Você está na página 1de 459

Amando Kilts

O Legado de Ravenscraig 05

Allie Mackay
Sinopse
Do sonho para a realidade...
Margo Menlove adora tudo relacionado à Escócia. Mas
quando ela ganha umas férias nas Terras Altas, ela fica
desapontada com o roteiro turístico ao qual ela é levada. Ela
quer experimentar a Escócia dos guerreiros, assim como o
lendário Magnus MacBride. Quando ela vai explorar por conta
própria, ela recolhe uma bonita pedra na praia… e desperta
com a visão do próprio Macbride no calor da batalha.
Magnus MacBride já viu muitas coisas enquanto lutava
com as hordas de vikings, mas quando uma mulher nua e
ensopada aparece fora das ondas, ele ficou realmente
estupefato. Ainda mais emocionante é a paixão que ele não
havia se permitido em todos os anos que ele dedicou apenas
em se vingar. Porém, sucumbir a seu desejo selvagem colocaria
Margo em um perigo mortal...a menos que eles ficassem juntos
e lutassem pelo amor que nenhum deles suportaria viver sem.
Esta história é para Horatio, Hercules e toda turma por tudo
que eles são e fizeram. Apenas a intrépida líder sabe o quanto a
extraordinária ajuda deles significou para mim. Espero que ela
também saiba o quanto eu a amo e a aprecio.
APRESENTAÇÃO
A heroína deste livro ama a Escócia apaixonadamente. Eu
divido esse amor e o tenho feito por toda a minha vida. Minha
família veio das Hébridas1, assim, amar a Escócia é algo
natural para mim. Da mesma forma que o anseio por ir lá e
rever todos os lugares especiais que acenam com tanta força. A
Escócia é extraordinária, um lugar mágico admirado por tantas
pessoas. A mera menção a palavras como vales, urze ou névoa
pode fazer com que qualquer rosto se ilumine. Então os olhos
brilham, o pulso acelera e o desejo pelas Terras Altas tocam os
corações. Se tiver a sorte de encontrar um homem de kilt com
um sotaque escocês sexy, deixe a banda tocar e todas as
mulheres desmaiarem.
Em minha carreira anterior como comissária de voo, eu
tive a sorte de viajar o mundo por décadas, visitar terras
fascinantes. A beleza pode ser encontrada em qualquer lugar.
Ainda assim, eu não posso nomear um lugar que mexe tanto
com as almas como a Escócia. Mesmo aqueles que nunca
estiveram lá, como Margo Menlove no começo do livro, ardem
em seu amor pelas Terras Altas.
Margo é meu consentimento para me dedicar aos
escoceses em qualquer lugar. Espero que, como ela, você um
dia visite a terra de seus sonhos. E se, como eu, você já visitou
a Escócia, sei que vai concordar comigo que a mágica nunca
acaba. Cada viagem mostra coisas novas e nos prova que a
Escócia é muito mais que um destino. É uma paixão que
queimará para sempre.
A jornada de Margo te levará para um dos meus lugares
favoritos do oeste das Terras Altas. Gairloc, Badcall, Badachro
e Redpoint, assim como outras localidades, todas existem de
verdade. Mudei nomes de hotéis e o Castelo Badcall é pura
ficção. Porém, mesmo esses locais fictícios são baseados em
hotéis e castelos que eu conheço e amo nessa área. Se você os
visitar, ficará tão encantado quanto Margo.
Apenas espero que você não caia em um dos roteiros
turísticos do Wee Hughie2. Escócia é para ser saboreada,
desfrutada com prazer e com muitos momentos de ooh e ahh.
Para os curiosos, Magnus MacBride pode ter existido. Os
normandos dominaram as Hébridas por centenas de anos e
seus ferozes ataques às ilhas e às costas continentais, levaram
ainda mais tempo.
Somerled, o grande chefe guerreiro do Clã Donald do
século XII, lutou contra os vikings incansavelmente e os
perseguia desde as Hébridas. Ele se aproxima muito ao que eu
imaginei ser o Magnus. A história se situa na área que era
frequentemente preferida pelos atacantes vikings. O legado
deles sobreviveu na riqueza da cultura e tradição, nos nomes
dos locais, nos objetos arqueológicos encontrados e até mesmo
nos traços de caráter e físicos. A mistura entre os celtas e os
normandos nos deu os highlanders que tanto amamos hoje.
Três pessoas especiais me ajudaram a levar Margo para a
Escócia:
Roberta Brown, extraordinária agente, que é minha mais
querida amiga. Ela é um anjo na Terra.
Kerry Donovan, minha editora supertalentosa, por suas
excelentes colaborações e direcionamento. Obrigada, também,
para minha revisora, Michele Alpern, por seus olhos afiados e
talento.
Ladies, sou muito agradecida.
Muito amor e apreço para meu lindo marido, Manfred. Ele
pode não matar vikings, mas ele mantém todos os problemas
longe da minha porta e sempre protege a minha torre. Eu não
poderia fazer isso sem ele. Assim também, meu pequeno Jack
Russell3, Em. Minha alma gêmea de quatro patas, que tem
meu coração em suas patas. Espero que ele saiba o quanto eu
o amo.
"Amar a Escócia não é apenas minha grande
paixão.
É quem eu sou."

Margo Menlove, fundadora da Sociedade de Apreciadores de


Kilt de Bucks County.
Prólogo
Baía de Badcall no Noroeste das Terras Altas
Véspera de um agradável verão, 1250

— Cria do Diabo! - Magnus MacBride, o orgulhoso chefe


highlander, puxou as rédeas no topo da montanha de urzes,
logo acima do abrigo da enseada da Baía de Badclall e
observou através das sufocantes nuvens de cinzas os
dracares4, os longos barcos vikings de seis remos, deslizando
rapidamente para longe da costa e em direção ao mar aberto.
Seus homens fizeram um barulho estrondoso ao seu lado, cada
um deles freando seu corcel em uma súbita parada. Eles eram
lutadores ferozes, bem armados e experientes em batalhas.
Porém, neste instante, tudo o que eles podiam fazer era
balançar suas espadas e gritar suas imprecações.
Não que Magnus os escutasse por baixo do barulho de seu
próprio sangue pulsando em seus ouvidos. Ou do terrível
martelar de seu coração que se acelerava junto aos
intermitentes remos dos barcos à medida que esses aceleravam
contra as ondas. Quase voando e deixando grandes jatos de
espuma em seus rastros. Magnus os fulminava com o olhar,
choque e pavor batendo dentro dele como centenas de punhos
pesados. Uma fúria escaldante apertava seu peito, dificultando
a respiração.
O calor e o ar cheio de cinzas também prejudicavam a
inalação, mas esse desconforto era a menor de suas
preocupações.
Agora, neste exato momento, todo seu mundo tinha
falhado em destruir apenas aqueles seis navios fugitivos.
Não existia mais nada.
Mesmo daquela distância, ele reconheceu o dragão
marinho pintado em cores berrantes na vela quadrada da
maior embarcação nórdica.
O monstro enroscado e cuspidor de fogo era o emblema de
Sigurd Quebrador de Espadas, o pior dos normandos pagãos
que aterrorizavam a costa. Sua partida apressada e sua
reputação de sedento por sangue, não deixava dúvidas que ele
era o responsável pelas espessas nuvens de fumaças que se
erguiam das cabanas dos pescadores que ocupavam o litoral
sob o escarpado em que estavam.
O vilarejo mais pacífico tinha virado um inferno.
A fumaça escura e ácida que cheirava a algo mais do que
a palha dos telhados chegou pelo vento até Magnus e seus
homens, picando os olhos e queimando os pulmões.
A fumaça também ocultava a verdadeira razão da estada
deles ali.
Sabendo muito bem disso, os assopradores e bateristas na
retaguarda do grupo de Magnus, ficaram em silêncio.
Até mesmo seu flautista deixou de se pavonear e parou
abismado, os inflamados sons de seu instrumento cessaram
em um gemido de lamento. Os músicos trazidos pelo anúncio
de que Magnus iria a Badcall Village - uma viagem para buscar
sua futura esposa, Liana Beaton - esses homens também
fixaram o olhar e ficaram boquiabertos com a cena que
presenciavam.
E aquilo era o inferno.
Badcall Bay era agora, um lugar de morte.
Nenhum grito ou choro se elevava sobre o maldito estalo
das chamas.
O que quer que ainda existisse na pequena comunidade
de pescadores no pé do escarpado e do penhasco de pedras,
não vivia mais.
E se alguém ainda conseguisse respirar, Deus tivesse
misericórdia dele, pois encontraria um terrível e não merecido
destino.
A bile subiu na garganta de Magnus e ele acolheu sua
amargura, desejando que assim pudesse enfrentar a agonia
sofrida pelos infelizes pescadores de Badcall Bay. Ele não
podia, infelizmente. Mas ele tinha certeza de que mãos gigantes
e invisíveis apertavam barras de aço ao redor de seu peito. A
sua dor era grande, especialmente quando o inocente rosto de
Liana relampejou diante dele.
Uma donzela ainda, pois eles apenas haviam
compartilhado castos beijos.
A dúvida dela em entender o porquê dele ter desafiado sua
posição e tradição ao desejá-la como esposa, o fez com que
tivesse que provar a ela o quanto a amava acima de todo resto.
Ele jurou protegê-la sempre, mantendo-a segura de todas as
doenças e assegurando que a família e a vila dela iriam
prosperar. E... Ele também tinha jurado preencher os dias dela
com felicidade e as noites com paixão sem limites. Juntos, eles
criariam filhos fortes e filhas bonitas, mostrando aos
pessimistas que nenhuma noiva seria melhor para ele.
Como ela havia sorrido quando ele fez essas promessas!
Agora, enquanto se recordava, ao invés de ver os olhos
dela brilharem com prazer, ele os via cheio de horror.
Um terror inexplicável que, ele tinha certeza, poderia
nunca ter visitado aquele lugar calmo se não fosse por ele.
Os vikings invasores não se importavam com redes de
pescas ou cordas de arenque5 secos.
Mas eles teriam descoberto, e de maneira correta, que um
chefe highlander que valesse esse título, banharia sua noiva e a
família dela com riquezas.
Aqueles cofres de prata e moedas podem ter sido o que
atraiu os normandos ao ataque.
— Calum! — Magnus saltou de sua sela e apontou para
um dos assopradores de chifres6, um homem mais velho que
um dia foi conhecido como Lutador Viking, mas agora lidava
com cavalos melhor do que brandia uma espada. — Pegue o
jovem Ewan — Magnus deu uma olhada para o neto de Calum
— e reúna os garrons7 que fugiram do fogo. O restante de nós,
desceremos até a vila para apagar as chamas. Nós iremos até
vocês quando tivermos terminado. — Ele não acrescentou que
eles estariam enterrando os mortos e o que foi queimado. Não
era necessário dizer as palavras para uma tarefa tão medonha.
Calum acenou sombriamente. Ele sabia mais do que
ninguém o que os esperava ao longo da costa.
— Ewan e eu podemos acorrentar os cavalos e voltar. — O
homem mais velho olhou da borda do penhasco, onde uma
trilha íngreme descia em zigue-zague até a pequena baía.
Quando ele voltou a olhar para Magnus, endireitou os ombros
largos e cuspiu no chão. — Você precisará de todas as mãos
disponíveis quando descer até lá.
— Sim. — Magnus segurou o braço de Calum com
firmeza. Ele esperava que seu velho amigo, um homem que era
muito mais que um pai, deixasse as coisas assim. Ele tinha
que pensar rápido.
A trilha do penhasco era muito perigosa para um homem
da idade de Calum. Especialmente com um joelho que
costumava desistir de seu dono, não importava quantas vezes o
teimoso guerreiro escolhesse ignorar seus tropeços ocasionais.
E Ewan ainda não tinha sangue sob sua espada.
Magnus não queria que a devastação lá embaixo fosse o
primeiro teste de carnificina do garoto.
— Eu prefiro que você e Ewan guardem os cavalos. —
Magnus deu a primeira desculpa que lhe veio à cabeça. —
Quebrador de Espadas e seus homens provavelmente mataram
o gado da vila e levaram a carne em seus barcos. — Isso era
verdade. — Eles podem ter deixado alguém para trás para
buscar por outras bestas e depois os apressarem em uma
corrida ao longo da praia para se reunirem depois.
Magnus duvidava disso. Mas ele ficou grato em ver Calum
sacudindo sua cara barbuda.
— Se tais homens aparecerem, você e Ewan podem
despachá-los.
— Sim, você está certo. — O peito do homem mais velho
inflou. — Nós faremos um trabalho rápido com estes
devastadores bastardos. — Ele segurou sua espada, parecendo
feroz. — Eles nem sentirão o vento que os derrubou. Nós
estaremos sobre eles rapidamente.
— Bom, então. Confio em você para isso. — Magnus deu a
volta, indo em direção a borda do penhasco, onde os outros já
estavam descendo a trilha.
Calum manobrou para ficar em frente a ele, bloqueando
seu caminho.
— Ela pode não estar lá embaixo, rapaz. — Ele alertou,
verbalizando o maior medo de Magnus.
Liana nas mãos de Sirgurd Quebrador de Espadas seria
um destino pior do que a morte. Os saqueadores vikings eram
conhecidos por cometer atrocidades com aqueles que eles
levavam como reféns. E se qualquer tentativa de resgate fosse
feita...
Magnus tirou o pensamento de sua mente, incapaz de
suportar e conectar a mulher que ele amava com os vilões
normandos mais obscuros.
Mas se Quebrador de Espadas estivesse com ela, ele
viraria o mundo ao avesso para libertá-la.
Calum se inclinou em direção a ele, seu olhar direto.
— Você fará bem em se preparar. Eu lutei contra o pai de
Quebrador de Espadas, Thorkel, o Alimentador de Corvos. Eu
sei o que eles fazem...
— Eu encontrarei Liana, onde quer que ela esteja. —
Magnus bateu no ombro do homem mais velho, silenciando-o.
Depois ele se virou e se apressou atrás de seus homens,
fazendo a descida íngreme e vertiginosa tão depressa quanto
seus pés o pudessem levar.
O cenário lá embaixo era muito pior do que ele imaginou.
Ele olhou descontroladamente, observando o caos.
Embaixo de seus pés, o solo se inclinava perigosamente,
quase o deixando de joelhos.
— Liana! — Ele gritou o nome dela, sabendo que ela não o
responderia.
Corpos enegrecidos, ou melhor, abatidos pelo fogo
estavam em todos os lugares, sujando a costa em forma de lua
em um testemunho claro do quão selvagem foram suas mortes.
Nenhuma misericórdia foi mostrada. Cada ferida mostrava a
ferocidade com que os normandos haviam manejado suas
lanças e machados.
Eles também haviam usado as suas tochas livremente.
Cada cabana, estábulo e galpão de pesca estava em chamas. A
fumaça era densa ali, grandes nuvens sopravam, enchendo a
enseada com um mau cheiro nefasto e sufocante.
Os homens de Magnus correram até lá, gritando e lutando
contra as chamas. Muitos deles haviam tirado suas roupas
ficando nus, para usar seus plaids para apagar o fogo.
Magnus correu também, tirando seu próprio plaid e
golpeando as chamas enquanto ele saltava de um corpo
esparramado e quebrado para outro, procurando por sua
noiva.
Ele estava quase chegando na cabana do pai dela, agora
uma parede de fogo se erguendo, quando bateu com um de
seus homens, com o rosto vermelho e ofegante.
— Magnus! — O homem o agarrou, respirando com
dificuldade. — Nós encontramos um ainda vivo! É a avó de
Liana e ...
— Liana? — Magnus sentiu a esperança aumentar. Ele
encarava o seu compatriota, esperando a resposta que ele
queria ouvir. — Sobre ela? Alguém a viu...
— Ela está com a velha senhora. — O tom do homem
obscureceu. — Elas estão lá. — Ele apontou para uma rocha
que aflorava na margem da enseada. — As duas estão juntas. A
avó não durará muito. Ela foi cruelmente atacada. Liana...sua
noiva… sinto muito, Magnus. Ela está…
— Morta. — O coração de Magnus parou com essa
palavra. Ele não conseguia respirar ou se mover. Ele estava
rígido, todo seu corpo congelado como uma pedra de gelo
enquanto, como se a agonia se aprofundasse, deixando-o vazio
de tudo, menos da negação.
Ele via Liana agora, seu corpo sem vida lá na areia, atrás
da rocha. Vários de seus homens ajoelhados ao redor dela, com
as cabeças respeitosamente abaixadas. Um deles embalava a
velha senhora, inclinando-se para alcançar quaisquer que
fossem as últimas palavras saídas dos lábios com sangue seco
dela.
Um grande grito queimava na garganta de Magnus, mas
ele não pode dizer se ele estava gritando ou se era o som
terrível e ensurdecedor de trovão do seu sangue fluindo.
Em seguida, de alguma forma, ele se viu ao lado de Liana.
Ele se pôs de joelhos, puxando-a para seus braços, abraçando
sua forma flácida contra ele. Ela parecia apenas dormir, pois o
corpo dela não estava quebrado e nem mutilado como os
outros.
O cabelo claro dela estava imaculado e brilhava como
sempre, derramando-se ao redor dos ombros dela. Mas os
olhos estavam fechados, seus cílios ainda tocando a brancura
de suas bochechas.
— Nãooo! — Ele apertou seus braços ao redor dela,
enterrando seu rosto nos cabelos dela, ainda tão sedosos e
frescos. Assim como a pele dela que ainda estava suave e
quente, quase viva.
Ele ouviu passos e ergueu o rosto para ver um de seus
homens se aproximando, com pena em seus olhos. O homem
pôs uma mão no ombro de Magnus, apertando forte. Magnus o
encarava, tristeza e ira o transformando em uma fera.
— Ela não está morta, você vê? — Ele ergueu um punho,
balançando em direção ao céu. — Ela está apenas desmaiada.
Eu lhe digo. Ela acordará em breve e...
Ele calou-se, olhando para o sangue em sua mão.
Vermelho brilhante e fresco, colorindo seus dedos e toda a
palma de sua mão, um rio medonho escorrendo por seu braço.
O sangue de Liana.
— Não! Não! — Ele a afastou dele, seu coração quebrou
quando a cabeça dela caiu para o lado. Ele a observava,
olhando atentamente, procurando ver o que ele havia perdido
antes.
Havia uma grande mancha vermelha no meio dela, escura,
brilhante, úmida e mortal.
Foi nesse instante que a loucura se apoderou dele.
Ele jogou sua cabeça para trás e rugiu, permitindo que a
dor corresse. A escuridão o preencheu e sua visão ficou
borrada por uma névoa vermelha e ardente. Mas ele manteve
suas mãos estáveis enquanto ele a abaixava sobre um plaid
que alguém havia aberto para ela ao lado da velha senhora - ele
viu imediatamente - havia dado seu último e aterrorizante
suspiro.
Logo, ele poderia enterrá-las. Ele as colocaria, assim como
todos os outros, para descansar fazendo o melhor possível em
um lugar tão sujo e feio.
Mas por agora, ele cedeu à sua ira e se levantou como
uma fera desacorrentada. Ele correu até a margem do mar,
onde ele desembainhou sua espada e a enterrou bem fundo na
areia molhada sob a onda fria e turbulenta.
Ele fechou as mãos, olhando para além da fumaça para o
horizonte agora vazio.
— Quebrador de Espadas, escute-me! — Ele berrou,
gritando com todo o poder de seu pulmão. — Não há rocha
grande o suficiente para te esconder! Nem sombras escuras o
bastante para manter você e os seus a salvo de mim, Magnus
MacBride!
Ele entrou na água gritando as mesmas palavras
repetidamente enquanto olhava o mar. Ele balançava os
punhos para as ondas, reclamando até que seus homens
vieram até ele. Pegaram-no pelos braços, arrastando-o de volta
para a praia.
De volta para uma vida que estava mudada para sempre.
O Magnus MacBride que estava em pé na praia, seu
coração transformado em pedra e seu sangue fervendo com
ódio, era um homem diferente daquele que havia acordado
naquela manhã, ansioso e alegre para cavalgar e buscar sua
noiva.
De agora em diante ele viveria por vingança.
Capítulo um
Vosso Velho Tempo Pagão
New Hope, Pensilvânia

O presente

Margo Menlove nasceu amando a Escócia.


Ela vivia, respirava e sonhava em xadrez. Na idade
madura de dezesseis anos, ela sozinha convenceu quase todas
as meninas, e até mesmo algumas professoras, que não havia
nenhum homem mais sexy que um highlander. Naqueles
inebriantes dias, ela até mesmo chegou a fundar, a agora
extinta, Sociedade de Apreciadores de Kilt de Bucks County.
Agora, mais de dez anos depois, os moradores de sua
cidade natal, New Hope, Pensilvânia, a consideravam uma
autoridade em todas as coisas da Escócia.
E apesar de estar oficialmente empregada como uma
Harmonista Lunar, na principal loja da cidade de New Hope,
Vosso Velho Tempo Pagão, aconselhando clientes de acordo
com o ciclo e ritmo natural da lua, e muitos clientes
procuravam por sua assistência quando desejavam planejar
uma viagem para a Escócia.
Às vezes, quando um daqueles “presos a Glasgow” a
consultava, ela se surpreendia consigo mesmo e com o quanto
ela conhecia a terra de seus sonhos.
Ela realmente era uma especialista.
Ela conhecia a história de cada clã e podia reconhecer os
respectivos tartãs a cem passos de distância. Ela se orgulhava
de ser capaz de enumerar todos os pontos imperdíveis das
Terras Altas sem pausa para respirar. O coração dela até se
apertava cada vez que ela ouvia uma gaita de fole. Quando
criança, ao invés de aulas de balé, ela fez aulas de dança
country escocesa e, antes mesmo de chegar ao jardim da
infância, ela já podia efetuar os passos da dança das Terras
Altas. Ao contrário de todos os não nascidos na Escócia, ela até
mesmo amava haggis.8
E, apesar de não desejar comprovar sua teoria, ela estava
muito certa que se alguém a cortasse, ela sangraria na cor
xadrez.
Ela amava muito a Escócia.
O seu único problema era que ela nunca tinha colocado os
pés em solo escocês.
E neste momento, ela tentava não olhar, um problema de
natureza muito diferente estava atravessando a porta da Vosso
Velho Tempo Pagão, Dina Greed.
A maior rival de Margo em todas as coisas escocesas. Era
tão pequena que ela secretamente pensava nela como Minnie
Mouse. Ela estava vestida, como quase sempre, em uma mini
saia xadrez e incríveis botas pretas de saltos altos que
acrescentava algumas polegadas a sua diminuta, mais bem-
feita forma. O decote profundo em formato de “V” de sua blusa
de cashmere atraia atenção para os irritantes e grandes seios
dela.
E a nuvem de cabelos escuros e encaracolados dela
brilhavam com a luz do sol de final de outono que atravessava
as janelas da loja. Ela também estava usando um sorriso de
satisfação e isso só podia significar problemas.
Certa disso, Margo se levantou atrás de sua mesa de
Harmonista Lunar e começou a arrumar os pequenos potes e
garrafas azuis e prata de produtos de beleza orgânicos que a
proprietária da loja, Patience Peasgood, insistia em vender
àqueles que procurassem respostas celestiais. Com nomes
como cristais de banho Espuma Marítima ou cremes noturnos
Serenidade Marítima, todos inspirados pelas fases da lua, os
cosméticos faziam as pessoas sorrirem.
Mesmo a maior parte dos clientes regulares da Vosso
Velho Tempo Pagão achassem os preços altos.
Margo secretamente concordava.
Ninguém amava uma barganha mais do que ela.
Mas, neste instante, ela estava grata por ter tantos dos
produtos da linha Orgânicos da Lua bagunçados em seu
balcão. Se ela parecesse estar ocupada, arrumando a sua mesa
de trabalho, Dina Greed poderia passar direto e não a provocar.
No momento, a pequena morena, que nunca falhou em
fazer Margo se sentir como uma desajeitada amazona loira,
espreitava os corredores, o queixo erguido enquanto analisava
as taças de vidros preenchidas com cristais de quartzo rosa e
transparente. Ela também examinava os óleos essenciais e
difusores para em seguida se afastar e estudar a grande
seleção de chás de ervas curativas.
Esperando que a outra saísse da loja, Margo a olhava de
soslaio.
Ao invés disso, ela parou diante de uma prateleira de velas
brancas arranjadas em uma bandeja com pequenas pedras
polidas pelas águas do rio, depois se moveu até as estantes na
parede dos fundos da loja, onde ela ficou observando Patience
Peasgood cuidadosamente desempacotar uma caixa de livros
recentemente recebidos de magia medieval e mitologia
normanda e celta.
Nenhuma das duas mulheres olhou em direção a Margo.
Ainda assim, os finos cabelos da sua nuca se arrepiaram,
ela tinha certeza de que alguém a observava.
Margo sentiu um arrepio. Ela se perguntou se Dina Greed
a deixava nervosa ou se uma sombra havia passado pelo sol.
De qualquer forma, toda a atmosfera na loja subitamente ficou
lúgubre.
Era um tipo de escuridão arrepiante e inquietante.
Margo sabia que Patience, uma bruxa branca autodidata,
havia experimentado alguns novos feitiços nos últimos dias.
Olhando para a proprietária agora, ela esperava que sua chefe
não tivesse, inconscientemente, desencadeado algo sinistro.
Não seria a primeira vez que a magia bem-intencionada de
Patience houvesse dado errado e causado mais problemas do
que soluções.
— Ela está indo para a Escócia, você sabe.
— Oh! — Margo esbarrou em uma garrafa de loção
corporal Néctar dos Mares. Virando-se no banquinho, ela ficou
face a face com Marta Lopez, a leitora de sorte porto-riquenha
que entrava pela porta da Vosso Velho Tempo Pagão.
Madame Zelda da Bulgária, após ela cruzar a porta da loja
a cada manhã.
— Jesus! — Margo levou uma mão ao peito enquanto
encarava a amiga. — Alguém já lhe disse que não é legal se
aproximar silenciosamente das pessoas? — Ao invés de se
afastar, Marta se aproximou, abaixando a voz.
— Eu achei que você quisesse saber antes que ela arruíne
seu dia. Esta é a razão pela qual ela veio até aqui. — Ela
lançou um olhar em direção às costas de Dina Greed.
— Ela quer te deixar com ciúmes.
Ela já deixou! As palavras gritavam através da alma
amante da Escócia de Margo, tornando o coração verde de
inveja e seu pulso acelerar por aborrecimento.
— Como você sabe? — Margo colocou seu cabelo cortado
na altura do pescoço atrás da orelha, esperando que Marta não
notasse o rubor que ela sentia, subir por seu pescoço. — Você
tem certeza? Ou… — ela poderia apenas desejar. — É apenas
uma fofoca? — Diana Greed tinha feito uma algazarra sobre se
mudar para a Escócia para sempre.
Até agora, o mais perto que ela chegou foi em Coração
Valente.9
Mas o modo como Marta movia a cabeça dizia a Margo,
que dessa vez, os planos de sua rival eram reais.
— Você deve saber que eu apenas falo a verdade. — Marta
alisou as dobras de seu caftan roxo e dourado. — Uma de
minhas primas… — Ela endireitou-se, assumindo um ar de
importância — trabalha na loja Bagagem de Primeira Classe e
Viagens. Ela me disse que Diana esteve lá dois dias atrás,
fazendo compras como uma tempestade e se gabando que
estava prestes a partir em uma viagem de três semanas para as
Terras Altas.
— Ela nem tem um passaporte. — Marta acrescentou a
informação com autoridade. — Minha prima viu quando Dina
insistiu em ter certeza que ele caberia em um porta passaporte
com estampa de tartã que ela comprou.
O coração de Margo se apertou.
— Ela comprou uma capa de passaporte com estampa de
tartã?
— Não apenas isso. — Marta virou os olhos. — Ela saiu de
lá com toda a bagagem combinando. É uma linha nova que a
Primeira Classe começou a vender. Acho que minha prima
disse que se chama Névoa da Terras Altas.
As três palavras, o tipo de assunto que normalmente fazia
parte dos mais doces sonhos de Margo, agora a faziam se sentir
mal por dentro. Tão longe ela podia se lembrar, Dina Greed a
havia feito de alvo, assim como roubou, todos os namorados
dela.
Três anos atrás, ela também convenceu a gerente de um
complexo de apartamento realmente adoráveis para o qual
Margo queria se mudar, a dar a ela o último apartamento
disponível, apesar dela já ter feito o depósito da entrada.
Agora ela queria ir para a Escócia.
Isso ia além da tolerância.
— Então é verdade. — Margo olhou para a sua amiga,
sentindo-se sem vida. Ela também começava a sentir o começo
de uma latejante dor de cabeça. — Minnie Mouse ganha
novamente. — Marta lançou um olhar carregado de malícia.
— Talvez ela caia de um penhasco ou desapareça dentro
de um pântano.
— Com a sorte dela… — Margo sabia que isso era verdade.
- Algum highlander bonitão a resgataria.
— Deixe isso comigo. — Marta piscou um olho. — Eu
tenho um monte de primas e uma delas pratica vodu. Vou
apenas colocar um inseto no ouvido dela e tê-la…
— Margo! — Dina Greed estava vindo até o escritório de
harmonização lunar, seus olhos escuros brilhando. — Eu
estava esperando que você estivesse aqui hoje. Eu preciso de
um conselho seu sobre...
— Escócia? — Margo não conseguiu evitar e morder a
língua, as palavras deslizaram por sua boca.
— Você já soube? — As sobrancelhas de Dina se ergueram
em seu lindo rosto em formato de coração. — É verdade.
Realmente estou indo. Na verdade, estou partindo — ela sorriu
com doçura — em três dias. Mas não é por isso que estou aqui.
Ela ergueu a bolsa sobre o balcão e a abriu, tirando de
dentro dela várias folhas impressas.
— Farei um roteiro por conta própria de carro e me
concentrarei em todos os lugares conectados com Robert de
Bruce. — Ela piscou para Margo, ciente de que o rei era o herói
medieval mais admirado por ela.
— Tenho planejado esta viagem há anos, como você sabe.
— Ela pegou o itinerário como se fossem feitos de ouro e
diamantes. — Eu não preciso de sua ajuda com a Escócia.
Margo forçou um sorriso.
— Tenho certeza que não.
Pelo canto dos olhos ela viu Marta se afastando, indo para
o quarto dos fundos onde ela fazia as leituras de tarô. Margo
esperava que ela também usasse a privacidade para falar com
sua prima especialista em vodu.
Ela voltou a olhar para sua rival, desejando que ela tivesse
a coragem para estrangulá-la.
— Então, o que posso fazer por você? — Ela odiava ter que
ser educada. — Está procurando algum bom cosmético para
sua viagem? — Ela apontou para o gel banho Oceano de
Tempestades. — Todos os produtos da Lunária são de tamanho
ideal para viagens.
— Não, obrigada, mas você chegou perto. — Dina
estendeu a mão balançando os dedos. — Estou prestes a ter
essas unhas removidas. — Ela olhou para as unhas vermelhas
e longas de diva, claramente falsas. — E alguém mencionou
que você pode ter alguma dica para evitar que minhas unhas
verdadeiras não quebrem.
— Elas não estão muito fortes e… — Ela deu a Margo
outro sorriso açucarado. — estarei explorando tantas ruínas de
castelos e outras coisas, você sabe? Odiaria danificá-las
quando estiver em lugares afastados.
— Oh, isso é fácil. — Margo sentiu um arranco de triunfo.
— Apenas tenha certeza de sempre lixá-las aos Sábados. — Ela
mentiu, sabendo que esse era o pior dia possível para cuidar
das unhas. — Se fizer isso, elas ficarão fortes, resistentes a
quebras e nunca te darão problemas.
Margo sorriu.
Sexta após o pôr do sol era quando a mágica da lua
trabalhava nas unhas.
— Minhas unhas lhe agradecem. — Dina guardou seu
itinerário dentro de sua bolsa felpuda. — Realmente eu tenho
que ir. Adorei ver você. Mas… — Ela já havia chegado a metade
da loja. — eu tenho que fazer as malas. Na volta virei aqui para
te contar sobre minha viagem.
— Tenho certeza que fará isso. — Margo murmurou
quando o sino da porta tocou após a saída de Dina.
Enfim livre, ela deu um longo suspiro. Era bom que sua
inimiga tivesse saído na hora certa, do contrário ela teria
explodido. Ela podia manter o comportamento “sempre ser
graciosa com os clientes” por certo tempo. E Dina a havia
levado para perto de seus limites. Um vulcão branco de raiva,
inveja e frustração fervia dentro dela.
Na trilha de Robert de Bruce.
Bagagem Névoas das Terras Altas.
Margo franziu o cenho. Ela não ficaria surpresa se a outra
mulher usasse roupas de baixo xadrez. Ela havia deixado um
resquício de seu ar mesquinho na loja mais tranquila da
cidade.
Sensitiva para essas coisas, Margo estremeceu e esfregou
os braços. Ela estava toda arrepiada. E aquela estranha
sensação que ela havia sentido mais cedo, retornou. Mas agora,
a pequena loja não estava cheia de sombras; ela tinha ficado
gelada.
É claro, só agora ela viu, a chuva começara a bater contra
a janela e o céu vespertino tinha ficado tenebrosamente escuro.
O outono em Bucks County era conhecido pela noite que
chegava mais cedo.
Ainda assim...
Esse não era o mesmo tipo de calafrio.
Margo ficou congelada em seu banco. Ela queria chamar
Patience ou até mesmo Marta, que estava fechada nos quartos
dos fundos, mas sua língua parecia grudada no céu da boca.
Ela olhou para as estantes, procurando assegurar a presença
familiar de Patience.
Ao invés disso, ela sentiu as palmas das mãos e testa
umedecendo.
A dificuldade dela aumentou quando o sino da porta soou
novamente e ela vislumbrou as costas de Patience e Marta
enquanto elas saiam correndo na chuva. A porta se fechou
atrás delas, deixando-a sozinha.
Ela se esqueceu de que hoje era o dia que Marta
trabalhava meio período.
E Patience havia dito naquela manhã que sairia mais cedo
para se juntar aos seus amigos para um chá da tarde no Rosas
Roubas Empório de Presentes e Salão de Chás perto do Valley
Forge. Margo havia concordado em fechar a loja.
Era uma situação inevitável.
Mas ela se arrependia do mesmo jeito.
Especialmente quando, — Oh, não. - ela viu uma sombra
entre as estantes.
Alto, algo mais negro do que o preto e definitivamente
sinistro, a escuridão pairava por onde Patience esteve mais
cedo, arrumando os novos livros. E..., Margo observou, seu
estômago apertado. O que quer que fosse, exalava uma
maldade muito antiga.
Não era um fantasma.
Ela sabia sem sombra de dúvidas.
Era mais como um presságio de desgraça.
Em seguida houve um estrondo alto e, enquanto dava
uma rápida olhada para ver o que as janelas revelavam, um
grande caminhão misturador de cimento que estava parado em
frente à loja se arrastando ruidosamente pela via, permitindo
que a luz da tarde cinzenta voltasse a entrar na loja.
A sombra desapareceu imediatamente.
E ela nunca havia se sentido mais idiota.
Ela passou as costas de sua mão pela testa e respirou
calma e profundamente. Ela não deveria ter permitido que Dina
Greed e sua viagem a Escócia a atingissem de tal modo que ela
confundisse uma sombra criada por caminhão de construção
com um melancólico demônio dos infernos.
Ela nem ao menos acreditava em demônios.
Fantasmas, você pode apostar. Ela até já havia visto
alguns deles e não tinha dúvidas sobre tudo isso.
Ela era uma crente.
Mas demônios...
Eles pertenciam ao mesmo pote de vampiros e lobisomens.
Eles apenas não estavam no nível dela. E ela estava muito feliz
em manter as coisas desse jeito.
Ela estava ávida por chá.
Sabendo que uma xícara fumegante de Earl Grey Cremoso
acalmaria seus nervos, levantou-se e foi até a sala de leitura de
tarô de Marta, um canto que também servia de cozinha da
Vosso Velho Tempo Pagão.
Ela estava quase lá quando ouviu um baque perto das
estantes de livros.
— Oh, Deus! — Ela parou bruscamente, sua mão quase
alcançando a porta da sala dos fundos. O chão se inclinou
loucamente e ela tinha certeza de que podia sentir milhares de
olhos escondidos a observando por trás dos galhos de ervas
secas e bolas de vidros penduradas no teto.
Cada feitiço errado que Patience havia feito passou por
sua cabeça. Uma vez, Patience tentou proteger os sapos
migratórios que ela ouvira falar no noticiário. Ela não havia
gostado de pensar naqueles anfíbios cruzando as estradas
lotadas. Em poucos minutos a Vosso Velho Tempo Pagão havia
sido invadida por saltitantes sapos verdes.
Uma outra vez, ela tentou encantar um ar condicionado
para que este funcionasse melhor e subitamente apareceu gelo
por cada superfície da loja. Pingentes de gelo cresciam do teto e
ficaram penduradas como espadas de gelo nas janelas.
Outro dia, ela havia tentado obter o poder de ver a
verdadeira história, murmurando encantamentos sobre os
espaços em branco dos livros. Patience queria examinar alguns
livros especializados em bruxaria antiga para descobrir a
verdade sobre a caça e julgamentos de bruxos na Era Medieval.
Margo estremeceu ao pensar que sua empregadora podia
ter realizado um feitiço e convocado um espírito mal-
humorado.
Ou algo pior.
Bem devagar, ela se virou. Ela meio que esperava ver a
sombra novamente.
Não havia nada.
Nenhum fantasma, demônios ou outra besta rastejando
pelos corredores entre as estantes.
Ela certamente não havia visto um feiticeiro.
Mas um livro havia caído aberto e com a face virada para o
chão de madeira polida. Margo foi buscá-lo, feliz em descobrir a
fonte do barulho e com a intenção de devolver o livro para a
estante. Era o novo pedido de Patience e o título sobressaiu-se.
Mitos e Lendas da Era Viking.
Por uma inexplicável razão apenas ao ver estas palavras
em letras vermelhas e douradas em uma capa marrom ela
sentiu uma sacudida dentro dela. Era forte e proibido, que ela
quase se afastou, deixando o livro onde ele havia caído no
chão.
A teimosia fez com ela o pegasse, um choque doloroso
atravessou seus dedos e subiu pelos braços assim que ela
tocou o livro, ressaltando a razão de que ela realmente
precisava seguir seus instintos.
Poderiam as buscas por feitiços e magia terem acertado os
livros ao invés da própria Patience?
Teria sua patroa encantado as mercadorias?
Margo tinha certeza de que não queria descobrir.
Mas ela tinha tido o suficiente - o suficiente de tudo - e
não ia deixar que um livro se saísse melhor sobre ela. Assim,
ela ignorou os arrepios que queimavam ao longo de sua pele e
perscrutou o livro. Imediatamente ela se arrependeu, pois, o
livro estava aberto em uma ilustração colorida de duas páginas
de um navio de batalha viking na costa da Escócia.
Margo poderia ter gemido.
Ela não se importava com o feroz navio de dragão
normando.
Mas com a romântica paisagem que era um verdadeiro
golpe inesperado.
Tão bela quanto uma pintura feita por um mestre, a
ilustração mostrava uma costa rochosa com penhascos
íngremes e irregulares que se elevava sobre uma enseada em
forma de lua. O céu acima fervia com nuvens negras e parecia
tão selvagem e turbulento quanto o mar agitado. O coração de
Margo respondeu, batendo forte e devagar. Esse era o tipo de
lugar que tocava a sua alma. De fato, ela às vezes sonhava com
uma costa exatamente como esta.
Ela aproximou o livro de seu rosto e estreitou seus olhos
para enxergar, pois a luz da loja parecia estar desaparecendo
novamente.
Agora, olhando mais de perto, ela viu um homem na areia
dourada. Ele estava em pé perto da água, seu longo cabelo
escuro esvoaçado pelo vento. Claramente um guerreiro das
Terras Altas, ele facilmente poderia ter sido arrancado de suas
fantasias mais quentes. Grande, musculoso e magnífico, ele
tinha sido pintado erguendo uma espada bem alto sobre sua
cabeça e gritando. Ele olhava para o mar, observando a fuga
dos Vikings e sua indignação era tão grande e palpável que ela
quase podia ouvir seus gritos.
Margo estremeceu, sentindo frio de novo.
Ela olhou para as janelas, mas dessa vez não havia
grandes caminhões bloqueando a luz do dia.
Tudo estava como deveria estar.
Exceto quando ela voltou a olhar para a ilustração, o
homem havia se movido e agora estava na água, com a espuma
do mar ao redor de suas pernas.
— O quê? — Ela arregalou os olhos. Ondas de descrença
atravessaram seu corpo. Pior, ela podia ouvir o barulho do
vento e o choque das ondas do mar. Ela também sentiu um
calor escaldante ao seu redor, até mesmo o ar cheirava a cinzas
queimadas e outras coisas terríveis.
De alguma forma, no tempo de um piscar de olho, a
ilustração havia ganhado vida. Margo suspeitava que a magia
de Patience havia falhado novamente. Não que isso explicasse o
porquê dela estar vendo o que via. No momento parecia real.
Chamas ondulavam por todo canto, crescendo enfurecidas
atrás de um colérico highlander e até mesmo consumindo as
páginas, o calor queimando os dedos dela.
— É isso! — Margo jogou o livro para o lado.
Ela pressionou ambas as mãos em suas bochechas e
parou, respirando profundamente. Ela não aceitaria este
redemoinho de loucura em que ela havia saltado.
Ela não se importava em quantas sombras demoníacas
espreitavam nos corredores entre as estantes ou qual a
frequência que uma pintura de um highlander escolhia
caminhar até as ondas em sua própria pintura.
Particularmente ela não queria considerar o quanto ela se
sentia atraída pelo líder de olhos sedutores. Ela não apenas
sentia o fogo queimando ao redor dele, como também
experimentava uma onda de calor que derretia seu corpo.
E ela nunca sentiu nada tão absurdo.
As habilidades de Patience não eram tão formidáveis. E os
erros dela traziam visitantes como sapos, névoas e coisas do
tipo. Highlanders sexy com olhos atraentes e espada não fazia
parte do leque de talentos de Patience.
Margo sabia o que a afligia.
Ela simplesmente tinha uma imaginação muito vívida. E,
hoje, ela também tivera uma dose letal de Dina Greed.
Mas ela estava melhor agora.
A chuva estava cessando e ela já conseguia ouvir as vozes
abafadas das pessoas passando pela calçada e o ruído das
rodas dos carros no asfalto molhado da rua. Era uma tarde
perfeitamente normal de outubro e até mesmo a loja parecia
calorosa e acolhedora novamente.
Sentindo-se melhor, ela se sacudiu e foi pegar o livro dos
vikings. Ele havia caído perto na mesa, onde tinha uma fonte
de várias camadas. E dessa vez, quando ela o pegou
novamente, nada aconteceu.
Nem sequer um pequeno relâmpago queimando entre os
seus dedos.
A luz não diminuiu e o chão permaneceu firme sob seus
pés.
Ainda assim, antes de retornar o livro para a prateleira,
ela folheou as páginas. Não faria nenhum mal dar uma última
olhadinha na ilustração. Ela não ficou surpresa quando não a
encontrou. Na realidade, não encontrou nada nem ao menos
similar ao que ela havia visto.
Margo deslizou os dedos pela lombada do livro.
Sua capa suave e brilhante parecia tão normal. Fria e
suave ao toque.
Ela realmente havia imaginado tudo.
Uma pena, pois ela tinha certeza de que o bonito guerreiro
highlander e a costa selvagem e acidentada onde ele estava, a
perseguiriam para sempre.
E essa não era a história da vida dela?
Ela deveria conhecer a Escócia melhor do que qualquer
outra pessoa.
Agora nada seria o bastante.
Ela queria aquele highlander da praia.
Um homem que o ilustrador chamara de Magnus
MacBride, o Assassino de Vikings.
Capítulo Dois
Badcall Bay, Noroeste das Terras Altas
Um dia frio de outono, 1255

— Você sabia, Greer, que os normandos dizem que não se


pode escapar de seu destino?
Magnus MacBride, conhecido como o Assassino de
Vikings, olhou para o homem grande parado perto dele na
beira da água. Com a aparência de um boi e uma enorme
barba ruiva, Godred Greer não imaginava a fúria correndo
através das veias de Magnus. Apesar de que, se o traidor
estivesse próximo, poderia ter visto uma contração muscular
no queixo de Magnus. Ou o olhar assassino quando ele voltou
a vista para a linha azul escura que marcava o limite do mar.
Ao mesmo tempo, Godred cuspiu na areia.
— Eu faço meu próprio destino.
Magnus acenou.
— Tantos homens dizem o mesmo.
Ele se aproximou das ondas, fingindo assistir o movimento
delas. Na realidade, a sede de sangue o consumia.
Em breve ele faria o que fazia de melhor, vingar-se e
acertar os terríveis enganos. Ansioso para começar, ele abriu e
fechou os punhos e deixou que seus lábios se curvassem em
um sorriso que teria secado a garganta de Godred, se o
bastardo pudesse ter visto o seu rosto.
Mas ele manteve suas costas viradas, seus olhos no mar,
pois aquela cena de carnificina ainda tinha o poder de escaldar
suas entranhas, mesmo após cinco longos anos.
Nenhum sinal de chamas ou grossas nuvens de cinza,
escuras, sinistras sujavam o ar ou cheirava a fumaça. E
nenhum navio dragão podia ser visto navegando em mar
aberto.
Mas a faixa em forma de lua era um lugar de sepulturas e
o vento soprando pelos penhascos escarpados ainda ecoavam
os gritos dos inocentes. Muitas das pedras ao longo da costa
ainda estavam enegrecidas e dentro das ruínas carbonizadas,
as pedras escurecidas tornaram-se geladas.
Era um local de encontro para purgar o mal.
E agora que ele estava ali, a apenas uma espada de
distância de Godred, o traidor, Magnus alcançou e puxou a fita
de couro que prendia seu cabelo, deixando-o cair sobre seus
ombros. Isso ele também aprendeu com os Vikings.
Eles matavam com os cabelos soltos.
Atrás dele, Godred parecia inconsciente que sua morte se
aproximava.
— Você escolheu um lugar doente para aconselhar,
MacBride. — Ele se juntou a Magnus na beira da praia. — Este
lugar não é nada mais do que uma sala de cadáveres. — Suas
palavras fizeram a raiva se emergir.
Respirando fundo, ele olhou para o lado da costa onde
Donata, a irmã de Godred, andava perto de restos de uma casa
de pescador queimada. Uma mulher pequena, mas bem
torneada, ela tinha olhos ousados e uma massa de cabelos
escuros e encaracolados que brilhavam como a asa de um
corvo. A capa que ela vestia também era preta e ela usava
correntes de prata e azeviche10 ao redor de seu pescoço,
pulsos e tornozelos. Seu perfume exótico se espalhava com o
vento marinho e a presença dela apenas deixava Magnus mais
irritado.
Não que ela o tentasse.
Nenhuma mulher o tinha feito desde Liana, que Deus
confortasse sua alma.
Entretanto, nenhuma mulher, mesmo a irmã de um
traidor, deveria testemunhar o que ele pretendia fazer com
Greer. Mesmo sabendo a razão pela qual ele a havia trazido.
Existiam rumores de que Donata Greer era uma bruxa.
Neste instante, Magnus podia jurar que ela estava tecendo
alguma magia negra sobre ele. Os lábios dela moviam-se em
um canto que ele não conseguia ouvir e a cada vez que ela
lançava um olhar em sua direção, ele via o veneno. O que quer
que ela estivesse lançando, era um mau presságio.
Magnus se esticou.
Ele não temia nada. Mas ele não poderia dormir bem com
uma mulher dessas embaixo de seu teto.
Godred Greer não ia a nenhum lugar sem ela. Ela o
aconselhava em cada movimento. Ou pelo menos era isso o que
os monges tagarelas diziam. Uma pena, para Greer, que ela
não o tenha alertado para ignorar a convocação de Magnus até
Badclay Bay.
Uma pena, também, que a cabana de pescador destruída
onde Donata estava, ficava tão perto de onde Liana havia sido
encontrada, morta sobre a areia.
A lembrança espalhou uma dor quente pelo peito de
Magnus. Uma onda de raiva o atingiu, mas ele lutou contra a
névoa vermelha. Ele precisava de sua inteligência, até mesmo
mal conseguindo se conter para encher o ar com o sangue
fedorento de Godred.
Essa glória viria em breve.
Por agora…
— O que você fala é verdade. — Ele se virou para o
canalha. — Esta praia é um cemitério. Está tingindo,
encharcado de sangue, profanado. Porém, onde mais nós
poderíamos ter certeza de que os normandos não poderiam
observar nosso encontro? — Ele abriu seus braços indicando a
devastação.
— Não há nada aqui que os atraia. — Ele mal podia evitar
toda sua indignação ao falar. — Eles vigiam as águas ondes
eles têm certeza de que poderão fazer uma rica pilhagem. E eles
procuram por locais com pouca resistência.
— Todos nós sabemos disso. — Godred olhou para o
penhasco e depois para Magnus. — Eu não vim aqui para
desperdiçar meu tempo falando de invasores pagãos. O seu
homem disse que desejava minhas espadas. — Ele franziu o
cenho, olhando novamente para os penhascos, onde vários
homens de Magnus desciam até a praia. — Disseram-me que
você está oferecendo terras e dinheiro por uma boa quantidade
de guerreiros.
Magnus sorriu abertamente. Os homens no penhasco
eram um sinal, deixando-o saber que eles liquidaram os
guardas de Godred, que estavam esperando lá me cima.
— Farei de você um homem rico, é verdade. — Magnus
apenas não disse que ele faria isso ao enviá-lo para Valhalla11,
onde ele poderia apreciar o esplendor do salão de festas de
Odin. — Mas antes, eu quero ouvir porque os invasores pagãos
não destruíram o seu trecho desta costa.
— Eles têm conhecimento. — Godred inflou o peito. — A
proeza de meus homens é conhecida, até mesmo por esses
ladrões bastardos. O que eu quero ouvir — seus olhos
brilharam em desconfiança — é a razão de você ter a audácia
de me perguntar.
— Sigurd Quebrador de Espadas retornou. — O tom de
voz de Magnus era duro. — Dizem que ele quer se estabelecer
aqui. Ele almeja um bom refúgio e ancoradouro para sua
embarcação e um lugar para seu gado pastorear. — Magnus
analisava Godred cuidadosamente. — Ele não deixaria terras
tão propícias como as suas intocadas; não importa a ferocidade
de seus homens.
Godred cuspiu novamente.
— Quem sou eu para saber o que se passa naquela mente
diabólica?
Magnus balançou a cabeça, deixando que o vento
bagunçasse seus cabelos.
— Você conhece os deuses nórdicos? Talvez Odin tenha
desistido de um de seus olhos pela dádiva de uma língua de
ouro? Poderia ser que você tenha se aliado com um senhor de
guerras nórdico com uma profunda fome por terras? Que você
renunciou sua lealdade a esta terra em troca da promessa de
obter prata viking?
— Sua cobra! — Godred arregalou os olhos. Seu rosto
ficou roxo. — Nunca ouvi tantas mentiras!
— Você é o mentiroso. — Magnus deu um passo à frente e
jogou para trás o manto de Godred, para revelar as fileiras de
braceletes de ouro e prata do bastardo. — Vikings costumam
usar tais enfeites para compensar homens que os serve bem.
Incluindo idiotas que acreditam nas promessas vazias. Homens
assim tem os braços brilhando com os braceletes que
compraram suas lealdades. Eles…
— Vira lata! — Godred puxou seu manto das mãos de
Magnus. — Você não usa menos que eu. Todos os homens
falam dos braceletes em seus braços. Vejo-os agora, brilhando
em você...
— Os braceletes no meu braço me recordam cada viking
que matei. — Magnus flexionou seus músculos, orgulhoso de
seus braceletes. — Eu uso um diferente a cada dia e os obtive
sozinho, um bracelete de prata ou ouro por cada normando
morto. Eles não são presentes de guerra de um senhor de
guerra normando. Eu os uso abertamente e não escondidos sob
um manto escuro.
— Nem — Ele puxou a corrente de prata do pescoço de
Godred — uso uma dessas!
Magnus fechou o punho ao redor do martelo de Thor e
depois atirou o colar no mar.
— Você não precisa de tal amuleto para se sentir perto dos
deuses Vikings. — Ele bateu o punho em sua espada. — Eu
pretendo acelerar sua presença até eles.
— Por Odin, você quem irá! — Godred rugiu, alcançando
sua própria arma. Mas antes que ele pudesse desembainhá-la,
Donata correu entre eles, atirando-se em Magnus.
— Toque nele e você estará condenado! — Ela bateu em
seu peito com seus punhos, seus olhos escuros selvagens. —
Você e os seus queimarão no inferno. Seus filhos e os deles e
todas as gerações que vierem depois estarão amaldiçoados
nesta terra e em cada mundo depois.
— Hah! — Magnus mal sentia os golpes dela. — Suas
palavras serão desperdiçadas. Eu não tenho filhos. E eu
também não terei nenhum.
— Em breve desejará poder. — Ela ergueu a mão e cortou
sua bochecha, transferindo o sangue de suas unhas em formas
de garra para o rosto de Magnus. — Eu o amaldiçoo a querer
tanto uma mulher que você não conseguirá respirar, comer ou
mesmo dar um passo sem queimar por ela. — Magnus limpou
o sangue de seu rosto. — Eu não desejo mulher alguma.
— Você irá. — Os olhos de Donata se estreitaram,
brilhando loucamente.
— Ela será uma mulher que você nunca poderá ter. Ela
assombrará seus sonhos e você a verá em todos os locais, mas
ela permanecerá tão distante quanto as estrelas.
— A mulher que eu amava está muito distante. — Magnus
limpou com indiferença seus dedos no plaid. — Ela está morta.
— Uma outra mulher vive. E você vai desejá-la como uma
febre que queimará suas veias. Você a perseguirá, nunca
alcançando mais que o ar. — Donata jogou a cabeça para trás,
elevando sua voz. — Você perderá sua razão, desejando a sua
própria morte. Esta é a minha maldição para você!
Magnus riu e agarrou os braços dela, tirando-a do chão.
— Eu vivo em um inferno. Você não pode amaldiçoar um
homem já condenado.
— Não, mas eu posso matá-lo. — Godred desembainhou
sua espada, balançando-a de um lado para o outro.
— Você terá sua chance. — Magnus sorriu, saboreando a
luta.
— Sem chances, apenas a sua morte. — Godred olhou
para ele.
— Largue a minha irmã.
— Oh! Eu irei. — Magnus ampliou seu sorriso. O sorriso
frio que fazia temer a maioria dos homens nestes últimos anos
sangrentos.
Sabendo que Goldred não atacaria enquanto ele
mantivesse Donata, ele olhou para o local onde estavam seus
homens, perto da parte inferior da trilha do penhasco. Eram
seis, todos usando cota de malha e bem armados. Dois deles
trazendo sacos de couros cheios.
— Ewan! Venha aqui e a leve para o penhasco. E — Ele
ignorou as pernas agitadas e as unhas afiadas de Donata. —
não deixe a lady arranhá-lo.
— Não deixarei. — Ewan, um rapaz muito forte e o
guerreiro mais jovem de Magnus, veio correndo até eles. Sem
nem olhar para Godred, ele pegou Donata em seus braços e a
carregou subindo da trilha.
Ela lutou contra o aperto de Ewan, ainda lançando
maldições para Magnus com sua voz estridente.
Pouco antes de Ewan chegar ao caminho do penhasco, ele
olhou para trás por sobre o ombro.
— Eu gosto quando elas têm espírito! Nunca há
aborrecimento.
— Nada de tolices, rapaz. — Magnus sacou sua espada
enquanto falava, seus olhos na lâmina brilhante de Godred. —
Nós não fazemos guerra com mulheres. Ela vai para um
convento junto com as outras damas de Greer.
— Minhas mulheres não são de sua preocupação. —
Godred balançou seu aço em um arco, que poderia ter cortado
o intestino de Magnus se ele não tivesse pulado para o lado
rápido o bastante.
— Você não tem mais nenhuma mulher. — Magnus ceifou
sua própria lâmina no ar, provocando. — Meus homens estão
vendo uma nova casa para elas, um lugar onde elas apreciarão
a benevolência da Igreja Sagrada.
— Seu mentiroso. — Godred fez outro movimento,
cortando o braço de Magnus. — Elas estão no Castelo Greer.
Magnus jogou o cabelo para trás, ignorando a pontada em
seu cotovelo.
— O Castelo Greer não existe mais. — Ele girou a lâmina
em outro sibilante arco, forçando a queda de Godred. — Eu
tenho muitos homens. Alguns deles usaram meu navio, o
Corvo do Mar, para fazer uma rápida visita a seu salão, logo
após sua partida hoje pela manhã. Eles queimaram sua
fortaleza, enquanto outros homens ajudavam suas mulheres a
saírem. Tudo o que resta é uma encosta enegrecida e — Ele
avançou, cortando o manto de Groded — tudo o que era meu.
— Alan, Donnie, tragam os sacos! — Magnus elevou a voz
por sobre o barulho do choque entre as espadas. — Mostrem a
esse besouro de esterco o que vocês encontraram ao cavar
debaixo da lareira dele.
Dois homens grandes com peitos largos e braços grossos
cruzaram a praia e arremessaram as pesadas bolsas aos pés de
Godred. As sacolas tilintaram quando elas bateram no chão.
Magnus abaixou sua espada e abriu a maior sacola e um
rio de prata e ouro se derramou na areia. Moedas, anéis,
colares, chifres adornados com joias, copos e castiçais de
prata, broches celtas enormes e até mesmo um capacete de
guerra feito de ouro.
— Você pôs fogo no meu salão? — Godred empalideceu
olhando para as coisas saqueadas.
— Eu peguei de volta o que era meu. — Magnus ergueu
sua espada e apontou a ponta para a barriga de Godred. —
Estes tesouros eram parte do presente de noivado de Liana.
Sigurd Quebrador de Espadas pegou a maior parte dele. Mas
ele pagou a você uma outra parte por avisá-lo onde ele
encontraria tais coisas.
— Você não terá alegria nisso. — O ódio queimava nos
olhos de Godred. Rosnando, ele balançou sua espada em um
arco de fúria, apontado para o lado de Magnus. Ele rosnou
quando não acertou por uma distância menor que um fio de
cabelo.
Magnus virou, um giro tão rápido quanto um raio, que a
espada parecia um borrão, atingindo Godred, fazendo com que
esse caísse de costas na água. Magnus lutou como um
demônio, empunhando sua lâmina da esquerda para a direita,
cortando e cortando até que uma mancha vermelha começou a
sair das costelas de Godred.
— Bastardo! — Godred escorregou nas ondas que varriam
a areia, mas mantinha-se atacando, porém desajeitado. Seus
movimentos estavam mais selvagens, errando-os por pouco,
cortando apenas o ar.
— Matar-me não mudará nada. — Ele grunhiu,
tropeçando novamente. — Sigurd dormirá em sua cama,
violará sua mulher…
— Eu não tenho mulher! — Magnus rosnou com a raiva
quase o cegando. — E você estará morto! — Ele atacou, sua
espada batendo furiosamente contra o aço da de Godred,
forçando este a cair de joelhos.
— Levante-se e morra! — Magnus rosnou o encarando. —
Eu não matarei um homem de joelhos. — Ele manejou sua
lâmina e em uma inspiração ela já estava no pescoço de
Godred. — Está na hora de seu sangue colorir o mar e
alimentar as gaivotas. — As aves já estavam se reunindo em
círculos. — Elas se alimentarão de sua carne.
— Não, será com a sua! — Godred se levantou, uivando ao
mesmo tempo que brandia sua espada. Ele cortou apenas o ar
novamente e, dessa vez, sua lâmina voou de seus dedos
ensanguentados e desapareceu nas ondas, afundando no mar.
— Grande Odin! — Magnus se lançou, sua espada
alcançando a garganta de Godred em um único e violento
golpe. Godred caiu na água, uma fonte de sangue em um arco
quente e vermelho se espalhava pela areia e tingia as espumas
das ondas.
Ele tombou, contorcendo e sacudindo-se, apertando a
garganta aberta no instante em que a onda veio sobre ele. Seu
rosto mostrava o conhecimento de que ele não iria
cumprimentar Odin ou qualquer outro deus nórdico, morrendo
sem uma arma em sua mão. Então, enfim, ele deu um grito de
lamento e um suspiro final, seus olhos preenchidos de ódio.
Estava feito.
Ofegante, Magnus olhou para seu inimigo e depois
enterrou sua espada, Vingança, na areia molhada e
ensanguentada. A lâmina estremeceu, cantando a melodia da
morte, seu aço cantarolando com a força da fúria de Magnus.
Alan e Donnie vieram até ele, ambos cuspindo no corpo de
Godred.
— Devemos enterrá-lo? — Era Donnie quem falava, seu
tom revelando que ele mesmo preferia cortar a própria garganta
do que dar a Godred essa cortesia.
— Não. Nós o deixaremos. — Magnus ergueu a vista por
sobre as ondas, para o oceano vazio. Ele não olhou para seus
homens ou para o que sobrou do bastardo que um dia ele
pensou ser um amigo. — As gaivotas farão isso por ele. A maré
e o vento levarão o que elas deixarem para trás. — Era um
destino mais gentil do que o do próprio Magnus.
Ele fechou os olhos e elevou ambas as mãos para o ar, não
se importando que seus dedos estivessem pegajosos com o
sangue de Godred.
A vingança fora feita.
Nada mais importava.
Ele deu uma inalada profunda, o eco das palavras de
alerta de Godred apertando seu peito, socando seu coração…
Sigurd violará sua mulher.
Liana fora poupada de sofrer esse horror. E ele, Magnus
McBride, Assassino de Vikings, não mancharia a memória dela
tomando outra noiva.
Nem com prostitutas ele se deitava.
A maldição de Donata não o tocaria. Qualquer luxuria que
queimasse dentro dele seria morta.
E olhar para o corpo cortado e mutilado de Godred apenas
inflamava as chamas de sua raiva.
Então ele se ajoelhou e, como sempre fazia, tirou um
bracelete retorcido de ouro do braço flácido de Godred. Quando
se ergueu, já mais calmo, ele se virou para Alan e Donnie.
— Recolha as moedas e tudo o que caiu das sacolas. —
Ele sacudiu a cabeça ao ver os bens que foram de sua noiva
espalhados pela areia. — E leve-as com a irmã de Godred e as
outras mulheres para o primeiro convento que as aceitar. As
moedas comprarão uma boa vida para essas mulheres dentro
das paredes da clausura.
— Não levarei nenhum tesouro para Castelo Badcall. —
Uma onda de terror cruzou seu rosto. — Não depois de todo o
desgosto que ele causou.
Donnie e Alan trocaram olhares. Olhares que fizeram a
raiva de Magnus recomeçar. Ele ergueu uma sobrancelha
esperando.
Alan falou primeiro:
— Estas sacolas carregam uma fortuna, lorde.
— Elas me custaram muito mais. — Magnus arrancou sua
espada da areia, limpando a lâmina em seu plaid. — Algo
muito mais precioso e que nem todo o ouro do mundo poderia
substituir.
Alan abaixou o rosto, envergonhado.
— Eu não quis…
— As vadias de Godred não o agradecerão. — Donnie
olhava para a faixa de terra que levava ao caminho do
penhasco. De lá de cima, a voz rancorosa de Donata Greer
podia ser ouvida, arrepiando os homens de Magnus. — Uma
delas me mordeu quando nós a carregamos da fortaleza de
Godred. Veja aqui. — Ele enrolou as mangas, mostrando a
marca da mordida. — A bondade das gatas do inferno.
— Esta é mais uma razão para presenteá-las com uma
nova vida de orações e penitências. — Magnus embainhou
Vingança. — Vão agora. Levem o tesouro e a irmã de Greer. Se
vocês forem rápidos, alcançarão os outros antes que anoiteça.
— E antes que a visão dos bens de sua noiva pudesse
contaminar com mais ferocidade o coração de Magnus.
A dor já estava além do suportável.
Como que para assegurar isso, enquanto ele dava fim a
Godred, ele vislumbrou uma linda mulher nua de pé na
arrebentação, com olhos arregalados, mostrando todo seu
horror enquanto ele dava a Greer seu golpe final.
Com gotas de água escorrendo pelo corpo dela, a espuma
brilhava em seu cabelo claro como o sol e nos ombros, as gotas
cintilando como joias nas exuberantes curvas de seus seios.
Ela olhava direto para ele, gritando enquanto ele empunhava
sua espada.
O grito dela foi silencioso.
Ele piscou e ela se foi.
A imagem dela o atordoou. E até mesmo no meio daquela
sede de sangue, ele a desejou. Um desejo, quente, rápido e
poderoso tinha tomado conta dele, fazendo-o queimar com uma
necessidade que ele nunca tinha sentido antes.
Nem mesmo por Liana.
Era uma labareda de paixão que só poderia ter sido
conjurada por magia negra. E isso o matou de forma mais
eficaz do que se ele tivesse sentido o aço frio da espada de
Godred atravessar o seu corpo.
Ele já não tinha mais nenhum uso para as mulheres.
E ele certamente não queria desejar uma alucinação
evocada por Donata para amaldiçoá-lo. Fazer isso só daria
credibilidade ao que seus homens vinham insistido há tanto
tempo. A determinação dele em seguir o caminho da espada,
sua busca feroz por vingança, finalmente estava tomando a
melhor parte dele.
E ele estava perdendo o juízo.
Horas depois, novamente em Castelo Badcall, Magnus se
levantou do estrado de seu grande salão e olhou para seus
homens apreciando a refeição. Felizmente, ele não havia tido
mais um mero vislumbre de uma ninfa nua, seu corpo
brilhante e molhado, deslizando pelas sombras para provocá-
lo.
Não existia nada que pudesse agitar seus sinais vitais.
Quem quer, ou o que quer, que ele tivesse visto, havia
desaparecido com a maré.
Ele poderia rir alto, aliviado.
Ao invés disso, ele inspirou profundamente e tirou a
beleza nua para fora de sua cabeça.
Os gritos de Donata e sua própria alegria em se vingar de
Godred tinham claramente o deixado confuso. Não havia outra
explicação. Mulheres bonitas e nuas não apareciam do nada e
depois desapareciam diante dos olhos de um homem.
Provavelmente, ela nunca esteve ali afinal.
Querendo que isso fosse verdade, ele aprumou o corpo.
Depois deu mais uma olhada por todo o salão para comprovar
se tudo estava bem, se a noite progredia como deveria ser.
E estava.
Velas grossas dispostas ao longo das mesas iluminavam
seus homens de barba no rosto enquanto eles mesmos se
serviam da cerveja, pão e queijo. E suficiente carne assada
para satisfazer seu exército. Braseiros queimavam nos cantos,
espalhando calor, assim como o fogo da grande lareira central.
Mas era uma noite escura e o vento frio chicoteava nas
cortinas, o ar gelado agitava as cortinas, o frio gelado se
infiltrando, para o azar das pobres almas que só conseguiram
assento embaixo das altas janelas.
Magnus abaixou o olhar quando seu cão, Frodi, arrastou-
se e se inclinou sobre ele. Ele esfregou os ombros ossudos da
fera. Amigo e companheiro de muitos anos, Frodi o conhecia
melhor do que qualquer homem e sem dúvida sentiu sua
inquietação.
A raiva que sempre fervia dentro dele, retorcia seu
intestino até agora.
Ele deveria estar se sentindo triunfante.
Godred Greer era um idiota e merecia morrer. Ver o
sangue dele manchando a areia da praia e ouvir seus últimos
gemidos preenchendo o ar o tinha deixado satisfeito. Magnus
apenas se arrependia era que a morte não foi lenta o bastante.
Um fim com um pouco mais de tortura para aquele demônio de
coração negro, que trouxe tanto horror para os inocentes
pescadores da vila de Badcall.
Ele vendeu a vida de Liana e de seu povo pelo brilho da
prata e do ouro.
Agora ele pagará pelo preço de sua ganância.
Entretanto, Sigurd Quebrador de Espadas ainda vivia.
E até que Magnus esquentasse as suas mãos na tocha da
morte do Senhor da guerra viking, ele sabia que não teria paz.
Ele nunca conheceria a felicidade.
Felizmente, ele também sabia que se ficasse parado na
beira do estrado, olhando para o enfumaçado salão, mais do
que um de seus bem-intencionados homens assumiriam a
missão de alegrá-lo.
Ultimamente, eles faziam isso cada vez mais.
E para aumentar sua irritação, a ideia deles de diversão,
frequentemente levava a forma de alguma criada da cozinha
com natureza luxuriosa, de seios grandes e vigorosos cujos
encantos bem testados, eles acreditavam ser capazes de fazê-lo
sorrir novamente.
O problema com a lógica deles era que Magnus não
costumava sorrir.
Ele também apreciava sua paz, então retornou para o seu
lugar na mesa alta, uma magnífica monstruosidade feita de
carvalho, criada séculos atrás como um presente para a esposa
de um dos chefes MacBride, há muito tempo falecido.
Determinado a ser deixado sozinho, ele fingiu interesse nas
costelas de carnes que ele empilhou em seu prato. Se fosse
cuidadoso, ninguém notaria que ele pretendia passar a maior
parte de seu jantar para Frodi.
O velho cão precisava de carne em seus ossos.
E Magnus temia que se erguesse a vista, veria uma
Valquíria12 nua, coberta por espumas, movendo os seios e
arruinando seu apetite. Desde Liana, ele se sentia frio como a
neve no inverno para as outras mulheres. A visão daqueles
olhos grandes e cabelos claros na praia o havia queimado como
o sol.
Ele ainda era capaz de ver os olhos azuis dela, furiosos
com ele. O olhar dela ficou preso ao dele como se ela fosse real.
A maldição de Donata ecoou em seus ouvidos,
condenando-o.
Furioso, ele olhou para as costelas em seu prato.
Sua raiva com a bruxa não tinha limites. A reação de seu
corpo para a mulher que não estava ali, poderia fazê-lo não
querer jantar por uns quinze dias.
Talvez até mais.
Algo lhe dizia que meros quinze dias não seriam
suficientes para bani-la da memória.
Deus tivesse misericórdia dele!
— Você não consegue enganar ninguém, rapaz. — Calum,
o guerreiro mais velho, a quem Magnus amava como a um pai,
pegou seu pulso no momento em que ele tentava dar um
pedaço de carne para Frodi.
— A verdade é que… — Calum se aproximou, abaixando
sua voz. — os homens estão preocupados com você.
— Humph. — Magnus se livrou do aperto de Calum e deu
a Frodi o petisco.
Ele também fez uma careta.
Seus homens não podiam sonhar sobre as preocupações
que rondavam sua cabeça neste instante. Ao menos se os
loucos estivessem com medo de admitir, nenhum deles havia
visto uma tentadora feiticeira no mar.
Valquíria, deusa, ninfa das águas ou o que quer que ela
fosse.
— Meus homens não têm razão para se preocuparem. —
Magnus falou em um tom duro.
Depois pegando sua cerveja deu um longo gole, abaixando
e colocando a caneca na mesa com um grande estalo.
— Eles me viram encharcado de sangue e sorrindo em
Badcall Bay a algumas horas atrás. Eles viram como eu abri a
garganta de Godred e enviei o bastardo para o corredor de
corpos de Odin.
— Um homem incapaz não teria feito algo assim. —
Magnus se serviu de mais cerveja. Depois ele olhou para Calum
e estreitou a vista. — Meus homens e você estão se
preocupando por nada.
— Ninguém nunca questionará suas habilidades de luta.
— Calum devolveu o olhar com uma irritante razão. — Você
pode cortar qualquer um de nós antes que nossas espadas
estejam no meio do caminho. Cada homem nesse salão sabe
disso. Mas… — Ele falou em um tom que fez Magnus se sentir
um garoto de doze anos. — olhe para a alcova nas sombras da
janela e diga-me o que você vê. — Magnus reprimiu uma
maldição e seguiu o olhar do homem mais velho. — Vejo Maili,
a filha do ferreiro.
— Isso é tudo? — Calum o pressionou. — Você não vê
nada mais? O que a criada está fazendo?
— Maili não é uma criada, seu bode velho!
— Aye, bem, ela tem outros talentos para serem elogiados,
não? E velho como estou, é verdade. Meus olhos não como
antes… — Calum balançou a cabeça, fingindo um olhar
conturbado. — então faça um velho homem feliz e diga-me o
que ela está fazendo, lá nas sombras.
— Por Thor, Odin e Loki! — Magnus rosnou seu juramento
nórdico favorito. Sabendo que Calum iria importuná-lo toda a
noite se ele não fizesse o que ele ordenara, ele virou-se para
olhar mais fundo nas sombras da alcova.
Ele viu imediatamente o porquê de Calum o provocar.
Maili, uma moça gorda com uma massa de cabelos
vermelhos, indisciplinados e brilhantes e olhos atrevidos,
sentada em um dos bancos da alcova. Ela havia aberto o
corpete para arejar seus grandes e redondos seios e seus
mamilos duros e erguidos.
E, Magnus franziu o cenho, a pequena sem vergonha
tinha uma das mãos embaixo da saia. Quando ela notou seu
olhar, sorriu e rapidamente levantou a bainha, dando a ele um
vislumbre de cachos avermelhados entre as pernas levemente
separadas.
— Maldição! — Magnus se virou. — Seu bode velho e
lascivo — Ele lançou um olhar furioso para Calum. — você
sabia o que ela estava fazendo.
Calum teve a ousadia de estalar o queixo.
— Eu pedi a ela para me ajudar a lhe mostrar sobre o
porquê os homens estão falando?
Outros homens não estariam agora usando seus reflexos?
Eles teriam cruzado o salão, a ânsia por uma bela garota
colocando asas em seus calcanhares.
— Observe. — Calum parou quando um dos guardas de
Magnus se juntou a Maili na alcova. O homem a puxou para
mais perto, inclinando a cabeça entre os seios dela. — Não é
saudável para um homem viver apenas da glória da guerra.
— Eu vivo por muitas coisas. — As palavras saíram vazias
até para Magnus. Calum falava a verdade e saber disso apenas
o fazia ficar mais furioso. — Minha hostilidade manteve Maili e
os outros em segurança por uma noite.
Aquilo era algo que seu velho amigo não concordava.
Infelizmente, suas palavras fizeram com que os olhos de
Calum ganhassem uns brilhos ainda mais de beligerância.
— Pode até ser. Mas Maili não o tentou, não é?
— E? — Magnus fez uma careta, sua noite estava
totalmente arruinada.
Calum nem piscou.
— Seus homens receiam que você esteja virando um
monge.
— E se eu virar? — A voz de Magnus estava perigosamente
baixa.
— Então você está pisando em terreno perigoso. — Calum
espetou um pedaço de queijo com sua faca de comer.
— Os MacBrides são muito supersticiosos. Há alguns
deles… — Ele partiu um canto do queijo, mastigando com uma
irritante deliberação — que acham que semente acumulada
pode envenenar um homem, até mesmo seguir até a cabeça e
entupir seu cérebro. Se você não a derramar logo…
— Eu derramo sangue, seu idiota intrometido. — Magnus
se levantou de sua cadeira de laird.
Tão rápido quanto um raio, os dedos de Calum fecharam-
se ao redor do braço de Calum novamente. E desta vez, quando
o homem mais velho estreitou o olhar para Magnus, a
ferocidade nele causou um arrepio na nuca de Magnus. Ele
voltou a se sentar em sua cadeira, um medo estranho
apertando seu peito. Por um momento, a sala iluminada pelo
fogo pareceu escurecer e ele imaginou ouvir o barulho das
pulseiras de Donata. — Veja, você está condenado até aqui, no
coração de sua própria casa. — A provocação dela cruzou sua
mente, depois o sussurro se foi deixando-o duvidar de seu
próprio juízo.
Calum o estava observando atentamente. Magnus franziu
o cenho.
— O que foi?
— É estranho você falar em derramar sangue. — Os olhos
azuis de Calum brilharam à luz da lua. — Orosius acha que
você morrerá em breve. Ele...
— Hah! — Magnus ficou atento, esquecendo a feiticeira.
Ele procurou por todo o salão pelo vidente corpulento e
barrigudo. O único homem capaz de aterrorizar o coração de
Magnus, Orosius via verdades, ouvia as vozes de mortos e
jogava runas com uma habilidade incomparável.
Orosius dizia que os deuses andavam com ele, mas ele
suspeitava que eles também foram os responsáveis por ele
perder parte da orelha esquerda em uma longa disputa de
espadas. Punição, ele acreditava, por tentar usar seu talento
como um vidente e mestre de runas para ouvir mais do que ele
deveria.
Os deuses não gostavam quando esses mortais
abençoados acreditavam que eram grandiosos.
Agora, Orosius era cauteloso e respeitoso com seu dom.
Ele nunca usava suas habilidades para ganhar algo e
recusava moedas por sua sabedoria, aceitando apenas cerveja
e mantimentos em pagamento. E, quando necessário, madeira
para seu fogo.
Calum olhou por sobre seu ombro, como se desejasse que
ninguém mais ouvisse.
— Orosius…
— O que ele viu? — O pulso de Magnus estava acelerado.
Se Orosius o viu cair, ele iria.
O vidente nunca errava.
E mesmo se Magnus não tivesse medo da morte, ele não
estava pronto. Ele não poderia deixar esta terra antes do último
suspiro de Sigurd Quebrador de Espadas.
— Então? — Magnus lançou um olhar pelo salão.
— Osorius está dizendo que alguém arrancará minha
cabeça? Cortará minha cabeça e derramará meu sangue?
— Ele não viu nada assim. — Calum mordeu outro pedaço
de queijo. — E você não precisa quebrar o pescoço procurando
por ele. Ele está na cabana dele, dormindo e fora de sua visão.
Eu posso lhe dizer o que ele viu. — Calum olhou para ele. —
Foi você se deitando com uma mulher morta.
Os olhos de Magnus se arregalaram.
— Deitando-me com…
— Ele viu você nu, os dois, e você tomava a mulher com
paixão. Orosius acredita que era Lianna.
— Eu nunca toquei em Liana. — Magnus sentiu seu
sangue gelar.
— Não em vida. — Calum fez pouco caso de seu protesto.
— É por isso que Orosius está certo que você está perto de nos
deixar. Liana habita o mundo dos mortos.
— Como ele sabe que essa mulher é Liana? — O coração
de Magnus disparou, uma suspeita terrível apertando suas
entranhas. — Ele a viu claramente?
— Não. — Calum confirmou seu medo. — Ele apenas a viu
de costas e a beleza de seus cabelos. O rosto da mulher estava
virado.
— Ela poderia ser qualquer uma.
— Você não tem tocado nenhuma mulher nesses cinco
anos. — Calum expressou o que ambos sabiam. — Quem, além
de Liana, o tentaria a entrar na cama dela?
— Ninguém. — A negação de Magnus veio dura.
E isso não era verdade.
A Valquíria nua poderia seduzi-lo.
Se ela fosse real, ele não seria capaz de resistir a ela.
Apenas em imaginar se deitar com ela, seu sangue se
incendiava em suas veias. Tal mulher, em carne e osso, poderia
queimá-lo, em chamas que iriam de seu quadril até o coração.
Não que ele precisasse se preocupar.
Ela não existia.
Capítulo Três
Magnus MacBride, Assassino de Viking.

