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ISSN 0103 8117

BAHIA ANÁLISE & DADOS


Salvador SEI v. 18 n. 4 p. 515-710 jan./mar. 2009

Foto: Bruno Veiga/Agência Petrobras de Notícias


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Bahia Análise & Dados, v. 1 (1991- )


Salvador: Superintendência de Estudos Econômicos e
Sociais da Bahia, 2009.
v.18
n.4
Trimestral
ISSN 0103 8117

CDU 338 (813.8)

Impressão: EGBA
Tiragem: 1.000 exemplares

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SUMÁRIO
Apresentação 519 Mitos e verdades sobre a produção de biodiesel a 603
partir de óleos e gorduras residuais (OGR)
Luciano Hocevar
Entrevista com o presidente da 521
Sandro Cabral
Petrobras Biocombustível
Alan Kardec
Direcionamento dos resíduos e coprodutos 613
da fabricação do biodiesel a partir
A transição da matriz energética 525 de mamona e pinhão manso
mundial: ênfase nos recursos renováveis Napoleão Esberard de Macêdo Beltrão
Fábio da Silva Machado Maria Isaura Pereira de Oliveira
Nícia Moreira da Silva Santos
Sheila Caetano Haak Tecnologia e potencial de produção 621
Gilca Garcia de Oliveira de energia a partir da biodigestão
Vitor de Athayde Couto anaeróbia de resíduos orgânicos na Bahia
Sabine Robra
Agrocombustíveis: perspectivas futuras 539 Ana M. de Oliveira
Luiz Antônio dos Santos Dias Rosenira S. da Cruz
Robson Fernando Missio José A. de Almeida Neto
Rita da Mata Ribeiro
Ricardo Galvão de Freitas Glicerina bruta (GB) oriunda da produção de 635
Pedro Fernandes dos Santos Dias biodiesel: transformando este subproduto em
coproduto com alto valor agregado e baixo custo
preparativo, uma oportunidade de negócio
Agrocombustíveis, segurança e soberania 549
Cristina M. Quintella
alimentar: elementos do debate internacional e
Marilu Castro
análise do caso brasileiro
Giminiano José dos Santos
O Projeto Biodiesel no Brasil e na Bahia: 647
Luana Ladu
inclusão social e desenvolvimento regional
Henrique Tomé da Costa Mata
Celia Regina Sganzerla Santana
Gilca Garcia de Oliveira
Thiago Reis Góes
Guiomar Inez Germani
Vitor de Athayde Couto
O biodiesel na Bahia: uma análise da 659
potencialidade baiana na produção de oleaginosas
Economia e preservação do 557 Vitor Bufon Krohling
meio ambiente no Brasil: a contribuiçao Gilca Garcia de Oliveira
dos biocombustíveis Poliana Costa Matos
Juan Algorta Plá Maria Idalina de Sant’Ana

Consumo e fatores ambientais: 573 Estratégias para inserção do território 671


um estudo a partir do biodiesel do sisal no programa de biodiesel
Francis José Pereira Giovani Ferreira da Silva
Mônica de Moura Pires Gisele Ferreira Tiryaki
Marcelo Dultra
Prospecção tecnológica do biodiesel no 581
Análise da competitividade da produção de 687
estado da Bahia: panorama atual e perspectivas na
Foto: Bruno Veiga/Agência Petrobras de Notícias
oleaginosas oriundas da agricultura familiar na
geração e apropriação de conhecimento
região de abrangência da Coopaf
Cristina M. Quintella
Matheus Boratto Nascimento Campos
Pedro R. C. Neto
Aziz Galvão da Silva Júnior
Rosenira S. da Cruz
Ronaldo Perez
José Adolfo de Almeida Neto
Ramon Barrozo de Jesus
Sabrina F. Miyazaki
Natália Domingos Silva
Marilú P. Castro
A atuação de grupos de pressão no 699
Potencial energético de resíduos 593 cenário político e a viabilidade de participação
agrícolas do semiárido do Brasil da agricultura familiar no programa nacional de
Francisco S. G. Pereira produção e uso de biodiesel
Ana R. F. Drummond Flávia Lemos Sampaio Xavier
Guilherme Coimbra João Nildo de Souza Vianna
Foto: Agência Petrobras de Notícias
APRESENTAÇÃO

A
produção e difusão de biocombustíveis é uma realidade no Brasil. Em
virtude da forte dependência de combustíveis fósseis, como o petróleo,
e dada a importância que a energia tem para o desenvolvimento econô-
mico, torna-se imperativo a busca por outras fontes de energia, sobretudo as
renováveis, de forma a garantir a segurança energética e, consequentemente, o
desenvolvimento econômico sustentável do país. Nesse sentido, os biocombustí-
veis configuram-se como uma alternativa.
Dotada de amplos recursos naturais para a produção de biocombustíveis, a
Bahia ocupa posição privilegiada em relação ao tema. Ciente dessa oportuni-
dade e da possibilidade de desenvolvimento regional com inclusão social, o go-
verno da Bahia considera a questão dos biocombustíveis como uma estratégia
política, econômica, social e ambiental, portanto, um eixo de atuação de políticas
públicas.
Contudo, a produção de biocombustíveis e difusão de novas tecnologias, a
inserção no mercado internacional, a busca da produção dos biocombustíveis
aliada ao desenvolvimento social e à preservação do meio ambiente, a oportu-
nidade de novos negócios com agregação de valor e a compatibilidade entre a
produção de biocombustíveis e a segurança alimentar são desafios que perma-
necem postos.
Diante desses desafios, a Superintendência de Estudos Econômicos e So-
ciais da Bahia (SEI) busca estimular o debate sobre os biocombustíveis por meio
desta publicação. O objetivo é oferecer um conjunto de artigos científicos produ-
zidos por especialistas, pesquisadores e técnicos, de modo que se possam obter
subsídios para a formulação de políticas públicas no âmbito estadual e incentivar
a discussão pública sobre a questão, que se delineia como estratégica para o
desenvolvimento do estado.
Foto: Agência Petrobras de Notícias
Fábio da Silva Machado, Nícia Moreira da Silva Santos, Sheila Caetano Haak, Gilca Garcia de Oliveira, Vitor de Athayde Couto

Bahia
análise & Dados

Cenário atual e perspectivas futuras


para a indústria petroquímica
ENTREVISTA COM Alan Kardec
PRESIDENTE DA PETROBRAS BIOCOMBUSTÍVEL

A
lan Kardec é engenheiro mecânico. Em quarenta anos
na Petrobras, Kardec desenvolveu extenso currículo
profissional na área de Abastecimento e Refino, atuou
como gerente executivo da Área de Abastecimento de 2004 a
2007 e coordenou o grupo de trabalho de criação da Petrobras
Biocombustível, sendo posteriormente indicado à presidência
desta empresa, função que exerce até o presente momento.
Nesta entrevista, Alan Kardec esclarece diversos aspectos re-
lacionados ao papel da Petrobras no setor de biocombustíveis.
Dentre os pontos relevantes da entrevista, destacam-se os
investimentos previstos no Plano de Negócios 2009/2013 da
empresa, os desafios e oportunidades do setor, sobretudo no

Foto: Agência Petrobras de Notícias


que diz respeito às matérias-primas utilizadas na produção de
biocombustíveis e à integração da agricultura familiar no seu
processo produtivo no Brasil, bem como dos possíveis impac-
tos da crise financeira mundial sobre a sua produção no país.
No âmbito regional, discorre sobre a planta da Petrobras para
produção de biodiesel, localizada em Candeias.

BA&D – Qual a função da de biodiesel e de etanol. Esta – e social – geração de empre-


Petrobras Biocombustível den- decisão empresarial é impulsio- go e renda no campo de forma
tro do projeto do governo federal nada pelo destaque que as ener- sustentável econômica, social e
de ampliação da produção de gias renováveis vêm ganhando ambientalmente.
biocombustíveis no país? no cenário nacional e internacio-
ALAN KARDEC – A Petrobras nal, vislumbrando um panorama BA&D – Em linhas gerais,
Biocombustível foi criada dentro de grandes oportunidades, in- quais as principais diretrizes,
da estratégia da Petrobras de cluindo: empresarial – demanda metas e investimentos previstos
atuar globalmente na produção mundial por biocombustíveis, no Plano de Negócios 2009/2013
de biocombustíveis para ter par- ambiental – contribuição para a da Petrobras para o setor de bio-
ticipação relevante nos negócios redução do aquecimento global combustíveis?

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.521-524, jan./mar. 2009 521
A transição da matriz energética mundial: ênfase nos recursos renováveis

O pinhão manso também é uma


alternativa e segue sendo uma
grande promessa, mas ainda
estamos em fase de pesquisa.

BA&D – As oleaginosas mais


aderentes a lógica produtiva da
agricultura familiar ainda não se

Foto: Bruno Veiga/Agência Petrobras de Notícias


mostraram, no Brasil, competiti-
vas para a produção de biodie-
sel. O que a Petrobras tem feito
do ponto de vista de PD&I para
reverter este quadro?
AK – A Petrobras desenvol-
ve programas para aumentar
a produtividade das oleagino-
sas e para torná-las mais re-
AK – O negócio de biocom- BA&D – Dada a importância sistentes à seca e a pragas.
bustíveis receberá o investimen- da Petrobras Biocombustível Em paralelo, a companhia está
to de US$ 2,8 bilhões de acordo dentro do segmento, por que a prospectando oleaginosas na-
com o Plano de Negócios da participação da empresa nos tivas ou não, que apresentem
Petrobras 2009-2013. Deste leilões públicos para compra de potencial de geração de óleo
total, US$ 2,4 bilhões serão biodiesel ainda é tímida, dentro vegetal compatível para a pro-
destinados à produção de bio- do montante vendido nos últi- dução de biodiesel, com ap-
diesel e etanol – atividade sob mos leilões? tidão para o cultivo em região
responsabilidade da Petrobras AK – A Petrobras Biocom- seca e que gerem renda para
Biocombustível –, enquanto bustível vendeu a capacidade os agricultores familiares.
US$ 400 milhões serão volta- total de produção das suas três
dos para infraestrutura, basica- usinas no 13º leilão, último do BA&D – Como a empresa es-
mente alcooldutos – atividade qual participou. Nos leilões an- pera incluir a agricultura familiar
que está a cargo da Petrobras. teriores, o volume foi vendido à no processo produtivo do bio-
Os recursos representam um medida que as unidades foram diesel e quais os desafios que a
aumento de 87% em relação ao passando pelo cronograma de empresa enfrenta para garantir
plano anterior. A Petrobras des- testes. Como toda unidade in- o suprimento da matéria-prima
tinou ainda US$ 530 milhões dustrial, as usinas foram au- da agricultura familiar para as
neste período para pesquisas mentando gradativamente sua usinas?
em biocombustíveis. No seg- produção. AK – A implantação das usi-
mento de biodiesel, a meta é nas de biodiesel da Petrobras
chegar em 2013 com a produ- BA&D – Quais as principais Biocombustível está acompa-
ção de 640 milhões de litros por matérias-primas utilizadas hoje nhada de um programa para o
ano no Brasil. Para o segmento nas plantas de produção de bio- desenvolvimento do mercado
de etanol, o objetivo é atingir, diesel da Petrobras? agrícola regional, envolvendo a
em parceria, a produção de 1,9 AK – Atualmente, a empresa agricultura familiar, para forne-
bilhão de litros em 2013, voltada utiliza óleo de soja e algodão, cimento de matéria-prima para
para o mercado externo, e 1,8 podendo processar também a produção de biodiesel. Este é
bilhão de litros para o mercado mamona e girassol. No médio um projeto realmente desafiador
interno. prazo, faremos uso do dendê. para a empresa. Várias ações

522 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.521-524, jan./mar. 2009
Fábio da Silva Machado, Nícia Moreira da Silva Santos, Sheila Caetano Haak, Gilca Garcia de Oliveira, Vitor de Athayde Couto

de fomento estão sendo de- representativas da agricultura AK – A Usina de Biodiesel


senvolvidas e incluem distribui- familiar. Além disso, todos os de Candeias, na Bahia, tem ca-
ção de sementes, prestação de agricultores familiares contrata- pacidade para produzir 57 mi-
serviços de assistência técnica dos recebem sementes certifi- lhões de litros de biodiesel por
agrícola, transporte da produção cadas e assistência técnica para ano. A unidade está em patamar
e apoio à organização dos pe- potencializar a produção. de crescimento de produção e
quenos agricultores em coope- deve operar em plena carga ain-
rativas. A meta é envolver 80 mil BA&D – No que diz respeito da neste primeiro semestre. E,
agricultores familiares na produ- a atenuar as disparidades regio- atualmente, utiliza óleo de soja
ção de biodiesel até 2013. Este nais, um dos alicerces do PNPB, como principal matéria-prima,
ano, nosso objetivo é atingir 60 como a empresa está contribuin- devendo incluir no médio prazo
mil. Já estamos trabalhando do para isso? O Norte e o Nor- mamona e girassol no processo
com 35 mil. O programa segue deste são regiões prioritárias produtivo.
alinhado com as premissas do para os futuros investimentos da
Programa Nacional de Produção empresa? BA&D – Qual a meta da usi-
e Uso de Biodiesel (PNPB) e do AK – As três usinas de bio- na de Candeias para contratar
Selo Combustível Social – já diesel da empresa estão loca- os agricultores familiares e qual
conquistado pelas três usinas –, lizadas no semiárido brasileiro a quantidade hoje contratada?
viabilizando assim a geração de e a implantação destas unida- AK – A usina de Candeias
emprego e renda no campo, de des está acompanhada de um deve atingir 30 mil agricultores
forma sustentável econômica, programa de desenvolvimento familiares contratados até 2013.
social e ambientalmente. agrícola regional, com o en- Até final de 2008, a unidade con-
volvimento dos agricultores tava com 14.489 agricultores ca-
BA&D – Como são especifi- familiares, gerando emprego e dastrados para fornecimento de
cados os contratos da Petrobras renda na região. Quanto aos mamona e girassol.
com os agricultores familiares? futuros investimentos em bio-
AK – A Petrobras Biocom- diesel, o Plano de Negócios BA&D – Que tipo de apoio a
bustível formaliza contratos de 2009-2013 prevê a duplicação usina de Candeias tem dado aos
compra de grãos de oleaginosas da usina de Candeias, a am- agricultores familiares contrata-
com agricultores individuais e pliação das usinas de Quixadá, dos, no que diz respeito a trei-
cooperativas de produção agrí- no Ceará, e Montes Claros, em namento, assistência e garantia
cola que atuam em municípios Minas Gerais, uma nova usina de compra?
zoneados pelo Ministério da no norte do país e a adaptação AK – A garantia de compra,
Agricultura para o cultivo des- para produção comercial das conforme informado anterior-
sas oleaginosas. Os contratos usinas experimentais de Gua- mente, é total nos cinco anos
possuem prazo de cinco anos, maré, no Rio Grande do Nor- de duração do contrato. Quanto
com reavaliação anual das con- te. Também está em análise a à assistência técnica, a Petro-
dições de preço, nos quais há aquisição de duas usinas, mas bras Biocombustível contrata
um compromisso de compra de sem local definido. cooperativas e empresas públi-
toda a produção desses grãos a cas credenciadas no Ministério
um preço que segue parâmetros BA&D – No caso específico do Desenvolvimento Agrário
de mercado. Existe ainda a ga- da planta de biodiesel da Pe- para a prestação desses servi-
rantia de um preço mínimo para trobras em Candeias, na Bahia, ços. Essas entidades seguem o
a aquisição dos grãos. Todas qual o volume produzido, sua ca- Termo de Especificação de As-
as condições do contrato com pacidade instalada e qual a prin- sistência Técnica da Petrobras
os agricultores familiares fo- cipal oleaginosa utilizada hoje na Biocombustível, que determina
ram negociadas com entidades produção do combustível? a realização de quatro visitas

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.521-524, jan./mar. 2009 523
A transição da matriz energética mundial: ênfase nos recursos renováveis

individuais para os agricultores AK – O Plano de Negócios


que cultivam mamona e três visi- da Petrobras Biocombustível
tas individuais para os que culti- 2009-2013 foi elaborado den-
vam girassol, a cada safra. Além tro de um cenário que já refle-
disso, os agricultores familiares tia a crise econômica, até onde
participam de eventos de capa- se conseguiu avaliar o impac-
citação técnica onde recebem to da mesma. A Petrobras
orientações sobre a estratégia reavalia anualmente o Plane-
da Petrobras Biocombustível, a jamento Estratégico de toda
metodologia de assistência téc- a Companhia, de forma que a
nica que irão receber e sobre extensão da crise está sendo
preservação ambiental. mapeada e se fará refletir nas

Foto: Agecom
reavaliações futuras do Plano
BA&D – Ainda no que se de Negócios da Companhia,
refere à planta de Candeias, o incluindo os biocombustíveis.
suprimento da matéria-prima ad- contratados na Bahia, devemos Todavia, estamos otimistas
vinda da agricultura familiar está realizar em 2009 uma expressiva com o crescimento do merca-
constante? aquisição de grãos produzidos do mundial de biocombustíveis
AK – Estamos no início de pela agricultura familiar. devido a dois fatores: a neces-
nosso programa com a agricul- sidade da redução da emissão
tura familiar na Bahia, que ainda BA&D – O desenrolar da de CO 2 em razão do aqueci-
não possui capacidade produtiva crise econômica mundial pode mento global e, também, a ne-
para suprimento de nossas usi- afetar as estratégias da empre- cessidade da diversificação da
nas, o que esperamos alcançar sa para o setor? Como a crise matriz energética nos países
o mais breve possível. Com base pode dificultar a produção dos que são grandes consumido-
nos agricultores e cooperativas biocombustíveis no país? res de energia.

524 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.521-524, jan./mar. 2009
Fábio da Silva Machado, Nícia Moreira da Silva Santos, Sheila Caetano Haak, Gilca Garcia de Oliveira, Vitor de Athayde Couto

Bahia
análise & Dados

A transição da matriz energética


mundial: ênfase nos recursos renováveis
Fábio da Silva MachadoA
Nícia Moreira da Silva SantosB
Sheila Caetano HaakC
Gilca Garcia de OliveiraD
Vitor de Athayde CoutoE

Resumo Abstract

Neste artigo analisam-se as matrizes energéticas mundial e World and Brazilian energy matrices are analysed in
brasileira, do ponto de vista da inserção de fontes renováveis de this article, from the viewpoint of inserting renewable energy
energia. Diversos fatores justificam a importância dos atuais estudos sources. Various factors justify the importance of current
sobre energia, dentre eles, o anunciado esgotamento das fontes studies on energy, including the announced depleting energy
energéticas à base de combustíveis fósseis, a expansão da demanda sources based on fossil fuels, expanding industrial demands in
industrial nos países emergentes e a maior eficiência energética emerging countries and greater energy efficiency associated to
aliada a menores índices de poluição. Identificou-se que as fontes não- lower pollution levels. It has been identified that non-renewable
renováveis ainda compõem o maior percentual da oferta energética sources still form the largest percentage of world energy
mundial, todavia, perdendo espaço sistematicamente para as supplies. However, they are systematically losing ground to
fontes renováveis. Analisando-se a realidade brasileira, constatou- renewable sources. The same phenomenon can be noted when
se o mesmo fenômeno, porém, com maior velocidade no aumento analysing the Brazilian reality but has increased participation
da participação das fontes renováveis, sinalizando um movimento in renewable sources at a faster rate, signalling a movement
de inversão da supremacia na matriz nacional. Dentre os fatores to reverse this supremacy in the national matrix. Among the
que justificam a referida evolução mundial destacam-se os altos factors which justify the above-mentioned world evolution, high
custos da energia à base de petróleo; a maior demanda energética oil based energy costs; a higher energy demand from emerging
pelos países emergentes, nos últimos anos; o aprofundamento das countries in recent years; in depth environmental discussions,
discussões ambientais, voltadas principalmente para a redução dos principally concerned with reducing pollution levels and a
níveis de poluição; e o maior incremento das fontes energéticas larger increase in alternative renewable energy sources are
alternativas renováveis. O Brasil, que historicamente apresentou highlighted. Brazil, which historically had a strong presence
forte presença relativa das fontes renováveis na sua matriz, com with regards to renewable sources in its matrix, highlighting
destaque para as hidroelétricas e o carvão vegetal, desponta como hydroelectric and charcoal, emerges as an important biofuel
importante fornecedor de biocombustíveis. Destaca-se o bioetanol, supplier. Bio-ethanol is accentuated, the principal Brazilian
principal vocação brasileira desde a década de 1970, além do mission since the 1970s, as well as biodiesel. These are the
biodiesel. Essas são as alternativas que vêm experimentando alternatives which have been experiencing the greatest growth
maior crescimento na participação das fontes renováveis na matriz in renewable fuel participation in the Brazilian energy matrix.
energética brasileira. Para que esse ritmo seja mantido – ou até In order that this rhythm is maintained, or even increased, it is
incrementado –, faz-se necessário o convencimento da opinião necessary to convince international opinion on the benefits of
internacional sobre os benefícios desse processo de substituição. this substitution process.

Palavras-chave: Matriz energética. Brasil. Biocombustíveis. Keywords: Energy matrix. Brazil. Biofuels. Oil. Renewable
Petróleo. Fontes de energia renováveis. energy sources.

A D
Mestre em Economia e graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Doutora em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV); graduada
Federal da Bahia (UFBA). cantofa@ig.com.br em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Lavras (UFLA); professora
B do Curso de Mestrado em Economia da Universidade Federal da Bahia (CME-UFBA).
Mestre em Economia e graduada em Ciências Econômicas pela Universidade E
Federal da Bahia (UFBA). niciasantos@hotmail.com Pós-doutor pelos Instituto de Altos Estudos Mediterrâneos (IAM), Montpellier,
C
Universidade de Paris I e Universidade de Rouen; doutor em Estudos Rurais Integrados
Mestre em Economia e graduada em Ciências Econômicas pela Universidade pela Universidade de Toulouse II (Le Mirail); professor titular da Universidade Federal
Federal da Bahia (UFBA). scheylahaack@ig.com.br da Bahia (UFBA), professor do Curso de Mestrado em Economia (CME-UFBA).

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.525-538, jan./mar. 2009 525
A transição da matriz energética mundial: ênfase nos recursos renováveis

INTRODUÇÃO e incertezas relativas ao debate energético, que estão


intrinsecamente ligadas às questões políticas e ao de-
Apesar de representar componente significati- senvolvimento tecnológico, assim como aos níveis de
vo das matrizes energéticas, o emprego das fontes preços e ao crescimento das economias mundiais.
energéticas não-renováveis vem sendo substi- Em nível mundial, combustíveis líquidos são a
tuído gradativamente pela fonte de energia que cresce
utilização de fontes renová- mais lentamente, enquanto as
A utilização da lenha/
veis, tanto no plano mundial fontes renováveis e o carvão
carvão vegetal, que teve sua
quanto brasileiro. Diversos mineral são os que mais se
maior representatividade
são os fatores relacionados a elevam. Comparativamente,
até a década de 1970,
esse comportamento: eleva- os custos do carvão são mais
vem, sistematicamente,
ção dos preços mundiais do baixos que os custos dos com-
cedendo espaço para outras
petróleo e derivados, como bustíveis líquidos e o gás natu-
alternativas, em especial os
gás natural e óleos combus- ral, o que permite que esta fonte
tíveis; exigências ambientais,
biocombustíveis
ainda seja uma melhor esco-
principalmente em relação à lha econômica. Dados fatores
redução das emissões de dióxido de carbono na como a alta de preços dos combustíveis fósseis, eleva-
atmosfera; incerteza quanto às reservas petrolífe- ção do consumo dos combustíveis, discussões quanto
ras existentes; e ampliação da demanda energé- aos impactos ambientais e as incertezas em relação às
tica mundial, causada pelo acelerado crescimento reservas energéticas disponíveis, tem-se a perspectiva
econômico nos países emergentes e com grandes de aumentos e incentivos para o consumo e produção
populações, a exemplo da China, Índia e Brasil. das fontes de energia renováveis.
Este trabalho, na forma de artigo, é subprodu- A partir dessas considerações, compreende-se mais
to de uma pesquisa mais ampla. O seu objetivo é fielmente a trajetória da inserção das fontes energéticas
analisar o comportamento do mercado brasileiro renováveis na matriz energética brasileira. Apesar do
no ambiente de transição das matrizes energéticas potencial natural brasileiro e know-how das empresas
mundiais, com base na elevação da produção e do nacionais, o aproveitamento hidrelétrico mantém sua
consumo de fontes renováveis de energia. O artigo participação praticamente inalterada em razão, princi-
divide-se em três partes, além desta introdução. palmente, do elevado custo inicial dos projetos e das
Na primeira parte, apresenta-se um breve pa- barreiras impostas pelas autoridades ambientais.
norama das matrizes energéticas mundiais, com A utilização da lenha/carvão vegetal, que teve
base nos dados do Relatório Anual da Agência de sua maior representatividade até a década de 1970,
Informação Energética dos EUA, de 2008, princi- vem, sistematicamente, cedendo espaço para ou-
palmente no que diz respeito às informações so- tras alternativas, em especial os biocombustíveis.
bre produção, consumo e preços de energia. Na Apesar da resistência dos principais países de-
segunda parte, discutem-se os principais fatores senvolvidos em admitir a importância dessa fonte
relacionados à transição energética observada energética, o biodiesel, e principalmente o bioeta-
atualmente, como a expansão da demanda mun- nol, mantém sua trajetória ascendente de inserção
dial por energia; a elevação dos preços mundiais na matriz energética brasileira.
da principal fonte primária; e a questão ambien- Conclui-se destacando que o Brasil continua
tal. Na terceira parte, referente ao caso brasileiro, revelando forte presença de fontes renováveis na
analisa-se o comportamento da matriz energética sua matriz energética, quando comparada ao resto
nacional, observando-se se esta vem seguindo a do mundo. Essa participação, cada vez mais efe-
tendência mundial de elevação do emprego das tiva, decorre principalmente da combinação entre
fontes de energia renovável. disponibilidade de recursos naturais e capacidade
De fato, as análises e previsões levantadas neste técnica para transformação de materiais biológicos
artigo permitiram ilustrar uma série de possibilidades em energia.

526 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.525-538, jan./mar. 2009
Fábio da Silva Machado, Nícia Moreira da Silva Santos, Sheila Caetano Haak, Gilca Garcia de Oliveira, Vitor de Athayde Couto

BREVE PANORAMA DA MATRIZ ENERGÉTICA participação desse consumo poderá atingir 21%. His-
MUNDIAL toricamente, esse continente tem sido o maior produtor
e consumidor de gás natural. No Canadá, o seu con-
A identificação das principais matrizes energéti- sumo está projetado para crescer à taxa de 1,5% ao
cas mundiais baseia-se nos dados que se encontram ano. No México, espera-se crescimento em todos os
no relatório da Energy Infor- setores, projetando-se aumen-
mation Administration (EIA). O consumo mundial de gás to no seu consumo para gera-
São apontadas projeções, de natural, segundo EIA (2008), ção de eletricidade. Na OCDE
2000 até 2030, dividindo-se a aumentará em média 52%, Europa, o consumo está proje-
análise em demanda e oferta entre 2005 e 2030. Espera-se que tado para crescer a uma taxa
de energia. essa fonte substitua o petróleo, de 1,4% ao ano. No Japão e na
Analisando-se o consumo quando possível, pois produz Coreia do Sul, a demanda está
mundial por tipo de energia menos dióxido de carbono que projetada para crescer à taxa
explicitado na Tabela 1, a co- o carvão e demais produtos média de 0,7% e 2,2% ao ano,
meçar pelo petróleo, verifica- derivados do petróleo respectivamente.
se que em muitas regiões do Do total dos países que
mundo o montante consumido compõe a não OCDE Europa
vem declinando diante da alta de preços, com ex- e Eurásia, a participação do gás natural representa
ceção do uso no setor de transportes, que mantém 51% da sua energia. A Rússia é o segundo maior con-
crescimento por causa da falta de fontes alternativas sumidor, perdendo somente para os EUA. Os demais
capazes de competir em larga escala. Espera-se que países da não OCDE contam com 46% do total de
os produtores ligados à Organização dos Países Ex- energia combinada. Na China e Índia, o gás natural
portadores de Petróleo (OPEP) mantenham seu mer- é menor no mix de todas as energias, representan-
cado de oferta de petróleo estável, investindo apenas do apenas 3% e 8%, respectivamente, do consumo
na capacidade incremental da sua produção conven- mundial. No Oriente Médio, o consumo cresce à taxa
cional, que representa aproximadamente 40% da pro- média anual de 1,9% e na África, 3,5%. Na América
dução mundial. A principal justificativa baseia-se na do Sul e Central a demanda cresce à taxa média de
ameaça de redução nos preços decorrente de uma 2,8% ao ano. No Brasil, a produção de gás natural
possível elevação na oferta, dado o interesse em se tem crescido com taxa média de 5,2% ao ano.
manter elevado o nível de preços. A alta de preços do gás natural tem incentivado o
O consumo mundial de gás natural, segundo EIA uso de tecnologia limpa de carvão. O carvão participou
(2008), aumentará em média 52%, entre 2005 e 2030. com 24% do total da energia utilizada em 2002 e 27%,
Espera-se que essa fonte substitua o petróleo, quan- em 2005. Essa fonte tem crescido nos últimos anos,
do possível, pois produz menos dióxido de carbono dado o crescimento do consumo na China, que pra-
que o carvão e demais produtos derivados do petró- ticamente dobrou e ameaça aumentar fortemente no
leo. Espera-se também que o gás natural venha a ser futuro. Como o carvão é a fonte básica da crescente
uma significativa fonte de energia para o setor indus- economia chinesa, segundo EIA (2008), representará
trial, com participação de aproximadamente 43%, até 71% do aumento do consumo do carvão mundial. Na
2030. No ano de 2006, o consumo dos países fora da ausência de políticas e acordos internacionais que li-
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento mitam ou reduzem a emissão de gás no meio ambien-
Econômico (OCDE) superou os países membros da te, o consumo de carvão mundial está projetado para
OCDE. Estimam-se crescimentos com taxa média de aumentar de 123 quadrilhões de BTU, em 2005, para
2,3% anual para os países que não são da OCDE e 202 quadrilhões de BTU1, em 2030, ou seja, uma taxa
de 1,0% para os da OCDE. média anual de 2%, representando 29% do consumo
Ainda em relação ao gás natural, o consumo de energia mundial. Os raros países onde decresce o
na América do Norte está projetado para crescer
a uma taxa média de 0,6%, até 2030. Em 2010, a British Thermal Units.
1

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.525-538, jan./mar. 2009 527
A transição da matriz energética mundial: ênfase nos recursos renováveis

Tabela 1
Consumo mundial de energia primária – 1981-2005
(Padrão Americano de Unidade) 1981-2005
Tipo de energia/Grupo de países 1981 1984 1987 1990 1993 1996 1999 2002 2005
Petróleo (milhões de barris por dia)
Total mundial 60.944 59.817 63.097 66.632 67.509 71.544 75.599 78.016 83.607
OCDE 39.491 37.692 39.342 41.566 43.210 45.895 47.742 47.870 49.617
Não OCDE 21.453 22.125 23.754 25.066 24.300 25.649 27.857 30.146 33.991
Outros grupos
OCDE Europa 13.802 12.819 13.327 13.720 14.255 14.935 15.283 15.284 15.515
OPEC 3.085 3.500 3.921 4.536 5.104 5.453 5.859 6.709 7.651
União Europeia 13.742 12.658 13.055 13.379 13.815 14.420 14.687 14.686 14.925
IEA 37.386 35.670 37.118 39.224 41.002 43.659 45.270 45.416 46.978
Gás natural (trilhões cubic feet)
Total mundial 53,513 59,692 66,312 73,370 77,086 82,231 85,196 92,653 103,700
OCDE 32,887 32,978 33,662 36,823 40,223 45,410 47,113 49,775 51,966
Não OCDE 20,626 26,713 32,650 36,547 36,863 36,820 38,083 42,878 51,734
Outros grupos
OCDE Europa 9,437 10,146 11,145 11,601 12,723 15,053 16,045 17,161 19,291
OPEC 2,478 3,596 4,771 5,500 6,448 7,990 9,029 10,231 12,510
União Europeia 10,796 11,628 12,627 12,831 13,609 15,871 16,274 17,306 19,110
IEA 31,285 31,236 31,851 34,946 38,632 43,604 45,162 47,473 49,414
Carvão (milhões tons)
Total mundial 4.221 4.677 5.127 5.266 4.956 5.192 4.999 5.272 6.483
OCDE 2.281 2.423 2.570 2.556 2.332 2.386 2.360 2.459 2.568
Não OCDE 1.940 2.254 2.557 2.710 2.624 2.806 2.639 2.813 3.915
Outros grupos
OCDE Europa 1.284 1.332 1.410 1.304 1.040 984 880 896 905
OPEC 3 5 7 10 14 19 25 36 48
União Europeia 1.346 1.398 1.470 1.336 1.084 1.015 877 912 909
IEA 1.942 2.046 2.163 2.225 2.112 2.170 2.172 2.283 2.388
Energia hidroelétrica (bilhões kilowatthora)
Total mundial 1.746,8 1.933,9 2.005,9 2.148,9 2.322,1 2.494,4 2.596,1 2.596,8 2.900,0
OCDE 1.094,1 1.175,9 1.145,5 1.179,5 1.250,1 1.325,4 1.333,2 1.252,3 1.258,5
Não OCDE 652,7 758,0 860,4 969,4 1.072,0 1.169,0 1.262,9 1.344,5 1.641,5
Outros grupos
OCDE Europa 419,9 437,9 447,5 439,2 484,8 471,5 509,5 490,7 480,9
OPEC 27,9 33,2 46,4 55,1 72,1 76,5 82,8 86,8 111,5
União Europeia 293,6 300,6 302,2 275,5 313,2 318,7 337,3 312,1 301,3
IEA 1.060,3 1.144,2 1.116,9 1.146,8 1.214,8 1.283,5 1.288,2 1.213,2 1.217,4
Energia elétrica nuclear (bilhões kilowatthora)
Total mundial 778,6 1.196,9 1.654,0 1.908,8 2.081,6 2.291,5 2.393,1 2.545,3 2.625,6
OCDE 689,7 1.000,0 1.411,5 1.634,6 1.810,5 1.995,6 2.093,2 2.177,7 2.226,6
Não OCDE 88,9 196,8 242,5 274,2 271,1 295,9 299,9 367,6 399,0
Outros grupos
OCDE Europa 293,6 485,0 657,7 743,3 813,5 867,9 887,0 923,1 929,0
OPEC 0 0 0 0 0 0 0 0 0
União Europeia 288,5 480,6 649,0 734,5 820,6 879,8 896,1 941,3 944,9
IEA 684,6 992,7 1.390,6 1.608,4 1.794,2 1.976,9 2.071,3 2.151,3 2.199,4
Energia geotérmica, solar, eólica, madeira e
lixo (bilhões kilowatthora)
Total mundial 33,2 52,8 66,9 127,1 156,3 178,8 221,4 284,5 369,7
OCDE 25,1 40,4 53,4 112,2 137,7 153,0 183,7 234,0 309,6
Não OCDE 8,1 12,4 13,5 15,0 18,6 25,8 37,7 50,4 60,1
Outros grupos
OCDE Europa 13,6 13,9 17,5 19,7 31,2 41,2 62,6 99,7 160,0
OPEC 0 0,2 0,7 1,1 1,0 2,2 3,7 5,9 6,3
União Europeia 13,0 13,3 16,7 18,5 30,0 39,2 59,5 96,3 155,5
IEA 23,7 38,3 48,5 106,8 131,5 146,9 176,3 226,0 296,6
Fonte: Energy Information Administration - International Energy Annual, 2005.

528 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.525-538, jan./mar. 2009
Fábio da Silva Machado, Nícia Moreira da Silva Santos, Sheila Caetano Haak, Gilca Garcia de Oliveira, Vitor de Athayde Couto

consumo de carvão encontram-se na Europa, além do serviços de hotéis, restaurantes etc., além de no-
Japão, países cujas populações crescem lentamente ou vos negócios. Em 2005, o consumo de energia co-
até decrescem; contudo, a demanda por eletricidade é mercial nos países da não OCDE foi de apenas 1,2
crescente, embora lenta. O gás natural, energia nuclear milhões de BTU comparado aos países da OCDE,
e as renováveis são mais empregadas para a geração que registraram 16,4 milhões de BTU. Para os pa-
de eletricidade do que o carvão. íses da não OCDE estimam-
No mundo inteiro, o consu- No mundo inteiro, o consumo se crescimentos maiores que
mo de eletricidade e de fontes de eletricidade e de fontes nos países da OCDE, aproxi-
renováveis de energia aumenta renováveis de energia aumenta madamente 3,3% por ano.
a uma taxa média de 2,1% ao a uma taxa média de 2,1% ao ano No setor industrial, a de-
ano. Isso significa, em termos manda energética varia de
quantitativos, passar de 35 quadrilhões de BTU para 59 acordo com o país, conforme níveis de atividade
quadrilhões de BTU, entre 2005 e 2030 (EIA, 2008). econômica, desenvolvimento tecnológico, popu-
Nos países que não integram a OCDE, o cres- lacional, entre outros fatores. Economias vincula-
cimento no consumo de energias renováveis está das à OCDE geralmente possuem mais operações
projetado, em larga escala, com base na energia energéticas industriais eficientes, além de um mix
hidroelétrica em países da Ásia e da América do de indústria pesada, o que não ocorre nos países
Sul e Central, possuidores de projetos de usinas da não OCDE. Espera-se que China, Índia e outros
hidroelétricas ou de plantas já em construção. Nas países da não OCDE, fixados na Ásia, apresentem
nações da OCDE, a hidroeletricidade encontra-se maior crescimento nesse setor. Cerca de 77% da
bem estabelecida, com exceção do Canadá e Tur- energia chinesa é consumida pelo setor industrial.
quia, que possuem ainda poucos projetos. Outro Analisando-se a produção energética mundial,
dado que se visualiza é o aumento no consumo de com base nos dados apresentados na Tabela 2,
fontes de energias renováveis não hidroelétricas, observa-se que, atualmente, o volume de combus-
especialmente de origem eólica e da biomassa. tíveis convencionais produzido pelos países mem-
Muitos países da OCDE têm incentivado o uso bros da OPEP (óleo cru, gás natural, produtos de
dessas fontes renováveis, pois reduzem a emis- refinarias) é de aproximadamente 12,4 milhões de
são de gases e promovem a segurança energé- barris por dia, enquanto os países da não OPEP
tica. Nos países da OCDE, a geração de energia contribuem com 8,6 milhões de barris por dia.
renovável tende a crescer 1,6% ao ano, de 2005 Os preços mundiais têm encorajado produtores
a 2030, mais rápido que todas as outras fontes de nos países não OPEP, que visam não só à produ-
eletricidade de geração, exceto o gás natural. ção de combustíveis convencionais, como também
Analisando-se o consumo de energia, por setor, elevam seus investimentos em fontes não conven-
identifica-se que o consumo de energia residencial cionais. A elevação dos preços dos combustíveis
participa com aproximadamente 15% do consumo da fósseis acaba atraindo investimentos em áreas an-
energia mundial. Países da OCDE usam mais energia tes consideradas economicamente inviáveis, como
que os países da não OCDE, devido ao maior nível no Cazaquistão, América do Sul (Brasil) e Canadá.
de renda. Dados do EIA 2008 revelam ainda que, em Estima-se que a produção de petróleo da não
alguns países da não OCDE, utilizam-se largamente OCDE Europa e Eurásia deverá aumentar de 11,9
madeira e lixo nas residências, para aquecer e cozi- milhões de barris por dia, em 2005, para 18,9 mi-
nhar, principalmente na África subsaariana, China e lhões de barris por dia, em 2030. Mais da metade
Índia. Cerca de 55% da população chinesa rural usa da produção é atribuída à Rússia, que, sozinha,
biomassa para cozinhar. Na Índia essa população ain- deverá produzir quatro milhões de barris por dia,
da é maior, alcançando 87% (EIA, 2008). em 2030. No Brasil, a projeção de crescimento
Atividades econômicas mais modernas, integra- é de 4,4% ao ano, de 2005 a 2030, resultado da
das e complexas asseguram maiores níveis de ren- produção de 3,8 milhões de barris por dia, com
da, e, com isso, amplia-se a demanda pelo uso de base no cenário apoiado em recentes descobertas

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.525-538, jan./mar. 2009 529
A transição da matriz energética mundial: ênfase nos recursos renováveis

de óleo e gás nas Bacias de Campos e San- Produtores da não OPEP Ásia projetam aumen-
tos. A produção norte-americana, ao contrário, tar sua produção de 7,2 milhões de barris por dia,
está projetada para diminuir em média 0,5% ao em 2005, para 8,6 milhões de barris por dia, em
ano, até 2030, em consequência da exaustão 2030. A China, maior produtor não OPEP, projeta
de atratividade no Canadá e da falta de capital atingir um consumo de quatro milhões de barris por
para o desenvolvimento nos campos do México, dia, em 2030. Por sua vez, a Índia projeta produ-
especialmente nas águas profundas do Golfo do zir aproximadamente 1,2 milhões de barris por dia.
México. O futuro da produção norte-americana Nesses dois países, esperam-se também aumen-
está na produção de fontes não convencionais tos na produção de biocombustíveis e carvão mi-
(EIA, 2008). neral. Estima-se que a produção de combustíveis
(Continua)

Tabela 2
Produção mundial de energia primária – 1980-2005
(Quadrilhões (10 15) Btu), 1980-2005
Tipo de energia/Grupo de países 1981 1984 1987 1990 1993 1996 1999 2002 2005
Petróleo (milhões de barris por dia)
Total mundial 125,479 122,604 127,424 136,216 136,184 145,322 150,216 153,821 169,277
OCDE 35,811 40,359 39,817 38,067 39,426 43,122 42,125 42,895 39,623
Não OCDE 89,668 82,245 87,607 98,149 96,759 102,200 108,090 110,926 129,655
Outros grupos
OCDE Europa 5,814 8,090 8,800 8,864 10,523 13,883 13,871 13,547 11,358
OPEC 49,901 39,297 42,021 52,721 57,256 61,285 63,887 62,233 74,071
União Europeia 5,220 7,008 7,053 5,590 5,818 7,458 7,645 6,994 5,553
IEA 30,398 33,889 33,766 31,891 32,942 36,267 35,150 35,348 31,674
Gas natural (trilhões cubic feet)
Total mundial 55,563 61,782 68,484 75,901 78,426 84,009 87,875 96,671 105,331
OCDE 31,160 29,636 29,449 31,462 34,201 38,076 38,752 41,434 39,881
Não OCDE 24,403 32,146 39,035 44,439 44,224 45,933 49,122 55,238 65,450
Outros grupos
OCDE Europa 7,228 7,071 7,425 7,195 8,370 10,258 10,129 10,923 11,019
OPEC 3,864 5,682 7,196 8,544 9,919 11,891 14,091 15,806 19,199
União Europeia 7,542 7,464 7,697 7,194 8,048 9,278 8,698 8,797 8,098
IEA 29,938 28,368 28,315 30,329 32,994 36,719 37,246 38,642 38,075
Carvão (milhões tons)
Total mundial 71,722 78,485 86,128 91,023 84,421 89,136 91,094 97,805 122,246
OCDE 38,794 40,117 42,963 43,411 38,360 40,435 41,099 40,784 41,554
Não OCDE 32,927 38,368 43,164 47,612 46,060 48,701 49,995 57,021 80,692
Outros grupos
OCDE Europa 16,287 15,357 16,662 14,481 11,346 10,221 9,176 8,311 7,786
OPEC 0,044 0,081 0,128 0,375 0,919 1,478 2,133 2,905 4,153
União Europeia 16,622 15,722 16,944 14,592 11,500 10,468 9,127 8,346 7,791
IEA 33,345 33,773 36,431 38,195 34,669 36,550 37,543 37,675 38,599
Energia hidroelétrica (bilhões kilowatthora)
Total mundial 18,259 20,190 20,899 22,353 23,939 25,792 26,548 26,417 28,997
OCDE 11,436 12,276 11,935 12,269 12,888 13,705 13,633 12,740 12,584
Não OCDE 6,823 7,914 8,964 10,084 11,051 12,087 12,915 13,677 16,413
Outros grupos
OCDE Europa 4,389 4,571 4,662 4,569 4,997 4,875 5,210 4,992 4,809
OPEC 0,291 0,347 0,484 0,573 0,743 0,791 0,846 0,883 1,115
União Europeia 3,069 3,138 3,148 2,865 3,229 3,295 3,449 3,175 3,013
IEA 11,083 11,945 11,637 11,929 12,524 13,271 13,173 12,342 12,172
Energia elétrica nuclear (bilhões kilowatthora)
Total mundial 8,527 12,995 17,644 20,357 22,008 24,110 25,088 26,681 27,473

530 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.525-538, jan./mar. 2009
Fábio da Silva Machado, Nícia Moreira da Silva Santos, Sheila Caetano Haak, Gilca Garcia de Oliveira, Vitor de Athayde Couto

(Conclusão)

Tabela 2
Produção mundial de energia primária – 1980-2005
(Quadrilhões (10 15) Btu), 1980-2005

Tipo de energia/Grupo de países 1981 1984 1987 1990 1993 1996 1999 2002 2005
OCDE 7,522 10,781 14,904 17,268 19,072 20,919 21,845 22,705 23,242
Não OCDE 1,006 2,214 2,740 3,088 2,936 3,192 3,243 3,976 4,231
Outros grupos
OCDE Europa 3,158 5,182 6,914 7,860 8,609 9,119 9,310 9,675 9,778
OPEC 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000
União Europeia 3,109 5,140 6,825 7,770 8,690 9,259 9,426 9,889 9,965
IEA 7,459 10,691 14,647 16,953 18,882 20,710 21,601 22,408 22,938
Energia geotérmica, solar, eólica, madeira e lixo
(bilhões kilowatthora)
Total mundial 0,510 0,771 0,989 1,696 2,011 2,267 2,773 3,434 4,285
OCDE 0,388 0,580 0,780 1,461 1,739 1,894 2,219 2,723 3,473
Não OCDE 0,122 0,191 0,208 0,235 0,271 0,374 0,554 0,711 0,813
Outros grupos
OCDE Europa 0,172 0,176 0,217 0,242 0,362 0,469 0,698 1,079 1,674
OPEC 0,000 0,004 0,015 0,023 0,022 0,047 0,078 0,125 0,132
União Europeia 0,164 0,168 0,205 0,226 0,346 0,443 0,654 1,029 1,612
IEA 0,361 0,540 0,680 1,349 1,614 1,769 2,073 2,571 3,249
Produção de biomassa, geotérmico e energia
solar não utilizada para geração de eletricidade
Total mundial 2,593 2,962 2,859 2,288 2,371 2,604 2,402 2,110 2,529
OCDE 2,593 2,962 2,859 2,288 2,371 2,604 2,402 2,110 2,529
Não OCDE 0 0 0 0 0 0 0 0 0
Outros grupos
OCDE Europa 0 0 0 0 0 0 0 0 0
OPEC 0 0 0 0 0 0 0 0 0
União Europeia 0 0 0 0 0 0 0 0 0
IEA 2,593 2,962 2,859 2,288 2,371 2,604 2,402 2,110 2,529
Total de energia primária
Total mundial 282,653 299,787 324,427 349,833 349,360 373,240 385,994 406,941 460,139
OCDE 127,704 136,710 142,708 146,226 148,057 160,755 162,075 165,391 162,886
Não OCDE 154,949 163,078 181,719 203,607 201,303 212,486 223,919 241,550 297,254
Outros grupos
OCDE Europa 37,048 40,449 44,680 43,211 44,207 48,826 48,395 48,527 46,424
OPEC 54,100 45,411 49,844 62,237 68,859 75,491 81,035 81,952 98,671
União Europeia 35,726 38,642 41,873 38,237 37,631 40,202 38,999 38,230 36,031
IEA 115,176 122,168 128,335 132,933 135,996 147,890 149,187 151,096 149,237
Fonte: Energy Information Administration - International Energy Annual, 2005.

não convencionais atingirá 0,2 milhões de barris a taxa de crescimento média anual deverá elevar-se
por dia, sendo 44% atribuí-dos ao carvão mineral para 4,3%. No Irã, a produção total será restringida
e 56% aos biocombustíveis. por fatores geopolíticos, até 2015. Esses fatores não
Dentre os países que compõem a OPEP, o maior estão apenas atrelados às questões de relações in-
crescimento da produção de combustíveis como o ternacionais, mas também a uma variedade de ou-
óleo cru, gás liquido e natural está projetado, no Qa- tros fatores ligados à efetividade operacional das
tar, com taxas anuais médias de 4,3%. No Iraque, companhias, para viabilizar investidores estrangei-
essa taxa deverá crescer substancialmente, em tor- ros e do governo em acordar termos contratuais.
no de 3,1% por ano. Segundo EIA (2008), os confli- Para a Venezuela, a produção de petróleo é con-
tos no Iraque serão resolvidos bem antes de 2030, traída pelos investidores sobre ações do governo que
viabilizando a demanda doméstica. De 2015 a 2030, nacionalizou o setor de hidrocarbono, como também

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A transição da matriz energética mundial: ênfase nos recursos renováveis

pelas possibilidades de alterações contratuais. A produ- para novas plantas de geração, por causa da sua efi-
ção chegará a 3,5 milhões de barris por dia, em 2030. ciência. Segundo projeções do EIA 2008, a geração
Isso representa projeções extremamente pessimistas de eletricidade contará com 35% do total de consumo
que contrariariam as promessas assumidas de uma do gás natural, em 2030. O crescimento da demanda
produção de 5,5 milhões de barris por dia, em 2020. pelo gás natural está projetado para ocorrer nos paí-
Considerando-se o cená- ses fora do âmbito da OCDE.
rio de alta de preços para o No setor de energia elétrica, o gás Nos EUA e países que
petróleo, prospecta-se o de- natural é uma escolha atrativa para compõe a não OCDE Ásia,
senvolvimento de fontes não novas plantas de geração, por causa fatores como a oferta ampla
convencionais. Essas fontes, da sua eficiência das fontes de carvão, e pre-
que incluem pré-sal, óleo ex- ços mais altos do óleo e do
trapesado, biocombustíveis, carvão e gás natural, se- gás natural, estimulam o emprego do carvão, no-
rão produzidas em países membros da OPEP e não tadamente por ser uma fonte mais econômica de
OPEP. A produção dessas fontes aumentará de 2,5 energia para a geração de eletricidade.
milhões de barris por dia, em 2005, para 9,7 milhões, Projeta-se que nos próximos 20 anos a gera-
em 2030, passando a representar 9% da oferta mun- ção de eletricidade mundial chegará a 33,3 trilhões
dial. Biocombustíveis, incluindo o etanol e o biodiesel, KW/h, quase o dobro em relação ao ano de 2005
tornar-se-ão importante fonte de oferta de combus- (17,3 trilhões KW/h). A mais forte projeção refere-se
tíveis não convencionais. A crescente produção de aos países da não OCDE, onde a eletricidade cres-
biocombustíveis nos EUA alcançará, em 2030, 1,2 mi- ce aproximadamente 4% ao ano, dado o aumento do
lhões de barris por dia, ou seja, metade da produção padrão de vida, aumento da demanda por equipa-
de biocombustíveis mundial no período previsto. mentos domésticos e a expansão dos serviços co-
Fora da OPEP, a produção dos líquidos não conven- merciais, incluindo hospitais, escritórios imobiliários
cionais vem de vários grupos de países e tipos de fon- e shoppings. Na OCDE espera-se um crescimento
tes. Ao todo, a produção de líquidos não convencionais tímido, de 1,35%, entre 2005 a 2030. Estima-se que
está projetada para aumentar mais que 6,4 milhões de quase 32% da população nos países não OCDE (ex-
barris por dia, até 2030, sendo 72,4% oriundos de pa- cluídos os da Europa e Eurásia) ainda não têm aces-
íses da OCDE. Para 2030, espera-se que betume e so a eletricidade (quase 1,6 bilhão de pessoas).
biocombustíveis venham a ter, em volume, maior par- Quanto à geração de eletricidade à base de ener-
ticipação dos países não OPEP, com produção de 3,1 gia nuclear, projeta-se um aumento da ordem de 2,6
e 2,2 milhões de barris por dia, respectivamente. Os trilhões KW/h, em 2005, a 3,8 trilhões KW/h, em 2030.
maiores aumentos na produção de combustíveis não As altas dos preços sobre os combustíveis fósseis,
convencionais estão projetados para os EUA (um mi- segurança energética e emissões de gás sustentam
lhão de barris por dia) e Brasil (0,5 milhão de barris por o desenvolvimento da geração da energia nuclear. O
dia). Aumentos de 60 mil barris por dia são previstos alto capital inicial e os custos elevados de manuten-
para África do Sul, China, Índia e Argentina. ção são fatores que ainda mantêm alguns países lon-
Na África, quase 70% da produção não convencio- ge da expansão dos programas de energia nuclear.
nal originam-se de apenas quatro países: Egito (28%), De acordo com EIA (2008), a geração de eletri-
Guiné Equatorial (16%), Sudão (15%) e Congo (10%). cidade nuclear instalada crescerá de 374 GW, em
Gás natural e carvão estão crescendo como fon- 2005, para 408 GW em 2030. O declínio da capa-
tes para a geração de eletricidade. O gás natural par- cidade de geração da energia nuclear é projetado
ticipou, em 2005, com 20%, e se espera que atinja somente para OCDE Europa, pois países como Ale-
25%, em 2030. Em 2005, o carvão representava 41%, manha e Bélgica têm eliminado a energia nuclear.
projetando-se, para 2030, uma participação de 46%. Os maiores projetos, nesse segmento energético,
Esses valores representam taxas de crescimento estão na não OCDE Ásia. Além disso, vários países
anual de 3,1% e 3,7%, respectivamente. No setor de da OCDE estão aderindo aos programas nucleares,
energia elétrica, o gás natural é uma escolha atrativa como é o caso da Coreia do Sul, Japão, Canadá. Nos

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EUA, o governo estabeleceu regras, em 2006, sobre ção, incluindo subsídios e recursos para investimen-
crédito em impostos para novas plantas nucleares in- tos em capital, e prêmio em preços para a geração
cluídas na política energética de 2005. de fontes renováveis.
O uso de energia hidroelétrica e de outras fontes
renováveis continua se expandindo, prevendo-se au-
mentos médios do consumo de 2,1% ao ano, até 2030. PRINCIPAIS FATORES RELACIONADOS À
O crescimento dos níveis de preços do gás natural para TRANSIÇÃO ENERGÉTICA
a geração de energia tem propiciado políticas governa-
mentais e programas de apoio em energias renováveis, Os principais fatores relacionados à transição energé-
o que permite competir economicamente. Espera-se tica observada atualmente são: a expansão da demanda
crescimento no setor hidroenergético para Canadá e mundial por energia; a elevação dos preços mundiais da
Turquia, países ligados à OCDE. Contudo, para os de- principal fonte primária; e a questão ambiental.
mais países dessa organização, espera-se crescimento Analisando-se a expansão da demanda mundial
através de outras fontes como: eólica, solar, geotérmi- por energia, com base na análise dos dados do Re-
ca, resíduos sólidos municipais e biomassa. latório anual da Agência de Informação Energética
Obrigado a reduzir a emissão de gases, a par- dos EUA de 2008, verifica-se previsão de expan-
tir do Protocolo de Kyoto, a OCDE Europa mantém são em 50% do consumo de energia mundial en-
como chave o mercado da energia eólica, contando tre 2005 e 2030 (Tabela 3). Prevê-se tal aumento,
com capacidade de 8.554 MW. Atualmente, estão notadamente, através do crescimento econômico
na Europa sete das dez maiores plantas eólicas do sólido das nações e da expansão das populações
mundo, que contabilizam 60% da capacidade glo- dos países em desenvolvimento. Para os países da
bal instalada. Nos EUA a capacidade de energia OCDE, grandes consumidores de energia, têm-se
eólica é de 38%, apoiada por incentivos fiscais. O a expectativa de crescimento de consumo à taxa
mercado de energia eólica tem também crescido na média anual de 0,7%.
não OCDE Ásia, como na China, que gera mais que No caso das economias emergentes (não OCDE),
3.400 MW, e Índia. A União Europeia possui metas projeta-se uma elevação de 2,5% na demanda ener-
de crescimento de energia renovável em torno de gética, motivada principalmente pelas perspectivas
20%, até 2020, notadamente a partir do regulamento de rápido crescimento da China e Índia. Isso ocorre
compulsório para os biocombustíveis. Muitos países uma vez que, ao longo das últimas décadas, essas
membros da OCDE oferecem incentivos de produ- economias influenciaram fortemente o emprego

Tabela 3
Previsão do consumo energético em kW – 2000-2030
Média anual
Variação
percentual
Região 2000 2005 2010 2020 2025 2030 2005-2030
OECD 240.9 249.7 260.5 269.0 277.6 285.9 0.7
América do Norte 121.3 126.4 132.3 137.8 143.4 148.9 0.8
Europa 81.4 83.9 86.8 88.5 9.4 92.0 0.5
Ásia 38.2 39.3 41.4 42.7 43.7 44.9 0.7
Não-OECD 221.3 262.8 302.5 339.4 374.2 408.8 2.5
Europa e Eurasia 50.7 55.1 59.5 63.3 66. 69.1 1.2
Ásia 109.9 137.1 164.2 189.4 215.3 240.8 3.2
Oriente Médio 22.9 26.4 29.5 32.6 34.7 36.8 1.9
África 14.4 16.5 18.9 20.9 22.5 23.9 2.0
América central e do Sul 23.4 27.7 30.5 33.2 35.7 38.3 2.0
Total Mundo 462.2 512.5 563.0 608.4 651.8 694.7 1.6

Fonte: Energy Information Administration - International Energy Annual, 2005.

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A transição da matriz energética mundial: ênfase nos recursos renováveis

energético. Em 1980, China e Índia representavam Pode-se analisar ainda a relevância do cres-
menos de 8% do consumo de energia mundial, con- cimento econômico das nações emergentes com
tudo, em 2005, sua participação aumentou para respeito às perspectivas de consumo de ener-
18%. Estima-se ainda que tais nações concentrem gia. Isso ocorre uma vez que se verificam acrés-
cerca de ¼ desse consumo em 2030, enquanto pa- cimos no PIB de 5,2% anuais para os países que
íses da União Europeia reduzirão sua quota de 22% não compõe a OCDE, em contraste com os filiados
para 17% no mesmo período. à instituição, cujos acréscimos situam-se em torno
Para as demais regiões não pertencentes à de apenas 2,3%. As reformas geradas nos países
OCDE, espera-se uma variação relevante, entre não OCDE, tais como políticas macroeconômicas, li-
2005 e 2030, com aumentos de até 60% para o beralização comercial, flexibilização nos regimes de
Oriente Médio, África, América Central e do Sul. taxas cambiais, déficits fiscais mais baixos, diminui-
Verifica-se também acréscimo de 36% para Eu- ção das taxas de juros, redução das incertezas, am-
ropa e Eurásia (incluindo Rússia e outras antigas pliação dos investimentos, consecução de reformas
repúblicas soviéticas), decorrente de ganhos em macroeconômicas via privatizações, além da criação
eficiência energética. de um sistema de regulações, tudo isso tem propi-
Muitos são os fatores que influenciam o aumen- ciado níveis de crescimento recordes em algumas
to da demanda energética. Dentre esses, ressal- economias, notadamente na China e Índia.
tam: crescimento da população mundial, elevação Dessa maneira, com o significativo crescimento
do produto global, desenvolvimento das economias da renda per capita em tais países ocorrerão, conse-
emergentes e a consequente melhoria das suas quentemente, ampliações na demanda por energia,
condições socioeconômicas. sobretudo para o setor de transportes. Estima-se que
No que tange à relação entre o crescimento po- nos próximos anos a demanda mundial por combus-
pulacional e o consumo de energia nos últimos 150 tíveis líquidos e outros derivados do petróleo aumen-
anos, apresentada pela Figura 1, podem-se tecer tem mais rapidamente no setor de transportes do que
algumas considerações, segundo Alves (2005): em qualquer outro setor de uso final. O transporte
i) crescimento da população mundial, de 5,35 compartilha o crescimento de consumo em aproxi-
vezes; madamente 52%, em 2005. Cabe ressaltar que nas
ii) ampliação do consumo per capita de energia nações não OCDE o uso da energia em transporte
primária, de 2,81 vezes; cresce a taxas médias de 2,9% ao ano (IEA, 2008).
iii) redução no consumo per capita após as duas Nesse ínterim, destaca-se a influência positiva
crises do petróleo, de 1973 e 1979. das condições socioeconômicas sobre o consumo
Estima-se que quanto maior o crescimento da energético. Conforme informações World Deve-
população mundial, maior será a demanda por lopment Indicators (WDI), em 2004, nações com
energia, e maiores terão de ser os esforços para Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) médio,
ampliar a oferta das diversas fontes energéticas. ou seja, entre 0.5 e 0.8, consomem entre 0.14 e
5 tep2 per capita. Outras nações, cujos IDH são
baixos, demandam de 0.2 a 0.8 tep per capita.
Nações com IDHs superiores, por sua vez, con-
somem acima de 1 tep per capita. Com isso, as
melhorias nas condições de vida das populações
mundiais irão resultar numa elevação do consumo
de energia. A elevação da demanda energética da
China, por exemplo, pode ser explicada em parte
pelos avanços na qualidade de vida de sua popu-
Figura 1
Evolução da população mundial e de seu lação nos últimos anos.
consumo de energia – 1850/2000
Fonte: Alves (2005). 2
Significa tonelada equivalente de petróleo.

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A conduta social também influencia o consumo A alta nos preços, tanto do petróleo quanto de seus
energético, através da utilização de eletrodomésticos, principais derivados, como gás natural e óleos combustí-
de meios de transporte individuais e do crescimento veis, faz com que a maioria das nações mantenha seus
da indústria. Considerando-se a expectativa de cresci- níveis de consumo atuais ou até reduza esses níveis.
mento econômico dos países emergentes, como Brasil, Nessa conjuntura, o desenvolvimento de tecnologias e
Índia, China, Rússia e México, a produção de fontes não con-
e a consequente ampliação do Segundo dados da ANP, as vencionais, como as renová-
bem-estar das suas populações, reservas mundiais de petróleo veis, mostra-se atrativa. Alguns
pode-se prever uma expressiva atualmente somam 1.147,80 bilhões países vêm implementando
elevação na demanda energé- de barris, enquanto seu consumo políticas governamentais com
tica. Todavia, resta uma indaga- anualmente é estimado em 84 incentivos ao uso de fontes re-
ção: diante de tais perspectivas, milhões de barris/dia. Caso novas nováveis, mesmo quando elas
as reservas petrolíferas existen- reservas não sejam descobertas, ainda não são competitivas eco-
tes conseguirão satisfazer esse é possível que esse combustível nomicamente em comparação
crescimento mundial de consu- fóssil se esgote em meados do com os combustíveis fósseis.
mo de energia? século XXI As fontes energéticas não
As atuais reservas petrolí- renováveis, notadamente pe-
feras encontram-se concentradas geograficamente, tróleo (e derivados) e carvão mineral, são caracteri-
sendo que a maior parte encontra-se no Oriente Mé- zadas pelas altas emissões de dióxido carbono na
dio. Segundo dados da ANP, as reservas mundiais atmosfera. Neste cenário, os países de alta renda
de petróleo atualmente somam 1.147,80 bilhões de respondem pela maior parte dessas emissões. Em
barris, enquanto seu consumo anualmente é estima- 2000, tais países, que representam apenas 16% da
do em 84 milhões de barris/dia. Caso novas reservas população mundial, foram responsáveis por cerca
não sejam descobertas, é possível que esse com- de 50% da emissão total de CO2.
bustível fóssil se esgote em meados do século XXI. Assim, a questão ambiental constitui-se num elemen-
Acrescente-se ainda que, com a tendência de di- to essencial para a ampliação do emprego de fontes re-
minuição de 4% a 6% ao ano da produção petrolífera nováveis. Desde as primeiras discussões referentes aos
global (84 milhões de barris ao dia) e com a crescen- impactos do desenvolvimento sobre o meio ambiente,
te ascensão da procura pelo bem (cerca de 2% a 3% realizadas pela ONU, até a consecução do Protocolo de
anualmente), o cenário das reservas de produção Kyoto, a conscientização em relação às consequências
poderá agravar-se. Tem-se ainda que o excesso de devastadoras da poluição atmosférica – como o efeito
capacidade dos países da OPEP vem diminuindo. estufa e aquecimento global3 – se intensificou.
Outro fator pertinente à transição energética refe- Como resposta a tal conscientização, o Protoco-
re-se à abrupta elevação dos preços de petróleo e lo de Kyoto foi assinado, em 1997, por líderes de
seus derivados nos últimos anos. Prova disso é que 84 nações. A partir desse acordo, foi instituído o
os preços, em 2007, praticamente duplicaram se com- Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, oferecen-
parados aos valores em 2003 (em termos reais). Em do grandes oportunidades para a implantação de
meados de julho de 2008, o preço do barril do petróleo tecnologias limpas de produção de energia, com
atingiu US$147, bem acima do nível de preço histó- recursos oriundos de países desenvolvidos, e para
rico ajustado pela inflação aplicada em 1980. Dentre a utilização de combustíveis renováveis. A principal
os principais determinantes da elevação desses pre- norma do Protocolo é a redução da emissão total de
ços, desde 2003, enumeram-se: o forte crescimento gases formadores do efeito estufa em pelo menos
da demanda nos países não OCDE da Ásia e Oriente 5%, em relação aos níveis de 1990, no período entre
Médio; o não crescimento da produção de membros 2008 e 2012. Entretanto, tal meta é distribuída de
da OPEP, entre 2005 e 2007; o aumento dos custos
No Painel Intergovernamental em Mudança Climática (IPCC), da ONU, foi indicado
3

para exploração dos óleos, a elevação nos preços um aumento da temperatura entre 0,3º C e 0,6º C no século XX, dado como
responsável pelo desaparecimento de um percentual de cerca de 8% da capa de gelo
das commodities e o enfraquecimento do dólar. ártico nos últimos 30 anos.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.525-538, jan./mar. 2009 535
A transição da matriz energética mundial: ênfase nos recursos renováveis

forma desigual entre as nações, cabendo 8% para elevada capacidade produtiva de biocombustíveis
a União Europeia, 7% para os EUA e 6% para o Ja- e energia hidroelétrica.
pão. Para países em desenvolvimento não foram Falando inicialmente da realidade hidroelétrica,
atribuídas metas (ALVES, 2005). cumpre destacar que, segundo dados do Ministério
das Minas e Energia, a exploração da capacidade
hídrica brasileira atinge apenas 27% do seu poten-
O CASO BRASILEIRO
cial. Dentre as razões da preferência por hidrelétri-
cas, e até manutenção do percentual de geração
Analisando-se a evolução da matriz energética
energética na matriz nacional, podem-se citar:
brasileira, apesar da supremacia das fontes não-re-
nováveis (com destaque para o petróleo), destaca-se • Menor custo por kW produzido (R$ 1,5 mil por
maior participação das fontes renováveis em compa- kW instalado);
ração com os dados representativos da matriz mun- • Menor risco cambial – diferente do gás natural,
dial. Isso pode ser verificado na Tabela 4. Inicialmente por exemplo, que é cotado em dólar;
observa-se um movimento de maior inserção das fon- • Cumpre a desejabilidade de energia limpa;
tes renováveis na matriz nacional, saindo de uma par-
• Elevado potencial empresarial brasileiro na
ticipação de 41%, em 2000, para 45,85, em 2009. No
sua construção.
sentido oposto, a participação das fontes não-renová-
Entre os fatores explicativos para o reduzido
veis cai de 59%, em 2000, para 54,2%, em 2007.
aproveitamento dessa fonte energética em face do
É possível admitir nesse momento que o Brasil
potencial existente, os mais importantes são:
segue a tendência mundial de maior inserção das
fontes energéticas renováveis na sua matriz. As • Elevado índice de conflitos com órgãos gover-
mesmas razões explicitadas para justificar a reali- namentais;
dade mundial podem estar associadas à realidade • Maior volume de investimento inicial, exigindo
brasileira, acrescentando-se que o mercado interno maior prazo de maturação do projeto;
nacional cresce mais rapidamente do que a maio- • Maior distância dos centros consumidores de
ria dos demais países, exigindo, portanto, de forma energia, exigindo altos investimentos na ex-
mais urgente, soluções energéticas alternativas. Só pansão do transporte.
a título de comparação e voltando a analisar a Ta- O que se pode concluir sobre a participação das
bela 1, mais de 45% de toda a energia consumida hidroelétricas na matriz energética nacional é que
no Brasil provêm de fontes renováveis, enquanto esta fonte não evoluiu na mesma proporção que
nos países desenvolvidos essa média é de 10%. outras fontes renováveis como o biodiesel, bioe-
Aliado a isso, cabe salientar que o país possui tanol, biomassa etc. Os biocombustíveis, fonte de

Tabela 4
Evolução da matriz energética brasileira – 1970-2007
Fonte 1970 1980 1990 2000 2005 2006 2007
Não-renovável 41,6 54,4 50,9 59,0 55,5 55,0 54,2
Petróleo 37,7 48,3 40,7 45,5 38,7 37,8 37,4
Gás natural 0,3 1,0 3,1 5,4 9,4 9,6 9,3
Carvão mineral 3,6 5,1 6,8 7,1 6,3 6,0 6,0
Urânio 0 0 0,4 0,9 1,2 1,6 1,4
Renovável 58,4 45,6 49,1 41 44,5 45,0 45,8
Hidroeletricidade 5,1 9,6 14,1 15,7 14,8 14,8 14,9
Lenha/Carvão vegetal 47,6 27,1 20,1 12,1 13,0 12,7 12,0
Cana-de-açúcar 5,4 8,0 13,4 10,9 13,8 14,5 15,7
Outras 0,3 0,9 1,5 2,3 2,9 3,0 3,2

Fonte: MME, 2008.

