Você está na página 1de 82

LEITURAS

• Introdução à Lógica Dialética — Caio Prado Jr.


• Logo: Computadores e Educação — Seymouor Papert
• Marx, Lógica e Política — Ruy Fausto
• A Razão Cativa — As ilusões da consciência: de Platão a
Freud — Sérgio Paulo Rouanet

Coleção Encanto Radical


• Sócrates — 0 sorriso da razão — Francis Wo/ff

Coleção Primeiros Passos


• 0 que é Ética — Álvaro L. M. Valls
• 0 que é Filosofia — Caio Prado Jr.
Carlos Lungarzo

O QUEÉ
LÓGICA

editora brasiliense
1989
Copyright© Carlos Lungarzo
Capa e ilustrações:
May Shuravel, sobre
ilustrações de John Tenniel
Revisão:
Danilo Morales
ISBN: 85-11-01215-X

Editora brasiliense S.A.


rua da consolação, 2697
01416 - são paulo - sp.
fone (011) 280-1222
telex: 11 33271 DBLMBR
ÍNDICE

— Reconhecimentos 7
— De que estão falando os lógicos 9
— Lógica, pensamento e linguagem 30
— Como funciona a lógica 55
— O que fazer com a lógica? 73
— Indicações para leitura 76
A Fabrizio,
a Guilherme
e a Cristina
RECONHECIMENTOS

Este livrinho visa informar sobre o que estão fa-


lando os lógicos ao público em geral. A audiência
não é apenas o estudante de ciências exatas, huma-
nas ou biológicas, ou o leitor interessado em filoso-
fia. Pela importância da lógica para ciências da com-
putação, lingüística e psicologia, acredito que um
público maior pode se interessar por esses temas.
Como a coleção pretende atingir um campo
amplo, tentei tornar o texto acessível a qualquer lei-
tor que tenha concluído o primeiro grau e seja "cu-
rioso", porém nem sempre interessado no tema.
A tarefa, embora não pareça, foi difícil. Lógica
abrange desde os raciocínios triviais do dia-a-día até
as mais raras técnicas matemáticas.
0 texto foi redigido várias vezes, no intuito de
me aproximar do leitor geral, daquele que poderia
8 Carlos Lungarzo

curtir a leitura desse tema na coluna de um jornal,


ou na seção cultural de uma revista de divulgação.
Procurei também atender o estudante interessado,
de modo que não ficasse totalmente desapontado.
Objetivos incompatíveis? Não sei. Você o dirá.
Para avaliar da melhor maneira possível o nível
do texto, consultei várias vezes meu filho mais ve-
lho. Guilherme (11 anos), que me sugeriu algumas
maneiras de pôr as questões.
Também agradeço ao editor, o lendário Caio
Graco, graças a quem comecei a revalorizar a divul-
gação científica como gênero legítimo de comuni-
cação.

Campinas, inverno de 1988


Carlos Lungarzo
DE QUE ESTÃO FALANDO
OS LÓGICOS

A palavra "lógica"
O objetivo deste livro é interessar ao leitor sem
conhecimentos da matéria no uso filosófico e cien-
tífico da palavra "lógica".
Apesar do caráter específico desse uso, a aná-
lise de nosso emprego da p a l a v r a "lógica" na vida
comumpode nos aproximar bastante do sentido
técnico.
Sem dúvida, você já ouviu muitas vezes essa
palavra, especialmente como adjetivo. Procure lem-
brar quando e por que você ouviu o termo "lógica"
e qual era o significado que tinha para você.
Fala-se, por exemplo, numa "conduta lógica".
Assim, qualifica-se às vezes um comportamento re-
10 Carlos Lungarzo

gido pelo bom senso, sensato e judicioso, É lógico


ajudar os amigos, é lógico ser solidário com as ou-
tras pessoas, é lógico desenvolver uma ordem social
e política mais humana, e assim por diante...
Mas, com que aspecto você relaciona "iló-
gico"?
No uso corrente, "ilógico" está vinculado a
tudo o que é contrário ao "razoável" ao bom sen-
so, a tudo o que parece absurdo, descabido, inacei-
tável. Lembre-se de alguns usos que fazemos, con-
tinuamente, dessa palavra.
É ilógico que um país em desenvolvimento sa-
crifique suas riquezas. É ilógico que se produzam
poucos medicamentos. É ilógico privilegiar os opor-
tunistas etc.
Nestes exemplos, o adjetivo "lógico" e seu con-
trário, "ilógico", foram aplicados a ações, compor-
tamentos, situações em geral. O uso técnico dessas
palavras é, porém, mais próximo dos seguintes. Um
discurso lógico. Um argumento lógico. Raciocínios
lógicos. Um parecer com boa lógica. Uma discussão
sem lógica nenhuma.
Talvez você pense que, nesses exemplos, o em-
prego da palavra é extremamente semelhante aos
casos anteriores. Há, porém, uma diferença. Nesses
exemplos estamos qualificando de ''lógicas" ou "iló-
gicas" atividades relacionadas com o raciocínioe a
linguagem. Não são comportamentos quaisquer;
são objetos que possuem certo "parentesco": argu-
mentos, discursos, discussões, todos eles visam a
12 Carlos Lunearzo

justificar ou a expor certos pontos de vista.


Estamos aqui bem mais próximos do uso téc-
nico.
Vamos supor que você assiste pela TV a uma
palestra de um economista, que mostra que o paga-
mento de nossa dívida externa é uma das causas de
inflação. É provável que, depois de refletir um pou-
co, você diga: "é lógico".
Que foi que você quis dizer exatamente? Tal-
vez sua afirmação tenha sido apenas um modo de
expressar seu acordo com o conferencista. Mas
você quis dizer também que os argumentos, as ra-
zões, os motivos expostos eram justificáveis.
Isso quer dizer que costumamos qualificar de
lógico um certo raciocínio, quando, pelo menos se-
gundo nosso entendimento, ele é justificável. Isso
significa que qualificar de "lógico" um certo pensa-
mento ou um certo discurso equivale a reconhecer
que ele foi produzido de maneira correta.
Ora, que entende você por correto?
Eu posso fazer um raciocínio para convencer
meu chefe para que me dê um aumento de salário.
Embora ele fique persuadido e, no final, me conceda
o aumento, isso não significa que o raciocínio seja
correto. Pode ter sido apenas eficiente.
Pode acontecer, por exemplo, que eu tire, como
resultado de meu raciocínio, uma conclusão que não
está suficientemente justificada. Veja só este exem-
plo.
O que é Lógica 13

Exemplo — Nilton gosta de carne, porque ele é bra-


sileiro, e todo gaúcho gosta de carne.

Deixe seu bom senso agir, e pense por que este


raciocínio não merece ser considerado correto.
Veja: contém a expressão "porque ele é brasi-
leiro, e todo gaúcho..." Embora não tenha sido dito
por extenso, parece que o significado é este:
Nilton é brasileiro, e
então Nilton é gaúcho.
0 raciocínio que o leva a afirmar que Nilton é
gaúcho parte do suposto de que Nilton é brasileiro.
Pois bem, este é um exemplo de raciocínio in-
correto. Você não pode tirar a conclusão de que Nil-
ton é gaúcho, porque um brasileiro pode ser nordes-
tino, paulista, mineiro etc.
Logo, esse raciocínio não seria "muito lógico".
Ora, como é que podemos caracterizar melhor ló-
gica como substantivo? Ou seja, o que é a ciência
chamada lógica?
Embora o leitor não deseje se aborrecer com a
história da lógica, um critério certo para entender o
conteúdo de algumas áreas do conhecimento hu-
mano é observar, pelo menos, as linhas gerais de
seu desenvolvimento. Vamos, então, contar como
surgiu a "ciência lógica".
14 Carlos Lungarzo

Idéia da evolução da lógica


Já falamos do adjetivo "lógico". Qualifica-se
de lógico um raciocínio, um argumento e t c , quan-
do ele pode ser justificado, quando, digamos, e|e é
"razoável".
Será então que a lógica é a ciência da razão, a
ciência do racional? Há "algo" de verdade nessa
suspeita. Mas ela exige maior exatidão.
0 filósofo grego Aristóteles, que viveu no sé-
culo IV a . C , é considerado o pai ou criador da ló-
gica. Para começo de explicação, o leitor deve saber
que o nome "lógica" é posterior a Aristóteles, o qual
criou a lógica sem lhe dar um nome.
A palavra "lógica" deriva de um termo grego,
empregado por Aristóteles, mas também o foi antes
e depois dele. A palavra grega lógos significa algo
parecido a "razão". De fato, Aristóteles expressa
que o homem é diferente de outros seres porque
"ele possui o poder da fala, da linguagem". Para
dizer isto, Aristóteles usa a palavra "razão".
É provável que você tenha ouvido dizer que
muitos filósofos davam esta definição de homem: o
homem é o único animal racional. Esse "ditado"
vem de Aristóteles. Na realidade, o que ele disse é
que o homem tinha a propriedade da linguagem, de
poder se expressar, se comunicar. Lógos_ significa
geralmente "discurso", "linguagem" etc. Na forma
em que foi empregada pelos autores antigos, essa
linguagem aproxima-se da noção de "linguagem ra-
O que é Lógica 15

cional".
Você é convidado(a) a aceitar certas afirmações
sem muita justificação. Este não é um texto técnico;
visa apenas despertar seu interesse sobre o que é
que os lógicos estão falando. Assim, aceite que,
para os a n t i g o s a lógica era uma "ciência" do dis-
r

curso racional.
Porém, há vários conceitos de racional. Para
não complicar nossa exposição, vamos nos restrin-
gir a certos estilos de raciocínio, justamente aqueles
que na atualidade, vinte e poucos séculos depois,
são considerados o objeto de estudo da lógica.
Para Aristóteles, a lógica não parece ser uma
ciência. Antes de tudo, ela é um instrumento, uma
ferramenta, um método para as ciências. Seria, di-
gamos. um "caminho" para raciocinar corretamen-
te. Em sua lógica, considera os tópicos que estuda
como incluídos na metodologia das ciências. De fa-
to, a lógica é uma ferramenta, ou, como passou a
ser chamada depois sua obra, um Organon para as
ciências.
Assim, a lógica precede as ciências, aparece
antes, é prioritária.
Existe na lógica de Aristóteles, e dentre seus
estudos l[ogicos um que é de nosso interesse: a ló-
gica dedutiva.
Para lidar com esse assunto, vamos explicar o
que se entende por dedução. Cabe advertir a você
que não estamos fazendo história da lógica; por isso,
nem sempre nossas afirmações são as mesmas dos
16 Carlos Lunsarzo

lógicos clássicos. Mas o objetivo é transmitir o espí-


rito da lógica moderna originada na lógica clássica.
Todos nós sabemos, ou achamos que sabemos
0 que é uma dedução. Se você gosta de romances
policiais, pense no famoso detetive inglês Sherlock
Holmes. Se você curte literatura mais sofisticada e
recente, recorde 0 Nome da Rosa.
Sherlock Holmes causava surpresa a seu amigo
Watson, tirando conclusões de certos dados ou in-
formações que encontrava durante as investiga-
ções. A partir do conhecimento de algumas situa-
ções, ele deduzia o que poderia ter acontecido no
local do crime e afinal encontrava o culpado.
Holmes raciocinava. Porém, nem todo raciocí-
nio é uma d e d u ç ã o . Ele usava raciocínios dedutivos;
as vezes, também raciocínios não dedutivos. Penso
que é oportuno oferecer um exemplo sobre isso.
Em geral, um raciocínio é uma seqüência de
pensamentos ou de sentenças nas quais você ex-
pressa esses pensamentos
A seqüência que constitui o raciocínio tem:
• Algumas sentenças que você já tem e que
são o ponto de partida para raciocinar.
• Uma sentença final que você "tira" das ou-
tras sentenças. Esta é a conclusão de seu raciocínio.

