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América Latina

Olhares e perspectivas
Clara Agustina Suárez Cruz
Gentil Corazza
Nilson Araújo de Souza
(organizadores)

América Latina
Olhares e perspectivas

Textos em português e espanhol

Florianópolis/SC

2014
Editora Insular
América Latina
Olhares e perspectivas

Clara Agustina Suárez Cruz


Gentil Corazza
Nilson Araújo de Souza
(organizadores)

Editor
Nelson Rolim de Moura
Conselho Editorial
Projeto gráfico
Dilvo Ristoff, Eduardo Meditsch,
Carlos Serrao
Fernando Serra, Jali Meirinho,
Capa Natalina Aparecida Laguna Sicca,
Rodrigo Poeta Salvador Cabral Arrechea (Argentina)

Revisão
Carlos Neto

América Latina – Olhares e perspectivas / Clara Agustina Suárez Cruz,


Gentil Corazza, Nilson Araújo de Souza (orgs.) Florianópolis : Insular, 2014.

352 p.

ISBN 978-85-7474-801-6

1. América Latina 2. Integração latino-americana 3. Relações internacionais


3. Cultura 4. Artes 5. Política 6. Economia I. Título

CDD 980

Editora Insular Insular Livros


Rodovia João Paulo, 226 Rodovia José Carlos Daux, 647, sala 2
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Sumário

Apresentação.......................................................................................... 9

La identidad de América en la larga duración:


ni occidental, ni ibérica, solo diversa ..................................................... 17
Gerson Galo Ledezma Meneses

Além do americanismo e do imperialismo:


os Estados Unidos em Victoria Ocampo e no grupo Sur......................... 43
Paulo Renato da Silva

Analisando a democracia a partir da relação entre Estados e


movimentos sociais: os casos da Venezuela, Bolívia e Equador ............. 61
Fabricio Pereira da Silva

Dependência, crise e novas configurações


do Estado na América Latina................................................................. 79

Luisa Maria Nunes de Moura e Silva 

Redefinindo fronteiras: música negra na diáspora


e as relações com as práticas religiosas no rap gospel........................... 93
Angela Maria de Souza

Música latino-americana de tradição ocidental europeia:


quando Universalismo e Nacionalismo anulam-se................................ 109
Juliane Larsen

Imágenes y palabras “para celebrar una nueva era” ............................ 123


Diana Araujo Pereira

América Latina. El boom de la literatura Latinoamericana


no es un movimiento literario….......................................................... 135
Clara Agustina Suárez Cruz
El oro y la paz, de Juan Bosch:
en busca de un líder latinoamericano.................................................. 143
Pedro Granados

O Barroco latino e o olhar contrafeito................................................. 153


Jorge Anthônio e Silva

Deuses em barro – notas etnográficas do Torito de Pucará-Peru.......... 165


Danielle Araujo

Reflexões sobre Territórios

Pro
e Políticas Ambientais na América Latina ............................................ 181
Senilde Alcantara Guanaes

Para uma aproximação ao desdobramento histórico do conceito


de desenvolvimento econômico e seus indicadores.............................. 195

Claudia Lucia Bisaggio Soares

América Latina: inserção internacional,


integração e desenvolvimento............................................................. 219
Nilson Araújo de Souza

Nacionalismo, integração e desenvolvimento na América Latina.......... 271


Gentil Corazza

Integração comercial e produtiva da América do Sul........................... 289


Luciano Wexell Severo

As possibilidades do desenvolvimento econômico


num país de capitalismo dependente.................................................. 331
Wolney Roberto Carvalho

Sobre os autores.................................................................................. 349


Apresentação

O
livro América Latina: olhares e perspectivas, que apresenta-
mos aos leitores, possui um significado especial para todos os
que dele participamos, pois trata-se da primeira obra coletiva
sobre a América Latina elaborada por professores e pesquisadores da
Universidade Federal da Integração Latino-Americana – UNILA, uma
nova Universidade, criada pelo governo brasileiro, ainda em processo
de implantação, mas com vocação latino-americana. Participaram da
elaboração desta coletânea pesquisadores das mais diversas áreas do

ova
pensamento: a história social e política, a literatura, a música, as artes,
a economia e a integração da América Latina, aspectos tão diversos,
quanto diversa é a própria realidade latino-americana. Assim, tanto
para seus autores, quanto para a instituição em que trabalham ou traba-
lharam, possui um significado muito especial. Trata-se do primeiro en-
saio coletivo dos professores e pesquisadores da UNILA, que procura
analisar questões diversas e relevantes da América Latina.
A questão da identidade latino-americana é o tema de abertura do livro,
com o texto de Gerson Ledesma Menezes “La identidad de América em
la larga duración: ni occidental, ni ibérica, sólo diversa”. O autor procura
fazer uma reflexão sobre a diversidade cultural, étnica e sexual dos povos
que viviam no continente americano ao longo de sua longa história de mais
de 50 mil anos. O autor discorda da afirmação de Zygmunt Bauman no sen-
tido de que as “‘identidades’ flutuam no ar”.. “Não concordamos com esta
afirmação”, sustenta ele, especialmente no caso da América Latina, onde
as diversas culturas são mais intensas, profundas e milenares. A identidade
tem raízes que a fazem crescer e cumprir seu papel de florescer, para poder
prevalecer e para enfrentar sua dissolução. O autor critica também a ideia de
uma América como um “Novo Continente”, categoria inventada por ocasião
da invasão espanhola de 1492; o texto procura destacar sua longa trajetória
cultural. Lugar de múltiplas invasões, cruzamento de culturas, identidades
e influências de diversos povos originários e estrangeiros. Por essas razões,
quando pensada na sua longa duração, a América não pode ser catalogada,
na atualidade, de ocidental, hispânica ou lusa, mas simplesmente como di-
versa. Ao reafirmar essas posições, o autor pretende questionar a ideia farta-
mente aceita de uma Comunidade Ibero-Americana.
América Latina: olhares e perspectivas 9
As relações da América Latina com os Estados Unidos é o segundo tema
abordado no livro, através do texto “Além do americanismo e do imperia-
lismo: os Estados Unidos em Victoria Ocampo e no grupo Sur”, de Paulo
Renato Silva. Neste texto, o autor procura questionar uma visão tradicional
sobre as relações entre a América Latina e os Estados Unidos, a partir da
obra de Victoria Ocampo (1890-1979) e da revista cultural Sur. Quando
se analisam as relações entre a América Latina e os Estados Unidos nos
âmbitos econômico, político ou cultural, é frequente, diz o autor, o esta-
belecimento de polaridades nas quais a América Latina ocupa um lugar de
subserviência em relação aos Estados Unidos. Ao analisar o posicionamen-
to de Victoria Ocampo e da revista Sur, o autor procura fugir dessas posi-

Pro
ções polares extremas, buscando uma posição intermediária mais matizada
e abrangente. Assim, conclui o autor, o caso de Victoria Ocampo e da re-
vista Sur indica a necessidade de se questionar a visão tradicional sobre as
relações entre a América Latina e os Estados Unidos, dando historicidade
a estas relações e destacando as suas mudanças e as particularidades dos
âmbitos econômico, político e cultural, ainda que estejam profundamente
interligados.
No texto intitulado “Analisando a democracia a partir da relação entre
Estados e Movimentos Sociais: os casos da Venezuela, Bolívia e Equador”,
Fabrício Pereira da Silva procura discutir as transformações ocorridas na
representação, participação e deliberação democrática dessas sociedades
nos últimos anos, e se propõe fazê-lo a partir da chave da interação entre os
Estados em processo de reformulação e os movimentos sociais em atuação
nesses países. Isso constitui uma forma de abordar ao mesmo tempo dois
temas centrais para a compreensão dos referidos processos de refundação:
o estágio atual da democracia nesses países, a partir das mudanças e perma-
nências nas formas de interação Estado/sociedade. Para isso, o autor come-
ça por apresentar algumas chaves teórico-analíticas válidas para a análise
das relações Estado/sociedade nos países estudados, para, a seguir, analisar
os experimentos de democracia participativa e direta nessas sociedades le-
vados a cabo em meio aos referidos processos refundadores, destacando a
referida relação Estado/sociedade.
O texto de Luisa Maria de Moura e Silva, “Dependência, crise e novas
configurações do Estado na América Latina”, se propõe analisar as novas
configurações e regulações do Estado na América Latina, que surgiram com
as crises recentes, a partir da concepção crítica da Teoria da Dependência.
10 América Latina: olhares e perspectivas
Com efeito, esta teoria, além de afirmar que não se pode entender o Estado
moderno sem seu ponto de apoio histórico, preconiza que, nas situações de
dependência, por suas relações subordinadas às economias centrais e aos
interesses das suas classes dominantes, ficam comprometidas a soberania e
a democracia nesses países, até para as burguesias locais.
A música na América Latina é abordada em dois textos deste livro. O
primeiro deles, de autoria de Angela Maria de Souza, se intitula “Redefi-
nindo fronteiras: música negra na diáspora e as relações com as práticas
religiosas no rap gospel”. A América Latina, enquanto espaço geográfico-
-cultural, é marcada por hibridismos, composta por diásporas, recortada por
trajetórias que se cruzaram em complexas práticas performático-culturais,

ova
entre as quais está a produção musical. O contexto de diáspora redefiniu
fronteiras e criou novos fluxos e conexões, o que refez práticas estético-
-musicais em contextos nacionais e locais no continente americano. Estas
musicalidades expressam-se em performances que são construídas nestas
relações entre música e negritude nas Américas e que se distingue da mu-
sicalidade africana, porém recriando-se em contexto de diáspora, como é o
caso de rap e muitos outros gêneros musicais.
No seu texto, a autora afirma que o rap surge nos Estados Unidos no fi-
nal da década de 1970 entre jovens imigrantes de países latino-americanos,
jamaicanos e negros estadunidenses e vai se difundir pelos mais diversos
países. Em cada contexto nacional, regional, étnico-racial e religioso, esta
prática musical ganha novas formas e é ressignificada enquanto música que
possui uma perspectiva política, que propõe mudanças de posicionamentos
e representações. O rap tornou-se, assim, uma música que, além de reivin-
dicar um espaço político, propõe redefinir os olhares sobre negros, indíge-
nas, mulheres e moradores de periferias e questiona todos os processos de
discriminação.
O segundo texto, de Juliane Larsen, se intitula: “Música latino-america-
na de tradição ocidental europeia: quando Universalismo e Nacionalismo
anulam-se”. Nele a autora aborda o tema do estabelecimento do sistema
tonal na música da América Latina com o intuito de compreender a gênese
das posturas nacionalistas e universalistas dos compositores latino-ameri-
canos da primeira metade do século XX e sua relação com o modernismo
musical europeu. Uma das conclusões possíveis apontadas pelo texto su-
gere a invalidação dos argumentos nacionalistas e universalistas enquanto
propostas para uma criação musical alheia às influências externas.
América Latina: olhares e perspectivas 11
Três textos abordam questões relativas à literatura na América Latina. O
primeiro deles, de Diana Pereira, “Imágenes y Palabras ‘para celebrar una
nueva era’”, procura discutir o conceito de modernidade, que os colonizado-
res impõem ao “Novo Mundo”, como única condição possível de existência
geográfica e histórica. A partir das vanguardas hispano-americanas e do Mo-
dernismo brasileiro, por meio da intelectualidade nativa, de seus escritores
e artistas, especialmente Antonio Cisneros, Nadín Ospina e Nelson Leirner,
esta ideia de modernidade será amplamente debatida e antropofagicamente
assimilada. As artes tornam-se um meio importante para tais questionamen-
tos, que em última instância visam liberar a América Latina de seus condi-
cionamentos positivistas e de seu peso tão eurocentricamente racionalista,

Pro
para que ela possa “reconstruir-se”, encontrando seus próprios caminhos
de inserção mundial ou de modernização. Este é o objetivo da autora ao se
propor analisar a obra de um poeta e dois artistas, Antonio Cisneros, Nadín
Ospina e Nelson Leirner, que em diferentes épocas e cada um a seu modo,
propuseram caminhos de reflexão e reavaliação do pensamento não só artís-
tico e literário, mas, sobretudo, histórico e social.
O segundo texto, que aborda aspectos da literatura latino-americana, é
de Clara Suarez, e se intitula: “América Latina: el boom de la literatura lati-
noamericana no es un movimiento literario”. Como o próprio título indica,
a autora defende o ponto de vista de que a proposta de conferir um caráter
a-histórico e permanente ao processo do boom literário latino-americano
não se sustenta, pois que o mesmo não se afirma como um movimento lite-
rário. Ao mesmo tempo, no entanto, o mesmo processo nos levou, a partir do
Romanticismo, a uma viagem estética, que colocou a Literatura produzida
na América Latina nos centros de discussão de todo o mundo.
Já o texto de Pedro Granados. “El oro y la paz, de Juan Bosch: en busca
de un líder latino-americano”, analisa esta obra de Juan Bosch, escrita ain-
da no ano de 1954, na Bolívia, onde o mesmo passou alguns meses atraído
pelo processo da revolução nacional. No entanto, a referida obra possui uma
abrangência mais ampla, referindo-se à América Latina como um todo. O
autor dominicano parece ter escolhido a selva boliviana, um lugar onde se
mata pelo ouro, para situá-la ao mesmo tempo num contexto moderno e
internacional, muito semelhante ao momento político e à heterogeneidade
cultural das Antilhas de seu nascimento. Nesse contexto, analisam-se os pro-
tagonistas do romance e se avalia qual seria entre eles o líder mais idôneo
para governar o país. Tal líder seria aquele que, dentre esses homens e mu-
12 América Latina: olhares e perspectivas
lheres, melhor pudesse responder a esta pergunta: como é possível governar
e governar-se a si mesmo no meio da selva?
O mundo das artes na América Latina é abordado em dois textos. Um de
caráter mais geral e o outro abordando um episódio artístico muito específi-
co no Peru. Primeiro, o texto de Jorge Anthônio da Silva, “O Barroco latino
e o olhar contrafeito”, procura analisar o papel e a importância da estética
no processo de conquista e submissão do continente latino-americano às
determinações político-religiosas europeias. Com efeito, os conquistadores
trouxeram cavalos, armas e homens, mas fizeram-se acompanhar de mis-
sionários jesuítas, os quais com sua sabedoria usaram a força da imagem
barroca para tornar mais completa sua conquista, de vez que pautava pela

ova
obediência às divindades cristãs e pelo domínio da sensibilidade física e
emocional dos povos conquistados.
O segundo texto, de Danielle Araujo, intitulado “Deuses em barro: notas
etnográficas do Torito de Pucará-Peru”, procura fazer uma análise de como
o Torito de Pucará, um objeto de cerâmica largamente difundido no Distrito
de Pucará, no Peru, obteve destaque dentre as demais peças de cerâmica do
lugar. Sabe-se que o distrito de Pucará, no Peru, é um dos principais polos
produtores de cerâmica e um dos mais antigos da América Latina. Situado
na estrada que liga o Departamento de Puno a Cuzco, Pucará tem como
principal atividade econômica a produção de cerâmica. Apesar de produzir
inúmeros objetos, o distrito se destaca na produção de uma peça que leva o
nome do lugar. O Torito de Pucará, como que levado pelo seu poder simbó-
lico, conquistou fama nacional e internacional.
Cinco textos do livro são dedicados a analisar aspectos econômicos e o
processo de integração e desenvolvimento da América Latina. O primeiro
deles, de Claudia Lucia Soares, coloca um conjunto de questões sobre a
evolução do próprio conceito de desenvolvimento econômico, suas fases e
seus indicadores em diferentes perspectivas. Em que estágio de desenvolvi-
mento estamos e quais são os indicadores que permitem saber o momento
de passagem de um estágio de desenvolvimento para outro? Será possível
saber ao menos se se está no caminho certo para se alcançar o almejado
desenvolvimento? Pode-se ser considerado desenvolvimento um processo
que destrói os recursos naturais das futuras gerações humanas? Desenvol-
vimento significa necessariamente desenvolvimento capitalista? Só há um
caminho para o desenvolvimento?

América Latina: olhares e perspectivas 13


O texto de Nilson Araujo de Souza pretende examinar a forma como a
inserção internacional da América Latina interfere em seus processos de in-
tegração e desenvolvimento. Para tanto, parte do pressuposto fundamental de
que, quanto maior é a inserção subordinada da América Latina no contexto
da economia mundial, menores suas possibilidades de integração. Tal hipó-
tese se baseia no fato de que os processos de integração da região avançam
nos momentos em que sua inserção internacional entra em crise e crescem
as condições para um maior grau de autonomia regional. Para entender essa
questão, examina-se a política das grandes potências para a região a partir da
segunda metade do século XIX. A análise demonstra que o processo de in-
tegração latino-americana, desde a independência e a formação dos Estados

Pro
nacionais na região, vem se realizando por meio de ondas. Até agora, pode-
-se constatar a existência de quatro grandes ondas. A primeira corresponde
ao período que começa com a independência e conclui na grande crise mun-
dial da primeira metade do século XX – de 1914 a 1945; a segunda inicia
com as transformações ocorridas na região durante a grande crise e vai até o
esgotamento, em fins dos anos de 1960 e começos dos de 1970, do longo pe-
ríodo expansivo de pós-guerra; a terceira corresponde ao declínio dessa onda
larga de pós-guerra, cobrindo o período que vai da virada da década de 1960
para a de 1970 até o começo da década de 2000; por fim, a quarta e última
deflagra-se no início dos anos 2000 e vigora até os dias de hoje. O texto con-
clui com a suposição auspiciosa de que a “onda” atual, deflagrada no começo
da década de 2000, apresenta maiores possibilidades de consolidação.
O texto de Gentil Corazza aborda o processo de integração da América
Latina. Como acentua o autor, a ideia de integração dos países da Amé-
rica Latina esteve subordinada a duas matrizes político-ideológicas, a do
libertador Simon Bolívar e a da doutrina Monroe. Essas duas matrizes tra-
duziram as tensões históricas entre o monroísmo e o bolivarismo, que de
alguma forma ainda estão presentes nos projetos atuais de integração, como
o Mercosul, a Alca e especialmente na Unasul. Dentro desta perspectiva
mais ampla de integração, o texto analisa as relações entre nacionalismo,
integração e desenvolvimento no contexto histórico latino-americano, mas
com ênfase nos dias atuais. A conclusão do autor é que, se historicamente os
nacionalismos representaram ser mais um obstáculo do que um incentivo,
os novos nacionalismos não têm se apresentado como um obstáculo ao apro-
fundamento da integração, mas, ao contrário, podem ser denominados como
nacionalismos de cunho integrador e desenvolvimentista.
14 América Latina: olhares e perspectivas
O texto de Luciano Wexell Severo, “Integração comercial e produtiva
da América do Sul”, se propõe analisar as grandes assimetrias que existem
entre o Brasil e os demais países do MERCOSUL e como tais assimetrias di-
ficultam o processo de integração regional. Para atingir seu objetivo, o autor
se propõe, então, através do estudo dos números do comércio, identificar os
elementos mais importantes para uma interpretação geral das possibilidades
de complementação produtiva regional.
Wolney Roberto Carvalho, no último texto desta coletânia de “olhares e
perspectivas” sobre a América Latina se propõe analisar “As possibilidades
do desenvolvimento econômico num país de capitalismo dependente”.
Vale conferir. Boa leitura.

ova

América Latina: olhares e perspectivas 15


Pro
La identidad de América en la larga duración:
ni occidental, ni ibérica, solo diversa
Gerson Galo Ledezma Meneses

L
as “identidades” fluctúan en el aire, afirma Zygmunt Bauman, “al-
gumas de nossa própria escolha, mas outras infladas e lançadas pe-

ova
las pessoas em nossa volta, e é preciso estar em alerta constante
para defender as primeiras em relação às últimas”(Bauman, 2005, p.19).
No concordamos con el autor para el caso de gran parte de América Latina;
pensamos que para algunas sociedades, efectivamente, las identidades fluc-
túan en el aire, sin lugar donde posarse y echar raíces; no para otras cuyas
culturas son más intensas, profundas y milenarias; creemos que la identidad
tiene raíces que la hacen crecer y cumplir su papel de florecer, para poder
prevalecer y enfrentar la modernidad, la posmodernidad o la construcción de
estados nacionales cuyo discurso reduce al mestizaje la diversidad cultural e
identitaria, tal como con las identidades étnicas, cuyo destino final sería su
desaparición o uniformización1. Aclaramos desde ahora que no creemos en
la existencia de culturas e identidades puras o esencialistas.
Hablar de diversidad cultural es evocar también la identidad2, y referirse
a esta es pensar en un largo camino tortuoso por el cual erramos desde cuan-
1
Situación parecida con la de los pueblos mesoamericanos donde “se llegó a
considerar la cultura indígena moderna como un remanente petrificado de las
civilizaciones pasadas. La cultura se concebía como uma suma de rasgos des-
criptivos y el cambio consistía en un proceso unilineal en el que se pierden
los rasgos culturales indígenas y se adquieren rasgos supuestamente mestizos.
Este esquema interpretativo coincidía con el proyecto del Estado revolucionario
cuyo objetivo era crear una cultura nacional sustentada en la ideología del pro-
greso y la modernización. En este modelo, la historia se convierte en un proceso
evolutivo que inexorablemente conduce a la desaparicieón de las diferencias
étnicas para producir una identidad nacional uniforme”. Good Eshelman. El
ritual y la representación de la cultura: ceremonias agrícolas, los muertos y la
expresión estética entre los nahuas de Guerrero. In: Broda, 2001, p. 239-297.
2
Identidad como expresión de la diversidad cultural y temporal que nos habita,
así como del carácter procesal inherente a toda sociedad, dice Arenas (1997, p.
120-137).
América Latina: olhares e perspectivas 17
do nuestros ancestrales posiblemente pasaron el Estrecho de Bering3; ese
recorrido parece mostrarnos que venimos de alguna parte y vamos para otra,
echando mano de lo propio y, recientemente, en la mayoría de las veces,
mal copiando lo extraño; pues así colonizados nos sentimos aceptados como
pueblo civilizado, parecido con nuestros antiguos amos y sus vecinos, todos
empeñados en calificarnos como bárbaros a ser tutelados. Gabriel García
Márquez, refiriéndose a Europa, afirma:

no es difícil entender que los talentos racionales de este lado del


mundo, extasiados en la contemplación de sus propias culturas,
se hayan quedado sin un método válido para interpretarnos. Es
comprensible que insistan en medirnos con la misma vara con

Pro
que se miden a sí mismos, sin recordar que los estragos de la
vida no son iguales para todos, y que la búsqueda de la identi-
dad propia es tan ardua y sangrienta para nosotros como lo fue
para ellos. La interpretación de nuestra realidad con esquemas
ajenos sólo contribuye a hacernos cada vez más desconocidos,
cada vez menos libres, cada vez más solitarios. (García Már-
quez, 1983, p. 126-128)

Como en la magia de un ritual, la construcción de identidades nos empu-


ja a buscar nuestras raíces, creencias, cosmovisiones, valores, tradiciones,
símbolos y principios comportamentales en el pasado, que para muchas so-
ciedades se relaciona con el presente, pues “entre nosotros, el pasado es o
puede ser una vivencia del presente, no su nostalgia”(Quijano, 1988, p. 62).
La identidad también se entiende como un dilema frente a la modernidad y
la globalización, amenazadoras de nuestras estructuras comunitarias, sean
ellas rurales o urbanas, llevándonos a visualizar una nueva redefinición de
identidad para fundamentar los sentimientos de pertenencia con un posible
futuro; porvenir vago que se deshace para dar paso a formas onduladas que
van y vuelven, se encogen y se desenvuelven como en un juego de espirales
y círculos; entonces, y por momentos, percibimos la inexistencia de la línea

3
Alex Hrdlicka afirma que América fue poblada através del Estrecho de Bering
por hombres y mujeres procedentes de Mongolia, China, Japón, isla de Formo-
sa, y otras regiones asiáticas. A mediados del siglo XX aparecen otras hipótesis:
Paul Rivet, cuyos estudios linguísticos, étnicos y antropológicos apuntaron en
dirección del Océano Pacífico y el paso de los primeros habitantes de América
a través de la Melanesia, de la Polinesia y del Oceano Glaciar Antártico. Ver:
Rivet (1960).
18 América Latina: olhares e perspectivas
horizontal del tiempo, donde no necesariamente nos encontraremos con el
progreso como en la concretización de un destino fatal.
Comparándonos con otras sociedades constatamos que el tiempo es una
construcción cultural, relacionado también al uso del calendario, a las prác-
ticas magico-religiosas y a los tiempos verbales de nuestros idiomas; los es-
quimales, entre otros pueblos de los glaciares, tienen otra visión del tiempo
pues sus noches y sus días son mucho más prolongados que los nuestros;
sus días y noches se hacen más intensos y/o dramáticos, todo influenciando
su vida cotidiana, su cultura y su mentalidad. Los guambianos, en la actual
Colombia, piensan la historia y el tiempo relacionado con sus ancestrales
y viejos de su comunidad; estos van al frente de los más jóvenes. Quienes

ova
representarían el pasado, los ancianos, caminan hacia el futuro, de tal forma
que en Guambia, los representantes del futuro, los más jóvenes, según las
comunidades “blancas”, hacen parte del pasado. En esa región colombiana,
el futuro está detrás del pasado4. Esto, porque “culturas diferentes conceptu-
alizan el tiempo de formas diferentes, hoy se tiende a considerar el tiempo
como una práctica social configuradora de identidad” (Carbonell Camós,
2004, p. 11).
En ese sentido, nos deparamos con el Ángel de la Historia, de Paul Klee,
analizado por Walter Benjamín; allí donde aparece para nosotros

(...) uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe


que continua a amontoar destroços sobre destroços e os arroja
a seus pés. O anjo gostaria de se deter, despertar os mortos e
reunir o que foi despedaçado, mas está soprando uma tempes-
tade no paraíso que o impele irresistivelmente para o futuro a
que volta suas costas, enquanto à sua frente o monte de ruínas
cresce em direção ao céu. O que chamamos de ‘Progresso’ é
justamente esta tempestade. (Benjamin, 1985, p. 226)

Benjamin critica exhaustivamente la idea del progreso como inherente


a la sociedad; no admite que la historia sea vista como una línea horizontal
proyectada para el futuro, al encuentro de la modernidad y del progreso; a lo
que el autor llama de historicismo5. En la vida real de los latinoamericanos

4
Ver http://www.youtube.com/user/HistoriaHoy?blend=7&ob=5#p/c/C7F31563
470D7B07/0/xmaN-BX5rro
5
BENJAMIN, Walter. Sobre el concepto de historia. CEME Centro de Estudios
Miguel Henríquez. Archivo Chile –Historia político Social- Movimiento Po-
América Latina: olhares e perspectivas 19
la historia parece enroscarse y desenvolverse al mismo tiempo; dando la
sensación, a veces, que el futuro no existe, y menos el progreso; modernidad
como ilusión de la cual se agarran quienes creen que ciencia y tecnología,
razón y cientificismo resolverán nuestros problemas sociales.
Bajo ese pretexto, todavía el fantasma del progreso husmea entre noso-
tros y propone que América, desde el punto de vista económico, es depen-
diente, en vías de desarrollo para, un día, ocupar un puesto entre los grandes
del mundo capitalista y definitivamente formar parte de la anhelada cultura
occidental; hacer parte de Occidente aspirando al desarrollo de la ciencia y
de la tecnología; estas posibilitarán la redención y la conformación de una
identidad que nos construirá como países de primer mundo.

Pro
O desenvolvimento é a aspiração ao modelo de consumo oci-
dental, ao poder de magia dos Brancos, ao status relacionado
a esse modelo de vida. O meio privilegiado de realizar e aspi-
ração é, evidentemente, a técnica. Aspirar ao desenvolvimento
quer dizer comungar com a fé na ciência e reverenciar a téc-
nica, mas também reivindicar por conta própria a ocidentali-
zação, visando ser mais ocidentalizado para se ocidentalizar
ainda mais (Latouche, 1994, p. 29).

Olvidamos que América, por si misma, ya es una SOCIEDAD6 (civili-


zación) con suficientes elementos culturales e identitarios que le permiten
pensarse por sí sola. Y esto

no es una utopía irrealizable: es el único camino que tenemos


para asumir nuestra diferencia en términos de un proyecto que
nos asegure un lugar digno en el nuevo milenio. No asumirnos
como civilización es aceptar la servidumbre espiritual, confor-
marnos con ser el furgón de cola de Occidente, renunciar al
futuro”. (Colombres, 2004)

Jorge Larraín Ibáñez, parafraseando a P. Morandé, afirma que las clases


dominantes e intelectuales latinoamericanas nunca asumieron su verdade-
ra identidad y rechazaron sus orígenes mestizos. Encontraron refugio en el
modelo ilustrado racional europeo, especialmente a través del sistema uni-

pular. Disponible In:.http://www.archivochile.com/Ideas_Autores/benjaminw/


esc_frank_benjam0003.pdf
6
Preferimos el uso de la categoría Sociedad y no Civilización, pues considera-
mos que esta categoría es una construcción eurocéntrica
20 América Latina: olhares e perspectivas
versitario. Pero al hacer eso se alienaron de sus propias raíces y embarcaron
a sus países en programas modernizadores totalizantes que no podían tener
éxito (Larraín Ibáñez, 1996, p.178).
Nuestro propósito es reflexionar sobre las diversidad cultural, étnica y
sexual del continente americano a lo largo de, por lo menos, 50.000 años de
historia; lejos de aceptar a América como un Nuevo Continente7, categoría
inventada cuando la invasión española en 1492, destacamos su larga trayec-
toria cultural. Lugar de múltiples invasiones, cruce de culturas e identida-
des e influencias de diversos pueblos originarios y extranjeros. Objetivamos
afirmar que, cuando pensada en la larga duración, América no puede ser
catalogada, en la actualidad, de occidental, hispánica o lusa, mas diversa.

ova
Queremos combatir la idea hartamente aceptada de una Comunidad Ibero-
americana8.

La comunidad ibérica
Ser hispanoamericano fue una de las fórmulas encontradas por las elites
latinoamericanas, en abierta alianza con la España decadente de finales del
siglo XIX y principios del XX, para entrar al “mundo civilizado” a través
de la Península Ibérica. Dejar de lado la identidad latina, propuesta france-
sa de la época de Napoleón III en la década de 18609, y adoptar la hispana
7
En el estado del Ceará, en la región del Carirí, existe una tierra que ya fue mar,
donde registros geológicos y paleontológicos nos informan que América, hace
más de 110 millones de años, se desprendió del continente africano para dar
paso a otro, de la misma edad del primero. Ver: GeoPark Araripe. Lugar onde
nasce o dia (documental).
8
Tal como propuesto por el historiador español Arturo Uslar Pietri al referirse
a la conmemoración del V Centenario del “Descubrimiento” de América: “En
estos cinco siglos tan ricos y originales de historia peculiar se ha formado una
familia de pueblos que tenemos que llamar por su verdadero nombre: la Comu-
nidad Iberoamericana”. In: Uslar Pietri, 1992, p. 16.
9
Leslie Bethell, afirma que: “tem sido consenso geral há algumas décadas – des-
de a publicação em 1968 do influente ensaio de John Leddy Phelan intitulado
Pan-Latinism, French Intervention in Mexico (1861-7) and the Genesis of the
Idea of Latin America - que o conceito “América Latina” é de origem francesa.
A expressão “Amérique latine” era utilizada pelos intelectuais franceses para
justificar o imperialismo francês no México sob domínio de Napoleão III. Os
franceses argumentavam que existia uma afinidade cultural e linguística, uma
unidade entre os povos “latinos”, e que a França seria sua inspiração e líder
natural (e seu defensor contra a influência e dominação anglo-saxã, principal-
mente a norte-americana). O conceito de “race latine”, que é diferente do “race”
anglo-saxão, foi primeiro concebido em Lettres sur l’Amérique du Nord (2
América Latina: olhares e perspectivas 21
(“raza ibérica”, religión católica e idioma español) redefinirían la identidad
para hacer frente al panamericanismo y a la cultura anglosajona del enemigo
común: los Estados Unidos10. Atrás quedaba la idea de la América Latina
enraizada en la cultura francesa, época en la cual las elites del continente
idealizaron París como centro del universo.
Esa “nueva” identidad fue abriéndose camino entre las elites sociales e
intelectuales11 que bajo la emoción conmemorativa del IV Centenario del
“Descubrimiento” de América, en 189212, se proyectaron al siglo XX has-
tiando la bandera del hispanismo, hasta la nueva fiesta conmemorativa del
V Centenario del mismo, en 1992. Así las cosas, rescatar la herencia hispa-
na significaba formar parte de una “civilización” ya constituida y evitaba

Pro
el esfuerzo en la construcción de otra, cuyas bases no se encontraban en
el continente, pues los indios, los negros y los mestizos fueron negados

vols., Paris, 1836) escrito por Michel Chevalier (1806-1879) (...) Mas, a pri-
meira vez que foi usada a expressão “Amérique latine”, de acordo com Phelan,
foi em um artigo de L. M. Tisserand intitulado Situation de la latinité, publi-
cado em janeiro de 1861 naRevue des Races Latines (...) Na verdade, alguns
anos antes, alguns escritores e intelectuais hispano-americanos, muitos deles
residentes em Paris (e Madri), utilizavam não só a expressão “la raza latina” –
como fez, por exemplo, o poeta dominicano Francisco Muñoz del Monte (1800-
65) nos ensaios publicados em Madri para os periódicos Revista Española de
Ambos Mundos (1853) e La América: Crônica Hispano-Americana (1857) –,
como também a expressão “América Latina”. Existem três grandes candida-
tos ao primeiro uso do termo “América Latina”: José María Torres Caicedo,
jornalista, poeta e crítico colombiano nascido em 1830 em Bogotá e faleci-
do em 1889 em Paris; Francisco Bilbao, intelectual socialista chileno (1823-
1865), e Justo Arosemena, jurista, político, sociólogo e diplomata colombo-
-panamenho (1817-1896). In: Estudos Históricos, v. 22 n.44, RiodeJaneiro, Jul/
Dec, 2009.Disponível in:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi
d=S0103-21862009000200001
10
Sobre este asunto puede consultarse a: Figuero Salamanca (2007, p. 165-206);
Granados (2005, p.5-18).
11
“Embora, a disseminação do hispanismo na América tenha contado desde o
início com o apoio entusiasta de vários intelectuais progressistas – por exemplo,
o poeta Ruben Darío ou o escritor argentino Ricardo Rojas –, também é certo
que teve intensa acolhida entre muitos autores de posições elitistas e conserva-
doras, tais como o uruguaio José Enrique Rodó e o argentino Manuel Gálvez”.
In: BEIRED, José Luis Bendicho. Hispanismo: um ideário em circulação entre
a Península Ibérica e as Américas. Anais Eletrônicos do VII Encontro Interna-
cional da ANPHLAC. Campinas, 2006. Disponível In: http://www.anphlac.org/
periodicos/anais/encontro7/jose_beired.pdf
12
MURIÁ. José María. El cuarto centenario del descubrimiento de América. In:
ZEA, 1992, p. 121-130.
22 América Latina: olhares e perspectivas
como fuente inspiradora de identidad. Sabemos que la identidad se afir-
ma solo por medio de la represión de aquello que la amenaza (Laclau)13,
para transformarse en excluyente14. Comenzaba así, coincidiendo con los
proyectos indigenistas, que intentaban “mexicanizar al indio”, después de
la Revolución Mexicana, el proceso de castellinización forzada, que para el
caso mexicano, por ejemplo, significaba la abolición de las culturas, consi-
deradas causales de la pobreza indígena, afirma Miguel Alberto Bartolomé
(Bartolomé, 1996, p. 28).
España entra con fuerza en América: instala embajadas, rápidamente
echa tierra sobre antiguas discordias con sus ex colonias y será invitada
especial en las conmemoraciones del I Centenario de la Independencia en

ova
América del Sur y México, en 1910; litigios entre los países latinoamerica-
nos fueron albitrados por el antiguo amo; en ese sentido, Ecuador y Perú a
España recurrieron para minimizar sus querellas fronterizas (REYES, 1947,
p. 299). Llega, de nuevo, para predicar lo que para ellos constituía la entraña
de la España profunda; tales eran la dignidad, afirma Edmundo Heredia, la
honestidad, el heroísmo, la espiritualidad, la hidalguía, la religiosidad, la
honorabilidad y, en fin, un sentido profundo y estereotipado de la honra.
Todo esto era presentado como un paradigma que debían admirar y aún
aprender los latinoamericanos, y como un arquetipo para enfrentar al mundo
pragmático y materialista anglo-sajón. Se desarrolló así el concepto de “raza
española” o “raza ibérica”, en cuyo nombre y en cuya defensa comenzaron a
arribar a América los marinos y diplomáticos españoles – los segundos una
vez establecidas las relaciones oficiales –, en son de justicieros y los propa-
gadores de las excelencias de su raza (Heredia, 1998, p. 18).
La mayoría de publicaciones historiográficas del siglo XX pasaron la
idea de una América joven, con edad aproximada de 500 años; un continente
sin historia aborigen que negó cualquier posibilidad identitaria enraizada en
culturas diversas y vivas que habían sobrevivido a 300 años de colonizaci-
ón, en lucha por la vida, por la tierra y la libertad, hasta encontrarse con los
siglos XX y XXI.

13
LACLAU, Ernest. Citado por HALL, Stuart. A Identidade cultural na pós-
-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. p.110.
14
A identidade nacional, afirma Bauman, nunca foi como as outras identidades.
Diferentemente delas, que não exigiam adesão inequívoca e fidelidade exclusi-
va, a identidade nacional não reconhecia competidores, muito menos oposito-
res. (Bauman, 2005, p. 28)
América Latina: olhares e perspectivas 23
En la colección Historia de las Américas, dirigida por el argentino Ricar-
do Levene, a pesar de dedicar dos tomos a los pueblos originarios de antes
de la invasión española, en los siguientes 11 volúmenes no aparecen sino
como piezas de museo; en la obra, los mestizos, de los cuales intelectuales
como Vasconcelos afirmaba encontrarse la síntesis de la raza cósmica para
el caso de América (Vasconcelos, 1948), fueron vistos por Alcides Arguedas
como elementos defectuosos, un tipo algo rudimentario, inclinado por lo
aparente vistoso a lo real, confiado en las misteriosas fuerzas del destino y
no en la constancia del esfuerzo, a simular más que a actuar y a brillar en vez
de realizar (Levene, 1947, p.4).
El objetivo de la colección, dice Levene, era hacer una historia del conti-

Pro
nente rescatando los grandes hechos y los grandes hombres; buscando narrar
la verdad histórica, sin deformar los acontecimientos (Levene, 1947, p.XII);
América habría realizado la “civilización” gracias a esa herencia institu-
cional legada por España. En 1951 publica Las Indias no eran colonias,
cuya intención era “demonstrar que os territórios americanos conquistados
pela Espanha não haviam sido submetidos a uma condição colonial, mas ao
contrário, equiparavam-se legalmente ao status dos reinos peninsulares sob
domínio da Coroa”.(Beired, 2009).15
Otra obra importante Historia de América Latina, publicada inicialmen-
te en inglés en la década de 1970, fue traducida al español en la década
siguiente (12 volúmenes) y publicada en Brasil en los 90s (Bethell, 1999).
Su organizador, el inglés Leslie Bethell, consideró, en primer lugar, que
la historia de América Latina debería ser interpretada por autores, en su
gran mayoría, extranjeros al continente latinoamericano y, segundo, llamar
de Latino al período colonial. América aparece como un continente nuevo,
construido después de su “descubrimiento” en 1492. A los pueblos origina-
rios sólamente les son dedicadas unas cuantas páginas del primer volumen.
También en el Brasil las elites intelectuales pasaron al siglo XX conven-
cidas de la existencia de un Brasil nuevo, descubierto por Cabral en 1500,
cuyas bases culturales europeas habrían atravesado el Atlántico para, junto
con las bases geográficas aqui existentes, dar inicio a la construcción del

BEIRED, José Luis Bendicho. O hispano-americanismo historiográfico: Espa-


15

nha e América na perspectiva de Ricardo Levene y Rafael Altamira. In: História


Unisinos 13 (1): 43-53, janeiro/abril/2009. Pode-se consultar:
http://www.unisinos.br/publicacoes_cientificas/images/stories/Publicacoes/
historiav13n1/43a53_art04_beired.pdf
24 América Latina: olhares e perspectivas
país. Sergio Buarque de Holanda y Boris Fausto, realizan desde principios
de la década de 1960 História Geral da Civilização Brasileira en 11 volú-
menes (De Holanda; Fausto, 1989), a diferencia de Historia de las Améri-
cas, de Levene, no dedican ningún tomo a la historia del Brasil de antes de
1500 que, como dicho antes, muestra presencia de hombres y mujeres en
este territorio desde 65.000 años atrás. En el primer volumen se hace una
breve descripción de los pueblos guaraníes, como si fuesen los únicos pobla-
dores del Brasil antes de la invasión portuguesa (p.73- 86).
Estos pueblos originarios fueron mencionados por la historiografía y la
literatura en el siglo XIX, mostrados de forma mítica, tal como en Iracema,
de José de Alencar (1997). En la segunda mitad del siglo XIX, igual que en

ova
América Latina, las elites de Rio de Janeiro, entre otras, asumieron la iden-
tidad latina proveniente de París; se identificaron con la cultura francesa en
lo tocante a la arquitectura, culinaria, lengua, vestuario, literatura, historia
y diferentes padrones plásticos. Sin embargo, la publicación de O Sertões,
de Euclides da Cunha (Da Cunha, 1981), en 1902, los informes del Instituto
Oswaldo Cruz16 que mapearon esos sertones y descubrieron que Brasil era
un gran hospital, sumado a la perplejidad de la Gran Guerra europea de
1914-1918, que quebró el espejo donde las elites brasileñas se miraron para
construir su estado nacional, hizo que intelectuales y políticos comenzaran a
reflexionar sobre su identidad.
En 1922 Brasil conmemoró 100 años de Independencia, lo índio y lo
negro fue divulgado; problemas antes considerados locales fueron tranfor-
mados en nacionales por Epitacio Pessoa, primer presidente nosdestino no
perteneciente al engranaje político café con leche17. Sin embargo, el cente-
nario apeló a la cultura latina proveniente de Portugal y del Vaticano para es-
trechar los lazos culturales que envolvían religiosidad católica, lengua por-
tuguesa y cultura lusa en general. El Papa envio a Monseñor Cherubini para
hacer ese papel, y de Portugal llegó a la Ciudad Maravillosa el presidente
Antonio José de Almeida. La cultura lusa se mostraba como ingrediente
importante para promover la unidad nacional en un país fragilizado por in-
numerables problemas sociales y memorias divididas18. En adelante, varios
tratados firmados entre los dos países tendieron a estrechar las relaciones

16
Ver, por ejemplo: Neiva; Pena, 1999. Viagem científica pelo Norte da Bahia,
Sudoeste de Pernambuco, Sul do Piauí e de Norte a Sul de Goiás.
17
Sobre ese proceso véase Ledezma, 2007, p. 385-421.
18
Ver Ledezma, 2000.
América Latina: olhares e perspectivas 25
internacionales; estableciéndose un puente que permite hoy día visualizar
Portugal como una extensión del Brasil, donde portugueses son tratados por
leyes brasileras como ciudadanos del país, con la garatían de muchos de-
rechos en igualdad de condición. Así como España para las elites latinoa-
mericanas, Portugal se constituía para las brasileñas en puerta de entrada al
mundo civilizado europeo.
En el siglo XX se practica un discurso intelectual tendiente a defender el
establecimiento de una Comunidad Ibérica, propuesta por España a América
Latina a comienzos del siglo XX y practicada después, hasta el final del si-
glo XX cuando España invita a “su Comunidad” a celebrar los 500 años del
“descubrimiento” de América. Muchos intelectuales de América Latina se

Pro
apuntan al proyecto, entre los cuales Leopoldo Zea. En 1986 aseguraba que

(...) al aproximarse el 12 de octubre de 1992, quinto Centenario


del llamado Descubrimiento de América, el gobierno español
puso en marcha la iniciativa para recordar la importante fecha
con una serie de actos que se organizarían de acuerdo con las
comisiones que deberían formarse en los países que forman la
América. Iniciativa vista con interés por los países de la Amé-
rica hispana. (Zea, 1992, p.7)

No sabemos a quienes se refiere el autor cuando afirma que la iniciativa


fue vista con interés por los países americanos. Como sabemos, la moviliza-
ción de muchos sectores de la sociedad posicionándose contra la iniciativa
española fue clara; pueblos originarios manifestaron repudio a la idea de
conmemorar el “descubrimiento” entendido para ellos como el inicio del
genocidio y de la explotación. Leopoldo Zea, en esa época, continúa identi-
ficando América como siendo hispánica, a pesar de la diversidad cultural y
las múltiples identidades de los mexicanos, su país de origen. A continuaci-
ón mostramos que no existe una comunidad ibérica.

