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Níveis de linguagem

AULA 3 A língua é um código usado por determinado grupo social para a comunicação
oral e escrita. Os principais níveis de linguagem são a norma culta, considerada
padrão; e a linguagem coloquial, usada de maneira natural no dia a dia, com va-
riáveis regionais.

A linguagem apresenta inúmeras formas de expressividade

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Pão, manteiga e a mídia da linguagem do cotidiano

Dentre tantos autores que abordam o conceito de linguagem, uma definição sucinta, mas ob-
jetiva, é a do francês Charles Bally, pioneiro nos estudos de estilística. Ele trata a linguagem como
sendo “um sistema de símbolos de expressão” e defende que “ela expressa o conteúdo de nossos
pensamentos, além de nossas ideias e sentimentos, elementos intelectuais e afetivos”.
Nossa rotina é composta de palavras, gestos, sons e imagens; nossas experiências criam em
nós uma relação com o mundo. O cotidiano é, portanto a mídia que faz a interação entre nós e as
nossas narrativas, nossas histórias. O pão com manteiga, por exemplo, de tanto que o comemos,
todos os dias, o sabor, o aroma, a consistência, a textura da massa parecem natural para nós.
O mesmo acontece com a linguagem cotidiana: tácita (compreendemos o que está à nossa
volta sem esforço de interpretação) e irrefletida (ninguém se preocupa em analisá-la para entender
a si próprio e o mundo).
Artigo publicado na edição de 16.07.2013 do jornal Cruzeiro do Sul. Fragmentos adaptados.

Língua Portuguesa 2 - Aula 3 29 Instituto Universal Brasileiro


Níveis de linguagem & Figuras de linguagem
A leitura do texto permite verificar que
Níveis de linguagem
os usos, ou registros da língua, podem
variar no espaço geográfico ou no espa-
Linguagem culta e linguagem coloquial
ço social. De acordo com o contexto ou a
Você já reparou que existem níveis di- situação, os níveis de linguagem podem
ferentes de linguagem? Leia o texto abai- ser: linguagem culta (formal) e linguagem
xo com atenção e observe as variáveis de coloquial (despreocupada) ou linguagem
vocabulário. popular (informal).
As variações entre os níveis formal e
Modos de xingar
informal da língua são chamadas de regis-
_ Biltre! tros que dependem do grau de formalismo
_ O quê? e do modo de expressão que se estabelece
_ Biltre! Sacripanta! na situação de comunicação.
_ Traduz isso para português. O registro coloquial caracateriza-se
_ Traduzo coisa nenhuma. Além do mais, por não ter planejamento prévio, constru-
charro! Onagro!
ções gramaticais mais livres, repetições
Parei para escutar. As palavras estra-
frequentes, frases curtas e conectores
nhas jorravam do interior de um Ford de
bigode. Quem as proferia era um senhor simples. O registro informal, pelo uso
idoso, terno escuro, fisionomia respeitável, de ortografia simplificada, de construções
alterada pela indignação. Quem as recebia simples. O registro formal implica em co-
era um garotão de camisa esporte, dentes nhecimento da norma culta, que estabe-
clarinhos emergindo da floresta capilar, no lece um padrão para o uso correto da lín-
interior de um fusca. Desses casos de toda gua. O registro erudito fica mais restrito
hora: o fusca bateu no Ford. Discussão. Ba- à área jurídica, filosófica e científica, que
te-boca. O velho usava o repertório de xin- utiliza um vocabulário muito específico, às
gamentos de seu tempo de sua condição: vezes rebuscado.
professor, quem sabe? Leitor de Camilo
Castelo Branco.
Linguagem culta ou formal
Os velhos xingamentos. Pessoas ha-
via que se recusavam a usar o trivial das
ruas e botequins, e iam pedir a Rui Barbo- A linguagem culta ou formal refere-
sa, aos mestres da língua, expressões que se ao conjunto de práticas linguísticas que
castigassem fortemente o adversário. Esse constituem a língua-padrão utilizada em
material... determinado país. Norma culta é um termo
Carlos Drummond de Andrade. Os velhos xin- próprio para designar a linguagem mais ela-
gamentos. De notícias & não notícias faz-se a borada e trabalhada. Tal linguagem se ca-
crônica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975. racteriza por seguir rigorosamente os pre-
ceitos gramaticais e possuir maior riqueza
Vocabulário
de vocabulário. De fato, quando a comuni-
Biltre. Homem vil, abjeto, infame. cação é mais elaborada, é construída dentro
Sacripanta. Pessoa desprezível, capaz
de quaisquer violências e indignidades.
de princípios da gramática normativa e com
Charro. Rústico, grosseiro. maiores recursos léxicos.
Onagro. Burro, jumento.
Ford de bigode. Automóvel do começo
do século XX.
A denominação culta ou formal indi-
Trivial. Comum, vulgar, que é sabido de ca a língua-padrão que normatiza a corre-
todos. ção gramatical.

