Você está na página 1de 11

Lucivalter Expedito Silva

OAB/MG 91.079

Lourivalter Silva Júnior


OAB/MG 132.715
Excelentíssimo Senhor Desembargador Primeiro Vice-Presidente do Tribunal de Justiça
do Estado de Minas Gerais

LUCIVALTER EXPEDITO SILVA, brasileiro, casado, advogado


inscrito na OAB/MG sob o n. 91.079 e LOURIVALTER SILVA JUNIOR, brasileiro,
solteiro, advogado inscrito na OAB/MG sob o n. 132.715, sócios do Escritório L. SILVA
ADVOGADOS SOCIEDADE DE ADVOGADOS, devidamente inscrita junto ao
Ministério da Fazenda sob o CNPJ n. 22.112.136/0001-26, com sede na Rua Olavo Bilac,
n. 116, Centro, na cidade de Frutal/MG, com endereços eletrônicos
lucivalter@lsilva.adv.br e lourivalter@lsilva.adv.br, vêm respeitosamente à presença de
Vossa Excelência impetrar ordem de

HABEAS CORPUS
(com pedido de concessão de medida liminar adiante formulado)

em favor de CÍCERO CAMILO DOS SANTOS, brasileiro, solteiro, pedreiro, natural


de Pilar/AL, nascido em 15/10/1958, portador do RG n. 449404 (SSP/AL), inscrito no
CPF sob o n. 291.698.794-00, filho de Sandra Maria da Silva e José Ciriaco dos Santos,
residente na Rua Domingos Grisolia, n. 32, na cidade de Frutal/MG, CEP n. 38.200-000,
atualmente recolhido no presídio local, com fundamento no artigo 5º, inciso LXVIII,
da Constituição da República e nos artigos 647 e seguintes do Código de Processo Penal,
apontando como autoridade coatora o MM. Juízo de Direito da Vara Criminal, da
Infância e Juventude e de Execuções Criminais da Comarca de Frutal/MG, o qual
indeferiu o pedido de liberdade provisória e o pleito subsidiário de fixação de medidas
cautelares alternativas à prisão nos autos da Ação Penal n. 0052644-79.2019.8.13.0271,
pelos fatos e fundamentos jurídicos doravante aduzidos:

Acompanha a presente impetração, para melhor análise, cópia integral da


ação penal ora referida.

Brasília/DF: SAS, Quadra 04, Ed. Victoria Office Tower, Bloco A, Sala 213, CEP 70.070-938
Frutal/MG: Rua Olavo Bilac, nº 116, Centro, CEP 38.200-000
Fone: (34) 3421-5208 – (34) 9999-9815 - (61) 8242-5551 - (34) 9636-9815
Nos termos da argumentação avante articulada, requerem a concessão
de medida liminar para determinar seja concedida liberdade provisória ao Paciente
ou, subsidiariamente, seja a medida de segregação preventiva substituída por medidas
cautelares diversas da prisão, eis que ausentes os requisitos constantes do artigo 312 do
Código de Processo Penal.

Ainda, a fim de agilizar o julgamento do feito, pugnam ainda pela


dispensa da requisição das informações à autoridade coatora, vez que desnecessárias
ante a devida instrução do presente writ.

No mérito, requerem a integral concessão da ordem, ratificando-se a


medida liminar outrora concedida.

Termos em que,
Pedem deferimento.
Frutal/MG, 19 de dezembro de 2019.

Lucivalter Expedito Silva Lourivalter Silva Júnior


OAB/MG 91.079 OAB/MG 132.715
Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais

Origem: Ação Penal n. 0052644-79.2019.8.13.0271


Impetrantes: Lourivalter Silva Júnior e Lucivalter Expedito Silva
Impetrado: MM. Juízo de Direito da Vara Criminal, da Infância e Juventude e de
Execuções Criminais da Comarca de Frutal/MG
Paciente: Cícero Camilo dos Santos

Egrégio Tribunal,
Colenda Câmara,
Douta Procuradoria de Justiça.

