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19/12/2019 Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa

Acórdãos TRL Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa


Processo: 18/07.2TVLSB.L1-6
Relator: ANA DE AZEREDO COELHO
Descritores: ANULAÇÃO DE TESTAMENTO
CONFISSÃO
JUNÇÃO DE DOCUMENTO
Nº do Documento: RL
Data do Acordão: 06-12-2012
Votação: UNANIMIDADE
Texto Parcial: S
Meio Processual: AGRAVO/APELAÇÃO
Decisão: IMPROCEDENTE
Sumário: I) A irrelevância para efeito de admissão por acordo da não
impugnação dos factos relativos a direitos indisponíveis justifica-se
para evitar que seja obtido processualmente um efeito que a
vontade das partes não poderia obter só por si.
II) O acento coloca-se, assim, no direito da parte «confitente» e na
sua natureza disponível ou indisponível.
III) Em acção para a anulação de testamento, o direito que a
confissão coloca em causa é o direito à sucessão por vocação
testamentária, ao qual a lei não atribui natureza indisponível, antes
consagrando expressamente a possibilidade de o chamado repudiar
a herança.
IV) Para que o tribunal, mesmo o de recurso, requisite documento
a sugestão da parte, é necessário que a mesma invoque dificuldade
ou impossibilidade na apresentação. Caso contrário a instrução
documental da causa seria deferida ao tribunal por mero
requerimento da parte.
V) O requerimento de requisição de documentos pode suscitar no
tribunal um juízo da sua necessidade que leve os julgadores a não
deixarem na disponibilidade das partes a junção, antes se lhes
substituindo, o que o artigo 700.º, n.º 1, alínea b), do CPC, autoriza.
VI) Embora não possa ser completamente postergada a
circunstância de a declaração de vontade de outorgar testamento
ser emitida perante notário, a mesma não exclui a verificação
judicial da incapacidade acidental para testar, mormente quando
se trate de falta de liberdade para agir de modo diverso.
VII) Perante a situação de uma pessoa de idade, com problemas
graves de saúde decorrentes da trombose, que depende
exclusivamente no seu bem estar de uma única pessoa, a sua filha,
Ré nos autos, que vai criando um isolamento do pai dos restantes
afectos familiares, sobretudo das netas, tendo o testador referido,
em vida, a sua determinação em que a morte do filho em nada as
prejudicasse na herança e considerando ainda que a Ré dominava
a vida afectiva e patrimonial de seu pai, que o levou ao cartório
notarial para a celebração do testamento, e que este foi
testemunhado por pessoas da amizade pessoal da Ré, fica
demonstrada a ausência de liberdade a que alude o artigo 2199.º do
CC.
(AAC)
Decisão Texto Parcial: ACORDAM na 6ª secção do Tribunal da Relação de Lisboa:

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I) RELATÓRIO
Maria, Teresa e Alexandra, com os sinais dos autos, vieram
instaurar acção declarativa de condenação com processo comum
ordinário contra Maria da Graça, com os sinais dos autos,
alegando, em síntese, que Aníbal, avô paterno das Autoras e pai da
Ré, outorgou testamento instituindo a Ré herdeira da quota
disponível, encontrando-se incapaz de perceber o alcance de tal
acto, que não queria, uma vez que sempre afirmara que suas netas
não seriam prejudicadas pelo decesso do pai delas e filho do
testador, apenas o tendo feito por indevida influência da Ré que lhe
retirou liberdade de agir. Pedem a anulação do testamento.
A Ré contestou apenas por excepção, alegando que se encontrava
decorrido o prazo de caducidade previsto no artigo 2308.º, n.º 2, do
CC, já que as Autoras haviam conhecido o teor do testamento em
23 de Novembro de 2004, instaurando a acção em 21 de Dezembro
de 2006.
As Autoras responderam defendendo que deveriam ser
considerados admitidos por acordo os factos constantes da inicial e
considerando que a conduta da Ré, ao ocultar a existência do
testamento, deveria ser tida em conta em sede de abuso de direito
quanto à arguição da caducidade.
A Ré apresentou peça que denominou tréplica defendendo que a
resposta da Autora consubstanciava alteração do pedido e da causa
de pedir autorizando a sua resposta.
Foi proferido despacho em que se determinou o desentranhamento
da tréplica por inadmissível, se relegou para sentença o
conhecimento da excepção, se consideraram confessados os factos
da petição e se organizou a matéria de facto assente e a base
instrutória.
As partes apresentaram reclamações sendo provida a das Autoras.
Daquele despacho interpôs a Ré recurso que foi admitido como
agravo e com subida diferida. A Ré reclamou, sem êxito, da
retenção do agravo.
Apresentou alegações quanto ao agravo com conclusões que se
resumem como segue:
1 – O pedido inicialmente formulado na petição implicava a
apreciação de factos prévios ao óbito, enquanto o pedido formulado
na réplica respeita à conduta posterior da Ré alegadamente
consubstanciadora de abuso de direito.
2 – Foi assim, alterado o pedido e a causa de pedir na réplica.
3 – A Ré podia responder a essas modificações por tréplica,
carecendo de razão o despacho recorrido que a mandou
desentranhar.
4 – Foram violados os artigos 503.º, n.º 1, e 273.º, do CPC, e 20.º da
CRP.
(…)
Foi proferida sentença que julgou improcedente a excepção e
procedente a acção, anulando o testamento.
Desta decisão interpôs a Ré recurso de apelação que como tal, com

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efeito suspensivo e subida imediata nos autos foi admitido.


A Ré alegou referindo o interesse no conhecimento do agravo e
apresentou prolixas conclusões quanto à apelação que assim se
resumem:
1- Os pontos da resposta aos quesitos 1.º, 4.º a 12.º, 14.º, 16.º e 17.º,
foram incorrectamente julgados face ao teor dos depoimentos e
documentos juntos aos autos, e ainda da conjugação da matéria dada
como assente.
2- Ao contrário do pretendido pelas autoras e na sentença
erradamente aceite, os factos constitutivos alegados na petição nunca
poderiam ser considerados como admitidos por acordo, uma vez que
sendo factos pessoais do testador, não podia a ré confessá-los.
3- A Ré sempre alegou ao longo do processo que tais factos teriam
sido impugnados na sua totalidade nos termos do nº 2 do artigo 490°
do CPC porquanto "estão em oposição com a defesa considerada no
seu conjunto".
4- A confirmação é o acto pelo qual um negócio anulável é declarado
sanado pela pessoa ou pessoas a quem compete o direito de o anular.
É uma convalidação subjectiva que é atribuída a quem pode optar
entre a anulação e a convalidação.
5- Ora as autoras nos processos referidos na matéria assente nas
alíneas H, L, C aceitaram o testamento nos seus precisos termos,
confirmando expressamente a sua validade. Já nessa data as autoras
tinham conhecimento dos vícios que invocaram e do direito que lhes
assistia.
6- Ora nesses autos as autoras tiveram conhecimento da existência do
testamento e sabiam que poderiam invocar qualquer vício no âmbito
desses processos, estando representadas por advogado que juntou
procuração. Não o fazendo aceitaram o testamento nos seus precisos
termos, confirmando a sua validade. Não podem invocar a sua
invalidade em processo autónomo.
7- O tribunal recorrido não se pronunciou quanto à matéria da
confirmação, conforme alegado na conclusão anterior, deixando a
sentença recorrida de pronunciar-se sobre a questão que devia
apreciar violando o artigo 668 nº1 al d C.P.C.-sendo nula nessa parte
8- As AA, não lograram provar a situação de incapacidade no
momento da outorga e assinatura do testamento, isto é, que o testador
estivesse incapaz de entender o sentido da sua declaração ou que não
tivesse o livre exercício da sua vontade. Terá que improceder a
pretensão de anulação do testamento.
9- Resultando da resposta a dar aos quesitos que as AA. tiveram
conhecimento antes da data de 21.12.2004 da outorga de testamento
notarial por parte do seu avô Aníbal tal determina, como
consequência, que a aqui Apelante seja absolvida da instância
considerando-se procedente a excepção de caducidade do direito de
acção em tempo alegada.
10- A douta sentença, omitiu a apreciação da certidão notarial e é por
isso nula, por omissão de pronuncia, artigo 669 nº2 al b e 668 nº1 al
d.