Língua Portuguesa 2 - Aula 3 30 Instituto Universal Brasileiro


Linguagem coloquial ou popular
o lembrete: obedeça à norma culta da
Língua Portuguesa. Neste caso, não
É aquela que se desenvolve natural-
significa que se deva escrever usando
mente, no dia a dia. Não está subordinada
palavras difíceis e complicadas. Basica-
aos rigores da gramática normativa. Por ser
mente, deve-se usar a linguagem carac-
um meio de comunicação espontâneo, é na-
terizada pela correção gramatical, com
tural que seu vocabulário seja despreocupa-
vocabulário adequado e frases bem ela-
do. Ao contrário da linguagem culta, esta não
boradas, sem uso de termos regionais ou
apresenta aspecto uniforme, por desenvol-
gírias. Trata-se da linguagem que apare-
ver-se livremente e conforme as regiões e os
ce nos livros, jornais e revistas especiali-
grupos sociais, originam-se os falares típicos
zadas. Essa é a linguagem culta e formal
e as gírias.
que deve ser utilizada em provas e re-
Tal forma de linguagem foi bas- dações escritas, diferente da linguagem
tante utilizada na literatura, no período coloquial usada em conversas informais.
do Romantismo e do Modernismo. No O importante é estar bem consciente da
Romantismo, para aproximar-se mais diferença entre os níveis de linguagem,
da realidade da vida e no Modernismo sobretudo, conhecer e saber usar a va-
como forma de reação a tudo o que fosse riável formal ou culta.
tradicional.

Figuras de Linguagem
Estilística é a parte da gramática que
estuda o grande número de recursos que
podemos empregar para tornar a linguagem
Embora a linguagem coloquial seja mais expressiva. As figuras de linguagem
importante para comunicação informal no fazem parte da estilística, trata-se de um
cotidiano, esta não deve ser privilegiada, conhecimento essencial tanto para interpre-
em detrimento da linguagem culta ou tar textos como para o estudo da gramática.
formal que implica em aprendizagem e Podemos dividir as figuras de linguagem em
conhecimento. três tipos: figuras de sintaxe ou construção;
figuras de palavras ou tropos; figuras de
pensamento.
Linguagem culta ou coloquial: Linguagem figurada x Linguagem literal
você sabe a diferença, na
hora de fazer a redação? A linguagem figurada é aquela pela
qual uma palavra exprime uma ideia re-
correndo a outros termos, apelando as-
sim a uma semelhança, seja esta real ou
imaginária. A linguagem figurada opõe-
se à linguagem literal, já que esta usa as
palavras com o seu verdadeiro significa-
do, isto é, refere-se às coisas tais como
elas são.
Por exemplo, o termo cão refere-se,
no sentido literal, a um mamífero qua-
drúpede pertencente à família dos caní-
Nas propostas de redação feitas por deos. Contudo, na linguagem figurada, o
concursos, provas e vestibulares é comum conceito permite fazer referência a algo

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pejorativo (negativo). “Que vida de cão a uma comparação: “Ela tem a delicade-
tua!” significa que a pessoa em questão za e a pureza do lírio”. Daí, chegamos à
tem uma vida miserável e que vive sob imagem, expressando que: “Ela é um lí-
péssimas condições, sem qualquer reco- rio de pureza”. Quando a imagem alcança
nhecimento ou recompensa por isso. Ain- a compreensão de todos, o lírio passa a
da na mesma linha de raciocínio, o termo constituir o símbolo da pureza e delicade-
cachorro é igualmente com conotação za, como é universalmente conhecido.
negativa: “Você é um cachorro” (o recep- Para o povo que constitui a força-mo-
tor tem mau carácter, de acordo com o triz que dinamiza a língua, é mais fácil criar
emissor). um símbolo pela mudança de significado
Aquilo que produz a linguagem fi- de uma palavra que criar uma nova pala-
gurada é um deslocamento do sentido, vra. São consagrados pelo uso os seguintes
recurso que marca presença na poesia símbolos: águia (da inteligência); raposa (da
e nos textos literários. Em contrapartida, astúcia); víbora (da maldade); papagaio (da
nos documentos científicos ou jurídicos, tagarelice); etc.
entre outros, é mais usada a linguagem
literal (cuja função consiste unicamente
em comunicar) pela sua maior precisão e Principais figuras de construção
neutralidade, evitando assim confusões Polissíndeto. Consiste na repetição de
ou ambiguidades. uma conjunção, concorrendo, também, para
Disponível em: http://conceito.de/lingua- o reforço da ideia.
gem-figurada#ixzz2k6149WGb.
Acesso em: 08.01.2014. Texto adaptado. “Levanta cedo e vai para o trabalho e
volta do trabalho, e levanta no dia seguin-
te às mesmas horas... é a vida do pobre
operário.”

