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Diversidade no Brasil

AULA 1 A diversidade parece ser a marca histórica registrada do povo brasi-


leiro, desde a época da colonização. Os traços de diversidade estão
presentes nas características físicas, no sotaque, na alimentação, na
música, na dança, nos costumes; e se estende aos aspectos geográfi-
cos e regionais.

Percorrendo os muitos caminhos da miscigenação

Série Etnia Brasileira e Correntes Migratórias


Branco - Índio - Negro

A cara do brasileiro

Afinal, quem somos nós, os brasileiros? À primeira vista, a resposta para essa pergunta é fácil:
somos o produto da miscigenação entre os colonizadores portugueses, os índios que aqui viviam e
os africanos trazidos como mão de obra escrava, além dos imigrantes que chegaram entre os sécu-
los 19 e 20 – como alemães, italianos, japoneses. Até aí, tudo bem. Somos, enfim, um povo mestiço
genética e culturamente que, apesar da diversidade, compartilha certos traços em comum.
Que o brasileiro é miscigenado é algo que se vê. Mas quanto? Em que proporção? Ainda no
império, a mistura de etnias costumava horrorizar os europeus que desembarcavam aqui. Na épo-
ca, influenciados pelas teorias raciais, eles viam na miscigenação uma ameaça de degeneração de
todas as raças que viviam no país. Hoje, os biólogos já descartaram o próprio conceito de raça. Os
pesquisadores sabem que há tantas variações genéticas em um grupo com traços físicos em comum
que a noção de raça perdeu seu sentido – o rastreamento da herança genética é feito por meio de
análise do DNA.

Superinteressante. Setembro de 2005. Texto adaptado.

Sociologia 2 - Aula 1 5 Instituto Universal Brasileiro


Diversidade da População Brasileira
Diversidade geográfica e étnica A colonização se expande em ci-
O Brasil é um país de dimensões conti- clos: cana-de-açúcar, ouro e café; e têm
nentais e, portanto, temos uma grande varia- intensa relação com o comércio. O movi-
ção climática, fauna e flora variadas também. mento migratório regional reflete a busca
As condições geográficas, aliadas à História de novas oportunidades e condições de
(mudanças socioeconômicas), determinaram trabalho, sobretudo nas regiões Nordeste
que tivéssemos uma diversidade muito gran- e Sudeste.
de no que diz respeito ao nosso povo.
A produção de cana-de-açúcar

