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CORPOS-COM-AS-OUTRAS: A INTERTEXTUALIDADE E A CRÍTICA LITERÁRIA

FEMINISTA

Meu trabalho fala sobre citação, então eu vou com citações. A primeira é do conto “Sobre o
branco”, de Luci Collin, do livro “A árvore todas”. Cito:“Meu trabalho é dedicado à cópia.
Noites inteiras dias inteiros novas noites manhãs: cópia. E às vezes sucumbo ao cansaço às
vezes talvez pulo linha [...] talvez até um trecho, não sei. Guarde que o que faço é cópia e isto
tem leis invisíveis embora inquestionáveis”. (Luci Collin. “Sobre o branco”. A árvore todas.)

E agora cito um trecho do poema “Em celebração ao meu útero”, da estadunidense Anne
Sexton, do livro “Love poems”, de 69. Cito:

[...] Por isso muitas mulheres cantam em uníssono:


uma numa fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no aquário cuidando da foca,
uma aborrecida ao volante do seu FORD,
[...]uma no Arizona enlaçando um bezerro,
uma na Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando panelas num fogão no Egipto,
[...] uma na Tailândia deitada na esteira,
[...]
uma olhando pela janela do comboio,
no meio do Wyomming e uma está
em qualquer lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem estar cantando, embora haja quem
não possa cantar uma nota sequer. (Anne Sexton. Em celebração do meu útero. Trad. Jorge
Sousa Braga).
Fim de citação.

Muito usada como autoridade e como epígrafe, a citação consiste na cópia de um trecho
de texto, e é um recurso enunciativo que nos permite repensar a literatura. Dentre as Commented [LP1]: a teoria da enunciação, a importância da
leitura e as vozes das mulheres.
compreensões da literatura de Jonathan Culler está a da literatura como linguagem Então