536 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.525-538, jan./mar. 2009
Fábio da Silva Machado, Nícia Moreira da Silva Santos, Sheila Caetano Haak, Gilca Garcia de Oliveira, Vitor de Athayde Couto

energia renovável derivada de materiais agríco- • Ainda segundo o Cepea, a maior tecnificação e
las, como plantas oleaginosas, biomassa florestal, intensificação da exploração agropecuária pro-
cana-de-açúcar etc., acaba ganhando espaço na moveu aumento em 18,38 milhões de cabeças de
realidade mundial, e o Brasil vem tentando obter gado nesse período. Há subaproveitamento nas
vantagens nesse contexto. áreas de pastagens. Portanto, é possível e com-
Diversas são as ações go- provado que se pode aumentar
vernamentais que reforçam a Adicionalmente, não se deve deixar a produção agropecuária simul-
intenção brasileira de apro- de levar em consideração dois taneamente à produção de bio-
outros importantes argumentos combustíveis.
veitar o seu potencial bioener-
a favor dos biocombustíveis que
gético. Adições obrigatórias e • O governo vem dialogan-
são sua capacidade de evitar
voluntárias do biodiesel ao do com os produtores vi-
emissões de CO2, e, portanto,
óleo diesel, zoneamentos combater o aquecimento global, e sando inibir a prática das
agrícolas, participações em estimular o crescimento de regiões queimadas.
fóruns e convenções interna- mais pobres, contribuindo para • O governo está intensi-
cionais são alguns exemplos. minimizar as desigualdades ficando a fiscalização e es-
Independentemente de essa timulando os produtores a
participação do governo ter ou não ter contribuído regularizar a mão de obra na lavoura.
para a expansão dos biocombustíveis na matriz Ainda com relação aos itens 1 e 2, e observando-
energética, o fato é que, quando se discute o caso se a Tabela 5, é possível verificar o potencial de pro-
brasileiro e sua trajetória de inserção dos biocom- dução adicional em alimentos e energia. O Brasil é
bustíveis na matriz energética nacional, percebe-se hoje considerado o país com maior potencial de ter-
a magnitude das pressões externas contra essa ló- ras disponíveis para a produção agrícola. De acor-
gica. Particularmente os setores de petróleo e de do com dados da Organização das Nações Unidas
alimentos são os principais opositores. O primeiro para Agricultura e Alimentação (FAO), o país conta
considera a evolução dessa fonte energética como com 330,8 milhões de hectares, seguido pela Rús-
a principal ameaça à sua lucrativa existência, e o sia e Estados Unidos com 164,7 e 158,5 milhões de
segundo teme – e já começa a sentir – a elevação hectares, respectivamente.
dos seus custos de produção decorrente dos au- Adicionalmente, não se deve deixar de levar em
mentos dos preços dos grãos. consideração dois outros importantes argumentos a
O discurso internacional contra o biocombustível favor dos biocombustíveis que são sua capacidade
brasileiro é pautado nas seguintes considerações: de evitar emissões de CO2, e, portanto, combater o
• Potencializa o desmatamento; aquecimento global, e estimular o crescimento de
• Promove a redução da oferta de alimentos; regiões mais pobres, contribuindo para minimizar
• Elevado índice de queimadas no cultivo da cana; as desigualdades. Dos biocombustíveis em análise,
• Condições precárias de trabalho.
Contra esse discurso, as respostas das autorida- Tabela 5
Distribuição das terras brasileiras – 2008
des brasileiras ocorrem da seguinte forma:
Usos Milhões/hectares %
• A expansão (especialmente da cana) se dá so-
Pastagens e campos naturais 172 20,21
bre áreas de pastagens e agrícolas pouco ex-
Lavouras temporárias 55 6,46
ploradas. De acordo com o Instituto Brasileiro Lavouras permanentes 17 2,00
de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto Florestas cultivadas 5 0,59
Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e o Unidades de conservação 176 20,68
Centro de Estudos Avançados em Economia Áreas indígenas 107 12,57
Aplicada (Cepea), 77% da expansão da cana Áreas de assentamentos 77 9,05
entre 2002 e 2006 ocorreram sobre pastagens, Áreas devolutas 171 20,09

12% sobre a área de lavouras e os 11% restan- Áreas inexploradas e disponíveis 71 8,34

tes representaram a inclusão de novas áreas. Fonte: IBGE, 2008.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.525-538, jan./mar. 2009 537
A transição da matriz energética mundial: ênfase nos recursos renováveis

destaca-se o etanol da cana, que encontra, no Bra- fonte energética, o biodiesel, e principalmente o
sil, o maior produtor e exportador do planeta. Se- bioetanol, mantém sua trajetória ascendente de in-
gundo dados do Ministério das Minas e Energia, o serção na matriz energética brasileira.
uso do bioetanol significou, no período de 1970 a Para concluir, cabe destacar que o Brasil man-
2005, a não emissão de 644 milhões de toneladas tém forte e histórica presença de fontes renováveis
de CO2. Essa foi, sem dúvida, a fonte renovável que na sua matriz energética, em relação ao resto do
apresentou maior crescimento no Brasil, passando mundo. O seu grau de evolução revela uma par-
de uma participação de 10,9% na matriz nacional, ticipação cada vez mais efetiva com o passar dos
em 2000, para 15,7%, em 2007. anos, principalmente em decorrência da disponibili-
dade natural e capacidade técnica para transforma-
CONSIDERAÇÕES FINAIS ção de materiais biológicos em energia.

As análises e previsões levantadas neste artigo


REFERÊNCIAS
permitiram ilustrar uma série de possibilidades e in-
ALVES, Rex Nazaré. A evolução da matriz energética brasileira
certezas relativas ao debate energético que estão
- alternativas para 2022. Comunicação & política, . v. 23, n. 3,
intrinsecamente ligadas às questões políticas e ao de- set./dez. 2005
senvolvimento tecnológico, assim como aos níveis de
BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Dados estatísticos.
preços e ao crescimento das economias mundiais. Brasília, 2008. Disponível em: <http://www.mme.gov.br>. Acesso
No plano mundial, os combustíveis líquidos são em: 30 nov. 2008.

a fonte de energia que cresce mais lentamente, en- CASTRO, Gleide. Sem nenhum problema de espaço, avanços
quanto as fontes renováveis e o carvão mineral são na agroenergia. Revista Valor Especial/Biocombustíveis. 2008.

as que mais se elevam. Comparativamente, os cus- IBGE. Dados estatísticos. Rio de Janeiro, 2008. Disponível em:
<http://www.ibge.gov.br>. Acesso em: 30 nov. 2008.
tos do carvão são mais baixos que os custos dos
combustíveis líquidos e o gás natural, o que permi- EIA - Energy Information Administration, International Energy
Annual. 2008. Disponível em:
te que essa fonte ainda seja uma melhor escolha
<http://www.eia.doe.gov>. Acesso em: 30 nov. 2008.
econômica. Dados os fatores como alta de preços
INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (Brasil).
dos combustíveis fósseis, elevação do consumo dos Dados estatísticos. São José dos Campos, 2008. Disponível em:
combustíveis, discussões quanto aos impactos am- <http://www.inpe.br>. Acesso em: 30 nov. 2008.
bientais e incertezas em relação às reservas energé- VEIGA, Lauro Filho. A estratégia brasileira em defesa do etanol
ticas disponíveis, tem-se a perspectiva de aumentos de cana. Revista Valor Especial/Biocombustíveis. 2008.
e incentivos para o consumo e produção das fontes VIEIRA, Maria Cândida. Sintonia entre ambiente e segurança
de energia renováveis. alimentar. Revista Valor Especial/Biocombustíveis. 2008.
A partir dessas considerações, compreende-se
mais fielmente a trajetória da inserção das fontes
energéticas renováveis na matriz energética bra-
sileira. Apesar do potencial natural brasileiro e do
know-how das empresas nacionais, o aproveitamen-
to hidrelétrico mantém sua participação praticamen-
te inalterada, em razão, principalmente, do elevado
custo inicial dos projetos e das barreiras impostas
pelas autoridades ambientais.
A utilização da lenha/carvão vegetal, que teve
sua maior representatividade até a década de
1970, vem, sistematicamente, cedendo espaço
para outras alternativas, em especial os biocom-
bustíveis. Apesar da resistência dos principais paí-
ses desenvolvidos em admitir a importância dessa

538 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.525-538, jan./mar. 2009
Luiz Antônio dos Santos Dias, Robson Fernando Missio, Rita da Mata Ribeiro, Ricardo Galvão de Freitas Pedro Fernandes dos Santos Dias

Bahia
análise & Dados

Agrocombustíveis: perspectivas futuras


A
Luiz Antônio dos Santos Dias
B
Robson Fernando Missio
C
Rita da Mata Ribeiro
D
Ricardo Galvão de Freitas
E
Pedro Fernandes dos Santos Dias

Resumo Abstract

O mundo experimentou um extraordinário avanço no século The world experienced an extraordinary advance in the
XX. Fogo, agricultura e máquina a vapor foram algumas das des- 20th century. Fire, agriculture and the steam engine were
cobertas anteriores responsáveis por esse avanço. Naquele sécu- some of the previous discoveries responsible for this advance.
lo, a população quadruplicou, impulsionada pela transformação de The population quadrupled in that century, driven by the large
recursos naturais em grande escala e tendo como vetor de desen- scale transformation of natural resources and with oil as
volvimento o petróleo – combustível fóssil e finito fornecido irregu- the development vector: a fossil and finite fuel with irregular
larmente e a preços voláteis. Os combustíveis fósseis respondem supplies and volatile prices. Fossil fuels are responsible for
por 80% das emissões de gases de efeito estufa causadores das 80% of greenhouse gas emissions, causing global climatic
mudanças climáticas globais. Os governos, pressionados pelas changes. Governments, pressured by the chaotic projections
projeções caóticas de tais mudanças, buscam fontes energéticas of such changes, are looking for alternative energy sources
alternativas como eólica, nuclear e biomassa (agroenergia). Cada such as eolic, nuclear and biomass (agro-energy). Each
país terá sua matriz energética com configuração particular, ainda country will have its energy matrix with a special configuration,
que todas privilegiem as fontes limpas, renováveis e sustentáveis. even if they all favour clean, renewable and sustainable
Os agrocombustíveis, notadamente etanol e biodiesel, desempe- sources. Agrofuels, especially ethanol and biodiesel, will play
nharão papel de destaque. a distinctive role.

Palavras-chave: Agrocombustíveis. Etanol. Biodiesel. Mu- Keywords: Agrofuels. Ethanol. Biodiesel. Global climatic
danças climáticas globais. Agroenergia. changes. Agro-energy.

INTRODUÇÃO e trens de alta velocidade. A qualidade e a expecta-


tiva de vida deram saltos com o avanço da medicina
O século XX foi, certamente, o mais extraordi-
preventiva e curativa, por meio da informação, das
nário da história da humanidade. Nele se assistiu à
vacinas e dos novos medicamentos. A produção de
revolução dos meios de comunicação virtuais, como
alimentos superou todas as expectativas e se mos-
o surgimento do rádio, da televisão, do computador,
trou suficiente para abastecer a população mundial.
da internet e do telefone pessoal. Os meios de trans-
Convém ressaltar que embora a fome no planeta ain-
porte estreitaram o contato físico entre pessoas dos
da seja um flagelo, ela decorre da questão política de
cinco continentes através de estradas, aviões, navios
má distribuição da produção e inacessibilidade das
populações carentes aos alimentos, mais do que da
Doutor e mestre em Genética e Melhoramento de Plantas pela Universidade de
escassez deles. De todo modo, com tantos aspec-
A

São Paulo (USP); professor de Agroenergia e Estatística da Universidade Federal de


Viçosa (UFV). lasdias@ufv.br
tos favoráveis, a população sentiu-se encorajada a
B
Pós-doutorando em Fitotecnia e doutor em Genética e Melhoramento pela
Universidade Federal de Viçosa (UFV). rfmissio@yahoo.com.br crescer e o fez de modo avassalador. Em 1900, a
C
Mestranda em Fitotecnia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), graduada em
Agronomia e em Licenciatura em Biologia pela Universidade do Tocantins (Unitins). população mundial era de 1,6 bilhão de pessoas, 2,5
rita_damata@hotmail.com
D
Mestranda em Fitotecnia pela e graduada em Agronomia pela Universidade Federal
bilhões em 1950 e 6 bilhões em 2000. Atualmente
de Viçosa (UFV). ricardogalvaoagro@yahoo.com.br está estimada em 6,7 bilhões de pessoas (USCB,
E
Graduando de Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).
pedro. producao@gmail.com 2008), com 13% delas vivendo na miséria.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.539-547, jan./mar. 2009 539
Agrocombustíveis: perspectivas futuras

Mais progresso e mais pessoas geram demandas máquina viabilizou a revolução industrial inicialmente
crescentes de recursos naturais e energéticos. Essa re- na Inglaterra e, posteriormente, no mundo todo. Den-
lação fica cíclica e a equação resultante não fecha, em tre os benefícios proporcionados por ela estão a pro-
face do caráter finito de tais recursos. A humanidade já dução em escala de bens de toda ordem e a criação
deveria ter aprendido que não pode crescer em esca- de um mercado consumidor com inclusão de popu-
la exponencial, toda vez que acredita deter o domínio lações carentes. Cabe registrar que a revolução in-
dos meios de produção. A história registra que grandes dustrial, originalmente urbana, se estendeu ao campo
civilizações como a Suméria, a Romana e a Maia, por e patrocinou uma revolução nos meios de produção
exemplo, floresceram esbanjando recursos naturais e agrícola. Mais e melhores alimentos passaram a ser
declinaram em virtude do esgotamento deles, vitimados produzidos em áreas cada vez menores, com ganhos
por seu próprio sucesso (WRIGHT, 2007). Pelo visto, substanciais de produtividade. Países tidos como do
esta lição ainda não foi aprendida. Em suma, por mais terceiro mundo, a exemplo de Argentina e Brasil, sou-
extraordinário que tenha sido o século XX, ele é apenas beram, como poucos, apropriar-se dos benefícios pro-
o somatório de todo o arcabouço de conhecimentos e porcionados pela combinação dos dois últimos saltos;
habilidades construído em séculos anteriores e que se- desenvolveram e consolidaram uma agricultura efi-
rão a seguir destacados como saltos revolucionários. ciente, baseada na mecanização intensiva e na alta
tecnologia. Em nenhum outro país a agricultura avan-
çou tanto como no Brasil. Entre 1976 e 2007, as prin-
SALTOS REVOLUCIONÁRIOS
cipais espécies produtoras de grãos, 14 ao todo, mais
Grandes descobertas passadas permitiram a ex- que dobraram a produtividade média (Figura 1). Nos
traordinária revolução ocorrida no século XX, ainda últimos 30 anos, a área plantada com grãos no país
que não haja consenso sobre quantas e quais foram cresceu 27%, enquanto a produtividade aumentou
essas descobertas. Aqui serão destacadas três, as- 124%. Este expressivo incremento de produtividade,
sumidas como da maior importância. O fogo, a pri- fruto de muita tecnologia, ocorreu paralelamente ao
meira delas, foi descoberto há aproximadamente incremento da produção de etanol no mesmo período,
500 mil anos e possibilitou a extensão do período prova inequívoca de que a produção de agrocombus-
luminoso. O fogo ampliou o dia para caça, pesca tíveis não concorreu com a produção de alimentos.
e coleta de frutos, trouxe maior conforto térmico Aliás, a produção de tortas no processamento de
durante o inverno e habilitou a espécie humana a biodiesel tende a aumentar a oferta de farelos para
comer carne assada. Além disso, permitiu aos indí- alimentação animal (aves, suínos e bovinos). Convém
genas a rápida eliminação da vegetação nativa para ressaltar, todavia, que a mecanização intensiva da
instalação de cultivos de subsistência. agricultura brasileira se fez a partir de máquinas de
O segundo grande salto revolucionário operado alto consumo de derivados de petróleo, a chamada
pela humanidade foi o surgimento da agricultura, há energia fóssil.
13 mil anos (ALLARD, 1999). A agricultura alterou
o regime de vida do homem, que passou de nôma-
de a sedentário. Produzindo seu próprio alimento,
o homem tornou-se independente da sazonalidade
da caça, da pesca e das safras de frutas. Com a
agricultura, o homem assumiu o controle sobre a
produção de alimentos, se permitindo inclusive co-
lheitas excedentes para estocagem e consumo de
alimentos na entressafra. Em verdade, foi o domí-
nio da agricultura que avalizou o crescimento verti- Figura 1
ginoso da população do planeta. Área plantada e produtividade das principais
A descoberta da máquina a vapor há 250 anos foi, culturas produtoras de grãos no Brasil
certamente, o terceiro grande salto revolucionário. Esta Fonte: Adaptado de Conab (2008).

540 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.539-547, jan./mar. 2009
Luiz Antônio dos Santos Dias, Robson Fernando Missio, Rita da Mata Ribeiro, Ricardo Galvão de Freitas Pedro Fernandes dos Santos Dias

PETROECONOMIA abastecimento. Por isso, países líderes e blocos in-


teiros deles mantêm fornecedores de petróleo atre-
O petróleo, descoberto no final do século lados a eles. Os Estados Unidos atuam assim com
XIX, provocou a substituição parcial do carvão e os países árabes, enquanto países europeus man-
se tornou a principal fonte de energia do século têm atrelados fornecedores como Rússia e Ucrâ-
XX. Consumido na forma de nia. Esta estratégia de contar
óleo diesel, gasolina, quero- Mais que um grande potencial de com fornecedor cativo reduz
sene e nafta, passou a ser mercado, a agroenergia oportuniza riscos, mas não impede uma
o combustível de motores a todos os países produzirem sua eventual interrupção no for-
estacionários, automóveis, própria fonte de energia. Trata-se, necimento de petróleo. Logo,
máquinas, navios e aviões. portanto, de um avanço significativo a melhor das estratégias para
O petróleo também inaugu- na democratização desse insumo os países é construir uma
rou um importante ramo da matriz energética com fontes
indústria moderna – a petroquímica –, com desta- próprias e eficientes, e a energia de biomassa ou
que para a produção dos plásticos. agroenergia oferece tal oportunidade.
Esse óleo fóssil fez a roda da economia girar, de
tal modo a criar uma economia própria, aqui chama-
AGROECONOMIA
da petroeconomia. Segundo o ex-Ministro da Agricul-
tura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, Até o início do século XX a agricultura propor-
os petroprodutos movimentam anualmente um mer- cionava alimentos, fibras têxteis e madeira. Agora,
cado de 1,5 trilhão de dólares. Mas o petróleo trouxe ela vem se destacando também como ofertante de
outras mudanças. O mundo descobriu que era de- energia de biomassa, também chamada agroener-
pendente da energia dele, que se tornou vital para gia. A agroenergia abre uma nova janela de oportu-
países líderes. A energia tornou-se tema de seguran- nidade para um setor gigante, mas que parecia nada
ça nacional, capaz de determinar quais países irão se mais ter a oferecer. Segundo Roberto Rodrigues, o
desenvolver e quais irão estagnar. Entre os primeiros consumo mundial de agroprodutos movimenta 750
figuram aqueles que têm fontes próprias de energia e bilhões de dólares. Este comércio é metade daquele
capacidade de explorá-las. Entre os últimos estão os dos petroprodutos. Suponhamos então um cenário
países dependentes da importação de petróleo. de substituição de 10% dos petroprodutos por agro-
A despeito dos benefícios que trouxe, a petro- produtos energéticos. Isso injetaria 150 bilhões de
economia apresenta muitas dificuldades desde o dólares no agronegócio mundial, ou seja, um incre-
seu estabelecimento. Primeiramente, apenas al- mento de 20%. Esse simples exercício de cenário
guns poucos países detêm reservas petrolíferas, expressa toda a potencialidade da agroenergia.
notadamente os do oriente médio, da África orien- Mais que um grande potencial de mercado, a agro-
tal e do norte da América do Sul. Isso criou a figura energia oportuniza a todos os países produzirem sua
do cartel do petróleo, sob comando da Organiza- própria fonte de energia. Trata-se, portanto, de um
ção dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) avanço significativo na democratização desse insumo.
e, por conseguinte, a vinculação de dependência Com a agroenergia, o número de países produtores de
energética do resto do mundo para com este cartel. petróleo salta da casa das dezenas para algo como
Geopoliticamente, esses países estão em áreas de duas centenas. Em tese, todos os países podem explo-
conflito permanente ou sob regimes políticos instá- rar a agroenergia em maior ou menor escala. O planeta
veis. Sob a ótica das mudanças climáticas, segun- dispõe de estimados 13 bilhões de hectares , sendo 1,5
do Quadrelli e Peterson (2007), os combustíveis bilhão ocupados com a produção de alimentos. Con-
fósseis respondem por 80% das emissões antro- siderando os demais usos da terra agricultável, como
pogênicas de gases de efeito estufa. Este cenário para a produção de fibras, matérias-primas industriais,
de dificuldades cria um clima de insegurança en- entre outros, e as aptidões edafoclimáticas disponíveis
tre as nações importadoras de petróleo quanto ao e requeridas, o planeta dispõe ainda de um bilhão de

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.539-547, jan./mar. 2009 541
Agrocombustíveis: perspectivas futuras

hectares para a produção de biomassa para fins ener- 160


3º choque

géticos (IEA BIOENERGY, 2007). Essa área corres- 140

ponde a 7% da superfície terrestre e menos de 20% do 120

Preço (US$/barril)
total em uso para produção agrícola (Figura 2).
100

80
2º choque

60
Brasil
1º choque
EUA 40
Russia
20
Índia
China 0

1947
1957
1958
1960
1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973
1974
1975
1976
1977
1978
1979
1980
1981
1982
1983
1984
1985
1986
1987
1988
1989
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
Europa
Congo Ano
Austrália

Canadá
Argentina
Figura 3
Sudão Evolução dos preços do barril de petróleo
Angola
Fonte: Adaptado de WTRG ECONOMICS (2008)
Indonésia Área cultivada Área agricultável
Nigéria

0 50 100 150 200 250 300 350 400 A segurança energética vem recebendo aten-
Milhões de hectares
ção especial de todos os países, em face das
incertezas que envolvem o suprimento de petró-
Figura 2
Áreas cultivadas e agricultáveis leo e ainda dos desafios que se apresentam como
Fonte: FAO (2006). o crescimento populacional, a demanda crescen-
te de alimentos e de energia e as mudanças cli-
máticas globais. Todos esses desafios tendem a
SEGURANÇA ENERGÉTICA se agravar no futuro, caso não sejam enfrenta-
dos no presente. Para 2030, mesmo com a cri-
É notório que o petróleo tem sido a mola se financeira sem precedente desencadeada no
mestra da economia do século XX. Mas como quarto trimestre de 2008, estima-se que a popu-
vetor do desenvolvimento tem provocado crises lação mundial será de 8,3 bilhões (USCB, 2008),
cíclicas de preços e abastecimento, conhecidas para uma demanda de alimentos 70% maior e
como choques, os quais fragilizam os países im- de energia da ordem de 17,6 btep (bilhões de
portadores. Historicamente o barril de petróleo toneladas equivalentes de petróleo) (BALANÇO
era cotado em torno de 20 dólares. Na primeira ENERGÉTICO NACIONAL, 2007). As mudan-
metade da década de 1970 ocorreu o primeiro ças climáticas globais, por sua vez, exigem um
choque, quando o preço do barril atingiu 45 dó- esforço conjunto dos países no sentido de redu-
lares. O segundo choque ocorreu na segunda zirem suas emissões de gases de efeito estufa,
metade da mesma década e elevou o preço a principalmente gás carbônico e metano. Um bom
75 dólares. O terceiro ocorreu recentemente, caminho para se enfrentar todos esses desafios
quando o barril atingiu 144 dólares, em julho de tem sido investir em energias alternativas, como
2008 (Figura 3). Essa excessiva volatilidade dos a eólica, a nuclear e da biomassa, tratada aqui
preços do petróleo, aliada a irregularidades no como agroenergia. A energia eólica só é viável
seu suprimento, tem preocupado os governos em regiões sujeitas a fortes ventos, como as lito-
que buscam eliminar a incômoda dependência râneas, por exemplo. Sem contar que é um tipo
energética. Os países importadores sabem ain- de energia que exige suplementação em condi-
da que o petróleo é um combustível fóssil não ções de ausência de ventos. A energia nuclear,
renovável, finito e que tem data para encerrar a sabidamente limpa e controlável, enfrenta forte
sua exploração econômica. Estima-se que, ao resistência da sociedade, que a conecta com a
ritmo de consumo anual de 30 bilhões de bar- possibilidade da bomba atômica, do vazamento
ris, o petróleo só deve ser explorado por mais de radiatividade e com a falta de definição quanto
40-50 anos. à estocagem de lixo atômico.

542 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.539-547, jan./mar. 2009
Luiz Antônio dos Santos Dias, Robson Fernando Missio, Rita da Mata Ribeiro, Ricardo Galvão de Freitas Pedro Fernandes dos Santos Dias

Por seu turno, a agroenergia parece oferecer rativamente, o Brasil é quem oferece as maiores
mais vantagens comparativas: é renovável, segura, oportunidades neste setor. Dias (2008) argumenta
limpa, socialmente aceitável e pode ser explorada que o país é detentor da melhor tecnologia agríco-
por boa parte dos países do globo, em especial por la do mundo tropical e da maior área agricultável,
aqueles da faixa intertropical (Figura 4). Compa- algo como 350 milhões de hectares (ver também Fi-
gura 2), já aberta, permitindo assim a preservação
das florestas nativas remanescentes. Além disso,
as exigências para cultivo de plantas são perfeita-
mente atendidas pelas condições brasileiras, pois o
país possui água e luz solar em abundância. Por úl-
timo, argumenta que o Brasil tem grande oferta de
mão de obra para alavancar a produção no campo,
riqueza de espécies vegetais das quais se podem
extrair bioetanol, biodiesel e bioquerosene, e tra-
dição em geração de energia limpa. Todas essas
condições reunidas já colocam o Brasil na lideran-
ça da produção mundial de agroenergia, notada-
Figura 4 mente de agrocombustíveis.
Região intertropical adequada à produção
A propósito das potencialidades da biomassa,
de agroenergia
o seu ciclo (Figura 5) deixa claro a sua natureza

Figura 5
Ciclo da produção de biomassa
Fonte: Adaptado de Parente (2003).

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.539-547, jan./mar. 2009 543
Agrocombustíveis: perspectivas futuras

recicladora e sustentável, uma vez que todo o gás competir com a produção mundial de alimentos,
carbônico (CO2) produzido na queima dos agro- ainda é produzido de forma ineficiente, antieco-
combustíveis é reabsorvido nos plantios subse- nômica e regado a forte subsídio. O etanol brasi-
quentes. leiro é produzido com eficiência energética cinco
vezes e meia maior e pela metade do custo do
etanol norte-americano (Figura 6), em uma área
AGROCOMBUSTÍVEIS 46% menor, no caso 29 mil km2.
A produção de etanol de milho tem outras
Etanol consequências. Além de reduzir a oferta daquele
O Brasil compartilha a liderança mundial da cereal, uma vez que os Estados Unidos são os
produção de etanol com os Estados Unidos. Em maiores produtores mundiais, provocando alta nos
2006, foram 17,8 bilhões de litros de etanol brasi- preços da commodity no mercado internacional, a
leiro contra 18,6 bilhões de litros norte-americano, aventura do etanol norte-americano avança sobre
respondendo, conjuntamente, por cerca de 70% a área de soja, novamente causando efeitos mer-
do mercado (GOLDENBERG; GUARDABASSI, cadológicos similares aos do milho. Em 2007, para
2009). Todavia, há grandes diferenças entre as agravar a situação, as novas áreas para cultivo do
produções de etanol dos dois países. O etanol milho, tomadas da soja, passam a demandar adu-
norte-americano é feito de milho, talvez o mais bos nitrogenados, causando alta nos preços dos
importante alimento da dieta humana e animal. O adubos e, indiretamente, nos preços dos alimen-
etanol brasileiro é produzido de cana, uma gra- tos em geral.
mínea que aportou aqui em 1500 com a chega- A produção de etanol brasileiro de cana, por sua
da dos portugueses, e da qual se extrai também vez, experimenta um avanço tecnológico, ambien-
o açúcar. O etanol norte-americano, além de tal e social sem precedentes. O cultivo de cana na
atualidade é feito com emprego de alta tecnologia
como: uso de clones de alta produtividade – aci-
ma de 80 toneladas de colmos por hectare –, os
quais produzem 86 litros de etanol por tonelada de
cana (correspondentes a 6,6 m3/ha); do emprego
de controle biológico de pragas como a cigarri-
nha, com o uso do fungo Metharrizium; pela fer-
tirrigação, com emprego da vinhaça; fertilização
do solo com torta de filtro e pela colheita mecâ-
nica, onde uma colheitadeira realiza o trabalho
de 80 homens e dispensa a queima da palhada.
Na atualidade, as refinarias de etanol são, simul-
taneamente, usinas de etanol, açúcar e energia
elétrica cogerada da queima do bagaço em cal-
deiras. Cada tonelada de cana gera 240-280 kg
de bagaço, com 40-50% de umidade, e potencial
para gerar 70 kWh, sendo 30 kWh consumidos
na fabricação de açúcar e etanol e 40 kWh ex-
cedentes, que são comercializados. O poder ca-
lorífico do bagaço e dos resíduos da colheita é
semelhante (4.000-4.500 kcal/kg). Tais resíduos
Figura 6 de colheita geram entre 10-20 toneladas de palha
Dados de eficiência produtiva de etanol por hectare, com 60% de umidade, dependendo
Fonte: Adaptado de Simões (2006). das condições climáticas, e que pode ser redu-

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Luiz Antônio dos Santos Dias, Robson Fernando Missio, Rita da Mata Ribeiro, Ricardo Galvão de Freitas Pedro Fernandes dos Santos Dias

zida para 10-12%. Na área de renovação anual


de 1/6 dos canaviais, as usinas cultivam agora
amendoim, rico em óleo, ou feijão, rico em prote-
ínas. As refinarias tratam agora as questões am-
bientais e sociais com extremo cuidado, de olho
nas certificações internacionais que abrem novos
mercados. Há uma revolução em andamento na
produção de etanol no Brasil. O Brasil figura entre
os países com maior participação de fontes reno-
váreis em sua matriz energética (Figura 7).

Figura 7
Biodiesel Produção percentual comparativa de energia
renovável e não-renovável, pelo Brasil, mundo e
O biodiesel brasileiro é resultado do mais OECD
novo programa governamental de fomento e in- Fonte: Balanço Energético Nacional (2007; 2008).

centivo às energias alternativas. O Programa Na-


cional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB)
RISCOS
foi lançado em 13 de janeiro de 2005 (Lei 11.097)
e quatro anos depois já é um relativo sucesso. Fatos recentes podem alterar o cenário de
Inicialmente com adoção da meta de substituição avanço no domínio das fontes energéticas alter-
de 2% do consumo de petrodiesel (biodiesel B2), nativas. O primeiro deles são as recentes desco-
o programa já avançou para B3 desde 10 de julho bertas de grandes jazidas de petróleo do pré-sal
de 2008, e prevê a adoção obrigatória do B4 em no Brasil, estimadas em 75 bilhões de barris.
julho de 2009 e do B5 em 2010, antecipando a A despeito de ser um fato tranquilizador para o
meta prevista para 2013. Com a vigência do B3 país, a sua exploração ainda não é para o pre-
o país economizou em 2008 quase 1 bilhão de sente. Os custos de exploração desse tipo de
dólares em importação de óleo diesel. Em 2008, jazida ainda são proibitivos e a tecnologia para
a capacidade instalada de produção de biodiesel explorá-la ainda é incipiente. Estima-se que se-
pelas refinarias brasileiras foi de 3,7 bilhões de jam necessários recursos da ordem de 600 bi-
litros, para uma produção efetiva de 1,7 bilhões lhões de dólares para a sua exploração. Ainda
de litros. assim essas descobertas podem, se não para-
Infelizmente, cerca de 92% do biodiesel na- lisar, pelo menos postergar a busca e a conso-
cional ainda provém da soja, 5% da gordura lidação de fontes energéticas alternativas como
animal e os outros 3% restantes do caroço de al- a agroenergia. Um segundo fato que constitui
godão, girassol, amendoim e somente 0,05% da risco para a mudança para uma matriz energé-
mamona. Essa forte concentração em uma ma- tica mundial mais limpa e renovável é a queda
téria-prima cria dificuldades momentâneas, dado expressiva dos preços do petróleo. O baixo preço
que na cadeia de produção da soja predominam do petróleo é naturalmente um incentivo para o
os grandes produtores e as grandes empresas. aumento de seu consumo.
Como no etanol da cana, o agricultor familiar se Outro fato que pode levar também ao refluxo
encontra pouco inserido na cadeia de produção na busca de energias alternativas é a recente e
do biodiesel, em que pese o mecanismo do Selo maior crise financeira da história. Ela é tão forte
Combustível Social. Tal mecanismo estimula as que nenhum especialista ou instituição se arris-
refinarias a adquirirem matéria-prima daquele ca a dizer o seu tamanho e a sua duração. Com a
tipo de agricultor, em percentuais mínimos que consequente retração das economias mundiais
variam entre regiões, para habilitarem-se aos lei- provocada pela crise, os países ficam menos
lões de compra de biodiesel. propensos a despender esforços na área. Esse é

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.539-547, jan./mar. 2009 545
Agrocombustíveis: perspectivas futuras

um risco considerável e plausível. Todavia, a questão Externamente, o país tem que promover gestão
energética de fontes alternativas limpas e renováveis, junto aos países e organismos competentes para
capazes de mitigar as mudanças ambientais globais, “comoditizar” o etanol, criando padrões e regras cla-
ganhou maturidade na sociedade a tal ponto que, difi- ras que permitam a consolidação do mercado inter-
cilmente, país algum, por mais líder que seja, irá refluir nacional desse produto. Trata-se de um mercado de
seus planos de investimentos alto potencial, se devidamente
no setor. Esse parece ser um [...] a questão energética de fontes regulado. O Japão, por exem-
caminho sem volta, para o bem alternativas limpas e renováveis, plo, consome anualmente 60
da humanidade. capazes de mitigar as mudanças bilhões de litros de gasolina e
ambientais globais, ganhou tem por meta substituir 5% por
maturidade na sociedade a tal ponto etanol. Em 2008, importou do
OPORTUNIDADES
que, dificilmente, país algum, por Brasil quatro bilhões de litros
O programa de álcool bra- mais líder que seja, irá refluir seus de etanol. Estes números dão
sileiro, chamado Proálcool, planos de investimentos no setor a dimensão desse mercado
avançou o suficiente para ga- nascente. Cabe ainda ao Bra-
rantir ao país a substituição de 25% da gasolina sil sensibilizar os Estados Unidos para eliminar ou
consumida pelos automóveis por etanol. Com o de- reduzir seus subsídios ao etanol de milho e abrir seu
senvolvimento e consolidação dos motores flexfuel mercado ao etanol brasileiro. Esta campanha deve se
em 2003, os consumidores brasileiros puderam estender a outros países que adotam prática protecio-
optar por abastecer com um dos dois combustí- nista semelhante. O Brasil necessita ainda explorar o
veis, no caso, etanol ou gasolina, ou a mistura de grande apelo do etanol no que tange às emissões de
ambos em quaisquer proporções. A produção na- gás carbônico. De acordo com Goldemberg (2007),
cional de automóveis em 2008 foi de 2,33 milhões se a área canavieira brasileira atingisse 100 mil km2
de unidades, 88% deles equipados com motores em 2022 (foi de 29 mil km2 em 2006), resultaria em
flexfuel, atestando a confiança e a preferência dos 79,5 bilhões de litros de etanol, que junto com a produ-
consumidores por essa tecnologia. Ainda neste ção americana atenderia a demanda e reduziria anu-
mesmo ano, o consumo de álcool superou, pela almente as emissões de gás carbônico em 56 milhões
primeira vez na história, o de gasolina. de toneladas.
É preciso ressaltar, contudo, que este sucesso Embora o Brasil tenha sabido aproveitar as van-
do Proálcool pode não se manter no futuro próxi- tagens deste agrocombustível, muitas outras oportu-
mo, dado o maciço investimento dos países desen- nidades relativas a ele não foram ainda exploradas.
volvidos em programas semelhantes, ajustados às O programa brasileiro de produção de etanol foi
suas realidades. Compete então ao governo brasi- totalmente apropriado por grandes empresas, com
leiro investir pesado em pesquisas para viabilizar o produção própria de cana ou adquirida de grandes
etanol de segunda geração, produzido por hidrólise fornecedores por força de contratos. Não sobrou
lignocelulósica da palha e bagaço (2/3 da biomas- espaço para os agricultores familiares. Se por um
sa da cana) e/ou resíduos agroindustriais, de modo lado é natural que seja assim, dado o elevado nível
a manter-se na liderança mundial dos agrocombus- tecnológico e de mecanização dos canaviais, por
tíveis. Aperfeiçoar a co-geração de energia elétri- outro esta situação reflete uma miopia da política
ca com caldeiras de maior eficiência energética é energética nacional. Tal política não contemplou ou-
outra aposta nas pesquisas. Além disso, terá que tras espécies vegetais que podem viabilizar a pro-
cuidar melhor do seu parque tecnológico, desen- dução de etanol por parte de agricultores familiares,
volver a alcoolquímica, zonear o cultivo de cana a exemplo da batata doce e da mandioca, com as
para impedir que ele avance sobre as florestas e o quais eles estão familiarizados. A batata doce, por
pantanal, e cuidar dos aspectos sociais de modo a exemplo, tem potencial de produção de 160 litros de
não ser acusado de patrocinar um cultivo movido a etanol por tonelada de produção de tubérculos. Pro-
mão de obra escrava. gramas regionais ou locais de incentivo à produção

546 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.539-547, jan./mar. 2009
Luiz Antônio dos Santos Dias, Robson Fernando Missio, Rita da Mata Ribeiro, Ricardo Galvão de Freitas Pedro Fernandes dos Santos Dias

de etanol poderiam ser postos em prática, de modo a atenção da política nacional de agrocombustíveis.
a envolver os agricultores familiares em regime de Convém lembrar que o Brasil consome anualmente
cooperativas. Seria certamente um poderoso instru- 35 bilhões de litros de óleo diesel, 9% dele importa-
mento para redução das desigualdades econômicas do. E que a cada 1% de substituição de diesel por
regionais e da pobreza, e para a ampliação do em- biodiesel com participação da agricultura familiar
prego e renda. são gerados 45 mil empregos
O PNPB segue a trajetó- Assim como o etanol, o biodiesel diretos no campo e 135 mil na
ria de sucesso do Proálcool, necessita de padronização cidade (BRASIL, 2005).
com a vantagem de ter sido universal, de forma a viabilizar seu A agroenergia, embora
concebido para inclusão da comércio internacional seja a solução energética
agricultura familiar na sua ca- para o momento, será, certa-
deia de produção. O programa posicionou o Brasil mente, suplantada por outras fontes mais eficientes
como segundo maior produtor de biodiesel do mun- a serem viabilizadas em países desenvolvidos. Esta
do, precedido pela Alemanha. Mas é preciso adotar realidade coloca a agroenergia como uma alterna-
com o PNPB uma postura de otimismo com caute- tiva transitória para, junto a outras fontes, substituir
la. Ele não pode repetir os mesmos equívocos do parcialmente a energia do petróleo. Os países de-
Proálcool; a soja não pode ser a cana do biodiesel. senvolvidos não vão importar indefinidamente álco-
Não que ela não seja importante. A soja é a olea- ol de países como Brasil ou Estados Unidos. Logo,
ginosa-chave para o sucesso do PNPB, desde que qual é a real importância da agroenergia? Ela sig-
sua contribuição seja mantida na faixa de 64-68%, e nifica a transição para uma matriz energética mais
não 92%, como ocorre atualmente. Reduzir a contri- limpa, renovável e a possibilidade de quaisquer paí-
buição da soja implica em ampliar a contribuição de ses terem seus próprios programas agroenergéticos.
outras matérias-primas que podem ser produzidas Desse modo, mesmo que o comércio internacional
pela agricultura familiar, a exemplo do pinhão manso de agrocombustíveis líquidos venha a se encolher no
(Jatropha curcas L.), macaúba (Acrocomia aculeata), futuro próximo, os países produtores deles continu-
além de outras espécies oleaginosas igualmente pe- arão a explorá-los, produzindo sua própria energia
renes que forem sendo validadas pelas pesquisas. alternativa. Certo mesmo é que cada país será livre
Assim como o etanol, o biodiesel necessita de para buscar suas fontes próprias de energia limpa
padronização universal, de forma a viabilizar seu co- e renovável. Para a questão energética há múltiplas
mércio internacional. Convém ressaltar que enquan- soluções a encaminhar.
to o biodiesel alemão é produzido exclusivamente A agroenergia renova a agricultura e acena com
da canola (Brassica napus L.), o brasileiro pode ser um potencial fabuloso de geração de emprego e
produzido por mais de uma dezena de espécies ole- renda e de inclusão social. A agroenergia também
aginosas e respeitando as aptidões regionais. As- contribui substancialmente para as cadeias de ali-
sim, por exemplo, na região Norte do Brasil, o dendê mentos e de cosméticos, ao ampliar a oferta de
(Elais oleifera) é a oleaginosa mais adequada. No tortas para a primeira e glicerina para a segunda.
Nordeste destacam-se o babaçu (Orbignya phale- Ganha com ela também a saúde das pessoas e do
rata), a mamona (Ricinus communis L.) e o pinhão planeta. Qual será então o futuro do setor energé-
manso. No Sudeste, macaúba, pinhão manso, al- tico? Dada a importância que a segurança energé-
godão (Gossypium hirsutum L.), amendoim (Arachis tica assumiu no mundo atual, é possível prever um
hypogaea L.) e girassol (Helianthus annus) são, no grande salto revolucionário pela frente. O quarto
momento, as mais adequadas. No Centro-Oeste os salto – a energia solar – está por vir e marcará o
destaques são a soja, o algodão e o pinhão manso. setor. Em que pese já utilizarmos a energia solar
Para o Sul as opções são a soja (Glycine max), o pela via indireta da biomassa verde desde os pri-
girassol, o algodão e o tungue (Aleurites fordii). Essa mórdios da agricultura, seu uso direto via células
riqueza de matérias-primas é o grande diferencial do fotovoltaicas para suprir as necessidades humanas
programa brasileiro de biodiesel e deve receber toda é questão de tempo. A Alemanha saiu na frente

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.539-547, jan./mar. 2009 547
Agrocombustíveis: perspectivas futuras

na corrida para explorar esta energia, a qual será, GOLDEMBERG, J. Ethanol for a sustainable energy future.
Science, v. 315, p. 808, 2007.
provavelmente, a mais segura, limpa e renovável
fonte de energia que a humanidade já conheceu. GOLDEMBERG, J.; GUARDABASSI, P. Are biofuels a feasible
option? Energy Policy, v. 37, n. 1, p. 10-14, jan. 2009.
É aguardar para conferir.
IEA BIOENERGY, Potential contribution of bioenergy to the
world’s future energy demand. Paris: International Energy
Agency, 2007.Task 40.
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548 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.539-547, jan./mar. 2009
Giminiano José dos Santos, Luana Ladu, Henrique Tomé da Costa Mata,
Gilca Garcia de Oliveira, Guiomar Inez Germani, Vitor de Athayde Couto

Bahia
análise & Dados

Agrocombustíveis, segurança e soberania


alimentar: elementos do debate
internacional e análise do caso brasileiro
Giminiano José dos SantosA
Luana LaduB
Henrique Tomé da Costa MataC
Gilca Garcia de OliveiraD
Guiomar Inez GermaniE
Vitor de Athayde CoutoF

Resumo Abstract

Nas últimas décadas, a indústria dos agrocombustíveis vem The agrofuel industry has been developing in recent
se desenvolvendo a partir da combinação de diversos fatores decades from a combination of various factors. These have
que têm levado ao aumento da demanda por produtos agríco- led to increased demand for agricultural products, therefore
las, gerando, assim, impactos significativos no sistema global generating significant impact on the global food supply system
de oferta de alimentos, em especial na segurança e soberania and, especially, food security and sovereignty. The discussion
alimentar. Nesse ambiente, a discussão sobre os agrocombus- on agrofuels, food security and sovereignty emerges in the
tíveis, segurança e soberania alimentar vem à tona em âmbito national and international sphere within this environment.
nacional e internacional. No presente artigo identificam-se esses These actors are identified in this article, presenting the
atores, apresentando-se os principais argumentos favoráveis e principal favourable and unfavourable arguments to introducing
desfavoráveis à implantação da indústria dos agrocombustíveis. the agrofuel industry. The Brazilian case is analysed, based on
Com base nessa discussão, analisa-se o caso brasileiro. this discussion.

Palavras-chave: Agrocombustíveis. Soberania alimentar. Keywords: Agrofuels. Food sovereignty. Food security.
Segurança alimentar. Brasil. Brazil.

INTRODUÇÃO
Cogita-se que a combinação desses fatores tenha
Nas últimas décadas, a indústria dos agrocombus- estimulado o aumento da demanda por produtos
tíveis desenvolveu-se rapidamente como consequ- agrícolas, que por sua vez gerou certa instabilidade
ência de uma combinação de diferentes elementos. no sistema global de oferta de alimentos, com um
Dentre esses elementos destacam-se o aumento do consequente aumento dos preços das commodities.
preço do petróleo, a busca por novas fontes de ener- Merece particular atenção outro determinante
gias limpas e renováveis, e a intenção de aumentar do aumento na demanda por alimentos: a mudança
a renda agrícola nos países em desenvolvimento. nas dietas das populações mundiais por causa do
A
Mestrando em Economia do Curso de Mestrado em Economia da Universidade Fede- D
Doutora em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV); graduada
ral da Bahia (CME/UFBA); graduado bacharel em Ciências Econômicas pela Universi- em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Lavras (UFLA); professora
dade Estadual de Feira de Santana (UEFS). giminianojsantos@gmail.com do Curso de Mestrado em Economia (CME-UFBA). ggo@ufba.br
B
Mestranda em Economia do Curso de Mestrado em Economia da Universidade Fe- E
Doutora em Geografia pela Universidad de Barcelona (UB); professora do Mestrado
deral da Bahia (CME/UFBA); graduada em Economia pela Università Luigi Bocconi de em Geografia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). guiomar@ufba.br
Milano, Itália. luanaladu@yahoo.it F
Pós-doutor pelos Instituto de Altos Estudos Mediterrâneos (IAM), Montpellier, Univer-
C
Doutor em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV); professor sidade de Paris I e Universidade de Rouen; doutor em Estudos Rurais Integrados pela
do Curso de Mestrado em Economia da Universidade Federal da Bahia (CME/UFBA). Universidade de Toulouse II (Le Mirail); professor titular da Universidade Federal da
hnrmata@ufba.br Bahia (UFBA), professor do Curso de Mestrado em Economia (CME-UFBA).

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.549-556, jan./mar. 2009 549
Agrocombustíveis, segurança e soberania alimentar: elementos do debate internacional e análise do caso brasileiro

efeito renda crescente, sobretudo em países como A RETÓRICA DO DEBATE INTERNACIONAL


China e Índia. Com o aumento da renda eleva-se
também o consumo de carnes e derivados e produ- Aqui se entende agrocombustíveis como aque-
tos lácteos, exercendo assim, pressão crescente no les combustíveis produzidos a partir da biomassa
mercado de bens agrícolas e nos preços dos grãos, e não biocombustível, uma vez que bio, em grego,
principalmente daqueles usados como insumo na quer dizer vida:
produção de ração animal. Com o aumento dos
[...] o termo biocombustível evoca a imagem de
preços de commodities agrícolas torna-se evidente renovação e abundância – uma garantia limpa,
a concorrência por recursos econômicos e naturais verde e sustentável para o desenvolvimento de
entre aqueles destinados à produção de energia e todos, inclusive de países em desenvolvimento
de alimentos. [...] biocombustível dirige nossa atenção para
Para a produção agrícola são necessários insu- longe de poderosos interesses econômicos que
mos intermediários na forma de terra, trabalho, ferti- se beneficiarão com esta transição; evita discus-
sões sobre os danosos impactos à soberania ali-
lizantes e venenos (agroquímicos). Essa produção é
mentar e nutricional; e obscurece o debate sobre
direcionada ao mercado consumidor por meio de um
a urgência de um modelo de desenvolvimento
processo de distribuição fortemente representado pelo que efetivamente promova a igualdade entre os
transporte modal rodoviário. Neste sentido, existe a seres humanos e uma convivência harmoniosa
necessidade de se contabilizar o balanço energético com o planeta. (REDE BRASILEIRA PELA IN-
de uma produção que visa à redução do consumo TEGRAÇÃO DOS POVOS, 2008, p. 9).
de petróleo. As diferentes formas de uso de energia
O debate internacional sobre os agrocombustí-
geram impactos ambientais, que estão no centro do
veis, segurança e soberania alimentar envolve uma
debate internacional, estimulando, assim, a deman-
diversidade de instituições internacionais, princi-
da pelo desenvolvimento de formas alternativas de
palmente centros de pesquisa e desenvolvimento,
energias limpas, destacando-se dentre elas os agro-
organizações sociais e universidades. De acordo
combustíveis. É com base nessa dinâmica que se
com o Conselho Nacional de Segurança Alimentar
intensifica a adoção da indústria dos agrocombustíveis
e Nutricional (Consea),
em nível global – apoiada muitas vezes por políticas
[...] a segurança alimentar consiste na reali-
nacionais de fomento.
zação do direito de todos ao acesso regular
As populações mais pobres são despropor-
e permanente a alimentos de qualidade, em
cionalmente vulneráveis à alta dos preços dos quantidade suficiente, sem comprometer o
alimentos, porque gastam grande parte da renda acesso a outras necessidades essenciais,
com o seu consumo. Então, os subsídios aos tendo como base práticas alimentares promo-
agrocombustíveis – que têm hipoteticamente por toras da saúde, que respeitem a diversidade
efeito a elevação dos preços dos alimentos – re- cultural e que sejam ambiental, cultural,
duzem, dentro de certos limites, o consumo dos econômica e socialmente sustentáveis.
alimentos daqueles que são compradores líquidos. (CONSELHO NACIONAL DE SEGURANÇA
ALIMENTAR E NUTRICIONAL, 2008)
Por outro lado, a alta dos preços dos alimentos
pode determinar ganho de excedente de renda Segundo o Consea, “a consecução do direito
para alguns produtores agrícolas nos países em humano à alimentação adequada e da segurança
desenvolvimento, no caso de serem produtores alimentar e nutricional requer o respeito à soberania,
líquidos. É justamente neste conflito entre pro- que confere aos países a primazia de suas decisões
dutores e consumidores líquidos, ou seja, entre sobre a produção e o consumo de alimentos” (CON-
ganhadores e perdedores, que está centrado o SELHO NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR
debate internacional que se pretende analisar E NUTRICIONAL, 2008).
neste artigo, tentando-se explorar nuanças de Para Fernandes (2008, p. 14), a segurança ali-
sustentabilidade ambiental, combate à pobreza, mentar é vista como uma “política compensatória que
e segurança alimentar. garante parcialmente alimentos industrializados para

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Giminiano José dos Santos, Luana Ladu, Henrique Tomé da Costa Mata,
Gilca Garcia de Oliveira, Guiomar Inez Germani, Vitor de Athayde Couto

as populações pobres, mas não garante, à população Produtos agrícolas Balanço energético
faminta, o direito de produzir seu próprio alimento”, e Canola 1,0 – 1,7
esta garantia, materializada na posse da terra, estaria Mamona 1,3 – 2,9
contida no conceito de soberania alimentar. Girassol 1,0 – 0,76
Antes de se analisar alguma dessas retóricas, aqui Soja 1,0 – 2,51
entendidas simplesmente como o arranjo argumentati- Dendê 1,0 – 3,5
vo, quer informal, científico ou técnico, convém definir Cana-de-açúcar 5,0 – 8,0
o conceito de segurança alimentar, uma recorrência Petróleo 0,8 – 0,9
muito frequente neste tipo de discussão. Na concepção Quadro 1
da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Balanço energético de alguns alimentos
Alimentação (FAO. NAÇÕES UNIDAS, 1996), segurança usados na produção de biocombustíveis

alimentar caracteriza um cenário em que todas as famílias Fonte: International Food Policy Research Institute, 2008 (a).

têm acesso físico e econômico à alimentação adequada, demanda mundial de alimentos. Deve-se notar que
sem riscos de desabastecimento. No debate trata-se de essas argumentações distinguem impactos sobre
explicitar a relação entre a situação de soberania alimen- elevação dos preços dos alimentos e os efeitos so-
tar e o desenvolvimento da indústria dos agrocombustí- bre o uso indireto do solo que resulta da alocação
veis, qualificando a relação como trade-off. e competição pelo fator terra entre a produção de
A pressão mundial que decorre das metas do alimentos e agrocombustíveis. A distinção é funda-
Protocolo de Quioto (Kyoto Protocol) em relação à mental porque está ligada, por um lado, à demanda
redução na quantidade das emissões dos gases de por alimentos, que depende dos preços, e, por outro,
efeito estufa (GEE) é considerada como uma das à produção de alimentos, que depende basicamente
principais, senão a principal causa da orientação da disponibilidade de terras, e, portanto, do preço da
para a indústria dos agrocombustíveis. Esta orien- terra usada para cultivo.
tação do debate considera que os agrocombustíveis A competição pelo espaço gera um trade-off entre o
não reduzem efetivamente o padrão de emissões dos uso do fator terra para produzir alimentos usados como
GEE, quando se leva em conta o saldo final relativo matéria-prima destinada à produção dos agrocombustí-
do balanço energético total dos materiais. veis e o seu uso destinado à produção de alimentos.
Este tipo de enfoque crítico tem facultado os Finalmente, outro fator que pode determinar, dentro
esforços em termos de pesquisas destinadas à de certos limites, o aumento nos preços dos alimentos,
quantificação do balanço energético de sistemas de é a especulação financeira em torno dos ativos ou
produção dos agrocombustíveis, ou seja, o domínio derivativos agropecuários, geralmente designados
da fração entre o conteúdo energético final do com- como commodities. Com a expansão dos mercados a
bustível e a energia usada durante toda a cadeia de termo, esses derivativos passam a representar meios
sua produção e na distribuição. financeiros ou ativos pelos quais os agentes podem
No Quadro 1 apresenta-se o balanço energético ter preferências em termos de composição de seus
dos principais produtos agrícolas utilizados na pro- portfólios, em detrimento dos outros ativos clássicos,
dução de combustíveis. Como se pode perceber, a exemplo da própria moeda. Uma grande preferência
com base nesses dados, os combustíveis obtidos nesta direção pode estimular a demanda por esta nova
a partir dos alimentos têm um saldo energético forma de ativo e, assim, passar a ser fator de choque
maior do que a partir do petróleo. Nota-se ainda o sobre os preços dos alimentos.
alto balanço energético do etanol produzido a partir
da cana-de-açúcar. Esses argumentos em torno do
ABORDAGENS DOS ATORES
problema do balanço energético reforçam muitas
PRINCIPAIS NO DEBATE
opiniões contrárias à indústria dos agrocombustíveis,
como forma de energia renovável e limpa. A análise sobre a posição das diversas organi-
Outros elementos do debate dizem respeito aos zações frente ao debate é pertinente, dada a rele-
efeitos da produção dos agrocombustíveis sobre a vância delas em termos da formação de opiniões

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.549-556, jan./mar. 2009 551
Agrocombustíveis, segurança e soberania alimentar: elementos do debate internacional e análise do caso brasileiro

no quadro da comunidade internacional, podendo a IFAP, a bioenergia representa uma boa oportunidade
inclusive influenciar decisões políticas no âmbito das para fortalecer a economia rural e diminuir a pobreza.
negociações bilaterais e multilaterais. Por isso, em Desse modo, a produção sustentável de agrocombus-
linhas gerais, uma reflexão sobre o tema passa pela tíveis, por parte de propriedades familiares, não cons-
análise do comportamento desses agentes frente ao titui ameaça à segurança alimentar (INTERNATIONAL
debate internacional. FOOD POLICY RESEARCH
Neste sentido, tem-se o Gru- Merece atenção particular a INSTITUTE. 2008b).
po de Planificação Internacional posição da FAO, que se preocupa, Conforme entrevista de
para a Soberania Alimentar, que principalmente, com os efeitos da Paul Roberts, divulgada no
se destaca frente ao debate produção de agrocombustíveis no portal Outra Política (2008), o
internacional, pois tem mani- aumento dos preços dos alimentos especialista em energia apre-
festado uma posição de preo- e nos efeitos do uso indireto da terra senta forte crítica aos agro-
cupação diante da expansão e combustíveis. Ele se baseia
extensão de áreas plantadas sob o regime de plantation no fato de que a energia e a alimentação são bens
destinadas a sustentar a produção dos agrocombustí- intimamente relacionados, que a crise de um des-
veis. O argumento do grupo identifica-se com a ideia ses bens levaria necessariamente à crise do outro.
de que, com a expansão desse regime de plantation, Roberts alega ainda que o preço dos combustíveis
estimula-se, como consequência imediata, o aumento fósseis sempre afetou os preços dos produtos agrí-
das emissões dos gases de efeito estufa, por causa da colas através dos insumos fertilizantes, pesticidas,
intensidade das operações do desflorestamento e do irrigação e transporte, necessários para a produção
desmatamento de terras comuns (INTERNATIONAL agrícola. Agora, a energia afeta também os preços
FOOD POLICY RESEARCH INSTITUTE, 2008a). dos produtos agrícolas pelo custo de oportunidade.
Essa preocupação mostra-se de fato procedente, Além disso, a indústria dos biocombustíveis seria
principalmente quando se considera que a expansão uma alternativa de um sistema que se baseia numa
da produção dos agrocombustíveis pode seguir uma fonte limitada, que é o petróleo, por outro sistema,
trajetória de expansão da fronteira agrícola, o que também de fonte limitada, que é a terra.
implicaria, dentro de certos limites, a utilização de Merece atenção particular a posição da FAO,
terras marginais e/ou a utilização de muitas unidades que se preocupa, principalmente, com os efeitos
de reserva, no caso de se considerar a escassez de da produção de agrocombustíveis no aumento dos
novas terras. preços dos alimentos e nos efeitos do uso indireto
Outra instituição, a Federação Internacional dos da terra, que, como acima descrito, constituem as
Produtores Agrícola (IFAP), vem se posicionando de hipóteses sobre causas da ameaça de segurança
forma favorável à indústria dos agrocombustíveis. A alimentar. Para mostrar que vários países têm sido
posição da IFAP consiste na ideia de que a indústria vítimas dessa ameaça, a FAO (2006) propõe uma
dos agrocombustíveis constitui uma nova oportunidade análise baseada em quatro categorias:
para o desenvolvimento agrícola, principalmente para a. Disponibilidade de alimentos, que depende da
a agricultura familiar, que representa a melhor opção produção doméstica, da capacidade de impor-
para reduzir as emissões dos gases de efeito estufa. tar, da existência de estoques e de programas
Essa instituição considera que existem outros fatores de ajuda alimentar;
responsáveis pelo aumento dos preços dos alimentos. b. Acesso aos alimentos, que depende do nível
A produção de agrocombustíveis torna-se, assim, um de pobreza, poder de compra das famílias,
fator marginal das altas dos preços dos alimentos. preços, transporte, infraestrutura e sistema
De certa forma, isso vem sendo confirmado também de distribuição;
pela proporção de terras agrícolas utilizadas para a c. Estabilidade da oferta, que pode ser afetada
produção de agrocombustíveis relativamente às outras pelo clima, flutuações dos preços, desastres
finalidades de uso: 1% no Brasil, 1% na Europa e 4% induzidos pela ação do homem e outros fatores
nos EUA. Com essa distribuição de uso da terra, para políticos e econômicos; e, finalmente,

552 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.549-556, jan./mar. 2009
Giminiano José dos Santos, Luana Ladu, Henrique Tomé da Costa Mata,
Gilca Garcia de Oliveira, Guiomar Inez Germani, Vitor de Athayde Couto

d. Utilização segura e saudável dos alimentos, a uma situação pior, pela perda de seus exce-
que depende da qualidade destes produtos, dentes líquidos, enquanto os produtores rurais
acesso à água limpa, dentre outros. ficam em situação melhor, pelo aumento de
Ainda segundo a análise da FAO (2006), seus excedentes líquidos. Isso quer dizer que
o impacto da alta nos preços dos alimentos, nem sempre a alta dos preços dos alimentos
em um determinado país, afeta a segurança alimen-
depende do seu grau de Os efeitos exatos dos preços tar. A direção dos impactos
dependência de importa- dos alimentos sobre a segurança depende da maneira como
ções agrícolas e também alimentar apresentam certa os preços internacionais
de sua dependência do complexidade analítica são captados no mercado
petróleo. Alguns países interno e, principalmente, de
serão beneficiados e outros, no caso dos menos quão elásticos são os diferentes efeitos renda
desenvolvidos1, que vêm experimentando, nas úl- e preços em consideração.
timas décadas, crescente déficit comercial2, serão
negativamente afetados.
AGROCOMBUSTÍVEIS, SEGURANÇA E
Pelos dados da FAO. NAÇÕES UNIDAS
SOBERANIA ALIMENTAR NO BRASIL
(2008), o gasto global com importações de produ-
tos alimentares em 2007 cresceu 29% em relação Estudos realizados pela Comissão Econômica
a 2006. A maior parte desse crescimento deve-se da Organização das Nações Unidas para a América
à elevação dos preços de commodities agrícolas, Latina e Caribe (Cepal) e pela FAO, referentes à
como cereais e óleos vegetais, que, por sua vez, produção de agrocombustíveis como o etanol e o
forçaram o aumento dos preços das carnes e dos biodiesel, apontam que o setor energético tem uma
produtos láteos. Outra causa a determinar esse influência direta sobre a segurança alimentar. Tam-
aumento significativo do gasto global com as bém se aponta que a indústria encontra nos países
importações de produtos alimentares foi o custo da América Latina e Caribe, especialmente no Brasil,
crescente dos fretes, em razão do aumento do condições favoráveis para o desenvolvimento.
preço do petróleo. O documento da FAO/Cepal intitulado Oportunida-
Os elementos considerados na análise da des y Riesgos del uso de la bionergía para la seguridad
FAO foram as porcentagens de: importação do alimentaria en América Latina y el Caribe analisa o
petróleo consumido por países; importação de impacto dos agrocombustíveis nas quatro dimensões
cereais em relação ao consumo total e; popula- da segurança alimentar, quais sejam: disponibilidade,
ção subnutrida. Os países que apresentam alto acesso, estabilidade e utilização. No que concerne à
nível nos três fatores foram considerados como disponibilidade, o estudo aponta que a região apresen-
vulneráveis ao risco da alta dos preços sobre a ta um superávit alimentício, aqui entendido como uma
segurança alimentar. oferta de alimentos superior ao consumo em todos
Em nível domiciliar, um elemento crítico é o os países da América Latina, com exceção do Haiti e
acesso aos alimentos, que depende dos preços Bolívia. O estudo indica também a disponibilidade de
e da renda. Uma análise simplista levaria a pen- terras para expansão da produção agrícola destinada
sar que quanto mais elevada a renda, maior o à bioenergia, merecendo destaque para o Brasil, onde
acesso aos alimentos e/ou melhor a qualidade existem 90 milhões de hectares de terras disponíveis
das escolhas. Os efeitos exatos dos preços dos (SILVA; CARVALHO, 2002; FAO, 2006).
alimentos sobre a segurança alimentar apre- Com relação ao acesso dos produtores, o es-
sentam certa complexidade analítica. Preços tudo assinala a necessidade de os programas de
elevados devem levar os compradores líquidos bioenergia priorizarem os pequenos produtores, de
forma a alavancar a economia local, ao mesmo tem-
1
Classificação das Nações Unidas que leva em conta: a) baixa renda; b) recursos
humanos; c) vulnerabilidade econômica. po em que se permite que esses produtores tenham
2
Definidos pelas Nações Unidas Low-Income Food-Deficit Countries (LIFDCs). mais acesso aos insumos necessários à produção.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.549-556, jan./mar. 2009 553
Agrocombustíveis, segurança e soberania alimentar: elementos do debate internacional e análise do caso brasileiro

A estabilidade, por seu turno, refere-se ao impacto Some-se a isso o fato de que o regime de plan-
do preço do petróleo na segurança alimentar. Preços tation da cana-de-açúcar já domina algumas das
mais elevados, que implicam aumento nos custos de melhores terras agricultáveis no Brasil. A expansão
produção agrícola, refletindo na diminuição da oferta da monocultura tende a substituir ainda mais terras
de insumos tradicionais, também estimulam o setor produtoras de alimentos em favor da produção de
de agrocombustíveis e a consequente demanda por agroenergia, visando principalmente ao lucro. No
cultivos agrícolas destinados à bioenergia. Brasil, a produção de cana-de-açúcar tem dominado
Enfatiza-se que a produção de bioenergia pode as áreas dos assentamentos de Reforma Agrária, de
reduzir a disponibilidade de água para outras cultu- comunidades tradicionais e de outros setores do agro-
ras e também para o consumo doméstico. O rela- negócio, como a pecuária (PAULILLO et al., 2007).
tório alerta, ainda, que a produção de certos tipos Nesse contexto, faz-se necessária uma breve
de agrocombustíveis – como o etanol e biodiesel, distinção entre o etanol produzido no Brasil e nos
obtidos da cana-de-açúcar e óleo de palmeiras, Estados Unidos. Enquanto no Brasil o etanol é
respectivamente – consomem mais água do que produzido da cultura da cana-de-açúcar, nos EUA
outros, produzidos a partir de milho e de mamona ele tem sido produzido do milho, num procedimento
(PONTES QUINZENAL, 2007). menos eficiente em termos de balanço energético e
A indústria brasileira de etanol merece particular econômico. Segundo dados da consultoria Agrocon-
ênfase na análise do debate internacional pelo fato sult, o custo de produção de um litro de etanol no
de que o etanol é o único agrocombustível produzido Brasil é de cerca de US$0,33 enquanto nos Estados
de maneira competitiva. Unidos esse custo é de aproximadamente US$0,60
A Comissão Pastoral da Terra e a Rede Social (HOFFMANN, 2006; OLIVA; MIRANDA, 2008).
de Justiça e Direitos Humanos (2007), referindo-se Hoffmann (2006) argumenta que, ao pressionar a
às consequências deletérias da indústria dos agro- oferta mundial de safras comestíveis, o aumento da pro-
combustíveis ao meio ambiente, argumentam que, dução de etanol terá como consequência imediata a ele-
no caso do etanol produzido a partir da cana-de- vação de preços tanto para os alimentos industrializados
açúcar, o cultivo e o processamento da cana poluem como para os alimentos básicos em todo o mundo.
o solo e as fontes de água potável, já que usam
Os agrocombustíveis terminam por amarrar
intensamente tecnologias bioquímicas e produzem os preços da comida e os do petróleo de uma
grandes quantidades de vinhaça como resíduo do maneira que pode perturbar, profundamente, o
processo produtivo. relacionamento entre os produtores e os con-
Aliado a isso, para facilitar a colheita da cana são sumidores de alimentos, e entre as nações, nos
realizadas as queimadas que, segundo a Comissão próximos anos, o que acarreta implicações po-
Pastoral da Terra e a Rede Social de Justiça e Direi- tencialmente devastadoras tanto para a pobreza
no mundo quanto para a segurança alimentar.
tos Humanos (2007, p. 11):
(HOFFMANN, 2006, p. 2).
[...] servem para facilitar o trabalho da colheita,
além do fato que, quando se corta a cana quei- Em relação ao caso brasileiro, é habitual rela-
mada, a mão-de-obra é mais barata. Porém cionar-se a insegurança alimentar com a pobreza,
essa prática destrói grande parte dos microor- apesar do país apresentar um superávit na produção
ganismos do solo, polui o ar e causa doenças de alimentos. Conforme Hoffmann (2007, p. 3):
respiratórias. O processamento da cana nas
usinas também polui o ar através da queima A quantidade de alimentos produzida [no Brasil]
do bagaço, que produz fuligem e fumaça. O supera com folga as necessidades de sustento da
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais população do país. Dados da Pesquisa Nacional
tem decretado estado de alerta na região dos por Amostras de Domicílios (PNAD) de 2004
canaviais em São Paulo (maior produtor de mostram que 6,5% dos domicílios (com 7,7%
cana do país) porque as queimadas levaram das pessoas) sofrem de insegurança alimentar
a umidade relativa do ar a atingir níveis extre- grave, fortemente associada ao baixíssimo valor
mamente baixos, entre 13% e 15%. do rendimento destas pessoas.