Diversidad cultural
O etnocentrismo, de fato, é um fenômeno universal. É comum a cren-
ça de que a própria sociedade é o centro da humanidade, ou mesmo a sua
única expressão. As autodenominações de diferentes grupos refletem este
ponto de vista. Os Cheyen, índios das planícies norte-americanas, se au-
todenominavam “os entes humanos”; os Akuáwa, grupo Tupi do Sul do
Pará, consideram-se “os homens”; os esquimós também se denominam “os
26 América Latina: olhares e perspectivas
homens”; da mesma forma que os Navajos se intitulavam “o povo”. Os
australianos chamavam as roupas de “peles de fantasmas”, pois não acredi-
tavam que os ingleses fossem parte da humanidade; e os nossos Xavantes
acreditam que o seu território tribal está situado bem no centro do mundo.
É comum assim a crença no povo eleito, predestinado por seres sobrenatu-
rais para ser superior aos demais. Tais crenças contem o germe do racismo,
da intolerância, e, frequentemente, são utilizadas para justificar a violência
praticada contra os outros.
No sin conflicto, muchas culturas dejaron sus huellas sobre este continen-
te o partes de él a lo largo de su historia; decenas los nombres con los cuales
se designaron sus regiones: Abya-Yala, como le denominaron al continente

ova
los pueblos Kuna de Panamá y Colombia antes de la invasión española;
Huari, Tiahuanaco, Inca, Tawantinsuyo y Azteca; Olmeca, Tolteca, Maya o
Teotihuacan; Índias, América, América Latina, América Ibérica: Hispánica
y/o Portuguesa. Esa dinámica nos lleva a pensar en las sucesivas influencias
que transformaron de forma leve o profunda los diferentes momemtos his-
tóricos a lo largo de 50.000 años. Por ejemplo, las culturas Valdivia, Caral y
Chavin influenciarían pacíficamente la región andina, amazónica y costera
desde 5000 a 200 anos A.C; inmensas áreas como Mesoamérica, caracteriza-
da como región cultural, fue unificada por el uso del calendario ritual de 260
días, convirtiéndose en centro de sociedades complejas durante más de 3000
años hasta la invasión española (Miller, 1999, p.9); otras comunidades se
convirtieron en imperios e influenciarían de forma violenta: Huari, Tiahua-
naco, Inca y Azteca. Desde el exterior, en oleadas diferentes, fuimos invadi-
dos por países de Europa: España, Portugal, Inglaterra, Francia y Holanda;
todos estos a la fuerza intentaron imponer su cultura pues la consideraban
superior a la nuestra. España, Portugal e Inglaterra ejercerían transformacio-
nes culturales durante más o menos 300 años.
Agustinianos, guaraníes, tarascos, otomíes, nahuas, caribes, mochicas,
chibchas, aymaras, son algunos de los grupos que, entre otros cientos de
pueblos, consiguieron a lo largo del tiempo engrandecer el universo cultural,
conectándose entre sí por medio de su rica variedad artística, representada
en su alfarería, metalurgia, tejidos y otra infinidad de artefactos técnicos y
cotidianos intercambiados a lo largo y ancho del continente. Diversidad de
comunidades, agri (culturas), idiomas, religiones, creencias, ritos, fiestas y
cosmogonías que hacían de la región una miscelánea espectacular de prác-
ticas culturales articuladas en la heterogeneidad. No negamos aqui la multi-
América Latina: olhares e perspectivas 27
plicidad de conflictos que también hacían parte de sus vivencias. Durante el
período azteca, inca o español, a pesar de la imposición de un único Dios o
Diosa, llámesele Quetzaltcóatl, Inti o Jesucristo, las diferentes comunidades
consiguieron expresar y/o mantener sus propias representaciones culturales
y religiosas que se fueron mezclando y reproduciendo debido a sucesivas
invasiones, o manteniendo por medio del ritual y la música. O como lo ma-
nifiestan Félix Báez-Jorge & Arturo Gómez Matínez, para el caso de las
sociedades de México y América Central, frente a la invasión española: “al
destruirse el cuerpo sacerdotal de la religión mesoamericana precolombina,
al desmantelarse su organización ceremonial y reprimirse sus manifestacio-
nes canónicas, los cultos populares emergieron como alternativa a la cate-

Pro
quesis cristiana” operando “como clave de la resistencia ideológica” (Broda;
Báenz-Jorge, 2001, p. 391-451).
Importante tener en cuenta que la cultura, además de estar representada
por medio de bienes materiales e imateriales, también tiene que ver con
un conjunto de prácticas simbólicas a través de las cuales el hombre le da
sentido a su vida , a sus experiencias entrelazadas con la naturaleza, con el
espacio geográfico, con los instrumentos cotidianos etc. En otras palabras,
cultura no es solo un conjunto de bienes producidos por una comunidad
que bien pueden ser usados por otras en cualquier lugar del mundo; pues
determinada sociedad produce bienes materiales y simbólicos para darle
sentido a su propia identidad, pudiendo ser utilizados por otras cuya utili-
dad será diferente, donde juega papel importante la relación entre signifi-
cado y significante.
En este sentido, miles de pueblos originarios continuaron hablando ay-
mara o guaraní y asimilando el quechua de los invasores; muchas comuni-
dades hoy se expresan en maya, ticuna, mixteco, guambiano o paez a pesar
de haber sido obligadas a aprender español. Esa diversidad continuó mani-
festándose durante los siglos XIX, XX y XXI contra los deseos elitistas de
blanquear la “raza” y la cultura, pues eso les permitiría formar las almas
de los mexicanos, salvadoreños, chilenos, colombianos, brasileños, cubanos
etc. Culturas e identidades entrecruzadas por medio de caminos, montañas
como los Andes, valles, sertones, llanuras, altiplanos, selvas y toda una geo-
grafía que les ayudó a definir y redefinir su posicionamiento en el continente
como pueblos y comunidades insertados en un determinado contexto que
también les provocó transformaciones, en diálogo con estructuras de larga

28 América Latina: olhares e perspectivas


duración, como diría Fernad Barudel (2006)19, las culaes les ayudarían a
superar cruces, simbiosis, mestizajes, hibridaciones, como diría hoy Nestor
García Canclini (2011).
La discusión consiste en verificar si al despuntar el siglo XX y comen-
zar el nuevo milenio, el proyecto llamado estado nacional dio cierto, y si
las identidades forjadas a lo largo de, por lo menos 50.000 años de historia
continental, se rindieron a una sola nacionalidad, o si acabaron occidentali-
zándose, proceso comenzado en tiempos coloniales, tal como propuesto por
Serge Gruzinski (2000).
En el último cuarto del siglo XX la historia presenció al EZLN (Ejército
Zapatista de Liberación Nacional), en Chiapas, patentar su propia cultura,

ova
el uso de sus recursos naturales y hasta el derecho a elegir sus alimentos.
Allí, la reforma agraria continuó sirviendo de eje catalizador de sus luchas
no solo por la tierra y la libertad, sino como forma de expresar sus vivencias
en medio de sus tierras y montañas que envuelve un espacio temido y res-
petado de cuentos, de mitos y fantasmas, donde las concepciones de tiempo
e historia son radicalmente distintas de la de los mestizos occidentalizados;
allí la fuente del conocimiento histórico es la cultura misma, no el razona-
miento científico y las leyes de la causalidad, que son herramientas comunes
de la filosofía occidental. En vez de llegar directamente de la ciudad o de
la universidad, el EZLN surgió de la montaña, ese mundo mágico habitado
por el conjunto de la historia maya, por los espíritos de los ancestros y por
el propio Zapata (2000, p. 178-179).
En 2006 fue Oaxaca; aquí diversos pueblos hicieron uso de los medios
de comunicación para divulgar su cultura y las formas de autogobierno; el
lema, tal como en Chiapas: GOBERNAR OBEDECIENDO; allí no existen
líderes pues todos son subcomandantes. Los oaxaqueños mostraron poderse
levantar contra la tiranía del Estado y de los partidos tradicionales, en este
caso el PRI, y sus aliados en el estado oaxaqueño, como Ulises Ruiz y su
política de fraude y represión. Aqui, en esta región, al sur de la ciudad de
México, se pudo romper con el esquema de manipulación y desagregación
de las comunidades que, unidas en torno del problema magisterial, se orga-
nizaron de forma brillante, rompiendo esquemas individualistas impuestos
por variantes occidentalistas; surgiendo así

19
Disponível In: http://pt.scribd.com/doc/15000122/Braudel-La-larga-duracion
América Latina: olhares e perspectivas 29
(...) agrupaciones etno-políticas, comunitarias, agrarias, de
productores, civiles, sindicales, de defensa ambiental y de
inmigrantes. Ha construido sólidas redes trasnacionales per-
manentes. Ese denso tejido asociativo, frojado en más de tres
décadas de lucha y con una fuerte vocación autónoma, rom-
pió masivamente (...) con el control del PRI y los mediadores
políticos tradiconales. Los métodos tradicionales de dominio
gubernamental, basados en una combianción de coptación, ne-
gociación, división, manipulación de demandas y represión, se
agotaron. El modelo saltó por los cielos, hecho pedazos. (Her-
nández Navarro, 2006, p. 69)20

Pro
En el siglo XXI le tocó el turno a Ecuador y Bolivia, en este país, cerca
de 40 étnias consiguieron gritar a través de una nueva Constitución que allí
estaban, desde miles de años atrás, resistiendo con su cultura propia o mo-
dificada a todos los embates de los invasores, llámeseles incas, españoles,
gringos, Petrobrás, neoliberalismo o globalización. Con sus voces, como en
una representación orquestal, por medio de un coro de idiomas e identida-
des diferentes, nos dijeron poder ser bolivianos articulados en la diversidad,
donde las culturas, a pesar de diferentes, no son superiores o inferiores,
todas válidas en su esencia creadora y transmisora de conocimiento. La cul-
tura, dice Nestor García Canclini, “es un proceso de ensamblado multinacio-
nal, una articulación flexible de partes, un montaje de rasgos que cualquier
ciudadano de cualquier país, religión o ideología puede leer y usar” (Can-
clini, 1995, p. 16). Solo que algunas comunidades, bolivianas por ejemplo,
están identificando los elementos culturales que continúan sometiéndolos
o colonizándolos para, una vez identificado lo propio de lo extraño, poder
emanciparse. El objetivo de la descolonización es desterrar la razón colo-
nizada de ideologías dogmáticas, por ejemplo, y, en ese sentido, ratificar el
indigenismo y el katarismo, para poder ser creativos en el proceso de auto-
nomía (Gutiérrez Rojas, 2010).

Diversidad sexual
La historia de América nos enseña también que antes y después de la
invasión inca, azteca o española, las comunidades andinas o mesoamerica-
nas se representaban por dualidades complementarias y dinámicas. Muchos

20
Ver también el documental Un poquito de tanta verdad. Corrugated Filmes, en
colaboración con Mal de Ojo TV, 2007.
30 América Latina: olhares e perspectivas
pueblos indígenas, dice Eduardo Natalino dos Santos, atribuían las transfor-
maciones y los movimientos presentes en el Mundo a su constitución fun-
damentada en opuestos que se complementaban: noche-día; macho-hembra;
hombre-animal; vida-muerte etc. Además, cada ser sería compuesto por di-
versas polaridades complementarias, y nunca por solo una de ellas, o por un
solo lado de sus polos. Un ser humano de sexo masculino sería formado por
la dualidad complementaria hombre-mujer, con predominio de su primera
parte. Lo mismo valía para la dualidad hombre-divinidad u hombre-animal.
La frontera entre cada uno de esos seres era considerada situa­cional y no
esencial, pudiendo ser transpuesta, o sea, que el hombre podía transformar-
se en Dios, en un animal o en una mujer. Podía, así, intentar actuar, ver o

ova
imaginar el mundo como si fuera uno de esos seres, que también componían
su naturaleza. Lo mismo valía para los dioses, animales y mujeres. Estas
también podían convertirse en hombres (Dos Santos, 2002). Para estas co-
munidades, espacio, territorio, naturaleza y seres humanos hacían parte de
una misma esencia.
En Brasil actual, Mato Grosso del Sul, entre los Kaiowá, después de
determinada edad, a las mujeres y a los hombres, en un rito de pasaje, se les
entrega un cesto y un arco respectivamente; pero si la mujer no quiere reci-
bir la canasta porque no es de su interés cumplir con los deberes de su géne-
ro, entonces se les entrega el arco, lo mismo ocurre entre los hombres (Dos
Santos, 2008). Las comunidades Mochica (200 A.C.-700 D.C.), por medio
de su bella y requintada alfarería policromática, antropomorfa o antropo-
-zoomorfa, se representaban sexualmente y transmitían su universo erótico
por medio de llamativas poses, como en un kamasutra, hombres y/o mujeres
haciendo sexo anal, oral, gay, lesbiano, a tres o más etc.21
Hoy entre los guambianos, pueblo andino localizado en el Departamento
del Cauca, en Colombia, los matrimonios se realizan por “amaño”, o sea, si
el hombre y la mujer no se entienden en un período de un año, la unión se
disuelve y los hijos y mujeres no quedan estigmatizados entre los integran-
tes de la comunidad. Nos existen allí los tabúes y prejuicios impuestos por
la sociedad occidental desde la llegada de los invasores europeos. Ese tipo
de relaciones nos hacen pensar en una cultura de larga duración que ha con-
seguido ultrapasar más de 500 años de conquista y colonización. El ejemplo
de los guambianos nos recuerda el del los incas, donde en muchas regio-
21
Puede consultarse a Longhena; Alva, 2006. Las piezas originales se encuentran
en el Museo Larco (Sala Erótica), en Lima, Peru.
América Latina: olhares e perspectivas 31
nes no eran raros los casamientos por experiencia (dígase amaño entre los
guambianos22). Los niños o niñas que naciesen de una relación experimental
“fracasada” se quedarían con la madre y la familia de esta.
No entanto, a mãe solteira não sofreria nenhum estigma. Em total contra-
dição com a crença católica dos espanhóis, a virgindade não era uma condi-
ção muito valorizada. De fato, o padre Cobo escreveu que ‘a virgindade era
vista como uma desvantagem para a mulher, pois os índios acreditavam que
só ficavam virgens aquelas que não tinham conseguido se fazer amar por
ninguém’. Sua afirmação é confirmada por relatos de outros cronistas – um
deles conta que um marido castigou a esposa por não ter tido amantes antes
do casamento.23

Pro
A los jesuitas, dice Ronaldo Vainfas, no les gustaba tratar de la sodomía,
pero les era necesario: “el que servía de macho se vanagloriaba, tomando esa
bestialidad por proeza”. Según algunos relatos, algunas indias también se
dedicaban a la sodomía, guerreando igual a los hombres, casándose con mu-
jeres, e injuriándose cuando no las consideraban como machos. Los pecados
de los indios no parecían tener límites, así pensaban los cronistas. Toda esa
diversidad de géneros, de sexualidad, de erotismo etc., se intentó extinguir
por medio del Santo Oficio de la Inquisición y las prédicas de la Iglesia.
Abominable y torpe, así se juzgaba el llamado vicio nefando, pecado que
“parecía feo al demonio mismo”. Influenciando la prédica de los teólogos y
los que disponían de los códigos civiles y eclesiásticos desde siglos atrás; las
Constituciones baianas legislaban sobre los actos de sodomía y destinaban
a los culpables de la Colonia al Santo Oficio. Pero ni por eso sus habitantes
dejaron de practicarlos hartamente. Hombres de todas las clases y razas, pa-
dres, autoridades, mujeres, niños, las fuentes inquisitoriales revelas amplia
variedad de individuos que los practicaban de sur a norte del Brasil. Y lejos
de ser una peculiaridad brasileña, afirma Vainfas, supuestamente animada
por el ardor de los trópicos, la sodomía se propagaba en toda Europa, visible
a los ojos de la sociedad y de la ley, como solía ocurrir con todos los pecados
en la era de las Reformas (Vainfas, cap. 5, p. 191-241).
Si bien durante la época colonial la Iglesia y el Estado no consiguieron
acabar con la diversidad sexual, y esta pasa para los siglos republicanos,

22
Sobre este asunto ver: Malatesta, in: zambrano. Disponible in:
http://www.banrepcultural.org/blaavirtual/geografia/region3/s15.htm
23
Vidas de duro labor e alegre diversão. In: O Império Inca. Coleção Civilizações
Perdidas. (1998, p. 131-132).
32 América Latina: olhares e perspectivas
debe admitirse el legado para la posteridad de pesados prejuicios que van a
desencadenar fuertes luchas a favor de la diversidad sexual en los siglo XX
y XXI. José Pedro Barrán anota lo siguiente:
Las agudas aristas de la sociedad patriarcal en América Latina unidas
a características sociales y políticas específicas del Novecientos, probable-
mente aumentaron el pánico ante el homosexual. El homosexual angustiaba
a la sociedad patriarcal pues le permitía husmear (...) la complejidad de la
heterosexualidad, su indefinición intranquilizadora, sus componentes homo-
sexuales. Inquietaba la posibilidad de que el ‘afeminado’ vestido de mujer
demostrase que la masculinidad era sólo una apariencia y que, para peor,
atrajese el deseo del normal, comprobando ser posible que un hombre dese-

ova
ara a otro hombre (Barrán, 2001).

Diversidad étnica
La invasión española al continente americano trajo como consecuen-
cia otros tipos de diversidad étnica, muchas fueron las llamadas entonces
razas que aquí afluyeron y cada una cumpliría un rol determinado en ese
prisma (castas) de colores proyectado por todos los espacios de la futura
América Latina. Negros, indios y blancos que al mezclarse de forma pací-
fica o violenta dio paso a que se ensanchara aún más el crisol étnico. Lle-
gada la crisis del sistema colonial, Indias, así denominada América por los
españoles, se transformó en un mundo variado; aquellas “razas” iniciales
se multiplicaron, haciendo imposible identificar orígenes en la enmaraña-
da genealogía colonial del siglo XVIII, como lo asegura Jaime Jaramillo
Uribe para el caso de la Nueva Granada (Jaramillo Uribe, 1989). Eso no
significó una armonía entre los grupos; sabemos del papel de cada uno
y el grado de discriminación inclusive entre los mismos. Desde el siglo
XVI se formaron pueblos de indios que conservaron sus jerarquías socia-
les apoyados en el aparato colonial (cacicazgos). En Bahia, Brasil, durante
el siglo XIX, Katia de Queirós Mattoso pudo identificar negros de diversas
categorías que se discriminaban entre sí, pues cada uno, a su manera y en
los mínimos detalles del día a día, apreciaban cierta ostentación (Mattoso,
1997, p. 143-179).
A principios del siglo XIX, el proyecto liberal inicial en las ex colonias
españolas, intentó ser democrático, previó la eliminación del trabajo es-
clavo e intentó asegurar los derechos de los negros; igualmente el de los
indios; desamortizó los bienes de manos muertas para una mejor redistri-
América Latina: olhares e perspectivas 33
bución, pero al final todo dio errado. La Iglesia quedó sin tierra al igual
que los indios; grandes y pequeñas propiedades privadas y comunitarias,
como los resguardos indígenas, pasaron a manos de los terratenientes. An-
tes de la Revolución Mexicana existían haciendas en Sinaloa, Chihuahua,
Sonora o Baja California, que ultrapasaban los cinco millones de hectáreas
en poder de una o dos personas (Silva Herzog, 1960). Las reformas libera-
les, finalmente, significaron la ausencia de derechos para los negros y los
pueblos originarios; sectores discriminados y sometidos a un racismo sin
par, alimentado desde la civilizada Europa por el positivismo, la Ilustración
y el darwinismo. Gran número de aborígenes uruguayos (Cabrera Pérez;
Barreto Messano, 2006), argentinos (Alimonda; Ferguson), chilenos (Boc-

Pro
car; Seguel-Boccar, 1999), estadounidenses (Ortega Y Medina, 1989), entre
otros, fueron exterminados. A los pueblos restantes se les intentó matar en
el discurso al afirmar, en el siglo XX, que en esos países no existían negros
ni indios. En América Central, los indígenas serían convertidos en mano de
obra abundante, obediente y barata, arrastrados por la tropa, de sus comu-
nidades para las haciendas de café, tal como lo constata Edilberto Torres
Rivas, para el caso de Guatemala (Torres Rivas, 1990). Eso sin mencionar
destinos parecidos en la primera mitad del siglo XX en el área andina y me-
xicana, situación descrita por Pio Jaramillo Alvarado en su clasico El indio
ecuatoriano.
A pesar de todo, la Revolución Mexicana mostraría el camino a seguir
para las diferentes comunidades aborígenes del continente. En la región del
Cauca, en Colombia, los indígenas se levantaron contra los hacendados de
la región del norte de ese departamento, encabezados por Quintín Lame;
proceso conocido como La Quintinada, que durante 10 años (1910-1920) no
dejaría dormir en paz a la elite de Popayán, capital de esa región (FINDJI,
1985). Airadas debieron quedar las elites porteñas cuando un periódico, La
Opinión Nacional, de Buenos Aires, insertó esta noticia:

el 25 de mayo (1922) se llevará a cabo en Chacahua, Ruca,


territorio del Rio Negro, el segundo Congreso de cuestiones in-
dígenas, organizado por la asociación Nacional de Aborígenes.
A esta Asamblea asistirán delegaciones del Rio negro, Chubut
y Neuquen, además de los representantes del gobierno espe-
cialmente invitados. Las gestiones de los aborígenes del sur
ante el Gobierno de la nación, se concretan a pedir tierras para
vivir, cultivar y mantener sus ganados, escuelas para sus hijos

34 América Latina: olhares e perspectivas


y las consideraciones sociales y políticas que merece la pobla-
ción autóctona como el resto de la población de la República.
(Jaramillo Alvarado, 1983)

El discurso de la elite del siglo XIX y principios del XX insistió en mejo-


rar la raza o deshacerse de los indeseables sertanejos, negros e indígenas, El
racismo y/o el deseo de mantener el dominio sobre la sociedad decimonóni-
ca, llevó a las elites latinoamericanas a desarrollar el proyecto de blanquear
los incipientes estados nacionales. La idea era construir una imagen blanca
por medio del mestizaje, pues el elemento blanco mataría los rasgos indí-
genas y negros. Nina Rodrigues, Silvio Romero, Oliveira Viana, entre otros

ova
intelectuales, pensaban que, de esa manera, en cien o doscientos años de
mestizaje, los componentes negros e indios del pueblo brasileño desapare-
cería para siempre. Para Rodrigues, dice Thomas Skidmore, la inferioridad
del africano había sido establecida fuera de cualquier duda científica, y no
conseguiría definir si la inferioridad del negro era innata o transitoria (Ski-
dmore, 1976). Tal proyecto no tuvo éxito y así la sociedad del novecientos
enseñaría al mestizo a negar su esencia étnica y, por eso mismo, la identidad
y todos los elementos culturales que lo delataran con un pasado enraizado en
lo aborigen y africano. Se construyó la idea de pertenecer solo a lo europeo;
de entendernos como occidentales. “Somos occidentales aunque de segunda
categoría” afirman intelectuales brasileños de reconocida fama, como Ma-
rilena Chaui (1995) o Vavy Pacheco Borges (1993), cuando enseñan a sus
alumnos sobre conceptos de Historia y Filosofía.
Los Muralistas de la Revolución Mexicana contribuyeron a diseminar la
imagen de la América mestiza y, conscientes o no, la idea del ser occidental;
José Clemente Orozco realizó el mural de la Malinche (Malintzin o doña Ma-
rina) tomada de la mano de Cotez, en clara invitación a los latinoamericanos
a conectarse con las estirpes españolas y blancas del conquistador y no con
las raíces identitarias de la Malinche; dada a conocer por la historia como la
mujer traidora de las comunidades originarias; frente a ella resultaría difícil
retomar algún tipo de identificación; tal como pasó con la figura de Eva en
la Edad Media, introducida desde la antigüedad y vehiculada, especialmente
por la Iglesia, como sinónimo de pecado, de traición; comprometiendo seria-
mente la imagen de la mujer, no solo medieval, mas contemporánea.
No sólamente al mestizo se le incentivó el camino del blanqueamiento,
también al negro y al indio se le enseñó a desconocer su etnicidad. Varias

América Latina: olhares e perspectivas 35


formas de camuflar identidades surgieron en el siglo XX en el Brasil: “Mo-
rena”, “acastanhada”, “branca melada”, “bronzeada”, “canela”, “chocolate”,
“sarará”, “cobre”, “queimada de sol”, “encerada”, “marrom”, “meio preta”,
“melada”, “paraíba”, “rosa queimada”, “sapecada”, “tostada”, “trigueira”.
Esas son algunas de las categorías por medio de las cuales los brasileños
respondieron al IBGE, en 1976, cuando preguntados sobre autodeclaración
de color/raza de los entrevistados. Demetrio Magnoli afirma que

(...) o resultado foi interpretado por intelectuais e ativistas de


organização do movimento negro como uma prova dos efei-
tos insidiosos de um racismo disseminado, mas subterrâneo,
que vigoraria na sociedade brasileira. Os negros não querem

Pro
assumir a sua verdadeira identidade, ocultando-a sob o manto
de incontáveis eufemismos: foi o diagnóstico a que chegaram
partindo não de alguma evidência relevante, mas de uma inter-
pretação pré-existente sobre a história do Brasil e as relações
sociais no país. (Magnoli, 2009)

Parte de América Latina reata sus relaciones con España a principios del
siglo XX y se inauguran intensas campañas para recristianizar a indígenas
y a negros; se les obligó también a hablar español y desconocer sus idiomas
autóctonos. Dándose un proceso de homogenización de la diversidad, pues
se asumió la diferencia como motivo de desigualdad.
Una de las dramáticas consecuencias concretas de este modelo político
ha sido la destrucción de un gran número de sociedades nativas: esa induc-
ción al suicidio cultural que llamamos de etnocidio. Entre 1930 y 1970 para
construir un Estado-nación ‘moderno’ se buscó suprimir la heterogeneidad
cultural. Pero todavía para amplios sectores de la sociedad ‘modernidad’ y
‘globalización’ siguen siendo entendidas como occidentalización (Bartolo-
mé, 1996).
Sin embargo, a pesar del exterminio, del prejuicio, del abandono, esos
diferentes grupos raciales han sabido resistir; con miedo o sin miedo de
identificarse como indios o como negros, hoy aparecen ante los ojos asus-
tados de quienes creen que el destino de la humanidad es la globalización,
la Aldea Global, de los incautos. Afortunadamente, allí están diferentes so-
ciedades proponiendo otra alternativa al progreso y a la globalización, esta
definida por Milton Santos como sinónimo de fábula y perversidad, donde
prima la tiranía del dinero y los medios de (des) información (Santos, 2000)
(el paréntesis es mío). En este fin de siglo, advertía Jacques Galinier, “el
36 América Latina: olhares e perspectivas
mundo mesoamericano se enfrenta a una aceleración del proceso de occi-
dentalización y a la globalización de las economías mexicana y guatemalte-
ca. Las comunidades responden a este nuevo reto con soluciones culturales
alternativas, muy variables de un grupo a otro. De un pueblo al vecino”
(Galiner, 2001). En Brasil, la memoria colectiva ha ayudado a diferentes
comunidades afrobrasileñas ha rescatarse como etnias negras por medio de
sus ritos magico-religiosos:

(...) o candomblé, ao definir um espaço social sagrado, o terrei-


ro, possibilita a encarnação da memória coletiva africana em
determinados enclaves da sociedade brasileira. Neste sentido,
a origem é recorrentemente relembrada e se atualiza através do

ova
ritual religioso. Os inúmeros ritos reproduzem as crenças e as
práticas dos ancestrais negros, como por exemplo o ritual de
iniciação que guarda nos terreiros tradicionais da Bahia uma
semelhança profunda com os da África. (Ortiz, 1994)

De esta manera, ¿cómo continuar pensando en el siglo XXI en una Amé-


rica occidental, hispánica o lusa? Puede serlo, pero urge entonces rescatar
también otros elementos culturales con la intención de valorizarlos y colo-
carlos en el mismo nivel de los otros, como partes constitutivas de nuestra
identidad; eso nos ayudaría a pensar que nuestro suelo y subsuelo cultural no
es solamente europeo, mas principalmente africano, asiático y americano. El
desafío es este: rescatar una identidad que nos ayude a pensarnos como ciu-
dadanos de primera categoría, o continuar sintiéndonos y reconociéndonos
occidentales, hispanos o lusos de tercera clase.
Colombres es crítico frente a la colonización que continúa ejerciendo
Europa sobre América, y piensa que no hay verdades universales o eternas,
sino con relación a un determinado tipo de hombres, y a una época. En haber
creído en ellas, en mirarse con los ojos del conquistador, está el pecado de
América, la causa de las distorsiones que durante tanto tiempo le cerraron el
camino a la plenitud. Retomando a Spengles, Colombres afirma que una cul-
tura muere cuando ha realizado la suma de las posibilidades. Se anquilosa,
se convierte en civilización, y se planta en los siglos como árbol gigantesco,
sin hojas ni savia. A nadie se le escapa que Occidente ha realizado ya esa
suma de sus posibilidades, y que, pobre en contenidos simbólicos, avanza
por los caminos de la decadencia. En efecto, dice, una civilización que colo-
niza, contando sólo con la fuerza para justificar esta colonización, es ya una
civilización enferma... (Colombres, 2004). Igual podríamos decir de la cul-
América Latina: olhares e perspectivas 37
tura ibérica, llámesele hispana o lusa. Culturas que hace más de 200 años de-
jaron de ser centro del mundo para, poco a poco, irse menguando en su pro-
pio sentimiento de superioridad; algunos de sus ingredientes: religiosidad,
hidalguía, nobleza, casta, después de perdidas sus colonias americanas, pa-
saron a ser considerados como decadentes. Sólo las elites latinoamericanas
en crisis a comienzos del siglo XX adoptarían dichas identidades culturales
que las hicieron sentir como parte de una comunidad ibérica. Comunidad
que entra definitivamente en derrota cuando España resuelve conmemorar
con sus antiguas colonias los 500 años del “descubrimiento” de América. No
se dieron cuenta que se trataba de una nueva época; que los excluidos del
panorama hispano: indios, campesinos, negros y otros grupos indeseados

Pro
estaban y están viviendo otros tiempos.

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Pro

42 América Latina: olhares e perspectivas


Além do americanismo e do imperialismo:
os Estados Unidos em
Victoria Ocampo e no grupo Sur

Paulo Renato da Silva

(...) ¿Cómo imponer, efectivamente, armonía entre


gentes que se detestan? Y en eso están todas las

ova
repúblicas americanas, que se quieren como perro y gato.
Drieu decía: “Frank y Victoria son capaces de pasar a
través de todo eso sin inmutarse: son dos inocentes”.
(...).
Drieu quería decir que somos americanos, Waldo,
y que en nosotros la inocencia es todavía auténtica.
Victoria Ocampo, Carta a Waldo Frank, 1931.

El grupo Sur se caracteriza por (...)


Una sobrestimación de las influencias extranjeras
con un contrapuesto sentimiento de desdén
frente a lo autóctono.
Juan José Hernández Arregui,
Imperialismo y Cultura, 1957.

Mi impresión, después de este viaje, es que


cierta inmadurez política de que padecemos
(acompañados abundantemente por nuestras hermanas
latinoamericanas), predispone a todo europeo y
norteamericano a achacarle las mismas deficiencias al
standard cultural. No sé si tendrán un porcentaje de
razón, pero lo cierto es que hemos dado pruebas de
madurez literaria, plástica y musical. No confundir,
tenía ganas de decirles… No confundir.
Victoria Ocampo, Self-Interviews No 1
(Sobre un Viaje), 1964.

América Latina: olhares e perspectivas 43


Q
uando se analisam as relações entre América Latina e Estados Uni-
dos nos âmbitos econômico, político ou cultural é frequente o esta-
belecimento de polaridades nas quais a América Latina ocupa um
lugar de subserviência em relação aos Estados Unidos. Essa situação teria
sido alimentada pelos próprios Estados latino-americanos, dirigidos ou mar-
cados por grupos nacionais ligados aos interesses norte-americanos. Ou en-
tão por intelectuais que, sobretudo a partir de meados do século XX, passam
a valorizar aspectos da sociedade e da cultura norte-americanas.
Entretanto, autores têm questionado essa visão homogênea e frisado a
necessidade de se dar historicidade a essas relações, destacando suas mu-
danças e particularidades dos âmbitos econômico, político e cultural, ainda

Pro
que estejam profundamente interligados. De acordo com Cecília da Silva
Azevedo (2008, p.2): “Já é hora de superar esses paradigmas que sustentam
uma cultura histórica e um imaginário sobre os Estados Unidos que não
convidam à reflexão e à pesquisa”.
A partir da obra de Victoria Ocampo e do grupo Sur1, o objetivo deste ar-
tigo é questionar a citada visão tradicional sobre as relações entre a América
Latina e os Estados Unidos. Victoria Ocampo pertencia a uma das famílias
mais ricas e tradicionais da Argentina. Teve uma educação cosmopolita e
viagens à Europa e aos Estados Unidos foram constantes em sua vida. Em
1931, estimulada pelo escritor norte-americano Waldo Frank, fundou a re-
vista cultural Sur, a qual publicou números inéditos até a década de 1970 e
reimpressões até a década de 1990. A Sur tinha uma proposta americanista,
visava aproximar os Estados americanos, a exemplo do buscado pela polí-
tica exterior dos Estados Unidos. Com a Segunda Guerra Mundial (1939-
1945), Victoria Ocampo e a Sur apoiaram os Aliados e defenderam a entrada
dos norte-americanos no confronto contra o Eixo. Internamente estiveram
na oposição ao governo do presidente Juan Domingo Perón (1946-1955),
caracterizado, dentre outros pontos, por um discurso antiamericanista.
1
Para Adriana Carvalho Novaes (2006), o grupo Sur era formado pelos mem-
bros do Conselho Editorial da revista e por intelectuais que marcaram sua linha
editorial. Entretanto, considerando-se a longa duração da revista e a heteroge-
neidade dos intelectuais publicados por ela, questionamos a existência de uma
“linha editorial”. Desse modo, consideramos que o grupo Sur era composto por
todos os intelectuais que, em maior ou menor medida, foram publicados pela
revista. Victoria Ocampo, mesmo durante suas prolongadas viagens ao exterior,
acompanhava a preparação dos novos números, como mostra a sua correspon-
dência. Assim, os autores e textos que destoavam do seu pensamento devem ter
tido sua aprovação antes de serem publicados.
A condição econômica privilegiada e o cosmopolitismo levaram grupos
nacionalistas a considerar Victoria Ocampo e o grupo Sur como representan-
tes do imperialismo na Argentina, como indica a opinião acima de Juan José
Hernández Arregui quanto à “sobrestimación de las influencias extranjeras”
e “desdén frente a lo autóctono” que caracterizariam Victoria Ocampo e o
grupo.2
Tudo isso é relativamente explorado pela historiografia.3 Porém, são me-
nos conhecidas as tensões de Victoria Ocampo e do grupo Sur com os Esta-
dos Unidos, o que será desenvolvido neste artigo.
Se por um lado na Carta a Waldo Frank que abre o primeiro número da
Sur Victoria Ocampo se refere genericamente aos “americanos”, por outro,

ova
na mesma carta, destaca que havia mais de uma América. “Las cualidades
de su América, Waldo, son secretas como las cualidades de la mía. Lo que
su América grita con voz estridente no es tal vez exactamente lo que grita
la mía (...) [grifos meus].”4 Assim, na Sur, a proposta americanista não é
impositiva, mas evidencia culturas e lugares diferentes envolvidos no pro-
cesso, o que desencadeia tensões, ora maiores, ora menores. Mais de trinta
anos depois da fundação da revista, observamos na terceira epígrafe que
abre este artigo como essa divisão se mantém quando Victoria Ocampo des-
taca a maturidade artística e literária da Argentina/América Latina, o que
não seria percebido pelos olhares europeus e norte-americanos. Apesar de
Waldo Frank concordar em muitos pontos com Victoria Ocampo e outros
integrantes do grupo Sur, inclusive no que se refere às críticas aos Estados
Unidos, acredita-se que o escritor norte-americano tenha se distanciado da
Sur devido à centralidade que a Europa teria tido nela, principalmente a par-
tir da Segunda Guerra Mundial.
Logo, outro elemento a ser considerado para se compreender essas ten-
sões é que o projeto americanista de Victoria Ocampo e da Sur, ao contrário
do usual, não prescindia da Europa desde o começo da revista. “¡Volver la
espalda a Europa! ¿Siente el ridículo infinito de esa frase?” (Ibid., p.11)
Pretendia-se criar uma ponte entre as Américas e a Europa, na qual os ameri-
canos tomariam contato com o pensamento europeu e vice-versa. A respeito

2
Opiniões parecidas podem ser encontradas em Arturo Jauretche e entre os jo-
vens intelectuais de esquerda da revista Contorno (1953-1959).
3
Sobre a biografia de Victoria Ocampo e a revista Sur: Matamoro, 1986; King,
1989; Pasternac, 2002; Vázquez, 2002; Sitman, 2003.
4
Ocampo, Carta a Waldo Frank, p. 16-17.
América Latina: olhares e perspectivas 45
do distanciamento de Waldo Frank da revista, Victoria Ocampo escreve o
seguinte em 1975:

Leemos en las Memorias de Waldo Frank que no quedó del


todo satisfecho con el rumbo de la revista nacida de su inspi-
ración (...). (...). Mis preferencias literarias no eran las suyas.
Según él, le daba demasiada importancia a escritores como
Tagore, Virginia Woolf o T. E. Lawrence. Subestimaba a gen-
tes de nuestro continente. Sin embargo, si se toma el índice de
SUR y se cuentan los colaboradores de acuerdo con los países,
se comprobará que América latina lleva la delantera por mu-
chas cabezas. Pero éstas son comprobaciones que no hacen ni

Pro
siquiera los amigos. (Ocampo, 2000, p.235)

Em outras palavras, em Victoria Ocampo e no grupo Sur várias identi-


dades se sobrepõem: a nacional, a latino-americana, a americana e inclusi-
ve a europeia, dentre outras. Acreditamos que essa multiplicidade ajuda a
compreender como o seu projeto americanista não resultou em adesismo
aos Estados Unidos, como podem sugerir algumas leituras classistas sobre
Victoria Ocampo e o grupo. Como defende Antonio Mitre, quando o assunto
é identidade é preciso evitar os extremos:

(…) se nos detivermos um momento na noção de identidade,


veremos que, de qualquer campo disciplinar ou ponto de vista
sob o qual seja considerada, ela pressupõe um horizonte sui ge-
neris, capaz de refletir a imagem inequívoca do objeto sem que
ela seja a duplicação simétrica do mesmo. Em resumo, deve
ser construída a partir de um fundamento que torne possível
o reconhecimento da unidade na diferença. Nem a reflexivi-
dade absoluta do espelho, nem a opacidade de uma transcen-
dência inabordável pelo conceito, a noção de identidade, longe
de acomodar-se aos termos de uma definição, apresenta-se, ao
contrário, como um paradoxo. As tentativas de dar solução ra-
cional a este dilema têm flutuado entre dois extremos: abolir a
totalidade para salvar as especificidades, ou renunciar a estas
em nome da primeira. (Mitre, 2003, p.30)

Americanismo e Segunda Guerra Mundial


Conforme destacado, Victoria Ocampo e a Sur apoiaram os Aliados e a
entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Esse apoio não

46 América Latina: olhares e perspectivas


esteve presente somente na revista, mas inclusive na participação em gru-
pos como Ação Argentina, cujo objetivo era conquistar o apoio da opinião
pública argentina à causa dos Aliados.5 Porém, o apoio foi acompanhado de
críticas às contradições e oscilações dos países Aliados diante do desenvol-
vimento do confronto, as quais teriam ajudado o nazifascismo a se conso-
lidar. Houve, ainda, críticas às falhas das democracias liberais de então, as
quais também teriam colaborado para a consolidação do nazifascismo. Um
dos melhores exemplos dessas críticas foi feito por Waldo Frank no número
71 da Sur, publicado em agosto de 1940:

(...) los hombres que tomaron sobre sí la tarea de librar a este

ova
mundo de Hitler, eran los mismos que le habían ayudado a
encumbrarse; y (...) los actuales paladines de la Democracia,
como Churchill y Roosevelt (...), son unos caballeros arcai-
cos tras cuya retórica continúa gobernando el financiero (...).
(Frank, 1949, p.8-9)

Frank considera que os Estados Unidos e, sobretudo, os jovens norte-


-americanos estavam vulneráveis a um discurso como o nazifascista devido
às imperfeições de sua democracia e à precariedade da vida cultural do país.
Assim, a guerra ganhava uma dimensão interna e somente seria vencida com
a efetivação da democracia no país. No número 69 da Sur, publicado em
junho de 1940, Frank já tinha relacionado a guerra à vida cultural do país:

¿Y nuestro pueblo? ¿Su educación – el cine, la radio, la prensa,


las revistas populares – son salvaguardia segura para que no
se convierta, cuando nos lleguen tiempos verdaderamente
duros, en víctima de los demagogos? ¿Acaso fluyen nuestras
vitalidades creadoras? ¿Somos superiores por el espíritu, la
inteligencia, las emociones, al pueblo de Francia, Inglaterra,
Alemania, España? (Frank, 1940, p.24)

No número 72 da Sur, publicado em setembro de 1940, a hispanista nor-


te-americana Edith Helman aponta contradições no discurso dos Estados
Unidos em defesa da democracia. De acordo com Helman, a “unidade ame-
ricana” em torno da democracia estava sendo construída com empréstimos
norte-americanos a ditadores da América Latina. “(...) tampoco compren-

5
Sobre a Ação Argentina: BISSO, 2005.
América Latina: olhares e perspectivas 47
demos cómo un empréstito de los Estados Unidos al gobierno reaccionario
y anti-popular de algún país latinoamericano puede servir al fin del acerca-
miento de nuestros pueblos.”6 Outra contradição aponta a coluna Noticiario
do número 98, publicado em novembro de 1942:

Washington. Wendell Willkie ha expresado el temor de que las


democracias de Europa y América no interpreten el anhelo de
libertad que sienten los pueblos orientales y que, después de la
guerra, insistan en el fútil empeño de restaurar sus imperialis-
mos en Asia.7

No número 89, de fevereiro de 1942, encontramos outra crítica de Wal-

Pro
do Frank aos Estados Unidos em relação à guerra. De acordo com Frank, a
entrada do país no confronto representou uma mudança importante contra o
isolacionismo que o caracterizava:

Los aislacionistas de los Estados Unidos eran fuertes (...). Los


intelectuales y socialistas, con desgraciadamente pocas excep-
ciones, insistían en que (...) “era asunto de Europa arreglarse
con Hitler” o (lo más monstruoso de todo) que “no había para
qué elegir entre el imperialismo británico y el nazi. (Frank,
1942, p.9)

Apesar da mudança, na opinião de Frank permaneciam nos Estados Uni-


dos os elementos que deram origem ao hitlerismo, à crise que desencadeou a
guerra. “(...) muchos hombres que están contra Hitler están, profundamente,
en el mismo lado de la batalla.” (Ibid., p.10) Frank novamente destaca a
necessidade de se consolidar a democracia no país. “(...) si no comenzamos
a darnos cuenta de la justicia social, de la realización personal que la Demo-
cracia significa, seguiremos avanzando hacia la guerra (...).” (Ibid., p.13).
É interessante assinalar como essas críticas foram feitas, muitas vezes,
por norte-americanos, o que dava à revista um discurso de autoridade para
veiculá-los. Além disso, vale notar que, na Sur, a polarização da sociedade

6
Debates sobre temas sociológicos: relaciones interamericanas. Sur, Buenos Ai-
res, no 72, setembro de 1940. p. 101.
7
Noticiario. Sur, Buenos Aires, no 98, novembro de 1942. p. 103. O advogado
republicano Wendell Willkie perdeu as eleições presidenciais de 1940 para o
democrata Franklin D. Roosevelt. Quanto ao comentário de Willkie, vale lem-
brar, por exemplo, que as Filipinas pertenceram aos Estados Unidos até 1946.
48 América Latina: olhares e perspectivas
argentina em torno da guerra não chegou a impedir um debate sobre as res-
ponsabilidades de ambos os lados na crise que gerou o confronto.

