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Ensaio de Antero de Quental – As causas da decadência dos povos peninsulares

Antes de tudo, é importante considerar que os dois movimentos que


proporcionaram o desenvolvimento do Realismo-Naturalismo em Portugal, ou seja, a
Questão Coimbrã (1865) e as Conferências do Cassino Lisbonense (1871), tem como
um de seus idealizadores o poeta Antero de Quental.
A Questão Coimbrã talvez ainda continua conhecida na história da literatura
portuguesa como uma das maiores polêmicas no ramo literário. E a polêmica começa com
a publicação das Odes Modernas do referido autor e é uma ruptura drástica com poesia
ultrarromântica que vinha sendo produzida até então. Antero de Quental, em Odes
Modernas, inicia um tipo de poesia voltada para as ideias, ou seja, uma produção de teor
mais filosófico. Antônio Feliciano de Castilho, o representante e na época o maior nome da
cultura portuguesa, fazia literatura romântica e, ao tomar contato com a obra de Antero de
Quental, reprovou-a dizendo que faltava a esta produção ‘bom senso e bom gosto’. Antero
de Quental, em contrapartida, escreve um artigo num folhetim chamado O Bom Senso e o
Bom Gosto, delimitando os pressupostos estéticos do Realismo e afirmando a missão
dessa estética de renovar e reformar a sociedade portuguesa ultrapassada. É interessante
notar que esse artigo, Bom senso e bom gosto, é considerado por Manuel Bandeira como
a primeira produção moderna da prosa portuguesa.
As Conferências do Cassino Lisbonense são a primeira tentativa dos pensadores
da época de colocar Portugal e Espanha ao lado dos outros países europeus. Portugal era
visto como um país atrasado em relação a toda a Europa e aquela geração de pensadores
procuravam através de conferências e debates intelectuais buscar soluções para diminuir
essas distâncias.
A primeira conferência foi de Antero de Quental, denominada As causas da
decência dos povos peninsulares. Nota-se na leitura da conferência três causas principais
para a decadência:
1. O catolicismo jesuítico pós-Concílio de Trento; => liberdade moral
2. O Absolutismo => classe média impondo aos reis o seus interesses
3. O sistema econômico criado a partir das Descobertas = valorização da
indústria e do comércio

A decadência moral é considerada por Quental como o ponto principal de todo o


desprestígio português e espanhol. E ela está centrada no catolicismo de Trento abraçado
por essas duas nações. Antero de Quental faz uma distinção entre o cristianismo e o
catolicismo. Enquanto o cristianismo é sentimento, é vida, e por isso vive da fé e da
inspiração, o catolicismo é instituição, e por isso vive do dogma, das leis e disciplinas. O
cristianismo é anterior ao catolicismo e ele era vivido pelo povo peninsular. O autor chega
a falar que o cristianismo permitia uma religião cheia de variações e isso com certeza lhe
imprimia mais riqueza. Com o passar dos séculos, o cristianismo vai perdendo essa
característica por causa da ânsia de poder. A corrupção romana chega a um ápice
intolerável e Lutero e mais alguns se decidem se separar, criando a reforma. A reforma, de
acordo com Quental, seria a tentativa de manter essa liberdade moral, já deixada de lado
pelo catolicismo, ou seja, pelos cardeais e papa. Contudo, Roma não pretende deixar seus
erros: apoiados pelos jesuítas, criam o Concílio de Trento e reafirmam o absolutismo
romano, considerado pelo autor um verdadeiro desastre. Portugal e Espanha decidem ser
nações católicas, apoiando em tudo as decisões romanas que eram vigiadas pelos
jesuítas, considerados os olhos do pontífice romano. Para as duas nações peninsulares foi
desastroso, pois é a partir desse absolutismo católico romano que surge o absolutismo
monárquico ou régio, aos poucos fazendo proliferar uma política onde o absolutismo, ou
seja, ninguém mais tinha voz ou vez, somente o rei. Além disso, Quental ainda aponta a
Companhia de Jesus como a responsável pela imbecilização do educação peninsular, pois
esterilizavam a consciência das classes elevadas, recorrendo a um ensino em que a
memória era o ponto principal, e, aos poucos, anulavam nos estudantes a capacidade
inventiva e criadora. Toda moral fanática aos poucos eram colocada nas almas dos
estudantes. Resultado: um povo incapaz de pensar, de refletir sobre sua situação. Quental
reserva boa parte do artigo justamente para apontar os males que o catolicismo de Trento
e os Jesuítas fizeram na essência da alma peninsular.
Na Idade Média, de acordo com Quental, não havia com os reis um absolutismo
como se viu a partir do século XVI-XVII português, onde se via o rei mandando em tudo e
mais ninguém tinha voz nas decisões políticas do país. De certa forma, esse tipo de
governo asfixiou o país politicamente. Na Idade Média, os reis não eram absolutos; havia
um certo equilíbrio entre as municipalidades, a nobreza e o clero. Havia liberdade no
equilíbrio entre posições sociais. De certa forma, isto fazia com que o povo se
manifestasse, que desse sua posição dos fatos e assim havia uma política que dava certo,
que permitia os países da península progredirem. Com o absolutismo, necessariamente há
o espírito aristocrático e os privilégios que advém desse círculo político. Naturalmente, o
rei e os poucos que o cercavam se beneficiavam financeiramente enquanto o país era
deixado de lado, pois não havia nenhum tipo de interesse coletivo, nacional. Esse
absolutismo gerou a inércia política do povo, agora, de acordo com Quental, incapaz de
tomar a frente como faziam na idade média; o povo agora necessita de que alguém os
governe, pois não conseguem ter ação diante de tantos anos vivendo sob a política
absolutista e centralizadora.
As conquistas também se tornaram o último ponto analisado por Quental
responsável pelo crepúsculo peninsular. Criou-se a mentalidade de que ao invés de
trabalhar, todos deveriam ser soldados e se tornar conquistador. Enquanto as outras
nações europeias se desenvolveram no âmbito da indústria e do comércio, enxergando no
trabalho o meio para o crescimento do país, Portugal e Espanha se detiveram em explorar
ao máximo as colônias, arrancando delas as suas riquezas naturais. A partir disso, não se
trabalhava mais para a evolução do trabalho e da mão de obra do país; os cidadãos
pensavam somente em enriquecimento rápido, à custa de mão de obra escrava, como
fizeram com o Brasil. O povo português tomou antipatia ao trabalho. Além da indústria e do
comércio, as outras nações europeias buscaram crescer na ciência, enquanto Portugal e
Espanha continuavam com sua política extrativista. Portanto, Portugal, no século XIX,
estava tão longe dos outros países europeus justamente porque não conseguia se livrar
das ideias extrativistas dos conquistadores do século XVI. Portugal parou no tempo.
Quental termina seu artigo apontando possíveis soluções para os problemas
citados: para combater a decadência moral suscitada pelo catolicismo, deve-se buscar a
liberdade moral, através da filosofia e das ciências. Em relação ao absolutismo, deve-se
combatê-lo com a federação, dando soberania à vida municipal, a fim de alcançar
radicalmente a democracia, fim último da política. Por último, a inércia industrial causada
pelos ideais conquistadores deve ser oposta à iniciativa do trabalho livre, promovendo a
indústria, o comercia e a ciência, enxergando neles o caminho para a prosperidade
nacional.