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11- Aliás, toda a factualidade considerada como provada de 19.º a


45.º foi por igual fundada no facto de se ter considerado que não
tinha sido impugnada pela ora Apelante na contestação.
12- Não confessou pois a, aqui Apelante-Ré, nessa contestação que:
O seu pai, Aníbal, “ao produzir a declaração referida em 4 –, que
instituía a ré como herdeira da sua quota disponível –, (…) não se
encontrava em condições de entender o sentido da mesma (…)”
(matéria esta constante de 38.º de Factos Provados);
13- Ou que o seu pai “(…) não exerceu livremente a sua vontade
(…)” nesse dia 04/10/2002, e no preciso e exacto momento em que
outorgou o testamento (matéria esta constante de 39.º )
14- Sucede ainda que tais factos, que como tal foram considerados
pelo tribunal a quo, não integram ou não traduzem verdadeira
matéria de facto mas antes meras conclusões articuladas pelas AA.
na respectiva petição inicial, e que por isso não deveriam ter
integrado a matéria de facto dada por assente, quer em sede de
despacho saneador e quer em sede de sentença.
15- Com efeito, dizer-se, e reportando-se á instituição da Apelante
Maria da Graça como herdeira testamentária da sua quota
disponível, que Aníbal não se encontrava em condições de entender o
sentido da mesma (38º), ou que o mesmo não exerceu então
livremente a sua vontade (39º), não traduz matéria de facto mas antes
conclusões, o que significa que a sentença recorrida infringiu neste
particular as disposições dos artigos 511º, nº 1, e 659º, nº 2, ambos do
CPC.
16- E na verdade, o testador não se encontrava numa situação de
incapacidade, pois, prestou depoimento de parte validamente
expresso perante o Tribunal de Loures, 10 dias depois de outorgar o
testamento, devendo ser requisitado tal documento.
17- Em todo o caso, e ainda que se entenda que se trata de
verdadeiros factos, o que só por hipótese se admite, sucede que os
mesmos respeitam a direitos indisponíveis e como tal não eram
passíveis de serem admitidos por acordo (art. 490º, nº 2, do CPC, e
354º, alínea b), do C. Civil), neste caso por falta de impugnação
especificada.
Foram apresentadas contra-alegações defendendo o bem fundado
da decisão.

Corridos os vistos legais, cumpre apreciar e decidir.

II) OBJECTO DO RECURSO


1. Questões prévias
1.1 Reapreciação da matéria de facto
A Recorrente impugnou a decisão de facto, pretendendo a
reapreciação da matéria de facto nesta Relação.
(…)
1.2 Apreciação da admissão por acordo de factos articulados
Coloca a Recorrente no recurso de apelação a questão de não
deverem ser considerados admitidos por acordo os factos
articulados na petição. As Recorridas defenderam que a questão
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não poderia já ser apreciada por a Recorrente ter interposto


recurso de agravo quanto a tal, não tendo alegado ou apresentado
conclusões sobre a questão que ora suscita e que, portanto,
transitou em julgado nos autos.
Cumpre neste momento apreciar se a questão se integra ou não no
âmbito do recurso.
O problema tem nos autos um percurso «histórico» que
relembramos:
- As Autoras em réplica defenderam estarem provados por acordo
os factos alegados na petição por falta de impugnação especificada
na contestação;
- A Ré treplicou em peça que foi desentranhada;
- A Ex.ma Senhora Juiz pronunciou-se no despacho de saneamento
e condensação, considerando os factos admitidos por acordo;
- A Ré agravou desse despacho quanto à matéria ora em causa e
quanto ao desentranhamento da tréplica, agravo que foi recebido
com subida diferida (houve reclamação quanto ao efeito julgada
improcedente);
- A Ré alegou apenas quanto ao desentranhamento da tréplica,
nada alegando ou concluindo quanto à admissão por acordo dos
factos;
- Nas reclamações quanto à selecção da matéria de facto, a Ré nada
disse quanto a tal;
- A questão foi suscitada na apelação interposta.
Cremos que a dilucidação da questão tem de fazer-se pela
consideração da natureza da selecção da matéria de facto quanto à
formação de caso julgado formal.
O que é pacífico na jurisprudência: a selecção dos factos assentes
não constitui caso julgado formal, podendo ser modificada ao longo
do processo[1].
Nesse sentido Lebre de Freitas in “Código de Processo Civil
Anotado”, vol. 2º, 2001, p. 382-383, onde se lê: «Quanto ao elenco
dos factos assentes , é também indiscutível que não faz caso julgado
negativo, isto é, que não fica assente que os factos nela não insertos
não se encontram já provados à data da sua elaboração (…). Era ,
porém, controvertido, antes da revisão de 1995-1996, se a
especificação formava também caso julgado positivo, isto é, se os
factos nela dados por assentes não mais podiam ser postos em
causa». Referindo a polémica gerada no domínio da redacção do
CPC anterior à Reforma de 1995-1996, e o Assento 14/94, tirado no
domínio da legislação anterior, o Autor conclui que a nova
redacção do artigo 511.º «acentua a ideia de que a selecção dos
factos assentes, de natureza instrumental, não determina a selecção a
fazer pelo juiz a final, quando da elaboração da sentença» indicando
que a utilização quanto à selecção dos factos assentes do verbo
considerar por confronto com o verbo julgar na sentença inculca
tal conclusão.
É justamente à luz desta diferença entre as acções de considerar e
julgar que deve ser apreciada a decisão de selecionar os factos

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admitidos por acordo.