I. SÍNTESE DOS FATOS E OBJETO DO WRIT

Trata-se de pedido de habeas corpus em face de decisão proferida pelo MM.


Juízo de Direito da Vara Criminal, da Infância e Juventude e de Execuções Criminais da
Comarca de Frutal/MG, o qual recebeu a denúncia ofertada pelo Ministério Público do
Estado de Minas Gerais em desfavor do ora Paciente por suposta incursão no delito
inscrito no artigo 121, §2º, incisos I, III, IV e VI, e §2º-A, inciso I, do Código Penal e
indeferiu o pleito de revogação da prisão preventiva ora implementada.

II. DO CONSTRANGIMENTO ILEGAL

Como sumarizado alhures, o Paciente fora denunciado pela prática do


crime de feminicídio, ora praticado contra Fernanda da Silva, pelo que o parquet requereu
fosse o réu processado, pronunciado e, alfim, levado a julgamento perante o Conselho de
Sentença a ser instaurado nos termos do procedimento de competência do Júri.

Tendo sido preso em flagrante, a segregação do Paciente fora convertida


em prisão preventiva (ff. 35-36), nos termos do artigo 312 do Código de Processo Penal,
sob o argumento de gravidade concreta do crime em virtude de “várias facadas” e de
suposto propósito do paciente “de se furtar a aplicação da lei penal” (f. 35).

Sobreveio, pois, pedido de relaxamento da prisão preventiva, pleiteando-


se, subsidiariamente a fixação de medidas cautelares diversas da prisão, o que restou
indeferido pelo eminente julgador da causa.
Pois bem.

Inobstante a incisiva narrativa ministerial, é necessário aclarar que o


Paciente se trata de pessoa honesta e trabalhadora, jamais tendo se envolvido em qualquer
espécie de infração penal e sempre tendo cumprido suas obrigações de maneira escorreita,
como atestam as certidões de antecedentes criminais angariadas nos autos.

Fato é que o Paciente se deslocou de seu estado de origem (Alagoas) para


Frutal/MG justamente em busca de uma vida melhor, visando a conseguir um emprego
apto a lhe prover dignidade e a constituir família.

Por outro lado, há de se observar o reiterado comportamento da


vítima. Como se verifica dos testemunhos acostados às ff. 56-58 e 59-61, as pessoas que
conviviam com o casal e moravam na vizinhança foram unânimes em destacar a
personalidade complicada da vítima, que sempre humilhava o Paciente, exigindo-lhe
dinheiro, empregando termos ofensivos contra ele, tais como “velho fedido”, e
expulsando-lhe de casa, tal como ocorreu no dia dos fatos.

Naquela ocasião, a vítima agrediu o Paciente, que é pessoa idosa, com


idade superior aos 60 (sessenta) anos, com várias bengaladas, enxotando-lhe do lar
conjugal sem que nada tivesse feito.

É necessário, ainda, atentar para o grave estado de saúde do Paciente,


portador de transtorno degenerativo na coluna vertebral (CID10 M48.8), conforme
comprova laudo pericial acostado aos autos, motivo pelo qual, inclusive, está em curso
ação judicial em que pleiteia a concessão de benefício por parte do INSS (processo n.
1001939-43.2018.4.01.3802).

Ante o quadro, plenamente possível a concessão de liberdade


provisória ao Paciente, como a lei lhe garante, na medida em que não mais subsistem os
fundamentos para sua segregação cautelar.

De fato, a vida pregressa do Paciente é abonadora no sentido de


demonstrar que ele não oferece qualquer risco à garantia da ordem pública, à aplicação da
lei penal ou à conveniência da instrução criminal, tanto porque, uma vez colocado em
liberdade, passará a residir com sua sobrinha Fabiana, depoente nos autos de origem, à
Rua Pica Pau, n. 18, bairro Parque das Acácias, na cidade de Frutal/MG.

Seu grave quadro de saúde corrobora a ausência de periculosidade do


Paciente, vez que o cenário degenerativo instaurado em sua coluna vertebral demanda
constante tratamento médico e, inclusive, incapacita o agente para o trabalho, como
também comprovado pelo laudo pericial guindado aos autos da ação penal.