No Nordeste, a plantação de cana-de-açúcar


tornou-se uma ótima oportunidade de comércio
na Europa. Solo propício para tanto, escuro e
com grande concentração de argila, região de
maior proximidade da Europa, essas condições
proporcionaram um lucrativo comércio de açú-
car, produto muito apreciado pelos europeus.
Utilizou-se, para essa exploração, a mão de
obra indígena junto com a dos prisioneiros por-
tugueses (degredados), trazidos para cá.
Esse comércio chamou a atenção dos
holandeses, que invadiram nossas terras a
fim de aprender a cultivar cana e preparar o
açúcar. Ao serem expulsos do Brasil, levaram
consigo as técnicas e as empregaram nas An-
Detalhe do mapa Terra Brasilis (Atlas Miller, 1519), tilhas, tornando-se nossos concorrentes.
atualmente na Biblioteca Nacional de França.
A exploração das minas de ouro
A colonização
A queda de nosso comércio de açúcar le-
Os europeus encontraram aqui os ín- vou os exploradores a procurar novas frentes de
dios, população nativa que vivia de forma ru- trabalho, o que foi realizado com a descoberta,
dimentar, e descobriram a árvore pau-brasil, no sudeste, das minas de ouro, em Minas Gerais.
cuja madeira era usada para a tinturaria. Essa Essa notícia atraiu muitos portugueses para cá, e
extração foi predatória, pois a planta nativa vilas surgiram ao longo das minas. A população
não era substituída por outra. Esse trabalho do Brasil aumentou muito com isso.
era realizado pelos indígenas, por meio do es-
cambo (troca).
Revendo nossa história, nos primeiros
anos da chegada dos colonizadores portu-
gueses, diferentes povos europeus povoaram
nossas terras ao lado dos nativos, como os O ouro extraído era fundido em barras,
holandeses, que colonizaram a região do Ma- e parte dele (20%) seguia para Portugal. A
ranhão (região Nordeste), e os franceses, que quantidade chegou a tanto que houve uma
invadiram o Rio de Janeiro (região Sudeste).
Sociologia 2 - Aula 1 6 Instituto Universal Brasileiro
queda expressiva de seu valor na Europa. En- Imigração
tretanto, com a exploração dispendiosa, mui-
Entendemos por imigração o movimen-
tos desistiam da empreitada e passavam a
procurar novas oportunidades, como a produ- to de pessoas de um país para outro, onde
ção incipiente do café. A fase do ouro come- pretendem viver. A primeira leva de imigrantes
çou no século 17 e foi até o final do século 18, veio da Alemanha e da Itália, além de portu-
período em que a população do Brasil passou gueses que aqui já se achavam instalados.
de 300.000 para 3.000.000 de pessoas. Logo depois vieram os espanhóis.
Os sírios e libaneses começaram a imi-
grar a partir do final do século 19; os judeus
O plantio do café vieram em maior número a partir do século 20;
e os japoneses a partir de 1908, para traba-
A divisão do Brasil em capitanias here- lharem na lavoura.
ditárias foi o começo de uma estruturação po-
lítica do país e de uma colonização mais ati-
va. O café, produto do Oriente, aclimatou-se
bem aqui, e as fazendas cafeeiras, sobretudo
no Sudeste, em São Paulo, começaram a se
tornar um meio produtivo e lucrativo para os
colonizadores.
Pelo fato de haver um número insuficien-
te de trabalhadores, introduziu-se, em esca-
la maior, o trabalho escravo, sendo o africa-
no trazido da África à força. Com isso, houve
uma miscigenação de europeus e africanos,
resultando nos mestiços. Atualmente, recebemos imigrantes chine-
ses, coreanos e latino-americanos, em espe-
Mestiço. Pessoa cujos pais são de cial bolivianos (muitos clandestinos). A maioria
raças diferentes. dos asiáticos vai para o ramo comercial e os
latino-americanos, para a indústria.
Com as condições sociais e econômicas
da Europa sofrendo uma grande depressão, Causas da imigração
as colônias das Américas tornaram-se atraen-
tes para a população europeia e, assim, in- Os europeus vieram ao Brasil no in-
centivou-se a vinda de pessoas para o Brasil tuito de encontrar uma condição de vida
para impulsionar a agricultura cafeeira. Come- melhor, uma vez que muitos camponeses
çou, então, a imigração dos europeus para a tinham sido expropriados de suas terras,
lavoura do café, em virtude da crise do escra- as cidades estavam cheias e o desemprego
vismo negro e, posteriormente, da abolição da era grande. Foi a questão da sobrevivência
escravatura em 1888. que trouxe esses imigrantes europeus para
nosso país.
Cultura do café intensifica Mais tarde, com o impulso agrícola do
migrações internas café e a industrialização, estes imigrantes
passaram a vir para se estabelecerem, e al-
A cultura de café proporcionou um guns se tornaram grandes empresários, como
acúmulo de capital que viria logo em se- os da família Matarazzo.
guida a ser usado na implantação das Outro fator que causou a imigração foi a
primeiras indústrias em São Paulo, para perseguição a alguns povos, por constituírem
onde começaram as migrações internas. uma minoria dentro de uma cultura nacional
maior, ou por religião.
Sociologia 2 - Aula 1 7 Instituto Universal Brasileiro
um exemplo disto é a Oktoberfest, em Santa
Catarina.
Os japoneses se mantiveram mais fe-
chados, nos campos agrícolas de São Pau-
lo, tendo diversificado a produção dos hor-
Imigração para o Brasil tifrutigranjeiros.
Nos últimos anos, vieram para os
Estatísticas da entrada de imigrantes no Bra-
sil de 1884 a 1959
centros urbanos, passando a dedicar-se
à área de serviços. Sua influência é no-
1.507.695
1.391.898 tável nas técnicas agrícolas, na alimenta-
ção e nas práticas religiosas. E também
nas técnicas de lutas, como judô, jiu-jitsu
683.382
e tae-kwon-do.
596.647

189.727 188.723 176.422


s

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Fonte IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Herança cultural da imigração

Portugueses, espanhóis e italia-


nos, os primeiros imigrantes, influencia- Todos esses povos exerceram gran-
ram nossos hábitos alimentares, a fala, de influência cultural e trouxeram tecno-
os valores, as artes. Os africanos deixa- logias mais avançadas para a indústria,
ram fortes marcas culturais na música, novas práticas comerciais, tendo colabo-
na alimentação, na religião, na lingua- rado, também, para nosso crescimento
gem, bem como os nativos de nossa econômico.
terra, com os quais viemos a conhecer
uma série de alimentos, remédios, práti-
cas religiosas e palavras que integram o Migração
vocabulário de nossa língua. Podemos
dizer que esses povos estabeleceram É o movimento de saída de pessoas
as bases de nossa economia, seja ex- de um lugar para outro, ou de um estado
trativa, seja agrícola. ou país para outro. Aquele que migra é o
migrante.
A migração pode ocorrer por uma trans-
Os alemães concentraram-se mais no ferência de cidade em função de trabalho,
sul, onde puderam preservar seus costumes, ou por nossa vontade de experimentar outro
língua, com a presença de uma imprensa, es- lugar para viver, ou ainda por necessidades
cola e associações germanizadas. Em razão econômicas.
disso, tivemos atritos durante o Estado Novo No Brasil, o exemplo clássico é o mi-
(1937-1945), numa tentativa do governo bra- grante nordestino que foge da seca e vem
sileiro de que assimilassem a nossa cultura. para o sul, em busca de trabalho e melhores
Sua influência cultural é marcante no sul, e condições de vida.
Sociologia 2 - Aula 1 8 Instituto Universal Brasileiro
Qual a diferença entre: imigrante,
emigrante e migrante?