Exemplo — Eis um raciocínio com quatro senten-


ças:
Ontem, havia nuvens no céu.
Depois, choveu.
O que é Lógica 17

Hoje também há nuvens.


Então, hoje choverá.

As primeiras três sentenças são dados, já dis-


poníveis. Sabemos que ontem tinha nuvens, que
choveu depois, e que hoje há nuvens. Não temos,
porém, o dado de que hoje chove, ou choveu. Mas
nós concluímos (tiramos a conclusão) que choverá.
Por quê?
Estivemos raciocinando por analogia. A situa-
ção de hoje é bem semelhante à de ontem: há nu-
vens no céu. Pensamos, então, que deve acontecer
o mesmo que ontem: chover.
Nosso raciocínio não é descabido: é possível
que chova. Se as nuvens causam a chuva, e a si-
tuação é muito semelhante, hoje poderemos ter no-
vamente chuva.
Falta-nos, porém, certeza. Ainda que os supos-
tos para nosso raciocínio, ou seja, as sentenças que
já conhecemos, sejam verdadeiros, a conclusão
pode ser falsa. Por sinal, quantas vezes você já não
se enganou?
Os raciocínios desse gênero não são dedutivos.
Qual é a diferença? Repare no próximo exemplo.

Exemplo — Imagine um estrangeiro que nunca ou-


viu falar no Brasil. Contudo, ele dispõe
de algumas informações, contidas nas
seguintes sentenças:
0 Brasil é um país latino-americano.
18 Carlos Lungarzo

Todos os paulistanos são do Brasil.


Mesmo desconhecendo o que significa
a palavra "Brasil" ou "paulistano", ele
pode tirar a seguinte conclusão:
Todos os paulistanos são latino-ameri-
canos.

Observe as diferenças entre os dois exemplos.


No segundo exemplo, você tem certeza abso-
luta de que, as duas sentenças precedentes são
verdadeiras, então a conclusão é verdadeira neces-
sariamente, No primeiro exemplo, isso não acon-
tece. Mesmo que hoje tenha nuvens, não é possível
garantir que hoje choverá. Podem existir inúmeros
fatores desconhecidos que façam com que hoje não
chova.
No segundo exemplo, fomos capazes de tirar a
conclusão, mesmo desconhecendo o significado dos
termos aí incluídos. Pense, por exemplo, no seguin-
te raciocínio (aposto que você não sabe o que sig-
nificam algumas palavras! Eu também não).
Pense:
Kaiton é um país do planeta Stix.
Todos os Xinpis são de Kaiton.
Você não precisa conhecer astronomia, nem
qualquer outra ciência, para tirar a conclusão:
Todos os Xinpis são Stixienses.

Existem raciocínios, do estilo do exemplo dos


paulistanos e do dos Xinpis, em que você não pre-
O que é Lógica 19

cisa do conteúdo para extrair a conclusão. Isso não


se aplica ao exemplo da chuva, em que você teve
em conta fatos reais.
Nos últimos dois exemplos, nós tiramos a con-
clusão usando apenas a forma, sem qualquer refe-
rencia ao conteúdo. Por enquanto, chamamos for-
ma ao aue fica depois de tirar o conteúdo, ou seja,
o significado.
Observe ainda que o simples conhecimento da
forma pode nos garantir a verdade da conclusão,
desde que os supostos sejam verdadeiros.

Exemplos de deduções — Considere como supos-


tos as seguintes sentenças:
João é mais velho do que Nilton.
Nilton é mais velho do que Nelson.
Com base nesses "supostos", você pode
tirar a conclusão:
João é mais velho que Nelson.

Para obter essa conclusão, você não precisa co-


nhecer esses caras, nem mesmo saber se eles exis-
tem. Mas foi preciso saber que a expressão "é mais
velho do que" expressa uma relação que se trans-
mite de um sujeito a outro. Ou seja, você necessitou
conhecer algo relativo à forma das sentenças.
Um exemplo típico de dedução é um dos racio-
cínios estudados por Aristóteles.
Veja este caso:
Todo mamífero é animal.
Todo cavalo é mamífero.

Destas duas sentenças, podemos tirar a seguin-


te conclusão:

Todo ca valo é animal.

Aristóteles estudou de modo especial as dedu-


ções dessa última classe, que foram depois chama-
das silogismos. O exemplo anterior de silogismo é o
mais tradicional, o que ficou como protótipo de ra-
ciocínio dedutivo. As propriedades desses silogis-
mos são as seguintes:
— Possuem duas sentenças, que servem como
ponto de partida para a dedução: elas são denomj-
nadas premissas. Das premissas decorre uma sen-
tença, c h a m a d a conclusão.
Tanto as premissas quanto a conclusão são sen-
tenças que têm um sujeito e um predicado. 0 su-
jeito e o predicado são "modificados" (ou vincula-
dos) por certas palavras que mamos palavras lÓ-
gicas.
Por exemplo:

Palavra lógica Sujeito Palavra lógica Predicado

Todo mamífero é animal


Todo cavalo é mamífero
Todo cavalo é animal
O que é Lógica 21

Temos várias palavras lógicas. Além de "to-


dos" e " é " , são palavras lógicas "existe algum",
" o u " , "se... então", "não", e outras. As palavras
lógicas são "operações" que relacionam sujeito è
predicado, ou vários sujeitos, ou várias sentenças,
ou que são postas no início de uma sentença etc A :

propriedade das palavras lógicas é que elas não têm


significado independente. Elas " c o n t r i b u e m " para o
significado das sentenças onde aparecem. Digamos,
elas expressam algo assim como as operações do
pensamento".
É possível afirmar que Aristóteles foi o "pai" da
dedução. Mas a dedução não acabou aí. Da época
de Aristóteles restaram heranças: o conceito de for-
ma de um raciocínio: por esse motivo, nossa lógica
é chamada lógica formal. 0 estudo sistemático de
vários tipos de raciocínio, entre os quais o silogismo.
Um estoque de regras ("receitas") para raciocinar
dedutivamente.
Os progressos da lógica, na época antiga e me-
dieval, não são desprezíveis, como às vezes se acre-
dita, mas também não mudam muito a imagem des-
sa Ciência. As novas propostas importantes apare-
cem no século XVII. O filósofo e matemático alemão
Leibniz sugere a possibilidade de transformar o ra-
ciocínio numa espécie de cálculo, considera que os
métodos da matemática devem se estender até
abrnger a totalidade do conhecimento.
A idéia de Leibniz era, mais ou menos, esta:
"Se a gente argumenta na maneira usual, é di-
22 Carlos Lungarzo

fícil chegar a um acordo. Vamos transformar os


raciocinio em cálculos e obter as conclusões
como se fossem resultarlos aritméticos".

A proposta de Leibniz era muito ambiciosa. É


evidente que nem todo raciocínio pode ser trnasfor-
mado num calculo. A riqueza da mente humana é
muito grande em relação às possibílidades de ex-
pressão de um simples calculo. Mas parte desse
projeto é desenvolvido desde meados do século XIX.
Sucessivamente, o inglês Boole, o alemão Frege e o
inglês Bertrand Russell, seguidos de muitos outros,
começaram a construir a lógica atual.

O que entendemos hoje por lógica?


A partir do século X V I , a palavra "lógica" foi
usada para se referir a ciências ou atividades dife-
rentes, vamos nos restringir a uma das acepções.
a que é considerada na atualidade pelos filósofos e
cientistas. Nossa noção de lógica é a de lógica for-
mal.
Observe algumas das características que nossa
lógica deve possuir:
A lógica ocupa-se do raciocínio. Mas, nossa ló-
gica, a que nós aceitamos em nossos estudos mexe
apenas com o raciocínio dedutivo. Trata-se. pois,
de uma lógica formal e dedutiva.
Como o leitor está lembrado, as deduções po-
O que é Lógica 23

dem ser justificadas com base na forma, sem consi-


derar o conteúdo. Isso explica o adjetivo de lógica
formal.
O conceito de forma lógiça não é simples. Os
estudiosos do assunto não Tiveram, ainda, êxito
completo para a definir. Contudo, podemos nos
aproximar dela com alguns exemplos. Veja:
Alguns estudantes são paulistas.
Por sinal, observe que nem sempre você preci-
sa de duas sentenças (premissas) para começar uma
dedução. Citamos exemplos de duas premissas só
porque estávamos mais interessados no silogismo
clássico. Mas nem toda dedução é um silogismo.
Uma dedução pode ter uma quantidade qualquer de
premissas.
Ora, voltemos à nossa premissa anterior.
Você poderia deduzir, a partir dela, a seguinte
conclusão:
Alguns paulistas são estudantes.
Talvez você pense: sim. Está certo! Mas, como
você procedeu? Você não precisa saber que são os
paulistas, nem que são os estudantes. Você não
precisa conhecer o conteúdo. Atente para o que
ocorre com o seguinte raciocínio, que tem a mesma
forma do precedente.
Premissa: Alguns cariocas são médicos.
Conclusão: Alguns médicos são cariocas.
A conclusão foi obtida da premissa, segundo
nosso senso comum, de maneira correta. Entretan-
to, essa correção nada tem a ver com os médicos e
24 Carlos Lungarzo

os cariocas. De modo análogo, no exemplo anterior,


não tinha nada a ver com paulistas e estudantes.
Como é que nós "tiramos" a conclusão da pre-
missa?
Foi por causa da forma lógica.
O Método seguinte mostra de que maneira a
forma lógica permite extrair uma conclusão de uma
(ou. às vezes, várias) premissa.
Você substitui a palavra "estudantes" por A e
"paulistas" por B. Ou, no caso de usar o segundo
exemplo, substitui "cariocas" por A e "médicos"
por B.
O uso de letras não será desconhecido para
você. Ainda se recorda das últimas séries do 1º
grau? Usavam-se letras para indicar números quais-
quer, números indeterminados.
Feita essa substituição, a premissa do primeiro
exemplo fica assim:
Alguns A são B.
Mas, o que acontece com a premissa do segun-
do exemplo: "Alguns cariocas são médicos"? Pois
bem, acontece o mesmo; o resultado é igualmente:
Alguns A são B.
Observe, pois: embora as duas sentenças te-
nham diferentes conteúdos (uma fala em estudantes
de São Paulo, a outra de médicos do Rio de Janei-
ro), as duas têm a mesma forma.
Isto faz pensar que, em ambos os exemplos, a
forma da conclusão será a mesma. Com efeito, a
conclusão, nos dois casos, é:
O que é Lógica 25

