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OLDENBOURG, Zoé. As Cruzadas.

(Tradução: Vânia Pedrosa e Maura Ribeiro


Sardinha). Editora Civilização Brasileira; Rio de Janeiro, 1968. P. 40 – 82.

Gabrielle Abreu dos Santos.

“O sistema feudal era uma instituição bem antiga – criado e elaborado pouco
a pouco, na medida de suas necessidades, tornou-se, no século XI, o único sistema social
imaginável – de tal modo reconhecido no Ocidente até as relações do homem com Deus
eram efetuadas em termo de direito feudal. Esse direito ligava o homem ao homem por
um laço pessoal, e em principio indissolúvel, e repousava na noção da pessoa muito mais
do que nas noções mais abstratas do Estado, da justiça ou do bem público.” P. 40

“O feudalismo reconhecia, de fato, dois valores essenciais: o Homem e a


Terra, sendo a terra, nesses países quase exclusivamente agrícolas, o Bem por excelência.
Não há senhor sem terra, nem terra sem senhor”.” P. 40

“[...] o feudalismo tornou-se desde o século X quase totalmente baseado no


direito hereditário. O feudo, “concedido” pelo suserano ao vassalo, era de fato
propriedade inalienável da família deste. Se se tratava de muitas terras, de uma província,
esse mesmo feudo era dividido em feudos mantidos pelos vassalos do vassalo e
igualmente hereditários.” P. 40

“As obrigações do vassalo para com o suserano eram bem limitadas: 1°


serviço militar [...] 2° ajuda financeira quando de certas circunstancias bem definidas [...]
3° serviço de conselho, ou de parlamento, ou ainda de “corte” [...] 4° dever de receber e
alojar o senhor, se este atravessa a terra do vassalo.” P. 41

“Fora destas quatro obrigações, o vassalo era praticamente independente. E o


sistema feudal parecia inventado expressamente para oferecer ao nobre o máximo de
liberdade com o máximo de garantias de segurança possível nestas condições – o suserano
sendo obrigado a defender seu vassalo no caso de ser este atacado ou ofendido.” P. 41

“Não tendo mais feudos para distribuir – sob pena de se encontrar realmente
desprovidos de terras – o príncipe ou o grande barão possuíam apenas uma autoridade
simbólica, dependente da boa vontade de seus principiantes vassalos, os quais, por sua
vez, nem sempre tinham os meios de se fazerem obedecer por seus próprios vassalos. O
poder efetivo estava tão bem repartido, que melhor se pode chamar o sistema feudal de
anarquia organizada do que de ordem social.” P. 41
“Mas, se havia anarquia, era pelo menos, incontestavelmente, “organizada”:
o juramento de homenagem não era uma simples formalidade. [...] o juramento de
homenagem ou a investidura eram, apesar de tudo, um ato simbólico e místico, de força
unanimemente reconhecida.” P. 42

“Este sistema de contratos de assistência mutua que trazia na prática situações


de uma inextricável complexidade, baseava-se em um princípio simples e, de fato, havia
resultado na formação de uma sociedade notadamente homogênea, dotada de um grande
sentimento de solidariedade de casta, uma espécie de fraternidade internacional, tão real
que os séculos posteriores iriam assimilá-la numa Ordem: a cavalaria.” P. 42

“A ideia de “cavalaria” não coincide, efetivamente, com a noção de nobreza,


nem com o oficio das armas.” P. 42

“No século XI, a noção de cavalaria não se estendia absolutamente aos


valores morais que não a coragem militar, contanto que o cavaleiro não infringisse de um
modo muito brutal as regras da moral corrente; mas tais exigências não eram importas,
não é preciso dizer, só aos cavaleiros, e os cavaleiros eram o que mais facilmente
infringiam.” P. 42/43