Desenvolvimento econômico versus


desenvolvimento cultural dos Estados Unidos
Apesar de Victoria Ocampo e a Sur ressaltarem que os Estados Unidos e
as demais repúblicas americanas tinham uma origem histórico-cultural em
comum – o empreendimento de Colombo – e manifestarem apreço por no-
mes das artes e do pensamento do país, a relação tecida culturalmente com
os norte-americanos também foi marcada por estranhamentos e críticas. Vale
destacar, por exemplo, a diferenciação que faziam entre o desenvolvimento

ova
econômico do país e a sua condição cultural.
Essa visão está presente inclusive no debate sobre o papel das Américas
na Segunda Guerra Mundial. No já citado número 89 da Sur, publicado em
fevereiro de 1942, Waldo Frank considera que a ajuda das Américas poderia
ocorrer de duas maneiras: a contribuição bélica e técnica, a cargo dos Esta-
dos Unidos, resolveria a guerra “simples” e a colaboração intuitiva e visio-
nária, da qual ficaria responsável a América Latina, solucionaria a guerra
“profunda”. Portanto, para a América Latina caberia uma responsabilidade
cultural. (Ibid., p.9-16)
Ainda sobre essa questão, vale agregar um comentário de Jorge Luis Bor-
ges. Mesmo em meio ao entusiasmo provocado pelo término do confronto
na Europa, o escritor faz uma distinção entre o êxito militar e a cultura dos
países vencedores. “El esfuerzo militar de las tres naciones que han desbara-
tado el complot germánico es parejamente admirable, no así las culturas que
representan. Los Estados Unidos no han cumplido su alta promesa del siglo
XIX (...).” (Borges, 1945)
No número 178 da Sur, publicado em agosto de 1949, Guillermo de Torre
critica o cinema norte-americano, questiona sua condição de arte devido à
padronização e cunho industrial. Além disso, condena o uso do cinema do
país na imposição da civilização que chama de Coca-Cola. “(...) lo ofensivo
no reside en su vulgaridad, sino en la jactanciosa seguridad con que ese tipo
de cine pretende imponermos ciertos modos vitales, haciendo indirectamen-
te un proselitismo inaceptable.” (De Torre, 1949, p.79)
No número 182, publicado em dezembro de 1949, Victoria Ocampo critica
o texto por ter generalizado sobre a produção norte-americana e cita Chaplin
como um dos bons exemplos do cinema do país. (Ocampo, 1949, p.97-100)
América Latina: olhares e perspectivas 49
De qualquer maneira, concorda quanto à presença de propaganda do modo de
vida norte-americano nos filmes, apesar de considerar que a produção euro-
peia e russa também apresentavam versões próprias de propaganda.
No número 186, de abril de 1950, Guillermo de Torre prossegue o debate
e publica Contrarréplica a Victoria Ocampo. O autor se defende afirman-
do que suas opiniões eram compartilhadas pelos próprios norte-americanos.
(De Torre, 1950, p.95-99)
Ainda que Victoria Ocampo tenha discordado de Guillermo de Torre
quanto à padronização do cinema norte-americano, em outros textos de-
monstra percepções parecidas não apenas em relação ao cinema, mas à cul-
tura do país de uma maneira geral. Em uma carta de 9 de abril de 1941 para

Pro
Roger Caillois, escreve que a “(...) mujer de F. M. es una especie de ‘girl’ de
Hollywood. Linda, de una belleza insignificante. Dura y sin encanto.” (Fel-
gine, 1999, p.96) Em outra carta para Caillois, escrita em Nova Iorque em
26 de junho de 1943, se refere à padronização como um dos “êxitos” norte-
-americanos, mas parece lamentar que a beleza não padronizada de alguns
escritores do país não fosse popular. “Nada de lo que siento, nada de lo que
amo tiene atractivo para este país. Esto me deprime por momentos, pero sé
que es estúpido esperar otra cosa.” (Ibid., p.143)
Para dar outros exemplos dessa percepção quanto à Literatura do país,
no número 97 da Sur, publicado em outubro de 1942, Ernesto Sábato elo-
gia Thorton Wilder, “(...) uno de los pocos escritores norteamericanos que
ha alcanzado las fronteras de la Pureza, librándose del pintoresquismo, la
basura y la criminología, tan cariñosamente reiterados en la literatura de
los Estados Unidos.” (Sábato, 1942, p.132) No número seguinte, referente a
novembro, Sábato retoma as críticas, sustentando-as a partir de semelhanças
com a opinião de Waldo Frank e do crítico literário norte-americano Van
Wyck Brooks: a Literatura norte-americana daquele período seria formada
por “inteligências adolescentes”. (Sábato, 1942, p.98)
Em uma carta para sua irmã Angélica escrita em 29 de novembro de
1963, Victoria Ocampo mostra-se entusiasmada com o desenvolvimento
científico e técnico dos Estados Unidos, mas também demonstra desconten-
tamento ao comentar o assassinato do presidente Kennedy. Mais uma vez,
a cultura norte-americana não acompanharia o desenvolvimento econômico
do país. “El hecho es que Kennedy estaba muy por encima del nivel de USA
(…). El adelanto de USA (increíble) es ante todo técnico (…).” (Ocampo,
1997, p.162)
50 América Latina: olhares e perspectivas
Vale acrescentar um comentário de Victoria Ocampo feito para Angélica
em 1956 sobre a alimentação nos Estados Unidos, comentário representati-
vo dos estranhamentos culturais envolvidos no processo: “Almorzamos allí.
Con esto quiero decir que Louise y Doris fueron a comprar unos de esos
hamburgers que detesto, un cake que parecía de perfumería (el tipo de cake
americano incomible) y queso (el queso estaba bien).” (Ibid., p.103)
Uma das consequências da produção cultural deficiente dos Estados Uni-
dos seria o desconhecimento dos norte-americanos sobre outros povos e
paí­ses – a propósito, algo que Victoria Ocampo também detectava entre os
europeus. Em carta escrita de Nova Iorque para Angélica em 29 de outubro
de 1975, Victoria Ocampo destaca: “Ayer conversé con un señor que estaba

ova
a mi lado en el comedor (...). Muy simpático. Hombre de negócios. Hijo de
irlandeses. Por supuesto que de Argentina no sabía nada, fuera de los bifes.”
(Ibid., p. 225-226)
As críticas destacadas até aqui não significam necessariamente que o
americanismo tenha fracassado ou seja inviável; demonstram a inviabilida-
de de um projeto americanista imposto, monolítico, que desconsiderasse – e
desconsidere – a diversidade do “ser americano”. Deste modo, ainda que
indiretamente, as críticas abalavam a liderança continental buscada pelos
Estados Unidos. Como bem sintetiza Rosalie Sitman, na Sur “(...) el sentirse
americano no exigia eludir las críticas a la política y la sociedad norteame-
ricanas.” (Sitman, 2003, p.206)

Norteamérica, la hermosa
Outro exemplo da crítica de Victoria Ocampo e do grupo Sur aos Estados
Unidos está no debate Norteamérica, la hermosa travado a partir do número
192-194 da revista, de outubro-dezembro de 1950.
O ponto de partida foi America the beautiful de Mary McCarthy, artigo
publicado no mesmo número. A autora destaca a dificuldade de se determi-
nar o que seria “realmente norte-americano”, considerando-se a acentuada
imigração recebida pelo país e a precariedade da vida artística e intelectual,
fatores que repercutiriam negativamente na política.
Apesar disso, refuta que o materialismo fosse considerado uma carac-
terística norte-americana, pois seria universal. A propósito, defende que o
materialismo seria mais marcante entre os europeus. “Los americanos cons-
truyen rascacielos; Le Corbusier los adora.” (Maccarthy, 1950, p.150) A
autora destaca, inclusive, que o desconforto com o qual viveriam os norte-
América Latina: olhares e perspectivas 51
-americanos nas grandes cidades demonstraria o seu ascetismo e não mate-
rialismo:

Ningún pueblo con algún sentido del bienestar material sopor-


taría la comida que nosotros comemos, la estrechez de los de-
partamentos en que vivimos, el ruido, el tránsito, el subterráneo
y los ómnibus atestados. La vida norteamericana, por lo menos
en las grandes ciudades, es un pequeño asalto a los sentidos
y los nervios; es precisamente por ascetismo, por hacer caso
omiso de lo terreno, que podemos soportarla. (Ibid.)

McCarthy desenvolve esse ascetismo dos norte-americanos referindo-se

Pro
à bomba atômica, usada pelos Estados Unidos contra o Japão em 1945 no
final da Segunda Guerra Mundial. A autora dissocia os norte-americanos da
bomba, argumenta que foi imposta, pois a passividade e não a agressividade
seria o traço dominante da população do país. “Desgraciadamente, el ascetis-
mo total de nuestro carácter nacional, (...), nuestro desapego de las cosas, nos
prepara a soportar la bomba, pero no a enfrentarnos con ella” (Ibid., p.153)
Na conclusão, a autora retoma, ainda que indiretamente, a tese do histo-
riador norte-americano Frederick Jackson Turner (1861-1932) sobre a for-
mação dos Estados Unidos. Segundo Turner, a ausência do Estado na expan-
são para o oeste deu aos migrantes condições parecidas de vida, o que expli-
caria o caráter democrático da sociedade norte-americana. Nas palavras de
McCarthy, seriam características dos norte-americanos a “generosidade”, a
“hospitalidade”, a “equidade”, a “cortesia” e a “simplicidade de relações”,
as quais corresponderiam “(...) a la desnuda desolación de un pueblo fron-
teirizo (...).” (Ibid., p. 154)
O artigo de McCarthy foi precedido por uma apresentação feita por Vic-
toria Ocampo. Victoria Ocampo não concorda com o maior materialismo
atribuído aos europeus pela autora. “Contrariamente a lo que asegura Mary
McCarthy, he conocido europeus que no eran materialistas y no pocos ame-
ricanos (sigo hablando del continente entero) que lo eran de modo bastante
ostensible (...).” (Ocampo, 1950, p.143)
Na sequência do artigo de McCarthy, Ezequiel Martinez Estrada, em
Norteamérica, la hacendosa, considera que os norte-americanos tinham
motivos para se orgulharem de seu país, mas critica a autora por dissociar os
políticos do restante da sociedade. “Lo malo no está en que los gangsters se
abran camino con su astucia para llegar al poder, sino en que (...) la voluntad
52 América Latina: olhares e perspectivas
secreta de los ciudadanos facilite la vitoria de esa clase de delincuentes.”
(Martínez Estrada, 1950, p.157)
Quanto ao materialismo dos norte-americanos, o autor considera que é
justamente por serem materialistas que suportariam as condições adversas
das grandes cidades. A respeito da “equidade” que a autora aponta entre os
norte-americanos, Martínez Estrada considera que indicaria o contrário o
preconceito existente no país contra judeus, negros, católicos e homossexu-
ais. A estrutura social tampouco demonstraria equidade. De acordo com o
autor, a possibilidade de ascensão não eliminava a estratificação da socieda-
de, o que seria mascarado pelo consumo.
No número seguinte, o 195-196, de janeiro-fevereiro de 1951, a discus-

ova
são continua. Ernesto Sábato retoma um dos pontos tratados por Martínez
Estrada e qualifica os norte-americanos como materialistas. “(...) McCarthy,
por el amor de Dios, ¿cree usted que los capitalistas norteamericanos iban
a gastar cinco mil millones de dólares por año para vender Buicks a los es-
critores existencialistas que llegan de turismo?” (Sábato, 1951, p.67-68) Se-
gundo o autor, não seria uma exclusividade dos norte-americanos, mas estes
apresentariam esta característica de forma acentuada. “También la pesadilla
la tenemos en este país [Argentina]. Claro que como somos más haraganes y
menos prácticos, menos eficientes que ustedes, tenemos un poquito más de
respiro.” (Ibid., p. 69) Para Sábato, a autora apresenta como são os artistas e
os intelectuais do país e não o povo norte-americano. “(...) cuando un artista
norteamericano nos confiesa que no le gustan los rascacielos o que detesta
los Buicks podemos estar seguros de que al pueblo americano les encantan.”
(Ibid., p.68)
No texto seguinte, Alvaro Fernández Suárez concorda com Sábato no
que se refere ao materialismo dos norte-americanos, apesar de considerá-lo
presente com a mesma intensidade em outros povos. Além disso, realiza
uma crítica em relação à bomba atômica: como Martínez Estrada, condena a
dissociação entre política e sociedade norte-americana feita pela autora. “No
creo que los Estados Unidos (...) hayan esgrimido ese formidable artefacto
(...) sin comprometer su alma.” (Syárez, 1951, p. 72-73) Termina afirmando
que o país não precisava ter usado a bomba, pois o Japão, enfraquecido,
seria derrotado de qualquer maneira.
De acordo com artigo assinado por S. S. B., o materialismo não estaria
presente apenas nos Estados Unidos, pois teria sido imposto por este país à
América Hispânica, juntamente com a sua hegemonia política:
América Latina: olhares e perspectivas 53
La Norteamérica visible y material de los supercaminos y las
fortalezas volantes, de los infinitos automóviles y las infini-
tas heladeras, de los rescacielos y la bomba atómica, esa que
Mary McCarthy no considera la Norte-américa real, coincide
perfectamente con la que los hispanoamericanos conocemos
bien, con la que, a despecho de las declaraciones y los discur-
sos diplomáticos, ha impuesto a nuestras naciones – e impone
aún – tanto su riguroso dominio económico como, a través de
ciertos regímenes criollos que auspicia y estimula, su penoso
dominio político. (S.S.B., 1951, p.74)

Silvina Bullrich, por sua vez, chega a se incluir entre aqueles que apre-

Pro
ciariam as “comodidades materiais” do século XX e concorda que os nor-
te-americanos não seriam materialistas, mas apenas pelo fato de não terem
as dificuldades materiais enfrentadas pelos europeus naquele pós-guerra.
(Bullrich, 1951, p.76-77)
V. F. (Vicente Fatone?) fecha a discussão do número. Assim como Bull-
rich, ressalta não ter nada contra uma “vida confortável”, mas nos Estados
Unidos não haveria um “estilo imaterialista” de vida. De qualquer modo,
concorda com McCarthy quanto à precariedade da vida artística e intelectual
do país: os best-sellers seriam “chabacanos y estúpidos, falsamente mora-
les” e Hollywood produziria apenas casualmente boas imagens. (V.F., 1951,
p. 77)
Em setembro de 1951, no número 203, é publicada a última parte do
debate, quando é reafirmado o materialismo dos norte-americanos, a preca-
riedade da vida cultural do país e a condenação ao uso da bomba atômica
contra o Japão.8 Dentre os colaboradores que reafirmaram esses pontos es-
tão David Viñas, Mirta Arlt e, principalmente, Norberto A. Frontini, o mais
crítico à McCarthy nesse número.
É necessário ressaltar que, nos três números, houve concordâncias com
McCarthy. Dentre outros pontos, valorizou-se o debate aberto pela autora
e a análise das características da população norte-americana ter sido feita
separadamente, não se confundindo com o Estado e a economia do país,
o que ajudaria a questionar estereótipos. No entanto, a repercussão, como
vimos, nem sempre positiva do texto por três números da revista exemplifica
algumas tensões do meio artístico e intelectual argentino/latino-americano

8
Últimas contestaciones a la encuesta sobre “Norteamérica, la hermosa”. Sur,
Buenos Aires, no 203, setembro de 1951. p. 73-87.
54 América Latina: olhares e perspectivas
com os Estados Unidos no imediato pós-guerra. Essas tensões, ainda que
não tenham sido unânimes no grupo, nos levam a um quadro um tanto
distinto do apontado por autores como Nora Pasternac, para quem, na Sur,
não teria havido o “(...) reconocimiento de que la asimetría de las repúblicas
latinoamericanas con Estados Unidos puede implicar una polémica sobre el
imperialismo y la dependencia.” (Pasternac, 2002, p. 83)

Conclusões
Este artigo não explora todas as divergências de Victoria Ocampo e do
grupo Sur com os Estados Unidos. Victoria Ocampo tem uma obra vasta9 e,
conforme mencionado, a revista Sur foi publicada por quatro décadas.

ova
Contudo, os pontos destacados indicam que a proposta americanista da
Sur e o apoio aos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial não resulta-
ram necessariamente em adesões a características econômicas, políticas e
culturais do país.
Segundo César A. García Belsunce e Carlos Alberto Floria, foi impossí-
vel concretizar uma proposta pan-americanista na América do Sul, princi-
palmente na Argentina, devido aos interesses norte-americanos na região:

(...) en América del Sur, donde no era posible aplicar sin serias
resistencias métodos como el del cuasi protectorado, usado en
Cuba en 1901, la formulación de una nueva política paname-
ricanista que se conciliara con la intención norteamericana de
intervenir allí donde su prestigio, poder o seguridad – e incluso
intereses económicos de sus nacionalidades – fueran afectados,
se hizo difícil. “Los recelos más vivos fueron los de la Argen-
tina – interpreta el propio Renouvin – porque los dirigentes
medios de la vida económica, conservaban allí una orientación
europea, y también porque los inmigrantes italianos no eran
sensibles a las excelencias de la civilización norteamericana...”
(Belsunce, 1996, p. 263-264)

Sem desconsiderar essa possibilidade de interpretação para Victoria


Ocampo e o grupo Sur, tendo em vista a importância que deram à Euro-
pa desde o início da revista, cabe acrescentar que, neste caso, existe uma
particularidade: a proposta pan-americanista partiu da Argentina em dire-

9
Além de artigos publicados na Sur, os Testimonios de Victoria Ocampo pos-
suem dez volumes e sua autobiografia outros seis.
América Latina: olhares e perspectivas 55
ção aos Estados Unidos e não o inverso. E, como vimos, Waldo Frank, o
norte-americano que ajudou a conceber a Sur, também discordava de vários
aspectos da política e da economia de seu país. Assim, Victoria Ocampo e
a revista não resistiram ao projeto pan-americanista, mas participaram dele,
inserindo a Argentina – e a América Latina – em sua construção, para além
dos interesses norte-americanos e seletivamente quanto aos traços culturais
em comum com os Estados Unidos. A Sur inverte a imagem recorrente da
América Latina como uma repetição tardia – e distorcida – da história e da
cultura da Europa e dos Estados Unidos. A Sur exemplifica a América Latina
como produtora, promotora e consumidora cultural.
Vale fazer uma ressalva: o destacado por Belsunce e Floria na última ci-

Pro
tação, se aplicado à Victoria Ocampo e ao grupo Sur, pode levar ao risco de
se supor que as suas relações com a Europa, principalmente com a França e
a Inglaterra, não tenham sido marcadas por críticas, o que foi questionado
em artigo anterior e não se observou nem mesmo durante a guerra. (Silva,
2010)
Assim, é preciso rever o conceito tradicional de intelectual cosmopolita,
comumente aplicado a Victoria Ocampo e aos principais nomes do grupo
Sur. De acordo com Horacio González:

Os intelectuais cosmopolitas concebem a vida cultural como


uma forma de comunicação acima das particularidades nacio-
nais, regionais ou locais. A fonte de inspiração de qualquer prá-
tica intelectual é o aperfeiçoamento do patrimônio geral da cul-
tura da humanidade, e esta sempre se encontra em uma dimen-
são universal que nada tem a ver com as sociedades concretas
em que essa cultura se originou. (González, 1984, p. 70-71)

Esse conceito coloca os intelectuais cosmopolitas acima dos processos


de formação do sentimento de pertencimento nacional. O cosmopolitismo
não se limita ao nacional, mas não o nega. “Extranjerizantes... inmigran-
tes... En suelos generosos (el nuestro lo es) no se deberían pronunciar estas
palabras.” (Ocampo, 2000, p. 100) O título da revista – Sur (sul) – é suges-
tivo para indicar que o cosmopolitismo parte de uma cultura e de um lugar
específicos.
Algumas vezes esse sentimento de pertencimento se estende para a Amé-
rica Latina. Para retomar a terceira epígrafe que abre este artigo, Victoria
Ocampo usa a primeira pessoa do plural (“padecemos”, “demos provas”)
56 América Latina: olhares e perspectivas
provavelmente se referindo à América Latina (“nossas irmãs latino-america-
nas”) e não apenas à Argentina: não se refere à América, no singular, como
em outras ocasiões. Victoria Ocampo, no texto, aproxima os Estados Unidos
e a Europa quanto a uma visão negativa sobre a Argentina/América Latina,
visão que desconsideraria a maturidade artística e intelectual do país/da re-
gião. Conforme destacam autores como Benedict Anderson (2008) e Eric
Hobsbawm (2002), dentre outros, os processos de formação das identidades
nacionais – e por que não regionais? – não são somente internos tendo em
vista o estabelecimento de laços entre os membros de uma determinada co-
munidade, mas também se dão externamente na construção de oposições em
relação a “outros”, como se observa nas palavras acima de Victoria Ocampo

ova
em relação aos Estados Unidos e à Europa.
Qual é a importância de uma análise desta natureza quando se pensa atu-
almente na integração latino-americana em termos culturais? O exemplo das
críticas de Victoria Ocampo e do grupo Sur aos Estados Unidos, resultantes,
em nossa opinião, do pertencimento nacional e regional destes intelectuais,
demonstra que o projeto de integração da América Latina não pode ser vis-
to como patrimônio exclusivo de determinados grupos sociais e políticos.
Apesar das rupturas, de Bolívar à contemporaneidade se formou em torno
da integração uma tradição complexa, de diferentes matizes que devem ser
resgatadas para que o processo ganhe mais defensores e se transforme em
um compromisso de diferentes sujeitos e grupos político-sociais.

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América Latina: olhares e perspectivas 59


Pro

60 América Latina: olhares e perspectivas


Analisando a democracia a partir da relação
entre Estados e movimentos sociais:
os casos da Venezuela, Bolívia e Equador

Fabricio Pereira da Silva

V
enezuela, Bolívia e Equador são países marcados atualmente pela
constituição de governos progressistas que pretendem superar a

ova
crise orgânica manifestada em suas sociedades e refunda-las. Ne-
las, ocorreram processos de colapso das instituições, bem como sua supe-
ração a partir de movimentos de “refundação”. Em meio a um processo de
perda de legitimidade de partidos e formas de representação tradicionais e
de colapso dos sistemas partidários vigentes, o Movimento V República da
Venezuela (MVR, posteriormente Partido Socialista Unido da Venezuela,
PSUV), o Movimento ao Socialismo (MAS) da Bolívia e o Pátria Altiva
e Soberana (PAÍS) do Equador canalizaram o descontentamento popular e
chegaram ao poder com apoio majoritário, organizando governos progres-
sistas liderados respectivamente por Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael
Correa1.
Pretendo discutir as transformações ocorridas na representação, partici-
pação e deliberação democrática dessas sociedades nos últimos anos, e pro-
ponho fazê-lo a partir da chave da interação entre os Estados em processo
de reformulação e os movimentos sociais progressistas2 em atuação nesses
1
Para uma análise da recente ascensão de forças de esquerda ao poder na Améri-
ca Latina (com suas semelhanças e diferenciações internas), conferir Pereira da
Silva (2011).
2
A noção aqui utilizada de “movimentos sociais progressistas” não desconsidera
que na América Latina contemporânea “a direcionalidade – os fins e finalida-
des – desses movimentos é tão contingente como a dos processos históricos em
que se inserem”, e que “a contribuição dos movimentos sociais é ela mesma
descentrada e seu vetor, altamente contingente, em função de sua pluralidade,
metas variáveis e alianças que não são necessariamente dadas desde sempre”
(Domingues, 2007, p. 188). Os movimentos sociais progressistas são os que
ajudaram a gestar processos contra-hegemônicos de transformação, na direção
de uma democratização social e aumento da participação política e permeabili-
dade estatal. Não quer dizer que sejam intrinsecamente positivados, ou sujeitos
de um progresso universalizante.
América Latina: olhares e perspectivas 61
países. Isso constitui uma forma de abordar ao mesmo tempo dois temas
centrais para a compreensão dos referidos processos de refundação: o está-
gio atual da democracia nesses países, a partir das mudanças e permanências
nas formas de interação Estado/sociedade3. Para isso, primeiramente apre-
sento algumas chaves teórico-analíticas que considero válidas para a análise
das relações Estado/sociedade nos países estudados. A seguir, refiro-me aos
experimentos de democracia participativa e direta nessas sociedades levadas
a cabo em meio aos referidos processos refundadores, destacando a referida
relação Estado/sociedade. Por fim, proponho caminhos para a compreensão
da temática abordada, que devem servir de agenda de investigação para ela-
boração de futuros trabalhos.

Pro
Reflexões iniciais
É hora de aclarar algumas questões e conceitos. Quando trato aqui
de crise na Venezuela, Bolívia e Equador, eu não me restrinjo ao campo
propriamente institucional, mas refiro-me amplamente a um movimento
estrutural, a uma crise “orgânica”, na qual se manifesta uma crise de direção
político-social, algo notado na Bolívia, na Venezuela e no Equador. Nesses
países, o que se convencionou denominar “modelo neoliberal” e o bloco
de forças que o sustentava foram fortemente contestados. Mas certamente
não é somente com o fracasso do modelo neoliberal que essas crises se
relacionam, é também com o esgotamento de formas de organização estatal,
dominação social, baixa inclusão político-social e monopólio partidário,
expressados em mais largas durações. Nesses países, constata-se uma “crise
de hegemonia”, uma “crise do Estado em seu conjunto” (Gramsci, 2002, v.
3, p. 60), que está longe de ser solucionada, podendo se estender por um
longo período. Com isso, a possibilidade de hegemonia neoliberal vê-se re-
duzida, e assume primazia “o momento da dominação, no qual o Estado e
a coerção têm um papel tão central a cumprir” (Domingues, 2009, p. 192).
Especialmente na Venezuela e no Equador, nem se poderia afirmar que
o corpo de proposições neoliberais se tornou exatamente hegemônico em
algum momento – a não ser entre os setores políticos do mainstream. Nes-
ses países, o fator “dominação” foi determinante ao longo da maior parte
do processo4. Neles, o “empate catastrófico” de forças sociais e políticas,
3
Esses temas integram a agenda de investigações do recém-constituído Núcleo
de Estudos da Democracia Latino-Americana da UNILA.
4
Algo evidenciado no episódio venezuelano do Caracazo, revolta popular es-
surgido em meio à crise hegemônica, teria resultado em experiências de
lideranças “heroicas” que constituiriam formas de “cesarismo progressis-
ta”. Segundo Gramsci, “o cesarismo é progressista quando sua intervenção
ajuda a força progressista a triunfar, ainda que com certos compromissos
e acomodações que limitam a vitória” (2002, v.3, p. 76). Nesses países, as
fragilizadas alianças anteriores (expressadas politicamente nos partidos e
elites políticas “tradicionais”) vão dando lugar a novas configurações, cons-
tituídas em tornos das referidas lideranças heroicas. Assim, elas se tornam
fundamentais até aqui na preservação e reprodução de bases de sustentação
dos processos refundadores. Já na Bolívia, apesar de certos aspectos de ar-
bitragem contidos na liderança de Morales e na atuação do MAS, os novos

ova
grupos sociais e políticos no poder (constituídos principalmente de novos e
antigos movimentos sociais progressistas) são os que mais poderiam ser tra-
tados como construtores em potencial de uma nova hegemonia e consenso,
configurando um novo “bloco histórico”, que nada mais é do que a identifi-
cação concreta e sem contradições de fundo entre novos conteúdos econô-
mico-sociais e novas formas ético-políticas (Gramsci, 2002, v. 1, p. 308).
Nesse sentido, o caso boliviano se caracterizaria por maior organicidade,
enquanto o caso venezuelano e o equatoriano constituiriam fenômenos de
cesarismo progressista. No primeiro o elemento de transformação teria um
maior potencial, tanto de desenvolvimento quanto de reprodução no tempo.
Os fenômenos aqui estudados são classificados por parte da literatura
especializada como “semi-autoritarismos”, “populismos”, na melhor das hi-
póteses “democracias de baixa qualidade”5. Para analisar esse tema, urge
antes de tudo mergulhar no debate teórico (clássico e contemporâneo) em
torno da democracia, para definir a partir de quais bases teórico-metodo-
lógicas se poderiam avaliar a “qualidade” dessas democracias. Devem-se
evitar as visões que consideram que exista uma contradição entre repre-
sentação e participação, vistas às vezes como polos excludentes. Pretendo
entender a democracia como uma pluralidade de formas de expressão que
permite diversas combinações e estruturações. Nos países analisados, sugiro

pontânea ocorrida em fevereiro de 1989, que teve como estopim o aumento do


combustível e consequentemente das tarifas dos transportes públicos, e que foi
violentamente reprimida à custa de centenas (talvez milhares) de mortos.
5
Para a associação desses processos ao populismo, conferir, por exemplo, Cas-
tañeda (2006) e Alcántara (2008). Para a associação ao autoritarismo, conferir
Petkoff (2005) e Mires (2008). No entanto, vale recordar que nessas análises
populismo e autoritarismo comumente caminham juntos.
América Latina: olhares e perspectivas 63
que há uma combinação entre as instituições da democracia representativa,
novas formas de participação e fenômenos mais próximos de uma “demo-
cracia plebiscitária”. Em certo sentido elas poderiam constituir expressões
de “demodiversidade” (SANTOS; AVRITZER, 2003). Mas ao mesmo tem-
po das dificuldades contidas em sua prática. Por um lado, a democracia re-
presentativa é criticada nesses processos de refundação (e também pelos
setores sociais organizados mais representativos), geralmente associada à
“velha política”, aos “partidos tradicionais”, à corrupção e dominação que
os refundadores pretendem superar. Por outro, a partir dos novos Estados e
da sociedade organizada surgem expressões e novas institucionalidades de
participação e deliberação direta, que na prática convivem até aqui com a

Pro
preservação dos mecanismos de representação.
Avaliar essa relação em profundidade está na chave de qualquer análise
acerca desses novos regimes refundadores. Procuro não partir do suposto
defendido por numerosos autores (por exemplo, Sartori, ou os autores Fe-
deralistas numa chave clássica) de que haveria uma positividade intrínse-
ca contida na representação, em detrimento da participação – com todos
os males relacionados ao excesso de participação, às suas dificuldades em
grandes territórios e sociedades complexas, etc. No entanto, reconheço que
as formas de representação (especialmente em sua forma proporcional) são
essenciais para garantir a expressão das minorias e a deliberação viável em
sociedades complexas e de enormes dimensões, por mais descentralização
que se possa propor (SANTOS, 2010). Mais do que isso: fóruns de debate e
deliberação representativa como os parlamentos podem ser insubstituíveis
para a articulação e desenvolvimento de visões e projetos alternativos de
sociedade. Nem falar da importância dos direitos individuais e de expressão
para a garantia da realização de democracia em suas diversas formas. Em
suma, sustento que, se o poder constituinte pode ser ampliado de modo a se
realizar por mais tempo, através de novas formas e em espaços sociais até
então refratários a ele, isso não implica no abandono de elementos de repre-
sentação, e na necessidade da preservação do poder constituído e das repre-
sentações de cidadãos individuais, setores sociais organizados, projetos e
regiões. Caberá então compreender o tratamento da democracia nesses paí-
ses a partir desse equilíbrio delicado entre transformação/desvalorização da
representação e aprofundamento/valorização da participação e deliberação
direta – tudo isso em meio a um processo de desconstrução e reconstrução
institucional e política.
64 América Latina: olhares e perspectivas
Para uma abordagem desse tipo da questão democrática, torna-se um re-
curso interessante recorrer aos movimentos sociais. Devem-se evitar análi-
ses que partam tanto de uma concepção da sociedade como espaço de inte-
ração entre indivíduos atomizados (por mais que as sociedades capitalistas
insistentemente apontem nessa direção), quanto de uma concepção social
estruturalista/historicista. Para fugir desses dois extremos, enfocar as subje-
tividades coletivas – e aqui entrariam tanto o Estado quanto os movimentos
sociais – se torna um recurso analítico poderoso. Domingues (2009) sugere
fazê-lo como forma de escapar do dilema agência/estrutura, apontando as
subjetividades coletivas como coletividades que tecem a vida social e levam
adiante “giros modernizadores” mais ou menos centrados. Os “giros mo-

ova
dernizadores” realizados nesse momento na Venezuela, Bolívia e Equador
vêm sendo levados a cabo por esses sujeitos coletivos: Estados em processo
de refundação e movimentos sociais progressistas. Entender sua relação (e
correlação) ajudaria a compreender lógicas comuns e particulares dessas
transformações.
Deve-se partir aqui da constatação de que as transformações societárias
globais e especificamente latino-americanas efetivamente enfraqueceram a
tradicional tese (tipicamente marxista) da centralidade da identidade classis-
ta (operária e secundariamente camponesa) enquanto agente da transforma-
ção social e da estruturação dos movimentos sociais. A pluralização dos mo-
vimentos sociais e a perda de uma clara hierarquia entre eles implicaram no
que se poderia definir como o seu descentramento enquanto subjetividades
coletivas. Sua identidade é mais fluida quando se considera o somatório dos
movimentos (...) – embora em si possam ser até altamente centrados; e sua
organização tende em muitos casos, pela mesma razão, a ser mais dispersa
(...) – conquanto, mais uma vez, em si possam ser altamente organizados e
inclusive hierárquicos (Domingues, 2007, p. 174).
Se por um lado há certo exagero na aplicação da tese da centralidade
identitária classista à realidade latino-americana em qualquer momento e
nem sempre se reconheça sua heterogeneidade estrutural6, por outro lado é
6
Especialmente em países como a Venezuela, com seu Estado tipicamente ren-
tista e seu desenvolvimento capitalista truncado pela “doença holandesa”, deri-
vada do impacto da exploração do petróleo em sua economia e em sua inserção
internacional; ou como a Bolívia e o Equador, marcados por um desenvolvi-
mento extremamente dependente e periférico, e por sociedades, economias e
territórios historicamente desarticulados (recordar a tese de René Zavaleta da
Bolívia enquanto sociedad abigarrada).
América Latina: olhares e perspectivas 65
inegável que especialmente nas décadas de 1980 e 1990 fenômenos como o
aumento do desemprego, do subemprego e do setor de serviços, da pobreza
e da miséria enfraqueceram formas mais tradicionais de articulação e mobi-
lização popular – o que não quer dizer que o sindicalismo tenha deixado de
ter relevância no mapa social do continente. No entanto, visões potencial-
mente pessimistas de que essas transformações poderiam significar um im-
pacto negativo de longo prazo nos movimentos sociais do continente foram
desmentidas pelo surgimento de novas subjetividades coletivas (Maneiro,
2006), e por fenômenos como o ressurgimento das identidades étnicas em
chave contemporânea. Em suma, a pulverização social não se cristalizou, e
se gestaram processos de “reencaixe reflexivos coletivos” (Wagner, 1994),

Pro
emergindo novos sujeitos sociais calcados por vezes em identidades mistas
(Domingues, 2009), flutuantes e manipuláveis (ALBÓ, 2008), num quadro
de crescente heterogeneidade da sociedade civil. Tal noção

(...) descreve a diferenciação interna existente na sociedade ci-


vil em termos de atores sociais, formas de ação coletiva, teleo-
logia da ação, construção identitária e projetos políticos. Trata-
-se de um núcleo temático que ajuda a compreender que no
interior da sociedade civil coexistem os mais diversos atores,
tipos de práticas e projetos, além de formas variadas de relação
com o Estado (Dagnino, Olvera, Panfichi, 2006, p. 27).

Com isso, deve-se evitar entender os movimentos sociais como intrin-


secamente democratizantes, apesar do reconhecimento de “uma tendência
contemporânea para que muitos deles incorporem uma dimensão renovada
de luta democrática, que se expressa em diferentes paisagens materiais e
simbólicas, contribuindo para a reinvenção das práticas e teorias democráti-
cas” (Bringel; Echart, 2008, p. 458). Além disso, é desnecessário dizer que
se deve deixar de lado certa visão da sociedade civil como bloco virtuoso
em oposição a um Estado intrinsecamente autoritário e dedicado à conquista
e acúmulo do poder7. Cabe acrescentar que o polo estatal também apresen-
ta forte heterogeneidade e historicidade, no sentido da noção gramsciana
7
Além de evitar a absolutização dessa contradição entre os pólos Estado/socieda-
de, seria possível questionar a necessidade de uma autonomia total dos setores
populares em relação ao Estado. Autores como Ellner (2009), referindo-se à
Venezuela, destacam que as iniciativas estatais possuiriam um efeito educativo
para a ativação da organização popular, e que esses setores mobilizados pelo
regime estariam longe de apoiá-lo incondicionalmente.
66 América Latina: olhares e perspectivas
de “Estado ampliado”. Por fim, cabe dizer que a referida heterogeneidade
crescente no campo dos movimentos sociais impõe restrições ao estabele-
cimento de padrões unitários de interação entre Estado e sociedade civil
organizada. No entanto, procuro aqui definir tendências gerais, a partir de
recorte analítico e metodológico amplo – o que obviamente não excluiria a
observação de exceções e aspectos distintos se a opção fosse pelos estudos
de caso, por exemplo.