Alguns B são A.
Logo, você fez o seguinte raciocínio:
Premissa: Alguns A são B.
Conclusão: Alguns B são A.
Você poderia tê-lo feito sem os casos particu-
lares estudados anteriormente, sem mexer com pau-
listas, estudantes, médicos e cariocas.
Que coisa provam todas essas considerações?
Que foram usadas apenas as palavras lógicas "al-
guns" e "são", e as letras A e B, que são como pa-
Iavras indeterminadas, palavras "quaisquer". O que
você obteve, tirando as palavras concretas e pondo
essas letras, foi a forma lógica.
Há um modo fácil e interessante para conferir
se a dedução é correta, ou seja, se a conclusão
"realmente" decorre da premissa.
Considere uma figura que pode ser, por exem-
plo, um círculo ou algo semelhante. Você considera
essa figura como o conjunto ou classe de objetos
correspondentes a nossa letra A. Por exemplo, no
caso concreto dos estudantes paulistas, nosso "cír-
culo" indica o conjunto de estudantes.
Desenhe agora outro "círculo". Este representa
os objetos correspondentes a B. No primeiro exem-
plo, seriam os paulistas. No segundo exemplo, tí-
nhamos "Alguns cariocas são médicos". Então,
"cariocas" é o sujeito e "médicos" o predicado.
Neste caso, A corresponde a cariocas e B a paulis-
tas.
26 Carlos Lungarzo

Não esqueça que traba-


lhamos com a forma lógica:
Alguns A são B.
Que significa isto? Signi-
fica que o "círculo" que con-
tém os A tem alguns elemen-
tos em comum com o círculo
B. Ou seja, existem alguns
elementos que são A e são B.
Isso é evidenciado no dese-
nho, por exemplo, sombrean-
do a parte comum. Suponha-
mos que o sombreado signi-
fica que essa parte não é va-
zia.
Ora, os "alguns" de A que estão em B são os
mesmos "alguns" de B que estão em A. Donde,
você pode tirar a seguinte conclusão:
Alguns B são A.
Isso significa que tanto faz "pensar" primeiro
os elementos comuns como elementos de A que es-
tão em B, como pensá-lo de modo inverso; ou seja,
são elementos de B que estão em A.
Observe — Não precisamos saber quem era A
nem quem era B. Nossos exemplos mencionavam
estudantes, paulistas, médicos e cariocas; poderiam
ter mencionado números, cidades, pessoas etc. O
resultado seria o mesmo. 0 conteúdo não é impor-
tante. Só importa a forma.
A lógica atual é uma continuação, porém muito
O que é Lógica 27

mais desenvolvida, da lógica clássica. Contudo essa


nova lógica usa certos mètoaos e conceitoss desco-
desconhecidos na lógica clássica. Várias palavras foram
boladas para diferenciar os dois tipos de lógica.
A lógica atual, que é pesquisada e ensinada nos
institutos e escolas" ae nossa epocá, recebe, ás ve-
zes, a denominação de lógica moderna. Embora ela
possua características próprias, não é oposta ou.
"inimiga" da lógica clássica. Trata-se de uma versão
muito mais rica e abrangente, que "contém" a ló-
gica antigár"'
o leitor deve estar atento para o tato de certos
autores empregarem outros adjetivos ao se referir à
lógica moderna. Um deles é lógica simbólica. Isso
porque a lógica moderna usa, de maneira constante,
símbolos especiais, como a álgebra e outros ramos
da matemática. Também fala-se em lógica matemá-
tica. Esta expressão é discutível. De fato, a lógica
matemática é um estilo de lógica moderna que usa
métodos matemáticos. Às vezes, ela é considerada
parte da matemática.
Vamos abordar simplesmente a lógica moder-
na, a qual já sabemos que é formal e dedutiva.
" Nossa lógica tem diversos graus de complexi-
dade. Falou-se que a lógica lida com deduções, Ha-
verá o caso de deduções muito simples como o do
silogismo, e o caso de outras complexas. Limi-
temo-nos a uma lógica exprimível em linguegem
simples. Será a linguagem "mais simples" que p o s -
samos bolar, desde que ela seja suficiente para co-
28 Carlos Lungarzo

municar as noções básicas da vida diária e da ciên-


cia.
Por isso, nossa lógica, que é a lógica formal,
dedutiva, moderna, merece mais um qualificativo:
elementar.
O leitor nos permitirá uma divagação. Existem
várias classes de lógica elementar. Como é que se
classifica? Vamos dar um exemplo:
Desde os tempos antigos, a maioria dos filóso-
fos (porém não todos) aceitava um "princípio", cha-
mado de identidade. Um modo de expressar esse
princípio era, mais ou menos, o seguinte:
Todo objeto é igual a si mesmo.
Este é o chamado princípio de identidade.
Pouco depois, a lógica "adotou" esse princípio
e considerou-o uma das bases de seu pensamento e
de suas "teorias".
Outro princípio também muito conhecido é o
de não contradição. Uma das maneiras de o formu-
lar é a seguinte:
Uma sentença não pode ser (simultaneamente)
verdadeira e falsa.
A lógíca moderna, formal e dedutivo usualmen-
te aceita esses e outros "princípios" que parecem
muito evidentes. Essa classe de lógica moderna, ele-
mentar, é denominada lógica clássica.
Atenção: clássico não quer dizer "antigo";
um certo tipo de lógica moderna é clássico quando
aceita aqueles princípios.
Você pode, sem dúvida, perguntar-se: que é
O que é Lógica 29

isso? Porventura, existem lógicas que não os acei-


tam? Existem, sim. Embora elas não sejam as mais
conhecidas, são de utilidade em certos campos de
estudo.
Mas não vamos complicar nossa vida. De agora
em diante, lógica quer dizer apenas isto: lógica for-
mal, dedutiva, moderna, de caráter ou "tipo" clás-
sico.
LÓGICA, PENSAMENTO
E LINGUAGEM

Os conceitos
As concepções tradicionais consideravam a ló-
gica um estudo ao pensamento. E que é o pensa-
mento? Sob que ponto de vista ele é estudado pela
lógica?
A Lógica não é a única ciência preocupada com
o pensamento. Como atividade individual, o pensa-
mento é também assunto da psicologia. Por sua vez,
sendo um fenômeno condicionado pelo ambiente,
pode ser mesmo um tema de interesse sociológico.
A lógica não está preocupada com processo
real de produção do pensamento. Pelo menos, não
a lógica formal pura. As vezes, pode estar interes-
sada nisso a lógica aplicada à psicologia, educação
O que é Lógica 31

e áreas a f i n s .
Igualmente, o pensamento é objeto de interesse
da filosofia pura. Existem várias áreas da filosofia
preocupadas com o problema do pensamento, mas
de um ponto de vista diferente do lógico.
Quer dizer, filosofia, psicologia e outras disci-
plinas lidam com o pensamento. Que é que restou
para a lógica?
Os autores tradicionais tinham uma resposta:
o assunto da lógica não é conteúdo mas a forma do
pensamento. Talvez essa afirmação não esteja mui-
to clara para você. Já vimos alguns exemplos e va-
mos dar outros.
0 pensamento tem um conteúdo, ou seja, trans-
mite certa dose de informação, de "conhecimento"
com a qual o pensamento trabalha. Mas esse pen-
samento pode ser analisado de outros pontos de
vista.
Vamos supor que eu pense o seguinte:
Este objeto é um cabo de aço.
Portanto, ele conduz a eletricidade.
Este pensamento será estudado de diversos
pontos de vista. Por exemplo, um psicólogo espe-
cialista em problemas de pensamento estará interes-
sado em saber como é que eu "produzi" esse pen-
samento. Por exemplo, eu tinha a experiência do
que é aço. Associei o conceito de metal com a pro-
priedade de conduzir a eletricidade, e assim por
diante.
Um especialista em sociologia do conhecimento
32 Carlos Lungarzo

poderá ter interesse por meu pensamento, porém,


de outra perspectiva. Levará em conta que vivo
numa sociedade moderna, onde a eletricidade cons-
titui serviço de uso corrente. Ele avaliará o fato de
que eu tenho contato com objetos elétricos e metá-
licos etc. Este raciocínio, é claro, não poderia ter
sido feito por um cidadão de uma vila medieval.
Ora, meu pensamento também tem um conteú-
do. Esse não é, entretanto, problema do lógico. 0
conteúdo é um problema do físico. Ao físico caberá
decidir se cada uma das sentenças é verdadeira. 0
aço é facilmente identificável; que ele conduza ele-
tricidade é uma propriedade dos metais etc.
0 que é que resta para o lógico?
0 lógico vai dizer: este pensamento tem a for-
ma de um raciocínio. Ele tem uma premissa: "este
objeto é um cabo de aço". E também tem uma con-
clusão: "ele conduz eletricidade". Nesse raciocínio
aparece um pensamento adicional: "portanto". Ou
seja, parti da premissa de que este objeto era um
cabo de aço e deduzi que conduzia a eletricidade;
o "portanto" foi um pensamento que encadeou a
premissa com a conclusão.
Não há, porém, evidências de que eu tenha ra-
ciocinado formalmente. Alguém poderia responder
assim: " A h ! você tirou essa conclusão porque você
sabe o que é a eletricidade e o que são os metais".
É possível. Contudo, se quisermos mostrar que
apenas a forma foi usada em nosso raciocínio, po-
deríamos reconstruí-lo de modo pormenorizado.
O que é Lógica 33

Este objeto é um cabo de aço.