554 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.549-556, jan./mar. 2009
Giminiano José dos Santos, Luana Ladu, Henrique Tomé da Costa Mata,
Gilca Garcia de Oliveira, Guiomar Inez Germani, Vitor de Athayde Couto

É importante ter em mente, como argumenta Mor- de florestas plantadas também sofreria redu-
celi (2006), que o crescimento da indústria do etanol ções [...] de cerca de 5% no Brasil. (GURGEL,
é uma forma de crescimento econômico com possí- 2008, p. 412).

vel geração de novos empregos e renda. Segundo Nota-se que as discussões a respeito da segu-
ele, seria improvável que os eventuais aumentos nos rança alimentar na literatura corrente estão quase
preços dos alimentos tenham efeitos que anulem ou sempre relacionadas à questão e natureza da
superem os benefícios do crescimento econômico implantação da indústria dos agrocombustíveis; o
associado à indústria dos agrocombustíveis. Natural- problema da segurança alimentar parece, assim,
mente, esse tipo de análise tem inúmeras limitações ter surgido em simultaneidade com a emergência
quando se discutem as dimensões da sustentabili-
desse tipo de indústria. Se fosse assim, seria corre-
dade de um programa de desenvolvimento desta
to afirmar que a insegurança alimentar é um tema
natureza, pois se percebem tão-somente nuanças
novo, o que seria uma incoerência. A preocupação
da dimensão de análise econômica. Além disso, a
com a segurança alimentar é antiga; só para citar
qualidade dos empregados possivelmente gerados
um exemplo longínquo, pode-se resgatar a discussão
é questionável, haja vista as graves denúncias de
acerca das vantagens e desvantagens da liberdade
trabalho escravo no cultivo de cana-de-açucar e
do comércio, já em 1776, quando Adam Smith for-
algodão, especificamente.
malizou os argumentos dos ganhos de comércio e
Gurgel (2008), baseado em estudos realiza-
dos por Hertel, Tyner e Birur (2008)3, sumariza os propôs interromper o protecionismo à agricultura e
impactos das políticas de estímulo à produção de buscar provisões onde os custos de produção fos-
biocombustíveis sobre o uso da terra e cobertura sem mais reduzidos4.
vegetal, num horizonte de menos de dez anos, em
diversos países, dentre eles o Brasil. Como resultado CONSIDERAÇÕES FINAIS
dos estudos, sugere-se que deverão ocorrer grandes
alterações na paisagem agrícola e organizações A partir de breve revisão destinada a refletir so-
de produção nos países e regiões, com importante bre alguns elementos do dilema da emergência dos
diminuição das áreas de pastagens e de florestas agrocombustíveis e da necessidade de se garantir a
plantadas. Fica ainda evidenciado que a produção de soberania alimentar, foi possível identificar posições
biocombustíveis em larga escala deve trazer desafios argumentativas de alguns agentes na arena nacional
consideráveis em termos de mudanças no uso da e internacional, e foram feitas considerações sobre
terra e competição entre diferentes usos agrícolas aspectos restritivos e favoráveis à indústria dos
do solo. De acordo com os autores, essas políticas agrocombustíveis inseridos na perspectiva do debate
levariam ao aumento de cerca de 18% na produção sobre a política de segurança e soberania alimentar
de biocombustíveis no Brasil. No país, a produção e meio ambiente.
de oleaginosas e cana-de-açúcar cresceriam, res- A análise circunscrita neste artigo revelou os ele-
pectivamente, 21% e 8% (GURGEL, 2008). mentos restritivos associados aos agrocombustíveis
como fator de impacto ao aumento da insegurança
No Brasil, a área cultivada com cana-de-
alimentar. O crescimento industrial já revela a neces-
açúcar deveria crescer 4% e com sementes
oleaginosas aumentaria 16%. A mudança
sidade dos esforços para a redução das emissões de
na cobertura vegetal total, segundo esses gases de efeito estufa. A implementação da indústria
autores, implicaria aumentos de 1% na área dos agrocombustíveis nesta década pode ainda ser
de culturas [...] de 2% no Brasil, enquanto as encarada como um momento transitório na busca
áreas de pastagens reduziriam [...] 6%. A área de soluções energéticas.
O momento requer a formulação de estratégias
Na realização desse estudo os autores lançaram mão de um modelo econômico de
sólidas com a participação dos diferentes agentes
3

Equilíbrio Geral que leva em consideração as interações entre mercados de alimentos e


de energia. A avaliação dos impactos é feita no horizonte de tempo compreendido entre
2006 e 2015. A área de estudo foi dividida em três regiões/países, a saber: EUA, União
Europeia e Brasil. Como se pode notar, ao contrário do que é proposto no presente artigo, 4
Para maiores detalhes sobre a questão da segurança alimentar e o comércio exterior,
não é feita uma clara distinção entre os biocombustíveis e os agrocombustíveis. pode-se consultar o trabalho de Silva e Carvalho (2002).

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.549-556, jan./mar. 2009 555
Agrocombustíveis, segurança e soberania alimentar: elementos do debate internacional e análise do caso brasileiro

envolvidos, visando ao aproveitamento das poten- HERTEL, T. W.; TYNER, W. E.; BIRUR, D. K. Biofuels
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556 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.549-556, jan./mar. 2009
Juan Algorta Plá

Bahia
análise & Dados

Economia e preservação do meio


ambiente no Brasil: a contribuição
dos biocombustíveis
Juan Algorta PláA

Resumo Abstract
O artigo descreve os impactos da industrialização sobre a po- This article describes the impacts of industrialization on
pulação e sobre o meio ambiente. Aborda-se a problemática da the population and environment. The problem of growing
crescente utilização de energia como condição sine-qua-non para energy use is addressed as a sine qua non condition for the
o processo de desenvolvimento industrial, assim como para a sa- industrial development process, as well as satisfying the
tisfação das necessidades básicas de todos os cidadãos. Os com- basic needs of all citizens. Fossil fuels (oil and charcoal)
bustíveis fósseis (petróleo e carvão) constituíram a principal fonte formed the principal energy source during the 19th and 20th
de energia ao longo dos séculos XIX e XX. Analisa-se a estratégia centuries. Brazil’s strategy to circumvent the oil crisis at the
do Brasil para contornar a crise do petróleo no início da década de beginning of the 1970s and again at the end of this decade
1970 e, novamente, ao final dessa década. Discute-se o impac- is analyzed. The environmental impact of using fossil
to ambiental da utilização de combustíveis fósseis, a elevação da fuels, increased concentration of atmospheric CO 2 and the
concentração do CO2 atmosférico e sua consequência, o aqueci- consequence, global warming, are discussed. The possible
mento global. Analisa-se a possível contribuição dos biocombus- contribution of biofuels to challenge the greenhouse effect is
tíveis para enfrentar o efeito estufa e discute-se algumas outras analyzed and other strategies for Brazil to take part in this
estratégias para o Brasil participar desse esforço universal. universal effort are considered.
Palavras-chave: Industrialização. Demografia. Impacto Keywords: IIndustrialization. Demography. Environmental
ambiental. Utilização da energia. Efeito estufa. Aquecimento impact. Energy use. Greenhouse effect. Global warming.
global. Biocombustíveis. Biofuels.

INTRODUÇÃO zas da pequena agricultura, ao mesmo tempo em


que se aproximavam dos centros de serviços, onde
As transformações vivenciadas pelo mundo no
a interação social seria mais intensa e os serviços
século XX levantaram expectativas de uma vida
estariam mais facilmente ao alcance dos cidadãos.
melhor para grandes massas de cidadãos. No Brasil
Por essa época as taxas de natalidade eram muito
não foi diferente e, a partir da Revolução Nacional
altas, mas as taxas de mortalidade também o eram,
de 1930, iniciou-se a caminhada da industrialização
resultando de sua interação a estabilidade numérica
acelerada e do desenvolvimento econômico.
da população.
Ao longo do processo de industrialização, gran-
O trabalho feminino assalariado nas cidades
des grupos de população rural transferiram-se para
era necessário do ponto de vista das economias
as cidades, na proximidade das novas fábricas,
domésticas, que deviam pagar aluguel, além de
onde esperavam encontrar oportunidades de traba-
ficar submetidas ao bombardeio da propaganda
lho assalariado. O objetivo era escapar das incerte-
comercial consumista. Do ponto de vista do setor
A
PhD pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande comercial, essa nova mentalidade era muito impor-
do Sul (UFRGS); mestre pela Universidade de Wisconsin, EUA; graduado em engenheiro
agrônomo pela Universidade da República (UR), Uruguai; professor adjunto da UFRGS. tante porque, além de aumentar a oferta de mão de

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.557-571, jan./mar. 2009 557
Economia e preservação do Meio Ambiente no Brasil: a contribuiçao dos Biocombustíveis

obra, permitindo manter baixos os salários, amplia- própria de petróleo na quantidade necessária para
va a capacidade de compra das famílias. atender as necessidades da indústria de transfor-
A urbanização da população exigiu que os ali- mação e do setor de transportes, devendo importar
mentos e as matérias-primas industriais fossem os combustíveis derivados do petróleo.
transportados desde as regiões de produção até Em síntese, a sociedade tinha mudado subs-
as novas cidades industriais, tancialmente em função da
enquanto as manufaturas Em síntese, a sociedade tinha industrialização. O resultado
deveriam percorrer o caminho mudado substancialmente em função foi uma população urbana,
inverso, das fábricas até os da industrialização. O resultado muito numerosa (de massas),
diversos centros de consu- foi uma população urbana, muito com hábitos de consumo mo-
mo. O consumidor urbano numerosa (de massas), com hábitos dernos e abertos ao comércio
devia comprar todos os seus de consumo modernos e abertos ao interno e internacional. O se-
alimentos, por oposição ao comércio interno e internacional tor transporte tinha adquirido
morador de regiões rurais, uma importância estratégica
que produzia, ele mesmo, grande parte dos bens no contexto da sociedade industrializada. A im-
consumidos. Como resultado da industrialização e plantação de novos empreendimentos industriais
da urbanização, o setor de transporte adquiriu uma permitia manter um nível de investimento alto e,
importância estratégica de primeira magnitude. assim, manter o nível de emprego. Os setores li-
O crescimento populacional foi reforçado oca- gados aos serviços burocráticos, de comércio, de
sionalmente, pela imigração de trabalhadores es- financiamento e seguros, adquiriram progressiva
trangeiros. A indústria teve, assim, o benefício da importância.
oferta abundante de mão de obra, o que contribuiu
para manter os salários em níveis moderados,
A INDUSTRIALIZAÇÃO NO BRASIL
possibilitando a manutenção dos custos em níveis
baixos, como fundamento da competitividade indus- Como consequência da Grande Depressão
trial. Os lucros do capital permaneceram elevados, de 1930, os preços das matérias-primas e dos
estimulando o investimento. Houve, no entanto, alimentos que o Brasil exportava aviltaram-se no
certo aumento da capacidade de compra dos con- mercado externo, o que dificultou a manutenção
sumidores, que ficou evidenciado pela progressiva das correntes de importação e do equilíbrio do
elevação do PIB por habitante. balanço de pagamentos. As atenções se voltaram
A rápida expansão do consumo interno gerou as para a produção de combustíveis de origem agrícola
condições para a expansão industrial, estimulando no Brasil, o que determinou que se começasse a
os novos investimentos. O setor bancário também adicionar álcool na gasolina.
jogou papel importante na expansão do consumo, A partir da Grande Depressão, o governo teve
através do financiamento dos consumidores, ofe- uma participação importante como incentivador da
recendo diversos planos de crédito de consumo, industrialização através das empresas estatais ou
assim contribuindo para reforçar os mecanismos dos programas de financiamento dos investimentos
que geravam a demanda. privados. A aceleração das atividades produtivas
A manutenção dos custos de produção em níveis refletia-se na intensificação da produção industrial,
baixos, associada com a abundância da mão de do comércio e do setor de transporte.
obra e com os salários baixos, era necessária para O Brasil foi um dos primeiros países a se recu-
permitir a formação de expectativas favoráveis por perar dos efeitos da Grande Depressão, em função
parte dos empresários, assim estimulando-os para o das políticas fiscais e monetárias expansivas utili-
investimento. A disponibilidade de energia a preços zadas. Destaca-se a estratégia da industrialização
baixos era outra das condições para viabilizar o como forma de contornar a escassez de produtos
processo de industrialização. O Brasil, no entanto, manufaturados importados. Dentre essas políticas
não dispunha, por essa época, de uma produção destaca-se a compra das enormes safras de café,

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Juan Algorta Plá

que o Estado adquiria com a finalidade de estabilizar Na década de 1990, estava-se completando a tran-
o preço que os cafeicultores recebiam. Essas safras sição demográfica, em que a população tende para a
não encontravam mercado e, em parte, deveriam ser estabilização depois de uma fase de rápida expansão
destruídas. As compras de álcool para misturar com (BRITO, 2007). Interessa ressaltar que este processo
a gasolina tiveram uma justificativa semelhante. de transição demográfica está associado ao processo
Na década de 1930, começou-se a aplicar uma de industrialização. Trata-se de um processo muito
estratégia de produzir internamente diversos artigos vagaroso, em que as variáveis se ajustam ao longo de
manufaturados que vinham sendo importados. Foi muitos anos. A partir da década de 1990, a população
o processo de industrialização por substituição de continuou sua expansão, porém a taxas menores,
importações, que deveria ser mantido por várias apontando para uma futura estabilização.
décadas, determinando a transformação da estrutura Durante a transição demográfica, a população não só
social, econômica e política do Brasil. expandiu como mudou a estrutura etária: a proporção de
crianças caiu sensivelmente. A redução da mortalidade
infantil, atribuível às causas acima referidas, permitia que
IMPACTOS DA INDUSTRIALIZAÇÃO SOBRE O
expectativa de vida dos recém-nascidos aumentasse.
TAMANHO E A ESTRUTURA DA POPULAÇÃO
A pirâmide populacional estreitou sua base, ao mesmo
Ao dar início o processo de industrialização, a tempo em que alargava os estratos mais elevados. A ur-
população começou a abandonar o meio rural e a banização significou uma diversificação e uma ampliação
transferir-se, em grandes quantidades, para as ci- da demanda de bens de consumo de todos os tipos.
dades. A causa dessa migração interna era, por um A oferta de bens de consumo foi permanentemente
lado, a falta de oportunidades de emprego no meio adaptada, em sua diversidade, para acompanhar a de-
rural, em função da mecanização das tarefas de manda agregada, assim evitando a inflação de preços,
produção, e, por outro, a atração das oportunidades o que nem sempre foi conseguido. A demanda esteve
de emprego no novo setor industrial. determinada pelo número de cidadãos e pela capaci-
A cidade oferecia, junto à segurança do regime dade de compra do cidadão médio. Cada vez que a
de salário, acesso a melhores moradias, serviços de demanda aumentava e a oferta buscava adequar-se,
assistência à saúde, oportunidades de educação para aumentava também a demanda de energia. Os setores
a juventude e de interação social, assim como os bene- de transporte e de processamento industrial constituíram
fícios da previdência social para os maiores. A melhora os principais responsáveis pela demanda por combustí-
nos serviços sanitários, especialmente a infraestrutura veis, bem à frente da demanda doméstica de energia.
de esgoto, a rede de água encanada e os programas de A atividade industrial passou a gerar rejeitos e
vacinação significaram um progresso considerável nas resíduos em proporção aproximada aos volumes pro-
expectativas de vida. As taxas de mortalidade sofreram duzidos. Alguns desses rejeitos começaram a interferir
queda após queda ao longo de várias décadas. com a eficiência das atividades produtivas ou com o
Como a população manteve suas antigas taxas bem-estar das populações, oportunizando situações
de natalidade elevadas, começou a haver uma ex- inconvenientes para a manutenção do nível de bem-
pansão demográfica muito acelerada, que se man- estar social (degradação ambiental).
teve entre as décadas de 1930 e de 1970 (explosão
demográfica). A partir da década de 1960 começou, Tabela 1
População Brasil – 1940/1980
no entanto, o recuo das taxas de natalidade, causado
(em milhares de pessoas)
principalmente pelos novos hábitos da população Ano População
urbanizada, que apresentava elevada incidência do 1940 41236
trabalho feminino fora do lar. Os casais começavam 1950 51944
a controlar a natalidade, já que a disciplina do traba- 1960 70070
lho assalariado colidia com a atenção exigida pelas 1970 93139
novas gerações. Assim, começou a ser frequente 1980 119003
encontrar famílias com um ou dois filhos. Fonte: LACERDA et al. Economia Brasileira. Saraiva, 2005.

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Economia e preservação do Meio Ambiente no Brasil: a contribuiçao dos Biocombustíveis

Alguns casos dramáticos dessa degradação habitante), e ao tipo de tecnologia que a sociedade
ambiental são mencionados por Baer, 1995: está habituada a utilizar.
• a poluição da água na Baía de Guanabara; O impacto ambiental do desenvolvimento fica
• a poluição do ar em São Paulo; bem representado pelo modelo de Ehrlich, em
• a tragédia do Vale do Cubatão; que I (impacto) é igual ao produto PRT, em que
• o caso da celulose e do papel em Porto P é a população, R é a renda da população e T é
Alegre; a tecnologia.
• a poluição em Camaçari (petroquímica) e em De um lado, as atividades de produção utilizam
Carajás (mineração). recursos naturais que, muitas vezes, não são renová-
Para os próximos anos espera-se que a po- veis. De outro lado, essas atividades geram rejeitos,
pulação brasileira continue sua expansão, com às vezes sólidos, às vezes líquidos e outras vezes
estabilização prevista só a partir de 2040. gasosos, que se acumulam por períodos variáveis
até sua eventual degradação. Em alguns casos, os
rejeitos podem ter um período de vida muito longo,
Tabela 2 até sua natural degradação e absorção pelo meio, o
População do Brasil (dados históricos e projeção)
1980/2050 que causa a acumulação de quantidades enormes
(em milhares de pessoas) (ex.: pneus velhos).
Ano População A degradação ambiental causada por atividades
1980 118563 de produção contribui para elevar progressivamente
1990 146593 os custos, podendo chegar a inviabilizar o pros-
2000 171280 seguimento dessas atividades. No entanto, existe
2008 189613
consenso em que, se praticadas dentro das normas
2020 207143
técnicas e respeitando as disposições vigentes, as
2030 216410
atividades de produção ocasionam efeitos ambien-
2040 219075
tais que podem ser administrados.
2050 215287
A atitude mais razoável é a de buscar a minimiza-
Fonte: IBGE.
ção dos efeitos indesejados, o que pode ser alcança-
do através da utilização de tecnologias adequadas.
A questão que se coloca é a de como fazer para A preservação dos recursos naturais acarreta custos
garantir o nível de bem-estar dessa população tão adicionais, porém esses gastos são necessários para
numerosa sem sobrecarregar o meio ambiente, manter a produtividade dos recursos.
causando consequências irreparáveis de degra-
dação ambiental.
DISPONIBILIDADE DE ENERGIA COMO
Parece evidente que o país deve adotar políticas,
CONDIÇÃO PARA A INDUSTRIALIZAÇÃO
pelo menos de opinião pública, de controle da nata-
lidade, na tentativa de estabilizar, o quanto antes, o A disponibilidade de energia, abundante e bara-
tamanho da população. ta, é uma condição para manter os programas de
desenvolvimento industrial. Os setores que mais
demandam energia são os setores de manufatura
INDUSTRIALIZAÇÃO E MEIO AMBIENTE
e de transporte. Os usuários domiciliares também
As atividades de produção, com muita frequência, contribuíram para aumentar a demanda global de
são causa de graves efeitos sobre o meio ambiente energia, principalmente para iluminação, acondi-
(efeitos antrópicos). Esses efeitos podem ser mi- cionamento térmico das moradias, conservação de
nimizados, porém eles não podem ser totalmente alimentos e para transporte pessoal.
evitados. Em geral, os efeitos antrópicos se con- A agricultura moderna, por utilizar quantidades
sideram associados ao número de cidadãos e ao maciças de fertilizantes e de água para irrigação,
poder de consumo de cada um deles (renda real por é outro setor muito demandante de energia. Já a

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Juan Algorta Plá

agricultura familiar, realizada com base no emprego No entanto, os fatores especulativos, que obede-
intensivo de mão de obra, é menos produtiva em cem às expectativas dos agentes econômicos, têm
termos de rendimento agrícola, mas é muito mais uma gravitação importante no caso dos derivados do
eficiente do ponto de vista energético. petróleo, como também de outras matérias–primas,
A crise dos combustíveis no início dos anos especialmente no curto prazo.
1970, com a elevação dos preços do petróleo e Assim, os produtores industriais ou agrícolas não
seus derivados, teve um impacto desestabilizador necessitam consultar diretamente os consumidores,
sobre os programas de desenvolvimento industrial. nem combinar entre si quanto devem produzir de
A necessidade de continuar importando os com- cada produto. Essa coordenação se estabelece
bustíveis encarecidos causou dificuldades para o através do mecanismo dos preços, em forma auto-
equilíbrio do balanço de pagamentos. A vida nas mática, como ajustes progressivos, em um processo
cidades tinha ficado cada vez mais dependente do de tentativa e erro. A determinação do preço de
consumo de energia, com o que se apresentava equilíbrio leva algum tempo, durante o qual as condi-
a necessidade de importar cada vez maiores vo- ções podem variar, especialmente por flutuações na
lumes de petróleo. demanda, já que a oferta, por depender dos custos
A elevação dos preços dos combustíveis de- de produção, apresenta maior estabilidade.
sestabilizou os programas de desenvolvimento, No entanto, na prática existem fatores especu-
causando desemprego, inflação e déficit no balanço lativos que mascaram o comportamento teórico da
de pagamentos. A correlação entre desenvolvimento oferta e da demanda. Os intermediários aumentam
econômico e uso de energia é positiva, ainda que não seus estoques de produtos toda vez que esperam que
seja rígida, já que existe variabilidade na eficiência o preço venha a subir no futuro. É a expectativa de
com que a energia é utilizada. obter uma taxa de benefício maior que a taxa de juros
Observamos na tabela a seguir que se espera vigente, o que motiva as aquisições especulativas.
uma reestruturação da demanda setorial de energia A disponibilidade de créditos de consumo facilita
no Brasil até o ano 2030: a indústria perderia alguns as aquisições, favorecendo a expansão da demanda
pontos percentuais, enquanto o setor de serviços efetiva. Por outra parte, a informação que os agentes
ganharia algumas posições. possuem está longe de ser perfeita, sendo que eles
devem, de qualquer forma, tomar decisões econô-
Tabela 3 micas de produção ou de comercialização. Nesse
Estrutura setorial da utilização de energia no contexto altamente volátil, das expectativas de lucro,
Brasil – 2005/2030
%
acaba-se determinando o volume que finalmente
Ano
será produzido.
Setor
2005 2010 2020 2030 Em relação aos combustíveis fósseis, observa-
Agricultura 8,4 8,9 8,8 8,8 mos que os mercados estão longe de ser perfeitos,
Indústria 40 40,2 38,5 36,7 sendo que na formação do preço há predominância
Serviços 51,6 50,9 52,7 54,5 das barganhas entre oligopólios. Durante muitos
Fonte: Matriz Energética Nacional/PNE-2030. anos, entre 1900 e 1973, os preços do petróleo foram
mantidos artificialmente baixos pela pressão das
FORMAÇÃO DOS PREÇOS DOS
companhias transnacionais, o que desestimulou o
COMBUSTÍVEIS
desenvolvimento de combustíveis alternativos.
O mecanismo dos preços permite que os volumes Esse comportamento era possível porque a
produzidos, de qualquer manufatura, sejam exatamente oferta era controlada por governos autoritários, que
os volumes que os consumidores finais podem consu- se curvavam às exigências dos compradores estran-
mir. Uma demanda final insatisfeita pressiona os preços geiros. Por outra parte, esses governos adotavam
para cima, o que estimula a produção de volumes maio- as decisões em forma isolada. A oferta, nessas con-
res, eventualmente conduzindo à igualação da oferta dições, não tinha nenhuma relação com os custos
com a demanda e à estabilidade dos preços. de produção.

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Economia e preservação do Meio Ambiente no Brasil: a contribuiçao dos Biocombustíveis

Em 1970, os produtores conseguiram se organi- mudança foi a restrição das atividades de extração
zar em um cartel e passaram a barganhar com as do óleo cru que acompanhou a Guerra dos Seis dias
companhias petroleiras para obter melhores preços. e a organização do cartel da OPEP, evento que ficou
No fim da Guerra dos Seis Dias, os produtores de conhecido como Primeiro Choque do Petróleo. Os
petróleo, via Organização dos Países Exporta- países que se encontravam conduzindo processos
dores de Petróleo (OPEP), de industrialização sofreram o
encontraram a oportunidade Por volta de 1970, o mundo abalo da elevação dos custos
que procuravam de controlar entrou numa nova fase de e deveriam adaptar suas eco-
a produção para elevar os desenvolvimento: a energia, antes nomias para as novas condi-
preços do petróleo. A forte barata, passou a ser escassa e cara ções de preços da energia.
elevação dos preços deter- A estratégia adotada pelo
minou que os importadores de petróleo aplicassem Brasil frente às dificuldades com o abastecimento
algumas estratégias de bom senso, como buscar de combustíveis teve diversos componentes: por um
uma utilização mais eficiente dos combustíveis, ou lado, buscou-se racionalizar o uso dos combustíveis
incentivar a prospecção de novas fontes de abas- derivados do petróleo, que nos anos 1970 ainda
tecimento, assim como pesquisar novas formas de eram importados em uma proporção relevante.
obter a energia necessária para estimular as ativi- Dentre as medidas de racionalização do uso, figurou
dades industriais. a proibição de venda de combustíveis nos finais de
Frente às elevações nos preços do petróleo, o semana, com o que se pretendia desencorajar as
Brasil decidiu desenvolver a produção de combus- longas viagens por motivos de passeio. Os fabri-
tíveis de origem agrícola, para o que contava com cantes de carros deviam respeitar limites máximos
longa experiência na produção de álcool, além de para a capacidade dos tanques de combustível dos
vantagens naturais importantes, que permitiram seus modelos, o que correspondia a uma orientação
produzir combustíveis em forma cada vez mais inspirada no racionamento ao consumo.
competitiva, à medida que os preços do petróleo Outra orientação estratégica foi a de incentivar a
aumentavam. busca de combustíveis alternativos, que pudessem
Os mercados de petróleo e derivados apresentam reduzir a dependência do petróleo importado. Vários
elevada instabilidade de preços, o que resulta muito projetos de geração de eletricidade a partir da força
inconveniente para os usuários, que deveriam reali- dos rios, que tinham permanecido em estudo desde
zar permanentes ajustamentos nos seus programas muitos anos, encontraram condições para sua exe-
e estratégias de desenvolvimento. Por serem insu- cução nessa oportunidade.
mos básicos de muitos processos, a flutuação dos Alguns desses projetos apresentaram dimensões
preços dos combustíveis prejudica a vida econômica monumentais, como a usina de Itaipu, que é uma das
dos países. No Brasil, a Petrobras absorve essas maiores do mundo. Essa estratégia levou o Brasil a
flutuações de curto prazo e só repassa os aumentos ser um dos países com maior participação da energia
de preços para os consumidores quando considera hidrelétrica no total de energia utilizado.
que houve uma mudança de patamar. Outros componentes da estratégia para contornar
A lei 9.478/97 abriu o mercado de combustíveis a crise incluíram intensificação da busca de petróleo
à concorrência internacional, do que resultou a con- e o desenvolvimento de novos combustíveis com
vergência dos preços internos e internacionais dos base em produtos agrícolas. Essas iniciativas foram
derivados do petróleo (BRASIL, 2008). bem sucedidas e, no longo prazo, trouxeram bene-
fícios importantes.
A partir do tradicional cultivo da cana-de-açúcar,
A CRISE DOS PREÇOS DO PETRÓLEO
foi desenvolvido o programa de produção de etanol
Por volta de 1970, o mundo entrou numa nova (Proálcool), que buscava substituir a gasolina auto-
fase de desenvolvimento: a energia, antes barata, motiva e que, com o tempo, chegou a ser o maior
passou a ser escassa e cara. O estopim dessa programa de biocombustiveis na escala mundial.

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Juan Algorta Plá

Também foi tentada a substituição de outros combus- diversos efeitos prejudiciais que eles poderiam causar,
tíveis, como o diesel, através de um programa espe- até que eles adquiriram um nível tal que já não mais
cífico (Proóleo), que tinha como objetivo aproveitar podiam passar despercebidos. O relatório de ava-
diversos óleos vegetais, alguns deles muito abun- liação do IPCC de 2001 indicava que havia elevada
dantes no Brasil. No entanto, não foi fácil encontrar probabilidade de que diversos distúrbios climáticos
substitutos adequados para o estivessem relacionados com
óleo diesel. Esta iniciativa en- Foi só na década de 1980 que o elevado nível de emissões
controu dificuldades técnicas começou a difundir-se, em nível de gases.
e econômicas que exigiriam mundial, a consciência dos
ainda maiores pesquisas e problemas ambientais associados
à industrialização CONTROLE DO EFEITO
investimentos.
ESTUFA
Paralelamente, houve es-
forços dirigidos para o aproveitamento de resíduos Em condições normais, a energia que chega
orgânicos de diversas naturezas na produção de do Sol é parcialmente aproveitada na Terra,
biogás através da fermentação anaeróbica. No en- existindo um excedente que, normalmente, é
tanto, a produção de biogás encontrou dificuldades irradiado de volta para o espaço. A energia solar
oriundas tanto da falta de tecnologias adequadas é essencial para a manutenção da vida na Ter-
como da inexistência de cadeias de produção e de ra, já que permite a realização da fotossíntese,
comercialização específicas. A energia nuclear tam- processo bioquímico de construção de tecidos
bém mereceu atenção, conduzindo a um acordo do vegetais a partir do CO 2 e da água, que acontece
Brasil com a Alemanha para a construção da primeira nas folhas das plantas. Nesse processo, a luz
usina de Angra dos Reis. solar é captada pelo pigmento verde clorofila,
permitindo a reação química entre o CO 2 e a
água para a formação de diferentes moléculas
IMPACTOS AMBIENTAIS DO
orgânicas.
DESENVOLVIMENTO
No entanto, a energia que chega à Terra não
Foi só na década de 1980 que começou a é aproveitada na sua totalidade, surgindo um
difundir-se, em nível mundial, a consciência dos excedente que deve ser irradiado de volta para o
problemas ambientais associados à industria- espaço. No caso em que a irradiação dos exce-
lização. Não existe a possibilidade de produzir dentes não se produza com a suficiente rapidez,
manufaturas sem causar impactos ambientais acontece elevação da temperatura na superfície
de diversos tipos (efeitos antrópicos), mas tais (efeito estufa). A proporção dos diversos gases
impactos podem ficar ocultos por longos anos, na atmosfera determina a facilidade com que a
especialmente nos casos em que os níveis da irradiação acontece. Os gases que dificultam
atividade causadora permanecem baixos. a irradiação dos excessos de energia, assim
A acumulação de resíduos dos processos in- contribuindo para o aquecimento global, são: o
dustriais, ou dos próprios produtos manufaturados CO 2, ou gás carbônico; o CH 4, ou gás metano;
no final de sua vida útil, pode causar inconve- o N 2O, ou óxido nitroso; o SO 2, ou óxido de
nientes para o prosseguimento das atividades enxofre; e os CFC’s, ou clorofluorcarbonetos; e
de produção, especialmente se os rejeitos suca- os HCFC, ou hidroclorofluorcarbonetos, segun-
teados se acumulam até descaracterizar o meio do o Plano Nacional de Combate às Mudanças
ambiente. Alternativamente ao sucateamento, Climáticas (PNMC), lançado em setembro de
encontramos diversas tentativas de aproveita- 2008 no Brasil.
mento desses rejeitos como insumos de outras A acumulação de CO 2 é considerada como a
atividades produtivas. principal causa do aquecimento global, já que
Os resíduos industriais gasosos vinham sendo ele é o mais abundante desses gases, visto que
lançados na atmosfera, sem preocupações pelos se origina na respiração de todos os seres vivos

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.557-571, jan./mar. 2009 563
Economia e preservação do Meio Ambiente no Brasil: a contribuiçao dos Biocombustíveis

e em todos os processos de combustão que a incidência de períodos de seca, com tempe-


humanidade conduz. As quantidades de CO2 lan- raturas muito elevadas, causando a perda de
çadas anualmente na atmosfera são enormes. colheitas, assim como a eclosão de incêndios
O CO2 faz parte da atmosfera desde o início do florestais. No entanto, a mais conhecida mani-
mundo. A fotossíntese é um dos mecanismos natu- festação do aquecimento global é o derretimen-
rais para a retirada do CO2 da to de geleiras nas proximi-
atmosfera. Outros processos A manutenção de um difícil dades dos polos terrestres,
naturais que também retiram equilíbrio entre a atividade com a elevação do nível do
CO2 atmosférico são as ativida- industrial e o controle do efeito mar ameaçando inundar as
des das algas microscópicas e estufa exige a utilização de terras ribeirinhas.
a erosão química das rochas. combustíveis alternativos Paradoxalmente, o aqueci-
A partir da Revolução In- aos derivados do petróleo mento global intensifica as que-
dustrial, tem havido um pro- e do carvão das da temperatura no inverno.
cesso de elevação da concen- As flutuações muito bruscas da
tração do CO2 na atmosfera devido às atividades temperatura são causa de tormentas com ventos muito
do homem. Em função dessa elevação, têm-se fortes, que provocam destruição e inundações.
registrado elevações na temperatura média da A instabilidade climática inclui, nos verões, a
Terra, conhecidas como aquecimento global. Nos incidência de períodos de seca. O ar mais quente
últimos anos, esse processo tem-se intensificado é causa de uma evaporação muito rápida da água
em função da expansão do consumo humano: um do solo, fazendo com que as culturas alimentares
maior número de pessoas consumindo, cada uma, sofram queda do rendimento pela desidratação. A
em média, quantidades maiores de bens causam Embrapa tem estimado que as principais culturas
a expansão da demanda global. comerciais no Brasil poderão sofrer sérios prejuízos
No Brasil, a principal fonte de emissões de CO2 com as secas, algumas delas chegando à inviabili-
são as queimadas florestais, responsáveis por 75% zação nas suas áreas tradicionais.
das emissões anuais de CO2. O restante, 25%, é A manutenção de um difícil equilíbrio entre a ati-
atribuível à geração de eletricidade em usinas tér- vidade industrial e o controle do efeito estufa exige a
micas, à produção de cimento e às atividades da utilização de combustíveis alternativos aos derivados
indústria siderúrgica. O setor de transporte utiliza do petróleo e do carvão. Papel central nesse esforço
combustíveis fósseis e é responsável por parcela corresponderia, neste momento, aos biocombustíveis,
relevante das emissões de CO2. lado a lado com as fontes conhecidas de “energia
As queimadas florestais têm por objetivo abrir limpa” (hidroeletricidade e energia eólica).
áreas para as atividades do agronegócio. A proibição O aquecimento global estaria conduzindo ao
de praticar novas queimadas vem sendo sistema- derretimento das geleiras, que ameaça elevar em
ticamente desrespeitada. A eliminação da floresta até 14 m o nível dos oceanos. Outros efeitos nega-
é duplamente prejudicial, já que libera grandes tivos do derretimento das geleiras estão associados
quantidades de CO2 e, ao mesmo tempo, elimina a à liberação de grandes volumes de metano, que
coberta vegetal que poderia contribuir para depurar reforça o efeito estufa, assim como a capacidade
o ar do excesso de CO2. Outra função importante de refletir a luz do sol que o gelo possui e da qual
da floresta era a de proteger o solo da erosão pela ficaríamos privados.
água da chuva e pelo vento, ao mesmo tempo em
que melhorava a infiltração da água da chuva.
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E
BIOCOMBUSTÍVEIS
AQUECIMENTO GLOBAL
O processo de industrialização causa prejuí-
O aquecimento global produz diversos efeitos zos ambientais de diversos tipos, que não podem
negativos, dentre os quais mencionamos a maior ser completamente evitados, mas que devem ser

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Juan Algorta Plá

mantidos em níveis tão baixos quanto possíveis, Os combustíveis de origem fóssil (petróleo,
com o objetivo de preservar as qualidades do carvão e gás natural) deverão ser cada vez mais
meio ambiente. O Brasil possui vantagens para substituídos por outros combustíveis que produzam
uma produção ambientalmente amigável. No um efeito estufa menor, já que a utilização dos com-
entanto, essas vantagens nem sempre têm sido bustíveis fósseis constitui uma importante fonte do
aproveitadas. CO2 acrescentado anualmente à atmosfera. O setor
A produção de biocombustíveis, especialmente de transporte é responsável por parcela significativa
do etanol, foi a mola mestre da estratégia esco- do CO2, junto a alguns setores industriais que fazem
lhida pelo Brasil, em função de suas vantagens contribuições importantes.
naturais para a cultura da cana-de-açúcar. Os Há diversas propostas de métodos para capturar
elevados rendimentos agrícolas dessa cultura o CO2 da atmosfera ou retirando-o das chaminés
estão na base da alta eficiência e dos custos das usinas, mas até o presente, eles permanecem
unitários baixos. apenas como ideias interessantes. Visto que o CO2
As previsões do governo do Brasil anteveem é muito estável, ele permanece na atmosfera por
uma reestruturação da matriz energética no sen- longos períodos, acumulando-se de um ano para
tido de uma maior produção de energia, baseada outro. A matriz energética nacional deveria ser cada
na expansão dos biocombustíveis e com menor vez mais limpa, acrescentando menos CO2.
utilização de combustíveis fósseis. Os produtores A utilização de combustíveis de origem agrícola
de açúcar, através da União da Indústria de Cana- deverá permitir que uma parte das necessidades de
de-açúcar (Unica), vem projetando um aumento transporte seja atendida de forma mais responsável,
da produção de cana-de-açúcar até 2020/21, em sem causar acréscimos ao CO2 atmosférico. Efetiva-
que a cana cortada poderá atingir um bilhão de mente, quando se realiza a produção das matérias-
toneladas, o que corresponde à previsão do MME primas agrícolas que darão origem aos combustíveis,
para 2030. há uma fixação de importantes quantidades de CO2
Os acréscimos na produção de cana deverão (fotossíntese), o que funciona como um depurador
destinar-se tanto ao açúcar como ao álcool, para o da atmosfera.
mercado interno ou para a exportação, o que depen- Na fase de utilização dos biocombustíveis (com-
derá da evolução dos preços relativos. bustão), há uma restituição parcial do CO2 que tinha
sido fixado na fase agrícola. A restituição é apenas
parcial, já que há algumas frações do CO2 fixado que
Tabela 4
Estimativas da Produção e da Área Plantada com não são incluídas nos combustíveis: são as frações
Cana-de-Açúcar entre 2007 e 2020 de carbono incorporadas nas raízes, caules e folhas.
2006/07 2010/11 2015/16 2020/21 Esses órgãos dos vegetais são necessários para
Produção de cana 430 601 829 1038
(em milhões de t)
produzir as matérias-primas dos biocombustíveis,
Área cultivada 6,3 8,5 11,4 13,9 mas eles não são retirados do campo em que a
(milhões de ha) cultura for plantada.
Açúcar (milhões de t) 30,2 34,6 41,3 45
É importante ressaltar que a produção de biocom-
Consumo interno 9,9 10,5 11,4 12,1
Excedente para 20,3 24,1 29,9 32,9 bustíveis no Brasil não é concorrente com a produção
exportação de alimentos, já que os biocombustíveis podem ser
Álcool (em bilhões 17,9 29,7 46,9 65,3
obtidos sem ter que reduzir a produção de alimentos
de litros)
Consumo interno 14,2 23,2 34,6 49,6 por falta de terra. Uma área relativamente reduzida
Excedente para 3,7 6,5 12,3 15,7 seria suficiente para produzir os biocombustíveis
exportação
necessários, sempre que os rendimentos por hectare
Bioeletricidade (MW 1400 3300 11500 14400
médio) sejam mantidos em nível alto.
Participação na matriz 3 6 15 15 O etanol de milho é bastante ineficiente, já
elétrica (%)
que ele contém energia utilizável em volume ape-
Fonte: ÚNICA (2007, apud RODRIGUES; MENDONÇA DE BARROS; CARVALHO,
2008). nas 30% acima dos insumos utilizados para sua

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.557-571, jan./mar. 2009 565
Economia e preservação do Meio Ambiente no Brasil: a contribuiçao dos Biocombustíveis

produção, considerando as fases agrícola e indus- várias medidas tendentes a contornar a escassez de
trial. Já o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar combustíveis, dentre as quais se destacam a decisão
contém oito vezes mais energia que os insumos de promover a produção de etanol (Proalcool) para
utilizados. O etanol de celulose poderá fornecer até ser utilizado como combustível automotivo em forma
36 vezes a energia contida nos insumos. A eficiência pura, além de continuar com a mistura com a gaso-
do processo de produção de biocombustíveis pode lina. O poder antidetonante do etanol possibilitava
ser observada através do quociente entre a energia que ele substituísse o chumbo tetraetila na gasolina
contida (EC) no combustível e a energia nos insu- comercial, participando em proporção de até 25%.
mos (EI) ou através da redução dos gases do efeito A utilização do etanol como combustível foi inicial-
estufa (GEE). mente viabilizada pela concessão de subsídios para
a produção. No final da década de 1970, havia uma
Tabela 5 proporção importante de carros movidos a álcool.
Relação da energia contida no biocombustível Em 1979 e 1980 houve novas elevações nos pre-
(EC) para a energia nos insumos (EI) e redução ços do petróleo (Segundo Choque do Petróleo), as
das emissões de gases do efeito estufa (GEE)
que conferiam maior competitividade à produção do
Relação Relação
Tipo de combustível etanol, consolidando o Proálcool. A indústria automo-
EC/EI GEE
bilística prestou seu apoio ao desenvolver motores
Etanol de milho (EUA) 1,3 0,79
Etanol de cana (Brasil) 8 0,44
adaptados, com materiais resistentes à corrosão,
Biodiesel de colza (Europa) 2,5 0,32
para utilizar o etanol em forma pura.
Etanol de celulose 2 a 36 0,09 Em meados da década de 1980, a maioria dos
Fonte: Bourne, Joel. Sueños Verdes. National Geographic Magazine carros novos vendidos no Brasil utilizava etanol puro
(em español) oct. 2007.
(álcool hidratado), enquanto o etanol destinado à
mistura com a gasolina (álcool anidro) era aprovei-
É assim que nos EUA vem-se trabalhando no tado em sua maioria pelos carros mais antigos. O
desenvolvimento da produção de álcool a partir álcool anidro é obtido a partir do álcool hidratado,
da cana-de-açúcar, nas áreas em que o clima o submetido a um processo específico de eliminação
permite. Outra tendência na pesquisa nos EUA é total da água.
a de desenvolver tecnologia para a hidrólise da Os custos de produção do álcool foram reduzidos à
celulose, o que em uma segunda fase permitiria medida que o setor de produção ganhava experiência
produzir álcool por fermentação, com base em com a tecnologia e as cadeias de abastecimento e
materiais celulósicos diversos. de distribuição iam se organizando (economias de
aprendizagem). O programa necessitou dos subsí-
dios do governo apenas nos primeiros anos para ser
BIOCOMBUSTÍVEIS NO BRASIL
economicamente viável. No entanto, já no final da
O etanol foi o primeiro biocombustível a entrar em década de 1980, a produção de etanol tinha suficiente
produção comercial. Durante a Grande Depressão de eficiência, pelo aproveitamento das economias de
1930, começou-se a adicionar álcool na gasolina com aprendizagem, para poder prescindir dos subsídios.
o objetivo de reduzir as importações. Nos anos seguin- Por esses anos (final da década de 1980) houve
tes observava-se no Brasil um interesse latente pela uma queda do preço do petróleo e de seus deriva-
possibilidade de utilizar diversos produtos agrícolas dos, tirando parte do brilho da produção de álcool
como combustíveis, mas os preços do petróleo e seus para combustível. Por sua vez, o açúcar aumentou
derivados permaneceram muito baixos e desestimu- de preço no mercado internacional, induzindo a uma
laram diversas tentativas de substituição. maior produção de açúcar, o que desviava a cana
Foi só em 1973 e 1974, como consequência do da produção de álcool. A falta de álcool nos postos
embargo do petróleo pelo recém-criado cartel da causou dificuldades aos cidadãos que haviam com-
OPEP, que o preço do petróleo teve um forte aumen- prado carros a álcool, o que reorientou a demanda
to (Primeiro Choque do Petróleo). O Brasil adotou de carros novos em favor dos carros a gasolina.

566 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.557-571, jan./mar. 2009
Juan Algorta Plá

O álcool tinha perdido competitividade pela permitiria aproveitar a folha da cana: uma parte
queda do preço do petróleo e pela elevação permaneceria no campo para garantir a cobertura
do preço do açúcar. A venda de carros a álcool do solo, enquanto outra parte poderia ser desti-
caiu para níveis muito baixos a partir de 2001. O nada à hidrólise com vistas à fermentação e à
Proálcool passou por períodos difíceis e parecia subsequente produção de álcool.
destinado ao fracasso. A re- O etanol brasileiro apre-
versão dessa tendência veio A competitividade do etanol senta, assim, elevada com-
pela mudança tecnológica brasileiro pode ser atribuída petitividade e vem sendo
representada pelos carros à eficiência da produção da exportado para os EUA, Eu-
bicombustível, cuja venda matéria-prima. O elevado ropa, Japão, China e Índia.
iniciou em 2003. rendimento agrícola permite O comércio internacional
O motor flex-fuel repre- manter os custos baixos de álcool deve enfrentar, no
senta uma mudança tecno- entanto, os protecionismos,
lógica que permite utilizar indistintamente etanol na forma de fortes taxas de importação, dos EUA
ou gasolina, afastando assim os temores de (US$ 0,14 por litro) ou da União Europeia (US$
problemas no abastecimento. O usuário poderia 0,24 por litro).
escolher, no momento de abastecer, qual dos dois Outras matérias-primas para a produção de
combustíveis preferia: a escolha seria pelo álcool etanol, como o milho (utilizado nos EUA) ou a
sempre que o preço deste fosse 70% menor que beterraba (utilizada na Europa), apresentam cus-
o preço da gasolina. As vendas de carros flex fo- tos de produção bem mais elevados. Diferente é
ram um sucesso e já em 2005 eles representaram o caso do sorgo sacarífero, que ainda não está
parcela relevante do total de vendas. sendo utilizado como matéria-prima para o etanol,
A competitividade do etanol brasileiro pode ser mas que desperta grande interesse para o futu-
atribuída à eficiência da produção da matéria-prima. ro pelo seu elevado rendimento agrícola, assim
O elevado rendimento agrícola permite manter os como pela possibilidade de ser cultivado em áreas
custos baixos. O Brasil ajustou uma tecnologia impróprias para a cana. Outras matérias-primas
adequada para a produção de cana em cada região, potenciais são a mandioca e a batata doce, que
atingindo, em média, mais de 70 t por hectare, o que por sua natureza amilácea são potenciais produ-
permite obter mais de 6.000 l de álcool. Por outra toras de álcool.
parte, os subprodutos surgidos durante a produção O biodiesel é outro combustível obtido com base
de álcool, apresentam alto interesse econômico, em matérias-primas de origem agrícola que teve
contribuindo para compensar os custos operativos. seu desenvolvimento estimulado pelos choques do
Em particular, o bagaço da cana-de-açúcar é petróleo. O biodiesel é um substituto para o óleo
utilizado para queimar nas caldeiras da usina, o que diesel de petróleo, obtido com base em óleos vege-
permite que esta seja autossuficiente em energia tais ou do sebo de animais abatidos em frigoríficos.
para atender as necessidades do processamento As substâncias gordurosas entram em combinação
da cana. No processo surge ainda um excedente com álcoois como o etanol (transesterificação) e
de energia, que transformado em eletricidade pode geram ésteres com características físicas e com-
ser vendido para as companhias distribuidoras portamento equivalentes aos do óleo diesel.
(co-geração). Os resíduos da destilação podem Os óleos vegetais aparecem, muitas vezes,
ser utilizados, ainda, como adubo nas lavouras ou como subprodutos de outros processos produti-
como alimento para animais em engorda. vos, como é o caso da produção do suplemento
Outro subproduto interessante é a folha da protéico, utilizado nas rações, a partir do grão de
cana, que pode ser aproveitada sempre que soja. A produção de biodiesel no Brasil apresentou
não se utilize o sistema de queima do canavial inicialmente algumas dificuldades, especialmente
antes do corte. A queima pode ser evitada com em relação à organização das cadeias de produção
a colheita mecanizada. Ou seja, a mecanização e de distribuição. Espera-se que, como no caso do

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.557-571, jan./mar. 2009 567
Economia e preservação do Meio Ambiente no Brasil: a contribuiçao dos Biocombustíveis

etanol, o custo de produção venha a cair à medida PERSPECTIVAS PARA O FUTURO


que maior experiência seja acumulada, melhorando
a competitividade. Em relação ao aquecimento global, será neces-
sário um grande esforço coordenado do Brasil com
Tabela 6
outros países emissores, e para isto é necessário
Área ocupada e produção de cana-de-açúcar no
Brasil (projeções para 2030) – 2008/2030 terminar com as queimadas na Amazônia, que re-
Área Produção presentam 75% das emissões.
Ano
(Mha) (Mt) As previsões do Ministério de Minas e Energia
2008 5,6 ------- são de que a oferta interna de energia seja expan-
2010 6,7 518 dida e diversificada até o ano 2030, ou seja, que
2020 10,6 849 novas fontes de energia, menos poluentes, deverão
2030 13,9 1140 acrescentar-se às já tradicionais (BRASIL, 2008).
Fonte: MME/EPE. As previsões da indústria automobilística concordam
com as do MME, tendo as montadoras manifestado sua
Ao comparar a extensão das terras da frontei- disposição e sua capacidade para atender a demanda
ra agrícola (90 Mha) com a área necessária para por veículos que utilizem combustíveis alternativos.
a produção de cana (13,9 Mha em 2030), obser- As expectativas em relação com cada biocom-
vamos que a produção de culturas energéticas bustível são:
não reduziria significativamente a disponibilidade • Etanol: continuará sendo o principal biocombus-
de terra para outras culturas. tível brasileiro, mas passará por uma evolução
Tabela 7
técnica importante, incluindo a mecanização da
Projeções de produção de cana-de-açúcar no colheita da cana, que já está bastante consoli-
Brasil por grandes regiões dada em algumas regiões. A mecanização da
(milhares de t/ano)
colheita permitiria evitar as queimadas, que são
Ano
Região ambientalmente muito criticáveis, permitindo um
2010 2015 2020 2030
Brasil 518369 714975 849166 1141208
manejo racional das folhas da cana, aproveitan-
N 554 1076 1279 1718 do uma parte como adubo orgânico e o restante
NE 72206 113782 135137 181613 como matéria-prima para a produção de álcool
SE 349145 451749 536536 721060 através da hidrólise da celulose, cuja liberação
SE 34996 48348 57422 77171 para utilização comercial é esperada para os
CO 61468 100020 118793 159647 próximos anos. A hidrólise da celulose permitirá
Fonte: MME/PNE-2030. utilizar uma gama muito grande de resíduos

Tabela 8
Oferta interna de energia – 2005/2030
(em milhares de tep)

2005 2010 2020 2030


Energia não renovável 121349 159009 216007 297786
Petróleo e derivados 84553 97025 119136 155907
Gás natural 20526 37335 56693 86531
Carvão mineral e derivados 13721 20014 30202 38404
Urânio e derivados 2549 4635 9976 16944
Energia renovável 97314 119999 182430 259347
Hidráulica e eletricidade 32379 37800 54551 75067
Lenha e carvão vegetal 28468 28151 28069 30693
Cana-de-açúcar e derivados 30147 39330 69475 103026
Outras fontes primárias 6320 14718 30335 50561
Total 218663 279008 398437 557133

Fonte: Brasil, MME, Matriz Energética/2030/PNE-2030.

568 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.557-571, jan./mar. 2009
Juan Algorta Plá

vegetais como substrato do processo de fermen- Tabela 9


tação, assim aumentando as possibilidades de Ocupação dos solos – Brasil
produção de etanol. Com a utilização das folhas Tipo de uso ou ocupação Mio ha %

da cana, espera-se que a produção de álcool por Floresta Amazônica, Áreas Prot.1 405 47,6

hectare venha praticamente a duplicar. Áreas urbanas, vias, rios 20 2,4


Área disponível para prod. agrop. 366 43
• Biodiesel: espera-se também uma forte expan-
Pastagens 210 24,7
são de sua produção, com base na utilização
Culturas temp. e permanentes 61 7,2
de diversas matérias-primas. Junto aos óleos já
Florestas cultivadas 5 0,6
testados, de soja, palma e algodão, ou do sebo
Fronteira agrícola 90 10,6
bovino, poderão surgir novas matérias-primas
Outros usos 60 7,1
de interesse, como o óleo de pinhão manso.
Total 851 100
• H-Bio: este combustível, obtido pela Petrobras
Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
pela adição de óleo vegetal hidrogenado ao 1
Mata Atlântica, Pantanal Mato-Grossense, terras indígenas, áreas de proteção
petróleo cru, antes do refino, permite obter um formalmente constituídas.

combustível de qualidade comparável à do


diesel. A Petrobras possui três plantas de refino Reafirmando a política conservacionista do Esta-
em condições de produzir o H-Bio e pretende do, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos
habilitar, nos próximos anos, outras refinarias Vegetais (Abiove) vem aplicando uma estratégia de
para desenvolver esse processo. moratória na comercialização da soja oriunda das
áreas desflorestadas do bioma Amazônia.

BIOCOMBUSTÍVEIS X ALIMENTOS
ASPECTOS AGRONÔMICOS DA PRODUÇÃO
O Brasil apresenta atualmente uma proporção
DE BIOCOMBUSTÍVEIS
relativamente menor de sua área territorial sob
exploração agrícola. Grandes extensões perma- As técnicas agrícolas de produção condicionam o
necem ociosas, sem ser exploradas de forma rendimento das culturas e sua manutenção no longo
econômica e sem constituir áreas de preservação prazo, determinando, assim, a possibilidade de manter
ambiental ou de florestas naturais. Uma parte os custos totais em níveis baixos. Nesse sentido, pare-
dessas terras pode ser dedicada à produção de ce importante ressaltar, inicialmente, que cada cultura
biocombustíveis, sem afetar a produção de alimen- só encontra condições ótimas dentro de uma região
tos ou de matérias-primas. específica, ou seja, que o zoneamento agronômico
A explicação da existência de terras férteis e não deverá ser respeitado se o objetivo for o de atingir
cultivadas é a precariedade das vias de comunica- níveis elevados de eficiência e competitividade.
ção em algumas regiões de produção. Apenas nos No entanto, o zoneamento não é rígido, já que o
últimos anos, foram construídas muitas estradas desenvolvimento de novos cultivares, ou de novas
asfaltadas, ferrovias e hidrovias que permitem trans- práticas culturais, pode possibilitar a expansão para
portar, com segurança, insumos e produtos agrícolas regiões novas. A utilização de certos insumos, como
oriundos de áreas novas. fertilizantes ou agroquímicos, pode permitir a expan-
As áreas que seriam necessárias para produzir são das culturas para novas regiões.
as matérias-primas dos biocombustíveis represen- Outro princípio básico da produção agrícola é
tam uma proporção pequena do total das terras que as monoculturas devem ser evitadas, já que
disponíveis para a agricultura. Portanto, a produção elas elevam o risco da produção, principalmente
de biocombustíveis, que no caso da cana ocuparia pela incidência de pragas e doenças. No seu
13,9 milhões de hectares, deveria ser compatível lugar devem ser praticadas rotações de culturas,
com a expansão da produção de alimentos e outros ou seja, sequências plurianuais, planejadas com
produtos agrícolas, já que a fronteira agrícola é de o intuito de atingir altos rendimentos por hectare,
90 milhões de hectares. de forma sustentada.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.557-571, jan./mar. 2009 569
Economia e preservação do Meio Ambiente no Brasil: a contribuiçao dos Biocombustíveis

Os sistemas de produção adotados devem levar ainda sem aproveitamento agrícola. A produ-
em consideração as interações entre as atividades ção de alimentos e outras matérias-primas
produtivas, agrícolas e industriais, com o objetivo pode ser aumentada simultaneamente com a
de reduzir os custos totais de produção e aproveitar produção de biocombustíveis.
as eventuais complementaridades presentes. As
2. A relação de preços entre
instalações de beneficiamento
[...] os biocombustíveis poderão o barril de petróleo e o ál-
devem manter níveis elevados
fazer uma grande contribuição cool ou os óleos vegetais
de ocupação para operar efi-
para a manutenção de condições determina a vantagem de
cientemente.
ambientais favoráveis, retirando produzir biocombutíveis.
De acordo com as metas
propostas no PNE 2030, a um maior volume de CO2 da Os biocombustíveis ficam
matriz energética deverá ofe- atmosfera que aquele liberado no mais vantajosos à medida
recer uma quantidade maior momento da combustão que o petróleo aumenta seu
de energia, com uma maior preço relativo.
diversificação: os biocombustíveis deverão apre- 3. O balanço de CO 2 dos biocombustíveis é
sentar uma ponderação maior que a atual no ano favorável ao controle do efeito estufa, sempre
de 2030. que a produção seja conduzida dentro de níveis
O consumo final de energia (em milhões de to- elevados de eficiência. O CO 2 fixado pela fotos-
neladas equivalentes de petróleo) passará de 106 síntese na fase de produção agrícola permite aos
Mtep em 2005, para 483 Mtep em 2030. A produção vegetais construir seus diversos órgãos, sendo
doméstica de petróleo deverá aumentar até 2.800 que apenas alguns desses tecidos participam
milhares de barris por dia em 2010, estabilizando da síntese dos biocombustíveis, enquanto as
nesse patamar até 2030 (EPE). No período 2000 a restantes partes do corpo dos vegetais ficam nas
2030, a produção deverá superar o consumo. Entre terras de agricultura para serem incorporadas ao
2010 e 2030 deverão entrar em funcionamento sete solo. Assim, os biocombustíveis poderão fazer
novas refinarias da Petrobras. uma grande contribuição para a manutenção de
condições ambientais favoráveis, retirando um
maior volume de CO 2 da atmosfera que aquele
CONSIDERAÇÕES FINAIS
liberado no momento da combustão.
O aquecimento global é um problema extre-
4. O
 s biocombustíveis podem ser produzidos
mamente sério que vem se manifestando desde
com eficiência ainda em escala reduzida, o
vários anos atrás. Já em 1990, foram detectadas
que facilita a produção para uso local, apro-
manifestações do problema e propostas algumas
veitando as matérias-primas disponíveis, pou-
soluções (FLAVIN, 1990), as quais, no entanto, não
pando nos fretes do combustível. A produção
foram aplicadas.
dos biocombustíveis dá origem a uma renda
Os programas de biocombustíveis no Brasil têm
agrícola adicional, fortalecendo a receita da
por objetivo a substituição parcial dos combustíveis
pequena agricultura.
fósseis, assim contribuindo para minimizar a pro-
dução de gases do efeito estufa. Esses programas 5. Os biocombustíveis deverão contribuir para o equi-
devem, ao mesmo tempo, permitir o desenvolvimento líbrio do balanço de pagamentos, já que podem
econômico e favorecer a independência energética ser exportados, ou, caso eles sejam aproveitados
do país, contribuindo para a receita de divisas e para internamente, substituiriam os derivados do petró-
melhorar a renda dos agricultores, sem prejudicar a leo, reduzindo as importações.
oferta de alimentos. 6. O
 s biocombustíveis deverão contribuir para a
1. A concorrência com a produção de alimentos diversificação da matriz energética brasileira,
não constitui um problema, porque o Brasil melhorando a estabilidade do abastecimento
possui vastas extensões de terras férteis, de energia.

570 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.557-571, jan./mar. 2009
Juan Algorta Plá

7. A sustentabilidade da produção econômica dos REFERÊNCIAS


biocombustíveis depende da manutenção da efi-
ciência produtiva a longo prazo e da preservação BOURNE, Joel. Sueños Verdes. National Geographic
(em español), oct. 2007.
da melhora da fertilidade do solo agrícola, exigindo
técnicas agronômicas eficientes e adaptadas às BRASIL. Decreto nº. 6.263, de 21 de novembro de 2007.
condições regionais. Institui o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima –
CIM, orienta a elaboração do Plano Nacional sobre Mudanças
8. A organização das cadeias de produção e de do Clima, e dá outras providências. Lex: coletânea de
comercialização dos biocombustíveis deverá legislação e jurisprudência. São Paulo, ano 71, nov. 2007.
contemplar o aproveitamento dos subprodutos,
BRASIL. Programa Nacional de Energia para 2030. EPE, MME, 2008.
com o objetivo de melhorar a vantagem econô-
mica da produção. BRITO, Fausto. A transição demográfica no Brasil: as
possibilidades e desafios para a economia e a sociedade.
9. A expansão da população deverá ser con- [Belo Horizonte: UFMG / CEDEPLAR, 2007. (Texto para
trolada e mantida a taxas baixas, incluindo a discussão, n. 318).
condução de programas de controle da nata-
EHRLICH e EHRLICH. A explosão demográfica. Salvat, 1993.
lidade, para evitar que a elevação da renda
associada ao programa de biocombustíveis FLAVIN, Christopher. Desacelerando o Aquecimento Global.
In: BROWN, Lester. Salve o Planeta. Worldwatch Institute.
venha a estimular uma maior expansão da
Ed. Globo, 1990.
população, evitando assim um maior impacto
ambiental. É necessário tentar a antecipação IBGE. Projeção da População Brasileira para 1-VII de 2050
da estabilização demográfica no Brasil, previs- (revisão 2008).

ta pelo IBGE para 2040. LOVELOCK, James. La venganza de la Tierra. Buenos Aires:

10. O
 programa de controle do desmatamento Ed. Planeta,. 2007.

por queimadas deve ser reforçado, assim MIELNIK, Otávio, Competição e Transformações. Conjuntura
como os programas de reflorestamento, já Econômica, FGV, dez. 2008.
que as florestas jovens, em crescimento, são RODRIGUES, R., MENDONÇA DE BARROS, A.; CARVALHO,
os mais eficientes agentes de fixação do CO2 L. Carro Flexível Aquece o Álcool. Conjuntura Econômica, FGV,
(fotossíntese). dez. 2008.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.557-571, jan./mar. 2009 571
Francis José Pereira, Mônica de Moura Pires

Bahia
análise & Dados

Consumo e fatores ambientais:


um estudo a partir do biodiesel
Francis José PereiraA
Mônica de Moura PiresB

Resumo Abstract

Este trabalho identifica e traça o comportamento do consu- This work identifies and outlines biodiesel consumers’
midor de biodiesel, de forma que essas informações possam behaviour so that this information is able to help in preparing
auxiliar na elaboração de políticas públicas para o setor. Entre public policies for the sector. 850 lorry drivers that used the
junho e outubro de 2007, foram entrevistados 850 caminhonei- BR-116 highway on the section that cuts through the town
ros que trafegavam na rodovia BR 116 no trecho que corta a of Vitória da Conquista in Bahia were interviewed between
cidade de Vitória da Conquista, na Bahia. De acordo com os June and October 2007. According to those interviewed, the
entrevistados, a questão ambiental não influencia na decisão de environmental question did not influence their decision to use
consumo do biodiesel. Além disso, a maioria dos entrevistados biodiesel. Apart from this, the majority of those interviewed did
desconhecia o que era biodiesel, apesar de abastecer seu veí- not know what biodiesel was, despite using this fuel in their
culo com esse combustível. Os resultados obtidos demonstram vehicles. The results obtained show that educational actions
que são relevantes as ações educativas junto à população, a fim together with the population are appropriate, in order to give a
de salientar mais fortemente os aspectos ambiental e social que greater emphasis to environmental and social aspects involving
envolvem a produção de biodiesel, criando uma demanda mais biodiesel production and so creating a more sustainable
sustentável. Tais medidas consolidam um mercado e estimulam demand. Such measures consolidate the market and stimulate
um novo padrão de consumo no país. a new consumer standard in the country.