Democracias, Estados e movimentos sociais


Das transformações institucionais e práticas levadas a cabo pelos proces-
sos de refundação (e talvez as que vêm sendo mais estudadas por analistas

ova
de todos os quadrantes) têm sido a gestação e fomento de mecanismos e
espaços de participação e deliberação direta8. A lista de mecanismos e ini-
ciativas nesse sentido é extensa9. Os mecanismos de democracia direta in-
troduzidos por esses regimes são basicamente: referendos para revogação e
ratificação de leis constitucionais, bem como de decisões relativas à política
externa10; revogação de todos os cargos eletivos; iniciativa de lei popular, e
inclusive de convocação de assembleia constituinte. Exemplos disso são as
ratificações das convocações de assembleias constituintes nesses países, e a
posterior aprovação popular das novas constituições; bem como os diversos
referendos revogatórios levados a cabo especialmente na Venezuela e na
Bolívia, incluindo os dos próprios presidentes – no primeiro por iniciativa
popular (da oposição), no segundo do próprio presidente –, em ambos os
casos vencidos pelos mandatários.
Quanto aos novos espaços de participação, passam principalmente por
mecanismos de controle e rendição de contas, através da instituição nos três

8
Os casos estudados também introduziram transformações diretamente nos me-
canismos de representação, estendendo-os na forma de aumento da representa-
ção de gênero e indígena, bem como da introdução da representação em espaços
onde anteriormente ela não existia – como o Poder Judiciário. No entanto, deixo
esses aspectos de fora dessa análise. Também não abordo formas localizadas de
expansão da participação e da descentralização – como o estabelecimento de
territórios autônomos indígenas, ou de elementos e organismos de participação
e deliberação criados por governos subnacionais.
9
Para uma apresentação desses mecanismos, remeto a Flores, Cunha, Coelho
(2010), e a Welp (2009).
10
Nos três países, qualquer modificação constitucional deve ser ratificada, assim
como decisões transcendentes relacionadas à perda de soberania nacional para
organismos internacionais.
América Latina: olhares e perspectivas 67
países de novos poderes direcionados a isso, transformando a lógica liberal
clássica de divisão do aparato estatal em três poderes (executivo, legislativo,
judiciário)11; e de cogestão, aí incluídos o desenho de políticas públicas e
elaboração de planos nacionais na Bolívia e no Equador, e a execução de
obras, programas sociais, prestação de serviços públicos e mesmo gestão de
empresas públicas na Venezuela. Um exemplo do primeiro tipo pode ser dado
pelo Conselho de Participação Cidadã e Controle Social do Estado equato-
riano. Trata-se de uma instituição formada por representantes da sociedade
organizada (sem vínculos partidários), com o intuito de “incentivar os âm-
bitos de deliberação pública e participação política, combater a corrupção e
estabelecer mecanismos populares de prestação de contas dos outros poderes

Pro
estatais” (Pernasetti, 2010, p. 1). Seus participantes foram selecionados para
mandatos de cinco anos mediante concurso público, e sua estruturação pode-
ria ser entendida, além de participação popular, como uma forma de estrutu-
ração de uma representação “pós-liberal” (Ibid., p. 19-20). Já um exemplo da
segunda modalidade (e o mais apoderado dentre eles) são os Conselhos Co-
munais (CC) venezuelanos, organizados a partir de certo número de famílias
organizadas num âmbito espacial local. Estes foram fomentados pelo regime
especialmente a partir de 2006, como mecanismo preferencial de participação
popular no desenho e implantação de políticas públicas, e de maneira geral
como meio de construção de uma “democracia revolucionária e socialista”12.
É inegável que todas essas instituições ocupam espaços antes mono­
polizados pela representação. Em especial os referendos revogatórios de
mandato modificam em parte a essência da instituição de representantes
nas democracias liberais, na medida em que reduzem a autonomia do
representante em relação ao representado e fortalecem o elemento delegativo
dessa relação. Mas também a inserção de representantes de determinados
setores sociais organizados na estrutura estatal introduz elementos não
liberais à representação. Poderia se concluir que, sem abdicar absolutamente
dos mecanismos de democracia representativa, esses novos regimes
propõem revigorar a participação popular, remetendo as deliberações com
maior frequência e em novos espaços ao poder constituinte (em última

11
A Função de Controle, Defesa da Sociedade e do Estado na Bolívia, a Função de
Transparência e Controle Social no Equador, e o Poder Cidadão na Venezuela.
12
A partir de 2005 e principalmente 2006, o regime passou a defender uma “de-
mocracia revolucionária e socialista”, que englobaria a “democracia participa-
tiva e protagônica” consagrada na Constituição de 1999.
68 América Latina: olhares e perspectivas
instância, localizado no indivíduo ou no povo desde as formulações res-
pectivamente de Locke e de Rousseau). No entanto, e como é natural, há
controvérsias acerca desses pontos. Alguns autores sugerem haver nesses
países uma tensão entre os mecanismos de democracia participativa e direta
e a democracia representativa: eles funcionariam “não de forma comple-
mentar, mas abertamente em competição” (Welp, 2009, p. 150). Outros vão
mais longe, definindo que esses mecanismos têm sido instrumentos para
o estabelecimento de democracias “plebiscitárias” e para o fortalecimento
do “hiper-presidencialismo”, principalmente na Venezuela (Penfold, 2010;
Olveral; Chaguaceda, 2010).
Poderia ser sugerido também que as transformações referidas apontam

ova
na direção da uma maior interação entre um Estado em processo de abertura
(ligeiramente mais permeável e penetrado pela cidadania) e a sociedade –
relação na qual seus setores organizados têm importante papel a cumprir,
inclusive regulamentado constitucionalmente. No entanto, mais uma vez a
relação não é tão simples. Um bom exemplo disso é a análise que García-
Guadilla (2009) apresenta dos CC. A autora aponta que os referidos orga-
nismos de participação na sua maioria são criados de “cima para baixo”;
dependem dos recursos oficiais (o que acarreta perda de autonomia); se pres-
tam mais à execução de benfeitorias locais que ao debate ou ao desenho de
políticas públicas mais gerais; dificilmente reúnem setores sociais plurais,
além de possuir dificuldades de articulação entre eles; e são acionados pelo
regime como apoios em momentos eleitorais. Defende a partir de argumen-
tos práticos e filosóficos a preservação dos mecanismos de representação,
associados aos de participação – argumentando que o regime partiria da vi-
são de que representação e participação se excluiriam, optando sempre pela
segunda. Conclui que

Os objetivos e o discurso da maior parte dos atores governa-


mentais, políticos e sociais ao redor dos CC não coincidem
com as práticas. Enquanto os objetivos e o discurso presiden-
cial falam de apoderamento, transformação e democratização,
as práticas observadas apontam na direção do clientelismo, co-
optação, centralização e exclusão devido à polarização política
(Ibid., p. 320-321).

Como se vê, os dilemas entre representação e participação e entre Esta-


do e sociedade civil seguem sendo levantados pelos analistas, e de alguma
América Latina: olhares e perspectivas 69
forma efetivamente se materializando diante de nossos olhos. No entanto,
como comentei na seção anterior, ambos não devem ser considerados dile-
mas insuperáveis – por vezes constituem falsos dilemas. De qualquer forma,
pode-se buscar uma saída intermediária a essas questões. Para isso, uma
boa chave analítica pode estar na relação entre os movimentos sociais e os
processos de refundação, desde sua configuração enquanto alternativas de
poder até a ocupação e transformação do Estado. Na sequência, faço algu-
mas sugestões nesse sentido.
Os movimentos de protesto configurados na Venezuela, Bolívia e Equa-
dor desde os anos 1980 se caracterizaram muitas vezes pela maior plura-
lidade, pulverização, estruturação em redes13 e territorialização (o barrio

Pro
venezuelano, os sindicatos rurais14, ayllus15 e juntas vecinales16 bolivianos).
Em momentos como o Caracazo venezuelano de 1989 e a derrubada do
presidente Lúcio Gutierrez no Equador em 2005 pelo movimento dos fora-
gidos17, a expressão semiespontânea foi a norma. Já no caso dos cocaleros18
bolivianos, manifesta-se forte coesão grupal e senso de coletividade. Assim,

13
No sentido proposto por Castells, ainda que muitos deles manifestem o fenôme-
no na relação entre movimentos, mas não internamente.
14
Os sindicatos rurais perderam em parte sua anterior associação com a identida-
de camponesa, passando a combiná-la com uma renovada e modernizada iden-
tidade originária, na qual o território assume um aspecto de maior centralidade.
Esses sindicatos constituíram na Bolívia uma rede nacional denominada Confe-
deração Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB),
base da fundação do MAS.
15
Estruturas indígenas comunitárias com elementos familiares estendidos e terri-
toriais – permanências e releituras de estruturas sociais pré-colombianas (basi-
camente aimaras, quéchuas e urus). Elas servem hoje de identificação e delimi-
tação para movimentos étnicos, como o Conselho Nacional de Ayllus e Markas
do Qullasuyu (CONAMAQ).
16
Associações locais de moradores, que tiveram participação nas mobilizações
contra a privatização da água e do gás nos anos anteriores à chegada do MAS
ao poder. Manifestaram-se principalmente em El Alto.
17
Movimento de protestos semi-espontâneos, formado majoritariamente pela ju-
ventude e camadas médias, e caracterizado pela convocação de mobilizações a
partir de novas tecnologias de comunicação. Seus participantes foram chama-
dos de “foragidos” pelo presidente, e acabaram assumindo a alcunha.
18
Produtores de folha de coca do trópico do Chapare (departamento de Cocha-
bamba), que se mobilizaram para se defender das políticas de erradicação do
cultivo levadas a cabo por diversos governos neoliberais desde a redemocrati-
zação do país. Formaram seis federações sindicais que deram origem em 1992 à
Coordenadora das Federações do Trópico do Chapare, e tiveram posteriormente
papel decisivo na CSUTCB e no MAS.
70 América Latina: olhares e perspectivas
apesar de algumas características comuns, nota-se a diversidade de expe­
riên­cias. Deve-se analisar como essa diversidade de movimentos se inseriu
primeiramente no processo de proposição de uma alternativa hegemônica
em suas sociedades, e posteriormente como vem participando dos referidos
processos de transformações. É provável que a natureza da relação entre as
novas lideranças políticas e configurações estatais por um lado, e os novos
movimentos sociais por outro, esteja no centro das características próprias
assumidas por cada processo.
Seguindo as sugestões de Maneiro (2006), é possível “relacionar as
transformações nas formas de vinculação do Estado com a sociedade civil
como elemento central, embora não unívoco, de explicação do surgimento

ova
dos movimentos sociais nos últimos anos em nossa região” (2006, p. 107).
Nesse sentido, o crescimento das mobilizações sociais e surgimento de no-
vas subjetividades coletivas autônomas nos três países analisados a partir da
segunda metade dos anos 1980 estariam relacionados ao fim do padrão “co-
optação-repressão” anterior19. Esse padrão se manifestava na forma de alian-
ça “Estado e partidos tradicionais/trabalhadores” na Venezuela, e “Estado/
campesinato” na Bolívia e no Equador, superadas pelas crises econômicas
e implantação do neoliberalismo dos anos 1980 e 1990. Na sequência, seria
igualmente possível analisar o papel e características atuais dos movimentos
sociais nos atuais processos de refundação a partir de como as relações Es-
tado/sociedade atualmente vêm sendo reconstruídas (desenvolvendo novos
padrões). Na Venezuela, pode-se sugerir que movimentos sociais locais e
por vezes espontâneos não foram os artífices e sustentáculos do processo
desde o principio, com o que se relacionaria certa impositividade das polí-
ticas chavistas (com sentido de cima para baixo), inclusive participando da
gestação de novos movimentos sociais mais recentes. Seguindo a termino-
logia de Mirza (2006), que classifica a relação Estado/movimentos sociais
a partir das categorias de “reflexo-dependência”, “autonomia moderada” e
“autonomia radical”20, nota-se na Venezuela certa oscilação dos movimen-

19
No período anterior, instituiu-se nesses países com maior ou menor intensidade
entre o Estado e setores mais organizados da classe operária e do campesinato
uma relação que se movia pendularmente entre dois pólos: cooptação desses
setores (por meio de políticas sociais relativamente restritas), constituídos em
atores políticos subalternos; ou repressão pura e simples.
20
“Reflexo-dependência”: o movimento se encontra travado para definir suas es-
tratégias de luta (a dependência pode dar-se em relação a partidos ou ao Esta-
do). “Autonomia moderada”: movimentos de longa existência ou representati-
América Latina: olhares e perspectivas 71
tos entre a primeira e a segunda forma (que derivariam na prática em apoio
aberto ou crítico ao Estado).
Já a Bolívia constituiria um caso distinto, na medida em que movimentos
sociais fortemente estruturados, aliados entre si a partir de redes regionais
e nacionais e construtores de um projeto contra hegemônico mais sólido
efetivamente se constituíram em artífices e sustentáculos do processo de
refundação – tendo organizado para isso verdadeiras rebeliões21 ao longo
da construção dessa alternativa contra hegemônica. Isso se relacionaria à
aproximação maior entre Estado e movimentos (com a mediação do MAS),
e a uma maior relação de mão dupla (de cima para baixo mas também de
baixo para cima). No entanto, nessa relação mais dialógica, os movimentos

Pro
preservariam boa parte de sua autonomia em relação ao Estado.
Finalmente, o Equador constituiria um caso curioso, na medida em que
no período anterior à ascensão de Correa se constituiu um movimento contra
hegemônico indigenista (com algumas características semelhantes ao pro-
cesso desencadeado na Bolívia), centralizado na Confederação de Naciona-
lidades Indígenas do Equador (CONAIE). No entanto, por razões diversas
entrou em crise antes de efetivamente se impor como alternativa de poder22.

vos de longas tradições, relativamente consolidados, que estabelecem relações


privilegiadas com forças políticas, mas preservam maior autonomia (ainda que
possam ser identificados vetores que os influenciam desde fora). “Autonomia
radical”: movimentos nos quais os interesses internos se sobrepõem às influên-
cias externas (ainda quando forças políticas se infiltram na organização); são
horizontais, desburocratizados e autogestionários.
21
A “Guerra da Água” em 2000, com o intuito de bloquear os projetos neoliberais
de privatização da distribuição de água (cujo epicentro inicial foi Cochabamba);
a “Guerra do Gás” em 2003, com a intenção de nacionalizar a exploração de
gás natural, bem como bloquear sua exportação através de um gasoduto que
passaria pelo Chile (adversário histórico do país que o privou de sua saída para
o mar na Guerra do Pacífico no século XIX), causando a derrubada do presi-
dente Sánchez de Lozada; e a derrubada do presidente Carlos Mesa em 2005,
que relutava em levar adiante o processo de nacionalização do gás. Para mais
informações, conferir Pereira da Silva (2009).
22
O movimento indígena chegou a estruturar a principal força de esquerda do
país antes da chegada de Correa ao poder (e uma das forças derrotadas por ele
em sua ascensão): o Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik – Novo
País (MUPP-NP). As dificuldades do MUPP-NP, entre outros fatores, devem-se
ao seu apoio ao golpe de 2000 contra o presidente Jamil Mahuad, que pôs em
questão a vocação democrática do partido. Em sua decadência deve ter pesado
também o apoio em posição subalterna em 2002 à candidatura de Lúcio Gutier-
rez e aos primeiros meses de seu governo, que assumiu uma política neoliberal
em contradição ao que havia proposto em sua campanha. O partido logo se afas-
72 América Latina: olhares e perspectivas
Enquanto isso, Correa chegou ao poder como tradutor dos anseios de um
movimento opositor difuso e semi-espontâneo, um amálgama de setores
oriundos de diversas correntes de esquerda, de cidadãos independentes e de
organizações e ONGs que lutavam por ética na política e contra a “partido-
cracia”, muitos dos quais tomaram parte no movimento cidadão que forçou
a renúncia de Lucio Gutiérrez à Presidência em 2005. Ou seja, um proces-
so com algumas características semelhantes ao ocorrido na Venezuela. No
Equador, o novo Estado assume características verticalistas no diálogo com
movimentos e setores mais pulverizados, enquanto o movimento social mais
organizado lhe faz oposição aberta. Em suma,

ova
O Presidente Rafael Correa é eleito como alternativa tanto à
velha oligarquia quanto à nova direção popular, pelo que chega
ao poder politicamente isolado. (...) A nova Constituição equa-
toriana é muito avançada, garante o reconhecimento de direitos
indígenas e cria muitas formas de participação popular, mas o
Presidente está enfrentado com uma parte substantiva do mo-
vimento indígena na visão do desenvolvimento e da represen-
tação política. O avanço simbólico não se traduz até aqui em
democratização para os de baixo devido a esta peculiar con-
frontação de projetos, enquanto uma sociedade civil urbana,
muito heterogênea, aguarda o desenlace. Observa-se uma crise
de representação política não resolvida (Olvera; Chaguacceda,
2010, p. 3).

Assim, quanto ao papel atual dos movimentos sociais, estes tendem a


encontrar maior espaço para atuação no caso boliviano, ainda que por vezes
com a intermediação do MAS – instrumento híbrido, cujas características
de partido (de governo) tendem a sobrepujar suas características de rede
ou instrumento político de movimentos sociais. Mais uma vez seguindo a
terminologia de Mirza (2006), aqui os movimentos sociais parecem ainda
preservar razoáveis graus de autonomia (moderada ou mesmo radical em
alguns casos) em relação ao Estado, com o qual negociam, realizam acor-
dos, mas ao qual aparentam não se submeter – por vezes o contestam e
provavelmente o influenciam. Quanto à Venezuela, a equação poderia se
inverter, especialmente a partir de 2006, quando o Estado, além de promo-

tou do governo. No entanto, sua imagem de outsider (importante na ascensão de


esquerdas em países que vivenciaram colapsos de suas instituições e sistemas
partidários) certamente foi abalada.
América Latina: olhares e perspectivas 73
ver a participação e a construção de movimentos sociais como fez desde o
princípio do processo, passou a procurar centralizar a participação através
dos CC, em relação direta com a Presidência da República. Naquele país,
os movimentos sociais progressistas tenderiam a assumir assim posições de
dependência ou no máximo de autonomia moderada em relação ao Estado.
Por fim, no Equador a participação ainda permanece em estágios iniciais de
regulamentação e implantação. No entanto, pelas características de Correa e
sua base de apoio, poder-se-ia sugerir uma tendência de aproximação com a
trajetória venezuelana. Nos três casos, o que se observa quanto ao tema da
participação de setores sociais organizados poderia ser estendido à partici-
pação da cidadania em geral.

Pro
Trata-se até o momento apenas de tendências, bem como de uma questão
de ênfase. Na Venezuela não há um domínio das reivindicações populares
por parte da política estatal, mas sim uma combinação dialética entre as
iniciativas vindas “de cima” e as mobilizações “desde baixo” – ainda que
desigual (Nicanoff; Stratta, 2008). Da mesma forma, na Bolívia não se de-
senvolveu um Estado dos movimentos sociais, mas apenas uma interação
menos desequilibrada entre ambos, e maior protagonismo e direcionalidade
desde baixo. Como essa tensão entre autonomia e subordinação popular será
resolvida é uma questão em aberto. Se há uma combinação assimétrica entre
a mobilização popular desde baixo e os incentivos a partir do poder, não se
pode aferir a partir dela nenhuma concepção simplista acerca da pureza e
radicalidade popular oposta aos vícios e manipulações estatais. Os proces-
sos refundadores são o resultado complexo de diversos fatores e correlações
de forças, nos diferentes espaços sociais e entre distintos atores coletivos
que interagem nesse processo. Em todos os setores há a intenção de alguns
atores em aprofundar o processo contra o desejo de outros de congelá-lo, e
alguns deles podem assumir posições distintas de acordo com o momento e
o tema (Seabra; Pereira da Silva, 2011).

Reflexões finais
Após essa análise preliminar que procurou discutir a natureza dos re-
gimes refundadores a partir da avaliação da relação desses Estados com a
sociedade – tomando especialmente os movimentos sociais como elementos
para compreender essa interação –, é chegada a hora de propor algumas
chaves analíticas para seguir abordando o tema, bem como uma agenda de
investigações. Quanto à relação desses novos regimes com a democracia
74 América Latina: olhares e perspectivas
(a natureza democrática ou de outro tipo desses regimes), sugiro que vão
se constituindo esquemas basicamente democráticos com resultados dúbios,
de alta intensidade em alguns aspectos e baixa em outros, na ordem inversa
dos regimes aos quais esses processos de refundação vêm substituindo. Se
um dado corpo teórico é escolhido para analisá-los, os resultados são alar-
mantes. Já se um corpo teórico distinto for delimitado, é provável que as
respostas sejam bem mais alvissareiras. Se a intenção aqui exposta é partir
de uma construção teórica mais complexa e plural, só poderemos encontrar
uma resposta mais matizada – que evidentemente vai se afastar tanto das
condenações apriorísticas a esses regimes, quanto de um esperançoso apoio
carregado de wishful thinking.

ova
Já no que tange a variações de acordo com o caso nacional, a relação
Estado/sociedade na Venezuela parece de natureza distinta ao da Bolívia.
Como foi dito, no primeiro o Estado (e a liderança heroica materializada em
Chávez) assume maior iniciativa desde o início do processo, aprofundando a
participação em diversos níveis e aspectos, mas nem sempre transferindo ca-
pacidade decisória quanto ao desenho de políticas públicas nacionais. Já no
segundo, o Estado reformulado parece mais permeável à pressão e participa-
ção da sociedade (em especial da organizada), e aqui a iniciativa parece estar
ainda relativamente dividida. Já o caso equatoriano, pelas razões expostas
anteriormente, constituiria um caso ainda em definição, mas por suas carac-
terísticas tendencialmente próximo às formas de interação Estado/socieda-
de manifestadas na Venezuela. No entanto, sugestões como essas deverão
ser testadas empiricamente. Para isso, caberá avaliar os projetos que vão se
impondo nesses países, quais aspectos da democracia são criticados, rejei-
tados, fomentados nos processos transformadores, tanto por parte do Estado
quanto dos movimentos políticos governantes e movimentos sociais que os
apoiam. Caberá também avaliar as novas instituições e reformas levadas a
cabo nos últimos anos no campo da representação, participação e delibera-
ção direta. Finalmente, deverá ser observado com maior profundidade como
se dão as relações entre Estado, sociedade organizada e cidadania difusa.

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América Latina: olhares e perspectivas 77


Pro

78 América Latina: olhares e perspectivas


Dependência, crise e novas configurações
do Estado na América Latina

Luisa Maria Nunes de Moura e Silva 

E
ova
mergem, na América Latina, novas configurações e regulações do
Estado resistentes aos efeitos de cinco séculos de dominação eco-
nômica, política e ideológica dos países colonizadores, no início,
dos países parceiros comerciais em seguida e dos grandes monopólios em
expansão desde os países de desenvolvimento capitalista mais avançado
mais recentemente, nos séculos XX e XXI.
Esses países, com estas novas formas de Estado, fazem uma tentativa
de superar as graves injustiças sociais, as contradições, os desajustes e os
desequilíbrios na economia, na instalação e exercício do poder, na organiza-
ção e na participação social, isto é, na “democracia”. Estas situações foram
proporcionadas e perpetuadas em sua história pela visão cosmológica dos
centros da economia mundial que, ao longo de sua dominação, desestrutu-
raram as sociedades originárias latino-americanas e as reestruturaram à sua
imagem e semelhança, isto é, à luz do nascente capitalismo europeu e de
suas necessidades posteriores de desenvolvimento.
Estas novas configurações do Estado na América Latina serão aqui ana-
lisadas a partir da concepção critica da Teoria da Dependência que pre-
coniza que, nas situações de dependência, por suas relações subordinadas
às economias centrais e aos interesses das suas classes dominantes, ficam
comprometidas a soberania e a democracia nesses países, até para as bur-
guesias locais (Marini, http://www.marini-escritos.unam.mx/; Silva, 1989).
Esta teoria também considera que não se pode entender o Estado moderno
sem seu ponto de apoio histórico, mas que este Estado, hoje, representará
um poder diferente daquele de sua origem, visto que está erguido sobre
pressupostos econômicos e sociais distintos, articulados não mais em re-
lações sociais coo­pe­rativas e sim competitivas, o que o faz isolar as suas
América Latina: olhares e perspectivas 79
fronteiras geográficas e reivindicar a soberania sobre seu território (Bona-
vides, 2010).
Por outro lado, a cada período no qual as relações econômico-sociais se
esgotam por meio de uma crise que debilita o poder dos Estados dos países
centrais e acirra as contradições entre elas, abre-se espaço à emergência
de novas classes sociais, locais e regionais que passam a erigir blocos de
poder inseridos no padrão de reprodução regional e nas contradições entres
os níveis locais de avanço das forças produtivas. Esta condição produz um
cenário de ascensão das forças sociais no qual elas assumem, não apenas um
protagonismo como um espaço político no jogo democrático que é recupe-
rado precisamente a partir de sua história.

Pro
Configurações locais do poder: poder comunal
e comunismo cristão – Ayllu e República dos Guarani
Tomaremos, nesta análise, dois exemplos das estruturas de poder exis-
tentes originariamente na América do Sul: os ayllu no mundo andino e a
república comunista” dos guaranis, os quais estão na base das “novas” con-
figurações do Estado na América Latina e com ela interagem.
Os ayllu, em todas as suas dimensões sociais (formas de propriedade e
produção econômica, organização social e estruturas de poder), linguísticas
e artísticas, guardavam semelhanças com povos da antiguidade, segundo
Bautista Saavedra (Saavedra, 1987), que cita os clássicos da Sociologia para
desenvolver esta tese. Do México aos países da América do Sul, sobretudo
os povos ocupados pela Espanha, guardavam também, entre si (caso dos
incas, quechua, aimaras e aztecas), grandes semelhanças.
Vivendo na fase de comunidade primitiva, o que os assemelhava era o
fato de possuírem um sistema produtivo comunitário, de baixa tecnologia e
de serem formados pela família consanguínea típica da gens, de onde vêm
a proceder outros desdobramentos da organização social e de poder: o man-
do hereditário – a linhagem – era credenciado pela descendência do chefe
real comunal. A família consanguínea era o núcleo base do tecido social
(produção, distribuição e poder) e o ayllu parece ser a gens primitiva das po-
pulações do centro do continente sul-americano. Ele implicava, pois, numa
relação de parentesco aristocrático e patronímico.
Entretanto, o ayllu não permaneceu cristalizado em sua estrutura
primitiva familiar, mas se transformou sucessivamente em clã e comunidade
de aldeia. Congregados e misturados, os ayllu formaram comunidades terri-
toriais e povos. Num período posterior em que se organizam os impérios na
América Latina, o ayllu ressurge, não nas suas características comunitárias
primevas, mas como agrupações nas famílias aristocráticas que se apoderam
do governo da nação (Portugal, 2009).
O que restou das formas de organização comunais comunitárias dos im-
périos não desapareceu por completo, embora os padrões de reprodução e,
portanto, as formas de estado do capitalismo ocidental tenham se sobrepos-
to às formas locais de estrutura do poder, esvaziando-as em alguns casos,
desconhecendo-as em outros ou ainda eliminando-as por completo, conser-
vando apenas alguns traços do antigo mando com conotações culturais.
Quando os conquistadores chegaram, aproveitaram-se, para exercer a sua

ova
dominação, da estrutura dos impérios Azteca e Inca, estabelecendo um sis-
tema de tributação ao rei de Espanha cujo topo ficava na Península Ibérica e
cuja base era o conjunto das comunidades gentílicas da América espanhola.
Conseguiram, dessa forma, alianças importantes com os povos da base desta
estrutura para derrubar os imperadores e, com eles, todo o sistema político e
de produção baseado no ayllu imperial.
Os conquistadores espanhóis e portugueses, além da estrutura de domina-
ção estabelecida do México aos países andinos pelos impérios Azteca e Inca,
encontraram também os guarani, que ocupavam toda a área compreendida
entre os confins do Equador e o Rio da Prata e quase todo o Brasil e ainda o
Uruguai e as províncias de Corrientes e Entre-Rios na Argentina. É costume
dizer-se que sua pátria é a região onde hoje se encontra o Paraguai porque a
palavra Paraguay designava, no século XVI, toda a bacia dos três grandes
rios que convergem para o Prata, até os Andes, do Chile ao Peru, bastante
para o interior da Bolívia, do Brasil e do Uruguai e mesmo dos Pampas, ao
sul de Buenos Aires, até a longínqua “Terra de Magalhães”.
Dizem os historiadores não ser duvidoso que essa nação tenha sido a
mais numerosa da América do Sul. Os guarani formavam um grupo étnico
de muitos milhões de indivíduos, distribuídos de maneira mais ou menos
densa num espaço de tamanho superior ao da Europa inteira.
Antes da chegada dos jesuítas, os guarani se organizavam em função
da religião. Acreditavam num deus único que não cultuavam e a quem não
ofereciam sacrifícios, mas que estava disperso por toda a natureza. Mesmo
porque não existiam sacerdotes nas tribos. As doenças eram tratadas por
médicos-feiticeiros que utilizavam o conhecimento natural para tratamentos
baseados em magia.
América Latina: olhares e perspectivas 81
Cada tribo tinha um cacique como chefe, cuja autoridade era praticamen-
te absoluta ainda que frágil e à mercê de uma reação coletiva da tribo. Os
caciques eram independentes uns dos outros. Caso excepcional é o narrado
por Charlevoix (Charlevoix, apud Lugon, 1977, p. 24), em que “cerca de
quinhentas famílias estabelecidas às margens do rio Uruguay eram dirigidas
por vários caciques, todos vassalos de Niezu, o cacique mais poderoso”.
As diversas tribos viviam em isolamento social, embora fossem nômades.
Mesmo assim, puderam conservar a mesma língua no vasto território em que
habitavam.
Os colonizadores chegaram e, apesar de alguns contatos preliminares
com os povos habitantes índios terem sido pacíficos, devido à diversida-

Pro
de de estágios civilizatórios, logo empreenderam uma conquista belicosa e
sanguinária, submetendo-os às armas e saqueando os tesouros que pudessem
encontrar, tentando escravizá-los.
Os guarani não aceitavam a escravidão, preferindo matar-se a se
tornarem escravos. Tendo em vista as atrocidades que eram cometidas e os
rumos descontrolados da conquista, os jesuítas que chegaram junto com os
primeiros colonizadores e outras ordens missionárias receberam aos seus
cuidados a evangelização dos índios por parte de Carlos I de Espanha e de
Dom João III de Portugal. Os jesuítas, então, lutaram contra os poderes
centrais e militares e se impuseram contra a escravidão dos guarani, con-
seguindo que reis e papas legislassem a favor dos índios, mas com pouco
efeito, pois o controle sobre as províncias distantes era muito difícil, e os
abusos continuaram ao longo de toda a história da colonização.
Possivelmente por isso, e tendo como garantia o respeito à própria or-
ganização e cultura, os guarani aceitaram ser dirigidos pelos jesuítas na
formação das reduções ou missões jesuíticas, um ensaio cristão da utopia da
sociedade harmoniosa: a República Guarani.
O sistema das missões tem suas referências no contexto da política colo-
nial que os países poderosos da Europa criaram para a América. As reduções
foram aldeamentos indígenas organizados e administrados pelos jesuítas no
Novo Mundo, como parte de sua obra “civilizatória e evangelizadora”. Cria-
das em toda a América colonial, tinham como objetivo principal constituir
uma sociedade com os benefícios e qualidades da sociedade cristã europeia,
mas sem os seus vícios. Para conseguirem seu objetivo, os jesuítas desen-
volveram técnicas de contato e atração dos índios e logo aprenderam sua
língua, e a partir disso os reuniram em povoados que por vezes abrigaram
milhares de nativos.
82 América Latina: olhares e perspectivas
E assim criaram as estruturas das missões/reduções, partindo das estru-
turas comunais, as quais ficaram assim organizadas: eram em larga medida
autossuficientes, dispunham de uma completa infraestrutura administrativa,
econômica e cultural que funcionava num regime comunitário, em que os
nativos eram educados na fé cristã e ensinados a criar arte às vezes com
elevado grau de sofisticação, mas sempre em moldes europeus. Depois de
um início assistemático marcado por tentativas frustradas, como é o caso da
tentativa com os índios da América do Norte e Canadá pelos jesuítas fran-
ceses, em meados do século XVII o modelo missioneiro já estava bem con-
solidado e disseminado por quase toda a América (Lugon, 1977), mas teve
de continuar enfrentando a oposição de setores da Igreja Católica que não

ova
concordavam com seus métodos, do restante da população colonizadora,
para quem os índios não valiam a pena o esforço de cristianizá-los, e os ban-
dos de caçadores de escravos, que aprisionavam os índios para submetê-los
ao trabalho forçado na economia colonial exploradora e destruíram diversos
povoados, causando muitas mortes.
Contribuiu muito para a dissolução das missões na América do Sul a
Guerra Guaranítica (1750-1756), ou seja, violentos conflitos que envolve-
ram os índios guarani e as tropas espanholas e portuguesas no sul do Brasil
após a assinatura do Tratado de Madri, em 1750. Os índios guarani da região
dos Sete Povos das Missões recusam-se a deixar suas terras no território do
Rio Grande do Sul e a se transferir para o outro lado do rio Uruguai, con-
forme ficara acertado no acordo de limites entre Portugal e Espanha. Com o
apoio parcial dos jesuítas, no início de 1753 os índios guarani missioneiros
começam a impedir os trabalhos de demarcação da fronteira e anunciam a
decisão de não sair da região dos Sete Povos. Em resposta, as autoridades
enviam tropas contra os nativos, e a guerra eclode em 1754. Um dos prin-
cipais líderes guarani é o capitão Sepé Tiaraju. Ele justifica a resistência
ao tratado em nome de direito legítimo dos índios em permanecer nas suas
terras. Comanda milhares de nativos até ser assassinado na Batalha de Cai-
boaté, em fevereiro de 1756. Chega ao fim a resistência guarani.
Se o sistema missioneiro buscou introduzir o cristianismo e um modo de
vida europeizado, integrou, porém, vários dos valores culturais dos próprios
índios, e estava baseado no respeito à sua pessoa e às suas tradições grupais,
até onde estas não entrassem em conflito direto com os conceitos básicos na
nova fé e da justiça. O mérito e a extensão do sucesso dessa tentativa têm
sido objeto de muito debate entre os historiadores, mas o fato é que foi de
América Latina: olhares e perspectivas 83
importância central para a primeira organização do território e para o lan-
çamento das fundações da sociedade americana como hoje ela é conhecida.
Mesmo com vários problemas a vencer, as missões como um todo pros-
peraram a ponto de em meados do século XVIII os jesuítas se tornarem
suspeitos de tentar criar um império independente, o que foi um dos argu-
mentos usados na intensa campanha difamatória que sofreram na América e
na Europa e que acabou por resultar na sua expulsão das colônias a partir de
1759 e na dissolução da sua Ordem em 1773. Com isso, o sistema missionei-
ro entrou em colapso, causando a dispersão dos povos indígenas reduzidos.

Independência e Estados soberanos dependentes consentidos.

Pro
Estados do bem-estar social, as ditaduras e seu fim, o neoliberalismo
Se analisarmos o período de “descobrimento” e colonização do “novo
mundo” dentro da lógica das necessidades de ocupação dos espaços mun-
diais para garantir a acumulação no capitalismo nascente na Europa, ainda
em sua fase mercantil, podemos, portanto, compreender a lógica de implan-
tação, nas novas terras, de estruturas políticas e militares que garantissem o
controle dos processos de produção, acumulação de riquezas e sua entrega
aos tesouros dos países europeus.
As burguesias nascentes nas regiões ocupadas, tendo como referência
as magnas revoluções econômicas e políticas da época, como a revolução
industrial na Inglaterra, a da independência norte-americana, a revolução
francesa e a emancipação das colônias espanholas nas Índias, bem como a
instalação da corte portuguesa no Brasil (que por algum tempo alimentou a
esperança espanhola da instalação de um Império do Prata), e ainda a vitória
da ciência e do pensamento racional, e com ela o liberalismo econômico e
político, empreendem um ciclo de lutas pela implantação de estados nacio-
nais como espaço próprio e particular para a articulação dos seus interes-
ses econômicos e políticos. Criar uma nação é sempre uma luta árdua, mas
que encontra nas ações dos próprios dominadores elementos que convergem
para o mesmo fim antes que esse movimento seja percebido e se levantem as
colossais forças para derrubá-lo. Foi o caso dos esforços pela unidade e co-
esão das Índias Ocidentais levado às últimas consequências, sobretudo pela
Espanha, na qual se apoiaram as colônias nas suas lutas pela independência.
Convinha à Espanha e Portugal manter seus interesses comerciais, no que
foram solapados pela Inglaterra e Estados Unidos quando editaram tratados
impeditivos ao desenvolvimento industrial das colônias emancipadas, prati-
84 América Latina: olhares e perspectivas
caram uma política externa dúbia ou invadiram e sabotaram os esforços pela
unidade continental.
É caso exemplar a luta de Simón Bolivar para estabelecer a Pátria Grande
que, mesmo tendo conseguido inicialmente constituí-la (República da Gran
Colombia), foi sabotado pelos interesses colonizados das burguesias locais
e pelas manobras norte-americanas para instalar sua hegemonia política e
militar nas antigas colônias, ideologia esta contida na Doutrina Monroe.
Latino-americanismo versus pan-americanismo foi o cenário desenha-
do no Congresso Anfictiônico do Panamá quando, e apesar dos boicotes
norte-americanos, se decidiu pela unidade latino-americana. Mas depois de
muitas tentativas frustradas de unidade e integração, ao final do século XIX

ova
começaram as conferências pan-americanas lideradas pelos Estados Unidos
e retomadas ao final da II Guerra, que resultaram na construção da OEA a
partir do escritório econômico mantido em Washington (Martinez, 2006).
Em meio à grande crise estrutural do capitalismo, quando ocorreram duas
guerras mundiais e uma grande depressão (1914-1945), nasceu um novo pa-
drão de reprodução do capital a nível mundial comandado pelos países cen-
trais, sobretudo pelos EUA, mas muitos países periféricos aproveitaram-se
da crise para promover, com base no uso do Estado como agente econômico,
a implantação de políticas econômicas de substituição de importações, o
que propiciou o desenvolvimento de bases industriais autônomas nacionais
a partir da descoberta e utilização do potencial de matérias primas de cada
região (Souza, 2009).
Entretanto, o movimento comercial ainda era desfavorável aos países
agora chamados de “subdesenvolvidos” (diga-se não industrializados e com
suas economias regionais fortemente baseadas nas monoculturas do açúcar,
café e bananas) ou “Terceiro Mundo”, e era cada vez maior o distanciamento
entre o desenvolvimento econômico e social dos povos europeu e norte-
-americano e o dos povos latino-americanos, do México à Patagônia. Este
fato, bem como a constatação – no caso do Brasil – de diferenciações regio-
nais internas levou organismos internacionais a criarem políticas especiais e
organismos estatais para incentivarem a industrialização da América Latina.
Foi o caso da CEPAL em nível da América Latina e da SUDENE no Brasil,
capitaneadas respectivamente por Raúl Prebisch e Celso Furtado.
Embriagadas pelo sucesso destas políticas, as burguesias locais acredi-
tavam no desenvolvimento de 50 anos em 5, mas sucumbiram ao canto da
sereia da doutrina de segurança norte-americana que dizia pretender defen-
América Latina: olhares e perspectivas 85
der o continente da ameaça comunista num mundo bipolarizado hegemoni-
camente (Silva, Pinto; Souza, 2008). Não estavam tão convictos nem con-
seguiram suportar o peso da responsabilidade de serem os porta-vozes e as
correias transmissoras desta ideologia em sociedades em que a democracia
vicejava e o bem-estar se estendia à população através de estados desenvol-
vimentistas. Coube aos militares, treinados nos Estados Unidos e sentinelas
avançadas na defesa das fronteiras físicas e ideológicas, o papel de reprimir
os movimentos populares e abortar os processos nacional-desenvolvimen-
tistas que tanto desagradavam ao império norte-americano, pois criavam
obstáculos à expansão dos interesses dos seus capitais. Iniciava-se o ciclo
das ditaduras na América Latina.

Pro
Após o ciclo das ditaduras militares na América Latina, a reconquista
da democracia nos principais países da região manteve o Estado refém dos
interesses vinculados ao capital monopólico internacional, quando se imple-
mentou o programa preconizado pelo Consenso de Washington, nos moldes
da doutrina neoliberal, isto é, o Estado deixaria de cumprir o seu papel de
garantidor do bem-estar social para ficar omisso e assim favorecer aberta-
mente a “cidadania” proposta pelo mercado (Silva, in Motta, 2006).
Este foi um quadro que a restauração da democracia nos países latino-
-americanos não conseguiu reverter, pois ela se deu em meio à crise mundial
dos anos 1970 e à queda do mundo socialista e o fim da bipolarização. E
ainda, segundo Sader, “o neoliberalismo sobrevive a si mesmo pela incapa-
cidade da esquerda, até aqui, em construir formas hegemônicas alternativas
para sua superação” (Sader, in Sader; Gentili, 1995, p. 35).