Todo aço conduz a eletricidade.
Então, este objeto conduz a eletricidade.
Observe agora que seu raciocínio não exige ne-
nhuma informação. Você pode mesmo não saber se
existe algo chamado eletricidade. Basta usar a for-
ma:
Este objeto é de certa classe A (no caso, aço).
Os objetos da classe A têm a propriedade B
(conduzir eletricidade).
Portanto, este objeto tem a propriedade B.

Estes exemplos, bem como os exemplos da se-


ção anterior, visam mostrar que o l ó g i c o fica apenas
com aqueles c o m p o n e n t e s do pensamento que têm
a ver com sua correção, ou sua validade.
Para melhor esclarecer, atente no exemplo de
um pensamento que "parece" um raciocínio, porém
não é correto:

Algum paraibano é engenheiro.


Portanto, todo paraibano é engenheiro.

A conclusão não d e c o r r e das premissas, Para


começar, a conclusão é falsa, e a premissa é ver-
dadeira. Tiramos uma conclusão falsa de uma pre-
missa verdadeira. Isso tem algo que parece absurdo
ao senso comum.
Além disso, se ficamos apenas com a forma,
obtemos uma expressão como esta:
34 Carlos Lungarzo

Algum Pb é En,
Portanto, todo Pb é En.

0 diagrama mostra que este raciocínio está


"malfeito".
A parte comum à
classe En (dos engenhei-
ros) e à classe Pb (dos
paraibanos) não é vazia.
Isso mostra que existem
paraibanos que são enge-
nheiros, ou, o que dá no
mesmo, engenheiros que
são paraibanos. Você po-
de comparar com nossos
exemplos de paulistanos, cariocas, médicos e enge-
nheiros.
Mas daí não decorre que todo paraibano é en-
genheiro. Tal ocorreria apenas se a classe dos parai-
banos estivesse totalmente contida na dos enge-
nheiros.
Os lógicos tradicionais usaram esse fato, o de
que a lógica estuda apenas a forma, para dizer:
" A lógica estuda as estruturas do pensamen-
to".
Eles falavam em "estrutura" no sentido de for-_
ma, do que permanece depois de tirar o conteúdo.
Ou saja, consideravam a lógiica uma disciplina, uma
área de conhecimento que tão-só mexe com as for-
mas: não mexe com o conteúdo, que é assunto de
O que é Lógica 35

cada ciência particular; não mexe com a "fabrica-


cão" do pensamento etc.
Não há razão para abandonar completamente
esse ponto de vista. A descoberta de que é a foma,
e não o conteúdo, o objeto da Iógica encerra grande
interesse. Precisa. contudo,fazer jus a descobertas
modernas.
Mais ainda: como é que nós chegamos à for-
ma?
Aqui temos uma resposta que talvez não seja a
única possível, mas habitualmente é a mais aceita:
pela abstração.
Seja um pensamento:
Todo ferro é magnético.
Podemos abstrair o conteúdo real, o fato. Ele é
de interesse do físico. Abstraímos depois as motiva-
ções psicológicas, sociais, até biológicas que eu tive
para pensar em ferro e em propriedades magnéticas.
Que resta?
Resta um pensamento que tem:
Uma classe de objetos com a propriedade de
ser de ferro. Do ponto de vista lógico, esta é uma
propriedade como qualquer outra. Simplesmente
posso dizer propriedade A. Logo, penso que meus
objetos têm a propriedade de ser magnéticos. A
ela denomino propriedade B.
Observe que o conteúdo ficou "oculto" dentro
destas classes "desconhecidas" que chamamos de
A e B.
Restam ainda dois conceitos que são puramen-
36 Carlos Lungarzo

te lógicos.
0 primeiro é o conceito de totalidade, expresso
na linguagem por intermédio da palavra todo.- o se-
gundo consiste no que "relaciona" o conceito "su-
jeito" com o conceito "predicado"; expressamos
isso pela palavra " é " .
Finalmente, temos a forma:
Todo A é B.
A lógica desenvolve todas as suas teorias, suas

de formas, de estruturas...
Ainda é cedo para dar uma idéia dos múltiplos
problemas com que se envolve a lógica. Mas pode-
mos adiantar alguns:
• Dados dois conceitos, o lógíco pode ter inte-
resse em saber qual é mais abrangente.
• Dados dois conceitos, o lógico pode se inte-
ressar em relacioná-los. Por exemplo, dados os con-
ceitos de gato e de felino, podemos construir um
novo conceito, mais complexo: "Todo gato é fe-
lino". Esse tipo de conceito era denominado, na
lógica antiga e medieval. Juízo. Os juízos afirmam
alguma coisa sobre os fatos, dizem algo sobre a rea-,
lidade; podem ser verdadeiros ou falsos.
Se temos "Vários" juizos, um problema fre-
qüente (aliás, o problema "favorito" dos lógicos) é
determinar quais são conseqüências ou conclusões
dos outros, ou seja determinar se eles constituem
u m raciocínio.
De fato, os lógicos antigos e medievais chama-
O que é Lógica 37

vam "conceitos" especialmente aos conceitos sim-


ples. Por exemplo:
São conceitos:
0 conceito de homem
O conceito de país
0 conceito de número.
Observe — O conceito é uma entidade abstra-
ta, ideal. Não tem presença física, não é perceptível.
O conceito mesmo não é um objeto do mundo fí-
sico. Mas os objetos aos quais os conceitos se rete-
rem podem sê-lo.
O conceito de homem refere-se ao homem.
Aqui temos duas possíveis interpretações. Uma in-
terpretação genérica: nesse caso, "homem" é o
mesmo que a classe, espécie e t c , de todos os ho-
mens. A outra interpretação concebe o homem
como um homem específico. Você pode reconhecer
qual das duas está sendo usada, de acordo com o
contexto.
Por exemplo, na expressão:
O homem é mortal,
estamos falando genericamente de todos os ho-
mens. Pelo contrário, em:
Este é um homem inteligente,
estamos falando de um homem particular.
A mesma dupla interpretação é possível para o
conceito de país.
0 conceito de número apresenta uma compli-
cação adicional. Você pode se referir a número
como conceito genérico, ou a um número fixo, por
38 Carlos Lungarzo

exemplo, três. Mesmo nesse caso, o objeto a q u e se


refere o conceito é abstrato. Com efeito um número
não é um objeto concreto, real, mas uma abstração.
Aos conceitos complexos, obtidos "relácionan-
do" conceitos simples, os lógicos tradicionais atri-
buem nomes específicos. Por exemplo, um "pensa-
mento" que fala s o b r e certos fatos que afirma al-
r

guma coisa, é chamado de juízo.


Os juízos "descrevem" fatos, estados de coi-
sas, situações. Por sua vez, eles podem ser verda-
deiros ou falsos,
Observemos a construção de um juízo.
Tomemos vários conceitos em separado.
Todo — Este é um conceito lógico puro. Ou seja, ele
não se refere a nenhum objeto. É um conceito que
modifica os outros. Nesse caso ele vai "dizer" que
está se falando de todos os objetos de uma certa
classe.
matemático — Este é um conceito que se refere a
uma classe ou conjunto de objetos, neste caso, pes-
soas. São aquelas pessoas versadas em matemá-
tica.
é — Trata-se de um conceito lógico, que estabelece
uma relação entre dois conceitos mais "concretos";
atribui a certas coisas certa propriedade.
cientista — Este é um conceito da mesma natureza
que "matemático". Refere-se a uma classe de pes-
soas; aquela cuja atividade é a ciência.
Juntemos os quatro conceitos. " T o d o " quali-
fica "matemático". Por sua vez, "matemático" é
O que é Lógica 39

nosso sujeito. 0 " é " dirá que nosso sujeito tem a


propriedade a que se refere nosso predicado: "cien-
tista".
Fica assim:
"Todo matemático é cientista".
Os lógicos tradicionais admitem ainda mais uma
forma de pensamento: o raciocínio. Um raciocínio
é, lembremos, uma seqüência de juízos, na qual a
conclusão decorre de alguma maneira, das premis--
sas.
Veja o seguinte exemplo para entender como a
estrutura de "raciocínio" surgiu da combinação de
estruturas de "juízos" e de "conceitos".
Todo coelho come ervas primeira premissa
Binho é meu coelho de estimação segunda pre-
missa Binho come ervas conclusão.
Para construir esse raciocínio, pensamos três
conceitos específicos: o conceito que refere a classe
dos coelhos, o conceito que refere a classe dos que
comem ervas, e o conceito individual de Binho.
Também pensamos dois conceitos lógicos, ou seja,
gerais, que aparecem em estruturas muito diferen-
ces: todos e é.
Para enfatizar que o último juízo é a conclusão,
deveríamos ter pensado "portanto", "então", ou
algum conceito semelhante. Todavia, é possível que,
às vezes, esse nexo entre as premissas e a conclusão
fique implícito, que não seja pensado claramente.
Ora, com esses conceitos, "fabricamos" dois
juízos: eles já não são conceitos isolados. Cada um
40 Carlos Lungarzo

deles é uma cadeia de conceitos que descreve um


estado de fatos. Cada juízo é verdadeiro ou falso.
O primeiro formula uma afirmação geral relativa à
biologia: os coelhos são herbívoros. O segundo afir-
ma algo particular: meu bicho de estimação, cha-
mado "Binho", é um coelho.
Com base nesses dois juízos, eu "tiro" mais
um, a conclusão, que diz: Binho come ervas. As
duas premissas, relacionadas com a conclusão pela
"relação" de conseqüência, constituem, no total,
um raciocínio.
Observe algumas propriedades deste raciocí-
nio:
— Ele tem algumas propriedades muito parti-
culares. Só tem duas premissas. Elas são de uma
forma especial: a chamada forma universal no pri-
meiro caso, porque você fala de todos os coelhos.
E a forma particular no segundo caso, porque você
fala de Binho.
O que é Lógica 41

Além disso, esse raciocínio é dedutivo. Sua cor-


reção não depende do conteúdo. Você pode garan-
tir que ele é correto pelo fato seguinte: supondo
que as premissas são verdadeiras, então a conclu-
são Também é verdadeira.
Nosso problema não é se as premissas são ver-
dadeiras ou falsas. Esse problema cabe ao zoólogo.
A lógica não se importa se os coelhos comem ervas,
carne ou peixe. É possível mesmo que a segunda
premissa seja falsa. Talvez Binho não seja meu coe-
lho, mas meu cachorro.
Nosso aspecto reside na "relação" entre as pre-
missas e a conclusão. O único aspecto que interessa
saber, do ponto de vista lógico, é que, sempre que
as premissas forem verdadeiras, a conclusão será
verdadeira.