Daí a incidência do artigo 321 do Código de Processo Penal, que


estabelece o direito subjetivo do réu à liberdade provisória caso ausentes os requisitos
ensejadores da custódia preventiva:

Art. 321. Ausentes os requisitos que autorizam a prisão preventiva, o juiz deverá
conceder liberdade provisória, impondo, se for o caso, as medidas cautelares
previstas no art. 319 deste Código e observados os critérios constantes do art. 282
deste Código. (Grifo nosso)

O referido mandamento processual deriva diretamente dos direitos


constitucionais à liberdade e ao devido processo legal, inscritos, respectivamente, no caput
e nos incisos LIV e LXVI do artigo 5º da Constituição da República, cuja dicção prediz:

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-
se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...]
LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido
processo legal; [...]
LXVI – ninguém será levado à prisão ou nela mantido quando a lei admitir a
liberdade provisória, com ou sem fiança; (Grifo nosso)

Na esteira desses comandos, a prisão deve ser interpretada como última


ratio no sistema processual de medidas cautelares, sendo absolutamente vedada, portanto,
a sua implementação caso possível a fixação de medidas cautelares alternativas dispostas
no artigo 319 do códex.

Eis o magistério pretoriano:

A prisão preventiva, prevista nos artigos 311 e 312 do Código de Processo Penal,
constitui, no preciso magistério da doutrina e da jurisprudência, modalidade de
custódia provisória e cautelar de natureza processual, dotada de instrumentalidade,
cuja decretação objetiva garantir a eficácia (utilidade) e a efetividade (necessidade) da
tutela jurisdicional penal, que poderá restar frustrada se o acusado permanecer em
liberdade até o pronunciamento judicial definitivo, motivo pelo qual é de se inferir,
considerada sua natureza jurídica, que a custódia preventiva qualifica-se pela nota
da excepcionalidade, somente devendo ser decretada em situações de absoluta
utilidade e necessidade (RT 531/ 301), de sorte que, para legitimar-se, em face
de nosso sistema jurídico, a privação cautelar da liberdade individual depende
de evidências concretas e reais, com fundamento em base empírica idônea, que
demonstre a presença dos pressupostos exigidos pela lei adjetiva penal, no caso,
os previstos no artigo 312 do CPP, justificadores da imprescindibilidade da
adoção, pelo Estado, dessa extraordinária medida cautelar. (STJ – HC n.
464.208/CE, Relator: Ministro Nefi Cordeiro, Sexta Turma, julgado em: 04/12/2018,
DJe: 18/12/2018, grifo nosso)
Logo, a cláusula processual de excepcionalidade da custódia cautelar
implica reconhecer que se “o sujeito for preso sem necessidade de se acautelar o processo,
tal prisão não será processual, mas verdadeira antecipação da execução da pena, sem
formação de culpa e sem julgamento definitivo”1, hipótese expressamente rechaçada pela
jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, emanada com eficácia geral e efeito
vinculante dos autos reveladores das Ações Declaratórias de Constitucionalidade n. 43,
44 e 54, julgadas procedentes pelo Plenário daquele Sodalício em 07/11/2019.

Daí porque a manutenção da prisão preventiva ora imposta ao Paciente


está a revelar manifesto constrangimento ilegal, visualizado na recalcitrância do juízo
de origem em reconhecer a ausência dos pressupostos típicos da cautela, a saber, o
fumus comissi delicti e o periculum libertatis, e a presença dos requisitos necessários à
libertação provisória, mormente a grave enfermidade que acomete o Paciente, no que se
verifica ilícita subversão da cautelaridade da segregação preventiva ao conferir-se-lhe
natureza flagrantemente sancionatória.

Nesta acepção, a jurisprudência pátria é unívoca no sentido de permitir a


revogação da prisão preventiva nos casos em que o perfil do agente e a imposição de
medidas cautelares diversas da prisão justificam o relaxamento da segregação.