Pleonasmo. É um reforço da expressão,


pela repetição da mesma ideia, com pala-
Figuras de linguagem marcam
vras diferentes.
a língua usada no dia a dia
• “Vi com estes olhos que a terra há
Figuras de linguagem são frequen- de comer.”
tes na linguagem coloquial. Um exemplo
é a expressão “pão-duro”, conhecida por • “Ele vive uma vida feliz.”
todos para designar uma pessoa que,
embora esteja bem de finanças, vive mi-
seravelmente, ou não gosta de lançar
mão de suas posses. O uso repetido de
uma figura cristaliza-se e acaba por se
tornar uma imagem; e a permanência da
Devem-se evitar os pleonasmos
imagem gera o símbolo. Então, a partir
viciosos
da comparação forma-se a imagem e,
por fim, o símbolo.
Assim, sabemos que o lírio é uma
flor branca, delicada, e que, a menor pres-
são, se escurece. Por isso, dizemos que
uma pessoa ou coisa pura e delicada se
parece com o lírio. Na verdade, fazemos

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Trata-se de construções repetitivas forma feminina, mas com a pessoa a
que não têm valor de reforço, como por quem esse pronome se refere (pessoa
exemplo: “subir para cima”, “protagonis- do sexo masculino).
ta principal”, “entrar pra dentro”. “Não
deixe de comparecer pessoalmente”. • De número. Exemplo: O pessoal
ficou apavorado e saíram correndo.
Elipse. Consiste em subentender um Observe que o verbo sair concordou
termo omitido da oração que possa ser fa- com a ideia de plural que a palavra “pes-
cilmente determinado. Tem como objetivo a soal” sugere.
concisão.
• De pessoa. Exemplo: Os brasilei-
“Somos irmãos pelo afeto que nos ros gostamos de futebol.
une.” (Elipse do sujeito: nós) Nesse exemplo o sujeito “Os brasi-
leiros” levaria o verbo usualmente para
Zeugma. É uma espécie de elipse em a terceira pessoa do plural (eles), mas
que o termo oculto se encontra na oração ou a concordância foi feita com a primeira
no período anterior. Tem como objetivo evitar pessoa do plural (nós), indicando que
a repetição. a pessoa que fala está incluída em “os
brasileiros”.
“No último lugar pôs a arte e no prin-
cípio, o conselho.” Aliteração. Consiste na repetição orde-
 (Padre Vieira, Sermões.) nada de mesmos sons consonantais, idênti-
cos ou semelhantes.
(A vírgula substitui a forma ver-
bal “pôs”) Vai, vira, voa, vara, quem viu,
quem previu?

Anáfora. É a repetição de uma pala-


vra, ou de um segmento do texto em inter-
valos regulares, no início de versos ou fra-
ses, com o objetivo de enfatizar uma ideia.
Elipse e Zeugma são as mais É uma figura de construção muito usada em
importantes figuras elípticas; nessas poesia.
construções são omitidos um ou mais
termos. “Tende piedade, Senhor, de todas as
mulheres
Silepse. Consiste na concordância não Que ninguém mais merece tanto
com o termo que vem expresso, mas com o amor e amizade
que se subentende e está implícito, isto é, Que ninguém mais deseja tanto
não está claramente expresso. poesia e felicidade
Que ninguém mais precisa tanto
A silepse pode ser: de alegria e serenidade.”
 Vinícius de Moraes
• De gênero. Exemplo: Vossa Exce-
lência está preocupado. Anacoluto. Consiste em deixar um
Observe que o adjetivo “preocu- termo solto na frase. Normalmente, isso
pado” concorda não com o pronome ocorre porque se inicia uma determinada
de tratamento “Vossa Excelência”, de construção sintática e depois se opta por
outra. É a interrupção da construção da fra-
Língua Portuguesa 2 - Aula 3 33 Instituto Universal Brasileiro
se, ficando termos sintaticamente desliga-
dos do resto do período. Veja o exemplo a
seguir:

“A vida, não sei realmente se ela


vale alguma coisa.” A metáfora é uma espécie de com-
paração sem a presença de conectivos
“E o desgraçado, tremiam-lhe as (como, assim como, tal como etc.). Quan-
pernas, sufocando-o a tosse.” do esses conectivos aparecem na frase,
 (Almeida Garrett) temos uma comparação e não uma me-
táfora.