Dedução e verdade
A dedução e a verdade são as duas chaves da
lógica. Mas dedução é algo mais claro, menos ambí-
guo do que verdade. "Ambiguo" quer dizer que tem
vários significados. De fato, o uso corrente da pala-
vra dedução tem um significado bastante claro: ela
é pouco ambígua.
Faça a seguinte experiência: pergunte a qual-
quer pessoa o que ela acha que significa "deduzir".
0 mais provável seria ela falar alguma coisa como
esta: "deduzir é tirar alguma coisa de outra"...
42 Carlos Lungarzo

O lógico, especialista em dedução, é mais exi-


gente. Ele quer uma noção mais precisa, mais exata..
Além disso, quer saber como é que se procede para
tirar conclusões das premissas.
Aqui aparece o conceito de verdade.
Já sugerimos que "verdade" é uma noção mais
complicada do que dedução. Várias escolas filosófi-
cas têm noções diferentes de verdades. Vamos, po-
rém, aceitar uma idéia bastante clássica:
Um iuízo é verdadeiro quando ele é adequado à

Por exemplo, dizer que a neve é branca é ver-


dadeiro, porque a neve é, de fato, branca. Dizer que
o carvão é amarelo é falso, porque o carvão não é
amarelo.
Na época contemporânea, o conceito de ver-
dade, para ser "usado" na lógica, foi elaborado de
forma pormenorizada pelo lógico polonês Alfred
Tarskí, em 1936.
Na relação entre lógica e verdade, há alguns
pontos que merecem esclarecimentos, a saber:
• O lógico nao tem obrigação de lidar com a
verdade específica dos juízos. Por exemplo, no juízo
"
A molécula de oxigênio tem dois átomos", o pro-
blema de saber se ele é verdadeiro ou falso não com-
pete ao lógico. Quem cuida disso é o físico ou o
químico.
• O interesse do lógico é saber o que acontece
com a verdade dos juizos quando ele os utiliza num
r

raciocínio. Por exemplo, uma pessoa diz:


O que é Lógica 43

"O número a é igual ao número b".


0 lógico não pesquisa se este juízo é verdadei-
ro. Ou ainda, se alguém não declara para ele quem é
a e quem é b, ele nunca vai saber. Mas, este outro
problema, sim, é relevante para o lógico:
Supondo que
"a é igual a b" é verdadeiro,
podemos concluir que
"b é igual a a" é verdadeiro.

0 assunto chave para o lógico não é a verdade


dos juízos considerados isoladamente. A verdade de
cada juízo e um dado do problema. 0 assunto do
lógico é a correção do raciocínio. O raciocínio é cor-
reto quando, partindo de premissas verdadeiras,
sempre obtemos conclusões verdadeiras.

A verdade interessa ao lógico no seguinte sen-


tido: conhecendo o valor de verdade das pre-
missas de um raciocínio (ou seja, sabendo se
elas são verdadeiras ou falsas), pesquisar o va-
lor de verdade (verdadeiro ou falso) da conclu-
são.

A esta altura, temos condições de tornar mais


exato nosso conceito de dedução.

Uma dedução é uma seqüência de vários juí-


zos, tais que, alguns deles, chamados premis-
sas, são aceitos como ponto de partida para
44 Carlos Lungarzo

raciocinar. 0 último, chamado conclusão, "de-


corre" das premissas. Uma dedução é correta
quando, se suas premissas são verdadeiras, en-
tão sua conclusão é verdadeira.

Primeiro exemplo — Uma dedução clássica é o


silogismo. Até aqui fornecemos exemplos de silogis-
mos bem clássicos, de duas premissas. Contudo,
podemos imaginar silogismos compostos, por exem-
plo, com três premissas:

Todo argentino é latino-ameri-


cano primeira premissa
Todo latino-americano é ociden-
tal segunda premissa
Nenhum chinês é ocidental terceira premissa
Nenhum argentino é chinês . . . . conclusão.

Para conferir se esse raciocínio é correto, você


pode lançar mão do recurso dos diagramas, con-
forme já foi apresentado. Considere uma figura que
representa os argentinos; outra figura representa os
latino-americanos; outra, os ocidentais; mais uma,
os chineses. 0 fato de uma figura estar contida em
outra significa que os representados na figura con-
tida têm a propriedade dos elementos representa-
dos na figura que a contém. Por exemplo, os argen-
tinos estão dentro dos latino-americanos e estes
dentro dos ocidentais.
Como interpretamos a conclusão?
46 Carlos Lungarzo

Ocidentais

Latino-americanos
Chineses
Argentinos

A conclusão pode ser extraída do seguinte


fato: se os argentinos estão dentro dos ocidentais,
e, além disso, os ocidentais não têm parte comum
com os chineses, então os argentinos não têm nada
em comum com os chineses. Portanto, nenhum ar-
gentino é chinês.
Nossa conclusão foi obtida observando no dia-
grama que também a figura dos argentinos e a dos
chineses não têm elemento comum.

Segundo exemplo — Este não é um exemplo


usual na lógica antiga. Na lógica antiga, todos os
juízos (ou, pelo menos, os mais conhecidos) tinham
a forma de sujeito e predicado, do tipo A é B ou
A não é B etc. Aqui vamos considerar igualdades.
Por exemplo "a = b" quer dizer: o objeto a é igual
ao objeto b.
O que é Lógica 47

Aceitemos que a igualdade é transitiva. Se você


nunca estudou esse tema, vamos recordar-lhe um
enunciado, embora de forma condensada: "Duas
coisas iguais a uma terceira são iguais entre si".
Ora, vamos dar três premissas. Suponha, para
facilitar o entendimento, que a, b, c e d são, por
exemplo, números quaisquer.

(a = b) primeira premissa
(b - c) segunda premissa
(c = d) terceira premissa
(a = d) conclusão.

Essa é uma dedução composta. De fato, você


pode considerar o seguinte:
Das primeiras duas premissas,
(a = b)
(b = c)
você pode tirar uma conclusão intermediária, que
não aparece na lista acima, pois aí está implícita.
Você tira essa conclusão usando o "princípio" de
transitividade: se b é igual a a e a c, então a e c
devem ser iguais entre si. Conclusão parcial:
(a = c).
Agora, você pode usar a terceira premissa.
Combine essa premissa com esta conclusão parcial,
assim:
(c = d)
(a = c)
e aplique novamente a transitividade. O número c
48 Carlos Lungarzo

é igual aaeacd. Então, a e d são iguais. Conclusão


final:
(a = d).
Vários pontos merecem comentário. No exem-
plo dado, observa-se que nem sempre uma dedução
está apresentada de maneira detalhada. Com efeito,
o passo "médio", de onde a gente tirou que (a = c),
não aparecia na dedução inicial. Foi necessário ex-
plicitá-lo.
• Outro ponto crucial diz respeito a como se fa-
zem as deduções. Toda dedução necessita de re-
gras. Chamam-se regras de dedução.
Nas deduções dadas como exemplo, as regras
não eram muito explícitas porque os raciocínios
r

eram muito evidentes. Porém, nos exemplos do silo-


gismo, a regra usada pode ser enunciada do seguín-
te modo: se uma classe de objeto A estava contida
numa classe B e esta numa classe C, então a pri
meira A estava contida na última B....
Esta propriedade das inclusões é o que possi-
bilita interpretar os diagramas. Cada diagrama está
contido no seguinte e assim sucessivamente.
Os autores medievais, e mesmo os antigos, for-
mularam regras bastante pormenorizadas para a de-
dução em forma de silogismo. Mas você não precisa
aprender todas essas regras. De fato, umas poucas
regras intuitivas e mesmo evidentes são suficientes
para lidar com o silogismo.
No caso da igualdade, aceitamos como regra o
princípio de transitividade da relação de "igual".
O que é Lógica
49

As
regras
lógicas de
dedução devem
conduzir de premissas
verdadeiras a conclusões
também verdadeiras.
50 Carlos Lungarzo

Por enquanto, basta saber que uma regra é uma


"receita" que diz quando, de certas premissas, pode
extrair-se legitimamente (corretamente) uma con-
clusão.
Já reiteramos várias vezes que as deduções
preservam a verdade. De premissas verdadeiras, só
é possível obter conclusões verdadeiras. Caso con-
trário, o raciocínio é incorreto.
E natural esperar que as regras satisfaçam tam-
bém essa propriedade. Com efeito, se as deduções
preservam a verdade, as regras de dedução devem
respeitar a verdade.

As regras lógicas dee dedução devem conduzir


de premissas verdadeiras a conclusões também
verdadeiras.

Mais uma observação. Vimos deduções explíci-


tas, onde todos os passos da dedução são detalha-
dos, e deduções "abreviadas", onde alguns passos
estão implícitos. Ao explicitarmos uma dedução, de-
talhando todos os passos e indicando quais foram
as regras usadas, estamos provando ou demons-
trando que essa seqüência de sentenças é uma de-
dução para valer
Nesses casos, falamos em provas ou demons-
trações. Uma prova ou demonstração constitui uma
listagem dos passos que foram usados para deduzir
uma conclusão das premissas. Numa prova, você
tem as mesmas premissas, é claro, você também
O que é Lógica 51

tem a conclusão, mas aparecem passos intermediá-


rios que poderiam não aparecer numa dedução "im-
plícita". No caso das igualdades, o que fizemos foi
demonstrar que das premissas (a = b), (b = c) e
(c = d), você podia deduzir (a = d).