É a jurisprudência emanada desta Casa de Justiça:

HABEAS CORPUS – FEMINICÍDIO QUALIFICADO – REVOGAÇÃO DA


PRISÃO PREVENTIVA – POSSIBILIDADE – RÉU PRIMÁRIO E DE
BONS ANTECEDENTES – CONSTRANGIMENTO ILEGAL
CARACTERIZADO – SUBSTITUIÇÃO POR MEDIDAS CAUTELARES
DIVERSAS DA PRISÃO – ORDEM PARCIALMENTE CONCEDIDA.
A prisão de caráter cautelar, ou seja, feita antes de sentença condenatória definitiva, é
uma exceção à regra, uma vez que implica na privação da liberdade do acusado antes
da condenação final. Logo, somente deve ser aplicada quando não for cabível sua
substituição por medida cautelar diversa da prisão. Se as medidas cautelares
previstas no artigo 319 do Código de Processo Penal são suficientes para
resguardar a ordem pública, é desnecessária a segregação do paciente. (TJMG
– HC n. 1.0000.17.063421-6/000, Relator: Desembargador Flávio Batista Leite, 1ª
Câmara Criminal, julgado em: 05/09/2017, DJe: 11/09/2017, grifo nosso)

Diante disso, premente a concessão da ordem para revogar a prisão


preventiva imposta ao ora Paciente, concedendo-se-lhe liberdade provisória e, caso
necessário, fixando as medidas cautelares que se entender cabíveis, observado o tanto
disposto no artigo 319 do Código de Processo Penal.

Caso afastada essa possibilidade, faz-se necessária a conversão da


segregação preventiva em prisão domiciliar.

1 CAPEZ, Fernando. Curso de Processo Penal. 23. ed. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 336, grifo nosso.
Diz o artigo 318 do CPP:

Poderá o juiz substituir a prisão preventiva pela domiciliar quando o agente for:
I – maior de 80 (oitenta) anos;
II – extremamente debilitado por motivo de doença grave;
III – imprescindível aos cuidados especiais de pessoa menor de 6 (seis) anos de idade
ou com deficiência;
IV – gestante;
V – mulher com filho de até 12 (doze) anos de idade incompletos;
VI – homem, caso seja o único responsável pelos cuidados do filho de até 12 (doze)
anos de idade incompletos. (Grifo nosso)

Como exposto alhures, o ora Paciente sofre de transtorno degenerativo


na coluna vertebral (CID10 M48.8), sendo comprovado por laudo pericial acostado aos
autos sua permanente incapacidade para o trabalho e a necessidade de contínuo
acompanhamento e tratamento médico.

Daí a necessidade de, caso não concedida a liberdade provisória, seja o


Paciente colocado em regime de prisão domiciliar, eis que assim poderá prosseguir
regularmente com os cuidados médicos de que necessita, os quais restarão
sistematicamente prejudicados caso seja o Paciente mantido no presídio local até o
julgamento de mérito da ação penal, cujo deslinde não se pode antever no tempo.

Alia-se a isto o fato de que, tal como argumentado perante o juízo de


origem, o presídio instalado na cidade de Frutal/MG ostenta capacidade de lotação de 130
(cento e trinta) presos, sendo que encerra atualmente 321 (trezentos e vinte e um) reclusos,
o que importa uma taxa de superlotação de 250% (duzentos e cinquenta por cento).

Atento à reprodução desse contexto em escala nacional, o Supremo


Tribunal Federal reconheceu, ao implementar medida cautelar na Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental n. 347/DF, a existência de um estado de
coisas inconstitucional no sistema carcerário brasileiro, donde se verificam constantes e
sistemáticas violações aos direitos humanos dos presos e a ausência de medidas efetivas
para a superação do cenário identificado.

Diante disso, veio de prevalecer no Superior Tribunal de Justiça a tese de


que, ao analisar os casos em que se postula a prisão domiciliar em virtude de doença grave,
os magistrados não poderão se desvincular da cena retratada pelo Pretório Excelso.