Palavras-chave: Biocombustível. Comportamento do con- Keywords: Biofuel. Consumer behaviour. Demand. Mar-
sumidor. Demanda. Comercialização. keting.

INTRODUÇÃO do ar afetasse a vida das pessoas, principalmente


nas grandes cidades. Esse contexto contribuiu para
A partir da Revolução Industrial, que significou a realização de diferentes eventos cuja proposta
um marco importante para o desenvolvimento principal era discutir a poluição ambiental e sua
da humanidade, inicia-se um dos períodos mais influência no cotidiano das pessoas.
relevantes do aumento da poluição da atmosfera Mais recentemente, a publicação do Painel In-
produzida pelo homem. Os gases oriundos dos tergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)
processos produtivos, como a queima do carvão trouxe à discussão questões relacionadas à preser-
mineral, que era naquela época a principal fonte vação do meio ambiente, que ao longo da última
de energia para as máquinas, contribuíram para década vem sendo fortemente debatida pela comu-
que na segunda metade do século XX a qualidade nidade mundial. Mais uma vez o uso dos recursos
naturais como forma de garantir a sobrevivência das
Doutorando em Planificación Territorial y Gestión Ambiental pela Universidade
gerações futuras é o tema mais relevante dessas
A

de Barcelona (UB), Espanha; mestre em Desenvolvimento Regional e Meio


Ambiente (Prodema), mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela
Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC); professor auxiliar do Departamento
discussões. A cada relatório oficial divulgado nos
de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
(UESB). consultoriapontoplus@yahoo.com.br
meios de comunicação, travam-se novas discussões
B
Doutora e mestre em Economia Rural pela Universidade Federal de Viçosa (UFV); na sociedade civil, em instituições públicas, privadas
professora titular do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade
Estadual de Santa Cruz (UESC). mpires@uesc.br e organizações não governamentais. No entanto,

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.573-580, jan./mar. 2009 573
Consumo e fatores ambientais: um estudo a partir do biodiesel

poucas são as transformações observadas no mundo relevante para a consolidação da industrialização.


real ou mesmo na adoção de políticas públicas que Segundo Maximiano (apud CARVALHO; ANDRADE,
resultem efetivamente em mudanças relevantes para 2000), o ato de administrar é uma prática que existe
os problemas ambientais observados. desde os primeiros agrupamentos humanos, e a
Dentro das temáticas que procuram produzir no- moderna teoria geral da administração representa
vos paradigmas em relação a formulação desses concei-
ao desenvolvimento susten- Nesse processo de industrialização tos que surgiram e vêm se
tável, ganha destaque na co- e estímulo ao consumo, a ação aprimorando há muito tempo.
munidade científica mundial do homem na natureza implicou Salienta ainda que, até então,
aquelas em torno da redução em alterações relevantes no a maioria dos administradores
da emissão dos gases pro- meio ambiente e, atualmente, tal operou com tentativas e erros,
vocadores do efeito estufa inferência e intervenção passou sobretudo pela falta de uma
(GEE) na atmosfera. Nestes a colocar em risco a sua própria teoria formal da administra-
debates em torno dos GEE existência no planeta ção, sendo que as primeiras
destaca-se, principalmente, tentativas de sistematização
a interferência antrópica no clima. Segundo Cano e formalização aconteceram basicamente ao final
(1998), a fonte de todos os bens é a natureza; é do século XIX, início do século XX.
dela que o homem obtém todos os bens naturais e Com as novas tecnologias e os processos adminis-
dela provém as fontes primárias de energia. Para trativos direcionados para a substituição do empirismo
este autor há três grupos de recursos da natureza nos processos, começa a aumentar a eficiência da
utilizados pelo homem: o primeiro referente ao solo produção. Cada vez mais insumos eram transforma-
e subsolo, que fornecem ao homem os vegetais e dos em produtos para atender às necessidades do
os minerais; o segundo diz respeito aos recursos mercado. Quanto mais mercadorias eram produzidas,
hidrológicos, fornecedores de água e energia, mais se acirrava a competição entre empresas e mais
alimentos, matérias-primas e vias de transporte; se procurava estimular o consumo; consequente-
e o último, o clima, que na sua visão propicia e mente, mais recursos naturais eram demandados.
condiciona a cultura de determinadas espécies Na sequência desse processo, uma das ferramen-
vegetais e animais. tas fundamentais adotadas pela administração foi o
Ao longo do desenvolvimento da humanidade marketing1, com objetivo de sistematizar e direcionar
houve uma busca permanente dos grupos sociais as ações mercadológicas das firmas.
em obter produtos que atendessem às suas neces- Assim, apenas produzir não garantia o consu-
sidades básicas de sobrevivência. Com o avanço mo, uma vez que os consumidores passaram a ter
das civilizações, as suas necessidades passam possibilidades de escolha face à concorrência no
a contemplar outras categorias de necessidades, mercado. O que antes era realizado para atender
tornando-se cada vez mais ilimitadas. Assim, os as necessidades essenciais dos indivíduos passa a
desejos do o homem contemporâneo se ampliam ser objeto de estímulo ao consumo, evidenciando-
para além do alimento, como roupa, abrigo, trans- se os primeiros sinais da sociedade consumista
porte, saúde, educação, lazer etc., como forma de estimulada principalmente pelas estratégias de
manutenção na sociedade, bem como de pertenci- marketing. Nesse processo de industrialização
mento a determinado grupo social. Nesse sentido, a e estímulo ao consumo, a ação do homem na
busca permanente pela satisfação das necessidades natureza implicou em alterações relevantes no
faz com que o homem desenvolva mecanismos e meio ambiente e, atualmente, tal inferência e in-
processos produtivos para que possa responder a tervenção passou a colocar em risco a sua própria
essas demandas. existência no planeta.
Pari passu a esse processo evolutivo foram de-
senvolvidos processos administrativos, ainda que Considera-se que o conceito de marketing surgiu na década de 1950, quando a
1

industrialização acirrou a competição entre as empresas, impondo novos desafios


de forma rudimentar, que contribuiriam de forma pela disputa dos mercados.

574 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.573-580, jan./mar. 2009
Francis José Pereira, Mônica de Moura Pires

Diante dessa “exigência do mercado” ocorre o inserção de regiões pouco desenvolvidas do país.
aumento da emissão dos GEE em razão do aumento O governo brasileiro, desde a década de 1920,
da queima de combustíveis fósseis e de biomassa através do Instituto Nacional de Tecnologia (INT),
utilizados nos processos produtivos e ou de consu- vem desenvolvendo estudos para avaliar a viabili-
mo. Um exemplo desse tipo de influência antrópica dade da utilização de óleos vegetais como combus-
é a indústria automobilística, tível. Apesar da suspensão
que contribui para emissão Nos últimos anos, as questões das pesquisas e da falta de
de CO2 na atmosfera, tanto ambientais passaram a ser o ponto incentivo governamental, que
no seu processo produtivo fundamental no enfoque de atrasaram a produção e uso
quanto na utilização dos seus alternativas energéticas menos dessa fonte de energia, em
produtos pelos consumidores. poluentes dezembro de 2004, com o
Atualmente, o Brasil conta Programa Nacional de Pro-
com uma frota de 42,3 milhões de veículos (dados dução e Uso de Biodiesel (PNPB) se retomam as
do Departamento Nacional Trânsito – Denatran para discussões e colocam-se novamente em foco a
o ano de 2006), divididos entre automóvel, bonde, produção e a comercialização do biodiesel no país.
caminhão, caminhão trator, caminhonete, camio- Assim, a partir desse programa, retomam-se as dis-
neta, chassi plataforma, ciclomotor, micro-ônibus, cussões iniciadas na década de 1960, incorporando
motocicleta, motoneta, ônibus, quadriciclo, reboque, além dos aspectos econômicos, os de cunho social
semirreboque, sidecar, trator de esteira, trator de e ambiental, ampliando assim a abrangência da
rodas, triciclos e utilitários. O país está entre os dez produção de biocombustíveis.
maiores produtores mundiais de veículos, e segundo Nesse sentido, este trabalho propõe ampliar a
a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos discussão sobre a temática biodiesel, evidenciando,
Automotores (Anfavea), esse setor possui expressiva principalmente, os aspectos relacionados a questões
participação no Produto Interno Bruto (PIB) Industrial ambientais e de consumo que podem afetar a con-
do Brasil. solidação do PNPB a partir de pesquisa de campo
O desempenho de mercado da indústria automo- junto aos caminhoneiros, que são os principais
bilística contribui fortemente com a emissão dos GEE consumidores de biodiesel.
em todo o mundo, seja no seu processo produtivo
ou pela utilização dos produtos oriundos das suas METODOLOGIA
atividades. Por outro lado, a atenção dos pesquisa-
dores volta-se para a busca de fontes alternativas Considerando-se que o diesel é um dos combus-
de energia que possam contribuir para a redução tíveis mais consumidos no Brasil, seja para o escoa-
desses gases na atmosfera. Dentre essas fontes, o mento da produção, seja para a oferta de serviços de
biodiesel desponta neste novo cenário econômico e, transporte de pessoas, definiu-se como público-alvo
no caso brasileiro, também é visto como um produto deste estudo o consumidor de diesel que utiliza o
que contribuirá para o desenvolvimento do país. veículo caminhão nas suas diferentes variações. As-
Nos últimos anos, as questões ambientais pas- sim, o universo desta pesquisa é formado por todos
saram a ser o ponto fundamental no enfoque de os caminhoneiros, sejam autônomos, terceirizados
alternativas energéticas menos poluentes, pois a ou empregados de empresas transportadoras de
mudança de paradigma de produção e consumo mercadorias. A área de estudo localiza-se na cidade
provoca também efeitos importantes sobre a ge- de Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia, no tre-
ração de emprego e renda para a população, bem cho que a corta a rodovia BR 116. A escolha desse
como seus impactos sobre a cadeia alimentar. Para trecho deveu-se à grande circulação de caminhões
Hinrichs e Kleinach (2003), os benefícios ambientais de diferentes regiões do país.
decorrentes do processo de produção do biodiesel Segundo Lopes (2003), a área urbana da
estimulam direta e indiretamente a geração de em- cidade está entre dois grandes eixos rodoviá-
prego e renda, especialmente pela possibilidade de rios. No sentido norte-sul, a BR 116 (Rio–Bahia)

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.573-580, jan./mar. 2009 575
Consumo e fatores ambientais: um estudo a partir do biodiesel

permite o acesso tanto ao Centro-Sul como ao coletados foram tabulados em planilha de excel e
Norte e Nordeste. No sentido leste-oeste, a BA submetidos a análises da estatística descritiva. O
415 (sentido Itabuna) permite o acesso ao litoral, programa utilizado para processamento dos dados
e a BA 262 (sentido Brumado) permite acesso ao foi o SPSS versão 11.5 for Windows.
oeste do estado e é a principal rota de entrada O tamanho da amostra foi de 850 entrevista-
da região Centro-Oeste do país. Dentro desse dos, erro amostral de 2,7% e nível de confiança
eixo rodoviário, a BR 116 funciona como centro de 90%. Utilizou-se a técnica de amostragem
de direcionamento das rotas de carga. É nela que aleatória simples sem reposição, a fim de que
se concentram os principais postos de “paradas” cada indivíduo fosse entrevistado uma única vez.
e apoio aos caminhoneiros. O dimensionamento da amostra se deu utilizando
Na escolha do local de coleta dos dados, a expressão do conceito de população infinita
utilizou-se como critério a infraestrutura disponível (COSTA NETO, 2000), dado que se desconhecia
oferecida aos caminhoneiros pelos postos de a quantidade de caminhoneiros que circulava na
combustível localizados à margem da BR. Após área delimitada neste estudo.
esse procedimento, selecionaram-se dois estabe-
lecimentos. O primeiro, denominado Pé da Serra, RESULTADOS E DISCUSSÃO
além da estrutura de abastecimento e serviços
complementares tem instalado na sua área uma Quanto ao gênero dos entrevistados, verificou-
unidade do Sest/Senat, que oferece serviços se que todos são do sexo masculino, o que de-
médicos e odontológicos, além de recreação. O monstra que a profissão de motorista de caminhão
outro, conhecido como Posto São Jorge, é um é quase exclusivamente exercida por indivíduos
dos preferidos dos caminhoneiros por sua estru- do sexo masculino. Desse total, 77,8% são casa-
tura de apoio como segurança, serviço bancário, dos, 18,4% solteiros, 0,5% viúvos e o restante,
banheiros, restaurante, farmácia, cabeleireiro, 3,4%, responderam a outras classificações, como
mecânica, borracharia e controle de acesso. Nesse “juntado”, divorciado, “amasiado” e “largado”. Pelo
posto cerca de 400 caminhões realizam paradas fato de a maioria ser de casados, em algumas
diariamente, sendo que boa parte dos caminhonei- ocasiões, observou-se a presença da esposa e,
ros, também por motivo de segurança, pernoitam até mesmo, dos filhos nas viagens, transforman-
neste local. Em função do grande fluxo de veículos do a boléia2 em uma extensão da própria casa.
nesse posto, decidiu-se realizar ali a maioria das Percebeu-se, também, que em algumas situações
entrevistas. Ademais, circulam caminhoneiros ori- as esposas dos motoristas autônomos assumiam
undos de diferentes cidades do Brasil, e a estrutura a responsabilidade de controlar as finanças, che-
disponibilizada permitiu ao entrevistador realizar as gando a influenciar nos gastos com diesel e em
entrevistas de forma mais segura. outras despesas com o caminhão. No entanto,
Para o levantamento de dados secundários não representaram uma quantidade relevante do
utilizou-se o método exploratório e para a pes- universo pesquisado.
quisa de campo utilizou-se a pesquisa descritiva. Dos entrevistados, 19,2% estão na faixa etária
Como técnica de coleta de dados foi utilizada a de 31 a 35 anos e 17,6%, entre 36 e 40 anos. Esses
entrevista pessoal por acessibilidade. Após ana- percentuais mostram que, na faixa de idade de 31 a
lisar o perfil da amostra, optou-se pela entrevista 40 anos, o percentual atinge 36,8%, evidenciando
estruturada. Foi elaborado um questionário com a importância dessa faixa etária na adoção de es-
perguntas abertas e fechadas, a fim de que os tratégias mercadológicas em torno do biodiesel. As
dados pudessem representar mais adequada- demais referências de idade foram: 4,4% de 18 a 25
mente o objeto de análise, conforme descrito em anos; 15,3% de 26 a 30 anos; 11,8% de 41 a 45 anos;
Gil (1994). O tempo médio de cada entrevista foi 12,1% de 46 a 50 anos; 11,2% de 51 a 55 anos; 7,2%
de 10 minutos e as entrevistas foram feitas no
período de junho a outubro de 2007. Os dados 2
Termo que identifica a cabina do motorista.

576 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.573-580, jan./mar. 2009
Francis José Pereira, Mônica de Moura Pires

de 56 a 60 anos; e 1,2% dos entrevistados com idade a análise: a condição dos veículos, a forma de se
superior a 60 anos. No que diz respeito ao nível de dirigir, o peso da carga, as distâncias percorridas
instrução, 74% têm o ensino fundamental e 24,8%, pelos veículos e a relação com o consumo de
o ensino médio; os demais são analfabeto (0,4%), diesel. Essas questões são fundamentais para
não respondeu (0,1%) e superior 0,7%. as discussões de políticas ambientais, uma vez
Pelo fato de atingir praticamente todos os pontos que também impactam a emissão de CO 2 na
do território brasileiro, as empresas ou profissionais atmosfera.
autônomos investem em veículos com capacidade
de percorrer longas distâncias e assim atender a 30,0%
28,1%
23,5%
demanda por esse tipo de serviço. A maioria dos 25,0% 18,8%

Percentual
20,0%
11,3%
entrevistados é do Sul e Sudeste do Brasil, espe- 15,0%
10,0%
10,5%
4,4%
cialmente de Santa Catarina, Minas Gerais e São 5,0% 1,5% 1,2% 0,7%
0,0%
Paulo (Gráfico 1). 1
Média mensal do consumo de diesel

25,0% até 3.000 3.001 a 5.000 5.001 a 7.000


20,5%
17,1% 18,6%
20,0% 7.001 a 9.000 9.001 a 11.000 11.001 a 13.000
Percentual

13,4%
15,0% 13.001 a 15.000 acima de 15.000 n.sabe/n.respondeu
8,1%
10,0% 7,2% 3,6% 5,0%
3,8%
5,0% 1,3% 1,3%
0,0% Gráfico 2
1 Média mensal de consumo de diesel dos
Estado de origem entrevistados – Vitória da Conquista
Bahia – 2007
Santa Catarina Paraná Rio Gde do Sul São Paulo
Rio de Janeiro Espírito Santo Minas Gerais Bahia Fonte: Dados da pesquisa de campo.
Sergipe Pernambuco Outros

Dentro do segmento de transporte de cargas


Gráfico 1
Estado de origem dos caminhoneiros existem profissionais autônomos, terceirizados
Vitória da Conquista – Bahia – 2007 e empregados de empresas transportadoras ou
Fonte: Pesquisa de campo. produtoras de bens e serviços. Na amostra, o
que predomina são os indivíduos com vínculo
De acordo com 98% dos entrevistados, a atual empregatício, com 64,4% das respostas, segui-
situação das estradas contribui diretamente para um do por 35% de autônomos, e o restante (0,6%),
consumo maior de diesel, pois há muitos buracos ou terceirizado.
irregularidades na pista. Além disso, a infraestrutura Durante as entrevistas, a maioria, principalmente
inadequada em diversos trechos das rodovias os autônomos, disse que procura controlar o con-
brasileiras afeta o desempenho do veículo. Essas sumo do veículo a fim de garantir sua rentabilidade.
condições provocam aumento no custo do frete Por outro lado, acrescentaram que é muito impor-
para escoamento da produção em localidades que tante conhecer a “média do diesel”3, pois no caso
apresentam esses fatores. de empresas, os desempenhos do motorista e do
Assim, as médias mensais de consumo de caminhão interferem no seu reconhecimento junto
diesel dos veículos dos entrevistados são maiores ao empregador. Ou seja, o motorista que consegue
nas faixas entre 3 e 5 mil litros (23,5%) e de 5 a uma “média do diesel” dentro dos padrões estabe-
7 mil litros (28,1%) (Gráfico 2). De acordo com os lecidos pela empresa recebe uma recompensa na
pesquisados, o consumo poderia ser diminuído forma de incentivos.
se houvesse melhor infraestrutura das estradas. Verifica-se, assim, que a questão ambiental não é
Ademais, maior consumo de combustíveis não- fator relevante para a tomada de decisão de consu-
renováveis provocam maiores índices de poluição mo desses indivíduos. Desempenho e economia são
ambiental. A partir dessa questão verificam-se 3
Termo empregado pelos motoristas que diz respeito ao consumo de diesel por qui-
também outros fatores que são relevantes para lômetro rodado.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.573-580, jan./mar. 2009 577
Consumo e fatores ambientais: um estudo a partir do biodiesel

prioridades, seja em função do incentivo recebido, são fundamentais para a realização dessa ativida-
seja pela economia nas despesas, especialmente de (Tabela 1). A maioria, 33,1%, indicou motivos
para os autônomos. Dessa forma, políticas ambien- associados ao funcionamento do veículo (fumaça
tais junto a empresas transportadoras se tornam do motor e segurança). Ter o motor “fumaçando” in-
relevantes face aos fatores descritos. dica que o combustível pode ter sido adulterado (de
Procurando-se identificar “bandeira ruim”4) e, portanto,
o nível de conhecimento dos Observa-se então que o a preocupação principal é
entrevistados quanto ao bio- caminhoneiro ou a empresa de com a eficiência do motor e
diesel, observou-se que 26,8% transporte tem como preocupação não com questões de ordem
dos caminhoneiros não sabem central a lucratividade do negócio ambiental.
o que é esse combustível, e, em segundo plano, Observa-se então que o
18,7% responderam que é a consciência ambiental caminhoneiro ou a empresa
óleo de mamona, 8,8% que de transporte tem como
é de origem vegetal, 8,2% que polui menos e as preocupação central a lucratividade do negócio
demais respostas, 37.5%, apresentaram definições e, em segundo plano, a consciência ambiental.
diversas. A partir desses dados, percebe-se a falta de Os caminhoneiros, autônomos ou terceirizados,
informação a respeito de um produto consumido por também não priorizam as questões ambientais,
eles. É importante salientar que, em certa medida, muito provavelmente pelos custos envolvidos e
as respostas refletem a divulgação que foi feita a pela dificuldade de acesso à informação, uma
respeito da mamona na mídia como matéria-prima vez que a divulgação midiática de questões que
na produção de biodiesel. envolvem o meio ambiente nem sempre emprega
Em relação à poluição do meio ambiente com uma linguagem de fácil compreensão. Ademais,
base na utilização do diesel como combustível, 78% como salientado, o nível de instrução dos entre-
dos entrevistados acreditam que o diesel provoca vistados, em termos de tempo na escola, é de oito
algum tipo de poluição, 17,6% responderam não anos, o que também acaba influenciando e muitas
provocar, 4,3% informaram que não sabem e 0,1% vezes limitando o acesso a informações. No Bra-
não responderam à questão. Percebe-se que os en- sil, somente com a promulgação da Constituição
trevistados demonstram desconhecimento a respeito Federal de 1998 é que o meio ambiente apareceu
do assunto. Mesmo assim responderam acreditar pela primeira vez como um direito fundamental da
que provoca danos ao meio ambiente, mas não pessoa humana.
sabem relacionar que tipo de dano seu uso poderia
provocar ao veículo. Tabela 1
Ficar na estrada, seja pela qualidade inferior do Relação de motivos relatados pelos caminhoneiros
para realizarem revisão no motor do veículo
diesel, seja pela falta de manutenção do motor, é
Vitória da Conquista – Bahia – 2007
sinônimo de prejuízo para o caminhoneiro. Com Relação de motivos % de resposta
base nessa informação procurou-se compreender Fumaça do motor e segurança 33,1
e identificar quais ações os motoristas adotavam a Aumentar a vida útil do motor 18,7
fim de reduzir a poluição ambiental decorrente do Reduzir o desgaste do veículo 15,5
uso do diesel. De acordo com as respostas, verifi- Economizar combustível 13,2
ca-se que independente da condição do motorista, Melhorar o desempenho do motor 11,2
autônomo ou de empresa, 95,6% responderam Não faz manutenção 3,9

que realizam manutenção periódica do veículo. Reduzir a emissão de poluentes do diesel 2,9

No entanto, 2,9% justificaram esse procedimento Diminuir os impactos ambientais 1,5

como forma de reduzir a emissão de poluentes do Total 100,0

diesel e 1,5% para diminuir os impactos ambien- Fonte: Dados da pesquisa de campo.

tais. Agregando-se esses dois percentuais (4,4%)


Termo utilizado entre os caminhoneiros para identificar as marcas de combustíveis
4

pode-se observar que as questões ambientais não não confiáveis, pois adulteram o diesel com outros produtos químicos.

578 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.573-580, jan./mar. 2009
Francis José Pereira, Mônica de Moura Pires

Verificou-se que apenas 4,4%, entre todos os assim a importância da educação ambiental na cons-
níveis de instrução dos motoristas, indicaram que cientização de medidas que amenizem a poluição
fazem revisão do motor em função de preocupação ambiental. Somando-se as respostas daqueles que
com questões ambientais (Tabela 2). No entanto, os têm o nível de instrução fundamental com os de
fatores de maior influência na tomada dessa decisão nível médio e superior, 9,8% indicam o fator preser-
são, basicamente, a melhoria do desempenho, a vação ambiental como principal motivo para uso do
redução do desgaste do motor, a economia de com- biodiesel. As demais respostas estão associadas
bustível e o aumento da vida útil do motor. ao desempenho do veículo e redução dos custos
Todos os itens relatados pelos entrevistados es- com os deslocamentos, haja vista que o fator preço
tão relacionados diretamente às despesas dos cami- é um dos que mais influencia na decisão de uso do
nhoneiros ou das empresas de transporte. Como os biodiesel, na escolha do consumidor.
fatores ambientais analisados não são determinantes De acordo com a Tabela 3, preservar o meio am-
para a manutenção preventiva no motor, verifica-se biente não é motivo principal para o uso de biodiesel.

Tabela 2
Relação entre nível de instrução dos caminhoneiros e motivos para realizar revisão no motor do veículo
Vitória da Conquista – Bahia – 2007
Nível de instrução
Fatores Fundamental
Analfabeto Médio Superior Não sabe
(até 8ª série)
Reduzir a emissão de poluentes do diesel 0,0% 1,5% 1,4% 0,0% 0,0%
Reduzir o desgaste do motor 0,0% 11,6% 3,9% 0,0% 0,0%
Diminuir os impactos ambientais 0,0% 1,4% 0,1% 0,0% 0,0%
Melhorar o desempenho do motor 0,0% 9,2% 1,9% 0,1% 0,0%
Economia de combustível 0,1% 8,8% 4,2% 0,0% 0,0%
Aumentar a vida útil do motor 0,1% 13,4% 5,2% 0,0% 0,0%
Outros fatores 0,1% 24,5% 7,8% 0,6% 0,1%
Não sabe 0,0% 3,5% 0,4% 0,0% 0,0%
Total 0,3% 74,0% 24,9% 0,7% 0,1%

Fonte: Dados da pesquisa de campo.

Tabela 3
Relação entre nível de instrução dos entrevistados e motivo para utilizar biodiesel
Vitória da Conquista – Bahia – 2007
Nível de instrução
Fatores Fundamental
Analfabeto Médio Superior Não sabe
(até 8ª série)
Desempenho 0,0% 3,3% 1,3% 0,0% 0,0%
Economia 0,0% 2,2% 1,1% 0,0% 0,0%
Preço 0,1% 23,6% 9,4% 0,1% 0,1%
Influência de amigos 0,0% 0,4% 0,4% 0,0% 0,0%
Propaganda 0,0% 0,2% 0,0% 0,0% 0,0%
Preservar o meio ambiente 0,0% 5,4% 4,0% 0,4% 0,0%
Disponibilidade do produto 0,1% 2,5% 0,9% 0,0% 0,0%
Obrigatoriedade 0,0% 2,1% 0,7% 0,0% 0,0%
Decisão da empresa 0,0% 2,9% 0,9% 0,0% 0,0%
Outro 0,0% 6,2% 1,8% 0,0% 0,0%
Sem resposta 0,1% 25,1% 4,4% 0,2% 0,0%
Total 0,3% 74,0% 24,9% 0,7% 0,1%

Fonte: Dados da pesquisa de campo.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.573-580, jan./mar. 2009 579
Consumo e fatores ambientais: um estudo a partir do biodiesel

A maioria das respostas refere-se a desempenho natureza são relevantes, pois procuram compreender
e economia, evidenciando assim o grande desafio o comportamento do consumidor a fim de definir es-
que é a elaboração de políticas públicas que per- tratégias de marketing mais eficientes, direcionadas
mitam àquele que está diretamente afetado poder não apenas a estimular o consumo, mas a tornar o
compreender e se sentir partícipe desse processo indivíduo mais consciente dos aspectos ambientais
de transformação na dinâmica de produção e con- que envolvem a produção e consumo dos bens.
sumo. Nesse contexto, é relevante que as questões
ambientais sejam incluídas sob a forma de educação REFERÊNCIAS
ambiental até mesmo obrigatória nas instituições
ANFAVEA. Indústria Automobilística Brasileira - 50 anos.
de ensino do Brasil, pois as ações em torno da pre- Disponível em: <http://www.anfavea.com.br/50anos/indice.pdf>.
servação ambiental dependem, principalmente, da Acesso em: 14 set. 2007.
conscientização da população. CANO, W. Introdução à economia: uma abordagem crítica.
São Paulo: Fundação Editora UNESP, 1998.

CONCLUSÕES CARVALHO, F. de M.; ANDRADE, J. G. de. Fundamentos de


administração. Lavras: UFLA/FAEP, 2000.72 p.
O biodiesel como fonte de energia renovável COSTA NETO, P. L. de O. Estatística. São Paulo: Edgar
poderá contribuir e muito para a preservação am- Blucher, 2000.
biental. Mas para atingir esse objetivo é necessário
DIAS, R. Marketing ambiental: ética, responsabilidade social e
considerar as diferentes variáveis que afetam o seu competitividade nos negócios. São Paulo: Atlas, 2007.
consumo, especialmente conhecendo aquele que
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 4. ed. São
irá adquirir o produto. Paulo: Atlas, 1994.
Os resultados mostram que a questão ambiental
HINRICHS, R. A.; KLEINACH, M. Energia e meio ambiente.
não influencia os consumidores na decisão do con- 3. ed. São Paulo: Pioneira Thomsons Learnig, 2003.
sumo e a escolha, ou falta dela, centra-se no preço
LOPES, R. P. M. Universidade pública e desenvolvimento local:
ou na obrigatoriedade do consumo que ocorreu a uma abordagem a partir dos gastos da Universidade Estadual
partir de janeiro de 2008. do Sudoeste da Bahia. Vitória da Conquista: Edições UESB,
2003.
Entende-se, portanto, que é fundamental um
estudo a respeito dos consumidores-alvo de bio-
diesel a fim de que se adotem medidas de política
que beneficiem o uso de tal combustível. É preciso
investir na educação ambiental para que as futuras
gerações saibam de fato quais são os benefícios do
uso de energias renováveis, tornando mais eficaz os
resultados de programas dessa natureza.
Por outro lado, os indicativos de comportamento,
as análises e as discussões realizadas neste trabalho
poderão despertar novas pesquisas em torno desta
questão. As abordagens sobre o desenvolvimento
econômico, o consumo de energia, o meio ambiente,
as estratégias de marketing e o comportamento dos
consumidores têm em comum o caráter multidisciplinar
e, portanto, não se esgotam neste estudo. Acredita-se
que o PNPB está alcançando seus objetivos de forma
lenta, pois o atingimento das metas inicialmente tra-
çadas depende sobremaneira de diferentes áreas do
conhecimento que tornem possível viabilizar o biodie-
sel mais rapidamente. Nesse sentido, pesquisas dessa

580 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.573-580, jan./mar. 2009
Cristina M. Quintella, Pedro R. C. Neto, Rosenira S. da Cruz, José Adolfo de Almeida Neto, Sabrina F. Miyazaki, Marilú P. Castro

Bahia
análise & Dados

Prospecção tecnológica do biodiesel


no estado da Bahia: panorama atual e
perspectivas na geração e apropriação
de conhecimento
Cristina M. QuintellaA*
Pedro R. C. NetoB**
Rosenira S. da CruzC
José Adolfo de Almeida NetoD
Sabrina F. MiyazakiE***
Marilú P. CastroF

Resumo Abstract
Revisão contextualizada das ações, resultados e potencial no A contextualized revision of actions, results and potential
estado da Bahia em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D&I) in the State of Bahia in biodiesel productive chain Research,
da cadeia produtiva do biodiesel, uma avaliação de início de curso Development and Innovation (P&D&I) and evaluation of the be-
das ações de biodiesel na Bahia em termos de financiamento de pro- ginning of the course of biodiesel activities in Bahia, in terms of
jetos, geração de conhecimento e apropriação desse conhecimento. financing projects, producing knowledge and its appropriation.
Através de prospecção científica e tecnológica com patentes, e dos Through scientific and technological prospection with patents
dados da Plataforma Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvi- and the National Council for Scientific and Technological Devel-
mento Científico e Tecnológico (CNPq), os resultados foram avalia- opment (CNPq) Lattes Platform data, the results were evaluated
dos em termos de evolução anual e de atuação em temas específicos in terms of annual evolution and performance in specific themes
como matéria-prima, reação/produção, processos, especificação e such as raw material, reaction/production, processes, specifica-
qualidade, coprodutos, meio ambiente e emissões, entre outros. São tion and quality, co-products, the environment and emissions,
identificados gargalos científicos e tecnológicos na cadeia produtiva etc. Scientific and technological bottlenecks are identified in the
do biodiesel na Bahia e suas respectivas oportunidades, assim como biodiesel productive chain in Bahia and its respective opportu-
potencialidades que ainda podem ser exploradas. nities, as well as potentials that can also be explored.
Palavras-chave: Produção de biocombustíveis. Óleos. Keywords: Biofuel production. Oils. Residual fats. Patent
Gorduras residuais. Artigos patentes. Projetos financiados. articles. Financed projects.

DPhil em Ciências Moleculares; doutora em Ciências Moleculares pela University


INTRODUÇÃO
A

of Sussex-UK; professora e coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica da


Universidade Federal da Bahia (UFBA). conit@nit.ufba.br
B
Doutor em Química pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); mestre em
Tecnologia de Alimentos pela Universidade Federal do Paraná (UFPR); pesquisador A cadeia produtiva de biodiesel de 1ª geração
visitante do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (UFBA); professor
da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). pedroneto@utfpr.edu.br (HAMELINCK;FAAIJ, 2006; DEMIRBAS, 2007)
C
Doutora em Química pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); mestre em
Química pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); professora titular e pesquisadora pode ser vista compreendendo diversos aspectos
do Grupo Bioenergia e Meio Ambiente do Departamento de Ciências Exatas e
Tecnológicas da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). roserpa@uesc.br
D
Doutor em Engenharia Agrícola pela Universidade de Kassel; mestre em Engenharia
Agrícola pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); professor e pesquisador *
Agradeço ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
do Grupo Bioenergia e Meio Ambiente do Departamento de Ciências Agrárias e
(CNPq) pela bolsa de produtividade em pesquisa.
Ambientais da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). jalmeida@uesc.br
E
Graduanda em Química e Iniciação Tecnológica e Industrial do Instituto de Química
**
Agradeço à Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) pelo seu
da Universidade Federal da Bahia (UFBA). samiyazaki@gmail.com licenciamento e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) pelo
apoio como Professor Visitante.
F
Especialista em Administração; graduada em Secretariado Executivo; cogestora
de projetos de pesquisa e de desenvolvimento tecnológico na área de Energia e Agradeço ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
***

Ambiente na Universidade Federal da Bahia (UFBA). marilucastro@ufba.br (CNPq) pela bolsa ITI.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.581-591, jan./mar. 2009 581
Prospecção tecnológica do biodiesel no estado da Bahia:
panorama atual e perspectivas na geração e apropriação de conhecimento

Figura 1
Aspectos da cadeia produtiva do biodiesel

(Figura 1), desde a produção agrícola e extração de Nota-se ainda que, para que o biodiesel seja
óleos vegetais e/ou o aproveitamento de resíduos classificado como fonte renovável de energia, é
agroindustriais para as matérias-primas e insumos, essencial considerar não só o balanço de energia
passando pela adequação da reação de esterifica- da sua produção, mas também as proporções de
ção e transesterificação, separação de glicerina, energia alocadas aos seus coprodutos e ao seu
processos de produção e purificação, controle de reaproveitamento (PRADHAN et al., 2008).
qualidade, transporte, armazenamento e estoca- A inserção do biodiesel na matriz energética tem sido
gem, purificação e utilização dos coprodutos, uso uma meta de vários países e blocos comerciais (GARO-
e emissões, além de impacto ao meio ambiente FALO, 2002; RANGANATHAN et al, 2008), com ações
decorrente do uso do biodiesel, seus coprodutos e e estratégias de longo-termo. No entanto, para que a
efluentes de processos. Cada um destes aspectos cadeia de biodiesel gere Produto Interno Bruto (PIB) e
é indispensável para a viabilização do biodiesel, melhore o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH),
seja econômica, seja tecnológica, de modo a ga- é necessário que o Brasil não esteja dependente da
rantir a preservação do meio ambiente e o desen- importação de ciência, tecnologia e inovação (C&T&I),
volvimento sustentável. o que requer atuação em pesquisa e desenvolvimento
O uso de biodiesel causa melhorias ao meio ambi- (P&D). Assim, uma Política de Estado alicerçada em
ente e nas condições climáticas pela redução das emis- C&T&I, envolvendo aspectos econômico-financeiros,
sões reguladas e pela utilização de CO2 pela matéria- incentivos fiscais e vantagens econômicas, aspectos
prima, além de ter efeitos sinérgicos de biodegradação legais como normas e especificações, é fator indispen-
de diesel por cometabolismo (PRADHAN et al., 2008). sável para o sucesso deste combustível.
No aspecto social, pode impactar favoravelmente no A obrigatoriedade de inserção na matriz energé-
desenvolvimento rural associado à produção de maté- tica imposta pelo governo federal faz com que ações
ria-prima (QUINTELLA; GUIMARÃES; MUSSE, 2009). estaduais passem a ser reconhecidas como de inte-
Permite ainda que os consumidores produzam sua resse nacional. Neste contexto, o Programa Baiano de
própria energia, tendo independência de fornecedores, Biodiesel e a Rede Baiana de Biocombustíveis (REDE
o que é especialmente desejável em locais remotos e/ BAIANA DE BIOCOMBUSTÍVEIS, 2009) têm atuado
ou com baixo índice de industrialização. de modo concertado com o governo federal e com os

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outros estados do Brasil, através de iniciativas como Em artigos, o conhecimento passa a ser de
a Rede Brasileira de Tecnologia de Biodiesel domínio público e qualquer um o pode utilizar
(BIODIESEL, 2009), tendo tido papel relevante para comercializar e produzir. Sob a forma de
no que tange à estruturação de esforço estadual, patentes, o conhecimento pode contribuir efe-
proposta de matérias-primas e insumos, atração tivamente para o PIB e o IDH, especialmente
e apoio a investimentos de produção de biodie- nos casos em que o financiamento de P&D&I
sel, além de apoio das diversas ações de cunho utiliza recursos públicos de um país, permitindo
científico, tecnológico e social através de suas que os resultados revertam para esse mesmo
secretarias de Estado. As ações da Bahia têm país durante os anos iniciais. Assim, é em geral
extrapolado o âmbito nacional, como no caso da recomendável que seja primeiro depositada a
interação com a Itália através da interação com patente e, após essa data, seja então submetido
a Regione Lombardia e a Università Degli Studi o artigo.
Dell’Insubria (WERNECK, 2007). No panorama internacional, os artigos da Web
No entanto, essas ações devem se traduzir em of Science com a palavra <biodiesel> no titulo ou
resultados práticos que garantam o aumento do no resumo começaram a ser publicados em 1992,
PIB do estado e a melhoria do IDH da população. existindo hoje mais de 2.400 artigos indexados
Aqui passam a ser indispensáveis as ações de (ISIKNOWLEDGE, 2009). Este tema não parece
apoio a C&T&I, seja por publicação dos resultados ser restrito apenas a algumas revistas indexadas
de P&D alcançados, seja pela apropriação do con- específicas, existindo cerca de 20 revistas com
hecimento gerado através de propriedade industrial publicação mais intensa no tema. As revistas com
como patentes. O objetivo deste trabalho é situar mais de 100 artigos são a Energy and Fuels, a
o esforço do estado da Bahia em P&D&I da cadeia Fuel e a Journal of the American Oil Chemists’
produtiva do biodiesel e fazer uma avaliação de Society.
início de curso das ações de biodiesel na Bahia em Trabalhos anteriores (QUINTELLA, 2009; JE-
termos de financiamento de projetos, geração de SUS, 2008) mostraram que as evoluções anuais
conhecimento e apropriação desse conhecimento, de artigos e patentes em biodiesel são exponen-
identificando gargalos científicos e tecnológicos ciais com padrão de tecnologia emergente, sendo
na cadeia produtiva do biodiesel na Bahia e suas uma área ainda competitiva em termos de pes-
respectivas oportunidades, assim como poten- quisa científica e da apropriação do conhecimento
cialidades que ainda podem ser exploradas. Para (QUINTELLA et al., 2009).
isso, foi realizada uma prospecção científica e As bases de patentes do Instituto Nacional de
tecnológica no estado da Bahia, através de bancos Propriedade Industrial do Brasil (INPI) e do United
de grupos de pesquisa do CNPq, artigos, patentes States Patent and Trademark Office (USPTO)
e currículos da Plataforma Lattes do CNPq, sendo apresentam menor número de patentes devido
os resultados avaliados em termos de evolução a conterem apenas os depósitos nos escritórios
anual e de atuação em temas específicos. brasileiro e norte- americano, respectivamente.
Das bases que importam regularmente os dados
de diversas outras bases e/ou homepages, a
A P&D&I DA CADEIA PRODUTIVA DO
do European Patent Office (EPO) tem menos
BIODIESEL
repetições, melhor cobertura (EUROPEAN PAT-
A prospecção tecnológica (MAYERHOFF, 2008) tem ENT OFFICE, 2008) e permite avaliar por códi-
contribuído como fundamentação nos processos de gos ECLA, as bases Scopus (SCOPUS, 2009) e
tomada de decisão referentes à P&D&I e na geração Derwent Innovations Index (Derwent) (DERWENT,
de políticas de longo-termo, estratégias e planos. Utiliza 2009) apresentam diversas repetições e escopo
essencialmente artigos e patentes que não apenas são limitado, respectivamente. A atuação dos países
o depositório do conhecimento especializado como, no em C&T&I pode ser avaliada por suas publicações
caso das patentes, alicerçam legalmente a economia. e por sua apropriação de tecnologia através de

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Prospecção tecnológica do biodiesel no estado da Bahia:
panorama atual e perspectivas na geração e apropriação de conhecimento

patentes. Cerca de 18% das patentes de biodiesel apropriação por patentes neste tema, podendo
são de titularidade dos Estados Unidos da América levar à divulgação indiscriminada da C&T&I de-
do Norte (EUA) (QUINTELLA et al., 2009), o que é senvolvida no Brasil. Isto pode ser um reflexo das
inferior ao percentual global dos EUA, mostrando agências de fomento brasileiras (CNPq, Capes,
que, apesar deste país ter liderança numérica neste Finep, FAPs como a Fapesb, etc.) não consid-
início de desenvolvimento tecnológico do biodiesel, erarem ainda depósitos de patentes de um modo
é possível que outros países possam vir a repartir similar aos artigos em suas avaliações de produ-
essa liderança, como ocorreu anteriormente com o tividade, qualidade e mérito. Os oito países que
Japão (MIYAZAKI, 2008; SOUZA, 2008; CURVELO; mais publicam em biodiesel apresentam evolução
COUTINHO, 2008) em chá verde, erva doce e bios- anual com crescimento exponencial (Figura 2 A),
surfactantes, com a Espanha (SANTOS; PEREIRA, no entanto a sua apropriação dos resultados de
2008) em extratos vegetais aplicados a cosméticos, e P&D por patentes (Figura 2 B) varia bastante. De
com o Reino Unido (VINICIO; SUZARTE, 2008; CER- fato, o crescimento exponencial de depósitos de
QUEIRA; RODRIGUES, 2008) em óleo de algodão patentes é observado claramente apenas para os
para a área de saúde e fluorescência de petróleo. EUA, sendo variável para os outros países.
O Brasil, em 2006 (JESUS, 2008), estava na oitava A razão entre o número de patentes e o número
posição em artigos e na terceira posição em patentes, de artigos (Figura 2 C) permite separar os países
parecendo evidenciar a preocupação maior de pro- que mais apropriam seus resultados de P&D dos
teger o conhecimento antes de sua divulgação sob a que os divulgam intensamente, sem apropriar.
forma de artigos. No entanto, em 2008 (QUINTELLA Observa-se comportamento regular apenas para
et al., 2009), o Brasil encontra-se em terceiro lugar o EUA, o que pode ser explicado por sua cultura
tanto em artigos como em patentes. Este fato é preo- mais estabelecida de apropriação do conheci-
cupante, pois pode indicar que as políticas brasileiras mento, mantendo em cerca de 50% a razão anual
estão incentivando mais publicação de artigos do que de patentes em relação a artigos. A Coreia do Sul

Figura 2
Evolução anual, para os oito países que mais detêm conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico, de:
(A) número de artigos
(B) número de patentes
(C) percentual de patentes em relação a artigos

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e o Canadá se destacam por estarem mais preocu- O escopo da estratégia de pesquisa visou ga-
pados em apropriar tecnologia do que em publicar. rantir que fossem localizados os pesquisadores
A China apresenta um pico percentual de depósitos atuando na cadeia produtiva do biodiesel no estado
de patentes em relação a artigos em 2007 e o Brasil da Bahia, os seus projetos, publicações e produ-
pico similar em 2006. tos tecnológicos. Para isso foram consultados os
No Brasil, o INPI tem recebido solicitações de grupos de pesquisa do CNPq radicados no estado
depósitos através do Patent Cooperation Treaty da Bahia com a palavra <biodiesel>. Foi também
(PCT) na World Intellectual Property Organization consultada a base de currículos Lattes, utilizando
(WIPO), que permite que as patentes possam ser a palavra <biodiesel> em título ou palavra-chave
reconhecidas também em outros países. Apesar da produção, tendo sido incluídos os currículos
disso, as cerca de 60 patentes brasileiras ainda de profissionais atuando em 2008 no estado da
apresentam um índice muito baixo de internaciona- Bahia, com doutorado e com o escore indicador
lização com baixo número de patentes com PCT, da frequência relativa dos termos de busca desde
inferior a 1,7%. Isto é preocupante, pois indica que 100% até 60%. A produção bibliográfica considerou
ou o Brasil não tenciona exportar sua tecnologia, ou apenas artigos em revistas indexadas e anais que
que a cultura de depósito de patentes é extrema- compreendem trabalhos completos ou resumos
mente incipiente. Isto torna a proteção vulnerável, estendidos em anais de eventos. A produção
pois apenas o território brasileiro fica restringido tecnológica considerou os produtos, processos e
para produção e comercialização das patentes softwares.
desenvolvidas pelo Brasil, podendo a tecnologia Foram identificados 36 grupos de pesquisa (Tabela
ser utilizada em qualquer outro país como domínio 1) radicados em onze ICTs. Existem 161 linhas de pes-
público, i.e., sem que seja considerada tecnologia quisa, com a média de 4,5 por grupo, no entanto um dos
pertencente ao Brasil. grupos se destaca por ter 12 linhas de pesquisa.
Considerando que no Brasil cerca de 80% dos Os grupos estão distribuídos em várias áreas
recursos humanos geradores de desenvolvimento do conhecimento, evidenciando que, no estado da
tecnológico se encontram nas Instituições de Bahia, biodiesel é, de fato, um tema altamente in-
Ciência e Tecnologia (ICTs) (BRITO, 2003) e que a terdisciplinar. Os grupos atuam principalmente em:
cadeia produtiva do biodiesel requer grande aporte Química (11); Engenharia Química (4); Agronomia
de P&D para que seja viável técnica e economica- (3); Ecologia (2); Engenharia Elétrica (1); Admin-
mente, foram utilizados dados e indicadores que istração (1); Bioquímica (1); Ciência e Tecnologia
fazem parte da cultura, da rotina e dos processos de Alimentos (1); Comunicação (1); Economia (1);
decisórios referentes às ICTs. Engenharia Agrícola (1); Engenharia Biomédica

Tabela 1
Indicadores diretos dos grupos de pesquisa por instituição: números de grupos, linhas
de pesquisa, pesquisadores, estudantes e técnicos
Instituição Grupos Linhas de pesquisa Pesquisadores Estudantes Técnicos
Cefet/BA 2 6 14 2 0
EBDA 2 15 27 17 10
FTC 3 17 21 38 4
Senai/DR/BA 2 5 12 5 13
UEFS 4 19 21 18 0
UESB 1 4 12 2 0
UESC 1 7 8 9 2
UFBA 16 70 170 210 32
UFRB 2 7 22 30 3
Uneb 1 5 11 10 4
Unifacs 2 8 15 21 9

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Prospecção tecnológica do biodiesel no estado da Bahia:
panorama atual e perspectivas na geração e apropriação de conhecimento

(1); Engenharia Civil (1); Engenharia Mecânica (1); desde 1979. Em geral estes projetos estão sendo
Engenharia Sanitária (1); Farmácia (1); Nutrição (1); executados independentemente de fomento e, se
Planejamento Urbano e Regional (1); Zootecnia (1); houver uma atenção especial, parte deles pode vir
Arquitetura e Urbanismo (1). a ser apoiada, aumentando os recursos alocados à
Os recursos humanos consistem em 306 pesqui- P&D&I de biodiesel no estado da Bahia.
sadores, 360 estudantes e 77 O financiamento de pro-
técnicos. Dos pesquisadores Nesse período teve também início a jetos pelas três fontes de
cadastrados nos grupos de abertura de editais específicos para fomento mais expressivas
pesquisa, 71% são doutores, biodiesel pelas agências de fomento, (Figura 3 B) começou efe-
19% são mestres, 4% são entre outros. Cerca de 39% dos tivamente em 2002, tendo
especialistas e 6% são gradu- grupos de pesquisa não têm ainda se tornado sistemático em
ados. A média de pesquisa- projetos em biodiesel coordenados 2004/2005. Este período coin-
dores por grupo é de 9,2, por seus pesquisadores cide com um momento político
sendo que varia entre 2 e 34. favorável, quando o Brasil e o
A média de estudantes por grupo é de 10, no entanto estado da Bahia adotaram a estratégia de viabilizar
alguns grupos parecem não ter cadastrado todos os técnica e economicamente o biodiesel, levando à im-
seus estudantes. A média de técnicos por grupo é plantação do Programa de Biodiesel (Probiodiesel)
de 2,1, mas a sua distribuição é deveras irregular, da Bahia e das Redes Baiana de Biocombustíveis e
sendo que alguns grupos não apresentam técnicos Brasileira de Tecnologia de Biodiesel (CRUZ et al.,
cadastrados e um deles tem 13 integrantes. 2006). Nesse período teve também início a abertura
Pode-se observar que quem financiou mais de editais específicos para biodiesel pelas agências
projetos foi o Estado da Bahia (Figura 3 A), respon- de fomento, entre outros. Cerca de 39% dos grupos
dendo por 29% dos recursos aplicados no estado, de pesquisa não têm ainda projetos em biodiesel
sendo que a Fapesb foi responsável por 93% do coordenados por seus pesquisadores. Apenas cerca
fomento estadual. Depois vêm duas agências do de 50% dos pesquisadores coordenam os projetos,
governo federal, o Conselho Nacional de Desen- no entanto o percentual de doutores é de 71%,
volvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com notando-se que existe ainda capacidade ociosa
18% dos projetos, e a Financiadora de Estudos para coordenação de novos projetos no estado da
e Projetos (Finep), com 12%. As empresas par- Bahia. A evolução anual da produção científica e tec-
ticiparam do financiamento de 10% dos projetos nológica (Figura 4) não acompanha ainda o número
em cooperação com ICTs. Os projetos que não de projetos financiados. Isto é de se esperar, pois o
disponibilizam informações sobre financiador (nd) financiamento sistemático de projetos só começou
representam 22% e são declarados nos currículos recentemente, em 2004.

MME BNB
A B Cnpq
1% 5% Capes
Empresas Fapesb
3% 15
10% Finep

nd 10
CNPq
22% 18% 5
Estado da
FINEP 0
Bahia
11% 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
30%
Figura 3
(A) Projetos financiados por fonte de fomento
(B) Evolução anual do número de projetos financiados pelo Cnpq, Fapesb e Finep

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Cristina M. Quintella, Pedro R. C. Neto, Rosenira S. da Cruz, José Adolfo de Almeida Neto, Sabrina F. Miyazaki, Marilú P. Castro

A Projetos B Projetos
Artigos Patentes
40 40
Anais Produtos Tecnológicos
35 35
30 30
25 25
20 20
15 15
10 10
5 5
0 0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008

Figura 4
(A) Evolução anual de número de projetos e da produção científica
(B) Evolução anual de número de projetos e da produção tecnológica
Dados referentes ao período de janeiro de 2002 a dezembro de 2008 (exceto patentes em período de
sigilo e não declaradas nos currículos dos inventores)

Pode-se observar que as publicações em anais sensor para sua operação (QUINTELLA et al., 2009).
crescem até 2006 e depois caem. Entretanto, as pu- Considerando o esforço existente em financiamento
blicações em artigos crescem em 2007 e se estabilizam de projetos nos últimos quatro anos e que 85% dos
em 2008. Este aumento do número de anais, antes projetos são financiados com recursos públicos,
do número de artigos, é esperado, pois os anais são espera-se em futuro próximo o depósito de patentes
usualmente o início das divulgações de P&D, sendo de origem brasileira para apropriar a tecnologia de-
seguidas por construções mais elaboradas e compl- senvolvida no estado da Bahia.
exas de P&D que são veiculadas como artigos. No Em termos de etapas da cadeia produtiva do biodie-
entanto, o número de publicações ainda é pequeno em sel (Figura 5), tem havido maior número de projetos em
relação ao número de projetos financiados e ao número processo e produção (processo, produção, purificação,
de pesquisadores atuantes em biodiesel, esperando-se transesterificação, catálise e biocatálise). Um aspecto
um crescimento significativo em futuro próximo. que também já está sendo contemplado são os estudos
A evolução anual de produtos tecnológicos observando de modo integrado e transdisciplinar a cade-
(Figura 4 B) mostra número reduzido e sem ter ainda ia produtiva de biodiesel, incluindo estudos de viabilidade
um padrão definido. Alguns dos produtos tecnológi- técnica, econômica e ambiental. Observa-se, porém,
cos consistem em construção de plantas piloto de que os programas estaduais e federais priorizaram
produção de biodiesel e seus aprimoramentos, no inicialmente a tecnologia de produção de biodiesel, em
entanto nenhum destes foi apropriado sob a forma de detrimento de incentivos e pesquisas nas áreas rela-
patentes, desenho industrial ou software. Observam- cionadas à produção agrícola da matéria-prima (QUIN-
se apenas três patentes: (1) patente encontrada nas TELLA et al., 2009). Isto se reflete na dominância da soja
bases de dados de patentes e que se refere à utiliza- como matéria-prima para a produção de biodiesel e na
ção do coproduto glicerina bruta (GB) em etapas da escassez e custos elevados de outras matérias-primas
cadeia produtiva de petróleo e gás (QUINTELLA et que possuam um desempenho ambiental e social mais
al., 2005, 2009f; BORGES et al., 2005); (2) patente adequado às diretrizes do Programa de Biodiesel. Em
encontrada no currículo Lattes do inventor e que se projetos já se observa preocupação com emissões e
refere ao processo de purificação da glicerina loura, meio ambiente, assim como coprodutos (glicerina bruta,
oriunda da transesterificação do biodiesel (RODRI- farelo e torta) e seu uso variado, incluindo o de aditivo.
GUES; MACHADO; FERRO, 2009); e (3) patente No entanto, o número de projetos financiados em co-
encontrada no currículo Lattes do inventor e que produtos (4%), uso (5%), e emissões e meio ambiente
se refere ao método para monitorar qualidade em (7%) ainda é pouco significativo, sendo menor do que
processos de obtenção de combustíveis e dispositivo 16% do total dos projetos.

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Prospecção tecnológica do biodiesel no estado da Bahia:
panorama atual e perspectivas na geração e apropriação de conhecimento

A Projetos B Produção científica C Produção tecnológica


Anais Produtos tecnológicos

Artigos Patentes
Coprodutos

Usos

Emissões e
meio

Cadeia e
viabilidade
Insumos e
Matéria-
prima

Qualidade

Processo e
produção

0 5 10 15 20 25 30 35 40 0 5 10 15 20 25 0 5 10

Figura 5
Temas da cadeia produtiva do biodiesel:
(A) projetos
(B) produção científica
(C) produção tecnológica
Dados referentes ao período de janeiro de 2002 a dezembro de 2008 (exceto patentes em período de
sigilo e não declaradas nos currículos dos inventores)

A produção bibliográfica de anais (Figura 5 B) se só existem no momento três patentes depositadas


mostra maior para cadeia produtiva e viabilidade, oriundas do estado da Bahia, esperando-se aumento
processos e produção, insumos e matérias-primas, expressivo em futuro próximo.
seguidas de qualidade, além de emissões e meio O pequeno número de produtos tecnológicos
ambiente, uso e coprodutos. Neste primeiro período confirma a observação anterior da necessidade
até 2008, a produção de artigos acompanha de perto dos coordenadores e agências de fomento estarem
o número de projetos apenas em insumos e maté- atentos à necessidade de apropriação através de
rias-primas (OLIVEIRA; ROSOLEM; TRIGUEIRO, patentes, softwares, desenho industrial etc.
2004; OLIVEIRA et al, 2006), qualidade (ARAUJO De fato, o estado da Bahia reflete esta preocupa-
et al., 2008; GUARIEIRO et al., 2008) e coprodutos ção com tecnologia e inovação, tendo implementado
(RIBEIRO et al., 2007; SOUZA et al., 2007; ARAUJO ações que são não só pioneiras, mas coerentes e
et al., 2008, sendo esperado aumento da produção continuadas, desde 2005, para financiar e estimular
em outros temas no próximo período, como proces- os Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) (PORTAL
sos e produção (HAMAD et al., 2008; MORIN et al., DE INOVAÇÃO DA REDE NIT-NE, 2009) e o treina-
2007; GERIS et. al., 2007), e cadeia produtiva e mento dos recursos humanos para atuar nos NITs,
viabilidade (TORRES et al., 2006; CRUZ et al, LEI- como elaboração de textos de patentes, negociação
RAS; HAMACHER; SCAVARDA, 2006). Na produção e transferência de tecnologia, e gestão. Neste período
tecnológica se destacam processos e produção, o foi criada a Repittec, foram lançados diversos editais,
que pode ser atribuído a esta etapa inicial do estado tendo o último focado Sistemas de Inovação Locais.
da Bahia estar muito centrada em instalar processos Na Fapesb, esta preocupação se torna ainda mais
de produção reprodutíveis e confiáveis. No entanto, expressiva ao ser criada em 2007 a Diretoria de In-
são apenas nove produtos e, considerando que o ovação e, em 2008, a Câmara de Inovação.
número de produtos tecnológicos é ínfimo ainda, Em março de 2008 foi ao ar o Portal da Inova-
pode não ser representativo. Observa-se ainda que ção da Rede NIT-NE, com financiamento Finep,

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Cristina M. Quintella, Pedro R. C. Neto, Rosenira S. da Cruz, José Adolfo de Almeida Neto, Sabrina F. Miyazaki, Marilú P. Castro

CNPq e Fapesb, que além de alimentar também Torna-se necessário investir em processos e
o Portal da Inovação do MCT, permite divulgar técnicas de controle de qualidade em tempo real,
ofertas e demandas de produtos de três tipos: (a) não destrutivos e não intrusivos, e desenvolver
serviços e P&D&I; (b) formação de recursos hu- ferramentas de controle e ajuste dos processos.
manos; e (c) propriedade intelectual. Além disto, Deve-se ainda ter abordagens com diferentes
tem embutido um sistema de gestão que incluiu prioridades para os dois polos de realidades socio-
estatísticas, previsão de datas e de gastos de econômico-ambientais da Bahia que necessitam
propriedade intelectual e um sistema de gestão ser atendidas: as pequenas comunidades rurais
de contratos de transferência de tecnologia. Este remotas e as regiões com um nível mínimo de
Portal está disponível para os setores acadêmico, industrialização. Para áreas remotas é necessária
empresarial e governamental e é de acesso re- a capacitação mais intensa para produção em
strito para cada organização cadastrada (PORTAL pequenas comunidades, aliada ao envio remoto
DE INOVAÇÃO DA REDE NIT-NE, 2009). de dados diagnósticos e/ou de decisão em acom-
panhamento de processo e qualidade de produto.
Adicionalmente, é necessário incentivar a associa-
Considerações finais
ção e o cooperativismo entre pequenos produtores,
Nesta primeira fase de desenvolvimento de P&D&I desenvolvendo processos de otimização dos es-
em biodiesel, que concluiu seu quinto ano, foi focalizado forços típicos de agricultura familiar como extração
mais o processo de produção de biodiesel por transes- a frio de óleos, insumos disponíveis na região que
terificação, seus insumos e a qualidade. Deve-se agora atendam as condições edafoclimáticas, desen-
não só manter estes financiamentos priorizando pes- volvimento de processos de reaproveitamento na
quisas na rota etílica, mas também começar a estimular própria comunidade dos coprodutos e efluentes.
o desenvolvimento de P&D&I em biocombustíveis de Neste caso, a especificação do biodiesel, sendo
segunda geração, como por exemplo, através da rota para uso próprio, não necessita atender obriga-
lignocelulósica, que permite o uso de resíduos e a ob- toriamente as normas comerciais. Já em regiões
tenção de maiores rendimentos energéticos por área mais industrializadas, passa a ser crucial o moni-
cultivada. Deve-se ainda aumentar o escopo das ações toramento e o controle da qualidade do produto e
no estado da Bahia no que tange a maior incentivo para a relação custo-benefício.
atuar na produção agrícola e extração de óleos vegetais, É grande o número de pesquisadores atuantes
o que permitirá o aproveitamento integral dos coprodu- em biodiesel, no entanto cerca de 20% dos doutores
tos da cadeia do biodiesel, intensificando as pesquisas não coordenam projetos de pesquisa. Deve-se
sobre custos e disponibilidades, contribuindo assim incentivar e capacitar, se necessário, estes pesqui-
para uma maior inclusão social e geração de emprego sadores para que novas ações e novas abordagens
e renda. Ademais, é imprescindível atuar intensamente conduzam a mais resultados de projetos que pos-
nos aspectos ambientais associados à produção e ao sam ser apropriados.
uso do biodiesel, de seus coprodutos e dos resíduos O número de técnicos que atuam nos grupos
de processo, considerando uma abordagem sistêmica de pesquisa é ainda reduzido, especialmente se
de ciclo de vida. Para a viabilização econômica é lembrarmos que esta é uma área que requer maior
necessário o reaproveitamento de coprodutos (eflu- aporte de profissionais capacitados para atividades
entes e subprodutos), deste modo contribuindo para técnicas que garantam a reprodutibilidade de medi-
viabilizar econômica e ambientalmente a produção das, processos etc.
de biodiesel e garantindo que ele seja, de fato, 100% Os projetos que não tem financiamento declarado
renovável. consistem em cerca de um quinto. Este alto percentual
Finalmente, novas tecnologias, como a rota merece especial atenção, devendo ser triados com
etílica, têm que ser desenvolvidas e as existentes cuidado, separando aqueles que não são expressivos
requerem melhoria de qualidade e eficiência e da dos outros que possuem de fato um potencial ainda
relação custo/benefício. não realizado em termos de financiamento.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.581-591, jan./mar. 2009 589
Prospecção tecnológica do biodiesel no estado da Bahia:
panorama atual e perspectivas na geração e apropriação de conhecimento

Para que se aproveite intensamente o finan- EUROPEAN PATENT OFFICE - EPO. 2008. Disponível em:
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dade, qualidade e mérito, para incorporar a cultura de
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patentes. É necessário também incorporar estratégias Química Nova, São Paulo, v. 30, n. 5, p.1369-1373, 2007.
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Devem ainda ser mais estimuladas ações para for- Paulo, v. 31, n. 2, p. 421-426, 2008.
talecer a interação com empresas, aumentando o
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e da geração da inovação, intensificando esta rota Communications, USA, v. 10, issue 1, p. 92-97, 2008.
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Francisco S. G. Pereira, Ana R. F. Drummond, Guilherme Coimbra

Bahia
análise & Dados

Potencial energético de resíduos


agrícolas do semiárido do Brasil
Francisco S. G. PereiraA
Ana R. F. DrummondB
Guilherme CoimbraC

Resumo Abstract

O potencial energético de resíduos da mamoneira é desco- The energy potential of castor oil plant residues is
nhecido por agricultores familiares e muitas agroindústrias. Isto unknown by small farmers and many agro-industries. This
pode ser facilmente constatado quando os agricultores familiares can be easily noted when these farmers use firewood for
usam lenha para cozimento e fazem uma fogueira de coprodutos cooking and make a fire with agricultural co-products, just
agrícolas, simplesmente para se desfazerem do “lixo” do quintal. to dispose of back yard “rubbish”. In an analogous form, a
De forma análoga, a grande maioria das indústrias de biodiesel large majority of biodiesel industries use firewood as boiler
utiliza lenha como combustível de suas caldeiras. Estes fatos fuel. These facts indicate a lack of knowledge regarding
indicam a falta de conhecimento do potencial energético de resí- energy potential from agricultural residue, especially parts
duos agrícolas, especialmente das frações da mamoneira como of the castor oil plant as renewable fuels. This research
combustíveis renováveis. Objetivou-se, neste trabalho, avaliar o aimed to evaluate the combustion power of the raw seed
poder de combustão da torta bruta (22,2 MJ/kg), casca (15,9 MJ/ pod (22.2 MJ/kg), shell (15.9 MJ/kg), stem (17.4 MJ/kg) and
kg), caule (17,4 MJ/kg) e raiz (17,4 MJ/kg), que se apresentam roots (17.4 MJ/kg), which proved to be approximately twice
cerca de duas vezes mais elevados que a lenha (10,8 MJ/kg) e that of firewood (10.8 MJ/kg) and sugar cane bagasse (8.4
o bagaço de cana-de-açúcar (8,4 MJ/kg). MJ/kg).

Palavras-chave: Bioenergia. Biomassa. Poder calorífico. Keywords: Bioenergy. Biomass. Calorific power. Castor
Mamoneira. Resíduo agrícola. oil plant. Agricultural residue.