A linguagem
Nossos comentários sobre os conceitos, juízos
e raciocínios, ou seja, as tradicionais "estruturas do
pensamento", eram indispensáveis. Devemos reco-
nhecer uma tradição valiosa.
Em lógica moderna, é preferível esquecer um
pouco do pensamento e falar mais na linguagem.
Eis algumas das razões que devemos considerar:
— Em relação ao pensamento, não é fácil se
despojar de preconceitos que nem sempre estão as-
sociados à lógica.
— Pensamento é algo que embora noções psi-
cologicass,que tem vincuiação com outras áreas da
filosofia etc. É difícil que o pensamento seja consi-
derado um tema neutro, algo que não tenha com-
promisso com certa visão do mundo.
— O pensamento que interessa à lógica é um
pensamento exprimível numa linguagem. Aquilo que
não pode ser refletido na linguagem talvez não seja
de interesse do lógico.
A linguagem é mais acessível do que o pensa-
mento. O pensamento fica dentro da menle,. Apenas
52 Carlos Lungarzo

ao ser transmitido de maneira oral ou por escrito ele


é "liberado". Então, é razoável voltar nossos esfor-
ços não ao próprio pensamento, mas à linguagem
empregada na transmissão desse pensamento.
Ora, que classes de linguagens são interessan-
tes para o lógico? É inevitável o uso das linguagens
naturais ou históricas, as línguas faladas pelos po-
vos. Você transmite suas idéias em português; eu,
em espanhol; outros, em inglês. Já pensou num li-
vro escrito exclusivamente numa linguagem espe-
cial, estranha, inventada só para esses fins? Nin-
guém seria capaz de ler. Também é certo que a lin-
guagem natural tão-só não é suficiente.
Ao mencionarmos a história da lógica, comen-
tamos a proposta de Leibniz de tudo transformar
numa espécie de álgebra. A linguagem construída
historicamente, utilizada pelos povos como meio de
comunicação, é bem mais rica e "natural" que uma
linguagem artificial construída pelos lógicos.
Contudo, uma parte da linguagem da lógica re-
quer maior exatidão do que pode oferecer o portu-
guês ou qualquer outra língua nacional. Imagine um
caso que você conhece das primeiras séries — a arit-
mética.
É fácil ler e entender o significado desta expres-
são:
(3 + 5). (8 + 2) = 80
A estrutura simbólica "penetra" nossa persep-
ção e faz com que descubramos seu significado. A
expressão, na linguagem corrente. é bem mais difícíl
O que é Lógica 53

de captar;

"O número três somado a cinco, e tudo isso


multiplicado pela soma do número oito mais
dois dá como resultado o número oitenta".

Mesmo se essa expressão fosse mais clara para


nós, a sentença é bem mais comprida, menos eco-
nômica e menos elegante. Um texto de aritmética
contendo apenas sentenças em português, sem sím-
bolos especiais, não seria impossível (talvez), porém
insuportável.
Outra dificuldade das linguagens naturais é a
falta de exatidão. Uma palavra pode ter vários signi-

ficados, o que se denomina ambigüidade. Na vida


comum, "dividir" possui vários significados. Na arit-
mética, escolhemos um sinal para a divisão, por
exemplo " / " . Daí em diante, a precisão é absoluta.
A ambigüidade foi eliminada.
— Há outra razão pela qual a lógica requer lin-
guagens especiais. ,0 lógico necessita de um pro-
cesso que evidencie a forma lógica das sentenças
dos raciocínios etc. Isso é chamado formalização.
A passagem do pensamento à linguagem exige
produzir um pouco de "gíria lógica".
Uma vez que os conceitos individuais se expres-
sam na linguagem por nomes, ou expressões que
funcionam como nomes, vejamos quais são as ex-
pressões que transmitem esses conceitos. Elas são
os termos.
54 Carlos Lungarzo

Exemplo — "Macunaíma" é um nome próprio,


portanto, é um termo do português.
A expressão "3 + 2" não é um nome; é uma
expressão composta, mas se refere ao mesmo ob-
jeto que o sinal "5". Ela é um termo (complexo).
Por isso, os conceitos, no sentido de "estrutu-
ras" do pensamento, são representados por termos.
Às vezes aparecerão termos para conceitos coleti-
vos, como o conceito de homem (os homens), de
brasileiro (os brasileiros) etc.
Por sua vez, os juízos são representados pelas
sentenças. Uma sentença é uma frase que pode ser
verdadeira ou falsa. É diferente de outro tipo de ora-
ções, como as perguntas, os pedidos, as ordens etc.
Como sinônimo de sentença, às vezes usa-se pro-
posição ou enunciado.
COMO FUNCIONA A LÓGICA

Regras lógicas
Sabemos que o assunto da lógica formal dedu-
tiva é:
A dedução.
— A relação entre dedução e verdade.
— As linguagens nas quais são expressadas es-
sas deduções e são Formuladas as sentenças cuja-
verdade interessa.
Sabemos também que a linguagem necessária,
embora não possa prescindir da língua natural, re-
quer também símbolos especiais para alcançar o má-
ximo possível de precisão.
Antes de estudar essas linguagens especiais,
examinemos o que é que vamos inserir em nossa
linguagem.
Nosso assunto é a dedução. A dedução, para
56 Carlos Lungarzo

os clássicos, constitui uma seqüência de juízos,


como também de sentenças que expressam esses
juízos.
Examinemos o que é que corresponde, na lin-
guagem, a cada fragmento das noções lógicas, das
"estruturas" do pensamento.
Primeiro, as sentenças.
O correspondente a um juízo (que é uma estru-
tura do pensamento), na linguagem, é uma sen-
tença.
Uma sentença é uma unidade da linguagem
corrente que "descreve" uma situação. Embora esta
definição seja obscura, pode ser esclarecida compa-
parando com outras orações.
Èxemplos - A frase "É certo que Colombo desco-
briu a América?" não descreve nada. Trata-se de
uma pergunta que reclama uma resposta.
A frase "Diga-me, por favor, se foi Colombo o
descobridor da América" também não é um enun-
ciado, é um pedido. Ela não é verdadeira nem falsa.
A frase "Colombo descobriu a América" é um
enunciado, desde que ela descreve uma situação.
Diz que (de fato) Colombo descobriu a América. Ela
é verdadeira. "Cabral descobriu o Canadá" também
é uma sentença ou enunciado, porém falsa.
Assim, uma sentença expressa ou enuncia um
juízo. Ela descreve um estado de coisas, e pode ser
qualificada de verdadeira ou falsa.
Atenção — nos textos de lógica é freqüente
empregar-se com o mesmo sentido sentença, enun-
O que é Lógica 57

ciado e proposição.
Observe que a verdade ou falsidade de uma
sentença não depende da existência de métodos
para conferir essa verdade ou falsidade. Por exem-
plo, a sentença "Existe vida humana num planeta
muito longe da Terra" é verdadeira ou falsa. Então,
ela é um autêntico enunciado. Carecemos de méto-
dos para verificá-la, porém teoricamente ela pode
cumprir uma das duas condições. É diferente do
caso de "Há vida em algum planeta?", onde temos
uma pergunta que não é nem verdadeira nem falsa.
Pois bem, com essa noção de sentença, torne-
mos mais exata a nossa noção de dedução:

Uma dedução é uma seqüência de sentenças,


tais que, as sentenças das quais partimos são as
premissas; a seqüência à qual chegamos é a
conclusão. Se as premissas são verdadeiras, a
conclusão é verdadeira.

Numa dedução, não é suficiente que as premis-


sas e a conclusão sejam verdadeiras. Observe o
exemplo:
Todos os cariocas são brasi-
leiros primeira premissa
Todos os mineiros são brasi-
leiros segunda premissa
Todos os cearenses são brasi-
leiros conclusão
As três sentenças são verdadeiras. Contudo,
58 Carlos Lungarzo

esta seqüência é uma dedução? Parece que não,


pois as premissas e a conclusão não têm muita re-
lação entre si. Por exemplo, o termo "cearense"
aparece na conclusão sem qualquer justificação.
De fato, as três sentenças são verdadeiras.
Contudo, não existe nenhuma razão para que,
quando as premissas viram verdadeiras, a conclusão
"vire" verdadeira. As três são verdadeiras de fato,
mas a verdade da conclusão não decorre das pre-
missas.
Faça, como procedemos antes, uma substitui-
ção. Coloque A em vez de "cariocas", B no lugar de
"brasileiros", C para "mineiros" e D para "cearen-
ses". Assim, temos:
Todos os A são B
Todos os C são B
Todos os D são B
É evidente que você pode encontrar exemplos
de A, B, C e D, tais que as premissas sejam verda-
deiras e a conclusão seja falsa.
Exercício — Deixe as premissas sem modificar. B
continua sendo "brasileiros". Agora interprete D
como "nova-iorquino". Que ocorre?
0 que a definição de dedução exige é o se-
guinte:

Uma sequência de SENTENÇAS é uma d e d u ç ã o se


qualquer que sejam as premissas. quando elas
sao verdadeiras a conclusão é verdadera.
O que é Lógica 59

Não é necessário que as premissas e a c o n c l u -


são sejam verdadeiras, mas, por sinal, t a m b é m não
é suficiente..
Por exemplo, na seguinte seqüência:
Todo pássaro voa
Todo cachorro late,
as duas sentenças são verdadeiras. Mas isso não é
uma dedução. A última sentença não "decorre" da
primeira.
Nesta outra seqüência:
Todo asiático é brasileiro
Sérgio Buarque é asiático
Conclusão: Sérgio Buarque é brasileiro,
a primeira premissa é falsa e também a segunda.
Mas a conclusão é verdadeira; a dedução é correta.
Como o leitor deve estar lembrado, as regras
devem preservar a verdade. Poderiam, entretanto,
existir regras que produzissem conclusões falsas, se
as premissas fossem falsas. Em resumo, temos as
seguintes situações possíveis.
• Com uma ou mais premissas falsas, uma re-
gra pode produzir uma conclusão falsa.
• Com uma ou mais premissas falsas, uma re-
gra pode "deflagrar" uma conclusão verdadeira.
• Com todas as premissas verdadeiras, uma re-
gra deve produzir uma conclusão verdadeira.
Dos casos imagináveis, o único proibido é o se-
guinte:
Tirar de premissas verdadeiras uma conclusão
falsa.
60 Carlos Lungarzo

Simbolização
Ainda não está bem esclarecido quais "recei-
tas" são regras lógicas, e quais não são. Menciona-
mos que em certos raciocínios aplicamos certas re-
gras, porém nem sempre indicamos quais.
Veja o seguinte exemplo:
Algum sociólogo é antropólogo... premissa
Algum antropólogo é sociólogo... conclusão
Mesmo sem saber lógica, podemos aspirar a
encontrar uma regra "geral" que tenha esta forma,
ou seja, que não dependa do conteúdo das senten-
ças. Ela deve ser válida para quaisquer outras coisas,
não apenas para antropólogos e sociólogos.
A premissa pode ser transformada, pondo um
A para "sociólogo" e um B para "antropólogo".
Fica assim:
Algum A é B.
Então, temos a conclusão:
Algum Bé A.
Essa regra, agora simbolizada numa forma mais
geral, pode ser enunciada do seguinte modo:

Da premissa "Algum A é B"


tire a conclusão "Algum B é A " .

Observe que esta regra cumpre a condição ge-


ral a que está submetida toda regra. Pense que se
você introduz um exemplo qualquer com a forma da
premissa, e essa sentença é verdadeira, então a con-
O que é Lógica 61

clusão também é verdadeira. Confira, via das dúvi-


das, com um diagrama.
Nem sempre uma regra é tão evidente assim. A
lógica moderna pretende que suas regras sejam pa-
recidas com certas "leis" ou "receitas" da matemá-.
tica.
Em lógica, procuramos regras que permitam:

Dadas as premissas, "tirar" a conclusão de ma-


neira que não fique dúvida sobre a correção do
procedimento.