“Em contraposição, as obrigações relativas do oficio de armas eram


numerosas, complexas, rigorosamente respeitadas e tinham força de lei e de código moral.
Esta lei não escrita (pois o manual do perfeito cavaleiro não existia, e mesmo o cavaleiro
não sabia ler), mas universalmente reconhecida, tinha uma espécie de caráter profissional
e cuidava do manejo das armas, do conhecimento da parte técnica do oficio. Devido à
pobreza dos meios mecânicos, este conhecimento implicava muita agilidade,
engenhosidade e atividades muito variadas. O cavaleiro devia ser capaz, se fosse o caso,
de dirigir trabalhos de construção de maquinas, de se improvisar engenheiro, arquiteto,
estrategista – ainda que em pequena escala – médico (ou ao menos enfermeiro),
veterinário, e em geral possuir noções de balísticas e de mecânica, noções de
contabilidade, necessárias ao exercício de seu oficio de soldado.” P. 43

“A noção de disciplina militar propriamente dita não existia, ou existia apenas


sob forma bem vaga, de modo que a iniciativa pessoal do cavaleiro tinha uma importância
considerável.” P. 43
“O “bom cavaleiro” não era, pois, um ignorante: vivia uma época e num meio
onde não havia preocupação de ler e escrever, assim como nossos contemporâneos não
se preocupam em aprender esgrima ou equitação: ocupação de luxo, custosa e em
aplicação pratica. O saber do homem letrado – do clero – era apreciado, de acordo com
sua utilidade. Para a guerra, esta utilidade não era de primeira importância.” P. 43

“A nobreza feudal era militar, quase exclusivamente, por definição, por


vocação, por profissão: tão bem dirigida, educada para a guerra, que terminava não tendo
outro objetivo na vida [...] O tempo das grandes invasões havia passado. Mesmo na
Espanha e no Norte da Alemanha, a luta contra os mouros e os pagãos eslavos ou lituanos
assumiam um caráter de guerras locais e periódicas.” P. 43

“Poucos documentos nos revelam o pensamento e a sensibilidade ocidentais


nessa época, quando a imensa maioria da população não sabia escrever. A classe que
escrevia estava, apear de tudo, à margem da vida leiga e popular, mesmo quando não
escrevia em língua estrangeira e julgava segundo critérios estanhos ao espirito do povo.”
P. 54/55

“Até o fim do século XI, com raras exceções, os homes da Igreja foram os
únicos a escrever, e seus relatos, quando tratavam, como historiadores ou cronistas, da
vista leiga, nos mostram bem os fatos, mas fatos vistos através do prisma um pouco
uniforme da disciplina intelectual e eclesiástica.” P. 55

“Isto não significa que a Igreja tenha dominado a via social da Idade Média,
ou tenha imposto à sociedade [...] seus modos de pensar, nem que tenha sido a única
forma a possuir valores intelectuais ou morais. O que não interessava contar perdeu-se no
esquecimento. Séculos inteiros só nos são conhecidos através de seu testemunho, em geral
sincero e perspicaz, mas limitado. Através da poesia popular, sobreviveram, numa relação
tardia, as lendas de inspiração religiosa [...] e as epopeias guerreiras.” P. 55

“Os camponeses mostravam um apego feroz aos seus ritos, à celebração de


suas festas tradicionais, e consideravam o cristianismo como uma religião importa pela
força. Oficialmente e às vezes superficialmente cristianizado, o paganismo antigo, sem
dúvida ainda pré-romano, sobreviva em toda parte. Entretanto, no século XI, não havia
mais vestígios conscientes do paganismo.” P. 55
“A lenda religiosa, quer de origem oriental, como a maior parte dos contos da
Lenda Dourada, quer nascida do terror e circulando apenas na província ou na cidade,
obedece, através das variedades de situações, às mesmas leis que se encontram em todas
as lendas de todos os folclores da terra: o dragão – (ou o monstro), o herói redentor, a
inocência vitima e vingada, a procura místico-simbólica, o milagre espantosamente fácil.
E – tema mais especificamente cristão – a eterna luta contra o diabo consistindo sobretudo
nas vitorias sobre as tentações carnais.” P. 55