É muito comum haver confusão na


hora de nos referirmos a alguém como
um imigrante ou emigrante, ou como Traços da cultura japonesa no bairro da
migrante. Vejamos: imigrante é aque- Liberdade, São Paulo.

le que imigra, isto é, aquele que entra Embora tenha havido esse convívio de
em um país para nele viver. Assim, um culturas diferentes, não podemos dizer que
italiano que saiu de seu país e veio es- houve assimilação cultural por parte do povo
tabelecer-se no Brasil é um imigrante brasileiro ou por parte desses imigrantes.
para nós, brasileiros, mas em seu país Houve, na verdade, uma aculturação, ou seja,
é emigrante. Emigrante, portanto, é mudanças nos modelos iniciais de cultura,
aquele que emigra, isto é, deixa seu mas não a assimilação de uma pela outra.
país de origem para se estabelecer em
outro país. Vejamos os conceitos, segundo
Deste modo, quem sai de um país Denys Cuche, professor de Antropologia
é um emigrante em relação ao país de da Universidade de Sorbonne, França,
origem, e um imigrante em relação ao em sua obra “A noção de cultura nas ciên-
país em que chega. Quanto ao migran- cias sociais” (1999):
te, é o que sai de uma cidade, ou região Aculturação. É o conjunto de fenô-
sem um destino certo e um projeto de menos que resultam de um contato con-
fixar-se. tínuo e direto entre grupos de indivíduos
de culturas diferentes e que provocam
mudanças nos modelos culturais iniciais
de um ou de dois grupos.
Aculturação e Assimilação
Assimilação. Deve ser compreendi-
A imigração, como vimos, trouxe dife- da como a última fase da aculturação, que
rentes culturas que aqui se misturaram, ge- raramente é atingida. Ela implica o desa-
rando uma nova cultura permeada de sím- parecimento total da cultura de origem de
bolos de umas e de outras. um grupo e a interiorização completa da
Na cidade de São Paulo, isso é mui- cultura do grupo dominante.
to visível quando, ainda hoje, visitamos
certos bairros, como Higienópolis, onde Devemos lembrar que a cultura sofre mu-
existe uma concentração do povo judeu, danças com o passar do tempo. Entretanto,
com suas padarias mescladas de doces e quando falamos em aculturação, para ocorrer
pães típicos e de outros produtos do cos- esse fenômeno, é preciso haver contato direto
tume comum. entre pessoas de diferentes grupos. Portanto,
Da mesma forma, na rua 25 de Mar- nem toda mudança cultural pode ser chamada
ço, temos os doces sírios, a comida árabe de aculturação. É bom lembrarmos que fato-
e outros alimentos importados, junto com res internos à própria cultura podem causar
um comércio muito diversificado. Produ- mudanças, como a introdução do hábito de ler
tos importados do Japão e restaurantes livros e revistas, ver filmes, TV etc.
típicos japoneses concentram-se no bair- Os diferentes grupos em contato direto
ro da Liberdade. trocam experiências, hábitos, valores, mas
Sociologia 2 - Aula 1 9 Instituto Universal Brasileiro
dificilmente ocorre assimilação, que seria o Fomos descobertos pelos portugueses
fim de uma das culturas. Na maior parte das num momento de grandes mudanças políti-
vezes, as modificações são maiores num cas, econômicas e sociais na Europa. Por-
grupo que no outro, mas dificilmente um dos tugal tinha uma população muito pequena,
grupos acaba. nessa época, de forma que para cá foram
enviados muitos degredados, ou seja, por-
tugueses que estavam cumprindo pena em
regime fechado.
Por outro lado, os outros portugue-
ses que vieram para a colônia não tinham
É interessante lembrar, também, que a intenção de aqui permanecer. A ideia
cada grupo possui uma lógica interna e era explorar, enriquecer e voltar para o
os novos costumes são internalizados de país de origem. Daí terem começado a
acordo com essa lógica. exploração com o pau-brasil, que extraí-
Por exemplo, o conflito que houve na ram de forma predatória. Com o tempo, o
região sul com os imigrantes alemães, du- pau-brasil acabou, perdeu seu valor eco-
rante o Estado Novo, os quais foram proi- nômico, podendo-se afirmar que essa ex-
bidos de falar sua língua, seus jornais fo- ploração foi o começo da degradação da
ram fechados e muitos locais tiveram que Mata Atlântica.
mudar seus nomes, o mesmo ocorrendo O açúcar era um produto que tinha
com os imigrantes japoneses. Procurou- grande aceitação na Europa. Então, dadas as
-se apressar o assimilacionismo, ou seja, dimensões territoriais, maior proximidade do
forçar esses imigrantes a assimilar a cul- nordeste com relação à metrópole e possibili-
tura brasileira, pois o Brasil se encontrava dade de mão de obra nativa, os portugueses
em guerra com a Alemanha e o Japão. empreenderam a plantação de cana-de-açú-
car. No entanto, a monocultura enfraquece o
solo, que já havia sido prejudicado pela ex-
ploração do pau-brasil.
Diversidade Socioeconômica Produziu-se cana-de-açúcar até que
A diversidade histórica e econômica este produto foi levado para as Antilhas, onde
resultou na diversidade entre as regiões em deu certo, e a concorrência enfraqueceu nos-
que é dividido o Brasil. Dessa forma, dadas sa produção. A lavoura da cana também foi
as diversidades na colonização, podemos empreendida em São Vicente, de onde saí-
entender as diversidades regionais e socioe- ram as entradas e bandeiras, primeiro na
conômicas que perduram até hoje. caça ao índio, depois na exploração das mi-
nas de ouro.
Mapa atual do Brasil dividido
À medida que se embrenhavam nos
por regiões
sertões, iam se formando pequenas vilas,
principalmente junto às jazidas. A pecuária,
que se estendeu do Nordeste ao sul de Mi-
nas Gerais, foi o suporte da exploração açu-
careira, servindo também para transporte de
mercadorias.
Como aconteceu na Europa e nos Esta-
Região Norte dos Unidos, a indústria no Sul (em especial,
Região Nordeste São Paulo) polarizou o crescimento econômi-
Região Centro-Oeste co, para onde vieram os migrantes nordesti-
Região Sudeste
Região Sul
nos e de outras partes do Brasil, na esperan-
ça de ter emprego e uma condição de vida
melhor.
Sociologia 2 - Aula 1 10 Instituto Universal Brasileiro
Distribuição populacional x Rendimento médio familiar