Principais figuras de palavras • “Pedro é tão forte como um


leão.” (comparação)
Comparação. A comparação estabelece
uma equivalência explícita entre um compa- • “Pedro é um leão.” (metáfora;
rante e um comparado, por meio de um termo símbolo = leão)
de comparação, que pode ser uma palavra
ou locução. Entre os conectivos que marcam Para que exista a metáfora, há a
a comparação destacam-se: como, assim concorrência de dois fatores:
como, tal qual. 1 - Que ela resulte de uma compa-
ração implícita;
2 - Que dê sentido novo ao vocá-
O calor do teu corpo é como
bulo usado como imagem ou símbolo.
a madeira em brasa.
Metonímia. É a mudança de signifi-
O calor do teu corpo é como a madeira em brasa. cado de uma palavra em virtude da relação
que existe entre ela e outra palavra ou coi-
comparado comparante sa que as aproxima. A metonímia apresenta
semelhança com a metáfora, por haver, em
termo de comparação
ambos os casos, mudança de sentido do vo-
cábulo; mas difere pelo fato de não resultar
Metáfora. Essa palavra significa “trans- de uma comparação. A metonímia baseia-se
posição”, que consiste na mudança de sig- em substituir uma palavra por outra, ambas
nificado de um vocábulo, em virtude de se- capazes de designar realidades ligadas por
melhança, resultante de comparação mental. uma relação lógica.
A metáfora não possui o termo comparativo.
Baseia-se numa associação de ideias subje- A metonímia caracteriza-se pelo
tivas: uma palavra deixa o seu contexto nor- emprego:
mal para fazer parte de outro contexto. A me-
táfora, em todas as suas formas, é sempre • Do autor pela obra: “Li Castro Al-
uma imagem, isto é, a representação mental ves a tarde toda.” (Isto é: “Li as obras de
de uma realidade sensível. Podemos dizer Castro Alves a tarde toda.”)
que a metáfora é uma das figuras mais usa-
das, porque é resultante de comparação, re- • Do efeito pela causa e vice-versa:
curso muito empregado no linguajar do povo. “Bebeu a morte.” (“Bebeu veneno.”)
É a comparação em que um dos termos ficou
omisso. • Do instrumento pela pessoa que
o utiliza: “Ele é um bom volante”. (volan-
“Seus olhos são um céu aberto.” te por motorista)

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• Do continente pelo conteúdo: “Residem juntamente no seu peito
“Ela comeu uma caixa de bombons”. (A Um demônio que ruge e um deus
palavra caixa, que designa o continente, que chora”
 (Olavo Bilac)
ou aquilo que contém, está sendo substi-
tuída pela palavra bombons, que desig- Paradoxo ou Oxímoro. Construção tex-
naria o conteúdo.) tual que agrupa significados que se excluem
mutuamente. O paradoxo se diferencia da an-
• Do lugar ou marca pelo produto: títese por apresentar duas ideias opostas se
“Fumei um havana delicioso.” (charuto, excluem mutuamente, criando um efeito de
fabricado em Havana.) contradição.

• Da parte pelo todo: “Não há teto • “Amor é fogo que arde sem se ver,
para todos os necessitados.” (A parte teto É ferida que dói e não se sente...”
está no lugar do todo, “casa”)  (Camões)

• “Menino do rio, calor que provoca


Antonomásia. É chamada, vulgarmen- arrepio.”
te, de apelido. Consiste em substituir o nome  (Caetano Veloso)
por um epíteto tomado de algum defeito ou
qualidade daquele que se deseja apontar. Ironia. É a figura pela qual dizemos o
contrário do que pensamos, quase sempre
• O Poeta dos Escravos, em lugar com intenção sarcástica.
de Castro Alves;
• O Descobridor do Brasil, em lu- • “Belo serviço!” (A entonação espe-
gar de Pedro Álvares Cabral. cial dá à palavra “belo” o tom irônico).