“Essas lendas eram recolhidas e transmitidas pelos monges. E desse horror


monástico pelo pecado da corne, toda a civilização levou a marca, sem que a sociedade
leiga da Idade Média tivesse sido submetida a tormentos desse gênero. Parece que a
tradição puramente popular foi muito pouco influenciada pelo cristianismo, os santos e
heróis que faziam parte do folclore camponês não diferindo essencialmente dos
personagens dos muitos populares pré-cristãos e hindus.” P. 56

“As lendas eram contadas durante as vigílias ou longas viagens, alimentando


a imaginação dos ouvintes, dos quais alguns se transformavam, por sua vez, em
contadores. O que a história dos lugares santos podia conter de mistério e beleza, de
riqueza espiritual, não o podemos saber. Certo é que o homem, animal inventivo,
encontrava aí um alimento intelectual à sua altura, nem superior nem inferior ao fornecido
hoje em dia pelos mitos coletivos difundidos pela imprensa e pelo cinema. Mas devido à
relativa dificuldade das comunicações e do verdadeiro isolamento que vivia o camponês,
a diversidade de crenças, das superstições dos ritos e fábulas era bem maior, fazendo com
que a mesma eterna história, através dos milênios e continentes, fosse repetida de modo
diferente em cada cidade ou em cada província.” P. 56

“Havia, no entanto, uma unidade religiosa. Essa fé única, essa fé que


substituía as demais, tomava um sentido cada vez mais familiar, localizado, local.” P. 56

“É bem verdade que o culto do santos e relíquias decorria de um paganismo,


ou melhor, de um fetichismo do qual o homem só se desembaraça, em geral,
desembaraçando-se da própria fé. É fato também que esse amor apaixonado por toda
manifestação material do sagrado era, no mesmo tampo, um modo de conceber a
comunhão com os santos.” P. 57

“Essa separação, devida a causas exteriores, gera num ocidente um pouco


provincial e atrasado, uma espécie de particularismo, um apago crescente às
manifestações materiais do divino, um desejo cada vez mais vivo de aproximação do
objeto venerado, de posse deste. A devoção ocidental era, e continua a sê-lo, infinitamente
menos transcendente do que a devoção oriental, mais familiar, mais “materialista”, mais
próxima à natureza humana do Cristo do que à sua natureza divina.” P. 57

“A cultura popular estava, pois, essencialmente orientada no sentido da


religião: ritual cristão, ritos pagãos cristianizados, tradições, concepção do universo, tudo
isso, direta ou indiretamente, contribuía para a fé cristã, já tão sólida que o padre, o monge
ou bispo não a tinham mais como monopólio e eram as vezes duramente julgado pelo
povo.” P. 58

“O homem dependia de Deus inteiramente, o Deus que distribuía, a seu grado,


chuva ou seca, paz ou guerra, um Deus senhor as epidemias, dos incêndios, de todas as
infelicidades individuais e coletivas, senhor do destino dos homens após a morte, um
soberano a quem não se ofendia impunemente.” P. 58

“O homem movimentava-se dento de um universo mental radicalmente


diferente do nosso [...] Na Idade Média, o conhecimento cientifico estava adstrito a
desempenhar um papel puramente utilitário e técnico.” P. 58/59

“A ciência, tal como em geral a concebemos hoje, era inteiramente revelada


pelas Escrituras, e nenhum descoberta levava os homens a contestar a exatidão dessa
revelação. No entanto, seria justo chamar nossos antepassados de ingênuos ou crédulos,
porque aceitavam sem prevenções os relatos dos milagres, e, em geral, fatos que
contradizem as leis da física. Para eles, estas leis não existiam, ou existiam somente a
título de experiência empírica, sujeita a dúvidas.” P. 59

“O milagre era coisa frequente, facilmente atendido e esperado. Vivendo o


homem mais num universo criado por sua imaginação do que num universo real (que de
fato, ignorava), no espirito do homem comum dessa época, os santos, os demônios e os
anjos ocupavam mais ou menos o mesmo lugar que tem em nossa imaginação as virtudes
do átomo, da medicina, da psicanalise ou amor-paixão.” P. 59