Vamos fornecer os resultados do Censo de 2010 com relação à distribuição da popula-


ção de nosso país por região e em seguida verificaremos a remuneração por domicílio.
População e distribuição relativa (%) para o Brasil e as Grandes
Regiões - 2000/2010

Brasil e Grandes População Distribuição Relativa


Regiões 2000 2010 2000 2010
Brasil 169.799.170 190.755.799 100,0 100,0
Norte 12.900.704 15.864.454 7,6 8,3
Nordeste 47.741.711 53.081.950 28,1 27,8
Sudeste 72.412.411 80.364.410 42,6 42,1
Sul 25.107.616 27.386.891 14,8 14,4
Centro-Oeste 11.636.728 14.058.094 6,9 7,4
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000/2010.

Constatamos que a região Sudeste é a mais populosa e a sua distribuição relativa


também é a maior: 42,1% em 2010. Houve um decréscimo com relação a 2000, quando
era de 42,6%. Norte e Centro-Oeste são as regiões menos populosas.

População relativa. É o número de habitantes por quilômetro quadrado, seja de um país ou


de determinada região. Na tabela anterior, vemos a porcentagem de indivíduos por região, ou seja, a
distribuição relativa por regiões nas duas últimas colunas, 2000 e 2010. Nas duas primeiras, temos o
número da população total do Brasil e também por região.

Vamos analisar agora alguns dados estatísticos que mostram as diferenças entre as regiões do Brasil,
com respeito à distribuição populacional e ao rendimento nominal mensal familiar, em porcentagem (%):

Distribuição das pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência, por
Grandes Regiões, segundo as classes de rendimento nominal mensal de todos os trabalhos – 2010

Classes de ren- Distribuição das pessoas de 10 anos ou mais de idade,


dimento nominal ocupadas na semana de referência (%)
mensal de todos Grandes Regiões
os trabalhos (sa- Brasil Centro-
lário mínimo) (1) Norte Nordeste Sudeste Sul
Oeste
Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
Até 1 32,7 41,6 51,2 25,2 23,4 28,9
Mais de 1 a 2 32,7 25,7 20,3 38,0 38,7 34,6
Mais de 2 a 3 10,6 7,8 5,4 12,8 13,3 11,5
Mais de 3 a 5 8,3 6,4 4,4 10,0 9,9 8,9
Mais de 5 a 10 6,1 4,6 3,4 7,4 6,6 7,6
Mais de 10 a 20 2,2 1,4 1,2 2,7 2,0 3,0
Mais de 20 0,9 0,6 0,5 1,1 0,7 1,4
Sem rendimento (2) 6,6 11,9 13,6 2,9 5,3 4,1
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010.
(1) Salário mínimo utilizado: R$ 510,00. (2) Inclusive as pessoas que recebiam somente benefícios.