Catacrese. Pode ser considerada Eufemismo. Consiste em amenizar uma


uma espécie de metáfora que consiste no ideia ou expressão grosseira ou desagradá-
emprego de um termo figurado, por falta vel, substituindo o termo exato por palavras
de palavra própria, surgindo este termo por menos desagradáveis ou mais polidas.
semelhança ou comparação entre dois ob-
jetos. Seu uso consiste em desviar uma pa- “Ele entregou a alma a Deus.” (“Ele
lavra do seu sentido próprio para dar nome morreu.”)
a alguma coisa que não possui denomina-
ção específica (“perna de cadeira”, “batata Hipérbole. Baseia-se no exagero pro-
da perna”). posital de ideias ou sentimentos para dar
realce.
• “pés da mesa”;
• Quase morri de tanto andar.
• “braços da cadeira”;
• Tenho um milhão de coisas a fazer.
• “dente de alho”.
Gradação. É uma figura de linguagem,
relacionada com a enumeração, onde são ex-
Principais figuras de pensamento postas determinadas ideias de forma crescen-
Antítese. Consiste em realçar uma te (em direção a um clímax) ou decrescente
ideia pela aproximação de palavras de sen- (anticlímax).
tidos opostos. Usa-se a antítese quando
se quer opor dois termos, na mesma frase, • “Fala, grita, berra, ninguém o atende.
ou no mesmo parágrafo, acentuando seus Dei um passo,apressei-me,corri...”
contrastes.
Língua Portuguesa 2 - Aula 3 35 Instituto Universal Brasileiro
Barbarismo. Consiste em erros de pro-
Agora veja esse outro exemplo, reti-
sódia (quando pronunciamos uma palavra er-
rado da obra de Monteiro Lobato:
radamente) ou de ortografia (quando escre-
• “Eu era pobre. Era subalterno. Era vemos errado).
nada.”
• Quando se pronuncia “ruim” (paro-
Prosopopeia ou Personificação. Con- xítona - penúltima sílaba mais forte ru-im),
siste em atribuir características, ações ou vida ao invés de “ruim” (oxítona - última sílaba
humanas a seres mortos, irracionais, inanima- mais forte), que é a forma correta.
dos ou abstratos. • Quando se escreve “advinhar” em
lugar de “adivinhar” que é a escrita correta.
• “As ondas do mar gemem na praia
deserta.”
• “A pequena árvore estava alegre
com a chegada da primavera.”

Barbarismo é, portanto, o vício de


Vícios de linguagem linguagem que consiste em usar uma pa-
Também chamados defeitos de lingua- lavra ou expressão errada quanto à gra-
gem, são os erros cometidos com relativa fre- fia, pronúncia, e também à significação,
quência pelos indivíduos que falam e escre- flexão ou formação. Veja mais exemplos
vem uma língua. Os mais comuns são: de erros:

Solecismo. Erro de concordância, de • Gráficos


regência e de colocação.
proesa, conssessiva
• Nós vai. (Em lugar de: Nós vamos. proeza, concessiva
Erro de concordância - singular x plural);
• Vi ele. (Forma certa = Vi-o. Erro de • Ortoépicos
regência - pronome reto x oblíquo);
carramanchão, subzídio
• Não diga-me. (Não me diga. Erro de caramanchão, subsídio
colocação do pronome - ênclise x próclise).
• Prosódicos
rúbrica, filântropo
rubrica e filantropo

Solecismo é uma inadequação na es- • Semânticos


trutura sintática da frase com relação à gramáti-
tráfico de carros
ca normativa do idioma. Veja outros exemplos:
tráfego de carros
Não diga Diga
Vou no banheiro. Vou ao banheiro.
Já é duas horas. Já são duas horas. • Morfológicos
Fazem seis meses que Faz seis meses que ele cidadões, uma dó (fem.), proporam,
ele voltou. voltou.
Haviam dez alunos na Havia dez alunos na
cidadãos, um dó (masc.), propuseram
sala. sala.

Língua Portuguesa 2 - Aula 3 36 Instituto Universal Brasileiro


Cacófato Oração correta
• Mórficos
Ele tem fé demais na
Ele tem muita fé na vida.
antidiluviano, filmeteca vida. (fede)

antediluviano, filmoteca Ela tinha poucos Tinha poucos


materiais. (latinha) materiais.
Estava com uma mão na Estava uma de suas
Cacofonia. Se, do encontro de duas ou cabeça. (mamão) mãos na cabeça.
mais palavras, na oração, resulta outra de Custa um real por cada Cada limão custa um
sentido ridículo ou inconveniente, temos o ví- limão. (porcada) real.

cio de linguagem denominado cacófato.