“[...] a religião popular era, e tem tendência a permanecer, na maior parte,


pagã. [...] O homem da Idade Média era cristão na medida em que era – em diversos graus
– apegado à pessoa do Cristo, e do Cristo reconhecido como Deus. A Igreja conseguira
banir qualquer equivoco quanto a isso. Toda literatura de origem popular testemunha que
a divindade total e indiscutível do Cristo era universalmente admitida.” P. 59/60

“As festas religiosas lhe ofereciam a possibilidade e lançavam-no do começo


ao fim o ano na experiencia sempre revivida dos mistérios da Encarnação, da Paixão, da
Ressurreição, de todas as etapas da vida terrestre de Cristo, dos Apóstolo, da Virgem, dos
mais venerados santos. E a devoção popular achava-se, geralmente mais viva e mais
próxima do cristianismo primitivo do que das classes superiores. As veze mesmo mais do
que a do clero.” P. 60

“A nobreza, não é preciso acentuar, era crente. No entanto, como vimos,


possuía seus próprios valores, em certo sentido independentes da religião e apesar disto
singularmente poderosos. Sempre se falou de uma “germanização” do cristianismo no
curso dos séculos X e XI – ou como sugere A. Waas, de uma “feudalização”.” P. 60

“[...] a sociedade feudal surgida das invasões germânicas, dos séculos IV e V,


periodicamente alimentada pelas invasões escandinavas no século IX, era direta ou
indiretamente tributária do antigo paganismo germânico que havia dominado os países
ditos bárbaros durante cerca de um milênio. Não obstante a dificuldade m traçar aqui sua
história e suas origens, os poucos documentos que nos deixaram os historiadores romanos
mostram como, no século I de nossa era, essa religião dominava a maior parte dos povos
germânicos e como pouco se modificava através dos séculos.” P. 61

“O paganismo germânico, religião muito primitiva, de origem indo-iraniana,


não tinha realmente relação alguma com o culto dos ídolos, e os germanos não eram mais
idólatras do que os cristãos da Idade Média. Eram politeístas; adoravam deuses
simbolizados pelas forças da natureza, mas de nenhum modo semelhantes a estas, deuses
grandemente individualizados, nem todo-poderosos nem perfeitos, condenados - num
futuro mais ou menos longínquo - a se exterminarem entre si e a desaparecerem, para o
triunfo da justiça soberana.” P. 61

“A igreja, bem entendido, não procurava explorar as semelhanças. Ao


contrário: havia logo resolutamente lançado nos Infernos toda a mitologia pagã, evitando
qualquer compromisso qualquer perigo de sincretismo, tudo que pudesse transformar
Jesus encarnado não se sabe em que figura mística assimilável a outras divindades
lendárias.” P. 62
“Convertendo-se, os germanos queimavam tudo quanto haviam adorado,
expondo-se com coragem aos castigos dos deuses abandonados. Talvez, pagãos e
politeístas, só renunciassem, a princípio, aos deuses inferiores, em favor de um deus mais
poderoso.” P. 62

“O Paraíso estava reservado aos que morriam em combate, tocados pela lança
de Odin, enquanto os doentes que morriam em seus leitos, antes de morrer se faziam ferir
no flanco por uma lança ritual a fim de merecerem as felicidades do Waltala [...]” P. 62

“O Cristo e a Igreja Católica não lhes prometia essa espécie de Paraíso. No


entanto, os germanos foram, desde os primeiros séculos do cristianismo, facilmente
ganhos pela pregação dos missionários a seus exércitos. Entretanto, espontâneas ou
forçadas, as conversões dos bárbaros germânicos tinham duração, e os antigos deuses
ficavam rapidamente esquecidos.” P. 63