É certo que a Ex.ma Senhora Juiz, face ao debate processual
havido entre as partes, referiu no momento da selecção da matéria
de facto que os factos da petição deviam ser considerados
admitidos por acordo pela ausência de impugnação. Fê-lo,
rebatendo o único argumento então expendido pela Ré -
contradição com a defesa no seu conjunto – que considerou não se
verificar. Porém, tal indicação constitui mera explicitação do
raciocínio que sempre presidiria à selecção, não tendo a
virtualidade de alterar a natureza da selecção dos factos assentes
atribuindo-lhe o carácter de julgamento determinante de caso
julgado. Ou seja, não se formou quanto a tal caso julgado formal,
decorrente da não impugnação por ausência de alegações no
agravo interposto.
E a ausência de reclamação da selecção dos factos assentes?
Permite à Recorrente suscitar a questão na apelação? Mais do que
isso: deve considerar-se que não há reclamação quanto aos factos
considerados assentes?
Comecemos pela última questão que inutiliza as primeiras. A
Recorrente não reclamou da matéria de facto assente na peça que
formalmente constitui tal reclamação, a de fls 393 a 395. Porém, em
data anterior, sob a forma de recurso de agravo, havia impugnado
a conclusão de admissão por acordo dos factos alegados na petição,
recurso que foi recebido. Ora, tal matéria não podia ser objecto de
recurso autónomo visto o disposto no artigo 511.º, n.º 3, do CPC,
mas apenas de reclamação.
Sendo o requerimento de interposição de recurso claro quanto à
impugnação da matéria de facto considerada assente e tempestivo
para os efeitos da reclamação a que alude o artigo 511.º, n.º 2, do
CPC, entendemos dever considerar-se como integrando reclamação
para este efeito.
Em consequência, tal habilita a Recorrente a suscitar a questão na
apelação interposta, questão que integrará o objecto do recurso.
2. Questões a decidir
Tendo em atenção as conclusões da Recorrente (em ambos os
recursos interpostos) e inexistindo questões de conhecimento
oficioso - artigo 684.º, n.º 3, 685.º A, nº 1 e 3, com as excepções do
artigo 660.º, n.º 2, in fine, ambos do CPC -, são as seguintes as
questões a decidir:
A) Quanto ao agravo, se deve ser revogada a decisão de
desentranhamento da tréplica
B) Quanto à apelação:
1. Da arguida nulidade da sentença
2. Da reapreciação da matéria de facto, em concreto:
a. Da admissão por acordo dos factos não impugnados
b. Das respostas dadas aos quesitos
c. Da requisição de documento
d. Da fixação dos factos assentes
3. Da apreciação do mérito da decisão de direito:

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a. Da excepção de caducidade
b. Da confirmação do testamento
c. Da anulação do testamento

III) FUNDAMENTAÇÃO
A) DO AGRAVO
Vem o recurso de agravo interposto do despacho que determinou o
desentranhamento da peça que a Ré apresentou como tréplica,
considerando-a inadmissível nos autos.
A Recorrente entende que tal articulado é admissível na medida em
que, na sua réplica, as Autoras haviam modificado o pedido e a
causa de pedir. Funda tal conclusão no seguinte:
1) As Autoras formularam um novo pedido, o de anulação de
disposição testamentária, conforme artigo 30.º da réplica;
2) As Autoras alegaram na petição desconhecimento do testamento
e «invalidação» do mesmo por incapacidade do testador enquanto
na réplica defendem a validade do testamento mas nulidade das
disposições testamentárias de que é beneficiária a Ré, por esta ter
omitido ou ter prestado informações deficientemente, com abuso de
direito.
Os presentes autos seguem a forma de processo comum ordinário,
sem reconvenção. Admitem tréplica se na réplica for modificado o
pedido e a causa de pedir – artigo 503.º, nº 1, do CPC.
Apreciemos então a réplica.
Desde logo, a mesma não conclui por qualquer pedido diverso do
da inicial. Vejamos se de algum modo tal ocorre no texto.
Diga-se que não podemos concordar com a Recorrente quando
refere que foi alterado o pedido de anulação do testamento para
invalidade de disposição testamentária. A referência à «declaração
de nulidade da disposição testamentária» é apenas um outro modo
de referir o pedido inicial de anulação do testamento, por recurso a
sinédoque, nomeando o todo por uma das partes. Nenhuma
alteração de tal decorre. Aliás, tudo o que vem referido quanto a
invalidação ou validade do testamento, na denominada tréplica,
não encontra qualquer apoio no texto da réplica.
Quanto à referência a abuso de direito – provavelmente suporte da
invocação de alteração da causa de pedir, diz-se na réplica:
«Nas circunstâncias supra descritas [de alegada ocultação pela Ré
da existência do testamento], tendo presente a censurabilidade dos
factos praticados pela Ré e que levaram à outorga do testamento e
tanto quanto ela fez posteriormente ao óbito, a invocação por parte da
Ré – único meio de defesa que deduz – da alegada caducidade do
exercício do direito de acção por parte das AA. excede os limites
impostos pela boa fé no que toca ao eventual direito de invocar a
alegada caducidade.
(…)
Actua, pois, a Ré com flagrante abuso de direito, o que tem as
consequências de um acto ilegítimo susceptível de alongar o prazo da
caducidade (…)

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Assim, e ainda que se conclua que as AA.,interpuseram a presente


acção para além do prazo de 2 anos(…) deverá ter-se por ilegítimo o
direito da Ré em invocar a caducidade (art. 334º, do CC), o que
igualmente deverá conduzir à improcedência da invocada excepção».
Ou seja, a alegação é feita, claramente, quanto ao direito a invocar
a caducidade que as Autoras arguem de viciado por conduta
abusiva, ou seja, manifestamente em pleno quanto à resposta à
excepção, matéria a que a réplica se reporta.
São desnecessárias outras considerações para concluir como o fez a
Ex.ma Senhora Juiz: não se verifica qualquer alteração do pedido
e/ou da causa de pedir. O mesmo é dizer: não é admissível tréplica.
Pelo que bem andou o tribunal recorrido ao ordenar o
desentranhamento.
Improcede o agravo.

A) DA APELAÇÃO
1. DA ARGUIDA NULIDADE DA SENTENÇA
A Recorrente argui a nulidade da sentença recorrida com
fundamento em que a mesma deixou de «pronunciar-se sobre a
questão que devia apreciar violando o artigo 688.º, n.º 1, alínea d), do
CPC – sendo nula nessa parte», em virtude de não se ter
pronunciado quanto à matéria da confirmação do testamento pelas
Autoras, a qual obstaria, na argumentação da Ré, à possibilidade
de as Autoras requererem a sua anulação.
Parece ainda que entende verificar-se nulidade por não apreciação
da certidão referida no artigo 67 das alegações (cf. 26ª conclusão
onde por lapso se refere artigo 27).
Apreciar-se-á por ora da questão na vertente do assacado vício da
sentença e não quanto à substância.
É certo que a sentença não se pronunciou sobre a questão da
confirmação do testamento pelas Autoras. Mas a questão nunca foi
suscitada nos autos até às alegações de recurso em que a
Ré/Recorrente pela primeira vez a indica. Não foi suscitada nos
autos, dissemos, e não é questão de conhecimento oficioso, sendo
certo que também não é logica ou juridicamente indispensável ao
percurso argumentativo da sentença, na dilucidação dos aspectos
jurídicos que os interesses em presença convocam.
Quanto à apreciação da certidão – meio de prova – não se vê em
que se funda a invocação de nulidade, cumprindo apreciar a
questão em sede de reapreciação da matéria de facto.
Não se verifica em consequência a indicada nulidade.

2. FUNDAMENTAÇÃO DE FACTO
2.1 Reapreciação da matéria de facto
2.1.1 Da admissão por acordo dos factos não impugnados
Pretende a Recorrente que não podiam considerar-se admitidos
por acordo os factos constantes da petição inicial, em virtude de a
matéria respeitar a direitos indisponíveis e estar em contradição
com a defesa no seu conjunto. Refere ainda que determinada
matéria considerada como admitida não é constituída por factos
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mas por conclusões. São estas as questões a apreciar.