O nome tirava o ar de Margo e fazia seu pulso acelerar.


Mesmo agora, horas após sair da Vosso Velho Tempo Pagão e
chegar em casa. Real ou imaginário, ele despertou uma paixão
que nenhum homem do século XXI havia feito. Ela suspeitava
que a magia que Patience quebrara permanecia no livro,
abrindo um canal que sua chefe não percebeu que existia,
permitindo que o sexy escocês parecesse tão real. Qualquer que
fosse a causa, ela tinha facilidade em imaginá-lo. Claramente,
realçado, em cores vibrantes, como se ela estivesse bem ali com
ele, em seu tempo, naquela praia distante.
Achá-lo, apenas a fez recordar da grande tragédia que era
sua vida.
Ela havia nascido no século errado.
Ela definitivamente foi colocada do lado errado do
Atlântico.
Homens como Magnus MacBride não andavam na
América moderna. Nem frequentavam New Hope, cidade tão
aconchegante e pitoresca como era. Seu último desastre
amoroso havia sido com um programador que revelou ter um
péssimo beijo. Ele a atraiu porque ele era um aficionado por
história. Mas ele era um entusiasta da Guerra Civil e não da
Escócia Medieval.
Desde que o deixou, ela perdeu o interesse em romances.
Ao menos…
Realmente existia algo de magia das Terras Altas.
Real, um poder ancestral, banhado de maneiras antigas e
muito mais forte do que as brincadeiras de Patience. O tipo de
magia que permitiu que Magnus se manifestasse em sua
frente.
Seu lado sensível sabia que isso nunca poderia ter
acontecido. Aquela parte dela que a encorajou a não desmaiar
por certas estrelas de filmes escoceses, tão populares
recentemente. Homens reais que realmente existiam, mesmo
que o status de estrelas de Hollywood tornassem ganhar seus
corações igualmente impossíveis.
Se ela pudesse ir para a Escócia, ela provavelmente
encontraria algum highlander vivo que a impressionaria.
“Mas ele não seria aquele a quem você quer”.
O sussurro rodou pela mente de Margo, fazendo-a saltar.
Era uma voz de mulher, alegre, íntima e totalmente irreal. Um
arrepio percorreu seu corpo e ela esfregou seus braços,
nervosa. Certamente o feitiço de Patience não era forte o
suficiente para fazê-la ouvir vozes que não existiam, não é?
“Magnus anseia por você”.
A voz novamente, dessa vez, adornada com um toque de
malícia. Margo enrijeceu, os finos cabelos de sua nuca se
arrepiando enquanto as luzes de seu apartamento piscavam e,
por um momento, a escuridão pulsou ao seu redor. Ela sabia
que estava sozinha, mas, assim mesmo, ela não conseguia
evitar a estranha sensação de que alguém mais estava ali com
ela, observando-a.
Alguém que não gostava dela.
Ela se sacudiu e empurrou aquela ideia ridícula para fora
de sua cabeça. Uma rápida olhada em seu apartamento,
assegurando que ela estava sozinha, ajudou a restaurar seu
senso de normalidade. O que ela não conseguia fazer, era
arrancar seus pensamentos de Magnus MacBride.
Não que fantasiar com ele a chateasse.
Uma garota tinha o direito a sonhar. Pensando apenas
nisso, ela mexeu os ombros e pressionou uma mão na parte de
baixo de sua coluna. Ela se espreguiçou, lutando contra a
tensão de um longo dia enquanto sua mente conjurava
diferentes e deliciosos cenários, encenados por ela e Magnus
MacBride.
Ele era um sonho digno.
Grande, sólido e com olhos quentes, cabelos longos e
escuros que voavam com o vento e aqueles poderosos bíceps
ornados com braceletes de prata e ouro. Ele era mais perfeito
do que qualquer homem que ela já tivesse visto. Sua fantasia
mais desejada trazida à vida por vívidas pinceladas. Ela daria
qualquer coisa para o ter conhecido quando ele era duro e
sólido. Mesmo no papel e tinta, cada polegada dele era
magnífica e a fazia formigar e se aquecer.
Se ela pudesse escolher para ter seu próprio highlander,
ela teria escolhido ele.
Ela havia esbanjado dinheiro no livro sobre ele, Mitos e
Lendas da Era Viking. Ela sacara de suas economias para gás,
mercado e emergências para comprá-lo. O grosso volume agora
ocupava um lugar de destaque no topo da mesa de centro de
tampo de vidro.
Cartões postais e pinturas das paisagens das Terras Altas
que ela havia cortado das revistas de viagens escocesas
brilhavam embaixo do vidro da mesa, proporcionando um pano
de fundo ideal para um bravo guerreiro das Terras Altas.
Não importava que sua ilustração de duas páginas
houvesse desaparecido misteriosamente do livro.
Ele tinha estado lá.
E isso era o suficiente.
Agora o livro era dela.
Uma pena que Magnus MacBride não fosse.
Gostando ou não, ele pertencia a um tempo a muito
desaparecido.
Nos dias atuais, não havia muita necessidade para
assassinos de vikings. Nem mesmo na Escócia. Mas aquilo não
queria dizer que ela não poderia se satisfazer com uma
imaginação melancólica. Depois de tudo, o apartamento dela -
um pequeno espaço de um quarto, no segundo piso de uma
casa de pedra de 1840 - estava decorado com objetos que uma
dedicada estudante da Escócia precisaria para fingir estar nas
Terras Altas.
Margo era mestre em romantizar.
Agora, três anos após mudar para aquela casa antiga, ela
era grata a Dina Greed, - malditos olhos grandes! - tivesse
ocupado o lugar dela no mundo moderno, no apartamento
mais espaçoso que Margo pensava que tanto queria.
Aquele complexo cheio de alarmes poderia parecer um
clube, com uma piscina e quadra de tênis, mas não tinha
aquela atmosfera.
Nem os prédios rangiam e gemiam quando o vento
assobiava ao redor dos beirais.
Margo gostava de rangidos e gemidos.
O tempo ventoso a lembrava do ar frio e céu cinzento da
Escócia. Assim como seus tesouros, como a caixa-forte
descartada que ela uma vez encontrou jogada sozinha e
desamparada perto de uma lixeira. Um pouco maltratada, mas
com uma tampa fina e enrolada com apenas tiras de ferro
enferrujadas, o baú guardava sua coleção de mapas e guias da
Escócia. Um outro prêmio era sua poltrona coberta com tecido
xadrez, uma maravilha que ela comprara por quase nada na
Envelhecendo Graciosamente, uma loja de roupas vintage não
muito longe da Vosso Velho Tempo Pagão.
A cadeira era parte dos acessórios da loja, não uma
mercadoria à venda. Mas Margo era tão boa cliente que a
proprietária da Envelhecendo Graciosamente permitiu que ela
fizesse a tão cobiçada compra.
Margo retribuiu ao indicar para as suas clientes de
harmonista lunar, as antiguidades de Ardelle.
Nesse momento ela olhou para seu relógio, acima de sua
adorada cadeira. Ela teve um dia estranho e cansativo e a
escuridão da noite se aproximava. A chuva da tarde havia
retornado com uma névoa cinzenta vingativa e grossa que
assoprava em sua janela. O vento sacudia as vidraças,
Fieldstone House era uma casa de pedras velha, as janelas
feitas com um vidro antigo e oscilantes, e o som a estava
deixando sonolenta.
O que ela precisava era um banho quente, uma xícara de
chá Earl Grey Cream13 e depois ir para a cama.
Se ela tivesse sorte, sonharia com Magnus MacBride, o
Assassino de Viking.
Contando que ela não fosse atormentada pelas imagens de
Dina Greed cruzando o Atlântico em direção às Terras Altas,
ela ficaria satisfeita.
Isso seria um pesadelo.
Mas os deuses que olhavam pelos amantes da Escócia
eram bons para ela.
O instante que ela entrou no banheiro foi invadida por um
leve cheiro de urze. Seu refúgio tinha toalhas felpudas
bordadas nas pontas, sabonetes e espumas de banho da linha
Orgânicos Lunares.
Patience havia dado a ela um generoso desconto. Todos
pensamentos sobre sua rival desapareceram. Ela puxou a
cortina de sua antiga banheira e ligou o chuveiro.
O vapor rapidamente encheu o ambiente, parecendo quase
como se a névoa das Terras Altas estivesse sobre o papel de
parede de urzes. Grossa, silenciosa e envolvente, a falsa
neblina lhe dava uma agradável sensação de conexão com a
selvagem parte norte da Grã-Bretanha que tanto ela amava.
Sua amada Escócia.
Aquela terra distante de colinas e charnecas, cachoeiras
espumantes e profundos lagos azuis, onde ela deveria ter
nascido. Kilts, gaitas de fole e castelos faziam o coração dela
acelerar e não hot dogs, beisebol e tortas de maçã.
Mas nem tudo estava perdido.
Algum dia ela andaria na beira-mar de alguma vila remota
das Terras Altas, ficaria em pé na beira de um espetacular
penhasco e veria o mar batendo contra pedras pontiagudas.
Ela se perderia naquelas colinas e respiraria o ar com
essência de pino e tomilho. Ou, melhor ainda, passearia por
uma pequena fazenda de paredes espessas em um vale calmo e
com um pouco de fumaça de turfa14 no ar frio do outono.
Assim que o navio dela chegasse, ela faria seu caminho.
Era tão bom sonhar….
Em algum lugar um cachorro latiu.
Margo franziu o cenho enquanto tirava sua roupa.
Não havia cachorros em Fieldstone House,
lamentavelmente. Ela realmente os amava e esperava ter um
algum dia. Mas ela ainda não tinha, entretanto se ela
descobrisse que alguém trancara um cãozinho do lado de fora e
na chuva, ela tentaria persuadir o dono a deixar que ela
adotasse o pobrezinho.
Cães tinham que ser amados.
Não deixados tremendo de frio e molhados no escuro.
Felizmente, o cão parou de latir, ela esperava que isso
quisesse dizer que ele estava seguro e quente, enrolado na
frente do fogo ou no sofá confortável de alguém, e isso era bom,
pois a noite estava ficando violenta. A chuva tamborilava no
telhado e a densa e cinzenta névoa pressionava contra a
pequena janela do banheiro, transformando a luz do poste
antigo em uma mancha de brilho amarelo.
Margo piscou.
Por um momento, ela teria jurado que as bordas estavam
borradas em vermelho. Mas quando ela olhou novamente a luz
estranha havia desaparecido.
Mesmo assim, ela se virou para o peitoril da janela e
acendeu três velas brancas. Dispostas em bandejas de
pequenas pedras polidas por águas de rio, o arranjo foi um
presente de Patience, que sempre murmurava feitiços de
proteção em cada vela que saía da Vosso Velho Tempo Pagão.
Patience acreditava em fazer a parte dela pela comunidade
ao enviar uma benção para o lar de cada cliente. Ela alegava
que o feitiço protegeria os clientes, eles ciente ou não de que
saiam com uma vela encantada. Ou óleos essenciais e
difusores que garantiam não apenas espalhar fragrância, mas
também, manter a negatividade afastada. Lâmpadas de cristais
do Himalaia faziam mais do que animar e ambientar uma sala
com seus brilhos laranja suave. Elas também acalmam vidas
agitadas, trazendo harmonia e cura ao corpo, mente e espírito.
Tudo graças aos gentis sussurros de Patience.
Ninguém nunca imaginou.
Margo sabia.
E ela esperava que as velas brancas pudessem afugentar
os estranhos arrepios que corriam pelo corpo dela novamente.
Assistir Magnus MacBride rapidamente ganhar vida na página
de um livro poderia ter sido maravilhoso, entretanto, algo mais
havia se escondido nas prateleiras mal iluminadas da loja.
Algo demoníaco, ela tinha certeza.
E ela não queria nenhum desses resíduos a
contaminando.
Imaginar a voz de uma mulher estranha a provocando já
era ruim o suficiente.
Então ela entrou em sua banheira cujos pés da base ela
pintara de roxo, pegou seu gel de banho favorito, Oceano de
Tempestade, e entrou na água quente e forte. Uma boa e
vigorosa lavagem a reanimaria e, ela esperava, limparia e
protegeria sua aura.
Oceano de Tempestade fazia espuma melhor do que
qualquer outro gel de banho. Quase iridescente,15 as bolhas
cremosas lembravam espuma do mar. A fragrância era um
sonho, preenchendo o ar com mistérios do mar selvagem
trazidos pelo vento, com apenas um toque de um rico e
almiscarado âmbar. Ela fechou os olhos e respirou
profundamente, deixando o cheiro acalmá-la, levando-a…
— Moça preciosa...
O coração de Margo disparou quando ela imaginou como
Magnus a receberia. A voz dele seria profunda e ricamente
áspera. Cada palavra seria suave como manteiga, pura sedução
das Terras Altas.
Eles estariam na praia da ilustração do livro e ele iria até
ela, pegaria seu rosto em suas mãos e a beijaria
profundamente.
Ela conseguia imaginar a cena perfeitamente, até mesmo o
penhasco negro se erguendo atrás deles. Sua respiração ficou
presa à vivacidade de sua imaginação, a fantasia fazendo com
que as telhas e o papel de parede sumissem até que ela visse
apenas as pedras irregulares de basalto. A névoa coroando o
topo do penhasco e o ar preenchido com os gritos das aves
marinhas e do rugido do mar.
Magnus quebraria o beijo e a olharia dentro de seus olhos.
— Estou esperando por você, moça. Venha até mim logo.
Margo tinha certeza de que era isso o que ele diria. E o
pensamento enviou uma onda de necessidade feminina pelo
corpo dela.
— Beijá-la não é o suficiente… — Margo mordeu o lábio e
parou de se ensaboar enquanto ela imaginava sua voz. Seria
mais escuro e mais sexy agora, cheios de tons musicais suaves
que faziam o sotaque escocês tão irresistível.
O coração dela batia mais rápido e ela engoliu em seco. O
desejo agitava e aquecia seu corpo enquanto ela deixava sua
imaginação guiá-la.
E ela seguiu de bom grado.
Era muito tentador fingir que ele a beijava.
Delicioso demais imaginar as palavras de amor dele se
derramando sobre ela como mel suave e aquecido pelo sol.
Sedutora, moldada e tão deliciosamente Highland que, se
fosse real, seu coração se abriria e ela sabia que sofreria com o
prazer de ouvi-lo.
Deus ajudasse se ele falasse Gaélico.
Infelizmente, a imaginação dela era limitada.
Apesar de amar tanto a Escócia, ela nunca aprendeu
gaélico.
Ela conseguia imaginar o mundo dele vividamente. Com
sua imaginação, ela até mesmo conseguia ver as aves marinhas
barulhentas passando rapidamente por cima da cabeça dela
em direção às altas montanhas rochosas.
Ela quase podia acreditar que ela estava em uma enseada,
cercada por penhasco.
Tudo parecia tão real.
Perto dali um cachorro latiu novamente, e soava como o
mesmo de antes e, pelo canto dos olhos, ela imaginou ter
vislumbrado uma besta grande e maltratada e de pelo sujo
correndo ao longo da borda da praia.
Grandes ondas batiam ali, o interminável barulho de vai e
vem ecoando ao longo do promontório.
O coração de Margo começou a bater mais forte. Ela
inalou profundamente, exalando devagar.
Isso não ajudou.
Ela piscou e o cachorro desapareceu na neblina.
Mas reluzentes rochas e penhascos pontudos apareceram
diante de seus olhos, não importava onde olhasse. Seu
banheiro desapareceu, e ela ainda ouvia o som do mar.
A batida rítmica poderia ser apenas o som de seu próprio
sangue correndo em suas veias. Não era todo dia que ela se
imaginava próxima a um pedaço de pura sexualidade escocesa
saída direto dos livros de romances. Mas real como tudo isso
parecia, não era. Ela não havia sido transportada para nenhum
lugar, por mais que ela quisesse ter sido. Ela ainda estava em
seu banheiro decorado com urzes.
A chuva continuava martelando o telhado e salpicando na
janela como alguns minutos atrás. E o chuveiro ainda
derramava água ao redor dela e de seu corpo nu. Mas a água
agora a gelava, assim como a mordida do vento que aumentara.
O vento não se assemelhava a nada a que ela já sentira e
que cheirava como as águas profundas, limpas e geladas da
corrente do norte.
Uma espiada através de suas cortinas mostrou que as
velas de Patience ainda queimavam, apesar das chamas agora
parecerem mais com tochas distantes ou até mesmo faróis. E a
luz avermelhada do poste do jardim era agora uma lua cor de
fogo, criando uma trilha sinistra sobre o mar, que brilhava
como prata.
Mas seu highlander de voz sexy estava fora de visão.
Ele havia deixado seus sonhos.
Ou assim ela pensou até que tirou do seu rosto a franja
que pingava. O ar pareceu mudar e então, ele reapareceu em
toda sua glória, vestindo um kilt. Ela piscou, seu queixo
escorregando.
Seu coração tornou-se selvagem, trovejando loucamente. A
exaustão e o sabão em seus olhos, provavelmente estavam lhe
pregando uma peça, pois ele parecia mais magnífico agora.
Receosa de que seu sonho acabasse se ela respirasse, ficou
parada. Mas um pouco de shampoo escorreu em seus olhos e
ela limpou a espuma. Imediatamente, duas grandes mãos
seguraram os pulsos dela, abaixando seus braços para o lado.
— Fique comigo. Mostrarei a você uma felicidade como
você nunca viu. — A voz dele agora estava mais profunda, mais
rica do que nunca e os olhos nublados de paixão.
Ele a segurou possessivamente, trazendo-a para seus
grandes e largos ombros, peito duro. Ele parecia como um
mítico deus Celta, cheio de poder e paixão.
Brilhantes braceletes de pratas e ouro amarrados nos
musculosos bíceps. E sua boca cheia e sensual prometia
êxtases além de suas mais loucas fantasias.
O vento chicoteava seus sedosos cabelos escuros, atraindo
a atenção dela para as feições marcantes e bem esculpidas. Ele
tinha um rosto bonito e orgulhoso, fortalecido com
sobrancelhas desenhadas para deixá-lo feroz. Os olhos eram
escuros como a madrugada e, estavam neste momento,
olhando diretamente na alma dela, criando uma ponte eterna
como se o tempo e a distância não existissem.
Tudo era possível nos sonhos.
Margo apenas desejava que este fosse real.
Ela tentou dizer alguma coisa, mas o magnetismo
puramente sexual nublou sua mente. Ele se aproximou, o calor
de seu corpo grande e musculosos a aqueceu, fazendo-a
tremer.
— Você quer isso, aye?
Não esperando por uma resposta, ele segurou seu queixo e
abaixou a cabeça, beijando-a novamente.
— Sim… — Margo não estava disposta a discutir.
Essa era a fantasia dela afinal de contas.
Como se estivesse a uma longa distância, e ela fosse capaz
de sentir os jatos d’água de seu chuveiro. Ela também sentia
suas mãos grandes e fortes deslizando pelo seu flanco até os
quadris. Ele espalmou seus dedos em sua bunda, amassando
sua carne, puxando-a contra ele.
Ela se derreteu, desejando ardentemente que fosse real.
Com pelo menos um metro e noventa, ele se elevou sobre
ela, sua grande altura fazendo seu pescoço doer porque ela
tinha que inclinar a cabeça para trás para olhá-lo no rosto. Ao
contrário do livro de ilustrações, ele estava usando os lustrosos
cabelos negros presos na nuca, mas seus olhos escuros
queimavam com o mesmo calor que a tinha cativado na Vosso
Velho Tempo Pagão.
Só que agora, aquele fogo era desejo e não fúria.
E apenas em olhar para ele, imaginário ou não, fazia seu
coração acelerar e seu sexo se apertar. Ela se transformou em
líquido com o desejo, cada parte feminina nela se derreteu.
Uma necessidade urgente virou uma dor quente e
latejante que queimava bem no centro dela.
Como se ele soubesse, seu olhar feroz ficou ainda mais
quente. Atraindo-a para mais perto, ele lhe deu um meio
sorriso que só poderia ser chamado de provocativamente
perverso.
Perigoso.
— Diga-me que você me quer. — Ele tocou o cabelo
molhado dela, alisando uma mecha atrás da orelha. — Sou
feito de rocha e gelo, tão forte…, — seus dedos deslizaram pela
curva de sua bochecha, depois ele roçou seu queixo. — Tão frio
quanto o aço de Vingança, minha espada. Mas você, moça, tem
o poder de me colocar de joelhos.
— Eu sei… — Margo não conseguia respirar.
O toque dele, agora uma carícia — oh — tão leve deslizou
pela pele sensível atrás da orelha, enviando ondas de prazer
por todo corpo dela. A parte mais baixa de seu ventre ficou
pesado e formigando de desejo. Seus mamilos endureceram,
tornando impossível esconder sua excitação.
Ele olhou para o mar vazio e depois de volta para ela.
Prendendo o olhar nela, ele deslizou a ponta de seu dedo pelo
lábio inferior dela, provocando-a.
— Eu sei o que você quer, doçura.
Então me dê, ela quase implorou. Ela o queria. Cada
centímetro alto, forte e bonito dele. Ela queria especificamente
o cume ereto que elevava seu kilt. Mas como eram frequentes
em seus sonhos, os lábios dela não formaram as palavras. Ela
também sabia que qualquer tentativa de alterar o fluxo natural
dos sonhos poderia gerar efeitos adversos. Tal como levantar
sozinha, molhada e tremendo em um banho que tinha ficado
gelado. Com a sorte dela, ela poderia escorregar e bater a
cabeça na beira da banheira, ganhando com a colisão um
calombo do tamanho de um ovo de ganso e dias sofrendo com a
dor.
Os olhos escuros dele passaram pelo corpo dela.
— Você é uma grande tentação para mim.
Margo engoliu em seco, a fome nos olhos dele provocando
uma tempestade de excitação dentro dela. A voz profunda dele
a seduzia, e a sua riqueza se derramava dentro dela,
aquecendo-a, como se o tom suave e adocicado pertencesse a
uma mágica antiga. Um feitiço que se alongava a cada palavra
proferida por ele e que a deixava quente, necessitada e
dolorida.
E tudo sobre ele...
Apenas respirando o mesmo ar salgado que a beijou,
enviou-lhe arrepios quentes que se espalhavam desde a cabeça
até os dedos dos pés.
Margo pode ver que ele sabia. O sorriso dele era quase
predatório.
Ela queria que ele a beijasse novamente. Essa era a
fantasia dela e ela deveria aproveitar cada momento.
Mas ao invés de atraí-la para perto dele e conceder os
desejos dela, ele se afastou e depois deu a volta. Seu olhar
ardente a fez ficar consciente de que estava nua.
Graças a deus que ela se exercitava.
Para cada batata assada coberta com manteiga, creme de
leite, queijo cheddar e cebolinha que ela devorava - ela era uma
fanática por batata - ela compensava sua satisfação com um
mínimo de cem abdominais.
Sua barriga era firme e sua cintura fina.
O seu Assassino de Vikings de olhos quentes era um
homem perfeito. Ela já havia dado uma avaliada da cabeça aos
pés e sabia pelo caimento de seu kilt que seu largo ombro
enrolado no plaid e seus fortes braços não eram as únicas
partes musculosas dele. Ele era mais do que bem-dotado e,
tendo uma vez liderado a Sociedade de apreciadores de kilt de
Bucks County, ela sabia exatamente o que os highlanders
vestiam por baixo de seus kilts.
Melhor dizendo, o que eles não usavam.
O pensamento quase a fez alcançar o clímax.
Especialmente quando ele baixou o olhar para os seios
dela, focando em seus mamilos rígidos, tão ansiosos pela
atenção dele.
Margo mordeu o lábio. A dor dentro dela estava
insuportável agora.
— O-o-oh, moça. — Ele balançou a cabeça suavemente,
sem desviar seus olhos dos mamilos dela. — Você aqueceria
mil noites nas Terras Altas. — Ele deu um passo à frente,
depois outro, parando cerca de três passos dela. Ele parou na
borda do mar e as ondas brancas quebravam a suas costas, a
espuma se enrolando em seus tornozelos enquanto a água
deslizava sobre a areia.
Ele não se moveu ou piscou. Ele apenas prendeu o olhar
no dela e Margo sabia que ele sentia a consciência estalando
entre eles. A corda que os prendia parecia quase viva,
queimando o ar e o poder disso enviava deliciosos arrepios ao
longo dos nervos dela. O coração dela se acelerou. O pulso
estava mais rápido ao perceber o quanto ele estava perto de
seus seios nus.
Ouvi-lo admitir em sua pronúncia profunda o quanto ele a
desejava, deixou-a sem ar. As sedutoras palavras reverberavam
através do corpo, tocando-a intimamente.
— Eu preciso de você, moça. — Ele cerrou os punhos ao
lado do corpo com tanta força, que os nós dos dedos brilhavam
à luz da lua.
— Em um outro lugar e tempo, — ele falou como se fosse
real, seu olhar mergulhando na junção de suas coxas. — eu
faria mais do que beijá-la. Eu arrastaria minha língua por cada
milímetro de seu corpo, saciando-me até que seu gosto, quente
e feminino, estivesse marcado em mim para sempre.
— Oh, Deus... — O desejo lavou Margo, duro e rápido
como um rio caudaloso.
Ela estava beirando o clímax e as palavras dele, faladas
em um rouco sotaque escocês, estavam acelerando, levando-a
aquela borda iminente do êxtase.
Ela fechou os olhos, quase lá.
Então, subitamente, ele deslizou os braços dele sobre ela e
a aproximou, colocando a boca sobre a dela em um beijo duro e
contundente. Ele a afastou rapidamente, dando um passo para
trás como se ela o tivesse queimado.
Margo franziu o cenho, não gastando da virada em seu
sonho.
— Agora vá embora daqui antes que eu esqueça que isso
não é real. — Ele levou a manga de sua camisa até seus lábios,
o olhar a queimando. — Se nós nos encontrarmos novamente,
onde quer que seja, não serei responsável pelo que eu farei.
Antes que ela pudesse discutir, ou mesmo piscar, ele se
virou e andou pela praia, diminuindo o ritmo apenas quando
um grande e desalinhado cão que ela tinha vista mais cedo se
aproximou dele. Sem interromper a caminhada, ele abaixou a
mão para acariciar a cabeça do cachorro. Juntos, eles
seguiram ao longo da praia e desapareceram na névoa,
deixando-a sozinha.
Ela ainda ouvia uma voz escocesa masculina, suave e
melodiosa, mas nada comparado a profunda e rouca pronúncia
de Magnus MacBride.
Ela ainda estava fria.
Absolutamente congelando...
E, de alguma forma, ela não estava mais no banho.
Ela acordou lentamente, não querendo sair do casulo
escuro. Ela se sentia quase com ressaca, apesar de não ter
bebido nada mais forte que seu chá. Vagamente ela se recordou
de ter entrado na sala como uma sonâmbula. Seu torpor
indicava que ela dormira profundamente. E que já era tarde. A
chuva ainda batia sobre o telhado, apesar de que agora o som
fosse um pouco mais fraco. Em algum lugar, uma voz escocesa
aumentava e diminuía, os tons musicais entraram em seus
ouvidos, tirando-a das névoas obscuras de seu sonho.
— O fantasma do Castelo Crathes é uma Dama Verde. —
A voz continuou mais clara agora. — Ela é vista com maior
frequência no quarto que leva o seu nome, o quarto da Dama
Verde, onde ela anda de um lado para o outro e depois para na
lareira...
Margo parou quando ela reconheceu a voz.
— Oh, não!
Os olhos dela se abriram como bolas. Completamente
alerta agora, ela se viu enrolada na sua cadeira xadrez,
completamente nua. Bem, nua, mas enrolada em uma grande
toalha. E julgando pela cãibra que sentia na perna, ela esteve
sentada na cadeira por horas.
Seus pés estavam adormecidos.
Ela olhou pela sala para o brilho de sua televisão. Um
conhecido médium escocês a olhou através da tela. Ela não era
capaz de recordar o nome dele, mas ele aparecia semanalmente
em um popular programa de TV britânico sobre caça
fantasmas.
O coração dela pesou ao olhar para ele, assistindo-o
liderar um pequeno grupo de entusiastas por fantasmas
através dos corredores do Castelo Crathes em Royal Deeside,
na Escócia.
Ela amava o programa e nunca perdia um episódio.
Aparentemente ela não tinha perdido esta noite de investigação
também.
Mas ela havia tomado banho.
E depois, em um estado de confusão, meio dormindo e
meio acordada e somado ao cansaço, ela tropeçou ali pra
assistir Ghosthing Britain.
Não tinha nenhuma outra explicação.
Seu cabelo ainda estava úmido. Ela até cuidou de seu
ritual noturno e passou hidratante. A pele dela parecia lisa e
sedosa. Ela podia sentir a fragrância com notas de jasmim da
loção de banho Néctar do Mar. Ela estava tão cansada que não
se lembrava de ter ligado a televisão.
O que ela recordava era ter sonhado com Magnus
Macbride.
Como a voz dele se aprofundara quando falou sobre
deslizar a língua sobre o corpo dela ou saborear o gosto dela.
Ela ainda conseguia sentir seus beijos, tão duros, ásperos e tão
exigentes. A boca dele, esmagando a sua, roubando seu ar,
surpreendendo-a quando a língua dele mergulhou entre seus
lábios para se enrolar com a dela, fazendo-a queimar...
Ela ainda estava queimando.
Ela ainda estava faminta.
Então ela se levantou da cadeira, ignorando os golpes de
um milhão de agulhas disparando em suas pernas ao colocar
seu peso sobre os pés. Rapidamente, ela amarrou com mais
segurança a sua grande toalha roxa ao redor de seus seios.
Depois ela foi até a cozinha.
Ela estava no meio do caminho quando percebeu que ela
poderia devorar tudo o que estivesse na geladeira e até mesmo
nos armários e ela ainda estaria faminta. Ela ansiava por algo
que, um mero lanche na madrugada não satisfaria.
E era uma fome que só pioraria enquanto a noite
avançasse e ela se encontrasse sozinha na cama.
Esta noite, ela não dormiria.
Ela passaria a noite revivendo seu sonho e o que ela
sentira ao ser segurada e beijada pelo Assassino de Vinking.
Capítulo Quatro
Bem cedo no dia seguinte, em um tempo e lugar bem
distante, Magnus saiu do Castelo Badcall em direção a um
certo chalé de paredes grossas. Posicionado no topo de uma
colina coberta de pinheiros, o Chalé Windhill exigia que os
visitantes escalassem uma trilha rústica entre densas
samambaias e pontos pantanosos escondidos. Mas o esforço
trazia recompensas. Um deles era a fumaça de turfa que
sempre se elevava pelos telhados de palha de Windhill dando
boas-vindas.
Um grande vidente de barbas compridas vivia no chalé,
preferindo a reclusão para jogar suas runas, observar as ondas
do mar, ouvir o vento ou qualquer coisa que ele fizesse em seus
esforços para desvendar os mistérios do destino.
Este homem era o motivo que fez Magnus deixar seu salão
em uma manhã tão fria e nebulosa. E o porquê dele estar
carregando uma cesta de arenque defumado em seus braços.
Orosius era um profeta improvável, mas habilidoso em ler
sinais na força dos elementos. Ou através de outros meios que
ele não divulgava.
A maioria das vezes, Magnus apreciava a sabedoria do
vidente.
Só que desta vez, ela apenas queria pôr um fim na
tagarelice de Calum sobre o reino dos mortos e uma sereia nua
de cabelos loiros, que ele sabia, não era Liana.
Ele só esperava que ela não fosse a tentação conjurada
por Donata.
A bruxa de curvas voluptuosas que apareceu para ele
duas vezes. Uma vez quando ele matou Godred e agora, ele
franziu a testa, em um sonho quente que roubou seu sono e o
deixou tão zangado nesta manhã. Mas do que isso, desde que
ela o visitou à noite, a língua dele doía para prová-la e provocá-
la. Ele acordou para descobrir seu corpo todo tenso que até
respirar era uma agonia.
Suas bolas…
A carranca dele aumentou. Ele acelerou o passo, grato
pelo ar úmido e vento gelado que agitava seu plaid.
E pela leal presença de Frodi que se arrastou pela subida
íngreme. Uma jornada que, graças a moça cheia de espuma
que apareceu no mar, nunca pareceu a ele tão torturante.
Uma luxúria tão intensa e dolorosa não o dominava desde
a primeira vez que ele enfiou a cabeça embaixo da saia de uma
mulher e aspirou o almíscar do desejo feminino. E irritava que
agora ele sentisse uma urgência tão opressora de preencher o
pulmão com o odor de orvalho feminino da beleza nua.
Empurrando o desejo para fora de sua mente, desviou-se de
uma confusão de pedras soltas cobertas de musgo e depois
pulou sobre um estreito e inoportuno galho.
Sem dúvidas, a sereia o havia enfeitiçado.
Ele teria estado bem se ela não o tivesse provocado ao
colocar suas mãos nos quadris dele, oferecendo-lhe uma
grande visão de seus redondos e cheios seios e suas coxas bem
torneadas e suculentas. O luxurioso triângulo de cachos loiro
escuro que deixaram, seu sangue fervendo.
Mesmo assim, ele poderia ter permanecido inalterado.
Mas o seu eu no sonho a havia beijado.
E ela suspirou de prazer, abrindo seus lábios macios e
maduros. De alguma forma ele percebeu o que estava
acontecendo, a língua dele enrolada com a dela e eles
respiravam sincronizados, aquela intimidade o escaldando.
Se a feiticeira não o desejasse seduzir, por que ela tinha
beijado de volta? Por que aprofundou o beijo e a língua dela se
enrolar de forma tão quente com a dele, se não fosse para levá-
lo a loucura?
Por que apareceu de repente em sua vida vestindo nada
mais do que gotas em formatos de pérolas e espuma do mar?
Ela até mesmo se oferecera quando ele a agarrou,
derretendo-se a ponto dele poder sentir os deliciosos mamilos
eretos dela o queimando. A suavidade quente e úmida de sua
feminilidade esperando sob o triângulo de cachos dourados.
Poderia até ter sido um sonho, no qual ele estava preso
como um escravo pela maldição de Donata, mas ele quase
podia saborear a beleza nua neste instante. Ele reconhecia o
gosto de mel em sua língua. Pelo amor dos deuses, ele mataria
um homem apenas para deslizar um dedo no úmido e
escorregadio centro dela.
E essa necessidade o frustrava enormemente.
Especialmente quando ele estava certo de que Sigurd, o
Quebrador de Espadas ou Donata Greer tinham trabalhado em
algum tipo de magia negra para enviar aquela sedutora para
afligi-lo.
Donata riria quando ele sucumbisse ao charme da
megera. Sigurd esperaria até que ele a montasse e depois
mergulharia a espada dele em suas costas, perfurando seu
coração.
Apenas seus inimigos poderiam planejar tal plano.
Sua própria mente estava ocupada com sua própria
necessidade de amolar sua lâmina nos ossos dos inimigos para
pensar em conjurar fêmeas nuas de seis erguidos que roubasse
seu juízo e roubassem seu descanso pelas noites.
— Venha, Frodi. — Magnus franziu o cenho quando seu
cachorro parou para farejar as urzes. — A fêmea é a praga em
pessoa. Eu quero pedir para Orosius a banir.
Frodi girou a cabeça peluda perecendo sorrir e concordar
com Magnus antes de trotar de volta para o seu lado. A cauda
do cão dava a impressão que ele concordava que o vidente
poderia operar tal magia.
Se alguém conseguiria derrotar a bruxa do mar, esse
alguém era Orosius.
Magnus confiava no poder do vidente.
Mas suas esperanças acabaram quando Ororius abriu a
porta enquanto ele se aproximou do chalé. O vidente era
conhecido pelo seu temperamento e, a forma que ele coçou a
orelha diante da aproximação de Magnus não era um bom
presságio.
Orosius havia perdido quase toda orelha para a espada de
um inimigo e acreditava que era uma punição de Deus por
mal-uso de seus talentos. Ele esfregava a orelha machucada
apenas quando ele não estava com humor para adivinhações.
A ferocidade no olhar que ele dava a Magnus igualmente o
dizia. Seus cabelos selvagemente desarrumados sinalizavam
que ele tinha acabado de se levantar.
E, claramente, era uma daquelas manhãs que Orosius
desejava paz.
Magnus não se importava.
Unindo suas sobrancelhas, ele caminhou em direção ao
chalé baixo e pintado de branco.
— Orosius! Eu quero ter uma conversa com você.
— Humph. Eu sabia que você estava vindo. — Orosius
continuou a coçar a orelha. — Senti em meus ossos. Eu senti.
— Um homem enorme ocupava todo vão da porta, com
penetrantes olhos cinzas, um grande nariz vermelho que
provavelmente já havia sido quebrado mais de uma vez e, uma
grande e vasta barba negra.
Ele o estava bloqueando deliberadamente.
Os olhos dele se estreitaram.
— Calum não conseguiu evitar que aquela língua vibrasse,
né?
Magnus esqueceu de sua intenção de tratar o vidente com
respeito.
— Eu prefiro que você ponha tais notícias em meus
próprios ouvidos antes de encher a cabeça de Calum com
besteiras.
Osorius o repreendeu com o olhar.
— Acontece que eu queria lhe contar. Aquele abelhudo do
Calum apareceu na minha porta antes que eu tivesse uma
chance.
— Você poderia ter ido direto a Badcall.
— Besteira. — Orosius deu um passo para trás e olhou
para Magnus. — Eu preciso dormir após ver coisas assim. E
com todo mundo batendo na minha porta até tarde, eu não tive
meu descanso.
— Você poderá dormir depois que eu tiver minhas
respostas. — Magnus o encarava de volta. — O que quer dizer
com isso de me ver morto?
— Apenas o que eu vi, nada mais.
— Você errou.
— É a primeira vez, se você estiver certo. — Orosius se
eriçou. — Não sou um contador de histórias para preencher as
tardes longas e frias. — Ele inflou o peito, parecendo orgulhoso.
— Eu falo a verdade, mesmo que minhas palavras sejam ou
não agradáveis.
— Então eu direi a você o que me agrada. — Magnus se
posicionou da mesma forma. — Derramar o sangue de Godred
foi mais que satisfatório. E eu não morrerei até que eu tenha
dançando nas tripas do Quebrador de Espadas.
— Pode ser que seja assim. — Orosius se mexeu e uma
lufada de fumaça de turfa saiu do interior do chalé. — Eu não
vi o seu fim acontecendo. Eu apenas vi...
— Eu sei o que você viu. — Os olhos de Magnus
encontraram o do vidente. — E não era eu com Liana. — As
sobrancelhas escuras de Orosius se juntaram. Ao invés de
responder, ele olhou para a cesta com o arenque defumado nas
mãos de Magnus.
— Seria esse o seu tributo a mim? — O olhar afiado de
Orosius se estreitou no peixe. — Eu ainda tenho duas cordas
de arenque penduradas no meu fogo desde a sua última visita.
O que eu preciso é de mais turfa para queimar.
— Você terá sua turfa. — Magnus deu uma olhada azeda
para a recém-saída espiral de fumaça pela fria manhã. Ele
sabia que se desse a volta até o outro lado do chalé, ele veria
uma pilha de turfa quase tão alta quanto a que abastecia
Badcall. — A verdade, você está melhor abastecido do que a
maioria.
Com a aparência hostil, Orosius cruzou seus braços sobre
o peito em forma de barril.
— Se minha chaleira não é mantida fervendo, não há
vapor para predizer...
— Foi lá que você me viu no reino dos mortos? — Magnus
retribuiu o olhar duro. — Observando o vapor de seu caldeirão?
— Eu poderia ter visto o que eu vi no fundo do meu copo
de cerveja. — Orosius não se afastou da porta. — Onde e o que
eu vi não muda nada.
— Muda, se a mulher que viu não for Liana. — Magnus se
virou para olhar as nuvens negras vindas do mar. Um trovão
soou a distância e o vento balançava a árvore de frutos
vermelhos perto do chalé de Orosius. — Eu digo, — Ele se virou
para olhar diretamente ao vidente. — sua visão lhe mostrou foi
uma escrava do demônio invocada por Donata Greer, a
feiticeira.
Orosius coçou o queixo.
— Eu não me engano com o que eu vejo.
— Deixe-me ver o que viu e nós saberemos.
— Por Deus! — Orosius parecia horrorizado. — Uma coisa
assim me deixaria arrasado. Você não sabe o poder necessário
para dividir até mesmo um vislumbre do que eu vejo.
— Você me mostrou como Liana morreu. — A voz de
Magnus endureceu.
— Aquilo foi há muito tempo atrás e ela veio até mim em
um sonho, querendo te alcançar. Se ela quisesse ser vista
agora, ela provavelmente me mostraria mais do que sua nuca.
— Você não viu Liana. — Magnus estava certo disso.
— Humph! — Orosius bufou.
Magnus franziu o cenho. O vidente era sua última
esperança.
E o mau humor do palhaço rabugento o irritava.
Orosius era um ogro.
E Magnus estava cheio dele. Ele forçou a passagem para
dentro do chalé de teto baixo. Um pequeno fogo queimava na
lareira central, onde a chaleira preta de Osorius estava
pendurada acima das brasas fumegantes. Foi lá que Frodi
escolheu para se esparramar no chão de pedra.
Orosius ficou parado ao lado do cachorro. O brilho
vermelho da turfa iluminou sua forma volumosa, fazendo-o
parecer ainda maior, quase como um troll gigante com um
nariz grande e cabelos revoltosos.
— Coisas ruins acontecem quando pessoas vão se
intrometendo em coisas que não deveriam ser vistas.
— Arriscar-me-ei. — Magnus cruzou os braços. — Diga
suas palavras de vidência.
— Talvez eu não esteja no espírito para ver a sua bunda
pelada novamente. — Orosius recuou. — Uma vez já foi
suficiente.
— Não me teste, Orosius. Um vislumbre é tudo que estou
pedindo. Depois eu irei embora.
— E eu terei minha turfa?
— Aye, o tanto que Ewan e mais dois garotos conseguirem
cortar em um dia.
O vidente esfregou a barba considerando.
— Eu descendo de uma longa linha de sábios... — Ele
parou, olhando para o vapor que subia de seu caldeirão. — eles
estão me vigiando. Eu não tenho certeza de que eles aprovem.
A dama estava com as nádegas descobertas e...
— E você me viu a possuindo? — Magnus deu um passo à
frente, indo pé ante pé até Orosius. — Isso foi o que Calum me
disse. Você vai negar?
— Nae. — Orosius corou.
— Então — Magnus se aproximou — você não me
mostrará nada que eu já não tenha visto.
Orosius cuspiu.
Magnus sorriu e estendeu a palma das mãos para baixo.
— Pegue minhas mãos agora. Coloque seu pé sobre o
meu. É como fizemos da última vez.
— Que irritante! — O vidente juntou as sobrancelhas
negras em uma carranca feroz. Mas ele colocou suas mãos
sobre as de Magnus e obedientemente fez o mesmo com os
dedos.
Depois ele fechou os olhos enquanto murmurava uma
série de palavras sem sentido. Quando ele parou de falar e
abriu seus olhos novamente para olhar o vapor, Magnus soube
que o vidente estava entrando em um outro mundo.
Magnus não viu nada.
Até as mãos de Orosius começarem a tremer e um pedaço
de turfa pular, enviando uma chuva de faísca que se juntaram
à espuma do caldeirão. Neste instante, o velho caldeirão preto e
até mesmo as paredes enegrecidas pela turfa do chalé
desapareceram, deixando apenas nuvens azuladas de fumaça
que rodeavam Magnus e o vidente.
Magnus sentiu um arrepio na nuca.
Depois o ar estremeceu, a névoa se dissipou e sua
respiração ficou presa, o mundo parecia ter parado enquanto
ele olhava para uma bela e cristalina paisagem que poderia ser
o domínio dos deuses.
Era um promontório sublime, muito arborizado e que se
estendia no horizonte. As luzes suaves da tarde cruzavam as
árvores vestidas de vermelho e ouro, cores outonais, enquanto
as sombras das nuvens cobriam os intermináveis pântanos.
Colinas ricamente cobertas de urzes apareciam à
distância, desvanecendo em um azul cintilante até onde a vista
alcançava.
E no meio da neblina iluminada pelo sol, Magnus se viu
deitado sobre seu plaid enquanto uma mulher bonita,
luxuriosamente curvada o levava ao êxtase. Suas elegantes
coxas apertavam seu quadril e a forma que ela levantava sua
cabeça, em direção ao céu, demonstrava o quanto ela gostava
de estar montada nele.
Estavam ambos nus, suas roupas espalhadas pela urze
como se eles as tivessem tirado com muita pressa. E de onde
Magnus via, a mulher tinha as costas viradas para ele,
exatamente como Orosius alegara.
O corpo dela brilhava na estranha luz dourada e seu
traseiro cheio e arredondado movia em um ritmo fluido que fez
o sangue de Magnus acelerar com a necessidade urgente e
quase feroz. Os cabelos claros e brilhantes caiam sobre os
ombros dela. E mesmo sem ver o rosto, ele sabia que ela tinha
uma pele impecavelmente cremosa e enormes olhos safiras.
Ele a reconheceu sem questionamento.
Ela não era Liana.
Ela era a Valquíria.
E não foi seu cabelo curto que a denunciou, embora a
falta da trança na altura da cintura que Liana usava, deveria
ter alertado Orosius de seu erro. Nem foram suas curvas
maduras nos locais onde Liana havia sido delicada.
Foi a sua intensidade.
A paixão dela chamuscava o ar, queimando-o.
Era torturante vê-la e não sentir a pele nua, quente,
sedosa contra ele. Atormentado, ele ansiava em conhecer a
carne escorregadia e úmida da mulher enquanto ela o
montava. Magnus olhou para ela e seu membro doía de desejo.
Quando o corpo dela arqueou e ele a viu se arrepiar, ele não se
importava mais se o Quebrador de Espadas houvesse pagado
Donata para conjurá-la. Ou mesmo se a feiticeira a tivesse
convocado por conta própria para punir Magnus pela morte de
seu irmão.
Tudo o que ele sabia era que ele a queria.
Ela se ergueu e caiu sobre ele, a visão fez o ar ficar parado
em sua garganta.
Ele precisava ver os seios dela. Tocar sua magnitude e
saborear seus mamilos...
— Maldição! — Ele se afastou do vidente e caminhou para
perto do fogo.
A imagem quebrou, girando em meio a uma explosão de
faíscas azuladas.
A escuridão surgiu, manchando o mundo.
Magnus tropeçou, seu pé colidindo com uma das pedras
que margeava o fogo. Ele não conseguia ver nada além das
profundas sombras.
— Seu grande idiota! — Orosius agarrou seu braço,
puxando-o de volta no momento em que ele caia sobre o pesado
caldeirão preto, preso na corrente.
Frodi levantou-se, fugindo quando o caldo escaldante
transbordou pela borda da panela. O líquido não acertou as
pernas de Magnus, mas se espalhou pelas turfas quentes com
um zunindo alto. Cinzas cobriram os pés de Magnus e
baforadas de fuligem flutuaram no ar, caindo sobre o ensopado
de Orosius, arruinando sua refeição.
O vidente o encarou.
— Eu lhe disse que nada bom aconteceria ao se espreitar
coisas que não devem ser vistas novamente. Você desperdiçou
uma boa manhã e estragou minha refeição. Agora você pode
pegar seu ego irritante e ...
— As runas. — Magnus olhou para uma bolsa irregular
sobre a mesa. — Jogue as runas para mim. Eu preciso saber
quem é essa mulher.
Orosius plantou todo seu volume entre Magnus e a mesa
de madeira arranhada.
— Você já deu sua olhada e agora eu preciso dormir.
Aquela beleza era Liana. — Ele cruzou os braços. — Ela
própria, e você, na terra dos mortos.
Magnus sabia mais.
Ele passou a mão pela testa. Sua cabeça começou a doer,
mais do que se ele tivesse bebido um barril de cerveja azeda.
— Liana era inocente, seu bode. — Ele colocou os ombros
para trás, não gostando do sorriso no rosto do vidente. — Ela
não iria...
— Bah. — Orosius balançou a mão em objeção. — Talvez
você a ensine como, após se juntar a ela no outro mundo?
— Aquilo era em Badcall, nenhuma terra dos mortos. —
Magnus passou pelo vidente para pegar a bolsa de runas em
cima da mesa. Ele enfiou a bolsa nas mãos de Orosius. — Eu
irei embora após você jogar as runas.
— OH! — Orosius estreito os olhos, desconfiado. — Jogar
runas é uma magia pagã nórdica. Feitiçaria pagã, você me
repreendeu da última vez que eu sacudi minhas pedras em seu
salão.
Magnus franziu o cenho.
— Você disse que elas falam a verdade.
— Aye, eu disse.
— Então, jogue-as.
O vidente ergueu uma sobrancelha.
— Você pode não gostar do que elas dizem.
— Eu não me importo com nada disso. — Magnus podia
sentir a sua irritação aumentando ao longo de seus nervos. —
Apenas quero a verdade.
— Assim será.
Virando-se para a mesa, Orosius abriu a bolsa e tirou as
pedras de runas. Brancas e brilhantes, elas estavam
amarradas por uma linha de seda vermelha. Orosius pôs seus
dedos na linha, mas olhou mais uma vez para Magnus antes de
soltar as pedras.
— Faça. — Magnus acenou.
Orosius fechou os olhos e estendeu as runas.
Depois ele abriu as mãos, deixando-as bater na mesa.
Inclinando-se para frente, ele as olhou por um longo tempo.
Enfim, ele se endireitou e virou-se para Magnus.
— As runas têm falado. — O tom de Orosius fez o chalé
parecer cinza e frio.
— E o que as runas dizem?
— O que eu sabia que elas diriam.
O estômago de Magnus se apertou.
— E o que é?
— Que a moça...
— Você quer dizer a tentação de Donata. — Magnus quis
deixar claro.
Orosius franziu o cenho.
— As pedras não escolheram me mostrar quem ela é.
Embora, — ele inflou o grande tórax — eu ainda penso que ela
é Liana.
Magnus olhou as pedras, depois voltou-se para o vidente.
— Apenas conte-me o que dizem as runas.
Parecendo irritado, Orosius respirou profundamente.
— Que a moça — ele repetiu — está em algum lugar que
você não pode alcançar. Você pode procurar o mundo inteiro,
em todo seu comprimento e largura, e não a encontraria.
— Ela está, — os olhos cinzas de Orosius encontraram o
de Magnus — além do alcance.
Magnus olhou de volta para ele.
— Isso é tudo?
O vidente anuiu.
E foi então, que a verdade atingiu Magnus, pousando em
seus ombros como um manto pesado.
Ele não se importava quem, ou que, a mulher nua era.
Mas irritava a ele que as runas diziam que ela estava além
de seu alcance.
E isso poderia apenas significar o que ele temia.
Ele estava amaldiçoado.