“A antiga religião pagã era uma religião de castas; e um poderoso orgulho de


casta impelia os vikings nobres a reclamar pra si a proteção especial do deus dos combates
e o Paraíso dos bravos após a morte. Esse orgulho, no cristão feudal, sobreviveu em estado
latente, através dos séculos: uma classe dominante não renuncia a privilégios tão
indiscutíveis, e o ensinamento da Igreja, se podia relegar esse orgulho para o inconsciente,
não podia impedir o nobre de criar, dentro do cristianismo, sua própria maneira de
conceber a religião.” P. 63

“A Igreja, como demonstra A. Waas em sua notável obra sobre as cruzadas,


não é diretamente responsável por esta forma particular da piedade cristã. A reforma de
Cluny incitou mais de um cavaleiro a renunciar ao oficio das armas para viver uma vida
segundo a religião.” P. 63

“Mesmo entre os primeiros cruzados houve homens inspirados por um ideal


cristão que nada deviam ao espírito da cruzada: assim, Gautier Sans Avoir, que morreu
combatendo diante dos muros de Nicéia, foi, aparentemente, um desses leigos
conquistados pela pregação do Evangelho, que, depois de ter doado seus haveres aos
pobres, havia consagrado sua vida às obras de caridade (o procedimento de Gautier, um
dos chefes da chamada cruzada popular, mostra que esse homem havia tomado a cruz
sem intenção belicosa, mas para servir de guia e protetor aos peregrinos). Este foi, em
parte, o mesmo espírito que presidiu a criação das ordens militares: a princípio,
Templários e Hospitalários eram monges, antes de serem soldados.” P. 63
“[...] uma sociedade exclusivamente militar, recentemente separada das
tradições de cultura pagã de seus antepassados e vivendo em um país onde a Igreja
constituía o único núcleo cultural e moral, impregnava-se cada vez mais dessa fé que lhe
era o essencial, estranha. A hostilidade permanente entre clérigos e cavaleiros (que
substituiu através de toda a Idade Média) mostra bem a que ponto a aristocracia militar
dos países do Ocidente estava mal adaptada a uma religião que, no entanto, há séculos
professava. A Igreja era talvez poderosa e independente demais (aos olhos dos leigos)
mas, enfim, os perpétuos ataques dos barões contra o poder eclesiásticos mostravam
muito claramente que a Igreja só havia, por assim dizer, convertido pela metade as classes
feudais. Nem Bizâncio nem o Islã davam exemplo de um antagonismo tão sistemático.”
P. 64

“A sociedade leiga, consciente de sua força, zelosa de sua independência


moral, criava seus próprios valores e “cristianizava” os valores que nada tinham em si de
cristão [...] a cavalaria cristianizou-se, amoldando a religião cristã a seu próprio ideal
moral.” P. 64

“O guerreiro cristão tomava ao pé da letra a expressão “Deus dos Exércitos”,


aplicada a Jeová e se rebatiza como israelita desde que o inimigo que atacava pudesse
passar por inimigo da religião.” P. 64

“Esse soldado cristão transformar-se-ia tão bem em soldado de Cristo que,


longe de gozar em paz as beatitudes celestes, iria desce à terra e tomar parte em combates
que não eram absolutamente espirituais nem simbólicos, como veremos.” P. 64/65

“A cavalaria, em sua origem, não tinha o caráter de uma instituição e menos


ainda de uma instituição cristã. O desejo natural de ordem e organização havia impelido
os guerreiros feudais a fazerem parte, teoricamente ao menos, de uma espécie de
fraternidade militar, regida pelas mesmas regras, já existentes, obedecendo às mesmas
leis morais, submetidas às mesmas proibições. Esta sociedade, não mais uma sociedade
primitiva, mas que não era ainda uma sociedade civilizada, criou para si mesma, senão
um ideal, ao menos uma imagem consciente de sua vocação própria. O cavaleiro do
século XI não era apenas um guerreiro mais ou menos rico e poderoso.” P. 65

“Aquele que revestia, que “armava cavaleiro” um postulante, lhe conferia a


virtude da cavalaria de qual ele próprio se julgava possuidor em alto grau.” P. 65
“Só mais ou menos na metade do século XI, a cavalaria reclamou a religião,
ou pelo menos se colocou sob sua proteção. Muito natural que a Igreja tenha aceito
estender sua influencia a essa casta militar, que, na prática, dela se desembaraçava o
quanto podia.” P. 65/66