2.1.1.1 Da natureza indisponível dos direitos
A Recorrente entende que os direitos subjacentes são indisponíveis
por respeitarem à capacidade de Aníbal para testar.
O artigo 490.º, n.º 2, do Código de Processo Civil, excepciona da
admissão por acordo os casos em que não é admissível confissão
quanto aos factos.
O que se relaciona com o disposto no artigo 354.º, b), do Código
Civil, ao considerar irrelevante a confissão que recaia sobre factos
relativos a direitos indisponíveis.
A razão de ser das normas é obstar a que seja obtido o resultado de
disposição de um direito quando a lei o considera indisponível: «De
contrário, abrir-se-ia às partes um caminho fácil para disporem,
conquanto indirectamente (através da não impugnação dos factos
correspondentes), dos direitos que a lei justificadamente subtrai à
vontade dos respectivos titulares»[2].
Nas palavras do Professor Castro Mendes[3]: «A revelia em
processo declarativo ordinário é inoperante (…) quando a vontade
das partes for ineficaz para produzir o efeito jurídico que pela acção
se pretende obter».
Ou seja, a excepção à admissão por acordo dos factos em análise
justifica-se como impedimento a que seja obtido um efeito que a
vontade das partes não poderia obter só por si.
O acento coloca-se, assim, no direito da parte «confitente» e na sua
natureza disponível ou indisponível. No primeiro caso, a parte pode
dispor do direito e, em consequência, a não impugnação dos factos
a ele relativos tem natureza confessória. No segundo caso, não pode
dele dispor extra-processualmente pelo que não pode resultar de
atitude processual sua aquela disposição.
No caso dos autos, o direito que a confissão coloca em causa é o
direito da Ré à sucessão de Aníbal por vocação testamentária. É
este o direito cuja natureza disponível ou indisponível cumpre
determinar.
Ora, a lei não atribui natureza indisponível a este direito, antes
consagra expressamente a possibilidade de o chamado repudiar a
herança – artigo 2062.º, do CC.
Poder-se-ia obstar que o repúdio da herança por vocação
testamentária não implica a anulação do testamento que é título da
vocação. O argumento, porém, reporta-se a uma distinção
meramente formal, sem consideração dos interesses que subjazem,
quais sejam, os da possibilidade ou não de o sucessor obstar à
concretização da vontade sucessória do de cujus. E,
manifestamente, essa possibilidade está explicitamente consagrada
na lei.
Concluimos, então, que os direitos subjacentes afectados pela
confissão não são, em concreto, direitos indisponíveis.
2.1.1.2 Da contradição com a defesa
A Recorrente não indica em que medida existe contradição entre a
defesa apresentada e a admissão por acordo dos factos.

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A defesa deduzida restringiu-se à invocação da caducidade do


direito, nada dizendo quanto aos factos invocados como
constitutivos do direito. Na contestação a Ré afirma mesmo que
«fica prejudicada qualquer pronúncia sobre os factos que constituem
a causa de pedir, pelo que por cautela de patrocínio a Ré não o faz».
Não há uma única menção na contestação quanto a esses factos
nem mediante impugnação genérica ou, mesmo, pronúncia
incidental sobre a sua veracidade.
Não pode assim considerar-se que a admissão por acordo contraria
a defesa considerada no seu conjunto.
2.1.1.2 Da natureza de concretos factos admitidos
Pretende a Recorrente que a matéria de facto admitida por acordo
(artigos 19.º a 45.º) não é constituída por factos mas por conclusões.
Para além da afirmação genérica, refere especificamente que não
pode considerar-se facto a afirmação «Aníbal não se encontrava em
condições de entender o sentido da mesma (38º)», ou que o mesmo
«não exerceu então livremente a sua vontade (39º)». Apreciando
nesta parte, única concretamente indicada.
Tendo em atenção o direito aplicável, mormente o disposto no
artigo 2199.º, do CC, facilmente se conclui que aquelas locuções
reproduzem quase ipsis verbis o teor da norma. Para além disso,
ou, melhor, por isso mesmo, constituem meras conclusões de factos
que, apreciados, poderão levar a concluir nesse sentido.
Em consequência, tem razão o Recorrente quanto a não deverem
constar dos factos assentes.
Nos termos do artigo 713.º, n.º 2, do Código de Processo Civil, deve
a Relação, ao lavrar acórdão, ter em atenção o disposto no artigo
659.º, do Código de Processo Civil.
Dispõe este artigo, no seu n.º 2, que devem ser discriminados os
factos considerados provados. Assim, tal matéria não será tida em
consideração.
2.1.2 Da reapreciação dos pontos de facto impugnados
Estando gravada a prova produzida, foram ouvidos nesta Relação
todos os depoimentos prestados nos autos, sendo ainda
considerados os depoimentos de (…).
Foram ainda considerados todos os documentos juntos aos autos.
(…)
Não se afigura que haja regras de experiências ou notoriedade de
factos que determinem conclusão diversa daquela que o tribunal a
quo tomou face à inexistência de prova.
2.1.3 Da requisição de documento
Sem que fundamente o que pede – requisição ao tribunal de Loures
de certidão de um processo – nem indique o motivo que a leva a
não a juntar, a Recorrente pretende seja requisitada certidão de
depoimento de parte prestado pelo Aníbal em 14 de Outubro de
2002, para demonstrar que «não existia qualquer incapacidade do
testador».
Quanto à junção de documentos, as partes poderiam a ela proceder
nos termos dos artigos 524.º e 706.º, do CPC. Quanto à requisição

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de documentos rege o disposto no artigo 535.º, do CPC.


No caso, a questão que os autos colocam desde o início é aquela a
que se reporta o documento em causa e a razão alegada quanto à
conveniência da sua apresentação é o depoimento de Berenice
Ribeiro em audiência de julgamento. Ou seja, a sua apresentação
foi possível até ao encerramento da discussão da causa – artigo
524.º, n.º 1, do CPC -, nada tendo ocorrido em momento ulterior
que modificasse o juízo de conveniência ou de necessidade quanto à
apresentação.
Poderia/Deveria o tribunal requisitar o documento?
Para que o tribunal requisite documento a sugestão da parte, é
necessário que a mesma invoque dificuldade ou impossibilidade na
apresentação. Caso contrário a instrução documental da causa
seria deferida ao tribunal por mero requerimento da parte.
Mas o requerimento de requisição de documentos pode suscitar no
tribunal um juízo da sua necessidade que leve os julgadores a não
deixarem na disponibilidade das partes a junção, antes se lhes
substituindo, o que o artigo 700.º, n.º 1, alínea b), do CPC, autoriza.
É essa a situação nos autos? Deve ser formado um juízo de
necessidade de requisição do documento?
Os factos que o documento visa infirmar não estão sujeitos a prova
por terem sido admitidos por acordo (decisão supra proferida), o
que poderia demonstrar a inutilidade de tal diligência.
Porém, a admissão por acordo determina prova plena (artigos
355.º, n.º 1 e 2, 356.º, n.º 1, e 358.º, n.º 1, do CC), mas não prova
pleníssima, admitindo ainda prova em contrário nos termos do
artigo 347.º, do CC[4]: «a prova legal plena só pode ser contrariada
por meio de prova que mostre não ser verdadeiro o facto que dela for
objecto, sem prejuízo de outras restrições especialmente determinadas
na lei».
Pode o documento em causa ser assim considerado mesmo nos
termos amplos e benévolos em que estamos a considerar a questão?
Cremos que não. O que vem invocado na petição e foi fundamento
da decisão recorrida para a anulação do testamento não é uma
situação de anomalia psíquica que impossibilite o testador de
atentar no significado do seu acto, mas antes, uma situação de
influência indevida que lhe retira a liberdade de escolher praticá-lo
ou não. Ou seja, a questão que os autos colocam é perfeitamente
compatível com a prestação de um depoimento de parte são e
escorreito, revelando conhecimento dos factos, com as naturais
limitações decorrentes da idade.
Nem se invoque a matéria constante do ponto 25 da sentença.
Mesmo essa, talvez a mais adequada a ser impugnada pelo referido
documento, pode perfeitamente coexistir com a prestação cabal de
depoimento de parte, atento o carácter intermitente das falhas a
que alude.
Se é certo que, em si, a prestação de depoimento de parte, mesmo
com qualidades mais ou menos assertivas, não é incompatível com
a matéria admitida por acordo, também nada específico foi

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invocado que permita concluir de outro modo.