Crise do Estado na América Latina e suas novas configurações


Mas já no início do século XXI o povo, os intelectuais (sobretudo os no-
vos teóricos da dependência) e os partidos políticos de esquerda se aperce-
beram o quanto esse Estado era transportador da crise cíclica do capitalismo
mundial e pela ideologia e soluções neoliberais que a acompanharam. Seu
papel passa então a ser questionado pela sociedade em movimento.
Esgotado, desde os anos 1970, o padrão de reprodução do capitalismo
mundial baseado na extração do petróleo como combustível, o Estado capi-
talista havia abdicado de sua função social de proteger seus cidadãos para
estimular as iniciativas do mercado que se autodefinia como competente re-
gulador das relações econômicas e responsável pelas relações socioculturais
na sociedade em seu lugar.
86 América Latina: olhares e perspectivas
Muito embora o desmonte que o ajuste neoliberal produziu no Estado
brasileiro não tenha se completado (Silva, in Motta, 2006), no restante da
América Latina, especialmente no México e Argentina, a crise e a política
neoliberal produziu efeitos devastadores, concentrando a renda e crian-
do ou agravando situações de pobreza e de desigualdades sociais (Soares,
2000).
Entretanto, avançavam por toda a América Latina, nos anos 1980, as lu-
tas pró-reformas, no sentido de ”modernizar” as estruturas face ao imenso
desajuste social produzido no continente (Soares, 2000) pelas restrições aos
gastos sociais recomendados pelo FMI – Fundo Monetário Internacional. O
FMI, na teoria, “ajudava os países latino-americanos a equacionar sua dívi-

ova
da pública, mas na prática intermediava a interferência do capital financeiro
nas políticas públicas de cada país. A dívida externa e a eterna dependên-
cia dos financiamentos deste organismo permitiam a sua interferência no
desmonte do Estado e até na política externa de cada um desses países no
sentido de não permitir que as lideranças latino-americanas se firmassem e
levassem adiante as propostas de integração regional decisivas para alcançar
as reformas propugnadas e o desenvolvimento da região.
O poder estatal também passa por uma crise de legitimidade, quando
é questionada a ausência da participação popular. Passa a ocorrer então
um processo de fortalecimento do Estado que muitos autores classificam
de “novo nacionalismo” e outros afirmam se tratar da reinvenção da nação
(Monasterios; Stefanoni; Do Alto, 2007).
Mas este é um processo que passou inicialmente por esforços no sentido
de fortalecer os organismos de integração em marcha na América Latina
(Michelena, 1977) como forma de afirmar suas soberanias e, posteriormen-
te, já no século XXI, por uma insatisfação popular e critica ao próprio mo-
delo de Estado, classificado de pós-neoliberal.
A subida então ao poder de lideranças populares como o operário Luiz
Ignácio Lula da Silva e do cocalero Evo Morales explicitam este momento:
uma revolução simbólica que revolve o papel de submissão que a sociedade
reservou historicamente às classes populares e que permite uma transforma-
ção econômica e no papel do Estado indispensável à mudança das condições
de vida de milhões de latino-americanos empobrecidos (Monasterios; Stefa-
noni; Do Alto, 2007).
Na Venezuela, Hugo Chavez propõe o socialismo do século XXI, recupe-
rando o bolivarianismo e fazendo dele a bandeira para o processo de avanço
América Latina: olhares e perspectivas 87
da sociedade venezuelana. As dinâmicas na qual se apoia (anti-imperialis-
mo, revolução democrático-burguesa, contrarrevolução neoliberal e socia-
lismo no século XXI) caracterizam uma oposição à doutrina Monroe e aos
interesses da União Europeia para privilegiar os interesses da Venezuela: a
construção de um estado popular e o favorecimento ao desenvolvimento das
forças produtivas.
Essas propostas se chocam com amplos e arraigados interesses no cam-
po, onde o choque com os latifundiários teve como resultado o assassinato
de lideranças camponesas, e com poderosos interesses monopólicos nacio-
nais e transnacionais, o que produziu várias tentativas de golpe de estado
naquele país. O povo defendeu o governo de Chávez. Graças à sua liderança,

Pro
na Venezuela o Estado se apoia na sua principal empresa, a PDVSA, para
desenvolver políticas públicas, redistribuindo a riqueza do petróleo. Levan-
do, através das Missiones, benefícios à população em diversas áreas como
saúde, educação, habitação e gerando novas relações sociais com base na
cooperação desenvolvida em pequenas empresas sociais/cooperativas.
No Brasil, a devastação econômica e social produzida pela abertura da
economia e a diminuição do Estado levaram a uma onda de mobilização
social que deságua na eleição de Lula da Silva. O novo governo, ao mesmo
tempo em que mantém aspectos fundamentais da política econômica an-
terior, sobretudo em seus aspectos financeiros, inicia um processo de mu-
dança, ao praticar uma política externa independente, fortalecer o processo
de integração latino-americana, recuperar o papel do Estado na economia e
melhorar a distribuição da renda através de políticas públicas de erradicação
da fome e da miséria (Souza, 2008).
Já nos países andinos, a retomada da força política das comunidades indí-
genas, cuja autonomia é reconhecida, leva a um pacto social e de poder que
se configura em Estados Plurinacionais, em que se dá a simbiose dos pode-
res comunais com o poder do Estado Nacional através de Constituições que
garantem, via políticas públicas, a participação popular no poder do Estado
(Rocha, 2008). O entendimento da chamada “questão indígena”, trazida ao
debate do Estado pela vertente dos direitos humanos, é crucial na análise
destes casos.
Ocorre que os territórios historicamente ocupados pelas comunidades
(ayllu) eram cobiçados e, tendo sido destruídas as estruturas organizativas
originárias a partir da colonização, se sobrepuseram agentes que passaram a
cobrar impostos para o Estado nacional edificado nos moldes do estado mo-
88 América Latina: olhares e perspectivas
derno europeu. O fato de serem produtores rurais e se sentirem expropriados
faz com que se estruturem em organizações modernas como sindicatos e
tenham seu próprio secretário geral, como parte do sistema sindical (Rocha,
2008)
No Peru, a exemplo da Bolívia, quando a lei da participação popular em
1994 possibilitou a assimilação de novas autoridades com diferentes fun-
ções dentro do ayllu, foram criadas personagens e instituições como o presi-
dente da junta escolar e o comitê de vigilância.
Mais recentemente, com o processo de formação de Distritos Indígenas,
quando se iniciou a recuperação do território e das titulações originárias dos
ayllus, foi incorporado o subprefeito e ainda hoje seguem sendo incorpora-

ova
dos outros líderes ao sistema de poder do ayllu, desta vez em simbiose com
o poder do estado nacional. (Grondin, 1978; Rocha, 2008).
Da estrutura social e política moderna dos ayllu fala o PIEB – Progra-
ma de Investigación Estratégica da Bolívia: “El sistema de alianzas sócio-
-políticas y econômicas de las famílias isoseñas se apoya em três pilares
fundamentales: La autonomia familiar, uma estructura horizontal de toma
de decisiones y el control social” (Rocha, 2008, p. 74).
Esta estrutura garante que, na relação com o Estado nacional ou, com
mais precisão, no processo de simbiose com o Estado nacional, esta organi-
zação local consiga ter espaço reivindicatório para as demanda das popula-
ções originárias e, mais ainda, que permita que elas consigam fazer de sua
organicidade uma ferramenta da democracia e tenham uma expressão im-
portante na conquista de políticas públicas que favoreçam essas populações.

Conclusões
Entretanto, na prática esta estrutura local de poder complementa e se
subordina às estruturas do Estado capitalista moderno que concerne ao siste-
ma capitalista dependente instalado regionalmente, e portanto, mantém sob
limites o exercício local da cidadania, da democracia e do poder.
Afirma Álvaro Garcia Linera (2008), eminente sociólogo latino-america-
no e atualmente vice-presidente do Estado Plurinacional da Bolívia que isso
ocorre porque a história da luta de classes pelo poder do Estado e sua ocu-
pação neste país andino está atravessada por diversas cosmovisões, desde
as originárias às mais pragmáticas, passando pelas teóricas, estas, a seu ver,
permeadas por interpretações doutrinárias de concepções ideológicas euro-
cêntricas, embora críticas do sistema de organização do Estado capitalista.
América Latina: olhares e perspectivas 89
Segundo sua análise, as novas estruturas que caracterizam o Estado bo-
liviano, exemplares para os países andinos onde os povos originários ao
longo dos séculos e das lutas pelo poder do Estado refizeram e readquiriram
a soberania estão baseadas na noção de autonomia indígena, concebida por
esses povos originários (aymará, quéchua, mapuche) a partir da sua própria
cosmovisão e não da visão externa do capitalismo moderno e de seu Estado.
Fundamenta-se na existência de um sistema de governo próprio que tem
força e que conserva valores, normas e princípios próprios e se contrapõe
a esquemas de autonomia propostos por regiões mais industrializadas que
cultivam a autonomia como um sistema departamental baseado na soberania
sobre seus territórios. “La autonomia indígena nos conviene a todos porque

Pro
no es egoísta como la de ellos que solamente quiere para ellos la economia,
todo. Las autonomias indígenas quieren distribuir para todos la economia
nacional” (Rocha, 2008, p. 105).
Esta forma de pensar as autonomias indígenas, que são os ayllu em sua
forma contemporânea, produtores rurais inseridos nas relações sociais ins-
tituídas pelos Estados dependentes, reafirma um tipo distinto de soberania,
mas rechaça o fechamento de fronteiras que impediria a passagem e a livre
circulação de indígenas, assinala uma interdependência baseada na sobe-
rania alimentar e o intercâmbio de produtos entre os povos e comunidades
indígenas, permitindo uma autonomia compartilhada e solidária, reivindica
territórios como direito dos povos indígenas originários, e desenha a auto-
nomia desde sua própria identidade cultural.
Ao se desenharem, os novos pactos de poder na América Latina assumem
o caminho percorrido historicamente, entendem que o sistema econômico e
político europeu que aqui deitou raízes precisa ser superado em razão da ex-
ploração das riquezas locais e da sua drenagem para o exterior e da dependên-
cia que estabelece com os países centrais e fazem dele uma ferramenta para
a construção de uma via própria de organização de um Estado democrático
à imagem e semelhança das qualidades e vocações dos seus próprios povos.
Entretanto, longe de se cristalizarem, passam a obedecer a uma outra
lógica de estruturação: a convivência e simultaneamente o confronto entre o
poder local, seja ele das comunidade originárias ou das classes subalternas,
e o poder nacional, este sujeito às tensões do andamento do desenvolvimen-
to do capitalismo dos países centrais (seus auges e suas crises) e às pressões
dos interesses dos grandes monopólios em expansão que dele se apoderam
para realizar os seus objetivos econômicos: o lucro.
90 América Latina: olhares e perspectivas
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92 América Latina: olhares e perspectivas


Redefinindo fronteiras: música negra
na diáspora e as relações com as
práticas religiosas no rap gospel1

Angela Maria de Souza

O
rap, gênero musical que faz parte do Movimento hip hop, surge

ova
no encontro de prática músico-culturais nos Estados Unidos no
final da década de 1970 entre jovens imigrantes de países latino
americanos, jamaicanos e negros estadunidenses. Nesta confluência de ex-
periências musicais o rap vai ganhando forma nos EUA e se espalha pelos
mais diversos países. Em cada contexto nacional, regional, étnico-racial,
religioso esta prática musical ganha novas formas e é ressignificada enquan-
to música que possui uma perspectiva política, que propõe mudanças de
posicionamentos e representações. O rap tornou-se uma música que além de
reivindicar um espaço político, propõe a desconstrução e consequente rede-
finição de olhares sobre negros, indígenas, mulheres, moradores de perife-
rias e favelas etc., questionando processos de discriminação, expropriação,
deslocamento, exploração.
A América Latina, enquanto espaço geográfico-cultural é marcada por
hibridismos, composto por diásporas (HALL, 2006), recortada por trajetó-
rias que se cruzaram em complexas práticas performático-culturais, entre as
quais está a produção musical. Refletir sobre performances (Bauman, 1977)
latino-americanas nos remete a narrativas que tomam a forma de musicali-
dades, de artes visuais, de corporalidades, as quais transcendem fronteiras e
criam novos cenários, novos posicionamentos políticos e estéticos.
O contexto de diáspora redefiniu fronteiras e criou novos fluxos e cone-
xões, o que refez práticas estético-musicais em contextos nacionais e locais
no continente americano. Estas musicalidades expressam-se em performan-
ces que são construídas nestas relações entre música e negritude nas améri-

1
A pesquisa aqui apresentada foi realizada durante o doutorado no PPGAS -
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – UFSC com bolsa de
pesquisa da CAPES e do CNPq.
América Latina: olhares e perspectivas 93
cas e que se distingue da musicalidade africana, porém recriando-se em con-
texto de diáspora, como é o caso de rap e muitos outros gêneros musicais.
A música, no Atlântico Negro (GILROY, 2001) é definidora da cultura
e de formas de expressão que se refazem na heterogeneidade, uma cultura
que está além de fronteiras nacionais e que se fazem justamente nos fluxos e
movimentos da diáspora. Neste sentido, a música negra nas Américas ganha
outras formas e definições, refazendo-se em cada contexto.
As diásporas que se formam durante os períodos escravocratas dão a
estas musicalidades características singulares e através destas narrativas es-
tético-culturais posicionam-se politicamente ou simplesmente manifestam-
-se artisticamente nos usos e apropriações de práticas culturais próprias e

Pro
mescladas com novos recursos, recriando e redefinindo espaços de produção
e circulação de músicas, de produtos, de ideias etc.
Músicas como o rap, o reggae, o funk tornam-se formas não só de ex-
pressão estético-musical, mas também de posicionamento político através
das performances. Como nos coloca Hall (2003) a produção musical é tam-
bém e antes de tudo uma produção cultural.
O rap, assim como o grafite, a dança e outras formas de manifestação do
Movimento hip hop, transfigura-se na expressão corporal, na forma de falar,
de vestir, no corpo traduzindo assim o padrão estético. Este padrão estético
do Movimento hip hop expressa sua concepção sobre um “estar no mundo”.
Esta musicalidade cria debates que nos falam quem são estes sujeitos,
como eles elaboram suas narrativas para refletir sobre o local, o nacional,
como apresentam e representam seus bairros, a quem direcionam seus dis-
cursos.
Mais do que uma arte ou uma manifestação da juventude, o Movimento
hip hop, torna-se espaço de debate político-social sobre vivências e expe-
riência de jovens em grande parte negros, homens e mulheres, imigrantes
dos mais diversos países, questionando os problemas sociais que os cercam.
Com uma proposta de discussão sobre as condições de desigualdades da
população negra e imigrante nos Estados Unidos, o rap passa, no mundo, a
ser a música associada ao estilo de vida de populações marginalizadas, como
os imigrantes mexicanos e os asiáticos (EUA) os árabes e berberes (França),
cabo-verdianos e angolanos (Portugal), jovens de origem turca (Alemanha),
moradores das periferias no Brasil, no Uruguai, no Chile, no Paraguai, na
Argentina e mesmo entre grupos indígenas Guarani no Mato Grosso, por
exemplo.
94 América Latina: olhares e perspectivas
Mesmo em contextos socioculturais tão diferentes o Movimento hip hop
se faz presente como uma importante forma de manifestação, direcionando
“fluxos” (HANNERZ, 1994) que fazem repensar práticas sociais. São expe-
riências e vivências sócio-político-culturais que ganham forma estética no
debate de problemas comuns a estes jovens. Nestes contextos os rappers
repensam suas práticas sociais e elaboram outras manifestações. E aqui os
caracterizam as redes que vão se formando entre as periferias nacionais e
que se alargam transformando-se em fluxos transnacionais.
Nestes espaços urbanos o Movimento hip hop, através do rap, se coloca
como construção narrativa a partir de suas experiências e trajetórias de vida
que ganham visibilidade como forma de expressão e que emerge com uma

ova
“subjetivação do mundo” (FERRY, 1994).
No Movimento hip hop a música circula por culturas e se refaz em cada
contexto cultural. Esta música constitui-se em movimento e também implica
em “responsabilidades”, que pode aqui ser expressa a partir do compro-
misso que se auto atribuem com o relato de uma realidade que vivenciam
localmente. Neste compromisso se constituem como “sujeitos sociais” e que
através do rap tornam-se “sujeitos poéticos”. Na denúncia da discriminação,
da desigualdade, da violência, da exploração, manifestam-se e posicionam-
se dando visibilidade a estas experiências através do Movimento hip hop.
Protestam e chamam a atenção para estas vivências e suas implicações e,
nesta atitude, redefinem e reorganizam sua postura social.
A grande parte destes jovens através de suas práticas e experiências esté-
tico-musicais nos revela importantes deslocamentos. Em países da América
Latina, como Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai, estes deslocamentos
podem ser pensados a partir da condição de “diáspora” (HALL, 2006) gera-
do pelo processo de escravidão, pela política de expropriação da população
indígena, pela discriminação manifesta de várias formas, pelos inúmeros
processos de exploração econômica, pela usurpação de direitos e a negação
da cidadania para grande parte destas populações. Todos estes aspectos são
determinantes da prática musical no rap e nestes movimentos este gênero
musical se recria e se desloca ressignificando fronteiras e nacionalidades e
criando outras conexões e fluxos.
O rap tornou-se uma música que além de reivindicar um espaço político,
propõe a desconstrução e consequente redefinição de olhares sobre negros,
indígenas, mulheres, moradores de periferias e favelas etc, questionando
processos de discriminação, expropriação, deslocamento, exploração.
América Latina: olhares e perspectivas 95
Geertz (1997, p. 145), nos apresenta sua reflexão sobre arte, quando afir-
ma que “discursos sobre arte que não sejam meramente técnicos [...] têm
como uma de suas funções principais buscar um lugar para a arte no contex-
to das demais expressões dos objetivos humanos, e dos modelos de vida a
que essas expressões, em seu conjunto, dão sustentação”. As várias expres-
sões que compõem o Movimento hip hop são formas de arte que possuem
seus significados culturais e, por isso, torna-se importante compreendê-las a
partir das relações que estabelece com o “estar no mundo”, com os símbolos
e com os significados que transmite.
Para compreender esta arte torna-se necessário entender como ocorrem
os processos criativos e a partir de quais referências são criadas, neste caso,

Pro
a perspectiva aqui apresentada é definida pela prática religiosa, como se
mostra a seguir.

O sagrado
Se partirmos dos trabalhos etnográficos sobre o rap gospel (NOVAES,
1999, SOUZA, 2009) é possível encontrar algumas relações que se esta-
belecem com esta música e que localizam-se num diálogo entre o sagrado
e o profano. Se o rap produzido nas periferias do Brasil sempre apontou
em suas narrativas musicais aspectos relacionados a práticas religiosas, seja
através dos orixás, nas religiões afro-brasileiras, e da menção a Deus, Jesus
Cristo, santos e santas católicas, no caso do rap gospel estas práticas reli-
giosas voltam-se para religiões evangélicas em que a variedade de santos e
orixás dão lugar somente a Deus e a Jesus Cristo.
Nesta perspectiva o que é definido como “ser negro” se refaz e ampara-se
em outros referenciais, buscando na própria religião evangélica negra esta-
dunidense suas práticas musicais. Utilizando o mesmo termo, gospel, estas
práticas musico-religiosas são muito distintas, tanto musicalmente, como
na forma de se compreender enquanto negro. Se a música negra norte-ame-
ricana, jazz, blues, rhythm blues, o soul, o gospel esteve ligada a práticas
religiosas, o rap, que vem desta tradição musical também se relaciona com
estas práticas musico-religiosas, porém, de forma distinta no Brasil.
Outros gêneros musicais como o reggae e o rastafarianismo na Jamaica,
o samba e as religiões afro-brasileiras no Brasil, o candombe no Uruguai,
guardam esta estreita relação com a religião e mostram formas de apropria-
ção e ressignificação local do que é definido como música negra. Nestes há
redefinições de práticas religiosas e musicais num contexto de diáspora que
96 América Latina: olhares e perspectivas
lhe é constituinte. Nestas diásporas a articulação entre religião e música se
refaz cotidianamente e estabelece relações de proximidade e distanciamento
com aspectos sagrados ou profanos que se inserem nestas práticas estéticos
musicais.
Músicas como o rap, o reggae, o funk tornam-se formas não só de ex-
pressão estético-musical, mas também de posicionamento político através
das performances.

De Rap –rap, atitude e protesto para resgate de almas perdidas


O rap sempre esteve associado a uma música de protesto, de contestação

ova
contra setores do Estado, da política, da polícia, ou seja, uma música contra
os valores conservadores da sociedade. E neste contexto não havia mani-
festo um discurso diretamente contra a religião, mas também não via-se o
contrário, ou seja, de apoio e defesa. Mesmo encontrando orações, preces e
a referência, bastante frequente, ao nome de Deus e Jesus Cristo, a religião
nunca foi um território em que o rap se localizava.
Durante o trabalho de campo foi possível encontrar rappers em terreiro
de Candomblé tocando atabaque. Em suas casas havia imagens de Nossa
Senhora, do Divino Espírito Santo e do Preto Velho. Até então, nunca ha-
via os encontrado professando sua fé em alguma religião. Informalmente,
muitos deles diziam acreditar em Deus, mas isso não implicava em práticas
religiosas. Além disso, muitos deles estavam associados à Igreja Católica
por terem sido batizados nela, o que não impedia que eles também frequen-
tassem terreiros de candomblé e umbanda.
Mas, a questão religiosa não havia chamado atenção durante o trabalho
de campo, também nunca levantou maiores questionamentos sobre o assun-
to. Entretanto, foi possível perceber que esta situação não era um fato isola-
do e que alguns rappers continuavam no Movimento hip hop mesmo após a
conversão religiosa, o que causou alguma inquietação, já que isto interferia
diretamente em suas práticas musicais. E para compreender esta parceria foi
necessário acompanha-los em suas atividades nas igrejas.
É comum encontrar em eventos de rap relatos carregados de emoção, de
situações vivenciadas, de suas experiências e mudanças de vida. Também não
são raros os momentos de euforia e êxtase que uma música pode provocar no
público. Mas, encontrar tudo isso dentro de uma igreja, e tendo Jesus Cristo
como o grande mediador desta relação, de início, causou certa estranheza.
América Latina: olhares e perspectivas 97
Porém, com o tempo, tudo aquilo começava a fazer sentido. O rapper,
que é um MC – Mestre de Cerimônia possui muito mais aspectos em co-
mum com um pastor do que de início é possível perceber. E a oratória é um
destes pontos em comum. Guardadas as devidas proporções e críticas, que
os dois lados (membros de igrejas e rappers) alimentam, o rapper, quando
está no palco, também tem o objetivo de gerar transformações nas pessoas
que ali estão, como ouvi vários pastores falarem. O pastor dizia querer tocar
o coração da pessoa que ali estava e o rapper, de certa forma, queria tocar a
consciência daquela pessoa. Nos dois, pastor e rapper, a emoção era a ma-
neira encontrada para se aproximarem de quem os ouvia.
Numa apresentação de rap, é comum, entre uma música e outra, um ra-

Pro
pper se reportar a situação vivenciada na música como sendo o relato de uma
vivência, ou como um testemunho, como ouvia frequentemente na igreja. E
a vivência no rap ou o testemunho na igreja são determinantes para provocar
mudança, e o rap gospel faz a junção destas duas formas de expressão. Am-
bos, possuem uma performance que os distinguem dos demais, exatamente
pelo domínio do falar em público, a oratória, e com isso chamar a atenção
para o que colocam em suas músicas ou pregam em seus cultos, mesmo que
os objetivos sejam radicalmente distintos e até conflitantes. E em vários
momentos é possível encontrar rappers no palco/altar, desempenhando esta
dupla função.
No rap gospel Deus é o grande norteador das letras de rap e de suas
práticas cotidianas, como afirmam. Eles se unem, neste estilo, em nome de
sua fé e usam o próprio rap como um exercício de suas práticas religiosas.
No rap gospel, a vivência estético-religiosa é aqui direcionadora do esti-
lo de rap do qual fazem parte e que une diferentes igrejas, distintas classes
sociais, e mesmo as mais divergentes opiniões sobre o que definem como
sendo o rap gospel.
Este pertencimento a um compromisso com Deus, como diziam, foi o que
chamou a atenção como demarcador de pertencimento a um estilo de rap. E
aqui esta produção musical é também um instrumento para conseguir atingir
seus objetivos, ou seja, evangelizar. Neste sentido, o rap gospel, como falou
um integrante do Grupo Reverso, é uma forma de fazer a mensagem de Deus
entrar na cabeça dos irmãos. E se define como Malokeiro de Cristo, para
quem a Humildade precede a honra, título do CD do grupo.
Mesmo sendo Deus o foco principal, neste estilo de rap a cidade é funda-
mental e determinante, como em outros estilos de rap. É sobre ela que este
98 América Latina: olhares e perspectivas
estilo vai imprimir a marca que os diferencia e os define como rap gospel, e
nestes espaços da cidade vão procurar exercer suas práticas de evangeliza-
ção para a qual o rap tornou-se um importante instrumento. Na música Fim
do Pesadelo, do Reverso, a cidade vem a tona a partir de suas quebradas,
com os problemas causados pelo consumo e tráfico de drogas,

A rotina do gueto é como um pesadelo, me diz se não é


Uma pa de maluco correndo na pedra e na mão dos gambé2
Sem estrutura, sem fé
Difícil é ficar em pé, cobiça o que quer, fazendo a vontade de Lucifer
Onde o esquema, sigo o meu lema, fico na paz do senhor

ova
Eu tenho a chave das algemas do sistema opressor
Falta de grana é um obstáculo
O crime parece o mais prático
Dinheiro de modo mais rápido
[...] te joga no tráfico
Eu fico com Deus que é muito maior que qualquer dificuldade
Que ao invés de juntar um filho e perdoar, ele constrói a verdade
Estendeu sua mão, me deu a missão que através da palavra, te livrar da
prisão, te livrar da ilusão e de todo o mal pela causa
[...] é pouco, me diz o que vale seu couro
Se anda na rua tá vendo o medo estampado no rosto, então
Seja perseverante, procure sua paz, corrija seu proceder
Entregue sua vida pra Deus
Acorde antes de Cristo descer
Refrão
Sonhos e ilusões
Desejos e decepções
Muito tempo confundindo minhas ilusões
Até o dia em que o Senhor ouvir meu apelo
E por fim ao pesadelo
[...]

2
Gíria utilizada como sinônimo de policial.
América Latina: olhares e perspectivas 99
A cidade com seus problemas, as pessoas mais suscetíveis às desilusões
e aos obstáculos que nela se interpõem, aparecem nesta música como em
muitos outros raps, como uma maneira de chamar atenção de situações e
problemas por eles vivenciados ou com os quais se deparam cotidianamen-
te. Mas, uma questão os diferencia, enquanto rap gospel, embora utilizem
a mesma palavra para defini-la: resgate. Enquanto para outros estilos este
resgate está associado a uma tomada de decisão, de consciência, de sua situ-
ação e consequente mudança de vida, que pode ser feita inclusive através do
rap, no rap gospel este resgate é realizado a partir da decisão de entregar sua
vida a Deus e um dos integrantes do grupo Reverso reforça esta intenção,
principalmente em situações em que julga mais grave e nas quais considera

Pro
que só Deus poderá gerar algum tipo de mudança:

Porque muitas pessoas costumam falar que o rap, ele resgata, que o
rap muda a vida do jovem. E realmente, não só o rap, mas o esporte, a
capoeira, o futebol, o basquete, o judô, a natação, tudo isso aí pode ser
usado como estratégia pra evitar que o jovem siga o caminho errado.
Porém, transformar uma vida que já ta dependente do crime, da droga,
transformar uma vida que já ta envolvida no tráfico de drogas, resgatar
uma vida da prostituição, isso ai não é um trabalho que o rap por si só
tenha competência pra fazer ou que o esporte, a música, por si só possa
fazer. Ai é onde existe a onipotência de Deus, onde só a palavra de Deus
pode fazer diferença. [...] E sempre apontando Deus como a saída. Por-
que foi a única saída que a gente encontrou. E por mais que as pessoas
não creiam nisso, por mais que as pessoas duvidem, subestimem, conti-
nua sendo a única saída eficaz, o Evangelho, pro crime, pra droga, pra
depressão, seja lá o que for.

O rap resgata, como nos afirma este rapper, mas seu poder de mudança
é minimizado e quem aqui possui este papel definidor é Deus. Porém, neste
caso o rap auxilia neste resgate, como ele aponta. Para ele, o rap acaba sen-
do um instrumento de Deus para resgatar almas perdidas.
No rap gospel, as drogas, o dinheiro fácil, a diversão, a prostituição, tudo
o que leva ao vício é associado às tentações. Aqui não é mais a sociedade,
os políticos, o racismo, a desigualdade que acarretam grande parte dos pro-
blemas e impedimentos vivenciados pelos jovens, principalmente os mora-
dores de periferia e favela, mas o próprio diabo através das tentações. Aqui
100 América Latina: olhares e perspectivas
há uma transferência de responsabilidade dos problemas, mas, da mesma
forma, eles devem ser enfrentados numa luta de Deus contra o Diabo, até o
dia em que Cristo descer.
As periferias e favelas são espaços de atuação e moradia de muitos destes
grupos de rap, como é possível perceber ao acompanhá-los. Mas, estas que-
bradas são importantes também no sentido de possibilitar a estas pessoas
conhecer o Evangelho, como diziam. Embora não restrinjam sua atuação
a estes espaços de periferia, ao contrário, procuram ampliá-lo ao máximo,
é possível perceber que estes se tornam espaços importantes pela vivência
dos inúmeros problemas cotidianos, que também são do conhecimento de
muitos destes rappers, como nos coloca o grupo Culto Racional, referindo-

ova
se a um evento do qual iriam participar no bairro Monte Cristo:

Porque o rap é uma estratégia, é uma estratégia que consegue colocar


gente na periferia, no gueto, nas quebradas, no morro, na favela, aonde
dificilmente o pastor tradicional, o missionário, o evangelista tradicio-
nal chega. Porque eles aceitam o rap. É rap. Falou em rap. [...] Fomos
panfletar na favela e a gente foi recebido. Digo: ‹Esse cara tem um re-
volver (arma) na mão pra receber a gente›. Porque a gente foi numas
quebradas bem nervosa3. E na hora que a gente falou: ‘Vai ter um evento
de rap’. Então os caras já sai quebrando. Isso é rap. É a linguagem do
gueto, da periferia, do gueto é o rap. Então tem sido uma estratégia boa
(Entrevista realizada em 06/06/07).

O Culto Racional nos mostra que a música está a serviço da religião, é


a estratégia que utilizam, ou seja, é o rap usado para entrar e evangelizar
nas quebradas. E reforça sua argumentação acentuando a inserção que o
rap possui nestes espaços, é a linguagem do gueto, que inclusive os faz ser
bem recebidos nestes espaços. Embora os integrantes do grupo morem em
bairros de periferia, ou quebradas, como as definem, sua prática musical não
se define principalmente por esta característica, visto que é a fé, a evange-

3
Nervoso é um termo que pode ser utilizado como sinônimo de atividade inten-
sa, por exemplo: Arma-Zen – Puro rap nervoso, que aparece no CD do grupo
associada a ideia de atuação, movimento e até atitude. O mesmo termo pode ser
empregado em situações que envolvem a violência, a tensão, o medo, como na
citação acima, referindo-se a uma quebrada nervosa, em que a tensão e a vio-
lência estão presentes.
América Latina: olhares e perspectivas 101
lização, que os marca e os diferencia no rap. E aqui, mais do que um local
específico na cidade, este estilo de rap, atrela-se a uma vivência espiritual
-religiosa, que é determinante de suas práticas e que se distingue não pelo
pertencimento a uma Igreja, mas sim por entregarem suas vidas a Deus.
Muitos destes jovens já eram rappers antes da conversão religiosa e esta
mudança em suas vidas demarca a fronteira entre o rap gospel, que pra-
ticam, e o rap mundano, ou do mundão, que praticavam, como definem
quando explicam estes momentos de suas vidas a partir do rap. Este posi-
cionamento não se estrutura em fronteiras rígidas, ao contrário, as aberturas
sempre se fazem presentes, principalmente se implicar em conversão reli-
giosa. E foi possível presenciar pessoas que estavam em processo de conver-

Pro
são, ou seja, saindo do mundão, ou pessoas que mudavam de igreja naquele
período, pelos mais variados motivos. Estes limites e fronteiras podem ser
percebidos também a partir dos eventos. Presenciei várias vezes, apresen-
tações de grupos gospel em eventos de outros estilos de rap, inclusive são
bastante receptivos a estes convites, mas não encontrei grupos não gospel
nos eventos gospel.
No rap gospel a parceria é colocada como um elo importante que cons-
titui a ligação com o Movimento hip hop. Em muitos momentos, ele é de-
terminante para a permanência e a continuidade do trabalho do grupo na
construção do que é definido como o estilo de vida, como nos coloca o Culto
Racional, um grupo de gospel.

[...] muitas pessoas olham o rap como um tipo de música, como uma
maneira de promover as ideias e a revolução. Mas o que a gente crê, e
os grupos que tão aqui fazem o mesmo trabalho que a gente crê, é que o
rap é muito bom pra gente, a gente gosta muito, a gente se satisfaz muito
fazendo rap, só que a gente leva o rap como um instrumento pra passar
o nosso estilo de vida. O nosso estilo de vida é ter uma vida com Deus
e o que a gente quer através do rap é a conversão das pessoas pra que
elas possam acreditar que Jesus Cristo é o único e será o único salvador.
Então esse é o diferencial que nos move e que faz um trabalho diferente,
porque a gente não vai nem pelo dinheiro, nem pelo som. A gente vai
pelas almas. [...] A gente serve a Deus pelo rap e a revolução que a
gente quer fazer é espiritual e a gente é diferente de muitas pessoas hoje,
nacionalmente falando, a gente vive aquilo que a gente canta, a gente
pratica aquilo que a gente canta. A gente não canta pra praticar e sim
102 América Latina: olhares e perspectivas
pratica pra passar na música aquilo que a gente vê, que a gente acha que
é interessante (Culto Racional – Entrevista realizada em 06/06/2007).

Este estilo de vida que o Culto Racional anuncia se distingue dos demais
grupos por fazerem rap gospel, que muda a percepção sobre o que apontam
como a proposta de revolução dentro do rap. Esta revolução continua sendo
importante, mas aqui ela é fundamentada na palavra de Deus, é ela que jus-
tifica, alimenta esta prática e constrói um estilo de vida, ou, como eles apon-
tam, este é um diferencial. No rap gospel, é a palavra de Deus que ocupa o
lugar principal na definição de um estilo de vida, no uso que fazem do rap.
Um exemplo do que é definido como estilo de vida, a partir do rap gospel,

ova
vem das colocações de um rapper quando ele vai falar de uma mãe, com seus
preconceitos, que vem até a igreja verificar o que seu filho estava fazendo
nos encontros da BRC – Banca do Rap Cristão, que ocorrem semanalmente.
Por mais que sua visão sobre o próprio rap tenha mudado, já na igreja, o rap
gospel perde o caráter mundano e passa por uma espécie de purificação, o
que não permite que o maloqueiro de Cristo se contamine, como ele nos diz:

Então ela veio, até com certo preconceito, porém, na razão de defender o
filho dela, ela veio pra saber qual que era o objetivo ali. E chegou com o
pé atrás, preocupada e no final da reunião ela saiu chorando e nos abra-
çou pedindo perdão por ver que aquilo ali era realmente algo de Deus e
que Deus estava nos conduzindo a usar esta estratégia, não que a gente
veja o rap só como uma estratégia, todos nós amamos a música rap,
amamos a cultura hip hop. Eu não ando assim só pra atrair os jovens pra
igreja, eu ando assim porque eu gosto, é o meu estilo, é o meu jeito de
falar, faz parte de minha vida [...] o rap já marcou minha vida, não tem
como eu esquecer o que o rap já fez em minha vida, de alguma forma,
boa ou ruim, o rap marcou minha vida. Mas ela viu que aquilo era uma
estratégia de Deus pra tá proporcionando aos jovens a oportunidade de
tá curtindo a música que eles gostam, de tá dançando o break, tá fazendo
grafite, sem precisar se contaminar com a má influencia das pessoas que
fazem isso no meio secular. (Reverso).

O rapper dá o tom que tranquiliza a mãe, ou seja, a não contaminação de


seu filho a partir das práticas associadas ao rap e que ele aponta quando diz
o que de ruim o rap já trouxe a sua vida, mas isso quando estava no meio
América Latina: olhares e perspectivas 103
secular. O rap gospel, nas palavras dele, teria este papel de purificar o rap,
tirando dele o que de ruim ele pode carregar e influenciar.
Porém, outro aspecto presente nesta fala é que a entrada do rap na igreja
tem uma dupla função, por um lado, atrair jovens para a igreja e, por ou-
tro, fazer com que permaneçam com seus estilos, mesmo que estes estilos
sofram significativas modificações, como esta purificação do rap, mudan-
do seu estilo de vida. É esta conversão do rap que vai permitir que o rap
permaneça como uma prática importante e definidora de um estilo de vida.
Este estilo, que o Movimento hip hop constrói e dá visibilidade, é tam-
bém utilizado como justificativa para defender suas práticas e a forma de se
vestir quando esta entra nas igrejas, como argumenta o grupo gospel Culto

Pro
Racional:

A gente quer passar a ideia que não é o boné e a calça, o estilo de roupa
da gente, que vai atrapalhar nossa vida com Deus. E Deus também não
está preocupado com isso.
X: É a mesma coisa [...] que você ir na igreja católica de boné e calça
larga e subir lá em cima pra cantar uma música . Não é questão de Deus,
nem de nada, é questão de doutrina. [...] É cultural você não entrar de
boné num lugar fechado, é cultural você não comer de boca aberta, é
cultural você usar garfo na mão, tudo a gente diz que é educação, mas
na realidade é cultural, porque se for cultural na África comer com a
mão, então é a mesma coisa isso. A igreja [...] presa por uma doutrina
e isso se formou, de uma maneira que surgiu um grande bloqueio pras
pessoas. As pessoas acham que quem se veste engomado, engravatado,
que é crente. Mas o que a gente prega muito é pra não olhar com a visão
dos olhos, e sim com a visão da alma, porque na realidade o que Deus
quer é o teu coração. [...] Assim como tem igrejas que brecam um pouco
a gente, a gente pode falar e citar várias que prezam, que gostam do nos-
so trabalho que contam com nosso trabalho [...] simplesmente pra trazer
esse diferencial que é o que tem ganhado almas.

Mais do que a Cultura do hip hop, aqui estão sendo justificadas as práti-
cas culturais de uma forma mais ampla para chegar a defender suas práticas
enquanto grupo de rap, mais especificamente rap gospel, dentro de igrejas
que nem sempre aceitam sua aparência. Entretanto, ressalta e reforça, que é
este diferencial que é o que tem ganhado almas.
104 América Latina: olhares e perspectivas
Neste sentido a fala acima nos remete a pensar que estes jovens estão
na igreja, com suas práticas estético-musicais e com elas ressignificam a
maneira de se representarem enquanto crentes. E nisso reforçam a ideia da
necessidade de mudanças não só em suas vidas com a conversão religiosa,
mas também nas igrejas, em que passam a atuar com seu estilo. Mesmo que
para isso tenham que enfrentar fortes resistências como o fato de cantarem
de boné dentro das igrejas. Mesmo sendo considerado um sinal de respeito
retirar o boné ao entrar nas igrejas, aqui o boné é definidor de sua prática es-
tético-musical no Movimento hip hop, já que para um rapper o boné é aces-
sório indispensável no palco e é definidor de seu pertencimento ao grupo.
No rap gospel, as práticas, experiências e vivências destes rappers são

ova
guiadas por suas convicções religiosas. Um aspecto que diferencia este es-
tilo é a maneira como abordam a questão étnico-racial, que se associa mais
pela via musical e religiosa ao gospel norte-americano, do que como defini-
dor de um pertencimento étnico-racial e que possui uma pauta de reivindica-
ções políticas de enfrentamento da discriminação, como é possível observar
em outros estilos de rap. Talvez esta questão não se configure propriamente
numa contradição, mas aponta para formas bastante distintas de incluir o
debate racial dentro do próprio Movimento hip hop.
A maneira de visibilizar problemas sociais, sejam eles a discriminação
racial, de gênero, de pobreza, de violência, do uso e tráfico de drogas, toma
rumos bastante distintos. E em todas estas situações a fé é colocada como
a maneira possível de gerar mudanças. Com relação a discriminação racial,
se assim posso chamar, ouvi de muitos rappers que Deus não nos diferencia
pela cor e o que chamamos de discriminação racial é mais um dos tantos pro-
blemas que é necessário enfrentarem como uma provação. Da forma como
é encarada, a discriminação racial se iguala a qualquer outro problema que
deve ser enfrentado na busca por uma salvação, de um encontro com Deus.
Mesmo não assumindo, nas suas músicas e no seu discurso, a relevân-
cia da questão racial, é possível perceber, entre rappers brancos e negros,
principalmente entre os negros, uma identificação com a questão de uma
musicalidade negra, norte-americana e evangélica. Neste caso, é o gospel
negro norte-americano e não somente a conotação que este termo assumiu
no Brasil, como significado de práticas associadas a eventos musicais evan-
gélicos e neo-evangélicos brancos ou mistos. Muitos destes rappers, por
meio de suas igrejas, possuem maior acesso a outras práticas musicais além
do rap. Vários deles buscam em outros gêneros, como o blues e o jazz, in-
América Latina: olhares e perspectivas 105
corporações em suas práticas musicais de rap. Eles vão buscar, numa origem
que se associa a uma produção musical negra e de religiões evangélicas nos
Estados Unidos, elementos que incorporam a sua produção musical, mas
ressaltando a dimensão de negritude desta música.
A referência a questão étnico-racial negra, comum a outros estilos de rap,
aqui toma outros contornos e é o viés religioso que orienta esta identificação.
Embora o rap tenha se formado na confluência de práticas musicais, en-
tre elas a música negra norte-americana, no rap gospel esta influência é
reforçada por este viés musical. E a música os insere neste contexto das
igrejas como importante direcionador de suas práticas. Mas reafirmam que o
rap é utilizado como uma forma de evangelização importante, já que levar

Pro
a palavra do senhor através de um rap, numa periferia, por exemplo, tem
muito mais alcance, e este é um recurso que utilizam quando saem com o
propósito de evangelizar.
No rap gospel, outras questões se colocam para serem pensadas dentro
desta prática estético-musical num contexto de diáspora latino-americana.
A forma como a questão étnico-racial vai ser acionada na composição deste
discurso passa pelo viés da religião e se recria enquanto diáspora. Para isso a
performance é fundamental, é ela que dá forma a estas práticas estéticas. São
hibridismos que se interpõem na redefinição desta prática estético-musical
e ressignificam e recriam a própria música a partir de suas experiências, as
quais refletem o contexto de heterogeneidade do qual fazem parte.
A diáspora reflete todo um processo de recriação cultural e dentro desta
a música e a religião anunciam estas redefinições culturais. No caso do rap
gospel, tanto questões religiosas cristãs negras, como a própria música ne-
gra é aqui recriada, redefinindo outros parâmetros e que transpõem limites e
fronteiras, sejam nacionais, religiosas, étnico-raciais.