INTRODUÇÃO tíveis. O potencial nestes resíduos não é sempre


bem conhecido, porém seguramente corresponde
Diversos tipos de subprodutos de atividades a volumes significativos de energia subaproveitada.
agrícolas, agropecuárias, florestais, agroindustriais Por outro lado, muitas vezes os resíduos constituem
e urbanas, tais como cascas e outros resíduos lig- um problema de caráter ambiental e sua disposição
nocelulósicos, podem ser utilizados como combus- final é de difícil solução, sendo o uso energético uma
saída oportuna e viável, já que reduz seu volume e
seu potencial contaminante. Como diz a sabedoria
A
Mestre em Tecnologia Ambiental pelo Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP)
com ênfase em fontes alternativas de energia utilizando resíduos agroindustriais; chinesa, “resíduo é matéria-prima mal aproveitada”
graduado em Licenciatura em Química e Química Industrial na Universidade Federal
de Pernambuco (UFPE); professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tec- (NOGUEIRA; LORA, 2003).
nologia de Pernambuco (IFPE); membro da Rede Pernambucana de estudos voltados
ao Biodiesel. cientista.francisco@yahoo.com.br Um exemplo disto pode ser mencionado: até
Pós-doutora (recuperação de poços de Petróleo) e Ph.D. em Engenharia Química
recentemente, cerca de 10 anos, era comum
B

(Fontes Alternativas de Energia) pelo Imperial College London; mestre em Química


Aplicada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); pesquisadora tecnolo-
gista e professora do Mestrado Profissional em Tecnologia Ambiental do Instituto de
encontrar-se amontoados de resíduos agrícolas
Tecnologia de Pernambuco (ITEP); pesquisadora-adjunta do Departamento de Reser-
vas Minerais do Imperial College-Londres.
nas indústrias de açúcar e bioetanol, o bagaço,
C
Mestre em Tecnologia Ambiental pelo Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP) que passou a ser até termo pejorativo de descarte,
com ênfase em contaminação de aquíferos por derivados de Petróleo, graduado em
Licenciatura Plena em Química pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap); material que não servia para nada. Hoje o cenário é
professor de Química do ensino médio e pré-vestibular da rede publica e privada;
orientador titular do Congresso de Iniciação Científica (Conic). diferente e a maioria das indústrias sucroalcooleiras

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.593-602, jan./mar. 2009 593
Potencial energético de resíduos agrícolas do semiárido do Brasil

não só passou a produzir energia do bagaço para de produção desse biocombustível, cada um litro de
uso interno, como também gera renda pela venda óleo vegetal produz um litro de biodiesel (PAREN-
de energia para concessionárias elétricas. TE, 2003). Por exemplo, para suprir as necessida-
Outra visão estratégica é a procura por materiais des de Pernambuco em comercializar B2 e cumprir
que possam substituir os produtos derivados de pe- a exigência inicial da Lei Federal 11.097/2005 serão
tróleo em razão da sua natureza fóssil não-renovável necessários 17.222 m3 de óleo de mamona, ou outro
e da grande oscilação monetária que tem sofrido este óleo vegetal, e uma área total plantada de 54.673
produto. Um país nas condições de disponibilidade de hectares (SANTOS et al, 2008). Para a perspectiva
terra e mão de obra como o Brasil tem uma situação pri- de atingir 4% de adição de biodiesel ao diesel de
vilegiada e capaz de continuar o seu desenvolvimento petróleo, ou seja, a mistura B4, será necessária uma
sem depender ou sofrer com as oscilações monetárias área plantada superior a 60 mil hectares.
externas. Adicionalmente, são inúmeros os vegetais ou O Brasil é detentor de vastas extensões de terras
arbustos que podem ser cultivados em terras do Brasil próprias para agricultura; no Nordeste do Brasil, em
sem haver a competitividade com o plantio de fontes especial no semiárido, a mamoneira (Ricinus com-
de alimentos, por exemplo, a mamoneira. munis L.) tem se mostrado altamente promissora,
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Esta- por sua fácil adaptação ao clima (BELTRÃO et al.,
tística (IBGE, 2009), o plantio de mamoneira no Brasil 2003). O estado da Bahia, maior produtor de óleo
foi de 242.057, 160.332 e 167.001 hectares em 2005, de mamona, nestes dois últimos anos teve que im-
2006 e 2007, respectivamente; o cenário é semelhante portar cerca de 30% deste insumo. Não por causa
quanto ao crescimento do plantio de mamoneira para dos biocombustíveis, mas para atender a outros
o Nordeste, sendo de 227.068, 146.310 e 154.938 produtos que podem ser originados com este versátil
hectares também para os mesmos anos apresen- e valioso óleo, na denominada ricinoquímica. Com
tados. Pode-se observar que esta cultura agrícola é o crescimento de utilização do óleo da mamoneira,
de fundamental importância para o Nordeste e em cresce o acúmulo dos ditos “subprodutos” (casca,
particular para estados de clima semiárido, onde o torta e caule), os quais possuem alto valor agregado
plantio de mamona representa um percentual superior quando utilizado como combustíveis.
a 90% quando comparado com o plantio nacional. A atual matriz energética mundial compõe-se,
Em Pernambuco, a produção de mamoneira (5.651 principalmente, de fontes não renováveis de carbono
hectares) ainda é bastante insignificante quando fóssil como petróleo (35%), carvão (23%) e gás natural
comparado com a Bahia (122.845 hectares) no ano (21%). Vários estudos vislumbram o esgotamento
de 2007 (IBGE, 2009); para os demais estados do dessas fontes e uma possível escassez, ainda neste
Nordeste o plantio em hectares desta cultura é de 435 século. Reforçando esta problemática, sabe-se que as
para Alagoas, 1.965 para a Paraíba, 122 para o Rio principais fontes de petróleo e gás natural encontram-
Grande do Norte, 9.992 para o Ceará, 13.814 para o se no Oriente Médio, potencializando disputas entre
Piauí e 114 para o Maranhão. O IBGE não apresenta países com vista ao domínio das últimas grandes
plantio de mamoneira para Sergipe. Com o programa reservas de importância econômica (PERES;
de biodiesel e para suprir as necessidades de acordo FREITAS JÚNIOR; GAZZONI, 2005).
com a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural A Matriz Energética Brasileira é constituída pelos
e Biocombustíveis (ANP), no ano de 2006 a venda segmentos: (a) petróleo e seus derivados e gás natural
de diesel pelas distribuidoras para o Nordeste foi de (48,0%); (b) recursos renováveis (43,8%), constituídos
5.818.493 m3. (AGÊNCIA NACIONAL DE PETRÓLEO, essencialmente de biomassa (29,4%) e hidroeletricidade
GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS, 2009). (14,4%). Biomassa é representada por lenha, carvão
A Lei 11.097/2005 determina que seja adicionado vegetal, cana e outras fontes; (c) carvão mineral (6,7%)
obrigatoriamente ao óleo diesel 2% de biodiesel e (d) urânio (1,5%) (BRASIL, 2005).
em janeiro de 2008, 3% em agosto de 2008 e para Um antagonismo energético é presenciado na
2009, espera-se que seja de 4%. Considerando-se maioria das indústrias de biodiesel, um dos focos
que na reação de transesterificação, ou seja, reação de produção dos biocombustíveis que utilizam

594 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.593-602, jan./mar. 2009
Francisco S. G. Pereira, Ana R. F. Drummond, Guilherme Coimbra

lenha como combustível em suas caldeiras. Esse Partindo-se de 100 kg de bagas ou frutos de
fluxo energético, além de estar provocando o des- mamoneira obtém-se 75 kg de sementes e 25 kg
matamento desordenado da caatinga (bioma típico de cascas. Das sementes extrai-se o óleo, que
da região Nordeste), contribui para uma produção corresponde a 50%, enquanto os outros 50% são
não sustentável. O uso indiscriminado da lenha em representados pela torta, ou seja, 37,5 kg de óleo
caldeiras e fornos (Figura 1) ainda é a prática mais e 37,5 kg de torta. Do óleo, após adição do álco-
recorrente em indústrias da região Nordeste do ol e utilização de catalisador, cerca de 90% são
Brasil. A energia industrial dependente da lenha da transformados em biodiesel e os 10% restantes,
caatinga, sem criação de alternativas sustentáveis, correspondem ao resíduo do processo de transes-
contribui negativamente para a imagem empresarial terificação, que é a glicerina. A casca e a torta da
e ambiental de qualquer estado brasileiro. mamona, juntas, correspondem a 62,5 % da massa
da baga ou fruto, enquanto 37,5% correspondem
ao óleo (ALMEIDA et al, 2006). Observe que foi
desconsiderado neste estudo o potencial energético
dos resíduos agrícolas que chegam a ser cerca de
seis vezes maiores que a semente, ou seja, para
a obtenção de 100 kg de semente são disponibili-
zados cerca de 600 kg de resíduos, especialmente
caules e folhas, sem contar com os 25 kg de casca
das bagas e os 37,5 kg de torta bruta.
A maioria dos agricultores familiares desconhece
a utilização das cascas e caule da mamoneira como
combustíveis. Pelo contrário, no semiárido continua
o desmatamento e a procura por qualquer arbusto
Figura 1
para ser eliminado. É visível esse desconhecimento
Estoque de lenha e queima em caldeira em
indústria de Pernambuco quando esses agricultores familiares fazem uma
Foto dos autores, 2007.
fogueira (Figura 3) destes co-produtos agrícolas em
seus quintais para se livrarem desse “lixo” incômodo.
Segundo Almeida e outros (2006), as etapas da Dessa forma poluem duplamente o meio ambiente:
cadeia produtiva industrial do biodiesel de mamona e pela fogueira e pelo desmatamento.
seus co-produtos podem ser ilustradas e resumidas Os fatos descritos anteriormente, de queima de
na Figura 2. lenha ou resíduos de forma inadequada, indicam a

Álcool + 33,75 kg
Catalisador Biodiesel

75 kg 37,5 kg
Semente 3,75 kg
Óleo
Glicerina
100 kg
Mamona 37,5 kg
25 kg Torta
Casca

Figura 2
Etapas do processo industrial do biodiesel da mamona
Fonte: ALMEIDA, et al., 2006.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.593-602, jan./mar. 2009 595
Potencial energético de resíduos agrícolas do semiárido do Brasil

falta de conhecimento do potencial energético das ou inundação, e não suporta solos muito salinos
frações da mamoneira para utilização como biocom- e com baixa sodicidade, sendo que a altitude do
bustíveis. O presente trabalho propõe a utilização local deve ser de no mínimo 300 metros, podendo
das cascas, torta e caule como fonte de energia chegar a 1.100 metros (BELTRÃO et al, 2003).
nessas indústrias e na agricultura familiar.

Figura 3
Resíduos agrícolas de mamoneira antes
e após queima
Foto dos autores, 2007. Figura 4
Mamoneira de cultivar Paraguaçu, zona rural
de Pesqueira – PE
Inúmeras pesquisas sugerem a utilização de bio-
Foto dos autores, 2007.
massa para fins energéticos, principalmente como
combustíveis. Estudos já apontam que a utilização
A cadeia produtiva da mamoneira (Figura
da biomassa para fins energéticos vem tendo uma
5) inicia-se com a matéria-prima (cultura da
participação crescente perante a matriz energética
mamoneira) e termina com a disponibilização de
mundial, levando a estimativas de que até o ano
vários produtos industrializados, passando por
de 2050 deverá dobrar o uso mundial de biomassa
intermediários de comercialização e distribuição,
disponível (FISCHER, 2001, apud RATHMANN;
assim como pelas indústrias extratoras de óleo,
BENEDETTI; PLÁ, 2005).
ricinoquímica e de derivados (RAMOS et al, 2006).
A mamoneira apresenta 54,5 % de teor de óleo,
Mamoneira (Ricinus communis L.)
todavia os seus outros componentes são tidos como
A mamoneira pertence à família das Euforbi- resíduos, não favorecendo a cadeia produtiva da
áceas, sendo uma planta rústica e resistente à ricinocultura (DRUMMOND et al, 2006).
seca. Em termos mundiais, a espécie é cultivada Na cadeia da mamoneira tem-se uma grande
comercialmente entre os paralelos 40º N e 40º S. gama de oportunidades e opções de rotas comer-
No Brasil, seu cultivo comercial ocorre, praticamen- ciais, industriais e tecnológicas e podem-se identificar
te, em todos os estados nordestinos, à exceção de duas etapas bem definidas: a agrícola e a industrial.
Sergipe e Maranhão, que embora possuam áreas A etapa agrícola ocorre desde o desenvolvimento
com aptidão potencial ao cultivo, não registraram da cultura até a disponibilização das sementes para
plantios comerciais (AMORIM NETO et al, 2001, a indústria. A etapa industrial é caracterizada pela
apud CARAMORI et al, 2006). produção do óleo e seus derivados, destacando-se
A mamoneira (Ricinus communis L.) é uma o biodiesel, e de produtos mais sofisticados como
planta de clima tropical, prefere locais onde a tem- isolados protéicos (PEREIRA, 2007).
peratura do ar varie entre 20 e 30 ºC, precipitações É importante observar a integração entre essas
pluviais (chuvas) de pelo menos 500 mm (5.000 etapas, não esquecendo o grande valor da parte co-
m3/ha), elevada insolação e umidade relativa do mercial, representada principalmente pelo processo
ar baixa durante a maior parte do seu ciclo, menor de exportação. Nesta cadeia produtiva percebem-se
do que 60%. Essa planta prefere solos de textura dois tipos de resíduos sólidos: os procedentes da cul-
média, não muito argilosos, planos ou de relevo tura ou campo (cascas, caules, raízes e folhas) e os
suave ondulado, sem perigo de encharcamento industrializados (torta e farelo) (PEREIRA, 2007).

596 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.593-602, jan./mar. 2009
Francisco S. G. Pereira, Ana R. F. Drummond, Guilherme Coimbra

Figura 5
Possibilidades de utilização da mamona
Fonte: RAMOS; AMORIM; SAVY FILHO, 2006.

Biomassa

A biomassa, em sentido amplo, é qualquer tipo de


matéria orgânica renovável de origem vegetal, animal
ou procedente da transformação natural ou artificial da
mesma. Estes materiais têm em comum a origem direta
ou indireta do processo de fotossíntese e por esta razão
se apresentam de maneira periódica e não limitada no
tempo, quer dizer, de forma renovável. A energia da
Figura 6
biomassa é proveniente da luz solar no processo de fo-
Transformação de CO2 e H2O em biomassa
tossíntese (VIANNA; VIEIRA; NASCIMENTO, 2000). e vice-versa
A Figura 6 ilustra, de forma simplificada, a produ- Fonte: BUSSI; CASTIGLIORI; TANCREDI, 2004.
ção de biomassa partindo-se das substâncias clássi-
cas da natureza (CO2 e H2O) e da energia solar.
De forma genérica, a fotossíntese pode ser es- segundo caminhos sofisticados e diversas etapas
quematizada pela seguinte equação: intermediárias, permitindo a vida na Terra. De fato, as
plantas e os animais, inclusive o homem, vivem em
6 CO2 + 6 H2O  C6H12O6 + 6 O2 uma “simbiose”, consumindo e trocando recursos em
complexas cadeias de onde fluem alimentos e ener-
Esta simples transformação de gás carbônico e gia, sempre a partir da energia solar sintetizada qui-
água em carboidrato e oxigênio ocorre, na verdade, micamente nas plantas (NOGUEIRA; LORA, 2003).

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.593-602, jan./mar. 2009 597
Potencial energético de resíduos agrícolas do semiárido do Brasil

A biomassa pode ser classificada (VIANNA; Nogueira e Lora (2003) afirmam que a energia
VIEIRA; NASCIMENTO, 2000) segundo sua origem disponível na biomassa apresenta-se sempre na
como: forma de energia química, impondo reações para
• Natural: produzida pela natureza sem a inter- sua liberação e consequente execução de alguma
venção humana, por exemplo, as árvores das ação de interesse, como pode ser o cozimento de
florestas. Este tipo de biomassa parece ser a alimentos, a geração de vapor ou outras aplicações.
mais adequada para um aproveitamento ener- Em todos os casos pode-se dizer que a utilização da
gético em grande escala e rápida degradação energia da biomassa é a fotossíntese inversa, pois
através dos ecossistemas naturais. se busca resgatar a energia solar armazenada pelo
vegetal, consumindo oxigênio atmosférico e resti-
• Residual: gerada por qualquer tipo de atividade
tuindo ao ar o dióxido de carbono. Assim se justifica
humana, principalmente nos processos produti-
o emprego de diversas tecnologias baseadas em
vos dos setores agrícola e florestal, assim como
alguns processos de conversão, sendo os principais
a produzida nos núcleos urbanos.
classificados em três grupos: físicos, termoquímicos
• Produzida em plantações energéticas: neste e biológicos. Bussi, Castigliori e Tancredi. (2004)
caso os cultivos energéticos são realizados com contribuíram para esta classificação fornecendo de-
a finalidade de produzir biomassa capaz de ser talhes de faixas de temperatura e teor de umidade da
transformada em combustível. biomassa, conforme esquematizado na Figura 7.

Figura 7
Processos tecnológicos de conversão da biomassa
Fonte: Adaptado de VIANNA; VIEIRA; NASCIMENTO, 2000; BUSSI; CASTIGLIORI; TANCREDI, 2004; NOGUEIRA; LORA, 2003..

598 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.593-602, jan./mar. 2009
Francisco S. G. Pereira, Ana R. F. Drummond, Guilherme Coimbra

A queima direta ou combustão é a tecnologia MATERIAL E MÉTODOS


de conversão mais antiga e mais difundida comer-
Coleta das amostras
cialmente, aplicando-se fundamentalmente para a
madeira e para os mais diversos resíduos agroin- A coleta do material foi realizada na cidade
dustriais como o bagaço de cana, a casca de arroz de Pesqueira, agreste de Pernambuco, situada
e outros similares como os resíduos do agronegócio a cerca de 190 km da capital Recife, e consistiu
da mamoneira. A biomassa é um combustível rico em amostras de torta bruta e cascas obtidas de
sementes de mamona de agricultores familiares
em voláteis, que constituem quase 75% de seu peso.
de Pesqueira e de outros municípios do agres-
Como exemplo dessa constituição pode-se citar o
te e do semiárido. Além dessa coleta no setor
bagaço de cana, que possui cerca de 73,78% de
industrial de biodiesel na zona urbana, foram
materiais voláteis (NOGUEIRA; LORA, 2003).
coletadas amostras de mamoneira de cultivar
Resumidamente, a reação de combustão de um
Paraguaçu com 145-150 dias de cultivo (época
combustível com ar pode ser representada segundo
de colheita do fruto ou semente) na zona rural
o seguinte esquema: de Pesqueira.

Biomassa + ar = CO2 + SO2 + H2O + N2 + O2 + Descrição das amostras coletadas


CO + H2 + CH4 + fuligem + cinzas
As amostras coletadas foram classificadas em
dois grupos: resíduos industriais e resíduos agríco-
No caso da biomassa, os produtos CO2, SO2 e H2O
las. Como resíduos industriais deste estudo foram
são resultantes da oxidação completa, sendo a quan-
considerados a torta bruta e as cascas. Como
tidade de SO2 quase desprezível. Os produtos N2 e O2
resíduos agrícolas foram considerados as raízes,
são provenientes do ar em excesso e eventualmente
caules, pecíolos e folhas. As cascas, neste caso,
da umidade do combustível e do ar. Os produtos CO,
foram consideradas amostra industrial por terem
H2, CH4 e fuligem são resultantes de combustão incom- sido geradas na indústria através do descasca-
pleta. As cinzas são resultantes da fração mineral do mento do fruto e liberação das sementes.
combustível (NOGUEIRA; LORA, 2003). Preparação das amostras em laboratório
Este estudo mostra a possibilidade de uso da
biomassa residual do agronegócio da mamoneira
através da rota energética de combustão. Associada Tabela 1
Discriminação das amostras estudadas neste
a essa rota energética sugere-se a tecnologia de trabalho
densificação ou briquetagem para facilitar o manu- Amostras Natureza Descrição
seio, armazenamento e produção de um combustível 1 Industrial Torta bruta

alternativo sólido. A densificação é realizada geral- 2 Industrial Cascas

mente através do uso de prensagem (prensas com 3 Agrícola Folhas


4 Agrícola Raiz
capacidade de até 40 toneladas) dessa biomassa
5 Agrícola Caule
aditivada com algum tipo de aglomerante, sendo o
6 Agrícola Pecíolo
mais comum o amido ou fécula de milho. O aspecto
energético é reforçado pela questão ambiental, já
que a queima desse combustível proveniente da Cada fração de amostra bruta foi transferida
biomassa minimiza a geração de gases deprecia- separadamente para sacos de papel Kraft para
dores da qualidade do ar, principalmente óxidos de evitar condensação de umidade e possíveis alte-
enxofre, diferentemente dos combustíveis fósseis, rações de resultados. Para esta amostragem foram
que possuem, na sua maioria, teores de enxofre em retirados 500 gramas de cada fração. Essas amos-
quantidades apreciáveis e potencialmente geradores tras foram mantidas em temperatura ambiente do
de chuva ácida. laboratório (20 0C) durante o período de realização

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.593-602, jan./mar. 2009 599
Potencial energético de resíduos agrícolas do semiárido do Brasil

das análises. A amostra da torta bruta foi homo- diversos valores de umidade e cinzas. Esses parâ-
geneizada para retirada de porção representativa metros refletem, consequentemente, nos valores dos
e realização dos ensaios analíticos. As cascas, poderes caloríficos das amostras. A Tabela 2 reúne
caules, raízes, folhas e pecíolos necessitaram de algumas informações importantes de biomassas
trituração, utilizando-se um liquidificador industrial. clássicas usadas como biocombustíveis para com-
A raiz, antes desse processo, necessitou da elimi- parações e análises com os resíduos estudados
nação de areia impregnada para não comprometer neste trabalho.
os resultados analíticos. Pode-se estabelecer como parâmetros aceitá-
veis, e que servirão de comparativos, os valores
Análises realizadas de 5% em teor de cinzas e 20% em teor de umi-
Os parâmetros analisados neste estudo fo- dade, em uma biomassa para queima direta como
ram: poder calorífico superior, teor de umidade combustível sólido. Sabe-se ainda que quanto
e teor de cinzas das amostras discriminadas na menores estes valores, melhor o desempenho do
Tabela 1. combustível (GARCIA, 2002; NOGUEIRA; LORA,
A determinação do poder calorífico superior das 2003). A condição ideal seria a ausência desses
amostras serviram para quantificar o potencial ener- números, ou seja, umidade e cinzas em percen-
gético disponível nessas biomassas. As análises do tagens nulas. Porém, na prática, essas condições
teor de umidade e do teor de cinzas das amostras são impossíveis.
foram realizadas para auxiliar em avaliações de A Tabela 3 mostra os resultados experimen-
possíveis usos desses materiais (biomassas) como tais do teor de umidade, do teor de cinzas e do
combustíveis alternativos. poder calorífico superior e inferior das amostras
A determinação da umidade foi realizada por estudadas. Estes dados foram calculados atra-
secagem em estufa a 105 +/-3 ºC (NBR 7993). A vés da média aritmética das análises realizadas
determinação de cinzas foi realizada por calci- em triplicata.
nação da amostra em mufla a 775 +/-25ºC (NBR Observa-se nesta Tabela 3 que as amostras
9842). As análises do poder calorífico superior apresentam variações significativas quanto ao
(PCS) foram efetuadas em calorímetro automáti- teor de umidade. O menor valor encontrado
co – modelo MS 10A da empresa R&P, de origem foi para a amostra 1 (torta bruta, com 8,4%),
alemã, o qual funciona de acordo com o método enquanto o mais elevado foi da amostra 3 (fo-
isoperibólico a temperatura constante (28 ºC +/- lhas, com 48,4%). Observa-se que essa grande
0,005 ºC). variação ocorreu até mesmo para amostras
de composição lignocelulósica semelhantes
(amostras 4 e 5, da raiz e do caule, com 25,1%
RESULTADOS E DISCUSSÃO
e 30,3%, respectivamente). Quanto maior o valor
A biomassa apresenta-se em variedades e multi- da umidade, menor a qualidade da biomassa
plicidades em razão da sua procedência, possuindo para uso energético.

Tabela 2
Parâmetros comparativos de biomassas para uso energético em combustão – 2007
Umidade (%) Poder calorífico inferior
Biomassa Cinzas (%)
(base úmida) (MJ/kg)
62 5,7
Lenha verde
50 8,2
0,12 - 0,8
38 10,8
Lenha seca ao ar
23 13,8
Bagaço de cana 9,79 -11,27 50 8,4

Fonte: Elaboração dos autores consultando em GARCIA, 2002; NOGUEIRA; LORA, 2003.

600 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.593-602, jan./mar. 2009
Francisco S. G. Pereira, Ana R. F. Drummond, Guilherme Coimbra

Tabela 3
Parâmetros analíticos das frações da mamoneira (Ricinus communis) ensaiados neste trabalho
Poder calorífico (MJ/kg)
Umidade PCI PCS Sugestões para
Amostra Cinzas (%)
(%) (Poder calorífico (Poder calorífico possíveis usos
inferior) superior)
1 Adubo, ração,
Torta bruta 8,4 4,9 22,2 22,0 combustível
2
Cascas 11,7 6,2 15,9 15,6 Adubo, combustível
3
Folhas 48,4 6,4 8,4 7,2 Adubo
4
Raiz 25,1 4,4 17,4 16,8 Adubo
5
Caule 30,3 3,4 17,4 16,7 Combustível
6
Pecíolo 12,9 12,2 10,3 10,0 Adubo

Fonte: Elaboração dos autores.

Os resultados dos teores de cinzas das amostras inferior (PCI) são fundamentais em qualquer análise
variaram entre 3,4% (amostra 5, caule) e 12,2% prévia de um possível uso da biomassa como fonte
(amostra 6, pecíolo). A variação dos teores de cinzas energética ou combustível renovável.
para as amostras entre 1 e 5 foi pequena (valor médio
de 5,06%), apresentando valores inferiores a 7%. Para
CONSIDERAÇÕES FINAIS
a amostra 6 (pecíolo), esse valor foi acima de 12%.
Um fato curioso observado ocorreu nas amostras 4 O trabalho consistiu no estudo da possível con-
(raiz, com 4,4%) e 5 (caule, com 3,4%), apresentan- versão da biomassa residual do agronegócio da ma-
do valores bem próximos, mesmo sendo materiais moneira (Ricinus communis L.) em fonte alternativa
dispostos na planta da mamoneira em contato no de energia renovável. Dessa forma busca vincular
interior do solo (raiz) e com o ar (caule), prevalecendo o homem ao ambiente através do uso racional de
as características lignocelulósicas comuns. Biomassa tecnologias que assegurem o respeito ambiental e
com elevado teor de cinzas é considerada de inferior proporcionem menores impactos no presente, pre-
qualidade para uso energético, pois necessita de vendo condições mais sustentáveis no futuro.
técnicas de remoção desse material dos fornos e O relato é feito reunindo as amostras estudadas
caldeiras, sem contar que reduz o poder calorífico da em dois grupos: biomassa residual industrial (torta
amostra, por unidade de massa estabelecida. bruta e cascas) e biomassa residual agrícola (caule,
Os resultados do poder calorífico superior ou raiz, pecíolo e folhas). Do ponto de vista energéti-
inferior das amostras podem ser divididos em dois co, as amostras de tortas, cascas e caules podem
grupos: o primeiro representado pelas amostras 3 substituir plenamente combustíveis clássicos como
(folhas, com PCI = 8,4 MJ/kg) e 6 (pecíolo, com PCI a lenha ou os óleos parafínicos residuais em razão
= 10,3 MJ/kg); o segundo pelas demais amostras, do seu poder calorífico semelhante ou superiores
que variaram entre PCI = 15,9 MJ/kg (mais baixo) à lenha e ao bagaço de cana, combustíveis que
para a amostra 2 (cascas) e PCI = 22,2 (mais ele- serviram como referências.
vado) para a amostra 1 (torta bruta). Considerando Os dados experimentais obtidos de teor de
o segundo grupo, que é o de maior interesse nesse umidade (de 8,4 a 48,4%), teor de cinzas (de 3,4
estudo energético, observa-se que o valor médio a 12,8%) e poder calorífico superior (de 7,2 a 22,0
ficou em PCI = 18,22 MJ/kg. MJ/kg) indicam que os resíduos da mamoneira mais
Os parâmetros estudados: teor de umidade, propícios como fonte alternativa de energia são
teor de cinzas e poder calorífico superior (PCS) ou cascas, caule e torta.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.593-602, jan./mar. 2009 601
Potencial energético de resíduos agrícolas do semiárido do Brasil

Como parâmetros comparativos, para o uso ener- HEIFFIG, L. S. (Coord.). Agronegócio de plantas oleaginosas:
matérias-primas para biodiesel. Piracicaba: ESALQ, 2006. p.
gético, foram utilizados os dados do poder calorífico 25 – 42.
superior da lenha (10,8 MJ/kg) e do bagaço de cana
DRUMMOND, A. R. F. et al. Metanol e etanol como
(8,4 MJ/kg), por já serem utilizados em algumas solventes na extração de óleo de mamona. In: CONGRESSO
agroindústrias. BRASILEIRO DE TECNOLOGIA DO BIODIESEL, 1., 2006.
Anais … Brasília, 2006.
A torta bruta, as cascas e o caule apresentam po-
der calorífico maior que a lenha e o bagaço de cana, GARCIA, R. Combustíveis e combustão industrial. Rio de
Janeiro: Interciência, 2002. 202 p.
indicando que é possível agregar valor a esses resí-
duos sugerindo seu uso como combustível renovável, IBGE. Rio de Janeiro, 2009. Disponível em: <http://www.ibge.
gov.br/home/>. Acesso em: 10 jan. 2009.
atendendo a uma questão crucial atual, o desenvol-
vimento sustentável na cadeia produtiva de diversas NOGUEIRA, L. A. H.; LORA, E. E. S. Dendroenergia:
fundamentos e aplicações. 2 ed. Rio de Janeiro: Interciência,
agroindústrias. A raiz, mesmo com potencial energético 2003. 199 p.
semelhante ao caule, por questões tecnológicas e de
PARENTE, E. J. S. Biodiesel: uma aventura tecnológica num
manuseio é preferível como nutriente ou adubo orgâ- país engraçado. Fortaleza: Tecbio, 2003. 68 p.
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PEREIRA, F. S. G. Biomassa de oleaginosa como fonte
Em síntese, se ocorrer integração racional entre alternativa de energia (Ricinus communis L.). 2007. 98 p.
cadeias produtivas industriais e agrícolas e o uso de Dissertação (Mestrado em Tecnologia Ambiental)-ITEP, 2007.
tecnologias de otimização do caule, cascas e torta da PERES, J. R. R.; FREITAS JUNIOR, E.; GAZZONI, D.L.
mamoneira, pode-se vislumbrar um futuro otimista. Biocombustíveis: uma oportunidade para o agronegócio
brasileiro. Revista de Política Agrícola, v. 14, n. 1, jan./mar.
O caule, cascas e torta, isolados ou associados, têm 2005.
grande potencial energético que pode favorecer a
RAMOS, N. P.; AMORIM, E. P.; SAVY FILHO, A. Potencial
sua exploração como fonte alternativa de energia da cultura da mamona como fonte de matéria-prima para
renovável, pois o poder calorífico desses resíduos é o programa nacional de produção e uso de biodiesel. In:
CÂMARA, G. M. S.; HEIFFIG, L. S. (Coord.) Agronegócio
superior ao da lenha, que é usada como o principal de plantas oleaginosas: matérias-primas para biodiesel.
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602 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.593-602, jan./mar. 2009
Luciano Hocevar, Sandro Cabral

Bahia
análise & Dados

Mitos e verdades sobre a produção


de biodiesel a partir de óleos e
gorduras residuais (OGR)
Luciano HocevarA
Sandro CabralB

Resumo Abstract

O presente artigo propõe uma reflexão sobre a viabilidade This article puts forward a consideration on the viabil-
do uso de óleos e gorduras residuais de frituras (OGR) como ity of using residual frying fats and oils (OGR) as the raw
matéria-prima para a produção de biodiesel. Em meio às dis- material for biodiesel production. Amid discussions on the
cussões sobre uma provável escassez do petróleo, o OGR tem probable scarcity of oil, OGR has been called upon both as
sido invocado tanto como alternativa para a produção de com- an alternative for the clean fuel production and a mechanism
bustíveis de forma limpa, como mecanismo de inclusão social. for social inclusion. It is argued that the present optimism in
Argumenta-se que o otimismo presente em alguns discursos some talks by government bodies and academics does not
de entes governamentais e acadêmicos não se sustenta diante hold up to a structured analysis of the sector’s supply chain.
de uma análise estruturada da cadeia de suprimentos do setor. It is verified that the logistical requirements connected to
Verifica-se que as condicionantes logísticas ligadas à coleta e ao collecting and processing OGR, as well as the various pos-
processamento de OGR, bem como as várias possibilidades de sibilities of using frying oils in different applications, com-
uso dos óleos de fritura em diferentes aplicações comprometem promise the supply of raw materials to biodiesel producing
a oferta de matéria-prima às indústrias produtoras de biodiesel. industries.

Palavras-chave: Biodiesel. OGR. Óleos e gorduras vege- Keywords: Biodiesel. OGR. Oils and vegetable fats. Re-
tais. Reuso de óleo residual. Reciclagem. using residual oil. Recycling.

INTRODUÇÃO empresários e formuladores de políticas energéticas,


com destaque para os biocombustíveis.
Diante das possibilidades de esgotamento de Entre os biocombustíveis destacam-se o
petróleo no futuro próximo, intensificam-se as dis- etanol, produzido a partir de beterraba, cana-de-
cussões sobre a viabilidade de combustíveis alter- açúcar ou milho e os óleos extraídos de plantas,
nativos que possam suprir as crescentes demandas como mamona, soja e palma, entre outras, que
mundiais e, ao mesmo tempo, mitigar os impactos após processamento (Agência Nacional de
ambientais decorrentes de sua produção e consumo. Petróleo, Gás Natural e Biocombus-
Nesse sentido, os debates sobre energia produzida a tíveis, 2004) transformam-se em biodiesel. Para
partir de fontes renováveis estão na ordem do dia de a produção de biodiesel pode-se usar, ainda, gor-
duras animais e óleos e gorduras residuais (OGR),
A
Doutorando multi-intitucional em Engenharia Química pela Universidade Federal da normalmente oriundos de frituras de alimentos em
Bahia e Universidade Salvador (UFBA/Unifacs); mestre em Administração pela UFBA;
proprietário da Renove (Reciclagem de Óleos Vegetais e Biodiesel). imersão, foco do presente artigo.
lucianohocevar@hotmail.com
A
Pós-doutor em Polítcas Públicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA);
A viabilidade da produção de biodiesel a partir
doutor em Administração pela UFBA em colaboração com a Universidade Paris 1 de OGR já é consenso entre técnicos, acadêmicos
(Panthéon-Sorbonne); professor adjunto do Núcleo de Pós-Graduação da Escola de
Administração da UFBA. scabral@ufba.br e políticos (Agência Nacional de Petróleo,

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.603-611, jan./mar. 2009 603
Mitos e verdades sobre a produção de biodiesel a partir de óleos e gorduras residuais (OGR)

Gás Natural e Biocombustíveis, 2004; tes de uma dada cadeia de produção, têm sido
HOCEVAR, 2008; KNOTHE; GERPEN; KRÄHL, invocados em meio ao contexto de acirramento
2006) como uma alternativa de produção de com- dos padrões de rivalidade entre as corporações.
bustíveis, reaproveitando resíduos normalmente Tendo como alicerce o reconhecimento de que
destinados às redes de esgoto e mitigando, a competição não se dá mais entre unidades in-
duplamente, a geração de dividuais de produção, mas,
passivos ambientais. Di- Como forma de atender aos sim, entre cadeias de supri-
ante desse fato, o presente objetivos propostos, m e n t o ( TAY L O R , 2 0 0 5 ) ,
artigo intenta compreender metodologicamente recorre-se algumas organizações pas-
se a viabilidade econômica a entrevistas com atores atuantes saram a adotar mecanismos
relacionada ao uso de re- na cadeia produtiva, à observação que assegurem uma visão
síduos de óleos e gorduras direta das atividades e ao exame do que se sucede ao longo
vegetais para produção de de dados secundários das outras etapas da ca-
combustível alternativo ao deia, ou seja, para além de
óleo diesel convencional é factível. Dado seu suas fronteiras organizacionais. Nesse sentido,
caráter recente, os trabalhos relacionados ao a análise deve ir além da empresa individual ou
tema restringem-se basicamente a publicações mesmo de um setor envolvendo várias firmas de
técnicas da área de química e engenharia, nos um mesmo ramo de atuação, em verdade de-
quais as dimensões gerenciais e organizacionais vendo englobar também clientes, fornecedores,
não são focalizadas (ALCANTARA et al, 2000; transportadores, distribuidores e varejistas
RABELO, 2001; RILEY, 2004, WANG, et al, 2007, (CHOPRA; MEINDL, 2004).
NARASIMHARAO; SUSANTA; MANO, 2008). Muito embora as características acima estejam
Como forma de atender aos objetivos propos- bastante ligadas a setores mais “tradicionais” da
tos, metodologicamente recorre-se a entrevistas economia, tais como agroindustrial e automotivo,
com atores atuantes na cadeia produtiva, à ob- é perfeitamente possível aplicar o mesmo tipo de
servação direta das atividades e ao exame de raciocínio às cadeias de produção de olequímicos
dados secundários. O trabalho estrutura-se da e de biodiesel. No entanto, as diversas possi-
seguinte maneira: primeiramente, mapeia-se a bilidades de aplicação das matérias-primas, bem
cadeia produtiva do biodiesel, destacando-se as como a natureza de suas formas de produção,
transações relacionadas à coleta, refino e com- fazem com que os múltiplos atores, não raro, apre-
ercialização de OGR. Em seguida, é realizada sentem estruturas de incentivos desalinhadas, o
uma análise estrutural, contemplando as forças que se dá também em função dos desequilíbrios
que determinam o padrão de concorrência da entre oferta e demanda e nos preços relativos de
indústria. Posteriormente, discutem-se os limites insumos e produtos.
e potencialidades do setor. A atividade de coleta e reciclagem de OGR (ver
item 8 da Figura 1) é relativamente simples, não
requerendo sofisticados padrões tecnológicos. Em
A CADEIA DE PRODUÇÃO DA OLEOQUÍMICA E
verdade, o que se precisa é de um pequeno veículo
DO BIODIESEL
que possibilite a retirada dos óleos residuais, so-
Ao longo dos últimos anos, estudiosos da área bretudo de pontos comerciais ligados ao varejo de
de Administração, Economia e Engenharia pas- alimentos (lanchonetes, baianas de acarajé etc.) e
saram a reconhecer que as ações engendradas de cozinhas industriais. Em seguida os materiais
em nível de firma não são por si só suficientes são processados em pequenas unidades fabris
para garantir a competitividade. Alianças estra- com baixa especificidade de ativos (WILLIAM-
tégicas, consórcios entre organizações, clusters, SON, 1985), onde os óleos são separados. Este
dentre outros instrumentos que se destinam à ponto, verdadeiro gargalo da reciclagem de OGR,
colaboração e à coordenação dos componen- é também citado em artigo sobre a viabilidade da

604 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.603-611, jan./mar. 2009
Luciano Hocevar, Sandro Cabral

produção de biodiesel a partir de borra de café não-comestíveis e rivais em termos de consumo


(NARASIMHARAO; SUSANTA; MANO, 2008). em relação ao biodiesel, tais como as indústrias
No que tange ao estágio à montante da cadeia, saponífera, de cosméticos e de química-fina.
os fornecedores de OGR (ver item 7) adquirem De igual maneira alterações nos preços relativos
seus insumos, fundamentalmente a partir da cadeia de gordura animal podem influenciar nas atividades
agroindustrial da soja. Reside aí, o primeiro ponto da cadeia dependente da gordura vegetal. De fato,
que pode alterar os preços relativos, provocando ao sabor das variações da produção animal, os
desalinhamentos entre os atores da cadeia: os padrões de oferta e demanda do bem substituto
óleos vegetais podem ser destinados a funções (MANKIW, 2001) podem ser modificados.

Figura 1
Cadeia de produção dos óleos e gorduras residuais
Fonte: Elaborado pelos autores

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.603-611, jan./mar. 2009 605
Mitos e verdades sobre a produção de biodiesel a partir de óleos e gorduras residuais (OGR)

Como pode ser apreendido da Figura 1, em- penho, idealizado por Mason (1939), aperfeiçoado
bora a atividade de coleta e reciclagem de OGRs por Bain (1956) e consolidado por Scherer e Ross
seja relativamente simples, há uma intrincada (1990), segundo o qual as condições básicas de
cadeia de produção em seu entorno com pa- oferta e demanda da indústria influenciariam a con-
drões de competitividade distintos, que, em seu formação da estrutura de mercado, que por sua vez
turno, podem comprometer condicionariam as condutas
a viabilidade da produção A diversidade no parque estratégicas da organização
de biodiesel a partir de tais fornecedor acarreta diferentes e o desempenho observado
fontes residuais. As ativida- padrões de negociação no em termos de eficiência pro-
des descritas na Figura 1 não que tange aos preços pagos e dutiva e alocativa. No entanto,
esgotam o leque de possibili- às exigências de retirada dos em mercados concorrenciais
dades de aplicação de óleos resíduos imperfeitos, as escolhas re-
e gorduras vegetais. De fato, alizadas pelas organizações
a versatilidade de empregos é fator de interesse, levam em consideração as reações dos rivais e dos
uma vez que se pode produzir: alimentos (balas, demais atores do ambiente que a circundam.
confeitos, gelados comestíveis, produção de gor- Nessa linha, o modelo de Porter (1986) tem sido
duras especiais para baby food e emulsificantes), invocado para compreender a dinâmica de atuação
cosméticos (cremes, loções, sabonetes, xampus, das organizações, justamente por identificar um
condicionadores, cremes dentais e enxaguatórios conjunto de forças que dirigem a concorrência em
bucais), detergentes (lavagem de roupa ou louça uma determinada indústria (aqui entendida como o
e amaciante de roupa), produtos farmacêuticos conjunto de organizações atuantes em um segmento
(veículo, agente umectante e lubrificante em de mercado). São elas: o poder de negociação com
formulações farmacêuticas, xaropes), fluidos fornecedores, a ameaça de entrantes potenciais, a
funcionais (lubrificantes sintéticos, aditivos e anti- influência dos compradores, as pressões exercidas
congelante) e resinas/plásticos (espumas flexíveis pelos itens substitutos e o padrão de rivalidade entre
de poliuretano, estabilizante para resina PVC e os concorrentes atuantes no mercado.
aditivo para plásticos). Todos esses produtos po- Tomando de empréstimo as dimensões do
dem, de uma forma ou de outra, comprometer os modelo de Porter para a compreensão da indús-
padrões de oferta e demanda de óleos e gorduras tria de OGR, observa-se, primeiramente, que os
vegetais e animais. fornecedores – nesse caso os estabelecimentos
Assim, para que se possam compreender os comerciais que utilizam óleos vegetais para fritu-
limites e as potencialidades do segmento faz-se ras em imersão – exercem um poder de barganha
mister avaliar os determinantes de competi- difuso sobre as organizações atuantes no setor
tividade da indústria, o que é realizado na seção de coleta e reúso (chamada popularmente de
seguinte. “reciclagem”). A diversidade no parque fornece-
dor acarreta diferentes padrões de negociação
no que tange aos preços pagos e às exigências
ANÁLISE ESTRUTURAL DA INDÚSTRIA
de retirada dos resíduos. Cadeias de fast-food,
DE OGR
por exemplo, tendem a cobrar maiores valores
A análise da viabilidade do uso de OGR requer a pelos subprodutos coletados, ao passo que es-
compreensão dos fatores que envolvem a indústria. tabelecimentos comerciais menores (tais como
Dado que a mera descrição dos atores envolvidos lanchonetes, pastelarias e restaurantes unitários),
pode minar o entendimento das peculiaridades e das via de regra, não cobram pelo resíduo, não raro
nuanças que afetam a maneira pela qual o setor se vislumbrando as empresas coletoras como presta-
molda, tem-se a necessidade de empreender-se uma doras de serviço. Apesar da conotação nobre que
análise estruturada. Para tanto, uma possibilidade é as atividades ligadas à reciclagem possuem, na
recorrer ao paradigma estrutura–conduta–desem- prática observa-se a cristalização dos preconceitos

606 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.603-611, jan./mar. 2009
Luciano Hocevar, Sandro Cabral

comumente associados aos atores que executam Assim, dado que as firmas encarregadas da
a coleta de lixo, na linha do exposto por Velloso, coleta e refino de OGR podem ser consideradas
Valladares e Santos (1998), que se traduz, nesse como tomadoras de preço no mercado, o que é
caso, em padrões de relacionamento marcados pela fortemente explicado pela ausência de escalas
rispidez e brutalidade. substanciais de produção capazes de alterar o equi-
No que se refere aos itens líbrio de mercado, restaria
substitutos, embora as gordu- Apesar da pulverização dos às organizações competirem
ras animais e vegetais hidro- pontos de coleta, o acesso à rede pela diferenciação de seus
genadas possam ser utilizadas de fornecedores dita a tônica do produtos. Ocorre que os pa-
para a fabricação de biodiesel, padrão de rivalidade da indústria, drões de especificação variam
isso não parece sinalizar preo- sendo, em verdade, uma barreira à de acordo com o poder de
cupação em virtude da profu- entrada em potencial negociação dos compradores,
são e da relativa facilidade de o que requer a compreensão
obtenção de OGR, o que as tornam bastante competi- dos atores posicionados à jusante na cadeia: pro-
tivas. Por outro lado, a baixa complexidade relacionada dutoras de biodiesel, fabricantes de sabão, indústria
às atividades de coleta e reciclagem faz com que as de cosméticos e empresas de química fina.
barreiras ao ingresso de entrantes potenciais sejam Cada um destes atores posiciona-se na cadeia
baixas. De fato, a atividade de retirar tambores carre- produtiva de maneira diferente e nela está instalado
gados de óleos e gorduras já utilizados e transportar em estágios diferentes do ciclo de vida do produto.
até um local onde o refino e a filtragem podem ser Enquanto o sabão está na fase de declínio em seu
realizados de modo rudimentar pode constituir-se um ciclo de vida, substituído por detergentes e sabões
atrativo ao ingresso de novos concorrentes. sintéticos, a produção de biodiesel tende a aumentar
Apesar da pulverização dos pontos de coleta, fortemente nos próximos anos, a fim de atender à
o acesso à rede de fornecedores dita a tônica exigência de mistura do biocombustível ao diesel
do padrão de rivalidade da indústria, sendo, em convencional de petróleo. Mais especificamente em
verdade, uma barreira à entrada em potencial, na relação à indústria oleoquímica no Brasil, tem-se que
medida em que o baixo volume de óleo residual a produção nacional de ácidos e álcoois graxos é
adquirido mina as economias de escala neces- insuficiente para atender a atual demanda. É exem-
sárias à obtenção de óleo refinado com custos plo emblemático a implantação pela Oxiteno de uma
compatíveis à realidade do mercado. Destarte, fábrica de álcoois graxos na Bahia utilizando óleos
as vantagens do pioneirismo, ou first-mover ad- vegetais (coco e dendê) como matérias-primas, de
vantages, (LIEBERMAN; MONTGOMERY, 1998), maneira que o volume dos investimentos indica que
estão presentes nesse mercado, uma vez que um o mercado de cuidados pessoais, limpeza doméstica
atendimento eficaz por parte das organizações de e de farmacêuticos são concorrentes em potencial do
refino de OGR, sobretudo no que se refere à coleta biodiesel, no que tange à competição por matérias-
eficiente dos óleos residuais, não engendra os primas. Destarte, não é exagerado inferir que a
incentivos necessários à troca do parceiro comer- atratividade da indústria oleoquímica pode minar as
cial, impondo dificuldades àquelas organizações pretensões de alavancagem dos biocombustíveis
que almejam instalar-se no mercado. A eficiência a partir da produção, extração, processamento e
na coleta, fator-chave para a redução dos custos transformação de óleos e gorduras de origem vegetal
ao longo da cadeia, decorre da capacidade de ou animal, ainda que o emprego dessas matérias-
minimização dos custos de manuseio e transporte primas traga importantes vantagens aos elos à mon-
dos materiais, o que requer recipientes adequados tante, sobretudo em relação à biodegradabilidade
à armazenagem e à programação das retiradas, (acima de 90%) – alta se comparada com os óleos
guardando semelhança com o sistema de coleta minerais (20-40%).
de materiais da indústria automotiva, conhecido Feitas as considerações sobre a cadeia de pro-
como milk-run (MOURA; BOTTER, 2002). dução e sobre a estrutura concorrencial que permeia

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Mitos e verdades sobre a produção de biodiesel a partir de óleos e gorduras residuais (OGR)

a produção de OGRs, debruça-se na próxima seção Os dados empíricos do Quadro 1 são corroborados
sobre os limites e potencialidades do biodiesel a por pesquisadores debruçados sobre o tema. Segun-
partir dessa fonte de matérias-primas. do Haas e outros (2006), mesmo empregando-se o

Fonte Preço (R$ / t)


LIMITES E POTENCIALIDADES Óleo de soja 1.900,00
Óleo de palma 1.830,00
A partir de 1º de julho de 2008, o óleo diesel
OGR 688,00
comercializado em todo o Brasil deve conter, obri-
gatoriamente, 3% de biodiesel. Esta regra foi esta- Quadro 1
Cotações de óleos de diferentes fontes
belecida pela Resolução nº 2 do Conselho Nacional
Fontes: Pesquisa de campo elaborada pelos autores e COTAÇÕES de commodities
de Política Energética (CNPE), publicada em março agrícolas. Valor Econômico. São Paulo, 4 fev. 2009. Caderno B, p. 8.

de 2008, que aumentou de 2% para 3% o percentual


obrigatório de mistura de biodiesel ao óleo diesel. A mais barato dos óleos vegetais, é muito difícil ou
adição de 3% de biodiesel (B3), obrigatória a partir praticamente impossível demonstrar a competitivi-
de 2008, cria um mercado interno potencial de pelo dade econômica do biodiesel em relação ao diesel
menos 800 milhões de litros/ano deste combustível. A de petróleo. Segundo os autores, a principal razão
capacidade autorizada pela ANP até 26/12/2008 era para este fato é o alto custo da matéria-prima
de quase 4 bilhões de litros/ano (AGÊNCIA NACIO- lipídica, que constitui 70 a 85% do custo total de
NAL DE PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOM- produção. Destacam ainda que o sentimento entre
BUSTÍVEIS, 2009) em 62 usinas, incluindo as usinas consumidores individuais ou operadores de frotas
da Petrobras em Montes Claros/MG, Candeias/BA comerciais em favor de combustíveis renováveis e
e Quixadá/CE, unidades compostas de uma planta de baixo impacto ambiental, geralmente, não é forte
multioleaginosas de 50 mil t/a. o suficiente para justificar o uso de combustíveis
Apesar da euforia com que é tratado, às vezes alternativos a preços não-competitivos. Este senti-
com exagerado ufanismo, o combustível, incensado mento encontra fundamento na tese do biólogo Gar-
como renovável, ambientalmente correto, gerador ret Herdin, a Tragédia dos Bens Comuns (HARDIN,
de empregos e renda na agricultura familiar, dentre 1968), segundo a qual as pessoas sempre estarão
outros benefícios, não foi suficientemente mostrado propensas a exaurir bens naturais que estejam à
sob o ângulo do mercado: o excesso de demanda disposição da coletividade, simplesmente porque
e a escassez de oferta de matéria-prima acirraram isso faz parte de seu interesse.
a competição e colocam em xeque seu futuro na Nos países onde se promove o biodiesel, in-
matriz energética do país. Como agravante, um ce- clusive o Brasil, o combustível é relacionado com
nário que era favorável quando o preço do petróleo fatores de segurança nacional (diminuição da
batia recordes históricos, chegando a US$ 145 por dependência energética externa), ambientais (di-
barril, alterou-se. No momento atual, com o barril de minuição de emissões de CO2) e sociais (geração
petróleo a US$ 35, muitas organizações prometaram de emprego e renda, agricultura familiar). Apesar
vender nos leilões o que podem não ter condições de muitos estudiosos sobre o biodiesel centrarem
de entregar, fato já verificado anteriormente, mesmo suas atenções sobre a viabilidade técnica, assunto
com cenário favorável. já exaustivamente comprovado, poucos relatam
Em adição, como matéria-prima para a produção sobre a viabilidade econômica do combustível.
de biodiesel, a maioria dos óleos vegetais novos e Entre estes, estimativas de custo feitas a partir
as gorduras animais chegam a valer mais do que do preço efetivamente recebido pelo agricultor
o próprio combustível. Mesmo os óleos e gorduras mostram que o custo do óleo foi superior cerca de
residuais de frituras (OGR), considerados equivo- 1,1 vezes ao custo médio do diesel em dólares
cadamente por muitos como matéria-prima “obtida entre 1975 e 2004 para a mamona; 1,8 vezes
a custo zero” (HOCEVAR, 2005), tem seu valor de para o amendoim; 2,0 vezes para a soja e 3,3
mercado próximo ao valor final do biodiesel. vezes para o milho. Entre as fontes oleaginosas

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Luciano Hocevar, Sandro Cabral

avaliadas, apenas o dendê teve custo inferior ao países desenvolvidos quanto em desenvolvimento,
diesel (0,6%). (MOURAD, 2006). o que, no nosso entender, contraporia-se ao projeto
Em relação especificamente aos OGR, a social do Programa Nacional de Produção e Uso
partir da atualização dos dados presentes em do Biodiesel.
Pires e outros (2006), tem-se que a produção de Voltando ao contexto brasileiro, muito se fala
biodiesel a partir de OGR, do programa de etanol pro-
tomando com referência va- [...] é difícil justificar o uso de duzido a partir de cana-de-
lores da cidade de Salvador óleos residuais de gordura em açúcar. O Proálcool, porém,
– Bahia, apresenta um custo biocomustíveis que, se vendidos citado como caso de sucesso
de R$ 1,35/litro (assumindo- in natura ou transformados em de desenvolvimento de com-
se como R$ 0,80 o custo produtos de maior valor agregado, bustível renovável, não pode
da matéria-prima coletada). são, em verdade, mais valiosos servir de parâmetro para o
Sucede que para ser viável do que o produto que se pretende biodiesel, pois no campo
economicamente o biodiesel substituir econômico há diferenças
de OGR precisa deslocar o acentuadas entre os dois bio-
destino atual desta matéria-prima, que inclui toda combustíveis. Enquanto o álcool compete com um
a cadeia produtiva da oleoquímica, as tintas, o derivado de petróleo caro e de uso quase restrito
sabão, entre outros, com preços mais atrativos aos automóveis de passeio (gasolina), o biodiesel
para o produtor de OGR. Ao processar a matéria- substitui um dos mais baratos, de amplo uso e
prima, tornando-a adequada para consumo na verdadeiro motor da economia, o diesel. O álcool
cadeia produtiva de oleoquímica, como o ácido se tornou viável como combustível, num cenário
graxo destilado de soja, por exemplo, tem-se um de capacidade ociosa das usinas, preços deprimi-
valor mais atraente, de cerca de R$ 2.970 por to- dos do açúcar e após anos de subsídio. Mesmo
nelada. Para outras oleaginosas, os valores dos assim, sempre que havia diferença nos preços de
ácidos graxos destilados são: algodão (R$ 2.500), açúcar e álcool, os usineiros direcionavam sua
arroz (R$ 2.420), mamona (R$ 6.000) e palma produção ao mercado com maior rentabilidade,
(R$ 2.800) (ABOISSA, 2009). Portanto, é difícil deixando que sua decisão sobre o que produzir
justificar o uso de óleos residuais de gordura em fosse resolvida pelas forças de mercado. De fato,
biocomustíveis que, se vendidos in natura ou trans- esse comportamento dos produtores de álcool
formados em produtos de maior valor agregado, quase levou ao colapso do uso do etanol de cana
são, em verdade, mais valiosos do que o produto como combustível, pois o consumidor não podia
que se pretende substituir. confiar no produtor. A equação só foi resolvida
Além disso, de maneira mais ampla, verificam- parcialmente com a introdução de motores flex
se também resistências quanto ao uso de biocom- fuel. Com a percepção de que não ficaria refém
bustíveis em diversas localidades do globo. Sem dos produtores de álcool, como na década de
embargo, recentemente o parlamento britânico 1980, o consumidor passou a aceitar o carro flex,
apresentou um relatório questionando seu consumo mudando de álcool para gasolina e vice-versa,
(Are Biofuels..., 2007). No documento, o Comitê dependendo do valor do combustível. No caso
de Auditoria Ambiental da Câmara dos Comuns do biodiesel, seria preciso viabilizar o uso de um
recomenda que a Grã-Bretanha suspenda tempo- combustível mais caro, utilizando produto com
rariamente sua meta de 5% de biocombustíveis, valores elevados em finalidades alternativas no
pois há pontos preocupantessobre a segurança mercado. Com as atuais condições de oferta e de-
alimentar. No entender da comissão, uma grande manda de matérias-primas e dos preços relativos
mudança do destino da produção agrícola para os do combustível, isso seria similar a recomendar o
biocombustíveis poderia aumentar drasticamente plantio de mogno (uma madeira nobre) para vender
os preços dos produtos alimentares e também a como lenha para queimar em fornalhas, ou seja,
pressão sobre os pequenos agricultores, tanto em uma condição de subotimalidade.

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Mitos e verdades sobre a produção de biodiesel a partir de óleos e gorduras residuais (OGR)

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Napoleão Esberard de Macêdo Beltrão, Maria Isaura Pereira de Oliveira

Bahia
análise & Dados

Direcionamento dos resíduos e


coprodutos da fabricação do biodiesel
a partir de mamona e pinhão manso
Napoleão Esberard de Macêdo BeltrãoA
Maria Isaura Pereira de OliveiraB

Resumo Abstract

A produção de biodiesel caminha a passos largos no país. Biodiesel production is progressing at a fast rate in the
A elevada produção de biocombustíveis a partir das sementes country. The high production of biofuels from castor oil plant
de mamona e, no futuro, depois de definidos cultivares e sis- seeds and spurge nettles in the future, once cultivars and pro-
temas de produção, de pinhão manso ocasionará um aumento duction systems are defined, will cause increased residue pro-
da produção de resíduos e coproduto do processo de síntese duction and a co-product of the biodiesel synthesis process.
de biodiesel. Além da glicerina, há também a lecitina, o farelo Apart from glycerine, there is also lecithin, bran and cake, which
e a torta, derivada da extração dos óleos vegetais. Um merca- are derived from extracting vegetable oils. It is a promising mar-
do promissor que pode atender tanto o setor alimentício, que ket which could assist the food sector that uses the cake as a
utiliza a torta como insumo nutricional para seres humanos e nutritional raw material for humans and animals, for soil recov-
animais, quanto a recuperação de solos e formulação de ferti- ery and formulating organic fertilizers based on castor oil bean
lizantes orgânicos à base de torta e de casca de mamona em cake and shells. Various proportions are used according to the
diversas proporções, de acordo com as necessidades de cada needs of each cultivation, with the cake being rich in N and P
cultura, sendo a torta rica em N e P, e a casca em K. and the shell in K.

Palavras-chave: Ricinus communis. Jatropha curcas. Sub- Keywords: Ricinus communis. Jatropha curcas. Sub-
produtos. products.

INTRODUÇÃO bém Euforbiácea e em estudos, desde a domesti-


cação até a definição de passos tecnológicos para
Em razão da procura por culturas alternativas a composição de sistema de produção.
para produção de óleo destinado ao biodiesel, a O biodiesel nada mais é do que uma trans-
mamona (Ricinus communis L.), pertencente à formação de óleos vegetais, ácidos graxos, em
família Euphorbiaceae, está sendo considerada substâncias chamadas de ésteres, através de
como uma boa opção para agricultores de diver- um processo que envolve o álcool metílico (me-
sas regiões do país em razão, principalmente, do tanol) ou o etílico (etanol), a transesterificação.
alto rendimento energético, relativa rusticidade e Decorrentes da produção do biodiesel pela rota
tolerâncias à seca, sendo adaptável a condições alcoólica, os resíduos necessitam de estudos
edafoclimáticas muito variáveis. E potencialmente para aproveitamento, recuperação e/ou trans-
tem-se o pinhão manso (Jatropha curcas L.), tam- formação em outros produtos. Como resíduos
dessa produção encontram-se a glicerina, como
A
Pós-doutor em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Campina Grande
(UFCG); doutor em Fitotecnia, área de concentração fisiologia da produção pela
subproduto do processo químico, e as tortas, que
Universidade Federal de Viçosa (UFV). napoleão@cnpa.embrapa.br podem se transformar em farelos após tratamen-
B
Doutora em Bioquímica Agrícola e mestre em Bioquímica pela Universidade Federal
de Viçosa (UFV). oliveira_mip@yahoo.com.br tos específicos.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.613-619, jan./mar. 2009 613
Direcionamento dos resíduos e coprodutos da fabricação do biodiesel a partir de mamona e pinhão manso

A torta requer um estudo também aprofundado por aproximada de 1,2 toneladas para cada tonelada de
causa das origens das oleaginosas empregadas no óleo extraída (AZEVEDO; LIMA, 2001). Seu alto teor
processo de biodiesel. A torta de soja [Glycine max. (L.) de nitrogênio e presença de outros macronutrientes
Merrill] e de algumas outras sementes já são fontes de torna-lhe um excelente adubo, que contribui também
farelos e outros alimentos. Mas as tortas de oleaginosas para o fornecimento de matéria orgânica para o solo
que apresentam características tóxicas, em especial a (SILVA, 1971).
mamona e o pinhão manso, devem ser submetidas a Evangelista e outros. (2004), trabalhando com
estudos profundos de detoxicação e desalergenização diferentes métodos de extração de óleo e dois tipos
apropriados para uma escala industrial de produto de cultivares da torta de mamona, encontraram
e outros acessíveis ao pequeno produtor. Diante do teores de proteína bruta e extrato etéreo de 42,04
exposto, objetiva-se com este trabalho apresentar os % e 5,62 % da cultivar Guarani.
principais destinos dos subprodutos da mamona e do A torta da mamona tem elevado valor nutritivo,
pinhão manso provenientes da produção de biodiesel. sendo rica em proteínas (41,51%), fibras (32,84%),
materiais minerais (7,65%) e gorduras (2,62%). O
elevado conteúdo protéico da torta a torna também
OLEAGINOSAS
uma boa matéria-prima para a produção de amino-
Mamona ácidos. Os seguintes aminoácidos são encontrados
na torta: arginina (11,0%), cistina (3,5%), fenilalanina
(4,2%), histidina (11,0%), isoleucina (5,3%), leucina
(7,2%), lisina (3,1%), metionina (1,5%), tirosina
(1,0%), treonina (3,6%), triptofano (0,6%) e valina
(6,6%) (BELTRÃO, 2003).
A toxicidade da torta é bastante conhecida em ra-
zão da presença de alguns constituintes, como a rici-
na, a ricinina e os complexos alergênicos (MOSHKIN,
1986; GARDNER JUNIOR et al., 1960). Muitos pro-
cessos para detoxicação da torta já foram testados
e alguns patenteados em diversos países.
Foto: Napoleão E. M. Beltrão. A torta de mamona apresenta boas característi-
cas para uso como adubo orgânico; além de servir
Do ponto de vista do mercado, a industrialização de fonte de aminoácidos para os mais variados fins
da semente da mamona fornece dois produtos prin- nutricionais, é um dos melhores fertilizantes, pois
cipais: o óleo bruto e a torta. tem elevado conteúdo de nitrogênio, fósforo e cálcio
A importância da cultura da mamoneira deve-se quando comparada a outros adubos orgânicos como
à grande aplicabilidade de seu óleo. O óleo da ma- o esterco bovino, esterco misto e a torta de algodão,
mona apresenta em 90% de sua composição o ácido além de elevado teor de fibra (BOSE; WANDERLEY,
ricinoléico, que tem em sua estrutura química o grupo 1988). Entretanto, a adição da torta no solo, além
hidroxila no carbono 12 e dupla ligação, sendo a úni- de suprir as necessidades nutricionais das plantas,
ca fonte comercial com essa singularidade. O grupo aumenta o pH, reduz a acidez total, eleva o conteúdo
hidroxila confere ao óleo estabilidade quanto à visco- de carbono e promove melhoria geral na parte física
sidade, que se mantém em condições de amplitude do solo (LEAR, 1959).
térmica. Ao contrário, outros óleos vegetais perdem Estudos realizados por Lima e outros (2008) re-
a viscosidade em altas temperaturas e se solidificam latam que a casca de mamona é inadequada para
em baixas temperaturas (SAVY FILHO et al., 1999), uso como adubo orgânico por causa da alta relação
possuindo também estabilidade à oxidação. C/N, que induz à carência de nitrogênio. Isto porque
A torta de mamona é um produto com eleva- a casca do fruto de mamona possui baixo teor de
do teor de proteínas, produzido na proporção nitrogênio e, consequentemente, alta relação C/N.