“Certamente, a reforma de Cluny teve uma influencia real cobre todas as


camadas da população, e mesmo a cavalaria a experimentou. Na maioria dos casos,
porém, a fé dos guerreiros cristãos continuava estranhamente primitiva.” P. 66

“A moral cavaleira, impregnada de um altivo estoicismo, não sem atrativos,


pouco fiava devendo a moral da Igreja. Unicamente as canções de gesta – e elas são de
redação mais recente, nenhuma remonta ao século XI – são uma ideia do que poderia ser
a vida interior dessa sociedade iletrada, mas não “bárbara”.” P. 66

“[...] a morte violenta do herói. A canção de gestão não é um western, o que


a inspira não é o gosto pela virtude triunfante, mas o gosto da morte.” P. 66

“Os heróis que se veem morrer, no instante derradeiro, voltam-se para Deus
[...] Morrem como viveram, servidores da mais alta das virtudes: a coragem.” P. 67

“Como esses homens teriam aceito acreditar que essa virtude não era a que
Deus mais estimava? Esse amor pela coragem física pela força física significava também
uma religião. Uma fé ardente, consciente e, por vezes, oposta à outra. O padre era com
frequência objeto de desprezo: o homem que se recusa a lutar, logo - raciocínio simplista,
mas lógico - um covarde. O convento tornava-se o refúgio indicado para rapazes fracos
ou medrosos e para moças solteironas.” P. 67

“Tal como nos é revelada na epopeia medieval, a vida interior do cavaleiro


francês nos parece bastante pobre – pobre, não de sentimento, mas de tradições e ideias
[...] A canção de gesta não tem nem o simbolismo nem o poder de feitiço do mito popular.
A cavalaria franca não conhecia seus antecedentes e sua evocação dos mistérios dos
séculos anteriores não remontava mais do que a época de Carlos Magno.” P. 67

“A força do herói é a base e o elemento primordial do poema. A essa força


correspondem uma energia e uma bravura extraordinária. Enfim, o herói é munido de
armas de qualidades excepcionais, pois as armas fazem parte integrante de sua pessoa.
Dois objetos essenciais: o cavalo e a espada, a espada, principalmente, pois a glória era
inseparável daquele que a possuía. Todas as armas, todo o equipamento guerreiro gozava,
porém, em grau maior ou menos, do mesmo prestígio.” P. 68

“É então que guerra e fé se unem num mesmo sentimento de amor - porque


Durindana é sagrada e não somente por suas relíquias. Não é a guarda dourada, é a lâmina
pura e cortante o verdadeiro objeto de amor. É ela que se quebra para não deixá-la ao
inimigo, é ela que, milagrosamente, fende o rochedo. As relíquias, entretanto, a protegem,
ajuntam-lhe a virtude e acabam por lhe conferir um caráter sagrado.” P. 68

“O amor da guerra e o amor de Deus tendem, no século XI, a se confundir


mais e mais, como se a cavalaria, moralmente forte, organizada e consciente de seu valor,
procurasse opor, a uma Igreja por princípio pacifista, sua própria visão do mundo [...]” P.
68

“A cavalaria francesa era, não a mais belicosa, porém, a mais atormentada


pelo desejo de encontrar uma justificação moral para sua paixão pela guerra.” P. 69

“A canção de guerra, testemunha desse estado de espírito, não é criada com


fins morais. Seus heróis lutam sem cessar porque o público ao qual se destinava não se
interessava por outra coisa. Histórias de vendettas familiares, de conquistas justas e
injustas, de guerrilhas feudais, essas canções repetem, com uma especial predileção, a
façanha de Carlos Magno, o herói lendário assimilado aos da antiguidade.” P. 69