***

Em seu próprio mundo, Margo permanecia o mais imóvel


possível sob as cobertas. Os barulhos noturnos atravessavam
as cortinas, mas os galhos das árvores arranhando as paredes
e o barulho da chuva na janela não era o que ela queria ouvir.
Ela se ressentia, especialmente, do tic-tac-tic-tac de seu relógio
de cabeceira e de uma sirene que soava a distância.
Ela preferia o som de vento e ondas.
Ela preferia estar parada no topo das altas colinas negras
que desciam até um mar escuro e espumoso. Ela esperava
recuperar seu sonho, deslizando-se em um lugar que ela
poderia respirar o ar frio, inalar o ar com odor de urze, turfa e
sal. Sua amada Escócia, onde Magnus MacBride poderia estar
esperando por ela, ansioso para corresponder a paixão dela
com a dele.
Ao invés disso...
Ela sentiu o peso da América do século XXI se aproximar
dela.
O zumbido da sirene cessou, mas em algum lugar, o
irritante ruído de um caminhão de lixo o substituiu. Ela franziu
o cenho, esperando esquecer o mundo de asfalto e concreto lá
fora e retornar para a paz do mar e paisagem de sua fantasia.
Ela leu em algum lugar que um sonho interrompido poderia ser
retomado se o sonhador não se movesse antes de cair no sono
novamente.
Ela esperava que piscar os olhos não contasse como
movimento.
Mas algo dissonante a havia acordado e ela precisava ter
certeza de que ela estava sozinha na escuridão pré-amanhecer
que preenchia seu quarto.
Se 5h30 da manhã - que horror! - pudesse ser
considerado quase amanhecer.
Como uma coruja com hábitos noturnos e com Patience
permitindo que ela começasse a trabalhar ao meio dia, Margo
raramente se levantava antes das 9 horas. Qualquer coisa mais
cedo que isso era considerado meio da noite por ela. E barulhos
estranhos que atrapalhavam as suas horas de sono não eram
vistos com bondade.
Tais distúrbios poderiam ser perigosos.
New Hope não era um centro do crime. E Fieldstone House
nunca havia sido roubada. A velha casa e seus jardins sempre
foram seguros. Margo acreditava que a terra possuía uma aura
parecida com a de um santuário. Como se nenhum mal
pudesse tocar em ninguém que morasse dentro dos limites da
propriedade.
Ainda assim...
Ela agarrou a ponta e enterrou seus dedos no quente e
macio edredom que ela havia customizado com tecidos de
padrões xadrez dos tartãs da Ilha de Skye, comprados com
muita barganha na Envelhecendo Graciosamente.
Margo olhou para a escuridão, o corpo rígido.
Afortunadamente, nada se moveu.
Ela não havia sido acordada por um ainda desconhecido
assassino em série de Bucks Count.
Satisfeita, ela se aconchegou aos travesseiros e se aninhou
profundamente no seu edredom xadrez. Ela precisava apenas
focar. Assim ela se concentrou nas imagens que ela queria ver.
Neblina descendo por encostas íngremes e rochosas, depois
vislumbres de samambaias de tons avermelhados e urzes de
um roxo profundo. Nada aconteceu, mas a antecipação fez o
coração bater mais forte e rápido. Em breve ela sentiria um
cheiro de urze, a névoa giraria e ela veria seu orgulhoso
guerreiro das Terras Altas. Ela tentou imaginá-lo parado com
um pé sobre uma pedra, sua cabeça inclinada para trás
enquanto ele olhava para o sol encoberto por nuvens. O aço
brilharia a seu lado e a força seria derramada quando ele
desembainhasse sua espada, como toda arrogância e desafio.
Pelo tempo de um sonho, a alegria seria dela…
Ela fechou os olhos, tentando chegar lá.
Mas justo no instante em que a cena começou a tomar
forma na frente dela e pensasse que poderia se transportar
para o local distante que tanto amava, um ruído agudo soou
cortando o ar.
Era o telefone dela.
E a persistência de sua versão reduzida de Scotland, The
Brave16 frustrou a esperança dela, plantando-a no mundo real
de seu quarto escuro.
Margo ergueu metade do corpo e olhou para o relógio ao
lado da mesa. Os ponteiros verdes brilhantes do alarme
mostrava-lhe que era apenas 5h45. Nem mesmo eram 6 horas.
Se ela tivesse qualquer dúvida, um olhar para as janelas
mostrou que ainda estava uma noite escura lá fora.
Nem o mais fino brilho de luz atravessava as cortinas.
No entanto a imitação de gaita de fole em seu telefone
continuava gritando.
E ela mataria quem quer que fosse que tinha coragem de
ligar em uma hora tão imprópria.
Agarrando o telefone, ela abriu e levou até o ouvido.
— Que é?
— Margo! Finalmente. — A voz de Marta Lopez tinha um
tom de histeria. — Estou tentando falar com você a noite
inteira.
— Oh? — A irritação de Margo virou preocupação.
— Estou chamando de hora em hora desde a meia noite.
— Marta parecia ofegante, excitada. — Eu sei que é
dorminhoca, então deixei tocar.
— Estava dormindo profundamente. — A irritação dela
voltou.
Agora ela sabia o que a havia despertado mais cedo.
— O que é tão importante que… — Ela calou-se, um
pensamento terrível cruzou sua mente. Marta não parecia
triste, mas ainda assim…. Margo abraçou a si mesma. —
aconteceu algo com Patience?
— Não. — Marta na verdade riu. — Não é nada com ela,
apesar dela estar comigo quando…
— Quando o quê? — Margo cutucou, não querendo que
sua amiga entrasse em suas conversas fiadas. Marta poderia
ser teatral. E muito prolixa se não fosse interrompida. — O que
aconteceu?
Marta fez uma pausa para respirar.
— Esta tarde, após Patience e eu deixarmos a loja, nós
fomos tomar chá no Rosas Roubadas Empório de Presentes e
Salão de Chá perto do Valley Forge.
— Eu sei. — Margo puxou um travesseiro para seu colo.
— Nós nos deparamos com Ardelle Goodnight da
Envelhecendo Graciosamente, quando saíamos de lá. Ela nos
convidou a entrar para vermos alguns de seus caftãs vintage
antes que ela os colocasse a venda. Ela acha que eles serão
vendidos rapidamente e pensou que Patience ou eu iríamos
querer alguns deles. Então...
— Você me acordou no meio da noite para falar sobre
caftãs?
Marta riu novamente.
— É claro que não, sua bobinha. Eu liguei para falar sobre
a Escócia.
— Escócia? — Os olhos de Margo se abriram como pratos.
— Sim. — A risada de Marta veio do outro lado da linha.
— Sua amada Escócia e tudo mais. Aquelas colinas de urze
podem não estar tão distantes como imagina.
— O quê? — Margo era toda ouvidos agora. — O que a
Escócia tem a ver com Ardelle Goodnight e seus caftãs?
— Apenas que, — Marta mudou sua voz para parecer
batidas de tambores — Ardelle mencionou que ela se encontrou
com Donald McVittie e ele…
— Donald McVittie? — Margo subiu mais na cama,
encostando-se na cabeceira de sua cama.
Donald McVittie era um grande ursinho de pelúcia de kilt
em corpo de um homem meio americano, meio escocês, careca
e com barriga de cerveja, que possuía e administrava a
principal loja de produtos escoceses de New Hope, a Um traço
de xadrez.
Margo gostava dele.
Especialmente porque Donald considerava como sua a
tarefa de difundir a velha pátria, aumentar o interesse dos
visitantes da loja na cultura das Terras Altas, eles comprando
ou não os seus produtos. Ele era também o patrocinador do
Festival Escocês, que ocorre anualmente em Bucks County.
Para pessoas como Margo, que não podiam pagar pela
passagem para Glasgow, o evento era a melhor forma e o mais
perto que chegariam de lá.
A loja de Donald, a Um traço de xadrez, sempre era a
preferida dela na feira.
Margo arrumou o telefone contra o ouvido.
— Donald está procurando ajuda para seu estande? — O
festival estava chegando, apenas uma semana ou algo assim.
Margo havia participado uma vez e outra. A Um traço de
Xadrez era muito popular.
— Se for e Patience puder me dispensar, assim …
— Não, não é nada disso. — Marta estava sacudindo sua
mão no ar. Margo apostava pelo tom de voz de sua amiga. —
Donald fará um sorteio no Festival Escocês.
— Ele dará várias coisas legais. Mas o grande prêmio é —
Marta elevou o som da voz — uma viagem para a Escócia!
— Oh, Meu Deus! — O coração batia em suas costelas. —
Você está brincando, não é?
— De jeito nenhum. — Marta voltou a ficar toda animada.
— Espere um minuto. Eu vou descrever os detalhes… — Margo
ouviu alguns barulhos do outro lado da linha. Depois Marta
voltou, parecendo triunfante. — uma alma sortuda ganhará um
tour guiado que abrangerá todos lugares clássicos da Escócia.
Os principais são os castelos, Lago Ness e …. — Houve um som
parecido como um dedo deslizando sobre um pedaço de papel
— Culloden Battlefield. A equipe que organiza a viagem é da
Herança Turismo, uma das agências de turismo mais
respeitada da Escócia.
— Oh, Marta! — Margo estava quase desmaiando. — Eu
tenho que ganhar.
— Eu sei. — Marta se tranquilizou, sua voz soou quase
maternal. — E você irá. Madame Zelda da Bulgária sente isso
em seus ossos. E pense nisso… — ela riu novamente. — Se sair
na hora certa, seu avião para a Escócia cruzaria com o jato da
Dina Greed voltando para casa. Apenas imagine o quanto ela
ficará irritada quando descobrir.
— Ela virá diretamente até a Vosso Velho Tempo Pagão
para te irritar com a narrativa da viagem dela pelas Terras
Altas. Então, Patience e eu sorriríamos e diríamos a ela que era
uma pena não te encontrar naquele dia. Que você está
passeando pela Escócia e… — A voz de Marta se encheu de
satisfação. — Provavelmente aproveitando muito.
— Oh, Marta… — Margo não conseguia falar.
Seu sangue rugia em seus ouvidos e sua boca ficou
horrivelmente seca. Ela tentou agradecer sua amiga por avisá-
la - ela se sentiu culpada por ter ficado irritada com o toque do
telefone - mas as palavras não vinham. A garganta dela fechou
e, apesar de não chorar há anos, seus olhos estavam
molhados, ficaram tão irritados que sua visão borrou.
— Agora vá dormir, amor. — A voz de Marta vinha como se
estivesse muito longe. — Verei você na loja mais tarde e nós
pensaremos em uma campanha para essa batalha...
Margo acenou sem falar nada.
Depois ela desligou o telefone. Sua amiga estava certa. Ela
precisava de uma estratégia para o sorteio. E ela não estava
mentindo para Marta quando disse que ela tinha que ganhar
essas férias para a Escócia.
Ela tinha que vencer.
Perder poderia ser insuportável.
Capítulo Cinco
Margo viu o envelope no instante que ela se aproximou de
sua mesa de trabalho na Vosso Velho Tempo Pagão. Era quase
meio dia, mas poderia ser qualquer hora dentro da pequena
loja. O mundo real raramente cruzava o limite da loja.
Instintivamente, ela sabia que aquele envelope, de alguma
forma, transcendia o comum. O ar ao redor do envelope quase
brilhava. O pulso de Margo se acelerava a cada passo que dava.
Fino, colorido e amarrado com uma fita xadrez roxa e verde, o
lindo envelope pintado à mão brilhava de seu esconderijo, no
meio de jarras azuis e pratas e das garrafas de produtos de
beleza orgânico.
Patience se orgulhava em criar ela mesma os próprios
artigos de papelaria e cartões ricamente texturizados, usando
nada mais do que algodão reciclado e outros produtos naturais.
Eles vendiam bem.
Este envelope tinha o nome de Margo escrito com a letra
ousada e inclinada de sua chefe.
Intrigada, ela olhou para o envelope, ignorando o tilintar
dos sinos indicando que alguém atravessara a porta da loja.
Ela ouviu o usual “Como posso ajudá-la?” de Patience vindo do
lugar onde a velha senhora mexia nos maços de ervas
limpadoras de energia.
Mas a atenção de Margo estava no envelope.
Durante toda a manhã, ela não tinha sido capaz de voltar
a dormir depois da ligação de Marta, ela sentiu uma sensação
de que algo estava mudando em seu favor. Era uma sensação
que ela reconhecia como um presságio. Uma promessa
estranha e inabalável de que, muito em breve, a sua sorte iria
mudar para melhor.
A sensação tinha sido tão forte. E permanecia poderosa,
fortalecendo ao longo do dia. Agora, quando ela viu o envelope
com estampa xadrez, o coração dela se preencheu com uma
esperança ridícula de que o envelope contivesse a garantia que
Donald McVitties - de algum jeito - asseguraria que ela fosse a
ganhadora de seu sorteio de férias na Escócia.
Donald gostava dela.
E ele sabia o quanto ela amava a Escócia.
Ele entendia o porquê ela colecionava mapas velhos e
guias sobre as Terras Altas. Uma vez lhe confessou quantas
vezes ela se debruçou sobre aquelas páginas frágeis, traçando
rotas com seus dedos até que a tinta borrasse e os nomes dos
lugares se apagassem, ficando inelegíveis.
Donald assentiu sabiamente, seu rosto, usualmente alegre
ficou solene. Depois ele lhe disse que ela sentia o chamado. A
Escócia exercia uma atração para qualquer um que se
emocionasse com as montanhas, cobertas de urze e névoa, com
os tartãs e com o selvagem e pesado som das gaitas.
Mas ao contrário dela, ele conhecia aquelas montanhas.
Ele andava por elas pelo menos duas vezes por ano. A
frequência aumentava quando ele conseguia se afastar tempo
suficiente da Um Traço de Xadrez, para fazer sua viagem, que
ele carinhosamente chamava de “volta ao lar”.
Ele sempre dizia a Margo que ela um dia iria para lá.
Donald gostava de fazer as pessoas felizes.
Ele também era muito honesto para trapacear no sorteio.
Até mesmo por ela.
Margo franziu o cenho, deslizando sua bolsa gigante pelo
ombro e a guardando atrás do balcão antes que ela pudesse
danificar seu karma ao desejar que Donald fosse um
personagem obscuro e inescrupuloso. Um homem sem
princípios que se rebaixaria a usar todos os meios para deixá-la
sair como a vencedora do grande prêmio do Festival Escocês:
as passagens aéreas para Glasgow e o passeio turístico em
suas mãos.
Agora mesmo, a palma de sua mão coçava como se a
vitória já estivesse ao seu alcance. Seus olhos coçavam
também. Mas só porque ela passou a manhã vasculhando em
sua biblioteca particular cada livro de história escocesa,
procurando por menções a Magnus MacBride, o Assassino de
Viking.
Um guerreiro meio mítico, seu nome era lendário e
causava medo até mesmo no coração dos destemidos vikings.
Vingança, sua espada, encharcou as Terras Altas com o sangue
de seus inimigos, os nórdicos. Ao longo dos séculos, os bardos
fizeram dele um herói, que muitos acreditavam, que sua
memória continuaria viva até que as últimas fogueiras de turfa
se esfriassem e o próprio tempo se acabasse.
Estas citações foram as únicas que ela conseguiu
encontrar.
A internet se mostrou ainda mais inútil. Ela se viu
tropeçando nas repetições dos mesmos trechos já encontrados
em seus livros. Não havia fatos em lugar nenhum. Apenas
relatos exagerados, narrativas fantasiosas que levava qualquer
um a acreditar que ele realmente nunca existiu.
Margo queria acreditar que ele havia sido real.
Se ela apenas pudesse ir para a Escócia, ela poderia ser
capaz de provar. Ela precisava apenas de um pouco de sorte e
depois...
— Então, você vai ou não abrir nosso envelope? — Ardelle
Goodnight falou, parada em frente à mesa dela, carregando em
sua voz forte enquanto colocava suas duas mãos cheias de
anéis na beira do balcão. Com aproximadamente a mesma
idade de Patience - cinquenta anos ou algo assim - Ardelle
tinha uma grande quantidade de cabelos grisalhos e seios
enormes que a faziam parecer uma daquelas figuras de navios
antigos.
Ela era uma mulher formidável, falava sem rodeios, com
penetrantes olhos azuis que não perdiam nada.
Na Era Medieval, se ela fosse um homem, teria sido uma
guerreira que você queria que lutasse ao seu lado.
Ou - Margo piscou para ela agora - guardando suas costas
contra um inimigo.
Ardelle não suportava Dina Greed.
Só por isso, ela era a heroína de Margo.
— Eu pensei que o envelope fosse de Patience. — Margo
estendeu a mão para pegá-lo, não surpresa quando a loja
pareceu recuar para logo depois voltar ao lugar no instante em
que seus dedos tocaram o envelope texturizado.
O envelope continha uma energia poderosa.
E aquilo só podia dizer uma coisa.
— Patience encantou o envelope. — Os dedos dela
formigaram apenas em segurá-lo. — E foi ela quem escreveu
meu nome no envelope.
— Dentro do envelope tem nossos desejos de boa sorte
para você. — Ardelle parecia triunfante no momento em que
Patience e Marta se aproximavam para flanqueá-la. — Donald
também escreveu seus votos aí. — Ela estendeu a mão pelo
balcão e bateu no envelope.
— Abra e você mesma verá.
Margo olhou para ela.
— O de Donald?
As três mulheres acenaram, parecendo conspiradoras.
— Ele é muito honesto para colocar seu número do sorteio
em sua manga, mas… — Patience refletia os sentimentos de
Margo — ele não está proibido em ajudar você, colocando as
probabilidades a seu favor. — Ela sorriu, o olhar preso no
envelope. — Donald amaria que você ganhasse.
— Oh, Deus. — A garganta de Margo se comprimiu. Ela
tinha uma ideia do que as amigas tinham feito. — Há apenas
um meio para que eu tenha uma chance real de vencer, é
comprando uma quantidade enorme de números do bilhete. —
As três mulheres sorriram em concordância.
— Não me diga que vocês fizeram algo que eu não
concordaria. — Margo começou a desamarrar o laço do
envelope xadrez.
Os dedos dela tremiam tanto que ela quase não desfez o
nó.
Os sorrisos de suas amigas ficaram mais brilhantes.
— Nós apenas fizemos o que você teria feito por nós. —
Marta falou por todas elas. — Se o jogo tivesse virado a nosso
favor e nossos sonhos estivessem prestes a serem realizados,
como agora.
— Nós sabemos o que a Escócia significa para você. —
Patience tirou o envelope da mão de Margo e, decidida,
removeu o laço. Devolvendo-o para ela. — Não é muito. De fato,
são nossas economias.
— Não existe tal coisa. — A visão dela ficou borrada.
Poupanças eram reservas de dinheiro e pagavam as
contas mensais.
Margo sabia dar valor a cada centavo. Ela até mesmo
juntava as moedas de menores valores dentro de um pote.
E suas amigas sabiam que tudo o que ela podia gastar
com o bilhete, era vinte dólares. Até mesmo essa quantia faria
falta a ela. Sempre cautelosa e moderada, ela usava os
saquinhos de chá duas vezes. Ela fervia água da torneira ao
invés de comprar água engarrafada no mercado. Ela trazia seu
almoço para a Vosso Velho Tempo Pagão e só comia fora
quando algum jornal vinha com cupons de desconto para
algum restaurante. E ao invés de ir para uma academia, ela
andava e pedalava o máximo que podia, economizando dinheiro
de combustível ao mesmo tempo que mantinha a boa forma.
Ela nunca esbanjava.
Sua família falava que ela era a personificação da
disciplina. Ela planejava algum dia escrever um livro sobre
viver com parcimônia.
Até este momento…
Ela rasgou o envelope. Notas de dólares se espalharam
pelo balcão, algumas caindo no chão. Notas de dez, vinte,
parecia não haver fim para o fluxo de dinheiro que caia em
suas mãos. Algumas notas rodopiaram no ar, flutuando como
borboletas de asas verdes. A visão fez ela segurar o ar e o
coração disparar.
Cada dólar lhe dizia o quanto ela era amada. E fazia a
Escócia parecer, cada vez mais, uma realidade como nunca, em
sua vida tão sofrida.
Ela deu um passo para trás, afastando-se do balcão, uma
mão sobre o peito.
Margo engoliu em seco. A mão que ela mantinha sobre seu
peito tremeu quando algumas notas voaram e caíram sobre o
ombro dela. Uma outra nota caiu em seu pé.
Suas amigas sorriam. Ardelle — quem poderia acreditar
nisso? — piscou devagar e depois uma lágrima escorregou por
seu rosto intimidador.
Ela se recuperou rapidamente, erguendo uma
sobrancelha.
— Nós a surpreendemos, hum?
— Vocês… — As palavras não conseguiam passar pela
garganta apertada de Margo.
— Por Deus, o que vocês fizeram? — Margo encontrou a
voz. Ela olhou de Ardelle para as outras duas mulheres e
depois voltou para Ardelle. Elas a tinham deixado aturdida. E
agora estava dividida entre abraçar ou repreendê-las.
— Eu não posso aceitar isso. — Começou a recolher o
dinheiro e guardar no envelope. — É muito e…
— Tem duzentos e cinquenta dólares. — Marta tirou o
envelope das mãos de Margo e o colocou sobre o balcão.
— Cinquenta de cada uma de nós e cem de Donald e nós
não aceitaremos um centavo de volta.
— Eu não vou tocar nisso. — Margo ergueu as mãos,
palmas para fora. — E… — Ela se abraçou para fazer uma
confissão que ainda a surpreendia — vocês não poderiam
saber, mas eu esvaziei minha poupança antes de vir trabalhar.
Eu usarei esse dinheiro para comprar os bilhetes e participar
do sorteio.
— É o suficiente. — Ela baixou as mãos e depois cruzou
os braços, esperando deter as objeções. — Eu terei uma chance
justa para vencer o sorteio.
Ela esperava.
O fundo de emergência - mantido em uma lata de
biscoitos de aveia caseiros Maisie, uma marca importada da
Escócia - não tinha dado uma quantia muito grande. Ela
contou cada nota amassada: notas de um, cinco e dez dólares
para somar noventa e seis dólares. Depois ela pegou seu porta-
moedas do fundo de sua bolsa para completar os cem dólares.
Isso era muito dinheiro para uma garota de orçamento
limitado.
Mas ela poderia esperar por um pouco mais.
Os trezentos e cinquenta dólares poderia dar a ela uma
grande chance de ganhar a viagem para a Escócia.
Ainda assim...
— Leia a nota. — Marta tirou o cartão de dentro do
envelope e deu a Margo. — Nossos votos darão sorte a você.
Patience — ela deu uma olhada rápida em direção a chefe delas
— fez um encanto sobre elas.
Margo pegou o cartão e o abriu, lendo as palavras em voz
alta.
— Toda sua vida você amou um lugar especial talhado em
rochas, vento e mar. Agora é o tempo certo para você ir para lá.
Você passeará alegremente pelas colinas e se emocionará com
o vento gelado em seus cabelos. O cheiro de urze e turfa
encantarão seus sentidos. As sombras das nuvens sobre as
charnecas se apressarão em cumprimentá-la e toda selvagem
paisagem a abraçará, como se você pertencesse ao lugar. — A
resistência dela foi se quebrando a cada palavra. Ela levantou o
rosto, encontrando o olhar de suas amigas antes de seguir a
leitura das últimas linhas. — Será bem recebida pelos lagos,
pântanos e bosques. Maravilhe-se com cada brilho de névoa.
Observe, ouça e absorva até que seu coração esteja cheio e você
saiba que está em casa. Que é lá que você deve estar. É o lugar
a que você pertence. Que assim seja.
— Todas nós o escrevemos. — Ardelle falou rapidamente.
Marta levou um lenço ao nariz enquanto piscava os olhos
que brilhavam.
— Nós sentamos ontem à noite e tentamos lembrar todas
as coisas que você mais queria ver e experimentar na Escócia.
— Nós deixamos de fora "o cheiro de salmoura fria"17 e
"haggis". — Patience se ergueu, alisando as dobras de seu caftã
rosa e laranja. — E você sabe — ela fixou o olhar em Margo. —
Uma vez que um encanto é lançado, só um idiota recusaria.
— Eu não sei o que dizer. — Margo manteve a mão
apertada sobre o peito.
As palavras de suas amigas diziam tudo.
E ela estava tentada.
Nunca chegara tão perto de ignorar tudo que ela
acreditava. Ela preferia queimar no inferno a ficar em dívida
com alguém. E, ela não podia negar, seu orgulho não a deixava
aceitar caridade. Ela acreditava ter que batalhar para ter tudo
o que ela queria e se ela não pudesse pagar por certos luxos,
ela preferia ficar sem eles.
Mas um desejo tão agudo a perfurava de tal maneira que
ela mal podia respirar.
— Não importa. — Ela abaixou o cartão, sua negativa
quase quebrando o coração. — Eu sei que vocês querem o
melhor e eu amo vocês por isso. Mas eu não posso pegar o
dinheiro. Meus cem dólares terão que dar. Eles comprarão um
monte de bilhetes e...
— Haverá centenas de turistas no Festival Escocês. —
Ardelle franziu o cenho para ela. — E todos eles comprarão.
— Que, — Margo aprumou o corpo — é a outra razão que
eu não deveria pegar mais de cem chances de vencer. As outras
pessoas estarão ansiosas também para...
Marta bufou.
— Diga-me o nome de uma pessoa que ama a Escócia
mais do que você.
Margo não podia.
Dina Greed veio à sua cabeça. Mas a paixão dela pelas
Terras Altas surgiu quando ela viu Coração Valente nos
cinemas. Margo nasceu amando a Escócia.
— Ainda assim não é justo. — Os princípios a fizeram
contestar.
— Hah! — Patience deu a volta no balcão e colocou seu
braço ao redor dos ombros de Margo. — Você esqueceu tudo o
que eu lhe falei? O festival terá dez, até mesmo vinte centenas
de visitantes e o vencedor ainda assim será a pessoa que quer
vencer.
— Depois, adquirir duzentas e cinquenta chances
adicionais não farão diferença. — Margo se moveu para ficar
livre. — Você está desperdiçando um bom dinheiro.
— Nós estamos investindo em sua energia. — Patience
falou.
— Você teria mais confiança sabendo que comprou tantos
bilhetes. Esse estímulo iria até o cosmo e aumentaria suas
chances de ganhar. — Margo mordeu o lábio. Ela sabia que
Patience estava certa.
Então ela usou a sua objeção mais forte.
— Ainda é muito dinheiro.
— Oh, claro. — Patience balançou uma mão em
descrédito. — Madame Zelda, — ela usou o nome que Marta
usava para ler tarô — quanto dinheiro você traz para a loja com
suas leituras semanais de clientes que moram em Fieldstone
House?
Marta sorriu.
— Alguns milhares de dólares, tenho certeza. Talvez mais,
contando que a velha Sra. Beechwood viesse duas vezes por
semana. Ela não movia um dedo sem primeiro parar para fazer
uma consulta.
— E eu me pergunto onde os moradores de Fieldstone
House ouviram que você é tão boa lendo as cartas de tarô? —
Patience esfregou o queixo, fingindo ignorância.
Margo sentiu o resto esquentando. Ela elogiava os talentos
de Marta para todo mundo que ela conhecia, especialmente
seus vizinhos em Fieldstone House.
— Eu vejo que sabe de onde aqueles clientes vieram. —
Patience claramente viu Margo enrubescer. Não encerrando o
assunto, ela olhou para Ardelle. — E você, querida — Ela
aumentou o tom de voz — você não me disse um tempo atrás
que ouviu Margo falar a um cliente da Envelhecendo
Graciosamente que nós recebemos um excelente carregamento
de chá Grama Lunar? — A mulher tinha uma tosse forte. —
Margo lembrou daquele dia na loja de roupas vintage de
Ardelle. Potentilha18, chamada na Vosso Velho Tempo Pagão
de Grama Lunar, suavizava as dores de garganta. — Eu não
pude evitar em dar essa dica. A mulher estava mostrando as
pastilhas industrializadas que não a ajudavam em nada.
— E agora essa mulher, Octavia Figg, comprou nosso chá
Grama Lunar por causa disso. Ela o tem feito por seis meses,
alegando que o chá também acalma os nervos. Eu poderia fazer
um cruzeiro pelo Caribe com o dinheiro que ela traz à loja. —
Patience sorriu triunfante, após seu apontamento.
Marta e Ardelle riam como duas bobas.
Margo soube que estava perdida.
Não havia mais nenhum argumento.
Ela iria gastar 350 dólares nos bilhetes para o sorteio de
Donald McVittie.
***
Séculos de distância, em um local que nem Donald
McVittie havia estado, Magnus acordou instantaneamente e
franziu a testa para as sombras em seu quarto. Pensou em
socar o travesseiro, rolar para o lado e voltar a dormir. Mas
todo o seu corpo, de um guerreiro experiente, vibrou e ele se
levantou, pegou sua espada com uma velocidade e agilidade
que seus inimigos temiam.
Ele esperou por semanas, tentando adivinhar onde seus
inimigos iriam atacar. Mas não importava o quanto ele
entendia os normandos, ou quantas vezes ele olhou através do
mar, olhando no horizonte, ele não imaginava onde ou quando
os navios longos, ornados com dragões iriam sair da neblina e
ganhar velocidade, seus remos reluzindo como asas do
demônio enquanto avançavam pela costa, ansiosos para
atacar, saquear e matar inocentes.
Agora ele sabia o que fazer.
Ele esperaria os Vikings chegarem à costa e os aniquilaria
quando desembarcassem.
Mesmo que apenas um punhado de seus abomináveis
navios, liderados por feras, caíssem em sua armadilha, a lição
que ele queria dar a eles era o que é sentir medo.
Pelo menos isso poderia alertá-los para ficar longe das
terras dele.
Havia duas coisas que os vikings tinham medo. Uma delas
era perder homens. Não porque eles tivessem medo da morte.
Enquanto eles morressem bem, segurando a espada ou
machado de batalha, o salão de festas de Odin estaria
esperando por eles e, eles iriam para lá de boa vontade. Mas
para viver, um número reduzido de guerreiros significava
enfraquecer o poder de luta. Repor homens perdidos era difícil
quando eles, os atacantes, estavam tão longe de suas terras.
Magnus moveu a espada, um sorriso lento se curvando.
Ele era bom em reduzir o número de combatentes em uma luta
contra os vikings.
E ele tinha igual prazer em dizimar a tripulação de um
navio nórdico. Afinal de contas, cada remador poderia
empunhar uma espada ou um machado tão perversamente
como eles batiam nas ondas. E, Magnus amarrou seu cabelo
com um pedaço de couro, em breve ele lidaria com seus
inimigos com o outro grande medo deles: navio queimado.
Mais de um, se os deuses fossem bons.
Em algum lugar um galo cantou e Magnus olhou para a
janela fechada. O mais leve tom de cinza começava a quebrar a
escuridão. E ele pegou o seu plaid da cadeira, uma leve garoa
caía. Ele também era capaz de ouvir as ondas do mar batendo
contra as rochas embaixo dos muros de seu castelo.
Em breve, sua armadilha seria usada em uma frota de
Vikings desavisada.
Com sede de sangue, ele abriu a tampa de seu baú ao pé
da cama e olhou para o mar brilhante de braceletes de prata e
ouro que chegava ao topo. Ele teria que arrumar um segundo
baú.
Ele esperava que sim, com fervor. Mas esta manhã, ele
apenas pegou algumas faixas brilhantes e colocou em seus
braços.
Ele estava pronto.
Com sorte, ele logo teria um motivo para desfazer o laço de
couro que amarrava em seu cabelo. Ele sorriu e balançou a
cabeça, deixando as mechas balançarem ao redor de seus
ombros, assim seus inimigos veriam seu cabelo solto e
saberiam imediatamente, que ele iria matá-los.
E depois de saciar sua sede de vingança, ele faria outra
visita a Orosius.
A sereia poderia não ser do mesmo mundo dele, mas ele
tinha certeza de que ela estava perto.
Tão perto que ele poderia prová-la.
Capítulo Seis
— Magnus MacBride, Assassino de Vikings. Ajude-me a
vencer.
Margo repetia, silenciosamente, essas palavras como um
cântico, deixando-as entrar em sua mente e - pelo menos ela
esperava - enviá-las de seu coração para o cosmo.
Era a manhã do Festival Escocês de Bucks County e,
provavelmente, o dia mais importante da vida dela. O único
momento que poderia superar o dia de hoje, seria quando o
avião cruzasse o Atlântico e aterrissasse no Aeroporto
Internacional de Glasgow, levando-a para a terra de seus
sonhos.
Isso, se ela ganhasse o grande prêmio do sorteio de
Donald McVittie.
Infelizmente, ela não conseguia afastar a sensação de que
todo mundo que se aglomerava nos terrenos da loja Rosas
Roubadas Empório de Presentes e Salão de Chá compartilhava
de seus sentimentos. Os Festivais Celtas costumavam atrair
pessoas que amava a Escócia. Margo podia identificar essas
pessoas a distância. Os olhos delas brilhavam com a mesma
felicidade que ela sentia quando andava ao redor dos parques
de diversão e mergulhava na cultura e atmosfera das Terras
Altas.
Era um momento de triunfo, cujos padrões continuavam
vivos e respirando
Qual Scotophile19 poderia resistir a uma variedade
perfeita de gaita de foles, haggis e plaid?
Ninguém que ela poderia ver. Todos se juntavam em sua
admiração, com corações batendo mais rápido e elevando suas
paixões. Um grupo de casais de meia idade perto do lago de
patos, atrás da loja de chá até mesmo usavam camisetas iguais
onde podia ser lido: A terra dos vales estreitos nos chama.
Margo não tinha dúvidas que cada um deles esperava
ganhar um tour guiado de sete dias pela Escócia.
Assim, ela tinha certeza, todo mundo aproveitaria um
alegre dia de outono.
E saber disso a estava matando.
Quando uma mulher grande e vigorosa passou por ela
usando um enorme broche com letras em strass, proclamando
que ela amava Auld Hameland – Antiga Terra Natal - ela não
sucumbiu.
Mas ela sentiu um mal-estar no estômago. A mulher tinha
um ar tão determinado e estava indo direto para o auditório
decorado de xadrez da Rosas Roubadas, onde Donald em breve
tomaria seu lugar.
A mulher era competitiva.
Margo mordeu o lábio enquanto sua rival marchava pela
grama. Refinada e com o cabelo grisalho perfeitamente
arrumado, ela aparentava ser das que podiam pagar bem mais
do que trezentos e cinquenta dólares em bilhetes de sorteio.
Embora, alguém tinha que ter esperança, se isso fosse verdade,
ela provavelmente poderia comprar sua própria passagem
aérea para a Escócia.
Talvez até mesmo tivesse um motorista privado vestindo
kilt para recebê-la quando chegasse. Então talvez ela não
depositasse tantos bilhetes na caixa xadrez destinada para o
sorteio, como Margo fizera.
Margo desejou fervorosamente que a mulher desagradável
comprasse apenas um bilhete na agência.
Logo depois, ecoou o som das gaitas e tambores vindo do
outro lado do lago dos patos. O som estridente vinha de um
prado perto da entrada para o bosque que estava
apropriadamente envolto em uma fina e flutuante névoa. O
campo de parada onde, Margo sabia, a competição local das
bandas de gaita estavam se preparando. Como em outras
vezes, “Scotland the Brave” pareceu ser a escolha certa. Seu
coração acelerou e sua respiração ficou presa ao sentir sua
amada Escócia.
E as Terras Altas era dela.
Ninguém amava a Escócia mais do que ela.
Quem mais gastou horas preenchendo seu nome,
endereço e número de telefone em 350 bilhetes de sorteio?
Donald McVittie não queria estragar o momento com todo
o público lutando para ver os números assim, ele insistiu que
as pessoas escrevessem nos bilhetes suas informações pessoais
em letras de forma.
A mão de Margo ainda doía.
Ela suspeitava que seus dedos ficariam permanentemente
sem movimentos.
Mas neste instante o som das gaitas a chamava, assim ela
seguiu o caminho antes que perdesse a apresentação.
E ela nunca perdia a disputa de gaita de foles. Apenas no
ano em que ela se ofereceu para ficar na Um Traço de xadrez.
Ela esperava que a presença que pairava no ar e as suas preces
silenciosas para Magnus Macbride, o highlander de seus
sonhos, poderiam de alguma forma, impedir que os outros
fanáticos pela Escócia fossem sorteados.
Então ela rapidamente voltou para a tenda de Donald,
esperando que sua aparência fosse formidável.
A Um Traço de Xadrez parecia irritantemente convidativa.
Donald havia saído cedo, dizendo que sua presença era
necessária no auditório, onde os preparativos do buffet para o
almoço escocês e o sorteio do grande prêmio seriam realizados.
Mas o filho de Donald, Donald Junior, incentivada todos
visitantes a pararem, a conversar e - Margo poderia estrangulá-
lo - comprar os bilhetes para o sorteio.
— Wee Hughie MacSporran, famoso autor e historiador
das Terras Altas, guiará o tour. — A voz de Donald ecoava do
outro lado do salão enquanto ele sorria para duas garotas de
uns vinte anos, usando muita maquiagem e elegantes bolsas
com estampa xadrez. — Ele é conhecido como “O Narrador das
Terras Altas” e também é dono e fundador da Herança
Turismo. Ele é quase uma autoridade em história da Escócia
e...
— Ele veste um kilt? — Uma das garotas estourou uma
bola de chiclete.
Sua amiga deu uma risadinha.
— Estou mais interessada no que tem embaixo do kilt.
— Aquele é ele? — A garota do chiclete apontou para um
livro disposto no display. — Raízes Reais: Um guia dos
highlanders para descobrir seus ancestrais. — Ela leu o título
em voz alta, olhando para o escocês de bochechas rosas na
capa. Ele usava kilt, mas parecia com um urso de pelúcia
fofinho do que com um robusto e selvagem highlander.
— Ele não é tão sexy. — A garota apontou para o livro.
— Qualquer homem usando um kilt é quente. — A garota
da risada boba pegou outro livro de MacSporran, Contos
Populares: Visão de um highlander sobre Mitos e Lendas
escocesas. Ela olhou criticamente para o autor. — Ele tem pelo
menos um metro e noventa de altura. — Ela voltou a olhar
para sua amiga. — Eu gosto de homens grandes. Não me
importaria de rolar na urze com ele.
— Quem disse que ele é grande onde conta? — A amiga
dela estourou outra bola de chiclete.
Sempre um diplomata, Donald Junior ignorou os
comentários das meninas e seguiu contando que Wee Hughie
MacSporran era um descendente de Robert The Bruce e que o
autor estava no festival, vindo diretamente da Escócia para
entregar o grande prêmio ao vencedor.
As notícias provocaram um suspiro entediado na garota
do chiclete.
Mas a outra garota quase desmaiou. Fazendo chiados, ela
dançou um pouco.
— Você tem que me vender. — Ela disse, inflando o peito.
— Eu quero vinte bilhetes.
Margo se retesou.
Ela morreria se uma dessas garotas ganhassem a viagem.
Morte pela inveja das Terras Altas.
Havia certamente piores maneiras de morrer. Mas ela
preferia morrer na Escócia.
Tentando não mostrar sua melancolia, ela resolveu
examinar um plaid. Lindo, em ricos tons de verde escuro e
azul, algumas linhas pretas e rosas que o tornavam especial. O
plaid tinha atraído sua atenção no instante que ela chegou no
estande da Um Traço de Xadrez.
Mas como todos os plaid, todos eram importados da
Escócia e eram muito caros, assim ela resistiu à tentação e se
ocupou de olhar os vários tipos de broches, figurinos com
temas escoceses, imãs de geladeira e canecas.
Ela franziu o cenho para uma pilha de adesivos para carro
escrito: Homens de verdade comem haggis. A um dólar cada
um, até eles estavam além do orçamento dela.
Ela colocou cada moedinha que ela conseguia em sua
caixa.
Ficando agitada, ela se voltou para a prateleira de plaids.
Eles eram feitos com primor e possuíam a essência das Terras
Altas.
Margo suspirou.
Melancolicamente, ela deslizou seus dedos ao longo da lã
pura e suave. O lustroso tecido parecia ter vida ao seu toque,
quente e atraente. Conjurando imagens de penhascos
selvagens e ruínas de castelo que recortavam um céu escuro e
sombrio. Ela era capaz de sentir o vento frio e forte e cheirar o
rico cheiro de fumaça de turfa no ar frio e úmido.
Essa era razão dela amar tanto a Um Traço de Xadrez.
Eles mantinham a magia. Sempre.
Mas quando ela olhava para o bonito plaid, os sonhos dela
sobre colinas cobertas de neblina, urze e vales despedaçavam.
A garota do chiclete e a da risada boba estavam colocando na
caixa o que parecia ser mais de vinte dólares em bilhetes.
Donald Junior olhava com um sorriso satisfeito em seu
rosto corado.
O sorteio beneficiava uma boa causa.
Os McVitties, que resgatavam border collies20 além de
dirigir a Um Traço de Xadrez, estavam doando cada centavo
arrecadado para um abrigo de animais.
E eles estavam pessoalmente doando uma grande soma.
Animais abandonados seriam beneficiados.
Margo amava animais. Ela tinha as cicatrizes para provar
isso. Ela era conhecida por desviar a bicicleta, para evitar um
ocasional esquilo, guaxinim ou outro bicho que por ventura
cruzasse o seu caminho. Ela nunca se importou com arranhões
ou contusões. Se o animal escapava ileso, a sua dor valeria a
pena.
Ela aplaudia a dedicação dos McVitties.
Mesmo assim, ela se ressentia com cada bilhete que as
duas garotas tinham comprado.
E aquilo a fazia se sentir uma pessoa horrível.
Mas a irritação dela não ia embora.
— Se eu ganhar — a garota da risada começou a beijar os
bilhetes antes de colocá-los na caixa — atacarei o kilt de Wee
Hugghie antes que você possa dizer Coração Valente.
A garota do chiclete rolou os olhos.
— Se ele é chamado de “wee”21 por causa do tamanho de
seus haggis, você nunca será capaz de dizer.
O sorriso de Donald desapareceu. Ele estava arrumando a
coleção de canecas de café com estampas de cardos22 ou fotos
coloridas de gaitas de foles em frente ao Castelo de Edimburgo.
As duas garotas cutucaram os cotovelos uma da outra,
claramente apreciando o desconforto dele.
Margo fez uma cara feia para elas, não se importando se
elas notassem.
Quando elas perceberam, ambas arregalaram os olhos,
depois lançaram um olhar mordaz que mostrava que elas a
achavam um dinossauro obsoleto.
E talvez ela fosse.
Porque, ao erguer o queixo e dar a elas uma olhada que
congelaria a Islândia, só a fez pensar no velho e distante tempo
quando homens como Magnus MacBride, o Assassino de
Vikings, teriam lidado eficazmente com modos tão rudes e
cruéis como esse.
Homens como Magnus tinham honra, ela sabia.
Nos dias atuais, insultos eram levados numa boa.
Mas isso era aqui e agora, uma outra era e um mundo
diferente. Como se sentissem o quanto aquele fato irritava
Margo, as garotas proferiram duas palavras que ela nunca
permitiria passar por seus lábios.
Em seguida elas saíram em direção ao Rosas Roubadas
com seus quadris ondulando.
Margo estremeceu.
Era quase mais digerível pensar em Dina Greed na
Escócia do que aquelas duas garotas.
— Elas não serão as ganhadoras. — Uma voz rouca, de
uma pessoa idosa e definitivamente escocesa trovejou atrás de
Margo.
— Ah! — Margo girou, quase colidindo com a escocesa de
olhos brilhantes.
— Você não precisa se irritar, moça. — A pequena mulher
piscou para ela. — Todas as coisas acontecem do jeito que
devem ser e — ela piscou novamente seu olho azul — quando
devem ocorrer.
— Ohhh… — Margo não sabia o que dizer.
— Olhe para elas! — A mulher lançou um olhar para as
costas das garotas. — Há palavras para o tipo delas, mas — Ela
pôs as mãos nos quadris — eu sou uma lady. — Em qualquer
outra situação, Margo teria rido.
Mas ela havia sido pega.
A senhora tinha claramente visto ela observando as
garotas. E de alguma forma ela soube que Margo ansiava
ganhar o sorteio e que, embaraçoso, ela desejava que todos que
comprassem os bilhetes perdessem.
Margo sentiu como se tivesse levado uma leve martelada
na cabeça e ficou um pouco tonta. Quase como se ela tivesse
entrado em outra dimensão, apesar do pensamento ser bobo.
Donald Junior ainda estava há uma distância confortável de
um braço, mas de alguma forma parecia estar a milhas de
distância. Atrás dele havia prateleiras de kilts prontos, saias
xadrez e, para os menos exigentes, camisetas escritas: Beije-
me, eu sou escocês.
Margo conseguia ver tudo isso pelo canto do olho.
No entanto seu foco estava centrado na pequena escocesa
com um rosto inteligente e olhos azuis alertas.
— Patience enviou você atrás de mim? — Margo conseguia
imaginar sua chefe sendo amiga dessa senhora.
Elas provavelmente pertenciam ao mesmo círculo pagão.
Embora…
Margo conhecia a maior parte dos amigos de Patience. E
esta mulher não era do tipo que se esquecia facilmente. Ela
fazia Margo lembrar da bruxa de “João e Maria”. Exceto que
sua aura parecia boa. Quase como uma mulher sábia dos
livros de romances medievais escoceses.
— Patience? — A mulher gargalhou, ficando mais parecida
com a bruxa. — Não querida, ela não me pediu para lhe
buscar. Mas… — ela se aproximou — eu sei que ela e suas
duas outras amigas estão guardando um lugar para você no
buffet para almoço escocês.
Margo piscou, incerta sobre o que pensar sobre a mulher
saber tanta intimidade de sua vida particular.
— Você é Margo Menlove, não? — A mulher inclinou de
um jeito brusco o queixo.
Margo apenas olhou para ela.
Cabelos brancos, rosto rosado e um estilo exuberante, ela
vestia uma saia de veludo preto e uma jaqueta esmeralda do
mesmo tecido, ela completava o traje com um plaid drapeado
cujo tartã era verde e azul. Um grande broche Celta cravejado
de rubi brilhava em seu ombro, mantendo a faixa em seu lugar.
Pequenas botas pretas de cano alto com cadarço xadrez
vermelho eram visíveis por baixo da saia, dando um toque de
modernidade ao look do velho mundo.
Em qualquer lugar fora do Festival Escocês, ela pareceria
esquisita.
Mas várias pessoas vestiam-se representando vários
períodos no evento. A maior parte não tinha a mesma
autenticidade dessa mulher, mas eles tentavam.
Essa era parte da diversão.
Ainda assim…
— Como você sabe meu nome? — Margo não gostou do
calafrio que arrepiou os cabelos da nuca.
A mulher sorriu travessa.
— Ouch! — Ela balançou sua mão nodosa. — Eu escutei
suas amigas conversando. Elas estavam preocupadas que você
ainda não tinha se juntado a elas.
— Estava indo por este caminho, então… — A velha não
terminou a fala. Ela olhava para o outro lado do gramado, além
das barracas de comida e lembrancinhas, para o local onde
estavam as fileiras de tendas dos clãs, do lado oposto do lago.
Uma névoa espessa começava a descer pelas colinas para
flutuar sobre as águas. Uma cortina brilhante de um tom cinza
suave deslizava silenciosamente em direção a Rosas Roubadas
Empório de Presentes e Salão de Chá e se espalhava pelo
auditório logo atrás. A névoa lembrava tanto a Escócia que o
coração de Margo ficou apertado.
— Tal cena poderia ser nas Terras Altas. — A velha
mulher colocou uma mão sobre o peito e respirou
profundamente. — Sem turfa, mas há um ar úmido e um leve
toque de solo e musgo nas folhas. Tais cheiros encantam a
alma.
— Tire o barulho, os carros e os seus prédios com cara de
caixa e terá quase o mesmo aspecto que lá. Até mesmo da
minha Isle o’Doon. — Ela começou a rir novamente, mas neste
instante, as duas garotas que Margo censurou, espremiam-se
pela multidão para entrar no auditório usando o cotovelo para
abrir caminho.
— Elas não ganharão. — A velha disse novamente, soando
como se soubesse de algo. — Pessoas como elas perderiam
rapidamente o coração em meu mundo. Elas estão
apaixonadas pelos highlanders que elas veem em fi-u-mes. —
Ela pronunciou a palavra filme como se fosse uma palavra
estranha em sua língua. — Elas não têm espinha dorsal para
manter-se de pé em frente a um verdadeiro heilander.
— Um highlander de verdade? — Margo ficou intrigada.
— Aye. Exatamente. — A mulher pegou nos braços de
Margo com dedos surpreendentemente firmes. — Homens como
esses que andam em minhas colinas, necessitam de mulheres
com força e coragem. Mulheres que apreciem a honra e a
necessidade de vingar o clã. Moças de bom coração que saibam
curar e até mesmo usar uma espada se for necessário. — A
velha aumentou o aperto. — Mulheres dignas de um
guerreiro…
Os ouvidos de Margo começaram a zumbir, um barulho
estranho que aumentou à medida que a voz da velha sumia.
Uma onda de tontura tomou conta dela que teve que se apoiar
na borda da mesa de exibição, vagamente consciente de Donald
Junior mostrando uma sgian dubh para um homem atarracado
de cabelos castanhos usando um moletom decorado com o leão
vermelho, símbolo da Escócia. Donald estava mostrando a
pequena adaga, normalmente usada na meia e repetidamente
dizendo “Não, é pronunciado skean do” enquanto virava a
adaga com cabo de chifre de um lado para outro, mostrando o
designer celta e montagem da faca.
Margo era bem consciente da presença da velha.
— Essa é uma coisa curiosa para se dizer: Mulheres
dignas de um guerreiro… — Margo se apoiou com maior
firmeza na mesa.
De alguma forma, o olhar penetrante da mulher, a fez
sentir como se o mundo girasse ao redor dela. Era enervante e
piorava a sensação de tontura. Tão perturbador quanto a velha
estava agora balançando o braço de Margo.
— Margo. — A voz preocupada de Marta a alcançou,
quebrando a estranheza. — Você está tão verde como a grama.
— Sua amiga soltou o pulso dela e passou os braços
protetoramente ao redor da cintura dela. — Eu lhe disse que
era uma péssima ideia ficar a manhã inteira sem comer. Você
deveria ter se juntado a nós para o café da manhã. Agora…
— Estou bem. — Margo se afastou, olhando ao redor.
A pequena escocesa se foi.
A caixa do sorteio também desapareceu. Um dos irmãos
mais novos de Donald Junior deve ter carregado para o
auditório na Rosas Roubadas.
O transporte da caixa queria dizer que o sorteio era
iminente.
O coração de Margo começou a martelar. Ela se virou para
Marta.
— Você viu a velhinha que estava aqui? Uma escocesa
usando um traje tradicional?
— Você está brincando, certo? — Marta olhou para a
multidão usando jeans.
— Não. — Margo seguiu o olhar de sua amiga. — Ela me
disse que vinha da Isle of Doon.
Marta ergueu uma sobrancelha.
— Não acho que exista uma Isle of Doon na Escócia.
— Não existe. — Margo tinha certeza. — Apenas um Loch
Doon em Arshire.
— Então ela estava apenas pregando uma peça.
— Talvez. — Margo ainda estava procurando ao redor.
Muitas mulheres, incluindo as idosas, usavam suas
próprias versões de trajes escoceses. Mas na maioria dos casos,
a imaginação delas estava limitada a apenas um cinto xadrez,
um plaid ou uma camiseta com estampa de cardo.
Algumas queriam ser sedutoras e estavam vestindo mini
kilts e botas de cano alto. Apenas as muito jovens, com idade
de mais ou menos uns oito anos e que eram dançarinas,
vestiam o tradicional traje escocês.
Nenhuma delas tinha pequenas botas pretas com cadarço
de xadrez vermelho.
Nem mesmo a mais excêntricas das vovozinhas.
Cabelo roxo parecia ser o grande sucesso na geriatria.
Embora houvesse uma mulher mais velha que parecia
uma hippie andando com ramos de urze enlaçados no meio de
sua grossa trança grisalha. Ela também exibia uma tatuagem
da cruz de Santo André, azul e branca, no tornozelo inchado.
Ninguém parecia ter fugido de um dos contos dos irmãos
Grimm.
Margo franziu o cenho e esfregou o pescoço e a nuca.
Ela lançou um olhar para Donald Junior. Mas ela sabia
sem interromper o discurso de venda do sgian dubh que, se ela
perguntasse a ele sobre a velhinha, ele diria que não a tinha
visto.
Porque, Margo até se sentiu mal, não havia uma bruxa
como aquela velhinha.
Provavelmente ela havia imaginado.
Seus nervos estavam em frangalhos.
Era isso.
Mas a velhinha tinha parecido tão real!
— O-o-oh, olhe ali! — O toque de Marta subitamente
indicou que os braços dela eram reais. — Aquele deve ser o
autor escocês. Bem ali — ela apontou para a fileira de barracas
dos clãs — indo para o auditório.
— Bom Deus! — Os olhos de Margo se arregalaram. — Eu
acho que está certa.
Wee Hughie MacSporran, se o homem alto e corpulento
vestindo um kilt realmente fosse o highlander, autor,
historiador e proprietário da agência de turismo, tinha um ar
aristocrático que beirava o pomposo.
Ele andava como um pavão. Um grupo de mulheres
barulhentas e aduladoras apressaram em seguir o caminho
dele, muitas segurando livros, provavelmente esperando que
ele os autografasse. Mas ele caminhava sem tomar
conhecimento delas, seu queixo erguido e ombros em uma
posição de orgulho e determinação. Ele realmente parecia um
ursinho de pelúcia com kilt. Mas sua arrogância arruinava toda
a fofura de suas bochechas rosadas como uma maçã e de seus
brilhantes olhos azuis.
Margo sentiu o coração apertar.
Ela não esperava alguém com a aparência de Magnus
MacBride. Mas ela havia imaginado muito diferente em sua
cabeça, sobre o Narrador das Terras Altas.
Um narcisista não era uma delas.
— Ele parece esperar que as pessoas o aplaudam por ele
estar passando por aqui. — Margo olhou para Marta, depois
voltou a observar o autor escocês.
Seu ralo cabelo ruivo e a barriga saliente, diminuíam o
esplendor de sua jaqueta de tweed e estampa de Argyle23 e
uma camisa branca aberta no pescoço. Mas o estilo jacobino e
antiquado da camisa servia a seu propósito. Ele parecia como
se tivesse acabado de sair do campo da Batalha de Culloden.
E seu esporão, coberto de pele e com três franjas parecia
igualmente idêntico. O kilt - Margo reconheceu como um plaid
dos MacDonald - balançava elegantemente sobre seus joelhos;
seus passos rápidos mostrando toda a confiança de um homem
bem acostumado a vestir o traje tradicional das Terras Altas.
— Talvez ele não seja tão soberbo quanto aparenta. —
Sempre otimista, Marta pegou o braço de Margo e começou a
puxá-la através da grama, saindo da Um Traço de Xadrez em
direção à Rosas Roubadas.
— Ele provavelmente seja muito legal. — Marta tentou
novamente ser diplomata.
Margo tentou não rolar os olhos.
Wee Hughie parecia tão vaidoso que ela suspeitava que ele
estouraria como um balão de gás se alguém espetasse ele com
um alfinete. Mas ela manteve o pensamento para si mesma.
Gaitas e tambores começaram a soar de dentro do
auditório. As batidas aceleradas eletrificavam o ar, antecipando
a agitação. O público que se aglomerava na entrada sumiu,
todos haviam entrado no prédio e - Margo sentiu seu coração
palpitar - sem dúvida, esperando ouvir seu nome anunciado
como o vencedor do grande prêmio: a viagem de sete dias pela
Escócia.
— Vamos, temos que nos apressar. — Marta estava quase
correndo agora. — Eles estão se preparando para o sorteio.
Principalmente — ela lançou um sorriso à Margo — quando
Wee Hughie chegar.
Aquilo era verdade.
E subitamente Margo não se importava se Wee Hughie
MacSporram, o narrador das Terras Altas, usasse um trompete
de ouro para se autopromover antes de anunciar o nome do
vencedor.
Contando que fosse o nome dela, ela ficaria feliz.
Mas seu estado de nervos tomou conta dela, quando
Marta e ela atravessaram a porta do auditório e Darcy Sullivan,
o proprietário da Rosas Roubadas e patrocinadora do Festival
Anual Escocês as cumprimentou com um brilhante sorriso.
— Margo! Ouvi dizer que você tem grandes chances de
ganhar o sorteio. — Ela piscou para Marta. — Um passarinho
me disse que você comprou 350 bilhetes. — Ela se inclinou se
aproximando, seus olhos verdes brilhando. — Estou torcendo
por você.
— Obrigada! — Margo mal conseguia respirar. Ela estava
tremendo.
Agora que o grande dia havia chegado - e todas as suas
esperanças e sonhos dependiam de um único sorteio - seu
peito parecia tão apertado como se alguém tivesse prendido
suas costelas com ferro e o coração dela batia como um
tambor. Suas pernas pareciam de borracha e se alguém falasse
com ela, com certeza ela seria capaz de emitir apenas sons
incoerentes.
Todas as mesas estavam ocupadas e uma multidão lotava
os corredores e as paredes nas laterais do prédio. O barulho
era ensurdecedor. Um grande ruído de vozes que se erguiam e
abaixavam. No palco, a banda de gaitas e tambores tocava uma
animada canção perto do local onde se encontrava o Donald
McVittie Jr, preparando-se para apresentar Wee Hughie
MacSporran. Pelo menos era aquilo que Margo achava que
Donald estava fazendo.
Era difícil dizer quando tudo o que ela realmente
conseguia enxergar era a grande caixa embrulhada com papel
xadrez na mesa perto de Donald e do highlander.
Uma luz brilhava sobre a caixa, demonstrando a sua
importância.
Margo se forçou a desviar o olhar. Tinha medo que desse
azar se ela olhasse por muito tempo para a caixa que continha
todos os seus sonhos.
Procurando se acalmar, olhou para a parede atrás do
buffet de comida escocesa. A Rosas Roubadas Empório de
Presentes e Salão de Chás de Darcy Sullivan era na verdade,
uma loja irlandesa e uma artista local, que acabara de se casar
e mudar para a Irlanda, havia pintado um enorme mural com a
imagem da Emerald Isle nas paredes do salão de chá e na do
auditório.
A pintura criava uma pitoresca e extravagante imagem
que recordava as Terras Altas, embora ela soubesse que as
estradas sinuosas e as casas brancas deveriam ser irlandesas.
Casas escocesas também possuíam paredes grossas e
telhados de palha. E as fotografias de violinistas entretendo
multidões em pubs enfumaçados poderia facilmente estar
localizado em algum lugar na Escócia.
Da mesma forma as falésias varridas pelos ventos, trechos
de areia dourada e intermináveis mares azuis brilhantes bem
que poderiam ter saído dos sonhos de Margo. A artista, que ela
não conseguia recordar o nome, provavelmente tinha amado a
Irlanda com a mesma paixão que ela tinha pela Escócia.
A diferença era que a artista, uma alma sortuda, não
tinha ganhado uma viagem para a terra que tanto amava. Ela
havia se apaixonado por um irlandês e se mudado para lá.
Margo franziu o cenho, não gostando da pontada de
ciúmes que a atacava enquanto ela analisava a pintura da
mulher.
Ela deveria estar feliz pela artista.
Tentando se distrair, ela inspirou profundamente, mais de
uma vez, enquanto Marta a arrastava até a mesa onde Patience
e Ardelle a esperavam, acenando.
As duas mulheres mais velhas se vestiam do mesmo jeito,
cada uma com uma saia na altura do tornozelo, camisa branca
de manga longa e um plaid azul e verde. Um pôster enorme,
pintado à mão, estava apoiado sobre a mesa, equilibrado por
uma garrafa de champagne e quatro taças de cristal e
anunciava: Margo está indo para a Escócia!
— Você vai ganhar. — Ardelle pegou e balançou sua mão.
Patience se inclinou sobre Margo assim que ela se sentou.
— Eu lancei um feitiço de boa sorte esta manhã. — Marta
sorriu. — Viu? O que pode dar errado?
Um rufar de tambores e floreio das gaitas aumentavam a
adrenalina, varrendo todo mundo que estava no salão
diretamente para a vastidão de moinhos, de urzes e mares
selvagens açoitados pelo vento. As luzes diminuíram no
instante que o barulho cessou e Donald Mc Vittie tomou seu
lugar atrás da caixa xadrez.
O auditório ficou em silêncio.
— Meus amigos, bem-vindos! — Donald abriu os braços,
radiante. — Chegou o momento que todos estavam esperando.
Mas antes — ele olhou para Wee Hughie — Eu deixarei que o
premiado autor e historiador escocês estimule o apetite de
vocês pelas Terras Altas com uma pequena degustação do que
a Herança Turismo planejou para vocês.
Wee Hughie endireitou os ombros e se juntou a Donald,
embaixo da luz dos holofotes.
— Boa tarde. — Ele inclinou-se levemente, parecendo
satisfeito com a recepção do público. — Estou feliz que minha
agenda para o lançamento de meu novo livro aqui nos Estados
Unidos permitisse me juntar a vocês. Aquece meu coração, ver
que tantos americanos estão tão entusiasmados com minha
terra natal. Vocês ouviram sobre kilts, clãs, tartãs, a névoa das
Terras Altas e castelos. A Escócia é tudo isso e muito mais.
— Na Herança Turismo, nós apresentaremos a Escócia de