Assim, improcede a pretensão.

2.1.4 Dos factos assentes após reapreciação


Após reapreciação, estão assentes os seguintes factos:
1 - No 2º Juízo Cível do Tribunal de Família e Menores e de
Comarca da Loures corre os seus termos uma acção declarativa de
condenação, sumária e de despejo, acção com o nº .../02, instaurada
por Aníbal contra Francisco e Maria (Al. A) da Matéria Assente ).
2 - No 4º Juízo Cível do Tribunal de Família e Menores e de
Comarca da Loures corre os seus termos uma acção declarativa de
condenação, sumária e de despejo, acção com o nº 724/02,
instaurada por Aníbal contra Manuel e Zulmira ( Al. B) da
Matéria Assente).
3 - No 4º Juízo Cível do Tribunal de Família e Menores e de
Comarca da Loures corre os seus termos uma acção declarativa de
condenação, sumária e de despejo, acção com o nº 28/02,
instaurada por Aníbal contra Gracinda ( Al. C) da Matéria Assente
).
4 - No dia 4 de Outubro de 2002, no Cartório Notarial de ...
compareceu Aníbal, filho de Justino e de Diamantina, portador do
B. I. nº (…), de 7 de Março de 1991, emitido pelo Centro de
Identificação Civil e Criminal, em Lisboa, tendo o mesmo então
declarado, perante o notário interino Lic. N..., ter descendentes e
que instituía herdeira da sua quota disponível a sua filha Maria da
Graça e que era o primeiro testamento que fazia ( Al. D) da
Matéria Assente ).
5 - No acto referido em 4 - foi feito constar que do mesmo foram
testemunhas Berenice e Manuel, portadores dos B. I. nºs. (…), de 8
de Fevereiro de 2001 e (…), de 5 de Maio de 1999, emitidos em
Lisboa pelos Serviços de Identificação Civil e que o testamento foi
lido ao declarante e explicado o seu conteúdo em voz alta, na
presença de todos os intervenientes ( Al. E) da Matéria Assente).
6 - Aníbal, filho de Justino e Diamantina, faleceu, no estado de
solteiro, no dia 6 de Março de 2004, com última residência habitual
na Av. (…), Sintra (Al. E) 1 - da Matéria Assente).
7 - Por escritura pública lavrada no 7º Cartório Notarial de Lisboa
em 28 de Maio de 2004 a Ré declarou que no dia 6 de Março de
2004, em ..., faleceu Aníbal, no estado de solteiro e que o mesmo fez
testamento público lavrado no dia 4 de Outubro de 2002 no
Cartório Notarial de ... a fls. 117 do respectivo livro nº 2-B,
testamento em que instituiu herdeira da sua quota disponível a
declarante, ora Ré, sua filha e que ao mesmo sucederam, como suas
únicas herdeiras, a Ré e as netas do falecido - filhas do seu pré-
falecido filho Aníbal -, as ora Autoras ( Al. F) da Matéria Assente).
8 - Na data e acto referidos em 7 - a ora Ré declarou fazer tais
declarações na qualidade de cabeça de casal e, no mesmo acto,
foram arquivadas cinco certidões, sendo uma de óbito e quatro de
nascimento e certidão do referido testamento (Al. G) da Matéria

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Assente).
9 - Em 12 de Novembro de 2004 a ora Ré instaurou um incidente
de habilitação de herdeiros no âmbito do Processo nº .../02, referido
em 1 -, alegando a morte do aí Autor e quais os respectivos
sucessores – a ora Ré e Autoras -, fazendo menção à escritura de
habilitação de herdeiros referida em 7 -, pela mesma tendo então
sido referido que havia sido anteriormente junta ao mesmo
processo e requereu a citação das herdeiras e dos Réus para,
querendo, contestarem tal incidente ( Al. H) da Matéria Assente ).
10 - No incidente referido em 9 - as ora Autoras foram citadas em 4
de Dezembro de 2004 para, querendo, deduzirem oposição ao
mesmo, tendo junto aos autos procurações a favor do mandatário
das mesmas no dia 6 de Dezembro de 2004, apenas tendo sido junto
aos autos o testamento aludido 4 - em 5 de Julho de 2004 e a
certidão de óbito do falecido em 12 de Novembro de 2004 (Al. I) da
Matéria Assente).
11 - No âmbito do processo referido em 1 - e incidente aludido em 9
- as Autoras não arguiram a falta de notificação de quaisquer
elementos essenciais para se poderem pronunciar sobre o mesmo
incidente, não tendo contestado o testamento junto aos autos e a
decisão que julgou a ora Ré e Autoras habilitadas como sucessoras
do falecido transitou em julgado em 18.1.2006 ( Al. J) da Matéria
Assente ).
12 - Em 12 de Novembro de 2004 a ora Ré instaurou um incidente
de habilitação de herdeiros no âmbito do Processo nº 724/02,
referido em 2 -, alegando a morte do aí Autor e quais os respectivos
sucessores – a ora Ré e Autoras -, fazendo menção à escritura de
habilitação de herdeiros referida em 7 -, tendo pela mesma então
sido referido que a mesma tinha sido anteriormente junta ao
mesmo processo e requereu a citação das herdeiras e dos Réus
para, querendo, contestarem tal incidente ( Al. L) da Matéria
Assente ).
13 - No incidente referido em 12 - as ora Autoras foram citadas em
3 de Dezembro de 2004 para, querendo, deduzirem oposição ao
mesmo, o que não fizeram (Al. M) da Matéria Assente).
14 - No âmbito do processo referido em 2 - e incidente aludido em
12 - as Autoras não arguiram a falta de notificação de quaisquer
elementos essenciais para se poderem pronunciar sobre o mesmo
incidente, não tendo contestado o testamento junto aos autos e a
decisão que julgou a ora Ré e Autoras habilitadas como sucessoras
do falecido transitou em julgado em 30.5.2005 ( Al. N) da Matéria
Assente ).
15 - Em 12 de Novembro de 2004 a ora Ré instaurou um incidente
de habilitação de herdeiros no âmbito do Processo nº 28/02,
referido em 3 -, alegando a morte do aí Autor e quais os respectivos
sucessores – a ora Ré e Autoras -, fazendo menção à escritura de
habilitação de herdeiros referida em 7 -, tendo pela mesma então
sido referido que a mesma tinha sido anteriormente junta ao
mesmo processo e requereu a citação das herdeiras e da Ré para,

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querendo, contestarem tal incidente (Al. O) da Matéria Assente).