“Carlos Magno combate para conquistar o maior número de países possível,


e os conquista aos pagãos.” P. 69

“O inimigo não é, pois, a priori, um objeto de ódio. Em ao menos é conhecido,


porém inventado. Esse sarraceno forte, bravo e feroz, e definitivamente sempre vencido,
é o inimigo ideal que, na imaginação do guerreiro medieval, substituiu o adversário bem
real, o inimigo cotidiano, o vizinho, o duque, o conde, mesmo o bispo contra o qual se
luta. Logo, é necessário que o herói tenha bons princípios para ser plenamente heroico.”
P. 69

“Muito antes das cruzadas, os papas apelavam para os sentimentos religiosos


dos guerreiros que se colocavam a serviço da Igreja, quer para defende-la diretamente,
quer para combater os infiéis. A esses piedosos mercenários a Igreja prometia
recompensas de ordem espiritual e nunca lhes faltou.” P. 70
“É preciso distinguir, no caso da primeira cruzada, a cruzada “popular” da
dos barões. Tratava-se realmente, de dois movimentos de opinião diferentes paralelos e
simultâneos. Entre s dois, não há um limite preciso. Houve, entre os nobres e pessoas
pobres, solidariedade na busca de um ideal comum, emulação, influências recíprocas.” P.
71

“A nobreza via aí, como era natural, uma empresa militar, e o povo, uma
peregrinação. Uma e outro imaginando essa missão de um novo gênero, sob o aspecto
que lhe era mais familiar, ambos acreditando firmemente na grandeza dessa missão e na
proteção divina dispensada a todo homem que tomasse a cruz.” P. 72

“Como já vimos, a nobreza feudal - e, em particular, a nobreza francesa -


aspirava desde muito a uma renovação de seus valores intelectuais e morais, ou melhor,
a uma consagração desses valores pela religião. Tornava-se cada vez mais necessário que
a fé cristã aprovasse e mesmo exaltasse o que constituía a razão de viver da sociedade
feudal. Tratava-se de uma necessidade de ordem moral, e não política.” P. 72

“Tratava-se de uma guerra dirigida contra os inimigos dos cristãos, em defesa


dos irmãos de fé – mas, vermos, esta consideração humanitária não coincidia com a que
os cruzados colocavam em primeiro plano, ainda que tenha tido também sua
importância.” P. 72

“A atração de Jerusalém, para os cristãos, não foi nunca tão forte quanto a de
Meca para os mulçumanos. A peregrinação não fazia absolutamente parte das obrigações
religiosas propriamente ditas. Desde antes do Constantino, entretanto, fora objeto de
grande simpatia, e há muito tornara-se um costume. Uma grande parte da população de
todos os países cristãos palmilhava os caminhos em direção a tal ou qual santuário, e os
caminhos de peregrinação tornavam-se grandes artérias comerciais.” P. 72/73

“Tal estado de exaltação não podia evidentemente manter-se durante anos.


Mas, mantido e revivido pelas pregações, permitiu aos voluntários da primeira cruzada
suplantar as mais terríveis dificuldades e, finalmente, atingir o fim desejado (o fim
exclusivamente terrestre, pelo menos: a libertação de Jerusalém).” P. 73

“O benefício que esses barões contavam era, sobretudo, de ordem espiritual,


ou se assim o quiserem, política: o termo ´política` não existia no sentido em que o
entendemos quase sinônimos, e os chefes cruzados não foram homens exaltados, ávidos
de heroísmo e martírio, nem aventureiros sedentos de conquistas, mas militares de
carreira, que tinham da política as concepções próprias de seu tempo e de seu meio.” P.
74

“Atrás dos grandes barões, centenas de senhores de menor importância


apressaram-se em responder ao apelo. O que significava: resolverem-se a abandonar suas
próprias terras em por um período indeterminado e a arriscar na operação uma grande
parte de suas fortunas. Foram inúmeros os cavaleiros obrigados a vender ou empenhar às
pressas, em condições pouco vantajosas suas terras e seus castelos.” P. 74