Portanto, essas regras devem possibilitar um


uso livre de qualquer ambigüidade. E devem preser-
var a verdade.
Pode-se suspeitar que, desenvolvendo a lógica
totalmente na linguagem usual, é "quase" impossí-
vel atingir os objetivos de exatidão.
A simbolização ajuda a nos aproximarmos da
maneira mais "matemática" de tratar a lógica e de
afastar aquelas regiões de obscuridade que permi-
tem as vezes um emprego confuso das regras.--Por
isso, a lógica moderna é chamada, às vezes, de sim-
bólica.
Para simbolizar os componentes de uma sen-
tença devemos, antes de tudo, classificar as pala-
vras da linguagem corrente.
Considere a sentença
"João é baiano".
Nesta sentença temos três classes de palavras
62 Carlos Lungarzo

diferentes. A palavra " J o ã o " é um nome próprio;


portanto, em nossa gíria lógica, ela é um termo.
A palavra " é " é uma palavra puramente lógica.
Ela estabelece uma conexão entre o sujeito (João)
e a propriedade ou o atributo de ser baiano.
Digamos de passagem, as palavras lógicas pu-
ras são "poucas" e podemos classifica-las com bas-
tante exatidão.
Por sua vez, "baiano" descreve uma proprie-
dade, qualidade, atributo etc, que é atribuível ao
sujeito João. Estas palavras chamam-se predicados.
As notações mudam de um livro para outro. 0
importante são os conceitos e não os códigos usa-
dos. Porém, para facilitar a leitura, é conveniente
aceitar certas convenções.
Por exemplo, na maioria dos textos, os nomes
e por vezes os termos em geral são indicados por
letras minúsculas da primeira parte do alfabeto:
a b c d... etc.
Por sua vez, para indicar os predicados, a maio-
ria dos autores usa letras maiúsculas da terceira par-
te do alfabeto. Por exemplo:
PQRS
Às vezes, também são usadas as letras
F G H K
devido a seu emprego habitual, em matemática,
para indicar funções.
Ainda, na sentença
"João é baiano",
temos a palavra "é".
O que é Lógica 63

O "é" tem várias interpretações em lógica.


Ser" pode indicar "ser igual", mas também "estar
em", ou "ter tais e quais propriedades". Nesse caso,
o uso é o último indicado: "João é baiano" significa
João tem a propriedade de ser baiano".
Ora, lembremos que as letras a b c d etc... eram
usadas para nomes. Escolhamos uma qualquer para
" J o ã o " . Seja, por exemplo, a. Escolhamos a letra P
para o predicado "baiano".
Com isso adiantamos algo na simbolização da
nossa sentença. Ela fica assim:
a é P.
Para indicar que a é P, ou seja, que o elemento
a tem a propriedade designada pelo predicado P,
lancemos mão de um recurso muito comum na ma-
temática. Não é por acaso que a lógica moderna e a,
matemática tiveram contatos muito próximos.
Podemos pôr primeiro P e depois, entre parên-
teses, a letra a, assim:
P(a)
O que coincide com a notação usual em mate-
mática para funções, polinómios etc. Você lê isso
assim: "o objeto a tem a propriedade P".
Pode-se presumir que a simbolização não acres-
centa nada às palavras que são simbolizadas. Con-
tudo, há algumas vantagens.
Quando você diz: "João é baiano", "Hélio é
psicólogo", "Rita é desenhista", ... em sua lingua-
gem corrente, você não percebe imediatamente
(pelo menos, nem sempre, especialmente se a sen-
64 Carlos Lungarzo

tença é muito complicada) que elas têm a mesma


forma lógica.
Simbolizando, você obtém para todas essas
sentenças e infinitas outras um modelo padrão:
P(a)
Isto permite reconhecer a forma lógica.
Veja um exemplo, que mostra como a forma ló-
gica simbolizada é útil para fazer deduções.
Temos:
Zé é igual a Luiz.
Luiz é igual a Newton.
É evidente que você pode tirar esta conclusão:
Zé é igual a Newton.
Contudo, se você simboliza, encontra a "regra
geral" que permite lidar com esta e outras premissas
parecidas. Sejam a, bec substituindo os nomes dos
casos concretos. Nossa regra fica: J
a = b
b = c
portanto: a = c.
Em casos mais complicados, essas regras são
praticamente indispensáveis de maneira simboli-
zada. A simbolização permite abordar os casos ge-
rais, quaisquer que sejam os individuos envolvidos.
A l é m disso, permitem maior clareza, mesmo em ca-
sos particulares. No geral, as sentenças da lingua-
gem científica ou comum envolvem muitos sujeitos
e predicados diversos.
O que é Lógica 65

Formalização
De tudo o que foi exposto até agora, podemos
afirmar que a lógica é uma espécie de "ciência da
dedução". Relembremos o que é a dedução.
A dedução é um raciocínio no qual a conclusão
decorre das premissas, de maneira que fica garan-
tida a seguinte condição:
Desde que as premissas sejam verdadeiras,
a conclusão será verdadeira.
Também sabemos que a dedução precisa de
regras. As regras são receitas que indicam o se-
guinte:
"Se você tiver tais e quais premissas, então
você pode tirar a conclusão tal".

Além disso, tratamos detalhadamente (ou, pelo


menos, insistentemente; de que nossa lógica é for-

A conclusão decorre das premissas simples-


mente em virtude da forma lógica, tanto da conclu-
são quanto das premissas. Nossas regras devem
pois lidar também com a forma.
Podemos retomar os exemplos mostrados no
começo do livro, em que nossos casos típicos eram
certos silogismos bem simples.
Lembre o exemplo:
Todo mamífero é animal
Todo cavalo é mamífero
Conclusão: Todo cavalo é animal.
66 Carlos Lungarzo

Substituindo os "sujeitos" e "predicados", ou


seja, as expressões que são propriedades ou nomes
de classe (por exemplo, "mamífero" é a propriedade
de ser mamífero, ou, de forma equivalente, a classe
dos mamíferos), por letras, podemos obter uma ver-
são formal desse silogismo:
Todo A é C
Todo B é A
Conclusão: Todo B é C.
Fazendo os diagramas, podemos obter a cer-
teza de que o raciocínio é correto. Porém, esses dia-
gramas são um método para garantir nossa certeza,
para conferir, e não para fazer a própria dedução.
Você poderia dizer: pela primeira premissa, eu
sei que a classe dos indivíduos A está contida na
classe dos indivíduos C. Com efeito, o que a primei-
ra premissa afirma é que todo elemento de A (todo
mamífero) é um elemento de C (é um animal). Aná-
logo raciocínio mostra que B está contida em A. En-
tão temos

que representa a
primeira premissa.
O que é Lógica 67

Também temos

que representa a
segunda premissa.

Você pode esquecer do elemento intermediá-


rio, A, e ficar com isto:

que significa "B


contida em C " .

Você poderia pensar: "Esses diagramas são se-


melhantes às regras". Com efeito, eles dão receitas
para, de dadas premissas, passarmos à conclusão.
Contudo, observe duas coisas:
1) Nem sempre você pode aplicar diagramas.
Você aplicou nesses casos porque o estilo de rácio-
68 Carlos Lungarzo

cínio se adaptava. Imagine a quantidade gigantesca


de raciocínios, mesmo elementares. É evidente que
poucos deles podem ser "desenhados".
2) O método dos diagramas, embora legítimo,
não é totalmente formal. Ele não justifica a idéia de
que uma dedução utiliza somente instruções, re-
gras, "receitas" etc, de índole puramente formal:
Por quer No fundo, ele não usa o conteúdo. Eu de-
senho a figura baseando-me apenas na forma. É for-
mal mesmo! Entretanto, você depende de figuras
que não são abstratas. Quando você raciocina sobre
figuras (como é o caso da geometria da escola),
você pode obter conclusões corretas. Contudo, é
imprescindível ter certeza, sempre, de que seu ra-
ciocínio não depende de tal ou qual desenho espe-
cífico.
Veja como poderíamos ter raciocinado usando
uma regra lógica. Considere a regra que declara:
"Se os elementos de uma classe A estão numa
classe C e, por sua vez, os elementos de uma
classe B estão em A,
então
todos os elementos de B estão em C " .
Também você poderia dizer:
"Das premissas: A contida em C,
B contida em A,
tire B contida em C " .
Essa é uma regra! E é uma regra formal. Opera
apenas com a forma das premissas e a conclusão.
A lógica pretende dotar suas linguagens com
O que é Lógica 69

regras formais desse estilo. É um tema muito amplo.


De tato, só a parte elementar constitui objeto de inú-
meros manuais e grande quantidade de livros e re-
vistas. Não o estamos "aliciando" para se aprofun-
dar nisso, exceto que tenha interesse especial pela
lógica. Estamos lhe fornecendo informações gerais.
Quando você faz algo que possa serr chamado
de "formal" virar um sistema de regras ou um frag-
mento da linguagem lógica, diz-se que o processo é
o de formalização..
Aceite algumas idéias. Por exemplo, simbolizar
as premissas e a concIusão de um raciocínio é um
avanço no processo de formalização. Quando você
enuncia regras para fazer raciocínios já sua forma-
lização é mais perfeita. Uma formalização boa seria
aquela que fizesse com que certas partes da teoria
da dedução virassem tão "formais" quanto um cál-
culo, umá èspecie de álgebra.
Providência relevante nessa direção é a de sim-
bolizar também as palavras lógicas. Existem certas
palavras lógicas que transformam umas sentenças
em outras. Por exemplo, a palavra "não" transfor-
ma a sentença:
"Está quente"
na sentença
"Não está quente".
Observe que essa palavra "mexe" com o sen-
tido lógico, com o uso lógico da sentença, porque,
por exemplo, se uma sentença é verdadeira, sua ne-
gação é falsa.
70 Carlos Lungarzo

Outra expressão lógica típica é apresentada, às


vezes, como combinação de duas palavras lógicas:
"se... então". Este é o chamado "condicional".
Quando você diz:
"Se Oracy é paraibano, então ele é nordestino",
você estabelece uma condição entre duas senten-
ças. A sentença que aparece primeiro è uma condi-
ção, sob a qual você pode afirmar a segunda. Lem-
bre-se da geometria: "Se um ângulo é reto, então
o complementar também é reto".
Há várias outras palavras lógicas muito usadas,
que relacionam sentenças. Esses são os exemplos
mais conhecidos e necessários. Existem outros, mas
são dispensáveis.
— A palavra e estabelece a conjunção entre
duas sentenças. Seja: "Chove" e seja: "Faz frio".
Você pode construir uma nova sentença, composta
pela afirmação conjunta das duas:
"Chove e faz frio".
— A palavra ou estabelece a disjunção entre
duas sentenças. Ela dá uma alternativa. Por exem-
plo, seja: "Assistirei a um concerto" e seja: "Viajarei
ao Rio", a disjunção gera uma nova sentença que
diz que pelo menos uma das alternativas deve se
cumprir:
"Assistirei a um concerto ou viajarei ao Rio".
Essas palavras lógicas e algumas outras (por
exemplo, a chamada equivalência) têm a proprie-
dade de construir sentenças a partir de outras
sentenças. São conhecidas na atividade lógica pelo
O que é Lógica 71

nome de conectivas ou, às vezes, conectivos.