16 - No incidente referido em 15 - as ora Autoras foram citadas em
3 de Dezembro de 2004 para, querendo, deduzirem oposição ao
mesmo, o que não fizeram ( Al. P) da Matéria Assente ).
17 - No âmbito do processo referido em 3 - e incidente aludido em
15 - as Autoras não arguiram a falta de notificação de quaisquer
elementos essenciais para se poderem pronunciar sobre o mesmo
incidente, não tendo contestado o testamento junto aos autos e a
decisão que julgou a ora Ré e Autoras habilitadas como sucessoras
do falecido transitou em julgado em 6.6.2006 ( Al. Q) da Matéria
Assente ).
18 - Por escritura pública lavrada no dia 12 de Novembro de 2004,
no 1º Cartório Notarial de ... Hélder, Consiglieri e Leonel
declararam terem conhecimento de que no dia 6 de Março de 2004
falecera Aníbal e que o mesmo não deixara testamento nem doação
por morte, tendo-lhe sucedido como seus únicos herdeiros a ora Ré
e as ora Autoras, netas do mesmo e filhas do seu pré-falecido filho
Aníbal e que não existiam outras pessoas que com as mesmas
pudessem concorrer à sucessão ( Al. R) da Matéria Assente ).
19 - Cerca de oito anos antes da data do óbito de Aníbal, referida
em 6 – as Autoras e sua mãe, Maria S, reduziram os contactos que
com ele mantinham por motivo de mudança da sua residência
habitual ( Al. S) da Matéria Assente ).
20 - Os contactos de Aníbal, em termos familiares, passaram a
ocorrer quase exclusivamente com a Ré ( Al. T) da Matéria Assente
).
21 - A partir do ano 2000 Aníbal começou a apresentar frequentes
perdas de memória ( Al. U) da Matéria Assente ).
22 - Já fora então vítima de trombose, a partir da qual ficou
profundamente debilitado ( Al. V) da Matéria Assente ).
23 - Eram evidentes a fraqueza física, mental, afectiva e psicológica
de Aníbal (Al. X) da Matéria Assente ).
24 - Nos últimos anos de vida encontrava-se habitualmente
acamado ( Al. Z) da Matéria Assente ).
25 - Aníbal não reconhecia, com frequência, as pessoas, não tendo
noção perfeita dos seus bens e dinheiro ( Al. AA) da Matéria
Assente ).
26 - Aproveitando-se do estado de Aníbal a Ré passou a controlar
os respectivos negócios, incluindo a movimentação de contas
bancárias e a administração do seu vasto património ( Al. BB) da
Matéria Assente ).
27 - A Ré logrou passar a ser contitular de contas bancárias de
Aníbal apesar de o dinheiro nelas existente ser exclusivamente do
mesmo ( Al. CC) da Matéria Assente ).
28 - E a Ré conseguiu também que Aníbal lhe outorgasse mandato
para diversos fins ( Al. DD) da Matéria Assente ).
29 - Aníbal raramente saía de casa e, quando o fazia, era sempre na
companhia da Ré ( Al. EE) da Matéria Assente ).
30 - No seu quotidiano Aníbal dependia exclusivamente da Ré que,

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directa ou indirectamente, tratava de todos os seus assuntos,


incluindo os respectivos cuidados pessoais (Al. FF) da Matéria
Assente ).
31 - A Ré conseguiu assim criar um evidente ascendente sobre a
vontade de Aníbal, cuja capacidade de compreensão se encontrava
significativamente diminuída ( Al. GG) da Matéria Assente ).
32 - Antes de passar a estar física e psiquicamente debilitado
Aníbal era muito afeiçoado às netas, ora Autoras e a Maria S ( Al.
HH) da Matéria Assente ).
33 - E afirmava publicamente que, pelo facto de o pai das Autoras,
Aníbal, ter falecido antes dele, Aníbal, as mesmas nunca seriam
prejudicadas na sua herança ( Al. II) da Matéria Assente ).
34 - Para proteger as Autoras Aníbal chegou mesmo a pretender
colocar Maria S como sua contitular em contas bancárias ( Al. JJ)
da Matéria Assente ).
35 - A Ré fez porém crer ao falecido que as ora Autoras e Maria S
lhe não queriam bem e que por ele não se interessavam ( Al. LL) da
Matéria Assente ).
36 - E a Ré tudo fez no sentido de evitar o contacto das Autoras e
de Maria S ( Al. MM) da Matéria Assente ).
37 - No seguimento da conduta referida a Ré levou Aníbal a
outorgar o testamento supra referido, tendo sido ela que o
transportou até ao Cartório ( Al. NN) da Matéria Assente ).
38 - As testemunhas intervenientes no testamento aludido em 4 -
são pessoas da amizade pessoal da Ré ( Al. QQ) da Matéria Assente
).
39 - Por carta datada de 27 de Setembro de 2004 dirigida pelo
mandatário das Autoras à Ré o mesmo solicitou à demandada que,
com urgência, informasse as Autoras se já fora outorgada escritura
de habilitação de herdeiros, onde se encontravam as quantias
objecto dos depósitos bancários de Aníbal e a razão porque não
procedera à sua partilha e se já fora apresentada e quando a
participação a que alude o artº 26º do Código do Imposto de Selo,
carta essa que a Ré recebeu (Al. RR) da Matéria Assente).
40 - Por carta datada de 8 de Outubro de 2004 dirigida à Ré - e que
a mesma recebeu – pelo mandatário das Autoras o mesmo insistiu
por uma resposta à carta referida em 39 – e comunicou-lhe que
caso a mesma não respondesse em cinco dias iniciaria as diligências
necessárias à defesa dos interesses das demandantes (Al. SS) da
Matéria Assente).
41 - Por fax datado de 12 de Outubro de 2004 dirigido pela Ré ao
mandatário das Autoras, que o recebeu, a mesma comunicou-lhe
que todas as diligências relativas à herança de Aníbal tinham vindo
a ser tomadas e que a escritura de habilitação de herdeiros já fora
outorgada e apresentada a participação a que alude o artº 26 do
Código do Imposto de Selo (Al. TT) da Matéria Assente).
42 - Por fax datado de 13 de Outubro de 2004 dirigido à Ré, que o
recebeu, o mandatário das Autoras comunicou à mesma que uma
vez que as Autoras eram interessadas directas na herança se

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consideravam no direito de ter acesso à escritura de habilitação de