Sociologia 2 - Aula 1 11 Instituto Universal Brasileiro


A tabela apresentada é o resultado Quais as principais influências
do Censo Demográfico de 2010, realiza- europeias no desenvolvimento do Brasil?
do pelo Instituto Brasileiro de Geogra-
fia e Estatística (IBGE). Tomou-se como Concluindo este tema, podemos afir-
referência o valor do salário mínimo vi- mar que as influências europeias foram
gente na ocasião para análise do rendi- determinantes para o tipo de desenvolvi-
mento populacional das regiões. Anali- mento havido em nosso país. Entre elas
sando os dados colhidos, verificamos o citamos: as grandes navegações; a queda
seguinte: do feudalismo; o tipo de colonização intro-
duzida por Portugal, um país com poucos
• As regiões Norte e Nordeste habitantes e que precisou lançar mão dos
são as que apresentam maior número escravos; o desinteresse dos portugueses
de famílias que recebem apenas um sa- em fixar-se aqui, atrasando o processo de
lário mínimo, respectivamente 41,6% e colonização; e o fato de logo termos intro-
51,2%. duzido o capitalismo, que foi uma fonte ge-
• Da mesma forma, o número de radora de desigualdades, juntamente com
pessoas sem rendimento é mais alto no as diversidades existentes.
Norte e Nordeste: 11,9 e 13,6%, respecti-
vamente.
• Verificamos que a porcentagem O estrangeiro do ponto de
de famílias que recebem na faixa de 5 a vista sociológico
10 salários mínimos é maior no Centro-
-Oeste (7,6%), tendo ultrapassado a re- Embora o mundo esteja globalizado, o
gião Sudeste, onde a porcentagem é de estrangeiro ainda pode ser visto como alguém
7,4. O mesmo acontece com a faixa de diferente e, muitas vezes, rejeitado. Da mes-
10 a 20 salários mínimos, que é de 3,0% ma forma que difere do grupo em aspectos
no Centro-Oeste e 2,7% no Sudeste. Na como língua, costumes, alimentação, o es-
faixa de 20 salários mínimos, o Centro- trangeiro também pode não partilhar ideias
-Oeste tem a porcentagem de 1,4% e o com o grupo, ou seja, ele é livre para apoiar
Sudeste de 1,1%. ou não os segmentos dominantes do grupo.
• Observamos, ainda, que há gran-
de diferença entre o número de famílias Estrangeiro é a pessoa que vem
com rendimento de até 5 salários míni- de outro país e que é estranho à terra
mos e aquelas com rendimento superior a onde se encontra.
20 salários mínimos, ou seja, temos uma
Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa
grande concentração de renda: muito
pouca gente recebendo muito.

O Sudeste é a região que apresen-


ta maior número de habitantes devido ao
seu grande parque industrial, ao comércio
e serviços, que atraem principalmente jo-
vens para esse mercado de trabalho.