autorreferencial, ou seja, de uma linguagem que volta para si por meio da intertextualidade,
como se a literatura fosse uma eterna reescrita pela qual refletimos e criamos o mundo. Uma
forma de fazer essa reescrita é a citação.
Como já disse Compagnon, a citação também é um vestígio da leitura e ela ajuda uma
crítica genética a ver que obras e que autores foram lidos pelos escritores. Afinal, não há escrita
nem linguagem autorreferencial sem leitura. Quando escrevemos, somos perpassados, como já
disse Bakhtin, por todos os enunciados já ditos, por outros ou por nós mesmos. Escrever e
utilizar a linguagem é, desse modo, um redizer. Um eterno citar e recitar.
Porém, citar não é uma cópia pura, porque não há cópias idênticas. Primeiramente, toda
citação pressupõe uma nova enunciação, um novo ato de fala em que há corte e apropriação,
movimento esse que Compagnon descreve com as metáforas da cirurgia e da costura. A citação
é o contato, o corpo a corpo – extirpação e enxerto de corpos literários.
Além disso, o tempo da enunciação é sempre diferente. Dessa forma, a enunciação é
sempre o aqui e o agora do enunciado, o momento em que ele é performado, de modo que o
contexto é sempre novo. Ainda que nos citemos, a cópia é feita por um outro de nos mesmos,
porque mudamos toda hora – Clarice Lispector se citava pela intratextualidade, sempre
reescrevendo um texto novo.
Logo, citar é copiar na diferença.
Já disse Derrida que a citação traz duplicação e iterabilidade. Isto é, duplica a
enunciação e traz diferença, visto que rompe com o contexto dito “original” e produz infinitos
outros e, por isso, novos textos a cada nova enunciação. Ao ser citado, o trecho é deslocado – a
narradora de Luci já disse que pula linha enquanto copia – de modo que o enunciado aparenta
ser o mesmo, mas é diferente pela entrelinha e pelo contexto.
Sendo sempre redito e reescrito, então quem fala o enunciado na citação? Fala quem
cita. É como Pierre Menard, personagem de Borges, que queria escrever Dom Quixote com as
mesmas palavras de Cervantes, um trabalho de cópia que só poderia ser uma cópia na diferença.
Seria um Quixote com as mesmas palavras, mas seria outro, um anacrônico. Porque toda citação
é primeiro uma leitura.
Mas o que tem a ver falar de citação e de escrita de mulheres? Tudo a ver. Eu comecei a fala
citando duas mulheres. Eu as reescrevi na leitura, seja lendo, digitando os trechos no papel ou os
performando há uns minutos. Dessa forma, podemos pensar a estrutura do sistema literário e da
importância da autoria para as mulheres – que ainda é uma questão que precisa ser discutida – e
da leitura entre mulheres. Em 2017, a livraria Loganberry books, em Cleveland, fez uma ação e
virou a lombada de todos os livros escritos por homens e deixou à vista apenas as lombadas de
livros escritos por mulheres. O resultado foi que as prateleiras da livraria ficaram brancas, com
os miolos brancos ou amarelados tomando conta. Em proporção eram poucos os livros de
autoria de mulheres. Isso nos mostra que apesar de mulheres terem mais espaço hoje, a
desigualdade de gênero no mercado editorial continua [– o coletivo espanhol “Mujeres del
libro” fez um manifesto pra combater tal situação.]
Na década de 70, Roland Barthes matou o autor e por isso se discutia muito a autoria,
essa figura que “joga” as palavras no papel. Michel Foucault falou da função-autor como um
nome que circunscreve os discursos e permite relacionar o conceito de propriedade e texto.
Enquanto isso acontecia, a crítica literária feminista reafirmava o lócus da autoria. As
pesquisadoras Sandra Gilbert e Susan Gubar criaram a metáfora da “ansiedade da autoria”
quando pesquisavam autoras inglesas vitorianas. Elas partem do conceito de “ansiedade da
influência” de Harold Bloom, para quem os escritores lutam com seus pais literários a fim de
renegá-los e de mudar a tradição. Em contrapartida, a autoria precisa ser afirmada pelas
mulheres e a relação com as predecessoras é uma forma de consolidar a presença de mulheres
dentro da literatura. Enquanto homens estavam tentando superar seus predecessores, as
mulheres tinham que desencavar mulheres apagadas, silenciadas e marginalizadas que
escreveram – daí a ansiedade da autoria: poder ser autora.
Dessa forma, as mulheres lutam COM não CONTRA, porque sentem necessidade de se
unir para ir contra o sistema. A metáfora da “ansiedade da autoria” é forte ainda hoje, claro que
ressignificada, e a escritora espanhola Paula Bonet diz que ela passa muito tempo desenterrando
mulheres pra ressiginificar o seu lugar enquanto artista.
A ansiedade da autoria de Gilbert e Gubar foi muito criticada por ignorar classe e raça. Rita
Felski, em Literature after feminism, não traduzido para o português, faz outra metáfora bem
produtiva para pensar a autoria das mulheres: “home girls” – mulheres da casa. Ela constrói essa
metáfora a partir da análise de textos de escritoras negras estadunidenses. A metáfora da Felski
mostra que as mulheres sempre tiveram predecessoras – suas mães e avós. Da literatura oral,
essas escritoras fizeram escrevivência no papel. Ria Lemaire defende a oralidade como uma
literatura silenciada que precisa ser recuperada para desenterrar mulheres. Escrever é um ato
político para mulheres, e Conceição Evaristo disse que para as mulheres negras só escrever não
basta, porque escrever e publicar são atos políticos. Ao serem publicadas as autoras vão para as
prateleiras das livrarias e das bibliotecas e passam a integrar o sistema literário, serem lidas e,
mais, citadas.
Por meio da leitura constrói-se uma tradição, uma citação de outras de modo a formar
um corpo literário que não aquele canônico que enterrou e ainda silencia mulheres. É preciso ler
mais Maria Firmina dos Reis quando se pensa no Romantismo brasileiro. É preciso colocar as
Trobairitz nos estudos do trovadorismo. A pesquisa das mulheres é essencial para isso.
A citação é prática essencial para a afirmação da autoria de mulheres, para mostrar que elas são
lidas e que escreveram e publicaram, e também para esse diálogo entre mulheres na literatura
porque permite contatos. Rita Felski diz que o encontro com um texto escrito por uma mulher é
como ter uma conversa íntima e prazerosa com outras mulheres. A escritora Paula Bonet chama
as mulheres que ela cita em seus livros de “despertadoras”, porque elas a despertaram para a
escrita e para experiências que só os eu líricos e as narradoras e narradores permitem que
vivamos enquanto nossos egos experimentais. As predecessoras são as nossas despertadoras e
catalizam experiências pela literatura, fora e dentro.
Eu gosto de pensar em outra metáfora, retirada da ficção de Elena Ferrante. Uma de
suas personagens, a Lila, experiencia a “desmarginação”, ou seja, perde seus contornos e se une
ao mundo; ela vive essa experiência quando ocorre um terremoto na Itália, e eu acho esse
episódio bastante simbólico pra pensar o que estou investigando aqui. Como eu já disse,
Compagnon une a citação à cirurgia e à costura. Eu prefiro usar o terremoto como metáfora para
citação, porque a cirurgia pressupõe uma passividade do operado e a costura fixa. O terremoto é
movimento recíproco e não fixa, mas treme, porque o texto foi mexido por forças externas,
deslocado de seu contexto e reescrito na leitura. Citar então fica mais dialógico e político.
Quando eu cito uma mulher, eu a desmargino. Primeiro, porque eu tiro as palavras que ela jogou
na literatura das margens do seu texto. Em segundo, porque eu a leio e a tiro da margem da não-
leitura, não a colocando no cânone, mas desmarginando a própria literatura – ou seja, mostrando
que há literatura fora desse sistema masculino, branco e cis. A desmarginação da citação e da
literatura seria um movimento não centrípeto, ao centro, mas centrífugo – a potência literária em
vários lugares, de um poder da palavra não centralizado. A imagem do terremoto e a da
desmarginação fazem com que eu não seja apenas a agente que opera ou costura, mas também
me desmargino na leitura, porque eu preencho o enunciado que cito, reescrevendo-o em nova
enunciação e por isso criando uma equivocidade, uma duplicidade equívoca, um agenciamento
coletivo, como já falaram Deleuze e Guatarri.
Com isso, formo o que eu, em minha dissertação, chamo de “corpos-com-as-outras”,
tentando pensar a autoria e a agência de mulheres em oposição ao que a sociedade faz de nós:
corpos para o outro. Penso que não é solução conquistarmos apenas “corpos para si”, porque aí
cairíamos em um feminismo liberal, em uma perspectiva de um individualismo cego.
Precisamos, pela linguagem e pela literatura, fazer diálogo-a-uma e monólogo-a-infinito, de
modo a cantarmos, como as mulheres do poema de Anne Sexton, no uníssono de nossas
diferenças, citando umas às outras para transformar a literatura e mostrar que as mulheres são
parte do universal e falam por e entre si.
Por fim, termino com uma citação de uma outra mulher, do título e fala do conto de Conceição
Evaristo que pode, em minha enunciação, ser usado em um contexto para defender o uso da
citação de, por e para mulheres dentro da literatura: “a gente combinamos de não morrer”.
Citemo-nos então. Obrigada.