herdeiros e à participação a que alude o artº 26 do Código do
Imposto de Selo e pediu à mesma que lhe fornecesse a respectiva
identificação ( a não ser que preferisse remeter-lhe uma cópia ) e
que lhe transmitisse cópia da participação. Mais lhe comunicou que
aguardaria, face à ausência de resposta da mesma à sua questão
sobre as quantias referidas em 41 - aguardaria até à sexta-feira
seguinte pela mesma informação ( Al. UU) da Matéria Assente ).
43 - Por carta registada com aviso de recepção, datada de 25 de
Outubro de 2004, dirigida à Ré e que a mesma recebeu, a terceira
Autora comunicou à Ré que gostaria de saber a razão pela qual a
mesma ainda a não informara e às demais Autoras e seu
mandatário, onde se encontravam as quantias referidas em 39 - e
que deveria fornecer tal resposta em cinco dias sob pena de ter, a
mesma e suas irmãs, de desenvolver as diligências que se
mostrassem adequadas à defesa dos seus interesses (Al. VV) da
Matéria Assente).
44 - A partir de momento não concretamente apurado na zona
onde Aníbal residia pôs-se a possibilidade de o mesmo ter
efectuado testamento ( Resp. ao Qtº 1º) ).
45 - Em 21 de Dezembro de 2004 as Autoras conseguiram obter
uma certidão da escritura de habilitação de herdeiros referida em 7
– e do testamento em causa nos autos ( Resp. ao Qtº 2º) ).
46 - À qual (escritura de habilitação) estava anexado o testamento (
Resp. ao Qtº 3º) ).
47 - Nessa data as Autoras tomaram conhecimento do teor do
testamento outorgado por Aníbal ( Resp. ao Qtº 4º) ).
48 - As Autoras dirigiram à Ré, por intermédio do seu mandatário,
a carta referida em 41 - (Resp. ao Qtº 10º) ).
49 - As Autoras diligenciaram pela celebração da escritura de
habilitação de herdeiros referida em 18 - ( Resp. ao Qtº 11º) ).
50 - As pessoas intervenientes na escritura referida em 18 –
referiram e referem que à data da mesma desconheciam a
existência de qualquer testamento outorgado por Aníbal ( Resp. ao
Qtº 12º) ).
51 - Aníbal (filho) nasceu no dia 29 de Janeiro de 1958, na freguesia
de ..., concelho de ... e foi registado como filho de Aníbal e de Maria
de Lurdes, tendo o mesmo contraído casamento em 8 de Fevereiro
de 1982 com Maria S ( por certidão de nascimento constante de fls.
372 a 373 dos autos ).
52 - Aníbal (filho) faleceu em 28 de Junho de 1992 ( por certidão de
óbito constante de fls. 384 a 385 dos autos ).
53 - Maria nasceu no dia 16 de Fevereiro de 1982, na freguesia de
Alvalade, concelho de Lisboa, tendo sido registada como filha de
Aníbal e de Maria S, tendo a Autora em causa casado
catolicamente com Marco em 14 de Novembro de 1999 (por
certidão de nascimento constante de fls. 374 a 375 dos autos).
54 - Alexandra nasceu no dia 29 de Novembro de 1983, na freguesia
de Alvalade, concelho de Lisboa e encontra-se registada como filha

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de Aníbal e de Maria S (por certidão de nascimento constante de


fls. 376 a 377 dos autos ).
55 – Teresa nasceu no dia 25 de Janeiro de 1986, na freguesia de
Alvalade, concelho de Lisboa e encontra-se registada como filha de
Aníbal e de Maria S (por certidão de nascimento constante de fls.
378 a 379 dos autos).

3. FUNDAMENTAÇÃO DE DIREITO
3.1. Da excepção de caducidade
Não houve alteração da matéria de facto assente na parte
pertinente à decisão da excepção, a qual foi conforme à lei, a qual
subscrevemos.
3.2 Da confirmação do testamento
Pretende a Recorrente que o testamento foi confirmado pelas
Autoras ao não o impugnarem em sede de contestação dos
incidentes de habilitação de herdeiros para que foram citadas.
Louva-se no disposto no artigo 2309.º, do Código Civil.
Recordamos que nada se provou quanto a terem as Autoras
conhecido o testamento nesses processos, o que desde logo infirma
a conclusão pretendida de que confirmaram o respectivo teor.
3.3 Da anulação do testamento
Por último, importa saber se a alteração da matéria de facto a que
se procedeu, pela supressão dos pontos 38 e 39, determina solução
de direito diversa da constante da sentença recorrida. Ou seja,
importa reapreciar a solução jurídica do caso à luz dos factos
considerados assentes.
A norma convocada nos autos é a do artigo 2199.º, que estatui: «é
anulável o testamento feito por quem se encontrava incapacitado de
entender o sentido da sua declaração ou não tinha o livre exercício
da sua vontade por qualquer causa, ainda que transitória».
Na verdade, encontramo-nos no domínio da incapacidade acidental
e não no domínio da incapacidade estrito senso prevista no artigo
2189.º, alínea b), do CC.
O momento a que importa atender é o da outorga do testamento,
visto o disposto no artigo 2191.º, do CC, a saber, a data de 4 de
Outubro de 2002.
Cumpre referir ainda, por escrúpulo de fundamentação, que a
outorga do testamento perante funcionário público não exclui a
verificação da incapacidade acidental, dada a natureza da mesma e
a da fé pública dos documentos autênticos – artigo 371.º, n.º 1, do
CC. Porém, não pode ser completamente postergada a
circunstância de a declaração de vontade ser emitida perante
notário [5] [6].
No caso dos autos vem invocada como fundamento da incapacidade
tanto a incapacidade de compreensão do sentido do acto como a
ausência de liberdade para agir de modo diverso, ou seja, para não
testar ou testar diversamente.
O primeiro aspecto relaciona-se com a falta de aptidões psíquicas
ou físicas que permitam a percepção do sentido do acto de testar

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em si e de o fazer como expresso.


No caso concreto não se indicam circunstâncias da ordem dos
sentidos impeditivas da apreensão da realidade exterior em moldes
de obnubilarem a percepção do acto, v.g, cegueira ou surdez ou
outra afecção sensorial. Certo que tais circunstâncias facilmente
seriam perceptíveis ao notário na averiguação que faz da
capacidade de entendimento.
É verdade que constam factos enquadráveis nessa área (pontos 21,
22, 23, 25). Porém, a intensidade dessas afecções, naturais em
pessoas de idade, por modo a poderem afectar a capacidade de
entendimento, não decorre dos factos assentes, concordando, como
concordámos acima com a posição da Recorrente quanto à
natureza conclusiva do ponto 38 da matéria assente da sentença.
O segundo aspecto – ausência de liberdade – foi expressamente
considerado na sentença recorrida e determinou a procedência da
acção.
Deverá considerar-se que a supressão do ponto 39 da matéria
assente na sentença determina conclusão jurídica diversa?
Em termos simples a questão é saber se estão assentes factos que
permitam concluir que o testamento foi outorgado e foi-o no
sentido que dele consta quando Aníbal se encontrava numa
situação que lhe não permitia optar entre outorgar testamento ou
não o fazer, entre outorgar testamento como o fez ou em sentido
diferente.
Os factos determinantes nessa sede são os que constam da matéria
de facto fixada neste acórdão sob os pontos 21, 22, 23, 29, 30, 32,
33, 34, 35, 36, 38.
Apreciando-os. Os factos referidos descrevem uma situação de uma
pessoa de idade, com problemas graves de saúde decorrentes da
trombose, que depende exclusivamente no seu bem estar de uma
única pessoa, a sua filha, Ré nos autos, que vai criando um
isolamento do pai dos restantes afectos familiares, sobretudo das
netas filhas do filho pré-falecido.
Afectos estes que eram salientados por Aníbal, com referência ao
filho falecido, em termos de expressar a sua determinação de que
esse óbito em nada prejudicasse a herança das netas. Sabendo-se,
como se sabe, que no contexto social português o testamento é
sobretudo entendido como forma de diminuir o quinhão dos
herdeiros legitimários, aquela expressão inculca a ideia de que tal
não seria a perspectiva de Aníbal. Concordamos que pode ter
outros significados, mas não deixa de dever ser ponderada.
Neste contexto, que é o de a Ré dominar a vida afectiva e
patrimonial de Aníbal (pontos 26, 27 e 28), de ter sido ela a levá-lo
ao cartório notarial para a celebração do testamento e de esta ter
sido testemunhada por pessoas da amizade pessoal da Ré (ponto
38), concluímos estar demonstrada a ausência de liberdade de
Aníbal para agir diferentemente.
Acresce, cumpre referi-lo, a não impugnação de todos estes factos
pela Ré, ao mesmo tempo que, também, nenhuns outros trouxe ao

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tribunal que pudessem infirmar a conclusão que extraímos ou


permitissem contextualizar a situação fáctica de modo diverso.
Também esse facto inculca aquela conclusão, já que, não sendo ela
verdadeira e tendo a Ré a proximidade que tinha com a situação de
vida de seu pai, múltiplos seriam os factos a aduzir que
informassem aquela conclusão. Não o fez.
Com o que improcede o recurso.