Sociologia 2 - Aula 1 12 Instituto Universal Brasileiro


É importante lembrar que estranho não te, seus cursos sempre tinham muitos alunos,
é o mesmo que estrangeiro. Ou seja, embora o que lhe dava algum rendimento. Seu sus-
se possa nascer num determinado grupo, a tento, no entanto, vinha quase todo de uma
sua figura no grupo pode ser de um estranho herança recebida de seu tutor. Somente em
e nunca de um estrangeiro. 1914 foi contratado como professor em tem-
É oportuno lembrar que os estrangeiros po integral, onde ficou até falecer, em 1918.
que vieram para nosso país foram discrimina- Simmel manifestou seu isolamento intelec-
dos inicialmente. Havia a classe dominante, tual. Sentia-se um estrangeiro pelo fato de ser
formada por portugueses, que tinha o privi- ex-judeu e porque era realmente tratado como
légio de ocupar cargos públicos mais impor- estrangeiro. Ele trabalhava na Universidade,
tantes, casavam-se entre si e dava-se grande pertencia ao grupo docente, mas ao mesmo
importância ao nome. Com a ascensão eco- tempo não se sentia fazendo parte do grupo.
nômica dos estrangeiros aos poucos foi mu- Constatou que, como estrangeiro, tinha uma
dando esse quadro. A literatura brasileira traz relação de proximidade e envolvimento com o
testemunho dessa fase de nosso desenvolvi- grupo, mas havia também um sentimento de
mento social. distância e indiferença, por ser tratado como
alguém “de fora”.
Estudos referentes às relações sociais
Norbert Elias (1897-1990). Ainda dentro
No estudo das relações sociais desta- do aspecto diversidade, vamos falar de mais
cam-se a Sociologia compreensiva e a mi- um estudo dentro da mi-
crossociologia que têm por objetivo estudar e crossociologia feito pelo
compreender as relações entre os atores so- sociólogo alemão Norbert
ciais quer entre indivíduos quer entre grupos, Elias, em parceria com o
e as posições e os papéis sociais que esses professor inglês John L.
mesmos atores ocupam e desempenham nos Scotson. Antes de tornar-
espaços sociais em que estão integrados. Es- se sociólogo, estudou Me-
ses estudos destacam-se no final do século dicina e Filosofia. A gran-
19 e início do século 20, a partir de experiên- de tensão na Alemanha,
cias e de observações. com a Segunda Guerra
Mundial quase começando, e a perseguição
Sociólogos mais expressivos aos judeus fizeram que Elias fosse para a In-
glaterra, pois, além de judeu, era sociólogo,
Georg Simmel (1858-1918). Sociólogo condição malvista na época. Elias viajou por
alemão destaca-se no campo da Sociologia vários países, tendo morado na África, onde
compreensiva, a partir lecionou na Universidade de Gana. Norbert
de sua experiência de publicou seu primeiro livro em 1938, obra que
vida. Simmel dedicou-se permaneceu esquecida por trinta anos: “Os
a princípio a estudos fi- estabelecidos e os outsiders”. Sempre se con-
losóficos e, depois, à So- siderou um outsider na Universidade, daí seu
ciologia, tornando-se um interesse por esse tema.
crítico dos valores domi-
nantes. Isto, aliado a sua O termo inglês outsider se traduz
origem judaica, valeu-lhe por “de fora”, “alguém que veio de outro
o preconceito sofrido por lugar”, “membro não original do grupo”.
parte do grupo acadêmico. O sociólogo per- O livro “Os estabelecidos e os outsiders”,
maneceu por muito tempo como professor não resultante desse trabalho, foi publicado
contratado na Universidade de Berlim. Sua em 1965, trazendo uma nova reflexão
remuneração estava condicionada à inscrição sobre as relações de poder.
dos alunos em seus cursos. Homem brilhan-
Sociologia 2 - Aula 1 13 Instituto Universal Brasileiro
Imigração
As primeiras levas de imigrantes vieram da
Alemanha e Itália, em seguida, da Espanha, em
busca de uma condição melhor de vida. A partir do
Quem são os estabelecidos final do século 19 vieram os sírios e libaneses e, com
e os outsiders? a perseguição nazista aos judeus, estes começaram
a entrar no Brasil no século 20. Os japoneses vieram
Na Inglaterra, o sociólogo conheceu o es-
tudo que o professor John L. Scotson havia ini- para cá a partir de 1908, para o trabalho agrícola.
ciado sobre o problema da delinquência juvenil
na comunidade de Winston Parva (nome fictício), Herança cultural da imigração
onde havia um grupo antigo de moradores e um Dos nossos colonizadores recebemos o
loteamento de recém-chegados. Chamou-se de
idioma, a religião, a literatura. Os africanos trouxe-
estabelecidos os moradores antigos e de outsi-
ram seu ritmo, culinária e religião. A influência dos
ders os que se estabeleceram depois.
Os estabelecidos consideravam-se supe- japoneses foi rica na agricultura. A imigração
riores aos outsiders, ainda que ambos tivessem nos enriqueceu pelo conhecimento tecnológico
a mesma etnia e nacionalidade, e não apresen- dos povos que para cá vieram, bem como pelas
tassem diferenças significativas com relação à práticas comerciais, colaborando para nosso
ocupação, renda ou nível ocupacional. Então, por crescimento econômico e cultural.
que os estabelecidos agiam como superiores?
Uma das causas apontadas pelo estudo foi o fato Aculturação e Assimilação
de os estabelecidos morarem há mais tempo na
localidade. Outro ponto foi o de apresentarem Diferentes povos, de culturas diferentes, mis-
maior coesão e organização. turaram-se para formar a nação brasileira. É claro
Por outro lado, os outsiders revidavam os que no cerne de cada um deles ficaram heranças
insultos, o estigma e a rejeição com a delinquên- culturais que de certa forma se misturaram. A acul-
cia e atos de vandalismo. Esta era uma forma turação é isto mesmo: nós convivemos, aprende-
particular para manifestar o sentimento de inferio- mos, usamos uma prática, uma língua, absorve-
ridade social dentro da comunidade. mos uma religião. A assimilação de outra cultura
raramente acontece, e se ocorre é porque o povo
foi tomado como uma espécie de escravo.