Cabe a transcrição de paradigmático aresto sobre a matéria:

HABEAS CORPUS. PARTICIPAÇÃO EM ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA E


PORTE ILEGAL DE ARMA DE FOGO DE USO RESTRITO. PRISÃO
PREVENTIVA. FUNDAMENTAÇÃO. EXCESSO DE PRAZO. INDICAÇÃO
DE ELEMENTO CONCRETO, CONSISTENTE NO FATO DE O PACIENTE
SER POSSUIDOR DE MAUS ANTECEDENTES. PROBABILIDADE DE
REITERAÇÃO DELITIVA. NECESSIDADE DA CUSTÓDIA PARA A
GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA DEMONSTRADA. PRISÃO CAUTELAR.
EXCESSO DE PRAZO. FEITO COMPLEXO, INEXISTÊNCIA DE DESÍDIA
DO JUDICIÁRIO E NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DO PRINCÍPIO DA
RAZOABILIDADE. PLEITO DE PRISÃO DOMICILIAR. SUPRESSÃO DE
INSTÂNCIA. EXISTÊNCIA, ENTRETANTO, DO ALEGADO
CONSTRANGIMENTO, A JUSTIFICAR A CONCESSÃO DE ORDEM DE
OFÍCIO. PACIENTE ACOMETIDO DE TUBERCULOSE E ÚLCERA
ESTOMACAL, SEGREGADO EM CADEIA PÚBLICA. INFORMAÇÃO DO
PRÓPRIO ESTABELECIMENTO DO ESTADO DE SAÚDE
(RELATIVAMENTE GRAVE) E DA IMPOSSIBILIDADE DE CUIDADOS
MÉDICOS NECESSÁRIOS. NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DO
ESTADO DE COISAS INCONSTITUCIONAL (ADPF N. 347/STF), PARA
CONCLUIR SOBRE A POSSIBILIDADE, OU NÃO, DE SUBSTITUIÇÃO
DA PREVENTIVA POR PRISÃO DOMICILIAR.
1. Diz a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça que toda prisão imposta ou
mantida antes do trânsito em julgado de sentença penal condenatória, por ser medida
de índole excepcional, deve vir sempre baseada em fundamentação concreta, isto é,
em elementos vinculados à realidade.
2. No caso, embora sucinta, a decisão logrou apontar elemento concreto que justifica
a decretação da custódia para a garantia da ordem pública, consistente no fato de que
o paciente possui antecedentes criminais, a denotar a probabilidade de reiteração
delitiva.
3. Segundo pacífico entendimento doutrinário e jurisprudencial, a configuração de
excesso de prazo não decorre da soma aritmética de prazos legais. A questão deve ser
aferida segundo os critérios de razoabilidade, tendo em vista as peculiaridades do caso.
4. Trata-se de ação penal proposta contra quatro denunciados, que além de possuírem
defensores distintos, encontram-se custodiados em estabelecimentos prisionais
diferentes, existindo, ainda, a necessidade de expedição de cartas precatórias e
apreciação de inúmeros pedidos de revogação e relaxamento das custódias.
5. Inexiste desídia do Judiciário na condução da ação penal, tendo ocorrido apenas um
adiamento de audiência de instrução e julgamento no dia 9/12/2015, em razão da
impossibilidade de transporte dos presos, contando o feito, no mais, com o devido
impulso.
6. Evidenciado que o Tribunal estadual não debateu satisfatoriamente a questão
relativa ao pleito de prisão domiciliar, o exame originário do tema por este Superior
Tribunal configuraria indevida supressão de instância. No entanto, o feito comporta
concessão de ordem de habeas corpus de ofício.
7. A existência de declaração expressa oriunda da Cadeia Pública de Mossoró/RN,
embora datada de dezembro de 2015, de que não possui condições de oferecer o
tratamento médico de que o paciente precisa, nem de transportá-lo em caso de
necessidade de cirurgia para reparação da úlcera estomacal, coloca em dúvida a
informação do Juízo de primeiro grau de que é possível a realização do tratamento
médico nas dependências da cadeia.
8. Não se pode negar ou ignorar a atual situação do sistema penitenciário
nacional, incluindo presídios e cadeias públicas, de modo que, sempre em
situações como estas, deve ser lembrado que estamos diante do estado de
coisas inconstitucional, reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal na
ocasião da apreciação de Medida Cautelar na ADPF n. 347.
9. A decisão sobre o caos que se vivencia atualmente em relação à situação dos
presídios brasileiros não se exaure no julgado apontado, mas de forma progressiva, em
cada situação e em cada caso, por todos os magistrados que se deparam com questões
relativas à ofensa à integridade física e moral da pessoa sob custódia do Estado.
10. Ordem denegada. Concedida ordem de habeas corpus de ofício para
substituir a prisão preventiva do paciente, por prisão domiciliar, devendo o
acusado observar determinadas condições a serem fixadas pelo Magistrado singular,
mais próximo dos fatos. (STJ – HC n. 386.322/RN, Relator: Ministro Sebastião Reis
Júnior, Sexta Turma, julgado em: 27/04/2017, DJe: 08/05/2017, grifo nosso)