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Napoleão Esberard de Macêdo Beltrão, Maria Isaura Pereira de Oliveira

Essa característica faz com que esse material, ao balanceadas (BELTRÃO, 2003). Considerando o uso
ser utilizado diretamente como adubo orgânico, in- da torta de mamona como alimento para animais,
duza à deficiência de N em razão da imobilização tem-se verificado que depois de eliminada a toxidez
temporária deste elemento na biomassa micro- ela pode ser usada em substituição a do algodão
biana. A adição de uma dose extra de nitrogênio e da soja, em especial em bovinos, podendo ser
via ureia evidenciou que as usada até para pintos, com
plantas não se desenvolve- Considerando o uso da torta de até 12 dias de idade e no limite
ram por causa da deficiência mamona como alimento para de 15% da ração (NAUFEL et
desse nutriente. Segundo animais, tem-se verificado que al., 1962).
Severino e outros (2004), a depois de eliminada a toxidez ela Melo e outros (2008) ava-
torta de mamona é um mate- pode ser usada em substituição a liaram a dose letal em camun-
rial de rápida decomposição do algodão e da soja dongos (DL50) para soluções
e provavelmente a rápida li- de peptídeos alergênicos ex-
beração e disponibilidade de nutrientes às plantas traídos da torta de mamona e do resíduo sólido,
pode explicar as vantagens do uso da torta sobre obtido após a hidrólise. Os autores concluíram que
a casca de mamona neste estudo. o tratamento com H2SO4, na temperatura e tempo
A torta de mamona se mineraliza e, consequen- estabelecidos para a hidrólise do amido, foi res-
temente, disponibiliza seus nutrientes. Segundo Bon ponsável pela redução, em pelo menos 237 vezes,
(1977), entre 75 e 100% do nitrogênio da torta de da letalidade da torta de mamona in natura, não
mamona foram nitrificados em três meses. Severino resultando em morte de camundongos em período
e outros. (2004) demonstraram que a quantidade de de até 96 h.
CO2 mineralizada pela torta no período de 33 dias foi Assis e outros (1962) estudaram a possibilidade
seis vezes maior que a do esterco bovino e 14 vezes do emprego do farelo de torta de mamona detoxicada
maior que a do bagaço de cana-de-açúcar (Sac- em substituição parcial da torta de algodão, em ra-
charum officinarum L.), ou seja, o solo que recebeu ções para vacas leiteiras, com duração experimental
adição de torta de mamona apresentou atividade de 84 dias. Ração A: 100% torta de algodão e ração
microbiana muito maior que o solo que recebeu B: 80% de torta de algodão + 20% de farelo de torta
esterco bovino ou bagaço de cana-de-açúcar. de mamona detoxicada. Não obtiveram diferença
Como ração animal, a torta da mamona, apesar entre as rações testadas com relação à produção de
de seu alto teor de proteínas, só pode ser utili- leite e variação de peso vivo, e apesar do consumo
zada depois de destoxificada. Para eliminação elevado das rações, não houve quaisquer alterações
de elementos tóxicos e alergênicos necessita na saúde dos animais, aspecto considerado favorá-
de tecnologia viável em nível industrial para seu vel no que diz respeito à aceitabilidade e inocuidade
processamento. dos farelos experimentais.
Durante a década de 1960, a Sociedade Algodoei- A torta de mamona é uma excelente fonte de N,
ra do Nordeste Brasileiro S.A (Sanbra) comercializou cuja liberação não é tão rápida quanto a de fertilizantes
uma torta detoxicada designada Lex Protéico (PER- químicos, e nem tão lenta quanto a de esterco animal.
RONE et al., 1966) e desde então pesquisas vêm Apresenta ainda propriedades inseticida e nematicida.
sendo realizadas com alimentação animal. Contudo, Dutra e outros (2006) avaliaram o efeito da aplicação
o processo de produção do Lex Protéico foi protegido de silicato de cálcio, torta de mamona, comparando
por patente. Apesar da eficiência na eliminação da o desempenho desses produtos com o nematicida
toxidez, Perrone e outros (1966) relata que o Lex Counter GR no controle de Meloidogyne exigua
Protéico ainda conservara a presença de alérgenos. em cafeeiro irrigado no município de Jaboticatubas-
A torta de mamona atoxicada, sem as proteínas MG. Observaram que a torta de mamona apresenta
tóxicas, em especial a ricina, pode ser usada plena- potencialidades para serem utilizadas no controle do
mente na alimentação animal, ruminantes e alguns nematóide em cafeeiro irrigado. Os resultados apre-
monogástricos, entrando na composição de rações sentados pela aplicação da torta de mamona podem

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Direcionamento dos resíduos e coprodutos da fabricação do biodiesel a partir de mamona e pinhão manso

ser atribuídos, provavelmente, aos seguintes efeitos: Lins e outros (2008) avaliaram o efeito da torta de
ação do complexo ricina-ricinina presente na torta mamona sobre o crescimento e desenvolvimento de
de mamona, que pode ter apresentado toxidade aos plantas de bananeira cultivar Terra e sobre a infes-
nematóides; ação de aumento da rigidez das paredes tação por broca-do-rizoma, Cosmopolites sordidus
celulares das raízes pela presença do silício; ação (Germar) (Col., Curculionidae). Observaram que a
nutricional promovida pela tor- torta de mamona favoreceu o
ta de mamona e pelo silicato A adição de torta de mamona no crescimento das plantas em
de cálcio, ou ainda pela ação solo, com dosagens variando altura, aumentou o teor de
conjunta desses efeitos. de acordo com a cultura e o tipo clorofila e reduziu a população
de solo e da riqueza ou não de de C. sordidus nos rizomas de
A adição de torta de mamona
nutrientes, além de suprir as
no solo, com dosagens variando bananeira cultivar Terra.
necessidades nutricionais das
de acordo com a cultura e o tipo Medeiros e Gonçalves
plantas aumenta o pH do solo,
de solo e da riqueza ou não (2007) avaliaram o efeito de
reduz a acidez total, eleva o
de nutrientes, além de suprir conteúdo de carbono e promove óleo de neem (Azadiractha
as necessidades nutricionais melhoria geral na parte física do indica) 1% na dosagem de
das plantas aumenta o pH do solo (LEAR, 1959) 62,5 L.ha-1, torta de mamona
solo, reduz a acidez total, eleva na dosagem de 625 Kg.ha-1,
o conteúdo de carbono e promove melhoria geral na extrato pirolenhoso no controle de danos produ-
parte física do solo (LEAR, 1959). De acordo com Dutra zidos em tubérculos de batata por insetos (Phyto-
e outros (2006), além de adubo orgânico, este produto phtora infestans) presentes no solo, e observaram
possui importante atividade nematicida, podendo ser que no tratamento com extrato pirolenhoso e na
usada no controle de nematóides Meloidogyne exígua testemunha a totalidade dos tubérculos amos-
em cafeeiros. trados apresentou danos causados por insetos.
Akhtar e Mohmood (1996) testaram diversos pro- O percentual de dano foi reduzido para 98,3% e
dutos no controle de nematóides, sendo um deles a 93,3% dos tubérculos nos tratamentos com torta de
torta de mamona colocada 15 dias antes do plantio mamona e com óleo de neem, respectivamente.
na quantidade de 2.700 kg/ha, equivalente a 110 A análise do teor de amido da torta de mamona
kg N/ha. Verificaram que a torta de mamona, além é fundamental para o estabelecimento de todas as
de fertilizar o solo, auxilia no controle de diversas correlações mássicas e determinação dos rendi-
espécies de nematóides causadores de distúrbios mentos de hidrólise e de fermentação. A torta de
nas raízes de diversas espécies. A torta promove o mamona apresenta um teor de amido igual a 48
aumento do Meloidogyne aquaticus, que é predador ± 0,53% (m/m). Isso significa, considerando um
de várias espécies de nematóides causadores de processo hidrolítico com eficiência de 100%, que
doenças nas plantas. a hidrólise de 100 g de torta pode gerar 53 g de
A ricinina tem sido considerada como tóxica para glicose. Esta quantidade de glicose, após fermen-
insetos da ordem Coleópteros e dos Lepidópteros. tação, pode gerar até 25,3 g de etanol por 100 g
A toxidez foi obtida pela inserção da ricina na dieta de torta de mamona. A partir desses resultados
oferecida aos insetos, porém ela não é tóxica para e da eficiência de 32,2% observada na hidrólise
todos os insetos, pois algumas espécies podem ácida, pode-se projetar um rendimento de cerca de
ingerir a proteína e não manifestar sintomas de 102 l de etanol por tonelada de torta de mamona
toxidez, embora não se tenha investigado se a processada, o que corresponde a 64% do etanol
proteína é degradada no trato digestivo ou se não demandado na etapa de transesterificação do óleo
consegue atingir as células do animal (CARLINI; de mamona para obtenção dos ésteres etílicos
SÁ, 2002). (MELO et al., 2008).

616 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.613-619, jan./mar. 2009
Napoleão Esberard de Macêdo Beltrão, Maria Isaura Pereira de Oliveira

Pinhão manso extração sob fluxo contínuo de nitrogênio ou argônio,


em razão da sensibilidade à oxidação.
A torta de pinhão manso consiste em até 62%
da massa das sementes (GHANDI et al., 1995) e é
um subproduto da extração do óleo, composta de
celulose, hemicelulose, lignina, extrativos, água, saís
minerais, ésteres de forbol e curcina (SRICHAROEN-
CHAIKUL; MARUKATAT; ATONG, 2007; MAKKAR et
al., 1997; GOEL et al. 2007). Suas propriedades são
comparadas a outros fertilizantes orgânicos, como a
torta de mamona, tendo-se em vista os teores ele-
vados de nitrogênio, fósforo e potássio. Entretanto,
aspectos de sua natureza como armazenamento, a
formação de ácidos orgânicos e a degradação da
lignina ainda mereçam estudos.
Aderibigbe e outros (1997) relataram o elevado
Foto: Maria Isaura P. de Oliveira
teor de proteína bruta (58%) da torta desengor-
durada do pinhão manso oriundo da Nicarágua.
O pinhão manso apresenta algumas semelhan- Ainda segundo os mesmos autores, para a torta
ças com a mamona. A planta apresenta frutos do do pinhão ser utilizada em dietas de monogástricos
tipo cápsula trilocular compostos de 53 a 62% de
teria que passar por um aquecimento úmido (67%
sementes. As sementes são compostas por 45% de
de umidade) a 100°C por 60 min e aquecimento
casca e 55% de amêndoa, sendo que estes per-
úmido (80% de umidade) a 130ºC por 30 minutos,
centuais são variáveis em virtude de variedades,
sendo capaz de elevar a degradabilidade in vitro do
tratos culturais e condições ecológicas (SATURNI-
nitrogênio e reduzir os inibidores de tripsina. Para
NO, 2005; AKER, 1997). As sementes de pinhão
ruminantes, o aquecimento a seco a 160°C por 120
manso contêm um óleo viscoso (cerca de 35-45%),
min foi suficiente para melhorar o valor nutritivo da
que pode ser utilizado na fabricação de biodiesel
torta de pinhão manso. Obtiveram ainda 82,9% de
(HELLER, 1996).
digestibilidade da matéria orgânica, 11,8 MJ kg-1 de
Entre as substâncias tóxicas presentes no pinhão
energia metabolizável e 73,3% de degradabilidade
manso destacam-se a curcina (uma toxoalbumina),
ruminal in vitro do nitrogênio, sendo inferior em 5%,
inibidores de tripsina, ésteres do forbol 12-deoxi-16-
2,5 MJ kg-1 e 7,6% ao farelo de soja (Glycine max),
Hidroxiforbol e outros (CHEN; HOU; ZHANG, 1988;
respectivamente.
MENEZES et al., 2006).
A curcina apresenta características similares à De acordo com Aregheore, Becker e Makkar.
ricina. Estas substâncias são duas das mais potentes (2003), os ésteres de forbol não podem ser elimi-
toxinas do reino vegetal. Felke (1913) foi o primeiro nados pelo tratamento térmico, pois são estáveis e
a isolar a curcina. Os ésteres diterpenos foram isola- podem suportar temperaturas de até 160 ºC durante
dos na semente (ADOLF; OPFERKUCH; HECKER, 30 min.
1984) e raízes (NAENGCHOMNONG et al., 1986). A torta de pinhão manso pode servir de alimento
Alguns esforços têm sido feitos para a remoção des- para o gado. Contudo, o que limita a utilização desse
ses fatores antinutricionais (HASS; MITTELBALCH, coproduto da produção de biodiesel é a ineficiência
2000). Os ésteres de forbol decompõem com rapi- dos processos de desintoxicação e o elevado teor
dez, pois são sensíveis a elevadas temperaturas, luz de lignina da casa. Atualmente, a torta de pinhão
e oxigênio atmosférico (NIH, 2007). Segundo Hass e manso in natura pode ser utilizada apenas como fer-
outros (2002), o isolamento destes compostos deve tilizante, sendo rica em nitrogênio, fósforo e potássio
ser realizado em condições livres de oxigênio e a (OPENSHAW, 2000).

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.613-619, jan./mar. 2009 617
Direcionamento dos resíduos e coprodutos da fabricação do biodiesel a partir de mamona e pinhão manso

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BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.613-619, jan./mar. 2009 619
Sabine Robra, Ana M. de Oliveira, Rosenira S. da Cruz, José A. de Almeida Neto

Bahia
análise & Dados

Tecnologia e potencial de produção


de energia a partir da biodigestão
anaeróbia de resíduos orgânicos na Bahia
Sabine RobraA
Ana M. de OliveiraB
Rosenira S. da CruzC
José A. de Almeida NetoD

Resumo Abstract

O estado da Bahia ocupa uma posição de destaque no ce- The State of Bahia is at the forefront of the national ag-
nário da agropecuária nacional. Associada à produção de maté- ricultural scene. Associated to the production of useful raw
rias-primas úteis, uma gama variada de resíduos orgânicos não materials, a varied range of non-lignocellulosic organic resi-
lig¬nocelulósicos são produzidos e podem, se aproveitados pela dues are produced. These can produce economic and envi-
biodigestão, gerar benéfi¬cos econômicos e ambientais com a ronmental benefits with the production of renewable and CO2
produção de energia renovável e neutra em CO2. Este estudo neutral energy, if biodigestion is used. This study evaluated
avaliou o potencial atual de produção de energia dos principais the current potential of producing energy from the principal
resíduos orgâni¬cos, considerando as tecnologias atualmen- organic residues, considering technologies which are pres-
te disponíveis. O potencial energético dos resíduos estudados ently available. The energy potential of the residues stud-
representa mais de 13% da capacidade de geração das ter- ied represents more than 13% of national natural gas fired
melétricas nacionais a gás natural. Os resultados encontrados thermoelectric power plant production capacity. The results
demonstram a necessidade e importância de investimentos na obtained show the need and importance for investments in
formação de recursos humanos, na difusão de conhecimentos e human resource training, for circulating knowledge and intro-
implantação de projetos pilotos destinados à popularização des- ducing pilot projects aimed at popularizing this technology in
ta tecnologia na Bahia. Bahia.

Palavras-chave: Metano. Biogás. Biodigestão. Biomassa. Keywords: Methane. Biogas. Biodigestion. Biomass.
Bahia. Bahia.

INTRODUÇÃO apropriados para todos os fins da produção agrícola,


sendo, portanto, favorável para a produção dos mais
A Bahia, com seu clima tropical, apresenta alta
diversos tipos de biomassa, sejam eles de origem
taxa de radiação solar, taxa de pluviosidade e solos
animal ou vegetal. Durante a produção, a colheita
A
Mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela Universidade e o beneficiamento dessa biomassa estão sendo
Estadual de Santa Cruz (UESC); graduada em Agronomia pela Universität Kassel;
pesquisadora do Grupo Bioenergia e Meio Ambiente, da Universidade Estadual de produzidos resíduos, adequados para a geração do
Santa Cruz. srobra@web.de
B
Doutora e mestre em Farmacologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto biogás, uma fonte de energia renovável e neutra com
(FMRP/USP); graduada em Ciênicas Biológicas Modalidade Médica pela Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); professora da Universidade Federal de São relação à emissão de CO2. Além disso, existem várias
João Del-Rei (UFSJ).
C
Doutora em Química pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); mestre em
áreas energeticamente pouco exploradas, como o lixo
Química pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); professora titular e pesquisadora
do Grupo Bioenergia e Meio Ambiente do Departamento de Ciências Exatas e
sólido urbano, as estações de tratamento de águas
Tecnológicas da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). roserpa@uesc.br residuais, além de resíduos orgânicos oriundos da
D
Doutor em Engenharia Agrícola pela Universidade de Kassel; mestre em Engenharia
Agrícola pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); professor e pesquisador produção agrícola e industrial, por exemplo, do álcool
do Grupo Bioenergia e Meio Ambiente do Departamento de Ciências Agrárias e
Ambientais da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). jalmeida@uesc.br e açúcar e da cadeia de produção do biodiesel.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.621-633, jan./mar. 2009 621
Tecnologia e potencial de produção de energia a partir da biodigestão anaeróbia de resíduos orgânicos na Bahia

O biogás é uma mistura dos gases metano, nitrogênio, encontram-se neste efluente, o último na
dióxido de carbono e de traços de outros gases, forma de NH4, que permite a fácil absorção pelas
oriundos da decomposição bacteriana de matéria raízes das plantas e, portanto, apresenta alto valor
orgânica em ambiente anaeróbio, como encontra- fertilizante (QUADROS et al., 2007a).
do em pântanos, lavouras de arroz, no trato di- Resíduos orgânicos, quando depositados no
gestivo de ruminantes, mas também em lagoas de meio ambiente sem tratamento adequado, via de
estabilização e lixões. O biogás pode ser utilizado regra são decompostos por bactérias e, portanto,
para fins energéticos se gerado de maneira con- podem provocar a emissão de metano. Como
trolada, em biodigestores, ou captado em aterros exemplos podem ser citados dejetos animais e
sanitários. A melhor produção de biogás acontece águas residuais das indústrias de cana-de-açúcar
em ambientes com temperaturas estáveis na faixa e de óleo de dendê, quando tratados em lagoas,
de 35-38 °C (processo mesofílico) ou na faixa de bem como lixo orgânico em aterros e lixões.
55-58 °C (processo termofílico). A composição Portanto, o tratamento anaeróbio controlado de
do biogás varia consideravelmente segundo as resíduos orgânicos exige a captação do biogás
matérias-primas utilizadas, porém, geralmente se gerado e a destruição deste gás pela queima,
encontra nas faixas exibidas na Tabela 1. ou diretamente através de um flare ou ainda da
O componente principal do biogás, o metano utilização do gás como combustível.
(CH4), é um hidrocarboneto inflamável, com valor
calorífico de 35,89 MJ·m−3, que dá ao biogás seu valor
Desenvolvimento histórico da biodigestão e
como combustível. O metano, quando emitido pela
produção do biogás
atmosfera, tem um potencial de efeito estufa 21 vezes
maior que o dióxido de carbono (US EPA, 2009). Embora no século XIX, antes da descoberta do
A decomposição microbiana de compostos petróleo, várias experiências da utilização do biogás
orgânicos em ambiente anaeróbio, sem presença como fonte de energia para a geração de calor e
de oxigênio, dá-se pela ação de vários grupos de de luz tenham sido feitas na Euro­pa e na Índia, a
bactérias e acontece em quatro etapas. Nas primei- tecnologia da biodigestão teve sua aplicação mais
ras duas etapas, a hidrólise seguida pela acidogê- divulgada no tratamento anaeróbio de lodos de es-
nese, bactérias anaeróbias facultativas quebram tações de tratamento de águas residuais municipais.
os nutrientes em moléculas menores e se formam Alguns anos após a Segunda Guerra Mundial, a tec-
ácidos voláteis de cadeia curta. Na terceira etapa nologia foi estendida também à agricultura, onde se
os ácidos voláteis são transformados em ácido uti­lizava os dejetos de bovinos e de suínos, além de
acético, que serve como substrato principal das outros resíduos orgânicos disponíveis nas fa­zendas,
bactérias metanogênicas (produtoras de metano), para a geração do biogás (NOACK, 1955). Nos
na última etapa da decomposição. Já que a maior anos 1960, o petróleo, por oferecer um combustível
parte dos ácidos voláteis são degradados, o resíduo imbatível quanto ao preço e à disponibilidade, aca-
da biodigestão é livre de odores fortes. Além disso, bou com a maior parte das ini­ciativas, que depois
todos os nutrientes, como o potássio, o fósforo e o só foram retomadas em épocas com escassez nas

Tabela 1
Componentes principais do biogás
Concentração em
Componente
Biodigestores Aterro sanitário
Metano CH4 % 55 – 70 45 – 55
Dióxido de carbono CO2 % 30 – 45 30 – 40
Nitrogênio N2 % <1 5 – 15
Gás sulfídrico H2S ppm 10 – 2.000 50 – 300

Fonte: Adaptado de Hofmann e outros (2002).

622 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.621-633, jan./mar. 2009
Sabine Robra, Ana M. de Oliveira, Rosenira S. da Cruz, José A. de Almeida Neto

décadas de 1970 e 1980, como consequência da do biogás e a injeção aos gasodutos do gás natural
crise do petróleo (BISCHOFSBERGER et al. 2005). também estão ganhando cada vez mais importância.
Entretanto, a geração do biogás já foi amplamente Os biodigestores rurais na Índia e na China
disseminada em países em desenvolvimento, desde produzem biogás principalmente para ilumina­ção,
os anos 50 do século passado, em escala peque- cocção, aquecimento, secagem de produtos agrí-
na e com tecnologia simples, e em ambiente rural colas e também geração de energia elé­trica em
descen­tralizado. Apesar de nas décadas de 1970 a pequena escala.
1990 terem sido implantadas algumas centenas de A Tabela 2 mostra os custos e as quantidades ne-
pequenos biodigestores rurais na África, na Ásia e na cessárias do biogás e dos seus concorrentes diretos,
América Latina (WERNER et al., 1988), a tecnologia o GLP e o GN, para gerar 1 GJ de energia.
não avançou em escala desejada em razão de falhas
na tecnologia, no treina­mento dos agricultores e pela
falta de iniciativas governamentais em conjunto com Tipos de biodigestores
custos elevados (BHATIA, 1990; MARAWANYIKA, Existe uma ampla gama de tipos de biodigestores
1993; BIANCHI, 1994). No início da década de 1990, para todos os tipos de substratos, sejam eles sólidos,
a preocupação com a mudança climática por causa semissólidos ou líquidos, desde os mais simples,
da emissão de CO2 de fontes fósseis na atmos­fera onde, via de regra, se usa apenas um único subs-
e a futura escassez do petróleo motivou a retomada trato, como dejetos provenientes do rebanho, até os
das pesquisas sobre a utilização do biogás em vários tecnicamente mais sofisticados, que são alimentados
países, estimuladas também por diversos programas com uma mistura de substratos otimizada para alto
de fomento, em nível na­cional e internacional. Es- rendimento de biogás e curto tempo de retenção. Os
pecialmente na Alemanha, medidas governamentais biodigestores mais simples consistem, basicamente,
estimularam um forte desenvolvimento da tecnologia, de uma lagoa revestida por uma lona impermeável e
garantindo aos agricultores preços para a eletricida­ coberta por uma lona de vedação de gás, não possuem
de gerada por biogás a partir de dejetos animais e sistemas de agitação e aquecimento e são mantidos
biomassa cultivada superiores aos da eletri­cidade em sistema batelada, ou seja, são abastecidos com o
gerada por termelétricas (BUNDESMINISTERIUM substrato e depois de um tempo de espera, ao redor
FÜR UMWELT, NATURSCHUTZ UND REAKTOR- de 120 dias, a produção do biogás cessa e o efluente
SICHERHEIT, 2008). pode ser utilizado como biofertilizante. Este sistema
é barato, porém requer amplo espaço, o que pode se
constituir num problema quando grandes quantidades
Utilização do biogás
de dejetos têm que ser tratados. Existem diversas
A energia contida no biogás pode ser aproveitada variações deste tipo de biodigestores, também para
em várias formas. Na Alemanha e na Di­namarca, por funcionamento em sistema semicontínuo ou contínuo,
exemplo, o uso principal é na geração de energia elétri- com sistemas de agitação por meio hidráulico ou mo-
ca para a rede nacional. Nos últimos anos, a purificação vido pelo bombeamento do próprio biogás.

Tabela 2
Comparação do volume e do custo de uma unidade de energia (GJ) para os combustíveis gasosos
GLP, GN e biogás com diferentes teores de metano
Unidade GLP1 Gás natural2 Biogás3 Biogás4
m³ 10,94 26,54 50,00 45,45
R$ 59,45 31,06 a calcular a calcular

Fonte: Elaboraçâo própria.


1
Botijão de 13 kg, R$ 36,00.
2
Adaptado de Krona (2009) e de Rödel e Richetti (2006).
3
55% de metano.
4
60% de metano.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.621-633, jan./mar. 2009 623
Tecnologia e potencial de produção de energia a partir da biodigestão anaeróbia de resíduos orgânicos na Bahia

Os biodigestores tipo “indiano” e “chinês” foram controlada de lixo em aterros modernos na déca-
desenvolvidos para o fornecimento de gás para o da de 1970, onde por compactação é criado um
cozimento e a iluminação em pequenas proprie- ambiente anaeróbio dentro do aterro (MELCHIOR,
dades rurais, e podem ser alimenta­dos com uma 2002). A cobertura do aterro por uma camada im-
variedade de substratos, como os dejetos animais, permeável, a captação do biogás que se forma e a
restos de frutas e comidas, sua destruição são medidas
e dejetos humanos. A cons- O biogás que se forma em aterros importantes para a proteção
trução é subterrânea e feita é um fenômeno recente que do clima.
em alvenaria (DEGANUTTI surgiu com o início da depo­sição
et al., 2002). controlada de lixo em aterros
modernos na década de 1970 Biogás no Brasil e no
Os reatores do tipo “mistu-
mundo
ra completa”, muito utilizados
em fazendas alemãs, normalmente consistem de A China é líder mundial em termos de biodiges-
dois reatores em forma cilíndrica. O reator principal tores instalados, seguida pela Índia, Egito e Peru. A
é equipado com um sistema de aquecimento e um China, que aprovou uma lei sobre o fomento de ener-
ou mais sistemas de agitação, enquanto o segundo gias renováveis no ano 2005, possui o maior número
reator serve para o armazenamento do substrato de biodigestores rurais, com 5 milhões de unidades
digerido. O tempo de residência destes reatores instaladas, e segundo os planos do governo, cerca
depende dos substratos, sendo de um modo geral de 50 milhões famílias serão beneficiadas com esta
entre 20 e 50 dias, quando compostos por uma tecnologia até o ano 2010 (INWENT, 2009).
mistura de dejetos animais, biomassa cultivada e Através do Programa Nacional sobre o Desen-
outros resíduos orgânicos apropriados. volvimento do Biogás (National Project on Biogas
Os reatores UASB1 foram, em princípio, desen- Development), lançado nos anos 1981-82, a Índia
volvidos para o tratamento de grandes quantida- começou a promover a instalação de pequenos
des de águas residuais com altos teores de DBO biodigestores com tecnologia simples no meio rural,
e DQO, porém com baixo teor de sólidos totais. principalmente para o su­primento de energia para
O sistema é compacto e não utiliza sistemas cozinhar. O objetivo para o período de 2008-2009
de agitação e de aquecimento. Além de baixos é a implantação de 116.500 biodigestores rurais
custos de construção e operação, o consumo de em escala familiar, com capacidade de 1 a 4 m³
energia também é bai­x o, especialmente em paí- (INDIA, 2009). Segundo informações do governo
ses com clima quente, onde não há necessidade indiano, foram insta­lados, até agora, aproxima-
de aquecimento (JORDÃO; SOBRINHO, 2004). damente três milhões de biodigestores em escala
Este tipo de reator tem aparência de uma torre. familiar (PRESS IN­FORMATION BUREAU OF THE
A água residual é introduzida na parte inferior do GOVERNMENT OF INDIA, 2009).
reator e em al­gumas horas atinge a parte superior, Na Europa, especialmente na Alemanha, foi
onde são separadas as fases gasosas e aquosas. observado um crescimento rápido do número
No fundo do reator UASB forma-se um leito de de usinas para a produção do biogás no meio
lodo composto de grânulos de bactérias imobili- rural depois que o governo lançou um progra­ma
zadas, pelo qual a água passa, garantindo íntimo para estimular este tipo de energia renovável.
contato dos compostos orgânicos com a super- Hoje existem neste país usinas de biodi­gestão
fície dos grânulos, e subsequente degradação, de médio e grande porte, com capacidade média
metabolização e produção de biogás (McHUGH instalada entre 150 e 350 kW. O bio­gás é trans-
et al., 2003). formado em energia elétrica para a rede nacional
O biogás que se forma em aterros é um fenô- ou, recentemente, purificado para atingir a quali-
meno recente que surgiu com o início da depo­sição dade do gás natural e injetado nos gasodutos. Na
Alemanha, onde estavam em funcionamento, no
1
Upflow anaerobic sludge blanket - leito de lodo com fluxo ascendente. fim do ano 2008, perto de 4.000 usinas de biogás

624 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.621-633, jan./mar. 2009
Sabine Robra, Ana M. de Oliveira, Rosenira S. da Cruz, José A. de Almeida Neto

(ASSOCIAÇÃO ALEMÃ DE BIOGÁS, 2009), o obje- O sistema de reator de mistura completa ainda
tivo é a produção de 25 a 30% de energia elétrica e apresenta-se como uma novidade no Brasil, por
14% da demanda de calor proveniente de energias causa dos custos de instalação deste sistema e
renováveis, até o ano 2020 (BUNDESMINISTERIUM dos baixos preços de energia elétrica. Porém,
FÜR UMWELT, NATURSCHUTZ UND REAKTOR- com a expectativa do aumento do preço do gás
SICHERHEIT, 2008). É importante destacar que, natural e a implementação de uma base legal
na Europa, a produção da biomassa como matéria- para o estímulo de energias renováveis, espera-
prima é responsável por aproximada­mente 50% dos se um aumento na utilização deste tipo de reator,
custos totais da geração dessa forma de energia. também em escala industrial, pela abundância e
No inverno, a vegetação per­manece em estado de versatilidade de substratos disponíveis para sua
dormência por quase seis meses, portanto é preciso alimentação.
estocar a maior par­te dos substratos previstos para O biogás proveniente de aterros já está sen-
a alimentação dos reatores, em forma de silagem do tratado e utilizado no Brasil, por exemplo, no
(RAUSSEN, 2008). Mesmo assim, nos últimos dez aterro Bandeirantes, em São Paulo, e no Aterro
anos, a geração de bioenergia se tornou mais uma do Centro, em Salvador. O biogás pode ser quei-
atividade agrícola na Alemanha e muitos agriculto- mado através de um flare, ou, após remoção do
res, hoje proprietários de uma usina de biogás, se gás sulfídrico, pode ser utilizado para a geração
tornaram também “energicultores”. de energia elétrica por geradores acoplados a
No Brasil, a biodigestão, especificamente para a motores de combustão interna ciclo Otto ou ciclo
geração de energia na forma de biogás, ainda está Diesel, ou em turbinas a gás.
em desenvolvimento, embora o uso da tecnologia
anaeróbia para o tratamento de águas residuais
O POTENCIAL PARA A GERAÇÃO DO BIOGÁS
esteja crescendo constantemente. O sistema mais
NA BAHIA
utilizado para o tratamento de águas residuais do-
mésticas e industriais é o reator UASB (JORDÃO; O potencial dos resíduos gerados por
SOBRINHO, 2004). O tratamento anaeróbio em atividades agropecuárias
sistema de lagoa com lona impermeável, também
chamado de “sis­tema canadense”, a princípio, é utili- Os principais produtos da agropecuária baiana
zado para o tratamento de dejetos animais, especial- que geram resíduos na sua produção ou no seu pro-
mente de suínos, no sul e no centro-oeste do país, cessamento são: o rebanho animal (bovinos, ovinos
em regiões com alto índice de produção de suínos e suínos), as oleaginosas, (soja, dendê e mamona),
e aves. O biogás produzido nestes biodigestores é as frutíferas tropicais, as plantas produtoras de
queimado, sendo utilizado para a venda de créditos amido (gramíneas, tubérculos), as plantas fibrosas
de carbono, ou também para a geração de energia (algo­dão, sisal) e cana-de-açúcar para a produção
térmica e elétrica (EMBRAPA, 2005). de álcool e açúcar (Tabela 3).

Tabela 3
Produção agropecuária baiana – 2007
Produto Unidade Bahia Brasil (%)
Animais (bovino, suínos, ovinos e caprinos) Cabeças 11.385.723 7,46
Oleaginosas (soja, mamona, dendê etc.) t 2.395.644 4,09
Grãos, mandioca, feijao etc. t 6.465.325 6,98
Fibras (algodão, sisal etc.) t 1.387.714 31,72
Frutíferas t 3.142.226 8,52
Cana-de-açúcar t 2.522.923 0,51

Fontes: produção Agrícola municipal, 2007, BAHIA, 2004; FAOSTAT, 2009.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.621-633, jan./mar. 2009 625
Tecnologia e potencial de produção de energia a partir da biodigestão anaeróbia de resíduos orgânicos na Bahia

Todas as cadeias de produção geram resíduos Tabela 4


em forma de biomassa, que muitas vezes estão Potencial energético do biogás dos dejetos bovinos
sendo aproveitados como adubos, sem tratamento, confinados na Bahia
Parâmetro Unidade Valor
e, em outros casos, não são aproveitados e são
Dejetos por animal e dia1 kg 10
destinados inadequadamente.
Potencial de biogás por kg de dejetos frescos1,2,3 m³ 0,036
Este trabalho tem como objetivo a avaliação do (16% de MS, 80% MO)
potencial de biogás no estado da Bahia que pode Quantidade de biogás por ano 10³ m³ 71.948,8
ser gerado a partir da biomassa residual produzida Teor de metano 2
% 55
pelo rebanho, pelas oleaginosas – mamona e dendê PCI do metano GJ/m³ 0,036

–, pela indústria da cana-de-açúcar e pelos resíduos Potencial energético por ano TJ 1420,2

sólidos e líquidos gerados nos centros urbanos – 1


Nagamani e Ramasamy (1999).
2
KTBL,(2007).
biogás produzido de ater­ros e de esgotos. 3
Erickson e outros (2003).

Caprinos e ovinos
Dejetos de animais (Cenário 1)
A avaliação do potencial de biogás gerado a partir
Como apresentado na Tabela 3, o setor agrope- de dejetos de caprinos e ovinos foi feita com base nos
cuário baiano é forte, contando com 5,7% do gado dados disponíveis sobre ovinos e caprinos criados em
(11.385.723 animais), 5,3% dos suínos (1.904.699 confinamento. Segundo estudo de Quadros e outros
animais) e 33,7% dos caprinos (3.187.839 animais) (2007b), a produção diária de esterco de 100 animais
do Brasil (PESQUISA DA PECUÁRIA MUNICIPAL, presos à noite correspon­de a 50 kg, logo, os animais
2007). Com o crescimento da criação em sistemas em confinamento o tempo inteiro produzem 100 kg de
confinados observa-se o acúmulo de grandes esterco por dia. A Tabela 5 mostra o potencial ener-
quantidades de dejetos, concentrados em áreas gético apenas levando em consideração os rebanhos
relativamente pequenas, aumentando o risco de de ovinos e caprinos de dois fornecedores de carne
impactos ambientas negativos. A solução deste ovina e caprina das cooperativas Sertão do São Fran-
impasse passa pela implantação de novos sistemas cisco, com 77.000 animas, e do Projeto de Jussara,
de manejo desses dejetos, a serem adotados pelos na região de Irecê, com 65.000 ani­mais, criados em
produtores rurais e pelas agroindústrias. Segundo sistema de confinamento (CODEVASF, 2008).
estimativa de Quadros (2005), um confinamento
de 1.000 cabeças, mantidas em quatro hectares,
Tabela 5
representa um potencial de poluição semelhante Potencial energético do biogás de dejetos ovinos
a uma cidade de 6.000 habitantes. Os dejetos dos e caprinos de duas cooperativas produtoras de
animais mantidos em sistema confinado podem ser carne ovina/bovina na Bahia
Parâmetro Unidade Valor
utilizados como matéria-prima para a biodigestão e
Dejetos por animal e dia 1
kg 1,0
geração do biogás.
Potencial de biogás por kg de dejetos m³ 0,061
frescos1,2
Quantidade de biogás por ano 10³ m³ 3.161,6
Bovinos
Teor de metano1 % 58,0

Segundo informações da Associação dos Cria- PCI do metano GJ/m³ 0,036

dores de Gado do Oeste da Bahia (2009) foram Potencial energético por ano GJ 65,8

criados na Bahia, aproximadamente, 550.000 1


adaptado de Quadros e outros.(2007b).
2
KTBL (2007) (60% de MS, 80% MO).
cabeças de gado em sistema confinado, no ano
2007. Assumindo um teor de matéria seca (MS) de
Suínos
16% e um teor de matéria orgânica (MO) de 80%,
na MS, os dejetos destes animais, se utilizados na Segundo levantamento do IBGE (PESQUISA DA
produção de biogás, correspondem a um potencial PECUÁRIA NACIONAL, 2007), foram criados, no
de 1.420,2 TJ por ano (Tabela 4). ano 2007, 1.904.699 animais pelos suinocultores

626 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.621-633, jan./mar. 2009
Sabine Robra, Ana M. de Oliveira, Rosenira S. da Cruz, José A. de Almeida Neto

baianos, o que corresponde a 5,3% do rebanho usada como suplemento na biodigestão anaeróbica
suíno brasileiro. Na Tabe­la 6 é apresentado o po- de dejetos suínos, proporcionando um aumento de
tencial energético do volume de dejetos produzido 270% na produção de biogás e de 6,3% no seu teor
por este plantel. em metano quando adicionada em proporções de
6% m/m. Os resultados de Robra (2007) apontam
Tabela 6 na mesma direção: com a adição de apenas 5%
Potencial energético do biogás dos dejetos de glicerina bruta a dejetos bovinos, o rendimento
suínos na Bahia de biogás aumentou em 207% e o teor de metano
Parâmetro Unidade Valor aumentou em 6,3%. Para aplicar os resultados
Dejetos por animal e dia 1
kg 6
dessas pesquisas às quantidades de glicerina bruta
Potencial de biogás por kg de dejetos m³ 0,019
frescos1 produzidas na Bahia no ano 2008, construiu-se um
Quantidade de biogás por ano 10³ m³ 80.088,7 segundo cenário. Considerando que a quantidade
Teor de metano1 % 60 de glicerina produzida na Bahia, em 2008, foi de
PCI do metano GJ.m-3
0,036 6.598 m³ (AGÊNCIA NACIONAL DE PETRÓLEO
Potencial energético por ano TJ 1724,6 GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS, 2009) e
1
KTBL (2007) (6% de MS, 80% MO). levando-se em conta a adição de 5% de glicerina
bruta nos dejetos bovinos, então serão necessários
Neste cenário, o potencial energético anual dos 132.000 m³ de dejetos para triplicar a produção do
dejetos bovinos, caprinos/ovinos e suínos, quando biogás destes, resultando num potencial energético
convertido em biogás, atinge 3.210,7 TJ, que con- de 296.965 GJ, como mostrado na Tabela 7.
vertidos em energia elétrica, considerando uma
eficiência energética de 40%, correspondem a 356,7
GWhel, o equivalente a aproximadamente 3,4% da Tabela 7
Efeito potencializador da glicerina bruta no
energia elétrica gerada pelas termelétricas brasileiras rendimento do biogás
a gás natural em 2007 (BALANÇO ENERGÉTICO Parâmetro Unidade Valor
NACIONAL, 2008) Biodiesel produzido na Bahia, 2008 m³ 65.982
Glicerina (10% da produção) m³ 6.598
Quantidade de dejetos necessários (95%) m³ 132.000
Potencial da adição da glicerina bruta do Potencial de biogás dos dejetos1 10³ m³ 4.730,9
biodiesel (Cenário 2) Aumento do biogás em 200% 10³ m³ 9.461,8
Quantidade de metano (55%) 10³ m³ 5.204,0
A cadeia de produção do biodiesel gera um re-
Aumento do metano em 6% 10³ m³ 5.516,2
síduo, a glicerina bruta, sendo que por cada m³ de
Potencial energético dos dejetos TJ 297,0
biodiesel são produzidos 100 l da glicerina. Essa potencializados
glicerina bruta contém quantidades do catalisador 1
potencial energético calculado com base nos resultados obtidos em (ROBRA, 2007).

utilizado na transesterificação do óleo vegetal,


além de outras impurezas, e exige um tratamento
de purificação para servir como matéria-prima da A comparação das quantidades de biogás e
indústria química, cosmética e alimentícia. Embora energia que podem ser geradas a partir dos dejetos
na forma purificada a glicerina seja um produto de apresentados no cenário 1, com as quantidades
alto valor, muitas vezes não é economicamente potencializadas pela adição da glicerina, resultam
viável a sua purificação. Outro uso da glicerina no seguinte quadro apresentado na Tabela 8.
pode ser como co-substrato na biodigestão para Como mostrado na Tabela 8, a inclusão dos
a produção do biogás, onde tem efeito potenciali- 6.589 t de glicerina como substrato na biodiges-
zador para substratos pobres em carbono de fácil tão de dejetos gera uma quantidade adicional de
degradabilidade, como, por exemplo, os dejetos energia de 203,57 TJ, comparado com o uso só dos
bovinos. Os resultados de um estudo de Amon dejetos animais, equivalente a um potencial elétrico
(2004) indicaram que a glicerina bruta pode ser adicional de 22,6 GWhel.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.621-633, jan./mar. 2009 627
Tecnologia e potencial de produção de energia a partir da biodigestão anaeróbia de resíduos orgânicos na Bahia

Tabela 8
Comparação dos cenários 1 e 2
Parâmetro Unidade Cenário 1 – sem glicerina Cenário 2 – com glicerina
Dejetos 10³ t 6.230,6 6.230,6
Glicerina t 0,0 6.598,0
Metano 10³ m³ 89.458,9 95.131,2
Potencial energético TJ 3.210,7 3.414,3
Energia elétrica MWh 356,7 379,3
(fator de conversão 40%)
Potência MW 40,7 43,3

Fonte: Elaboraçâo própria.

Agricultura e agroindústria do óleo, com base nos dados apresentados por


Remmele (2007). A composição da torta de mamona
Oleaginosas – Mamona
e da borra, os rendimentos em biogás, calculados
Entre as oleaginosas, a mamona e o dendê geram segundo Keymer e Schilcher (1999), e o potencial
resíduos e co-produtos em escala significativa na sua para a geração do biogás destes co-produtos na
produção, que podem ser utilizados como substrato Bahia são apresentados na Tabela 9.
para a produção do biogás.
No ano 2007 foram produzidas na Bahia 319.402t Oleaginosas – Dendê
de mamona (PRODUÇÃO AGRÍCOLA MUNICIPAL Na Bahia foram processados 203.773 t de cachos
2007). Segundo Almeida e outros (2006), uma to- de frutos frescos (CFF) (PRODUÇÃO AGRÍCOLA
nelada de sementes de mamona gera 37,5 kg de MUNICIPAL, 2007) pela indústria do óleo de dendê.
torta, que está sendo utilizada, principalmente, como Considerando uma eficiência da extração de 16%,
fertilizante orgânico, não sendo, portanto, devida- essa quanti­dade resultou numa produção de 32.604 t
mente aproveitado o teor energético em forma de de óleo de dendê. Para cada tonelada de óleo pro­duz-
carbono presente na torta. Além da torta, gera-se se, aproximadamente, de três a quatro toneladas de
no processo do esmagamento um resíduo, a borra, um efluente, chamado de POME2 (SUBRAMANIAM
uma substância preta, pastosa e com considerável et al., 2008). Este efluente ainda contém óleo e outras
teor de gordura, quando a extração por solvente substâncias ricas em compostos de carbono, resul-
não é utilizada (SÁ JUNIOR, 2007). Em razão da tando num DQO médio de 50.000 mL.L-1 (AHMAD;
falta de dados sobre a quantidade da borra gerada ISMAIL; BHATIA, 2003). Nas grandes usinas de
no processo, essa proporção foi estimada em 5% óleo de dendê na Bahia, este efluente está sendo
distribuído nas plantações de dendezeiros como
Tabela 9
fertirrigação (ALMEIDA NETO et al., 2008). Como
Composição bromatológica e potencial para a
geração do biogás, da torta e da borra de mamona mostram exemplos em outros países produtores de
Parâmetro Torta (% da MS) Borra (% da MS) óleo de palma, como Malásia, Tailândia, Indonésia
MS (%) 91,871 54,712 e Honduras, os compostos de carbono contidos no
Proteína (%) 28,74 1
19,992 efluente podem ser aproveitados para a produção
Gordura (%) 13,1 1
21,112 de energia, através da geração do biogás. Segundo
Cinzas (%) 12,111 4,472 Borja, Banks e Sanches (1996), um kg de DQO gera
Biogás (L/g de MF) 2803 2003 aproximadamente 0,3 m³ de metano, e a eficiência de
Teor de metano (%) 65 643
remoção da DQO é de 90%. Os da­dos de produção de
3

Produção 2007 (t) 119.776 5.989


CFF e óleo de dendê no ano 2007, e o potencial para
Potencial de biogás (103 m³) 55.277,3 1.063,7
a geração do biogás pelos efluentes da produção, se
Potencial energético (TJ) 1.289,5 24,4
encontram na Tabela 10.
1
Costa e outros (2004)
2
Robra e outros (2007)
3
calculado segundo Keymer e Schilcher (1999) 2
Palm Oil Mill Effluent – efluente de usina de óleo de palma.

628 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.621-633, jan./mar. 2009
Sabine Robra, Ana M. de Oliveira, Rosenira S. da Cruz, José A. de Almeida Neto

Tabela 10 anaeróbica em la­goas. No Brasil foram con­duzidos


Produção de dendê na Bahia e potencial vários estudos sobre o aproveitamento energético
energético do efluente da produção do óleo da vi­nhaça (SCHVARTZ, 2007), porém, atualmente,
Parâmetro Unidade Valor
existe apenas uma usina, a de São Martinho, no
CFF 10³ t 203,8
estado de São Paulo, empregando o processo da
Produção de óleo t.a-1 32.604
biodigestão anaeróbia no tratamento da vinhaça.
Produção de águas residuais 10³ m³.a-1 130,4
Em razão da relação desfavorável de custos da
DQO t 4.043
tecnologia e preço de energia, a tecnologia ainda
Metano 103 m³.a-1 1.760,6
Potencial energético TJ 63,2
está pouco disseminada, um quadro que no médio
e longo prazo pode se reverter.
O potencial energético dos resíduos da indústria Segundo os dados apresentados na Tabela 11,
de óleo de mamona e de dendê, quando convertido o potencial energético da vinhaça gerada na safra
em biogás, soma 1.377,2 TJ ou 153,0 GWhel, com de 2007/08 foi de 354,1 TJ, o que corresponde a um
eficiência de conversão de 40%. potencial de eletricidade de 39,3 GWhel.

Cana-de-açúcar para álcool


Saneamento básico
A quantidade de cana-de-açúcar colhida na
Bahia na safra 2007/2008 foi de 2.522,9  Mt3, e Lixo doméstico
fo­ram produzidos 140.535 t de álcool. A produção A Tabela 12 apresenta a quantidade de lixo do-
de cada litro de álcool gera, em média, 13  l de méstico coletado e depositado em aterros e vaza-
vi­nhaça, uma substância com alta carga orgâni- douros na Bahia no ano 2000 (IBGE, 2000).
ca, o que se reflete numa demanda quími­ca de
oxi­gênio (DQO) de aproximadamente 25 kg.m-3 Tabela 12
(Tabela 11). Quantidades diárias e anuais do lixo coletado e
potencial de biogás – Bahia – 2000
Parâmetro Unidade Valor
Tabela 11 Quantidade diária de lixo t.d-1 10.398
Cálculo do potencial energético da vinhaça gerada doméstico na Bahia1
na safra de 2007/08 Total por ano 103 t.a-1 3.795,4
Parâmetro Unidade Valor Potencial de biogás2 106 m³.a-1 379,5
Álcool m³ 140.535 Potencial energético 3
TJ 6.810,8
Vinhaça 10³ m³ 1.827,0 1
IBGE, 2009
DQO kg.m-³ 25 2
Themelis e Ulloa (2007) (100 m³.t-1.a-1, 50% de CH4)
3
Valor calorífico do metano: 35,89 MJ.m-³
DQO t 45.674
Taxa de remoção % 72
DQO t 32.885 O lixo doméstico é composto de, aproximada-
Metano m³.kg-1 0,3 mente, 60-70% de matéria orgânica (MO) (BAHIA
Metano 103 m³.a-1 9.865,56 TRANSFERÊNCIA E TRATAMENTO DE RESÍDU-
Potencial energético TJ 354,1 OS, 2008, THEMELIS; ULLOA, 2006). A decompo-
sição microbiana dessa matéria orgânica em ambi­
Portanto, este efluente pode ser apro­veitado ente anaeró­bio, em aterros compactados, provoca
energeticamente para a produção do biogás. O a formação de metano, sendo assim res­ponsável
processo mais adequado é a biodigestão em sis- por, apro­ximadamente, 13% das emissões de me-
tema UASB, por causa da capacidade de tratar tano causadas pela ação humana. Krümpelbeck
quantidades consideráveis e pequena exigência de (2000) estimou a produção do gás de 280 m³.t-1
espaço, comparado com o sistema da estabilização de MO, com 60% de matéria seca (MS) no lixo e
com um tempo de meia-vida entre 3,5 e 6 anos.
3
1 Mt = 106 t Segundo estimativa conservadora de The­melis e

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.621-633, jan./mar. 2009 629
Tecnologia e potencial de produção de energia a partir da biodigestão anaeróbia de resíduos orgânicos na Bahia

Ulloa (2006), cada tone­lada de resíduos domésticos este potencial pode ser explorado pelo tratamento de
depositada gera em volta de 100 Nm³ de biogás com águas resi­duais domésticas em reatores anaeróbios
50% de meta­no por ano. Com base nestes dados, tipo UASB, onde há produção do bio­gás, além de
o lixo sólido depositado em vazadouros e aterros uma considerável remoção da carga de DQO de 55%
na Bahia, no ano 2000, emitiu diariamente 519,9 (AIYUK et al., 2006). Por­tanto, este sistema pode se
mil m³ de metano na atmosfera, embora o biogás constituir numa alternativa econômica e energetica-
seja cap­tado em poços e queimado, através de um mente mais adequada em países como, por exemplo,
flare, em ater­ros devidamente equipados (BAHIA o Brasil e a Índia (VERONEZ; GONÇALVES, 2002;
TRANSFERÊNCIA E TRATAMENTO DE RESÍDU- AIYUK et al., 2006). Segundo Khalil e outros (2008),
OS, 2008). O potencial energético do biogás gerado as van­tagens do tratamento anaeróbio em siste­mas
somente pela parte orgânica dos resíduos sólidos
UASB são:
coletados na Bahia no ano 2000 correspondeu a
3.405,4 TJ (Tabela 12). • diminuição significativa de quantidades de lodo
em até 80%;
Esgotos • produção de um excesso de energia que pode
Para a proteção dos recursos naturais, espe- ser aproveitado (metano);
cialmente os recursos hídricos necessários ao • não há demanda em energia para a aeração;
abastecimento da po­pulação com água potável de • menores custos de operação e manutenção.
boa qualidade, é imprescindível o tratamento dos
Teoricamente, 1 g de DQO corresponde a 350 ml
esgotos domésti­cos em esta­ções de tratamento
de metano. Provavelmente por causa das va­riações
de esgotos (ETEs). Foram coletados na Bahia, no
no potencial metanogênico da DQO, foram observa-
ano 2000, 700.285 m³ de esgotos domésticos por
das quantidades de metano entre 211,6 (VERO­NEZ;
dia, dos quais 628.255 m³ receberam tratamento
GONÇALVES, 2002) e 300 mL.g-1 DQO removido
(IBGE 2000). O potencial poluidor dos esgotos
(AIYUK et al., 2006). Baseado no valor conser­vador
municipais, ou seja, o seu teor em compostos
de 200 ml de metano por grama de DQO degradado
orgânicos, é caracte­rizado pelos parâmetros De-
e a conversão em biogás de 55% do DQO, foi cal-
manda Biológica de Oxigênio (DBO) e Demanda
culado o potencial de energia contido nos esgotos
Química de Oxigênio (DQO), o último possuindo
tratados em ETEs na Bahia, no ano 2000 (IBGE
valores típicos entre 500-600 mg.l-1 de esgotos
(BOF et al., 2001; KOPPE; STOTZEK, 1999). Os 2000) (Tabela 13).
processos normalmen­te empregados nas ETEs
Tabela 13
para remoção dos poluentes e redução da DQO Quantidade de esgotos tratados em ETEs
são exigentes em energia elétrica, especialmente e potencial energético – Bahia – 2000
para o sistema de aeração, sendo responsáveis Parâmetro Unidade Valor

por 20% do custo operacional (SAMPAIO; GON- Quantidade anual de esgotos 106 m³.a-1 229,3
na Bahia1
ÇALVES, 1999). Porém, o teor em DQO pode tam-
DQO2 103 t.a-1 114,7
bém ser visto como recurso, uma vez que o biogás Metano3 103 m³.a-1 12.612,2
gerado a partir de esgotos e águas residuais pode Potencial energético4 TJ 452,7
ser utilizado para o suprimento da demanda em 1
IBGE (2000)
energia das próprias esta­ções de tratamento de 2
Valor calculado segundo Bof e outros. (2001), Koppe e Stotzek (1999)
3
Rendimento de metano: 200 1 kg-1 DQO
esgotos (ETEs). 4
Poder calorífico inferior do metano: 35,89 MJ.m-3

No ano 2006, a eletricidade gerada em ETEs


na Alemanha participou com 1,3% na gera­ção de O potencial energético dos resíduos sólidos e
energia renovável (DEUTSCHE VEREINIGUNG líquidos domésticos somados foi de 7.263,5 TJ, corres-
FÜR WASSERWIRTSCHAFT, ABWASSER UND pondendo, quando convertido em energia elétrica com
ABFALL E.V., 2008). Em regiões com clima quente, eficiência de 40%, a 92,1 MWel.

630 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.621-633, jan./mar. 2009
Sabine Robra, Ana M. de Oliveira, Rosenira S. da Cruz, José A. de Almeida Neto

RESUMO E CONSIDERAÇÕES FINAIS Porém, a implantação dessa forma de energia


renovável e neutra em emissões de CO2 ainda ne-
Como mostra a Tabela 14, o potencial energético
cessita su­perar muitos obstáculos, especialmente
contido nos resíduos da agricultura, pecuária e do
saneamento básico, que pode ser aproveitado, é com relação ao déficit em informação. Além disso,
relativamente elevado, equivalendo a 1.378,8 GWhel, para ser implementada em larga escala, necessitará
corresponden­do, aproximadamente, a 13,1% da de es­tímulos e incentivos fiscais, bem como da im-
energia elétrica gerada pelas termelétricas brasilei- plantação de investimento na formação de recursos
ras a gás natural em 2007 (BALANÇO ENERGÉTI- huma­nos (ensino, pesquisa e extensão). Essa área
CO NACIONAL, 2008). oferece potencial para geração de empregos e renda,

Tabela 14
Potencial energético do biogás de resíduos da agropecuária e do saneamento básico – Bahia
Origem Metano 10³ m³ TJmetano GWhel MWel
Dejetos bovinos, ovinos/caprinos, suínos 95.131,2 3.414,3 379,4 43,3
Dendê, mamona 38.371,6 1.377,2 153 17,5
Cana 9.865,6 354,1 39,3 4,5
Saneamento (lixo, esgotos) 202.381,2 7.263,5 807,1 92,1
Soma 345.749,5 12.408,9 1.379 157,4

O estudo demonstrou que a Bahia dispõe de um na cons­trução e na manutenção dos sistemas de


grande potencial não aproveitado de biomassa com produção de biogás e energia, e, por outro lado, pode
aptidão para ser con­vertida em biogás. A geração acionar uma nova cadeia de produção, liberando
de energia a partir da biodigestão, especialmen- recursos que possam ser exportados.
te de dejetos de animais, oferece uma gama de Desde 2003, o Grupo Bioenergia e Meio Ambiente,
vantagens ecológicas, como evitar emissões de da UESC, conduz pesquisas sobre a aptidão para a
gases de efeito estufa e ainda gerar créditos de produção do biogás, de resíduos agropecuários, da
carbono pela substituição de combustíveis fósseis, produção de óleos vegetais e do biodiesel, sendo um
au­mentando considera­velmente a sustentabilidade dos trabalhos contemplados com o Prêmio Petrobras
ambiental e econômica desta alternativa energética. de Tecnolo­gia 2007. As pes­quisas objetivam a potencia-
A forma de utilização mais simples do biogás se lização do rendimento de biogás atra­vés da co-digestão
dá pela combustão direta para a geração de calor. de diversos substratos. Atualmente, as pesquisas são
Depois de purificado, o biogás pode ser li­quefeito voltadas ao potencial de tortas de oleaginosas sem
ou injetado em gasodutos. A conversão em energia valor alimentício, para a geração do biogás.
elétrica em termelétricas e a utiliza­ção racional do
calor produzido oferece o maior ganho ecológico, e
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Tecnologia e potencial de produção de energia a partir da biodigestão anaeróbia de resíduos orgânicos na Bahia

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BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.621-633, jan./mar. 2009 633
Cristina M. Quintella, Marilu Castro

Bahia
análise & Dados

Glicerina Bruta (GB) oriunda da produção


de biodiesel: transformando este
subproduto em coproduto com alto valor
agregado e baixo custo preparativo, uma
oportunidade de negócio
Cristina M. QuintellaA*
Marilu CastroB

Resumo Abstract

Estudo direto de viabilidade técnica e econômica da utilização This is a directed technical and economic viability study for
de Glicerina Bruta (GB), co-produto do biodiesel, para a recuperação using Raw Glycerine (GB), a biodiesel co-product for enhanced
avançada de petróleo (EOR) focando o Campo Maduro do Recôncavo oil recovery (EOR), concentrating on a mature field in the Ba-
Baiano. São avaliados três cenários: desfavorável, médio e favorável. hian Recôncavo. Three scenarios are evaluated: unfavourable,
As variáveis foram disponibilidade de GB, número de bancos injeta- average and favourable. The variables were GB availability,
dos, preço do transporte, distância ente o produtor e o local de injeção, number of injected banks, transport costs, distance between
câmbio do dólar dos EUA, número de caminhões de GB, volume de the producer and injection location, US dollar exchange rate,
GB injetada, percentual de GB produzida que pode ser re-injetado, number of GB lorries, volume of injected GB, percentage of GB
preço unitário da GB, razão volumétrica entre GB injetada e volume de produced that could be re-injected, GB unit price, volumetric
petróleo produzido, preço do petróleo, custo operacional do barril de ratio between injected GB and volume of oil produced, oil price,
petróleo com injeção de solução aquosa, custo operacional do barril operational costs for a barrel of oil with aqueous solution in-
de petróleo com injeção de solução aquosa, percentual de royalties jection and royalty percentage on the brute for the State, local
para o estado, os municípios e a educação superior do estado da authorities and higher education in the State of Bahia. All of the
Bahia sobre o bruto. Todos os cenários se mostraram promissores. scenarios proved promising.

Palavras-chave: Parafinas. Asfaltenos. Injeção. Recupera- Keywords: Paraffins. Asphaltenes. Injection. Secondary
ção secundária. Recuperação terciária. recovery. Tertiary recovery.

INTRODUÇÃO do planeta (GAROFALO, 2002; RANGANATHAN,


2008), sendo considerada uma forma de mitigar as
A produção de biocombustíveis renováveis tem
mudanças climáticas, tanto por utilizar o CO2 para
sido encorajada cada vez mais, não só pelo estado
o crescimento das plantas oleaginosas, como por
da Bahia, como pelo Brasil e pelos outros países
sua queima emitir menor quantidade de CO2 para a
atmosfera (PRADHAN et al.,) Adicionalmente, sendo
A
DPhil em Ciências Moleculares; doutora em Ciências Moleculares pela University renovável, não exaure tanto os recursos do nosso
of Sussex-UK; professora e coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica da
Universidade Federal da Bahia (UFBA). conit@nit.ufba.br planeta. Pode ainda contribuir significativamente
B
Especialista em Administração; graduada em Secretariado Executivo; cogestora
de projetos de pesquisa e de desenvolvimento tecnológico na área de Energia e para a economia da agricultura familiar, a depender
Ambiente na Universidade Federal da Bahia (UFBA). marilucastro@ufba.br
das matérias-primas utilizadas (BENDER, 1999).
*
Agradeço ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq) pela bolsa de produtividade em pesquisa. Assim, a entrada de bioenergia a custo competitivo

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.635-646, jan./mar. 2009 635
Glicerina Bruta (GB) oriunda da produção de biodiesel: transformando este subproduto em
coproduto com alto valor agregado e baixo custo preparativo, uma oportunidade de negócio

no mercado potencializa a substituição de energias ainda tem que ser tratado antes do descarte, dando
não-renováveis, como os derivados de petróleo. prejuízo. Quando olhados sob os aspectos de im-
No entanto, sua adoção pela humanidade depen- pacto ambiental, maximização de energia e graus
de ainda de se transporem alguns gargalos como o de renovação (PRADHAN et al.,), o ideal seria
preço ao consumidor, a eficiência dos processos de que os subprodutos e efluentes passassem a ser
produção e purificação, o controle de qualidade de tratados como coprodutos. Ou seja, passassem a
processos e dos produtos, e o impacto ambiental do agregar valor e a se consistir em outras fontes de
biodiesel e de seus subprodutos. renda importantes para os produtores agrícolas e
Recentemente, os processos de produção de industriais.
biodiesel têm sido classificados em 1ª e 2ª gera- A produção de biodiesel por rota básica meta-
ções. A 1ª consiste basicamente de esterificação nólica gera cerca de 9 a 10%vv de glicerina bruta
e transesterificação de óleos e gorduras, e a 2ª (GB). No mercado, a glicerina se encontra dispo-
consiste basicamente de transformação de matéria nível com diversos graus de pureza, o que leva
lignocelulósica através de processos como pirólise, a ter diversos preços de mercado. Usualmente é
liquefação hidrotérmica, hidrotratamento e refino classificada como:
(HAMELINCK; FAAIJ, 2006; DEMIRBAS, 2007). – glicerina bruta (GB): glicerina do processo de
Aqui abordaremos os processos de 1ª geração, pois produção de biodiesel, sem passar pelo proces-
são os que utilizam praticamente todas as plantas so de separação trifásico, contendo usualmente
autorizadas no território nacional. glicerina, ácidos, ésteres, álcalis e alcoóis, com
No Brasil, a Lei 11.097, de 13/01/2005, e os grau de pureza muito baixo e tendo a formu-
subsequentes atos legislativos obrigam a adição de lação típica de 40% a 90% de glicerina, 8% a
biodiesel ao diesel em proporções que a cada ano 50% de água, menos de 2% de metanol e 0%
aumentam gradativamente, deste modo tornando a 10% de sais;
obrigatória a disponibilidade de biodiesel no mer- – glicerina crua: com 75% a 90% de glicerina,
cado brasileiro, o que levou ao início da produção tendo sofrido aquecimento para retirada de
continuada e sistêmica de biodiesel no Brasil. Foi álcool e pré-purificação com separação trifásica
ainda criado o Selo Combustível Social, que priori- de sabões, ácidos graxos, sais e resíduos do
za as empresas que utilizam insumos advindos da catalisador;
agricultura familiar. – glicerina técnica ou industrial USP 99,5%:
No caso da produção de biodiesel a partir de com 99,5% de glicerina, já tendo passado por
óleos e gorduras residuais (OGR), existe pronun- processo de purificação;
ciada vertente de redução de impactos ambientais – glicerina técnica ou industrial USP 99,6%:
negativos, pela incorporação à cadeia produtiva do com 99,6% de glicerina, usualmente de origem
biodiesel de um material que antes não tinha destino vegetal, já tendo passado por processo de
específico, sendo em alguns casos descartado de purificação;
modo inadequado. No entanto, biodiesel de OGR – glicerina técnica ou industrial USP/FCC – Ko-
ainda não tem arcabouço legal específico para sher 99,5%: com 99,5% de glicerina fabricada
sua comercialização (AGÊNCIA NACIONAL DE pelo processo Kosher;
PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍ- – glicerina técnica ou industrial USP/FCC – Ko-
VEIS, 2006). sher 99,7%: com 99,7% de glicerina fabricada
Uma solução de viabilização econômica comple- pelo processo Kosher.
mentar é a valoração das matérias e substâncias Recentemente se observou que o preço inter-
envolvidas em toda a cadeia produtiva do biodiesel. nacional de glicerina purificada caiu (MFRURAL,
Usualmente se denomina de subprodutos o que 2009), tendo a queda sido atribuída ao aumento
se vende – se compensar economicamente –, de da oferta no mercado em razão da produção de
coprodutos o que tem mercado para venda e de biodiesel. Se o preço continuar a cair, as cadeias
efluentes o que é descartado e que muitas vezes produtivas que se alicerçam na glicerina, seja

636 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.635-646, jan./mar. 2009
Cristina M. Quintella, Marilu Castro

para compra, seja para venda, deverão sofrer A primeira é que, por ter sido pioneira no Brasil
ajustes que podem levar ao colapso de várias ao ser iniciada há mais de 50 anos, restaram nos
empresas estabelecidas e ao aumento do desem- reservatórios as frações mais densas e mais difí-
prego. Assim, purificar GB deixa de ser uma op- ceis de produzir. A segunda, a Bacia do Recônca-
ção de valoração deste coproduto com viabilidade vo Baiano é de origem álgica, tendo petróleo com
econômica e social, tendo pouca atratividade alto conteúdo de parafinas. Estes dois aspectos
econômica (QUINTELLA et. al., 2009). tornam o petróleo pouco fluído, apresentando
A solução aqui proposta é a utilização da GB temperatura de aparecimento de cristais (TIAC)
como fluído para recuperação de petróleo, ou seja, desfavorável, com características de Campos
para ser injetada em poços de petróleo, aumentando Maduros, dificultando seu deslocamento na ro-
a pressão do fluido nos poros das rochas e varrendo cha reservatório, colunas de produção e ductos
(empurrando) o petróleo para outros poços onde ele (SANCHES, 1991). Assim, o petróleo, apesar de
pode ser produzido (sair). ter alto valor comercial, apresenta ainda grandes
Trabalhos em escala de laboratório em 2005 e reservas que não foram produzidas.
2006 mostraram que GB é extremamente eficiente
para remoção de petróleos parafínicos, como os da
OFERTA E DEMANDA DE GB
Bacia do Recôncavo Baiano (QUINTELLA et al.,
2005; BORGES et al.; QUINTELLA et al., 2009); A produção de GB ou foi obtida diretamente das
Para o estado da Bahia, os impostos e royal- fontes, ou foi calculada como sendo um nono da
ties da produção de petróleo impactam claramen- produção de biodiesel, ou seja, 10%vv.
te nos cofres do estado, das prefeituras e dos Os Estados Unidos da América do Norte (EUA)
donos de terras. Assim, o aumento da produção (Figura 1) são responsáveis por boa parte da pro-
de petróleo para o estado da Bahia não só au- dução do planeta e têm tido não só sua produção,
menta o Produto Interno Bruto (PIB) do estado, mas também sua capacidade instalada crescendo
como é de grande interesse para que existam anualmente de modo exponencial. Na Europa, este
mais recursos para serem investidos pelo estado crescimento também se tem verificado, apesar da
e municípios em melhoria dos Índices de Desen- produção ser bem inferior. No caso do Brasil (Figura
volvimento Humano (IDHs). 2), a produção se iniciou após a da Europa e dos
No entanto, a produção de petróleo na Bahia EUA e, em 2008, atingiu 800 mil bep, sendo o cres-
apresenta hoje em dia duas dificuldades básicas. cimento exponencial.

Figura 1
Evolução anual e capacidade instalada de produção de GB
(A) Europa
(B) Estados Unidos da América do Norte (EUA)
Fontes: European Biodiesel Board e National Biodiesel Board.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.635-646, jan./mar. 2009 637
Glicerina Bruta (GB) oriunda da produção de biodiesel: transformando este subproduto em
coproduto com alto valor agregado e baixo custo preparativo, uma oportunidade de negócio

Figura 2
(A) Capacidade instalada e produção de GB por estado do Brasil
(B) evolução anual da produção no Brasil
(C) produção por empresa no estado da Bahia
Fontes: www.iee.usp.br/evento_anp/apresentacoes/arqui14.ppt e Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

No Brasil, apenas 31% da capacidade autorizada A produção de petróleo no Brasil é predo-


foi produzida em 2008. A projeção de produção para minantemente offshore (Figura 3A), ao con-
o período de 2009 a 2015 (Figura 2B) foi realizada trário do estado da Bahia, onde a produção é
com base na obrigatoriedade de adição de biodiesel essencialmente onshore (Figura 3B). Pode-se
ao diesel, conforme a Lei que introduziu o biodiesel observar que a produção na Bahia tem caído
na Matriz Energética Brasileira de combustíveis discretamente nos últimos anos, gerando me-
líquidos, onde o percentual anual aumenta gradati- nos royalties para o estado e os municípios.
vamente até no mínimo 5% de biodiesel adicionado Isto é esperado, pois se trata de um Campo
ao diesel para o consumidor final (Lei 11.097, de Maduro. Assim, novas intervenções são ne-
13/01/2005 e subsequentes atos legislativos). Os cessárias para restabelecer e até aumentar os
estados que mais produziram em 2008 (Figura 2A) níveis de produção anteriores. Note-se que a
foram Rio Grande do Sul (26%), Mato Grosso (24%), Bacia do Recôncavo ainda tem reserva prova-
Goiás (21%) e São Paulo (16%). A Bahia produziu da de 216,00 milhões de bep de petróleo de
apenas 6%. São três as empresas que produzem no uma reserva total de 472,94 milhões de bep,
estado da Bahia (Figura 2C): a Brasil Ecodiesel em tendo, portanto, ainda mais de 46% de OOIP,
Iraquara, a Comanche em Simões Filho e Petrobras conforme dados da AGÊNCIA NACIONAL DO
na planta de Candeias, que partiu em 2008, tendo PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUS-
produzido 17% de sua capacidade. TÍVEIS (ANP).