Há outras palavras lógicas que não relacionam
uma sentença com outra. Võcê já conhece alguns
exemplos. São palavras que indicam algo sobre o
sujeito de uma sentença, ou propiedades similares.
Quando você diz:
Todo médico é um profissional
Algum químico é biólogo,
as palavras "todo" e "algum" são palavras lógicas.
Contudo, elas não relacionam sentenças. Estabele-
cem qual é o "conjunto" de objetos relacionados,
por exemplo, são todos os médicos, e algum quí-
mico. Estas palavras são chamadas quantificadores.
A palavra é também é lógica, porém não é co-
nectivo nem quantíficador; estabelece uma relação
"entre sujeito e predicado.
Se quisermos formalizar para valer nossa lógi-
ca, será preciso:
— Encontrar símbolos precisos, com sentido
exato, ou seja, que não sofram de ambigüidade.
Com esses símbolos, escrevemos nossos conecti-
vos, quantificadores e outras palavras lógicas. E es-
crevemos também as palavras com "conteúdo": por
exemplo, nossos sujeitos e predicados.
Já fizemos algo assim quando consideramos
"sujeitos" quaisquer, sob a forma de letras A, B,
C... etc.
Depois, escrevemos as sentenças dessa manei-
ra "simbolizada".
Será que a formalização acabou?
72 Carlos Lungarzo

A formalização visa evidenciar a forma lógica e


articular raciocínios usando essa forma. Por isso, é
necessário mais; precisamos ainda "simbolizar" as
reqras. Por fim, escolher uma quantidade de ragras
que sejam suficientes para fazer as deduções corre-
tas.
Você pode explorar tais assuntos nas leituras
recomendadas no final deste livro. Por enquanto,
você tem uma idéia, embora muito superficial, do
que estão falando os lógicos.
O QUE FAZER COM A LÓGICA?

A lógica tem interesse próprio, apresenta sua


própria área de temas, e uma pessoa pude estudar
simplesmente porque gosta dela e enriquece sua ba-
gagem científica ou cultural. A situação não é dife-
rente de estudar teoria das artes, teologia, literatura.
E|a é uma disciplina de origem filosófica. É impor-
tante para a análise dos raciocínios dedutivos, em
qualquer área que seja.
Além disso, a lógica cresceu vigorosamente
graças às suas relações com a matemática. No final
dos anos 80, as contribuições à pesquisa lógica fei-
tas por matemáticos vêm sendo grande. A lógica é
ferramenta básica na "fundamentação" da matemá-
tica, como na chamada "teoria dos conjuntos" e
disciplina conexas.
Mas o leitor pode se interessar por algo mais
74 Carlos Lungarzo

"quente": quais são as aplicações práticas da lógi-


ca. Vamos mencionar apenas três de excepcional
importância.
1) Nas últimas décadas, descobriu-se que exis-
te uma relação extremamente forte entre as lingua-
gens que sao assunto da lógica e as linguagens da
computação. De tato, isso fora antecipado, há 25
anos, por um dos fundadores da teoria da inteligên-
cia artificial e da moderna robótica: John MacCar-
thy. Ele disse: "no século XXI a lógica será tão im-
portante para a computação como o cálculo e aná-
lise matemática foi para a física no século passado"
Essas predições vêm se confirmando. Uma lin-
guagem convencional de computação pode ser con-
siderada uma certa "teoria" baseada numa lingua-
gem lógica. Além disso, boa parte dos "ramos" da
lógica possui aplicações na computação. As pesqui-
sas sobre verificação de programas, programação
paralela, a chamada semântica de programas e t c ,
mantêm íntima conexão com a lógica. Não só as lin-
guagens lógicas usadas na dedução são relevantes
para a computação, como outras áreas da lógica, de
que não trataremos aqui, têm aplicações muito es-
pecíficas e produtivas em computação: uma delas é
a teoría de modelos.
2) A lingüística formal, construída nos anos
cinqüenta pela escola de Noam Chomsky, usa siste-
maticamente a lógica formal. As linguagens usuais,
como o português ou o espanhol possuem uma sín-
tax. Tradicionalmente, essa sintaxe (que é a parte
O que é Lógica 75
da lingüística que estuda a formação de expressões
da linguagem, de construção de sentenças etc. era
muíto informal.
Com o surgimento das novas gramáticas, tor-
nou-se evidente a importância da lógica em consi--
derar as linguagens correntes como entidades for-
mais . Os progressos na área são indiscutiveis. Ainda
é objeto de discussão a validade de muitas teorias
linguísticas formais, mesmo as de Chomsky. Porém,
o uso da lógica é de uma produtividade universal-
mente aceita.
3) A lógica está começando a ser utilizada na
psicologia tradicional e na psicanálise. Os leitores de
Lacan sabem muito bem que uma fase da obra des-
se autor baseia-se fortemente em conceitos lógicos.
Esta área ainda é objeto de pesquisa.
INDICAÇÕES PARA LEITURA

A situação da lógica elementar no Brasil é comple-


xa. De um lado, o País responde por mais de um terço da
pesquisa lógica realizada no Terceiro Mundo; de outro,
pouco tem sido escrito para o público não especializado.
Mesmo o volume de tradução de textos elementares de
lógica, para a língua portuguesa, é bem pequeno.
Mencionarei apenas as obras que contribuam para
aprofundar ou completar a visão que o leitor possa ter, no
momento, da lógica. Num nível elementar, ou elementar
intermediário, a lista é quase exaustiva. Embora nem sem-
pre os pontos de vista sejam os mais modernos, as obras
indicadas ajudarão o leitor a progredir na área.

1) Um texto introdutório, que o leitor pode estudar siste-


maticamente para conhecer outros temas ou alargar seu
conhecimento, é o de:
Hegenberg, Leónidas. Lógica Simbólica. São Paulo, Her-
der/Edusp, 1966.
78 Carlos Lungarzo

2) O mesmo autor escreveu uma série de pequenos tex-


tos, no geral tratando de diversos "ramos" ou "partes"
da lógica. A par deles, publicou também textos de pro-
blemas. É obra muito boa para o leitor interessado em
conhecer não só sobre o tema, mas também operar com
conceitos, resolver problemas e fazer exercícios.
Hegenberg, Leônidas. Cálcuo Sentencial. São Paulo,
E P U / E d u s p , 1972.
Neste livro são estudadas as partes elementares da
lógica de sentenças. Consiste na parte da lógica que es-
tuda a combinação de sentenças com conectivos.
Hegenberg, Leônidas. Cálculo de Predicados. São Paulo,
E P U / E d u s p , 1973.
Esse texto lida com os elementos lógicos de predi-
cados. Constitui a parte da lógica que analisa a forma
interna das sentenças. A parte sentenciai, com freqüên-
cia, deve ser estudada antes que a de predicados. Pelo
menos nos livros tradicionais, essa ordem é necessária.
Do mesmo autor, o leitor pode trabalhar os volu-
mes de Exercícios de Lógica (volumes 1 a 4), publicados
de 1976 a 1978.
3) Um texto elementar, usado como manual introdutó-
rio, é o seguinte:
Copi, Irvíng Marmer. Introdução à Lógica. São Paulo, Ed.
Mestre J o u , 1974.
4) Um dos primeiros livros escritos em língua portuguesa
sobre o tema que, embora "elementar", trata-se de texto
difícil, mas não pressupõe conhecimentos especiais:
Quine, W. V a n 0. 0 Sentido da Nova Lógica. São Paulo,
Martins Ed., 1944.
5) Um livro elementar para o estudante especializado,
porém médio ou até difícil para o leitor geral, é o de:
Mates, Benson. Lógica Elementar. São Paulo, Ed. Nacio-
O que é Lógica 79

nal, 1968. (Há edição espanhola: Lógica Matemá-


tica Elemental. Madri, Editorial Tecnos, 1974.)
6) 0 leitor interessado em filosofia, que procure uma lei-
tura que exige esforço, pode encontrar idéias originais no
ensaio:
Da Costa, N. C. A. Ensaio sobre os Fundamentos da Ló-
gica. São Paulo, Hucitec, 1979.

Caro leitor:
As opiniões expressas neste livro são as do autor,
podem não ser as suas. Caso você ache que vale a
pena escrever um outro livro sobre o mesmo tema,
nós estamos dispostos a estudar sua publicação
com o mesmo titulo como "segunda visão".
Sobre o autor
Nasci em Buenos Aires, Argentina, e lá completei os
mestrados de Filosofia e Matemática. Na Universidade fui
desde auxiliar de ensino de álgebra até professor titular de
lógica. Obtive meu doutoramente em Filosofia na Universi-
dade Federal de La Plata (Buenos Aires), onde fui professor
adjunto e titular de lógica por concurso público. Fiz minha
candidatura ao doutorado em Matemática e meu pós-dou-
torado em Fundamentos e Filosofia da Ciência no Canadá.
• Lecionei e pesquisei em vários países da Europa e
América, e fui consultor e pesquisador do equivalente ar-
gentino do C N P q . Em 1975, quando se aproximava a catás-
trofe (desfechada sobre meu país no ano seguinte) fui con-
tratado pela Unicamp. Fiz parte do grupo que idealizou, or-
ganizou e implantou o primeiro programa de Lógica na
América Latina, do qual ainda faço parte.
Em 1980 fui para o México, em 1986 fui reabilitado pela
nova reitoria em meu antigo emprego na Unicamp. Traba-
lhei com filosofia da lógica, lógica da mecânica quântica e
temas correlatos. Atualmente, estudo os aspectos lógicos
da inteligência artificial. Escrevi um monte de coisas cujos
títulos prefiro não lembrar.