Preciosismo. Consiste no uso inade-
• “Uma prima minha esteve aqui.” quado e abusivo de palavras e expressões
(maminha) eruditas ou, como vulgarmente se diz, difíceis,
que nada acrescentam à elegância da frase
• “Ele beijou a boca dela.” (cadela)
e, antes, desservem a sua clareza. É o de-
sejo de surpreender o ouvinte com erudição
desnecessária e, por isso, pedante que leva
a este vício de linguagem. Veja esses exem-
plos: o primeiro em que colocação pronominal,
apesar de correta, não é usada habitualmen-
te; o segundo, em que o termo jurídico torna a
O cacófato é uma das ciladas mais
mensagem de difícil compreensão.
sutis da língua. Ele produz frases engra-
çadas e em alguns casos, obscenas. Pre- • A cerimônia realizar-se-á no dia 15
cisamos aperfeiçoar nosso conhecimento de março, às 20 horas. (será realizada)
da língua, para não cairmos na pobreza
da linguagem que vemos por aí: em con- • V. Exª, data vênia, não adentrou as
versas casuais, em blogues, fóruns e re- entranhas meritórias que caracterizam, hiali-
des sociais. Confira uma lista de alguns namente, o dano sofrido. (de maneira clara)
exemplos de cacófatos (cacofonia) mais
Hiato. Trata-se da concorrência de vo-
comum na língua portuguesa. Evitar esse
gais iguais.
vício de linguagem é uma maneira de
aperfeiçoar o uso correto da língua. • Chama a Ana.
Cacófato Oração correta
O nosso hino é muito O hino nacional é
Eco. Consiste no concurso desagradá-
elegante. (suíno) muito elegante. vel de palavras que terminam com o mesmo
A empresa é dirigida pela som.
Dona Maria dirige a
Dona Maria.
empresa. • O casamento do Bento foi na rua
(peladona)
Eu vi ela na rua. (viela) Eu a vi na rua.
do Livramento.
Meu coração por ti gela. Meu coração fica gelado
(tigela) por ti. Colisão. Consiste no concurso de sons
O irmão pôs a culpa consonantais semelhantes ou idênticos.
O irmão lhe pôs a culpa.
nela. (panela)
Desde então, não fez Até agora, nunca mais
Sua saia saiu suja da máquina de
mais isso. (dentão) fez isso. lavar.
Ele tem pouca fé em Ele não tem muita fé em
Deus. (café) Deus. Gerundismo. Consiste no uso inade-
quado do gerúndio. Um vício de linguagem
Língua Portuguesa 2 - Aula 3 37 Instituto Universal Brasileiro
que se alastrou de modo tão generalizado
que virou motivo de piada na boca de come- Figuras de Linguagem
diantes.
As figuras de linguagem fazem
Vou estar completando sua ligação. parte da estilística que estuda os recur-
(Vou completar...) sos empregados para tornar a lingua-
gem mais expressiva. Podemos dividir
as figuras de linguagem em três tipos:
figuras de sintaxe ou construção; figu-
ras de palavras ou tropos; figuras de
pensamento.

Níveis de linguagem & Linguagem figurada x Linguagem


Figuras de linguagem literal

Níveis de linguagem A linguagem figurada consiste num


deslocamento do sentido de uma palavra,
Linguagem culta e recurso que marca presença na poesia
Linguagem coloquial e nos textos literários. Em contrapartida,
nos documentos científicos ou jurídicos,
A leitura do texto permite verificar entre outros, é mais usada a linguagem
que os usos, ou registros da língua, po- literal (cuja função consiste unicamente
dem variar no espaço geográfico ou no em comunicar) pela sua maior precisão
espaço social. De acordo com o con- e neutralidade, evitando assim confusões
texto ou a situação, os níveis de lin- ou ambiguidades.
guagem podem ser: linguagem culta
(formal) e linguagem coloquial (des- Principais figuras de construção
preocupada) ou linguagem popular
(informal). Polissíndeto; pleonasmo; elipse;
zeugma; silepse; aliteração; anáfora;
Linguagem culta ou formal anacoluto.