seus sonhos, assegurando que será a experiência de suas
vidas. — Ele fez uma pausa, pegando um brilhante caderno de
baixo da caixa. — O grande ganhador de hoje começará sua
aventura no instante que puser os pés no avião.
— Um grande e luxuoso ônibus, totalmente climatizado e
com grandes janelas para observação levará o ganhador ou
ganhadora até o coração de Glasgow, com suas grandes
catedrais, seguida por uma visita até o Castelo de Stirling,
Bannockburn, Scone Palace e às lindas margens do Lomond
Loch para almoçar. A tarde nos levará até os pântanos
selvagens de Rannoch e para as colinas cobertas por neblina de
Glencoe…
O suave sotaque de Wee Hughies se aprofundou,
preenchendo o auditório enquanto ele lia o roteiro do tour.
— ...Fort William para tomar chá e fazer compras, mais
uma olhada no West Highland Museum de lá e depois mais
compras na Sepan Ness and Fort Augustus. Um passeio de
“busca ao monstro” ao redor do Lago Ness e uma parada no
Castelo Urquhart antes de nos dirigirmos para Inverness, onde
vocês irão… — Uma profusão de ooohs e aaahs era emitida
pelos ouvintes. Um leve farfalhar era audível enquanto as
pessoas se moviam em seus assentos, inclinando-se para a
frente, capturando cada palavra de Wee Hugghie.
Margo olhava para ele horrorizada.
O sonho dela em ficar sozinha em uma colina coberta de
urzes, com o vento soprando a seu redor enquanto ela inalava
a atmosfera e apreciava o cheiro de turfa, espatifou-se como se
fossem cintilantes cacos de vidro quebrado.
— Ele está lendo a programação para um único dia? —
Marta olhou para Margo com olhos arregalados.
— Eu acho que sim. — Na verdade, ela tinha certeza.
Ela encontrou um roteiro na mesa e foi seguindo à medida
que ele lia as paradas. E cada um dos sete dias parecia tão
ocupado e errático quanto o primeiro. Se ela ganhasse a
viagem, ela teria sorte de se manter em pé em um lugar por
tempo suficiente para tirar uma fotografia.
Não haveria tempo para mais nada.
Marta tomou o roteiro das mãos de Margo.
— Aff! — Ela ergueu o olhar, seus olhos mais arregalados
que antes. — Você precisará de um mês de licença do trabalho
para se recuperar de um passeio desse.
— Talvez eu não ganhe. — Imediatamente Margo soube
que ganharia.
Um tour como esse combinava com a sorte dela, afinal.
Quem mais ganharia uma viagem para a Escócia que seria
um redemoinho tão grande que ela não poderia ver de verdade
a terra dos sonhos dela?
Dina Greed morreria de rir.
Um som metálico do microfone, seguido por um barulho
de batida e um homem limpando a garganta, assinalou que o
grande momento chegara. Donald McVittie levantou a caixa e a
estava sacudindo vigorosamente.
Wee Hughie MacSporran estendeu as mãos e
dramaticamente balançou os dedos.
— Em nome de meu tata-tata-tataravô, o mais famoso rei
da Escócia, Robert the Bruce — ele parou de efeito, olhando
regiamente para a plateia — Eu tenho a honra de declarar que
o grande vencedor da excursão da Herança Turismo pela
Escócia é...
Ele enfiou sua mão na caixa.
Marta, Patience e Ardelle pularam de suas cadeiras, cada
uma delas colocando uma mão sobre o ombro de Margo.
Margo fechou os olhos, seu coração batia selvagemente
apesar de ter visto o itinerário que seria à velocidade da luz.
Ainda assim era Escócia.
A garganta de Margo se estreitou e seus olhos queimaram,
sua visão ficou embaçada. Ela podia ouvir o sangue rugir em
seus ouvidos, dificultando que ela ouvisse os sons ao redor.
Mas Wee Hughie era um homem alto e sua voz era profunda e
carregada. Ele também estava olhando para o pequeno bilhete
vermelho em sua mão.
Ele levantou a vista, escaneando a plateia.
— Minha ascendência faz com que eu aja como
embaixador da Escócia. — Sua voz se encheu com as palavras,
o orgulho brilhava em seu rosto vermelho. — Portanto, estou
muito feliz em receber — ele fez uma pausa — Margo Menlove
para meu próximo tour!
— Margo! — Suas amigas a levantaram, abraçando-a,
enquanto todos na plateia aplaudiam e a felicitavam.
Em seguida, de alguma forma, ela atravessou a multidão e
subiu os degraus até o palco, onde Wee Hughie MacSporran,
Donald McVittie e Darcy Sullivan estavam esperando para lhe
dar os parabéns.
Wee Hughie estava sorrindo e segurando uma passagem
aérea gigante, seu ar pomposo se fora. Ele parecia
genuinamente feliz por conhecê-la. Duas covinhas marcavam
suas bochechas, fazendo-o parecer quase infantil. Margo
relaxou, agora estava esperançosa e viu que o julgara mal.
A viagem seria maravilhosa.
E ela iria aproveitar cada minuto.
Capítulo Sete
Havia um ditado sobre a necessidade de ser muito
cuidadoso com seus desejos, pois eles podiam se realizar.
Três semanas, um Atlântico cruzado e muitos dias de Wee
Hughie MacSporran depois, Margo se movia no corredor do
luxuoso ônibus da Herança Turismo, chamado de Espada de
Somerled, arrependida de nunca ter prestado atenção ao
ditado. Trabalhando com Patience e na Vosso Velho Tempo
Pagão, ela deveria saber que, o que você pede ao cosmo pode
voltar e morder você.
Neste instante ela se sentia muito mais que mordida.
Mastigada seria o mais apropriado.
As garras de ferro do destino estavam viajando com ela,
moendo com força. Sentindo a dor, ela tentou sufocar sua
irritação e falhou.
Na parte da frente do ônibus, Wee Hughie se arrumava.
Ao lado dele, o motorista habilmente manobrou o ônibus
ao longo de uma sinuosa estrada costeira. Um pequeno e
simpático nativo de Glasgow, ele parecia imune aos ares das
Terras Altas. Ele simplesmente mantinha os olhos reto,
sorrindo todo tempo.
Wee Hughie parecia filosófico.
— Mesmo hoje — Wee Hughie enviou um olhar apreciativo
para a vista dos penhascos e mar lá embaixo — os highlanders
refletem a força de suas terras. Estude nossos rostos e verá o
mesmo espírito implacável e ousado. Escute nossas vozes e
ouvirá a chuva suave e o canto de pássaros ou o uivo de um
vendaval de um outono negro. Nós nos emocionamos com o
frio, com o mar cinzento e colinas ensopadas com a névoa fria
do escuro inverno. A selvageria e a desolação não atenuam
nosso espírito, mas faz nossos corações dispararem. — Margo
seguiu o olhar dele, pela primeira vez, concordando com ele.
Ela quase conseguia sentir o cheiro do sal no ar. Se não
fosse pelas janelas grossas do ônibus, ela sabia que poderia
experimentar o cheiro de salmoura trazido pelo vento. Sentiria
o mais profundo e rico aroma de terra úmida, turfa e pinho. Se
ela esticasse o pescoço, poderia ver rebentação sobre as rochas
negras que formavam a costa.
Mas o homem que ela imaginou em toda essa
magnificência não tinha qualquer semelhança com
MacSporran.
Ela viu Magnus perto do mar.
Os olhos de sua imaginação o colocaram lá em toda sua
glória. Seus cabelos negros voavam com o vento, seus
braceletes de ouro e prata reluziam, rivalizando com o brilho da
espada e da cota de malha.
Seu olhar sombrio pairava sobre o mar e ele segurava em
uma das mãos o cabo da espada.
Ele era um guerreiro de aparência dura.
E o mais bonito e excitante homem que Margo podia
imaginar.
O seu pulso acelerou e ela começou a sorrir, sua irritação
diminuindo. Mas depois Wee Hughie clareou a garganta,
tirando-a de seus sonhos.
— Highlanders são conhecidos como os mais bravos e
ousados nas forças militares britânicas. — Ele endireitou os
ombros, elevando-os. — Isso não nos surpreende.
Eles valiam como o granito e o vento frio do norte. A
coragem deles eram tiradas dos penhascos altos, rochosos e
dos vales selvagens e íngremes que eles chamavam de lar.
— Meus ancestrais eram os reis orgulhosos dessa terra e
eles… — ele parou abruptamente, assumindo um ar humilde
quando ergueu a mão para interromper os vários oohs e ahhs
que ecoavam pelo ônibus diante a menção de sua conexão
sanguínea com a realeza escocesa.
— Meus antepassados — Wee Hughie resumiu —
desempenharam fortes papéis na formação da Escócia que nós
conhecemos hoje. Suas vidas eram as linhas mais fortes e mais
douradas na fascinante tapeçaria que é a história da Escócia.
Estou honrado em dividir com vocês alguns desses contos. —
Ele voltou a olhar para dentro do ônibus, acenando para os
passageiros.
Margo forçou um sorriso quando os olhos dele alcançaram
os olhos dela.
— Psiu! — A mulher cruzou o corredor, Tanya Long, deu
um tapinha no braço de Margo. Jovem, sulista e cheia de
energia, ela saltava de sua cadeira cada vez que passavam por
uma ruína de castelo ou por um trecho particularmente
pitoresco da paisagem.
Neste instante, Tanya abaixou sua voz e deu um olhar
significativo na direção de Wee Hughie.
— Você acha que ele se parece com Robert the Bruce?
— Espero que não. — Margo deixou escapar as palavras
antes que pudesse se conter. — Robert the Bruce teria sido
enviado com capacete de batalha, uma longa espada a seu lado
e seu corpo de guerreiro tão poderoso e bem cuidado, assim
como suas armas. Se Wee Hughie é um descendente direto de
Bruce, eu acho que certamente, os séculos diluíram o sangue.
Tanya piscou. Seu exemplar do livro “Até você pode falar
gaélico” deslizou de seu colo. Ela abaixou-se para pegá-lo do
chão e depois lançou um olhar de admiração para o guia de
kilt.
— Eu acho que ele ama se ouvir falando.
— Ele me disse que as pessoas do sul têm facilidade para
aprender o Gaélico. — Tanya agarrou seu livro novo no peito.
— Ele diz, — seu sotaque sulista se intensificou — que é
porque tantos de nós temos raízes escocesas.
— Havia uma mesa com cópias desse livro no posto de
gasolina em Fort William. Suspeito — Margo tinha certeza —
que Wee Hughie recebe uma porcentagem por cada cópia que
um de nós compramos quando ele parou para abastecer.
— Você é bem cínica. — Tanya guardou seu livro em sua
mochila.
— Eu não gosto de ser enganada. — E também não gosto
de espertalhões. Margo guardou o último pensamento para si
mesma.
Recostando no banco, ela se debatia se, se atreveria usar
fones de ouvido até que Wee Hughie encerrasse seu discurso.
Ele tinha acabado com a parte de seus ancestrais reais e estava
começando a expor os cavaleiros, guerreiros e chefes de clã que
faziam parte de sua linha de sangue.
Margo não pensava que ela suportaria mais.
Ela não deveria esquecer que os velhos deuses eram
conhecidos por serem caprichosos. Afinal de contas, ela estava
sendo conduzida através dos antigos terrenos de divindades
pagãs. Seria diversão para Loki transformar os mais doces
desejos dela em algo bolorento assim que ela desse a primeira e
tão esperada mordida.
Esperando que Loki estivesse bem ocupado se divertindo
em Valhalla, ela tentou esticar as pernas. Infelizmente, não
havia espaço para isso.
O Espada de Somerled gabava-se de possuir confortáveis
assentos iguais aos de avião, permitindo que cada passageiro
pudesse apertar um botão e reclinar o banco.
E o homem no banco da frente ao de Margo tirava
vantagem dessa opção.
Margo olhou para o topo da cabeça dele, coberta de caspa.
O calor estava começando a subir das costas para a nuca
e ela respirou profundo e pausadamente várias vezes. Depois,
silenciosamente, ela contou até dez.
De outro jeito, ela explodiria.
Quem diria que a viagem dos sonhos dela se transformaria
em um pesadelo?
Teoricamente ela havia entrado em seu próprio país das
maravilhas.
Não que a ideia de paraíso xadrez alguma vez tivesse
incluído ser guiada por um ursinho de pelúcia de kilt, que
apenas se vangloriava e tinha um crachá que anunciava com
letras grandes que ele era o narrador das Terras Altas.
Mas era onde ela estava, assim ela ajustou seu xale da
Envelhecendo Graciosamente para se proteger do gelo do ar
condicionado do ônibus, que era climatizado para imitar e
aproveitar ao máximo o tempo na Escócia.
Apesar de Wee Hughie MacSporran.
Do lado de fora das tão faladas janelas do Espada de
Somerled, uma variedade espetacular de montanhas e colinas
íngremes e pontiagudas cortadas por cachoeiras, samambaias
vermelhas de outono que pareciam saias e uma quantia exata
de névoa que gritava “Isso são as Terras Altas”, sem prejudicar
a visão dos picos altos e escarpados. Dali dava para ter
vislumbre do mar, penhascos irregulares e curvas inacessíveis
de areia dourada e imaculada.
As ilhas, assombrosamente belas, pareciam perto o
suficiente para serem tocadas. E toda paisagem terrestre e
marítima brilhava em mais tons de azuis do que Margo
poderiam imaginar existir. Cada matiz era representado, desde
o mais pálido tom turquesa e malva ao longo da costa até o
mais profundo tom de água azul que brilhava no horizonte. De
vez em quando, bordas negras de um amontoado de turfas
aparecia em alguma charneca, evidenciando que algumas
almas sortudas realmente viviam e trabalhavam ali.
Diversas vezes ela viu estranhas e solitárias casas, de
paredes grossas e pintadas de branco e tão convidativas que
pareciam um cenário romântico. Os telhados de palha
pareciam ter sido substituídos por ardósia escura, mas a roupa
ainda flutuava com o vento, dando um toque retrô ao lugar.
Vez ou outra, ela viu um cachorro dormindo na porta de
entrada. Ovelhas andando em campos rochosos cobertos de
urze. E, ocasionalmente, havia até as Highland coos, as
famosas vacas de pelo longo que apareciam em tantos cartões
postais da Escócia. Se fosse mais tarde, luzes amarelas
poderiam ser vistas atrás das pequenas janelas das casas. E
sempre, uma fumaça azul saindo das chaminés.
Margo tinha quase certeza de que aquela fumaça azul, era
fumaça de turfa.
Infelizmente, eles não tinham se aproximado o suficiente
dessas casas para ela realmente poder sentir o cheiro, precioso
e típico, das Terras Altas.
Mas ela era grata por ter pelo menos visto a fumaça de
turfa.
Lamentavelmente, lembranças como as singularidades
dentro das casas também lhe dava uma sacudida de realidade,
de que ela teria que embarcar de volta para Newark.
A agitação que esperava por ela lá, agora pareciam tão
estranhas quanto ao lado mais negro da lua. Ou talvez de
Plutão ou algum planeta desconhecido. O barulho e o caos do
mundo real também a atingia - por comparação - e agora
parecia tão desagradável quanto enfiar agulhas em seus olhos.
Embora…
Havia momentos em que ela desejou nunca ter saído dos
Estados Unidos, para começar. Uma noção tão diferente dela e
tão inquietante, que se perguntou se um raio não a tinha
atingido.
Alguns dias atrás, ela teria rido se alguém sugerisse que
ela iria para a Escócia e ficaria infeliz.
No entanto, ela estava.
Só que não era a Escócia que a desapontava.
Era a Herança Turismo.
Sua cabeça ainda girava depois de cinco dias de corridas
entre os castelos, entrando e saindo dos locais históricos
listados no National Trust24, cada vez ficando tempo suficiente
apenas para comprar cartões postais nos centros turísticos. Ela
perdeu a conta de quantas vezes eles entraram e saíram do
Espada de Somerled que parava em alguns pontos ao longo da
estrada para rapidamente tirarem fotografias de belas
paisagens antes de serem levados para a próxima cafeteria ou
ponto de abastecimento.
Lojas horríveis e falsas com miniaturas de gaitas de foles,
o obrigatório whisky e amostras de balas de caramelos
escocesas. Enquanto eles passavam pelos melhores lugares à
velocidade da luz e sem parar. Como foi o caso do Museu Folk
em Glencoe. Margo suspirou, recordando.
Ela teria matado por uma tarde lá.
Mesmo meia hora já teria sido o paraíso.
Era em tais lugares que o passado da Escócia poderia
realmente ganhar vida.
Paraísos cercados de rochas e charnecas que tiravam o ar,
esperando serem apreciadas por aqueles que preferiam
caminhar até o mar de pântanos e urzes ao invés da bagunça
de concreto, aço e vidro conhecido como urbanização moderna.
Margo mordeu os lábios, não querendo ser ingrata.
Na verdade, ela tinha visto mais da Escócia do que muitos
americanos que amavam as Terras Altas poderiam sonhar em
uma única vida de dedicação a seu amor.
Infelizmente, ela teve apenas vislumbres de dois minutos
de cada lugar de interesse.
Seus sete dias de passeios pelas Terras Altas consistiam
em intervalos de nano segundos.
Nada era perfeito.
Ela inclusive tinha perdido a maior parte das mesas de
degustações gratuitas de tablet - tablet é a palavra escocesa
para caramelo - porque os lugares de “descanse e compre”
estavam sempre lotados.
Ela aprendeu a sorrir e suportar os ocupantes das janelas
do Espada de Somerled. A chance de uma vista desobstruída e
panorâmica das Terras Altas traziam à tona o pior das pessoas.
Não tinha chance alguma de eles dividirem essas preciosas
vistas.
Era cada um por si.
E os desanimados esforços de Wee Hughie para tentar
convencer as pessoas a trocarem de lugares falharam
absurdamente.
Margo franziu o cenho ao recordar sua primeira tentativa.
Ele tinha oferecido exemplares com margens xadrez de
folhetos sobre a sua linhagem para aqueles que
voluntariamente sentassem no corredor durante a viagem
panorâmica do Great Glen.
Ninguém mordeu a isca.
Assim, Margo não conseguiu chegar perto da janela depois
que o enorme ônibus saiu do Aeroporto de Glasgow logo cedo
no primeiro dia.
Na oportunidade, ela até conseguira um bom lugar, mas
apenas porque o jet lag tinha atrasado a maioria dos turistas.
Ela ainda estava na adrenalina “acabei de desembarcar na
Escócia” e andou tão rápido quanto um velocista profissional.
Ninguém teve chance contra ela naquela manhã. Pela
tarde, seus companheiros de viagem já haviam se recuperado
do longo voo.
Desde então, ela tinha viajado apenas no corredor.
A única coisa boa sobre a briga de seus companheiros de
viagem para voltar ao ônibus e pegar assento junto à janela,
era que, durante suas lutas, ela era capaz de tirar uma ou
duas fotos da paisagem sem ninguém aparecer nela. Além de
monopolizarem os assentos da janela, os clientes da Herança
Turismo também pareciam ter a propensão para invadir a
frente das lentes das câmeras.
— Você mal comprou lembrancinhas, querida. — A
mulher sentada ao seu olhou para a bagagem de Margo.
Encaixada embaixo do assento da frente, a mochila mal tinha
espaço em meio ao monte de sacolas de compra, caixas de
papelão e mala de tamanho expansível.
A mulher, corpulenta e de idade indeterminada, que
Margo acreditava se chamar Peral Wallace, aproximou-se,
tocando um pingente de urzes que ela comprara em Spean
Bridge Mill.
Margo desfrutara da parada no surpreendente e
aconchegante ponto turístico na A-8225, a rota mais amada da
Escócia, que atravessava as Terras Altas. Mas ela tinha
passado o seu tempo andando e absorvendo a atmosfera. Ela
seguira por um caminho que rodeava um bosque e ficou
parada em uma pequena ponte, apreciando o ar gelado e
observando a neblina pairar sobre o rio.
Ela não comprara nada.
Pearl a olhava criticamente.
— Um pingente de urze ficaria bem em você. Ou, — ela
inclinou a cabeça — um daqueles adoráveis moletons roxos
com desenhos de cardos feitos de lantejoula. Eles estavam em
promoção. Tanya Long — ela olhou para a jovem — comprei
dois deles.
Tanya vestia um deles agora. Parecendo orgulhosa, ela
passava suavemente a mão sobre seus cabelos castanhos
claros e encaracolados.
— Acho que não encontrará outra loja como essa
novamente. — Ela endireitou-se, mostrando o moletom. — Você
deveria ter pegado um quando teve a chance.
— Raramente eu compro lembrancinhas. — Margo deu
uma olhada para a garrafa de água que ela comprou em Spean
Bridge.
Chamada de Primavera das Terras Altas, e enfeitada com
um rótulo muito bonito, a garrafa se tornaria um belo lugar
para plantar uma pequena hera quando ela retornasse a
Fieldstone House.
E cada vez que ela olhava para a garrafa, ela se
transportava novamente para Spean Bridge. Mais uma vez, ela
ouviu o barulho do rio correndo e sentiu a névoa fria das
Terras Altas sobre seu rosto, deleitando-se.
Essas memórias seriam suas lembranças.
Mas ela duvidava que a maioria das pessoas entendessem.
Margo colocou seus pés sobre sua bagagem antes que seu
humor se escurecesse. Ela cutucou a sua mochila com os pés,
ficando feliz quando seus maiores esforços não foram capazes
de movê-la. Pesada e resistente, carregava seus maiores
tesouros: pedras que ela recolhera durante os passeios.
Ela não precisava de joias de urze industriais ou moletons
brilhantes.
E suas pedras não custaram um centavo.
Para ela, as pedras eram até mesmo mais valiosas do que
todo o ouro do mundo. E elas a confortaria quando sofresse ao
retornar da viagem.
Ela sempre escutou que a pior coisa sobre visitar a
Escócia era a dor sentida ao partir.
Mas agora ela estava com medo desse momento.
Mas se ela pudesse levar suas pedras escocesas para casa
sem dar nenhuma hérnia nos pobres funcionários da
companhia aérea, ela teria um pequeno pedaço das Terras
Altas sempre com ela.
Constance Bean, uma mulher septuagenária sentada do
outro lado do corredor, abaixou seus óculos e olhou para
Margo como se ela tivesse lido os pensamentos dela.
— Você pode acreditar que nós temos apenas mais uns
poucos dias? — Ela balançou a cabeça melancolicamente. —
Mas não é excitante que Wee Hughie tenha nos preparado uma
“Noite das Terras Altas” no hotel em Gairloch?
Ela pôs sua mão sobre o braço de Margo.
— Eu esperei toda a minha vida para poder ir em um
genuíno ceilidh26. — Os olhos dela apresentavam um brilho
revelador. — Eu até mesmo tenho praticado a pronúncia
correta: KAY-lee. — Sentando-se novamente, ela secou suas
bochechas com um lenço lavanda. — Quem pensaria que eu
realmente participaria de um?
Margo forçou um sorriso.
— Será grandioso. — Ela estava mentindo.
E o inocente entusiasmo de Constance apenas a fazia
controlar seus sentimentos ao cosmo. Ela também ansiava por
furar MacSporran com um alfinete.
Ela não se importaria em liberar um pouco de ar quente
dele.
A versão dele do ceilidh não seria nada parecido com um
real.
Deveria ser uma reunião entre amigos e vizinhos em uma
noite longa e escura de inverno para aproveitar o calor do fogo
da turfa e entreter os outros com histórias, piadas e música.
Uma tarde cozinhando pães caseiros, bolos e biscoitos. Beber
rios de chá e cerveja e em seguida dançar ao som da animada
melodia até o amanhecer.
Esses encontros costumavam acontecer em
aconchegantes cozinhas.
Atualmente, Margo sabia, alguns bons Ceilidhs eram
realizados em centros comunitários de pequenas cidades ou em
pubs de vilas mais afastadas.
As “Noites das Terras Altas” patrocinadas pelos hotéis
dentro de pacotes turísticos não deveriam nem mesmo serem
chamadas de primas distante de um Ceilidh real.
E tão logo eles chegassem a Gairloch e realizassem o
check-in no Old Harbour Inn, uma pousada de estilo rústico e
confortável, Margo pretendia efetuar um ato de
desaparecimento. Em qualquer outro momento, ela teria
amado passar uma noite no supostamente fabuloso pub do
hotel. Diziam que era aconchegante, escuro e com boa
atmosfera. Ela até mesmo ouvira rumores de fantasmas.
Mas o Old Harbour Inn estava exatamente do outro lado
da estrada do pitoresco porto de Gairloch.
Explorar a pequena cidade à beira-mar sozinha e ao
entardecer, parecia muito mais atrativo do que participar da
versão artificial de Wee Hughie de uma “Noite das Terras
Altas”.
Especialmente depois de ela descobrir que ele planejava
ler trechos de seus livros.
Seria Gairloch e seu porto para ela.
Havia também, seu coração acelerou, um renomado
museu de agricultura e pesca na cidade. De acordo com o
mapa, ela poderia andar da pousada até ele. Ela poderia não
conseguir entrar no museu, provavelmente eles chegariam após
o horário de fechamento, mas algo dizia que ela precisava
andar pelos arredores do museu.
Era um sentimento forte o bastante para estimulá-la a
tomar medidas extremas.
— Com licença. — Ela ergueu uma mão para atrair a
atenção. — Eu tenho uma pergunta. — O narrador das Terras
Altas parou no meio de sua narração sobre a beleza do belo
lago arborizado que eles estavam passando. Ele olhou para
Margo, levantando uma sobrancelha interrogativamente.
— Sobre o Lago Maree? — Ele apontou para as brilhantes
águas azuis. — Estava prestes a dividir com vocês algumas
lendas românticas sobre o lago. Os contos são muitos. Até
mesmo a Rainha Victoria ficou impressionada com o esplendor
do lago. Ficou reconhecida a fala dela sobre o lago, chamando-
o de "grande, selvagem, mas muito bonito." Então — ele
assentiu como se fosse silenciá-la — se for paciente...
— Não iria perguntar sobre o lago. — Margo ergueu seu
queixo, não recuando.
— Então sobre Slioch? — Wee Hughie apontou para a
enorme montanha de arenito do outro lado do lago. — É quase
um bastião e tem muitas histórias sobre ele. Eu conheço
algumas e ficarei feliz em...
— Eu tenho uma pergunta sobre um herói highlander. —
Margo apressou-se em falar, sentindo seu rosto se esquentar.
Wee Hughie sorriu.
— Ahhh... — ele enganchou seus dedos no cinto de seu
kilt e inflou o peito. — Sobre qual dos meus antepassados você
está curiosa? Robert the Bruce, Alexander Stewart, o infame
Wolf de Badenoch conhecido por queimar a Catedral de Elgin?
Ou talvez Somerled ou Angus Og? Os últimos dois heróis... —
ele falou com indulgência, como se ela nunca tivesse ouvido
falar sobre os grandes lordes MacDonald de Isle — podem não
ser muito conhecidos na América, mas eu...
— Eu sei quem eles foram. — Margo sentiu o calor se
espalhando pelo seu peito.
Wee Hughie a olhou abismado.
— Os perversos condes de Orkney?
— Eu gostaria de saber sobre o Assassino de Vikings. —
Margo manteve o olhar. — Magnus MacBride.
— Ele não é um dos meus antepassados.
— Mas você já ouviu falar dele.
— Todo mundo já ouviu. — Wee Hughie tirou uma garrafa
de água de seu suporte e bebeu um longo gole. — Magnus
MacBride é uma lenda. O homem foi um mito, cuja fábula foi
contada centenas de séculos atrás por bardos que sem dúvida
foram pagos por uma boa quantia de prata para transformar
seu mestre como se ele fosse um notório assassino de vikings.
— Na verdade — ele guardou a garrafa de água — Magnus
MacBride nunca existiu.
— Há muitas pessoas que dizem que há um fundo de
verdade em cada conto. — Margo disse com teimosia.
— Não nas histórias sobre o Assassino de Vikings. — Wee
Hughie estreitou os olhos. — Estou surpreso que você tenha
ouvido falar dele. A maioria das pessoas fora da Escócia nunca
ouviu. Ele é muito obscuro.
— Eu vi uma pintura dele em um livro. O pano de fundo
— Margo hesitou, pedindo coragem — parecia com alguns dos
lugares que passamos hoje. Eu vi similaridades quando
passávamos pelo Lago Torridon. Era isso que queria saber. —
Margo falou rapidamente. — Se essa área pertence ao território
protegido pela espada dele.
Wee Hughie apenas a encarava.
— Tenho uma sensação — Margo não se importava se ele
supusesse que era paranormalidade, ou qualquer coisa do tipo
— que ele teve influência por essas partes.
— Ergueu a espada, você quer dizer? — Wee Hughie
franziu o cenho. — Falam que ele perseguiu os nórdicos por
toda a costa. — Ele soou azedo, como se não gostasse de falar
sobre qualquer herói que não fizesse parte de seus nobres
antepassados. — As lendas dizem que ele lutou contra os
vikings desde Cape Wrath, na ponta noroeste da Escócia até
Applecross, onde está o Lago Torridon.
— Então minha suposição estava certa. — Margo sentiu o
coração acelerar.
Wee Hughie parecia irritado.
— Você está certa — ele se aprumou, usando toda sua
altura de pelo menos uns dois metros — na medida em que
Magnus MacBride é uma lenda por ter flagelado qualquer
viking que desejasse atacar aquelas costas. Mas isso não quer
dizer que ele existiu.
— Talvez não. — Margo não concordava. — Mas com
certeza ele deixou uma reputação, não é?
Wee Hughie clareou a garganta insatisfeito e, talvez
inspirado pela menção dela aos Vikings, iniciou uma dramática
narração sobre um caso amoroso entre um príncipe nórdico e
uma moça local que vivia em uma ilha no meio do Lago Maree.
Era uma história triste, cheia de sangue e corações partidos e
Margo tentou não prestar atenção à medida que Wee Hughie
contava, presenteando os viajantes com o fim trágico dos
jovens amantes.
Ao invés de ouvir, ela mantinha seu olhar fixo nas águas
azuis e brilhantes do lago e fazia planos para sair do Old
Harbour Inn em Gairloch aquela noite.
Ela queria procurar por sinais de Magnus MacBride, o
Assassino de Vikings.
Ela não tinha certeza se encontraria algo monumental.
Mas os arrepios em sua nuca lhe diziam que o Museu da
Agricultura e da Pesca de Gairlochh era um bom lugar para
iniciar suas buscas.
Capítulo Oito
Mais tarde naquela noite, Margo escapou da pousada. Ela
cruzou a pequena ponte corcunda do lado de fora do hotel e
rapidamente cruzou a estrada até o porto. Ela caminhou
rapidamente em sua fuga. A Herança Turismo esperava que
seus clientes participassem dos entretenimentos da noite. Não
comparecer era como quebrar uma regra de etiqueta dos
pacotes turísticos.
Margo não se importava.
Ela sentia apenas uma pontada de arrependimento. O Old
Harbour Inn era digno de desmaio. Ela se apaixonou no
instante que pôs os pés dentro da secular pousada. Uma
estalagem única e tão característica que parecia escandalosos
seu interior mal iluminado estar abarrotado de turistas em
roupas modernas.
As salas públicas eram longas, escuras e com tetos baixos
com vigas pretas e paredes originais de pedras. A madeira do
chão estava impecavelmente limpa, mas rangia deliciosamente.
Uma enorme lareira ficava no fundo do bar e, seu pulso se
acelerou, um autêntico fogo de turfa brilhava, enchendo o ar
com a doçura e riqueza do aroma de terra. O pub também
cheirava maravilhosamente bem a peixe-com-fritas, cerveja e, o
melhor de tudo, ao inebriante cheiro do tempo.
A pousada sabia usar muito bem a sua história.
De longe, foi o melhor local de parada de todo o passeio.
Margo não teria se importado em ficar por um tempo e
talvez conhecer um morador elegível. Os garçons eram jovens,
usavam kilts e bonitos. Se ela tivesse sorte, um deles poderiam
ter um irmão ou primo mais velho e poderia acontecer algo
essa noite.
Alguém vivo, real e tangível, que a deixaria em pé com um
sorriso com covinhas e um genuíno e surpreendente sotaque
escocês. Ela poderia se apaixonar e ficar na Escócia. Ela
mesma conhecia algumas mulheres que tiveram essa sorte.
Esse tipo de coisa acontecia.
Mas ela conhecia a própria sorte.
E o MacHaggis Ceilidh Group já tinha ocupado o melhor
lugar da pousada, aquele que ficava perto do bar, onde
queimava o fogo de turfa na lareira e onde eles já iniciavam os
preparos para a apresentação de músicas e danças
tradicionais. Alguns cartazes colados na parede anunciavam
Wee Huggie como mestre de cerimônias e informando que
MacSkye Fiddle and Accordion Club se juntariam aos cantores
e dançarinos de folk para proporcionar uma noite inesquecível
de hospitalidade e entretenimento das Terras Altas. A leitura e
autógrafos de livros de Wee Hughie iniciariam a diversão da
noite.
Era hora dela sair.
Ela tinha preferido se sentar sozinha em um canto escuro
do pub, absorvendo a atmosfera de uma noite tranquila,
bebendo uma cerveja de verdade e assistindo as belezas locais.
Como as coisas eram...
Ela seguiu andando ao longo da orla e apreciando em
assistir os barcos de pesca coloridos entrando na maré. Casas
baixas e brancas se alinhavam ao longo da estrada e o ar
cheirava a sal, pinho, alcatrão e fumaça de turfa.
Ela se emocionou ao respirar em grandes e profundas
inaladas do que ela considerava ser a essência das Terras
Altas.
Ela estava certa que quem pudesse capturar tal essência e
comercializar para as pessoas, venderia como menta.
Seria o paraíso na terra.
O crepúsculo era tão mágico quanto ela ouvira dizer.
Deslizava ao redor dela como um véu de seda que transformava
o lago Gairloc em um espelho de bronze, suave e fundido.
Uma neblina suave descia pelas colinas, lançando sobre a
cidade misteriosas sombras azuis. E além do porto, ou assim
haviam dito a ela na pousada, uma trilha bem marcada a
levaria até o Museu da Agricultura e da Pesca.
Ela se sentia atraída pelo lugar.
Assim, ela acelerou o passo. Mas ela não tinha ido muito
longe quando ouviu um trote atrás dela e, ao se virar,
encontrou Wee Hughie quase em cima dela. Ele andava rápido
e seu kilt dançava sobre seus joelhos.
— Margo. — Ele a alcançou, quase sem ar.
— Pearl viu você saindo da pousada. — Ele olhou através
do cais, para onde a pousada se localizava, bem iluminada,
contrastando com a escuridão das montanhas. — Nossa
apresentação começará em breve. Você esqueceu a hora?
— Na verdade… — Margo não queria parecer rude. — eu
pensei que poderia caminhar um pouco.
— É uma noite bonita. — Wee Hughie a olhava de um
modo estranho. — Mas eu me sentiria mal em ver você perder
nosso ceilidh. Nós recebemos inúmeros e-mails e todos os
americanos que fazem nossos passeios querem nos agradecer
pelos eventos da “Noite das Terras Altas”.
Eu não sou “todos os americanos”, Margo quase deixou
escapar.
Ao invés disso, ela olhou para além da baía, vislumbrando
a rebentação em mar aberto.
Enormes ondas do Atlântico, longas e com espuma
brancas, batiam incessantemente contra as pedras do
penhasco, independente do século.
Margo piscou, percebendo a súbita dificuldade em engolir
a saliva.
— Eu quero caminhar um pouco pelo porto porque as
Hébridas estão do outro lado. — Ela olhou para Wee Hughie,
não esperando que ele entendesse. Ninguém fora de sua família
conhecia a história.
— Minha irmã possui forte ligação com a Ilha de Barra. —
Ela se recusava a falar em Mindy no passado, apesar de nunca
mais poder vê-la.
Ela sabia que Mindy estava bem e feliz com o marido,
chefe MacNeil do século XIV, Bran de Barra. O lar deles ficava
em uma das ilhas na Hébrida e Margo esperava que estivesse
no roteiro turístico.
Se ela tivesse qualquer dúvida que sua irmã tivesse feito
uma viagem no tempo, um magnífico e secular fantasma
escocês usando kilt, Silvanus, havia aparecido para ela na
Vosso Velho Tempo Pagão e tinha-lhe garantido que era
verdade.
Silvanus era um fantasma.
E ele tinha provado isso para ela.
Não era fácil negar tal coisa, quando o fantasma em
questão desapareceu bem diante dos olhos dela.
Mas, Margo sabia que a maioria das pessoas tinham a
mente fechada para acreditar em fantasmas e viagem no
tempo.
Mas ela acreditava.
Às vezes ela invejava a sua irmã que tinha sido a única a
ter sorte suficiente para ter essa maravilhosa experiência.
Ela não tinha inveja que o último noivo de Mindy a tivesse
deixado de herança um genuíno castelo escocês que havia sido
transportado, pedra sobre pedra, para a Pensilvânia. Hunter
MacNeil foi um idiota de primeira e, de acordo com Margo,
devia a Mindy muito mais. Mas depois de herdar tal legado,
Mindy não tinha sido capaz de manter ou até mesmo vender o
castelo. Ela foi forçada a retornar o castelo a seu local de
origem, Barra. O resto era história.
E Mindy estava em Barra, vivendo como esposa de um
chefe medieval que, ela tinha certeza, amava sua irmã
ferozmente.
Margo deu um passo para a borda do cais, seu olhar preso
nos barcos de pescas atracados. O vento estava mais forte e
frio agora, trazendo um forte cheiro de mar e mariscos. Em
Barra, provavelmente, o cheiro seria o mesmo. O pensamento
fez a garganta dela se fechar ainda mais. Seus olhos
começaram a arder e ela passou as mãos pela bochecha
fingindo colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha. Sua
vida pessoal não era da conta de ninguém.
Mas ela sentia saudades de Mindy. Muita.
Era por isso que ela raramente falava nela. Ela nem
mantinha fotos de Mindy pelo seu apartamento em Fieldstone
House. Tais memórias eram muito dolorosas, já que ela sabia
que elas nunca mais se veriam novamente. Mas andar pela
costa da Escócia e saber que sua irmã estava lá de alguma
forma, apesar de ser em tempos e locais diferentes, a ajudava.
Margo se sentia próxima a ela ali.
— Eu sabia que seu nome era familiar. — Wee Hughie
sorriu. — Você deve ser irmã de Mindy Menlove. Deveria ter
notado as semelhanças. Eu conheci Mindy quando ela esteve
em Barra, supervisionando a restauração da torre do castelo
MacNeil.
Margo piscou.
— Ah…
Ninguém mencionara o nome de Mindy em sua frente há
um ano. Suas amigas em New Hope a conheciam. Agora que
esse highlander falou era como se ela tivesse visto Mindy
ontem.
— Você a conheceu? — Foi tudo o que ela conseguiu falar.
— Conheci. — Wee Hughie olhou para seu relógio de
pulso. — E eu gostaria de não ter que ir para o ceilidh. — Ele
parecia arrependido. — Sua irmã e eu conversamos no pub de
Barra chamado Isleman’s Pride — O orgulho dos homens da
Ilha. — Gostaria de lhe contar sobre o encontro.
— Você a levou para um encontro? — Margo não
acreditava nisso.
— Nae. — Wee Hughie enrubesceu. — Foi a negócios.
— Oh. — Margo ficou aliviada.
— Ela estava interessada na lenda da HeartBreaker -
Quebra Corações - a famosa espada do clã MacNeil. A espada
tem uma história fascinante e, supostamente, em seu centro,
um cristal mágico muito poderoso.
— Mindy nunca acreditou em tais coisas. — O coração de
Margo se apertou ao recordar. Mindy sempre rolava os olhos a
qualquer coisa paranormal.
— Talvez não, mas… — a voz de Wee Hughie ganhou um
tom autoritário — a magia highlander existe. É conhecida por
transformar a pessoa mais cética em crente.
— Eu acredito nessa magia.
— É real. — Wee Hughie aprumou o corpo. — A
Heartbreaker dos MacNeils é um clássico exemplo. Há alguns
que dizem que a espada tem poder suficiente para mudar o
tempo. E, — ele a olhou especulativamente — fazer com que
um chefe MacNeil tome consciência da mulher destinada a ser
sua companheira eterna. O cristal emite uma luz azul de alerta
ao MacNeil de que a mulher de seu coração está perto e precisa
de sua proteção.
— Mindy precisava de proteção. — Os olhos de Margo
começaram a embaçar novamente. — Ela tinha passado por
algumas dificuldades antes de viajar para Barra.
Wee Hughie olhou novamente para a pousada.
— E ela está bem agora?
— Oh, sim! — Margo sorriu, seu coração aquecendo. —
Ela está casada e muito feliz.
— Na Pensilvânia? — Wee Hughie ergueu a sobrancelha.
— Oh! Aquilo é uma foca entre os barcos? — Margo
apontou para a água, tentando distraí-lo. — Tenho certeza de
que é.
A superfície do lago brilhava tão vazia quanto no momento
anterior. Mas ela não iria contar ao narrador das Terras Altas
onde Mindy estava.
— Você sabia — Wee Hughie olhou para a água escura,
parecendo olhar além da baía — que no último dia de sua irmã
em Barra, houveram relatos de uma estranha luz brilhante
saída da pequena capela medieval da torre do MacNeil?
— Não. — Margo ajustou seu xale de caxemira,
incomodada com o nó desfeito.
— Homens bons e simples juraram que viram a luz azul.
— Wee Hughie olhou para ela e depois para o horizonte. — Eles
ficaram preocupados que sua irmã não fosse capaz de sair,
nunca mais, da pequena ilha onde fica o castelo.
— Você sabe que a torre MacNeil está na menor ilha na
baía de Barra? — a voz dele o traiu. Wee Hughie sabia onde
Mindy estava e, ao que parecia, como ela tinha chegado lá. —
Houveram muitas perguntas.
— Minha irmã está bem. — Margo falou rapidamente.
— Tenho certeza que sim. — Wee Hughie ainda não olhava
para ela.
— Os MacNeils foram um bom clã. É um povo orgulhoso e
nobre, que tomam conta dos seus.
— Eu pensei que todos os clãs das Terras Altas faziam
isso.
— Eles faziam. — Wee Highie olhou para ela. — Eles ainda
fazem, o tanto quanto for possível manter o espírito de um clã
nos dias de hoje. Mas nos velhos tempos, dias como os dos
grandes MacNeils de Barra, existiram guerreiros que não foram
capazes de manter suas amadas seguras, não importa o quanto
eles tentassem.
— A vida era perigosa então, — seus olhos se estreitaram
e seu sorriso se foi. — e aqueles eram tempos de morte, cheio
de armadilhas e derramamento de sangue. Magnus MacBride
viveu esses dias. Se, — ele fez uma pausa, observando-a
atentamente — ele realmente existiu.
— A Era Viking foi um dos capítulos mais sangrentos da
história escocesa. — Ele pegou o braço dela, apertando
levemente. — Eu gostei da sua irmã. Sinto-me em débito e devo
alertá-la a ter cuidado ao andar por aí por conta própria. Aqui
em Gairloch e quanto mais ao norte nós formos, mais perto
estaremos de chegar ao coração das Terras Altas. Lugares
profundos e antigos onde o passado ainda vive.
— Eu gosto do passado. — Margo disse.
Ela abraçaria a chance de entrar na história. Ela não
tinha medo.
— Não o ame muito, moça. — O sotaque de Wee Hughie se
aprofundou. — Há uma grande diferença entre o reduto dos
MacNeil em Barra ou encontrar-se presa e congelando na
sentina27 de um navio de guerra Viking.
Margo forçou um sorriso.
— Eu vejo o porquê o chamam de narrador.
— Eu conto histórias verdadeiras. — Ele piscou para ela e
uma covinha surgiu em sua bochecha. — Agora, — ele esfregou
as mãos, mais uma vez o guia turístico — você voltará comigo
ao Old Harbour Inn? O ceilidh começará em breve.
— Eu quero ver o Museu de Agricultura e Pesca. — Margo
estava ansiosa para seguir seu caminho. — Eu sei que está do
outro lado da estrada da aldeia.
— Eles fecham às cinco.
— Ainda assim quero olhar em volta.
— Então faça isso. — Wee Hughie não concordava com
isso.
Mas suas palavras tinham uma nota de finalidade que
causou arrepios em Margo. Antes que ela pudesse dizer alguma
coisa leve e alegre para dissipar o sinal de alarme, ele já estava
virando e descendo o cais em direção a Old Harbour Inn.
Margo cruzou a rua e entrou na estrada que levava até o
museu. Ela tinha dado apenas alguns passos antes de algo a
fazer olhar para trás, para o pequeno porto de Gairloch.
O coração dela quase parou quando ela virou.
Algo não estava certo.
O cais parecia igual a instantes atrás.
Assim como os barcos de pesca, toda a frota flutuante de
barcos. Havia também alguns carros estacionados perto da
doca de armazenagem de peixes e um ou dois caminhões. Mas
ela não conseguia afastar a sensação de que a atmosfera de
alguma forma mudara e ficara mais sombria.
Ela sentiu um formigamento na espinha e podia sentir os
cabelos de sua nuca se arrepiarem. Nada parecia fora do
normal, mas ela não conseguia evitar o mal-estar em seus
nervos.
Era a sensação de ser observada.
Observada e não de uma boa maneira.
Margo franziu o cenho. Ela continuava andando tentando
parecer confiante e decidida.
Infelizmente, as sombras projetadas por um dos lados do
armazém atraíam a atenção dela. A parte mais escura parecia
mudar e inchar ao vento, quase como se algo tentasse ganhar
forma.
Ela piscou, mas o desconforto não ia embora.
Pior, a escuridão pulsava como se tivesse bordas.
Recordava-a das massas sombrias que tinha visto no
corredor da estante de livros na Vosso Velho Tempo Pagão.
A esquisitice parecia a mesma. E apareceram linhas que
brilhavam como no 4 de julho. Só que o brilho era fosco.
Em seguida, um pescador rabugento, parou no armazém,
um facho de luz amarela flutuando na noite junto com ele.
O pedaço de escuridão desapareceu.
Margo inspirou profundamente para alívio e diminuiu os
arrepios de sua nuca. Havia sido uma ilusão de ótica, nada
mais. Ela sacudiu o corpo, deixando a tensão deslizar de seus
ombros.
Ela também se sentia um pouco boba.
A noite não poderia estar mais pacífica.
Fios de fumaça de turfa - o rico cheiro de terra fazia o
coração dela acelerar em seu peito - saía pelas chaminés das
casas de pedra ao longo da rua. A luz dos postes brilhava na
água. E as ondas quebravam nas pedras. Ela também ouvia
alguns trechos baixos das músicas do ceilidh. Canções e sons
de gaita da Noite das Terras Altas de Wee Hughie, que agora
estavam a pleno vapor no Old Habour Inn.
Margo continuou andando.
Uma placa indicava que o museu estava logo em frente.
O vento refrescava e carregava a chuva úmida e fria. E
estava ficando tarde. As encostas já estavam escuras com o
anoitecer. Mas a lua brilhava através das nuvens, lançando um
brilho prata sobre o pátio de paralelepípedo do Museu de
Agricultura e Pesca.
Rodeada pelo vento, Margo apertou mais a jaqueta em
volta de si e olhou ao redor.
Um lugar charmoso, rodeado por prédios baixos, pintados
de branco e construído com pedras que mantinham o exato
toque de velhos tempos.
O brilho da lua se derramava sobre o telhado de ardósia e
iluminava as janelas de um falso farol em forma de diamante, a
parte de maior destaque do museu.
E como ela havia sido avisada, o lugar estava fechado.
Ou assim ela pensou até uma sombra mover-se atrás da
janela iluminada do prédio principal, justo quando ela estava
prestes a dar a volta na réplica do farol.
Margo estacou.
Havia alguém dentro do prédio.
E quem quer que fosse, a tinha visto. Não apenas visto,
mas a observava cuidadosamente e com cautela.
Os calafrios em seu braço a alertavam sobre isso. Os pelos
da nuca se arrepiaram novamente, reforçando o sentimento.
O ar se encheu de ameaça.
Podia pressentir ao seu redor, enervando o noturno vento
gelado.
Ela recordou das palavras de Wee Hughie de precaução
enquanto olhava o museu. Ela identificou um curioso farfalhar
atrás dela, quase como se fosse o manuseio de um papel
envelhecido e quebradiço. O coração de Margo começou a bater
rapidamente. A estranha sensação experimentada no porto
retornou, vingativa. Respirando profundamente, ainda meio
ofegante, tentou se acalmar.
Isso não aconteceu.
Alguma coisa maquiavélica estava próxima.
Ela estava prestes a se virar e sair correndo quando viu
uma pequena e velha senhora na janela, olhando para ela.
— Oh, droga… — Margo levou a mão ao peito.
Ela sentiu tanto alívio que começou a rir alto.
A senhora sorriu e acenou.
Claramente uma voluntária do museu, ela deve ter
trabalhado até mais tarde para fechar a loja de presentes. Ou
talvez ela estivesse apenas arrumando as coisas, após um dia
muito ocupado. De qualquer modo, Margo se sentiu ridícula
por deixar seus nervos a dominarem.
A pequena mulher abriu a porta do museu, indicando que
ela se aproximasse.
— Nós fechamos o museu às cinco horas, — ela abriu um
pouco mais a porta, deixando a luz interna iluminar o pátio —
mas você pode dar uma olhadinha, se for rápida.
— Eu já estava indo embora. — Margo não queria colocar
a mulher em problemas.
Ela supôs certo. A senhora poderia ser apenas uma
voluntária. Um pouco encurvada, ela tinha um emaranhado de
cabelos brancos e brilhantes olhos azuis. Claramente ela
beirava os oitenta anos ou mais. Mas ela parecia vibrante em
sua saia xadrez na altura do tornozelo e colete combinando. E
a camisa branca passada com esmero. E ela tinha um ar feliz,
de alguém que realmente ama o que faz.
— Eu só queria ver o farol. — Margo deu a primeira
desculpa que veio em sua mente e começou a se virar.
Mas, de alguma forma, seus pés a levaram para frente e
ela estava cruzando o limiar da porta do museu, a parte cheia
de vitrines.
— Oh, alguns minutos não machucarão ninguém. — A
velha mulher, cujo nome no crachá de voluntária era Dev
Doonie, piscou para Margo. — Temos uma rica história das
Terras Altas dentro dessas paredes. E não há ninguém que
conheça essas montanhas mais do que eu. — Orgulhosa, ela
alisou sua saia. — A verdade é que sou tão velha quanto as
montanhas, como pode ver. — Os olhos azuis dela brilharam
com a piada. — Se houver algo que queira saber, é só
perguntar.
— Bem… — Margo hesitou. — a senhora sabe algo sobre
Magnus MacBride?
— O Assassino de Viking? — Dev Doonie sorriu. — Eu sei,
aye.
— Então ele era real? — o pulso de Margo se acelerou. —
Ouvi dizer que ele era apenas um mito.
— Mítico seria o correto. — Os olhos da mulher se
iluminaram com orgulho. — E, aye, ele existiu. Ninguém por
aqui diria o contrário. — Ela falava como se o conhecesse. —
As pessoas recordam como ele protegeu essas partes com sua
espada, uma arma enorme conhecida como Vingança.
Margo piscou.
— Ele esteve por aqui? — Dev Doonie assobiou. — Moça,
para o povo de ponta a ponta da costa, ele era um deus.
Margo não se surpreendeu.
A idosa a olhava com um ar conspiratório.
— Naquela época houve um derramamento de sangue e o
povo vivia com medo. Quando os vikings invadiram essas
praias, Magnus MacBride encheu seu navio de guerra, o Corvo
do Mar, com os melhores homens, uma grande quantidade de
armamentos e veio lutando desde sua fortaleza, o Castelo
Badcall. — Ela se aproximou com olhos brilhando. — Ele
trouxe outros barcos com ele, era uma pequena frota. Ele
deixava guerreiros em cada vila que passava ao longo da costa.
Eles eram fortes e ferozes, mas também generosos ao ensinar
fabricação e uso de espadas aos jovens locais, para que esses
soubessem como proteger suas casas e famílias, caso fossem
atacados.
— O Assassino de Viking também queria garantir que as
vilas tivessem homens e combustível suficiente para acender
fogueiras nos topos das montanhas. — Sua voz encheu de
admiração. — Ele queria que faróis fossem acesos quando os
nórdicos se aproximassem das praias.
— Ele fez tudo isso? — Margo sabia que ele era uma
espécie de herói. Ela sentira quando o livro "Mitos e Lendas da
Era Viking" caiu da estante e ela o pegou, abrindo exatamente
na pintura de Magnus em pé na praia, erguendo sua espada.
Ela soube que ele era maior do que apenas uma vida. Dev
Doonie confirmou isso.
— Oh, aye, ele fez tudo isso.
— E ele fez muito mais do que prover fogo às vilas. Ele
enviava ajuda o mais rápido possível, cada vez que as
labaredas avermelhavam o céu. — Ela balançou a cabeça
solenemente. — Esse é o tipo de homem que ele é.
— É? — Margo piscou.
— Heróis nunca morrem, não é? — Dev Doonie esfregou
suas mãos, sorrindo novamente. — É uma pena — ela olhou
para a porta aberta — que a escuridão chegue tão cedo essa
época do ano. Há uma pequena vertente, não muito longe
daqui, de onde você pode ter uma boa visão da baía.
— Uma caminhada que a colocará no cenário de uma das
maiores batalhas do Assassino de Viking. Mas... — ela hesitou,
tocando o queixo. — é um lugar um pouco selvagem e remoto...
— Eu amo lugares remotos e selvagens. — Margo não
hesitou.
Lugares selvagens eram o sonho dela. Remoto era seu
nome do meio. Solidão e isolamento a completava.
Dev Doonie inclinou a cabeça, considerando.
— A vertente seria traiçoeira a essa hora da noite, as
pedras escorregadias. Mas a lua está alta agora, você terá uma
boa visão...
Margo olhou para os próprios pés.
— Tenho sapatos resistentes.
"De um coração resistente é o que necessitará."
Margo parou. Ela não tinha certeza se Dev Doonie tinha
falado aquilo ou se ela havia imaginado as palavras.
A idosa até já havia chegado na porta. Ela pegou um
espanador, indicando educadamente que era hora de Margo
sair. Ela olhou-a e piscou.
— Apenas siga a estrada costeira e em aproximadamente
quatrocentos metros, você verá a trilha até a praia.
— Farei isso. E… — Margo impulsivamente a abraçou. —
muito obrigada por me contar sobre Magnus MacBride.
— Oh! — Dev Doonie se soltou com diversão em seus
olhos. — Minha explicação não precisa de agradecimentos.
— Mas…
— Sem mas, moça. — Dev Doonie balançou um dedo.
— Apenas caminhe até a trilha e faça o que deve ser feito.
E lembre-se — ela deu um tapinha no ombro de Margo ao
fechar a porta — um verdadeiro heilander precisa de uma
mulher forte e corajosa.
— O quê? — Margo se virou, mas Dev Doonie já havia
fechado a porta e desligado as luzes de dentro do museu.
Margo ficou parada na escuridão, congelando. Ela tinha
certeza de que já havia ouvido as últimas palavras da mulher.
Ela só não se recordava onde.
Então ela seguiu pela trilha iluminada pela lua, pegando a
direção contrária do Lago Gairloch e do Old Harbour Inn. O
comentário de despedida de Dev Doonie ainda a estava
acompanhando enquanto ela subia a estrada, atravessava por
um monte de casa de pedra no topo de uma colina, acima do
porto.
Um verdadeiro heilander precisa de uma mulher forte e
corajosa.
Quem dizia heilander nos dias atuais?
Até mesmo Wee Hughie MacSporran falava highlander.
Havia algo significativo nessas palavras.
Ela as sentia arranhando as bordas de sua memória.
Parecido com um cão arranhando a porta quando quer sair. Ou
batendo em seu joelho com a pata se você estiver comendo e ele
quisesse algumas migalhas.
Se ela conseguisse lembrar...
Ainda intrigada, ela parou no topo da colina para olhar
novamente para o mar. A escuridão rica e aveludada cobria o
pequeno porto e o cais. Mas ela conseguia ver as colinas, com
contornos negros dentro da noite. Algumas luzes brilhavam ao
longo da doca e nas janelas do, agora, distante Old Harbour
Inn.
No entanto ela se sentia como se estivesse sozinha em
outro mundo, rodeada pelo nada e sem traços do século XXI
presente em milhas.
Era esse silêncio envolvente que a arrebatava. Sem
barulhos da cidade se intrometendo em sua quietude. O vento
e o mar eram predominantes aqui.
E a doçura de tal silêncio, quase partiu o coração dela.
— Droga. — Margo apertou as mãos e piscou contra o
calor e a ardência em seus olhos.
A Escócia a fragilizava.
Ela fechou os olhos por um momento para ouvir o mar
agitado e as rajadas de vento. Sua garganta ardia e ela engoliu
em seco. Seu coração estava apertado e, ela se perguntava, se
qualquer coisa poderia mexer tanto com uma alma como uma
noite escocesa a envolvendo como uma carícia.
Ela queria tanto ficar ali.
— Droga. — Ela maldisse novamente, piscando
furiosamente
Ela sentou-se na beira da estrada para tirar um
pedregulho que entrara em seu sapato. Mas no instante em
que ela se abaixou para amarrar os cadarços, ela deu um pulo
devido ao tanto de arrepios percorrendo seu corpo, como se ela
tivesse colocado os dedos em uma tomada elétrica.
— Oh, meu Deus! — Ela olhava para seus pés, não vendo
suas desajeitadas botas de caminhada, mas recordando as
pequenas botas pretas usadas pela escocesa de cabelos
brancos bochechas rosadas da Um Traço de Xadrez de Donald
McVittie no dia do festival Escocês.
Dev Doonie do Museu de Agricultura e Pesca usava as
mesmas botas.
Margo sentou-se sobre uma pedra, quase tonta. O mundo
estava girando em torno dela e seu sangue rugia alto em seus
ouvidos.
Dev Doonie era a pequena senhora de Um Traço de
Xadrez.
A mulher clamara ter vindo de uma ilha que não existia
nas Hébridas, chamada Doon. Fora ela quem fizera o
comentário sobre o heilander.
Duas vezes.
Não havia erro.
Margo deveria ter a reconhecido imediatamente. Mas ela
estava usando um uniforme de voluntária e possuía até um
crachá.
As pessoas acreditavam no que elas esperavam ver.
Margo sabia disso muito bem.
O fenômeno provavelmente era explicado porque uma luz
escura e dançante começava a se formar do outro lado da
estrada. Era a mesma esquisitice que ela experimentara
anteriormente e, desta vez, tinha certeza que a sombra era
maligna. Um cheiro de ovos estragados preencheu o ar, fazendo
seus olhos queimarem e ela engasgar.
A obscuridade parecia rolar pela estrada, impedindo sua
fuga à medida que a noite ganhava vida, parecendo exalar
nuvens de azeviche.
Margo se levantou e começou a correr.
O único lugar que ela poderia seguir, era a trilha até a
praia.
Capítulo Nove
Margo correu como uma gazela.
O vulto fedido atrás dela, Margo pareceu ter criado asas
nos calcanhares enquanto voava pelos degraus rústicos,
esculpidos no promontório íngreme. A sorte dela parecia um
chiclete grudado na sola do sapato, pois o horror que tentara
se materializar na estrada, agora estava presente em todos os
lugares. Ela sentia o sopro do vento contra ela, pressionando-a
até que ela mal pudesse respirar ou até mesmo arranhando
suas costas, como se terríveis tentáculos afiados estivessem
apontando para ela.
Ela se inundou no pânico.
A adrenalina mantinha as pernas delas funcionando.
Ela sempre amou os fenômenos paranormais, até mesmo
se orgulhando em aceitar coisas como fantasmas, lapsos de
tempo, crenças Wiccan e magia.
Ela tinha pena das pessoas de mente estreita que não
podiam acreditar em coisas que não viam ou que não podiam
ser provadas.
Agora…
Ela estava pronta para mudar de opinião.
Se isso fosse o sobrenatural, ela não queria mais nada
disso.
Isso não era divertido.
— Margo…
Uma voz profunda e feminina a chamava, o grito ecoando
por todo o promontório.
— Oh, não! — O coração de Margo bateu contra as
costelas, o terror a dominando.
Ela correu mais rápido com uma mão pressionando o
peito.
Na metade do caminho, a trilha fazia uma curva e parecia
terminar em um amontoado de pedras quebradas, cheio de
urtigas.
Margo se jogou sobre as pedras em um salto, descendo o
restante dos degraus na velocidade da luz.
Ela ficou aliviada quando alcançou a praia. O ar estava
frio ali. A luz da lua iluminava a água e a maré que chegava,
com as ondas indo e vindo pelo seu campo de visão.
Ali não havia nenhuma nuvem fétida, apenas o som do
mar. Ela não via nenhum movimento que não fosse natural.
— Obrigada, Deus! — Ela disse colocando suas mãos
sobre os joelhos e inclinando o corpo para frente para
recuperar o fôlego.
O vento noturno soprava sobre ela, refrescando-a e
trazendo o cheiro limpo do mar.
Por um instante ela estava segura.
E ela não iria a lugar nenhum até que tivesse certeza de
que a coisa na estrada tivesse desaparecido.
Por enquanto…
Ela se endireitou, colocando sua mão ainda trêmula no
queixo. A praia era linda e em qualquer outro momento, ela
teria feito qualquer coisa para estar ali. Uma enorme
quantidade das mais adoráveis pedras, que ela não viu em
nenhum local que passou pela Escócia. A maioria era do
tamanho de um punho e outras do tamanho de um melão. Elas
eram redondas ou ovaladas e perfeitamente lisas, cada uma
delas polidas pelas ondas do mar.