Nesta quadra, caso denegada a ordem no sentido da concessão de


liberdade provisória ao Paciente, com ou sem a imposição de medidas cautelares diversas
da prisão, imperiosa a concessão do writ para substituir a prisão preventiva pela
domiciliar, nos termos do artigo 318 do Código de Processo Penal, constatado o grave
estado de saúde do Paciente e o cenário de superlotação da cadeia pública de Frutal/MG,
onde inexistem condições mínimas para o tratamento médico de que necessita o réu.

III. DA NECESSIDADE DE CONCESSÃO DE MEDIDA LIMINAR

Tal como no processo civil, a concessão de medidas liminares em âmbito


processo penal é regida pela observância a dois requisitos essenciais: o fumus boni juris e o
periculum in mora. Isto quer dizer que, de um lado, os pedidos formulados por aquele que
requer a medida devem estar ancorados na probabilidade do direito, isto é, num cenário
fático-probatório que ateste a verossimilhança de suas alegações e a aparente certeza do
direito invocado, dispensando uma cognição elastecida do contexto dos autos para o
deferimento da tutela buscada.

Doutra margem, a pretensão almejada deve encontrar esteio no latente


perigo advindo do curso do tempo, quer dizer, na iminente possibilidade de lesão ou de
definitivo perdimento do bem jurídico que se visa a proteger caso o mesmo não seja
imediatamente afastado da inerente demora que contamina a prestação jurisdicional.

Diante disso, a doutrina e a jurisprudência pacificaram o entendimento


de que é possível a concessão de medidas liminares no contexto do habeas corpus, remédio
constitucional lastreado pelo princípio hermenêutico da máxima efetividade, haja vista que
o bem jurídico tutelado (a liberdade) deve necessariamente preponderar em relação à
morosidade judicial tão presente nos dias atuais.

Nesta linha, predizem Alberto Silva Franco e Rui Stoco2:

Da impetração até o julgamento, flui um espaço de tempo, maior ou menor, na


dependência da rapidez com que a autoridade, apontada como coatora, preste as
informações solicitadas e o Ministério Público exare seu parecer. De permeio, situam-
se outros atos cartoriais, que têm também uma expressão temporal. É evidente, assim,
que, apesar da tramitação mais acelerada do remédio constitucional, em
confronto com as ações previstas no ordenamento processual penal, o direito

2 FRANCO, Alberto Silva; STOCO, Rui (coords.). Código de Processo Penal e sua interpretação
jurisprudencial: doutrina e jurisprudência. V. 1. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2001, p. 1543, grifo nosso.
de liberdade do cidadão é passível de sofrer flagrante coação ilegal e abusiva.
Para obviar tal situação, foi sendo construído, ao nível de habeas corpus, o instituto da
liminar, tomada de empréstimo do mandado de segurança, do qual é gêmeo idêntico.
A liminar, em habeas corpus, tem o mesmo caráter de medida de cautela, que
lhe é atribuída do mandado de segurança.