A denominação culta ou formal indi- Principais figuras de palavras


ca a língua-padrão que normatiza a cor-
reção gramatical. Comparação; metáfora; metonímia;
antonomásia; catacrese.
Linguagem coloquial ou popular
Principais figuras de pensamento
É aquela que se desenvolve natural-
mente, no dia a dia. Não está subordina- Antítese; paradoxo ou oxímoro; iro-
da aos rigores da gramática normativa. nia; eufemismo; hipérbole; gradação; pro-
sopopeia ou personificação.
Embora a linguagem coloquial
seja importante para comunicação in- Vícios de linguagem
formal no cotidiano, não deve ser pri-
vilegiada, em detrimento da lingua- Também chamados defeitos de lin-
gem culta ou formal que implica em guagem. Os mais comuns são: solecis-
aprendizagem e conhecimento. mo; barbarismo; cacofonia; preciosismo;
hiato; eco; gerundismo.

Língua Portuguesa 2 - Aula 3 38 Instituto Universal Brasileiro


a) ( ) “Não sou alegre nem sou triste...”
b) ( ) “Atravesso noites e dias...”
c) ( ) “E a minha vida está completa...”
d) ( ) “Não sinto gozo nem tormento...”.

1. (ENEM 2009. Adaptada) 3. Considere o seguinte trecho do livro


A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e
Gerente - Boa tarde. Em que eu posso aju- identifique a figura de linguagem usada na ex-
dá-lo?
Cliente - Estou interessado em financia-
pressão em destaque.
mento para compra de veículo.
Gerente - Nós dispomos de várias modali- Embora a moça anônima da história seja
dades de crédito. O senhor é nosso cliente? tão antiga que podia ser uma figura bíblica. Ela era
Cliente - Sou Júlio César Fontoura, também subterrânea e nunca tinha tido floração. Minto: ela
sou funcionário do banco. era capim.
Gerente - Julinho, é você, cara? Aqui é a
Helena! Cê tá em Brasília? Pensei que você inda a) ( ) Hipérbole.
tivesse na agência de Uberlândia! Passa aqui pra b) ( ) Metáfora.
gente conversar com calma. c) ( ) Pleonasmo.
BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em língua
d) ( ) Eufemismo.
materna. São Paulo: Parábola, 2004 (adaptado).
4. Classifique as figuras que aparecem
Na representação escrita da conversa nas orações abaixo de acordo com o seguinte
telefônica entre a gerente do banco e o clien- código, preenchendo os parênteses com os
te, observa-se que a maneira de falar da ge- números correspondentes. Em seguida, esco-
rente foi alterada de repente devido: lha a alternativa correta.
a) ( ) à adequação de sua fala à conver-
( 1 ) polissíndeto
sa informal com um amigo.
( 2 ) catacrese
b) ( ) ao fato de ambos terem nascido ( 3 ) metonímia
em Uberlândia (Minas Gerais). ( 4 ) hipérbole
c) ( ) à intimidade forçada pelo cliente
ao fornecer seu nome completo. ( ) E falava, e sorria, e cantava, e gritava.
( ) Já lhe pedi mil vezes e ele não me
d) ( ) ao seu interesse profissional em
atende.
financiar o veículo de Júlio. ( ) Acabei de ler Machado de Assis.
( ) Um pé de vento fechou a janela.
2. Leia:
a) ( ) 3 - 1 - 2 - 4
Motivo
b) ( ) 1 - 3 - 4 - 2
Eu canto porque o instante existe c) ( ) 4 - 1 - 3 - 2
E a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste: d) ( ) 1 - 4 - 3 - 2
Sou poeta.

