:

Consciência

Figura 25.

Fonte: Wright, Basco e Thase, 2009.

84
para (não) finalizar

Pensamentos automáticos

Figura 26.

Fonte: Wright, Basco e Thase, 2009.

Esquemas

Figura 27.

Fonte: Wright, Basco e Thase, 2009.

A partir da identificação e do reconhecimento do nível de processamento cognitivo, a


terapia, na modalidade comportamental, deverá atuar utilizando técnicas que visam
ajudar os pacientes a detectarem e modificarem seus pensamentos, em especial os que
estão diretamente relacionados com os sintomas emocionais que servem de gatilho
para o desencadeamento de doenças como, por exemplo, a depressão ou a ansiedade.

A proposta das terapias comportamentais seria, então, auxiliar o paciente a agir sobre o
pensamento para alcançar o objetivo de aflorar as cognições autônomas e controlar as
cognições conscientes.

Estudos de caso de pacientes tratados com terapias comportamentais:

1 - Intervenção cognitivo-comportamental em transtorno de ansiedade:


relato de caso.

Figura 28.

Fonte: <http://ansiedade.net/wp-content/uploads/2011/03/ansiedade-tratamento.jpg>. Acesso em: 3/3/2017.

85
Para (Não) Finalizar

O estudo de caso aqui proposto vem mostrar o manejo do transtorno de ansiedade no


serviço público, como uma possibilidade real de promoção da autonomia do sujeito a
partir de intervenções cognitivo-comportamentais. Ele aborda um processo terapêutico
com o objetivo de desenvolver habilidades de resolução de problemas. Para isso foram
utilizadas técnicas, como a psicoeducação, a conceituação cognitiva, a reestruturação
cognitiva, o teste de evidências, a análise das vantagens e desvantagens das tomadas de
decisões e resolução de problemas.

Esse estudo está disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script


=sci_arttext&pid=S1808-56872011000100006>.

2 - Terapia cognitivo-comportamental na depressão infantil: uma proposta


de intervenção.

Figura 29.

Fonte: <https://2.bp.blogspot.com/-dXHN-iyHJyM/V2va09zKMrI/AAAAAAAAB-M/3TJeCAubtkoXYXcXjlywg4DXcAGWv0gxwCLcB/
s320/DPI.png>. Acesso em: 3/3/2017.

O transtorno depressivo maior na infância tem se tornado cada vez mais comum,
configurando-se, na atualidade, como alvo das principais preocupações em saúde
pública. Entretanto, o interesse científico e o desenvolvimento de intervenções para
tratá-lo é pouco e bastante recente. Dessa maneira, esse trabalho teve como objetivo
principal desenvolver um protocolo terapêutico baseado na terapia cognitivo-
comportamental para o tratamento do transtorno depressivo maior em crianças de 7 a
11 anos de idade, o que foi possível pela adoção do método bibliográfico. Sua estrutura
foi organizada em 20 semanas de atendimento, que equivalem a aproximadamente 6
meses de tratamento. Foram delineadas 18 sessões com a criança, 8 sessões com os
pais e 3 sessões em conjunto. O tratamento engloba aspectos considerados relevantes
pela literatura estudada, como psicoeducação, programação de atividades prazerosas,
resolução de problemas, reestruturação cognitiva, treino em habilidades sociais e

86
para (não) finalizar

envolvimento dos pais durante todo o tratamento. Apesar das limitações encontradas
no desenvolvimento desse estudo, concluiu-se que a proposta pode beneficiar muitas
crianças ao reduzir os prejuízos decorrentes do transtorno. Por fim, salienta-se a
pretensão de desenvolver estudos posteriores capazes de avaliar a eficácia do protocolo,
o que permitirá o seu aperfeiçoamento.

Esse estudo está disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.


php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872013000200003>.

3 - Terapia cognitivo-comportamental da fobia social

Figura 30.

Fonte: <http://psiquiatrarj.com.br/wp-content/uploads/2013/05/fobia-social.jpg>. Acesso em 3/3/2017.

Esse artigo revisa aspectos relevantes da fobia social e os estágios de tratamento


por meio da terapia cognitivo-comportamental em crianças, adolescentes e adultos.
Método: A partir do banco de dados Medline, realizou-se revisão da literatura publicada
a respeito do tratamento da fobia social por meio da terapia cognitivo-comportamental.
Resultados: Revisão da literatura sugere que a fobia social é uma condição prevalente e
crônica, caracterizada por inibição social e timidez excessiva. Tanto o diagnóstico como
o tratamento desse transtorno são comumente determinados pelo nível de incômodo e
pelo prejuízo funcional. Estudos populacionais indicam taxas de prevalência ao longo
da vida para a fobia social entre 2,5 e 13,3%. As principais técnicas utilizadas na terapia
cognitivo-comportamental para a fobia social são descritas e exemplificadas em um
relato de caso. Conclusões: Há consenso geral na literatura de que a terapia cognitivo-
comportamental é eficaz tanto para o tratamento de jovens como de adultos com fobia
social. Uma vez que a fobia social com frequência tem início precoce, a identificação de
crianças com risco acentuado para o desenvolvimento de fobia social deve ser priorizada
em investigações futuras.

87
Para (Não) Finalizar

Esse estudo está disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbp/v30s2/a07


v30s2>.

4 - Fobia específica: passo a passo de uma intervenção bem-sucedida.

Figura 31.

Fonte: <http://www.ipcclinica.com.br/img/tratamento-fobias.jpg>. Acesso em: 3/3/2017.

O medo, por ser um mecanismo de proteção, é considerado como inerente a todo


ser humano. No entanto, quando é persistente, desproporcional e irracional, passa a
caracterizar um transtorno fóbico. Este artigo relata o caso de uma gestante com fobia
específica a injeção, sangue e ferimento. Nele é possível observar toda a evolução do
processo, bem como os resultados obtidos com o tratamento realizado em 13 sessões,
utilizando técnicas da abordagem cognitivo-comportamental. O acompanhamento
psicológico atingiu o objetivo terapêutico de proporcionar à cliente condições
de submeter-se a uma cesariana sem apresentar respostas psicofisiológicas que
prejudicassem o parto.

Esse estudo está disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?sc


ript=sci_arttext&pid=S1808-56872011000200007>.

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