“Pelo modo como se efetuaram as viagens dos cinco exércitos da primeira


cruzada, pode-se verificar que seus chefes eram excelentes organizadores. Durante meses,
tivera de atravessar países estranhos, em geral miseráveis, frequentemente hostis,
conduzindo tropas em que, ao lado de soldados de elite, encontravam-se um bom numero
de fanáticos e elementos irresponsáveis. Entretanto, conseguiram levar seus exércitos até
Constantinopla sãos e salvos e em boa ordem, com apenas um mínimo de incidentes e
embaraços.” P. 75

“Tomando a cruz, cada soldado tinha a convicção de estar se pondo a serviço


direto de Deus. A cruz de pano costurada sobre as vestimentas – invenção de grande
penetração – tornava-se para todo homem que a levava um signo tangível, pertencente a
Deus e de proteção divina. Dava-se-lhe um valor místico, quase magico. Marchando sob
as ordens desse ou daquele barão, os cruzados não tinham, de fato, outro chefe senão
Deus, do qual os barões eram os lugar-tenentes temporários.” P. 75

“Jesus Cristo em pessoa conduzia o exército.” P. 76

“O fato em si é bem excepcional. Não apenas um, porem vários exércitos


reuniam-se não para seguir um grande conquistador, um chefe admirado ou para obedecer
a um desejo mais ou menos consciente de expansão, nem um orgulho nacional
bruscamente despertado (todos estes elementos existiam na primeira cruzada, porem em
plano secundário). O principal móvel estava apenas no desejo de servir a Deus. O famoso
grito “Deus o quer!” nada tinha de metáfora.” P. 76

“Ora, essa cavalaria belicosa estava, sabemos, constantemente em luta com a


Igreja, da qual seus valores e seu ideal diferiam. E, pela primeira vez, a Igreja lhes falava
numa linguagem que reconciliava suas consciências de cristãos com suas aspirações
profundas.” P. 76

“Como quer que seja, Jesus Cristo, uma vez proclamando e reconhecido com
oo Deus dos combatentes, inspirou uma confiança sem limites, devotamentos a toda
prova: por este Deus desejava-se lutar e morrer, este Deus era digno de ser servido.” P.
76

“A imagem de Cristo-rei-guerreiro não representava invenção nova devida às


influencias pagãs. Tinha origem na mais antiga e venerável das tradições: a do
messianismo judaico. Os apocalipses judeus, os apocalipses cristãos apócrifos e,
sobretudo, a Revelação de São João, canônica e comentada pelos teólogos de todas as
confissões cristãs, nos mostram, quando do triunfo final de Deus sobre o mal, o Messias
vitorioso submetendo todas as nações a seu poder.” P. 76/77

“Possuímos poucos documentos sobre o estado de espírito o pequeno


cavaleiro, do militar de carreira, que tomava a cruz fosse por devoção, fosse por fidelidade
a seu senhor. Mas é possível acreditar que seus objetivos e suas esperanças fossem em
geral semelhantes aos de seus chefes, pois a sociedade feudal nessa época apresentava-se
bastante monolítica: o cavaleiro médio era um homem que estimava, acima de tudo, a
bravura, a força e a gloria de lutar.” P. 78/79

“O mesmo já não acontecia com a massa de pequenos combatentes. Se o


soldado de oficio, em geral simples mercenário lutava para ganhar seu pão, a maioria dos
combatentes cruzados via-se atraída pela febre da guerra santa, e muito mais os
voluntários de condição modesta que tomavam a cruz em serem soldados de profissão.”
P. 79

“Os camponeses partiram aos milhares, como suas famílias. Das redondezas
das cidades em que existiam indústrias têxteis partiram muitos operários desempregados.
Das regiões devastadas pelas formes do no anterior, multidões de camponeses arruinados
reuniam-se aos voluntários: sem contar os mendigos e os vagabundos que tomavam a
cruz para garantir alimento e companhia.” P. 80

“O benefício moral e material das cruzadas devia reverte à cavalaria e, em


segundo lugar, à Igreja. Mas foram o mais humildes os que mais caro pagaram a hona de
servir a Deus.” P. 82