http://eldeber.com.bo/escenas/La-traduccion-es-la-formula-minima-de-la-escritura-colectiva-
20190529-
8317.html?fbclid=IwAR150nOwz38RWPR7UeIl27pvd2G7o7GW81auZ2PHrul4ko7uL13MPGxiSr
8

Não vou explorar aqui, mas podemos tomar como a mexicana Cristina Rivera Garza define a
tradução: como a fórmula mínima da escrita coletiva. A tradução seria uma citação do terremoto
de língua, uma escrita coletiva com outras por meio de um contexto bem diferente.

Citações:
“Alguns pacientes que não conseguem explicar por que se sentiram chocados, assustados ou
alegres por uma percepção insconsciente confabulam. S. M. via seu reflexo, mas não o
reconhecia, não conseguia sentir que era ela, e por isso confabulava com a outra S. M. A
confabulação (ou fabulação) não é mentira: o termo neurológico se refere a explicações que
pessoas com danos cerebrais apresentam para descrever os mistérios que enfrentam”. 1

“- Quantos amantes você já teve? interrompeu ele.


Ela silenciou. Depois disse:
- Não foram propriamente amantes porque eu não os amava.”2

“ – Veja aquela moça ali, por exemplo, a de maiô vermelho. Veja como anda com um orgulho
natural de quem tem um corpo. Você, além de escolher o que se chama alma, tem vergonha de
ter um corpo.3

O humano é só.4

“[...] sou aquela que tem a própria vida e também a tua vida.”5

Depois, violentamente, disparei contra uma árvore.” 6

“Agora que a sabem morta, estão todos ali, juntos, à sua volta”.7

“Love? Be it man. Be it woman.


It must be a wave you want to glide in on,
give your body to it, give your laugh to it,
give, when the gravelly sand takes you,
your tears to the land. To love another is something
like prayer and can’t be planned, you just fall
into its arms because your belief undoes your disbelief.”8

“But suicides have a special language.


Like carpenters they want to know which tools.
They never ask why build.”9

ANNE SEXTO – p. 321.

I am at the ship’s prow.


I am no longer the suicide
with her raft and paddle.
Herr Doktor! I’ll no longer die.10

Alusão – p. 89: Before today my body was useless.


Now it’s tearing at its square corners.11

1
HUSTVEDT, Siri. A mulher trêmula – ou Uma história dos meus nervos. Trad. Celso Nogueira. São
Paulo: Companhia das letras, 2011, . 56.
2
LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 50.
3
LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 68.
4
LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 74.
5
LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 158.
6
BOMBAL, María Luisa. Amortalhada. Trad. Aurora Fornoni Bernardini e Alicia Ferrari del Pardo.
São Paulo: DIFEL, 1986, p. 12.
7
BOLBAL, María Luisa. Amortalhada. Trad. Aurora Fornoni Bernardini e Alicia Ferrari del Pardo. São
Paulo: DIFEL, 1986, p. 2.
8
SEXTON, Anne. “Admonitions to a special person”. In: Complete poems.
9
SEXTON, Anne. “Wanting to die”. In: Complete poems.
10
SEXTON, Anne. “The doctor of the heart”. In:
“Los riesgos naturales son parte de la vida en la Tierra. Cada día afectan de forma adversa
literalmente a millones de personas en todo el mundo y son responsables de daños
asombrosos. Entre los procesos terrestres peligrosos estudiados por los geólogos, se cuentan
los volcanes, las inundaciones, los terremotos y los deslizamientos. Por supuesto, los riesgos
geológicos son simplemente procesos naturales. Sólo se vuelven peligrosos cuando las
personas intentan vivir donde estos procesos suceden” (TARBUCK; LUTGENS, 2005, p.

11
SEXTON, Anne. “The Kiss”.