***

Cada matiz imaginável parecia estar representado. Muitas


das pedras eram manchadas, outras listradas e todas elas
brilhavam. Elas eram tão notáveis que cada uma parecida tão
bonita quanto à vista anteriormente.
Ela queria todas.
Infelizmente sua mochila estava tão cheia de pedras
escocesas que as costuras estavam se abrindo. Sua mala não
estava diferente. Ela usou cada milímetro disponível, até
mesmo colocando as pedras menores dentro do par de sapato.
Alguns de seus artigos de higiene e maquiagem tinham sido
sacrificados, assim algumas pedras poderiam ser colocadas nas
suas embalagens.
Quem precisava de sombra ou batom quando podia ter
um pouco da Escócia em suas mãos?
Não ela, com certeza.
Memórias preciosas estavam agarradas a cada pedra e ela
não seria capaz de deixar nenhuma para trás.
Ainda assim…
Margo dedilhou o queixo, olhando para a tentação ao seu
redor.
Provavelmente ela encontraria um cantinho para mais
uma. Uma pedra realmente especial que ela não resistiria e que
pularia até ela, implorando para ser levada para a Pensilvânia.
Uma pedra que a representasse tanto que, se necessário,
ela carregaria na mão até sua casa.
Grata pela distração, e esperando se convencer que
apenas havia imaginado o pesadelo da estrada, ela colocou
suas mãos para trás e começou a caminhar pela orla. Algumas
vezes ela segurava o ar e fechava os olhos, certa de que a pedra
dela se destacaria quando ela olhasse novamente, durante sua
seleção.
Era impossível escolher apenas uma.
Até os olhos dela caírem sobre uma pedra redonda coberta
com uma faixa de quartzo a poucos passos dela.
Parecida com as outras pedras listradas na orla, essa de
alguma forma se destacava das demais. Apenas em olhar para
ela, Margo sentiu sua pele formigar de alerta.
Era essa.
Ela era capaz de sentir seu poder, a energia da pedra
combinando com o ritmo cardíaco dela. Uma sensação de força
tão forte que ela olhava para a pedra, parecendo ter sido
enfeitiçada.
Ela estremeceu ao se aproximar da pedra. Sua cor era
cinza escuro e suave como vidro polido e no centro uma faixa
tão branca quanto a neve.
Ela tinha certeza de que era quartzo puro, apesar de uma
das listras brilharem como diamantes.
Ela tentou se afastar para testar as vibrações, mas seu pé
não se moveu. Seus dedos coçaram, queimando ao se
aproximar da pedra.
Quando ela tocou, a listra ao redor do centro da pedra
começou a mover-se, ganhando vida.
— Ai! — Margo a soltou com os olhos arregalados ao ver o
estranho símbolo que apareceu e desapareceu no quartzo
branco.
Os caracteres se moveram e acenderam, brilhando como o
sol em um momento, e sumiram no instante seguinte.
Ela viu, pois, a lua se escondeu por um breve momento
atrás de uma nuvem, escurecendo a praia. Mas não havia
qualquer símbolo brilhante no quartzo. Ela fora enganada pela
luz da lua.
Mas ela ainda queria a pedra, mágica ou não.
Então ela se abaixou novamente para recolhê-la,
circulando com os dedos a pedra gelada.
A pedra se aqueceu em sua mão.
— Oh! — Margo pulou. Seus dedos apertando firme ao
redor da pedra, incapaz de largá-la.
Estranhamente, o calor ardente não a queimava. Mas um
zumbido bem alto entrou em seus ouvidos e ela recebeu uma
série de choques. Os solavancos subiram por seus braços,
cruzaram os ombros e desceram pelas costas, espalhando-se
por todo corpo.
Era como se ela tivesse colocado os dedos molhados em
uma tomada elétrica.
Exceto que não doía.
O que era esquisito.
E quando a sensação acabou, ela ouviu um leve tremor às
suas costas. Um leve ruído de passos nas pedras e um suave
farfalhar de saia feminina. Ela também sentiu o aroma de
algum tipo exótico e almiscarado de perfume. Quase como ela
imaginava que um túmulo Bizantino pudesse parecer: escuro e
misterioso, com um toque de cinza fria e incenso mofado. O
perfume a cercou, intenso e enjoativo.
Calafrios gelados e desagradáveis percorreram sua coluna.
A ansiedade fechou sua garganta, quase sufocando-a
quando o estranho ruído se aproximou e o cheiro forte e antigo
do perfume ficou mais forte.
O ser sombrio da estrada estava na praia.
— Margo…
O seu nome foi trazido pelo vento novamente, a voz que a
chamava parecia feliz em espalhar tal terror.
Quem ou o que quer que fosse, a entidade definitivamente
sabia o nome dela. Não havia erro desta vez. Era real.
O ser estava se aproximando dela.
Com o coração acelerado, Margo virou o rosto para ver
uma longa faixa de praia iluminada pela lua. O seu sangue
gelou quando ela viu quem estava ali.
Era uma massa negra e sólida.
Uma sussurrante nuvem escura cheia de malícia que
pairava cerca de trinta centímetros do chão e, seu estômago
doeu, era a mesma sombra que ela havia visto perto das
estantes naquela tarde na Vosso Velho Tempo Pagão.
O dia em que ele “conheceu” Magnus MacBride.
Margo levou a pedra ao peito, observando. Ela tinha
certeza que não estava errada. A presença trouxe com ela a
mesma energia mortal. Pior, algo pulsava dentro da nuvem.
Várias manchas coloridas giravam em seu coração, formando
um redemoinho.
Era o formato de uma pequena mulher.
— Meus Deus! — Margo sentiu o horror varrê-la. A mulher
manifestada parecia assustadoramente com Dina Greed.
A maior rival dela, referente a coisas da Escócia.
Mas isso era impossível.
Margo sabia que sua diminuta arquirrival já estava de
volta a New Hope. E ela não poderia ter morrido e se mudado
para outro plano, adquirindo o poder de aparecer agora com o
único propósito de assustá-la um pouco. Se algo tivesse
acontecido a Dina, Marta ou Patience teriam ligado com as
notícias. Talvez até Ardelle Godnight da Envelhecendo
Graciosamente.
Elas sempre cuidaram de Margo.
Mas agora ela estava sozinha.
Desejando que suas amigas estivessem ali, ela fechou os
olhos e respirou profundamente, esperando que a aparição
pudesse ter ido quando olhasse novamente. Não aconteceu e, à
segunda vista, ela pode notar que a criatura não era realmente
Dina, por maior que fosse a semelhança. Mas a entidade e sua
sombra negra e rastejante estava se aproximando do local onde
ela estava.
Seu coração batia ainda mais rápido, fazendo seu sangue
gelar. O choque tomou conta dela, apagando tudo, exceto o
pesadelo diante dela.
Ela não conseguia correr.
Seu olhar estava de alguma forma preso no redemoinho, e
suas pernas pareciam cimentadas. Ela achava que algum ser
invisível tinha prendido seus pés ao solo. Não importa o quanto
ela quisesse fugir, ela não iria a lugar nenhum. Era impossível.
Claramente havia sido colocada sobre algum feitiço de
amarração, uma bruxaria tão poderosa que frustraria
quaisquer chances de fuga.
Margo sabia que esses feitiços existiam.
Patience uma vez usou esse feitiço em um ladrão de
bolsas na porta da Vosso Velho Tempo Pagão. A sua magia
tinha prendido o ladrão nas redondezas da loja até a polícia
chegar.
Margo engoliu em seco, o medo fechando sua garganta.
— Quem é você? — sua voz saiu como um grasnido.
O espectro sorriu.
— Olhe novamente, mais próximo. — Ela falou em um tom
suave, como as mulheres das Terras Altas. Mas sua voz estava
carregada de um orgulho malicioso.
E apesar de cada palavra escorrer veneno, ainda assim era
um sotaque escocês prazerosamente musical.
Ela era baixinha e voluptuosa, com grandes seios e uma
massa de cabelos enrolados e escuros que brilhavam como a
asa de um corvo. Ela tinha olhos atrevidos e brilhantes. Eles
tinham a cor marrom da mais rica turfa. Havia similaridades
com a rival de Margo. Essa mulher não combinava com os
minis kilts xadrez com botas de couro de salto e tops de decote
baixo que Dina usava. A mulher no redemoinho vestia um
manto negro que parecia um tecido fino e luminoso, emitindo
pequenos raios de luz.
Correntes de prata e âmbar negro pendiam de seu
pescoço, pulso e tornozelo. A delicada joia soava a cada
movimento. Seu perfume forte e fétido era quase insuportável.
Tomava o ar, lembrando a Margo, mais do que nunca, de uma
capela antiga ou túmulo. Paredes frias e úmidas impregnadas
de velhos cheiros como incenso, mirra e talvez um pouco a
sândalo apodrecido.
— Isso não está acontecendo. — Margo falou com mais
bravura do que tinha. Se ela rejeitasse o poder da mulher, ela
teria uma chance. — Você nãos está aqui e eu não a vejo. Você
é uma alucinação… — a mulher riu — você é um fantasma. —
Balançando a cabeça, ela ergueu os braços como se pudesse
espantar a mulher e suas nuvens negras.
— Olhe aqui… — Ela deu um passo para trás, depois deu
outro. Cada centímetro era como se estivesse atravessando a
areia afundada até as coxas. — Eu não sei quem ou o que você
é…
— Eu sou muitas coisas, muitas faces. — O tom da
mulher a arrepiou. O olhar dela era como gelo congelado. — E
é seu rosto que uso para torturar Magnus MacBride.
— Magnus? — os batimentos cardíacos de Margo
aumentaram.
Os olhos da mulher se iluminaram de diversão.
— Vejo que o nome dele lhe é familiar. Como eu sabia que
deveria ser, pois passei horas em meu quarto, procurando a
estrutura perfeita para quebrá-lo.
— Não conheço nenhum Magnus. — O suor escorria entre
os seios de Margo diante da mentira.
— Ahhh, mas esta será a minha mais doce vingança. — A
mulher ria. Era um som frio e frágil.
A nuvem negra se aproximou, os olhos da mulher
revelavam sua alegria pela paixão de Margo por Magnus.
— Eu trabalhei com magia negra, mostrando você a ele.
Ele já queima por você — o tom da entidade agora era diabólico
— ele sabe que nunca a possuirá. Em breve, o desejo o levará a
loucura. Seu descuido será seu fim.
Margo engoliu em seco.
A mulher ergueu a mão, examinando as unhas em forma
de garras.
— Eu conheço um pouco de magia. Posso bloquear seu
feitiço. — O coração de Margo martelava dentro do peito e suas
mãos estavam escorregadia de terror. Ela não tinha ideia de
como evitar tal mal.
Ela só desejava que sua voz soasse mais forte. A maldade
nos olhos da entidade a assustava mais do que qualquer coisa
que ela já vira.
Ela endireitou os ombros, tentando parecer corajosa.
— Uma amiga é uma poderosa feiticeira. — Margo sabia
que Patience não se importaria com o exagero. — Ela a caçará
e usará todas as suas habilidades…
— Nenhum poder pode chegar ao meu. — A mulher
sorriu, sua respiração congelando o ar.
Margo tentou dar mais um passo para trás, mas suas
pernas pareciam chumbo.
Os olhos da entidade brilharam, indicando que ela sabia.
O vento girava ao redor dela, correntes fortes e geladas
iluminadas por faíscas azuis e pretas que giravam em círculos,
enquanto ela levava uma mão aos lábios e sussurrava palavras
antigas contra as pontas de seus dedos, antes de apontar para
um espaço vazio entre Margo e a linha da maré.
— Olhe para ele agora, enquanto ele ainda respira. — Ela
moveu seus braços em círculos, fazendo o ar estalar como um
papel rústico. Uma pequena luz queimava entre o espaço que
ela ocupava, uma partícula tão pequena quanto de uma vela.
Depois uma chama queimou, desaparecendo em um
redemoinho de fumaça.
Quando a neblina se dissipou, Magnus apareceu em pé na
praia.
Ele estava vestido para a batalha, com seus braceletes
brilhando e sua espada ao seu lado. O vento ergueu seu plaid e
ele permaneceu parado com suas pernas ligeiramente
separadas e as mãos nos quadris, os ombros largos cobertos de
malha que tocavam de leve nas faíscas poderosas que o
rodeava.
Seus cabelos longos e pretos caíam sobre suas costas
como um novelo, os fios brilhantes esvoaçavam com vento
profano que o havia conjurado.
Ele não as via, a força de seu olhar fixado em algum lugar
distante.
Ele era magnífico.
E tão real que os joelhos de Margo fraquejaram. Ela
começou a chorar, mas nenhum som saia de sua boca.
Sua língua parecia pesada e sua garganta muito apertada
para formar palavras. Quando ela tentou dar um passo à
frente, seu pé ainda não moveu. Até mesmo respirar estava
difícil.
Ela aumentou a força com que segurava a pedra, tentando
aterrar-se a solidez fria dessa.
Ela tinha o olhar em Magnus, ambos aterrorizados e
encantados.
— Você nunca o terá. — A entidade a provocou,
triunfante. — Minha mágica irá prendê-la em um lugar
intermediário, onde você não existirá realmente. Não estará no
seu e nem no meu mundo. Você é tão amaldiçoada quanto o
Assassino de Viking. — Ela apontou o dedo para ele e depois
ele desapareceu, varrido com um terrível som.
O vento implacável que tinha circulado sobre ele, avançou
sobre Margo, chicoteando-a com rajadas de vento frias.
— Nãaao! — o grito de Margo foi liberado, o esforço
fazendo sua garganta queimar como fogo.
Seu grito só fez a entidade se aproximar, seu manto
luminoso flutuava ao redor dela como uma nuvem negra e
brilhante. Para o espanto dela, a criatura tirou pequenos
pedaços de algo brilhoso do material leve.
Murmurando novamente, ela estendeu a mão e as
pequenas luzes dançaram sobre sua mão, transformando em
uma bola de luz do tamanho de um punho.
— Veja o destino de Assassino de Viking. — Ela levantou a
bola ardente com os dedos, claramente protegida contra as
chamas. — Enquanto esse fogo chapinhar, — ela jogou a bola
nas ondas, pousando com um silvo, para rapidamente se
afundar — ele sempre a desejará, apenas para se descobrir
mergulhando em uma fria escuridão, frustrado. O desejo dele
permanecerá incompleto e seu fogo se apagará tão rápido
quanto a minha bola de chamas.
— Agora você virá comigo. — Ela começou a girar,
circulando cada vez mais rápidos enquanto ela falava. —
Inocente e nua como veio ao seu mundo, assim deverá entrar
no meu. Sua chegada cegará Magnus pelo choque, fazendo com
que seu aço fique tão inútil quanto areia escorrendo pelos
dedos. Você o verá se cortar e ele estará olhando para você
enquanto morre, seu sangue fluindo vermelho por toda a praia.
— Assim seja.
Os olhos dela ficaram prateados e depois, suas últimas
palavras ecoaram pela praia.
Em seguida ela sumiu.
As terríveis nuvens cinzas foram com ela. Assim como o
cheiro enjoativo de túmulo Bizantino.
Margo olhou para o ponto onde ela esteve, depois caiu de
joelhos, suas pernas tremiam demais para sustentá-la.
Foi quando ela notou estar nua.
— Oh, Deus! — Os olhos dela se arregalaram com total
descrença. Ela começou a sentir um calafrio, incontroláveis
tremores tomavam seu corpo. O estômago pesado, revirado,
como se estivesse adoecendo.
Ela ainda tinha sua pedra tão apertada, que os nós de
seus dedos estavam brancos.
Tudo havia sumido.
Até mesmo a noite escura, pois já amanhecera.
Uma manhã fria e tempestuosa na mesma praia que ela
esteve a pouco. Não havia nenhum traço da mulher e seu
redemoinho. E apesar da ameaça da entidade, Magnus
MacBride também não estava.
Ela estava sozinha.
Nada se mexia, exceto um véu cintilante que se estendia
pela orla. Ele era tão alto quanto as nuvens e brilhava como
vidro.
Margo supunha que era uma cortina do tempo.
Mas ela ainda podia ver os degraus de pedra esculpidos no
penhasco. Ela até via o corrimão de madeira que seguia a trilha
até poucos metros da estrada. Então a estrada e os degraus
sumiram de sua vista, primeiro perdendo cor e substância.
Pareciam um negativo em preto e branco antes que eles
simplesmente se fossem.
O penhasco ficou.
Assim como o terror dela, pois no instante que os degraus
e o corrimão sumiram, os estranhos símbolos na listra de
quartzo branco de sua pedra ressurgiram. Eles eram vermelhos
e brilhavam ao redor da pedra. Não era um truque de luz, os
caracteres flamejantes e semelhantes a bastões eram
conhecidos como runas.
Runas nórdicas.
Mais especificamente, elas eram as mais antigas runas,
Elder Futhark. Margo as conhecia porque Patience vendia jogos
dela na Vosso Velho Tempo Pagão.
Agora elas praticamente queimavam em sua mão.
No momento em que notou o que ela era, o mundo
desapareceu.
— Agggh! — Margo agarrou a pedra enquanto a terra
tremia e se inclinava sob os seus pés. Ela caiu, girando como
se tivesse sido pega por um tornado.
Tudo brilhou em preto e branco, uma descarga ofuscante
após a outra, como em uma terrível tempestade de raios.
Barulhos altos estouravam em suas orelhas, pior do que um
avião cruzando a barreira do som. Ela cambaleou tentando ver
algo, mas havia apenas escuridão atravessadas por lanças
brilhantes.
Então tudo se transformou em uma cena violenta e
estridente.
Margo tentou gritar, mas seu peito estava apertado,
queimando como fogo e o ar batia em seus pulmões.
Ela ainda segurava a pedra.
Ela estava na mesma praia de antes.
Mas agora, ela havia sido reivindicada pela maldição da
mulher dentro do redemoinho.
Uma batalha horrível desenrolava-se ao seu redor.
Homens enormes, com olhares selvagens, cabelos na altura da
cintura e barbas com tranças balançando, corriam por toda a
parte. Em um frenesi assassino, eles gritavam e xingavam,
alheios ao sangue que escorria em suas camisas e escorriam
das lâminas brilhante e afiadas de suas espadas de eixos
arqueados.
Nenhum deles parecia ciente da presença dela.
Eles estavam muito atentos no louco massacre, muito
ocupados empurrando suas espadas uns nos outros ou
amassando braços com machados gigantes. Ninguém se
incomodou em olhar para uma mulher sem roupas e trêmula,
agarrando uma pedra no peito. Sua boca abriu para emitir um
grito silencioso.
— O-o-oh, Deus… — Margo fechou os olhos, rezando para
a praia ficar vazia quando ela os reabrisse.
Porém não sumiram.
Se alguma coisa pudesse piorar, os detalhes a atacaram.
A margem de cascalho estava escarlate. E, com o
estômago revirado, ela via corpos de guerreiros por toda a
parte, seus membros ou ausentes ou em ângulos anormais.
Outros homens haviam sido decapitados ou sofreram
ferimentos espantosos que os dividiam ao meio.
Uma pobre alma havia ficado presa ao chão por uma
lança. Uma enchente de sangue fluía e as grandes ondas
espalhava por todo Lago Gairloch, transformando-o em um
oceano escarlate.
Em todos lugares, homens gritavam insultos e rugiam
com raiva, os gritos estridentes dos feridos e os gemidos dos
moribundos ficavam mais aterrorizadores se somados ao som
do choque das espadas, as batidas de escudos e, margo estava
enjoada, o horrível som das lanças e machados penetrando na
carne.
A paisagem marítima estava muito pior.
Homens com água até as coxas, golpeavam, cortavam e
apunhalavam uns aos outros. Margo não tinha certeza, mas
parecia que estes homens lutavam com mais crueldade do que
os que estavam na areia da praia.
A maioria dos lutadores que estavam na água sorriam
enquanto eles combatiam entre as ondas, empunhando suas
espadas e martelos ferozmente, matando a golpes. Quando um
caía, três outros ocupavam seu lugar na luta, erguendo suas
espadas e gritando com alegria enquanto saiam de navios de
guerras nórdicos, feitos de madeira e com muitos remos que se
batiam de um lado a outro da costa.
— Oh, não! Oh, não! Oh, não... — Margo arregalou os
olhos ao analisar melhor os guerreiros.
Ela empalideceu ao observá-los, agradecida por eles não a
terem visto.
Se essa era para ser o cenário da morte de Magnus, como
a entidade havia jurado, ela era grata por ainda não o ter visto.
Será que a mulher a transportara para a batalha errada?
Ou será que ela não fora enviada para nenhum lugar?
Se ela tivesse sorte, ela acordaria na cama do Old Harbour
Inn e isso tudo seria apenas um pesadelo.
— Isso não pode estar acontecendo. Vikings…
O mundo tremeu ante a palavra viking, o poderoso abalo
inibiu rapidamente o seu grito e sacudiu o ar com um silêncio
estranho que a fez pensar em um poderoso terremoto sem
estrondo.
Não havia mais barulho.
Um silêncio total a rodeou, uma quietude tão pesada que
ela o sentia como se tivesse um cobertor de chumbo sobre ela.
Suas mãos agora estavam vazias, pois, aterrorizada, ela
derrubou a sua pedra especial.
Ela estava com medo de abrir os olhos.
Ela tinha receio de ter sido levada para algum lugar pior
do que uma invasão viking na Escócia.
Um lugar frio e silencioso que deveria ser a sua morte.
Em seguida ela ouviu um grito e um barulho de alguém
mergulhando. — Bruxa do mar! — Ela levantou as pálpebras,
olhando ao seu redor. Foi justo a tempo de ver o vulto de
Magnus saltar de um dos navios e correr pela água,
diretamente para ela. E ele tinha uma expressão ameaçadora.
Alguns diriam até assassina.
― Você, não se mova! — Ele já estava na areia, correndo
ao longo da linha da maré, diminuindo rapidamente a distância
entre eles.
E ela ainda estava nua.
Essa era uma circunstância que realmente não a tinha
incomodado até agora porque ninguém a tinha notado antes.
Agora Magnus e todo os outros a viam. E apesar dos olhos
escuros de Magnus queimarem com ódio, seus homens a
olhavam como se ela não estivesse apenas despida, mas
também possuísse duas cabeças, chifres e uma longa cauda de
duas pontas.
E ela percebeu imediatamente o porquê.
Embora Magnus e seus guerreiros ainda apresentassem
sinais de cansaço pela dura luta, seus longos cabelos
emaranhados, suas roupas e armas cobertas de sangue, havia
poucos traços da batalha.
Claro, alguns homens sentaram na praia, cuidando das
feridas e gemendo. E os navios sob o comando dele ainda
balançavam na água tingida de vermelho. As ondas tão
vermelhas testemunhando o massacre.
Mas os dracares nórdicos haviam desaparecido.
Os vikings se foram.
E era óbvio que Magnus e seus homens achavam que
Margo era a responsável.
Eles pensavam que ela era uma bruxa.
Talvez até alguma coisa pior.
E Margo, que engoliu em seco quando Magnus a cercou,
sua fúria bem viva, não sabia como convencê-los do contrário.
Todas as evidências a condenavam.
Capítulo Dez
— Oooh, não! — Margo olhou para Magnus enquanto ele
cruzava a praia em sua direção, sua espada brilhando
letalmente. Seus olhos brilhavam de fúria. E sua expressão era
mais feroz do que qualquer uma que ela já vira. Ela colocou
suas mãos em lugares estratégicos e recuou balançando a
cabeça em negação, enquanto via seu mais doce sono se
transformar em um pesadelo.
— Você não quer usar isso! — O olhar dela não
abandonou a espada dele.
A lâmina brilhava em tom vermelho por causa do sangue
fresco que a coloria por todo comprimento e pingava na ponta.
— Eu não gosto de violência. — Ela rezou para acordar em
qualquer minuto.
O estômago dela doía.
Magnus estava quase sobre ela. Ele não parecia muito
simpático. Se ele notou que ela estava sem roupas, ou com
medo, não houve indicação alguma. Ele parecia pronto para
jogá-la sobre os ombros e carregá-la até a fogueira mais
próxima.
— Que magia negra é essa? — Ele rosnou, movendo sua
espada ensanguentada em um arco tão grande apontando para
a areia suja sem rastro de viking e para os rostos brancos e
assustados de seus homens.
— Fale. — Ele apontou a espada para ela. — Agora! Antes
que eu perca a paciência.
— Eu... — Margo só conseguia ficar olhando para ele.
Ele a encarava, seus olhos escuros brilhando.
— Se você é poderosa o bastante para fazer vikings
desaparecerem no ar, você terá força para me responder.
Margo piscou. A voz dele era tão rica e profunda como ela
imaginara e, por algum milagre, ela era capaz de entendê-lo.
Mas enquanto tons roucos retumbavam pelo corpo dela e a
intoxicava sedutoramente, suas palavras eram ceias de ódio e
desconfiança.
Ela deu um passo para trás, clareando a mente.
— Eu espero. — Ele manteve o olhar e arqueou as
sobrancelhas.
— Eu não sei o que aconteceu. — O peito de Margo estava
tão apertado que ela mal conseguiu encontrar fôlego para dizer
as palavras. Obviamente, ela escolheu mal as palavras, uma
vez que a expressão dele ficou mais sombria.
Ele lançou um olhar para seus homens que agora estavam
todos reunidos nas proximidades e boquiabertos.
— Não vejo ninguém mais capaz de tal bruxaria.
— Não fui eu quem fez. — Ela não iria a nenhum lugar
perto da palavra com b.
Além do mais, ele parecia muito mais demoníaco do que
ela.
O vento frio do mar bagunçava seus longos cabelos pretos.
E ele era tão alto, muito maior e mais severo do que ela
imaginara. O plaid estava molhado, rasgado e sujo de sangue.
Até mesmo os braceletes de prata e ouro que ele usava em seus
braços musculosos, exibiam manchas vermelhas.
Ele era claramente um homem que metia terror dentro dos
corações de seus inimigos, mas cujo poder e magnetismo
deixavam as mulheres sem fôlego.
Infelizmente, no momento, ele estava mais assustador do
que sexy.
— Não poderia ter sido ninguém mais. — Ele manteve sua
espada apontada para a barriga dela.
Margo engoliu em seco.
Ele a cutucou com a lâmina.
— Explique-se.
— Acabei de fazer. — Foi o melhor que ela pode dizer.
A qualquer momento ela iria começar a suar frio. Suas
náuseas e uma estranha sensação de tontura a alertaram que
ela não estava bem.
Ela deu outro passo para trás, procurando pela mulher do
redemoinho. Como já tinha acontecido com Patience, sua
maldição obviamente saiu errado. Ela não tinha enviado Margo
de volta no tempo para testemunhar o fim de Magnus. Ela a
enviou ali pelo terror de ser morta pelas mãos dele.
Provavelmente ela até escondera a pedra na praia, precisando
de ajuda para seu trabalho de magia negra.
Mas a entidade não estava em lugar algum.
E Margo não conseguia distinguir a pedra no meio de
tantas outras espalhadas por toda a parte.
Ela tentou conter o pânico que crescia dentro dela.
Ela falhou miseravelmente. Apesar de não ver a mulher ou
a pedra, ela via Magnus e sua longa espada. Ela podia até
sentir o cheiro do ar frio da arma, o cheiro metálico do sangue
que manchava sua extensão. E isso não era um sonho ou
visão, tirada do livro de feitiços de Patience.
Isso era real.
O nó duro entre as omoplatas lhe dizia isso. Ela sempre
acordava no ponto em que os pesadelos ficavam assustadores
demais para lidar. Agora, ela estava horrivelmente consciente
de que ela não iria para nenhum lugar. Ou que em breve
chegaria o alívio do toque de seu despertador.
Despertadores ainda não tinham sido inventados.
Em outro momento ela teria rido da ironia.
Ela sempre quis fazer uma viagem no tempo. Agora que
ela fez, sua má sorte tinha ido junto.
Ela sonhara com Magnus a puxando para seus braços e a
beijava.
Não a ameaçando com sua espada.
Essa injustiça a encheu de raiva e deu coragem para ela o
encarar. Ela ergueu o queixo, sentindo o calor se estender por
suas bochechas.
— Se você fosse o herói que achei que fosse, não me
deixaria aqui em pé tremendo e sem roupas. — Algo brilhou
nos olhos dele que abaixou a espada, enfiando a lâmina em sua
bainha.
— Quem é você? — Ele a alcançou em uma longa passada.
— Como fez os vikings desaparecerem?
— Não fiz.
— Você mente. — Ele a agarrou com força, segurando seu
pulso com força. — Eu reconheço seu rosto, bruxa do mar. —
Ele abaixou a voz, falando apenas para ela. — Eu quero saber o
porquê.
— Se eu soubesse, diria. — Margo manteve o queixo
erguido, esperando parecer mais corajosa do que se sentia. O
rico sotaque dele era pesado, sedutor. Até mesmo com raiva,
cada palavra se derramava sobre ela, dificultando o ato de
pensar. — Meu nome — ela jogou o cabelo para trás, tentando
fazê-lo assim mesmo — é Margo Menlove e eu vim como
turista. Sou de New Hope, Pensilvânia e...
— Tur-rist? — Ele franziu o cenho — Eu nunca ouvi essa
palavra e nem de um lugar chamado Pen-sil...
— Turista é um viajante. E você não conhece a Pensilvânia
porque ela não existe ainda. — Margo manteve o olhar no dele.
— Não em seu tempo.
— Não em meu tempo? — Sua expressão era interrogativa.
Margo anuiu.
— Exatamente. Não em seu século ou pelos cem anos a
seguirem.
— Você afirma? — Ele estava cético.
— Afirmo. — Margo sacudiu a cabeça em afirmação.
Ele se aproximou ainda mais.
— Meu nome, moça, é Magnus MacBride. Os homens me
chamam de Assassino de Viking. Eu também não gosto de
bruxas. Seja grata por eu não ter arrancado sua cabeça de
cima de seus ombros por falar tanta bobagem.
— É a verdade.
— O diabo que é! — Avaliando-a com desconfiança, ele
pegou o braço dela e a virou para que o seu grande, musculoso
e poderoso corpo a protegesse de seus homens. — Olhe aqui —
ele se inclinou, sua fúria acelerando o coração dela — eu não
farei papel de idiota. Eu já sei que Sirgurd Quebrador de
Espadas ou Donata Greer, a feiticeira, a conjuraram para me
amaldiçoar.
— E eu já vi seu corpo nu, como está agora. — Sua voz
ficou mais profunda, rouca. Um músculo em sua mandíbula
saltava, como se ele tentasse se conter. — Você me montou no
vapor da chaleira de Orosius.
Margo piscou.
Nenhuma de suas fantasias com ela tinha chaleiras ou
alguém chamado Orosius. E ela não iria tocar em um assunto
tão espinhoso. Não depois da forma que ele praticamente
grunhiu a afirmação.
Se ele já a tinha vista nua em seus sonhos, visão ou o que
quer que fosse, a experiência não o tinha agradado.
Exatamente agora, ele a estava avaliando de cima abaixo,
uma apreciação acalorada.
— Aye, você é mesmo a bruxa do mar. Meus inimigos
estão usando você.
— Não sou uma bruxa. — Margo enrubesceu, furiosa por
seus mamilos frios endurecem ainda mais diante de seu
escrutínio.
— E eu não conheço seus inimigos. Nenhum Sigurd
Quebrador de Espadas. E nunca escutei falar de uma feiticeira
chamada Donata Greer. — Ela sentira seu descrédito entre
eles. — Eles certamente não me conjurariam. A menos...Oh,
Deus!
— Você os conhece? — Ele apertou ainda mais o braço
dela, seu olhar a perfurando.
— Posso ter visto Donata... — Margo respirou
profundamente, criando coragem — se ela for uma mulher
pequena, de cabelo preto como um corvo, que se veste de negro
e com muitas joias de prata. Olhos escuros cheios de maldade.
— A imagem da entidade veio a sua mente, fazendo-a se
arrepiar. — Um perfume almiscarado e exótico, forte e
enjoativo.
— Donata, aye. — Ele a observava mais de perto. — Ela
está a léguas de distância daqui, enclausurada entre paredes.
Você não deve tê-la visto.
— Bem, eu vi alguém. — Margo manteve sua afirmação. —
E ela parece exatamente como descrevi. — Ela ainda não
estava pronta para dizer que a mulher havia chegado em uma
nuvem negra e brilhante.
Ela manteve o queixo erguido. E ela sabia que seus olhos
estavam mostrando sua raiva. Ela não gostava de ser chamada
de mentirosa.
— Você descreveu Donata. Você a conhece porque ela é
sua mestra. — Ele se aproximou. Não perto o suficiente para
que seu plaid ensanguentado a tocasse, mas o bastante para
que ela sentisse seu calor. Sua respiração resfolegava em seu
queixo, uma intimidade escaldante. E por baixo do sal marinho
que se agarrava ao seu plaid, notava-se um cheiro de madeira
queimada e homem, um cheiro que fez seu pulso disparar.
Como se ele soubesse, a raiva escureceu seus olhos e ele
deu outro passo, encurralando-a.
Margo engoliu em seco, seu coração disparado.
— Eu não tenho uma mestra.
Ele arqueou a sobrancelha, mas não disse nada.
Seus ombros largos bloquearam sua visão para grande
parte da praia. Seus longos cabelos pretos se soltaram e o
vento esvoaçava os fios brilhantes, alguns deles sobre o rosto
dele. Sua expressão era dura, fria e perigosa.
Sua proximidade a fez perder o ar e ficar tonta. Ela tinha
que inclinar a cabeça para trás para olhá-lo diretamente nos
olhos.
Olhar para qualquer outro ponto não era opção.
Ele era bonito de um jeito feroz e robusto. Sua potente
virilidade preenchia o ar de forma inebriante e avassaladora. O
corpo dela zumbia em resposta, desejando-o contra toda razão.
Um calor começou a fluir e formigar por suas coxas e seus
mamilos doíam em busca de contato com seu largo e
musculoso peito.
Ele era a mais doce intoxicação.
Se as circunstâncias não fossem tão surreais. E
aterrorizantes.
Ela olhou para o punho da espada pronta para ser usada.
— Então ela era real? A mulher que eu vi? — O
nervosismo apareceu em sua voz e ela esperava que ele não
tivesse percebido. — Quando ela desapareceu, eu achei que a
tinha imaginado. Com tudo o que ela me ameaçou, depois eu
me vi aqui e...
— Ela te ameaçou? — Um brilho de suspeita cruzou
novamente o rosto dele. — Como ela faria se você a baniu?
— Eu não a bani.
— Então o que você fez? — O tom dele lhe dizia que não
acreditaria nela, não importava o que ela dissesse.
— Ela apenas desapareceu. — Margo tirou o cabelo de sua
testa, a irritação superando o medo.
— E ela fez isso depois de jogar uma bola de fogo no mar e
amaldiçoá-lo.
Um calor fluiu por ela quando ela percebeu o que deixou
escapar.
Mas agora era muito tarde.
— Eu não tenho nada com isso. — Ela estreitou os olhos
para ele, a indignação disparando em suas veias. — Eu nem ao
menos posso fazer a minha própria sorte melhorar! Tenho
certeza de que não posso fazer mulheres no meio de
redemoinhos sumirem na noite!
— Mulheres em redemoinhos? — Ele juntou as
sobrancelhas.
— Sim. — Margo não se sentia bem em explicar.
Ela não gostava como ele a olhava. E ela desejava
desesperadamente que ela não estivesse sem roupas. Não tinha
importância que ele de alguma forma sonhou com ela nua e
montada nele. Na realidade, isso só piorava as coisas. Assim,
ela se remexeu, tentando soltar seus braços presos por ele,
assim poderia usar suas mãos para cobrir seus seios.
Ela não deveria esperar que homens medievais tivessem
sensibilidades diferentes.
Especialmente um guerreiro de olhos quentes carregando
uma espada que definitivamente traduzia o termo macho alfa.
Mas ainda...
Ódio e adrenalina lhe deram a força necessária para se
soltar. Novamente, ela arrumou seus braços sobre posições
estratégicas, uma mão em cima e outra em baixo.
Depois ela abriu bem os olhos, direcionando a ele um
olhar gelado.
Se ele tivesse alguma honra, ela deveria ser capaz de
envergonhá-lo.
— Você sempre deixa as mulheres sem roupas? Ou — ela
não acreditava em sua ousadia — é assim que os homens do
seu tempo fazem para se sentirem superiores?
Em um segundo ele estava em cima dela, as mãos dele
apertando rudemente os seus braços, que ela teve certeza que
seriam partidos em dois.
— Não fale novamente do "meu tempo". Não aqui, com
meus homens nos olhando. Suas orelhas são tão afiadas
quanto seus narizes grandes. Se eles ouvirem algo assim, farão
mais do que cortar sua cabeça. Eles a queimarão aqui e agora.
— E você não vai? — Um lampejo de esperança explodiu
no peito de Margo.
— Eu... — Ele fechou a boca, olhando para ela.
Ele claramente não a via como uma criatura do inferno.
Mas alguma coisa havia mudado entre eles. Um brilho de
dúvida em seus olhos, um relaxamento da mandíbula, eram
mudanças indefinidas que ela rezava que quisesse dizer que ele
começava a acreditar nela.
— Bem? — Ela levantou o queixo em desafio. Ela não
tinha nada para perder.
— Morrer pelos elementos da natureza não é diferente de
morrer pela espada. — Ela não conseguiu esconder o arrepio. O
vento marítimo era muito gelado. — Das duas formas você se
livraria de mim.
— Maldição! — Ele a soltou, cerrando os punhos ao lado
do corpo. Por um longo momento ele a observou, sua expressão
era uma mistura assustadora de fúria, desejo e frustração.
Margo esperava que o desejo vencesse.
— Mantenha-se coberta. — Ele rosnou o comando.
Em seguida ele virou o rosto para seus homens, suas
pernas abertas e suas mãos nos quadris. A postura era pura
agressão masculina. Irritado, excitado e cheio de raiva.
Margo sabia que as próximas palavras dele, selariam seu
destino.
Conhecendo a sorte dela...
Ela se preparou para o pior.
— Orosius! — Magnus manteve suas costas para Margo
Menlove e rugiu para o vidente, sabendo que o grande homem -
um formidável lutador, muito para a surpresa daqueles que
não o conheciam - teria recuperado seu manto pesado agora
que a luta acabara, por mais estranha que ela tivesse sido.
O vidente apreciava seu conforto.
Magnus ainda estava intrigado por Orosius ter aparecido,
uma vez que ele renunciara às batalhas anos atrás. Entretanto
ele se uniu a eles, surpreendendo a todos.
E ele lutou com uma ferocidade que rivalizava com alguns
dos homens mais jovens de Magnus.
Magnus secretamente se orgulhava dele.
Mas neste momento...
— Orosius! Onde você está? Preciso de seu manto,
homem! — Ele ignorou os olhares dos seus homens e
examinava a praia de cima a baixo, procurando pelo vidente de
barba negra.
— O grosseirão parece ter desaparecido junto com os
vikings.
Magnus franziu o cenho. Tal destino serviria bem ao velho
bode.
Sua ausência fazia com que a fúria corresse pelas veias de
Magnus, pois era malditamente difícil não olhar para a nudez
da sereia.
Ela até o repreendeu, deixando-o envergonhado.
Ele teria rasgado o seu plaid e jogado sobre ela, até
mesmo se ela fosse um demônio tentador conjurado por
Donata, se ele não quisesse evitar encharcá-la com o sangue de
seu plaid.
Ela achava que ele não tinha honra.
E isso o marcava profundamente.
Furioso, ele continuou procurando pelo vidente.
— Eu preciso de seu manto, Orosius! — Ele elevou a voz,
gritando com todo o poder de seu pulmão. — Se você não
aparecer rápido, eu te encontrarei e tirarei a força o trapo de
suas costas.
Ele também olhava rudemente para seus homens que não
paravam de olhar boquiabertos para ela.
— Tirem os olhos de cima dela, seus sem-vergonha! — Ele
rosnou para eles, puxando Vingança até metade da bainha até
os bastardos virarem as costas e olharem para o horizonte.
Quando dois deles olharam por sobre os ombros,
provavelmente encantados com a plenitude dos seios e as
curvas dos quadris dela, ele soube que havia apenas um jeito
de protegê-la de seus homens boquiabertos.
— Pelos olhos de Deus! — Sabendo que ia se amaldiçoar
pelo que estava fazendo, ele tirou seu pesado plaid e jogou na
praia.
Com o peito nu, ele virou-se tempestivamente e puxou-a
em seus braços, levantando-a com facilidade e a atraindo para
ele, protegendo sua nudez com efetividade.
— Nem pense em discutir comigo, bruxa do mar. — Ele
lançou um olhar de advertência, consciente de que os olhos
delas lançavam faíscas. Se ela mexesse um dedo, ele perderia
sua honra.
Suas infernais partes íntimas já estavam mais
tensionadas que a corda de um arco. Sua masculinidade estava
furiosa, em uma agonia tão dura quanto o granito.
— Tire suas mãos de mim! — Ela ignorava o perigo de se
remexer nos braços dele, tentando se soltar. — Não sou uma
bruxa.
— Ouvi da primeira vez. — Magnus olhou para ela,
esforçando-se para não abaixar a vista além do pescoço dela.
Infelizmente, na tentativa de ser um escudo para protegê-
la de seus homens, ele a segurava tão próximo que os seios
dela estavam esmagados contra o peito dele. Seus mamilos
endurecidos pelo frio o pressionavam, uma tortura além do
suportável. O pior de tudo, os cachos sedosos de sua
feminilidade se esfregavam contra seu quadril. E o calor quente
e úmido dela o estava levando a loucura.
— Eu sei que você me ouviu. — Ela se mexeu novamente,
seus malditos cachos femininos rosnando perigosamente perto
de sua virilha. — Você não acredita em mim, então eu não
tenho escolha a não se repetir: eu não sou uma bruxa. Eu acho
que Donata desapareceu de propósito. Mas eu não sei o que
aconteceu com os vikings.
— E os porcos voam. — Magnus apertou seus braços ao
redor dela. — Agora fique quieta.
Receoso de se envergonhar se ela se movesse novamente,
ele fez a sua pior cara, esperando detê-la.
Ela apenas devolveu o olhar, tão linda em sua raiva que a
necessidade bruta arranhava em seu peito.
Na verdade, ela não precisava se contorcer para ele se ver
derrotado.
O cheiro dela o assaltava. Fazia-o recordar do ar frio e
limpo de uma noite gelada de inverno, mas com um traço de
rosa, a fragrância girava em torno dele, tentadora e mais
irritante do que uma abelha em seu colarinho.
Cada músculo em seu corpo estava tenso e o sangue
quente rugia em suas veias, escaldando-o, em breve ele não
seria capaz de respirar. Ele poderia sentir a luxuria e a raiva se
agitando dentro dele, excitando-o e fervilhando.
Ele se inclinou e, pela distância de dois alfinetes, acariciou
o pescoço dela para se embebedar no sedutor perfume dela.
— Orosius! — Ele gritou mais alto dessa vez. — Onde...
— Estou aqui. — O vidente se aproximou dele, o grande
machado nórdico que ele preferia usar em batalha ainda em
sua mão. A lâmina e o cabo estavam manchados de vermelho,
mas o manto de pele de urso parecia limpo.
Pelo menos estava tão imaculado como poderia ser.
Orosius carregava o manto sobre um braço, como se ele
soubesse para que Magnus o queria.
— Eu vou precisar disso. — Magnus pegou do braço de
seu amigo e, afastando Margo, ele a rodeou com o manto.
— Obrigada. — Ela se enrolou no manto de pele de urso,
os olhos ainda soltando faíscas azuis sobre ele.
— Encontrarei algo mais adequado depois. — Se você não
desaparecer na neblina. Guardando o pensamento para si
mesmo, ele a olhou, momentaneamente feliz por não a ter em
seus braços.
Agora que ela estava coberta, ele poderia respirar
novamente.
Ele limpou suas mãos para provar que podia se mexer.
Lamentavelmente, ele queimava para arrumar o manto
sobre os ombros dela e mais uma vez sentir sua pele suave e
sedosa, a doce curva de seu quadril e aqueles seios cheios e
redondos que alimentava sua visão.
Ela era um banquete luxuoso que ele estava tentado a
provar. O desejo o rasgava, especialmente agora, com a batalha
ainda fresca e o calor da vitória queimando em seu sangue. Ele
deu um passo em direção a ela, parando apenas porque estava
tão furioso que ele cometeria um erro sobre ela.
Ela era a sereia vista no vapor da chaleira, e ele tinha
certeza de que ela era inocente.
Agora...
Ela provara que a sua magia negra era potente, poderia
estar presa em uma armadilha de Donata, mas era muito mais
habilidosa.
Quem, a não ser uma poderosa bruxa má poderia fazer
uma frota de navios viking e suas tripulações simplesmente
desaparecerem?
Isto era impensável.
Tão aterrorizante que ele duvidava poder dormir bem por
algumas semanas.
E ele era o Assassino de Viking.
Nada o amedrontava desde que ele era um bebê sugando
leite nos seios de sua mãe. Embora, ele nunca tenha mamado.
E, ainda nunca admitisse isso, ele suspeitava que ele era
destemido até então.
E agora, aqui no Lago Gairloch e no meio de uma boa luta,
a bruxa do mar o havia mostrado suas cores verdadeiras,
ensinando-o a nova face do terror.
E ainda assim, ele queimava por ela.
Capítulo Onze
Ela o tinha enfeitiçado.
Magnus tinha certeza disso. Por que outro motivo o tremor
dela tinha feito o seu âmago sacudir, seu coração se revirar
quando ele se aproximou para lançar um olhar furioso para só
vislumbrar ela batendo os dentes? Qual outra razão, se não
uma bruxa, poderia fazê-lo prometer encontrar outras roupas
para ela?
Como qualquer mulher, exceto a própria sedutora do
diabo, ter tal poder sobre ele, que apenas em olhar, ele sentia
uma dor lá embaixo e a vontade de levá-la para a cama?
Ela não era uma bruxa, ela declarava.
Ela era uma tur-rist.
Magnus endureceu sua expressão enquanto a assistia
mexer no manto suave de pele de urso, alisando as dobras da
capa cheia de pelo. Pensil-alguma-coisa. Ele estremeceu,
perguntando-se se ela inventara o nome para confundi-lo. Mas
a palavra soara verdadeira em sua língua. Uma pequena parte
dele acreditava nela. O horror e a raiva dela eram bem reais.
Mesmo agora ela o encarava com raiva.
— Você me chama de bruxa. Não acha que eu não usaria
meus poderes para conjurar roupas se fosse uma? — Ela
levantou o queixo, usando um tom desafiante. — Ou talvez o
transformasse em um sapo de três pernas e com verrugas?
Magnus balbuciou.
Atrás dele, Orosius riu.
— Fora daqui seu velhaco. — Magnus se virou para o
vidente. Ele esquecera que Orosius ainda estava ali, pairando
com seu bom ouvido inclinado para eles.
— Ela diz a verdade, o que? — As palavras do vidente
provaram que ele não perdera uma palavra. — Se ela fosse uma
bruxa, ela teria cumprido ambas as ameaças, não?
— É exatamente o que quero dizer. — Margo se aproveitou
da vantagem.
— Humph. — Magnus cruzou os braços, determinado a
ignorar os dois.
— Seu amigo só declarou metade disso. — De repente, ela
estava cara a cara com ele, tendo se movido com discrição
enquanto ele fumegava. — Se eu tivesse qualquer poder, eu me
tiraria daqui. Sempre pensei que amaria ver a Escócia
Medieval, e agora quando eu ... — A voz dela quebrou-se e ela
teve dificuldade em engolir, seus olhos brilhando enquanto ela
apertava a mão sobre a boca.
— Você magoou a moça. — Orosius deu um olhar sombrio
para ele.
— Bah! — Magnus cortou o ar com a mão. — Não fiz nada
além de encontrar um manto para cobri-la, seu idiota. —
Mesmo assim, ele sentiu um calor subir por seu pescoço e um
músculo de seu queixo vibrar.
Ele a tinha feito chorar.
Ele não se permitiria se sentir mal por ela.
Mas ele sentia.
E saber disso apenas o fazia ficar com mais raiva.
Então ele foi até ela, pôs a mão embaixo do seu queixo e
levantou o rosto dela, para seus olhos se encontrarem.
— Só perguntarei desta vez, moça. Diga a verdade. Você
usou magia negra para explodir os vikings, enviando-os juntos
com seus dracares para o infinito?
— Algo me empurrou para dentro do véu e... — Faíscas
azuis brilharam nos olhos dela — por mais que eu quisesse
estar aqui, arrependo-me de ter vindo.
Ela se afastou dele e colocou suas mãos na cintura,
tentando parecer furiosa.
— Você não é um herói, Magnus MacBride. — As palavras
dela o assustaram. — Você é um ogro!
— Ah! — Orosius apoiou-se no ombro dele. — Ela te
conhece bem, aye?
Magnus o ignorou.
Lágrimas brilhavam nos cílios da sereia e ele notava o
batimento selvagem do pulso e garganta dela. Ela estava
perturbada e provavelmente, aterrorizada.
E o medo dela ecoava através dele como uma dor distante,
recordando a ele uma outra jovem mulher loira que lhe confiou
sua proteção e depois morreu cruelmente quando ele falhou em
mantê-la segura.
Esta mulher não era Liana.
No entanto, quanto mais ele observava o pulsar do
coração dela nas veias de sua garganta e via ela lutar para
manter a compostura, mas ele se sentia atraído por ela.
Endurecendo-se, ele lutou contra a urgência de puxá-la
para seus braços novamente. Ela era incrivelmente linda e
ainda mais desejável do que a visão na chaleira. Mas era a
coragem dela que mais o impressionava. Ele sentia seu coração
acelerando-se em admiração. E, a admissão o perturbava, ele
tinha uma desconfortável impressão de que ela era capaz de
ver sua alma. E, o fato dele duvidar da palavra dela, estava
quebrando o seu coração. Ainda assim, ele tinha que saber a
verdade.
Por mais que lhe alegrasse banir os vikings da costa, ele
preferia fazê-lo por si mesmo e de maneira comprovada.
E ele fazia isso com a perversa confiança e a lâmina afiada
de Vingança. Quando necessário, um bom machado de batalha
nórdico. Corvo do Mar e seus outros barcos, assim como seus
bons e leais lutadores garantiriam que eles seriam
exterminados. Era assim que um senhor da guerra lidava com
os vikings.
Eles não usavam magia negra.
Assim era a vida no mundo dele.
Se o que Margo falava era verdade, ele precisava ajudá-la
a retornar para qualquer que fosse o lugar que ela pertencia.
Então ele tocou o rosto dela novamente, dessa vez,
acariciando-a com seu dedo, esperando acalmá-la.
— Conte-me como você veio para aqui e eu tentarei
encontrar um meio de devolvê-la com segurança para seu
próprio reino. Assim...
— Eu sou da Pensilvânia e não de um reino. — Ela se
desvencilhou dele, o movimento fazendo com que o manto de
pele de urso escorregasse por um momento, dando a ele uma
boa visão de sua feminilidade loira e coxas elegantes.
Ele também teve um vislumbre dos seus seios, que
naquele momento mexiam-se sedutoramente.
A luxuria se espalhou por ele, seu corpo inteiro se
contraiu.
— Mantenha-se coberta. — Ele fez uma cara feia para ela,
o momento de cavalheirismo se fora. Havia muita tentação por
trás do manto e, ele já fora testado além dos próprios limites.
— Ou você está me tentando?
— Eu preferiria que você acreditasse em mim. — Ela olhou
para ele altivamente, sem sua beligerância anterior. Ela tinha
uma expressão que ele não conseguia identificar. E os olhos
brilhavam tanto que o coração dele doeu.
Ele a queria.
E ele não conseguia se desviar daqueles luminosos olhos
azuis, refletindo uma suave súplica. Ele desviou o olhar e
balançou seus cabelos, espalhando seu peso suave sobre os
ombros, recordando que ele era um guerreiro. Um homem que
não oscilava por seios nus e erguidos, coxas elegantes e bem
torneadas ou até mesmo olhares safiras que brilhavam...
— Não sei o que aconteceu com os vikings. — Ela deu um
passo para frente, colocando uma mão no braço dele. O toque
dela se espalhou por ele, alcançando lugares que ele não
permitiria. — Não posso explicar como eu vim parar aqui,
embora admita que eu esperei muito por esse milagre.
— Só não assim. — Ela olhou para os penhascos que
cercavam a praia e Magnus viu um tremor nela. — Isso aqui
não é meu sonho.
Magnus concordou.
— Tenho certeza que não é. — Entretanto ele não tinha
certeza de nada.
Seguindo a direção do olhar dela, ele se perguntou o que
ela viu que a incomodou. Ele apenas via um promontório
rochoso, algumas dunas com estorno28. Um céu matinal cheio
de nuvens baixas e escuras.
— Onde fica a Pensil… — ele franziu a testa, incapaz de
pronunciar o nome. — Pen…
— Pensilvânia. — Um traço de orgulho era notado em suas
palavras. — É um lugar bonito, muito especial. New Hope, de
onde eu sou, é especialmente legal. Mas não é a Escócia e eu
sempre sonhei… — Ela interrompeu a fala, seus olhos
arregalados enquanto toda cor sumia de seu rosto. — Oh, meu
Deus! — Ela pressionou ambas mãos nas bochechas. — Eu
acho que sei o que aconteceu com os vikings. Devo ter feito
aquilo afinal. Eu…
— Não diga uma palavra! — Magnus colocou uma mão
sobre a boca dela e olhou para Orosius, que tinha se
aproximado tanto que os pés dele tocavam os seus. — Você
escutará a história depois de mim, seu safado intrometido.
— Pode ser que eu já saiba como ela fez isso. — Orosius
soou presunçoso.
Magnus não se importava.
Ignorando o grunhido, ela começou a puxar Margo pela
praia, para longe do vidente e da linha de ondas, onde seus
homens estavam em um círculo suspeito e soturno.
Honrosamente, eles ainda estavam de costas para a praia.
Alguns já haviam embarcado no Corvo do Mar e nos outros
barcos e estavam esperando pelo comando de Magnus para
pegar os remos e seguirem para o sul de Redpoint, onde eles
planejaram matar mais vikings.
Por enquanto, seus homens teriam que esperar.
Margo, ele percebera que agora a chamava pelo seu nome
real e não mais de bruxa do mar ou tur-rist, disse que sabia
como tinha banido os nórdicos.
Era seu dever como chefe e senhor da guerra ouvir o que
ela tinha feito.
Infelizmente, seus ouvidos captavam o som dos passos
acelerados de Orosius.
— Ei, Magnus, espere! — Orosius os alcançou próximo ao
fim dos penhascos. — Eu sei o que foi. Ela usou uma Pedra
Encan…
— Uma Pedra Encantada das Terras Altas. — Margo
terminou por Orosius. Ela olhou para ele, supondo pela
aparência selvagem e rústica que ele era algum tipo de eremita
pagão.
Ou talvez ele fosse um monge guerreiro.
O que quer que ele fosse, ela gostava dele.
Ele a fazia lembrar do excêntrico barbudo que entalhou o
jogo de runas Elder Futhark que Patience vendeu na Vosso
Velho Tempo Pagão. Velho suficiente para ser o avô dela, o
conde Wyndhall era um tipo grande e desajeitado como
Orosius. E ela suspeitava que, como o conde, Orosius gostava
de ser rabugento. Ela também apostava que ele dividia o
coração bondoso do conde, mesmo que nunca admitisse isso.
Então ela sorriu para ele. E pela expressão sombria que
apareceu no rosto de Magnus enquanto ela o fez, ela se sentiu
um pouco melhor.
Ela não poderia jurar, mas ela quase acreditava que ele
estava ciumento.
— Então você amaldiçoou os nórdicos? — Magnus soou
descontente novamente.
— Não intencionalmente. — Ela não fez. — Mas eu devo
tê-los suprimido quando eu me encontrei aqui e falei a palavra
“vikings” enquanto segurava a pedra que eu peguei na praia.
Deve ter sido uma Pedra Encantada das Terras Altas, uma
pedra mágica que pode banir o inimigo se disser seu nome
enquanto a segura.
— Aye, exatamente! — Orosius acenou. — Esse é o modo
que ela funciona. — Magnus olhava como se não pudesse
decidir se rolava os olhos ou ria. Ele franziu o cenho.
— Eu nunca ouvi falar de tal pedra. — Orosius o reprovou
com o olhar.
— Você teria ouvido se prestasse mais atenção em minhas
histórias diante da fogueira em Badcall, ao invés de se sentar
sozinho em sua cadeira alta quando todos os demais saem do
tablado para se divertirem no salão inferior.
— As Pedras Encantadas das Terras Altas vem dos dias
em que o próprio tempo era jovem. — A voz de Orosius parecia
importante. — Elas são relíquias dos Antigos e marcadas com
desenhos de runas antigas. Se o perigo estiver perto, você só
precisa apenas pegar a Pedra Encantada e falar o nome de seu
ofensor.
— Uma vez pronunciado, o inimigo desaparecerá. —
Margo acrescentou.
Desta vez, Magnus bufou.
— Se tais pedras maravilhosas existissem, todas as
pessoas nas Terras Altas estariam vasculhando as colinas para
encontrar uma.
— Exatamente isso. — Margo recordava as lendas sobre
magia celta que leu nos livros de Patience.
Ela se mexeu debaixo do manto de pele de urso, não
querendo parecer ingrata. Mas o manto coçava terrivelmente.
— Tais poderes frequentemente eram mal-usados por
aqueles que procuravam usá-los para benefício próprio e não,
como pretendido, como proteção aos inocentes. — Ela olhou
para Magnus, grata por ainda ter a atenção dele. — Como
resultado, acredita-se que os Antigos entraram em ação e
espalharam as pedras por toda a Terra. Existiam poucas delas
e elas foram escondidas em lugares remotos. Áreas onde
haviam muitas pedras parecidas com ela.
Ela respirou, lembrando-se de como o calor e a energia da
pedra fluíram por seus dedos e por seus braços, preenchendo
todo seu corpo com o poder dela.
— Os antigos esperavam que ao fazerem isso, diminuiriam
as chances de as Pedras Encantadas caírem em mãos erradas
novamente. Se elas caíssem... — um arrepio gelado desceu pela
espinha dela — um outro feitiço fora lançado sobre as pedras,
de modo que os desenhos mágicos das runas inscritos ao redor
delas iria parecer apenas a mais comum listra de quartzo ao
redor da pedra. Apenas aqueles...
— Puros de coração — Orosius interrompeu o resto,
lançando um olhar significativo para Magnus — e em extrema
necessidade poderia ver as runas encantadas e só por um
breve momento.
— Aye, bem. — Magnus observava Margo. — Você está
dizendo que pegou uma das Pedras Encantadas e depois baniu
os vikings ao pronunciar o nome deles?
Margo encolheu os ombros.
— Eu já lhe disse que eu não sei. Mas posso supor. E
assim, eu acho que foi isso o que aconteceu. — Ela parou para
arrumar o cabelo atrás da orelha. A suspeita dele pairava no ar
entre eles e, o olhar cauteloso a deixava na defensiva. — Eu
estava segurando uma pedra que tinha uma faixa de quartzo
branco que contorna o meio dela. E, — ela aprumou o corpo —
eu vi um flash das runas vermelhas neste anel de quartzo. É
tudo que eu me lembro antes, bem de tudo acontecer.
Magnus anuiu.
— Pensarei na possibilidade. — Não era a resposta que ela
tinha esperado, mas pelo menos não era uma cheia de
negação, seu coração disparou.
— Ela fala a verdade. — Orosius tomou o partido dela. —
Eu a vi encontrando a pedra. É por isso…
— Viu ela onde? — Magnus se aproximou dele. — Aqui no
lago Gairloch ou no vapor da chaleira?
— Aqui, seu bebedor de salmoura intrometido. — Orosius
bateu em sua cabeça, encarando Magnus. — Eu sonhei com
isso. Essa é a razão por eu ter embarcado no Corvo do Mar. —
Ele colocou uma mão no quadril e coçou a barba com a outra.
— Sendo assim, eu soube que você pensaria que a pobre dama
era a ajudante do diabo ou algo pior. Eu quis estar por perto se
você tivesse alguma ideia idiota quando visse o que eu sabia
que aconteceria aqui nesta manhã.
— Já vejo. — Magnus disse.
Orosius poderia fazê-lo trincar os dentes, mas ele nunca
mentia.
— Então, você acredita em mim agora? — Margo o tocou
no braço, o leve roçar das pontas dos dedos dela, aquecendo-o
todo. — Por favor, diga que sim. Se não… — ela olhou para o
mar, depois para ele — eu acho que não suportaria ficar aqui.
— Eu…— Magnus puxou o braço e coçou sua nuca.
A verdade estava nos olhos dela, assim como o nó ardente
dentro dele tinha tentado dizer a ela durante todo tempo.
Ela era o que dizia ser.
Uma tur-rist, apesar de não querer admitir, o termo o
confundia.
Viajante, ele podia aceitar. Mas nenhuma mulher viajaria
totalmente nua e sem escolta.
— Se você viu Donata, ela deve ter projetado a sua própria
imagem de dentro das paredes do St. Eithne's. — Era o mais
perto que ele admitiria aceitar no meio da história tão
estranha. — O que quer dizer que ela possui poderes maiores
do que nós sabemos.
— Ela é um diabo. — Margo se arrepiou de novo.
— Sabe o que devemos fazer? — Orosius cuspiu no chão
de carvalho.
— Não matarei uma mulher, por mais vil que ela seja. —
Magnus foi firme. — Nós ordenaremos à boa abadessa de St.
Eithne's para manter uma guarda constante sobre ela, mesmo
enquanto dorme. Se ela estiver sobre o olhar de alguém, não
será capaz de projetar suas maldades e feitiços.
— Se você diz. — O vidente parecia em dúvida.
— Sim, eu digo. — Magnus olhou para o Corvo do Mar,
onde algum de seus homens os observava da plataforma. —
Margo, — ele se virou para ela, colocando as mãos sobre seus
ombros — meus homens e eu temos alguns assuntos em
Redpoint, uma pequena vila de pescadores ao sul de Gailorch.
Você não pode ficar aqui sozinha. Você se juntará a nós no
Corvo do Mar?
Ela não hesitou.
— Sim, eu irei. O-Obrigada. — A excitação em sua fala
mexeu com o coração de Magnus. E o mesmo calor, doce e
inebriante, que havia tomado conta dele quando ela pôs os
dedos em seu braço se espalhou novamente. A sensação era
mais forte do que antes, desta vez, derretendo lugares que
estavam congelados.
— Aye, bem. — Ele falou bruscamente, esperando que ela
não tivesse percebido nada. Depois, antes de mudar de ideia,
ele pegou o braço de Orosius.
— Orosius. — Seu tom tinha muito respeito. — Você tem
mais jeito com as palavras. Nós estamos partindo para
Redpoint. Seria de boa ajuda, se você reunisse nossos homens
e contasse algo a eles, qualquer coisa que vier a sua cabeça,
para explicar o que aconteceu aqui nesta manhã. E, — olhando
para Margo — deixe-os saber que teremos um passageiro
adicional a bordo do Corvo do Mar.
— Eu farei isso. — Orosius riu e se virou, caminhando
rapidamente pela praia.
Quando ele estava fora de alcance, Magnus tirou sua mão
dos ombros de Margo, agarrando-a levemente pelo quadril.
— Donata é perigosa. Se ela viu o que você fez com a
Pedra Encantada, ela usará todos seus poderes para te
encontrar, esperando achar a pedra. Assim como você, isso eu
juro.
— Ela quis me usar para te machucar. — Margo
confirmou o que ele sabia ser verdade. — Ela disse que eu o
distrairia e depois você seria...
— Derrubado? — Magnus começou a entender o esquema
da bruxa.
Ele sorriu, o conhecimento lhe dava poder.
— Você me distrai, moça. Mas, — ele deslizou
suavemente, um dedo sobre os lábios dela — ninguém me
derrubará, e ninguém irá machucá-la. — Ele olhou dentro dos
olhos dela, querendo que ela acreditasse nele. — A partir desse
momento em diante, não sairei do seu lado.
— Isso é bom. — Ela fechou os olhos e respirou
profundamente, parecendo aliviada.
Enquanto ele a observava, o calor dentro de Magnus
aumentou e se espalhou, sua necessidade em protegê-la era
tão feroz quanto as chamas quentes do desejo que queimava
em seu ventre.
Apenas o desejo dele em não a assustar e saber que seus
homens os assistiam, segurou-o contra a vontade de puxá-la
para ele e beijá-la.
Ele faria em breve.
Mas por enquanto, ele estaria feliz em escoltá-la até o
Corvo do Mar.
E quanto mais ele pensava sobre isso, mas ele gostava.
Capítulo Doze
O segundo pensamento de Margo surgiu enquanto ela era
levada por Magnus através da praia até o seu navio de guerra,
o Corvo do Mar. Parando na linha de rebentação, ela usava
uma das mãos para prender melhor a pele de urso ao redor de
seu corpo nu. Ela tirou a franja de sua testa, perguntando-se
de que lugar ela tiraria coragem para embarcar em um navio
medieval.
Ela nunca gostou de barcos.
E, além de parecer uma serpente que cuspia fogo, ainda
era tripulado por homens de barbas, rostos duros e ferozes que
provocavam arrepios e provavelmente afiavam as espadas todas
as manhãs. Eles a encaravam. E cada um parecia ansioso para
testar o corte de sua lâmina com ela. Sem exagero, eles
pareciam hostis. Alguns, até mesmo podia-se dizer, assassinos.
Apenas Orosius parecia amigável, dando-lhe um amplo
sorriso antes de jogar seu plaid sobre o ombro e entrar no mar.
Com a cabeça erguida, ele mergulhou na onda como se
adorasse cada momento, para depois saltar na lateral do barco
que o esperava.
Margo engoliu em seco.
Ela tinha que embarcar no Corvo do Mar.
Não era como se ela tivesse alguma alternativa.
Mesmo que ela subisse o penhasco, a estrada costeira não
estaria lá. E o Old Harbour Inn ainda não fazia parte da
imaginação de alguém. Ela seria saudada apenas por colinas
vazias e um selvagem vazio. Talvez alguns aldeãos que ao
darem uma olhada em uma mulher nua usando apenas um
manto de pele de urso, pensariam o pior e fizessem o que
Magnus dissera que poderia facilmente acontecer: eles a
queimariam como uma bruxa.
Esperar ali sozinha, até que a bruxa verdadeira
aparecesse era igualmente desagradável.
O dado fora jogado.
E, como em tantas outras vezes, ela não se preocuparia
onde a sorte a jogava.
— Oh, Deus. — Ela arregalou os olhos enquanto Corvo do
Mar se movia nas ondas. Os homens hasteavam a vela
quadrada, vermelha e branca, do navio. Outros já estavam
sentados nos bancos dos remos, prontos para partir.
Margo podia jurar que o navio parecia impaciente, ansioso
e esforçando-se para seguir em frente, abrindo as ondas.
O estômago dela doeu diante do pensamento. O pavor
deslizou por suas terminações nervosas e seu coração estava
começando a bater muito mais rápido. Até mesmo as palmas
de suas mãos estavam úmidas e a boca secara.
Essa não era a sua fantasia de viagem no tempo.
Aquilo era, em resumo, o fundo do poço.
— Nós não iremos muito longe, hoje. Uma pequena
enseada, Badachro Bay, perto do Lago Gairloch, é o local que
nós iremos. — Magnus estava olhando para ela, sua voz
profunda, calma e reconfortante.
Ele sabia exatamente porque ela parara tão perto da
margem.
Ele sentiu o medo dela e queria tirá-lo dela.
Margo tremeu um pouco, a imagem heroica dele
retornando.
— Meus negócios estão um pouco ao sul de Badachro, em
um lugar chamado Redpoint. — Ele uniu as duas pontas do
manto e, usando um enorme broche celta que ele tirou de seu
próprio plaid, ele prendeu o manto. — Alguns dos meus
homens devem viajar por terra para adiantar a preparação. Nós
passaremos a noite em Badachro.
— Vamos amarrar o Corvo do Mar no Sgeir Ghlas…
— Onde? — Margo piscou. Ela era grata por ser distraída
da sensação dos dedos quentes e fortes dele acariciando sua
pele enquanto ele atravessava a mão com o broche entre e pele
e o manto.
— Sgeir Ghlas que dizer pedra cinza. — Ele deu um passo
para trás, o broche no lugar agora. — É uma das menores ilhas
da baía e o lugar mais seguro para o Corvo do Mar. Meus
homens dormirão a bordo do navio.
— E nós? — A intimidade daquelas duas palavras foi
direto para o centro de seu ser, um arrepio de antecipação
quase a fez esquecer-se do medo de navegar.
Ele quis dizer que passaria a noite com ela, em algum
lugar e sozinhos.
Ela olhou para ele, esperando.
— Nós passaremos a noite em um pequeno cothouse. —
Ele a olhou como se esperasse que ela fosse discutir. — Mas, —
ela não podia evitar, o pensamento a enchia de expectativa.
— Um cothouse é um chalé, uma cabana pequena, certo?
— O pulso de Margo se acelerou quando a consciência sensual
atravessou o corpo dela, fazendo-a ficar tonta.
Ela sabia o que era uma cothouse.
Magnus a analisava de perto com um leve sorriso nos
lábios. Seus olhos escuros a marcavam, deixando-a em
chamas.
— Aye, é nada mais do que uma pequena cabana feita de
palha. — Sua voz profunda a agitou, fazendo com que ela
ansiasse tocá-lo. — Mas terá uma reserva de madeira para
queimar e eu levarei plaids suficientes para fazer com que o
estrado fique confortável para se dormir nele.
Plaids para dormir.
Margo quase engasgou de prazer.
Ela mordeu o lábio, tinha medo de respirar. Ela podia
sentir o calor sensual querendo se acender entre eles. Era
como uma corrente elétrica desenfreada, carregando o ar
enquanto esse rodava entre eles, atiçando o seu desejo.
— Tenho certeza que ficarei bem. — Aquela era a voz dela,
tão ofegante e animada?
Era, mas ela não se importava.
Aquele era o sonho dela tornando-se realidade. A sorte
dela estava mudando, transformando-se diante da menção da
palavra tartã.
Magnus poderia estar no plaid com ela, ela sabia.
Eles estariam nus, entrelaçados e se beijariam por toda a
noite. Ela até poderia perguntar para ele sobre o episódio do
vapor da chaleira.
A vida estava parecendo boa.
Magnus olhou para o mar e depois para ela.
— Há também uma mulher em Badachro, Orla Finney,
que provavelmente terá um vestido extra e quaisquer coisas
femininas que você precisar.
A euforia dela se evaporou.
— Uma mulher?
— Aye, ela é uma “mulher alegre”. Você conhece o termo?
— Seus olhos escuros brilharam, mostrando um lado muito
atraente dele.
Isso, se ele não estivesse falando de uma prostituta
medieval. Margo franziu o cenho.
— Eu sei o que “mulher alegre” quer dizer. — Ele sorriu
então, mostrando covinhas.
— Orla é uma amiga, nada mais. Ela é uma mulher de
bom coração que serve aos pescadores e os outros que visitam
aquelas praias. Enquanto ela também não fecha as portas para
os nórdicos, ela me abastece com apreciadas notícias sobre
paradeiro e ações desses.
— Oh. — Margo sentiu uma onda de alívio a varrer.
Até o sol atravessar uma nuvem e bater na areia da praia
e acender os reflexos das espadas dos homens que estava, no
Corvo do Mar. Eles tinham a cara fechada e sombrias, com
sobrancelhas desalinhadas.
— Eles não machucarão você. — Magnus deu um passo à
frente, tirando o cabelo dela do rosto. — Eles respondem a mim
e sabem que eu os cortarei, da sua barriga até o esôfago, se
eles olharem feio para você. — Margo não quis dizer a ele que
eles já estavam fazendo isso.
Ela não tinha ar.
O raio de sol também caiu sobre o dracar, escolhendo os
mais aterrorizantes detalhes da cabeça de corvo pintada em
vermelho e preto, esculpidas no alto da haste da vela e na proa.
Os pássaros pareciam estar guinchando, seus bicos abertos
ansiosos para morder os inimigos.
Ou dela, tinha certeza.
— Não são seus homens… — Não tanto, de qualquer
forma. — É apenas que… — ela ergueu o rosto, a sombra de
preocupação nos olhos dele a tocaram tão fundo que seu peito
doeu. — Eu nunca gostei de barcos. — Pronto, ela falou.
A expressão de Magnus clareou, um sorriso se espalhando
no rosto dele.
— Você amará o Corvo do Mar, não precisa temer. Há
poucas alegrias maiores do que sentir a vida surgir em um belo
navio enquanto ele dança pelas ondas, espumas nas laterais e
o vento no rosto. A glória disso, pode fazer um homem se sentir
como um deus.
— Sou uma mulher.
— Aye, você é. — A voz de Magnus se aqueceu, seu olhar
deslizando sobre ela desde seu cabelo voando pelo vento até
seus pés descalços, agora cobertos pela água gelada. — E, —
ele pegou o rosto dela nas mãos, olhando diretamente dentro
de seus olhos — você concordará comigo que há poucas coisas
tão prazerosas do que ficar em pé no remo de direção e sentir
como se o meu navio tivesse um coração que bate sob seus
pés.
— O-Oh… — A respiração de Margo ficou presa, as
palavras dele deslizaram por ela como sedução adocicada,
fazendo o próprio coração bater forte.
Por um momento, uma imagem da fantasia dela cruzou
sua mente. Como nos sonhos dela, ela o via como um alto e
poderosíssimo highlander com cabelos negros e longos
amarrados na nuca e um plaid jogado sobre um ombro. Uma
armadura brilhava por baixo de seu plaid e ele usava uma
espada enorme, de aparência perversa, presa ao quadril.
Braceletes de ouro e prata brilhavam em seus poderosos braços
e, seu rosto bonito estava duro, quase como se tivesse sido
esculpido em pedra.
Agora ela o via de verdade.
Vivo, de carne e osso, colorido em três dimensões e em seu
próprio tempo e lugar. Seu rico sotaque escocês seduzia os
sentidos dela e seu olhar quente tentava tudo o que era
feminino dentro dela.
A maravilha de tal milagre era quase demais para
suportar.
Ele usava o cabelo solto agora, uma juba preta-azulada
que caía até a cintura. A luz do sol atravessava os fios
brilhosos, enfatizando sua maciez e, antes que ela pudesse se
controlar, ela deslizou os dedos pelas mechas negras.
— Tenha cuidado, moça. — Ele agarrou o pulso dela,
prendendo com firmeza os dedos ao redor do braço dela,
retirando-a de seus cabelos. — Meus homens estão nos
observando agora, eles podem pensar que você está jogando
um feitiço sobre mim.
Margo mal podia respirar.
— E se eu tivesse?
— Você já fez. — O calor ardente nos olhos dele, provava
isso. — E eu acho que você já sabe.
Margo se sentiu enrubescer.
— Eu não sei de nada. — Ela umedeceu os lábios.
Mas ela sabia.
Pelo menos ela supunha.
Algo mudara desde que ele começou a acreditar nela e,
aquilo alterou e desencadeou uma poderosa conexão entre eles.
Margo nunca havia se sentido tão atraída por um homem, nem
tão desesperada para ser esmagada em seu poderoso abraço. A
necessidade aquecia o ar ao redor deles, chiando como se o
desejo fosse um ser vivo e, fazendo-a arder por ser pressionada
contra ele. Ela ansiava em sentir suas mãos grandes e fortes
varrendo por todo corpo nu, questionando e explorando, e ela
mesmo correndo os dedos pelas linhas de seu bem delineado
corpo de guerreiro.
Ela não sabia que era possível desejar tanto alguém.
A fome nos seus olhos lhe dizia que ele a queria tanto
quanto ela.
Mas ela precisava ouvir as palavras. Não podia adivinhar
quanto tempo teria em seu mundo, então ela queria ver o
desejo queimar em seus olhos, ouvir sua voz sedutora se
aprofundar e ficar rouca como novelos de seda macia rolando
sobre ela.
— Agora é você que não fala a verdade. — O seu tom era
baixo e rude agora. — Você sabe bem o que você faz comigo —
Ele manteve o olhar preso ao dela, circulando a sensível pele de
seu pulso com o dedo, antes de soltá-la. — Essa noite, se você
deixar, eu provarei a você. — Margo quase desmaiou.
Um redemoinho de emoções cresceu dentro dela, euforia e
uma vertiginosa excitação e uma pequena lasca de medo. Se
ele quis dizer o que ela pensou e lhe fizesse amor e depois ela o
perdesse, nunca se recuperaria da dor.
Por enquanto, o sangue dela corria e formigava em suas
veias. A própria ideia de realmente dormir com ele e em um
plaid, faziam seus joelhos baterem e seu coração martelar
como um tambor. Um dos homens do navio gritou e acenou
para ele. Ele se afastou dela para seguir para o Corvo do Mar,
mais uma vez o senhor de guerra medieval.
— Vamos, moça, nós devemos partir. — Ele a pegou pela
mão, carregando-a pelas ondas. — Orosius terá ordenado aos
homens que estendam uma manta extra sobre a popa. Você
ficará abrigada lá, com muitos plaids e peles que a manterão
aquecida. Estarei por perto, na plataforma junto ao grande
remo de direção.
Margo franziu o cenho, a água gelada espumando sobre
seus joelhos.
— Não estou preocupada em me manter aquecida. —
Todos pensamentos sobre fazer amor sumiram de sua mente.
— É a possibilidade de me afogar que assusta.
— Bah! O Corvo do Mar não envia ninguém para as
profundezas salgadas. — Magnus a pegou, erguendo-a em seus
braços e a segurando bem apertado contra ele enquanto
mergulhava nas ondas. Ele caminhava a passos largos através
das ondas agitadas, afastando-se da costa e indo até seu navio
com escultura de cabeça de dragão.
— E nem irá fazer isso com você, eu prometo. — Ele se
inclinou para beijar o topo da cabeça dela.
— Sempre há uma primeira vez. — O vento pegou as
palavras dela, arrebentando-as, antes que ele pudesse ouvir.
— Aye, há. — Ele sorriu levemente para ela, provando ter
ouvido. — E eu farei que essa vez seja tão boa, que você me
implorará para navegar no Corvo do Mar, sabendo que a
felicidade lhe espera no final de nossa jornada.
Sua promessa enviou deliciosos arrepios pelo corpo dela,
fazendo-a sentir calor e um formigamento, mesmo dentro da
água fria que os rodeava até a cintura.
Mas então a alta proa do Corvo do Mar surgiu diante deles
e Magnus a sustentou acima da cabeça dele, gritando para
alguém chamado Ewan ajudá-la a embarcar. Um rapaz jovem,
forte e com o rosto cheio de sardas, apareceu imediatamente,
debruçando-se e a puxando pela lateral do navio, como se ela
não pesasse nada mais do que um saco de pena de gansos.
— Minha lady. — Ele sorriu e a colocou de pé ao lado de
um banco de remos. — Ewan, a seus serviços. — Ele se
apresentou, ajudando-a a sentar-se no banco vazio.
Inclinando-se perto do ouvido dela, ele baixou a voz. — Esses
bufões não são tão maus como parecem. Eles se aproximarão.
Não se preocupe.
Depois ele se foi, apressando-se em se juntar a Orosius
perto do grande remo de direção.
E agora que ele se foi e ela tinha uma visão clara do
corredor principal do navio, imediatamente compreendeu o
porquê do aviso.
Os homens sentados nos bancos de remos estavam
virando o rosto, evitando o olhar dela. Um estremeceu e vários
fizeram sinais contra o mal. Um homem pequeno e magro, mas
que parecia ser duro e forte apesar do tamanho, até fez uma
oração silenciosa.
Margo piscou.
— Eu não mordo, — ela começou a dizer, antes que o
genuíno pavor nos rostos deles a fizesse segurar a língua. No
mundo deles, ela sabia, tinham boas razões para pensar nela
como uma bruxa. Mesmo assim, uma recepção destas não era
um começo muito propício.
Mas antes que a rejeição deles pudesse piorar, Magnus
pulou sobre a lateral, pousando levemente ao lado dela.
— Venha, você ficará mais confortável na popa. —
Pegando-a pela mão, levantou-a, deslizando uma mão ao redor
ao redor da cintura para firmá-la enquanto a levava pelo
estreito corredor até o abrigo improvisado que ele lhe arranjara.
Quando ela se acomodou, ele ajustou o manto de pele de
urso sobre os ombros dela. Feito isso, abriu a tampa de um
baú e tirou de lá um plaid limpo, jogando-o habilmente sobre
seus próprios ombros. Depois fechou na altura peito e se
endireitou, colocando as mãos nos quadris e olhando para ela.
Essa era uma visão que fazia sua respiração ficar presa na
garganta. Ele poderia ficar mais bonito do que com seu plaid
destacando seus ombros largos e com o kilt se moldando as
suas poderosas coxas? Haveria coisa mais sexy do que assistir
seu longo cabelo negro despenteado pelo vento soprado pelo
mar?
Margo achava que não.
E ainda tinha a pura fome masculina brilhando nos olhos
dele enquanto mantinha aqueles olhos negros presos aos dela.
— Não faça com que eu me arrependa em acreditar em
você. — Ele se aproximou, uma mão segurando a lateral da
plataforma, enjaulando-a enquanto seu olhar deslizava por ela,
íntimo e profundo. — Eu nunca confio tão facilmente.
— Você pode confiar em mim. — Margo esperava
ardentemente que ele pudesse.
Como a pessoa com menor conhecimento científico no
mundo, ela não era uma física, não poderia afirmar que ela não
evaporaria a qualquer minuto, desaparecendo na frente dele
como Donata fizera com ela.
Era uma possibilidade que ela não queria considerar.
Ela não se importava em pensar nisso, quando respirar o
mesmo ar que ele a fazia ficar com os joelhos fracos de desejo.
— Levantar! — Uma voz masculina, que Margo
reconheceu como a de Ewan, gritou um súbito comando e,
mesmo antes que ela pudesse piscar, vinte e quatro remos
dispararam, com a água brilhando ao voar das lâminas de
madeira.
— Meus Deus! — ela pulou, aterrorizada. — O que eles
estão fazendo?
— Nada além do dever. Nós estamos partindo. —
Inclinando-se, ele pôs uma mão no pescoço dela, obrigando-a a
olhá-lo e não para os remadores. — Você não tem motivo para
ter medo, mo ghaoil. — O gaélico soava rico e bonito em sua
boca, fazendo com ela se esquecesse do medo.
Ele tinha usado o termo gaélico para “meu amor”. Margo
conhecia a palavra da tentativa dela em aprender a língua.
Mas antes que ela pudesse considerar as implicações de
Magnus a chamar de amor, Ewan gritou de novo.
— Inclinar e atacar!
As lâminas dos remos desceram, batendo no mar
enquanto o Corvo do Mar avançava em uma explosão de jatos
d’água e aplausos dos homens. Parecia que eles voavam,
atravessando as ondas a uma velocidade incrível. A água,
branca e fria, fazia um barulho agudo ao longo do casco e as
aves marinhas gritavam acima deles enquanto os remos
brilhavam, trazendo o Corvo do Mar a vida.
— Minha nossa! — Margo ia morrer.
— Fique quieta. — O calor da respiração de Magnus tocou
seu queixo. Os dedos dele deslizaram da nuca dela para os
cabelos, entrelaçando-se a eles e depois acariciando. Deliciosos
arrepios desceram pela espinha dela e se espalhou a
acalmando e torturando.
— Oh… — O toque dele era mágico.
— Shhh, eu disse. — Ele massageava a parte de trás de
sua cabeça, deixando o cabelo dela se espalhar pela mão dele.
Em seguida ele a beijou, suave e docemente. Um roçar
lento para trás e para frente sobre os delas e, tão
cintilantemente íntimo, que ela se esqueceu de tudo o que se
referia aos homens nos bancos e o que eles faziam com os
remos.
Ela nem se importava que estava em um navio.
Um navio de guerra medieval.
Magnus a beijava e isso era tudo o que importava.
Nada mais.
Algo que deveria ter importado, se ela soubesse, era do
arrepio gelado de uma mulher pequena, cabelos pretos como o
corvo, sentada em um banquinho em uma cela minúscula e
úmida, há muitas milhas de distância do lago Gairloch e do
Corvo do Mar. St. Eithne's pelo nome, o convento bem que
poderia ter se chamado inferno. Mulheres santas e boas, viviam
calmamente ali, rezando, costurando e oferecendo
mantimentos para qualquer um que chamasse ao portão
pedindo. Mas as freiras de St. Eithne levavam a devoção muito
a sério, evitando todos os confortos e graças para si mesmas e
todas as mulheres que tivesse a infelicidade de encontrar-se
sob os cuidados dessas irmãs.
Donata Greer era uma dessas convidadas indesejáveis.
E se uma serva tímida e pouco cooperativa viesse trazendo
uma tigela de sopa de aveia ao invés de um peito de capão frio
e fatiado ou carnes assadas que ela exigia, ela arranharia o
rosto da miserável criatura com suas unhas envenenadas,
assegurando que ela não a irritaria novamente.
Ela preferia comer a terra do chão ou beber as gotas das
chuvas que caiam pela borda da janela do que sofrer com a
aveia horrível coberta de limo e da cerveja azeda.
As boas irmãs de St. Eithne, claramente não estavam
cientes de sua importância. Ela deveria ter tido algum status
como irmã do falecido Godred Greer, o chefe mais poderoso a
andar pela terra, até Magnus Macbride o matar. Ela também
era amante de Bjorn Moedor de Ossos, um invasor viking
poderoso, que acumulava riquezas e reunia um grande número
de seguidores e que em breve, seria um formidável senhor de
guerra, temido por toda a extensão e largura da costa oeste da
Escócia e mais além.
Acima de tudo, ela era uma bruxa altamente qualificada.
Uma feiticeira que planejava levar sua magia negra para
um nível nunca antes imaginado.
Se ela pudesse se tirar das garras infernais de St. Eithne.
Fervendo, Donata se levantou e chutou o braseiro
enferrujado que continha uma massa de turfa que não era
maior do que o globo ocular de um lagarto. Ela faria melhor, se
despisse e queimasse suas próprias roupas, talvez até mesmo
algumas joias de prata e ouro.
Moedor de Ossos a banharia de tesouros quando ela
escapasse desse lugar miserável.
Mas ela não queria irritar demais as boas irmãs.
Chocá-las com sua beleza despida, poderia inspirá-las a
querer tirar dela. Tais punições eram conhecidas e ela já tinha
experimentara o açoite com vara num canto dos aposentos da
abadessa.
E ela não queria ficar sem seu mingau, tanto quanto ela
detestava a papa.
Ela precisava de suas forças.
Encontrar a mulher perfeita para subjugar Magnus
MacBride tinha custado muito a ela. Ela passou semanas
curvada sobre as runas, lançando e as estudando, sempre
procurando. Até que enfim, a cortina do tempo se abriu,
revelando a fêmea perfeita que ela procurara diligentemente.
Transportar-se para o mundo de Margo Menlove com
intuito de buscá-la quase a quebrara, drenou toda a energia,
deixando-a quase sem poder.