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América Latina: olhares e perspectivas 107
Pro

108 América Latina: olhares e perspectivas


Música latino-americana de tradição
ocidental europeia: quando Universalismo
e Nacionalismo anulam-se

Juliane Larsen

A
ova
s vanguardas artísticas europeias do início do século XX signifi-
caram na música uma ruptura com a tradição de um sistema com-
posicional que se mantivera estável desde meados de 1600. Neste
texto levanta-se algumas questões referentes ao estabelecimento deste mes-
mo sistema musical na América Latina e sua refutação a partir da influência
dos movimentos modernistas europeus.

Um início
Para abordarmos o embate entre Nacionalismo e Universalismo na mú-
sica modernista da América Latina da primeira metade do século XX volta-
remos para o momento em que a história do Sistema Tonal inicia-se em solo
latino-americano.
Na Europa no século XVI, vive-se o Renascimento artístico-cultural. O
homem da Renascença trará em si toda a potencialidade natural, científica
e artística, poderá ser músico e ao mesmo tempo astrônomo e matemático,
como o fora John Dunstable no século XV, compositor inglês cujas polifo-
nias1 são esmiuçadas até hoje e que influenciaram não só a Grã-Bretanha,
mas todo o continente europeu, pois este nosso novo homem da Renascença,
do qual Dunstable é um exemplar, é também internacional. No caso da
música, embora internacional, este homem ainda não é livre, e talvez sua
própria falta de liberdade tenha sido a causa de sua internacionalidade, visto
que dependente dos mecenas, e trocando de mecenato, partirá em longas
viagens, nas quais assimilará em suas obras as influências dos países por
onde passar e nos quais deixará também a marca de sua genialidade.
1
Polifonia – vozes (melodias) simultâneas, maneira de compor típica entre o fim
da Idade Média e o período Barroco.
América Latina: olhares e perspectivas 109
A Renascença foi o apogeu do estilo de compor com diversas vozes ou
melodias e a perfeição técnica, o equilíbrio e a clareza são suas caracterís-
ticas principais. Veja-se a obra de Giovanni Pierluigi da Palestrina (século
XVI), um dos melhores exemplos da produção musical da época. No berço
da Renascença, a Itália onde viveu Palestrina, a tradição da melodia operís-
tica está por iniciar-se, com um lirismo que com Cláudio Monteverdi (1567-
1643) haveria de ser conduzida (por ele mesmo) dos madrigais para a Ópera
Barroca e se concretizaria cerca de dois séculos depois, nas famosas óperas
italianas românticas.
A notação é impulsionada pela possibilidade de edição de partituras des-
de a invenção de Gutemberg, nas artes visuais surge a perspectiva e este

Pro
novo modo de registrar o mundo é reflexo também de uma nova forma de
ver a realidade. Altera-se a percepção, o modo de pensar, de viver, de sus-
tentar-se. Tão belo momento contado em todos os livros de História da Mú-
sica Ocidental, também chamados alguns de História da Música Universal,
coincide com o início do fim das culturas autóctones da América Latina. Tal
história sangrenta de exploração, aniquilação e aculturação é responsável
pela música que ouvimos hoje diariamente nas rádios de qualquer cidade,
grande ou pequena, da América Latina. A invasão europeia do século XVI
trouxe um sistema musical que remonta à antiguidade Grega. Esta herança
musical grega foi conduzida através do Império Romano, atravessou a Idade
Média no canto litúrgico e chegou até a América Latina com os padres da
Companhia de Jesus.
A música do primeiro período colonial não tinha o mero objetivo de em-
belezar a missa católica, mas era utilizada como um instrumento auxiliar na
catequização. Os efeitos da música no sujeito percebedor era algo discutido
já por Platão e havia sido motivo de preocupação da Igreja ao proibir ritmos
dançantes ou polifonias complexas, que pudessem deturpar a mensagem,
provocar ânimos indesejados ou servir para demonstrações de virtuosismo
por parte dos músicos, fatores que descaracterizariam a simplicidade neces-
sária para a transmissão da mensagem divina. Associada às passagens bíbli-
cas, encenadas para os nativos e logo por eles mesmos, a música consistia,
nesta absurda “renascença” latino-americana, em poderosa aliada e, logo e
curiosamente, em primeira educação musical europeia na América Latina. A
conversão como obrigação, a música para auxiliar o convencimento.
Estabelecendo-se através da violência e determinando pela força a ade-
são à sua cultura estrangeira, não haveria como a música trazida da Europa
transformar-se com a influência das civilizações latino-americanas e origi-
nar assim uma nova música. A música só será, por assim dizer, “latino-a-
mericana” dali a alguns séculos, quando a música popular, fruto da misci-
genação de culturas em um processo lento de modificar-se e amalgamar-se
continuamente, resultar nos gêneros musicais tradicionais ou típicos de cada
país. Na música de concerto, apenas o século XX trará a independência,
mas, talvez tarde demais, tão grande será o abismo entre obra e público da
música pós-tonal2.
Muito antes de isso acontecer, a substituição de culturas e de populações,
constituindo-se as missões jesuítas sobre territórios indígenas na América
Latina, é o marco, por conseguinte, não do início de uma música híbrida,

ova
onde elementos europeus e indígenas mesclariam-se, mas o início da conti-
nuação da música europeia fora da Europa, início de uma tradição musical
latino-americana cuja história havia se desenvolvido muitos séculos antes,
por miscigenações diversas, baseadas na convivência forçada, ou não, entre
culturas diferentes, e da afirmação de sua tradição através da força de quem
ela representava, de maneira que o povo que irá formar-se no “novo con-
tinente” terá como seu próprio passado a Idade Média europeia, mas sem
castelos e trovadores.
No século XVI, início da história de convivência entre povos na terra
recém “descoberta” não haverá espaço para trocas. A firmação do europeu,
baseado em uma tese de superioridade racial e evolutiva que justifica a in-
vasão e a tomada de posse das terras e a imposição de sua cultura, cria, jun-
tamente com todo o sistema explorador e administrativo da América Latina,
uma música de europeus sem a Europa. Uma música que não dialoga com
práticas culturais de seus atores locais, mesmo com mão de obra indígena e
africana construindo os instrumentos e interpretando as obras sacras, uma
música dir-se-ia quase impermeável a influências e que teria, por isso, a
transformação de seu estilo sempre defasada, esperando as novidades che-
garem de além-mar.
Com as colônias no território latino-americano os europeus transferem
(e tentam recriar) o modo de vida de seus países de origem, de maneira que
os acompanham suas músicas, suas festividades e religião. No alvorecer do
século XVIII a música oficial na América Latina é aquela ligada às catedrais
e às cortes. A educação musical comandada pelos jesuítas desde o sécu-
2
Pós-tonal: música “erudita” do século XX, em que a estruturação interna não
obedece às leis da tonalidade.
América Latina: olhares e perspectivas 111
lo XVI mantém-se em suas mãos através das escolas católicas, mas com a
expulsão dos padres no século XVIII cria-se um vazio que demorará a ser
preenchido. Até a expulsão ocorrer, porém, a tradição da música litúrgica já
havia se estabelecido nas principais cidades latino-americanas. Para tal fe-
nômeno vale destacar a importância da figura do mestre-de-capela, respon-
sável pelas obras musicais que acompanham a liturgia, tal como ocorria na
Europa. Um exemplo desta música ligada às principais catedrais é o italiano
Domenico Zippoli (1688-1726) que atuou nas missões do “Vice-Reinado do
Rio da Prata”, sendo que manuscritos de suas obras foram encontrados até
na Bolívia.
As próximas gerações de compositores não se constituirão apenas de

Pro
músicos europeus, serão mestiças, músicos locais a serviço da Igreja, da
Coroa, ou mesmo de fundações ligadas à burguesia das cidades economica-
mente mais importantes. Aos poucos as organizações voltadas à promoção
de eventos musicais, financiadas pela elite comerciária e dona das terras,
ganham espaço em detrimento da Igreja e o crescimento dos centros urbanos
e da vida própria da colônia é paralelo ao surgimento de uma vida musical
também própria.

Vida própria?
Enquanto sob a égide “Música Colonial” encontrávamos estilos renas-
centistas até clássicos, o século XIX será, sem dúvidas, Romântico. No Ro-
mantismo do século XIX, a música de concerto, principalmente a ópera,
mantém a tradição musical latino-americana atrelada ao modelo europeu,
apesar dos processos de independência dos países, do crescimento das ci-
dades, do grande aumento populacional e chegada constante de imigrantes.
Agora o elemento autóctone, o indígena longe das cidades principais dos
países latino-americanos e absolutamente excluído da vida política, torna-se
tema para as obras da estética romântica, do mesmo modo que na Europa
os compositores buscam as temáticas em seus mitos fundacionais, em um
passado distante ou no bom selvagem exótico.
Em comum as produções de cunho nacionalista na América Latina têm
o uso do elemento folclórico como representante de uma identidade nacio-
nal, de maneira que para ser “nacional” o uso simbólico do material sonoro
deveria ser reconhecido na audição. Com isto o que está em jogo não é a
criação de uma música nova, oriunda da interação das distintas culturas que
compuseram os países latino-americanos, mas conceber uma música que se
112 América Latina: olhares e perspectivas
comparasse à europeia, diferindo desta apenas pelos elementos nacionais
que se resumiam às citações do folclore. Como consequência, a originalida-
de de cada nacionalismo musical tende a resumir-se aos padrões de superfí-
cie3 da obra, como figuras rítmicas, melodias e temas populares conhecidos,
elementos estes que eram aplicados sobre uma forma e uma harmonia tradi-
cionais da música europeia.
Na passagem do século XIX para o século XX os elementos simbólicos
utilizados tinham duas origens: a primeira era a influência direta da música
popular contemporânea ao compositor de música de concerto que, ligado
irremediavelmente às práticas musicais populares e abrindo-se à sua con-
temporaneidade, utilizava-se de elementos desta, como melodias, instru-

ova
mentação e ritmos. A segunda alternativa vinha da pesquisa folclórica, de
elementos que pertenciam a uma música que já não fazia parte do cotidia-
no das populações urbanas, ou que se mantinha viva apenas pela memória
dessas populações. Embora nesta época compositores e folcloristas tenham
desempenhado o importante papel de reencontrar e catalogar tradições orais
que se perdiam e assim preservá-las, seu uso na música de concerto signi-
ficava passar a limpo, transformar elementos oriundos das oralidades em
uma linguagem europeia, para só então estes elementos, e a cultura que os
originou, ser legitimada.
Artificialmente inventam-se identidades musicais que imediatamente
eram legitimizadas através do seu uso na linguagem musical europeia. O uso
em si destes materiais dentro de tal linguagem composicional não pode ser
condenado, visto que o compositor latino-americano, desde a colonização,
é tão dono quanto o europeu destes rudimentos composicionais tradicionais
(escalas, escrita e instrumentos), ou seja, o material sonoro, embora denun-
cie o processo colonizador, é, neste momento, apenas o material sonoro, são
questionáveis o sentido que lhe é atribuído e a intenção que acompanha sua
utilização.
A forma como desenvolve-se a América Latina social, econômica e poli-
ticamente determinou que a tradição musical europeia substituísse as tradi-
ções locais. Por isso o uso de elementos folclóricos na música de concerto

3
Padrão de superfície: divisão da estrutura musical, padrões de superfície são as
características mais facilmente percebidas na audição da obra, que não alteram
a estrutura profunda. Os principais padrões de superfície são: dinâmica, articu-
lação, fraseado. Por estrutura profunda compreende-se a técnica composicional
e sua organização temporal.
América Latina: olhares e perspectivas 113
do século XIX é o que irá diferenciar a música feita em cada país, em uma
onda nacionalista que ocorre não apenas na América Latina, mas em todo o
mundo ocidental que adota o sistema musical Tonal4.
Na concepção de Arnold Schoenberg5, difundida no século XX, a histó-
ria da música seria a história da evolução/transformação da linguagem mu-
sical. A busca, no Romantismo, por uma expressão individual teria levado
à expansão do sistema tonal. O uso cada vez maior das dissonâncias6 por
compositores como Franz Schubert (1797-1828) Franz Liszt (1811-1886),
Richard Wagner (1813-1883), Gustav Mahler (1860-1911), dentre outros,
levaria à descaracterização das funcionalidades do sistema tonal, culminan-
do, no final do século XIX, no colapso do próprio sistema que justificaria

Pro
a atuação das vanguardas do início do século XX. Mas, e para a América
Latina, o que significariam as Vanguardas Modernistas? A transformação
do sistema tonal estaria irremediavelmente ligada ao uso que os mestres
europeus fizeram dele e isto excluiria a possibilidade de uma transformação
diferenciada fora do continente europeu?

Vanguardas
É somente a partir dos movimentos vanguardistas das primeiras décadas do
século XX, diferentes entre os países latino-americanos em períodos, contextos
e resultados sonoros, mas com motivações semelhantes, que a assim chamada
música de concerto começará a ser pensada como uma arte independente da
produção europeia. Paradoxalmente, as vanguardas modernistas europeias
foram o estopim para o rompimento com quatro séculos de uma produção
musical latino-americana baseada nos modelos europeus.
A ausência de um sistema que guie a composição é o grande aconte-
cimento em quatro séculos de música europeia, e é esta ausência que irá
4
Sistema tonal: sistema composicional baseado na escala de sete sons.
5
Arnold Schoenberg: (Viena, 1874 – Los Angeles, 1951). Compositor e influente
teórico da música na primeira metade do século XX. Considerado o criador
da técnica de composição dodecafônica influenciou gerações de compositores
e suas ideias renderam novos desenvolvimentos para a música pós-1945. Em
1911 publicou um tratado de harmonia em que explica o desenvolvimento do
Sistema Tonal.
6
Dissonâncias: conceito que se altera no decorrer dos séculos de existência do
Sistema Tonal, pode ser definido até meados do século XIX como dissonante o
som que apresenta pouca ou nenhuma afinidade com o som principal de cada
trecho musical em questão. Contrário: consonante. No século XX tais conceitos
anulam-se na música de concerto com o fim do sistema tonal.
114 América Latina: olhares e perspectivas
acarretar alto grau de experimentalismo no início do século XX e o próprio
surgimento das novas técnicas musicais das vanguardas. Neste contexto
destacam-se quatro linhas estéticas a partir das obras de compositores de
maior destaque, a saber, Arnold Schoenberg (Áustria, 1874-1951), Claude
Debussy (França, 1862-1918) Igor Stravinsky (Rússia, 1882-1971) e Béla
Bartók (Hungria, 1881-1945) que influenciariam grande parte dos composi-
tores latino-americanos entre os anos de 1920-45.
O que caracteriza a produção musical erudita latino-americana, mesmo
que tenha deixado de ser simplesmente uma música europeia escrita em
outro solo, como foi a música colonial, é a sistemática falta de comunicação
entre os países. O diálogo continua ocorrendo entre America Latina e Europa

ova
e raramente dentro da América Latina mesma. Há ainda uma fragmentação
estilística: por seguir-se sempre o modelo europeu não teria havido tempo
para o desenvolvimento de escolas ou de enraizamento de estilos particu-
lares, e a contínua substituição do exemplo leva à descontinuidade técnica
e à impossibilidade de verificarmos se a linguagem tonal se transformaria
do mesmo modo como se transformou na Europa no chamado Romantismo
Tardio, imediatamente anterior aos primeiros movimentos vanguardistas.
Por outro lado, a demora para a atualização, que rende à música de concerto
latino-americana o rótulo de defasada em relação às atualizações técnicas
europeias, também deixa transparecer um indício de que haveria sim, no
próprio sistema tonal, a dinâmica de expansão e posterior colapso, o que ex-
plicaria a obra de alguns compositores que conseguiram, na América Latina,
resultados semelhantes e concomitantes aos alcançados na Europa, portanto,
antes que pudesse ter havido inspiração nos modelos europeus. Um caso
exemplar é o do compositor brasileiro Alberto Nepomuceno (1864-1920),
com obras que lembram o uso da linguagem tonal como os encontrados em
Gustav Mahler.
Diante de casos como o de Nepomuceno nos vemos com algumas hi-
póteses: a primeira questão é que haveria sim algum tipo de continuidade
nas técnicas da composição erudita latino-americana, uma organicidade que
atestaria pela “vida própria” da arte musical no continente. Em segundo lu-
gar, que a crítica de “defasagem” das técnicas empregadas no continente não
têm fundamento e podem dever-se, por exemplo, a um preconceito ou mais
uma manifestação de etnocentrismo. E por último, que a linguagem musical
não se desenvolve linearmente, que esta abordagem é um indício de evolu-
cionismo e que Schoenberg estava errado. Pode-se considerar também que
América Latina: olhares e perspectivas 115
todas as alternativas estão, relativamente, corretas, e que para entender-se
a produção musical latino-americana deve-se adotar métodos particulares,
que não limitem-se a apresentar a história da música como a encontrada nos
livros-texto tradicionais que consiste em uma história da escrita musical, das
obras mais notórias e, principalmente, uma história biográfica dos maiores
compositores.

As técnicas composicionais das vanguardas na América Latina


As vanguardas europeias do início do século XX representam não apenas
a negação de práticas artísticas tradicionais, mas a negação do modo de vida
que as gerou e a revolta contra um sistema que culmina com a 1ª Guerra

Pro
Mundial, e que, portanto, é falho. É um novo tempo que surge na aurora do
século XX, novos paradigmas estão se estabelecendo e a arte representará
toda a confusão, a crise e a dor deste momento. Do colapso se erguerá um
novo renascimento artístico, abundante em ideias, técnicas e objetivos. Este
impulso criador e revolucionário chegará até a América Latina concomitante
aos movimentos europeus por volta dos anos 1920 ou nas décadas subse-
quentes.
A influência direta das vanguardas europeias é o ponto de partida para o
modernismo nas artes latino-americanas. Porém, diferenciando-se dos mo-
vimentos europeus, na América Latina o posicionamento artístico de refu-
tação da arte tradicional será também um posicionamento político, que irá
rejeitar as próprias influências europeias. Mas seria apenas isso, será que a
movimentação artística de fim de século latino-americana até as vanguar-
das foi tão dependente assim do ideário europeu? A conjuntura política, a
arte popular, os artistas latino-americanos e sua história técnica e estilística
não trariam em si as condições para a criação de algo que tenha ganhado
força com as vanguardas históricas, ao invés de apenas ter surgido através
delas?
Na música, por exemplo, o estabelecimento dos gêneros populares, liga-
dos ao fenômeno da urbanização, não seria um elemento suficiente para a
reflexão das vanguardas? O surgimento de ritmos como o tango, a milonga,
o samba, o chorinho, e mesmo a transformação daqueles vindos da Europa,
como o bolero, a polca, a habanera e tantos outros na passagem do século
XIX para o século XX, que, ademais, permitiram o surgimento de uma músi-
ca localizada na fronteira entre o erudito e o popular, as conhecidas “danças
de salão” ou “música ligeira” da qual também há exemplos espalhados por
116 América Latina: olhares e perspectivas
toda América Latina, como Simeón Roncal na Bolívia, Ernesto Nazareth no
Brasil e Ignacio Cervantes em Cuba, para citar apenas alguns, não teriam
elas mesmas influenciado os compositores “sérios” dentro de cada país?
Esta música que faz parte da vida social urbana não poderia ter sido um
dos elementos musicais que, agregado às técnicas típicas da música mo-
derna, viria a contribuir para a transformação do discurso musical latino-
-americano no século XX, ao menos no que diz respeito às tendências na-
cionalistas?
A despeito de sua razão de ser primeva, o movimento modernista musi-
cal latino-americano, que embora assim chamemos, não ocorreu como um
movimento articulado ou mesmo paralelo, teve como característica comum

ova
a procura de saídas para uma crise composicional deixada pelo esgotamento
das possibilidades técnicas do sistema composicional tonal, mesma situação
que ocorria na Europa.
Mas, afastando-se do panorama musical europeu, em que formaram-se
diversas correntes composicionais, no contexto latino-americano as escolas
podem ser agrupadas em apenas duas correntes: Nacionalista e Universalis-
ta. A primeira vê o uso do elemento folclórico como uma solução e participa
de um processo de legitimação da cultura popular, vista agora como símbolo
da identidade nacional, enquanto a segunda prevê que a utilização de técni-
cas composicionais entendidas como universais levariam à independência
dos modelos e à criação de uma arte própria, atualizada e liberta das velhas
práticas tonais que ainda caracterizavam parte da composição nacionalista.
Seguir o paradigma tonal, tido como superado a partir da primeira dé-
cada do século XX, rendia aos nacionalistas a crítica de conservadorismo,
difícil de escapar, visto que eram herdeiros dos nacionalismos românticos
do século XIX. Porém, as posturas antagônicas dos grupos filiados a um ou
outro estilo não destinava-se apenas ao uso do material sonoro mas, antes, a
um embate de cunho ideológico, em um momento que para os países latino-
-americanos era uma questão fundamental aderir, ou não, à representação e
criação de uma arte nacional. Ou seja, a questão primordial para os compo-
sitores latino-americanos entre os anos 1920-1945 não era apenas o emprego
ou abandono das funcionalidades tonais, com as quais a nova música tendia
a romper, pois aderir a uma ou outra técnica já significava, antes da obra
estar pronta, uma postura política.
Neste sentido, utilizar-se de técnicas composicionais chamadas univer-
sais por não fazerem referência direta a nenhuma característica que pudesse
América Latina: olhares e perspectivas 117
lembrar uma nação, tal como o dodecafonismo7, significava abster-se da
reflexão sobre uma identidade nacional. Além disso, o compositor que se
utilizasse de tais técnicas era acusado de não ser universal e sim europeu,
visto que estas técnicas de organização e manipulação do material sonoro
provinham da Europa, crítica para qual o dodecafonismo schoenberguiano,
nascido dentro da tradição austro-germânica, constitui o mais claro exemplo.
Na América Latina as décadas de 1930-40 são o ponto alto de uma gera-
ção que irá levar à renovação da produção musical, uma geração que poderia
começar sem um respeito demasiado pela tradição e que tem o compromisso
de inventar uma arte que dialogue com o externo mas considere também e,
conscientemente, seu entorno imediato. Havia logo de início a possibilidade

Pro
de escolher ser nacionalista ou não, pois a época caracteriza-se principal-
mente pela liberdade composicional, na qual a eleição de uma ou outra esté-
tica torna-se uma decisão individual e a música transforma-se em pesquisa e
experimentação com o material sonoro.
Assim, há no mínimo duas posibilidades de atuação das vanguardas la-
tino-americanas, a primeira referindo-se à ruptura com o pasado e com a
Europa e a segunda baseada no resgate das raízes sonoras de cada país. Além
disso, de maneira semelhante às vanguardas europeias, o movimento mo-
dernista significou a abertura da arte para a tecnologia, o fim da arte como
imitação da natureza (mimesis) e uma mudança de paradigma, sintetizada
pelas transformações da técnica, da estética e do pensamento com a abertura
para novos universos sonoros através da utilização do silêncio, do ruído e da
tecnologia na geração e tratamento de sons.

Conclusão
Todas estas transformações trariam suas principais consequências a par-
tir dos anos 50, quando a relação da música com o desenvolvimento técnico
passa a ser fundamental para a produção musical erudita, pois a mesma tec-
nologia que move a indústria cultural e aprofunda a distância da população
com a produção musical erudita permite que os compositores desenvolvam
dezenas de possibilidades musicais desligadas dos sistemas composicionais
tradicionais.


7
Dodecafonismo: técnica de composição surgida no início do século XX, em que
os doze sons da escala cromática são a base da composição, substituindo a escala
de sete sons do sistema tonal. Nesta técnica destacaram-se os compositores da
chamada 2ª Escola de Viena: Arnold Schoenberg, Anton Webern e Alban Berg.
118 América Latina: olhares e perspectivas
Após a II Guerra Mundial a querela entre Nacionalismo e Universalis-
mo anulam-se, dir-se-ia naturalmente, pois vê-se como falhas as técnicas
chamadas universalistas, como o dodecafonismo, que esgotou-se em pouco
tempo, e também o nacionalismo, cujo uso de elementos tidos como popula-
res também passou a ser questionado, já que tal música tampouco era aces-
sível a grande parte da população que agora tem nas músicas da rádio a sua
identificação. O esgotamento das técnicas composicionais das vanguardas
e o novo panorama político mundial pós-Segunda Guerra acaba por igua-
lar a atividade composicional, ou seja, a música contemporânea desliga-se
de questões nacionais e torna-se pesquisa, que ocorre em estúdios particu-
lares ou em universidades, apenas para um pequeno círculo de iniciados.

ova
Finalmente, universalismo e nacionalismo anulam-se porque ambos ocor-
rem dentro da música de tradição ocidental europeia. Todavia, o colapso do
sistema tonal permitiu que pela primeira vez os compositores de qualquer
lugar do mundo ocidental se igualassem nas condições de buscar uma nova
maneira de expresar-se. Para começar do zero pode-se começar em qualquer
lugar e, na contemporaneidade, dentro de um leque infinito de posibilidades,
o compositor pode também transitar por tradições e por identidades.
Muitas das obras modernas que ficaram para a posteridade como parte
importante das produções nacionais latino-americanas não eram necessa-
riamente nacionalistas, ou seja, a discussão envolvendo nacionalistas e uni-
versalistas teve grandes proporções apenas no campo ideológico, porque
mesmo o uso da técnica dodecafônica não se dava da mesma forma que no
círculo de Viena, e o compositor não deixava de ser brasileiro, argentino ou
chileno quando utilizava-se do dodecafonismo, já que “latino-americana”
era impossível que sua composição ansiasse ser, como era europeia a música
do início do período Barroco (europeia pois um mesmo estilo poderia ser en-
contrada em qualquer país, porém, note-se que esta internacionalidade fora
consequência da hegemonia italiana a partir da Renascença).
Concluiu-se, por fim, que não se é nacional apenas pelo uso de alguma
melodia folclórica ou base rítmica, e a identidade não pode ser artificial-
mente forjada ou a tradição e o folclore “melhorados” pela sua aplicação na
música de concerto. Ao contrário, fixar o folclore artificialmente através do
uso de pequenos temas ou melodias, sem que este fale realmente como uma
tradição viva, acabava por gerar obras interessantes do ponto de vista artís-
tico, porém ideologicamente tão vazias quanto àquelas dodecafônicas. Na
maioria dos casos utilizar-se de padrões musicais “nacionais” não significa
América Latina: olhares e perspectivas 119
“ser” nacional ou ter garantias de estar representando uma população, ao
contrário, a tendência é que se veja o folclore como algo petrificado e preso
ao passado, mantendo-se o discurso atrelado a um imaginário romântico, en-
quanto o verdadeiro caráter nacional das músicas latino-americanas aparecia
nos gêneros populares que são, em todos os países do continente, resultado
da miscigenação do elemento indígena, europeu e africano.
O que se viu depois foi que as obras pertencentes à estética nacionalista,
por trás da superfície temática inspirada no folclore, possuíam uma estru-
tura formal e de técnica de uso do material mais europeia do que a música
universalista, que, através do experimentalismo permitido pelas vanguardas
tinham mais facilidade em explorar universos sonoros não tradicionais, e,

Pro
portanto, menos europeus e mais individuais, ligados ao contexto particular
de cada compositor. Pois a composição, mais que um exercício abstrato de
organização dos sons, é um produto cultural simbólico e, desta maneira, é na
cultura na qual o compositor se insere que reside o material de seu trabalho e
por isso sua música pode ter um sentido, atribuído pelos ouvintes, aos quais
a música pode sensibilizar e expandir o universo sonoro. Esta interação não
é apenas entre autor e ouvintes, mas se estende para os intérpretes, a técnica,
o contexto e o diálogo destes com culturas que lhe são externas, em uma
teia de relações sempre dinâmicas que implicam em mudanças gradativas da
própria prática musical.
Passados mais de 80 anos da produção musical modernista, continuamos
sem ouvir as obras dos compositores latino-americanos, e as parcas inicia-
tivas configuram exceções. Embora os compositores modernos europeus
tenham conquistado o público na segunda metade do século XX, como De-
bussy, Bartók, Stravinsky e até mesmo os compositores da Segunda Escola
de Viena, mais impopular na época, tornando-se todos presenças constantes
nos programas de concerto pela América Latina, os modernos locais sequer
chegam a existir dentro de seus próprios países, mesmo para estudantes de
música.
Esta marginalidade da música latino-americana não é devida a questões
técnicas, visto que as obras são excluídas antes mesmo de sua audição e de
sua avaliação. A situação é tal que a maior parte do repertório latino-ameri-
cano não é encontrada em boas edições e as gravações ou audições públicas
também são raras. Esta música não permanece fora das salas de concerto
porque os compositores não são qualificados, ou tão qualificados, como os
europeus, a música latino-americana permanece fora das salas de concerto
120 América Latina: olhares e perspectivas
por um eurocentrismo que persiste, principalmente na área da música cha-
mada erudita, devido ao peso de uma tão difundida história das personalida-
des e da escrita musical de tradição europeia ocidental.

Referências
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América Latina: olhares e perspectivas 121


Pro

122 América Latina: olhares e perspectivas


Imágenes y palabras
“para celebrar una nueva era”

Diana Araujo Pereira

E
ste texto, que intenta un acercamiento a la contemporaneidad cul-
tural latinoamericana, parte del consabido hecho de que el con-
tinente es fruto de una trama de voces e imágenes única, y que

ova
los hilos entretejidos en esta configuración forman nudos, cuestiones, preo-
cupaciones de orden identitario que recorren nuestras reflexiones sociales,
históricas y artísticas.
Si hay un punto de convergencia entre los actuales pensadores de la cul-
tura en nuestro continente, él se refiere a la necesidad de creación de una
nueva cartografía espacio-temporal, un nuevo locus desde donde pensar la
identidad cultural latinoamericana, cuya especificidad pasa a ser sobre todo
de orden temporal; y cuya acción es la inclusión, la capacidad de generar
“actos sincréticos”. Y como somos producto de una modernidad que ha sido
forjada e instaurada a lo largo de los últimos siglos, pensar sus consecuen-
cias seguramente nos ayudará a profundizar nuestra reflexión sobre la con-
temporaneidad, la llamemos o no de postmodernidad.
Reflexionar sobre el momento actual significa, por tanto, buscar nuevas
perspectivas epistemológicas que nos aclaren el camino en este tiempo de
encrucijadas. En otras palabras, debemos enfrentarnos a la modernidad y a
sus consecuencias desde otro referente, el nuestro; desde nuestra específica
situación histórica y social, con todos los elementos que nos pertenecen y
condicionan culturalmente.
El recorrido de la modernidad, desde su preludio (y aquí lo ubicamos en
el momento del descubrimiento de América, siguiendo la huella de varios
críticos e historiadores), es la historia de la elección de la crítica y la racio-
nalidad occidental como caminos inteligibles para la subjetividad humana, y
para su versión pública y social. La crítica es una de sus principales claves;
según Octavio Paz, su base motriz, su paradigma conceptual. En este senti-
do, configura el modus operandi de la modernidad, entendida como método
de investigación, creación y acción.
América Latina: olhares e perspectivas 123
Dicha modernidad configura una nueva concepción de lo humano que,
liberado del peso teocéntrico que lo enmarcaba, adquiere una inaudita posi-
bilidad de comando y construcción, es decir, de total intervención sobre el
orbis terrarum, ahora definitivamente a cargo de la técnica y la imaginación
del hombre.
En Europa este proceso va generando, poco a poco, nuevas relaciones
objetivas y sociales cotidianas, mientras que en América Latina la misma
modernidad se va haciendo cada vez más subjetiva, imposibilitada de in-
gresar en la materialidad del día a día. Aníbal Quijano (1988, p.19) llega a
afirmar que “los intelectuales, algunos, podrán pensar con la máxima mo-
dernidad, mientras su sociedad se hace cada vez menos moderna, menos...

Pro
racional.”
Cuando le es conveniente, Europa (sobre todo bajo la hegemonía inglesa)
instrumentaliza la razón, antes defendida como herramienta liberadora del
pensamiento y de la acción humanas. La ambigüedad inherente al recién
inaugurado imperio de la razón, como fuente de “verdad” y medida para
toda y cualquier condición humana, empezaba a mostrar sus garras según se
convertía, paulatinamente, en instrumento de poder y de dominación colo-
nial. (“El sueño de la razón produce monstruos”, decía y gravaba Goya en
plena y candente Ilustración).
La cuestión fundamental es que la modernidad, en ese proceso, resulta
completamente identificada con la razón instrumentalizada por el poder. Y
aquí cabría preguntarse por la naturaleza misma de esa razón occidental,
europea (actualmente euro-norteamericana), que pretende dominar la escena
mundial desde los inicios de la modernidad.
La racionalidad europea se ha construido sobre sus relaciones de poder
con el resto del mundo, y en este sentido, la formación de los ideales de la
racionalidad es paralela a la reconfiguración geopolítica del mundo a partir
de los primeros colonialismos del siglo XVI. Ya en sus inicios, la moderni-
dad se ha erigido sobre la razón y la crítica, y ambas sobre las relaciones de
poder en escala cada vez más global.
Todo este cuadro no sufrirá ningún cambio significativo hasta las pri-
meras décadas del siglo XX, bajo el influjo de la ruptura vanguardista que
llega desde Europa. (No nos olvidemos que la avalancha crítica que invade
todos los ámbitos del imaginario europeo es el fruto de una profunda crisis
de aquella misma racionalidad que, después de la primera guerra mundial ya
no podrá dirigir de la misma manera los rumbos del pensamiento y el arte).
El desembarco de las variadas e instigadoras vertientes vanguardistas en
el “Nuevo Mundo” genera frutos propios en el suelo latinoamericano, y per-
mite que la idea de modernidad vigente sea largamente discutida y “antro-
pofágicamente” reasimilada. En contra de esos procesos, los vanguardistas
y sus herederos contemporáneos se proponen a encantar otra vez el mundo
y así escaparse de los estrictos límites del racionalismo instrumentalizado
por el poder económico y político, en busca de una racionalidad que sea,
finalmente, toda una cosmovisión inclusiva, y que abarque al hombre en sus
relaciones con la naturaleza y el mundo.
Las vanguardias latinoamericanas cuestionan la modernidad, inauguran
la posibilidad de ruptura con el status quo y, paradójicamente, de configura-

ova
ción de una continuidad cultural interrumpida por la conquista ibérica. Un
proyecto europeo que presumía por instaurar vacíos era la oportunidad per-
fecta, la fractura en un orden colonial ya excesivamente establecido y rea-
firmado por las diversas (y siempre muy semejantes) oligarquías nacionales,
herederas de aquella sociedad aristocrática proveniente de los procesos de
conquista y colonización. De ahí que los intelectuales de la época tomen
esa oportunidad de forma tan pasional, y el proyecto vanguardista tenga un
fondo tan estético como social, sin que ninguno de los dos términos signifi-
que una contradicción irreconciliable.
Las artes se convierten, por tanto, en un medio importante para tales
reflexiones cuyo objetivo es, en última instancia, liberar América Latina de
sus condicionamientos históricos para que alcance a “reconstruirse”, dando
los primeros pasos hacia caminos más propios y en consecuencia menos
violentos de inserción mundial o de modernización. Veamos lo que afirma a
respecto el poeta Juan Gustavo Cobo Borda:

¿Por qué el pasado sólo lo asume, exorciza y esclarece la ficci-


ón? El mundo había cambiado y ahora el hombre americano,
citadino, influenciado por la radio, la televisión y el cine (…)
nos brinda un cuadro hirviente y polifacético de una realidad
en ebullición que, como siempre, el arte perfila en metáforas
únicas. (…) La cultura nuestra estaba allí. Nuestras raíces eran
perceptibles pero nuestro rostro había cambiado. Su deuda ex-
terna podría ser económica, pero ya no intelectual. La cultura,
en muchos casos, nos brinda la madurez, autonomía y perdura-
bilidad que ni la política ni la economía eran capaces de brin-
dar, en forma continuada. Del modernismo al boom una nueva
América Latina: olhares e perspectivas 125
tierra había sido roturada y su cosecha saboreada con avidez,
deleite e inteligencia en todo el mundo.1

Se podría pensar – en los términos ampliamente utilizados por Maffesoli


– que la literatura y las artes van a responder a la intensa necesidad colecti-
va de sobrepasar los límites unidireccionales de la lógica gubernamental, y
promover y recargar la difusión de la Potencia que se esconde bajo el Poder
instituido por las élites políticas.

Imagen y palabra: Antonio Cisneros, Nelson Leirner y Nadín Ospina


A continuación vamos a observar a tres artistas cuya obra actúa en el es-

Pro
cenario contemporáneo latinoamericano en doble vía: por un lado refuerzan
la tendencia heredada de las vanguardias de entrar a bucear en este magma
de símbolos y memorias que configuran el imaginario colectivo, a la vez
que lo retroalimentan al potenciarlo a través de imágenes y palabras que lo
expresan y lo descubren.
En este contexto el poeta peruano Antonio Cisneros dialoga fácilmente
con el artista colombiano Nadín Ospina y con el brasileño Nelson Leirner
por varios motivos, y uno de ellos por el hecho de que su obra poética es
altamente plástica. Cisneros construye imágenes en forma de versos, lleva
el lenguaje al límite de su autonomía, otorgando a las palabras una materia-
lidad que confiere total independencia a las construcciones del lenguaje. La
imagen, en su poesía, no explica y tampoco interpreta, simplemente aproxi-
ma al lector a una visión plásticamente elaborada.
De hecho, Cisneros ha dicho, en alguna entrevista, que habría querido
ser pintor antes que poeta. Hay en su obra plasticidad y énfasis en recursos
tanto “imagísticos” como formales. En fin, sus imágenes se configuran como
mosaicos de palabras que sueñan dar mayor materialidad a la escritura.
Nadín Ospina y Nelson Leirner trabajan sobre todo con composiciones
objetuales. Son artistas que, siguiendo la vereda conceptual abierta por Du-
champ (de la primacía de la idea en la obra de arte), pretenden descubrir
en la cotidianidad de los objetos voces disonantes y provocaciones para la
problematización de cuestiones estéticas y/o histórico-sociales. En otras pa-
labras, sacan los objetos de su uso funcional y cotidiano con la intención de
ampliar su potencia simbólica o alegórica; lo que no está muy lejos de lo

1
Cobo Borda, www.oei.org.ar|noticias|JGCobo, p. 17-18.
126 América Latina: olhares e perspectivas
que hacen los poetas con las palabras. Y ambos se relacionan con Cisneros
a través del diálogo con la memoria por la vía del humor y la ironía, y por la
capacidad que comparten de circular por otras temporalidades.
Estos tres artistas-poetas (y aquí vuelvo al sentido etimológico, origi-
nario del vocablo poiesis que significa “acción”; por tanto, poeta es el que
“actúa” sobre sí y sobre el mundo a través de la acción sobre el lenguaje, sea
cual sea) digieren antropofágicamente la realidad de su entorno, absorbien-
do sus elementos más cotidianos, de la misma manera que absorben la sub-
jetividad que alimenta el imaginario colectivo y los símbolos que remiten a
la memoria histórica.
Sus ojos funcionan como tentáculos que captan y re-elaboran el mundo

ova
visible tomando elementos de su otra mitad “invisible”, subjetiva, imagina-
ria, escatológica o grotesca. Con ello amplían las posibilidades expresivas
del lenguaje con el que trabajan, creando nuevas asociaciones semánticas
(no exentas, en muchos casos, de fuerte carga política), lo que permite a la
realidad mostrarse en toda su complejidad, y generando para esta misma
realidad, a través de sus herramientas formales y de lenguaje, todo un dina-
mismo que desdobla y redobla sus sentidos.
Inmersión en la realidad cotidiana y en los diversos y complementarios
fragmentos temporales que configuran la trama social e histórica latinoame-
ricana, y que enmarcan nuestros límites ontológicos. Como afirma un críti-
co de Nelson Leirner, pero que bien podría servir para comentar igualmente
el resultado de la obra de Ospina o de Cisneros, se trata de una “confronta-
ción y experimentación ético-estéticas” (Montejo N., 2003, p.46). Confron-
tación o enfrentamiento temporal e imaginario; experimentación de formas
y lenguajes – y de sentidos e ideologías; en fin, todo un trabajo de base es-
tética que se confunde con la visión ética que buscan ofrecer a la sociedad:
relación de doble mano, en la cual el creador sufre la influencia del contexto
colectivo a la vez que también él ejerce influencia sobre el mundo a través
del arte y de la apertura que ella posibilita al pensamiento reflexivo.
Trabajo artístico y trabajo crítico que se sumerge en la memoria y en el
imaginario colectivos para luego emerger en el cotidiano, renovándolo a
través de la ironía. Es ella, por cierto, la herramienta que les permite una re-
-elaboración artística que huye de la solemnidad, y que quiere escaparse de
su dramatismo inherente por la vía humorística.
La misma ironía que se dirige hacia fuera, hacia sus reflexiones sobre el
mundo, se dirige también hacia dentro, instaurando la auto-crítica que les
América Latina: olhares e perspectivas 127
lleva a cuestionar su lugar como artistas en este mundo sobre el cual refle-
xionan: ¿Cuál es el papel del arte, qué alcance tiene, efectivamente, en la
construcción de los cambios sociales o históricos? ¿Cuál es la función ética
del artista? ¿Cuál es la importancia de la originalidad de la obra de arte, ya
que trabajan con elementos preexistentes, muchas veces apenas remanufac-
turados, recreados? Estas son cuestiones con las cuales todo artista contem-
poráneo, en mayor o menor grado, se tiene que enfrentar. Pero en el caso de
Cisneros, Leirner y Ospina, dichos planteamientos se convierten en un eje
fundamental; desde su obra no se puede pensar el lugar del arte y el papel del
artista en el mundo sin arrostrar el riesgo ético inherente a tales cuestiones.
Veamos, para empezar, un poema de Antonio Cisneros bastante emblemá-

Pro
tico de todo lo que hemos dicho anteriormente. Se trata de “Arte Poética 1”:

1
UN CHANCHO hincha sus pulmones bajo un gran limonero
mete su trompa entre la Realidad
se come una bola de Caca
eructa
pluajj
un premio

Un chancho hincha sus pulmones bajo un gran limonero


mete su trompa entre la Realidad
– que es cambiante –
se come una bola de Caca
– dialécticamente es una Caca Nueva –
eructa
– otra instrumentación –
pluajj
otro premio

3
Un chanco etc.

La mezcla de léxicos tan diferentes, como son el escatológico (Caca,


eructa, pluajj) y el filosófico (Realidad, dialécticamente, instrumentación),
presentes en esta primera “Arte Poética” aclaran el tono irónico e irreverente
128 América Latina: olhares e perspectivas
de la composición. El intencional uso de las mayúsculas también es muy
significativo, ya que proyectan aún más la ironía e igualan los representan-
tes de estos dos niveles conceptuales tan distintos entre sí, pero sometidos a
un extraño y obligatorio diálogo impuesto por la palabra poética y, por otro
lado, por la realidad. La rareza se intensifica si interpretamos que la figura
del cerdo o chancho es el propio poeta. Y como se trata de un arte poética,
se puede deducir que es el poeta quien mete su trompa en la Realidad, y a
través de su digestión produce un premio – el poema. Como he observado en
otro texto al respecto. (Pereira, 2004),

Antonio Cisneros llega al borde de una irreverencia grotesca,

ova
y al desmontar la figura clásica del poeta – este poeta descrito
por movimientos anteriores como siendo capaz de trasmutar y
trascender la Realidad – pone en jaque un pilar fundamental de
la escritura contemporánea en América Latina: el papel social
y ontológico del escritor. Pero, por otro lado, confirma su ac-
ción en el plano de la realidad tanto literaria y filosófica como
humana, ya que no llega a destruir la imagen del poeta trans-
mutador de la realidad, pues al intentar ridiculizarla, la invierte
y, en un sentido opuesto, la reafirma. El poeta es un cerdo que
se alimenta de una Realidad escatológica y aún así produce sus
premios. Si ha cambiado la realidad, también el escritor tiene
que cambiar su relación con ella. La ironía se dirige a la Rea-
lidad y a los distintos y diversos discursos que se hacen sobre
ella. El poeta es, netamente, su víctima y a la vez el verdugo
de tantos discursos.