IV) DECISÃO
Pelo exposto, acordam em julgar improcedentes o agravo e a
apelação, sem prejuízo do decidido quanto a alteração da matéria
de facto assente, mantendo a decisão recorrida.
Custas de ambos os recursos pela Recorrente.

Lisboa, 6 de Dezembro de 2012


Ana de Azeredo Coelho
Tomé Ramião
Vítor Amaral
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--
([1]) Por todos o Acórdão do STJ de 04-02-2010 (Cons. Oliveira
Rocha) proferido no proc. 155/04.5 TBFAF.G1.S1-2.ªS, in
www.dgsi.pt. Ver também Conselheiro Abrantes Geraldes in
“Temas da Reforma do Processo Civil”, vol II, p. 154-155.
([2]) Antunes Varela et. alt. In “Manual de Processo Civil”, 2ª
edição, 1985, p. 320.
([3]) In “Direito Processual Civil”, vol. III, 1980, p. 128-130.
([4]) O facto da dominialidade resultara apurado, como dissemos, do
acordo, obtido da contestação dos réus (citado artigo 490º, nº 2,
início).
Numa óptica substantiva, essa prova revela-se plena, merecendo um
tratamento em tudo semelhante ao da prova (judicial e escrita)
confessória (artigos 358º, nº 1, do Código Civil, e 484º, nº 1, final, do
Código de Processo Civil).
Mas não reveste contornos de prova pleníssima; já que, pese embora
tudo, ainda poderia (ao menos, em tese) ser contrariada por outra
que consistentemente a permitisse preterir; revelando que o facto que
dela emergira, afinal, não era verdadeiro (artigo 347º do Código
Civil). Claro que, então, o que contaria teria de ser (sempre) uma
prova contrária necessariamente sólida e consolidada que o
permitisse, com toda a segurança, poder inferir.
Fosse como fosse, esta prova inexiste nos autos (Acórdão do TRL de
10-01-2012 (Luís Lameiras), com o n.º 4022/08.5TBBRR.L1-7, in
www.dgsi.pt).
([5]) Veja-se o que a respeito consta do Acórdão desta Relação de
15-12-2009: «Quanto ao facto de a declaração testamentária constar
de documento autêntico importa sublinhar que uma coisa é a
existência física da declaração e outra é o seu valor jurídico (cfr Ac
do STJ de 23/9/99 –Proc. 99B510, in www.dgsi.pt ).
O nº 1 do art. 371º do Código Civil prevê: «Os documentos autênticos
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fazem prova plena dos factos que referem como praticados pela
autoridade ou oficial público respectivo, assim como dos factos que
neles são atestados com base nas percepções da entidade
documentadora; os meros juízos pessoais do documentador só valem
como elementos sujeitos à livre apreciação do julgador».
Como explicam Pires de Lima e Antunes Varela «O valor probatório
pleno do documento autêntico não respeita a tudo o que se diz ou
contém no documento, mas somente aos factos que se referem como
praticados pela autoridade ou oficial público respectivo (ex. procedi a
este ou àquele exame), e quanto aos factos que são referidos no
documento com base nas percepções da entidade documentadora. Se,
no documento, o notário afirma que, perante ele, o outorgante disse
isto ou aquilo, fica plenamente provado que o outorgante o disse, mas
não fica provado que seja verdadeira a afirmação do outorgante ou
que esta não tenha sido viciada por erro, dolo ou coação, ou que o
acto não seja simulado» (cfr Código Civil anotado, Vol I, 4ª ed, pág.
327/328).
Assim, os factos cobertos pela força probatória plena do documento
público constituído pelo testamento em causa (documento nº 4 de fls.
10 a 12 destes autos) e referido nos factos provados limitam-se a que:
no dia 4 de Janeiro de 2001 a testadora compareceu perante o
notário, a sua identidade foi verificada pela exibição do seu bilhete de
identidade, por ela foi dito ter descendentes e fazer o seu testamento
pela forma que indicou, sendo essa a sua última vontade, intervieram
como testemunhas as pessoas identificadas nesse documento e cuja
identidade foi verificada pelo notário por conhecimento pessoal deste,
o testamento foi lido à outorgante e à mesma explicado o seu
conteúdo em voz alta na presença simultânea de todos os
intervenientes, não assinando a testadora por ter declarado não o
poder fazer.
Dada a manifesta semelhança de situações passamos a citar o Ac do
STJ de 13/1/2004 (Proc. 03A3899 – in www.dgsi.pt): «Nada mais do
que isso. E não, por exemplo, que a testadora estava com capacidade
de entender o sentido da sua declaração e que tinha o livre exercício
da sua vontade. Essas circunstâncias, ou as inversas, avaliá-las-ia o
Notário, se tivesse motivos para isso, mas a avaliação que fizesse
seria apenas o “juízo pessoal do documentador” de que fala a parte
final do artº 371º nº 1 e seria então de livre apreciação do julgador
(…). Não obstante, o certo é que nenhuma referência se nota no
instrumento, como tendo sido percepcionado pelo Notário, sobre a
capacidade de a testadora entender o sentido da declaração. Ali
apenas se diz que “o testamento foi lido e explicado o seu sentido em
voz alta à outorgante, na presença simultânea de todos os
intervenientes (...)».
Deste modo não tinha o documento (instrumento de testamento) que
ser arguido de falso, (…) quanto às declarações proferidas perante o
oficial público que o exarou para poder suscitar-se a sua
anulabilidade, por falta de capacidade da testadora para entender o
sentido da declaração no momento em que a prestou, com

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fundamento no art. 2199º do CC.».


Assim, os factos a levar em conta nesta apelação são os que vêm
dados como provados na sentença» (Anabela Calafate) com o n.º
344/2002.L1-1, in www.dgsi.pt
([6]) «Conforme referem Pires de Lima e Antunes Varela, in “Código
Civil Anotado”, vol. VI, pág. 336, a simples presença do notário, que
é um funcionário especializado que goza de fé pública, aditada à das
duas testemunhas que, segundo o art. 67.º, n.º 1, al. a), e 3, do Código
do Notariado, devem presenciar o acto, é uma primeira e qualificada
garantia de que o testador gozava ainda, no momento em que foi
revelando a sua vontade, de um mínimo bastante de capacidade
anímica para querer e para entender o que afirmou ser sua vontade
(cfr., no mesmo sentido, Capelo de Sousa, in “Lições de Direito das
Sucessões”, vol. I, 4.ª ed., pág. 188, e Guilherme de Oliveira, in “O
Testamento”, págs. 33 e 34). Por conseguinte, não pode deixar de se
entender que, tendo o testamento sido exarado perante notário, existe
uma forte presunção de que o testador tem aptidão para entender o
que declara. Sendo certo, ademais, que não foi invocada qualquer
conivência com o notário e que não foi posta em causa a
autenticidade do testamento, designadamente, da parte final que dele
consta a respeito da sua leitura e da explicação do seu conteúdo.
Acresce que não existe, como vimos, apesar das dúvidas manifestadas
pelo autor, qualquer irregularidade formal no testamento em causa,
não se observando nele qualquer anormalidade das condições em que
a testadora se encontrava» Acórdão do TRC de 29-05-2012 (Beça
Pereira) com o n.º 37/11.4TBMDR.C1, in www.dgsi.pt
Decisão Texto Integral:

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