638 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.635-646, jan./mar. 2009
Cristina M. Quintella, Marilu Castro

Figura 3
Produção de petróleo onshore e offshore:
(A) Brasil
(B) Bahia
Fonte: Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

GB COMO FLUIDO EOR–ESCALA DE BANCADA eficácia na produção de petróleo. No entanto o cus-


EM 2005 E 2006 NO ESTADO DA BAHIA to dos materiais e o tempo requerido para injeção
têm mostrado baixa efetividade (BABADAGLIA,
Os processos de recuperação de petróleo 2007; MANDIQUE, 2007). A GB é um fluido ASP
(ROSA et al., 2006) podem ser divididos em: (a) por natureza ao ter em sua constituição o catali-
primários, quando a pressão do fluido na rocha sador básico, ácidos graxos, mono, di e tri glicerí-
reservatório é alta e apenas a perfuração de poços deos, moléculas de cadeia longa como as partes
faz o petróleo minar (a energia do reservatório é alquílicas dos ácidos graxos, óleos polimerizados,
suficiente para produzir e os poços são surgentes); resíduos de biodiesel, óleos não transesterificados
(b) secundária, quando são inseridos fluidos, usual- e resíduos de álcool.
mente soluções aquosas, para aumentar a pressão No caso da GB, sua constituição é extremamente
da rocha reservatório e manter o petróleo minando dependente dos insumos e da matéria-prima, já que,
(fluindo, descolando); (c) terciária, quando a injeção no máximo, é aquecida para separação da maior
do fluido da recuperação primária já não produz parte do álcool residual. Assim, as aplicações e usos
quantidades expressivas de petróleo e um novo deste produto não podem ser sensíveis a flutuações
fluido ou método de recuperação é utilizado; e (d) na sua constituição química. Adicionalmente, as in-
avançada, usualmente denominada de EOR, que terações dos constituintes devem ser desejáveis. A
significa enhanced oil recovery, onde são injetados GB torna-se assim um fluido ASP por natureza.
fluidos ou utilizados métodos adequados a cada Os testes de bancada realizados em 2005 e
uma das situações e das histórias dos reservató- 2006 com sandpack mostraram ótimos resultados
rios e métodos de produção já utilizados. Às vezes para GB como fluido EOR, tendo aumentado signi-
a bibliografia denomina também a recuperação ficativamente a recuperação do óleo originalmente
terciária de EOR. retido (OOIP) em rochas reservatório areníticas. A
No caso da Bacia do Recôncavo Baiano, como recuperação secundária produziu cerca de duas
a exploração dos campos já está bem avançada, vezes o volume de petróleo produzido com a injeção
em quase todos os reservatórios já foi realizada de surfactante ou com a injeção de polímero e cerca
recuperação secundária com soluções aquosas. de quatro vezes mais do que o volume de petróleo
Assim, em geral, as recuperações mais prováveis produzido com injeção de solução aquosa (QUIN-
são a terciária e a EOR. TELLA et. al., 2009).
Nos últimos cinco anos, o método ASP, que con- Foram também realizados testes de injeção
siste na mistura de agentes químicos de três tipos terciária que mostraram que GB permite aumentar
(alcalino, surfactante, polímero), tem mostrado alta a produção do OOIP de cerca de 20% para cerca

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Glicerina Bruta (GB) oriunda da produção de biodiesel: transformando este subproduto em
coproduto com alto valor agregado e baixo custo preparativo, uma oportunidade de negócio

de 80% (QUINTELLA et al., 2009). A GB utilizada e de solução aquosa, sendo o volume de cada um
como fluido EOR mostrou que produzia entre 72% dos três menor do que o volume poroso a ser varrido.
e 80% do OOIP. Para cada situação foram simulados diversos cená-
Os testes com sandpack de misturas de areia e rios, sendo aqui apresentados três cenários: menos
argila mostram que a recuperação terciária com GB favorável (A), intermediário (B) e mais favorável (C).
aumentou o fator de recuperação em até 60% do Nesta simulação não foi considerado capital inicial
OOIP (QUINTELLA et al, 2009). nem evolução anual do fluxo de caixa da operação,
Foram testados petróleos parafínicos ou asfaltênicos sendo considerado um bloco só.
de várias origens. Assim, os testes foram realizados com
os petróleos mais difíceis de produzir e transportar.
Tabela 1
Foram testadas GBs obtidas a partir de óleo de Descrição dos cenários relatados neste trabalho1
mamona e OGR, tanto por reações com metanol Cenário Volume de GB Injetada Bancos
como com etanol, tendo todos apresentado resul- A-1banco 50% da produção em 2008 nos estados mais 1
próximos
tados semelhantes de produção de OOIP. A única
B-1banco 50% da capacidade instalada em 2009 nos 1
diferença foi que a utilização de GB de OGR produz estados mais próximos
maior quantidade de emulsão. C-1banco 80% da capacidade instalada em 2009 nos 1
estados mais próximos
O fluido produzido nos Campos Maduros é
A-3bancos 50% da produção em 2008 nos estados mais 3
usualmente uma mistura trifásica de água, GB e próximos
petróleo, apresentando uma fase aquosa, uma fase B-3bancos 50% da capacidade instalada em 2009 nos 3
oleosa e uma fase emulsificada. Uma das rotinas de estados mais próximos
C-3bancos 80% da capacidade instalada em 2009 nos 3
produção de petróleo é a necessidade de utilização estados mais próximos
de um separador de fases. Ele opera na sua forma 1
Estados considerados: Bahia, Ceará, Piauí, Goías, Maranhão, São Paulo, Pará e
mais simples como um decantador, podendo ainda Mato Grosso.

ter a temperatura controlada. Pode-se ainda adicio-


nar agentes desemulsificantes. Testes mostraram O câmbio do dólar dos EUA (US$) para o real
que apenas o aquecimento da emulsão de GB com do Brasil (R$) foi simulado entre R$ 2,00 e R$ 2,64,
petróleo, entre 60ºC e 80ºC, separa 94%vv (MATOS; sendo o cenário intermediário de R$ 2,32. (BANCO
QUINTELLA, 2007). DO BRASIL, 2009).
Finalmente, a razão entre volume de GB injetada e Foram considerados apenas os aspectos que
volume de petróleo produzido mostrou variação entre diferem entre a EOR com GB e a recuperação se-
4,2 e 6,6, a depender do montante injetado (QUIN- cundária com injeção de solução aquosa, sendo para
TELLA et. al.,; BORGES et al., 2005; QUINTELLA et al., isso considerado um custo operacional da produção
2009). A injeção em banco mostrou a relação de 2,3. de óleo nos Campos Maduros da Bacia do Recôncavo
Desde o início de 2007 estão em curso estudos para referente ao barril produzido com injeção de solução
aprofundar mais os aspectos da utilização de GB com aquosa. Este custo para os três cenários foi US$
fluido EOR. Um dos projetos é financiado pela Rede 13,00, US$ 10,0 e US$ 7,00, conforme reportado
de Revitalização de Campos Maduros da Petrobras anteriormente na literatura (ROCHA; SOUZA; CÂ-
através do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento MARA., 2002). Este custo considera embutidos os
Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes). custos de pró-labore, os fixos, os de tratamento de
água de injeção, de injeção de água, os de abandono,
os de separação dos fluidos produzidos, os mesmos
CENÁRIOS
equipamentos, enfim, a infraestrutura da recuperação
secundária com solução aquosa. Para a injeção de
Dados da entrada
bancos, o tratamento de água de injeção e a infra-
Foram simuladas duas situações de injeção (Ta- estrutura de injeção foram considerados os mesmos
bela 1): um banco e três bancos. Para os três bancos, da injeção de recuperação secundária com solução
considerou-se três vezes a injeção alternada de GB aquosa, não apresentando custos adicionais.

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Cristina M. Quintella, Marilu Castro

A razão entre o volume de GB injetada e o volume O volume da GB reinjetada foi baseado nos
de petróleo produzido foi variada em três níveis, de testes de bancada de 94%vv de separação da
acordo com os resultados de testes de bancada. emulsão num separador já pré-existente para
Para injeção de um banco considerou-se 6,6 para recuperação com solução aquosa, considerando
o cenário mais favorável, 4,2 para o cenário menos apenas a temperatura típica de operação. Foram
favorável e 5,4 para o cenário intermediário. Para ainda consideradas perdas com transporte, tendo
injeção de três bancos considerou-se 1,5 para o sido considerada para cada cenário a reinjeção de
cenário mais favorável, 3,1 para o cenário menos 80%vv, 85%vv e 90%vv da GB produzida.
favorável e 2,3 para o cenário intermediário. O preço da GB utilizou uma faixa que atende à
Para o volume da GB injetada foram considera- GB comercializada em fevereiro de 2009 (Tabela
das três opções, em função da disponibilidade de 4). À medida que novas unidades de produção de
GB no mercado brasileiro, conforme Tabela 2. biodiesel entrarem em operação, espera-se que

Tabela 2
Volume de GB injetada em bep para cada cenário, por estado de procedência
UF A-1banco e A-3bancos B-1banco e B-3bancos C-1banco e C-3bancos
Bahia 23.255 107.140 171.423
Ceará 6.770 65.299 104.478
Piauí 1.603 33.966 54.346
Goías 85.067 152.966 244.745
Maranhão 12.749 45.288 72.461
São Paulo 65.412 225.885 361.417
Pará 925 14.467 23.147
Mato Grosso 99.434 371.398 594.236
Total 295.215 1.016.409 1.626.253

Fonte: Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Para cada uma destas opções, foi necessário aumente a oferta de GB no mercado, o que deve fazer
calcular os custos de transporte entre o produtor cair o preço. No entanto, caso as empresas de produção
e o local de injeção, pois o Brasil tem dimensões de petróleo optem pela injeção de GB, o preço deve
continentais. Considerou-se o transporte rodovi- aumentar. Assim, utilizou-se o valor atual de mercado
ário com caminhões tanque de 12.000l (12m3 ou de R$ 0,50/kg para o cenário intermediário, R$ 0,65/
75,48 bep). As distâncias das plantas produtoras kg para o cenário menos favorável e R$ 0,35/kg para o
de cada estado foram aproximadas para valores cenário mais favorável.
médios conforme a Tabela 3. O preço do transpor- O preço do barril de petróleo foi estimado entre
te foi estimado de acordo com os preços vigentes US$ 30,00 e US$ 80,00 com um cenário intermediário
em fevereiro de 2009 para o biodiesel. de US$ 55,00. O menor valor é ligeiramente inferior

Tabela 3
Volume de GB injetada e produto do volume pela distância, por estado de procedência
Volume de GB (bep) Volume de GB* Distância (mil bep*km)
Distância
UFs A-1banco e B-1banco e C-1banco e A-1banco e B-1banco e C-1banco e
(km)
A-3bancos B-3bancos C-3bancos A-3bancos B-3bancos C-3bancos
BA 50 23.255 107.140 171.423 1.162 5.357 8.571
CE, PI 1.000 8.373 99.265 158.824 8.373 99.265 158.824
GO, MA 1.500 97.816 198.254 317.206 146.724 297.381 475.809
SP, PA 2.000 66.337 240.352 384.564 132.674 480.704 769.128
MT 2.500 99.434 371.398 594.236 248.585 928.495 1.485.590
Total 295.215 1.016.409 1.626.253 537.518 1.811.202 2.897.922

Fontes: Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP); Google Earth.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.635-646, jan./mar. 2009 641
Glicerina Bruta (GB) oriunda da produção de biodiesel: transformando este subproduto em
coproduto com alto valor agregado e baixo custo preparativo, uma oportunidade de negócio

Tabela 4
Preços da GB
Preço Grau Pureza Origem Região
0,50/kg Glicerina bruta (GB) – Biodiesel Mombuca/SP
1.200/t Glicerina técnica 99% Biodiesel Camaçari/BA
1.200/t Glicerina crua e glicerina 82% a 95% Biodiesel L. Paulista/SP
técnica
1250/t Glicerina técnica 93,00% Biodiesel de soja São Luis/MA
650/t Glicerina crua 75,00% Biodiesel São Luis/MA

Fonte: Shopping MFRural

aos preços praticados em 25 de fevereiro de 2009 e que o valor pode vir a ser negociado com a Petro-
(NYMEX – US$ 38.94, BRENT NYMEX – US$ 44,65) bras, ficando entre 0,5% e 1% da produção bruta de
(ADVFN, 2009). petróleo. Para isso foi considerada a tabela genérica
O percentual de royalties para o estado da dos cursos da Organização Mundial de Propriedade
Bahia, para os municípios da Bahia, além de Industrial (OMPI) (PARR, 2007).
uso da terra e de participação especial foram
considerados conforme as Leis n° 7.990/1989 e
Cenários propostos
n° 9.478/1997, e o Decreto n° 2.705/1998, sendo
utilizados os cenários de 5,0%, 7,5% e 10% da A Tabela 5 mostra os dados auxiliares de cada
produção bruta de petróleo. cenário. As Tabelas 6 e 7 mostram as entradas
O percentual de royalties para a educação su- e saídas e o saldo final para, respectivamente,
perior no estado da Bahia foi considerado de forma o cenário de um banco e o cenário de três ban-
hipotética, levando em conta que o único documento cos. A Figura 4 mostra o resultado dos diversos
de patente hoje existente tem a titularidade da UFBA cenários.

Tabela 5
Dados auxiliares para cada cenário
A-1banco B-1banco C-1banco
Cenários
e A-3bancos e B-3bancos e C-3bancos
Câmbio do dólar dos EUA 2,00 2,32 2,64
Número de caminhões de GB 3.911 13.466 21.545
Volume de GB injetada (bep) 295.215 1.016.409 1.626.253
Percentual de GB produzida que pode ser injetado (%) 80% 85% 90%
Preço unitário da GB (R$/kg) 0,65 0,50 0,35
Preço unitário da GB (R$/bep) 0,130785374 0,100604134 0,070422893
Razão volumétrica entre GB injetada e petróleo produzido para 1 banco 6,6 5,4 4,2
Razão volumétrica entre GB injetada e petróleo produzido para 3 bancos 3,1 2,3 1,5
Preço do petróleo (USD/bep) 30 55 80
Preço do petróleo (R$/bep) 60,00 127,60 211,20
Preço unitário de transporte (R$/t.km) 0,18 0,14 0,10
Preço unitário de transporte (R$/bep.km) 0,0000362175 0,0000281692 0,0000201208
Volume* Distância (bep.Km) 537.518.750 1.811.202.000 2.897.922.150
Preço total de transporte (R$/bep.km) 19.468 51.020 58.309
Custo operacional do barril de petróleo com injeção de solução aquosa (US$) 13,00 10,00 7,00
Custo operacional do barril de petróleo com injeção de solução aquosa (R$) 26,00 23,20 18,48
Percentual de royalties para estado e municípios da Bahia sobre o bruto (%) 10% 7,50% 5%
Percentual de royalties para a educação superior do estado da Bahia sobre o bruto (%) 1,00% 0,75% 0,50%

Obs: Os fatores de transformação utilizados foram: densidade da GB de 1,2656 kg m-3; 1 m3 equivalendo a 6,29 barris equivalentes de petróleo (bep) (PETROBRAS, 2009).

642 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.635-646, jan./mar. 2009
Cristina M. Quintella, Marilu Castro

Tabela 6
Entradas e saídas e o saldo final considerando injeção de um banco
Cenários A-1banco B-1banco C-1banco
Dados auxiliares
Volume de óleo produzido (bep) 44.730 188.224 387.203
Entradas
GB para reinjetar (R$) 30.887,84 86.916,70 103.072,90
Preço do óleo produzido (R$) 2.683.772,73 24.017.368,22 81.777.293,71
Total entradas 2.714.660,57 24.104.284,93 81.880.366,61
Saídas
GB para injetar (R$) 38.609,80 102.254,95 114.525,44
Transporte da GB 19.467,58 51.020,03 58.308,59
Custo operacional do barril produzido com injeção de solução aquosa (R$) 1.162.968,18 4.366.794,22 7.155.513,20
Royalties para o estado e municípios da Bahia sobre o bruto (R$) 268.377,27 1.801.302,62 4.088.864,69
Royalties para a educação superior do estado da Bahia sobre o bruto (R$) 26.837,73 180.130,26 408.886,47
Total saídas 1.516.260,56 6.501.502,08 11.826.098,39
Entradas – Saídas 1.198.400,01 17.602.782,85 70.054.268,23
Saldo final 1.198.400,01 17.602.782,85 70.054.268,23

Tabela 7
Entradas e saídas e o saldo final considerando injeção de três bancos
Saldo Inicial A-3bancos B-3bancos C-3bancos
Entradas
Volume de óleo produzido (bep) 95.231 441.917 1.084.169
Entradas
GB para reinjetar (R$) 30.887,84 86.916,70 103.072,90
Preço do óleo produzido (R$) 5.713.838,71 56.388.603,65 228.976.422,40
Total entradas 5.744.726,55 56.475.520,36 229.079.495,30
Saídas
GB para injetar (R$) 38.609,80 102.254,95 114.525,44
Transporte da GB 19.467,58 51.020,03 58.308,59
Custo operacional do barril produzido com injeção de solução aquosa (R$) 2.475.996,77 10.252.473,39 20.035.436,96
Royalties para o estado e municípios da Bahia sobre o bruto (R$) 571.383,87 4.229.145,27 11.448.821,12
Royalties para a educação superior do estado da Bahia sobre o bruto (R$) 57.138,39 422.914,53 1.144.882,11
Total saídas 3.162.596,42 15.057.808,17 32.801.974,22
Entradas – Saídas 2.582.130,14 41.417.712,18 196.277.521,07
Saldo final 2.582.130,14 41.417.712,18 196.277.521,07

Variáveis mais significativas A variável com maior impacto é o transporte,


que encarece o processo muito fortemente no saldo
Todos os cenários simulados se mostraram
final. No entanto, existem alguns fatores que devem
favoráveis, apesar das entradas no cenário me-
baratear o cenário A:
nos favorável serem bem menos prováveis de (i) a capacidade instalada de produção mais
ocorrer. perto da Bahia é maior do que a simulada;
A injeção de três bancos, apesar de cada banco (ii) a obrigatoriedade de suprir o mercado in-
ter volume menor do que o volume poroso a ser terno brasileiro com biodiesel e o aumento
anual do percentual, certamente, vão causar
varrido, mostrou ser mais interessante em razão de
aumento da produção;
requerer menor volume de GB para varrer maiores (iii) As plantas da Petrobras devem entrar em
regiões das rochas reservatório. produção regular em futuro próximo e o

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.635-646, jan./mar. 2009 643
Glicerina Bruta (GB) oriunda da produção de biodiesel: transformando este subproduto em
coproduto com alto valor agregado e baixo custo preparativo, uma oportunidade de negócio

Figura 4
Resultados para os vários cenários

transporte pode vir a ser por ductos, o que de contribuir significativamente para o aumento do
barateará bastante; PIB de diversas formas.
(iv) O preço da GB deve cair, pois, se for purifi- Os impactos ambientais no solo e em condições
cada, o volume no mercado requererá que de reservatório já estão sendo estudados com diver-
as aplicações aumentem e, no momento, sos alunos de pós-graduação de modo a garantir a
não existe ainda nenhuma outra aplicação
avaliação SMS da neurotoxidade para biocompati-
que possa consumir os grandes volumes da
bilidade humana de GB e do fluido recuperado com
EOR;
(v) O preço do barril de petróleo deve aumen- GB. No entanto, já foi observado que:
tar, pois estamos num dos níveis mais baixos a) não gerará ácido sulfídrico, pois não existe
das últimas décadas. enxofre em quantidades significativas;
Finalmente, a disponibilidade de GB é uma con- b) a glicerina já é utilizada rotineiramente pela
dicionante da viabilidade técnica, sendo por isso os microbiota e conhecem-se bem os bio produtos
cenários baseados principalmente neste fator. gerados;
c) a glicerina tem sido utilizada em solos arenosos
para aumentar o tempo de permanência da
CONSIDERAÇÕES FINAIS água junto às raízes das plantas, não tendo
A utilização da GB com fluido EOR na indústria do apresentado aumento de toxidez;
petróleo tem como vantagem imediata oferecer uma d) os resíduos de sais da GB têm potencial efeito
opção de viabilizar economicamente um combustível como fertilizantes.
renovável. Tem as vantagens indiretas de potencia- Ora, estamos numa época em que a humani-
lizar a agricultura familiar e a melhora do IDH das dade se move cada vez mais para processos au-
populações da Bahia, desde que os recursos sejam tossustentáveis e em que no planeta a energia de
devidamente aplicados pelas prefeituras, o que pode fonte renovável é apenas 13%, e em que o Brasil é
ser atingido com o fortalecimento das associações de exemplo por ter 46% de fonte renovável, distribuí-
produtores, dos Conselhos da Comunidade e com o da em hidráulica e eletricidade (15%) e biomassa
orçamento participativo. (31%) (MME, 2007). A proposta aqui delineada é
Aumenta os recursos do estado e dos municípios uma contribuição da P&D&I Bahia para o aumento
em montantes que podem ser bem expressivos, além da sustentabilidade do planeta.

644 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.635-646, jan./mar. 2009
Cristina M. Quintella, Marilu Castro

No caso de utilização da GB para EOR, uma BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Resenha energética
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tecnologia não-renovável e já bem estabelecida 2008.
passa a contribuir para a viabilidade econômica da
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BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.635-646, jan./mar. 2009 645
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646 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.635-646, jan./mar. 2009
Celia Regina Sganzerla Santana, Thiago Reis Góes

Bahia
análise & Dados

O Projeto Biodiesel no Brasil


e na Bahia: inclusão social e
desenvolvimento regional1
Celia Regina Sganzerla SantanaA
Thiago Reis GóesB

Resumo Abstract

Com base na exposição das linhas mestras dos programas de From the exhibition of key approaches for biodiesel pro-
produção de biodiesel, nos âmbitos federal e estadual, em face ao duction programmes at Federal and State levels and in light
panorama atual da produção, o presente texto propõe uma análise of the current production outlook, this text puts forward a
crítica dos resultados alcançados no estado da Bahia, particularmente critical analysis of the results attained in the State of Bahia,
no que se refere ao desenvolvimento regional e à inclusão social. particularly with regards to regional development and social
A discussão evidencia que persistem os desafios para que sejam inclusion. The discussion showed that challenges persist so
alcançados os benefícios sociais, almejados pela inclusão da the desired social benefits are reached by including fam-
agricultura familiar na produção competitiva do biodiesel, assim como ily farmers in competitive biodiesel production and regional
o desenvolvimento regional decorrente desse processo. Por outro development which results from this process. On the other
lado, a identificação de potencialidades e limitações da produção de hand, the identification of potentials and limitations to family
biodiesel pela agricultura familiar aponta para uma adequação das farmers producing biodiesel indicates the adjustment of pub-
ações públicas aos objetivos da iniciativa governamental. lic activities to government initiative objectives.

Palavras-chave: Biodiesel. Desenvolvimento regional. In- Keywords: Biodiesel. Regional development. Social in-
clusão social. clusion.

INTRODUÇÃO Dotada de ampla diversidade de recursos naturais,


a Bahia ocupa posição privilegiada no cenário da pro-
O Programa Nacional de Produção e Uso do
dução de biodiesel. O governo estadual, assim como
Biodiesel (PNPB) expressa a importância estratégica
o governo federal, está ciente dessa oportunidade e
da produção e difusão do combustível oriundo da
considera a questão do biodiesel uma estratégia de de-
biomassa para a matriz energética brasileira. Imple-
senvolvimento regional, e, portanto, um eixo de atuação
mentado a partir de 2004, o Programa Federal foi uma
de políticas públicas de desenvolvimento econômico e
resposta à demanda por fontes alternativas, sobretudo
social, bem como de conservação ambiental.
as renováveis, necessárias para garantir a segurança
Contudo, tanto no âmbito federal quanto estadu-
energética e também requisito para o desenvolvimento
al, alcançar objetivos concretos requer o aperfeiço-
sustentável do país.
amento das iniciativas públicas de fomento à pro-
1
Os elementos de discussão propostos por este texto são, em grande parte, um refle- dução do biodiesel. A difusão de novas tecnologias,
xo da síntese apresentada pela Diretoria de Estudos da SEI como resultado do pro-
jeto Rodadas de Discussão – Biodiesel: Inclusão Social e Desenvolvimento Regional, a inserção no mercado internacional, a produção
realizado em junho de 2008.
A
Mestranda em Desenvolvimento Regional e Urbano pela Universidade Salvador
aliada ao desenvolvimento social, a preservação
(Unifacs); graduada em Arquitetura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); es-
pecialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental; trabalha na Diretoria de
do meio-ambiente, o combate às desigualdades
Estudos da SEI. celiaregina@sei.ba.gov.br
regionais, a oportunidade de novos negócios com
B
Mestre e graduado em Economia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); coorde-
nador de Estudos Especiais da Diretoria de Estudos da SEI. thiagogoes@sei.ba.gov.br agregação de valor e a compatibilidade entre a

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009 647
O Projeto Biodiesel no Brasil e na Bahia: inclusão social e desenvolvimento regional

produção e segurança alimentar são desafios, que lugar, o contexto energético mundial caracterizado
permanecem postos até o presente, para que a pela tendência crescente nos preços do petróleo,
estratégia do biodiesel seja convertida em motor predominante no mercado nos últimos trinta anos,
de desenvolvimento. funcionou como um estímulo econômico para a in-
Os questionamentos gerados com o obje- trodução de fontes que reduzissem a dependência
tivo de superação desses da matriz energética brasileira
desafios são o foco central Os efeitos motivadores para o em combustíveis de origem
deste artigo. Verifica-se a Programa Nacional de Produção fóssil, de modo a garantir a
necessidade de uma análi- e Uso do Biodiesel giraram em segurança energética. Nesse
se crítica do panorama da torno das dimensões econômica, sentido, o biodiesel se confi-
produção de biodiesel no ambiental, social e regional gurou como uma alternativa.
estado da Bahia, tanto para Em segundo lugar, as
com o objetivo de identificar suas potencialidades questões ambientais, trazidas à tona pelo aumento
e limitações quanto para sugerir recomendações do efeito estufa e, consequentemente, pelo aumento
que possam orientar as ações públicas, adequan- da temperatura global justificam o uso do biodiesel
do-as aos objetivos da iniciativa governamental. como fonte de energia renovável, capaz de reduzir as
Ressalta-se, entretanto, que o texto não pretende emissões de gás carbônico na atmosfera, de acordo
esgotar a temática, limitando-se aos aspectos com os preceitos do desenvolvimento sustentável.
econômicos, sociais e regionais envolvidos nos Por sua vez, a dimensão social motivadora da
programas de governo. Os desafios relativos produção nacional do biodiesel é representada pela
às melhores rotas tecnológicas e inovações no oportunidade de inserção da agricultura familiar em
setor de bioenergia, embora fundamentais para uma importante cadeia produtiva, gerando emprego
o sucesso da agenda governamental, não serão e renda para este grupo social. Finalmente, a dimen-
aqui abordados, devendo constituir estudo es- são regional contempla uma possível redução das
pecífico. desigualdades regionais através do aproveitamento
Na primeira seção do texto, apresentam-se as de potencialidades, tanto da produção de matérias-
linhas mestras do PNPB, quais sejam, motivações primas vegetal e animal para a produção do biodie-
diretrizes e instrumentos. Em seguida, expõem-se sel, quanto do adensamento de sua cadeia produtiva
os aspectos relevantes da produção nacional do em regiões mais carentes do país, tal como o Norte
biodiesel. A terceira seção constitui uma análise e o Nordeste e, dentro desse, o semiárido.
crítica dos elementos considerados determi- Com essas expectativas, foi lançado oficialmente,
nantes para o sucesso do “projeto biodiesel” na em 2004, o Programa Nacional de Produção e Uso do
Bahia, no que se refere à sua articulação com o Biodiesel (PNPB), sendo sua implementação um marco
programa nacional e a seus principais desafios e fundamental para o desenvolvimento da produção do
perspectivas. A última parte do texto foi reservada biodiesel no Brasil. Trata-se de um programa intermi-
para algumas recomendações e considerações. nisterial do governo federal, sob coordenação da Casa
Civil da Presidência da República, que objetiva a im-
plementação, de forma sustentável, tanto técnica como
O Programa Nacional de Produção de
economicamente, da produção e uso do biodiesel.
Biodiesel (PNPB)
Para que o biodiesel fosse, de fato, inserido na
matriz energética brasileira, tornou-se necessário
Motivações, diretrizes e instrumentos
estabelecer a obrigatoriedade da adição de um per-
Os efeitos motivadores para o Programa Nacional centual mínimo de biodiesel ao óleo diesel comercia-
de Produção e Uso do Biodiesel giraram em torno lizado no território nacional. Assim, por meio da Lei
das dimensões econômica, ambiental, social e re- nº 11.097, de 13 de janeiro de 2005, estabeleceu-se
gional, norteadoras da busca por fontes alternativas a mistura gradual obrigatória do biodiesel ao diesel,
de energia, sobretudo as renováveis. Em primeiro a partir do ano de 2008, criando um mercado para o

648 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009
Celia Regina Sganzerla Santana, Thiago Reis Góes

biodiesel. Consequentemente, a obrigatoriedade do em leilões de compra de biodiesel. As indústrias produ-


biodiesel gerou uma demanda crescente por esse toras obtêm direito à desoneração de alguns tributos,
insumo energético. Tal fato explica o boom dos inves- mas deverão garantir a compra da matéria-prima e
timentos feitos em novas plantas para produção do preços pré-estabelecidos, oferecendo segurança aos
biodiesel, com o aumento da capacidade instalada agricultores familiares. Há, ainda, possibilidade dos
para produção. agricultores familiares participa-
Além da obrigatoriedade Além da obrigatoriedade da rem como sócios ou quotistas
da mistura para garantir a mistura para garantir a demanda e das indústrias extratoras de
demanda e o suprimento do o suprimento do biodiesel, havia a óleo ou de produção de biodie-
biodiesel, havia a necessidade necessidade de garantir os preços sel, seja de forma direta, seja
de garantir os preços competiti- competitivos e a qualidade do por meio de associações ou
vos e a qualidade do biodiesel. biodiesel. Para tanto, instituiram-se cooperativas de produtores. Os
Para tanto, instituiram-se os os Leilões Públicos para compra agricultores familiares também
Leilões Públicos para compra do biodiesel têm acesso a linhas de crédito
do biodiesel. O objetivo dos do Pronaf, por meio dos bancos
mesmos é estimular o desenvolvimento do potencial que operam com esse programa, assim como acesso a
da cadeia produtiva do biodiesel no país, através de assistência técnica, fornecida pelas próprias empresas
uma política de aquisições. Os leilões públicos visam detentoras do Selo Combustível Social, com apoio
reduzir a volatilidade de preços em um mercado do MDA por meio de parceiros públicos e privados
ainda incipiente, o que permite reduzir riscos para (Programa Nacional de Produção e Uso
o investimento tanto na etapa industrial quanto na do Biodiesel, 2009).
etapa agrícola (SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS Além dos benefícios propiciados pela obtenção do
ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA, 2008). Selo Social, as regras tributárias do PNPB permitem que
o produtor industrial de biodiesel, contribuinte de impostos
como o PIS/Pasep e a Cofins, possa optar entre uma
Inclusão social e desenvolvimento regional:
alíquota percentual que incide sobre o preço do produto,
cerne do projeto
ou pelo pagamento de uma alíquota específica, que é um
Conforme foi exposto, o programa contemplou valor fixo por metro cúbico de biodiesel comercializado,
as dimensões econômica, ambiental, social e regio- conforme dispõe a Lei nº 11.116, de 18 de maio de 2005.
nal. Todavia, pode-se considerar que seus pilares Essa lei dispôs que o Poder Executivo poderá estabelecer
centrais são a inclusão social e o desenvolvimento coeficientes de redução para a alíquota específica, que
regional. Dessa forma, seu arcabouço regulatório foi poderão ser diferenciadas em função da matéria-prima
desenhado para garantir a inclusão social e atenuar utilizada na produção, da região de produção dessa
as disparidades regionais. matéria-prima e do tipo de seu fornecedor (agricultura
Para tanto, o governo federal lançou o Selo familiar ou agronegócio).
Combustível Social. Trata-se de um conjunto de me- Portanto, ao regulamentar a lei, o Decreto nº
didas específicas destinadas a estimular a inclusão 5.457, de 6 de junho de 2005, estabeleceu reduções
social da agricultura familiar na cadeia produtiva do diferenciadas em relação à alíquota específica, em
biodiesel, conforme Instrução Normativa nº 01, de 05 três níveis distintos de desoneração tributária: o
de julho de 2005. Em 30 de setembro de 2005, o MDA primeiro nível beneficia o biodiesel fabricado a partir
publicou a Instrução Normativa n° 02 para projetos de de mamona ou palma produzidas nas regiões Norte,
biodiesel com perspectivas de consolidarem-se como Nordeste e no semiárido pela agricultura familiar com
empreendimentos aptos ao Selo Combustível Social. a desoneração de PIS/Pasep e Cofins, que para este
O enquadramento social de projetos ou empresas caso é total, ou seja, a alíquota efetiva é nula (100%
produtoras de biodiesel permite acesso a melhores de redução em relação à alíquota geral de R$ 217,96/
condições de financiamento junto ao BNDES e outras m³); o segundo nível de redução contempla o biodiesel
instituições financeiras, além do direito de concorrência fabricado a partir de qualquer matéria-prima que seja

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009 649
O Projeto Biodiesel no Brasil e na Bahia: inclusão social e desenvolvimento regional

produzida pela agricultura familiar, independentemente Demanda estimada biodiesel


Ano BX
da região, e a alíquota efetiva é R$ 70,02/m³ (67,9% (milhões de litros)

de redução em relação à alíquota geral); e, por último, 2007 B2 840


2008 B2 - B3 840 - 1.300
para o biodiesel fabricado a partir de mamona ou palma
2009 B3 1500
produzidas nas regiões Norte, Nordeste e no semiárido
2010 B5 2500
pelo agronegócio, a alíquota efetiva é R$ 151,50/m³
Quadro 1
(30,5% de redução em relação à alíquota geral). Evolução da mistura e demanda estimada de
Dessa forma, além de privilegiar os agricultores biodiesel no Brasil
familiares, o regime tributário estabelecido no PNPB Fonte: ROSA, Jânio. Restrições da produção familiar de biodiesel na competição
em escala mundial (qualidade de produção e presteza no fornecimento). In:
tem por objetivo desonerar a produção do biodiesel SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONOMICOS E SOCIAIS DA BAHIA.
Biodiesel: inclusão social e desenvolvimento regional. Salvador: SEI, 2008. p. 135-
em regiões menos dinâmicas como o Norte, Nor- 140. (Rodadas de discussão).
deste e semiárido (Programa Nacional de Nota: Dados elaborados pelos autores

Produção e Uso do Biodiesel, 2009).

PANORAMA ATUAL DA PRODUÇÃO DE As seis oleaginosas mais utilizadas como


BIODIESEL NO BRASIL matéria-prima para produção do biodisel no
país apresentam uma territorialidade específica.
A partir da implementação do PNPB, observou- Observa-se que a produção de soja, responsável
se um crescimento significativo da produção do pela maior parte da produção, concentra-se no
biodiesel no país. A criação impositiva de uma Centro-Sul (Cartograma 1).
demanda cativa desse combustível, baseada na
obrigatoriedade da adição do B100 ao diesel de pe-
tróleo, parece ser responsável pelo fenômeno que
impulsionou uma série de investimentos no setor.
Com a expectativa de crescimento da demanda por
B100, impulsionada pela evolução do percentual da
mistura obrigatória, aumenta tanto a capacidade
instalada de produção quanto a própria produção
do biodiesel no país (Quadro 1).
Segundo dados da Agencia Nacional de Petróleo
Gás e Biocombustíveis (ANP), entre 2005, ano em
que se aprovou a lei que estabeleceu a obrigatorie-
dade da adição de um percentual de biodiesel ao
óleo diesel comercializado no território nacional, e
2008 a produção do biodiesel cresceu de 736 m³
para 1.164.332 m³. A capacidade estimada para
a produção de biodiesel no país é atualmente de
3.876.537,30 m³/ano, ou seja, quase o triplo do que,
de fato, foi produzido em 2008. Essa capacidade de
produção ociosa para produção de B100 pode arre-
Cartograma 1
fecer o boom de investimentos verificado nos últimos Territorialidade das seis principais oleaginosas
anos no setor, visto que a capacidade estimada de utilizadas na produção de biodiesel no Brasil:
produções mais expressivas
produção atual já supera a demanda estimada para
Fonte: IBGE/Diretoria de Pesquisas/Coordenação de Agropecuária/Produção
o biodiesel, a partir da adição de 5% do B100 ao Agrícola Municipal 2007.

diesel, que é de 2.500.000 m³ (Quadro 1). Nota: Dados trabalhados pelos autores.

650 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009
Celia Regina Sganzerla Santana, Thiago Reis Góes

Tal concentração evidencia a importância da


disponibilidade de matéria-prima, como um fator
de competitividade, no que se refere às decisões
de localização das usinas; esta afirmação se evi-
dencia a seguir, pela visualização da distribuição
espacial dos municípios que possuem unidades
produtoras de biodiesel autorizadas pela ANP.
O mapeamento revela uma concentração de
plantas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do
país (Cartograma 2).

Cartograma 3
Unidades produtoras autorizadas e volume de
biodiesel produzido em 2008 (m3)
Fonte: Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP)–Boletim
Mensal do Biodiesel (SRP).
Nota: Dados trabalhados pelos autores.

fato dela ser a maior produtora das matérias-


primas utilizadas, atualmente, na produção do
biodiesel, quais sejam: óleo de soja e sebo bovino
(Gráfico 1).
Da mesma forma, a distribuição espacial das
esmagadoras, das refinarias e das bases distri-
buidoras de biodiesel do país corrobora tal argu-
Cartograma 2 mento por apresentar também uma concentração
Distribuição espacial dos municípios brasileiros regional no Centro-Sul. Os centros produtores
com Unidades Produtoras de Biodiesel
autorizadas pela ANP de oleaginosas, provavelmente, favorecem essa
Fonte: Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP)–Boletim
concentração (Cartograma 4).
Mensal do Biodiesel (SRP). Portaria ANP n. º 54/01.
Nota: Dados trabalhados pelos autores

Do ponto de vista da produção, contudo, a


região Nordeste, apesar do número reduzido de
plantas autorizadas, é a segunda maior do país.
Essa região – onde o destaque é a produção
baiana – fica atrás apenas da região Centro-
Gráfico 1
Oeste, na qual se destaca o Mato Grosso, maior Matéria-prima utilizada para produção
produtor nacional (Cartograma 3). de biodiesel
A concentração de usinas e da produção na Fonte: Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP)–Boletim
Mensal do Biodiesel (SRP).
região Centro-Oeste parece estar associada ao Nota: Dados trabalhados pelos autores.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009 651
O Projeto Biodiesel no Brasil e na Bahia: inclusão social e desenvolvimento regional

privilegia, qual sejam, mamona e dendê, mas


sim de soja e algodão.
A forma como o modelo tributário, específi-
co para o setor de biodiesel, está estruturado
pode estar gerando efeito contrário ao objetivo
almejado, que é dinamização das regiões menos
dinâmicas via incentivos fiscais. Conforme foi
apresentado, no caso de tais regiões – Norte
e Nordeste e, dentro desta, o semiárido – a
aquisição da matéria-prima da produção familiar
ficou condicionada a um percentual mínimo de
50% – percentual muito alto –, o que pode estar
afugentando novos investimentos nessas regiões.
O número de novas usinas em fase de regulari-
zação nessas regiões é muito inferior às outras
regiões do país, onde são exigidas contrapartidas
menores para obtenção dos benefícios fiscais.
Nesse sentido, há necessidade de alteração nos
Cartograma 4 percentuais exigidos para cada região.
Distribuição espacial das esmagadoras e bases
distribuidoras de biodiesel no Brasil
Ainda com respeito às oleaginosas que o
Fonte: BENZECRY, Marcos. Planejamento estratégico tecnológico e logístico
modelo tributário beneficia, particularmente a
para o Programa Nacional de Biodiesel. In: SUPERINTENDÊNCIA DE mamona e o dendê, foi possível observar (Gráfi-
ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA. Biodiesel: inclusão social
e desenvolvimento regional. Salvador: SEI, 2008. p. 151-160. (Rodadas de co 1) que atualmente os óleos derivados destas
discussão).
oleaginosas não se constituem em principais
Nota: Dados elaborados pelos autores
fontes para a produção do biodiesel no país,
seja por questões técnicas, seja por questões
econômicas, ou ambas. Pelo menos do ponto de
De acordo com o estudo do IBP (2007), o maior vista econômico, a escala de produção parece ser
adensamento da cadeia produtiva do biodiesel na fundamental na definição da matéria-prima para
região Centro-Sul do país permite a otimização produção do biodiesel no país. Além da escala,
dos fluxos logísticos, evidenciando, assim, a o preço médio das oleaginosas parece ser outro
maior competitividade para a produção do B100 fator determinante para sua seleção na produção
nessa região. Outra constatação importante é que do biodiesel. Por sua vez, o teor de óleo e a pro-
a otimização dos custos de produção, sobretudo dutividade não demonstram ser preponderantes,
os custos logísticos, e a proximidade com centros visto que a soja, principal matéria-prima utilizada,
consumidores, mostraram-se mais importantes apresenta, relativamente, pouca oleosidade e
para a competitividade da produção do biodiesel baixa produtividade (Quadro 2).
do que os benefícios fiscais previstos no modelo Com efeito, a soja é a oleaginosa que apre-
tributário específico para o setor. A região Nordes- senta preços relativamente menores e maior
te e, sobretudo, a Norte, regiões que o governo escala de produção – fatores que explicam a sua
brasileiro busca dinamizar através do PNPB, ain- utilização, quase que exclusiva, na produção de
da não apresentam um adensamento da cadeia, biodiesel no país. Ademais, o volume da produção
embora a produção do Nordeste seja relevante das outras oleaginosas, pelo menos a curto prazo,
no cenário nacional. Ressalta-se, entretanto, que não apresenta condições de responder à crescen-
a produção de biodiesel no Nordeste não é feita te demanda verificada a partir da obrigatoriedade
a partir das oleaginosas que o modelo tributário do B2 e B3 e, em 2010, do B5.

652 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009
Celia Regina Sganzerla Santana, Thiago Reis Góes

Oleaginosas Produção (mil ton.) Produtividade (Kg/há) Preço médio (R$/Kg) % do óleos
Soja 51.182 2.230 0,42 17-21
Algodão Herbáceo 3.666 2.913 0,94 15-16
Dendê 903 10.275 1,52 20-22
Amendoim 314 2.318 0,95 40-45
Mamona 168 727 0,55 45-55
Girassol 60 1.270 0,41 40-55

Quadro 2
Características das principais oleaginosas destinadas à produção de biodiesel
Fonte: BENZECRY, Marcos. Planejamento estratégico tecnológico e logístico para o Programa Nacional de Biodiesel. In: SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS
E SOCIAIS DA BAHIA. Biodiesel: inclusão social e desenvolvimento regional. Salvador: SEI, 2008. p. 151-160. (Rodadas de discussão).
Nota: Dados elaborados pelos autores.

PRODUÇÃO DE BIODIESEL NA BAHIA Ressalta-se que os dois programas se asseme-


lham bastante no que diz respeito aos objetivos.
A grande extensão territorial, associada a con- Com a mudança na coordenação institucional dos
dições edafoclimáticas propícias ao cultivo das projetos, pode ter havido quebra na continuidade
diversas oleaginosas utilizadas como matéria-prima das ações e perda de conhecimento tácito incorpo-
para produção do biodiesel, confere ao estado da rado na instituição e nas pessoas que trabalhavam
Bahia grande potencialidade no setor. O governo diretamente no programa. Contudo, a inclusão so-
do estado, seguindo a estratégia nacional, instituiu cial, foco principal do projeto estadual e federal de
no final de 2007 o Programa Estadual de Bioener- apoio e fomento ao biodiesel, ganhou força a partir
gia, embora as iniciativas de fomento à produção e do momento que a Seagri, mais especificamente a
uso de biodiesel no estado da Bahia tivessem sido sua Superintendência de Agricultura Familiar (Suaf),
iniciadas em 2003, com o Programa de Biodiesel passou a coordenar o programa estadual.
da Bahia (PROBIODIESEL BAHIA). Apesar das iniciativas de fomento para produção
O Probiodiesel Bahia foi criado visando fazer de biodiesel já estarem, de alguma forma, sendo
da Bahia um importante produtor de biodiesel. Sob desenvolvidas, o potencial e, particularmente, os
coordenação da Secretaria de Ciência, Tecnologia e paradigmas de competitividade para produção de
Inovação (SECTI) do governo do estado, o objetivo biodiesel no estado ainda estão sendo testados.
estratégico do programa era produzir e inserir um Ao analisar a produção das oleaginosas e sua
combustível renovável na matriz energética estadual. espacialização na Bahia, observa-se que a pro-
Buscava-se a ampliação e consolidação da produção dução de soja, concentrada no oeste baiano, é a
e do processamento de oleaginosas na Bahia e o maior entre as oleaginosas cultivadas no estado.
fomento à implantação de usinas produtoras de bio- O algodão, também cultivado no oeste baiano, tem
diesel em escala comercial, com produção contínua. uma produção relativamente alta, apresentando,
Os objetivos contemplavam, ainda, o fortalecimento inclusive, maior produtividade que a soja. Ainda
da agricultura familiar e a sua inserção na cadeia predomina no estado a baixa escala de produção
produtiva do biodiesel (AVZARADEL, 2008). para algumas oleaginosas como mamona, dendê,
Entretanto, com a mudança de governo em 2007, girassol e pinhão manso. Entretanto, as expectati-
instituiu-se o Programa Estadual de Bioenergia, com vas, para os gestores do programa baiano, quanto
finalidade de gerir e fomentar ações para o desenvol- à produção dessas oleaginosas na Bahia são oti-
vimento da biomassa no território baiano, bem como mistas. O dendê, cultivado no litoral, aparece como
implantar no estado o biodiesel como combustível uma oleaginosa de alto potencial de expansão
adicional à matriz energética, além de estimular pes- produtiva. A mamona, cultivada principalmente no
quisas relacionadas ao programa, sob coordenação semiárido, alcança uma projeção de quase três ve-
da Secretaria de Agricultura, Irrigação e Reforma zes a produção atual. Verifica-se também a aposta
Agrária (Seagri). no girassol e no pinhão manso (Quadro 3).

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009 653
O Projeto Biodiesel no Brasil e na Bahia: inclusão social e desenvolvimento regional

Área plantada Rendimentos Rendimento


Área plantada Produção (t) Produção (t)
Oleaginosas (ha) pojeção (Kg/ha) (kg/ha)
(ha) 2006-07 2006- 07 projeção 2015
2015 2006-07 projeção
Algodão 276.824 600.000 1.087.918 2.700.000 3.930 4.500
Amendoim 6.349 30.000 7.369 54.000 1.161 1.800
Dendê 44.941 80.000 176.089 960.000 3.918 12.000
Girassol 100.000 1.800.000 1.800
Mamona 116.393 400.000 68.615 600.000 590 1.500
Soja 850.000 1.200.000 2.295.000 3.480.000 2.700 2.900
Pinhão manso 120.000 480.000 4.000
Total 1.294.507 2.530.000 3.634.991 10.074.000

Quadro 3
Perspectiva de produção e rendimento de oleaginosas na Bahia
Fonte: CARVALHO, Benedito. Culturas oleaginosas na Bahia: restrições e potencialidades. In: SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA.
Biodiesel: inclusão social e desenvolvimento regional. Salvador: SEI, 2008. p. 109-117. (Rodadas de discussão).
Nota: Dados elaborados pelos autores.

No que se refere à produtividade (Kg/ha), o desta- Produtividade (Kg/ha)


Oleaginosas
que é para o dendê. Entretanto, com uma produção Brasil Bahia
pequena e bastante concentrada na região sul do Mamona 741 611
estado, onde quase não há usinas nem esmagadoras, Dendê 10.102 3.938

e com seu elevado preço relativo, parece ficar inviabi- Soja 2.503 2.289

lizada sua utilização para a produção de biodiesel, a Girassol 1.473  


Amendoim 2.094 1.169
despeito de seu grande potencial. A mamona, apesar
Algodão 2.974 2.988
de sua baixa produtividade (Kg/ha) e baixa escala de
produção, é considerada fundamental para o progra- Quadro 4
Comparação entre as produtividades médias
ma do biodiesel, tanto em nível federal quanto estadu- brasileiras e baianas
al, por apresentar característica produtiva aderente à Fonte: CARVALHO, Benedito. Culturas oleaginosas na Bahia: restrições e poten-
lógica produtiva da agricultura familiar. Entretanto, há cialidades. In: SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA
BAHIA. Biodiesel: inclusão social e desenvolvimento regional. Salvador: SEI, 2008. p.
desafios que precisam ser vencidos tanto do ponto de 109-117. (Rodadas de discussão).
Nota: Dados elaborados pelos autores.
vista tecnológico, dada a alta viscosidade do seu óleo,
quanto de competitividade, em razão do alto preço
do óleo de mamona. No que diz respeito à soja, sua No que se refere à produção de biodiesel na
produtividade (Kg/ha) não é a maior do conjunto de Bahia, é possível observar que a produção do com-
oleaginosas investigadas pelo estudo apresentado. bustível aumentou significativamente nos últimos
No entanto, ela é a mais empregada para a produção anos. Segundo dados da ANP, em 2005 não havia
de biodiesel no país e na Bahia. Esse dado corrobora produção em escala de biodiesel no estado, a não
a afirmação de que o preço e a escala de produção ser para fins de pesquisa. Já em 2006, a produção
são os fatores que, de fato, definem a matéria-prima aumentou para cerca de 4.238 m³. Em 2007 a produ-
a ser utilizada na produção de biodiesel. ção foi de 70.942 m³/ano e em 2008 a produção foi
Em geral, a produtividade das oleaginosas cul- de 65.982 m³/ano. A explosão verificada na produção
tivadas na Bahia (Kg/ha) é inferior à produtividade de biodiesel no estado foi reflexo dos investimentos
brasileira (Quadro 4), conquanto esta última ainda em plantas produtivas. A Bahia possui, atualmente,
se encontre em um patamar de produtividade in- três usinas autorizadas para produção de biodiesel,
ferior aos cultivares das mesmas oleaginosas em a saber: Brasil Ecodiesel, no município de Iraquara,
outros países. Evidencia-se, dessa forma, que há com produção estimada pela ANP de, aproximada-
um grande potencial produtivo para as espécies de mente, 129.600 m³/ano; a empresa Comanche, no
oleaginosas tradicionalmente cultivadas no estado. município de Simões Filho, com produção estimada

654 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009
Celia Regina Sganzerla Santana, Thiago Reis Góes

pela ANP de 120.600 m³/ano; e a usina da Petrobras, socioeconômico da agricultura familiar, sobretudo
situada no município de Candeias, com capacida- nas áreas menos dinâmicas, como o semiárido,
de de produzir 56.520 m³/ano. Nesse sentido, a restringe a atuação efetiva desse segmento social
capacidade produtiva no estado é muito superior numa lógica produtiva competitiva e concentrada.
ao que vem sendo produzido. No caso específico A inadequação para o trato agrícola por falta de
da planta da Petrobras, sua produção foi de 9.620 informações e capacidade técnica também é proble-
m³ em 2008, quando começou a operar a partir do ma que dificulta a participação da agricultura familiar
segundo semestre. no processo produtivo do biodiesel. A não adequa-
Destaca-se que a grande motivação para a produ- ção para o trato agrícola das oleaginosas implica,
ção de biodiesel no estado são os benefícios sociais em geral, em uma baixa produtividade do trabalho
que esse combustível pode gerar. As expectativas dos agricultores familiares e, consequentemente, da
são otimistas, por parte dos gestores públicos, para produtividade agrícola. Dessa forma, há incertezas
inclusão da agricultura familiar no programa do bio- quanto ao aumento da produtividade por hectare das
diesel, via aumento da participação dos pequenos diversas oleaginosas nas diferentes regiões do esta-
agricultores no cultivo das principais oleaginosas do, questão fundamental para obtenção de vantagens
produzidas no estado, sobretudo o pinhão manso e competitivas e aumento da escala de produção.
a mamona. Essa expansão parece se dar por meio A questão da organização produtiva, do cooperati-
do aumento da área plantada (Quadro 5). vismo e associativismo dos pequenos agricultores é um
Entretanto, ainda há incertezas quanto à inclusão processo bastante complicado, fruto da própria exclusão
social no processo de produção do biodiesel na desse segmento da esfera mercadológica e da própria
Bahia. Com base em entrevistas com alguns agri- questão cultural. A morosidade das ações conjuntas
cultores familiares na região de Irecê e a partir de e associadas propicia desvantagens competitivas
estudos sobre as características e lógica produtiva para a agricultura familiar quando comparada com um
desse segmento social na Bahia, observa-se que setor dinâmico como a agroindústria. O problema da
atualmente a agricultura familiar se encontra à mar- concentração fundiária no estado e o endividamento
gem do processo produtivo de produção do biodiesel. agrícola por parte dos agricultores familiares também
Esta constatação vai de encontro aos reais objetivos aparecem como fatores limitantes para a real inclusão
do projeto, que é fortemente pautado na inclusão da agricultura familiar em um projeto dessa monta.
social via participação efetiva da agricultura familiar Ademais, a tecnologia de produção, em vigor nas
na cadeia produtiva. Não obstante, parece haver usinas instaladas no país e na Bahia, está voltada,
conflitos entre a lógica empresarial, mais dinâmica, principalmente, para produção de biodiesel com base
competitiva e concentradora, e a lógica produtiva da na soja e algodão, o que de certa forma é um fator
agricultura familiar, menos dinâmica e com sérios limitante para sua produção tomando-se por base ole-
problemas estruturais. Ou seja, o próprio quadro aginosas mais compatíveis com a produção familiar.

Nº famílias Área plantada atual Área plantada


Produto Nº famílias atual
projeção 2010 (ha) projeção 2010 (ha)
Mamona 62.000 75.000 100.000 140.000
Girassol 30.743 47.360 30.743 95.600
Amendoim 4.200 18.500 2.800 37.000
Dendê 3.800 8.500 10.500 31.500
Pinhão manso 0 40.000 0 80.000
Algodão 500 2.500 500 10.000

Quadro 5
Projeção da participação da agricultura familiar no cultivo das oleaginosas na Bahia
Fonte: FLORÊNCIO, Aílton. Capacidade da agricultura familiar responder às demandas requeridas de produção do biodiesel. In: SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECO-
NOMICOS E SOCIAIS DA BAHIA. Biodiesel: inclusão social e desenvolvimento regional. Salvador: SEI, 2008. p. 129-134. (Rodadas de discussão).
Nota: Dados elaborados pelos autores.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009 655
O Projeto Biodiesel no Brasil e na Bahia: inclusão social e desenvolvimento regional

Do ponto de vista do apoio institucional de fomento lação de políticas públicas específicas ou setoriais,
à produção e uso do biodiesel no estado, observa-se como as políticas para o desenvolvimento e uso do
que apesar do avanço institucional dos programas, biodiesel, com políticas horizontais, como de saúde,
mais em virtude do amadurecimento das iniciativas educação e infraestrutura urbana e logística. Ou seja,
do que dos resultados alcançados até o momento, por se tratar de necessidades básicas, tais elementos
e da mobilização dos atores de suporte à vida, mesmo que
envolvidos no processo pro- exercidos nos seus padrões
[...] do ponto de vista dos
dutivo, sobretudo dos agricul- mínimos de exigências, pas-
ganhos sociais do programa,
tores familiares, as ações vêm sam a ser fundamentais para
o grande desafio é tornar a
apresentando certa morosi- viabilizar e manter, a médio e
agricultura familiar competitiva,
dade, como o adiamento da longo prazo, qualquer atividade
e, portanto, capaz de atuar de
finalização do projeto da usina econômica, notadamente a do
forma ativa dentro da cadeia
esmagadora do município de
produtiva. É preciso entender sua biodiesel, que requer condições
Lapão, o que pode levar a um especiais de produção, a fim
lógica produtiva e seu quadro
descrédito das políticas. de tornar-se competitiva, visto
socioeconômico nos diferentes
que o programa do biodiesel
territórios da Bahia
deve ser viável tanto do ponto
CONSIDERAÇÕES FINAIS
de vista estratégico e político
A cadeia produtiva de biodiesel na Bahia, assim quanto do ponto de vista econômico. Ou seja, deve
como a nacional, está em processo de formação e con- ser autossustentável e competitivo.
solidação dos seus elos produtivos estando, portanto, Assim, do ponto de vista dos ganhos sociais do
imatura. Da mesma forma, encontra-se o programa programa, o grande desafio é tornar a agricultura
estadual de fomento à produção de biodiesel. Con- familiar competitiva, e, portanto, capaz de atuar de
forme pôde ser constatado anteriormente, ainda há forma ativa dentro da cadeia produtiva. É preciso
incertezas importantes quanto ao êxito do Programa- entender sua lógica produtiva e seu quadro socio-
programa, com maior complexidade de solução, nas econômico nos diferentes territórios da Bahia para,
políticas de inclusão dos pequenos agricultores. Uma só então, formular políticas públicas adequadas para
razão a mais para a assertiva de que este segmento sua inclusão. Além disso, é preciso considerar que,
social enfrenta o maior grau de incerteza quanto à em razão dos diferentes níveis de desenvolvimento
viabilidade econômica da sua participação no PNPB, econômico e social dos municípios baianos, os be-
é o fato deste segmento social já ter carências sobre nefícios sociais da inclusão da agricultura familiar no
todos os aspectos relativos à sobrevivência humana: projeto devem ser considerados diferentemente.
acesso à terra, à habitação, à infraestrutura de trans- Ademais, um programa com as características
portes, ao saneamento, a equipamentos sociais de do biodiesel requer ações importantes de estímulos
educação e de saúde, financiamento, etc. Ainda mais por parte das instâncias públicas, para todos os
grave é o fato de que esse conjunto de incertezas se portes de investidores, sejam grandes empresas ou
encontra territorialmente definido e concentrado, na agricultores familiares, com políticas diferenciadas
maioria das vezes. para cada região do estado da Bahia.
Assim, para alcançar os objetivos almejados pelo Tais predicados só podem ser supridos pela
programa estadual, esta cadeia produtiva, sobretudo conjugação de esforços dos três níveis de governo,
nos seus elos iniciais, necessita fortemente do apoio trabalhando de forma articulada no tempo e em cada
do estado para seu desenvolvimento. Isso requer, em território. Isso significa uma gestão com alto grau de
primeiro lugar, formulação adequada de iniciativas complexidade, pois implica em ajustes de programas
e ações de fomento à produção do biodiesel e das com focos territoriais bastantes definidos em seus
matérias-primas utilizadas para sua produção; em objetivos, com as ações submetidas às mesmas
segundo lugar, a implementação, de uma gestão prioridades de investimentos e realizadas em tempos
estratégica, sistemática e contínua, onde haja articu- compatíveis com as demandas locais.

656 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009
Celia Regina Sganzerla Santana, Thiago Reis Góes

É importante ressaltar que toda essa complexida- No mundo atual, onde as inovações se constituem
de deve ser enfrentada para viabilizar um conjunto em elementos fundamentais para a competitividade,
de ações públicas destinadas a dar viabilidade à pro- a necessidade de pesquisa e desenvolvimento (P&D)
dução de biodiesel com base na agricultura familiar ganha destaque por ser imprescindível para o proces-
e que também esteja associada a uma estratégia de so de aprendizagem inovativa e tecnológica. Assim,
desenvolvimento regional. P&D na cadeia produtiva do
Em função disso, é impres- biodiesel, sobretudo na parte
Também é necessário aprofundar
cindível institucionalizar uma agrícola, faz-se necessária.
o conhecimento sobre as
instância, no governo da Bahia, As sementes com maiores
questões regionais da Bahia,
que assuma a responsabili- possibilidades de desenvol-
notadamente daqueles espaços
dade pela escolha das áreas vimento no estado da Bahia
onde as atividades voltadas para a
piloto e inicie um processo de e voltadas para viabilizar a
agricultura familiar, com ênfase no
discussão capaz de conduzir agricultura familiar, mamona,
biodiesel, sejam mais intensas
os trabalhos de montagem de pinhão manso e dendê, estão
um modelo institucional que em fase pouco desenvolvida
possa ser assimilado tanto pelo governo federal quan- de pesquisa, implicando em sua incapacidade de
to pelos governos municipais e atores locais. utilização, no momento atual, para responder à produ-
Ademais, considerando que a informação e o tividade requerida. Dessa forma, é imprescindível que
conhecimento constituem as armas mais importantes o governo do Estado possa iniciar ações capazes de
para o desenvolvimento no mundo atual, os tratos estimular as pesquisas sobre essas oleaginosas, tanto
agrícolas para a produção de biodiesel tendem a se envidando esforços junto a organismos nacionais
basear, cada vez mais, em requerimentos tecnoló- como a Embrapa, como estimulando outros centros
gicos e com procedimentos de gestão dos negócios de pesquisas nacionais e estaduais através de criação
que demandam um acompanhamento sistemático de linhas de financiamento.
dos avanços na área, a fim de manter a competiti- Também é necessário aprofundar o conhecimento
vidade frente a mercados mundiais. Aliado a isso, a sobre as questões regionais da Bahia, notadamente
produção vai requerer avanços no desenvolvimento daqueles espaços onde as atividades voltadas para
regional, do ponto de vista das suas novas demandas a agricultura familiar, com ênfase no biodiesel, sejam
em infraestruturas urbanas e sociais. As populações, mais intensas. É necessário expor claramente os
alvo do programa do biodiesel como inclusão social, pontos mais relevantes do desenvolvimento regional,
constituem aquelas com níveis críticos de informação principalmente aqueles que dão suporte diretamente
e de capacitação técnica para enfrentar os avanços às famílias, como a oferta de água, saneamento,
tecnológicos e de capacitação para a identificação de energia elétrica, saúde, educação, transportes,
novas políticas para o desenvolvimento regional. lazer etc., como também as atividades direta ou
Nesse sentido, é indispensável a montagem de am- indiretamente ligadas às atividades produtivas,
bientes regionais de capacitação, utilizando as estruturas como a oferta de equipamentos de armazenagem,
das universidades estaduais, as novas universidades de apoio ao sistema de transportes de escoamen-
federais instaladas na Bahia e outros centros de pes- to, a oferta de comércio e serviços etc. Importante
quisa. Duas abordagens de capacitação devem ser tra- ressaltar a organização espacial de todas essas
balhadas: gestão dos negócios para elevar a qualidade redes de serviços e equipamentos, funcionando de
administrativa das pequenas unidades produtivas coope- forma compatível entre si e com a concentração das
rativadas e para desenvolver a capacidade técnica dos manchas de produção.
tratos agrícolas, e a qualificação continuada para oferecer Enfim, só uma gestão pública focada territorial-
informações, conhecimentos e técnicas de montagem mente, persistente no tempo e qualificada na sua
de estratégias de desenvolvimento de caráter territorial, formulação, acompanhamento e avaliação pode via-
com o intuito de construir coletivamente as capacitações bilizar o projeto do biodiesel com inclusão social e um
necessárias para o desenvolvimento regional. desenvolvimento regional menos desequilibrado.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009 657
O Projeto Biodiesel no Brasil e na Bahia: inclusão social e desenvolvimento regional

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jul. 2005. (Rodadas de discussão).

658 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.647-658, jan./mar. 2009
Vitor Bufon Krohling, Gilca Garcia de Oliveira, Poliana Costa Matos, Maria Idalina de Sant’Ana

Bahia
análise & Dados

O biodiesel na Bahia: uma análise


da potencialidade baiana na
produção de oleaginosas
Vitor Bufon KrohlingA
Gilca Garcia de OliveiraB
Poliana Costa MatosC
Maria Idalina de Sant’AnaD

Resumo Abstract

O estado da Bahia possui áreas consolidadas de oleaginosas The State of Bahia has consolidated areas of oilseeds dis-
distribuídas ao longo de seu território, além de abarcar o maior número tributed throughout the region, as well as being the home for ap-
de agricultores familiares do Brasil, aproximadamente 625.000. De proximately 625,000 family farmers, which is the largest number
acordo com o histórico da evolução da produção de oleaginosas no in Brazil. In accordance with the evolutionary history of oilseed
Estado, tem-se que dentre os cultivos anuais, a mamona foi aquele production in the State, it was the castor oil plant that had a better
que mais respondeu ao crescimento do preço defasado, 59,48, response to growth of the out of date price of 59.48 within an-
ou seja, o crescimento de R$ 1,00 no preço defasado incrementa nual cultivations. In other words, a R$1.00 rise in the out of date
em 59,48 toneladas a produção. As elasticidades-preço defasados price increased production by 59.48 tonnes. The out of date price
com relação à quantidade produzida de todas as culturas foram elasticities were inelastic in relation to the quantity of all cultiva-
inelásticas. As respostas quanto ao aumento da área cultivada tions produced. Responses regarding the increase in cultivated
foram positivas em todos os cultivos estudados, sendo maiores no area was positive in all of the cultivations studied, being greater in
algodão. Este estudo mostra a potencialidade de crescimento do cotton. This study shows the growth potential for castor oil plant
cultivo da mamona, que apresenta ainda como vantagem o fato de cultivation, which also has the advantage of being connected to
estar ligada à lógica produtiva da agricultura familiar baiana. the productive logic of the Bahian family farmer.

Palavras-chave: Biodiesel. Produção de oleaginosas. Keywords: Biodiesel. Oilseed production. Family farming.
Agricultura familiar. Bahia. Bahia.