El poeta-cerdo del poema de Cisneros guarda profunda relación con el


poeta-portavoz de la parte sumergida de la realidad de los primeros román-
ticos anglosajones. Octavio Paz ve en los vanguardistas del siglo XX una
profunda relación con el romanticismo. Más que una descendencia, una
continuidad que se manifestaría por la presencia de dos elementos para-
digmáticos del romanticismo, y que siguen absolutamente vigentes en la
contemporaneidad, aunque muchas veces tomados bajo signo contrario: la
analogía y la ironía.
Paz (1990, p.35) define la analogía como “la visión del universo como
un sistema de correspondencias y la visión del lenguaje como un doble del
universo”; es decir, la visión analógica del mundo establece que todas las
cosas se corresponden e interactúan. Sobre la ironía, contraponiéndola a ese
sentido de la analogía, afirma que “es la disonancia que rompe el concierto
América Latina: olhares e perspectivas 129
de las correspondencias y lo transforma en galimatías. [...] La ironía tiene
varios nombres: es la excepción, lo irregular, lo bizarro como decía Baude-
laire y, en una palabra, es el gran accidente: la muerte.” (PAZ, 1990, p.36)
Aún según Octavio Paz, es esta relación tan ambigua como contradicto-
ria, aunque complementaria, entre la analogía y la ironía, la que genera la
gran revolución del arte y del pensamiento que ha significado el romanticis-
mo anglosajón.
En la contemporaneidad, la ironía y la analogía siguen con su diálogo de
siglos, pero ahora estos términos ya no son tomados como antitéticos, ya no
forman una contradicción o dicotomía. A partir de las vanguardias, los ha
acercado y enlazado una visión del mundo y del arte más integradora, capaz

Pro
de poner en diálogo los extremos más aparentemente irreconciliables.
Lo que hacen Leirner, Cisneros y Ospina es enseñar que hoy la analogía
sólo es posible si está basada en la ironía. La nueva analogía fomenta, en es-
tos artistas y en muchos otros, todo un modo de ver, una mirada que decons-
truye las anteriores y ya obsoletas tentativas de analogías establecedoras de
simetrías lineales. El espíritu de las vanguardias y la antropofagia derrumba-
ron aquella visión dicotómica que oponía irremediablemente términos hoy
entendidos como complementarios: pasado-presente; vida-muerte; razón-
-magia, por ejemplo.
Y es precisamente la ironía quien conjura el maleficio de los anteriores
parámetros, tan establecidos y endurecidos en el pensamiento occidental. La
ironía pone abajo los ladrillos de la casa para que entonces la podamos vol-
ver a enderezar, cambiando y alterando su estructura interna, transformán-
dola en un espacio más conveniente y, por qué no, más cómodo. Esa casa es
América Latina, el cuerpo-continente que se tiene que erguir sobre nuevas
condiciones éticas y culturales.
La analogía romántica mostraba, como decía Paz, las semejanzas entre
“esto” y “aquello”. Ahora se trata de mostrar las desemejanzas y las di-
sonancias entre los términos de la realidad, ya netamente entendida como
algo complejo y nada maniqueo. Vivimos, por tanto, un cambio profundo e
irremediable de parámetros: ya no buscamos la identidad en lo semejante,
sino en una nueva clase de armonía conflictiva (y me permito el oxímoron),
entre las diferencias.
Incluso la misma ironía ha sufrido un cambio de perspectiva. Si antes es-
taba asociada al gran accidente, en fin, a la muerte, hoy la ironía nos habla de
vida, de construcción, de superación de límites; sin embargo, sigue siendo el
130 América Latina: olhares e perspectivas
gran accidente, pero ahora el que transforma, crea, reinaugura. Y la compli-
cidad que requiere la ironía entre el lector o el espectador de la obra de arte
y su creador ayuda en el proyecto de construcción participativa y dialogante
de una nueva ética y de una nueva estética.
En oposición al tiempo cíclico de la cosmovisión indígena y al tiempo
lineal del pensamiento occidental, nuestra versión latinoamericana instaura
un tiempo-mosaico, un tiempo en capas, donde ninguna de sus manifestacio-
nes se oponen o rivalizan; más bien al contrario, se yuxtaponen y ocurren de
forma simultánea. Estamos aprendiendo a manejar, tanto en el arte como en
la vida misma, dicha temporalidad fragmentada por las incursiones extran-
jeras y sus influencias desde la época de la conquista. Tiempo no lineal, ubi-

ova
cuo y relativo; tiempo, pues, de la tercera margen del río (según la metáfora
de Guimarães Rosa), la que nos constituye y determina nuestro ir y venir
cotidiano y artístico por las esferas del pasado, del presente y del futuro.
Los mapas de Nelson Leiner, por ejemplo, nos remiten a las primeras
inclusiones de América Latina en el mapa mundi, al mismo tiempo que se
sirve de este soporte para cuestionar nuestra ubicación en el escenario geo-
político actual2. Sus mapas funcionan como puentes que ligan el pasado al
presente, permitiendo toda una nueva circulación de perspectivas que echan
movimiento a los elementos que nos sostiene la memoria. Por otro lado, el
artista reconoce y denuncia la estrecha relación que la modernidad mantiene
con el Poder, sea económico – mapas configurados con dólares – o simbó-
lico e imaginario – mapas configurados con iconos de la industria cultural
norteamericana (entertainment, espectáculo). Ha de advertirse la presencia
de simbólicos y significativos esqueletos negros de la muerte, en una forma-
ción paralela e invertida, que cumple la función de espejo para las figurillas
de innumerables mickeys, lo que seguramente enfatiza la ironía crítica sobre
la cara más terrible de la globalización, aquí representada por dicha industria
cultural en extraña relación con la muerte. Lo infantil y lo mortuorio juntos
en colores fuertes, saturadamente pop – otra unión disonante que sirve para
agrandar la denuncia de la cara más oscura del neoimperialismo norteame-
ricano.
Esa re-ubicación de la mirada o relativización histórica es la misma que
trabaja el colombiano Nadín Ospina a través de sus estatuillas que igual-
mente religan el pasado y el presente, al unir en una sola escultura la forma
2
Aquí me refiero más concretamente a la serie “Assim é se lhe parece”, de 2003,
disponibles en la página del artista:
América Latina: olhares e perspectivas 131
de los ídolos prehispánicos y personajes de la misma industria cultural nor-
teamericana, símbolos masificadores de la globalización en su peor sentido.
Ambos elaboran, a consciencia, todo un programa artístico y crítico de sub-
versión cultural que se traduce, a la vez, en subversión narrativa, temporal
y lingüística. En suma, producen un corto circuito conceptual, perceptivo.
La creación artística, en estos casos, refuerza una neta tendencia en mu-
chos ensayístas, cuyo objetivo es trabajar en la elaboración de propuestas de
racionalidad alternativas que signifiquen, en última instancia, nuevas posibi-
lidades de interacción entre el hombre, la naturaleza y la realidad.
En este sentido, en el poema “Para celebrar una nueva era”, Cisneros
establece un diálogo con un tú que es a la vez un personaje exterior – “Señor

Pro
de la Lluvia”, luego “Señor de los Vientos” y finalmente “Señor de la Ho-
guera” – e interior; un dios con el que dialoga y se enfrenta al mismo tiempo
que comparte su voluntad de acción:

Yo Señor de la Lluvia
abro todas las aguas y las junto
sobre los viejos techos de tu reino
Yo Señor de los Vientos
me revuelvo entre todas las ruinas de tu ingenio
inútil como un gallo apachurrado y muerto
Yo Señor de la Hoguera
torno en aceite paja brea carbón de piedra
el corazón de tus hijos
los mejores
Yo canto Yo danzo Yo nombro las cosas
para que ya no seas
para que sólo seas
un pedazo de hielo bajo el sol.

Ese dios, o Señor con mayúscula, domina los tres elementos de la natu-
raleza: agua, aire y fuego; sin embargo, llama la atención que el poeta no
nombre la tierra, como si fuera este elemento el que le toca, el único sobre el
cual puede llegar a actuar, la tierra o el “reino de este mundo”.
Su acción se enfrenta a los dominios del Señor, aunque el yo poético se
reconoce como siendo tan “inútil como un gallo apachurrado y muerto”.
Pero en la última estrofa, el poeta reivindica el cuerpo y la palabra como
132 América Latina: olhares e perspectivas
sus elementos de acción y dice: “Yo canto Yo danzo Yo nombro las cosas”,
para enfrentarse definitivamente a ese dios distante e inaccesible y llegar a
convertirlo en tan sólo “un pedazo de hielo bajo el sol”.
Lo que vemos en este poema es un enfrentamiento que se dirige, al fin y
al cabo, a una concepción de religiosidad y, como consecuencia, de racio-
nalidad heredada de la mentalidad occidental. A esa idea de dios y de supe-
rioridad y poder, el poeta sólo puede enfrentarse con sus pies sobre la tierra
(por ende su cuerpo) y su voz para cantar, danzar y nombrar las cosas según
otra mentalidad u otras posibles racionalidades, es decir, con otra lectura de
lo real.
Aquí nuevamente la analogía es colocada en jaque, y es en la acción más

ova
menuda, más cotidiana y más sencilla donde podemos actuar en un mun-
do hecho según parámetros que nos limitan individual y colectivamente. Y
también la ironía que se reaviva en el título del poema – “Para celebrar una
nueva era”, nos trae la esperanza del accidente, toda una inversión de posi-
bilidades que parten del mismo “gallo apachurrado y muerto” que, por otros
senderos no previsibles por el capitalismo y sus tentáculos imaginarios, pue-
de llegar a cantar y a danzar y a nombrar, como el mismo gallo que “teje la
mañana” del poeta brasileño João Cabral de Mello Neto. En este poema y
en toda una nueva cartografía poética del continente resuenan las palabras
de Maffesoli (2009):

Las costumbres se perfeccionan. El sentido de las palabras par-


ticipa de ello. A aquellas, falaces, de los poderes (económicos,
políticos, simbólicos), a aquellas esclerosadas, disociadas y
abstractas, a aquellas del habla perdida, hay que saber opo-
nerles aquella de la potencia vivida. Esto es precisamente una
deontología del instante. La exigencia de una ética inmoral.
La palabra viva y vivida se convierte en palabra recobrada.
Nos encontramos, aquí, en el corazón del reencantamiento del
mundo.

Tras estas reflexiones podemos afirmar que América Latina, como ente
histórico y cultural, todavía es un espacio en construcción que, poco a poco,
avanza sobre sus límites. El exceso de peso colonialista – siempre reavi-
vado por las oligarquías nacionales – ha generado un proceso ontológico
y social que no puede omitir, de ninguna manera, su tensión inherente. Es
precisamente en la relación conflictiva entre interior y exterior, entre vida

América Latina: olhares e perspectivas 133


pública y privada, entre pasado, presente y futuro, en fin, entre las antiguas
oposiciones, donde reside más que nuestra supervivencia, nuestra salud cul-
tural. Y el arte, en gran medida, actúa como el espacio ideal y propicio a esa
potenciación de tiempos y de imaginarios.

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134 América Latina: olhares e perspectivas


América Latina. El boom de la literatura
Latinoamericana no es un movimiento literario…

Clara Agustina Suárez Cruz

I
niciamos nuestro trabajo con una citación del profesor uruguayo, Jorge

ova
Ruffinelli, radicado en Stanford:

El mundo americano ha deslumbrado desde que se instaló para


siempre en la mirada de Colón. Los cronistas debieron apelar a
la maravilla literaria para describir lo que se extendía más allá
del horizonte palpable o hijo de la fe. Ese carácter de deslum-
bramiento, que se ha mantenido constante hasta nuestros días,
subraya lo inédito y lo sorprendente como signo de estas tierras
y de su manera artística. (Ruffinelli, p. 367)

Esta idea es reafirmada por Carlos Fuentes: “… el llamado boom, en rea-


lidad, es el resultado de una literatura que tiene por lo menos cuatro siglos
de existencia”…
El boom no es un movimiento literario, es un impulso fundador. Su vi-
gencia y su trascendencia fueron facilitadas por las posibilidades de comu-
nicación y difusión del contexto histórico-social de la época.
Para indicar un posible origen del boom de la literatura latinoamericana
podríamos trazar un arco imaginario que partiría de los años finales de la
Vanguardia y llegaría a los sesenta.
Hagamos memoria… en los primeros encuentros de este Curso nos remi-
timos a manifestaciones literarias en América Latina para analizar las Van-
guardias y políticamente, a los años de 1880 a 1920. A pesar de las respecti-
vas Constituciones que cada república elabora en este período redactando y
haciendo los ajustes necesarios al sistema elegido y aún cuando se esperaba
su real funcionamiento, se puso en evidencia, una vez más, que en América
Latina los hombres cuentan más que las instituciones… Y no es esto un
elogio. Así, las garantías constitucionales no encuentran apoyo sólido en

América Latina: olhares e perspectivas 135


las estructuras sociales, que siguen siendo las mismas de la época colonial.
Las flamantes repúblicas se sumergen en guerras y revoluciones constantes:
Colombia, México por nombrar algunas, reflejan el descontento popular,
político, social y económico. De esta forma, no tardarán en surgir gobiernos
dictatoriales. Brasil, queda fuera de este panorama, porque su gobierno mo-
nárquico mantiene la organización política en otros parámetros. En 1889,
la abolición de la esclavitud le costó la vida imperial. Y entre 1890 y 1929
sufrió agudas crisis durante cuatro años para entrar enseguida en un período
de desarrollo que todavía continúa.

Las Vanguardias

Pro
Los movimientos de las Vanguardias se conocieron rápidamente en la
primera mitad del siglo XX. Grupos de jóvenes mexicanos, chilenos, uru-
guayos, argentinos, brasileños, en fin, intelectuales y artistas que pertene-
cían, muchos de ellos, a las elites económicas o artísticas viajaban a Europa
para educarse o para conocer las novedades del viejo mundo, es interesante
recordar que muchas veces, su condición de extranjeros, y de extranjeros
“latinoamericanos”, no les permitía una total integración en estos movi-
mientos.
De vuelta a casa…los artistas, poetas, escritores, pintores, estudiantes al
volver a sus países, no se limitaron a reproducir lo que habían visto, sino,
que encararon las novedades con una total originalidad, incluyendo lo paró-
dico y lo carnavalesco. Tanto en las letras como en la pintura, las experimen-
taciones a partir del futurismo, del cubismo, del dadaísmo, y principalmente
del expresionismo y del surrealismo permitió a los recién llegados dar lugar
al origen de expresiones absolutamente latinoamericanas, tales como: el ul-
traísmo, el creacionismo, el estridentismo.
Entre los postulados que las Vanguardias afirmaban es necesario recordar
que los intelectuales y artistas pedían: el desaparecimiento de los museos,
la destrucción de la servidumbre a la representación mimética de la realidad
(ídolo de la burguesía victoriana) en su lugar, proclamaban la exaltación de
la velocidad y los inventos modernos, la difusión de las revoluciones sovié-
tica y fascista, junto con las descubrimientos de Freud de los laberintos del
subconsciente.
La revolución mexicana elaboró el concepto de “lo latinoamericano” a
comienzos del siglo XX a través de la democratización cultural. La figura
de José Vasconcelos fue de capital importancia en este proceso, ministro de
136 América Latina: olhares e perspectivas
educación del gobierno revolucionario de México durante los años ’20, era
un idealizador y un entusiasta educador de la “raza cósmica”como llamaba
a los mestizos de América, con un sentido de orgullo en el pasado indígena
y en el futuro igualitario.
Instauró una revolución escrituraria, Mario de Andrade en Brasil, donde
realiza estudios antropológicos sobre el negro y el indio, al mismo tiempo
que creaba una poesía enraizada en lo tradicional y Jorge Luis Borges abo-
gando por “el lenguaje de los argentinos”. A su vez, también revalorizaron
el aporte de los pueblos indígenas y la cultura negra, el cubano, Nicolás
Guillén, y el uruguayo, Pedro Figari en la plástica.
Un poco más de historia…

ova
Escritores y Poetas como Octavio Paz (México), Lezama Lima (Cuba),
Pablo Neruda (Chile), Ernesto Cardenal (Nicaragua), Nicanor Parra (Chile),
Mario Benedetti (Uruguay), Jorge Luis Borges (Argentina). Miguel Angel
Asturias (Guatemala). Alejo Carpentier (Cuba) comienzan a escribir durante
la crisis de los años ’30. Experiencia profunda de crear una novelística que
no solo transformaba el lenguaje, sino también al hombre y al mundo. Nace
la nueva novela latinoamericana.
El poema “es un acto (…) capaz de transformar al hombre (…) a la socie-
dad (…) para que “el hombre total, el hombre poético, dueño de sí mismo,
apareciese”. Octavio Paz.
Con la publicación de El pozo de Onetti, (1939) el paradigma del realis-
mo ha entrado en crisis. Según Ruffinelli (op. cit. p. 371) quien considera un
fracaso la propuesta de la literatura vanguardista, “al diluirse en los años 50
en una literatura individualista, psicológica y existencial” (…).
Y que llegaría a reconocerse en los años sesenta como una especie de
resurrección de la ruptura, una puesta en marcha de los paradigmas de van-
guardia bajo inflexiones diferentes, nuevas, acordes con los cambios que la
historia de dos décadas trajera aparejados. (op. cit. p.370)
A partir de los años 1940 comenzó una transformación que mudará en un
par de décadas el escenario de la cultura latinoamericana, acontecimientos
éstos, que definirían el futuro socio-cultural de América Latina: el término
de la Guerra Civil española y la consecuente presencia de Franco en el poder
y el comienzo de la Segunda Guerra Mundial con el triunfo de Hitler. La
Guerra Civil española orientará hacia México y Argentina algunos de los
intelectuales más notables de España. La Segunda Guerra interrumpirá la
fluencia de libros y revistas que alimentaban la intelectualidad latinoameri-
América Latina: olhares e perspectivas 137
cana. Con la llegada de los españoles y la ausencia de material de lectura,
se impulsa la creación de editoriales, revistas, institutos de cultura, biblio-
tecas, museos a lo largo de toda América Latina. Movida que contribuye a
fomentar la profesionalización de la carrera de escritor. Literariamente, a
partir de 1940 se produce la ruptura con el realismo que seguía las pautas
del modernismo. Y en su lugar, el llamado “realismo mágico” se torna un
vehículo del conocimiento del hombre y de la realidad en que éste se inser-
ta. Una realidad cambiante, pintoresca, aparente, misteriosa, “mágica” que
unida a la idiosincracia de la experiencia espiritual e histórica de América
da por resultado un rasgo estilístico peculiar y caracterizador de la literatura
latinoamericana. Carpentier en el Prólogo a El reino de este mundo (1949)

Pro
exclama:
Pero qué es la historia de América toda sino una crónica de lo real ma-
ravilloso?”.
La discusión en torno a las diversas acepciones: “realismo mágico”,
“real maravilloso” y en otra dimensión, “lo fantástico” denotan, entre otros
factores, el deseo de la recuperación de la dimensión mítica americana.
Ejemplo: Hombres de maíz (1949) y Mulata de tal (1963) de Miguel Angel
Asturias donde se manifiesta el fuerte sustrato del Popol Vugh recuperando
para la narrativa moderna el legado y la sonoridad de la obra precolombina.
Llegando a las últimas décadas del XX vemos que han sido prolíficas
no sólo en importantes obras literarias, sino también en un generoso alu-
vión de obras críticas. Y no menos generosos han sido los factores extra
-literarios que han contribuido al fenómeno literario más importante de los
últimos tiempos. Entre estos factores, podemos contar con: el crecimiento
del público lector, la promoción editorial, la auto-promoción de sus propias
obras, y principalmente, la conjunción de hechos políticos que han alterado
la historia de América: la Revolución cubana y la aplastante ola de dictado-
res que uniformó la región sur, ideologizando la literatura. El término crisis
si bien siempre estuvo presente, en los años sesenta se lo definió como un
estado de vida, eran los días en que la política convocaba alianzas solidarias
y desavenencias que incluían distanciamientos. Citas e imágenes del “Che”
de tiempos en que sólo se hablaba de “revolución”. Hoy toda esa galería de
referentes forma parte de la historia.
En este contexto, sin que los autores correspondieran a una misma gene-
ración ni tampoco haberse constituido como movimiento literario, unía a los
escritores latinoamericanos un mismo sentido de cohesión, de complicidad,
138 América Latina: olhares e perspectivas
de pertenencia a un solo ámbito: América Latina. Fueron ellos: Julio Cor-
tázar, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa.
El escritor Emir Rodríguez Monegal en su libro El boom de la novela
latinoamericana publicado por la Monte Ávila en Caracas, cita la lista que
reúne también a Carpentier, Asturias, Borges, Guimarães Rosa, Onetti, Cor-
tázar, Rulfo, Fuentes, García Marques, y Vargas Llosa.
Existen otras listas, como la de Donald Shaw en el libro Nueva narrativa
hispanoamericana publicado en 1981 en Madrid por la Editorial Cátedra y
la de John Brushwood que considera como años capitales para el boom, los
correspondientes a la publicación de Pedro Páramo (1955), Rayuela (1963),
Cien años de soledad (1967) e El recurso de método (1974).

ova
Por qué hablamos de un boom de la literatura latinoamericana?

• Porque sus obras han cuestionado el lugar que el ser ocupa


en un mundo sometido a drásticas transformaciones sin de-
jar de responder, a la vez, a la configuración propia de sus
respectivas zonas culturales.
• Ese cuestionamiento fue hecho a base del rechazo a las con-
venciones literarias vigentes.
• Ejerciendo una crítica constante a la representación.
• Cultivando: aperturas y múltiples narradores, monólogos
interiores, ambigüedades, plurales puntos de vista y signi-
ficados.
• Interrogando los límites mismos de la expresión literaria e
interpelando toda la realidad en todo plano discursivo.

Los maestros de los maestros.

La novela hispanoamericana producida a partir de la década del


50, aquella identificada como “nueva narrativa” y, en un régi-
men más ceñido, con el momento de eclosión del “boom” en
los años sesenta, remite a las obras de autores que se definieron
por su destreza para interpretar todo estatuto de realidad, por
su anticipadora marginalidad y por su reconocimiento como
autores para iniciados. A esta categoría pertenecen: Macedonio
Fernández y Filisberto Hernández; Pablo Palacio y Juan Emar;
Roberto Arlt, Leopoldo Marechal y Juan Carlos Onetti. (SOS-
NOWSKI, p.398.)

Así, la historia se elastizaba con la intervención del mito; el paso del


tiempo se hacía menos penoso y aún más tolerable con la circularidad y con
las claves que daban acceso a otras dimensiones.
América Latina: olhares e perspectivas 139
Se percibe en todas estas obras la capacidad de abandonar lo heredado,
un sentimiento de total liberación que deslizaba por el lenguaje, la revoluci-
ón, el sexo, la droga, la música, y la adhesión era cada vez mayor a lo que se
consideraba una utopía literaria.
El “boom” salta hacia su propia esencia al dejar atrás el realismo indige-
nista de los primeros 30 años del siglo XX. Este cuerpo narrativo ya había
comenzado a fracturarse con las experimentaciones de las Vanguardias. En
los años 40 el distanciamiento se hará mayor. Dentro de estas propuestas
Borges escribe el Prólogo para la novela de Bioy Casares La invención de
Morel que Rodríguez Monegal considera un Manifiesto de la “nueva lite-
ratura”, donde señala las nuevas constantes que aparecen en varios de sus

Pro
ensayos.
En los años 40 Borges publica: El jardín de los senderos que se bifurcan,
Ficciones y El Aleph. Miguel Angel Asturias: El Sr. Presidente. Ernesto Sá-
bato: El túnel, Alejo Carpentier: El reino de este mundo.
En los años 50: Juan Carlos Onetti: La vida breve. Juan Rulfo: Pedro
Páramo. Gabriel García Márquez: La hojarasca. Carlos Fuentes: La región
más transparente.
En los años 60 se consolida una nueva literatura continental. El boom
señala la edad dorada de la nueva novela latinoamericana. Época de inusita-
do interés por Estados Unidos y Europa. La literatura latinoamericana alcan-
zó la legitimación universal a través de varios Premios Nobel: el primero,
Gabriela Mistral (1945) Chile. Miguel Angel Asturias (1967) Guatemala.
Neruda (1971) Chile. Gabriel García Márquez (1983). Octavio Paz (1990)
México. Mario Vargas Llosa (2010) Perú.
La editorial Seix Barral otorga el premio de La Biblioteca Breve a Var-
gas Llosa por La ciudad y los perros. Publican en el mismo año: Cabrera
Infante: Tres tristes tigres. Fuentes: Cambio de piel. Donoso: El obsceno
pájaro de la noche. Cortázar: Rayuela. García Márquez: Cien años de sole-
dad. Lezama Lima: Paradiso. Sábato: Sobre héroes y tumbas. Fuentes: La
muerte de Artemio Cruz. Vargas Llosa: Conversación en la catedral. Puig:
La traición de Rita Haywordt.
La selva, el mito la tradición oral, la identidad, todo se integró en no-
velas cuyo lenguaje poético lograba captar muchas de las contradicciones
de la América Latina, obras que resultaban interesantes para muchos lecto-
res, pero absolutamente exóticas, innovadoras y renovadoras de la literatura
consumida hasta entonces, para el lector europeo.
140 América Latina: olhares e perspectivas
El éxito de toda la producción novelística se debió a la unificación emo-
tiva, creativa que los grupos de izquierda consiguieron en torno al ideal de
construir modelos socio-políticos que beneficiaran a la mayoría de la pobla-
ción y no solo a las elites. Y además, una voluntad común de reconocer la
identidad que presuntamente, compartían los pueblos latinoamericanos. Las
novelas ofrecían una narrativa novedosa y crítica, hecho que hacía que los
latinos se sintieran modernos y al mismo tiempo diferente de la modernidad
europea.
“La nueva novela” pretendía representar la experiencia heterogénea
y diversa de los diversos y heterogéneos países que vivían al sur del río
Bravo y propusieron modelos alternativos: así Miguel Puig: La traición de

ova
Rita Haywoordth, La mujer araña, y varias más se inspira en el cine de
Hollywood. Los otros escritores se expresaban sin descuidar las fuentes
ancestrales de los relatos mayas, los poemas nahualts, o los cantos de los
amautas incas. Y tal como Sor Juana y el Inca Garcilaso de la Vega los escri-
tores latinoamericanos tenían como punto de partida: escribir para el mundo
occidental, afirmando al mismo tiempo sus diferencias y su pertenencia a la
marginalidad de esa misma cultura occidental. La fecha del recibimiento del
Premio Nobel por García Márquez marca el cierre de una época de eferves-
cencia, “de celebración”; de entusiasmo intelectual, político, ideológico. Es
el momento de las dictaduras sudamericanas, de la represión política, y del
aumento de la deuda externa.
A partir de 1970 comienza una nueva época en la narrativa literaria: Mu-
danzas debidas a factores de cambio. Fluctuaciones de la economía mundial.
La conflictiva situación política sudamericana. El castrismo y su renovado
impulso represivo que desencantó escritores que lo apoyaban. Encarcela-
miento de Herberto Padilla en la Isla originó el repudio de Cortázar y Ca-
brera Infante. Surgimiento de lo que se llamó “el ciclo del dictador”. Una
marcada tendencia a analizar y criticar la situación social inmediata produce
una narrativa más cercana al momento en que se vive.
Fernando Alvarez Bravo analiza los factores que conspiraron contra la
unidad y la diversidad de “la nueva novela latinoamericana”:
• Predominio de lo urbano sobre lo rural.
• La historia vista como una metáfora.
• La denuncia social sin partidismo con intención de producir el
sentimiento de universalidad.

América Latina: olhares e perspectivas 141


• La crítica de la moral burguesa o del moralismo en general.
• Los laberintos de la experiencia juvenil.

Los años 80, finalmente, marcan un descenso en la vida política, literaria


y económica que permitiría esbozar un panorama muy particular de la lite-
ratura latinoamericana hoy:
Para la mayoría de los escritores ya no tiene sentido asociarlos al Conti-
nente con un estilo específico, pues se trata de culturas diversas, complejas,
plurales, en las que el supuesto “realismo mágico” es sólo una posibilidad,
entre muchas de elaborar literariamente la experiencia heterogénea de cada
región y de cada individuo. La región es primordialmente urbana, y está

Pro
conectada con los procesos de comercialización, de cultura y de apertura de
este “inquieto” y globalizado siglo XXI.

Referências
RUFFINELLI, Jorge. Después de la ruptura: la ficción. In: PIZARRO Ana (Org.).
América Latina Palabra, Literatura e Cultura. v. 3. Vanguarda e Modernidade.
São Paulo: Editora da Unicamp. p.367-391.
SOSNOWKI, Saúl. La “nueva” novela hispanoamericana: ruptura y “nueva”
tradición. In: PIZARRO, Ana. America Latina. Palabra, Literatura e Cultura.
Organizadora Ana Pizarro (Org.). v. 3. Vanguarda e Modernidade. São Paulo:
Editora da Unicamp. p.393-412.
WALDE von der Erna. Realismo Magico y Poscolonialismo: construcciones
del otro desde la otredad. In: CASTRO-GOMES, Santiago; MENDIETA,
Eduardo (eds.). Teorías sin disciplina (latinoamericanismo, pos-colonialidad y
globalización en debate). México: Miguel Angel Porrúa, 1998.

142 América Latina: olhares e perspectivas


El oro y la paz, de Juan Bosch:
en busca de un líder latinoamericano

Pedro Granados

P
robablemente escrita desde el año 19541, en Bolivia, cuando Juan
Bosch, según afirma el diplomático boliviano Marcelo Arduz: “pasó
algunos meses atraído por el proceso de la revolución nacional”2; El

ova
oro y la paz es retomada en 1964 – bajo los estragos del derrocamiento pre-
sidencial de su autor, en 1963, luego de siete meses de gobierno3 – y mante-
nida inédita hasta el 1975 cuando, luego de ganar este año el Premio Nacio-
nal de Novela de la República Dominicana, sale recién a la luz pública. Esta
es una obra, además, que si bien es cierto está ambientada en Tipuani (selva
amazónica boliviana), alude al área Latinoamericana en general. En reali-
1
Al final de la novela constan las siguientes fechas de composición: “La Habana,
marzo de 1957; Aguas Buenas de Puerto Rico, enero de 1964” (p. 264)
2
Muy significativamente, entre los numerosos artículos dedicados por Juan Bos-
ch a Bolivia, señala asimismo el diplomático boliviano Marcelo Arduz, y en la
misma fuente: “podemos destacar ‘Las semejanzas profundas entre Bolivia y
nosotros’, recogido en el voluminoso libro Temas Internacionales (“Centenario
del nacimiento de Juan Bosch”).
3
Vale la pena insertar aquí su discurso, inmediatamente después del golpe, por lo
que revela de su actitud reflexiva y decidido apoyo a la democracia: “Al Pueblo
Dominicano: Ni vivos ni muertos, ni en el poder ni en la calle se logrará de
nosotros que cambiemos nuestra conducta. Nos hemos opuesto y nos opondre-
mos siempre a los privilegios, al robo, a la persecución, a la tortura. Creemos
en la libertad, en la dignidad y en el derecho del pueblo dominicano a vivir y
a desarrollar su democracia con libertades humanas pero también con justicia
social. En siete meses de gobierno no hemos derramado una gota de sangre ni
hemos ordenado una tortura ni hemos aceptado que un centavo del pueblo fuera
a parar a manos de ladrones. Hemos permitido toda clase de libertades y hemos
tolerado toda clase de insultos, porque la democracia debe ser tolerante; pero no
hemos tolerado persecuciones ni crímenes ni torturas ni huelgas ilegales ni ro-
bos porque la democracia respeta al ser humano y exige que se respete el orden
público y demanda honestidad. Los hombres pueden caer, pero los principios
no. Nosotros podemos caer, pero el pueblo no debe permitir que caiga la digni-
dad democrática. La democracia es un bien del pueblo y a él le toca defenderla.
Mientras tanto, aquí estamos, dispuestos a seguir la voluntad del pueblo. Juan
Bosch (Palacio Nacional, 26 de septiembre, 1963)
América Latina: olhares e perspectivas 143
dad, tal como José María Arguedas en El zorro de arriba y el zorro de abajo,
el autor dominicano pareciera haber elegido un lugar donde, hallándonos en
una Latinoamérica profunda (tierra adentro), estemos al mismo tiempo en
un contexto moderno e internacional (¿globalizado acaso?)4; y semejante, de
algún modo, a la heterogeneidad o crisol de culturas de las antillas de su na-
cimiento. En el caso de la novela de Arguedas porque Chimbote, en los años
sesenta, era la capital mundial de la industria de la harina de pescado y aquí
recalaban, literalmente, todas las sangres; en el caso de la tolstoiana5, El oro
y la paz, porque la selva activa en el imaginario latinoamericano semejante
contacto de razas, avidez de riqueza e impunidad ante los abusos, verbigra-
cia, a través de la tan conocida historia de la voracidad por el caucho o, en

Pro
el caso de esta neo-novela de la tierra6, por los lavaderos del amarillo metal.
En suma, gente distinta, aparte de los nativos7, en plan de tener que “gober-

4
Coyuntura, en Bolivia, dadas las tensiones entre el gobierno central (represen-
tado por La Paz) y la región amazónica separatista (Santa Cruz, Pando, Beni,
etc.), es particularmente álgida hoy en día.
5
Según Basilio Belliard: “hubo en Bosch una gran influencia de la prosa en-
sayística sobre su prosa de ficción, la cual vuelve a aparecer con su novela “El
oro y la paz” (1975) (…) La influencia del pensamiento político y social de
Hostos, contribuyeron a crear en Bosch un profundo sentimiento libertario y un
ideal social (…) Esta concepción, acaso platónica, era también consustancial a
Tolstoi y a la estética marxista: la literatura y el arte al servicio de la sociedad.
Concepción moralista del arte, en la que el arte debe ser un criado de la moral.
Y Bosch fue coherente con su concepción, pues al regresar del exilio fue im-
pactado por los problemas sociales del país. Y ya no volvió a escribir cuentos.
Sólo un cuento infantil, a petición de Manuel Rueda, como ya se sabe” (“Bosch
y Hostos: Un estilo, una influencia, un ideal”) [http://www.cielonaranja.com/
hostosbelliard.htm]
6
Aludimos, obviamente, a La vorágine o a Doña Bárbara como paradigmas de
“novela de la tierra”; aunque extenderíamos lo de “neo-novelas de la tierra” a
otras más recientes –caso de El oro y la paz– o, creemos también adecuado, a La
casa verde de Mario Vargas Llosa. Claro que esta denominación, si no es total-
mente arbitraria o caprichosa, si lo es tentativa; falta cotejar, entre unas y otras,
sus grados de didactismo o positivismo; también, por ejemplo, la concepción
del tipo de convivencia humana y, por lo tanto, nación que proyectan, etc., etc.
En el caso de esta obra de Bosch, sería, una neo-novela de la tierra no local sino,
tal como aquélla de José María Arguedas, de algún modo ya transnacional.
7
En El oro y la paz los nativos constituyen, ciertamente, un personaje colectivo;
es decir, no son más que ciertos estereotipos con la salvedad, por ejemplo, de
que se hace una diferencia –asimismo tópica– entre los del altiplano (trabajado-
res) frente a los de la región amazónica (ociosos). En este sentido, los nativos
permanecen para Bosch como algo inescrutable y nada confiable: “Los indios
cambiaron miradas misteriosas, casi sonrientes. Pedro los observaba. Le parecía
144 América Latina: olhares e perspectivas
narse” de algún modo, al menos efímeramente, para tratar de sacar adelante
sus planes de explotación de los recursos naturales y, aunque mucho menos
en la realidad, colonización del territorio.
Por lo tanto, es en medio de este contexto simbólico – inhóspito e indo-
mable, pero tal vez no menos humano o humanizable (la selva, nuestro sub
continente americano) – que Juan Bosch mueve sus fichas en busca de re-
presentar o imaginarse, y no menos proponer al lector, un héroe civilizador
a la medida de las circunstancias. Acaso un “príncipe” latinoamericano, en
referencia a la obra de Nicolás Maquiavelo (Florencia, 1513), adecuado a
nuestros tiempos; pero cuyo trazado del perfil no quiere ser obra didáctica de
un solo individuo o autor (Maquiavelo), sino – al escribirse El oro y la paz

ova
en clave de novela y no de tratado – elaboración acaso mancomunada, libre
de autoritarismo o imposición; en suma, solicitando para ello tan solo una
buena voluntad y un buen entendedor. Búsqueda de un líder latinoamericano
que, de paso, estaría haciendo reflexionar a Juan Bosch, y a nosotros junto
con él – finalmente – sobre el propio “boschismo”8; el cual, según Pablo A.
Mariñez, tendría cuatro raíces fundamentales: “La que le aporta Eugenio
María de Hostos, la de José Martí, la de Simón Bolívar y la del marxismo, no
leninismo” (“Homenaje a Juan Bosch en la UNAM,México”) [http://www.
perspectivaciudadana.com/contenido.php?itemid=1835].
De este modo, si repasamos los principales personajes de esta obra, el
protagonista elegido será Pedro Yasic:

No temía a nada que pudiera causarle daño físico, ni aun la


muerte. Confiaba en su decisión y su voluntad, pero no en los
demás. (…)

rara la conducta de esos indios. No había en ellos nada definido, pero él notaba
que algo los unía contra él, algo sutil e indescriptible. Ellos seguían sonriendo,
y – cosa extraña – no mostraban los dientes y ni siquiera movían los labios; tal
vez sonreían con los ojos, con el alma, como si se burlaran o como si tuvieran
un plan que ni aun con palabras podía explicarse” (p. 27)
8
Aspecto reflexivo, en general, característico de su generación y de su época ya
que, según Seymur Menton: “El impulso primordial de estas obras [se refiere
a las del Criollismo, estética donde sitúa los cuentos y novelas de Juan Bosch]
provino de la ansiedad de los autores de conocerse a sí mismos a través de su
tierra. La primera Guerra Mundial destruyó la ilusión de los modernistas de que
Europa representaba la cultura frente a la barbarie americana. La intervención
armada y económica de los Estados Unidos en Latinoamérica contribuyó a des-
pertar la conciencia nacional de los jóvenes literatos” (El cuento hispanoameri-
cano. México: FCE, 1972, p. 221)
América Latina: olhares e perspectivas 145
Era de alma dura, de acero; autoritario, implacable y decidi-
do. Hombre de carácter, aunque altamente egoísta y ambicioso.
Sentía que se bastaba a sí mismo, solo y fuerte en medio de la
soledad.
[http://html.rincondelvago.com/el-oro-y-la-paz_juan-bosch.
html]

Pero, tan o más importante que este somero retrato del chileno recién
llegado a Tipuani, es que Yasic – aunque sólo para su exclusivo beneficio: ha
venido a la selva para hacerse “rico en un mes” (86) – es un audaz estratega y
consumado político9. Sobre el criterio base, radicalmente realista y pragmá-
tico, de según este personaje: “A la selva (…) se iba o huyendo de algo o a

Pro
buscar riquezas” (53), establece un plan y agenda racionalmente impecables
para – una vez comprobado el secreto que, a modo de herencia, le confió
referencia?

su tío Pedro Ibáñez – lograr sacar su oro de allí. Creemos resulta evidente,
a pesar de la distancia que uno puede tomar frente a un ser aparentemente
tan egoísta, la simpatía del narrador por Pedro Yasic; aunque siempre sutil-
mente, como por ejemplo, a través de ciertas observaciones del narrador que
reparan incluso en el halo misterioso – acaso de líder predestinado – de la
mirada del protagonista: “intensa, penetrante, como de hipnotizador, salida
de más allá de sus ojos” (87).
Asimismo, entre otras cualidades del héroe, aparte de su evidente caris-
ma, Pedro Yasic es generoso, por ejemplo, con los tres indígenas que trajo
desde el altiplano para trabajar con él; es tanto o más célibe que el propio
Jhon Caldwell, en razón de andar concentrado en el logro de sus metas; no
saca partido indecoroso o irresponsable de la atracción que ejercía sobre la
joven y atractiva Sara Valenzuela etc. Es decir, otras y tantas características
que definirían asimismo, según Maquiavelo, al buen “príncipe”:

Dejando, pues, a un lado las utopías en lo concerniente a los


Estados, y no tratando más que de las cosas verdaderas y efec-
tivas, digo que cuantos hombres atraen la atención de sus próji-
mos, y muy especialmente los príncipes, por hallarse colocados
a mayor altura que los demás, se distinguen por determinadas

9
Frente, curiosamente, al título de “profesor” o humanista cumplido, con que
muchos identifican a Juan Bosch, olvidándose que éste era también radicalmen-
te un político. Creemos que a Bosch aquí le conmueven y convencen – mucho
más que los libros que no ha leído – la inteligencia natural, la lealtad, el carácter
decidido y el don de mando que adornan al chileno.
146 América Latina: olhares e perspectivas
prendas personales, que provocan la alabanza o la censura. Uno
es mirado como liberal y otro como miserable (…) uno se re-
puta como generoso, y otro tiene fama de rapaz; uno pasa por
cruel, y otro por compasivo; uno por carecer de lealtad, y otro
por ser fiel a sus promesas; uno por afeminado y pusilánime, y
otro por valeroso y feroz; uno por humano, y otro por soberbio;
uno por casto, y otro por lascivo; uno por dulce y flexible, y
otro por duro e intolerable; uno por grave, y otro por ligero;
uno por creyente y religioso, y otro por incrédulo e impío, etc.
[http://www.laeditorialvirtual.com.ar/pages/maquiavelo/ma-
quiavelo_elprincipe.ht]

ova
En el fondo, además, en el transcurso de la novela nos enteramos que Pe-
dro emprende todo aquello por amor a su madre; mejor dicho, para disputar
la preferencia simbólica que supuestamente ésta siempre tuvo por su hijo
mayor, Federico Yasic.
Sin embargo, según también vamos leyendo, lo que parecería fallar en
aquel personaje central es el amor desinteresado por los demás (encarnado
por Jhon Caldwell) y una sensibilidad y paz – omnipresentes en la naturale-
za – encarnadas, de algún modo también, por Alexander Forbes:

Sentía gratitud por la fuerza desconocida que daba la vida. La


vida le rodeaba, una vida intensa y a la vez plácida que él ama-
ba.
Creía en la belleza y la paz del alma. No era hombre de mirar
hacia atrás. Su temperamento y su educación se habían combi-
nado para producir en él al escocés que sabe poner cara son-
riente al infortunio.
[http://html.rincondelvago.com/el-oro-y-la-paz_juan-bosch.
html]

Es decir, si bien Pedro Yasic acapara nuestra atención – y la del narrador


– tampoco dejamos de observar que su carácter resulta insuficiente o precisa
ser complementado por otros (con cualidades distintas o adicionales) en la
eventual configuración de un líder integral para nuestros tiempos. Aunque
insistimos en el término (complementado) porque, en definitiva, creemos
que en El oro y la paz, auque de modo sutil y hasta cierto punto paradójico,
se toma resuelto partido por aquel indiscutible protagonista.
Frente, por ejemplo, al final atroz y absurdo de Caldwell – a manos de
Angustias – que revela una radical falla de ubicación de aquel personaje
América Latina: olhares e perspectivas 147
respecto del espacio que habita y de las experiencias que vive; tal como lo
observamos en este elocuente retrato que se hace de su persona:

Aunque había nacido en la Argentina tenía el alma de un nor-


teamericano y se consideraba ciudadano de la patria de sus pa-
dres. Hablaba español, pero sentía en inglés. (…) Tenía seis
pies de estatura y desde niño había ejercitado sus músculos.
(…) Pero también era fuerte en otro aspecto: tenía verdadera
indiferencia por todo lo que fuera comodidades o consumo de
energía emocional; podía dormir poco, caminar sin cansarse,
trabajar horas y horas sin notarlo, y hacer frente a los proble-
mas de los demás sin perder la paciencia. (…) y si en muchos
sentidos se comportaba como un hombre maduro, en otros ni

Pro
siquiera había entrado en la pubertad (190);

Sobre todo en el aspecto que, prosigue el narrador, a fin de cuentas preci-


pitó el asesinato del argentino:

ahí estaba él, John Caldwell, con su poderoso cuerpo de vein-


tidós años, cogido en medio de la selva por los impulsos de la
referencia?

vida. No podía pensar, no podía usar su entendimiento, no le


valían de nada sus principios ni sus conocimientos. Luchó con
todas las potencias que halló en la educación que había recibi-
do, pero resultaba que precisamente en esa educación estaban
sus puntos débiles; le había proporcionado madurez en muchas
cosas y en otras le había conservado la ignorancia de los recién
nacidos. (191).