Mas ela era resistente.
Ela se recuperou rapidamente.
E até mesmo se os planos não tivessem saído do jeito que
esperava, o fim de Magnus MacBride, ela agora tinha um plano
muito maior.
Sua ambição era varrer Magnus MacBride e sua amante
da face da Terra.
Ela acabaria com eles e com qualquer pessoa que ousasse
entrar em seu caminho.
Ela e Moedor de Ossos dominariam o mundo.
Se as energias dela não tivessem diminuído, impedindo-a
de acompanhar Margo até a presença de Magnus, ela teria
pegado a Pedra Encantada. Mas ela tinha visto a pedra e
sentido seu poder.
Aquilo era suficiente.
Ela encontraria uma maneira de escapar.
Depois....
Donata pressionou as mãos contra as costas dela e se
alongou, parecendo um gato.
Infelizmente, os horríveis ruídos do campanário de St.
Eithne's sinalizaram que se aproximava o horário do jantar.
Em breve, leves passos iriam até a cela trancada e então,
a pequena escotilha da porta se abriria, um rosto magro e
pálido apareceria para anunciar a chegada de seu mingau
noturno.
Como sempre, Donata assumiria o comportamento
humilde e, aceitaria os restos que elas lhe davam.
E quando ela terminasse de comer, retornaria para seu
banco e para seus feitiços. Ela trabalharia até o amanhecer,
exercendo sua magia mais negra. Enquanto as irmãs de St.
Eithne’s dormiam, ela colocaria seus planos em movimento.
Era apenas questão de tempo.
Capítulo Treze
Os homens de Magnus sabiam que ele a tinha beijado.
Margo tinha certeza.
Ninguém falou nada. Nem mostraram abertamente
nenhum desrespeito. Ainda assim, enquanto ela se encostava
na lateral da plataforma do Corvo do Mar, tentando manter o
equilíbrio, ela podia sentir o desprazer deles ondulando pelo ar.
Com uma ou duas exceções, eles estavam horrorizados que o
líder deles tivesse sucumbido às artimanhas de uma mulher
que eles acreditavam ser uma bruxa.
Nesse momento o Corvo do Mar remava diligentemente
pelo lago Gairloch. Mas quando eles se distanciaram da costa e
Magnus a levou pelo estreito corredor central para a plataforma
da proa, para ela poder observar melhor a proa de ponta alta
cortar as ondas, mais de um remador se afastou dela enquanto
ela passava.
A descortesia era mínima.
Magnus nem tinha percebido.
Margo, cujo coração havia batido apenas pela Escócia,
desejou que os homens não achassem ser tão difícil aceitá-la.
Eles não precisavam gostar dela, embora isso fosse legal. Seria
um bom começo, se eles pudessem reconhecer que ela não iria
sacar um chapéu das costas e evocar macacos voadores.
Ela nem se importaria em ter pequenas criaturas
perversas zumbindo sobre a cabeça, se elas mantivessem o
Corvo do Mar flutuando.
Ela suspeitava que nem mesmo macacos voadores teriam
dificuldade de encontrá-la ali, sem mencionar um dracar com
uma tripulação de barbas longas e olhares ferozes. Respirou
fundo o ar frio e salgado enquanto eles passavam pela orla de
Gairloch.
Ela tinha estado ali, em seu próprio tempo, há um tempo
atrás?
Parecia impossível.
Provavelmente, Wee Hughie e todos os outros da Herança
Turismo pudessem ainda estar no Old Harbour Inn,
aproveitando a Noite das Terras Altas. Mesmo agora, enquanto
o Corvo do Mar acelerou ao lado deles. Tão perto, mas mundos
e séculos separados, um abismo intransponível entre eles.
No entanto ela fizera aquilo…
Ela olhou para Magnus, parado ao lado do remo de
direção com Ewan e um homem mais velho e bondoso que lhe
foi apresentado como Calum, o avô de Ewan.
— Você precisa de algo? — Quando o olhar de Magnus
encontrou o dela, o inocente contato a fez arrepiar e seu rosto
se aquecer, pois ela tinha certeza de que ele sabia que só
precisava olhar para ela, para derreter-se.
— Um gole de uisge beatha29? — Ele deu um tapinha no
frasco coberto de couro, preso ao cinto de sua espada. — O
melhor do espírito das Terras Altas para aquecê-la.
— Não obrigada. — Margo quase engasgou.
Se ela esquentasse mais, entraria em combustão.
E se ela absorvesse qualquer coisa, supostamente potente
como o whisky ela provavelmente ficaria mareada.
O que ela precisava - óbvio, além de Magnus - era estar
em solo novamente. Ela podia ver como algumas pessoas
podiam achar estimulante atravessar as ondas em um navio de
guerra medieval.
Mas ela duvidava que ela se tornaria uma fã da
navegação.
Era malditamente assustador.
A preocupação nos olhos de Magnus lhe dizia que ele
sabia que ela estava aterrorizada. Um medo de verdade que
amolecia seus ossos, por isso, ela preferia pensar no beijo. Em
como ela desejou que ele tivesse aprofundado, saboreando
como tinha sido bom o beijo. Abandonada no momento e em
todas as deliciosas sensações que mexiam com ela, manteve a
mente desligada da água fria e vazia, separadas de seus pés
por apenas algumas tábuas de madeira medieval.
Margo tremeu incapaz de se segurar.
— Nós chegaremos a Badachro em breve. — Seu olhar era
intenso.
As implicações de suas palavras, de que um pequeno e
aquecido chalé com tablado forrado por plaids os esperavam,
fizeram-na ficar ainda mais quente que antes.
Ela estava certa de que seu rosto deveria estar brilhando.
— Por que não aprecia a vista, por enquanto? — Ele
apontou para o ancoradouro, já desaparecendo atrás deles. —
Gairloch é um povoado ocupado. — Margo mordeu a língua, se
perguntando o que ele pensaria de Nova Iorque.
Mas Calum estava próximo dele agora, falando em seu
ouvido. Então ela seguiu seu conselho e se virou para observar
o pequeno vilarejo passar.
Calafrios a percorreram pelo corpo.
As montanhas azuis escuras que abraçavam o porto ainda
estavam lá, do mesmo jeito de quando ela caminhou ao longo
do cais.
Os inconvenientes modernos - oh, como ela gostava desse
termo - não estavam mais na costa. Em vez disso, um bando de
cabanas desordenadas, de tetos de palha e colmo, que seguiam
o caminho da estrada costeira. E onde ela viu o velho pescador
saindo do depósito no cais, agora tinham vários troncos
queimando. Homens de rostos ásperos e rostos vermelhos
trabalhavam no fogo, usando a fumaça para curar o peixe. As
docas ficavam no mesmo lugar que ela se lembrava, mas agora
elas eram pilares de madeira frágil cheios de pesca e barcos
medievais. Uma ou duas elegantes galés medievais, parecidas
com o Corvo do Mar de Magnus, estavam ancoradas nas
proximidades.
Parecia um cenário de filme.
Mas era apenas a vida real.
Este era o sonho da vida dela, tornando ainda mais
perfeito pela neblina que começava a deslizar dos penhascos e
flutuar pela superfície negra e vítrea do lago.
O coração dela acelerou.
Ela nunca se cansaria da névoa das Terras Altas. Ela
rodava e brilhava, um véu delicado que suavizava o dia. Aquele
ainda era um mundo cheio de sons e cores naturais,
demonstrando a origem de cada sentimental mito das Terras
Altas. Ela se virou para Magnus, olhando para a linha dura de
seu maxilar e maçãs do rosto e, por ela estar pensando no
beijo, sua incrível e sensual boca.
Ela admirou seu longo cabelo preto bagunçado pelo vento,
seus ombros largos evidenciados pelas íngremes colinas azuis.
Os seus braceletes brilhavam, rivalizando com o brilho das
cristas brancas de cada ondulação que passava pelo Corvo do
Mar. A consciência dela sobre a presença de Magnus ao seu
lado era tão forte que seu pulso acelerou. Ele realmente
pertencia àquele local, em seu bonito e intempestivo.
Observá-lo com tal grandeza ao redor deles, ajudou a
ignorar as longas e perigosas ondas que quebravam em alto
mar.
Até que um berro indignado quebrou a paz.
— Solte minha camisa ou dormirá essa noite como uma
mulher!
Margo se virou para ver um homem baixo que ela havia
encontrado antes brandindo um punhal em direção à barriga
de um homem maior. Agilmente, o homem menor pulou na
frente de seu inimigo, sua estatura dava-lhe uma vantagem no
espaço apertado do corredor.
O homem maior segurava um trapo no alto, balançando
fora do alcance do outro.
— Você é louco, Dugan? Manter uma camisa após a bruxa
de Greer enfeitiça-la? Eu pedirei que minha esposa que costure
outra para você. Ela…
— Eu não quero outra! — Dugan pulava, tentando pegar o
pedaço de pano sujo. — Esta é minha camisa da sorte, seu
velhaco de pé-chato!
— Magnus! Por favor, faça alguma coisa. — Margo olhou
para ele. Mas ele apenas balançou a mão, cortando o ar; o
gesto dizendo-lhe que os dois homens brigavam as vezes e até
gostavam disso.
Ainda assim…
Margo não gostava disso. Ter atritos era uma coisa.
Homens avançando uns contra os outros com facas era
uma coisa bem diferente e ela não queria ver sangue
derramando.
Ela já tinha visto sangue suficiente na pequena praia em
Gairloch.
— Duas cervejas com Orla e você pode ter sua camisa
fedida novamente. — O homem grande manteve o prêmio no ar.
Dugan, que obviamente possuía uma camisa extra, uma
vez que ele não estava com o peito descoberto, rosnou e fez
outro movimento rápido com seu punhal. Desta vez, ele rasgou
o plaid do homem maior, embora não tenha tirado sangue.
— Você pode comprar sua própria cerveja com Orla. — Ele
ainda estava dançando com seu punhal. — Eu terei minha
camisa.
— Ela está amaldiçoada, não está? As manchas são da
lama que Donata atirou em nós quando a levamos para St.
Eithne’s.
— Não há manchas de maldição, seu idiota.
— Então porque as lavadeiras não conseguem limpá-las?
Elas são as marcas do diabo, é isso que elas são. — O homem
grande fechou a camisa em seu pulso, ameaçando jogá-la na
água.
— Nae! Não faça isso! — Um pânico verdadeiro era
perceptível nos olhos de Dugan.
Largando sua adaga, ele voou sobre o outro homem
enquanto este puxava os braços para trás.
— Espere! — Margo se apressou pelo corredor, pegando o
braço do homem maior sem pensar em suas ações. A surpresa
trabalhou em seu favor e ela tirou facilmente a camisa da mão
dele.
— Os Santos tenham misericórdia! — O gigante saltou
para trás, tropeçando em um banco na sua pressa em afastar-
se dela.
Dugan aceitou a camisa quando ela lhe deu, seu rosto
vermelho mostrava uma mistura estranha, de medo e
apreciação.
— É a minha melhor camisa, vê? — Ele alisou o pano sujo
sobre o braço. — Não me importo que tenha manchas de lama.
Isso traz boa sorte.
— Todo mundo precisa disso. — Margo sorriu para ele,
feliz quando o medo sumiu de seu rosto. — Eu poderia usar
alguma coisa para ter boa sorte também? Mas, — ela decidiu
ter uma chance — eu sei de algo que pode limpar as manchas
de sua camisa.
Os olhos de Dugan se arregalaram.
— As lavandeiras tentaram limpar duas vezes. E, — ele
balançou a cabeça — minha própria esposa lavou três vezes.
— Então diga para elas tentarem novamente. Dessa vez
quando a lua estiver diminuindo. — Margo suspeitava que a
camisa tenha sido lavada com a lua crescendo ou
completamente cheia, a pior época possível para se livrar de
manchas. — Se elas fizerem usando um pouquinho de sabão e
muita água limpa e fria, tenho certeza de que as manchas
desaparecerão.
Se elas não sumissem, ela seria queimada.
Mas como uma harmonista lunar, ela sabia tirar proveito
dos ritmos e ciclos lunares.
A lua minguante era a melhor para trabalhos de casa e
lavanderia.
Valia a tentativa.
— Lua minguante, é? — Dugan inclinou a cabeça olhando
para ela.
No leme, Magnus parecia divertido.
Margo ficou mais ereta.
— Exatamente. Sua esposa pode vir me procurar se tiver
alguma dúvida.
— Direi a ela, farei isso. — O pequeno homem se curvou.
Depois ele correu pelo corredor, tomando seu lugar no banco
dos remos. Ele se virou para ela antes de sentar-se. — Eu lhe
agradeço, Lady Margo.
— O prazer é meu. — Margo se esforçou para falar, uma
vez que sua garganta se fechara.
Quem diria que um homem pequeno chamado Dugan
poderia fazê-la chorar?
Ou ajudar a quebrar o gelo com a tripulação de Magnus?
— Você agiu bem.
Magnus falou bem atrás dela, perto de seu ouvido. O
coração dela deu um pulo. Ela podia sentir o calor dele fluindo
até ela enquanto ele colocava suas mãos nos ombros dela e a
virada para olhá-la diretamente.
— Eu não sabia que, além de bonita, você também era
uma defensora dos necessitados. — A voz dele ficou um tom
mais profundo, as palavras queriam falar por si mesmas.
— Dugan não me pareceu necessitado. — Margo olhou
para ele, se perguntando se ele adivinhava o quanto ela o
queria. — Ele teria feito sérios estragos com seu punhal se
quisesse.
— Ele não teria feito porque ele e Brodie são grandes
amigos. — Ele manteve as mãos nos ombros dela e a conexão
enviou ondas de prazer por todo corpo dela. — Brodie teria
jogado a camisa no mar. Ele é supersticioso e acha que Donata
amaldiçoou a roupa.
Margo tremeu, como se uma nuvem tivesse encoberto o
sol.
— Ela realmente jogou lama em Dugan? — Ela acreditava
que sim.
— Donata luta como uma gata dos infernos quando
irritada. — Magnus fez círculos com seu dedo pela nuca dela,
intensificando as sensações físicas já insuportavelmente
sensuais. — Lama, gravetos, pedras e qualquer coisa que ela
pudesse pegar, foi o que me disseram. Eu não estava lá quando
meus homens a levaram para o St. Eithne’s, um convento onde
ela é mantida em uma cela.
— Ainda assim, ela apareceu para mim. — Margo franziu
o cenho, o toque dele dificultando os pensamentos. — Eu vi a
imagem dela.
— Você viu. — Ele deu um passo para trás, correndo uma
mão pelo cabelo dela. — Donata não saiu da cela no St.
Eithne’s, mas sua bruxaria lançou um disfarce. — Margo
estremeceu. — Isso a torna mais perigosa, pois não pode ser
contida. É tudo o que temos.
O rosto dele clareou e um sorriso se formou nos cantos
dos lábios.
— Hoje é um dia cheio de coisas boas.
Margo piscou.
— O que?
— Aqui está você, parada no meio do corredor e sem
apoio. — Ele coçou o queixo, a observando. — Confie em mim,
você nem ao menos está oscilando.
— Oh! — Margo balançou, agarrando-se a ele para não
cair. — Eu não posso...
— Você estava indo bem até eu falar. — Ele a pegou pelo
braço, levando-a, passando pelos homens nos remos até a
escuridão suave do abrigo, provocado pela lona de vela na
plataforma da popa do Corvo do Mar.
Ele a soltou apenas o tempo eficiente para desfazer os
laços na beira da tenda improvisada. A pesada aba se soltou,
separando-os do grande corredor central e dos remadores.
— Assim está melhor. — Ele falou com voz áspera
enquanto checava a aba, aparentemente para ter certeza de
que fechava propriamente.
— Nós entraremos em mar aberto em breve. Você estará
protegida aqui.
Quando ele se virou para ela, seus olhos escureceram e o
fizeram cruzar o pequeno espaço entre eles. Uma centelha de
luz atravessou um pequeno espaço do canto do abrigo,
iluminando o aço de sua longa espada. A visão fez o coração
dela acelerar, recordando-a de quem ela era e onde eles
estavam.
Ela mordeu o lábio, inalando profundamente.
— Margo.
A forma como ele falara o nome dela, Mar-go, as duas
últimas letras subindo a cadência após ele prolongar a letra r,
quase a desfez. O coração dela acelerou em seu peito. Uma
fome dolorosa começou em algum lugar profundo dentro dela.
Feroz e insistente, agarrava com tanta força que ela receava
quebrar.
Ele estava olhando-a, mas ela não era capaz de falar.
Em seguida, ele estava bem em sua frente, tão perto que
ela não sabia afirmar se o rugido em seus ouvidos era o próprio
sangue ou o dele.
— Você é maravilhosa. E eu… — Ele interrompeu,
balançando a cabeça.
Margo avaliou o rosto dele, esperançosa, cheia de
expectativa.
— Eu nem sei o que fazer com você. — O tom dele ficou
mais rouco. — Eu quero você. — Mais uma vez, ele pôs a mão
no ombro dela e a encarou. A aba fechada do abrigo, silenciava
os rangidos e esguichos dos remos do navio e até os grunhidos
dos remadores. A intimidade do espaço escuro e estritamente
confinado era alta. Uma consciência vívida pulsava entre eles,
engrossando o ar. A antecipação, excitamento e todos tipos de
emoções, inflavam e corriam ao redor deles, tornando as
palavras desnecessárias.
Margo poderia dizer que ele sentia a mesma potente
energia.
Ela mal podia respirar.
— Diga-me, moça… — Ele levantou uma mecha do cabelo
dela, deixando os fios escorregarem entre os dedos. — Se a
mulher de Dugan lavar a camisa dele na lua negra, a lama de
Donata realmente desaparecerá?
— Devem. — Margo tentou não suspirar quando os nós
dos dedos dele acariciaram sua bochecha. — O aumento e o
declínio da lua afetam vários aspectos de nossas vidas. Toda a
natureza se curva aos ritmos e ciclos dela. Aqueles que a
observam e — ele estava passando os dedos pelo cabelo dela
agora, sensações deliciosas borrando tudo, menos o toque — a
estudam podem fazer muito para ajudar outras pessoas se eles
quiserem.
— Você é uma sábia? — O tom dele mostrava
divertimento.
Margo ficou feliz por ele não dizer bruxa.
— Não. — Os olhares deles se encontraram, quase
intoxicado pelo toque dele. — Sou uma mulher que sempre foi
fascinada pela lua e fez o esforço para aprender o que podia.
Em minha — ela ia dizer outra vida, mas ela não disse as
palavras, pois toda a situação parecia muito surreal — cidade
natal, New Hope, eu trabalho como uma harmonista lunar,
aconselhando aqueles que veem até mim.
— Então você é uma profetiza? — Um sorriso leve surgiu
em sua boca.
— Não, não sou. — Margo balançou a cabeça. Se ela fosse
uma bruxa, ela trabalharia em um feitiço que a impediria de
voltar para o assento no Espada de Somerled. — Sou
simplesmente uma…
— Você é uma linda mulher que cheira a neve gelada do
inverno e rosas. — Ele fechou os olhos brevemente e inalou,
como se saboreasse o cheiro dela. Quando ele abriu os olhos,
tocou a face dela, traçando com as costas de sua mão, toda a
curva de sua bochecha.
Ele descansou toda sua mão contra o lado de seu rosto.
— Você é uma admiradora da lua.
— Eu sou. — Ela precisou respirar fundo quando sentiu o
calor aumentar entre eles. Formigamentos inflamavam sua
pele, doces rios de calor derretido escorrendo por todo corpo,
despertando e acalmando-a.
Ela olhou-o, percebendo o forte pulsar em seu queixo. Ele
a queria tanto quanto ela o desejava.
E isso não era apenas uma intensa atração física. Era
mais. Era algo incrivelmente poderoso que vinha do mais
profundo ser. Talvez dos confins distantes das almas deles,
apesar de soar brega.
Mas Margo gostava do brega.
A mãe dela costumava dizer que ela tinha nascido velha.
Tinha sido sua maneira de expressar o que Margo preferia
pensar como nascida fora do lugar e do tempo, como seu pai de
cérebro esquerdo, não fantasioso, cheio de lógica.
Agora ela estava onde ela sempre deveria estar. O homem
que ela sabia poder amar por toda vida e muito mais, estava
acariciando seu rosto e dizendo que ela cheirava a ar puro e
frio e a rosas de verão.
E tudo que ela tinha que se preocupar era em aceitar um
pedaço de felicidade antes que a sua sorte se levantasse e lhe
tirasse isso.
Essas coisas aconteciam em sua vida.
Ela quase podia sentir o velho Murphy - da Lei de Murphy
- deslizando ao redor dela e de Magnus, assistindo e esperando,
esfregando as mãos em antecipação.
Empurrando seu antigo inimigo para fora de sua mente,
ela voltou para algo mais perigoso.
— Você acha que nós deveríamos voltar depois para
Gairloch e procurar a Pedra Encantada? Eu duvido que a
encontremos. Não agora, mas...
— Eu ordenei que um de meus navios ficasse lá, assim a
tripulação poderia vasculhar a praia. —Ele ergueu uma
sobrancelha, observando.
— Você não notou que eles não saíram conosco?
— Não. —Ela não tinha visto nada além de grandes
lençóis de mar voando ao longo do casco do Corvo do Mar e as
duas cabeças de corvos, vermelhas e pretas, montadas nas
pontas do barco. Ela não quis nem ao menos olhar para os
outros barcos, cada um igualmente aterrorizante.
— Bem. —Ele deslizava o dedo pelo pescoço dela, como se
experimentasse a textura. —Eles estão lá agora, procurando.
Se encontrarem a pedra, eles a levarão até o mar e a jogarão lá.
Algo tão poderoso não tem lugar aqui.
— Há muitas pessoas de coração negro, cheios de
ganância e almas negras como Donata que usariam a pedra
para o mal. — Ele franziu o cenho, parecendo feroz novamente.
— Orosius instruiu meus homens, explicando a eles o que
procurar. E ele também falou que talvez eles encontrem apenas
pedras similares.
— Ele está certo. — Margo pensou em tudo o que ela leu
sobre as pedras. — As Pedras Encantadas das Terras Altas
apenas se revelam quando desejam. Pelo menos é o que diz a
lenda. Seus poderes são ilimitados. Dizem que se sentirem
ameaçadas ou desejarem se esconder, de alguma forma, elas
são capazes de conjurar inúmeras pedras gêmeas tão rápido
quanto o piscar de olho.
— Algumas pessoas acreditam que a Pedra Encantada
pode até mesmo desaparecer e reaparecer em qualquer outro
local, milhas de distância do lugar original. Embora...
Margo parou quando ele pôs as mãos em seu rosto
novamente, o calor da palma de sua mão marcando-a. Ela
queria se inclinar na mão dele, implorando para que não
quebrasse o contato. Ela era tão consciente da proximidade
dele, tão perto que a respiração deles se misturavam. A partilha
íntima começou a fazer seu sexo se apertar.
— Embora? — Ele ergueu uma sobrancelha, esperando.
— Ah… — Margo se mexeu, um desejo urgente
aumentando dentro dela. Ela meio que se perguntava se ele
havia feito algum feitiço de desejo sobre ela... Ela limpou a
garganta.
— Por mais poderosa que seja a magia de Donata, ela
pode direcionar sua energia? Eu nunca saberei se foi o feitiço
dela ou a pedra que me trouxe para cá. Se ela é a dona da
pedra, vai querer de volta. Se a pedra não era dela e ela viu o
que aconteceu, ela virá atrás, na esperança de usar a magia. —
Magnus franziu o cenho.
— Guardas mais fortes serão colocados no St. Eithnes. Ela
nunca mais terá um momento sem observação para tecer seu
véu sombrio.
Margo não tinha certeza.
Ele recordou como os olhos da imagem no redemoinho
ficaram prateado. Da bola de fogo que ela tirou do ar e atirou
no mar. Margo sentiu um calafrio percorrer sua espinha e o
silvo da bola de fogo ao bater na água novamente em seus
ouvidos. Donata praticava a magia mais negra e suas
habilidades eram inigualáveis.
— Ela me dá medo. — Ela não queria admitir isso.
— Você não tem nada a temer. — Ele pegou o rosto dela
entre suas mãos, olhando dentro de seus olhos. — Donata
quem precisa ter medo; não você. Se ela soprar um mau desejo
para você, eu a levarei para um lugar pior do que o St.
Eithne’s. Há guardiões mais desagradáveis do que as boas
irmãs do convento.
— Ela não pode te tocar aqui. — Ele acariciou sua
bochecha, ainda a olhando dentro dos olhos. — Você está
segura aqui.
— Seus homens… — Margo parou de falar, seu rosto
queimando.
Ela mordeu a língua, não querendo causar problemas
dentro do navio.
— Ninguém vai machucá-la. — Ele deslizou as mãos para
a cintura dela, seus dedos fortes a segurando por cima da
grossa pele de urso. — Eles sabem disso. — Ele falou,
segurando-a com firmeza a medida que o Corvo do Mar
mergulhava em uma depressão e saía do outro lado. — Eu não
poupo homens que machucam mulheres. Nem um sequer.
Ele falou ferozmente, a dureza em seus olhos evidenciando
suas palavras.
Margo anuiu. Ela começou a puxar ar profundamente
quando o Corvo do Mar mergulhou novamente, as madeiras
chiando enquanto o mar espirrava por sobre as lonas.
— Agggh! — Margo jogou os braços ao redor do pescoço
dele.
— Não foi nada, moça. Algumas ondas, nada mais. — Ele
atenuou as ondas gigantes. Mesmo assim, manteve um braço
ao redor dela, uma sólida faixa de ferro. Ele passou o outro
braço na lateral da plataforma, prendendo-a na proteção de
seus poderosos braços.
Eles estavam tão perto agora, o ar da respiração dele em
seu rosto, seus lábios quase tocando os dela.
— Oh, Deus… — Margo enrolou os dedos nos cabelos dele
à medida que as sensações tomavam conta dela. Eu acho… —
ela não conseguiu terminar.
— Margo. Valquíria. — Ele inalou profundamente, tenso,
enquanto a expressão mudava, seus olhos escurecendo com
um olhar que ela só podia descrever como uma necessidade
crua e selvagem.
Em seguida ele grunhiu e a puxou rudemente contra ele.
Sua boca colidiu com a dela, dura e rápida, e ele a beijou
profundamente. Nada parecido com o beijo suave e sensual que
ele havia dado antes. Este era ousado e devorador e tão
inebriante, que tudo ao redor desapareceu. Nada mais existia,
além de sua boca saqueando a dela e a sensação do corpo forte
e musculoso a pressionando.
— O-o-oh… — Ela se derreteu, saboreando a paixão e o
calor do desejo com o calor da língua dele. Ele a puxou para
mais perto, aprofundando o beijo, sua boca quase esmagando a
dela. A respiração deles se misturando e isso era glorioso, a
intimidade despertava uma necessidade ardente nas veias dela.
Ela suspirou de prazer, encorajando-o, desejando mais.
Ele cheirava a mar, plaid e madeira queimada.
Era uma mistura inebriante, tão rica, terrosa e masculina
que ela quase desmaiou. Ela o tomava com ganância.
Ela também sentiu o duro inchaço de sua excitação contra
sua barriga. Mesmo através do manto, o desejo dele por ela era
forte e insistente. E a prova tangível do desejo dele a preenchia
com triunfo.
Ela o queria, e muito.
Ela formigava em todos os lugares, emocionantes ondas de
excitação rolando através de seu corpo, a força do desejo
pulsando em seu núcleo. Um grito baixo e puramente feminino
escapou enquanto ela se agarrava nele. Com o coração
martelando, ela devolveu seus beijos de língua emaranhada,
perdidos na névoa em meio ao abandono total deles. Ele
manteve o beijo, sua boca exigindo cada vez mais, quente e
voraz, ele a reivindicava.
Até que as águas ao redor se acalmaram e o Corvo do Mar
parou de balançar. O curso mais calmo funcionou como um
balde de água fria e ele se retesou e encerrou o beijo,
afastando-a dele.
— Desculpe-me, moça. Eu não deveria ter feito isso. Não
agora, no mar. — Ele deu um passo para trás, passando a mão
pelos cabelos. — Preciso mantê-la à salvo e não permitir que
meu desejo por você me distraia. Estas águas são túmulos. —
Seu rosto ficou furioso novamente e ele olhou para a aba do
abrigo. — Não há lugar para mulheres ao longo da costa.
Margo mal o escutava. Ela pressionou uma mão sobre o
peito, precisando se acalmar. A excitação ainda rodopiava
dentro de lugares necessitados, urgentes e exigentes.
Ela respirou instável e profundamente, seu olhar ainda
preso ao dele e o coração batendo rapidamente em suas
costelas.
Ninguém nunca a havia beijado com tanto ímpeto.
Ela tinha escutado falar sobre beijos duros e
contundentes. Agora que ela conhecia a glória deles. E ela
ansiava por mais, seu corpo correspondia, até agora, ao prazer
residual que tinha tomado o corpo dela.
Ele a olhou, o calor sensual ainda emanando dele.
Assim como ela, ele claramente não desejou ter que
abandonar o prazer. Mesmo assim, ele tinha uma expressão de
preocupação.
— Não deixarei que nada aconteça a você.
— Não estou com medo. — E ela não estava. Ela sabia que
ele a manteria segura, sempre.
— Não precisa mesmo, eu lhe disse. — Ele acariciou a
nuca dela, seu toque enviando uma nova onda de deliciosos
arrepios. — Mas o perigo existe. Eu não posso me permitir
esquecê-los.
Ele se aproximou novamente, seus poderosos braços
enfeitados com os braceletes a alcançaram. Ele apertou os
ombros delas, abaixando os olhos para ela enquanto o
inebriante perfume masculino se elevava entre eles. As pernas
delas se enfraqueceram, o desejo a assaltava novamente. No
espaço apertado, o cheiro dele era mais forte, uma mistura tão
característica quanto o odor intoxicante de urze e turfa das
Terras Altas.
Margo engoliu em seco, queimando-se por ele.
Inalar o odor dele era estar no paraíso, mas ainda assim,
não perto o suficiente.
Os olhos dele estavam quentes novamente. A chama
faminta que ela identificou lá, a fez desejar ter o corpo dele
sobre o dela novamente. Mais do que isso, ela queria se deitar
com ele. Ela queimava por tê-lo dentro dela, possessivo e a
completando.
Ela nunca sentiu tanta necessidade por um homem com
tanto desespero.
A intensidade com que ele segurava os ombros dela diziam
que ele sentia o mesmo referente a ela.
— Magnus… — Ela ergue a mão para traçar a linha dura
da mandíbula dele, depois deslizando levemente por sobre os
lábios, permanecendo ali. Ele passou a ponta da língua nos
dedos dela. O contato a fez estremecer até os dedos dos pés a
deixando próxima de um orgasmo.
Em seguida ele franziu o cenho e se aprumou, abaixando
os braços.
— Eu não posso fazer isso agora, moça.
— Por favor. — Margo estava pronta para implorar. A
qualquer momento ela iria se estilhaçar em milhões de
pequenos pedaços.
Ele a soltou, olhando novamente para a aba do abrigo.
— Eu preciso ficar com meus homens, no remo principal.
— Ele não se moveu, seu olhar a queimando. — Minha
tripulação irá...Maldição!
Ele a puxou rudemente até ele, agarrando a parte de trás
de sua cabeça enquanto ele colava a sua boca contra a dela em
outro beijo de tirar o fôlego e enfraquecer joelhos. Ele passou o
braço ao redor dela, mantendo-a tão perto que ela podia sentir
o pulsar do coração dele.
— Eu a deixarei agora, doçura. — Ele passou a mão pelo
rosto dela e depois se afastou. — Esta lona não é apenas para
sua privacidade. Os invasores nórdicos competem por essas
águas e eu não tenho cabeça para lutar contra eles com você a
bordo. E eles viriam como abelhas para uma colmeia se vissem
sua cabeça brilhante no meio de meus homens feios e
barbudos. Eu não porei sua vida em risco. — Ele agarrou o
cabo de sua espada, a mesma lâmina medieval que ele erguia
aos céus na ilustração do livro. — Não estamos muito longe do
lugar que procuramos. Fique aqui até que eu venha buscá-la.
— Ficarei. — Margo concordou, o medo arranhando-a
novamente. Uma batalha marítima contra vikings não era algo
que ela queria experimentar. — Eu sei que você cuidará de
mim. — Ela sabia, mas o alerta dele a fez ficar com um nó no
peito. — Não há vikings ao redor, há? Não desde que nós… —
Ela deixou a voz morrer, não querendo mencionar a Pedra
Encantada e o cenário brutal na praia.
Ele estava prestes a abrir a aba do abrigo, entretanto ele
fechou as mãos em punhos, amassando o tecido pesado.
— Os nórdicos estão ao redor sim. Suas hordas pagãs
estão nessas águas agora, mesmo que não os tenhamos visto.
Eles se escondem no meio da neblina e ao longo da orla das
pequenas ilhas rochosas, espreitando de algum lugar qualquer
para surpreender quem eles escolheram atacar. Eles são uns
diabos que farão mais do que machucá-la se você cair nas
mãos deles. Coisas tão cruéis que — uma sombra negra passou
pelo rosto dele — você será tentada a escapar do horror de
qualquer maneira.
— Não deixarei isso acontecer com você. — O olhar dele
queimava e um músculo tremia em seus olhos. — Mulher
nenhuma merece sofrer com os ataques deles.
— Não tenho medo. — Não era verdade, mas não
importava.
Ele não a escutara.
Ele estava olhando um passado que ela não podia ver. E
quando ele apertou sua mandíbula e segurou o cabo de sua
espada, com tanta força que os nós dos dedos, ficaram
brancos, ela compreendeu o que alimentava a raiva dele.
Uma mulher.
A percepção trouxe ondas afiadas e ofuscantes de ciúmes.
Pensar nele beijando outra mulher como ele a havia beijado a
deixava doente. Imaginar ele fazendo amor com alguém mais,
ela sabia que ele seria incrível na cama, estava além do que ela
poderia lidar. Saber que ele amou alguém, parecia que haviam
enfiado uma faca em seu coração.
Ela sabia que estava se comportando terrivelmente por
sentir-se assim. Mas ela não conseguia evitar.
Ela o queria só para ela.
— Os vikings mataram sua esposa, não foi? — Margo
sabia que iria para o inferno, pois as palavras sua esposa
deixaram uma sensação muito amarga em sua boca.
A designação teve um grande poder, uma vez que ele
arregalou os olhos e se sacudiu como se alguém com a mesma
força dele, o tivesse atingido no estômago.
Ela teria dado qualquer coisa para ser a mulher que
significou tanto para ele.
— Eu não tenho uma esposa. — Sua voz era baixa e fria,
como se viesse de um local distante e gelado. De alguma forma,
ele não gostava de lembrar. — Minha noiva tirou a própria vida
antes que os invasores vikings a pudessem violentar. — A
sombra retornou ao rosto dele e, dessa vez, ficou. — Ela enfiou
uma adaga em sua barriga, preferindo a morte do que
prostituir-se para os nórdicos que queimaram a vila dela.
— Meu Deus! — Margo o encarava.
— Foi Orosius quem descobriu a verdade sobre a morte
dela. — Ele a olhava, seu bonito semblante embrutecido pela
dor. — O espírito dela veio até ele, querendo que eu soubesse.
Como um leitor de runas, ele é mais acessível às coisas do
outro mundo, ou assim ele diz.
— Foi bom saber o que aconteceu. — Ele pôs a mão no
queixo. — Mas isso não muda nada. Liana ainda está morta.
A onda verde de ciúmes que a varrera ao imaginar ele
casado se transformou em vergonha.
— Eu sinto muito… — Ela se aproximou dele, mas antes
que ela o alcançasse, ele se virou e atravessou a aba do abrigo,
antes que ela desse dois passos.
A dor dele permaneceu no espaço apertado de uma forma
tangível, ácida e terrível. O horror da perda dele a rodeava. Ela
podia sentir infiltrar-se em seus ossos. Era por essa razão que
ele se tornara o Assassino de Viking.
Ele era um herói de verdade.
E neste momento, ela queria apenas abraçá-lo.
Esta noite, se ela ainda estivesse nesse mundo, ela
tentaria e faria ele esquecer toda a dor.
Capítulo Catorze
— Badachro está quieta.
Na proa do Corvo do Mar, Magnus olhou para o jovem
guerreiro ao lado dele. Ele concordava com a afirmação de
Ewan. A Baía de Badachro parecia vazia.
Mas não ter sinais de viking não queria dizer que eles não
estavam lá, escondidos em algum lugar. Essa era uma
realidade que Magnus conhecia bem, tanto que ele manteve o
olhar afiado enquanto o Corvo do Mar avançava.
— Pacífica ou não, ainda temos que ter dois homens
vigiando em Sgeir Ghlas esta noite. — Magnus olhou para
Ewan. — Você, e estou pensando, e Dugan. — Ewan sorriu.
— Da última vez que atracamos aqui, você ficou de guarda
na pedra cinza. — Ele olhou para a ilhota estéril e depois para
o abrigo de lona do outro lado do barco. — Será que vai fazer
sua cama na popa do Corvo do Mar desta vez? Eu iria. — Ele
olhou para Magnus. — Se a moça me quisesse.
— Tome conta de sua língua, se quiser mantê-la. —
Magnus bateu no ombro do rapaz para comprovar suas
palavras. — Agora volte para o remo de direção antes que seu
avô nos jogue nas rochas. Ele não é mais o timoneiro de
outrora. — Ele pegou o braço de Ewan antes que este se
afastasse. — Não vá dizer a Calum que eu disse isso.
— Não direi. — Ewan sorriu novamente e se foi.
Magnus olhou na direção da lona apenas para ver Margo
afastar o pano pesado o suficiente para observar as altas
colinas cobertas de árvores pelas quais passavam. Os picos
mais altos estavam escondidos por uma pesada névoa e os
olhos dela brilhavam como se exatamente lá, se deliciasse com
a névoa azul descendo. Quando ela abriu o abrigo mais um
pouco e pôs a mão no peito, ele soube que estava certo. Ela
estava emocionada com a névoa.
O peito dele se apertou ao observá-la. Há muito tempo que
ele não parava para olhar para uma coisa simples como a
bruma marítima e se sentir maravilhado. Provavelmente não
desde que ele era um menino e sua mãe lhe contava histórias
em que a névoa das Terras Altas era o reino das fadas e que
aquela luz era os brilhos de suas roupas e varinhas.
Ele ouvia admirado. E ele acreditava em cada palavra.
Até que a dura realidade da vida, naquelas bonitas
paisagens o ensinaram o contrário.
O aperto em seu peito se transformou em dor, um desejo
por algo que ele perdeu e não sabia como recuperar. E piorou
quando sentiu que Margo percebeu que ele a olhava e, ao invés
de voltar para o abrigo e fechar a aba, ela o encarou.
A expressão dela se suavizou, os enormes olhos azuis
viam a alma dele, ele tinha certeza. Mas quando ele estava
prestes a se dirigir até ela como um jovem, ela deixou a aba
abaixar.
Ele esperou que ela espionasse novamente, ele podia
sentir que ela queria, como se estivessem de algum modo
conectados e ele pudesse ler a sua mente. Mas o abrigo nem se
mexeu.
O momento tinha passado.
E ele precisava manter sua atenção na água e terra ao
redor, examinando por qualquer sinal de vikings. Os dias de
procurar por fadas voando pela neblina tinham passado. Então
ele se virou para a proa e respirou fundo o ar gelado que
soprava do norte.
Ele deu boas vindas ao alívio que lhe trouxe.
Ewan estava certo.
Badachro estava quieta.
Das cabanas de palha de junco espalhadas pela costa, via-
se a fumaça azul da queima de turfa, assegurando que os
pescadores que viviam ali não estavam em problemas. Seis bois
grandes e gordos pastavam atrás das choupanas, perto da
entrada do bosque. Aqueles eram animais de Magnus, cada um
deles um animal premiado, que haviam sido trazidos, um
tempo atrás, para serem usados como iscas em Redpoint.
Magnus coçou o pescoço, esperando que tudo saísse
conforme o planejado.
Propenso a manter isso, ele espreitou ao redor da costa
novamente, procurando por qualquer pequena indicação de
armadilha.
Ele não viu nada.
Não havia docas ali. Várias embarcações de pesca
balançavam na baía e outros até tinham sido arrastados para a
praia, repousando além da linha da maré. Um pequeno cão
arranhando e cheirando uma pilha de algas secas. Algumas
galinhas magras bicavam o chão perto de uma das cabanas.
Nada se moveu.
Uma luz fraca brilhava na cabana de Orla, o que queria
dizer que ela tinha visita. Magnus franziu o cenho enquanto
olhava para a casa dela. Caiada de branca e coberta com urze
fresca e grossa, a cabana era a estrutura mais robusta e
afastada da vila. A porta vermelha estava fechada e ele não
tinha errado: um suave brilho amarelo iluminava as duas
janelas. Magnus sabia que ela atendia em todas as horas. E ele
não apreciava interromper o trabalho dela. Suas entranhas
também doíam só de imaginar o que a mulher faria com Margo.
Acima de tudo, ele esperava que Margo não entendesse de
maneira errada a amizade dele com a outra mulher.
Orla era tão atraente quanto perceptiva.
Ela também era uma inestimável ajudante.
Magnus esperava que ela não o decepcionasse.
Em breve ele saberia, pois Ewan estava habilmente
guiando o Corvo do Mar em direção a vertente inclinada,
preparando-se para deslizar o navio sob o cascalho.
Precisando ter certeza de que tudo estava bem, Magnus
lançou mais um olhar ao redor das águas quietas.
Mas ele não perdeu nada.
Nenhuma embarcação nórdica espreitava a baía,
escondendo-se de sua presença pagã atrás das pequenas ilhas
que guardavam a entrada. Os inimigos estiveram ali, ele podia
senti o cheiro deles enviado pela brisa marinha antes. Ele
estremecia por ter Margo a bordo durante qualquer encontro.
Seria ruim suficiente que ela estivesse ali em Redpoint.
Franzindo a testa, ele tocou o cabo de Vingança, sabendo
que a enseada coberta de vermelho seria um cenário de
matança.
Um aviso necessário para os inimigos, especialmente após
o ocorrido em Gairloch, seus planos para Redpoint não
poderiam ser evitados.
Ele iria assegurar que Margo ficasse segura e bem longe
do derramamento de sangue.
Por agora, ele caminhou pelo corredor central do barco,
com passos rápidos, em um instante ele alcançou o abrigo de
lona e a mulher que era responsável pelo nó em seu peito,
assim como, pela dor quente e latejante em seus quadris.
— Margo. — Ele abriu a aba antes que seu bom senso o
alertasse para deixá-la onde ela estava. — Você já pode sair
agora. Não há mais necessidade de olhar escondido, moça. Não
há perigo aqui.
— Sem vikings? — ela estava na sombra, mas havia luz
suficiente atravessando a abertura, para que ele pudesse ver a
pergunta não feita nos olhos dela.
— Não há perigo algum. — Ele se abaixou pela abertura e
foi até ela. Pegou seu rosto com ambas as mãos. — Eu não a
deixaria desembarcar se achasse que era perigoso para você.
— Então… — ela hesitou, os olhos azuis brilhando na
escuridão do abrigo. — Nada acontecerá que possa me causar
dor?
— Nae. Você tem minha palavra. — Ele olhou dentro de
seus olhos, sabendo que ela não falava dos saqueadores
nórdicos.
Ela queria dizer ele.
Ele queria se assegurar de que o desejo escaldante que
queimava o ar toda vez que eles estavam perto não a
queimaria.
Ele já estava pegando fogo e tinha certeza de que ela
sabia.
E ele via a preocupação no fundo dos olhos dela. Ela
poderia não admitir suas preocupações e poderia amar a
Escócia - qualquer idiota via que ela amava - mas ele sabia que
deveria ser duro para ela se encontrar em um país estranho
cercada de perigos que ela nunca enfrentou antes.
Ele precisava de garantias.
Ele acariciou o cabelo dela e pôs uma mecha atrás da
orelha e, em seguida se inclinou para beijar sua sobrancelha.
— Enquanto estiver comigo, você terá minha proteção. —
Ele não mentiria e não prometeria nada mais. Não sabendo que
ela poderia ser arrancada dele a qualquer momento, e enviada
de volta ao distante local que ela dizia viver. — Não deixarei o
seu lado.
— Obrigada. Mas eu não quero ser um estorvo em seu
navio. — Ela se aproximou dele, a fragrância de ar fresco de
inverno e rosas veio junto com ela, provocando e zombando
dele. — Tentarei usar minhas pernas no mar. — Ela adicionou,
a determinação em seu queixo inclinado, fazendo o coração se
apertar.
— Você fará. — Ele pegou-a pela mão, entrelaçando os
dedos com os dela enquanto a levava para fora do abrigo,
entrando no estreito corredor do navio. — Agora venha. Meus
homens vão ancorar, deixando-nos em Badachro. — Ele
apontou para a água e para o cume de uma rocha cinza, que
era Sgeir Ghlas. — Depois eles levarão o Corvo do Mar para
atracá-lo em uma das ilhas pela noite.
Ela seguiu seu olhar, parecendo mais calma do que
esperava.
— Onde fica a pequena choupana com fogo à lenha e
cama de plaids? — Mantendo uma mão na borda da
plataforma, ela deu as costas para a Pedra Cinza para analisar
a costa, estudando as cabanas gramadas dos pescadores antes
de fixar a vista na cabana de Orla. — Aquela ali parece
substancial. — Ela estreitou os olhos.
— Aquela é a cabana de Orla. — Magnus tentou manter
um tom neutro. — Ali, além das linhas das árvores. — Ele
apontou para o lado oposto da baía. — Aquela é a pequena
cabana que eu falei. Você não pode vê-la por causa das
árvores. Há anos que ninguém vive lá. As pessoas a usam para
se abrigar apenas.
— Não vejo nada. — Ela se esticou, tentando ter uma
visão melhor e Magnus viu que os lábios dela estavam
inchados devido aos beijos dele.
A suave maturação a fazia parecer vulnerável e
incrivelmente desejável. Como se ela adivinhasse, ergueu uma
mão para tocar sua boca.
— Oh, meu… — Ela traçou a curva de seus lábios com a
ponta de um dedo. Ao bater no seu lábio cheio ela parecia
testar a maciez. Ela arregalou os olhos, seus dedos ainda
explorando a boca.
— Eu devo parecer horrível…
— Nae. — Magnus mal podia falar. O olhar dele estava
congelado no dedo dela, no vislumbre de sua língua quando ela
abriu levemente os lábios. — Você parece... você é… — ele
fechou a boca, ciente que estava gaguejando.
Pior, seus homens o estavam olhando fixamente.
Ele olhou para cada um deles até que eles desviassem a
vista.
Em seguida ele se voltou na direção de Margo e se
arrependeu imediatamente. A visão dela tocando os lábios com
as pontas dos dedos o endureceu. E quando ele juntou as
sobrancelhas, ela passou a língua pelo lábio inferior.
Magnus quase rugiu.
Algo dentro dele se apertou e isso foi tudo que ele pode
fazer para não a agarrar e saquear sua doce boca novamente. E
dessa vez, ele a beijaria por horas e horas, provando e a
tomando incessantemente, saciando-se dela até que o sol rosa
da manhã surgisse e se fosse novamente. Depois ele começaria
tudo de novo.
Ela o enlouquecia.
E algo lhe dizia que ela estava fazendo isso de propósito.
— Segure ela, Magnus! — Ewan alertou no minuto em que
o Corvo do Mar começava a entrar na baía em direção à costa
inclinada.
— Oh, Deus! — Margo empalideceu e se agarrou a
Magnus, apertando bem forte.
— Tudo vai ficar bem. — Ele passou um braço ao redor
dela, puxando-a contra ele. — Nós vamos parar em um
instante.
— Inverter remos! — A voz profunda de Calum explodiu ao
lado de seu neto enquanto os remadores revertiam os remos.
Tudo ao redor era água espirrando e espumando devido aos
longos remos agitando a rebentação, os remadores habilmente,
impedindo que o navio batesse nos cascalhos.
Então o Corvo do Mar parou deslizando pelas águas
agitadas cerca de três metros da costa. Sabendo que havia
apenas uma maneira de Margo sair da embarcação, Magnus a
ergueu em seus braços, levando-a até a proa.
— Dugan, venha aqui! — Ele olhou para o pequeno
homem enquanto ele caminhava pelo corredor do navio. Dugan
tinha mais força que homens três vezes maiores que ele.
E, ao contrário dos outros guerreiros a bordo, ele não se
veria tentado a derrubá-la na água quando ele a pegasse dos
braços de Magnus.
Para provar isso, Dugan abriu as pernas e aprumou o
corpo, sorrindo.
— Você vai me levar para terra firme? — Ele os alcançou,
ansioso. — Tomarei conta da lady...
— Espere! — Margo se contorceu, observando as fortes
ondas. — Eu não estou pronta a ir a qualquer lugar. Eu gostei
do abrigo de lona…
— Você estava ávida para ver a terra. — Magnus a pegou
com firmeza. — Agora está quase lá. Pare de se remexer.
— Mas…
Ignorando-a, Magnus se virou para Dugan.
— Há outros para protegê-la. Você ficará com Ewan em
Sgeir Ghlas. Apenas segure a dama para mim. — Rapidamente
ele a passou para os braços de Dugan e se virou antes que ela
tivesse tempo para protestar ou ficar com medo.
Ou assim ele esperava.
Porém quando ele voltou para buscá-la, enquanto Dugan
a abaixava pelas laterais, ele viu que ela fechara os olhos. E
seu rosto estava fantasmagoricamente branco.
Magnus entendia. As águas alcançavam o quadril e
estavam geladas. Só que as fortes correntes a tornavam difícil
até mesmo para ele se manter em pé.
— Tenha cuidado! — Ele rosnou para Dugan, não
gostando do sorriso insensato do idiota.
Mas o homenzinho a pegava com gentileza, colocando-a
nos braços de Magnus com tanto cuidado como se tivesse com
alguma coisa verdadeiramente preciosa.
Assim como ele fazia.
Essa verdade, fez com ele a erguesse ainda mais alto, de
modo que ela parecia quase montar no seu ombro enquanto ele
andava e observava Ewan levando o Corvo do Mar para fora da
praia em direção às águas profundas da baía.
— Venha nos buscar ao nascer do sol! — Ele assentiu
bruscamente quando Ewan respondeu com um floreio,
abaixando os remos e se despedirem rapidamente antes que o
Corvo do Mar virasse uma nuvem de jatos d’água em direção à
Pedra Cinza e outras ilhas.
Agora ele estava sozinho na praia com Margo.
Ou eles estariam assim que ele saísse das águas geladas.
Ela estava tão rígida quanto uma pedra.
— Você já pode abrir os olhos, moça. — Magnus
mergulhou nas ondas, indo para a praia. — Nós estamos em
terra firme novamente.
— Eu não chamo isso de firme. — Margo não mexeu um
cílio.
Não ainda.
— Não vou deixar você cair, Mar-go. — Magnus acariciou
o pescoço, depois deu uma mordidinha na orelha dela para em
seguida jogá-la mais alto sobre o ombro dele. — Não precisa
olhar, se prefere esperar. Nós estamos quase na praia.
Margo queria acreditar nele.
O roçar no pescoço e a mordida na orelha faziam a pele
dela formigar, proporcionando uma distração bem-vinda.
Mas ela ainda não estava pronta para olhar.
Manter os olhos fechados a deixava em um mundo que era
frio, úmido e escuro. Enxergar isso poderia ser pior. Ela nunca
acreditaria em espionar embaixo das pedras. Coisas feias
sempre espreitavam ali, esperando para atacar. Esta era uma
daquelas vezes que ela deixaria as pedras quietas. Ela não
precisava olhar para saber que o mundo ficara desagradável.
Ondas geladas batiam neles e ela sentiu Magnus
escorregar uma vez. Pior, o estalo e o mergulho dos remos dos
navios enchiam o ar, um barulho terrivelmente perto que ela
esperava que um dos longos remos os atingisse a qualquer
momento, empurrando-os para as águas, onde eles se
afogariam.
Se o apocalipse estivesse próximo, ela não queria ver a
chegada dele.
Ela não era tão corajosa.
Mas depois as ondas pararam de salpicar sobre eles e o
cheiro de fumaça de turfa e pinho eram fortes e se misturavam
ao vento gelado da estação com cheiro de sal. Ela também
sentiu cheiro de comidas cozinhando, talvez um guisado rico e
saboroso, à medida que eles chegavam a terra e Magnus a
carregava acima das ondas e subia a costa inclinada.
— Chegamos, você notou? — Ele a abaixou, mas manteve
a mão na cintura dela, segurando-a. — Nós chegamos e em
breve você estará aquecida e terá roupas novas e secas. — Ele
olhou em direção à cabana de portas vermelhas lá no final da
pequena baía. — Orla é quase do seu tamanho e terá tudo o
que precisa.
— Ela não vai se perguntar quem eu sou? — Margo estava
dividida entre o desejo de tirar o manto pesado e agora
molhado de pele de urso de Orosius e hesitante em conhecer
uma "mulher alegre" medieval.
Uma mulher que, obviamente, se dava muito bem com
Magnus.
— Orla é uma amiga e nada mais. — Magnus segurou o
rosto dela, seu olhar ficou sombrio ao repetir o que ele já havia
falado para ela.
— Muitas mulheres são amigáveis até elas sentirem a
concorrência. — O argumento escapou antes que ela pudesse
morder a língua.
Magnus deslizou as mãos pelos ombros e depois ao longo
dos braços dela para depois abraçá-la.
— Você não tem concorrência. — A voz dele era baixa e
rouca e seu olhar intenso. — Você nunca teve, se quer saber a
verdade.
O coração de Margo apertou. — Eu sei que você
esteve...você deve...
— Você não ouviu o que eu disse, aye? — Ele espalmou a
mão sobre a bochecha dela. O calor dele a acariciando. — Eu
disse ninguém.
— Eu… — Margo calou-se quando os pescadores
começaram a sair de suas cabanas, reunindo-se
desordenadamente para olhar para ela e Magnus.
Eles não pareciam hostis. E nenhum deles fez uma
tentativa de se aproximar, ficaram em um círculo fechado,
perto de suas cabanas cercadas por gramados. O pequeno
cachorro estava mais excitado do que nervoso.
E a cauda dele balançava.
Ainda assim…
Margo engoliu em seco, recordando como os homens de
Magnus rapidamente a consideraram uma bruxa.
— Eles estão apenas curiosos. Estavam me aguardando.
Mas estão surpresos em encontrá-la.
Ele se virou e caminhou até eles, saudando àqueles que o
chamavam.
— Vocês terão três bois em breve. — Sua promessa
arrancou sorrisos. — As feras serão de vocês, depois de
Redpoint.
Os sorrisos viraram gargalhadas.
Um menino de ombros finos e usando um plaid
esfarrapado começou a dançar uma jig.
Magnus sorria ao assistir o pequeno duende e uma
covinha apareceu em seu rosto.
— Enviarei mais de Badcall e um belo par de porcos. —
Magnus gritou e Margo ficou surpresa quando os aldeões não
se jogaram no chão para reverenciá-lo.
Eles estavam muito felizes.
Ela olhou para Magnus intrigada.
— O que é tudo isso? — Ela não tinha entendido nada do
que ele dissera. Ela tinha visto apenas que os aldeões o
idolatravam.
— Explicarei depois, na cabana. — Ele não estava olhando
para ela. Ele colocou as mãos nos quadris enquanto observava
os aldeões entrando em suas casas.
Eles pareciam ter se esquecido que ela estava ali.
Magnus não tinha.
Ele se voltou para ela e seus olhos estavam ameaçadores
novamente, fazendo com que ela se recordasse da imagem dele
no livro. Como no desenho os longos cabelos dele voavam com
o vento e, como se ele pudesse ouvir os pensamentos dela, ele
levou sua mão para o cabo da espada, seus dedos fortes o
circulando. Os braceletes brilhavam intensamente e seu plaid
molhado se moldava a ampla e musculosa extensão de seu
peito. Ele estava de pé com as pernas separadas, a postura de
guerreiro a deixando sem ar.
Ele era o sonho dela tornando-se realidade.
Estar perto dele, respirar o mesmo ar, ouvir sua voz bonita
e profunda e ver a paixão dele... tudo isso acendia uma chama
fervente de desejo dentro dela. Ela estava quase tonta de tanto
que o queria.
E ela queria mais do que fazer amor com ele. Ela queria
que ele cuidasse dela com o mesmo fervor ardente que ela viu
quando ele parou para falar com os pescadores.
Ela sabia agora que ele nunca a amaria. Nenhuma mulher
poderia competir com um fantasma, especialmente não com
um martirizado.
Mas ela esperava que ele pudesse se preocupar com ela.
— Aquelas pessoas têm sofrido muito. — Ele ainda olhava
para os aldeões, observando os últimos deles entrando em suas
humildes casas. — Eu fiz um juramento de fazer tudo o que
pudesse para mantê-los seguros e poupá-los da dor.
As palavras dele atravessaram o coração dela.
Ela estremeceu devido ao vento. O tempo estava fresco, o
céu escurecendo com nuvens pesadas, mas um calor profundo
se espalhou dentro dela, ficando cada vez mais quente quando
ele tocou sua mão, entrelaçando os dedos.
— Vamos, agora. — Ele a levou pela curva da praia,
contornando a linha da maré até perto da margem das árvores
em direção à cabana limpa e caiada de branco com a porta
vermelha.
Margo se apressou atrás dele, uma mão segurando o
manto de pele de urso para evitar que ele se abrisse. As pedras
frias se moviam sob seus pés descalços, dificultando a
caminhada. E várias vezes ela tropeçou, escorregando no
cascalho. Mas Magnus a segurava em todas as vezes,
firmando-a e dando um momento para que ela reestabelecesse
o equilíbrio.
Foi depois de um desses tropeções que ela viu um brilho
prateado nas árvores.
— Magnus. — Ela congelou, analisando a região no meio
dos pinheiros. — Acho que vi alguma coisa nas árvores. — O
sangue dela gelou ante a possibilidade. — Acho que era o
brilho de uma armadura.
— Era. — Para surpresa dela, ele riu.
— Você viu também?
— Nae. — Ele recomeçou a caminhar, mostrando-se
despreocupado. — Mas eu sei que há homens no bosque. Eles
são meus guerreiros. Eles eram da tripulação de um dos meus
outros navios, o Dançarino de Ondas — Ele parou
rapidamente, olhando para os pinheiros escuros antes de se
mover. — Calum tinha ordens para enviá-los para cá. Eles vão
vigiar a cabana enquanto nós dormimos, ficando de guarda
para me alertar se algum inimigo se aproximar.
— Oh. — Margo estava tanto aliviada e, ela acreditava,
que desapontada, porque ela estava certa que ele quis dizer que
iriam fazer amor na pequena cabana.
Ela ainda tinha quase certeza, e isso só aumentava o nó
em sua barriga.
Privacidade podia não ser um grande problema nos
tempos medievais, mas ela não estava disposta a ficar nua e ter
intimidades com um círculo de homens de caras duras,
armados com espadas e machados dentro de um espaço
audível.
A ideia enviou uma onda de calor por seu pescoço.
Magnus sorriu e apertou os dedos dela.
— Você não perceberá que eles estarão lá. Foi ordenado
que eles ficassem a uma boa distância.
Margo sentiu o rosto queimar ainda mais, principalmente
após as palavras dele. Era horrível que parecesse óbvio que ela
esperava que eles se amassem. Mortificada, ela respirou
profundo e calmamente.
Isso não ajudou.
E quando eles começaram a caminhar novamente, ela
bateu o dedo contra uma pedra.
— Ai! — Ele vacilou quando ela agarrou o pé que latejava.
— Eu não vi…
— Acalme-se. — Ele a pegou nos braços, segurando-a bem
perto de seu peito enquanto alcançavam o fim da baía e se
aproximavam da casa da "mulher alegre". — Eu deveria ter te
carregado o caminho inteiro.
— Eu não me importo em caminhar. — Ela não se
importava, mas estar nos braços dele era melhor.
Mesmo assim ela queria estar sob os próprios pés quando
ela conhecesse Orla.
— Você pode me descer agora. — Ela analisava a cabana,
temendo a chegada deles. — Meu dedo não dói tanto assim…
— O queixo dela caiu e seu protesto engasgou na garganta
quando a porta vermelha se abriu e Orla saiu e parou na
pequena escada de pedra da cabana.
— Deus do Céu! — Margo olhava para a outra mulher, o
coração disparado enquanto Magnus a abaixava, indiferente.
Margo era tudo, menos indiferente.
Ela estava chocada até o seu âmago.
Ela só podia olhar, descrente, enquanto Orla sorria em
saudação, gesticulando para que eles entrassem.
Orla tinha um rosto que ela reconhecia.
Ela podia ser a gêmea de Marta Lopez.
Capítulo Quinze
— Magnus, faz muito tempo desde que você apareceu em
minha porta. — Orla esperou que Magnus e Margo entrassem,
depois pegou os braços de Magnus e ficou nas pontas dos pés
para dar um beijo na bochecha dele.
Margo via tudo atordoada. Espanto e surpresa se
misturavam em seu peito, arrepios a tomavam. O ar ficou preso
na garganta, ficando agradecida pela mulher dar atenção para
Magnus antes, dando tempo para que ela se recuperasse antes
de ser forçada a reagir.
— Estava esperando que você aparecesse. — Orla os levou
para dentro da cabana iluminada por velas, seus olhos
castanhos e amorosos avaliando Margo, o sorriso cheio de
acolhimento.
E aquele era o sorriso de Marta. E os magníficos olhos
chocolate a olhando.
Eram olhos bonitos, ornados com cílios grossos e pretos e
tão familiares. Eles tinham um brilho de conhecimento secreto,
como se Orla entendesse exatamente a razão pela qual Margo a
encarava, ainda incapaz de falar.
E a razão estava além de Orla parecer tanto com Marta.
A casa dela parecia uma versão medieval da Vosso Velho
Tempo Pagão.
Encantadoramente feminina e com as mesmas velas de
cera com cheiro de óleos essenciais, o chalé tinha teto baixo e
com um grande feixe de luz. Toda variedade de ervas e flores e
folhas secas pendiam das vigas grossas e pretas e o chão de
pedra parecia bem varrido. Pedaços de troncos, tigelas de
madeira de pinho e inúmeros seixos e pedras enchiam as
grossas bordas das janelas e prateleiras dispostas
artisticamente entre duas paredes. Uma cortina grande e
xadrez estava pendurada em um canto, escondendo
discretamente o dormitório de Orla, um nicho onde, de acordo
com Magnus, ela exercia sua profissão quando os homens a
chamavam.
Marta teria amado a cabana.
Patience e Ardelle teriam desmaiado. O coração de Margo
se apertou ao imaginar como os olhos das três mulheres se
acenderiam de admiração se estivessem ali. Elas andariam ao
redor, examinando tudo e exclamando seus deleites, julgando a
cabana como perfeita.
Isso a fazia se sentir quase em casa.
Magnus parecia fora de lugar. A cabeça dele quase
alcançava as vigas pretas e pesadas do teto e ele tinha que se
abaixar para evitar as folhas e flores penduradas. Olhando por
cima dela e de Orla em direção a bandeja de bolos de aveia
fresco e queijo assado sob uma mesa. Ao lado uma jarra de
cerveja e três copos dispostas de maneira convidativa. Um
punhado de velas queimava perto, suas chamas douradas dava
a cabana uma atmosfera acolhedora.
Magnus pigarreou, visivelmente desconfortável.
— Três copos de cerveja, Orla? — Ele olhou para sua
amiga, uma sobrancelha erguida interrogativamente.
— Magnus. — Margo enrubesceu, o significado de sua
pergunta era óbvio.
Os olhos de Orla apenas brilharam de divertimento e ela
riu.
— Eu ainda deixo tais delícias para meus amigos de
trabalho menos exigente. — Ela anunciou sem embaraço
algum. — Na verdade… — Ela levantou o queixo e o encarou,
os cabelos pretos iluminados pela luz da lareira. — algo me
dizia que você traria uma amiga aqui hoje.
— Humph. — Magnus franziu o cenho. — Não comece
com essas coisas. Já ouvi o suficiente sobre segunda visão e
jogar runas de Orosius. Não preciso que você…
— Eu tenho uma intuição feminina, nada mais. Isso é
tudo. — Ela sorriu para Margo. — Além do mais, minha casa é
tão próxima à natureza — ela apontou para os tesouros
dispostos ao redor da cabana — que me permite observar e
descobrir verdades que outras pessoas nunca notarão.
— Eu também confio em meus sonhos. — Ela arrumou o
cabelo atrás da orelha ainda olhando para Margo. — Todas
mulheres têm. Essa é a razão de sermos mais inteligentes do
que os homens.
— Você acha? — Magnus não parecia impressionado.
— Acho. — Orla sorriu para ele e pegou a mão de Margo,
conduzindo-a para um banco baixo encostado na parede,
ajudando-a a sentar. A personalidade dela, tão sensata e
discreta lembrava tanto à sua amiga que uma sensação terrível
de calor se formou na garganta de Margo. Ela piscou
rapidamente para não se embaraçar.
Orla balançava a cabeça ao inclinar-se sobre ela, tirando
um tecido suave de linho de uma cesta perto do banco.
Parando bem perto, ela usou o tecido para retirar a água
salgada dos cabelos e do rosto de Margo.
— Posso ver que você foi judiada, mo ghaoil. — Ela
escolheu o mesmo termo gaélico de afeto que Magnus. E ela
olhava para ele agora, uma ruga marcando sua testa. — O que
você fez com ela, hein?
— Nada, como provavelmente você sabe. — Ele parou
perto da lareira central do chalé, aquecendo suas mãos diante
do fogo mais estranho que ela já vira. As chamas eram azuis,
roxas e douradas, como se elas assobiassem e cuspissem,
dançando quase sinuosamente no topo de uma elegante e
pequena mesa de madeira retorcida em tons prateados. —
Margo é de uma terra distante do sul. — Ele improvisou,
evitando os olhos de Margo. — Ela é a única sobrevivente de
um naufrágio. Nós a encontramos no norte de Gairloch e
trouxemos a bordo do Corvo do Mar.
— Encontraram? — Orla arqueou uma sobrancelha
indicando que não acreditava em uma única palavra.
Mas ela segurou a língua, deixando o tecido de lado e
esfregando as mãos.
— Então você veio procurar por suprimentos para ela,
hein?
Ela olhou para Margo, piscando, como se elas
conspirassem sobre algo que Magnus não sabia.
— Como se fosse… — Ela batia no queixo, analisando ao
redor do chalé de um cômodo como se procurasse por alguma
coisa.
Margo a observava, atraída pela "mulher alegre" naquele
momento. Ela tinha o que Patience chamava coração.
E ela deu uma outra piscada rápida para provar isso.
— Pode ser. — Orla recomeçou a falar. — Que eu coloquei
em algum lugar, alguns artigos que serviriam em Margo. Dois
vestidos e uma camisa de linho, um manto elegante de lã e um
par macio de cuarain de couro. — Ela parou e Margo ficou feliz
em saber que cuarain era a palavra em gaélico para sandálias.
— Além de algumas outras frivolidades.
— Eu preciso liberar espaço para minhas pedras e coisas
do tipo. Eu tenho um quarto pequeno… — Orla deu de ombros
com um sorriso brincando nos lábios. — darei com muito
prazer esses artigos, se quiser. — Ela olhou para Margo
esperando. — Creio que servirá.
— Sou muito grata por isso. — Margo respondeu sem
hesitar.
Ela não poderia continuar andando por aí pelada e
enrolada em um manto de pele pesada e descalça.
E ela tinha certeza de que as doações de Orla seriam do
tamanho exato dela. Ela e Marta frequentemente trocavam
peças de roupas nos fins de semana e em ocasiões especiais.
Fazer isso, permitia que cada uma delas vestissem algo
diferente sem a despesa de comprar uma roupa nova.
— Eu pus tudo em uma bolsa de couro. No entanto… —
Orla começou a dar tapinhas em seu queixo novamente. — eu
não possa lembrar onde...
— Chega, Orla. — Magnus pegou o pulso dela, abaixando
o braço. — Como você sabia que eu traria Margo aqui?
Orla riu.
— Os homens do Dançarino de Ondas passaram por aqui
há pouco tempo. Ofereci uma bebida e — ela deu de ombros
novamente, um tom afetuoso. — homens falam quando estão
apreciando uma boa cerveja e outras coisas.
— Eles te contaram sobre ela? — Magnus pareceu
surpreso.
— Eles mencionaram o chalé no bosque e que eles
ficariam de vigia. — Orla foi até a mesa e encheu os três copos
com cerveja e oferecendo para Magnus e Margo antes de pegar
um para ela mesma. — Como eu sei que você nunca ordenaria
à sua tripulação proteger seu sono, ficou claro que você queria
proteger algo muito mais precioso. E, — ela deu um gole na
cerveja, sorrindo para ele sobre a borda do copo — o que é
mais precioso para um homem do que a mulher dele?
— Margo não é… — Magnus apertou a boca com força;
Orla ergueu uma sobrancelha.
— Percebeu? Mulheres são sábias.
— Intrometidas, pode-se dizer. — Magnus mantinha-se
teimoso.
— Talvez, não negarei. — Orla abaixou o copo, sua
expressão ficou séria. — Ouvi algo perturbador de um visitante
não muito tempo atrás. — Ela lançou um olhar para Margo e
depois para Magnus. — São notícias preocupantes.
— Você pode falar claramente. — Magnus cruzou os
braços.
— Não quero assustar alguém que não é acostumado com
a vida aqui. — Novamente ele olhou para Margo, os olhos dela
pareciam dizer muito mais do que palavras. Como se ela
soubesse que Margo estava, genuinamente, fora de seu lugar.
— Eu vi uma batalha viking. — Margo desejava não ter
visto tal horror. Ela estremeceu antes que pudesse se
controlar.
Orla atravessou rapidamente a sala, colocando um braço
reconfortante ao redor dela.
— Elas não são esquecidas facilmente, não é? — Ela deu
um aperto no ombro de Margo e depois foi até a jarra de
cerveja, servindo mais um copo a Margo.
— Nós todos somos visitados por tais horrores em nossos
sonhos, não somos? Mas… — Ela recolocou a jarra sobre a
mesa — minhas notícias são aterrorizantes em uma maneira
diferente. — Ela olhou para Magnus. — Famílias inteiras
desapareceram de suas fazendas sem deixar vestígios. Houve
três casos até agora. Todos no interior do lado oeste de
Gairloch.
— Ninguém sabe o que aconteceu. — Ela olhou entre
Margo e Magnus. — Não há sinais de luta ou até mesmo um
pingo de sangue. De acordo com o que ouvi, eles simplesmente
sumiram de suas casas. Famílias desaparecendo dessa forma é
preocupante.
Margo olhou para Magnus. Ela não ficou surpresa em ver
a expressão de um guerreiro feroz novamente. Os olhos dele
brilharam e ele chegou a coçar a nuca.
— Não me importo como isso soa. — Ele franziu o cenho
encarando Orla. — Mas me avise se ouvir algo mais. E, se você
vir — ele hesitou — uma mulher pequena, de cabelos escuros,
usando um manto preto e que cobre seus pulsos e tornozelos
com prata que emitem sons...
— A feiticeira, Donata Greer? — O rosto de Orla
endureceu. — Eu nunca suportei essa mulher. A última vez
que soube dela, estava no St. Eithne’s. Sua captura gerou uma
agitação entre os nórdicos. Nenhum deles pareceu chateado
quando você matou o irmão dela, Godred. Mas, há uma raiva
latente por você ter trancado Donata em um convento.
— Mas por que você pede isso? — O olhar de Orla voltou a
pousar em Margo. — É por ela o ter amaldiçoado?
— Bah! — Magnus fez o gesto de cortar o ar com a mão. —
Seus murmúrios não podem nem talhar o leite.
Margo sabia que ele falava para ajudá-la.
Donata Greer provavelmente poderia alterar o eixo da
Terra se desejasse.
Nada do que ela fizesse surpreenderia Margo.
Mas a menção ao nome dela mudou a atmosfera.
O brilho nos olhos de Orla diminuiu e ela parecia
preocupada. Magnus a fazia lembrar um tigre enjaulado,
furioso por estar confinado e pronto para atacar assim que
pudesse dobrar as barras e se libertar.
Seu rosto estava duro e sombrio, os olhos brilhando
perigosamente.
— Nós pegaremos as roupas e depois iremos, Orla. — Ele
inspecionou a sala, sua expressão furiosa ao não achar a
desejada bolsa de couro. — Há muito o que fazer e…
— Oh, eu sei. — O semblante de Orla suavizou-se
enquanto ela pegava uma pedrinha polida da borda da janela,
girando-a na palma de sua mão.
Magnus ergueu as sobrancelhas.
— Não ficarei para ouvir suas histórias, Orla. Não as desse
tipo. Essas pedrinhas não são runas, embora você alegue ver
coisas nelas.
— Eu vejo. — Orla sorriu. — Não nelas, mas eu leio a
projeção delas.
Um arrepio percorreu a espinha de Margo. Marta lia tarô.
Naquele instante, ela sentiu-se tão perto de sua amiga que
a saudade a agarrou como uma jaula de ferro ao redor de seu
peito. Sua respiração ficou presa novamente. Especialmente
quando Orla a fitou com a fisionomia quase melancólica
enquanto devolvia cuidadosamente, a pedra ao beiral da janela.
Margo se levantou, ciente que a paciência de Magnus
diminuía.
Ele cruzou os braços, seu olhar na mesma altura da
mulher alegre.
— O que quer que você acha que sabe, Orla, alerto para
manter apenas para você. Não quero escutar histórias
estranhas por toda a costa. Se eu ouvir, minha próxima visita
não será amigável.
Orla não se mostrava preocupada.
— Você deveria me conhecer melhor. — Ela analisou
Margo. — Sua dama sabe.
— Eu já disse, ela não é minha dama.
Orla riu. Então ela o pegou pelo braço e o levou pela sala.
— Espere aí fora enquanto eu ajudo Margo a se vestir. —
Ela mal tinha acabado de pronunciar as palavras, manobrou-o
através do limiar da porta e a fechou atrás dele.
Ela se virou para Margo.
— Ele pode ser um brutamonte aterrorizante, mas tem um
bom coração por baixo de suas carrancas e arrogância. E…, —
Ela inclinou-se sobre um plaid que cobria uma sacola de couro
perto da porta — ele está há um longo tempo sem mulher.
Muitos e muitos anos. Ou eu acredito que assim seja.
Margo sentiu sua face aquecer.
— Ele não estava mentindo. Não sou a “dama dele”.
Embora ela desejasse ser.
Margo respirou fundo, recordando a paixão com que ele
falou da mulher que amava.
— Ele me contou sobre Liana. Ela era…
— Liana era uma criança inocente. — A voz de Orla era
respeitosa, mas não particularmente carinhosa. — Uma boa
moça, com certeza, e bonita. Mas...
Orla colocou a bolsa em um banco e a abriu.
— Eu não acredito que ela teria feito Magnus feliz, se a
vida dela tivesse... — ela hesitou, claramente não desejando
detalhar a morte da jovem. — sido diferente. Ela desejava bebês
e uma família, mas um homem necessita de muito mais.
Ela se debruçou sobre a bolsa, os cabelos pretos caindo
sobre o rosto, escondendo sua fisionomia.
— Se eles não precisassem, não haveria mulheres como
eu. — Margo mordeu o lábio, incerta de como responder. Ela
gostava de Orla e não queria ofendê-la.
— Liana era casta? — Margo escolheu um assunto mais
seguro. Ela certamente iria para o inferno porque isso
importava para ela e esperava que a jovem mulher fosse
virgem. Isso queria dizer...
O coração dela começou a disparar, um desejo ardente a
queimava, mostrando que, com certeza, ela iria para o inferno.
— Sim, Liana era pura. — As palavras de Orla
confirmaram a suspeita de Margo. — E assim ela morreu.
Magnus nunca a tocou e nem em outra mulher desde então,
apesar de muitas tentarem atrair seus olhares. Ele vive apenas
pela vingança.
— Há muitas de nós — o tom de Orla ficou agitado,
provando o quanto ela se importava com o seu amigo — que
acha que ele está sozinho há muito tempo. Ele precisa de uma
esposa não apenas para ficar sentada do lado dele na cadeira
mais alta e gerar seus filhos, mas que o fará dormir bem
durante a noite. — Ela falou com tanta franqueza que as
palavras fizeram Mago enrubescer.
— Alguém para esquentar o sangue dele, fazê-lo queimar e
recordá-lo que ser um homem é mais do que carregar uma
espada e matar vikings.
Margo não sabia o que dizer.
— Acho que a vingança é importante para ele.
— Bah! — Orla irritou-se. — Tenho certeza que assim é, e
com razão. Mas ele precisa se lembrar que há outras coisas
importantes na vida. Coisas que permanecerão quando a
vingança terminar, as lâminas das espadas enferrujam e
perderem o fio e os poderosos ombros começarem a afinar e
afundar. O amor verdadeiro queima para sempre, moça.
Nenhum poder na Terra pode diminuir isso. E, — havia algo na
voz da mulher alegre — eu acredito que é a razão para você
estar aqui. — Orla que até então estava puxando roupas de
dentro da sacola, endireitou-se analisando Margo, de cima a
baixo.
— Você é uma mulher desejável e ele a deseja. Uma
mulher de força e coragem. — Ela adicionou.
As palavras familiares causaram uma série de arrepios em
Margo.
Uma mulher de força e coragem.
Essas foram as exatas palavras que Dev Doonie usou no
Festival Escocês de Bucks County e as repetiu no Museu da
Agricultura e Pesca de Gairloch.
Margo engoliu em seco, quase certa de que o chão havia se
aberto sob seus pés.
Orla olhou para suas pedrinhas no parapeito da janela e
depois para Margo.
— Amizades verdadeiras nunca são desfeitas também,
minha dama. Aqueles que nos amam profundamente, o farão
sempre, não importa onde estejam.
Margo piscou.
As palavras da outra mulher eram estranhas. E tão
apropriadas que o coração dela se apertou tão forte que chegou
a doer.
Seus olhos estavam ardendo mais uma vez, o
aconchegante chalé começou a ficar ofuscado.
Ela esperava ver Orla de novo.
Se por algum milagre ela ficasse, ela pediria a Magnus
para trazê-la em visita a Badachro. Ela insistiria, mesmo se a
viagem significasse sofrer o martírio de embarcar no Corvo do
Mar.
Ela olhou para os lados, não querendo que Orla notasse a
sua emoção. Mas a outra mulher já se agitava sobre ela,
acariciando seus cabelos e habilmente abrindo o grande broche
celta que prendia o manto de pele de urso ao redor do pescoço
de Margo.
O momento inusitado se fora, fugindo no momento em que
Orla tirou o manto dos ombros de Margo, deixando-a nua
diante da estranha chama de fogo azul.
Então, saindo do nada, ou assim lhe pareceu, a mulher
alegre surgiu com um pequeno balde de água fumegante com
cheiro de rosas e um pano de linho. Cantarolando baixinho, ela
se encarregou de ajudar uma arrepiada Margo a tomar banho.
Não foi até um pouco tempo depois, vestida como uma
mulher escocesa medieval e com Magnus a levando para dentro
do bosque de pinheiros grossos que Margo recordou algo que a
fez sentir outro calafrio.
A canção que Orla havia entoado enquanto ajudava-a a se
banhar e vestir era a melodia favorita de Marta, que a
cantarolava baixinho e com frequência enquanto ela estudava
as cartas do tarô.
A lembrança fez o sangue de Margo pulsar.
E deu-lhe tanto consolo como se Marta, Patience e Ardelle
estivessem caminhando ao lado dela na trilha no bosque. Mas
em seguida, pensamentos de outra natureza se apossaram
dela, quando as árvores repentinamente diminuíram e uma
pequena cabana com paredes de turfa apareceu bem em frente
a eles.
A cabana no bosque. Eles chegaram. Chegara a hora.
Capítulo Dezesseis
— Espere, moça. — Magnus parou a poucos passos da
cabana, esticando um braço para impedir que Margo passasse.
— Há urtigas em volta da porta. — Ele apontou para a
pequena cabana e Margo viu a vegetação rasteira, espessa e
verde se aglomerando no caminho estreito.
Ela também captou o brilho prateado do mar, avistado à
distância, apenas visível entre as árvores. Ela tirou a franja da
testa e olhou ao redor.
Frondosos pinheiros faziam o bosque parecer mais escuro
e o ar frio e cortante, cheirando a sal e resina. Eles estavam
subindo e a cabana ficava em um local mais alto da colina do
que ela notara. Parecia frio, vazio e esquecido.
As urtigas na porta estavam na altura da cintura. Magnus
sorriu olhando para elas.
— Fique onde está, doçura, e você não sentirá nem uma
picada sequer. — Avançando, ele sacou sua espada e ceifou o
arbusto, cortando os espinhos até que eles se tornassem
inofensivos.
Embainhando sua espada, ele caminhou até ela e a
ergueu em seus braços, beijando a testa dela.
— Você viu? Um homem pode usar sua espada de muitas
maneiras. — Ele abaixou a vista para ela e seus olhos
escureceram com o calor que ela lembrava do abrigo a bordo do
Corvo do Mar. — De mais modos do que há estrelas em uma
noite estrelada.
Margo soube que ele não estava mais falando da longa
espada medieval presa em seu quadril. O significado real fazia
a mais pura feminilidade incendiar-se dentro dela.
Com um estremecimento de antecipação, ela inalou
profundamente o ar gelado com cheiro de pinho enquanto ele
trabalhava na fechadura da cabana. A umidade havia inchado
a madeira e ele teve que dar um forte empurrão para fazer a
porta abrir. O ar mofado, gelado, cheirando a folhas velhas e
terra argilosa os recepcionou.
— Você ficará segura aqui, moça. — Ele parou na abertura
escura, estreitando os olhos enquanto a abaixava. — Nem
vikings e nem a feiticeira Gree chegará perto daqui esta noite.
— Ele a puxou para bem próxima de si. — Mas, não posso
proteger você de mim mesmo. Se tiver outra coisa em mente,
diga agora e eu terei meus homens, que estão no bosque te
levando de volta para o Corvo do Mar. Eles não porão a mão em
você, eu prometo.
— E você? — O coração estava disparado. — E as suas
mãos?
— Minhas mãos… — Ele respirou irregularmente. — a
verdade é que quero minhas mãos percorrendo toda sua pele
nua e macia.
— Eu quero isso também. — Margo não acreditava que ela
acabara de dizer aquilo.
Mas duas palavras circulavam em sua mente, forçando-a
a ser ousada.
Forte e corajosa.
— Margo. — Ele se abaixou e a beijou com força e rapidez.
— Você não vai se arrepender. — Ele interrompeu o beijo,
sussurrando as palavras contra a sua bochecha.
— Eu sei… — Ela mordeu o lábio inferior dele e depois
deslizou a língua.
Forte e corajosa, forte e corajosa….
Estas eram as suas palavras de luta.
E ela sabia que se vacilasse, mostrando dúvida ou
hesitação, os olhos de Magnus se fechariam e ele ergueria seus
escudos, pois sua honra e senso de dever jamais permitiriam
que ele pudesse “tirar vantagem” de uma mulher que poderia
não estar completamente interessada.
E ela estava mais do que interessada.
E ela desejava Magnus com tanta força que seria capaz de
superar suas sombras para fazê-lo dela.
Como se ele adivinhasse, ele a puxou, esmagando-a contra
ele, praticamente tirando todo o ar de seus pulmões.
— Margo… — Carregando-a com segurança, ele se
abaixou para atravessar o limiar da porta e a colocar de pé no
chão de terra batida. — Você vai me deixar de joelhos, moça.
Há muito tempo...
Ele a puxou novamente, pegando o rosto dela entre suas
mãos e a beijando profundamente. Beijos de língua lentos e
lânguidos.
Cada beijo a torturava e a derretia, curvando os dedos dos
pés à medida que seus olhos se acostumavam à escuridão da
cabana. Quando ele a afastou, dando uns passou para longe
dela, Margo ofegou.
— Alguém deve ter vindo aqui. — Ela deu a volta,
examinando o pequeno espaço de um cômodo, incrivelmente
apertado e com cheiro de terra. O piso havia sido varrido e as
paredes e tetos estavam livres de teias de aranha. A prometida
cama feita de plaids pareciam limpos e recém-empilhados, e
alguém havia colocado um cesto coberto com um pano cheio de
mantimentos e uma jarra de cerveja no chão perto da porta.
O mais revelador de tudo era o monte de troncos de
madeiras prateadas e retorcidas esperando para serem acesos
na lareira no centro do quarto.
— Orla fez isso. — O coração de Margo se aqueceu.
Magnus deu de ombros.
— Ela deve ter feito. Ordenei que meus homens
preparassem o lugar, mas eles não teriam tanto cuidado.
Margo ajustou o xale de lã suave que Orla a tinha dado.
— Ela é uma boa mulher.
— Você é uma linda mulher. — A voz de Magnus se
aprofundou, suave e rica como um uísque encorpado. Ele tocou
um dos lados de seu rosto, traçando com um dedo para baixo
da curva de sua bochecha e depois da linha do queixo.
— Nunca desejei uma mulher tão ferozmente. Você me
enfeitiçou, Margo?
— Não. — Ela mal podia respirar. — Mas se algum tipo de
magia nos uniu, e parece que era a única forma de nos
conhecermos, então eu não me arrependo. — E ela não se
arrependia.
Só de estar tão perto dele já havia uma descarga sensorial.
Sozinha com ele ali, em uma pequena cabana nas montanhas
das Terras Altas, onde o vento escocês soprava nas árvores e as
ondas arrebentavam na distante praia, uma praia das Terras
Altas, pareciam tão românticas como ele já estivesse fazendo
amor com ela.
Isso era muito mais do que o coração dela poderia
suportar.
— Eu achei que você fosse uma Valquíria. — Sua voz se
suavizou quando ele a olhou. — Ou talvez uma bruxa do mar…
— Um canto de sua boca se levantou enquanto ele deslizava a
mão pelos cabelos dela, deixando as mechas deslizarem entre
seus dedos. — uma tentação enviada para me atrair com sua
nudez iluminada pela espuma, fazendo-me ficar tão duro que
não podia respirar.
— Eu estive coberta com a espuma marinha esta manhã.
— Margo se inclinou para ele, passando os braços ao redor da
cintura dele. Ela precisava desta aproximação.
— Sim, beijada pela espuma. — Sua respiração estava
suave e quente sobre o rosto dela e, a intimidade a excitava. —
Mas, — seu olhar sombrio avaliou todo corpo dela — você não
estava nua como eu a vi da primeira vez.
Margo estremeceu. O pensamento dele já tê-la visto nua
quase a levou ao clímax.
— Eu já a tinha visto montando meu corpo no vapor da
chaleira de Orosius.
Ele deslizou sua mão pelas costas dela, espalmando-a pelo
seu quadril, aproximando-a dele. Tão perto, que ela era capaz
de sentir o calor dele atravessar o plaid de lã rústica que usava.