INTRODUÇÃO energética de base renovável, onde haja a substituição


gradual do petróleo por matéria-prima renovável.
A crescente preocupação mundial com a depen-
No Brasil, a indústria do álcool combustível é
dência do petróleo nas matrizes energéticas mundiais
considerada uma demonstração do potencial da
tem levado a um grande esforço internacional em
biomassa como fonte de energia eficiente e de
desenvolver tecnologias para a produção e o uso de
menor impacto ambiental, demonstrando a possi-
energias limpas, que decorre de uma conjunção de fa-
bilidade de mudança do atual padrão de consumo
tores que favorecem a mudança para uma nova matriz
de combustíveis líquidos de origem fóssil para o
A
Economista graduado pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Fede-
ral da Bahia (FCE/UFBA). vitorbk@hotmail.com
consumo de combustíveis renováveis. Além disso,
B
Doutora em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV); graduada a demanda mundial por combustíveis de origem
em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Lavras (UFLA); professora
do Curso de Mestrado em Economia (CME-UFBA). ggo@ufba.br renovável vem apresentando uma tendência de
Economista graduada pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Fe-
crescimento e o Brasil tem potencial para ser o
C

deral da Bahia (FCE/UFBA). polianamatos@hotmail.com


D
Graduada em Administração pelo Centro Universitário de Desenvolvimento do Cen- principal produtor e um grande exportador mundial
tro Oeste (Unidesc); consultora do Programa de Biodiesel, Petrobras Biocombustível,
liasantana_1@yahoo.com.br destes combustíveis.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.659-669, jan./mar. 2009 659
O biodiesel na Bahia: uma análise da potencialidade baiana na produção de oleaginosas

Neste cenário, o estímulo à produção do biodie- concentração 1 : Puro (B100), Misturas (B20 –
sel no Brasil aparece como alternativa de diversifi- B30), aditivo (B5) e aditivo de lubricidade (B2).
cação da matriz energética e ainda pode gerar be- Por ser biodegradável, não-tóxico e praticamente
nefícios de natureza social, econômica e ambiental. livre de enxofre e aromáticos, é considerado um
A corrida internacional para o desenvolvimento de combustível ecológico (BIODIESELBR, 2007).
programas de pesquisa, pro- A viabilização do biodiesel
dução e uso de energias re- A Bahia, com sua extensão requer a implementação de
nováveis ganhou dimensões territorial, condições uma estrutura organizada
estratégicas, tanto pela busca edafoclimáticas adequadas e com para produção e distribui-
da autossuficiência, quanto o maior número de agricultores ção, de forma a atingir com
pela liderança tecnológica e familiares de todos os estados competitividade os mercados
comercial do setor. do Brasil, é vista com grande potenciais. A introdução do
As discussões sobre bio- potencial para a exploração de biodiesel, portanto, requer
diesel no Brasil têm priori- biomassa para fins alimentícios, investimentos ao longo de
zado as oleaginosas mais químicos e energéticos toda a cadeia produtiva para
intensivas em mão de obra e assegurar a oferta do produto
que sejam capazes de incluir regiões à margem e a perspectiva de retorno do capital empregado
do processo de desenvolvimento econômico. para a sustentabilidade no longo prazo.
Neste contexto, destaca-se a região Nordeste Os benefícios ambientais podem, ainda,
como potencial produtora de oleaginosas para gerar vantagens econômicas. De acordo com
a produção do biodiesel, podendo utilizar-se Holanda (2004), o Brasil poderia enquadrar o
desta alternativa para incluir no processo pe- biodiesel nos acordos estabelecidos no proto-
quenos agricultores desprovidos de alternativas colo de Kyoto e nas diretrizes dos Mecanismos
rentáveis. de Desenvolvimento Limpo (MDL), já que existe
A Bahia, com sua extensão territorial, condições a possibilidade da venda de cotas de carbono
edafoclimáticas adequadas e com o maior número através do Fundo Protótipo de Carbono (PCF),
de agricultores familiares de todos os estados do pela redução das emissões de gases poluentes
Brasil, é vista com grande potencial para a explo- e também créditos de “sequestro de carbono”,
ração de biomassa para fins alimentícios, químicos através do Fundo Bio de Carbono (FBC), admi-
e energéticos. nistrados pelo Banco Mundial.
Este artigo tem como objetivo identificar o poten- O potencial de geração de empregos e renda
cial evolutivo do estado da Bahia na produção de é outra importante motivação para a produção
oleaginosas para o Programa Biodiesel. de biodiesel. Segundo estudos desenvolvidos
pelos Ministérios do Desenvolvimento Agrário
(MDA), da Agricultura, Pecuária e Abasteci-
CARACTERIZAÇÃO DO BIODIESEL
mento (MAPA) e da Integração Nacional e das
O biodiesel é um biocombustível derivado Cidades (Minter), a cada 1% de substituição
de biomassa renovável para uso em motores a de óleo diesel por biodiesel produzido com a
combustão interna com ignição por compressão participação da agricultura familiar podem ser
para geração de outro tipo de energia, que possa gerados, aproximadamente, 45 mil empregos
substituir parcial ou totalmente o combustível de no campo, com uma renda média anual de
origem fóssil. As matérias-primas que podem R$ 4.900,00 por emprego. Admitindo-se que para
ser utilizadas para a produção de biodiesel são: um emprego no campo são gerados três empregos
óleos vegetais, gordura animal, óleos e gorduras na cidade, seriam criados, então, 180 mil empre-
residuais. gos (HOLANDA 2004).
A experiência de utilização do biodiesel no mercado
Utiliza-se a nomenclatura Bxx para indicar o percentual de biodiesel adicionado do
1

de combustíveis tem se dado em quatro níveis de diesel mineral.

660 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.659-669, jan./mar. 2009
Vitor Bufon Krohling, Gilca Garcia de Oliveira, Poliana Costa Matos, Maria Idalina de Sant’Ana

TRAJETÓRIA HISTÓRICA DO BIODIESEL Em 1979, a paralisação da produção iraniana


provocou o segundo grande choque do petróleo,
Os primeiros motores tipo diesel eram de inje- elevando o preço médio do barril ao equivalente a
ção indireta. Tais motores eram alimentados por atuais US$ 80. Os preços permaneceram altos até
petróleo filtrado, óleos vegetais e até mesmo por 1986, quando voltaram a cair. Depois das crises
óleos de peixe. O combustível do petróleo de 1973 e 1979,
especificado como óleo diesel Em 1980, a Resolução nº 7, do os países buscaram resolver
somente surgiu com o advento Conselho Nacional de Energia, a questão do petróleo de
dos motores diesel de injeção instituiu o Programa Nacional de duas formas: aumentando
direta, sem pré-câmara (BIO- Produção de Óleos Vegetais para a produtividade da energia
DIESELBR, 2007). Fins Energéticos (Proóleo) e aumentando as taxas de
O uso direto de óleos juros a níveis inéditos. Como
vegetais como combustível foi rapidamente supe- resultado, os países donos das grandes reservas
rado pelo uso de óleo diesel mineral por fatores de petróleo aumentaram as taxas de extração de
tanto econômicos quanto técnicos. Àquela época, petróleo (CRISES ..., 2006).
os aspectos ambientais e sociais, que hoje pri- Embora o Proálcool tenha se iniciado em 1975,
vilegiam os combustíveis renováveis, não eram somente em 1979, após o segundo choque do pe-
considerados relevantes. No entanto, o aumento tróleo, o Brasil lança a segunda fase deste programa
sistemático do preço do petróleo no mercado inter- de forma mais ousada, estabelecendo como meta
nacional, a partir 1973, levou a sociedade a refletir a produção de 7,7 bilhões de litros em cinco anos.
a respeito da produção e consumo de energia, O objetivo do Estado era aumentar a produção de
especialmente no que tange aos combustíveis de alimentos e exportáveis do setor rural, buscando a
fontes não-renováveis. Para Expedito Parente, estabilidade interna e o equilíbrio nas contas externas,
professor pesquisador e presidente da Tecbio 2, além de transferir para a agricultura a responsabilida-
“o ano de 1973 representou um verdadeiro marco de de tentar superar a crise do petróleo, que afetara
na história energética do Planeta, pois o homem profundamente o Brasil, já que o país era grande
passou a valorizar as energias, posicionando-as importador deste produto (BIODIESELBR, 2007).
em destaque com relação aos bens de sua con- A chamada “crise do petróleo” foi à mola propul-
vivência” (PARENTE, 2003, p. 91) sora das pesquisas realizadas na época. O lobby
Assim, em todo o mundo, foram dedicados canavieiro garantiu o Proálcool, mas o desenvolvi-
muitos esforços para a superação da crise onde, mento de outros combustíveis alternativos não teve
basicamente, incidiram dois tipos de ações: a a mesma sorte, apesar dos fatores agroclimáticos,
conservação ou economia de energia e o uso de econômicos e logísticos positivos. O Brasil passou a
fontes alternativas de energia. produzir álcool em grande escala e, em 1979, quase
No Brasil, na década de 1970, a crise do petróleo, 80% da frota de veículos produzida no país tinham
juntamente com a crise do açúcar, impulsionou o Pro- motores a álcool, (BIODIESELBR, 2007).
grama Nacional do Álcool, mais conhecido como Pro- Em 1980, a Resolução nº 7, do Conselho Na-
álcool . Este programa, de tecnologia 100% nacional, cional de Energia, instituiu o Programa Nacional de
3

foi o primeiro a produzir energia mecânica utilizando a Produção de Óleos Vegetais para Fins Energéticos
transformação dos organismos vegetais presentes na (Proóleo). Entre outros objetivos, o programa pre-
cana-de-açúcar – ou seja, a primeira tentativa nacional tendia substituir o óleo diesel por óleos vegetais em
de se obter energia de forma renovável. mistura de até 30% em volume, incentivar a pesquisa
tecnológica para promover a produção de óleos
2
Empresa de pesquisa e produção de biodiesel. vegetais nas diferentes regiões do Brasil e buscar a
3
Este programa esteve sob a tutela do professor José Walter Bautista Vidal, então
total substituição do óleo diesel por óleos vegetais.
secretário de Tecnologia Industrial que, com o auxílio de uma equipe de especialistas, Neste período, o Brasil produzia cerca de 15%
passou a adaptar motores para o uso de combustíveis de origem vegetal como
alternativa àqueles que funcionavam apenas com os derivados de petróleo. do petróleo consumido internamente e os preços

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.659-669, jan./mar. 2009 661
O biodiesel na Bahia: uma análise da potencialidade baiana na produção de oleaginosas

internacionais eram os mais elevados de toda a de 2003, uma Diretiva pelo Parlamento Europeu
história, resultantes do segundo choque do petróleo. destinada à substituição de combustíveis fósseis por
A meta era de, em cinco anos, produzir 1,6 milhões combustíveis renováveis. A proposta é ter 5,75% de
de m3 de óleos para fins energéticos. Contudo, a adição de biodiesel ao diesel a partir de 2010.
viabilidade econômica era questionável: em valores Nos EUA, a principal matéria-prima utilizada é
(US$) de 1980, a relação de a soja, e sua capacidade de
preços internacionais óleos Desde o início dos anos 1990, produção, em 2007, foi de
vegetais versus petróleo, o processo de industrialização 4.587 mil toneladas. Há uma
em barris equivalentes, era do biodiesel foi impulsionado série de incentivos fiscais
de 3,30 no caso do dendê; na Europa – o principal mercado para o biodiesel no país e as
3,54 para o girassol; 3,85 produtor e consumidor de biodiesel legislações estaduais esti-
para a soja e de 4,54 para o em larga escala pulam sua adição ao diesel
amendoim. Com a queda dos entre 2% a 5%. O programa
preços do petróleo a partir de biodiesel norte-americano
de 1985, essa disparidade de preços no mercado foi criado pela Lei do Senado S517, de 25/04/2002,
internacional ampliou-se e o Proóleo foi progressi- que apresenta como meta a produção de 20 bi-
vamente esvaziado, embora oficialmente não tenha lhões de litros por ano. Além da lei federal, existem
sido desativado (BIODIESELBR, 2007). leis estaduais de apoio à utilização de biodiesel.
O uso do biodiesel na UE recebe incentivo à
produção através de uma forte desoneração tribu-
O biodiesel no mundo
tária e de importantes alterações na legislação do
Os biocombustíveis vêm sendo testados meio ambiente. Os fabricantes europeus de motores
atualmente em várias partes do mundo. Países como apoiam a mistura de 5% de biodiesel. Na mistura até
Argentina, Estados Unidos, Malásia, Alemanha, 30% ou biodiesel puro (Alemanha) muitos fabricantes
França e Itália já produzem biodiesel comercialmente, dão garantia, como a Volkswagen, Audi, Seat, Sko-
estimulando seu desenvolvimento em escala da, PSA, Mercedes, Caterpillar e Man (para alguns
industrial. Desde o início dos anos 1990, o processo modelos). Na Alemanha, mais de 1.800 postos de
de industrialização do biodiesel foi impulsionado na combustíveis já comercializam biodiesel puro.
Europa – o principal mercado produtor e consumidor Durante a década passada, a Comunidade
de biodiesel em larga escala. Europeia aplicou cerca de €100 milhões no Projeto
Segundo dados da European Biodiesel Board de Demonstração de Biodiesel, considerado o mais
(EBB), o biodiesel tem sido produzido em escala relevante entre todos os programas europeus de
industrial na União Europeia (UE) desde 1992, sen- bioenergia. O programa americano de biodiesel, de
do que, atualmente, existem por volta de 40 plantas menor porte, também tem recebido expressivo apoio.
industriais na UE. Estas plantas estão localizadas No curto período, de 1992 a 1997, foram desenvolvidos
principalmente na Alemanha, Itália, Áustria, França cerca de 350 projetos de pesquisa sobre biodiesel
e Suécia, onde já está em vigor legislação específica nos Estados Unidos, e um impressionante conjunto
para promover e regular o uso de biodiesel, destina- de estudos sobre produção, comercialização, uso e
da à melhoria das condições ambientais através da suas implicações (BIODIESELBR, 2007).
utilização de fontes de energia mais limpas. A maior parte do óleo vegetal empregado no
Na França, as principais matérias-primas utiliza- programa europeu vem do cultivo da colza. No
das são óleo de colza e girassol, e a capacidade de entanto, os custos de produção de óleo vegetal
produção francesa, em 2007, foi de 1.250 mil tone- são, em média, cerca de duas vezes superiores ao
ladas. Na Alemanha, a capacidade de produção a do diesel mineral. Para atingir a meta de 2010 nas
partir da colza, em 2007, foi de 4.500 mil toneladas, condições atuais, o nível de subsídios, na forma de
resultado que a transforma na principal produtora isenção de impostos, seria de aproximadamente 2,5
no âmbito da UE. Na Europa foi assinada, em maio bilhões de euros/ano (BIODIESELBR, 2007).

662 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.659-669, jan./mar. 2009
Vitor Bufon Krohling, Gilca Garcia de Oliveira, Poliana Costa Matos, Maria Idalina de Sant’Ana

O BIODIESEL NO BRASIL tributário aplicável à cadeia produtiva do biodiesel;


d) estabelecer a segmentação do mercado e suas
No Brasil, a indústria do álcool combustível é especificidades, tais como uso de biodiesel em
considerada uma demonstração do potencial da geradores de energia, frotas veiculares cativas e
biomassa como fonte de energia eficiente e de veículos de transporte metropolitano.
menor impacto ambiental, demonstrando a possi-
bilidade de mudança do atual padrão de consumo
Oferta e demanda de biodiesel no Brasil
de combustíveis líquidos de origem fóssil para o
consumo de combustíveis renováveis. No estudo elaborado por Accarini (2006), en-
O Brasil tem características que o definem como quanto a mistura B2 não era obrigatória (período
estratégico na produção de energias renováveis: a 2005/2007), a demanda por biodiesel seria infi-
possibilidade de incorporação de áreas à agricultura nitamente elástica no âmbito do preço do diesel
de energia; a possibilidade de múltiplos cultivos (D2005/2007) e somente as empresas competitivas
dentro do ano calendário. Isso permite que o país estariam em condições de vender o novo combus-
detenha uma das mais limpas matrizes energéticas tível. A partir de janeiro de 2008, a obrigatoriedade
do mundo (BRASIL, 2005). tornaria a demanda infinitamente inelástica na
Tem havido grande estímulo do governo fe- marca de 800 milhões de litros por ano (D2008)
deral, no sentido de ampliar a parcela de fontes e os preços dependeriam da evolução da oferta
renováveis na matriz energética nacional. Dados (Gráfico 1).
da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão Numa sequência ideal, a oferta evoluiria de S2006
subordinado ao Ministério de Minas e Energia para S2007 e depois para S2008, situação em que a
(MME), aponta um incremento de 1,5 pontos trajetória AB representada no Gráfico 1 poderia ser
percentuais da participação das Fontes de Ener- caracterizada como a chamada “curva de aprendi-
gia Renováveis na Matriz Energética Brasileira, zado” da produção de biodiesel. A inclinação dessa
de 2006 a 2007, passando de 44,9 para 46,4%, curva é tanto mais acentuada quanto mais eficientes
enquanto os países da OECD (Organização para as inovações tecnológicas introduzidas na cadeia
o Desenvolvimento e Crescimento Econômico) produtiva do biodiesel (ACCARINI, 2006).
apresentam 6,7% e no mundo são 12,9% de O potencial de crescimento do biodiesel no Brasil
energia renovável (BRASIL, 2008). será viabilizado pela evolução das pesquisas, testes,
Em 2004, com a fabricação de veículos bicom- investimentos e produção. Admitindo-se a mistura de
bustíveis com motores flex fuel, o consumo do 20% ao diesel mineral (B20), tem-se um mercado de,
álcool automotivo é novamente impulsionado, ao aproximadamente, R$ 15 bilhões, com potencial para
mesmo tempo em que se retomam as políticas para gerar aproximadamente dois milhões de oportunida-
os biocombustíveis. Essa iniciativa vem obtendo des de trabalho diretas e indiretas no setor agrícola,
relativo sucesso no Brasil sob o ponto de vista de incluindo a agricultura familiar, isso sem considerar o
substituição das fontes fósseis de energia. Atual- crescimento do consumo interno e a perspectiva de
mente, no país, adiciona-se álcool à gasolina em conquistar mercados externos para esse combustível
proporção próxima a 25%. de fontes renováveis (ACCARINI, 2006).
Desde 2003, foi criada uma Comissão Intermi- A capacidade instalada para produção de bio-
nisterial permanente para propor e acompanhar as diesel no país é de 2,5 bilhões de litros/ano. Com a
providências necessárias à introdução de novos demanda estimulada pela obrigatoriedade do B2, a
combustíveis no Brasil, sendo estabelecidas quatro partir de janeiro de 2008, e a antecipação da meta
metas consideradas prioritárias (ACARINNI, 2006): para a obrigatoriedade do B3, no segundo semestre
a) autorizar oficialmente a mistura de até 2% de desse mesmo ano, projeta-se que a capacidade
biodiesel ao diesel mineral; b) desenvolver meca- para produção de biodiesel no país totalize, ao
nismos para produção de oleaginosas e biodiesel término de 2008, aproximadamente, quatro bilhões
destinados à inclusão social; c) definir um modelo de litros.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.659-669, jan./mar. 2009 663
O biodiesel na Bahia: uma análise da potencialidade baiana na produção de oleaginosas

Gráfico 1
Representação do mercado de biodiesel e da curva de aprendizado
Fonte: ACCARINI, José Honório. Biodiesel no Brasil: estágio atual e perspectivas. Bahia Análise & Dados: energias alternativas, Salvador, v. 16, n. 1, p. 51-64, jun. 2006.

De acordo com o estudo realizado pelo Instituto considerado para a escolha, sendo outros fatores
de Pós-graduação e Pesquisa em Administra- também importantes, tais como: área de produção/
ção da Universidade Federal do Rio de Janeiro adaptação regional/políticas públicas, produção por
(Coppead/UFRJ) em parceria com o Instituto unidade de área, ciclo da cultura, possibilidades de
Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis arranjos produtivos e tecnologia disponível (na fase
(IBP) em 2007, os pontos que mais preocupam os agrícola), além da facilidade no processo de extra-
agentes envolvidos na cadeia de suprimento do ção, a presença de ácidos graxos e os co-produtos
biodiesel são relativos à garantia de suprimento – na fase industrial (COPPEAD, 2007).
de matéria-prima e à qualidade do produto. A partir Adicionalmente à exploração de matéria-prima
dessas considerações, é possível entender que o oleaginosa, é possível e encontra-se em prática
maior problema é o suprimento do biodiesel com no Brasil o uso de gordura animal, notadamente
a qualidade exigida pelas normas estabelecidas, sebo bovino, para a produção de biodiesel. Neste
principalmente considerando-se as diversas rotas caso, destaca-se que 90% dos frigoríficos nacio-
de produção, o que dificulta a garantia de uma nais encontram-se na região Centro-Sul do país,
mesma especificação para o produto final. gerando uma quantidade de 720.000 t de sebo,
No Brasil, observa-se que, embora se disponha em 2006, volume maior que o potencial de óleo
de uma diversidade de matérias-primas a ser uti- de algodão.
lizada como fonte de óleo ou gordura, a situação O biodiesel consumido no Brasil tem utiliza-
atual levou ao uso do óleo de soja e sebo bovino do predominantemente a soja e o sebo bovino
como principais insumos. Entre as principais ole- como matéria-prima, colocando em risco um dos
aginosas cultivadas no Brasil e que podem ser principais objetivos da política, a inserção de
aproveitadas na produção de biodiesel, a que agricultores familiares.
apresenta o maior percentual de área colhida é Encontrar novos usos econômicos para co-pro-
a soja, com 92,5% do total, seguida pelo algodão dutos gerados pela fabricação de biodiesel é outro
(5,5%), mamona (1%), amendoim (0,5%), palma conjunto permanente de desafios que depende de
(0,3%) e girassol (0,2%) (COPPEAD, 2007). pesquisas, experimentos e testes, pois isso pode
No entanto, o volume produzido de determina- viabilizar fontes adicionais de receita e maior eco-
da oleaginosa não deve ser o único critério a ser nomicidade à cadeia produtiva.

664 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.659-669, jan./mar. 2009
Vitor Bufon Krohling, Gilca Garcia de Oliveira, Poliana Costa Matos, Maria Idalina de Sant’Ana

BIODIESEL NA BAHIA prima às indústrias de biodiesel; diversificar a matriz


energética do estado com a utilização de biodiesel
O estado merece destaque especial por apresentar em motores automotivos e estacionários; além de
condições adequadas para produzir diversas oleagi- atrair investimentos para implantação de usinas
nosas que são matérias-primas para a produção do processadoras de biodiesel (BAHIABIO, 2007).
biodiesel, principalmente a As principais metas do
mamona, a soja, o dendê, o O estado merece destaque Programa de Biodiesel do Es-
algodão, o girassol, que recen- especial por apresentar condições tado são: a produção de 517
temente vem sendo introduzido adequadas para produzir diversas mil m³ de biodiesel a partir
em algumas áreas do estado, oleaginosas que são matérias- de 2010 e 773 mil m³ a partir
e o pinhão manso, que se primas para a produção do biodiesel de 2012; atender as deman-
apresenta como uma exce- das de biodiesel no estado,
lente alternativa para o semiárido. Além de abarcar correspondentes a 60 mil m³ em 2008 (B3), 100
o maior número de agricultores familiares do Brasil, mil m³ a partir de 2013 (B5) e gerar receitas com a
aproximadamente 625.000. venda do excedente nos mercados nacional e inter-
A Bahia produz uma variedade importante de nacional; e atender a demanda futura da indústria
oleaginosas, distribuídas em regiões distintas. A oleoquímica, de aproximadamente 80 mil m³ de óleo
produção de soja e de algodão concentra-se no de palmiste. Espera-se que este programa esteja
oeste, enquanto o dendê é produzido no litoral e a completamente implantado no ano de 2012, e para
mamona no semiárido. Vale ressaltar que o estado é que isto aconteça são necessários investimentos
o maior produtor nacional de mamona e o segundo da ordem de R$ 12,3 bilhões, divididos entre três
de algodão, com 79% e 22% da produção nacional, subprogramas: Etanol, Biodiesel e Co-geração de
respectivamente. energia, (BAHIABIO, 2007).
Para atender aos objetivos do Programa Na- A Bahia conta com 11 usinas produtoras de bio-
cional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), o diesel, sendo que três delas se encontram em fase
governo da Bahia criou, em 2003, a Rede Baiana de construção (Global Ag Biodiesel, LLc, Biobrax e
de Biocombustíveis, que reúne representantes de Universidade Federal da Bahia – UFBA), três ainda
órgãos públicos, das empresas e dos centros de em planejamento (Multigrain, Candelle e Dagris),
pesquisa e universidades. Suas principais ações são: uma usina-piloto, já produzindo (Universidade Esta-
o melhoramento das matérias-primas cultivadas e a dual de Santa Cruz – UESC), uma construída e não
produção de sementes certificadas para aumentar produzindo (Biobrax, em Una) e três construídas e
a produtividade por hectare, além de promover um produzindo – Comanche Biocombustíveis da Bahia
aumento na oferta de biodiesel. Ltda (OLIVEIRA; SANT’ANA, 2009).
Em 05 de dezembro de 2007, o Decreto 10.650
criou a Comissão Executiva do Programa Estadual
Evolução da oferta das oleaginosas na Bahia
de Produção de Bioenergia (BahiaBio), com a
finalidade de gerir e fomentar ações, aplicações Neste estudo utiliza-se de um ferramental econo-
e desenvolvimento para o uso de biomassa no métrico por meio da estimação de uma equação de
território baiano, bem como implantar no estado o oferta representando cada uma das principais oleagi-
biodiesel, como um biocombustível adicional à matriz nosas do estado. A função de oferta de determinado
energética, além de estimular pesquisas relacionadas produto tem como variáveis explicativas o preço
ao Programa Estadual de Produção de Bioenergia. dos fatores de produção, dada uma determinada
Este programa objetiva incentivar e desenvolver tecnologia. Neste estudo optou-se por desenvolver
a produção de bioenergia na Bahia, buscando uma equação na qual, no setor agrícola, a produção
atender demandas dos mercados interno e externo; em um determinado período é função dos preços
apoiar e ampliar a produção e o processamento de do produto no período anterior e da área colhida,
oleaginosas no estado da Bahia para fornecer matéria- na tentativa de expressar a realidade da atividade.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.659-669, jan./mar. 2009 665
O biodiesel na Bahia: uma análise da potencialidade baiana na produção de oleaginosas

Sendo assim, o modelo econométrico ajustado está As estimativas realizadas têm como objetivo identifi-
representado na equação 1: car o comportamento das principais oleaginosas produ-
zidas na Bahia em função de suas principais variáveis
(1) explicativas. Não se busca uma análise de previsão.
Onde: Neste sentido, optou-se por manter as variáveis em
Qt é a quantidade produzida das principais olea- nível, mesmo aquelas que não foram estacionárias.
ginosas, expressa βˆ0 , βˆ1 , em
βˆ 2 tonelada no ano t;
βˆA , βé ˆ , βˆ
βˆ0 , βtˆ1 , βaˆ 2área colhida em ha no ano t;
0 1 2

Pt-1 é preço expresso em R$/tonelada no ano t-1; Resultados


βˆ0 , βˆ1 , βˆ 2 são parâmetros do modelo; As culturas produzidas na Bahia com potencial
µ̂ t é o erro aleatório.µ̂ t
para a produção de biodiesel têm uma relevante
µ̂Et as respectivas elasticidade-preço de- distribuição territorial. A cultura da mamona está
fasado µ̂ t da oferta das oleaginosas dadas por presente na região do semiárido, com a forte
, onde Qt é a quantidade no tempo participação da agricultura familiar em sua produção.
t e Pt-1 é o preço defasado em um O dendê encontra-se presente no Baixo Sul, cultivado
período para que seja considerado por agricultores familiares em sistemas agroflorestais
o período de resposta aos preços necessário ao combinados com cravo, guaraná, piaçava, pimenta-
processo produtivo da agricultura. do-reino, pimenta jamaica, dentre outros. O algodão
Para o modelo econométrico proposto utiliza-se a es- e a soja que seriam os cultivos mais diretamente
timação por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) sob relacionados com a agricultura patronal, em grandes
as hipóteses do Modelo Clássico de Regressão Linear extensões de cultivos.
(MCRL) para a análise de dados de série temporal. Os principais resultados do exercício econométrico
As análises dos resultados empíricos são con- relacionado à mamona, ao dendê, ao algodão
dicionais, portanto, à não-rejeição das hipóteses e à soja relacionados ao seu potencial evolutivo
do modelo MCRL. As estimações foram realizadas encontram-se na Tabela 1.
usando dados anuais de produção, área e preço De acordo com o resultado da estimação, pode-
obtidos do IBGE. A amostra cobre o período de 1990 se verificar que os coeficientes que representam o
a 2007. Para o preço dos produtos foi utilizado como efeito da área colhida e do preço sobre a produção
deflator o IGP-M, e todos os preços foram deflacio- de mamona foram altamente significativos. Pode-
nados para o mês de novembro de 2008. se inferir, a partir da análise dos parâmetros, que

Tabela 1
Estimação de oferta de oleaginosas – Bahia – 2008
Variáveis Parâmetro Desvio padrão t Probability
Mamona

Intercepto -55.198,48 10.660,76 -5,177 0,0001 R2 = 0,83


Área 0,60 0,09 6,470 0,0000 F-statistic = 40,62 Prob 0,0000
Preço (t-1) 59,48 11,97 4,973 0,0002 Durbin-Watson = 1,540
Intercepto 34.788,99 7,81 4,45 0,0005 R 2 = 0,89
Dendê

Área 3,30 0,22 1,53 0,0000 F-statistic = 6,72 Prob 0,0000


Preço (t-1) -2,55 1,25 -2,04 0,0601 Durbin-Watson = 2,05
Intercepto -535.806,3 193.096,3 -2,77 0,0149 R 2 = 0,66
Algodão

Área 3,66 0,67 5,50 0,0001 F-statistic = 16,33 Prob 0,0002


Preço (t-1) 2,19 1,15 1,90 0,0002 Durbin-Watson = 0,82
Intercepto -468.011,2 254.917,7 -1,84 0,0877 R 2 = 0,84
Soja

Área 2,65 0,40 6,58 0,0000 F-statistic = 4,45 Prob 0,0000


Preço (t-1) 3,33 5,79 0,57 0,5746 Durbin-Watson = 1,57

Fonte: Elaboração própria.

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um aumento de R$ 1,00 no preço defasado de dendê não contribui para o aumento da oferta deste
um ano da mamona aumentaria a produção da produto. Enquanto o acréscimo de um hectare na
mamona 59,5 toneladas em média. Enquanto o área colhida aumentaria a produção em 3,3 tonela-
aumento de um hectare na área colhida aumentaria das, em média. Portanto, a área colhida de dendê
a produção em 0,60 toneladas, em média. e as variáveis omitidas no modelo são aquelas que
Pode-se ainda afirmar que mais influenciam no aumento
a equação da oferta estimada Dada a importância social da sua oferta. Este aspecto
apresentou um coeficiente de do agronegócio da mamona revela muito da dendeicultura
2
determinação ( R ) elevado, no Nordeste brasileiro, é na Bahia: é uma produção
indicando que 80,3% das va- fundamental o comprometimento baseada em palmeiras antigas
riáveis observadas na oferta governamental por meio de com baixa produtividade, dos
de mamona em baga são políticas agrícolas e industriais tipos espontânea ou dura.
explicadas pelas variáveis adequadas Pode-se ainda inferir que
pré-determinadas no modelo. a equação da oferta estimada
2
O teste conjunto das variáveis utilizadas no modelo apresentou um coeficiente de determinação ( R )
(teste F) mostrou-se estatisticamente significativo, elevado, indicando que 80,9% das variáveis obser-
de forma que rejeita-se a hipótese nula de que todos vadas na oferta de dendê são explicadas pelas vari-
os parâmetros são iguais a zero. áveis pré-determinadas no modelo. A probabilidade
A elasticidade-preço defasado da quantidade para o teste F em que são testadas todas as variáveis
para a mamona foi de 0,6952, ou seja, um aumento em conjunto no modelo mostra que as variáveis
de 1% no preço defasado da mamona provoca um conjuntas são estatisticamente significativas.
aumento da área cultivada em 0,69%. A elasticidade-preço defasado da quantidade
Dada a importância social do agronegócio da ofertada do dendê foi de -0,0033, ou seja, um efeito
mamona no Nordeste brasileiro, é fundamental o inverso pouco representativo, no qual o aumento
comprometimento governamental por meio de po- de 1% no preço defasado do dendê provoca uma
líticas agrícolas e industriais adequadas, ou seja, redução da área colhida em 0,0033%. Verifica-se
políticas que favoreçam o produtor, que gerem uma que a lógica da produção do dendê não segue os
remuneração satisfatória para que, consequente- preceitos da teoria neoclássica, uma vez que os
mente, venham a plantar mais. dendezeiros são culturas tipicamente permanentes
A sustentabilidade de um programa de biodiesel e a dendeicultura baiana tem como base palmeiras
baseado na mamona exigirá fortalecimento subs- antigas, pouco produtivas e com baixo dinamismo
tancial da base agrícola, de suporte para o desen- de sua cadeia produtiva.
volvimento e disseminação de novas variedades. O O Brasil, que atualmente importa óleo de dendê,
fator principal de incentivo ao agricultor é estabelecer não deve se tornar autossuficiente tão cedo, pois a
unidades esmagadoras diretamente ligadas aos área plantada deveria ser dobrada para atender a
produtores, onde estes possam se beneficiar não crescente demanda do mercado. Neste cenário, em-
apenas das vendas de bagas de mamona, as quais bora exista viabilidade econômica para a produção
hoje oferecem alto risco, mas também da comercia- do biodiesel a partir do dendê, o óleo deverá conti-
lização do óleo bruto. Com a ligação dos produtores nuar sendo destinado à indústria de alimentos, que
com unidades esmagadoras agrega-se valor ao ainda garante melhor remuneração ao produto.
produto, tirando a dependência dos produtores aos Para promover a expansão da dendeicultura será
atravessadores para vender a produção e assim necessário superar alguns entraves como: a falta
possibilitando uma maior renda ao produtor. de incentivos governamentais específicos, o alto
Os coeficientes que representam o efeito da área custo da implementação de novas lavouras, a longa
colhida e do preço sobre a produção de dendê foram maturação do investimento (cerca de três anos de
altamente significativos. Pode-se inferir, a partir da espera), além da necessidade da usina estar próxima
análise dos parâmetros, que o preço defasado de à produção – pois a matéria-prima bruta tem pouco

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.659-669, jan./mar. 2009 667
O biodiesel na Bahia: uma análise da potencialidade baiana na produção de oleaginosas

valor comercial e o transporte em longas distâncias a equação da oferta estimada apresentou um coe-
2
fica inviável, já que o processamento precisa ser ficiente de determinação ( R ) elevado, indicando
efetuado logo após a colheita. No estado da Bahia, que 84% das variáveis observadas na oferta de soja
a necessidade de inclusão de cultivares mais produ- são explicadas pelas variáveis pré-determinadas
tivas e de renovação das áreas é fundamental. no modelo. A probabilidade para o teste F em que
Com base nos resultados são testadas todas as variá-
obtidos pelo modelo estima- veis em conjunto no modelo
do é possível afirmar que os O biodiesel vem se estabelecendo mostra que as variáveis con-
efeitos da área colhida e do como uma possibilidade concreta juntas são estatisticamente
preço sobre a produção de de substituição do diesel significativas.
algodão são significativos e mineral com potencialidades de A elasticidade-preço defa-
que, a partir da análise dos inserção social da agricultura sado da soja foi de 0,00157,
parâmetros, um aumento de familiar na cadeia produtiva, de ou seja, o aumento de 1% no
R$ 1,00 no preço defasado menores impactos ambientais, preço defasado da soja provo-
de um ano de algodão au- proporcionando menor ca um aumento da área colhi-
mentaria a produção deste dependência internacional do da em 0,0016%, mostrando a
em 2,19 toneladas, em média. diesel mineral rigidez produtiva no agronegó-
Enquanto o aumento de um cio. Os agricultores ligados ao
hectare na área colhida aumentaria a produção em agronegócio, que compõem os principais produtores
3,66 toneladas, em média. Pode-se inferir ainda que de soja na Bahia, têm elevada informação sobre a
a equação da oferta estimada apresentou um coefi- cadeia produtiva, e a pouca flexibilidade na escolha
2
ciente de determinação ( R ) elevado, indicando que de um cultivo alternativo surge da não existência de
66% das variáveis observadas na oferta de algodão outro que seja tão rentável quanto a soja.
são explicadas pelas variáveis pré-determinadas no Verifica-se que a inserção da agricultura familiar
modelo. A probabilidade para o teste F em que são no Programa Biodiesel ficará comprometida caso a
testadas todas as variáveis em conjunto no modelo oferta de grãos para a produção de biodiesel seja
mostra que as variáveis conjuntas são estatistica- contemplada pela soja e pelo algodão, que são cultu-
mente significativas. ras tipicamente produzidas pela agricultura patronal
A elasticidade-preço defasado da quantidade ofer- em grandes áreas de monocultivo.
tada do algodão foi de 0,010, ou seja, o crescimento Não foram realizadas estimativas para o girassol,
de 1% nos preços defasados levam ao crescimento por não haver série histórica com informações sufi-
de 0,010% da área de algodão no estado da Bahia. cientes para a estimação, e para o pinhão manso,
Avzaradel (2008) cita estudo de Barros outros em razão do seu cultivo ser ainda preliminar, espe-
(2006) que revela que o biodiesel de algodão do cialmente em áreas experimentais.
Nordeste é o mais barato do Brasil. Levando-se em
conta o processo produtivo completo do biodiesel,
CONSIDERAÇÕES FINAIS
produz-se no Nordeste um litro de biodiesel a R$
0,662 em uma planta com capacidade de proces- O biodiesel vem se estabelecendo como uma
samento de 100 mil litros anuais. Comparado ao possibilidade concreta de substituição do diesel
biodiesel de soja e mamona, o de algodão apresenta mineral com potencialidades de inserção social da
uma vantagem de quase 100%. agricultura familiar na cadeia produtiva, de menores
Os coeficientes estimados, o efeito da área colhida impactos ambientais, proporcionando menor depen-
sobre a produção de soja foi significativo, enquanto o dência internacional do diesel mineral.
coeficiente que representa o efeito do preço não pode Algumas oleaginosas têm se mostrado menos
ser classificado como tal. Assim, um aumento de um viáveis para a produção de biodiesel. Na Bahia, do
hectare na área colhida aumentaria a produção em ponto de vista econômico, observou-se que o leque
2,65 toneladas, em média. Pode-se ainda inferir que das oleaginosas competitivas para a produção do

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biodiesel no estado é mais limitado, reduzindo-se REFERÊNCIAS


à soja e ao algodão, por possuírem altas escalas e
ACCARINI, José Honório. Biodiesel no Brasil: estágio atual
produtividades, bem como menor preço do óleo. e perspectivas. Bahia Análise & Dados: energias alternativas,
A mamona, assim como o dendê, não faz parte Salvador, v. 16, n. 1, p. 51-64, jun. 2006.
da relação das oleaginosas mais competitivas para AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E
produção do biodiesel, em razão de sua baixa escala BIOCOMBUSTÍVEIS (Brasil). Disponível em: <http://www.anp.
gov.br>. Acesso em: nov. 2008.
de produção e o preço do óleo relativamente alto,
destinado a outros mercados. Estes cultivos não se AVZARADEL, A. C. A Contribuição da Política Estadual para
Viabilizar a Participação da Agricultura Familiar no Programa
mostraram viáveis, do ponto de vista econômico, Nacional de Produção e Uso de Biodiesel: O Caso da Bahia.
para produção de biodiesel. Além disso, há questões 2008. Dissertação (Mestrado)-UFRJ. Disponível em: <http://
www.ppe.ufrj.br/ppe/production/tesis/ anaavzaradel.pdf>.
relativas à inviabilidade técnica da utilização dessas Acesso em: 10 fev. 2009.
matérias-primas para a produção de biodiesel, por
BAHIABIO - Rede Baiana de Biocombustíveis. Disponível em:
causa das suas altas taxas de viscosidade. No en- <http://www.rbb.ba.gov.br>. Acesso em: out. e nov. 2007.
tanto, a inserção social tem sido um critério funda-
BIODIESELBR. Disponível em: <http://www.biodieselbr.com>.
mental na definição de estratégias de fomento dos Acesso em: out. e nov. 2007.
cultivos, e, neste sentido, a mamona e o dendê têm
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
sido as culturas privilegiadas no PNPB, uma vez Plano Nacional de Agroenergia, 2006-2011. [Brasília]: MAPA,
que são aquelas em que se encontra um número 2005. 120 p. Disponível em: <http://www.biodiesel.gov.br/docs/
PLANONACIONALDOAGROENERGIA1.pdf>. Acesso em: 14
relevante de agricultores familiares envolvidos na jun. 2007.
sua produção.
BRASIL . Ministério de Minas e Energia. Empresa Brasileira
A inserção efetiva da agricultura familiar ainda é de Pesquisa Energética. Balanço Energético Nacional 2008.
um desafio na implantação do PNPB, sendo que sua [Brasília]: BEM, 2008. Disponível em: <http://www.epe.gov.br/
imprensa/PressReleases/20080508_1.pdf>. Acesso em: 28 fev.
presença nos demais elos da cadeia do biodiesel,
2009.
para além da produção de matéria-prima, tem sido
COPPEAD – Centro de Estudos em Logística. UFRJ,
fortemente defendida pelos movimentos sociais e
Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis – IBP.
assessorias técnicas. Planejamento Estratégico Tecnológico e Logístico para o
Outro desafio posto é a pressão da monocultura, Programa Nacional de Biodiesel. Rio de Janeiro, 2007.

ligada à agroindústria, que tem se mostrado mais CRISES externas estimularam desenvolvimento da indústria
do petróleo no país. Notícias Radiobrás. [Brasília], 2006.
rentável sobre os policultivos, que estão ligados à
Disponível em: <http://www.radiobras.gov.br/materia_i_2004.ph
lógica produtiva da agricultura familiar. As dispari- p?materia=262619&editoria=&q=1>. Acesso em: 20 jun. 2007.
dades regionais têm sido notadas à medida que a
HOLANDA, A. Biodiesel e inclusão social. Brasília: Câmara dos
implantação do biodiesel parece favorecer um de- Deputados, 2004. 200 p. (Séries altos estudos, n.1).
senvolvimento regional concentrado espacialmente IBGE. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>. Acesso em:
e amparado na monocultura, com leque reduzido nov. 2008.
de oleaginosas. OLIVEIRA, G. G., SANT’ANA, M. I. de. Levantamento de
Há que se avaliar também que a competitividade informações disponíveis sobre a cadeia produtiva de biodiesel
no Estado da Bahia: aspectos agronômicos, da agricultura
da agricultura familiar na produção das oleaginosas
familiar e da cadeia produtiva. Salvador: OIT/Governo do
passa pela necessidade de maior aporte de base Estado da Bahia, 2009. No prelo.
tecnológica e de insumos produtivos, que pode dese-
PARENTE, Expedito José de Sá . Biodiesel: uma aventura
quilibrar o balanço energético no processo produtivo. tecnológica num país engraçado. Fortaleza : Tecbio, 2003.
Neste sentido, políticas públicas que garantam a PROGRAMA BRASILEIRO DE PRODUÇÃO E USO DE
inserção de forma sustentável deste agricultores são BIODIESEL. Disponível em: <http://www.biodiesel.gov.br>.
Acesso em: 15 out. 2007 – 03 dez. 2007.
fundamentais, estabelecendo assistência técnica,
garantia de preços justos e de mercado, sendo im-
prescindível que a soberania alimentar das famílias
seja respeitada no conjunto de cultivos estabelecidos
para o comércio e para a subsistência.

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.659-669, jan./mar. 2009 669
Giovani Ferreira da Silva, Gisele Ferreira Tiryaki, Marcelo Dultra

Bahia
análise & Dados

Estratégias para inserção do território


do sisal no programa de biodiesel
Giovani Ferreira da SilvaA
Gisele Ferreira TiryakiB
Marcelo DultraC*

Resumo Abstract

O Território do Sisal na Bahia possui um dos menores The Sisal Region in Bahia has one of the lowest human
indicadores de desenvolvimento humano do país e, juntamente development indicators in the country and, together with the
com a Amazônia, é uma das regiões mais suscetíveis aos Amazon, is one of the regions most susceptible to the impacts
impactos do aquecimento global. O consórcio de oleaginosas com of global warming. The partnership of oilseeds with sisal cre-
o sisal constitui uma possibilidade de geração de renda para os ates the possibility of income generation for farmers, allow-
agricultores, possibilitando o abandono do modelo de monocultura ing them to abandon the sisal mono-culture model and makes
do sisal e a inclusão social pela ação cooperativada da agricultura social inclusion possible via the cooperative activity of family
familiar. Utilizando a abordagem de Filiére, o presente artigo tem por farming. Using the Filière approach, this article’s objective is
objetivo delinear uma proposta de atuação da agricultura familiar to outline an action proposal for family farming in the Sisal
no Território do Sisal a partir das oportunidades elencadas pelo Region from opportunities detailed on the National Biodiesel
Plano Nacional de Produção de Biodiesel. Dentre as estratégias Production Plan. Among the strategies identified, the study
identificadas, o estudo prioriza o desenvolvimento de pesquisas de prioritizes research development on oilseed production plat-
plataformas de produção de oleaginosas na região associadas ao forms associated with the crushing effect in the region, using
esmagamento com gestão cooperativada e integrada à cadeia de cooperative management and integrated with the sisal produc-
produção do sisal. tion chain.

Palavras-chave: Biodiesel. Agricultura familiar. Sustenta- Keywords: Biodiesel. Family farming. Sustainability. Co-
bilidade. Cooperativismo. Cadeia Produtiva. operativism. Productive Chain.

Introdução balança comercial, o desenvolvimento tecnológico


local e a oportunidade de dinamizar a geração de
O fomento à produção de biodiesel representa
emprego e renda na zona rural são importantes
uma ferramenta estratégica para o desenvolvimen-
vertentes do ponto de vista de desenvolvimento
to do país, além de possuir importantes externali-
econômico para o país. A redução da pressão
dades positivas para o desenvolvimento regional
social nas periferias das grandes cidades pela
e para a preservação ambiental. A redução dos
redução do êxodo rural, por sua vez, amplifica a
níveis de importação de óleo diesel com ganhos na
importância de tal iniciativa sob a ótica econômica
A
Mestrando em Regulação da Indústria de Energia da Universidade Salvador (Uni- e social. Sob o enfoque ambiental, têm-se benefí-
facs); graduado em Engenharia Química pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
e em Economia pela Universidade Católica do Salvador (UCSal). cios na redução de teores de fuligem, aromáticos
B
Doutor em Economia pela George Mason University; mestre em Economia pela e enxofre, com impactos positivos na redução dos
Northeastern University; pesquisadora Prodoc/CNPq; coordenadora do Grupo de
Pesquisa em Regulação, Gestão e Desenvolvimento Sustentável na Universidade custos de saúde pública.
Salvador (Unifacs).
C
Mestre em Administração e graduado em Administração de Empresas pela Universida-
A disponibilidade de terras agricultáveis e cli-
de Salvador (Unifacs); pesquisador no Núcleo de Estudos Organizacionais e Tecnologias
de Gestão (Neoteg) do Programa de Pós-Graduação em Administração da Unifacs.
ma favorável no país para o aproveitamento de
* Os autores agradecem o suporte financeiro concedido pela Fundação de Amparo à diferentes matérias-primas (e.g. mamona, dendê,
Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq). girassol, soja, algodão, óleos e gorduras residuais

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.671-686, jan./mar. 2009 671
Estratégias para inserção do território do sisal no programa de biodiesel

e gordura animal) são também motivadores para mão de obra intensiva, espera-se um impacto
a introdução do combustível renovável. Diante positivo em temos de geração de emprego e
disto, o governo delineou mecanismos inseridos renda, além de ganhos com a diversificação de
no Programa Nacional de Produção de Biodiesel atividades produtivas e com a promoção do de-
(PNPB) com o objetivo de incentivar a produção senvolvimento sustentável.
do biodiesel necessário para O presente trabalho tem
atender as metas previstas O cultivo de oleaginosas por objetivo delinear uma
no marco regulatório. para uso na produção do proposta de atuação da
O arcabouço regulatório agricultura familiar no ter-
biodiesel pode representar uma
desenvolvido a partir do ritório do sisal a partir das
opção para a diversificação
PNPB buscou acelerar a oportunidades elencadas
das atividades agrícolas da
curva de aprendizado nas pelo PNPB. Neste sentido,
região, onde a maior parte
fases agrícola e agroindus- utilizando a abordagem
das propriedades é familiar e
trial para melhorar a compe- Filiére, será apresentada
pode, portanto, usufruir dos
titividade do biodiesel frente uma proposta de atua-
benefícios associados ao PNPB
ao diesel fóssil. Além disso, ção da agricultura familiar
enfatizou a descentralização no Território do Sisal da
do desenvolvimento econômico e a abordagem Bahia, salientando a necessidade de pesquisa
social do programa, ao procurar criar estímulos de plataformas de produção de oleaginosas
à produção agrícola em pequenas proprieda- na região, associadas ao esmagamento com
des na região Norte e no semiárido nordestino. gestão cooperativada e integrada à cadeia de
Buscou-se, assim, evitar a tendência econômica produção do sisal.
da produção concentrada em extensas unidades O artigo está estruturado da seguinte
monocultoras próximas às regiões de consumo, forma. A primeira parte apresenta os aspectos
características presentes no modelo de produção climáticos e os indicadores socioeconômicos
do álcool no Sudeste ou ainda no agronegócio do Território do Sisal na Bahia, salientando
empresarial agrícola da soja e algodão no Centro- os potenciais efeitos do aquecimento global
Oeste. e a relação entre a elevação da concentração
O Território do Sisal caracteriza-se por apre- dos gases de efeito estufa e o aumento da
sentar irregularidade pluviométrica interanual, aridez da região. A seção seguinte descreve
com concentração de chuvas em três a quatro a cadeia produtiva do sisal como a principal
meses do ano, e solos com baixa capacidade de atividade econômica nos municípios da região,
retenção hídrica. As secas periódicas reduzem discriminando a composição de custos na
ou dizimam a produção agrícola. As estiagens área agrícola e industrial, assim como a sua
produzem um efeito devastador nas economias estrutura de comercialização. Na terceira
locais, tornando agudo o quadro socioeconômico seção são apresentadas as oleaginosas que
e estimulando a emigração populacional. A exis- têm potencial para adaptarem-se às condições
tência de culturas adaptáveis a essas condições edafoclimáticas e que possam ser consorciadas
de clima e solo, como o sisal, tem trazido certo com o sisal, enquanto a quarta seção apresenta
dinamismo para a economia local, não obstante as estratégias para a inserção da região no
carecer de inovações produtivas. PNPB, apontando para a necessidade de
O cultivo de oleaginosas para uso na produção desenvolvimento de plataformas de produção de
do biodiesel pode representar uma opção para a oleaginosas e de organização dos agricultores
diversificação das atividades agrícolas da região, sob a forma de cooperativas ou associações
onde a maior parte das propriedades é familiar para capacitá-los a concorrer no mercado
e pode, portanto, usufruir dos benefícios asso- do biodiesel. A última seção apresenta as
ciados ao PNPB. Como essas culturas utilizam considerações finais.

672 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.671-686, jan./mar. 2009
Giovani Ferreira da Silva, Gisele Ferreira Tiryaki, Marcelo Dultra

Caracterização EDAFOCLIMÁTICA DO (IPCC, 2006), projeta-se elevação na temperatura


território do sisal e redução de pluviosidade significativas, confor-
me o aumento da concentração dos gases de
O Território do Sisal encontra-se inserido no efeito estufa na atmosfera1. Pinto e Assad (2008)
semiárido brasileiro, onde predomina o bioma observam que a elevação na temperatura acen-
da caatinga. Apresenta uma tuará a falta de água, com
vegetação diversificada, ca- impacto na vegetação e nas
As microrregiões do estado da
racterizada pela existência culturas agrícolas da região,
Bahia onde o sisal é cultivado
de plantas xerófilas, com alta concluindo que a produção
ocupam um terço do semiárido
resistência ao stress hídrico. de mandioca no semiárido
baiano, que, por sua vez,
É uma área que vem sofren- será muito prejudicada já em
representa em torno de 68% da
do significativamente com a 2020, com impactos na segu-
área total do estado
devastação causada pelo rança alimentar da região. O
homem, em função da for- fenômeno da intensificação
mação de pastagens, da utilização da vegetação da aridez na caatinga do Nordeste é enfatizado
nativa para a produção de energia e até mesmo por Marengo (2007 apud MONTEIRO, 2007), que
das queimadas, que podem levar à extinção de aponta para a tendência de aumento das áreas
espécies importantes para a população local e áridas e hiperáridas, e até mesmo desertificação
para a manutenção e sobrevivência do ecossis- nas áreas mais centrais do Piauí, Ceará, Paraíba,
tema. Segundo Leal e outros (2005), trata-se do Pernambuco e o centro-norte baiano. Para Leal
ecossistema mais degradado do país após a mata e outros (2005), no presente, a desertificação já
atlântica e o cerrado. ameaça 15% da região semiárida.
As estiagens na região carecem de informa- As microrregiões do estado da Bahia onde o
ções climatológicas consistentes para melhor ca- sisal é cultivado ocupam um terço do semiárido
racterizar os efeitos de fenômenos atmosféricos baiano, que, por sua vez, representa em torno de
dominantes na evolução do clima da região. Em 68% da área total do estado (SUPERINTENDÊN-
amplo levantamento de estudos sobre o semiá- CIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA
rido, Sales (2002) caracteriza a desertificação BAHIA, 2003). De acordo com a Tabela 1, cerca
como decorrente da degradação ambiental da de 4% da população da Bahia habita o Território
região em função de vários fatores, destacando do Sisal, região que possui baixos Índices de
as mudanças climáticas e as atividades humanas, Desenvolvimento Humano (IDHs), com alguns
sendo necessária a condução de uma análise es- municípios apresentando IDHs até 20% abaixo
pecífica para melhor compreensão e intervenção da média do país (UNITED NATIONS, 2002) e
no fenômeno. inferior ao IDH de alguns países africanos, como
Segundo Sampaio (1995) e Prado (2003), a África do Sul, Namíbia, Gabão e Guiné Equatorial.
precipitação anual varia de 1.500 mm nas regiões Caso fosse segregada, a região ocuparia a 119ª
mais altas e subúmidas para 500 mm nas áreas posição, onde o Brasil foi relacionado na 73ª po-
centrais, chegando a 240 mm nas regiões mais sição, em um conjunto de 173 países presentes
áridas. Pode-se perceber que existe um grande no Relatório de Desenvolvimento Humano 2002
mosaico de microclimas, com diferentes poten- (UNITED NATIONS, 2002).
ciais agronômicos a serem aproveitados. Segundo o Ministério do Desenvolvimento
Com relação aos efeitos do aquecimento global Agrário (MDA) e o Instituto Nacional de Coloniza-
sobre a região, Monteiro (2007) e Pinto e Assad ção e Reforma Agrária (INCRA), existem em torno
(2008) situam o semiárido nordestino, juntamente de 63,5 mil propriedades nas regiões da Bahia
com a Amazônia, como as áreas mais afetadas
pelo efeito estufa no país. Com base nos dados Projetam-se reduções entre 10% e 20% na pluviosidade nas regiões mais áridas, nos
1

do Intergovernmental Panel on Climate Change cenários de climático otimista e pessimista, respectivamente (IPCC, 2006).

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.671-686, jan./mar. 2009 673
Estratégias para inserção do território do sisal no programa de biodiesel

Tabela 1
Dados socioeconômicos do Território do Sisal
Densidade
Pop. Área PIB 2006 Renda/ IDH-M Índice de
Município Pop.
2007 (km2) (R$ milhões) CAPITA 2006 (R$) (2000) aridez1
(Hab/km2)
Araci 51.912 1.524 34,1 112,02 2.275,22 0,557 0,21 a 0,50
Barrocas 13.182 188 70,1 48,67 3.755,07 - 0,21 a 0,65
Biritinga 13.961 431 32,4 38,09 2.598,92 0,596 0,21 a 0,50
Candeal 9.019 455 19,8 21,53 2.226,01 0,610 0,21 a 0,65
Cansanção 32.789 1.320 24,8 84,68 2.588,22 0,538 0,05 a 0,50
Conceição do Coité 60.835 1.086 56,0 227,12 3.833,3 0,611 0,21 a 0,50
Ichú 5.881 128 45,9 12,48 3.691,82 0,675 0,21 a 0,65
Itiúba 35.749 1.731 20,7 74,65 2.051,65 0,574 0,21 a 0,50
Lamarão 11.988 356 33,7 17,36 1.936,01 0,608 0,50 a 0,65
Monte Santo 52.249 3.285 15,9 128,36 2.253,41 0,534 0,21 a 0,50
Nordestina 12.172 471 25,8 28,71 2.106,65 0,550 0,21 a 0,50
Queimadas 27.186 2.098 13,0 63,27 2.463,73 0,613 0,21 a 0,50
Quijingue 27.068 1.271 21,3 69,37 2.463,72 0,526 0,05 a 0,50
Retirolândia 11.938 204 58,5 37,38 3.529,43 0,625 0,21 a 0,50
Santa Luz 33.633 1.597 21,1 81,67 2.618,53 0,646 0,21 a 0,50
São Domingos 8.818 265 33,3 25,26 3.489,97 0,624 0,21 a 0,50
Serrinha 71.383 568 125,7 269,47 3.567,12 0,658 0,21 a 0,65
Teofilândia 20.702 318 65,1 48,98 2.499,83 0,607 0,21 a 0,50
Tucano 48.740 2.801 17,4 133,54 2.466,71 0,582 0,21 a 0,65
Valente 21.512 357 60,3 78,44 3.899,94 0,657 0,21 a 0,50
TERRITÓRIO 570.717 20.454 27,9 1.601,05 2.805,30 0,581 -
BAHIA (%) 4,05% 3,62% 111,90% 1,66% 40,53% 88,37% -
BRASIL (%) 0,31% 0,24% 129,12% 0,07% 22,11% 95,60% -

Nota: (1) Índice de Aridez de Tornthwaite, elaborado com base na evatotranspiração potencial. As faixas utilizadas para classificação segundo este método são: Hiperárido –
Índice < 0.05; Árido – Índice = 0.05 a 0.20; Semiárido – Índice = 0.21 a 0.50; Subúmido – Índice = seco 0.51 a 0.65; Subúmido e úmido – Índice > 0.65 (BRASIL, 2002).

Fonte: IBGE (2005) e PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO (2003).

onde o sisal é cultivado, das quais 95,7% familia- Perrine) adaptou-se bem às condições de clima
res, com tamanho médio de 12,6 hectares (ALVES; e solo da região, por ser uma planta semixerófila,
SANTIAGO, 2006). Em termos de área plantada, o adequada às regiões tropicais e subtropicais e
sisal ocupa o segundo lugar no ranking das culturas com capacidade para suportar secas prolonga-
agrícolas do território, superado apenas pelo feijão, das e temperaturas elevadas (AMORIM NETO;
com 117 mil hectares2. BELTRÃO, 1999). O sisal é uma das principais
espécies responsáveis pela permanência de mi-
lhares de pessoas no meio rural, sendo o alicerce
Determinantes da Cadeia Produtiva do
da economia do território, mesmo nos períodos
sisal
em que as adversidades climáticas são maiores.
Poucas são as culturas agrícolas que se O produto extraído desta planta é uma fibra
adequam às características edafoclimáticas do natural, de excelente qualidade, que é utilizada
semiárido brasileiro. O sisal (Agave Sisalana para a confecção de tapetes, carpetes e cordas,
dentre outros produtos. Toda a produção é feita
Segundo o IBGE (2007), a área plantada de feijão no Território do Sisal
artesanalmente, tendo, portanto, baixa produtivi-
2

representou 2,8% da área plantada no Brasil, enquanto a produção foi de apenas


1,9% do total produzido no país no mesmo período, o que denota a agricultura dade e, consequentemente, baixa competitivida-
de subsistência e intensiva em mão de obra, além do efeito das secas com perda
dos plantios. de, quando comparada a fibras sintéticas, o que

674 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.671-686, jan./mar. 2009
Giovani Ferreira da Silva, Gisele Ferreira Tiryaki, Marcelo Dultra

traz prejuízos para a região e para os agricultores PAZ; SOGLIA, 2005). Atualmente, no entanto, não
cuja renda é gerada primordialmente do sisal. existem aplicações comerciais para tais usos.
Quando cortada e submetida ao desfibramento, A cadeia produtiva do sisal está ilustrada na
a folha do sisal apresenta a seguinte composição: Figura 1. O produtor do sisal negocia sua lavoura
o suco representa 80% do seu peso, enquanto com proprietários de motores, que também são,
a polpa, a fibra e a bucha normalmente, proprietários
representam 15%, 4% e 1%, rurais. Esta “terceirização”
Apesar de integrada, os elos
respectivamente. O desfibra- do processo de colheita, de
da cadeia produtiva do sisal
mento consiste na separação desfibramento, de lavagem
são fracos, não existindo
da polpa e suco da fibra e de secagem da fibra per-
cultura de contratos formais na
mediante esmagamento. O mite que o proprietário rural
região, tanto comerciais quanto
equipamento utilizado é a não estabeleça vínculos
tecnológicos, assim como de
Paraibana, que possui motor empregatícios com os tra-
relações de trabalho
de combustão interna movido balhadores rurais, que são
a óleo diesel, com potência contratados pelo proprietá-
entre sete e 12 CV, e capacidade operacional de rio do motor, também responsável pela compra
0,20 kg/h. Esta máquina desfibradora apresenta do óleo diesel necessário para o funcionamento
um consumo de diesel de 40 litros por tonelada de das máquinas desfibradoras. O “dono do motor”,
fibra seca, possuindo alta mobilidade, baixo custo por sua vez, é financiado pelo proprietário da
e fácil manutenção (EMBRAPA., 2006). batedeira em troca da fibra bruta, que passará
Após o desfibramento no campo, as fibras pelo processo de remoção do pó e enfardamento,
são submetidas à secagem no sol e em seguida para posterior comercialização. O proprietário
transferidas às batedeiras – onde são retiradas a da batedeira direciona a fibra processada para a
bucha e o pó –, classificadas e enfardadas. Os indústria ou diretamente para o exportador.
principais parâmetros na definição da qualidade Apesar de integrada, os elos da cadeia pro-
do produto são o comprimento da fibra, o teor de dutiva do sisal são fracos, não existindo cultura
umidade, a coloração e a isenção de impurezas, de contratos formais na região, tanto comerciais
como cascas e fragmentos. De acordo com Oashi quanto tecnológicos, assim como de relações de
(1999), esta cadeia de produção conduz a um trabalho. De acordo com Pereira e outros (2006),
custo cinco vezes superior ao obtido na África apesar de existir um grande número de peque-
Oriental, referência mundial do produto em qua- nos produtores rurais, o número de batedeiras
lidade e eficiência na cultura. é limitado, e estas são, em sua grande maioria,
No que se refere aos usos do produto, é empre- de propriedade ou vinculadas aos exportadores.
gado na produção de cordas, produtos de artesa- Existe, portanto, uma estrutura de mercado de
nato, como tapetes, bolsas, carpetes e capachos, oligopsônio, com os proprietários das batedei-
além da produção de papel. As fibras podem ser ras/exportadores absorvendo em torno de 40%
utilizadas também na indústria automobilística, da receita bruta obtida com o sisal, o “dono do
movelaria e eletrodomésticos, em copolímeros motor” capturando 25,2% da renda bruta e o pro-
na substituição de derivados de petróleo (ALVES; prietário do campo de sisal absorvendo 23,8%,
SANTIAGO, 2006). Existem algumas empresas restando aos trabalhadores que desfibram o sisal
que, além de comercializar a fibra bruta, promo- em torno de 10,4% da renda gerada (ALVES e
vem o beneficiamento com a produção de cordas SANTIAGO, 2006).
e artesanato. Os demais subprodutos podem ser A cultura do sisal tem apresentado um de-
usados: (i) na alimentação de bovinos e caprinos; sempenho declinante nos últimos anos e não
(ii) como adubo orgânico; e (iii) os derivados do se observa evolução tecnológica nas práticas
suco que podem servir como fármacos, bioinsetici- de cultivo e processamento do sisal. Na parte
das e cicatrizantes (OASHI, 1999; FAPESB, 2002; agrícola, existe pouca pesquisa agronômica

BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.671-686, jan./mar. 2009 675
Estratégias para inserção do território do sisal no programa de biodiesel

Figura 1
Cadeia produtiva do Sisal
Fonte: Adaptado de Neves e outros (2004)

associada à obtenção de variedades associa- mercado interno tem gerado excesso de oferta,
das aos diferentes microclimas, doenças e de deprimindo preços no país. Isto, associado à es-
práticas que promovam a fertilidade dos solos. trutura de comercialização, tem feito com que os
Em relação à extração da fibra no campo, as preços ao produtor permaneçam em patamares
alterações na máquina permitiram uma redução muito baixos, gerando inclusive o deslocamento
nos acidentes de trabalho associados ao seu uso, de áreas de produção para a pecuária. Mesmo a
embora sua produtividade permaneça baixa. Os política governamental de incentivo ao plantio e
equipamentos utilizados na industrialização dos de preços mínimos não tem sido suficiente para
fios foram adquiridos ainda nos anos 1970 (AL- reverter o declínio da cultura.
VES; SANTIAGO, 2006). Para diminuir a dependência da geração de
De acordo com Suinaga e outros (2006), renda e emprego somente por meio do cultivo do
vários fatores têm contribuído para esse desem- sisal, é importante estimular a diversificação das
penho desfavorável, com destaque para: (i) o culturas produzidas na região, gerando alternativas
baixo índice de aproveitamento da planta e dos sustentáveis e focando na melhoria das condições
resíduos do desfibramento e a concorrência com de vida da população local. Sendo assim, faz-se
as fibras sintéticas; (ii) o baixo valor pago pela a necessário incentivar estudos relacionando as ca-
fibra; (iii) o elevado custo de se iniciar o plantio racterísticas climáticas e do solo da região, identifi-
do sisal; e (iv) a falta de inovação tecnológica cando novas variedades que tenham desempenho
nos equipamentos utilizados na fase agrícola e satisfatório e que possam ser assimiladas pela
no processamento da fibra. cultura agrícola da região. Pinto e Assad (2008)
Mais recentemente, a valorização cambial vem sugerem a busca de espécies adaptadas à região
dificultando a exportação do produto. A realoca- como forma de adaptação às mudanças climáti-
ção do produto anteriormente exportado para o cas, propondo o uso de fertilizantes nitrogenados

676 BAHIA Análise & Dados, Salvador, v.18, n.4, p.671-686, jan./mar. 2009
Giovani Ferreira da Silva, Gisele Ferreira Tiryaki, Marcelo Dultra

ajustados à necessidade das plantas, como forma resistentes à seca e adaptáveis às condições de
de reduzir as emissões de N2O. solo da região, conforme indicado no zoneamento
O cultivo de oleaginosas para produção de realizado pela Embrapa. Existe, ainda, a perspec-
biodiesel tem o potencial de dinamizar a economia tiva de aproveitamento de espécies nativas como
da região, ao fomentar uma atividade econômica ouricuri, moringa e pinhão manso, muito embora
complementar à cultura do sisal. É importante não exista o cultivo disseminado de oleaginosas
salientar, contudo, que a diversificação de usos na região.
da produção agrícola pode também direcionar A mamona, por exemplo, é uma cultura intensi-
as áreas agrícolas para insumos energéticos. va em mão de obra, bem adaptável às condições
Como o mercado energético tem muito maior edafoclimáticas da região. A torta da mamona
escala que o mercado agrícola, qualquer varia- pode ser utilizada como adubo de ótima qualidade
ção na demanda de petróleo implica em grandes e como ração animal, enquanto o óleo pode ser
variações de preços nas oleaginosas que podem aproveitado em várias indústrias (e.g. fabricação
ser utilizadas para produção de biocombustíveis. de lubrificantes, de detergentes e de tintas e
Desta maneira, a introdução de novas atividades vernizes). A região central do estado da Bahia
produtivas na região deve ser analisada consi- tem se destacado na produção de mamona, com
derando os impactos econômicos, mas também uma área cultivada em mais de 150 mil hectares
seus aspectos ambientais e sociais. e representando uma alternativa de cultivo para
a agricultura familiar. Trata-se de uma cultura
com a plataforma de produção consolidada e de
Potencial Produtivo de Oleaginosas
sólido conhecimento da capacidade de resposta
no Território do Sisal
da planta às diversas condições de microclimas
Algumas espécies de plantas com potencial do semiárido. A existência de usos alternativos
para a produção de óleo a ser utilizado na pro- para o óleo da mamona, no entanto, tem criado
dução de biodiesel mostram-se aptas ao cultivo competição significativa ao seu cultivo para a
no Território do Sisal, como a mamona (Ricinus produção do biodiesel.
communis), o algodão (Gossypium sp), o girassol O estado da Bahia é o segundo maior produ-
(Helianthus annuus L) e o amendoim (Arachis tor de algodão do país, com destaque para os
hypogaea L). Destaca-se, particularmente, o municípios de São Desidério e Barreiras. Seu
cultivo do algodão e da mamona, que apresen- cultivo, realizado por pequenos produtores com
tam possibilidade de retorno mais elevado por mão de obra familiar, é restrito a algumas regiões
meio do plantio consorciado (ver Tabela 2). Além do semiárido, muito embora seja adaptável ao
disso, são culturas intensivas em mão de obra, clima seco da região (WALDHEIM et al., 2006).

Tabela 2
Resultado esperado com o cultivo de oleaginosas: cultivo isolado versus cultivo consorciado
Isolado Consórcio Custos Margem

Culturas R$/Kg Produti- Produti- Iso- Consór- Iso- Consór-