Diversidade socioeconômica
A diversidade econômica, desde o início da
colonização, surgiu de uma forma oportunista de
A população brasileira exploração da terra. Não havia interesse em apli-
Diversidade nacional e regional car na mesma região o capital ganho. Apenas se
corria em busca de riqueza. Ainda hoje em nosso
Diversidade geográfica e étnica país acontecem situações semelhantes, mas já
A enorme dimensão de nosso país e as se antevê alguma luz com relação ao Nordeste,
diferenças de exploração de suas riquezas pro- para onde algumas indústrias vêm se instalando.
duziram distorções pela forma de colonização,
como pela maneira de extrair os recursos. Da O estrangeiro do ponto de vista sociológico
etapa inicial, exploração do pau-brasil com o tra- Nem sempre os imigrantes foram bem-vis-
balho indígena, à agricultura da cana, pecuária tos pelos da terra, por serem diferentes. Estudos
e fabricação de café, com o escravo africano, foi da sociologia compreensiva e da microssociolo-
construída uma sociedade desigual em oportuni- gia evidenciam a manifestação de preconceito
dades de melhores condições. social nas relações com estrangeiros.

Sociologia 2 - Aula 1 14 Instituto Universal Brasileiro


A letra dessa canção reflete elementos
identitários que representam a:

a) ( ) valorização das características


naturais do sertão nordestino.
1. A imigração no Brasil já foi tema da b) ( ) denúncia da precariedade social
redação no Enem. Leia um dos trechos da co- provocada pela seca.
letânea e responda à questão. c) ( ) experiência de deslocamento vi-
venciada pelo migrante.
“Ao desembarcar no Brasil, os imigrantes
d) ( ) profunda desigualdade social en-
trouxeram muito mais do que o anseio de refazer
suas vidas trabalhando nas lavouras de café. Os tre as regiões brasileiras.
imigrantes contribuíram expressivamente para a
história do país e para a cultura brasileira. Deles o 4. Analise a tabela da aula de distribuição
Brasil herdou sobrenomes, sotaques, costumes, co- por região da população ocupada e remunerada
midas e vestimentas.”
em salários mínimos e verifique quais as regiões
Disponível em: http://www.museudaimigracao.org.br. que possuem as maiores porcentagens de pes-
Acesso em: 19.07.2012. Adaptado.
soas com remuneração de um salário mínimo
De acordo com o gráfico apresentado na apenas e de pessoas sem rendimento:
aula, que imigrantes vieram em maior número Classes de ren- Distribuição das pessoas de 10 anos ou mais de idade,
ocupadas na semana de referência (%)
dimento nominal
para trabalhar em lavouras de café, no período mensal de todos
os trabalhos (sa-
Grandes Regiões
Brasil Centro-
entre o final do século 19 e início do século 20? lário mínimo) (1) Norte Nordeste Sudeste Sul
Oeste
Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
Até 1 32,7 41,6 51,2 25,2 23,4 28,9
a) ( ) japoneses. Mais de 1 a 2
Mais de 2 a 3
32,7
10,6
25,7
7,8
20,3
5,4
38,0
12,8
38,7
13,3
34,9
11,5
b) ( ) portugueses. Mais de 3 a 5
Mais de 5 a 10
8,3
6,1
6,4
4,6
4,4
3,4
10,0
7,4
9,9
6,6
8,9
7,6
c) ( ) espanhóis. Mais de 10 a 20
Mais de 20
2,2
0,9
1,4
0,6
1,2
0,5
2,7
1,1
2,0
0,7
3,0
1,4
d) ( ) italianos. Sem rendimento (2) 6,6 11,9
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010.
13,6 2,9 5,3 4,1

(1) Salário mínimo utilizado: R$ 510,00. (2) Inclusive as pessoas que recebiam somente benefícios.