Ela também sentia sua excitação: longa, dura e grossa. A parte
mais masculina demonstrava todo o desejo dele em uma
impressionante protuberância sob o kilt.
— Lá, você também estava nua, Margo. — A protuberância
cutucou a barriga dela. — E agora… — Ele abaixou a cabeça
para beijá-la, deslizando sua língua nos lábios abertos dela,
compartilhando o fôlego enquanto enrolava a sua língua com a
dela. Durante o beijo, ele desceu as mãos, agarrando a curva
de suas nádegas, massageando sua carne.
— Agora, Margo… — Ele interrompeu o beijo e deu um
passo para trás, seus olhos escuros queimando — eu verei você
nua novamente. Eu quero segurá-la, beijá-la em todas as
partes e fazê-la minha…
— Você tirará as roupas também? — Margo deixou
escapar seu desejo, agindo com força e coragem antes que a
excitação a fizesse gaguejar e estragar tudo. Ela não queria que
ele se preocupasse e pensasse que ela estava preocupada ou
sem vontade.
— Highlanders amam estar nus, doçura. — Sua mão já
estava no grande broche celta que prendia o plaid ao redor
pescoço dele. — Somos homens mundanos e vigorosos. —
Margo se derreteu ao ouvir a palavra mundanos.
Ninguém, exceto um escocês das Terras Altas poderia
tornar uma palavra tão simples em algo tão sexy. A palavra
rolou até ela, ecoando em seu rico sotaque parecido como rum.
— Oh, céus… — Os olhos dela se arregalaram quando ele
abriu o broche, tirou o plaid e o jogou sob a cama de mantas.
— Oh, sim. — Ele sorriu, um lento e perverso sorriso que
aqueceu os lugares mais privados dela e soltava seus longos
cabelos negros. As mechas brilhantes se espalharam por sobre
seu ombro, caindo na altura da cintura.
A boca dela ficou seca ao imaginar como seria sentir todo
aquele sedoso cabelo preto balançando para frente e para trás
sobre os seios dela enquanto eles fizessem amor.
Parcialmente vestido, ele a fazia perder o ar. Os ombros
dele eram largos e tão poderosos quanto ela esperava,
enquanto seu peito com músculos definidos cobertos por uma
camada de pelos negros que escorregava para baixo,
desaparecendo sob o cinto do kilt. O pulso dela saltou diante
da visão de uma série de cicatrizes prateadas que provavam
que ele era um senhor de guerra.
Ela engoliu em seco, ansiosa por ver mais dele.
A parte que ela realmente queria ver pressionava o kilt
com mais insistência agora, parecendo maior e mais duro que
antes.
Seguindo o olhar dela, Magnus estendeu a mão para abrir
o cinto de sua espada para em seguida pousá-la no chão com
cuidado. Quando ele se endireitou, trabalhou rápido em seu
kilt, estendendo a mão para ela e a puxando rudemente até ele
no mesmo instante em que ficava completamente sem roupa.
Ela se inclinou enquanto ele afrouxava e deslizava o xale
dos ombros dela, atirando-o na cama improvisada.
— Eu a tenho desejado por todas essas noites, Margo. —
Ele estava desfazendo os laços de seu corpete, os olhos presos
aos dela enquanto suas mãos trabalhavam rapidamente.
Mas quando seu novo vestido medieval se abriu na parte
da frente e seus seios ficaram livres, preocupações da era
moderna invadiram sua mente e ela olhou desconfortavelmente
para a porta rústica feita de tábuas.
— Não há uma trava para aquela porta. — A força e a
coragem protestaram pela hesitação dela, mas a Margo-
Azarada via apenas o equivalente a uma tropa de escoteiros
passando e olhando para dentro do abrigo.
E se tal embaraço ocorresse, provavelmente seria quando
ela estivesse no auge de um clímax devastador.
Magnus franziu o cenho, seu olhar sombrio na porta
deformada pela chuva.
— Meus homens estão lá fora, no bosque. Eles não
deixarão ninguém se aproximar.
— Eles podem não ver um pequeno pastor e seus amigos.
— Margo se manteve firme, usando o melhor substituto para
um grupo de escoceses medievais. — E se…
— Você está comigo, moça. — Seus braços a envolveram,
numa dura barra de ferro, arrastando-a até ele. — Ninguém se
atreveria a se aproximar dessa cabana enquanto estivermos
aqui. O próprio vento contornará a colina essa noite e até
mesmo as folhas cairão na direção contrária.
— Esta noite é nossa. — Sua voz estava devastadora e
seus olhos brilhavam. — O que quer que aconteça, nós teremos
estas horas.
Algo no tom dele dizia a Margo que ele também receava
que o prazer deles pudesse ser passageiro.
Ela mordeu o lábio desejando não ter se preocupado com
a porta.
Mas era difícil abandonar uma vida inteira se
preocupando com coisas como privacidade e portas bem
fechadas. Estar cercada de guerreiros armados em vigília no
bosque durante toda a noite enquanto o líder deles fazia amor
com ela, era algo totalmente fora de qualquer experiência que
ela já tivera.
Agora…
As palavras dele, apesar de românticas, apenas a
recordava dos perigos ao redor deles.
O vestido dela estava girando ao seu redor.
Margo piscou. Seus pensamentos sobre escoteiros
medievais e perigos se afastaram no momento em que Magnus
levantava as volumosas saias do vestido. Com uma habilidade
que indicava que fazia isso com frequência, ele puxou o vestido
por sobre a cabeça dela, tirando-o e jogando todo o pacote de
linho azul sobre a pilha de roupas já descartadas.
— Doce urze sagrado… — Ele deu um passo para trás, a
apreciação no olhar dele fez o coração dela acelerar. — você é
mais adorável do que eu pensava. Apenas fique parada aí e não
se mova. Eu quero admirá-la. — A vontade com a própria
nudez, ele se abaixou para retirar algo de dentro da pequena
bolsa de couro presa ao cinto da espada. Vendo sílex30, aço e
uma pedra de carvão, Margo entendeu seu propósito. Isso a fez
sentir arrepios pelas partes mais vulneráveis de seu corpo
enquanto ele se ajoelhava diante da pequena pilha de troncos
de madeira para fazer uma fogueira.
Ele queria luz para vê-la.
E essa noção despertou instintos perversos nela.
Ela nunca havia ficado nua por tanto tempo na frente de
qualquer homem. A maioria de seus ex-namorados, tinham
feito o velho “um-dois-feito” debaixo dos lençóis, porém com
luzes apagadas.
Magnus queria olhar para ela.
E a vontade dele em fazê-lo a eletrificava. Havia algo
alegremente perverso e tão excitante em saber que ele a queria
ali parada, imóvel e vulnerável, simplesmente para ele
contemplar.
Ele a observava agora, seus olhos escuros com um desejo
mal contido enquanto ele cuidadosamente acendia o fogo. Ele
se endireitou quando as chamas azuis, roxas e douradas
ganharam vida, lambendo as madeiras torcidas e levemente
prateadas. Era uma bela visão.
E o olhar no rosto de Magnus era de parar o coração.
O calor dos olhos dele tinha mais intensidade do que o
fogo e seu cabelo preto como corvo brilhava ainda mais, os fios
soltos espalhando-se pelos ombros quando ele cruzou os
braços e a encarou.
Sua masculinidade era outra bela visão. Grossa e grande,
apoiada na barriga dele, sua ansiedade fazendo com que o
corpo dela formigasse. Ela o queria. Muito.
— Minha tur-rist. — A voz dele era baixa e rouca. —
Poderia olhar para você por todos os dias de minha vida e
nunca me cansar de sua beleza.
— O-o-oh... — Margo esperava que ele não a tivesse
ouvido suspirar.
Mas ela não conseguia evitar. As palavras dele a excitava,
sua aparência feroz desencadeava um desejo que ecoava
profundamente.
O fogo estava maior agora, as cores das chamas pulavam
enquanto as toras de madeira estouravam e assoviavam. Elas
lançavam sombras dançantes nas paredes. No deslocamento de
claro e escuro, sombras misteriosas rodopiavam dando um ar
sensual, quase fantasmagórica à atmosfera.
Margo deu um passo para frente, querendo chegar até
Magnus, mas ele ergueu a mão, fazendo-a parar.
— Não, moça. Ainda não. — Ele abriu as pernas e cruzou
os braços, a postura dando a ela uma boa visão do grande e
pesado saco masculino entre as pernas dele. Assim como
estava, apertado em uma ereção, o tamanho fez o sangue dela
aquecer com o desejo feminino. — Eu ainda não me enjoei de
vê-la.
As palavras dele enviaram uma onda de calor para o local
bem abaixo de seus quadris.
Até mesmo seus seios estavam pesados e doloridos, os
mamilos estavam tensos e eretos, implorando pelo toque dele.
Ela não conseguia se lembrar de já ter estado tão excitada.
— Abra suas pernas, Mar-go. — Ele gesticulou,
encorajando-a a fazer o que ele pedia. — Mais. Abra um pouco
mais as pernas. Eu quero você por inteira.
— Oh, Deus! — Ela começou a tremer.
— Assim está melhor, moça. — O olhar dele deslizou por
todo corpo dela e se estabeleceu no topo de suas coxas,
queimando-a.
E isso era tão bom, tão vibrante o jeito que ele a olhava,
com tanto calor em seus belos olhos escuros.
Ele foi até ela, colocando uma das mãos em seus seios, o
polegar gentilmente circulando seu mamilo, enquanto levava a
outra mão entre as pernas dela com toque firme.
Os joelhos dela quase se dobraram. Ela mexia os quadris
precisando do contato. Quando ele intensificou o toque dos
dedos, apertando levemente, ela começou a sentir o clímax.
Doces ondas de um quente prazer a percorriam, cada
movimento fazendo-a desejar a liberação.
— Eu não queria isso. — Ele abaixou a cabeça,
derramando beijos pelas curvas dos seios dela, seu polegar
continuava a deslizar de um lado para o outro, o seu já
sensibilizado mamilo. — Jurei nunca mais me importar com
mulher nenhuma. — A voz dele era profunda, rouca pelo desejo
no instante em que ele levantou o rosto para olhá-la nos olhos,
mantendo-se assim enquanto deslizava a língua ao redor de
um dos mamilos. E ele continuava acariciando a suavidade
escorregadia entre as pernas dela. O toque dele era um
tormento mais violento.
— Entretanto, quaisquer que sejam os poderes que lhe
trouxeram aqui... — ele encontrou seu ponto mais sensível,
esfregou pequenos círculos lá. — Eu não consigo me afastar de
você. Eu nunca quis uma mulher tão ferozmente. Não vou
deixar você ir, Margo.
— Nunca. — Ele se apoiou em um joelho diante dela,
inclinando-se e usando o queixo para manter suas pernas
afastadas. — Você é linda, minha tur-rist. E aqui... — ele olhou
para ela, sua língua passando rapidamente pelo ponto sensível
onde ele acabara de circular com um dedo — você cheira a
manhãs frias de inverno, rosas e um toque de almíscar.
Ele moveu-se para acariciar barriga dela, fechando os
olhos e respirando profundamente enquanto pressionava sua
bochecha contra seus cachos femininos. — Você é mais
inebriante do que hidromel, Margo. — Ele a olhou novamente,
mais uma vez acariciando-a com a mão, circulando seu local
especial com círculos enlouquecedoramente deliciosos, lentos e
deliberados. — Eu poderia te devorar inteira...
— Então faça. — Margo abriu mais as pernas, sentindo-se
muito forte e corajosa, dando-lhe um melhor acesso. — Isso é
tão bom... — Ela enfiou os dedos no cabelo dele, agarrando
mechas dos fios grossos e sedosos enquanto ele cumpria
exatamente o que prometeu, lambendo-a com movimentos
longos e medidos como se nunca tivesse provado nada mais
delicioso.
— Estou faminto por você. — Ele passou a língua sobre o
clitóris, depois de novo e de novo. Olhando para ela, deslizou a
ponta de um dedo pelo centro dela, leve como um toque de
borboleta, e depois de novo para baixo. Ele a acariciava
gentilmente em seu âmago, provocando-a com sua língua.
Margo entrelaçou os dedos no cabelo dele, enroscando os
fios grossos ao redor do pulso, segurando firme, precisando de
algo para equilibrá-la.
Ele virou a cabeça e acariciou sua parte interna da coxa,
beliscando a carne tenra antes que ele voltasse para o centro
dela, sua língua sondando e explorando.
Delicioso.
— Oo-oh, não pare... — Margo não aguentava mais. A
qualquer momento ela ia se despedaçar.
Ondas de sensações eróticas giravam dentro dela,
espalhando-se por seu núcleo, depois circulando de novo,
enquanto um prazer requintado dançava entre suas pernas.
Ela balançou os quadris e se contorceu, sua língua rodopiante
trazendo-a mais e mais perto da borda.
O desejo a queimava.
— Magnus... — Ela estendeu a mão para as mãos dele,
enfiando os dedos, enquanto ela caía de joelhos. Ela se
ajoelhou cara a cara com ele no chão frio e duro.
— Por favor, não posso esperar muito mais tempo. Beije-
me. — Ela agarrou rosto dele, beijando as bochechas, sua testa
e sua garganta, antes de passar as mãos na nunca dele e puxá-
lo para perto, gemendo enquanto beijava sua boca com uma
ferocidade que não podia controlar.
— Minha doce dama. — Ele a beijou com a mesma
lascívia, saqueando os lábios dela com beijos profundos e de
boca aberta, sua língua empurrando avidamente. — A cama...
— Ele se afastou o tempo suficiente para lançar um olhar
significativo para o catre, a apenas um braço de distância. Mas,
em vez de se mexer, levantou as mãos entre eles e segurou os
seios dela, puxando, pesando e apertando-os. Ele acariciou os
mamilos entre o polegar e os dedos até que ela gritou e agarrou
seus pulsos, puxando as mãos de seus seios.
— Eu estou perto de um orgasmo. Por favor, espere. Ela
estava tremendo, agora no limite do desejo.
E ainda se beijando, a respiração se misturando,
enquanto suas línguas rodavam e deslizavam. Então, Margo
não sabia como isso acontecera, estavam rolando no chão de
terra batida, com os braços e as pernas entrelaçados, os corpos
pressionados tão próximos que o calor esquentava a terra fria e
úmida.
O antigo aroma de rosas de verão se erguia ao redor deles,
quente e sedutor, misturando-se com o leve aroma de mar
perdido, assim como o aroma de madeira queimada e o
almíscar mais aguçado proveniente do desejo deles.
Um prazer intenso a invadiu em ondas de êxtase
incontroláveis e tão poderosas que ela não era capaz de separar
os seus lábios dos dele, nem mesmo para respirar.
— Moça, eu tenho que possui-la. — Ele a puxou para o
catre, colocando-a de costas, passando as mãos sobre os seios
e a barriga. Ainda beijando-a, ele deixou as mãos deslizarem
mais para baixo, alisando o topo de suas coxas e de volta para
dentro, segurando seu sexo e apertando no mesmo ritmo da
carícia de sua língua.
Margo estava flutuando.
Ela sabia que ele seria um grande amante.
Mas isso...
O desejo pulsava profundamente dentro dela, uma maré
que subia e exigia que ela se acalmasse. Abrindo as pernas e
estendendo a mão até ele, fechou a mão em torno do seu
membro duro como ferro; grande, quente e sedoso sob seus
dedos. Ela acariciava, esfregando-o de forma deliberada, do
mesmo jeito que ela ansiava para senti-lo deslizando dentro e
fora dela.
Como se soubesse, ele rolou em cima dela, posicionando-
se entre suas coxas. Ele alcançou seu membro, levando para o
lugar onde ele precisava estar. Então, centímetro por
centímetro, entrou nela, até estar lá no fundo, preenchendo-a
completamente. Ele recuou e entrou novamente várias vezes,
deixando-a se ajustar a ele.
— Margo. — Ele se ergueu apoiando-se nos cotovelos,
olhando nos olhos dela, procurando o centro dela,
massageando com o dedo e, então recomeçar a mover-se
lentamente. — Senti-la é algo muito bom, moça. Melhor do que
nos meus sonhos.
— O-o-oh… — Margo arqueou as costas contra a manta,
envolvendo as pernas ao redor dele. Ela correu as mãos para
cima e para baixo nas costas, passando os dedos pelo cabelo
maravilhoso dele, o sexo apertando quando ele começou a
empurrar mais forte, mais rápido e mais profundo.
Ela sentiu um prazer incrível, cuja força a atordoou ao ser
inundada por ondas e mais ondas de sua liberação, tomando
seu fôlego e a empurrando para um mar vertiginoso de pontas
afiadas.
E ainda assim ela se agarrava a ele com cada pedaço de
feminilidade dentro dela vibrando ao ouvi-lo gritar o seu nome
em seu próprio alívio para em seguida, regozijar-se no mesmo
triunfo quando ele caiu em cima dela, seu corpo ainda se
movendo dentro dela, derramando suas sementes quentes.
Em uma palavra, isso foi épico.
E Margo tinha certeza que ela nunca mais se moveria,
pois, seus membros pareciam mais fracos que macarrão
molhado.
Mas alguma parte quase coerente dela a fazia temer que
um orgasmo tão explosivo poderia atrair o seu usual azar como
se ela andasse na rua com um alvo nas costas.
Ela não se surpreenderia se acordasse e descobrisse que
estivera dormindo a bordo de seu voo de Newark, em suas
férias e tudo fora um sonho.
Era uma possibilidade, considerando como ela estava se
sentindo bem agora.
Assim ela permaneceu bem quieta, com medo de respirar.
Ela estava com medo de fechar os olhos.
— Mo ghaoil. Meu amor. — Magnus rolou de costas e a
puxou sobre ele, provando que, pelo menos ele, ainda tinha
forças para se mover. Ele a colocou sobre seu peito e ombro.
A expressão carinhosa em gaélico aqueceu o coração dela.
Uma ansiedade preencheu seu peito, mesclando-se com alegria
gigantesca e destemida.
O que quer que acontecesse agora ela teria esta noite
como recordação.
Ninguém poderia apagar sua felicidade.
Como se ele quisesse confirmar essa afirmação, Magnus
deslizou a mão pelo dorso dela e por cima dos seios,
acariciando levemente os mamilos com as pontas dos dedos.
Margo ronronou, a excitação começando a se mexer
novamente.
— Hummmm… — Ela se aconchegou, o prazer ainda
pesando dentro dela. Os dedos de Magnus circulando seus
mamilos fizeram o sangue ferver e pulsar novamente entre
suas pernas. Era uma sensação de luxuria, totalmente
decadente.
E graças a Deus, tão real.
Essa realidade era evidenciada pelo braço de Magnus
enrolado possessivamente ao redor dela. E os sons de assobio e
estalo do fogo dos troncos que enchiam a pequena cabana.
Ela não tinha ido a lugar algum.
E nenhum escoteiro medieval tinha chegado para jogar
água fria no seu prazer.
A vida estava propícia para uma mudança.
— Margo. — O tom de Magnus lhe dizia que não era bem
assim. — Havia outra razão para eu lhe trazer até aqui.
Ela enrijeceu, todos os seus sentidos em alerta.
— Eu queria conversar com você a sós, longe dos ouvidos
dos meus homens.
Ele estava deslizando os dedos sobre os seios em uma
série de círculos lentos e tentadores. Era uma exploração
deliciosa e deliberada, as carícias eram calmantes e
incrivelmente sensuais. Mas ela não gostou da tensão que
vibrava entre eles.
Emoções escuras se desprendiam dele, manchando o ar.
Ela saiu de seus braços.
— Então me diga. — Ele pegou o pulso dela, franzindo a
testa.
— Eu vou falar. Mas fique aqui comigo. Ele a puxou de
volta ao seu lado. — Eu disse a você que eu explicaria o que
ocorreu em Redpoint. Isso é o que você deve saber. Sua vida
pode depender disso.
Ótimo. Ela conseguiu sobreviver à sua primeira viagem em
um navio dragão medieval e agora ela tinha que superar
Redpoint.
O mero nome do lugar soava sinistro. Após ter visto
Magnus e seus homens em ação em Gairloch, cujas pontas das
espadas se derramavam sangue.
— Então o que aconteceu em Redpoint? — Ela queria não
ter que saber.
Ela pegou a camisa descartada e a passou pela cabeça
antes de dar a Magnus sua inteira atenção.
De alguma forma ela não estava pronta para ouvir más
notícias sem roupas.
Magnus pegou uma das mãos dela e entrelaçou com seus
dedos.
— Eu planejei uma emboscada em Redpoint. — Ele não
mediu as palavras. — Seis dos meus melhores gados pastam ao
longo da praia, atraindo alguns navios vikings que virão
correndo, esperando uma pilhagem fácil.
— Quando eles vierem — ele levou a mão dela aos lábios,
beijando as pontas dos dedos — meus homens e eu
atacaremos, vindos dos topos do penhasco, atearemos fogos em
seus navios e lutaremos com os guerreiros deles em terra.
Depois disso, a facilidade com que forem abatidos servirá de
alerta para que outros de sua espécie mantenham-se afastados
desse litoral.
— E se eles vencerem? — Margo olhou para ele.
Por um momento, ela pensou que ele ia sorrir e dizer que
nenhum viking poderia derrotá-lo.
Um leve puxão apareceu no canto de sua boca. Mas em
seguida sumiu e ele franziu o cenho.
— É por essa razão que nós temos que conversar. Se algo
der errado, Calum cuidará de você. Ele não se juntará a
batalha, assim ele tirará você daqui…
— Eu estarei lá? — Margo sentiu seu estomago se apertar
em nós.
— Você deve estar em Redpoint. — Ele virou a mão dela,
beijando a palma da mão. — Eu não a deixarei aqui sozinha.
Nem mesmo no Corvo do Mar com guardas. Você não ficará
perto da batalha, mas acima da luta, nos penhascos. Não
precisa assistir. Apenas me prometa que ficará com Calum se
for preciso. Ele te levará para a casa de Orla, onde poderá ficar
até que ele possa escoltá-la para minha casa, o Castelo Badcal.
— Se algo acontecer, minhas tias, Agnes e Portia, vão
recebê-la. Elas podem ser difíceis. — Ele passou os braços ao
redor dela, encostando as costas delas em seu peito.
— Tia Portia pensa que conhece ervas e medicações e às
vezes cria remédios e poções que não funcionam para as
pessoas, às vezes causando mais estragos do que o bem. E tia
Agnes pode ser forte. Ela é uma mulher ousada e gosta de
brigar. Mas elas são boas pessoas.
Não tão feliz com isso, Margo mordeu o lábio.
— Se eu tiver que ir para Badcall, prefiro ir com você. —
Ela recordou o que Orla disse sobre Magnus precisar aprender
que havia mais em viver do que a vingança.
— Por que nós não vamos diretamente para Badcall? — A
ideia parecia brilhante. — Provavelmente você matou vikings
suficiente em Gairloch. E o que aconteceu comigo…. — ela
parou de falar, ainda intrigada com o poder da Pedra
Encantada. — Aquilo acabou com muitos vikings.
Tinha acabado mesmo, mas ele parecia ter esquecido já
que balançava a cabeça.
— Aí está. — Ele a aproximou ainda mais no abrigo do
corpo dele, mantendo os braços apertados ao redor dela. — Se
aquilo não tivesse acontecido em Gairloch, deixaria os seis bois
aqui em Badachro e navegaria com você até Badcall ao
amanhecer. Entretanto, muitos nórdicos e seus barcos
desapareceram e vão sentir a falta deles.
— Oh. — Margo estava começando a compreender. —
Você quer uma vitória em Redpoint, assim as histórias sobre a
batalha se espalharão e os nórdicos acreditarão que você
aniquilou os vikings em Gairloch em uma batalha similar.
— Você é uma moça inteligente. — Ele beijou o topo da
cabeça dela. — A batalha de Redpoint foi planejada há algum
tempo. Nós trouxemos o gado há algumas semanas. Até mesmo
meu cachorro, Frodi, está aqui. Ele é velho e veio na carroça
com o gado. Eu o queria aqui porque nenhum outro cão é
melhor treinado para tais aflições. E Frodi ama uma boa
aventura. Após a batalha, ele se alegrará com a viagem de volta
para casa no Corvo do Mar.
— O gado também? — Margo esperava que eles não
fossem na mesma embarcação.
Ela amava cachorro. Mas o Corvo do Mar já era
aterrorizante o suficiente sem seis bois a bordo.
— O gado ficará aqui, não se preocupe. — Magnus tinha
provavelmente suspeitado do medo dela. — Três deles serão
trazidos para Badachro. Os outros três serão meus presentes
para o povo de Redpoint por permitirem que montasse minha
emboscada em suas terras.
— Eu só espero dar um aviso aos vikings. Agora, — ele
respirou fundo — eles devem acreditar que enviei os navios em
Gairloch para o fundo do mar. Eu não os terei como enxames
nessas costas, procurando embarcações encalhadas ou a Pedra
da Encantada.
— A Pedra Encantada? — O estômago de Margo se
apertou. Ela não queria que a pedra aparecesse novamente,
levando-a de volta ao século XXI. - Eu pensei... nós não
havíamos concordamos que ela tinha desaparecido por conta
própria?
— Concordamos. E tenho certeza que foi o que ocorreu. —
A resposta a confundiu. — Orosius acredita que sim.
— Mas? — Margo odiava esse, mas.
— Donata ainda pode estar atrás da pedra. — A voz dele
endureceu. — Ela é conhecida por se relacionar com vikings.
Se ela pedir ajuda, o inferno seria liberado sobre nós. Eu
prefiro agir primeiro e dizer que eu queimei uma grande frota
de navios de guerra vikings em Gairloch, sem deixar uma cinza
na memória.
Margo parou considerando.
— E se os Vikings não acreditarem?
— Eles conhecem minha reputação. — Magnus falou
soando orgulhoso. — Eles não duvidarão de minha história.
Margo não tinha tanta certeza.
Ela também sabia que ele estava deixando algo de fora.
Ela.
Se Donata reunisse os vikings para ajudá-la a procurar a
Pedra Encantada, ela também contaria histórias sobre uma
“misteriosa mulher loira” que possuíra a tal pedra maravilhosa.
Margo não estaria segura em nenhum lugar.
Magnus estava tentando protegê-la.
E para fazer isso, ele ia mergulhar em outra batalha
viking.
O pensamento gelou Margo em seu âmago.
Capítulo Dezessete
Duas semanas depois, Magnus se aproximava da beira do
penhasco de Redpoint, indo mais longe do que a maioria dos
homens arriscaria. Mesmo seus guerreiros mantinham
distância. Infelizmente, um farfalhar de saias o alertava que
Margo tinha dificuldade em permanecer no local que a deixara.
Ele a colocou em um ponto fora de vista, atrás de alguns
arbustos e bem longe do penhasco.
Agora…
Ele pôs o cabelo para trás, ouvindo atentamente. Seu
coração começou a bater quando, junto com o farfalhar
revelador, ele captou um traço de ar limpo e nevado e rosas
trazidos pelo vento da manhã.
Não poderia haver erro.
Seus homens estavam girando a cabeça, trocando olhares
e murmurando bem baixo.
No momento a atenção deles não estava no horizonte,
ação importante para observar a aproximação de quaisquer
inimigos que pudessem aparecer.
Eles estavam embasbacados em ver Margo ali.
Furioso, Magnus se virou. Ela estava bem perto dele.
— Eu não consigo ver nada atrás daqueles arbustos. —
Ela emitiu um som como se aquilo fosse um problema. —
Talvez eu possa...
— Você ficará onde eu lhe pus. — Uma raiva repentina se
espalhou pelas veias de Magnus. Ele franziu a sobrancelha
criando uma fisionomia assustadora. — Aquele ponto foi
escolhido para que não pudesse ver nada. E para que ninguém
veja você.
— Agora… — Ele deu um passo até ela. — cada navio
daqui até o horizonte enxergará sua cabeça brilhante. Seus
cabelos irradiam luz como o sol.
— Meu manto tem um capuz. — Ela já o estava colocando
sobre a cabeça.
Magnus a interrompeu, segurando-a pelo pulso.
— Para a moita, moça. Vá para lá agora, fique me
esperando com os aldeões e não faça nada para se expor
novamente até eu voltar.
— Mas…
— Eu não quero você distraindo meus homens. — A
cabeça de Magnus estava começando a latejar.
Vários de seus guerreiros já estavam se aproximando,
apurando os ouvidos. O semblante deles confirmava as suas
palavras.
Que homem de sangue quente não viraria a cabeça
quando ela passasse? Uma cor intensa cobria suas bochechas,
seus olhos emitiam faíscas azuis, e o vento jogou seu brilhante
cabelo que parecia um sol brilhante em seu lindo rosto. Mais
condenável de tudo, seus lábios estavam cheios devidos aos
beijos.
Magnus olhou para aqueles lábios, recordando o quão
calorosos foram os beijos trocados durante a noite.
Será que ele poderia provar a boca dela agora?
Ao invés disso, ele se irritou ao ver que o manto de lã de
Orla caía de uma maneira muito mais atraente do que o pesado
manto de pele de urso de Orosius. As novas roupas dela
chamavam a atenção para a curva perfeita de seus seios e de
seus quadris. Os atrativos ficavam mais evidentes, porque o
vento moldava as dobras do manto em torno de suas curvas
femininas.
Seus homens não podiam evitar olhar para ela.
Mesmo assim, ele olhava feio para eles.
— Apenas tenha cuidado. — A sua boca formou uma linha
de desaprovação. — Eu recordo o que vi em Gair…
— Você não vai ver nada parecido aqui. — Ele a cortou,
pegando-a pelo braço, levando-a para longe da borda do
penhasco e de volta para o matagal — Se você ficar atrás dos
arbustos... — quando ela ficou no lugar, seus olhos azuis
soltando faíscas novamente, ele segurou o rosto dela em suas
mãos e a beijou com força. Era um beijo áspero, contundente,
sem piedade, um beijo que ele esperava que a mantivesse
atordoada demais para discutir com ele.
— Agora vá. — Ele a afastou dele, ciente dos olhares de
seus homens.
— Tem havido bastante dessa coisa de vingança. — Ela
disse (ou assim pensou Magnus) antes de se virar e se afastar,
as costas retas e os ombros rígidos.
Magnus tinha uma fisionomia de descontentamento.
Ele esperou até que ela desaparecesse ao redor do
matagal, e então voltou para a borda do penhasco. Seus
homens ainda permaneciam a uma boa distância atrás dele.
Ele ficou mais próximo da borda do que antes, mantendo os
pés bem firmes para não escorregar. Com raiva, o desafio era
apreciado.
Ele também não se preocupou se seria visto, pois a
sombra de uma grande pedra que se partira o escondia bem. E
até mesmo se não fizesse, ele e seus homens tinham preparado
a praia com muito cuidado. Nenhum invasor nórdico que
pretendesse um ataque fácil, desperdiçaria tempo olhando para
o alto dos penhascos que cercavam a aldeia, cuja colheita os
atraiam.
Era um plano à prova de falhas.
Olhando para a praia, ele flexionou os dedos e depois
revirou os ombros, esperando.
A fumaça do cozimento de alimentos saía preguiçosamente
dos casebres agrupados da vila de pescadores e redes secas
pendiam de árvores raquíticas e curvadas no outro extremo da
sinuosa praia. Magnus fez uma prece silenciosa em
agradecimento ao fato das cabanas dos pescadores de Redpoint
se localizarem no lado sul da enseada. Entretanto, os barcos
deles estavam enfileirados na areia logo abaixo de Magnus e de
seus homens. Isso era uma pena, mas os barcos poderiam ser
substituídos e ele o faria de bom grado. Ninguém se mexeu
quando começou a amanhecer, mas em algum lugar um
cachorro latiu e o som o fez sorrir.
O latido queria dizer que Calum e Frodi estavam em
algum lugar na praia, escondidos atrás dos chalés de palha,
mas fazendo o trabalho deles que era manter os seis gados
gordos - os melhores de Magnus - na enseada e evitassem que
eles se entediassem e fossem para os pastos mais tentadores,
além das dunas.
Os bois não seriam vistos de lá. E Magnus queria que eles
fossem notados.
Assim como ele esperava que a pilha de barris cheios de
areia perto dos chalés fosse confundida com uma generosa
oferta de arenque curtido em salmoura.
Os guerreiros vikings tinham um apetite voraz e a
necessidade deles em buscar comida era maior do que a
constante fome por ouro, mulheres e escravos fáceis de
capturar. Sabendo como eles tratavam as pobres almas que
caíam em suas mãos, fazia as entranhas de Magnus se apertar
e, pelo que parecia a milésima vez desde que subiu o penhasco,
ele estreitou os olhos para averiguar o horizonte.
Ele estava ansioso para uma boa sangria.
Mas as ondas ainda se estendiam sombrias e escuras,
uma folha ondulante de cinza batido.
Um trovão retumbou ao longe e uma névoa umedeceu o
ar, mas ele acolheu de bom grado a umidade do dia. Mais
tarde, após a matança, uma boa chuva lavaria o sangue dos
nórdicos da areia vermelha escura da enseada.
— O mar está quieto. — Ewan que estava deitado na
grama, levantou um pouco a cabeça. — Nada se move, exceto a
maré e… — Ele desviou o olhar das águas para encarar
Magnus — talvez aquelas nuvens pesadas se juntando a oeste.
— Eles virão. — Magnus bateu no punho de sua espada.
Ele não tinha dúvida.
Ele podia sentir o cheiro podre dos vikings no ar, assim
como, ele podia sentir o gosto rico e docemente feminino de
Margo em seus lábios.
Sua espada, Vingança, também sabia que os nórdicos
estavam chegando. Não havia como negar o leve tremor da
lâmina quando ela farejava a batalha.
Era um deleite alimentá-la.
Mas neste instante, ele tinha necessidade de outro tipo de
alimento.
Comida para preencher barrigas e cerveja para atenuar o
terror das almas dos que viviam para pegar arenques e enguias
e não pela força com que conseguiam empunhar aço.
Ele também esperava que a necessidade de acalmar os
aldeões assustados mantivesse Margo ocupada, com a cabeça
dela longe dos horrores que se desdobrariam no trecho, ainda
pacífico, da linda praia de areia vermelha.
Virando o rosto para o vento, lançou outro olhar para o
mar vazio e depois olhou de novo para Ewan.
— Os aldeões têm o suficiente para comer?
— Mais do que tivemos esta manhã. — Ewan sorriu.
— Eles estão todos lá atrás. — Ele acenou com a cabeça
para a linha grossa formada pelos arbustos. — Eles estão se
deleitando com pão, arenque, queijo e cerveja suficiente para
dormirem até o dia seguinte. Sua dama também, se ela souber
o que é melhor para ela.
Um músculo vibrou na mandíbula de Magnus, mas ele
não corrigiu Ewan por chamar Margo de sua dama.
Pelo menos, ele desejava que uma união verdadeira com
ela fosse possível. Era uma das razões pelas quais ele ficou tão
desapontado quando sua tripulação não conseguiu localizar a
Pedra Encantada depois de procurar por toda praia em
Gairloch.
Ele não queria jogar a pedra encantada no mar apenas
para evitar que esses poderes fossem parar nas mãos de
homens perigosos e perversos. Ele também temia que a
existência da pedra pudesse sempre representar uma ameaça
para Margo.
Algo poderia arrancá-la de seus braços tão rapidamente
quanto a magia da pedra a ajudara a aparecer.
Ele franziu a testa, não gostando nada disso.
Por agora, ele acenou para Ewan.
— Os aldeões ainda estão protegidos?
— Oh, sim. — Ewan parecia divertido. — Meu avô disse
aos guardas que cortaria as bolas deles enquanto dormissem
se eles deixarem seus postos.
— Calum faria isso. — Magnus reprimiu uma risada. Mas
logo o humor deixou sua voz. — E se um único aldeão for
machucado, eu fatiarei os pedaços cortados e farei cada
homem comer suas próprias bolas.
— E se algo acontecer a Margo, eles perderão mais do que
as bolas. — Magnus levou sua mão até o cabo de Vingança. —
Eu terei suas cabeças.
— Eles sabem disso, senhor.
— Então rezo para fiquem com ela e com os aldeões
quando a batalha começar. — Magnus lançou outra olhada
para o bosque. O brilho das pontas das lanças e das malhas só
eram avistados através das flores amarelas dos arbustos e
apenas, para quem soubesse onde olhar. — Eu não os quero
correndo em direção à praia se a batalha os atrair.
— Eles não vão. — Ewan olhou mais uma vez para o
oceano, examinando.
Um chamado igual ao do maçarico31 soou, um grito
assombroso vindo do outro lado do penhasco. O pulso de
Magnus acelerou.
— Vikings foram avistados.
Ele lançou um olhar para Ewan. A mão do rapaz já
pairava perto do punho da espada, os dedos se contraindo. Um
largo sorriso se espalhava pelo rosto de barba ruiva do jovem.
Magnus assentiu, satisfeito. Então olhou para os outros
guerreiros, cada homem atrás de uma rocha ou escondido na
grama. Cada um estava com as armas prontas para matar.
O oceano ainda se estendia vazio.
O arrepio na nuca de Magnus lhe dizia que eles não
estavam mais sozinhos.
E eles não estavam.
Repentinamente Magnus pôde avistar o inimigo. Formas
negras sob o céu escuro, três navios dragões deslizavam pela
neblina, seus longos remos subindo e descendo, levantando
borrifos de água prateada. Cada navio ostentava assustadoras
cabeças de animais, tanto na proa como na popa e, os
remadores batiam cada vez mais rápidos, com golpes suaves e
amplos. Os navios percorriam a maré cheia, chegando
depressa, e estavam cheios de guerreiros uivantes e de rosto
feroz, seus capacetes e cota de malha cintilando à luz fraca da
manhã, suas espadas e machados de guerra já prontos.
— Aguardem, homens. — Magnus falou alto o suficiente
para seus guerreiros ouvirem. Ele lançou uma olhada por sobre
os ombros para os arbustos, aliviado quando não viu Margo
espionando atrás da vegetação.
Voltando para seus homens, ele acenou com a cabeça.
— Esperaremos até os navios se aproximarem e Frodi
perseguir o gado na praia.
Soltando o cabo de Vingança, ele espalmou a mão contra a
grande pedra, deliberadamente solta e respirou
profundamente, desejando a vitória.
Lá de baixo, o som alto da água sendo cortada pelas
embarcações ecoava, assim como o barulho das pás dos remos
e os gritos selvagens dos saqueadores nórdicos.
Uma fúria, quente e cálida, fervia o sangue de Magnus.
Mas ele ficou onde estava, imóvel. Ele manteve-se inerte
como uma pedra, fora de vista, escondido atrás das pedras. Era
o jeito para diminuir a tensão, já que muito em breve o inferno
se abriria e a pequena e calma enseada se transformaria em
um local de morte.
Ele contornou o esconderijo e desceu até a enseada e por
um terrível momento, ele imaginou Liana correndo por uma
praia similar a essa, seus inocentes olhos abertos de terror
tentando fugir dos homens de grandes barbas que a perseguia.
Para seu horror, ele não conseguia recordar do rosto dela
claramente.
Ele via Margo no lugar. Os olhos e sua mente a
conjuraram, nua e aterrorizada, enquanto ela corria pelas
ondas, perseguida por hordas de vikings e, com as entranhas
dele se revirando, Donata, que voava em uma vassoura.
Magnus estremeceu, banindo a imagem de sua cabeça.
Nada mais importava, pois naquele instante, o primeiro
dos três dracares alcançou a praia, com a quilha cortando a
areia, espalhando spray de espumas d’água e pedras.
Os outros dois barcos chegaram com a mesma rapidez,
rangendo até parar bruscamente. Os normandos barulhentos
saltaram pela proa, com espadas, machados e lanças em mãos.
Magnus sentiu uma onda de alegria.
Este era o momento que ele tanto esperava.
Ele lançou uma olhada para Ewan, acenando
rapidamente.
O homem mais jovem sorriu. Depois ele levou as mãos à
boca e emitiu o som que imitava as notas de percussão de um
grande pica-pau malhado. O som replicou no ar, ecoando pelas
colinas como anéis de fumaças à deriva. Esse era o
encorajamento que os guerreiros de Magnus precisavam. Na
praia, os Vikings não perceberam o canto do pássaro enquanto
se lançavam através das ondas, gritando insultos e sacudindo
seus machados.
Mas o mundo ao redor se partiu quando Frodi correu pela
praia, latindo alto e guiando os seis animais com segurança até
as dunas. Frodi praticamente voava pela praia, a excitação
fazendo-o esquecer que seus ossos estavam velhos e ele corria
mais rápido do que em anos.
Rindo, os vikings perseguiam Frodi e o gado, alheios à
desgraça iminente. A morte se aproximou quando Magnus e
seus homens entraram em ação, movendo-se como se fossem
um só, criando uma barreira com as pedras que eles
arremessavam de cima do penhasco para atingir os invasores.
Mais homens saíram das casas dos pescadores, atirando
flechas com fogo em direção aos longos barcos atracados
enquanto corriam para a praia.
As flechas atingiam os navios com uma precisão incrível,
algumas batendo nos cascos, outras perfuravam as velas ou
acertavam os bancos dos remadores.
As chamas rapidamente se estenderam, ganhando vida e
lambendo as tábuas, escurecendo os mastros e atingindo as
esculturas de cabeças de animais. O fogo estende-se, varrendo
as vigas de madeira e saltando alto para tornar o céu vermelho
e encher a enseada com nuvens de fumaça e cinzas.
Um odor desprezível enchia o ar e queimava os olhos, mas
os gemidos dos nórdicos moribundos e a raiva por aqueles
ainda vivos, eram como uma doce canção aos ouvidos de
Magnus que descia a trilha do penhasco, Vingança pronta e
com seus homens no encalço.
O caos os encontrou.
Muitos dos vikings jaziam na praia, seus grandes corpos
de malha mutilados pelas rochas. A maioria havia retornado e
corria em direção aos barcos queimados, parando no caminho,
gritando e pegando água e areia em seus escudos para tentar
apagar as chamas. Mas alguns retornaram para atacar Magnus
e seus homens enquanto eles desciam a trilha do penhasco e
se misturavam a confusão.
— Eu quero sangue! — Magnus balançou Vingança, a
lâmina da grande espada colidindo contra aço, depois cortando
o cabo de madeira de um machado.
O portador do machado rugiu, deixando de lado a arma
inútil e estendendo a mão para sacar sua espada. Antes que ele
pudesse, Vingança assobiou pelo ar, tirando o pulso do nórdico
em um golpe rápido como um raio.
Uivando, o homem cambaleou, depois caiu de joelhos,
agarrando o toco ensanguentado ao peito.
Magnus apunhalou profundamente com a ponta de
Vingança, terminando a desgraça do viking com um golpe
rápido na garganta, a força de seu impulso quase cortando a
cabeça do homem.
— MacBride! — Um imponente nórdico rosnou seu nome,
provando que eles sabiam de quem era a costa que ousaram
devastar.
Ágil para um gigante, o homem dançou ao redor de
Magnus, seu machado de guerra balançando, já pingando
gotas vermelhas.
— Você não vai me derrubar! Venha tentar — os olhos do
homem brilharam desafiando — e as gaivotas vão se deleitar
em seus olhos antes que o sangue seque na minha lâmina.
Magnus sorriu friamente e tirou a faixa de couro de seu
cabelo.
— Segure firme em seu machado, normando, se você
quiser jantar no salão de Odin essa noite! — Ainda sorrindo,
ele jogou a cabeça, deixando os fios soltos balançarem sobre os
ombros. — Dizem que há uma cadeira vazia lá, esperando por
você.
— Você é amaldiçoado, MacBride. — O viking continuou
dançando, jogando o machado de um lado para o outro, com
um sorriso de dentes largos no meio de sua barba loura e
espessa. — Donata lançou seu feitiço em você, falando de
morte e miséria para você e para o seus.
— Eu não acredito em feitiços. — Magnus mentiu, ansioso
para deixar a lâmina de sua espada vermelha com o sangue do
homem.
Ele queria a alma deste nórdico.
Haviam refinados braceletes de prata nos grandes braços
descobertos do homem.
— Eu tenho um baú com vários desses guardados. —
Magnus sacudiu seu pulso, usando a ponta de Vingança para
apontar para os braceletes do braço do viking. — Eu os tiro de
homens mortos e esta noite guardarei os seus junto com os
outros. — Exceto, — ele sugeriu com deleite — uns dois ou três
que eu usarei no meu salão de festas nessa noite.
O viking se lançou, gritando com toda sua raiva. Magnus
contornou com facilidade, usando Vingança para conter a
pancada violenta do homem. No entanto, a lâmina da espada
ricocheteou na manga da pesada armadura do viking e o
ataque fracassado serviu apenas para enfurecê-lo ainda mais.
Ele rodeou Magnus, golpeando descontroladamente, seu
machado ensanguentado cortou o ar quando Magnus girou,
balançando Vingança em um grande arco. Dessa vez, sua
espada cortou um espaço vulnerável embaixo do braço do
nórdico, um corte poderoso e profundo, estilhaçando ossos e
criando uma fonte vermelha ao longo da espada de Magnus e
espirrando sobre seu peito.
— Vingança! — Magnus proclamou seu grito de guerra
enquanto soltava sua espada. O nórdico gigante tropeçou,
caindo de cara na areia.
Magnus se afastou, ansioso para matar seu próximo
adversário.
— Eu lhe darei sua vingança!
A provocação veio de outro nórdico alto, vestido com
malha. Loiro assim como adversário anterior, o cabelo cor de
trigo desse viking chegava até a cintura e a placa de seu
capacete era iluminado pela luz do fogo. Dez ou mais braceletes
brilhavam em cada braço, demonstrando seu status. Assim
como fazia a fivela cravejada de joias do cinto e os grampos
enfeitados com pedras preciosas que estavam presas nas
grossas tranças de sua barba.
— Você é um homem morto, viking. — Magnus não ficou
impressionado.
O nórdico não se incomodou.
— Se o destino quiser. — Ele deu de ombros,
despreocupado. — Mas eu acho que será você quem perderá o
nascer do sol amanhã.
— Vamos ver? — Magnus estava interessado.
— Diga a Odin que foi Harald Amassador de Crânios que o
enviou a sua companhia. — O viking sorriu, sacudindo sua
espada em um floreio que desenhava um oito no ar. — Eu o
manterei bem entretido.
— Então finalmente ele terá o prazer de conhecê-lo. —
Magnus balançou Vingança em uma exibição igualmente
ousada.
— E talvez… — Ele olhou para trás, em direção aos três
navios que queimavam, pressupondo que aquele homem era o
senhor de guerra, dono deles. — ele goste tanto de você que
substitua os navios queimados em Valhalla.
— Eu construirei novos navios com as riquezas que
tomarei de suas terras, Assassino de Vikings. — Ele falou o
apelido de Magnus como um insulto. — Antes eu comerei seu
fígado e depois usarei suas mulheres em sua cama.
Os homens de Harald Amassador de Crânios
interromperam suas lutas o tempo suficiente para zombar. Os
guerreiros de Magnus rosnaram seus protestos indignados
preenchendo o ar já quente devido as chamas dos navios
dragões queimados.
Juntos, as lutas deles momentaneamente esquecidas, os
homens de Magnus e os guerreiros vikings formaram um
círculo ao redor de Magnus e Harald Amassador de Crânios.
Cada homem se aproximava seduzidos pela ferocidade de um
combate de armas mortal, uma batalha que prometia um
espetáculo que certamente agradaria ao mais cansado
guerreiro.
— Um benefício para você, Amassador de Crânios. Em
honra por sua bravura... e uma pequena recompensa pela
perda das três embarcações. — Magnus olhou para o círculo
formado pelos homens, avaliando os rostos dos nórdicos. —
Qual de vocês viverá para levar minha mensagem para Sigurd
Quebrador de Espadas? Você escolhe. Agora, enquanto ainda
tem fôlego para pronunciar um nome.
Harald Amassador de Crânios cuspiu na areia. — Não há
necessidade.
— Eu insisto. — Magnus se moveu rapidamente cravando
a ponta de Vingança abaixo do queixo do senhor de guerra
antes que o homem pudesse piscar. — Escolha um
sobrevivente.
Os lábios de Harald Amassador de Crânios formaram uma
linha rígida e seu rosto não transparecia nenhuma emoção.
Mas seu olhar recaiu sobre um jovem e bem armado guerreiro.
Loiro, bonito e o menos corpulento dos guerreiros nórdicos, ele
ainda tinha o frescor da juventude sobre ele. E,
surpreendentemente, tinha um ar de inocência que brilhava em
seus olhos azuis.
— Você. — Magnus indicou a cabeça para o jovem. —
Quem é você?
— Sou Arnor o Portador da Música. — O jovem guerreiro
deu um passo à frente.
— Um bom nome e, como seu chefe perdeu a língua. —
Magnus mantinha a ponta da espada no queixo do Moedor de
Ossos. — Você quebrou o silêncio dele.
Vários guerreiros de Magnus riram.
Os outros vikings ficaram em silêncio, a raiva os
consumindo.
— O meu nome é porque o meu nascimento encerrou o
silêncio de minha mãe. — A voz do jovem era claramente
orgulhosa. — Ela perdeu meus irmãos antes do meu
nascimento e jurou em sua tristeza que nunca mais falaria.
Quando eu nasci, ela cantou para mim, esquecendo-se de sua
promessa no meio da alegria.
Magnus franziu a testa, sentindo-se estranhamente
punido.
Amassador de Crânios tirou vantagem, empurrando
Vingança para longe de seu queixo.
— Arno é o sobrinho de Sigurd Quebrador de Espadas.
Magnus avaliou o jovem intensamente. Seu sangue
acelerou e ele tinha certeza que a lâmina de Vingança vibrou,
demandando perfurar profundamente a carne jovem.
Ele lançou um olhar sombrio para o jovem que o encarava
desafiante.
— Quem ele é ou — Magnus retornou para Amassador de
Crânios, sua fisionomia ficando mais violenta. — como ele
recebeu seu nome, isso não importa. Apenas que ele será
deixado vivo para levar meu alerta para o Quebrador de
espadas e qualquer outro senhor viking que ouse colocar os
olhos nesta costa.
— Você acabou de falar suas últimas palavras. — Harald
Amassador de Crânios atacou, saltando para frente com uma
raiva selvagem, sua espada moveu-se como um raio prateado
batendo em Vingança com tanta força que Magnus cambaleou,
quase perdendo o equilíbrio.
Ele se recuperou rapidamente e rugiu em desafio
enquanto lançava-se a frente. Ele balançou Vingança com uma
fúria, um arco perverso que atingiu o flanco de Amassador de
Crânios.
A lâmina de Vingança gritava através dos anéis da cota de
malhas do nórdico, machucando, mas sem tirar sangue.
Amassador de Crânios riu e se impulsionou furiosamente
com sua própria espada, tentando cortar o braço de Magnus.
Este bloqueou o golpe com a parte mais larga de Vingança,
empurrando o viking para trás com tanta força que ele deveria
ter caído de joelhos. Ao invés disso, ele girou sua própria
espada e atacou em outro golpe mortal. Entretanto Magnus
não estava pronto para morrer. Ele estava ansioso para matar,
assim ele se virou, empunhando vingança em um movimento
mais poderoso. Dessa vez a lâmina cortou a manga da malha
do nórdico, penetrando no músculo e osso. O sangue se
espalhou na areia e a espada do Amassador de Crânios caiu de
seus dedos flácidos.
Magnus sorriu, não surpreso quando seu inimigo
resmungou e usou sua mão esquerda para tirar do cinto
ornado de joias, seu enorme machado de guerra.
— Eu consegui mais arranhões das mulheres que levei
para a cama. — Zombou o Amassador de Crânios, ignorando o
sangue de seu braço e erguendo seu enorme machado.
— Você teve sua última prostituta. A não ser — Magnus
olhou para o machado de cabo longo despreocupado —
quaisquer bruxas desdentadas que Odin tenha reservado para
você.
Magnus atacou mortalmente, mas Amassador de Crânios
pulou para o lado e a espada passou inofensivamente através
do maciço ombro revestido de aço do nórdico.
Com os olhos brilhando, o viking contra-atacou,
levantando o braço bom para erguer o machado e golpear a
cabeça e os braços de Magnus.
— Você foi amaldiçoado por Donata, MacBride. —
Amassador de Crânios sibilou as palavras quando ele abaixou
seu machado, perdendo o ombro de Magnus por um fio de
cabelo. Ele agredia descontroladamente. — Você está perdendo
o fôlego tentando me matar porque você já é um homem morto.
— Nae, você está. — Magnus estreitou os olhos,
recusando-se a reconhecer o frio que o varreu ao ouvir as
palavras do viking. Furioso, ele acertou Vingança com
velocidade ofuscante, tirando dois dedos de seu inimigo, da
mão que segurava machado.
Amassador de Crânios uivou, os dedos restantes ainda
segurando seu machado.
— Você não vai me derrubar. — Ele zombou, voltando
para Magnus novamente.
— Eu vou matá-lo agora. — Magnus desviou do golpe com
facilidade. — Segure firme seu machado se você quiser jantar
com Odin.
— Covarde! — Amassador de Crânios tentou se recompor.
Mas a areia sob seus pés estava escorregadia devido ao
sangue derramado e a força em seu braço esquerdo não era tão
poderosa quanto a força de agora, inútil braço da espada. Ele
continuou lutando, rosnando ferozmente enquanto Magnus
continuava a girar e a atacar, evitando as oscilações do
machado do viking e causando seus próprios ataques violentos
com Vingança.
Rugindo, o viking moveu o machado em um golpe feroz
que poderia ter quebrado um boi em duas metades iguais. Mas
Magnus estava preparado e, no deslocamento de Amassador de
Crânios, ele arremessou Vingança para frente em um terrível
golpe usando a força das duas mãos, perfurando a malha e a
jaqueta de couro, para afundar a lâmina da espada no fundo
do intestino do nórdico.
Os homens de Magnus aplaudiram e ergueram suas
próprias lâminas avermelhadas, recomeçando a luta com os
outros vikings antes mesmo que Magnus pudesse arrancar a
Vingança da barriga de Amassador de Crânios. O senhor da
guerra nórdico se contorceu na areia, seus dedos
ensanguentados procurando o cabo do machado.
Ele não gemeu, mas seus olhos encontraram os de
Magnus, implorando por essa misericórdia.
O que os nórdicos mais temiam era morrer sem uma arma
na mão. Se o fizessem, não haveria entrada para Valhalla e as
glórias do salão de festas de Odin. Em vez disso, iam direto
para Niflheim, o inferno nórdico, onde homens malsucedidos
tremiam de frio na escuridão sem fim enquanto Nidhogg, o
dilacerador de cadáver, um enorme dragão de costas
escamosas, roía seus ossos enquanto se lamentavam e se
contorciam em eterna agonia.
Magnus apreciava esse pensamento.
Os olhos de Amassador de Crânios estavam começando a
embaçar, o apelo neles desaparecendo.
O homem lutou muito. Ele tinha sido feroz, mais corajoso
do que muitos homens que Magnus conhecia. Ele merecia
morrer bem.
Suas pálpebras tremeram, fechando-se.
— Maldição de Deus! — Magnus ignorou a luta ao seu
redor e se inclinou, agarrando o machado do lorde viking e
enfiando a arma na mão do homem. Ele se ajoelhou ao lado do
bastardo, enrolando os dedos trêmulos ao redor do cabo e
segurando-os até que o Amassador de Ossos desse seu último
suspiro borbulhante, estremecendo e ficando imóvel.
A alma do nórdico se fora.
Magnus ficou de pé, Amassador de Crânios já tomaria seu
lugar na mesa de Odin. Sem dúvida, conseguindo um chifre
cheio de cerveja e sorrindo largamente para as beldades
seminuas ansiosas para se contorcer em seu colo. A vida de
Harald Amassador de Crânios acabou de se tornar o paraíso.
Magnus ainda estava amaldiçoado.
Os insultos do viking encheram sua mente novamente,
claro como o barulho dos choques de espadas e machados, os
grunhidos, gritos e maldições dos homens que lutavam pela
areia vermelha. Um calafrio percorreu seu corpo e ele passou a
manga pela testa, limpando o sangue e o suor.
Ele quase podia sentir a escuridão girando em torno dele,
aproximando-se e buscando por ele.
Ele procurou por Arnor o Portador da Música.
Então, finalmente, a matança cessou e os insultos, gritos
diminuíram, a batalha chegando ao fim. Apenas os guerreiros
de Magnus estavam na praia suja e manchada de fumaça. Mas
um viking ainda vivia, assim como ele havia ordenado. Calum e
outro velho guerreiro seguravam o jovem na linha da maré,
Frodi montando guarda diante deles.
— Ewan! — Magnus olhou para o amigo, e então apontou
para o fim da enseada onde um pequeno barco com capacidade
para dois homens estava encalhado perto de uma pilha de
algas secas.
— Prepare aquele barco para Arnor o Portador da Música.
— Com prazer. — Ewan embainhou sua espada vermelha
de sangue e correu ao longo da costa, arrastando rapidamente
o barquinho para a beira da água.
Magnus então estreitou os olhos para o sobrinho de
Sigurd Quebrador de Espadas.
Calum e seu primo estando prestes a colocá-lo no barco.
Magnus permaneceu onde estava de braços cruzados. O insulto
seria maior se seus homens, não ele, colocassem o mensageiro
no barco e o expulsassem.
— Você vai nu e despojado de armas. Nem remos terá.
Seus próprios deuses e o mar determinarão onde te levar. Se
eles forem gentis, você alcançará as suas terras, ou um navio
viking, antes que possa morrer de frio ou sede.
— Se você chegar ao seu tio. — Magnus avançou agora,
pois Calum e o outro guerreiro jogaram o nórdico no bote e já
estavam empurrando o barco contra as ondas — Diga ao
Quebrador de Espadas o que acontece com invasores que se
atrevem a pisar nas minhas costas. Se ele e seus homens
quiserem pousar no fundo do mar, as cinzas de seus navios
sujando a praia como em Gairloch, eles podem vir.
— Diga a ele. — Magnus levantou o próprio pé, chutando
o barco mais fundo na arrebentação — Magnus MacBride, O
Assassino de Vikings, está esperando. E estou ansioso para
alimentar o dilacerador de cadáver com cada um de vocês. Eu
mostrei misericórdia para Harald o Amassador de Crânios, mas
não terei nenhuma para o seu tio ou seus seguidores.
— Meu tio não precisa da sua misericórdia. — Arnor o
Portador da Música sentou-se empertigado no pequeno barco,
com o queixo erguido de modo desafiador. — Ele não
demonstra qualquer perdão e vai cortar minha língua por
entregar sua mensagem.
— Mas você vai. — Magnus ergueu a voz acima do vento
que aumentava.
— Eu devo. — O olhar azul do jovem guerreiro se manteve
profundamente preso ao de Magnus. — Porque sou tão
corajoso quanto você, MacBride, e não temo nenhum homem.
Nem mesmo...
O resto de suas palavras foi levado por uma rajada de
fumaça dos navios-dragão em chamas. E quando o ar cheio de
fuligem se dissipou, o pequeno barco estava muito mais longe
no mar, uma partícula negra balançando descontroladamente
nas ondas espumantes de brilho vermelho.
Arnor o Portador da Música se fora.
Ele foi desaparecendo, a caminho de um lugar qualquer
planejado pelo destino.
Magnus sentiu uma pancada na perna e olhou para baixo,
vendo Frodi se inclinando com força para ele.
— Você trabalhou bem, rapaz. — Ele esfregou as orelhas
do cachorro, e então pegou um pedaço de carne seca de sua
bolsa, dando a Frodi o tratamento que ele mais amava, antes
de mandá-lo reunir os seis animais de onde quer que eles
tivessem ido além das dunas.
O gado seria um belo presente para os pescadores dali e
de Badachro.
Assim como o observatório que Magnus pretendia colocar
nos penhascos acima de ambas as baías. Um impedimento
para os nórdicos que ignorassem seu aviso.
Ele apenas gostaria de saber o que fazer com os sinos de
alerta em sua cabeça. Eles tocavam alto agora. E até mesmo o
bom trabalho deste dia não conseguiu silenciá-los. O pior de
tudo era que ele não conseguia afastar a suspeita de que seu
desconforto tivesse mais a ver com Margo do que com ele
próprio.
Donata poderia tê-lo amaldiçoado. Mas ele se livraria de
suas ameaças do mesmo modo que uma ave marinha repele a
água.
No entanto, era Margo quem era vulnerável.
Donata estaria atrás da alma dela, tentando usá-la para
esmagá-lo. Especialmente se ela previu o quão profundamente
Magnus seria cuidadoso com ela.
As mulheres eram mais cruéis com sua própria espécie.
E esse conhecimento o fez correr pela praia, para longe de
seus homens, disparando para a trilha do penhasco e para o
emaranhado de arbustos lá de cima.
Ele se apressou pelo caminho, suas pernas latejando,
apenas com um pensamento em sua mente.
Margo.
Capítulo Dezoito
Duas semanas depois, Margo estava em um rochedo
acima de Castelo Badcall, olhando para o mar ondulante. Um
forte vento do norte passou por ela, jogando seu cabelo e
levantando suas roupas. Ela não se importava com a violência
da tarde. Longe disso. Ela virou o rosto para as rajadas,
desfrutando de uma onda de puro prazer. Ela vivera para tal
clima, sempre soube. Seu manto de lã a mantinha quente, de
qualquer maneira, embora apreciasse o conforto adicional do
xale de linho leve em seus ombros.
Dado pela tia de Magnus, Agnes contara que costurou a
borda do xale quando era apenas uma menina, tornando a
oferta mais do que apenas aquecer o pescoço de Margo. O
presente fizera-a se sentir bem-vinda.
Aceita e em casa, em Badcall.
Pelo menos na medida do possível.
Quando ela tocou as dobras de linho macio do xale,
esperando que ela nunca tivesse que sair dali, desejou
profundamente que o tecido contivesse a mesma magia
poderosa que a Pedra Encantada das Terras Altas.
Mas o xale era apenas isso, um pedaço de linho, por mais
antigo e precioso que fosse.
Então Margo afastou qualquer pensamento
excessivamente sentimental que a levasse por estradas que ela
não queria viajar, e simplesmente observou as longas ondas do
Atlântico batendo nas rochas negras e irregulares. Era uma
visão inspiradora, e a explosão das ondas ecoava pela costa.
Era também uma vista que ela se permitia aproveitar
todas as tardes, pouco antes do crepúsculo se aproximar,
tornando muito traiçoeira o percurso do penhasco.
Os passeios públicos e grades de proteção ainda não
haviam sido inventados, afinal de contas.
Não que ela tivesse feito de outra forma. Ou em outro
local.
Ela podia respirar ali. Ela nunca havia se sentido mais
estimulada, viva, quase intoxicada. A beleza da paisagem
invadia seus sentidos. Em cada lugar que olhasse, encontrava
esplendores maravilhosos que inflavam o coração. As nuvens
cobriam o céu com suas sombras, encobertando as charnecas e
as colinas. Pássaros marinhos rodopiam acima dela e ela podia
sentir a fragrância dos pinheiros.
Ela não podia imaginar um local mais perfeito.
Ela fechou os olhos e inalou profundamente, procurando
conectar-se com os arredores. Um sopro de urze a
recompensou. Em seguida a insinuação de um ar frio e fresco
com cheiro de mar. O coração batia cadenciado, devagar e
forte. Uma maravilhosa sensação de contentamento se
espalhou por ela.
Até que uma tossida em algum lugar a sua esquerda a
recordou que ela não estava sozinha.
Assim como nos outros dias, Dugan e seu brutal e enorme
companheiro, Brodie, acompanhava-a, nunca a deixando fora
de vista. Eles a seguiam como cães fiéis, vigiando sempre que
ela se aventurava a sair pelos portões do castelo de Badcall
quando Magnus estava ocupado. Nesse momento, Magnus
supervisionava a prática de espadas e machados de seus
jovens guerreiros, assim, Dugan e Brodie a escoltava.
Eles eram guarda-costas medievais seguindo ordens de
Magnus.
Margo sabia que Dugan cumpria sua tarefa com prazer.
Nos últimos dias, Brodie também estava se acostumando
com ela.
Ela lhe ensinou algumas coisas fáceis sobre as fases da
Lua. Assim quando, na última semana, uma grande auréola
brilhando ao redor da Lua com duas estrelas ao redor dela,
Brodie orgulhosamente alertara muitos de seus amigos a não
fazer planos de viajar porque uma tormenta muito forte se
formaria em dois dias. Brodie alegara que era a dor nos joelhos
que o dizia.
Margo não se importava.
Ela foi devidamente recompensada ao ver a luz nos olhos
de Brodie, quando a predição de tempestade se confirmou
exatamente como ele declarara que iria acontecer.
Os homens ficaram impressionados com a exatidão de
seus “ossos doloridos”.
E ela ganhou um novo defensor.
Ela olhou para os dois homens, a camisa da sorte de
Dugan tornava fácil a localização dele em contraste a paisagem
escura dos pinheiros. Eles mantinham uma distância discreta,
permitindo que ela tivesse um certo grau de privacidade.
Ambos os homens estavam sentados sobre grandes rochas com
suas espadas posicionadas entre os joelhos.
Percebendo que ela os olhava, pararam de falar. Cada um
deles acenou educadamente e ergueu uma mão em
reconhecimento.
Margo fez o mesmo, apreciando a sensação cálida de
pertencer a algum lugar que a preenchia e depois se virou para
o mar. Logo a tarde começaria a escurecer e ela retornaria para
o grande salão. Mas no momento, ela precisava ficar do lado de
fora.
Essa era a Escócia que sempre a fascinara. E finalmente
ela estava ali.
Nas amadas Terras Altas.
Uma paisagem selvagem e acidentada que atraía àqueles
que amavam a solidão e se empolgavam com dias frios cheios
de vento, névoa e garoa. Pessoas como ela, que preferia ouvir o
boletim noturno que as temperaturas cairiam ou choveria do
que o dia seria quente e ensolarado. Ela não nascera para o
verão.
E se ela ainda estivesse aqui no mês seguinte, ela
desabrocharia no inverno escocês.
Uma pena que ela não era boa em magia das Terras Altas.
A única vez que ela teve um objeto verdadeiro sobre uma
lenda e conhecimento celta, ela se desesperou e deixou a Pedra
Encantada escapar entre os seus dedos.
Tudo havia dado horrivelmente errado naquele dia.
Apenas ao recordar de Donata com seu manto preto e
olhos pratas fazia suas mãos tremerem e o estômago enjoar.
No entanto, sem esse pesadelo, ela não teria Magnus. Ela
sabia muito bem que nada que valia a pena vinha fácil. Ela
tinha Magnus e Donata era nada mais do que um pequeno
aborrecimento no grande esquema das coisas.
Não é como se ela realmente o tivesse.
Eles compartilhavam uma poderosa atração física e ele era
incrível na cama. Mas ele significava muito mais para ela do
que um ótimo sexo e até mesmo seu irresistível sotaque. Ela
estava desesperadamente apaixonada por ele. E queria que ele
sentisse o mesmo.
Ela precisava da garantia dele, assim, se ela fosse levada
de volta a seu tempo, poderia ter o conforto do conhecimento
de que ele a amava.
Não saber como ele realmente se sentia, estava
atormentando-a.
O mais próximo que ele chegara foi chamá-la de mo
ghaoil.
Margo franziu a testa, abaixando-se quando duas gaivotas
passaram bem próximas a sua cabeça, quase cortando sua
orelha. Quando ela se endireitou, arrumando os cabelos, viu
Magnus. Ele estava parado no local mais afastado do
penhasco, sua posição a uma boa distância de seus dois
protetores.
Ela engoliu em seco, seu olhar preso ao dele.
Há quanto tempo ele estava lá?
Ela lançou um olhar para Dugan e Brodie, surpresa por
eles não terem saudado seu lorde, alertando-a de que ele havia
chegado. Mas ao ver seu mestre, eles foram embora,
circunspectos como sempre. Eles a deixaram sozinha para
enfrentar o desejo que fervia nos olhos de Magnus.
Como não escondia seus sentimentos, tinha certeza que
eles sabiam que ela agradecia cada momento particular que ela
e Magnus podiam passar juntos.
A antecipação batia dentro dela, quente e emocionante.
Ele ainda não havia deixado o bosque, onde se debruçou contra
um alto pinheiro escocês, a casca vermelha da árvore brilhando
suavemente na luz fraca. Ele cruzou as pernas nos tornozelos e
seus braços estavam cruzados, a cabeça levemente inclinada
enquanto a observava.
Mas então os olhos dele escureceram e deu um lento
sorriso de reconhecimento. O olhar dele não a abandonou,
afastando-se da árvore caminhou até ela. Mesmo a distância,
ela podia notar o quanto ele era mais alto e mais forte do que a
maioria dos homens. Definitivamente, ele era magnífico, com
seu plaid pendurado sobre um ombro e com braceletes de ouro
e prata em seus braços. O olhar dele era focado, sua
mandíbula dura. A determinação em seu rosto, a excitação
porque ela adivinhou a razão daquela fisionomia.
Ele carregava um plaid dobrado sobre um braço, sua
intenção acendendo uma pequena chama dentro dela.
— Minha tur-rist. — Ele parou na metade do caminho, o
vento chicoteando seu plaid enquanto ele mantinha as pernas
ligeiramente abertas e as mãos nos quadris, seu olhar varrendo
o corpo dela audaciosamente.
Ele havia liberado seu longo e sedoso cabelo preto de sua
costumeira faixa de couro e o som fluía ao vento, uma confusão
de pura e ilimitada tentação.
Ele era magnífico.
Mas a forma como ele usava a palavra turista fazia inflar
bolhas de felicidade em Margo.
Ela não queria ser uma estranha.
Ela ansiava por pertencer a ele, à terra selvagem e
espetacular que ele amava tanto e protegia tão ferozmente, e -
uma pontada quente apunhalou seu peito - até às pessoas
orgulhosas e supersticiosas que eram os parentes de sangue e
amigos dele.
Ela queria tudo, principalmente o amor dele.
— Não se aflija, mo ghaoil. — Ele estava caminhando em
direção a ela, sua expressão mais feroz do que nunca.
— Está um dia lindo e... — Ele a alcançou, puxando-a
com força contra ele, segurando-a perto — eu amo ver o modo
como aprecia isso. — Ele a beijou, esmagando a boca dela com
a dele em uma profunda e voraz reivindicação. Foi tão
calorosamente possessivo, que uma onda de calor e desejo a
varreu.
— Faz muito tempo desde que eu vi alguém olhar para o
outro lado do mar com a mesma admiração que vi em seu
rosto. — Ele segurou a parte de trás da cabeça dela, seus
dedos em seu cabelo, segurando com força como se ela
desaparecesse se ele não o fizesse. — Você sabia que os seus
olhos ficam claros, é como se tivessem estrelas quando você
assiste a sombras de nuvens deslizando pelas colinas.
Ele se inclinou, beijando-a lenta e suavemente desta vez.
— Sinto-me aquecido por dentro ao te ver desse jeito,
Margo-lass32. Você me faz lembrar a beleza que eu esqueci. A
percepção para aqueles que, como nós, amamos este lugar, não
há outro lugar melhor no mundo. Você trouxe essa verdade de
volta.
— Oh! — O coração de Margo quase se partiu. Seus olhos
estavam mais do que "estrelados" agora.
Ela piscou, olhando para o lado assim que um novo bloco
das sombras de nuvens como ele mencionara, transformaram
as colinas em um caleidoscópio de azul, roxo e dourado.
Olhando de volta para ele, respirou fundo, esperando que suas
palavras não o chocassem, porque ela queria que ele a
entendesse.
— Eu sempre amei a Escócia. — Ela manteve as mãos em
volta do pescoço dele, os dedos agarrando o plaid. — Você
sabe? — Ela procurou as palavras certas, e então apenas
apressou-se. — Sempre que venho aqui, procuro por algum
tipo de portal encantado que eu possa atravessar e consertar o
tempo, algum truque que me permita ficar aqui.
— Ou eu poderia criar um bloqueio que selaria o tempo
depois que eu voltasse para cá em segurança, para você.
Apenas qualquer coisa — sua voz falhou — que me mantivesse
com você.
— Você não precisa disso, mo ghaoil. — Sua voz se
aprofundou. — Você está aqui. Eu não vou deixar nada te tirar
de mim, não agora.
O coração dela apertou-se, mas ela não pôde evitar em
desviar o olhar, procurando nas rochas e urze por um pequeno
indício de algo incomum.
Não havia nada.
— Venha, moça. — Ele acariciou o pescoço dela,
beliscando sua orelha. — Eu sei que há magia, escuridão e luz
nas Terras Altas.
— Os feitiços murmurados por Donata não poderiam ter
trazido você aqui sem o poder da Pedra Encantada. Aquela
pedra se foi agora. Orosius jurou e ele saberia dizer melhor do
que ninguém. Esse perigo é passado e não pode tocar em você.
Mas portais encantados — endireitou-se, balançando a cabeça
— e alteração do tempo?
— Eu passei por um para chegar aqui. — Margo
estremeceu.
Algum dia ela contaria a ele sobre Mindy e Bran of Barra,
mas ela não queria tornar isso mais complicado do que já era.
— Pedra mágica ou não, tinha que haver uma abertura no
véu entre o seu mundo e o meu. Donata usou isso para me
encontrar, e a Pedra Encantada criou uma reviravolta, uma
que nós nunca entenderemos de verdade.
Ele franziu a testa, duvidoso, embora, assim como ela,
nenhum dos dois tinha escolha senão acreditar.
Ela estava aqui, afinal de contas.
— Essas coisas existem. — Margo deslizou as mãos no
cabelo dele, entrelaçando os dedos nos fios sedosos. — São
portões do tempo.
Ela realmente esperava encontrar um por aí.
Depois de tudo o que ela passou, nada a surpreenderia
mais. Então ela queria tentar.
Infelizmente, nenhum misterioso anel de fada tinha
aparecido na grama, permitindo-lhe acessar o interior, apenas
o tempo suficiente para selar a abertura e garantir seu lugar no
tempo de Magnus.
Mas não era assim tão fácil.
Tais portais, embora certamente reais, eram quase
impossíveis de localizar. E eles eram ainda mais difíceis de
usar corretamente se fossem encontrados.
Os escritores escoceses de romances os usavam o tempo
todo.
Com uma varredura da caneta ou um floreio no teclado,
eles permitiam que seus heróis e heroínas, que viajavam no
tempo entrassem e saíssem do passado como se esses portais
fossem portas giratórias.
Margo sabia mais do que isso.
E ela queria viver seu romance, não escrever ou ler um.
— Margo... — Magnus recuou e segurou o queixo dela,
inclinando o rosto para que ela tivesse que olhá-lo. — Não
tenho vontade de falar de portões do tempo. Eu vejo apenas
você diante de mim e que você é suave, quente e desejável. —
Suas palavras a acariciaram, aquecendo-a por dentro.
— Seu perfume me encanta. É como o ar fresco e limpo de
uma manhã fria de inverno, urze e...
— Não era ar frio e rosas? — Margo sabia que o cheiro de
rosa dela não existia mais. Ela havia usado um spray orgânico
perfumado, Mar de Nuvens, tamanho viagem.
Ela também sabia por que ela cheirava a urze, mas
mordeu o lábio.
Os olhos de Magnus se aqueceram e ele a puxou para
perto novamente, mais uma vez acariciando seu pescoço.
— Você tomou banho com o sabão da minha tia Portia,
não é?
Margo assentiu com a cabeça, olhando diretamente nos
olhos dele e prendendo a respiração.
— Eu mencionei que amava rosas e ela me disse que faz
um sabonete especial com aroma de rosa. Ela me deu um jarro
e...
— Você descobriu que cheirava a urze? — O tom de
Magnus era divertido.
— Na verdade, sim. — Margo sorriu, amando como a
brincadeira vinha fácil. Era um novo lado dele, assim como a
covinha que surgia em sua bochecha enquanto ele lhe sorria.
Ao olhar para ele, o pulso dela se acelerou.
— O óleo com aroma de rosas que ela derramou na
banheira também cheirava a urze.
Desta vez, Magnus riu.
— Pobre tia Portia. Ela faz todos os tipos de sabonetes e
essências, sempre anunciando um novo perfume com tanto
orgulho. Ainda...
— É sempre urze.
— Sim, embora nenhum de nós tenha o coração para
contar a ela.
— Eu também não vou. Não se preocupe. — O coração de
Margo se aqueceu quando ela se lembrou do prazer da mulher
mais velha em apresentá-la com os artigos de higiene pessoal
aromatizados com rosas.
Mas quando ela sentiu os olhos começando a ficar
"estrelados" novamente, ela tocou o plaid ainda pendurado no
braço de Magnus e olhou para ele.
— Por que você trouxe isso? — Ela esperava que seu
palpite estivesse certo.
Ele sorriu perversamente.
— Para fazer isso. — Disse ele, sacudindo e abrindo o
plaid por um trecho suave de urzes de baixo crescimento.
Voltando-se para ela, ele abraçou seu rosto, beijando-a
profundamente.
— Eu quero amar você como só um highlander sabe: sob o
vento e cercado por urzes, possuindo-a em minha manta de
novo e de novo até que a luz se apague.
— Oh, Magnus, eu... — Ela não conseguiu terminar. Ele
roubou as palavras dela com outro beijo, este mais duro e
profundo que o anterior. O gosto e o cheiro dele inundaram
seus sentidos, despertando-a e intoxicando-a. Seus beijos eram
mágicos, a sensação de seu grande corpo musculoso contra o
dela ia além do irresistível.
Ela o queria desesperadamente.
Antes que ela pudesse dizer, ele se moveu com a
velocidade da luz, levando ambos ao chão, de modo que ela
ficou com as costas no plaid. Ele subiu nela, apoiando os
braços em ambos os lados e inclinando-se para frente para que
ela estivesse presa por seu corpo poderoso e ainda vestindo o
kilt.
— Eu quero você, Margo. — Suas palavras aumentou o
desejo dentro dela, de uma forma afiada e intensa. — Aqui e
agora, eu inteiro dentro de você. — Ele ergueu a saia,
desnudando as pernas dela enquanto deslizava a mão até o
interior de sua coxa, acariciando sua nudez, encontrando-a
escorregadia e úmida de excitação. — Eu não consigo pensar
em nada além de você, moça.
— Você está comigo sempre. — Sua mão a agarrou com
força, apertando. — Assombrando meus sonhos e enchendo
meus dias. Há momentos em que acho que você sempre esteve
comigo, antes mesmo... quando eu amava a Liana. Uma parte
de mim a amará sempre. Ela era boa e...
— Por favor. — Margo pressionou os dedos contra os
lábios dele. — Não fale dela agora.
Ele endireitou as costas, olhando para ela.
— Mas você deveria saber que eu...
— Eu sei que isso é bom. — Margo arqueou as costas
contra o plaid, levantando os quadris para aumentar a pressão
de sua mão apertando seu monte.
Ela preferira implorar a ele para lhe dizer que a amava,
mas não se sentia particularmente forte e corajosa. Ouvir a
devoção reluzente à sua noiva perdida, quebraria a felicidade
que existia ao redor deles.
Era uma energia linda, e não apenas efeito da
sensualidade física. Havia algo mais, algo que parecia místico.
Uma força elementar que se erguia do solo profundo e turfoso
sob seu manto, rodopiava para fora da urze e fluía fortemente
pelas rochas sem idade, cobertas de líquen. Talvez a seiva vital
da terra, que aquecia a terra e enchia o ar com sua magia.
— Liana não está mais aqui, moça. — A finalidade nas
palavras de Magnus fez seu coração sacudir.
Ele não parecia quebrado ou mesmo zangado. Ele falava
apenas de um fato. E, ela engoliu em seco, ele estava usando a
mão livre para tirar o plaid. Jogou a roupa de lado e, em
seguida, estendeu a mão para o cinto da espada, seus dedos
habilmente trabalhando no fecho e, quando ele ficou de pé,
despiu-se tão rápido que ela viu apenas um borrão do tartã.
Nu, ele ofereceu a mão a ela, levantando-a para que ela
ficasse em pé, a sua frente.
— Eu quero que você monte em mim, Margo. — Suas
mãos estavam no pescoço dela, desfazendo o nó de seu xale,
em seguida, o fecho de sua capa de lã. — Da mesma forma que
eu te vi fazendo no vapor da chaleira, mas agora, e aqui no
meu plaid.
— Oo-oh... — A excitação deixou Margo tonta até que um
farfalhar nas árvores atrás deles explodiu sua bolha sensual.
Ela lembrou que, embora Dugan e Brodie tenham taticamente
voltado para as árvores, eles ainda estavam por perto. E eles
certamente estariam assistindo.
Ela sentiu suas bochechas colorindo no momento em que
olhou para o bosque.
— Talvez não seja uma boa ideia. — Ela examinou a densa
margem de pinheiros, sem ver nada.
Ainda...
— Aqueles homens estarão de costas. Não se preocupe. —
Ele estava levantando o vestido, já tirando os braços das
mangas. — Eles saltarão na escuridão profunda se desejarem
me deixar com raiva, coisa que eles não farão.
Margo não argumentaria contra isso.
Além disso, era tarde demais.
Ele a tinha totalmente nua agora. Suas roupas estavam
espalhadas sobre a urze e ele mais uma vez enfiou a mão entre
as pernas dela, agarrando-a possessivamente.
E assim que ele deslizou um dedo dentro dela, provocando
e atormentando-a, ele abaixou a cabeça para lamber seu
mamilo.
Margo gritou com o desejo infernal que ardia em suas
veias. Ela se moveu contra a mão dele e levantou os seios,
oferecendo-os para que ele os sugasse. Quaisquer que fossem
as preocupações sobre modéstia que ela tivera, agora estavam
fugindo no vento frio das Terras Altas.
Era tarde demais para se importar.
Ela queria Magnus mais do que ter decoro. Mas esperava
que ele estivesse certo sobre Dugan e Brodie.
Depois disso, ela já não sabia de mais nada, exceto da
necessidade quente que a atravessava em grandes ondas de
prazer. Era incrível, como o desejo arrebatador caía sobre ela,
quase no limite quando ele se deitou sobre o plaid e se esticou,
abrindo os braços em um convite claro.
Ela foi até ele, seu corpo inteiro quente e trêmulo, ansiosa
ao ser puxada para baixo, para cima dele e ele correu as mãos
de cima abaixo pelo corpo dela.
E enquanto se beijavam, ela sentiu a estranha energia
quase crepitando no ar ao redor deles, o solo quente parecia
cantarolar e respirar em conjunto com eles, mantendo
compasso como em um antigo ritual de união de almas.
Surgiu na mente dela, o pensamento de que a Escócia
também a estava reivindicando. Acolhendo-a e santificando seu
amor por este homem das Terras Altas, iniciando-a em um rito
pagão há muito tempo esquecido, quando as pessoas
acreditavam que fazer amor tão intimamente perto do solo, os
unia à terra.
Ela amava essa noção.
Mas neste instante, ela tinha que fazer algo sobre o
formigamento que corria de um lado para o outro em seus
lugares mais necessitados, tornando-a desesperada e faminta.
Provavelmente ciente de quanto ela o desejava, Magnus
segurou o membro longo e duro enquanto ela subia em suas
coxas. Ela posicionou cada joelho de um lado do corpo dele,
sendo muito forte e corajosa e arqueou as costas para mostrar
a plenitude de seus seios e se abaixou sobre ele, deslizando
devagar, saboreando cada centímetro, quente e rígido, dele.
— Margo... — Nunca seu nome soou mais bonito como em
seu profundo, rico e amanteigado sotaque, enrouquecendo de
paixão. — Preciosa, você vai me arruinar.
Ele parou de deslizar as mãos pelo corpo dela e esticou os
braços ao lado de seu próprio corpo, apertando as mãos até as
juntas dos dedos ficarem brancas. Ele apertou a mandíbula e
seu corpo inteiro se retesou, as veias se destacaram no pescoço
quando ele fechou os olhos, expirando por entre os dentes,
enquanto ela se movimentava para cima e para baixo, montada
nele.
Margo jogou a cabeça para trás, dando grandes e gulosos
goles do ar frio, ao mesmo tempo que o prazer a aquecia por
dentro. Nunca se sentira assim, tão ferozmente ligada a um
homem, e à terra, ao vento e ao céu ao redor deles. Era uma
sensação inebriante e poderosa.
Era tão maravilhosa, tão extraordinariamente incrível, que
ela não queria que terminasse.
Seu coração batia furiosamente e a sua liberação que se
aproximava rapidamente, rugiu através de seu sangue,
urgente, exigente e implacável. A qualquer momento, ela se
despedaçaria, fragmentando-se no meio do nada.
E ela queria tanto isso.
— Oo-oh, Deus... — Ela se ergueu e desceu sobre ele mais
rápido, arqueando as costas. Ela apoiou-se nos próprios braços
e apertou as mãos nas pontas do plaid, seus dedos cavando
fundo no solo macio e fértil.
— Magnus, eu... — As palavras se tornaram um suspiro,
um lamento estremecido, quando uma intensa onda de prazer
passou por ela. De repente, ela estava em chamas, subindo
para as alturas mais altas. Ela estava apenas, vagamente
ciente de que Magnus levantava seus quadris debaixo dela,
gritando seu nome enquanto eles compartilhavam o clímax...
Ofegante e esgotada, mas de um jeito delicioso, ela teria
desmaiado sobre ele, se ele não a tivesse segurado e a
aninhado em seus braços.
— Como eu vivi sem você? — Ele virou para o lado, com
cuidado para se certificar de que seu braço e ombro a
apoiavam. — Você não precisa se preocupar em ser separada
de mim, Margo-lass. — Ele acariciou seus cabelos, traçou um
dedo ao longo da curva de seu seio, em seguida, circulou seu
mamilo com gentileza. — Eu abriria o céu para encontrar você.
E eu não vou te assustar dizendo o que faria com qualquer um
que tentasse te ferir. Você está segura comigo. Sempre.
— Eu sei. — Margo mal podia falar.
Ela se aconchegou a ele, o prazer pós-clímax ainda
rolando em seu interior languidamente.