No caso em análise, o Paciente está recolhido no presídio local a


despeito da presença de todos os requisitos autorizadores da concessão de
liberdade provisória ou de fixação de prisão domiciliar, ao passo que sua libertação
não oferece qualquer risco à ordem pública, à aplicação da lei penal ou à conveniência da
instrução criminal, tanto porque o Paciente indicou endereço certo e determinado na
cidade de Frutal/MG em que aguardará o transcurso da ação penal e onde poderá ser
encontrado a qualquer momento para os fins apontados pelo juízo da causa, daí porque o
direito invocado se comprova de plano.

Por outro lado, o perigo da demora jaz no grave risco à incolumidade


física e à própria vida do Paciente caso seja mantido em segregação cautelar, tendo em
mente que padece de grave enfermidade que não poderá ser tratada adequadamente
dentro do presídio.

Como já dito, trata-se de cidadão de bem, idoso, que nunca teve


passagens pela polícia e jamais foi processado criminalmente, não havendo motivação
idônea para sua inserção no sistema carcerário antes de eventual prolação de sentença
condenatória pelo Tribunal do Júri.

Sobre a temática, assevera Ada Pellegrini Grinover3:

O processo criminal representa, por si só, um dos maiores dramas para a pessoa
humana; exige um sacrifício ingente dos direitos da personalidade, espoliando o
indivíduo da intimidade e, frequentemente, da dignidade mesma. Por isto é que um
mínimo de ‘fumaça do bom direito’ há de exigir-se, para que se leve adiante o processo,
até a solução da lide.

Destarte, constatada a presença dos requisitos ensejadores, urge a


concessão de medida liminar para que seja o Paciente imediatamente posto em
liberdade, com ou sem a imposição de medidas cautelares diversas da prisão, até o
julgamento do mérito do remédio heroico, firme o artigo 321 do códex processual penal.

Subsidiariamente, dever-se-á conceder medida liminar para determinar


a substituição da custódia preventiva pela prisão cautelar, presentes os pressupostos
constantes do artigo 318 do CPP e verificado no caso concreto o cenário fático descrito
na medida cautelar implementada no bojo da ADPF n. 347/DF pelo Pretório Excelso.

3 GRINOVER, Ada Pellegrini. As Condições da Ação Penal. São Paulo: José Bushatsky Editor, 1977, p. 127.
IV. DOS PEDIDOS

Ante o exposto, requer:

(i) A distribuição do presente habeas à Câmara e ao Relator competentes;

(ii) A concessão de medida liminar para determinar seja o Paciente


incontinenti posto em liberdade, com ou sem a imposição de medidas
cautelares diversas da prisão, até o julgamento do mérito do presente writ, firme
o artigo 321 do códex processual penal;

(iii) Subsidiariamente, a concessão de medida liminar para determinar a


substituição da custódia preventiva pela prisão domiciliar, nos termos do
artigo 318 do CPP;

(iv) Implementada a liminar em qualquer dos termos acima, a intimação da


Procuradoria-Geral de Justiça do Estado de Minas Gerais para que oferte seu
parecer no prazo legal;

(v) No mérito, a integral concessão da ordem, de sorte a conceder liberdade


provisória ao Paciente, com ou sem a imposição de medidas cautelares
diversas da prisão, até o julgamento definitivo da ação penal, ratificando-se a
liminar porventura concedida nos termos do subitem (ii);

(vi) Subsidiariamente, a concessão da ordem para determinar a substituição da


custódia preventiva pela prisão domiciliar até o julgamento definitivo da
ação penal, nos termos do artigo 318 do CPP, ratificando-se a liminar
porventura concedida nos termos do subitem (iii);

(vii) Por fim, a expressa manifestação acerca dos dispositivos legais e dos
precedentes jurisprudenciais ora veiculados no presente writ.

Termos em que,
Pede deferimento.
Frutal/MG, 19 de dezembro de 2019.

Lucivalter Expedito Silva Lourivalter Silva Júnior


OAB/MG 91.079 OAB/MG 132.715