2. Quando dois povos diferentes, em a) ( ) Norte e Nordeste.


contato direto e contínuo, absorvem valores e b) ( ) Sul e Centro-Oeste.
hábitos entre si, ocorre o fenômeno sociológi- c) ( ) Nordeste e Centro-Oeste.
co denominado: d) ( ) Norte e Sul.

a) ( ) aculturação. 5. Norbert Elias e John L. Scotson, pro-


b) ( ) assimilação. fessores acadêmicos, estudando os conflitos
c) ( ) estrangeirismo. entre dois grupos de uma cidade fictícia, veri-
d) ( ) assimilacionismo. ficaram que isto acontecia porque:

3. (Enem 2012) Leia. a) ( ) o grupo dos estabelecidos se


considerava superior ao outro, que chegou
Minha vida é andar depois, chamados de outsiders.
Por esse país b) ( ) os outsiders sofriam a rejeição
Pra ver se um dia e respondiam a isto com violência e conduta
Descanso feliz ofensiva aos estabelecidos.
Guardando as recordações c) ( ) constataram que os estabeleci-
Das terras onde passei
dos mantinham a dominação, provocando a
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei revolta dos outsiders.
d) ( ) Todas estão corretas e podemos
GONZAGA, L.; CORDOVIL, H. A vida de viajante, 1953. dizer que as conclusões a que chegaram os
Disponível em: www.recife.pe.gov.br.
Acesso em: 20.02.2012 (fragmento). sociólogos podem ser aplicadas às questões
de violência urbana.
Sociologia 2 - Aula 1 15 Instituto Universal Brasileiro
3. c) ( x
) experiência de desloca-
mento vivenciada pelo migrante.
Comentário. O trecho em questão re-
flete elementos da migração, dando especial
valor à memória do migrante em seus deslo-
1. d) ( x ) italianos. camentos. Isso é perceptível nos trechos “mi-
Comentário. Com as condições sociais e nha vida é andar por esse país” e “guardando
econômicas da Europa sofrendo uma grande de- as recordações das terras onde passei”. Por-
pressão, as colônias das Américas tornaram-se tanto, a resposta correta é a alternativa c. As
atraentes para a população europeia e, assim, in- demais alternativas apresentam afirmativas
centivou-se a vinda para o Brasil para impulsionar que não têm relação direta com este trecho
a agricultura cafeeira. Começou, então, a imigra- da letra da canção. Há referências ao sertão
ção dos europeus, sobretudo dos italianos, para nordestino, mas no sentido de reforçar o as-
trabalhar na lavoura de café, em virtude da crise pecto migratório.
do escravismo negro e, posteriormente, da abo-
lição da escravatura em 1888. Confira os dados 4. a) ( x ) Norte e Nordeste.
com os números de imigrantes no período entre o Comentário. Analisando os dados co-
final do século 19 e início do século 20. lhidos, verificamos o seguinte:
• As regiões Norte e Nordeste são as
Imigração para o Brasil
que apresentam maior número de famílias
(Estatísticas da entrada de imigrantes no que recebem apenas um salário mínimo, res-
Brasil de 1884 a 1959) pectivamente 41,6% e 51,2%.
1.507.695 • Da mesma forma, o número de pes-
1.391.898 soas sem rendimento é mais alto no Norte e
Nordeste, 11,9 e 13,6%, respectivamente.

683.382 5. d) ( x ) Todas estão corretas e po-


596.647
demos dizer que as conclusões a que che-
189.727 188.723 176.422 garam os sociólogos podem ser aplicadas
às questões de violência urbana.
Comentário. No exemplo dado pelo
s

óis

es
es

es
an e
no

tro

se

sociólogo Norbert Elias sobre diversidade,


Lib ios


es

es
nh

ne
lia

Ou
gu

Sír

Ale

os moradores do novo loteamento da cida-


pa

po
Ita

rtu

Es

Ja

de fictícia de Wiston Parva, que respondiam


Po

Fonte IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística com atos de violência e delinquência às pro-
vocações do grupo primitivo, eram os outsi-
2. a) ( x ) aculturação. ders (“vindos de fora, de outro lugar”) que
Comentário. Quando povos diferen- chegaram mais tarde à comunidade e mora-
tes mantêm contato direto e contínuo entre vam em outro núcleo de um loteamento. Os
si, mesclando seus hábitos, valores, crenças, estabelecidos já se encontravam há mais
ocorre o fenômeno da aculturação. Portanto, tempo no local e por isso se consideravam
a resposta correta é alternativa a. A assimi- superiores. A pesquisa investiga sistemati-
lação pressupõe o desaparecimento de uma camente os motivos que levaram um grupo
das culturas, o que dificilmente ocorre. Estran- a manter a crença de superioridade peran-
geirismo refere-se ao uso de palavras estran- te o outro que era marginalizado. O estudo
geiras, incorporando-as ao vocabulário sem relata que não se trata exclusivamente de
tradução para o português. Quanto ao assimi- um preconceito de caráter individual, mas
lacionismo, pode ser visto como uma forma de principalmente de um preconceito social,
impor uma determinada cultura a um povo, e, portanto, pode ser aplicado às questões da
portanto, está incorreta a alternativa d. violência urbana.
Sociologia 2 - Aula 1 16 Instituto Universal Brasileiro