***

De alguma forma ela parecia drogada, mexendo-se apenas


quando Magnus levantou seus ombros para passar a roupa por
sua cabeça, vestindo-a com uma facilidade que ela teria que
perguntar-lhe sobre o assunto qualquer dia desses, mas no
momento, ela não queria quebrar o clima.
Suas mãos eram maravilhosamente habilidosas. Mesmo
seus toques mais inocentes faziam o desejo aumentar dentro
dela, tentando-a a oferecer seu corpo a ele. Ela queria a boca
dele na dela novamente, precisava tanto de seus beijos que mal
conseguia respirar. Facilmente ele poderia levá-la a uma onda
de paixão. E ela era tão abençoada por estar com ele.
Já vestido, ele ficou olhando-a, um sorriso surgindo em
seus lábios.
— Você é agora uma verdadeira mulher de highlander,
Margo-lass. Nenhuma mulher pode alegar isso — seu olhar foi
para o plaid amarrotado — até que seu homem a possua sobre
a urze.
— Algumas pessoas podem dizer que eu o tive. — Margo
elevou o rosto para ele, alegre ao ver o sorriso dele
aumentando, mostrando sua covinha.
— E você pode me ter de novo, essa noite, se você quiser.
— Ele colocou uma mão no cabo da espada, sua expressão
ficando séria. — Por agora, devo retornar a Badcall e ver se
meus rapazes estão indo bem com o treinamento de espada e
machado. Você vai voltar comigo?
— Eu não sei. — Margo começou a se levantar, mas seus
membros ainda pareciam macarrão molhado. Cada respiração
era um grande esforço e seu batimento cardíaco ainda estava
irregular. E agora que os dois estavam vestidos de novo e a
estranha e pulsante magia da terra que preenchia o ar se
desvanecera, ela ficou levemente preocupada.
As pessoas pareciam sempre saber quando alguém
acabava de ter uma experiência quente na cama.
Ela tinha certeza de que os highlanders medievais sabiam
quando uma mulher acabara de gozar vigorosamente na urze.
Um rápido olhar para as árvores, onde Dugan e Brodie
reapareceram como um relógio, provou sua teoria. Os dois
homens pareciam dolorosamente desconfortáveis.
De jeito nenhum ela iria colocar todo mundo no Castelo
Badcall em tal posição.
— Eu vou ficar aqui um pouco. Obrigado. — Ela colocou
seus braços para trás, inclinando o rosto para o vento. — Está
uma tarde linda e... você sabe, é muito especial para mim estar
aqui. Voltarei antes do anoitecer e depois tomarei outro banho
de "rosa" da tia Portia antes do jantar.
— Você tem certeza? — Magnus levantou uma
sobrancelha.
— Eu tenho. — Margo sorriu.
— Como você desejar, doçura. — Ele se inclinou para
mexer no cabelo dela e beijar sua testa.
Então ele se virou e foi se afastando, indo em direção à
linha grossa formada pelas árvores e à escuridão além delas. O
coração dela se apertou quando ele desapareceu de vista. Ela o
amava mais do que a própria vida.
E ele poderia não ter dito as palavras, mas ela estava
começando a suspeitar que ele também a amava.
O que quer que acontecesse, ela sabia que nunca
esqueceria desta experiência com ele.
Não que isso importasse.
Porque se ela o perdesse, a vida como ela conhecia não
existiria mais.
Seu coração ficaria em um turbilhão. E ela sabia que
passaria seus dias andando cega e incapaz de respirar. Ela
seria a prova viva de que o velho ditado sobre o tempo curar
todos os males era uma falsidade total.
Os anos que passassem não a acalmariam.
Eles a destruiriam.
Capítulo dezenove
Horas depois, Magnus estava no corredor iluminado por
tochas no castelo de Badcal, observando Gilbert, o rapaz da
cozinha, empilhar troncos para alimentar o fogo da lareira. As
duas tias de Magnus, que eram secretamente conhecidas como
as Irmãs de Peito de Navio por causa de seu tamanho robusto e
peitos grandes, estavam reclamando do rapaz. Agnes o avisava
para tomar cuidado ao empurrar a madeira torcida e prateada
com as pás. A lenha assobiou e cuspiu labaredas, e Agnes
colocou uma cesta de plaids, camisas e lençóis de mesa
corroídos por traças perto do fogo.
Queria separar as mercadorias avariadas e esperava que o
brilho do fogo a ajudasse com os olhos não tão bons enquanto
procurava por pedaços de tecido reutilizáveis.
Tia Agnes gostava de dar nova vida a seus tesouros, como
ela chamava esses restos que ela salvava.
Magnus cruzou os braços, esperando que ele não tivesse
que intervir.
Suas tias eram mulheres fortes e discutir com elas só as
afligiria. E ele as amava muito.
Ele ficou especialmente satisfeito em ver como elas
aceitaram tão bem a chegada de Margo. Elas a aceitaram
rapidamente e cuidavam dela como se elas sempre a tivessem
amado. Não houve um dia em que elas não mostrassem seu
amor. Era mais afeição do que ele já tinha visto. Elas ficavam
sobre ela como duas mães-galinhas.
Magnus suspeitava que elas a viam como a filha que não
tiveram. Por uma série de razões infelizes, as irmãs não se
casaram, permanecendo donzelas por toda a vida. Uma tristeza
que elas não expressavam.
Às vezes, elas podiam ser assustadoras.
E este era um desses casos. Gilbert era um rapaz baixinho
e tímido. E ele estava com medo das duas mulheres.
Infelizmente, ele também tinha medo de Magnus. Ele só
tinha que olhar para Gilbert e o menino quase pulava seu
próprio corpo. Era algo que Gilbert fazia com frequência
porque, de acordo com Calum e alguns outros, Magnus andava
sempre com uma fisionomia sombria.
Ultimamente, ele sorria com muito mais frequência.
Agora que Margo estava com ele.
Ele até se surpreendeu ao se ver rindo de vez em quando.
Era uma maravilha maior saber que era bom rir de novo. Mas
Gilbert não o via há algum tempo, certamente não desde o
retorno de Redpoint com Margo a bordo do Corvo do Mar.
Então Gilbert estava evitando olhar na direção de Magnus,
embora tivesse certeza de que o menino sabia que ele estava lá.
— Não o coloque aí, rapazinho. — Agnes fez o mesmo,
quando Gilbert abaixou para jogar um par de troncos sobre as
turfas.
— O nome dele é Gilbert. — Magnus falou em voz
escondido nas sombras. — Vocês vão assustá-lo, a menos, que
o chamem pelo nome correto.
— Você é um para dizer a um corpo como não assustar
uma alma! — Agnes lançou um olhar irritado a Magnus
enquanto ela se movia entre o garoto e a lareira. Bufando como
só as mulheres mais velhas e aborrecidas conseguem, ela
manobrou seu corpo para que Gilbert não pudesse enfiar um
grande pedaço de tronco no fogo ardente da turfa.
— Coloque a madeira no fundo, vê? — Ela apontou,
indicando o local que ela queria. — Dessa forma, não vamos ter
faíscas voando sobre minha cesta de tesouros. — Gilbert
obedeceu, jogando a madeira no interior da lareira.
— Agggh! Não dessa forma! — Agnes balançou a mão,
gemendo. — Não jogue os troncos. Vai chover cinzas sobre nós
todos.
— E vamos colocar o próximo pedaço aqui, hein? — Tia
Portia opinou, o cheiro forte de urze da fragrância que ela
usava, flutuava no ar enquanto ela estendia o braço para
direcionar o rapaz.
— Sim, Lady Portia. — Gilbert balançou a cabeça e pegou
outro feixe de madeira torcida, movendo-se em direção ao fogo
para fazer o que ela pedia.
Mas ele não parecia feliz.
E quando Magnus viu Agnes inchar seu peito e se
preparar para repreender o garoto novamente, ele se adiantou
para pegar a cesta de panos descartados do chão.
— Precisamos de um bom fogo esta noite, tias. — Ele
posicionou a cesta contra o seu quadril, olhando para eles
niveladamente.
— Mesmo — ele piscou para Gilbert — se a madeira
espirrar como o próprio diabo. E eu gosto das chamas azuis.
Ele não estava disposto a dizer às tias a razão. Que o
sedutor fogo azul-púrpura, com seu cheiro que lembrava o alto
mar, levou-o de volta a uma pequena cabana em Badachro,
onde ele havia feito amor com Margo sob luz de um fogo de
troncos. Ao invés disso, ele aprumou os ombros.
— Após jantarmos e o vestíbulo ficar vazio para a noite,
levarei mais velas para os seus aposentos. Vocês podem
selecionar os restos dos panos lá, tia Agnes. À luz de uns
poucos candelabros e não aqui diante do fogo do salão, onde
vocês bem sabem, a madeira cospe faíscas. — Ele pôs a mão no
ombro de Gilbert, seu aperto firme enquanto suas tias se
agitavam e balbuciavam antes de partir na escuridão do grande
salão.
Uma vez que elas se foram, ele bagunçou o cabelo do
menino.
— Não diga a ninguém, Gilbert — ele se inclinou,
abaixando a voz — mas há alguns que chamam as duas
mulheres de “Irmãs de Peito de Navio.” Agora termine seu
trabalho. Elas não vão incomodá-lo novamente. — Magnus se
endireitou, sentindo-se desajeitado e excessivamente satisfeito
quando Gilbert olhou para ele, seu rosto sardento iluminado
por um sorriso tímido.
Mais tarde, Gilbert voltou à sua tarefa com vigor. Logo, as
chamas azul-púrpura dançariam e saltariam e Magnus estava
feliz por isso. O calor adicional era bem-vindo, quando uma
violenta tempestade de outono se aproximava pelo mar,
resfriando o ar e mandando a chuva martelar o telhado. O
vento forte rasgou as venezianas e uivou pelas torres. E mesmo
através das espessas muralhas da fortaleza, a batida das ondas
podia ser ouvida enquanto ondas furiosas golpeavam os
penhascos.
Era uma noite para ter conforto e tranquilidade.
Magnus teve o prazer de oferecer aos seus homens um
salão quente e seco com bastante cerveja, pão e carne. Eles
tinham a companhia um do outro, suas espadas ao alcance, se
necessário, bons cães caídos no chão, e um músico decente
arranhava as cordas da harpa em um canto escuro.
Não havia nada de errado.
Exceto que ele ansiava correr até a escada da torre,
invadir seu quarto e atirar Margo por cima do ombro, e então
levá-la até a mesa alta para que ele pudesse desfrutar do
simples prazer de tê-la ao seu lado.
Depois ele pararia no meio da escada para encostá-la
contra a parede, levantar suas saias e tomá-la enquanto
permaneciam nas sombras.
Ele precisava dela ferozmente.
Mesmo agora, algumas horas depois de ter relaxado com
ela na ribanceira.
Ele também queria lhe explicar melhor o que disse no
penhasco.
Observá-la enquanto ela olhava para o mar o havia tocado
profundamente. A expressão do olhar dela despertou algo
profundo dentro dele. Vendo o quanto ela amava a terra dele,
tinha lhe tirado o fôlego.
Seu coração batia mais rápido, seu peito se enchia de
orgulho.
Muitos em seu próprio povo viviam apavorados, sempre
lançando olhares sobre os ombros, observando e esperando
pelos próximos atacantes do norte para levar a morte e a
tristeza à suas costas.
Eles se esqueceram de admirar a beleza.
Eles não estavam mais impressionados com montanhas
selvagens e rios espumantes, ou lugares vazios e ventosos onde
o espírito de alguém levantava voo. Eles ficaram cegos para a
maravilha das alvoradas suaves, quando a luz desvanecia
sobre os campos de urze e o silêncio se instalava suavemente,
disfarçando as noites frias e escuras.
Tal apreciação também se fora da mente de Magnus.
Mas tudo voltava para ele cada vez que ele as via no rosto
de Margo.
Ela lhe deu um pedaço de si mesmo, que ele havia
perdido.
Ela o fazia lembrar-se das coisas que uma vez ele amara
tão brutalmente e tristemente esquecido durante os anos de
guerra e vingança. Em alguns momentos ele sentiu como se
soubesse que precisava dela. Ela o contemplava.
Ele ainda não havia dito a ela que a amava, mas ele iria.
Era como algo tão forte, que ele chegara a suspeitar que
ela era uma bruxa do mar que viera para atormentá-lo. A culpa
o irrompeu, embora soubesse que tinha poucos motivos para
pensar de outra forma. Mesmo assim, ele sentiu a necessidade
de desfazer suas primeiras dúvidas e fazer o certo por ela. E
esse desejo foi mais profundo do que o desejo em sua virilha.
Acima de tudo, ele queria saber que ela estava em segurança.
E ele não podia fazer isso enquanto ela deixava suas tias
envolvê-la em banhos fumegantes e perfumados, deixando-a
em um estado tão relaxado que ela preferia dormir a passar a
noite com ele na mesa alta.
Isso o incomodava, que ela o fizesse especialmente em
uma noite em que ele jurara ter visto estranhas sombras
rastejando pelo corredor como uma praga.
Franzindo a testa, ele se virou e pegou a espada do banco
onde a colocara mais cedo. Cuidadosamente, ele afivelou o
cinto da lâmina ao redor de seus quadris, contente por ter o
peso familiar de Vingança ao seu lado.
— Você sentiu isso também? — Calum se juntou a ele, seu
rosto duro à luz do fogo.
Como Magnus, o homem mais velho havia amarrado sua
espada no quadril.
— Senti o que? — Magnus levantou uma sobrancelha, não
estava pronto para expressar que sentia uns espinhos em sua
nuca.
Ele gostava de um dia com boa luta tanto quanto o outro
homem, talvez até mais. Mas em uma noite tão fria e úmida,
ele estava mais disposto a procurar sua cama, e os braços de
Margo, do que empunhar Vingança e entornar as entranhas
dos nórdicos.
Os nórdicos haviam ouvido seu aviso em Redpoint.
A costa estava quieta há semanas.
E o intervalo era mais bem-vindo do que ele acreditava ser
possível.
Ele olhou para Calum.
— Você está com um humor estranho.
— Estou sentindo minhas feridas de batalha esta noite. —
O homem mais velho esfregou uma cicatriz antiga em seu
pescoço. — Mas não é só isso que eu quero dizer.
— Então me diga.
— Há sangue no ar. — Calum falou o que Magnus já
sabia.
Magnus forçou um sorriso e deu um tapinha no cabo de
Vingança.
— Você cheira os vestígios da última refeição da minha
espada. — Calum bufou.
— Eu ouço Vengeance mexendo em sua bainha, gritando
sua fome.
— Ela não está morrendo de fome, e você sabe. — Magnus
manteve a mão na espada.
O queixo de Calum se projetou orgulhoso.
— Você não a estava usando agora a pouco.
Magnus lançou outro olhar para a torre de escada
iluminada por tochas, desta vez aliviado por não ver Margo
descendo os degraus.
Ele não iria querer que ela ouvisse nenhuma conversa
sobre guerra.
Ela deixou claro o que ela achava de "força bruta e
violência", como ela chamava uma boa luta. Magnus passou a
mão pelo cabelo, esperando que ele fosse capaz de convencê-la
a pensar de forma diferente.
Um homem sem espada era como uma árvore sem raízes e
galhos.
Totalmente inútil.
— Para um homem velho, seus olhos são afiados. —
Magnus não escondeu seu aborrecimento.
— Olhar furiosamente é tudo que deseja. — Calum não
estava assustado. — Eu te conheço desde quando seus ombros
não eram mais largos do que o espaço da minha mão. — Ele se
aproximou e enfiou um dedo no peito de Magnus. — Eu posso
lutar contra você e seis de seus melhores homens se você me
pressionar.
—Isso eu sei. — Magnus permitiu ao homem mais velho
manter seu orgulho.
Anos atrás, Magnus o havia visto derrubar seis guerreiros
vikings. Homens grandes e ferozes que lutavam como demônios
uivantes. Eles morreram de forma grandiosa, o sangue deles
fluindo como rios em dilúvio. Calum. o companheiro de batalha
mais confiável do pai de Magnus, saiu do campo com pouco
mais do que arranhões.
Ele ensinou a Magnus tudo o que ele sabia sobre ser um
espadachim.
Calum também compartilhou seu vasto conhecimento de
mulheres, divulgando segredos que Magnus tinha usado bem
nos anos antes de conhecer Liana e prometer mantê-la
inocente até que ele pudesse fazê-la sua noiva.
Agora...
Pela primeira vez, seu coração aceitou que ele não era
mais capaz de lembrar das feições de Liana.
Em vez disso, o rosto de Margo brilhou diante de seus
olhos.
Linda, vibrante e viva, ela encheu sua alma e fez seu
coração disparar. Como se ainda estivessem no penhasco, ele
podia sentir a seda fria de seu cabelo sob os dedos.
Como ela jogou a cabeça para trás enquanto o cavalgava,
suas coxas lisas e suaves agarrando seus quadris. Seus sinais
vitais se agitando quando ele se lembrou do quente e firme
deslizamento de sua feminilidade, descendo e se elevando sobre
ele. A vista tentadora de seus seios, saltando e corados de
desejo. Então, seu corpo inteiro se apertou, ele se lembrou de
deixar seus dedos mergulharem através dos brilhantes cachos
dourados que cobriam suas coxas. Ele sabia exatamente o que
esperava por ele sob aquele triângulo reluzente e a queria
agora, tão ferozmente que mal conseguia respirar.
Ele olhou para Calum.
O rosto machucado pela guerra de seu amigo poderia
limpar a luxúria da mente de qualquer homem.
Calum estava esfregando a cicatriz do pescoço novamente,
preocupando-se com a ferida há muito curada.
— Sangue no ar, hein? — O respeito fez Magnus repetir a
preocupação do velho guerreiro.
Calum assentiu.
— O fedor enche meus pulmões, sim. — Movimentando os
ombros, o homem mais velho colocou a mão em sua espada. —
Eu poderia sair para tomar ar além de nossas paredes e ainda
sentir o mal. É tão forte que até o vento não pode limpar sua
mácula. — Magnus concordou.
A maldade rolava quase que tangível através dele, grossa e
escura.
Ele olhou novamente para a torre da escada, aliviado ao
saber que Dugan e Brodie estavam de guarda do lado de fora
da porta de Margo enquanto ela tomava banho e descansava.
Eles ficariam lá a noite toda, mesmo sem jantar, se
Magnus não os liberasse, o que ele pretendia fazer muito em
breve.
Ele estava cansado de esperar por ela.
Mas quando Magnus seguiu Calum até uma janela
estreita, ele imediatamente desejou que não tivesse. A lua havia
se escondido atrás das nuvens, e o mar brilhava como uma
folha de prata plana, feita por estranhos redemoinhos de
névoa. Era fácil imaginar a alta proa da cabeça de um navio de
guerra viking deslizando para fora de tal névoa, um navio atrás
do outro.
— Eu quase posso engasgar com a bile. — O olhar de
Calum foi para a névoa inconstante. — Algo vil está a caminho.
Se eu estiver errado, então sou um arcanjo, alado brilhante e
aureolado.
— Você é o diabo e todos os seus asseclas moldados em
um só. O mais próximo que você chega dos anjos é comê-los no
café da manhã. E... — Magnus deu um soco no braço de
Calum, satisfeito com a faísca que suas palavras colocaram no
olho do homem mais velho — eu não quero dizer anjos
sagrados.
— Eu gosto das senhoras. — Os lábios de Calum se
contraíram. Mas então ele olhou de novo pela janela, olhando
para o horizonte. — Ainda...
— Não há ameaça vinda do mar esta noite. — Magnus
sabia que isso era verdade. — O perigo está em outro lugar. Eu
posso sentir isso fervendo e se formando, mas eu não posso
dizer onde...
Um estalo alto quebrou a paz do salão quando a porta de
entrada se abriu e bateu contra a parede.
— Santa urze, mas é uma noite fétida. — A voz estrondosa
de Orosius anunciou sua inesperada chegada.
— Magnus! — O vidente bateu os pés e sacudiu a água
dos ombros. — Eu trouxe notícias sombrias. — Ele tirou seu
manto de pele de urso pingando e jogou-o em um banco. —
Onde você está se escondendo?
— Eu não me escondo de ninguém. — Magnus caminhou
até ele.
— Isso pode ser. — Orosius estava com as mãos nos
quadris. — Mas eu estou aqui para te dizer que há uma mulher
da qual você deveria se esconder.
Alguns dos homens de Magnus riram.
Outros gritavam, talvez não vendo a seriedade nos olhos
do vidente.
— Ainda não nasceu um MacBride que temesse uma
mulher. — Carrancudo, Magnus deu a volta em torno de seu
amigo e fechou a porta do corredor contra o vento. — Não serei
o primeiro a começar uma tradição tão tola. — Orosius bufou.
— Você acha que eu deixaria a minha cabana no topo da
colina em uma noite dessas por tolice? Eu raramente deixo
meu fogo de turfa, assim como você sabe.
Magnus sabia.
Havia poucos homens que saboreavam a solidão mais do
que Orosius. Ele não sofria com o que os outros desejavam. Se
ele procurasse companhia, era porque ele tinha um bom
motivo.
Pior, Orosius parecia genuinamente alarmado. Seu cabelo
preto desgrenhado e sua enorme barba pareciam mais
emaranhados do que o habitual, açoitados pelo vento e
respingando com as gotas de chuva. E ele continuava olhando
rapidamente para a porta fechada do salão.
— Quais são as suas notícias? — Magnus fez um gesto
para que alguém fosse buscar uma caneca de cerveja para o
vidente. — Você estava olhando para o vapor de sua chaleira de
novo?
— Eu não estava olhando para o meu caldeirão, nae. —
Orosius deixou sua voz explodir. — Eu lancei minhas runas, foi
o que eu fiz. Elas me mostraram a feiticeira Donata Greer. —
Ele estremeceu visivelmente. — Ela escapou.
— Isso não pode ser verdade. Magnus olhou para ele. —
Como ela pôde se afastar de St. Eithne's? O convento fica em
uma ilha no Loch Maree e — ele olhou para Ewan e alguns dos
outros guerreiros reunidos perto — enviei uma guarda com
meus melhores lutadores para guardar a ilha. Eles não a
deixaram ir.
— Eu a vi livre. — A mandíbula de Orosius se fixou
teimosamente. — As runas não mentem. Elas caíram claras e
verdadeiras, mostrando-me tudo.
— O que você viu? — Magnus sentiu uma dor latejante
começar entre os olhos. — Fale rápido.
— Bjorn Moedor de Ossos foi buscá-la. — Orosius falou o
nome com desprezo.
— O Moedor de Ossos? — A raiva de Magnus aumentou.
Bjorn Moedor de Ossos era um dos mais formidáveis
chefes de barcos de Sigurd Quebrador de Espadas. Um homem
enorme com cabelos louros até a cintura, ele desfrutava de
uma reputação de lutador feroz. Mas seu nome não surgiu por
causa dos homens que ele esmagava em batalha, embora a
suposição estivesse próxima da verdade, pois ele realmente
esmagava os ossos dos homens que ele derrubava. Em seguida
misturava o pó com a areia que ele usava para polir suas
armas e cota de malha.
Ele vangloriava-se, dizendo que o osso acrescentava força
e magia ao poder de seu machado.
Magnus estava tentando matá-lo há anos.
Mas o bastardo era tão escorregadio como uma enguia.
— Mesmo que o Moedor de Ossos conseguisse se
aproximar da ilha… — A mente de Magnus estava zumbindo —
ele não poderia ter conseguido sair vivo. Os homens que
mandei para o convento são arqueiros experientes. Eles
poderiam ter destruído o Moedor de Ossos e seus homens
antes que eles tivessem a chance de dirigir um navio para a
ilha. Ou eles poderiam ter enchido suas vigas com flechas de
fogo para se afastarem.
— Sim, eles poderiam ter feito. — Orosius tomou um gole
de cerveja.
— Mas eles não fizeram, hein? O que mais as runas lhe
mostraram?
Orosius mexeu na barba.
— O Moedor de Ossos é esperto. Ele...
— Esse rato é inteligente. — Um sentimento doentio
estava começando a se espalhar através do intestino de
Magnus. O comandante dos vikings era mais que habilidoso.
Ele era maligno.
— O que ele fez? Eu já sei que foi uma emboscada.
— Foi isso. — Orosius cuspiu nos juncos do chão. — Ele
trouxe gente das colinas com ele. Um segundo navio inteiro
cheio de velhos fracos, moças encolhidas e crianças. Em algum
lugar ele também capturou alguns monges e uma freira.
Magnus de repente entendeu o nó apertado em sua
barriga.
— O povo das colinas... — Ele não queria expressar sua
suspeita. Que os povos das colinas eram os agricultores
desaparecidos que Orla mencionou.
— Um monge foi o primeiro a morrer. — Orosius cerrou as
mãos nas palavras. — O Moedor de Ossos cortou a barriga do
homem diante das paredes do convento. Então ele exigiu a
libertação de Donata, dizendo que ele mataria as pobres almas
do outro barco, um após o outro, se seus homens não a
levassem até ele.
O sangue de Magnus gelou.
— Suas runas mostraram-lhe tudo isso?
— Elas fizeram sim.
— Eu não estou surpreso que Quebrador de Espadas
queria Donata. — Magnus passou a mão pelo cabelo. — Eu
deveria ter percebido que ele a teria visto enquanto lidava com
Godred. Ele é conhecido como um bastardo vigoroso e...
— Moedor de Ossos é quem a deseja. — O olhar perspicaz
de Orosius encontrou Magnus. — Quando as runas me
mostraram a cena, eu o vi reivindicando-a como sua mulher.
Ele poderia estar agindo com a aprovação de Quebrador de
Espadas, mas foi ele quem tomou a iniciativa de ir até St.
Eithne's e forçar o retorno de sua noiva.
— Então… — Magnus considerou — então o deplorável
Godred não apenas aconselhava Quebrador de Espadas onde
ele poderia saquear riquezas com facilidade, como também
estava querendo prostituir sua irmã como noiva de um dos
mais ferozes capitães de Sigurd. Alguma parte do ouro e prata
que encontramos no salão de Godred deve ter sido pagamento
para Donata.
— Poderia ser… — Orosius esfregou a nuca.
— Pode ter certeza que era. — Magnus pegou um copo de
cerveja de uma mesa e esvaziou-a. Ele precisava limpar o gosto
ruim de sua boca, referente a um homem que venderia sua
irmã tão vilmente.
Ele não podia tolerar o maltrato de qualquer mulher.
Mesmo se ela fosse uma feiticeira cruel e fria que
vomitaria uma maldição se alguém apenas a olhasse
erroneamente.
— Se Godred ainda vivesse. — Magnus bateu o copo de
cerveja vazia — Eu mataria o bastardo novamente.
— Você estaria desperdiçando força. — Orosius levantou a
voz acima das murmurações de raiva dos homens. — Donata
foi até Moedor de Ossos ansiosamente. Meu jogo de runas a
mostrou como uma cadela no cio, jogando-se nos braços do
Moedor de Ossos assim que seus homens a deixaram no navio
dele.
— Como se não… — ele soou repugnado — eles estavam
grudados no tanque de lastro antes mesmo dos remadores do
Moedor de Ossos pegarem seus remos. — Magnus fez uma
careta, lamentando seu momento de simpatia pela feiticeira.
— As runas mostraram onde o Moedor de Ossos foi? —
Magnus podia sentir Vingança cantarolando em sua bainha,
sentindo o sangue nórdico.
— Sim. — Orosius foi até o fogo da lareira e estendeu as
mãos para as chamas. — Mas as águas onde eu vi seus navios
poderiam estar em qualquer lugar. Havia muita neblina para
dizer corretamente. Como St. Eithne's está no Loch Maree, eu
suponho que vi a costa ao longo de Torridon ou Gairloch.
— De qualquer forma, você não vai precisar procurar por
ele. — Ele se virou para aquecer seu traseiro. — A última coisa
que li nas runas foi o Moedor de Ossos prometendo a Donata
que ele vingaria a morte de seu irmão.
— O bastardo virá atrás de você. — A voz de Orosius era
alta no corredor silencioso. — Ele vai trazer navios carregados
de aliados e eles vão querer vingança.
— E eles vão conhecê-la. — Magnus deu um tapinha no
punho da espada. — Vingança iniciará as festas.
— Eles estarão aqui em breve. — Orosius parecia alegre,
como se ele apreciasse a luta. — Vai ser um grande massacre.
E eu não preciso de minhas runas para saber. — Ele sorriu. —
Eu sinto isso nos meus ossos.
— Eu também. — E Magnus realmente fez.
Mas antes que ele pudesse pressionar os dedos nas
têmporas latejantes, a porta do corredor se abriu novamente. A
porta bateu contra a parede enquanto seis homens da patrulha
noturna de Magnus irromperam da chuva, um deles
carregando um Dugan mole e bêbado, enquanto outros dois
balançavam sob o peso de Brodie. Os dois guardas mal
conseguiam sustentar o grande homem.
Brodie parecia tão confuso quanto Dugan.
— Nós os encontramos no penhasco. — Um dos guardas
de patrulha lançou um olhar para Magnus. — Lá fora no frio,
caídos no chão.
As cabeças de ambos os homens tombavam de seus
pescoços, os membros pendiam frouxamente, e eles
balbuciavam como dois idiotas e bobos.
Magnus olhou para o espetáculo, a fúria queimando-o.
O medo o corroendo.
Ele estava ciente de abrir a boca e arregalar os olhos, mas
nenhuma palavra sair. Sua garganta estava apertada, o medo
roubando a sua habilidade de falar, tornando impossível até
mesmo respirar.
Dugan e Brodie não estavam no andar de cima da casa,
guardando a porta de Margo, afinal.
Eles não a estavam vigiando.
Eles estavam cheios de cerveja e ele iria matá-los.
Vendo tudo vermelho, ele ia pegar seu punhal, um corte
rápido no pescoço era o que aqueles bastardos precisavam,
quando suas tias apareceram do nada. As duas mulheres
estavam caminhando rapidamente em direção aos homens.
Portia mantinha sua cesta de cura apertada em uma mão e
Magnus a agarrou a cesta, jogando com força sobre uma mesa.
— Eles não vão ser paparicados. — Ele olhou para suas
tias, colocando-se entre elas e o cesto de ervas e curas. — Eles
estão bêbados e não terão nada além do meu punho em seus
narizes...
— O olhar deles é diferente dos de bêbados. — Portia se
ergueu até alcançar a sua altura total. Agnes se aproximou
deles, agarrando a cesta antes que Magnus pudesse detê-la. —
Minhas poções não são para eles. Nós queremos ajudar Margo.
Se Dugan e Brodie foram atacados, ela também precisará de
nossos cuidados...
— O quê? — Magnus rugiu quando o salão em torno dele
esvaiu, então recuou, com tudo perto dele ficando preto e
branco. — Margo não está tomando banho?
— Como ela poderia estar? — Agnes manteve a cesta de
cura atrás dela, fora do alcance de Magnus. — Ninguém
preparou um banho para ela. Fomos vê-la algumas vezes esta
noite, pensando em lhe oferecer um, mas nenhum som veio de
trás de sua porta e assim a deixamos em paz.
— Nós pensamos que ela estava dormindo. — Portia
estava começando a parecer cinza.
— Onde ela está? — A cabeça de Magnus ia explodir. Ele
olhou em volta, com o coração congelado, o sangue trovejando
em seus ouvidos, absolutamente ensurdecedor.
— Ela se foi. — Portia afundou em um banco, os dedos
pressionados contra a boca.
— Dugan e Brodie não voltaram com ela do penhasco. —
Agnes expressou o medo de Magnus. — Ela deve ter
desaparecido. — Ela repetiu as palavras da irmã. — Oh,
querida, oh, querida...
— Não. Ela foi levada. — Dugan falou com grande esforço,
suas palavras arrastadas. Ele tinha sido colocado em uma
mesa longa e limpa e agora virava a cabeça para o lado,
tentando focar seus olhos vidrados em Magnus. — Foi Donata.
Ela...
— Donata? — Magnus sentiu o chão se abrir debaixo dele.
Dugan assentiu.
— Ela apareceu do nada logo depois que você saiu. Nós
desembainhamos nossas espadas para ela, pensando em
assustá-la, mas... — Ele respirou fundo, trêmulo — ela sorriu e
apontou um dedo para os nossos pés, fazendo as chamas
dispararem pelo chão. Era uma parede de fogo, mas um fogo
gelado. — Ele olhou para Magnus, o horror em seus olhos
mostrando que ele falava verdade. — Aquele fogo chicoteou em
torno de nós, prendendo-nos onde estávamos, enquanto ela
cantava e delirava, olhando para nós com brilhantes olhos
prateados até que nossas pernas se dobraram e caímos de
joelhos.
— Eu não lembro muito depois disso, tudo ficou escuro. —
Seus olhos começaram a se encher de água, brilhando
intensamente. — Se alguma coisa acontecer com Lady Margo...
Em outra mesa, Brodie lutou para falar.
— A última coisa que vimos, foi Donata se esgueirando
atrás de sua dama. Lady Margo estava cochilando, onde você a
deixou no penhasco, e… — Ele não conseguiu terminar, uma
tosse áspera e chata se apoderando dele.
— Não-oo! — Magnus jogou a cabeça para trás e gritou.
Ele apertou as mãos contra as têmporas, torcendo os
dedos no cabelo. Todo o horror e trevas que ele conhecia
voltaram vertiginosamente para esmagá-lo agora.
Ele prometeu manter Margo segura, mesmo jurando
rasgar o céu se ela fosse tirada dele.
Agora...
Que promessas vazias ele lhe dera. A culpa e a angústia
pareciam tirar a vida dele, enchendo-o de cinzas amargas. Seu
corpo estava congelado, pesado como chumbo, como se tivesse
sido transformado em pedra.
Ele olhou ao redor do salão, não vendo nada e nem
ninguém.
Ele ouvia tudo. As vozes baixas e retumbantes de seus
homens, a angústia de suas tias e até o gemido de Frodi, mas
isso era tudo. Todo o resto estava morto para ele.
Seu mundo parara e ele não suportava a ideia de que
Margo estivesse desaparecida. Ainda pior, ela estava nas garras
de Donata. Ele estava vivendo a tragédia de Liana novamente.
E mais uma vez ele não estava lá para parar o horror. A mulher
que ele amava fora levada e ele nem sabia disso até que fosse
tarde demais.
Ele tinha que encontrá-la.
Desta vez ele não poderia falhar.
Capítulo Vinte
Depois de três dias e muita procura, Magnus estava em pé
na proa do Corvo do Mar. Ele fez uma cara feia para Ewan, que
habilmente manejava o remo de direção do navio de guerra. O
rosto do rapaz estava fechado, os olhos injetados e sombrios,
assim como os olhos de todos os homens a bordo. Magnus
sabia que ele parecia pior do que todos eles. Até mesmo Frodi
choramingava e colocava o rabo entre as pernas na presença
assustadora de Magnus.
Não era frequente ele passar dias e noites inteiras
examinando cada plantação de urzes, derrubando cada pedaço
de pedra das charnecas e vasculhando as poças nos pântanos,
temendo encontrar algo nas águas de fundo preto e
escorregadio.
Infelizmente, ele abrira o céu em vão.
Eles não haviam encontrado Margo.
Ela desaparecera sem deixar rastros.
Agora eles seguiam para o que Magnus considerava, sua
última e desesperada esperança. Eles levavam o Corvo do Mar
para o sul, em direção a Gairloch, navegando as enormes
ondas cinzas da maré cheia.
Os homens estavam silenciosos, cada um dos guerreiros
movimentava os remos como se cortassem a água e
chicoteassem o vento. Uma chuva forte e uma neblina espessa
ocultava a linha formada pelos penhascos escuros e irregulares
que emergiam próximo à costa.
Não que isso importasse.
Magnus e sua tripulação conheciam cada centímetro
dessas águas.
Havia também o fedor de sangue no vento, atraindo-os. E
como bons cães, eles precisavam apenas seguir aquele mau
cheiro e eles chegariam até a vila de pescadores, onde Orosius
jurava que encontrariam problemas.
Não que isso importasse.
Magnus e sua tripulação conheciam cada centímetro
dessas águas.
Magnus só esperava que o sangue de Margo não fizesse
parte daquele fedor.
Se ele não pudesse encontrá-la, se ele não conseguisse
salvá-la...
— Maldição! — Ele cerrou os punhos e apertou a
mandíbula, praguejando contra os deuses cruéis que a
puseram em meus braços apenas para arrancá-la em seguida.
Ele podia senti-la agora, a pressão de suas exuberantes curvas
contra ele, ela envolvendo seus braços ao redor do pescoço
dele, correspondendo seus beijos ardentes.
As memórias agitaram seu sangue. A fúria corria em suas
veias como fogo líquido, inflamando a necessidade de encontrá-
la.
E arrasar com os diabos pagãos que a levaram.
Magnus respirou fundo, tenso e furioso. Ele fechou os
olhos por um momento, desejando que pudesse abri-los em
seguida e ainda estar com ela no penhasco. Ele deveria tê-la
pegado nos braços e a carregado de volta a Badcall com ele.
Mas ele se fora, deixando-a vulnerável.
Agora…
Ele passou uma mão pelo cabelo. Seu coração era uma
pedra fria dentro do peito, sua alma vazia e negra.
O cheiro de Margo ainda estava nele. Era fraco, apenas
um traço, mas o suficiente para enlouquecê-lo.
— Fico feliz por você não estar fazendo essa cara para
mim. — A voz profunda de Calum soou próxima. — Eu não
gostaria de alimentar Vingança com o meu sangue. — Magnus
se virou para o homem mais velho. — Peço a Deus que a
Vingança em breve se alimente de sangue viking.
— E que nenhum dos bastardos nos desafie antes de
chegarmos em Gairloch. Meu instinto diz que é onde Margo
está, presa e desamparada no meio do horror. — Calum não
discordou.
E o silêncio de concordância dele, atingiu o coração de
Magnus.
Porém quando um vislumbre de simpatia cintilou nos
olhos de Calum, Magnus se afastou rapidamente, voltando a
olhar o mar. Eles não tinham avistado nenhum navio nórdico
ainda, mas aquilo não queria dizer que eles não estavam lá.
Magnus só esperava que se algum nórdico avistasse o
Corvo do Mar e os navios que o escoltava cortando aquelas
ondas, eles presumissem que os navios de guerras longas
quilhas e proa alta fossem deles e não viessem investigar. Se
notassem o brilho das cotas de malha e dos capacetes, Magnus
contava que tais saqueadores apenas erguessem seus remos
em reconhecimento e seguissem seu caminho rapidamente,
aceitando que o Corvo do Mar e os outros navios estivessem
seguindo para o sul, para suas próprias invasões.
Havia um certo código de honra entre estes covardes.
Em qualquer outro momento, ele teria dado boas-vindas a
um encontro casual com um longo navio nórdico bem
tripulado. Melhor ainda, vários deles. Ele desenvolveu um gosto
por assassinos vikings que eram velozes e furiosos no mar.
Sujar as ondas com sangue nórdico era gratificante. Enquanto
assistia os bastardos afundarem como pedras no mar. Um
viking vestido para a guerra, sobrecarregado com malhas
pesadas e aço, desaparecia sob as ondas num piscar de olhos.
Mas nesse momento a única coisa que ele queria era
encontrar Margo.
Ele manteve o olhar na sombra escura da costa, no pouco
que podia ser visto. Se ele apertasse os olhos, ele poderia ver
apenas o brilho fraco dos fogos das lareiras acima de alguns
dos penhascos. A neblina de fumaça era reconfortante porque
significava que os assentamentos de pesca espalhados ainda
não haviam sido molestados.
Se as aldeias estivessem intocadas, haveriam pessoas
capazes de ajudar Margo, se ela escapasse das garras de
Donata.
Era uma esperança fraca.
Magnus se inclinou em direção ao vento, forçando para
enxergar através da névoa flutuante e da chuva. Eles estavam
entrando no Loch Gairloch, e as luzes difusas brilhavam logo à
frente, onde o grande lago marítimo terminava e o porto da vila
de pescadores os aguardava. Algumas poucas casas de telhado
de palha pontilhavam a costa. Magnus estudou cada uma com
cuidado, mas nada se mexeu em qualquer lugar perto delas.
Várias pilhas de madeira podiam ser vistas através da
neblina, mostrando onde os homens secavam arenques na
praia, mas não havia ninguém agora. Tudo parecia quieto
enquanto os navios remavam pela manhã fria e escura. Até que
eles se aproximaram dos primeiros barcos de pesca ancorados
e entraram nos portões do inferno.
O sangue manchava a água.
Aldeões carregando tochas corriam ao longo da costa, as
chamas lançando um brilho avermelhado na água manchada
enquanto tentavam puxar corpos do mar.
Orosius não errou.
Assim como o instinto de Magnus não o enganara.
Moedor de Ossos matou mais de um prisioneiro. O monte
de corpos flácidos perto de um dos pilares indicava que ele
havia cortado as gargantas de todos os aldeões que capturara.
Alguns haviam sofrido coisas piores do que cortes no
pescoço.
E para Magnus, encarar aquela carnificina com o vento
frio e úmido passando por ele, assemelhava-se a uma explosão
escaldante do sulfuroso fogo do inferno.
De repente, ele desejou que seus instintos estivessem
errados, rezando para que Margo estivesse em qualquer outro
lugar.
Em qualquer lugar, exceto presa em um pesadelo pintado
de vermelho ao redor dela. Ele preferia passar intermináveis
dias procurando por ela, contanto que ela estivesse segura e
fosse poupada de uma visão tão odiosa.
Ele agarrou o cabo de Vingança, sua raiva aumentando e
a bile quente presa em sua garganta, enquanto ele examinava o
porto, procurando os navios de guerra viking.
Ele viu apenas embarcações de pesca.
Então os covardes pagãos haviam escapado. O bruto, que
era o mestre do navio do Quebrador de Espadas não estava em
lugar algum. Nem havia sinal de sua prostituta de cabelos
negros. Moedor de Ossos e Donata fugiram do local, deixando
apenas uma mancha brilhante de corpos vermelhos, inchados
e quebrados em seu rastro.
— Mar-go! — Magnus cobriu sua boca com as mãos e
gritou o nome dela enquanto o Corvo do Mar se aproximava da
praia. E gritou de novo e de novo, muitos de seus homens o
imitaram.
Mas não havia sinal dela em nenhum lugar.
Nada se mexeu, exceto os aldeões que se viraram
congelando onde estavam, olhando horrorizados para o Corvo
do Mar. Outros gritavam e corriam em direção às dunas ou
para os chalés mais próximos, os mais corajosos reapareceram
com foices e enxadas em suas mãos.
— Remem mais rápido! — Magnus se virou para encarar
os homens nos bancos de remo. — Mãe de Deus! Mais força!
— Eles estão muito preocupados para ver com clareza,
Calum. — Ele olhou para o homem mais velho. — Balance o
estandarte de Badcall, assim eles nos reconhecerão e se
recordarão que somos amigos. — Quando eles estavam perto o
suficiente, ele saltou do Corvo do Mar e correu para a praia,
indo até os aldeões mais próximos e agarrando um dos
homens.
— Uma moça de cabelo claro, dessa altura. — Ele ergueu
a mão, mostrando a altura de Margo — Você a viu? Ela não é
local e fala com um sotaque do sul. — Ele improvisou, furioso
com a fisionomia incompreensível do homem.
— Ela está com a mulher pequena, de cabelos escuros e
vestida de preto. — Ele chacoalhou o homem lançando um
olhar desesperado para os outros pescadores que se
aproximavam. — A mulher de cabelo claro é minha esposa. —
Ele tornaria isso verdade quando a encontrasse. — Ela foi
levada, roubada por...
— Ei... MacBride. — O grito assobiado vinha das sombras
perto das docas.
Virando-se, Magnus não viu nada. Mas ele sabia que tinha
ouvido um homem chamá-lo furtivamente.
Estreitando os olhos, ele vasculhou as cabanas de pescas
abandonadas e sobre uma grande pilha de barris de arenque.
Nada se moveu.
Exceto… Ele jogou o cabelo para trás, franzindo o cenho,
os aldeões assustados usaram a sua distração para escapar.
Furioso, Magnus voltou-se para as cabanas de pesca,
desta vez, vislumbrando uma armadura no meio da escuridão
entre as casas em ruínas. Ele avançou com Vingança já meio
desembainhada.
— MacBride, eu te saúdo. — Arnor o Portador de Música
deu um passo à frente para a margem das sombras, não saindo
da penumbra proporcionada pelo estreito beco entre as
cabanas.
Ele era o jovem viking de Redpoint, sobrinho de Sigurd
Quebrador de Espadas, o guerreiro que Magnus tinha enviado
com uma mensagem, despido e sem armas, em um pequeno
barco de pele sem remos.
Agora ele estava vestido para a guerra, vestindo uma cota
de malha, seus braceletes, uma longa espada de um lado do
corpo e um enorme machado de guerra viking pendurado em
seu ombro. Mas ele mantinha seu capacete nas mãos,
estendendo-o diante dele, gesto que estipulava como de paz.
Magnus franziu a testa, não tirando a mão de sua arma.
— Portador da Música. — Ele parou na frente do homem
mais jovem. — Vejo que você sobreviveu.
— Homens do norte não são tão fáceis de serem mortos. —
Arnor o Portador da Música olhou para trás, seu olhar
varrendo de cima abaixo o porto, agora vazio. — Nem são como
as jovens mulheres, justas e corajosas, graças à Odin. — Ele se
virou para Magnus, abaixando a voz. — Eu fui deixado aqui
como um vigia e devo voltar, mas primeiro..."
— Você sabe onde está Margo? — Magnus agarrou os
braços do viking. — Ela está viva?
— Ela está em um galpão de secagem de peixe do outro
lado do lago. — Ele indicou com a cabeça a água, e Magnus
podia ver apenas uma pequena cabana de paredes de relva,
isolada no meio de amontoados de rochas caídas. — A mulher
bruxa está com ela. Em breve, o Moedor de Ossos virá buscá-
las. E meu tio estará com ele. — O jovem viking olhou para a
água. — Eles pretendem cruzar o mar até a Irlanda, onde
venderão sua mulher no mercado de escravos.
— É verdade? — Magnus cambaleou, uma estranha
mistura de descrença, esperança e horror se quebrando dentro
dele.
Ele lançou outro olhar para o minúsculo galpão do outro
lado do lago.
— Você não está mentindo? Não está preparando-me uma
armadilha?
— Eu posso fazer isso amanhã. — Arnor o Portador da
Música não demonstrou nenhuma emoção. — Mas eu falo a
verdade agora. Meu tio precisava de alguém para ficar para trás
e observar os mares, para ter certeza de que ninguém se
aproximasse do galpão onde Donata prendeu a sua dama. Eu
pedi para ser esse homem. Eu tinha certeza que você iria
procurar por um prêmio como esse. — Ele se mexeu, ajustou o
escudo em seu braço.
— Eu lhe devo a minha vida. Esse fardo agora está pago e
com muita estima. Espero casar logo. — Por um momento ele
parecia muito jovem e não mais um inimigo. — E só posso fazer
isso porque você poupou minha vida em Redpoint.
— Se nos encontramos novamente… — O jovem viking
deu de ombros em um significado claro.
— Agora, sou eu quem tem uma dívida com você, Portador
da Música. — A garganta de Magnus estava fechada no
momento em que segurou o braço de Arnor com as duas mãos.
— Viva bem.
Então ele se virou e correu de volta para o mar,
mergulhou nas ondas até chegar ao Corvo do Mar e um de seus
homens se abaixou para ajudá-lo a bordo.
— Margo está aqui! Ela está viva, mas Donata a mantém
presa. — Ele se inclinou para frente, apoiando as mãos nas
coxas, engolindo ar. — Temos que nos apressar. Moedor de
Ossos, Quebrador de Espadas e seus navios de guerra estão
voltando para buscar as mulheres. Eles estarão aqui em breve.
— Abaixar os remos! — Calum gritou a ordem. — Abaixem
os remos! — Gritou mais uma vez. — Dar a volta, agora! — E a
tripulação fez isso, os navios de escolta de Magnus seguiram o
exemplo, cada embarcação diminuindo a velocidade para que
as naves de guerra elegantes ganhassem vida e acelerassem,
passando pelos longos píeres de madeira do porto,
atravessando as águas pintadas de vermelho em direção ao
outro lado do lago.
Margo estava lá.
E se os deuses fossem gentis, Magnus a teria a bordo do
Corvo do Mar e a meio caminho de Badcall antes que os vikings
chegassem no Loch Gairloch.

***

— Olha lá, meu amante está retornando.


Sorrindo indulgentemente, Donata agarrou o braço de
Margo e empurrou-a contra a porta rachada da cabana de
secagem de peixe.
— Moedor de Ossos trouxe seus aliados, assim como
prometeu. Veja... — Ela empurrou Margo para frente, não lhe
dando escolha a não ser olhar fixamente para o cenário
aterrorizante diante dela. — Quebrador de Espadas vai levá-la
em seu navio e assim você vai se livrar de mim. — Donata se
aproximou, levantou uma mecha do cabelo de Margo, e
esfregou os fios entre os dedos. — Tentei seduzi-lo uma vez,
mas ele prefere mulheres de cabelo claro.
— Ele tornará a viagem até o mercado de escravos em
Dublin agradável para você. Muitas mulheres dizem que ele é
bom...
— Ele é um demônio. — Margo virou a cabeça e olhou
para a outra mulher. — Eu me mato antes de deixá-lo me
tocar. — Ela rosnou as palavras, nem mesmo sabendo de onde
elas vinham.
Infelizmente, ela não estava se sentindo forte e corajosa o
suficiente para lutar contra a mulher mais baixa.
Donata segurava cruelmente uma adaga grudada à Margo.
E ela a feriu mais de uma vez. O vestido de Margo já
estava vermelho no meio e seus quadris e a barriga estavam
grudados de sangue quente. Graças a Deus, os cortes eram
apenas feridas superficiais, nada profundo.
Ainda assim…
Ela não queria provocar sua captora a fazer algo pior.
Mas agora...
Ela olhou para o lago, o terror a devorando. Havia tantos
navios, uma frota nórdica inteira, e outros tantos vistos
chegando no horizonte.
Eles ocupavam o mar em todas as direções.
Com suas altas proas e linhas estreitas, eles pareciam tão
bonitos e orgulhosos quanto assustadores. Eles pareciam voar
sobre as ondas, seus remos batiam e rasgavam a água,
enviando grandes nuvens de jatos d’água. E cada navio estava
cheio de homens com cotas de malha e capacetes.
Homens que amavam lutar.
E eles estavam vindo para levá-la a um mercado de
escravos.
Na viagem para o sul, Donata contara alegremente a
Margo que as escravas femininas raramente viviam mais do
que alguns dias. Algumas sobreviviam uma semana ou duas,
no máximo. O comandante ou o senhor da guerra viking as
usava, depois a tripulação e outros homens até que não
restasse nada da mulher.
Margo estremeceu.
Ela agarrou o batente da porta da cabana, incapaz de
desviar o olhar do espetáculo.
Até que um movimento súbito e do lado oposto da baía
atraiu sua atenção junto com um grande borrifo de água
sobressaindo-se ao caos, fazendo-a virar-se para vários navios
vikings, grandes e ferozes, que se viravam para fora do porto e
em linha reta na direção da baía. Os longos remos das dracares
subiram e desceram como pistões, e a água branca assobiou
para os lados enquanto aceleravam diretamente para os outros
navios de guerra.
Antes que Margo pudesse piscar, o navio principal passou
rente ao outro, estalando seus longos remos como se fossem
palitos de madeira, tocando levemente o navio.
Ela deslocou o olhar do panorama assustador, e então viu
o guerreiro alto de cabelos negros na proa do navio de guerra
que atacava.
Um navio com cabeças de corvos negros e vermelhos,
ferozes que decoravam o alto da proa e os postes da popa.
O orgulhoso senhor de guerra era Magnus em toda a sua
glória de batalha.
— Magnus! — Seu coração se apertou. O alívio precipitou-
se e seus joelhos quase se dobraram. — Oh, Deus, ele está
aqui! Magnus veio por mim.
Ela estava a salvo agora, o que quer que acontecesse.
— Tudo o que ele veio fazer aqui é me ver fatiá-la em tiras.
— Donata passou um braço pela cintura de Margo, puxando-a
para perto enquanto cutucava a barriga de Margo com a ponta
da adaga. — Eu vou mantê-lo à vista aqui, na porta, até que ele
esteja na praia. Então vou te cortar.
— Ele vai te matar. — Margo tinha certeza disso.
— Ele pode tentar. — Donata mexeu os dedos da mão que
segurava a faca, e esguichos de fogo vermelho saíram de seus
dedos, as chamas sibilando no ar frio e úmido.
— Magnus MacBride não pode tocar a minha magia. —
Ela fechou os dedos ao redor do punho da adaga novamente e
os esguichos flamejantes se dissiparam.
— Não, você está errada. — Margo tentou falar com a
maior segurança que podia. — Sua magia não pode machucá-
lo. Ele não teme você, então você não tem poder sobre ele. —
Ela esperava por Deus que estivesse certa.
— Vamos ver. — O tom empregado por Donata fez o
sangue de Margo gelar.
Margo desejou ter coragem para inundar seus sentidos e
fortalecê-la. Ela também manteve seu olhar em Magnus,
tomando força dele enquanto Corvo do Mar girava em um
círculo apertado, agitando a água, lançando-se atrás de outro
navio de guerra viking, claramente querendo cortar mais
remos.
A batida dos remos fazia a água ferver; os gritos dos
homens misturavam-se com as lascas de madeira quando o
arco do navio atacante corria pelo flanco do inimigo, partindo
os cabos dos remos. A garganta de Margo se apertou enquanto
ela assistia, incapaz de desviar o olhar. Outros navios, que ela
reconheceu como parte da frota de Magnus, colidiam
brutalmente com os navios vikings.
Por toda parte, navios de guerra giravam e atacavam,
batendo uns nos outros, as correntes das âncoras voavam
enquanto os navios se chocavam; homens pulavam de uma
proa para a outra, espadas e machados erguidos no ar.
A luta foi grande, vermelha e terrível. E Magnus parecia
mais poderoso, ousado ou lindo do que nunca.
Ele se sobressaia sobre a sua tripulação, todos homens
enormes. Vestido para a guerra, ele vestia armadura e
capacete. Mesmo da costa, ela podia saber que os olhos dele
ardiam de fúria.
Seu cabelo estava solto por baixo do capacete. Uma
confusão de fios longos e pretos como corvo, voavam ao redor
dos ombros dele ao vento. Ele segurava Vingança no ar e a
lâmina emitia um brilho manchado de vermelho, assim como o
aço em seu peito e os braceletes em seus braços. E como
muitos dos outros homens, ele incentivava o lançamento de
flechas de fogo pelo céu, muitas das flechas encontrando sua
marca nas velas ou no convés dos navios vikings.
Dentro de instantes, o lago estava em chamas. As velas
dos navios de guerra queimavam rapidamente, os fogos
saltando de navio em navio. Os homens lutavam, grunhiam e
gritavam, muitos pulavam no mar para evitar as chamas e
depois afundavam quando a pesada cota de malha os puxava.
Era um caos.
Ao lado dela, Donata resmungou, falando baixo
encantamentos que Margo não entendia.
Ela não se importou.
Donata estava subestimando o poder do amor, uma força
muito maior do que o balbucio e ameaças de qualquer
feiticeira.
Quando Magnus chegasse à costa, ele a salvaria.
Margo não duvidava disso.
Ela manteve o olhar fixo em Magnus e no Corvo do Mar.
Ele não a viu.
Nem viu, - o coração dela parou - o enorme nômade
seminu subindo furtivamente pelo outro lado do Corvo do Mar,
com uma adaga de aparência assassina presa nos dentes e um
propósito mortal em seus olhos.
Magnus estava de costas para o assassino.
A qualquer momento, a longa e fina lâmina do homem
afundaria na carne de Magnus, matando-o.
Um golpe rápido sob as costelas ou um corte rápido na
garganta, e tudo terminaria.
Seu futuro seria roubado antes que ela tivesse a chance
de correr e pular de volta a seus braços.
— Não-oo! — A negação rasgou de sua garganta,
expandindo-se e abrindo algo duro e apertado dentro dela,
dando tanta força e coragem para se libertar, que ela foi capaz
de derrubar a adaga de Donata. Ela se livrou do aperto da
feiticeira.
— Magnus, cuidado! — Margo correu adiante,
atravessando a horda de homens que agora lutavam ao longo
da costa, contornando e saltando sobre os caídos, gritando com
toda a força de seus pulmões.
Ela podia ouvir Donata correndo atrás dela, gritando e
xingando.
Mas Margo seguiu em frente.
O homem com a faca nos dentes já estava a bordo do
Corvo do Mar.
Margo parou na beira do mar, encarando a cena com
horror. Magnus estava tão perto, mas em perigo. Ela podia ver
o lampejo de seu sorriso, o branco de seus dentes, e até mesmo
ouvir sua voz profunda e vitoriosa gritando para seus homens
empalar suas lâminas e derramar mais sangue nórdico.
Mas era o sangue dele que estava prestes a ser
derramado.
Seu assassino estava rastejando para a frente agora, a
adaga não mais em seus dentes, mas levantada e pronta para
atacar.
Obviamente, um guerreiro bem qualificado, pois ele usou
a confusão no Corvo do Mar para se esconder nas sombras,
esgueirando-se silenciosamente pela lateral do navio do lado
contrário de onde Magnus e seus homens lutavam contra o
navio nórdico mais próximo.
Ele estava quase em cima de Magnus.
— Magnus, não! — Margo balançou os braços e gritou. —
Atrás de você! — Ela gritou com toda a força, tão alto que sua
garganta doía, queimando como fogo.
— Nae, atrás de você! — O grito de Donata encheu o ar no
instante que ela agarrou Margo, virando-a. — Você morre
agora. — Ela sussurrou, levantando a mão e direcionando para
baixo, apontando para o coração de Margo.
Margo congelou por um instante, aterrorizada, seus olhos
fixos na lâmina se aproximando.
Então, a adrenalina, o medo, ou talvez apenas a pura
vontade de viver explodiu dentro dela e ela pulou para o lado,
agitando os braços com toda a força para desviar a adaga.
Com o rosto contorcido de ódio, Donata pareceu incapaz
de parar a trajetória da lâmina. Ao tentar recapturar Margo, ela
cambaleou, escorregando no cascalho. Mas a lâmina continuou
seu percurso com a velocidade da luz e com a crueldade,
mergulhou profundamente em um coração que conhecia
apenas a escuridão.
Os olhos de Donata se arregalaram, fixos nos de Margo,
no horror de seu último suspiro.
— Oh, Deus! — Margo levou as mãos ao rosto e recuou
quando a outra mulher tombou, caindo na costa rochosa. Seus
olhos cegos olhavam para o céu, não mais exibindo o tom
prateado e inspirando terror, mas vazios e impotentes. O mar
já a estava reivindicando, envolvendo seu manto de seda preta,
puxando seus longos cabelos negros e a espuma vermelha
cobrindo suas pulseiras de prata.
Donata estava morta.
E ela não a tocou, exceto para se defender.
Mesmo assim, ela se sentia como se tivesse matado
alguém.
— Não foi você, moça. — Uma voz profunda e amada, a
chamou por trás e ela se virou para ver Magnus saindo das
ondas, e uma grande quantidade de seus homens vindo logo
atrás dele.
Todos eles seguravam espadas nas mãos, espadas
vermelhas de sangue, mas sorriam tão amplamente em vê-la,
que ela soluçou e correu o resto do caminho até Magnus.
O olhar dele foi para a sua cintura quando ela se
aproximou, seus olhos se arregalando.
— Pela piedade de Deus! — Ele tirou o capacete e olhou
para as manchas de sangue, seu rosto ficando pálido. — Você
está ferida!
Seus homens formavam um círculo ao redor deles, seus
rostos igualmente sombrios agora.
— O que ela fez com você? — Ele a alcançou, o horror em
seu rosto quebrava o coração dela. — Eu vou...
— Não é nada, é uma ferida superficial. — Margo balançou
a cabeça, olhando para as manchas vermelhas no meio do
vestido. — Ela me pegou, é tudo. Estava me provocando,
tentando me assustar no fundo da cabana de secagem. Não
dói.
— Você tem certeza? — Seu rosto era ameaçador. Ele
continuou olhando para a cintura dela, um músculo movendo
em sua bochecha.
Quando ele olhou para cima novamente, estava pálido de
horror.
— Oh, Magnus, não fique assim. Eu estou bem, de
verdade.
— Louvado seja Deus. — Ele fechou os olhos, a cor
retornando ao seu rosto. — Eu pensei...
— E você está seguro! Estou tão feliz! — Ela se jogou sobre
ele, seus olhos já embaçados quando ele a sustentou, puxando-
a com força contra ele e a beijando asperamente. — Eu pensei
que você seria morto. — Ela se afastou para olhá-lo, alisando o
cabelo dele.
Ele acariciou sua bochecha, acalmando-a.
— O Quebrador de Espadas tentou muito me matar, mas
seu grito me avisou. Eu me virei, abaixando quando ele se
lançou. E então… — ele sorriu. — ele conheceu o sabor do meu
aço mesmo antes de eu me endireitar.
Ele ficou sério, seu olhar fixo no rosto dela.
— Eu esperei muito para me vingar dele. Se você não
tivesse gritado
— Não diga, por favor. — Margo tocou os dedos na boca
dele, interrompendo as palavras antes que ele pudesse falar. —
Se eu não estivesse aqui, você não teria...
— Aye, eu teria lutado com ele. — Ele pegou a mão dela,
virando-a para que ele pudesse beijar sua palma e a pele
sensível de seu pulso. — Pode ser que ele não tivesse se
esgueirado a bordo do Corvo do Mar hoje, mas teria sido em
outro dia, em uma batalha diferente.
— Seriam tantas lutas e pelo tempo que eu precisasse
para acabar com seu reinado de terror.
— E agora? — Margo mal podia falar pelo aperto no peito.
— Agora... — Ele pegou o rosto dela entre as mãos e a
beijou — você fez mais do que me mostrar maravilha e alegria.
Você me trouxe a paz. Algo me diz que não haverá muitas
guerras nessas partes a partir de hoje. Com o Quebrador de
Espadas morto e muitos de seus aliados no fundo do Loch
Gairloch com ele, estou com vontade de aproveitar mais o meu
fogo de turfa.
— E... — Ele a beijou de novo — um certo penhasco com
uma visão muito boa. Se você se juntar a mim lá.
— Oh, Magnus... você sabe que eu vou. — O coração dela
acelerou. Ela sabia que seus olhos estavam embaçando.
Atrás dele, ela podia ver os navios vikings queimando,
alguns navios solitários correndo em direção ao horizonte,
derrotados e fugindo. Alguns homens ainda lutavam, mas sem
entusiasmo, a batalha agora diminuindo.
Magnus e seus homens haviam vencido.
Ela havia vencido.
Ainda assim, virou-se para encarar o corpo de Donata, seu
manto negro flutuando para a frente e para trás na maré seca.
— Você não a matou, doçura. — Magnus segurou seu
queixo, virou o rosto para longe do corpo da feiticeira. — Todos
nós vimos isso acontecer. Ela perdeu o equilíbrio, apunhalou-
se depois que você pulou para o lado. Foi o que aconteceu.
— Sim, foi assim. — Orosius sorriu, saindo do círculo de
homens. — A força do golpe que ela direcionou para você fez a
lâmina afundar nela mesma. Mas isso não importa agora. Ela
se foi e eu vou para casa! Um coro de ayes dizia que os outros
concordavam com ele.
Magnus sorriu e levantou uma sobrancelha para Margo.
— E você, moça? — Ele olhou através da água para onde o
navio de dragão manchado de vermelho balançava nas ondas.
— Você está pronta para outra viagem marítima no Corvo do
Mar?
Margo não hesitou.
— Oh, sim.
Magnus sorriu.
— Então tudo está bem.
Virando-se para Calum, ele assentiu brevemente.
— Reúna os homens e leve os retardatários de volta a
bordo. E — olhou para Margo, com uma expressão de
esperança nos olhos. — Diga a qualquer um que ainda não
tenha notado que encontramos minha noiva e ela está bem.
Nós teremos um passageiro adicional para a viagem para casa.
Uma senhora que, tenho motivos para acreditar, ficará conosco
por muito tempo.
— E espero que pelo resto dos meus dias. — Acrescentou,
inclinando-se perto de seu ouvido, falando tais palavras apenas
para ela.
— Também espero que sim. — Margo mal podia falar.
— Acho que sim. — Magnus piscou um olho e depois a
beijou, forte e rápido. O abraço foi tão cheio de paixão que a
aqueceu imediatamente, mesmo após todo terror que ela
testemunhara. Afastando-a, ele se virou para seus homens,
acenando em sinal de dispensa.
— Voltem para o navio. Eu quero um momento a sós com
minha dama. — Os homens se viraram, diligentemente
caminhando para longe, de volta para a agitada rebentação. Só
Orosius hesitou, voltando depois de dar alguns passos.
— Só uma coisa… — Ele se inclinou para perto, abaixando
a voz para que apenas Magnus e Margo pudessem ouvir. —
Você errou sobre Lady Margo ficar com você por um longo
tempo.
As palavras dele resultou em uma fisionomia ameaçadora
de Magnus e encheu Margo de terror. Mas em seguida o
vidente sorriu e bateu no ombro de Magnus.
— A verdade é que ela estará com você por toda sua vida e
nas outras além dessa.
Ele recuou então, parecendo orgulhosamente sábio.
— Isso eu também vi.
Então ele se virou e caminhou de volta pela areia, seu
machado de guerra ainda pendendo de sua mão e seu passo
muito alegre para um homem da sua idade.
— Você acha que ele está certo? — Margo esperava
desesperadamente.
— Sim, ele está. — O tom de Magnus era firme. — Orosius
sempre fala verdade.
— Mas e se...
— Você não vai ser levada para longe de mim, Margo. —
Ele colocou o cabelo atrás da orelha, seus olhos escuros presos
nos dela. — Se você acha que eu sou assustador contra os
vikings, você não viu como vou lutar se alguém tentar tirar
você de mim novamente. Nem mesmo a Pedra Encantada, se
tal maravilha reaparecer. Nem tolos portais do tempo ou como
quer que você o chame. Nenhuma força na terra nos separará,
eu prometo a você.
— Você tem certeza? — Margo precisava de confirmação.
— Eu marcarei em uma pedra, se você quiser. — Sua voz
era áspera, seus olhos escurecendo com uma intensidade que
um calor a atravessou.
Ela segurou seu olhar, sua mente avisando que o amor
deles não poderia funcionar. Seu coração dizendo o contrário.
Ele era tão alto, forte e bonito. Um homem corajoso e
invencível que poderia fazer qualquer coisa acontecer.
No entanto, não foi sua compleição poderosa ou ferocidade
que a convenceu.
Foi o leve sorriso começando a curvar-se em seus lábios.
O jeito que ele a olhava e a sua expressão que a derreteu.
Ela respirou fundo, seu coração se revirou.
— Você não precisa marcar em pedra. — Ela não podia
acreditar que sua voz não quebrou. — Eu acredito em você. —
Seu sorriso se aprofundou, mas ele também levantou uma
sobrancelha.
— Você não sentirá falta da Pen-sil-alguma-coisa? Você
sabe que eu devo perguntar. Não quero te deixar infeliz e ...
— Infeliz com você? — Ela piscou uma vez, duas vezes. —
E aqui, nas Terras Altas? — Ela não pôde conter seu próprio
sorriso. — Não há uma chance de isso acontecer. — Ela
prometeu, sabendo que nunca tinha falado palavras mais
verdadeiras.
Então ela levantou as mãos para emoldurar seu rosto
enquanto se erguia na ponta dos pés para beijá-lo, suave, doce,
gentil e cheia de significado.
Ela se afastou dele, esperando que ela pudesse falar
apesar do aperto em sua garganta.
— Orosius estava certo. Eu sei que nós pertencemos um
ao outro. Eu acho que sempre soube disso, eu sempre te
conheci. E você está tão certo. Eu não vou a lugar nenhum.
Certamente não para...
— Oh, mas você está indo para algum lugar. — Ele
abaixou a cabeça, beijando-a novamente, lenta e
profundamente. — Você não ouviu? Você está voltando comigo
para Badcall e ...
— Eu sei. — Ela se afastou para olhar para ele. — Mas
Badcall não é o que eu quis dizer. É onde eu quero estar com
você e sempre. Eu quis dizer que não vou a nenhum outro
lugar. Estou aqui para ficar. — Ela entrelaçou os braços ao
redor de seu pescoço, enterrando os dedos em seus cabelos. —
Eu nunca quis mais nada.
— Valquíria… — Ele pegou o rosto dela em suas mãos e
beijou-a novamente, duro, rápido e com força.
Quando ele se separou, seu rosto tinha um olhar que fez o
coração dela inchar de felicidade.
— Você é tudo o que eu sempre quis. Meu amor por você
me preenche tão completamente que às vezes me pergunto
como consigo respirar. Acho que te amarei para sempre. —
Margo falou as palavras contra sua bochecha, inclinando-se
para ele. — Quase como se… — Ela deixou as palavras
morrerem, ciente da lenta fervura começando a escurecer os
olhos dele.
— Esteja avisado, Margo-lass. Tentadora como você é… —
Ele olhou para baixo, para onde os seios dela pressionavam
contra seu peito — eu tenho uma grande fome por você. E esta
noite, quando chegarmos a Badcall, vou saciá-la. — Seu sorriso
se tornou perverso. — A menos que você prefira que eu não.
— Oh, não! — Ela se afastou para olhá-lo. O desejo a
atravessando junto com um prazer, quente e lancinante. — Eu
nunca negaria nada a você. Eu só não quero acordar e
descobrir que estou apenas sonhando.
— Você não está sonhando, doçura. — Ele balançou a
cabeça, o amor que ela viu em seus olhos a comovia. — E eu
prometo que nunca vou deixar você ir.
— Você juraria sobre Vingança? — Ela decidiu ser ousada.
Ele deu um tapinha no punho da espada e sorriu.
— Você tem meu juramento sobre Vingança, sobre o Corvo
do Mar, em Badcall. — Ele olhou para o cão cinzento
desgrenhado que ia e vinha ao longo das ondas esperando por
eles. — E sobre Frodi, e qualquer outra coisa importante para
mim.
Margo piscou, sabendo que isso era sério.
— Você não me ouviu? Eu amo você, minha tur-rist. — Ele
a puxou para ele novamente, segurando-a tão apertado que ela
temia que ele quebrasse suas costelas. Do Corvo do Mar, os
homens aplaudiram. Alguns estavam até erguendo suas
espadas no ar, embora o machado de guerra de Orosius
pudesse ser visto em um círculo brilhante acima das outras
armas.
Frodi latiu, abanando o rabo.
Magnus ignorou todos eles.
— Eu amo você, Margo. — Ele segurou o rosto dela
novamente, alisou o cabelo dela enquanto ele olhava
profundamente em seus olhos. — E eu acho que tenho feito
antes mesmo de nos conhecermos. Eu sei que continuarei te
amando quando não estivermos mais aqui.
— Oh, Magnus… — Margo não conseguia falar.
Mas ela fez o impensável. Lágrimas quentes e ardentes
começaram a vazar de seus olhos enquanto ele a segurava,
derramando-se por suas bochechas uma por uma e caindo
suavemente sobre a costa rochosa de uma verdadeira praia
escocesa.
E ela estava em sua época favorita, envolvida nos braços
do homem que amava e queria mais do que qualquer outra
coisa na Terra.
A vida não podia ser melhor.
Sua sorte finalmente se tornou boa.
E tudo parecia glorioso.
Epílogo
Vosso Velho Tempo Pagão
New Hope, Pensilvânia

Um ano depois.

Ardelle Goodnight passou a ponta do polegar pelo balcão


de vidro da velha mesa onde Margo trabalhava como
Harmonista Lunar e depois deixou as pontas dos dedos
passarem pelos frascos e garrafas azuis e prateados dos
cosméticos orgânicos lunarianos, organizados em uma adorável
exibição.
Seus dedos ficaram pretos de poeira.
— Isso não é certo. — Uma mulher alta, ela colocou os
ombros para trás e respirou indignada, seu peito grande como
uma prateleira subindo pela inspiração. — Devemos manter
seu lugar limpo por Margo. Se ela voltar e...
— Ela não voltará e todos nós sabemos disso. — Marta
colocou o cabelo escuro atrás de uma orelha e deslizou um
olhar preocupado para Patience que atendia um cliente na
porta.
— Algo aconteceu na Escócia, assim como com a irmã
dela.
Marta se inclinou para perto da mulher mais velha, com a
voz baixa.
— As autoridades de lá teriam encontrado algo se
houvesse sido um crime. Mas não havia nada, nem um traço.
Assim como com Mindy.
— Humph. — Ardelle roçou a jaqueta, um terno de tweed
que chegara recentemente a sua própria loja, A Envelheça
Graciosamente, onde se deleitava em dar vida nova a itens de
roupas de herança e outros sortimentos estranhos que eram
descartados, embora ela preferisse chamá-los de merecedores.
— Olhe… — Marta olhou para a sala dos fundos da loja,
onde fazia suas leituras de tarô, um canto aconchegante na
Vosso Velho Tempo Pagão que também servia como quitinete e
abrigava a coleção cada vez maior de seixos de rio polidos e
troncos que ela coletava na praia. — Eu tenho uma leitura em
breve. Por favor, não diga nada para Patience sobre a sujeira
hoje. É o aniversário da vitória de Margo, lembra?
— Ela gostaria que comemorássemos e ficássemos felizes
esta noite. — Marta tocou o braço da mulher mais velha,
apertando-a levemente. — Por favor, não faça estardalhaço
aqui ou mais tarde no Cabbage Rose.
Ardelle franziu os lábios.
— Há poeira até no banquinho de Margo.
Ela passou um dedo pelo assento azul e prateado do
banco, testando que estava certa ao mostrar o dedo levantado e
manchado.
— É uma vergonha.
— É o modo que Patience lida com isso. — Marta lançou
outro olhar para a dona da loja, beliscando o braço de Ardelle
quando viu que Patience estava vindo na direção delas. — Ela
não quer que ninguém toque em nada que seja da Margo.
Ardelle fungou.
— Acha que a nova mistura de pot-pourri33 Névoa de Urze
é a homenagem dela a Margo?
Marta olhou para o local onde o potpourri lindamente
embrulhado ocupava uma mesa baixa e redonda perto das
estantes de livros.
— Sim, é. Ela está até falando sobre misturar o perfume
Névoa de Urze em sabonetes e óleos essenciais, tudo em
homenagem a nossa Margo.
— Bem… — Ardelle tirou um fiapo da manga de sua
roupa. — Fico feliz em saber que ela está fazendo algo positivo.
— Eu faria muito mais se pudéssemos ter certeza de que
Margo está bem. — Patience se aproximou delas, manobrando
para se posicionar defensivamente entre suas duas amigas e a
mesa da harmonista lunar coberta de poeira, que Margo
ocupara.
— Eu achava que ela iria nos enviar algum tipo de sinal.
— Patience olhou para as unhas, mexendo-se para esconder o
brilho em seus olhos. — Nós éramos todos tão próximas,
sempre. Às vezes eu ainda a sinto perto, sabe? Como se ela
ainda estivesse aqui, ou nós estivéssemos lá, onde quer que ela
esteja.
— Eu sei, querida. — Ardelle colocou um braço ao redor
dos ombros de sua amiga e acariciou seu braço. — E eu não
queria exagerar sobre a poeira um momento atrás. Eu te
entendo. — Ardelle afundou novamente, agradecendo quando
Marta lhe entregou um lenço de papel. — É só que ela era tão
intuitiva. Ela deve saber que estamos preocupados com ela e…
— Perdoem-me. — Uma pequena mulher de cabelos
brancos estava diante delas, olhando para Marta, Patience e
Ardelle enquanto equilibrava uma grande caixa de papelão
contra o quadril.
Todas as três mulheres pularam.
O sino da porta não anunciara a chegada da velhinha.
Patience deu um passo à frente, voltando ao modo
negócios.
— Como posso ajudá-la?
A velha hesitou, seus olhos brilhando como se achasse as
palavras de Patience divertidas.
Mas então ela largou a caixa e se endireitou, alisando sua
longa saia preta. Um par de minúsculas botas pretas apareceu
debaixo de sua bainha, revelando que ela usava lindos
cadarços xadrez vermelhos.
Marta, Patience e Ardelle trocaram olhares.
A velhinha ainda sorria para elas, porém com o olhar fixo
em Patience.
— Eu acredito que você lida com livros de pesquisa
usados? — Sua voz era acentuada, ritmada e musical. — Os
tomos delicados sobre a origem de coisas mística e de afins?
— Nós trabalhamos. — Patience assentiu, olhando para a
caixa. — Aqueles parecem valiosos, no entanto. Eu posso não
ser capaz de pagar a você o que eles valem.
— Oh! Não estou atrás de dinheiro. Apenas fiz um pouco
de arrumação, é tudo. Não tenho mais espaço para isso.
— Eles parecem antigos. — Ardelle se inclinou sobre a
caixa, já examinando alguns volumes. — Aqui está uma para
você, Patience. — Ela levantou um livro fino sobre encantos e
feitiços para a bruxa branca “solitárias”.
— Deixe-me ver. — Paciência tirou o livro das mãos de sua
amiga, folheando as páginas.
Marta as ignorou, olhando para o relógio para ver se a sua
cliente de tarô estava chegando.
— Eu precisarei entrar na minha sala... Hey! — Ela
piscou, olhando ao redor.
— Onde a velha mulher foi?
Patience e Ardelle ergueram os olhos da caixa de livros.
— O quê? — Elas falaram em uníssono. — Ela estava aqui
agora mesmo!
— Bem, ela não está mais. — Marta esfregou os calafrios
em seus braços.
Assim como ocorreu quando a pequena mulher chegou, o
toque da porta não tinha tilintado.
— Ela voltará. — Patience apontou para seus pés, uma
mão em seu quadril. — Ninguém deixaria esses valiosos livros
para trás, quer ela queira dinheiro ou não. Por que, olhe para
este aqui...
Inclinando-se novamente, ela pegou um volume
acastanhado, amarrado em couro, seu título: Mitos e Lendas
da Era Viking escrito em letras vermelhas e douradas.
— Este não é o livro que Margo comprou pouco antes de ir
para a Escócia? — Patience estendeu o livro para as amigas. —
Tenho certeza que é.
Marta e Ardelle se aproximaram, olhando para o livro.
— Deixe-me ver. — Ardelle tomou o livro de Patience.
Franzindo a testa, ela começou a folhear as páginas.
Ela parou quando chegou a uma ilustração colorida de
duas páginas de um navio de guerra viking na costa da
Escócia.
— Olhe para isso. — Ela colocou o livro no balcão de
exibição de Margo, segurando as páginas abertas para o
desenho. — Este é exatamente o tipo de lugar que Margo
amaria.
Patience e Marta se juntaram a ela, flanqueando-a,
enquanto as três mulheres se inclinavam sobre o livro para
admirar a paisagem tão romântica que se espalhava pelas
páginas ricas e lisas.
Bela como uma pintura de um grande mestre, a ilustração
mostrava uma costa rochosa com penhascos íngremes e
irregulares pousando em torno de uma enseada em forma de
lua crescente. O céu acima tinha uma luminosidade azul,
púrpura e dourada do crepúsculo e o mar brilhava como prata
batida.
Um lugar de refúgio, a paisagem mágica era aperfeiçoada
pelo homem e pela mulher que se abraçavam no trecho de
areia dourada. Eles estavam à beira da água e o longo cabelo
escuro do homem era jogado pelo vento. Claramente era um
guerreiro das Terras Altas, ele era grande e musculoso, e usava
um plaid jogado de maneira ousada sobre um ombro. Uma
enorme espada estava amarrada na sua cintura e ele segurava
o rosto da mulher com ambas as mãos e a beijando ferozmente.
Ele parecia profundamente apaixonado por ela.
E a mulher de cabelos louros apreciando seu beijo era sua
combinação perfeita.
— Ei, olhe para o cabelo dela. — Marta franziu a testa,
inclinando-se para olhar a ilustração. — Ela está usando o
cabelo cortado na altura do queixo com franja.
— Isso não pode ser. — Ardelle cutucou-a de lado,
examinando a página. — Mulheres medievais não... Agh! —
Ardelle deu um pulo para trás, com os olhos redondos. — É
Margo! Ela olhou para mim e sorriu.
— Ela estava sorrindo para mim. — Patience agarrou o
livro, apertando-o ao peito, um peito tão grande e formidável
quanto o de Ardelle. — Era a nossa querida menina e ela
estava olhando diretamente para mim e não para você. —
Marta mordeu o lábio, não querendo arruinar suas afirmações
com a verdade.
Fora para ela que Margo tinha sorrido e até mesmo
piscara como se eles tivessem algum segredo especial.
— Podemos tentar de novo? — Marta virou-se para
Patience, optando pela diplomacia. — Talvez, se todos nós
olharmos para o desenho ao mesmo tempo, podemos dizer com
certeza. — Patience franziu a testa, ainda não pronta para
entregar o livro.
Ardelle pegou, colocando o livro no balcão novamente. Mas
desta vez, quando folheou as páginas, o lindo desenho havia
desaparecido.
Ele desaparecera do volume como se nunca tivesse
existido.
— Eu sei que ela estava lá. — Patience começou a andar
de um lado para o outro na frente da vitrine. — Meus olhos não
estão me enganando.
— Vocês duas também viram. — Ela olhou de Marta para
Ardelle e depois para o livro. — Ou vocês vão negar isso?
Ardelle sacudiu a cabeça.
— Nós poderíamos estar enganadas. — Marta evitou
responder com sinceridade.
Ela não queria ver Patience ferida.
— Provavelmente há muitas cópias desse livro. — Ela
olhou de novo. — Este não pode ser o de Margo e nós...
— É o de Margo! — A voz de Ardelle soou com triunfo.
— Veja aqui. — Ela estava apontando para algo na folha
de rosto. — Ela escreveu o nome dela no livro. Eu reconheço
sua caligrafia. Olhem. — Então Patience e Marta se juntaram a
ela, olhando para o livro aberto e lendo a inscrição de Margo
em voz alta:
Margo Leeanne Menlove.
E enquanto as três mulheres se inclinavam sobre o livro,
intrigadas com o significado - ou não - do nome completo de
Margo, uma minúscula mulher de cabelos brancos ergueu seu
nariz curioso do vidro da vitrine da loja e deu um suspiro muito
satisfeito.
As coisas estavam indo bem no mundo neste dia.
Ela tinha feito bem.
Então alisou a saia, ergueu o queixo e seguiu pela
calçada, com os saltos das pequenas botas pretas de cadarços
de xadrez vermelhos batendo alegremente.
Notas

[←1]
Hébridas - Ilha escocesa
[←2]
Wee Hughie é um personagem da história, dono da agência responsável pelo
tour de Margo pela Escócia.
[←3]
Jack Russel - raça de cacorro
[←4]
Dracares ou navios dragões.
[←5]
Arenque - tipo de peixe.
[←6]
Os assopradores de chifres tocavam em celebrações ou em identificações de
grupos de guerra, caça, entre outros.
[←7]
Garrons - Na Escócia, um garron é um dos tipos de pôneis das Terras Altas. É
o tipo maior e mais pesado criado no continente.
[←8]
Haggis é um prato tradicional da cozinha escocesa e consiste num bucho de
carneiro recheado com vísceras, ligadas com farinha de aveia.
[←9]
Coração Valente o filme com Mel Gibson como William Wallace
[←10]
Azeviche é uma pedra fóssil, também conhecida como âmbar negro.
[←11]
Valhalla é, segundo a mitologia nórdica, uma salão suntuoso para onde iam
alguns guerreiros após sua morte.
[←12]
Valquírias são na mitologia nórdica, as filhas virgens de Odin, responsáveis por
recepcionar os guerreiros mortos em batalhas.
[←13]
Earl Grey é uma marca de chá.
[←14]
Turfa é um material de decomposição de plantas que serve como adubo. Em
condições adequadas ela vira uma espécie de carvão vegetal, usado para
aquecimento doméstico.
[←15]
iridescente é um fenômeno ótico em que algumas superfícies refletem as cores
do arco-iris.
[←16]
Scotland, the brave é o hino não oficial da Escócia.
[←17]
Salmoura pode ser a água salgada para conservar carnes ou o próprio líquido
salgado que escorre dos peixes ou carnes que foram salgados.
[←18]
Potentilhas são plantas da família da Rosácea, comuns no Hemisfério Norte.
Conhecida popularmente como potentilha, cinco-em-rama, tormentila, e
morango estéril.
[←19]
Scotophile- pessoas aficionadas pela Escócia, que estudam costumes, história,
língua, cultura e colecionam coisas relacionados.
[←20]
Border Collies é uma raça de cachorro.
[←21]
Wee - aqui ocorre uma brincadeira com o nome do personagem e seu
significado original, pequeno, minúsculo.
[←22]
Cardo - é uma flor considerada o símbolo da Escócia. Diz a lenda que
guerreiros escoceses que dormiam, forma salvos de um ataque dos nórdicos,
pois esses caíram em uma moita de cardo, e como ela tem espinhos, eles
gritaram e alertaram os escoceses do perigo.
[←23]
Argyll - O clã Campbell de Argyll criou o argyle, sua própria estampa, inspirado
nos tartãs convencionais.
[←24]
National Trust é uma associação de preservação de locais históricos e naturais.
[←25]
A-82 é a estrada que leva de Glasgow até Inverness
[←26]
Ceilidh - um evento social com músicas e danças típicas, muito comum na
Escócia e Irlanda.
[←27]
A sentina é o espaço na parte mais baixa do navio, onde fica depositada a água
proveniente, por exemplo, da chuva, infiltrações ou mar agitado. Essa água
deve ser bombeada para fora para evitar que a sentina fique muito cheia,
ameaçando afundar o navio.
[←28]
Estorno- ammophila arenaria é uma planta que cresce na areia.
[←29]
uisge beatha - água da vida na tradução literal, que virou whisky devido a
dificuldade de pronúncia.
[←30]
Sílex é uma pedra muito dura, usada na construção de armas e por soltar
faíscas, para fazer fogo.
[←31]
Maçarico é uma ave.
[←32]
Lass, moça em gaélico escocês
[←33]
pot-pourry é um termo originalmente utilizado para fazer referência a um jarro
com uma mistura de pétalas de flores secas e especiarias utilizada para
perfumar o ar