Irmão das coisas fugidias, 5. Reconheça e assinale a única alterna-


Não sinto gozo nem tormento. tiva em que não ocorre o vício de linguagem
Atravesso noites e dias identificado como barbarismo - erro de prosó-
No vento.
dia (pronúncia incorreta) ou de ortografia (es-
 Cecília Meireles
crita incorreta).
Para compor seus versos, Cecília Mei-
reles selecionou algumas palavras que se a) ( ) O time foi recorde em número de gols.
opõem pelo significado construindo a figura b) ( ) O avião fez uma aterrizagem tranquila.
de contraste denominada antítese. Assinale c) ( ) É preciso colocar a rúbrica em to-
a alternativa em que o verso não apresenta das as páginas.
antítese. d) ( ) Vou a uma cessão de cinema.
Língua Portuguesa 2 - Aula 3 39 Instituto Universal Brasileiro
4. d) ( x ) 1 - 4 - 3 - 2
Comentário. A alternativa d traz a sequên-
cia numérica correta.
( 1 ) Polissíndeto. Repetição de uma con-
junção, empregada para o reforço da ideia: “E fa-
1. a) ( x ) à adequação de sua fala à lava, e sorria, e cantava, e gritava”.
conversa informal com um amigo. ( 4 ) Hipérbole. Baseia-se no exagero pro-
Comentário. A maneira de falar da geren- posital de ideias ou sentimentos para realçá-los:
te se altera quando o cliente diz seu nome com- “Já lhe pedi mil vezes e ele não me atende”.
pleto e afirma trabalhar no banco. A partir do ( 3 ) Metonímia. Trata-se da mudança de
momento que identifica o colega de trabalho, a significado de uma palavra em virtude da relação
gerente abandona a linguagem formal e assu- que existe entre ela e outra palavra ou coisa que
me o tom descontraído da linguagem coloquial. as aproxima. A metonímia baseia-se em substituir
É bastante evidente, no diálogo transcrito, a uma palavra por outra, ambas capazes de desig-
passagem do registro formal para o informal, nar realidades ligadas por uma relação lógica.
quando a gerente identifica o amigo. Há situa- Exemplo: emprego do autor pela obra: “Acabei
ções em que a relação entre os interlocutores de ler Machado de Assis”. Equivale a dizer: Acabei
é mais formal e outras, em que é mais informal de ler uma obra de Machado de Assis.
ou pessoal. Observe os índices de informalida- ( 2 ) Catacrese. É uma espécie de metáfo-
de: troca do tratamento senhor por você, cara, ra; consiste no emprego de um termo figurado por
cê; uso de formas verbais reduzidas tá (está) e falta de palavra própria, surgindo este termo por
tivesse (estivesse). semelhança entre dois objetos. Na expressão “pé
de vento” há catacrese: a palavra pé está em um
2. c) ( x ) “E a minha vida está comple- contexto que não lhe é próprio: “Um pé de vento
ta...” fechou a janela”.
Comentário. Antítese é a figura de lin-
guagem que vem realçar uma ideia pela aproxi- 5. a) ( x ) O time foi recorde em número
mação de palavras de sentidos opostos. Usa-se de gols.
a antítese quando se quer opor dois termos, no Comentário. A única alternativa em que não
mesmo verso, frase ou parágrafo, acentuando ocorre o vício de linguagem identificado como bar-
seus contrastes. Veja as palavras em oposição barismo é a a. A palavra recorde está escrita cor-
nos versos das alternativas: a) “Não sou ale- retamente, e deve ser pronunciada como paroxíto-
gre nem sou triste...”; b) “Atravesso noites e na, com a sílaba tônica marcada na antepenúltima
dias...”; d) “Não sinto gozo nem tormento...”. sílaba: re-cor-de. Alguns gramáticos consideram
Apenas no verso da alternativa c é que não também correta a pronúncia e escrita conforme o
aparece palavras em oposição: “E a minha vida original do inglês record, neste caso com a pronún-
está completa...”. Apesar de alguns versos não cia marcando a primeira sílaba tônica re-cord. Nas
trazerem a oposição de palavras, pode-se en- demais alternativas, as frases apresentam uma
tender a antítese como uma característica mar- palavra em que ocorre barbarismo na ortografia ou
cante do poema, que acentua o aspecto da dua- prosódia, em desacordo com a norma culta. b) “O
lidade da vida. avião fez uma aterrizagem tranquila.” Neste caso,
o correto seria aterrissagem, mesmo se a forma
3. b) ( x ) Metáfora. “aterrizagem” seja considerada por alguns especia-
Comentário. A alternativa correta é a b. A listas como uma forma regionalizada. c) “É preciso
metáfora produz sentidos figurados por meio de colocar a rúbrica em todas as páginas.” O subs-
comparações implícitas, com a ausência de uma tantivo rubrica é palavra paroxítona, portanto, sem
conjunção comparativa. Aqui a metáfora faz a acento: pronúncia correta, ru-bri-ca. d) “Vou a uma
síntese da personagem apresentada como “sub- cessão de cinema.” A palavra “cessão” significa
terrânea”, sem nunca ter tido “floração”: “ela era “ato de ceder”. O correto seria “sessão de cinema”,
capim”. Vale lembrar que o livro em questão tem neste caso, com sentido de “espaço de tempo”. Há
como personagem central a figura da nordestina também a “seção de supermercado”, significando
retirante Macabéa que migra para o Rio de Ja- “subdivisão”. Portanto, cada forma escrita tem um
neiro. A metáfora parece resumir a simplicidade significado diferente, mesmo que a pronúncia da
extrema de sua existência. palavra seja sempre a mesma.

Língua Portuguesa 2 - Aula 3 40 Instituto Universal Brasileiro

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