Distanciado también frente a Forbes, a quien percibimos evadido o como


anestesiado ante a la realidad; cuyo foco y fundamentalismo ecológico – en
términos más contemporáneos – le impide ver los matices de la sociedad hu-
mana. Además, cuyo sentido y discurso sobre la belleza parecería guardar,
de alguna manera, analogía con aquél sobre la poesía – en las novelas por
entregas del siglo XIX – que criticara ya (aunque no sin cierta benevolencia)
un autor como Benito Pérez Galdós en obras como El doctor Centeno o For-
tunata y Jacinta. Esta toma de distancia del narrador, respecto de Forbes, es
obviamente algo mucho más arriesgado de documentar. Desde cierto punto
de vista, pareciera incluso que el escocés estuviera encarnando al propio
narrador; sobre todo en la alta misión que en la novela ambos le estarían
atribuyendo a la educación: “Mister Forbes cree que el hombre lleva su des-
tino consigo, y que por tanto hay que educar a cada hombre para que proceda
148 América Latina: olhares e perspectivas
correctamente. Para él, la sociedad debe despojar al ser humano de la am-
bición de poder y de oro, pero debe hacerlo mediante la educación” (172).
Sin embargo, consideramos que las coincidencias respecto a este tema son
sólo aparentes o, en su defecto, el narrador no reservaría semejante papel
definitivo o tan dirimente a la educación. El destino o posibilidad futura de
Pedro Yasic dependen, en última instancia, del amor y no únicamente de la
educación10; es decir, debemos considerar también el papel sustantivo de
la providencia en esta obra de Juan Bosch11. En consecuencia, en la lectura
de El oro y la paz habría que incluir – en cuanto al diseño o esbozo de un
auténtico líder latinoamericano – asimismo este aspecto religioso o teológi-
co; y, en este sentido, en esta obra nos hallaríamos – adicionalmente – ante

ova
un debate implícito entre calvinismo y catolicismo, entre religión de raíces
anglosajones y aquélla de raíces latinas o, siempre en este orden, entre as-
cetismo y mística12.
Por último, distanciado de modo radical frente al sargento Juan Arce,
al que hallamos como sumergido en las típicas y tópicas taras de nuestras
autoridades locales: envidia, corrupción, complejo de inferioridad y, muy
significativa en esta obra de Juan Bosch, lujuria o “lascivia” (tan criticada
también en El príncipe). El sargento, rechazado en sus pretensiones por Sara
Valenzuela y usualmente ebrio, compensa su frustración acostándose con
la – tan disponible – viuda María Hinojosa. En El oro y la paz, Juan Arce
sería un personaje desacreditado –inmensamente más que John Caldwell
10
Y con esto, Juan Bosch, toma cierta distancia del arielismo de su época que
creía en la posibilidad de lograr una transformación política, económica y social
por medio de la educación. Reiteramos, “cierta distancia”, porque, obviamente,
se sigue apostando por la idea de un “príncipe”, ser privilegiado, que brinde
horizonte y liderazgo a las masas; aquellos de Rodó de que son las inteligencias
superiores las que deben dirigir la sociedad.
11
El tema de la providencia es probablemente una constante en la literatura de
Juan Bosch; basta recordar, por ejemplo, al personaje Juan de la Paz de su cuen-
to “Rumbo al puerto de origen” (1949), citamos: “La providencia le mandaba
esos maderos para que saliera de allí. Donde se hallaba no podía tener esperan-
zas de rescate; rodeado de marismas, y más allá de prolongados bajíos el are-
nazo con que había tocado quedaba fuera de la ruta de los pescadores, y desde
luego mucho más lejos aún del paso habitual de los barcos” (Cuentos selectos.
Fundación Biblioteca Ayacucho, 1993, p. 88)
12
No en vano la obra de Juan Bosch, según el crítico Eugenio García Cuevas,
abarca – entre estudios socio-históricos, biografías, ensayos políticos y teóricos,
testimonios y crónicas, escritos con fines proselitistas, artículos en periódicos
y revistas – también obras teológicas. (“Homenaje a Juan Bosch en la UNAM,
México”) [http://www.perspectivaciudadana.com/contenido.php?itemid=1835]
América Latina: olhares e perspectivas 149
ante el desquicio de Angustias Barranco– también por aquel denominado
pecado capital. Y por lo tanto, así como a Caldwell le costó absurdamente la
existencia, algo similar o peor (¿la condenación eterna?) habría que esperar
le ocurra al sargento a pesar de haber sido, en definitiva, el auténtico benefi-
ciado con los escurridizos sacos repletos de pepitas de oro.
Insistimos. Consideramos que el hallazgo, involuntario o providencial,
del amor por parte de Pedro Yasic (la dedicación y cuidados que le prodi-
ga y, pareciera sugerirlo el final de la novela, le prodigará indefinidamente
la fiel Sara Valenzuela) no es un dato secundario en el esbozo del héroe.
Aunque inteligente, valiente y decidido – como Ulises – también como a
éste los dioses habrían puesto a prueba a nuestro protagonista. Es decir, el

Pro
desenlace de la obra sugiere otro nuevo comienzo o continuación donde el
otrora antihéroe – por estar antes atento sólo al oro – se tornará acaso en
un ser sensible; capaz de sentir la frescura y la paz del paisaje de Tipuani,
o de percatarse de que por él y para él (como efectivamente ocurre en la
referencia?

novela) reventaba “una algarabía de pájaros” (37). Además de merecedor,


como lo vamos señalando, de un amor lúcido e incondicional; cual lúcida e
incondicional es Sara Valenzuela (en oposición a María Hinojosa que vive
permanentemente en una especie de alienación o, diríamos en términos de
hoy en día, ubicua telenovela). Más aún, aquella muchacha, sobre las mejo-
res cualidades John Caldwell y de Alexander Forbes, sería imprescindible
en el diseño de nuestro líder; es decir, de algún modo, Pedro Yasic tiene que
ser también Sara Valenzuela13.
En otras palabras, y a modo de conclusión, en el esbozo que se hace
de un líder ideal latinoamericano, en El oro y la paz nos encontraríamos
ante reelaboraciones, redefiniciones, en suma, heterodoxias frente a ciertas
ideas aparentemente indiscutibles14. Sobre todo, tal como lo venimos aquí
argumentando, frente a la supuesta y tan extendida función determinante de

13
Es decir, Juan Bosch nos invita a imaginar un héroe fundamentalmente in-
cluyente y no individualista o excluyente – ni corrupto, machista o autoritario
– como es la figura típica del caudillo latinoamericano (verbigracia, Leonidas
Trujillo). En una frase, aludiendo a Herbert Marcuse, no unidimensional, sino
multidimensional.
14
Postura, esta última, pareciera constante en el trabajo literario de Juan Bosch; y
no menos en el ideológico-político: “Concibió siempre la transformación social
como un proceso no finalista, libre de dogmatismo que impidieran el ejercicio
táctico de la política” (Ángel Villarini, “Duelo ante la muerte del profesor Juan
Bosch”) [http://www.pddpupr.org/actividades.htm]
150 América Latina: olhares e perspectivas
la educación; mejor dicho, cuestionando ciertos tipos de aquélla por incon-
venientes para un “príncipe” latinoamericano. Pareciera sugerírsenos entre
aquellos, y a pesar de la elocuente robustez de sus frutos, el tipo de educa-
ción “norteamericana” que, tal como al personaje John Caldwell: “le había
proporcionado madurez en muchas cosas y en otras le había conservado la
ignorancia de los recién nacidos”. En todo caso, aquí el supuesto arielismo
de Bosch no reaccionaría tanto contra el materialismo que representarían los
EE. UU.15, sino porque es preciso en materia de la vida – no sólo de la edu-
cación – evitar ser ingenuos ante la complejidad humana o, según reflexiona
cierta sociología reciente, ante el peso real y complejo del mal (crueldad,
cinismo, corrupción etc.)16.

ova
Por lo tanto, un auténtico liderazgo latinoamericano tendría que bosque-
jarse no sólo frente a los retos de la justicia social o el desarrollo económi-

15
Según Joaquín M. Jiménez Ferrer: “Las ideas de José Enrique Rodó y su obra
Ariel (1900), tuvieron un gran impacto sobre la intelectualidad dominicana y la
encaminaron al apoyo del trujillismo. En Ariel se hacía un llamado a la juventud
hispanoamericana para hacer frente al utilitarismo norteamericano. Estas ideas
encontraron en la República Dominicana las condiciones propicias para su fruc-
tificación debido a que, desde la caída de Ulises Heureaux en 1899, el pueblo
dominicano se desangraba en una constante lucha política que por un lado, fa-
vorecía la ingerencia norteamericana, mientras por el otro, hundía a las nuevas
generaciones en el más oscuro pesimismo. Años más tarde, Trujillo tendría la
astucia para atraer a los jóvenes intelectuales e integrarlos a su gabinete”; y
agrega: “Sobre el rol de Bosch dentro de esta coyuntura política, García Cuevas
sostiene que, independientemente de los artículos que escribiera Bosch a favor
de Trujillo, éste no simpatizaba ni política ni ideológicamente con la dictadura
y aunque no ofreció resistencia inmediata al régimen, su rápida incorporación
a la lucha antitrujillista, ya en el exilio, era indicio de que su visión de mundo
había superado las limitaciones de la conciencia real de los intelectuales arie-
listas. Esto, entre otros factores, porque su pensamiento estaba influido por una
ten-dencia del liberalismo revolucionario que no era excluyente de los sectores
populares” (“Literatura y política en la figura de Juan Bosch”) [http://cuhwww.
upr.clu.edu/exegesis/ano10/29/Jimenez_Ferrer.html]
16
Gonzalo Portocarrero, Rostros criollos del mal. Cultura y transgresión en la
sociedad peruana (Lima,
Red para el Desarrollo de las Ciencias Sociales en el Perú, 2004). En resumidas
cuentas, según este autor peruano, los movimientos de izquierda de los años 60
pecaron de ingenuos porque consideraron que la revolución estaba al alcance
de la mano, a la vuelta de la esquina, y no tomaron en cuenta las verdaderas di-
mensiones ni el rol del mal; por ejemplo, la crueldad, el cinismo y la corrupción
que marcaron a la sociedad peruana. Es decir, luego del auge de las nociones de
causa y estructura, se precisa pensar en la libertad, los afectos y la conciencia
individual y comunitaria.
América Latina: olhares e perspectivas 151
co, sino de cara también a aquellos, según Gonzalo Portocarrero, “rostros
criollos del mal”. Todo lo cual, a su vez, hace que pensemos de modo casi
natural en el derrocamiento de Juan Bosch como presidente, en 1963; y hace
surgir, de manera análoga, una pregunta que nos remite otra vez al espacio
metafórico del Tipuani: ¿cómo es posible gobernar y gobernarse a uno mis-
mo en medio de la selva?

Pro

152 América Latina: olhares e perspectivas


O Barroco latino e o olhar contrafeito

Jorge Anthônio e Silva

Assim que Colombo pisou nas praias do Mundo


Novo, as imagens estiveram presentes. Mas
não demorou muito para que os espanhóis se

ova
interrogassem sobre a natureza das imagens que
os indígenas possuíam. Bem cedo, a imagem
forneceu um instrumento referencial, e, depois, de
aculturação e dominação, quando a igreja resolveu
cristianizar os índios, da Flórida à Terra do Fogo.
Damián Bayon

O
Barroco é um dos mais complexos sistemas signicos da arte oci-
dental. Extravagante, prolixo e dramático como convém a uma arte
de gênese religiosa, chegou às Américas como segunda natureza
na ordem da conquista. Veio como arma de dominação metafísica, no pro-
jeto sujeição do continente, na sequência do período em que se cristalizava
a divisão planetária entre Espanha e Portugal, configurada em Tordesilhas
(1494).
Esse primeiro embate oficializou-se na medida dos interesses alieníge-
nas, constituindo-se no primeiro trauma civilizatório do continente ameri-
cano. Criou o estigma de ser a primeira manifestação artística civilizada,
um domínio a ser incorporado pelos nativos que já haviam desenvolvido
complexos sistemas estéticos, manifestos no trato delicado de narrativas
pictóricas e pictográficas, tanto na arte pública quanto no domínio de mate-
riais variados, nos metais preciosos, onde encastoaram a variedade de gemas
locais, na madeira, no tecido e na pedra. Os donos da terra esculpiam, nas
ilhas do Mar Caribe, os terríveis zemies (1) estátuas de culto em madeira,
os peruanos cinzelavam a jade em contornos antropomorfos, demonstrando,
na desinteressada expressão artística, a relação intrínseca entre natureza e
América Latina: olhares e perspectivas 153
homem, comum a populações vivendo em estado de natureza. Os da meso
América desenvolviam narrativas, observações astronômicas, calendários e
formas expressivas relacionadas às classes sociais. Rostos humanos aterra-
dores, disformes e excepcionais na expressão de horror eram produzidos aos
montes, na ilha de Hispaniola, em clara demonstração de que a imagem era
elemento marcante nas culturas nativas, na praticavam uma arte autóctone,
registro material da perpetuação de valores primordiais na organização das
estruturas sociais em sua simplicidade diversa.
Engendrado na Itália, O Barroco ali surgiu quando as conquistas se
ampliavam para o ocidente. Tocou a América, do México às regiões ainda
quentes da Argentina, deixando registros monumentais em Cuba, Equador,

Pro
Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia e Paraguai. Criou seus estatutos formais
em pinturas, música, monumentos funerários, esculturas e edificações, até
tornar-se uma espécie de passado comum do Continente.
Há uma realidade plástica barroca na América Latina, como que consti-
tuindo uma personalidade pretérita e unilateral gerada e gerida, na origem,
sob a batuta da Igreja, com sua gestalt própria, educadora dos sentidos e
balizadora do gosto. Chegou pronto, uma experimentação formal já posta
à prova na realidade europeia pós renascentista, com resultados cotejados
com os mesmos propósitos ideológicos que o fizeram nascer. Um sistema
visual de sedução dos sentidos latinos, já sensivelmente educados para a
arte pública das opulentas civilizações autóctones do Continente, quando e
onde ainda não havia a separação entre o belo e útil. Maias, Toltecas, Mix-
tecas, Incas, Astecas, Tapajônicos, Guaranis e Marajoaras tinham, na arte, o
elemento estruturante do cotidiano, um balizador da experiência social, em
constatação de que há processos mentais característicos da universalidade
sociocultural da espécie, não importando a época ou o território de suas
práticas. Isso facilitou na recepção da nova forma de receber um único deus
na terra, sem a demanda insaciável por corações pulsantes e sangrando, de
crianças e virgens, oferendas únicas que aplacavam a vontade do grande
deus aimara, Inti (2).
No exercício criativo, que funda civilizações e grupos culturais prime-
vos, a arte estatui os elementos estruturantes, viabilizando a constituição de
legados personalíssimos, na forma de registros materiais do psiquismo so-
cial. A promoção da arte do adereço e o amor pelo enfeite contribuíram para
dar os contornos definitivos do “eu coletivo na América Latina e, o domínio
local pelo Barroco, foi mais que um capricho das elites, representada pela
154 América Latina: olhares e perspectivas
Igreja. Nem foi mero artifício linguístico de impacto plástico para o olhar.
Foi um consequente e estranho retrato do Paraíso terreal, revelado nas ima-
gens detalhadamente cinzeladas em panejamentos superpostos na madeira
nativa e na pintura dos espaços de reza, em cujos tetos planavam querubins
de cabelos de feno, revoada tênue de nuvens gordas, fofas, onde se escondia
um novo Absoluto. Era inquestionável a supremacia discursiva da estética
europeia com sua capacidade lógica de normatização e convencimento, cor-
porificados em um projeto imagético capaz de escandir a morada de Deus e
dos santos que, de tão bons não pediam sacrifícios, não queriam sangramen-
tos, e se locupletavam com só, rezas e oferta de riquezas.
A nova arte que rebatizou a América Latina conjugava eficazmente o

ova
âmbito metafísico da salvação com espaço profano, na sequência em que a
Europa católica romana vivia a potente alteridade histórica entre clero e re-
alidade sócio científica. A partir do século XVI, com a Renascença já havia
se instituído um estilo com pensamento e revivescência das humanidades
clássicas gregas. A prática artística dava rosto ao Humanismo cujo saber
assentava–se em fundamentos e não mais em superstições, discordando do
status quo. Ampliando-se o espaço geográfico europeu com as descobertas,
impunha-se o questionamento do poder absoluto da Igreja e a recuperação
da narrativa natural na plástica artística vinha escudado na força da nova vi-
são de homem, em preparo seguro do caminho para a dúvida cartesiana que,
pronto chegaria como método inquestionável de produção do conhecimento.
Os jesuítas e franciscanos desembarcavam no continente desconhecido,
diverso e intocado, já destruído materialmente na América hispânica. Vi-
nham preparados para reeducar hábeis artesãos, oriundos de uma tradição
cultural marcante na arte pública. No Brasil também praticaram a espoliação
sem o choque de violência tão afeito aos espanhóis, cuja inquisição foi a
mais cruel. O que é hoje a cidade do México era a sagrada Tenoxtitlã, capital
do Império Asteca durante o período Pós Clássico da Meso América. Mais
abaixo, os Maias adornavam partes do corpo, limavam os dentes em for-
ma de ponta, perfuravam-nos para fazer incrustações de jade atendendo aos
seus princípios estéticos primitivos. Tatuavam-se e comprimiam as cabeças
de recém nascidos para que se alongassem. Nas escarpas de Machu Pichu
medrava uma arquitetura sóbria, extensiva aos monumentos de Cuzco. No
Brasil, a cultura da arte plumária integrava tribos com o geometrismo da ce-
râmica amazônica, mais um sem número de somas plásticos utilizados para
o adorno em cerimônias fúnebres, ritos de passagem, bodas e celebrações.
América Latina: olhares e perspectivas 155
Os religiosos que chegavam davam o escopo para o novo conhecimento
sagrado, enquanto os conquistadores, apressados urgiam em encontrar ri-
quezas, implantar sua justiça e zelar pelos interesses das cortes ávidas pela
ampliação de seus domínios além mar. Viram o Continente quieto em sua di-
nâmica, enquanto a Europa ainda se debatia com as cisões promovidas pela
ciência astronômica, escondia novas cartas de navegação e se apressava em
incorporar a revisão do mundo que se impunha com novas certezas, capazes
de exigir novos paradigmas éticos e de saber.
Do ponto de vista dos jesuítas, extremados estudiosos, o Barroco preten-
deu ter o caráter formador de uma nova visão de mundo, que se contrapunha
a assepsia adotada pelo protestantismo que Lutero predicava. Contraposto

Pro
ao classicismo renascentista em sua gênese europeia, o Barroco plástico e
arquitetônico constituiu-se na forma de arte ideologicamente educativa, e
de caráter retórico religioso por excelência. Esteticamente estruturou-se na
forma de arte extravagante, dramática, prolixa e apelativa aos sentidos, pon-
do-se como antítese à racionalidade, à harmonia e ao equilíbrio austero de
feitura greco romana, em marcha na Renascença. Esse foi o período da ins-
tituição das bases racionais da arte, quando o ato criativo deixou de atender,
apenas, às determinações político ideológicas da Igreja, para fundar-se em
paradigmas filosóficos e científicos, especialmente determinados pela rela-
ção espaço-temporal, pela novo entendimento da natureza humana, factível
como ator na arte pictórica de inspiração religiosa. Não mais as superfícies
chapadas em ouro do Gótico medieval, mas o entorno amável, de compre-
ensão humana, onde madonas, santos e anjos se apresentavam plásticos e
integrados a bosques fugidios e rochedos escarpados.
Os termos Barroco e Rococó caracterizam a arte dos séculos XVI e de-
pois, não apropriadamente como evolução estética da Renascença, mas como
tentativa bem sucedida de elisão das fendas produzidas pelo protestantismo,
o mesmo que levou para si boa parte dos circunstantes, antes apostólicos
romanos. O estilo gestado em fase de câmbios estruturais na Europa pensou
seu novo espectador, contrário à opacidade antiga dos templos. Deveria ser
o sujeito sensivelmente subjugado às inflexões de uma plástica ilusionista
em naves, tetos e paredes. Uma catarse, uma terapia de imersão extasiada,
no sujeito sensorialmente abalado por ladainhas latinas, mantras de predis-
posição para o sobrenatural.
Tanto o classicismo quanto o Barroco foram unânimes em apelar ao gos-
to pelos mitos da antiguidade clássica, com a glorificação do movimento
156 América Latina: olhares e perspectivas
e, em especial, de uma gestualidade heroica, sensual e dramática. Formas
espiraladas indicando movimentos ao infinito, na miríade de volutas em vór-
tice e arroubos sem limites, enlevam o homem impreciso pela voragem dos
sentidos, ao topo do mundo, onde se crê o território sagrado. A percepção da
obra barroca é feita pelo olhar que não se fixou porque vê algo em passagem
para qualquer coisa outra, em explosão sem recortes da realidade. Ilusória
circularidade, droga divina para o instante em que a cupidez humana cessa
o andar para entregar-se à beleza da entrega.
A Itália, centro da produção artística europeia, tornara-se o vigoroso polo
irradiador de influências estéticas para todo o continente europeu, como re-
sultado de transformações sociais vigorosas, quando se iniciava o que se

ova
pode chamar de uma fase civilizatória. A ciência era a gestante da moderni-
zação das estruturas políticas, religiosas, científicas e, em especial, de repo-
sicionamento cósmico da Terra contradizendo a certeza copernicana do he-
liocentrismo. Este era previsível em antigos textos árabes, sânscritos, gregos
e latinos, embora essas fontes originárias não houvessem explanado técnica
ou cientificamente suas antecipações. Opunha-se ao credo geocêntrico que
vigorava como realidade espacial para o homem, desde Claudius Ptolomeu
(78-161 d.C). Em 1543 Nicolau Copérnico colocou o sol no centro do uni-
verso postulando o novo movimento da terra e das estrelas.
A descoberta impactou a certeza religiosa. O geocentrismo deixava de
ser o núcleo gerador de certezas quando o mundo se expandia para o sol,
para a profundeza dos mares e para a América que confundiu Colombo com
as Índias. Reforçando o mistério, a Igreja adotou o saber ptolomaico enten-
dendo que, se o homem é a criação suprema de Deus, a quem se assemelha,
só poderia estar em um planeta de primeira grandeza e este, a Terra, só
poderia estar no centro de seu sistema interplanetário. Ademais, a narrativa
bíblica justifica as ações criativas divinas, acontecendo na Terra, território
de toda a felicidade paradisíaca, onde habitaria o homem. Isso era incontes-
tável. Contradizendo o mito, as tecnologias em expansão acompanhavam a
ampliação do saber científico com microscópios e telescópios escandindo
micro realidades e perscrutando o céu. Isso desconstruía o movimento har-
mônico e multi secular entre ciência e fé.
Os tipos móveis (circa 1439) de Johannnes Gensfleisch zum Laden zum
Gutemberg (1398/1468) permitiram que a informação circulasse, inician-
do seu período de democratização, do tempo que iniciava a Revolução da
Imprensa, cuja consequência imediata foi o lançamento das bases para o
América Latina: olhares e perspectivas 157
conhecimento de massa, tendo o livro como seu primeiro produto. Esses
eventos, ainda que pontuais, foram se solidificando no saber comum, em
uma sociedade cujo tempo transcorria em velocidade sem atropelo. Chega-
vam como certezas inusitadas, ou como comprovações de antigos saberes,
quando as estruturas de poder se condensavam, ampliadas pelo domínio ge-
ográfico e econômico ibérico. Certezas eram contrapostas à frívola vontade
popular que, por hábito temia as forças da natureza, atendia às profecias da
magia, consultava a astrologia mitológica, repreendida e castigada como pe-
cado da bruxaria. O extraordinário continuava matéria de interesse, enquan-
to os gabinetes de curiosidades propalavam descobertas de seres estranhos
vindos das terras distantes, recentemente descobertas.

Pro
O agostiniano Martinho Lutero (1483/1546) deu à fé as bases práticas
pela “justificação”, afirmando que ela é o elemento que ancora a doutri-
na cristã. O homem é precioso pela sua utilidade e majestade em Cristo,
entendia. O mais se dissipa m nada. Esse é o diagnóstico da sua doutrina
da práxis contrária á indústria de indulgências que vai constituir o espírito
progressista alemão, no imperativo da razão, como dirá mais tarde a filosofia
crítica de Emmanuel Kant (1724/1804 ). Lutero ratifica a certeza da salva-
ção, não pelas boas ações, mas como presente livre de Deus, dado pela graça
e fundamentado no princípio da sola fide, calcada em Romanos 1:17, onde
está escrito “O justo viverá pela fé”. Suas igrejas eram simples, despojadas
e convenientes com a nova visão cristã de mundo, sem intermediações esté-
ticas, sem o culto a imagens, sem a constelação de santos albergados no es-
paço de culto, inquiridores como inquisidores silenciosos. Negou a cobrança
de indulgências e publicou suas 95 teses que, de pronto se expandiram por
uma Europa carente de justeza religiosa.
Nesse universo de indagações e certezas temerárias, o agostiniano pro-
vocou um impacto sem precedentes na hegemonia católica sobre o enten-
dimento do mundo, com ampla repercussão política, rupturas clericais que
reordenariam o escopo da crença e produziria o grande cisma cristão, com
a Reforma Protestante. Isso levou o Papa Paulo III (1468/1549) a convocar
o 19° Concílio, na cidade de Trento (1545/1563), ou Concílio da Contra
Reforma. Ali foram decididas questões da afirmação católica, cujo contexto
foi o Barroco, experiência inicial para a nova experiência no mundo da fé.
Propunha um “catecismo de imagens”. A editora belga Plantin-Moretus dis-
ponibilizou vinte prensas, nas quais empregou sessenta e quatro tipógrafos.
Em 1541 acatou o pedido de seis mil diurnos, dois mil breviários, e quatro
158 América Latina: olhares e perspectivas
mil missais, volumes impensáveis até então. Em Trento foi criada Compa-
nhia de Jesus para formar missionários e educadores, em caráter de milícia.
Fundaram cidades e ampliaram tornaram a Contra Reforma mais poderosa.

Barroco na América Latina


As consequências das descobertas não poderiam ser mais contraditórias.
Se, por um lado, um novo mundo redimensionou os paradigmas de crença
colocando por terra o saber ptolomaico, adotado in totum pela Igreja, por
outro significou uma fonte de renovos para uma Europa carente de solidez
em suas estruturas simbólicas, inexoravelmente em processo de desconstru-

ova
ção. De há muito, os paradigmas constituintes das crenças que alicerçavam
um estar no mundo feito de certezas metafísicas, com Deus determinando
horizontes e balizando a vida ética, vinham sendo fustigados. Por certe-
zas inquestionáveis da astronomia, redirecionando para certezas tangíveis
o imaginário comum, cristalizado em séculos de coerção mítica e religiosa.
O domínio espiritual era fortalecido pela crendice no intangível produzido
pela razão dominante, capaz de instaurar a ignorância como paradigma.
A ciência vinha sedimentado certezas no longo período em que a Renas-
cença foi secularmente se solidificando, trazendo certezas incompatíveis
com a realidade revelada com a precisão da matemática euclidiana, adotada
como esqueleto da pintura renascentista. Cientistas expunham resultados
de empirias a olho nu perscrutando o céu com seus experimentos aplicados.
Essa segurança, proibida pelo status quo comprovava novas teorias sobre
a realidade, colocando em risco certezas históricas desinteressantes para
a Igreja, em particular e como generalidade para o poderio real, com ela
em históricos acertos. Pautado em princípios universais, na América Latina
aculturou-se, embalado pelas finura local com práticas artísticas, adquirin-
do feições americanas diferenciadas, implementando um criolismo estético
no manancial múltiplo de personalidades plásticas da América hispânica e
portuguesa. Compondo culturas híbridas e sociedades mestiças, a supera-
bundância barroca se relativiza em paz com a mais original e única persona-
lidade latina: suas sociedades opulentas e sua arte pré conquista, tão nobre e
organizada como a egípcia. Não se pode domesticar quem tem na maestria
seu eixo vital.
Os povos originários eram puros e o hibridismo vai refundar a América
Latina, completando-se sua variedade visual na pena dos artistas viajantes,
América Latina: olhares e perspectivas 159
na importação dos avatares pós conquista, feitos de dominação e rejeito. Há
de se lembrar, as influências orientais na arte e arquitetura mexicanas, vin-
das com os navios filipinos, carregados de mercadorias indianas, de Ben-
gala e do Sião, em troca do ouro de Potosí e de Guanajuato. Isso deu novos
contornos ao Barroco hispânico, em especial no México, onde se destacou
o estilo mudéjar como exceção. Houve intenso trânsito de artistas, o que
contribuiu para a disseminação dessas influências. Os artistas portugue-
ses Manuel Couto e Manuel Dias transitaram por Buenos Aires. Em Lima,
Quito, Puebla, Tepoztlán e Bogotá foram erguidas construções do arquiteto
Gaspar Becerra Padilla (1520/1568). Os jesuíta Bernardo Bitti (1548/1610)
foi notável pintor e escultor introdutor do maneirismo no Peru. Transitou

Pro
por Lima, La Paz e Bogotá. O mesmo ocorreu com o romano Angelino Me-
doro (1567/1586). Difícil é analisar a complexidade da arte no Continente.

México
Alonso Vásquez (1565/1508), escultor e pintor, iniciou a arte europeia
do Barroco colonial no México, junto com o flamengo Simon Pereyns
(1530/1600). Foram os iniciadores da pintura europeia no México. A for-
mulação de um imaginário social é o contributo da razão antropológica na
organização de sociedades primeiras. Isso justifica a riqueza mitológica na
cultura nativa do território meso americano, negada com a chegada de Her-
nán Cortêz (1485/1547) e Pedro de Alvarado (1485/1541) impostores dos
princípios de crença e da ortodoxia de além-mar, frente a nostalgia de um
mundo de inteireza, regido pela crença na divindade solar, que jamais seria
igual a si. A riqueza simbólica no vice-reinado do México continuou pul-
sando mesmo quando derruídos os teocalis astecas, os sábios da arquitetura
Maia e, mesmo depois que a rígida engenharia Inca se perdeu na vegetação
equatorial.
Os chegados vinham de uma educação e tradição visual do quattroccen-
to, com os escorços de Andrea Mantegna (1431/1506) e Donato di Niccoló
di Betto Bardi, dito, Donatello (1386/1466), cujo bronze Davi é o ideal per-
feccionista de corpo na escultura. Paolo Uccello (1397/1475) era outro artis-
ta modelar na expressão quatrocentista com suas destacadas impressões de
relevo naturalista, com obsessão pela perspectiva e ponto de fuga. A partir
desses mesmos modelos estéticos, aos quais estava educado o olhar que che-
gava, eram esculpidos os santos, os anjos, os baldaquins. Disso promoveram
a extirpação das idolatrias originais e definiram o fim das formas pictóricas e
160 América Latina: olhares e perspectivas
escultóricas, em prática desde a ancestralidade. Os códices astecas são docu-
mentos raros preservados pelos próprios autores que os esconderam, tal sua
importância na organização simbólica da vida coletiva. Diferentemente dos
códices europeus escritos, são pictoriais. Foram pintados em livros e com-
provam o sofisticado domínio técnico dessa arte no período pré-colombiano.
Em variadas cores, o que demonstra o domínio técnico na confecção de
tintas, os códices são numerosos. Destaque-se o Códice Borbônico. Data de
longo tempo anterior à chegada dos espanhóis, os nativos criaram o tona-
lamatl (em nauatle: páginas dos dias) um almanaque de previsão do futuro
para um ano de duzentos e sessenta dias, o tonalpohualli. Cada página mos-
tra vinte linhas com treze divindades em cada uma. As ricas ilustrações com

ova
animais, casas, flores e outros signos eram combinadas pelo sacerdote para
a finalidade divinatória.
Muitas dessas obras estão, hoje, em museus estrangeiros. São variados
e retratam diferentes aspectos da cultura asteca. São conhecidos o Códi-
ce Boturini (1530/1541), o Mendoza (1541), o Florentino (1540/1585), o
Osuna (1565), o Aubin (1576), o Magliabechiano, (Início do século XVI)
o Cozcatzin, (1572) o Ixtlilxochitl, (Início do século XVII) e o Libellus de
Midicinalibus Indorum Herbis (1552). Dão conta documental e artística da
capacidade estética asteca em representar, com delicadeza e rigor estilístico,
em narrativa naturalista própria, temas sobre os quais os antropólogos, his-
toriadores e pesquisadores da estética, continuam debruçados.

Brasil
O barroco brasileiro configurou-se dentro das determinações do seu simi-
lar ibérico como se verifica em pesquisas de campo, em coleções e museus,
em publicações acadêmicas e outras que tais, mais os marcos da arquitetura
privada e pública do estilo em questão. Produto educativo dos jesuítas foi
poderoso instrumento de catequese e aculturação indígena e negra em todo
o País. Nesse sentido, ideologicamente o Barroco cumpriu função asseme-
lhada às de sua origem europeia. Fortificou-se nos pontos administrativos e
desenvolvimentistas da Colônia, enfatizando-se, inicialmente, como estilo
em Salvador. Com a descoberta do ouro, a arte barroca transferiu-se para a,
então, Vila Rica, onde medrou a produção artística com materiais inéditos,
como a pedra sabão. São bem preservadas essas obras em reservas técnicas
e espaços de culto e públicos. Em grande extensão, o Barroco localizou-se
na costa brasileira, mesma região do primeiro ciclo desenvolvimentista do
América Latina: olhares e perspectivas 161
Brasil, deixando sítios arquitetônicos em quase toda a extensão marítima.
Contudo, por questões econômicas, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso
tiveram seus artistas e arquitetos.
O Barroco está diretamente atrelado às novas concepções artísticas no
Brasil do século XVIII, com as mudanças econômicas processadas na colô-
nia. Resultado da descoberta de ouro nas Minas Gerais, essa nova fonte de
riqueza fez proliferar construções, fontes públicas, mobiliário e a produção
de imagens de inspiração diversa, com ênfase nas religiosas. Influenciado
pelo ibérico, o brasileiro foi produzido por artesãos ligados à criação reli-
giosa, tarefa que, pela sua natureza, instituiu a função do artista no País,
tal a capacidade de impressões de particularidades na iconografia por eles

Pro
produzida, dentro de uma generalidade estilística prévia. Manuel de Brito
(1749/1799) e Francisco Xavier de Brito (1751/1806) decoraram o interior
da Igreja da Ordem Terceira. João de Deus Sepúlveda (século XVIII) foi o
pintor do famoso teto da Catedral de São Pedro dos Clérigos, em Recife.
Manuel Inácio da Costa (1763/1857), José Joaquim da Rocha ((1737/1807),
Mestre Valentim (1745/1813), Mestre Ataíde (1762/1830), Frei Jesuíno do
Monte Carmelo (1764/1819 ), Manuel da Costa Ataíde (1762/1830), o enta-
lhador Antonio Mendes da Silva (1792/ c. 1841), Leandro Joaquim (1738/c.
1798) juntam-se a expressivo número de anônimos na produção do riquíssi-
mo acervo barroco no Brasil.
Destaque-se Antonio Francisco Lisboa (1730/1814), que assumiu o pos-
to de ícone maior do período, esplendor da arte barroca, cuja fama só faz
crescer, na exata medida em que os arautos do baixo comércio de arte con-
tinuam inflacionando o mercado de antiguidades com jogos do mercado que
administram. Colocam obras do período assemelhadas às do artista e pos-
tulam autoria para seus achados. Filho de escrava amasiada com seu feitor,
este a libertou no dia do nascimento do filho. Estudou desenho, escultura e
pintura no ateliê do pintor e desenhista João Gomes Batista. Provavelmente
acometido de zamparina, doença endêmica da época, Aleijadinho, como um
condenado ao trabalho, continuou esculpindo, mesmo ferido nas mãos, pela
enfermidade. Cortou uma delas para aliviar dores. Muito em sua biografia
é indefinido por falta de documentação. Sabe-se mais sobre o artista pela
narrativa da época. Helena, uma vizinha alegou que a doença de Aleijadi-
nho poderia ser proveniente de uma panaceia vendida por enganadores da
época, sob o nome de cardina. A dúvida só faz crescer o mito. Se a vida é
passagem de interesse para a obra, esta seguramente torna-se maior na me-
162 América Latina: olhares e perspectivas
dida do seu tempo, amparada na capacidade criadora invejável do artista,
uma técnica pessoal insuspeita e definidora de seu estilo único no barroco
latino. Deixou obra magistral, leve e em alguns segmentos contrária ao peso
ornamental do Barroco. Seu traçado é anguloso, com cavanhaques feitos os
do cristo europeu, usou materiais culturalmente disponíveis em seu espaço
de vivência. A pedra sabão como elemento nobre na escultórica brasileira é
uma invenção do artista.

Peru
O encontro de culturas pode diluir crenças e vitalizar valores externos,

ova
dispersando marcas determinantes na forma de ser e de condução da vida.
É razoável pensar que onde o conflito foi mais acirrado e sangrento, no Mé-
xico e no Peru, a arte foi a mais visceral, personalíssima, pungente e única.
Cuzco foi o primeiro centro de estudos e formação em artes do continente.
Os locais desenvolveram a tradição de fertilidade na ourivesaria e no trato
com tecidos delicados pela qualidade de suas matérias primas, mais a lã
abundante. O Barroco ali aportado foi impregnado pela força telúrica da
mão inca, afeita no trato com a pedra, com o ouro e suas misturas. O manejo
do metal em peitorais, a escultura em madeira e barro, a arte pictórica em
geometrias abstratas, com a representação de animais estilizados na cons-
trução compositiva, somou-se ao desenho em tecidos finos pelo primor das
mulheres.
Data de 1538 a Escola de Cuzco, criada pelo jesuíta italiano Bernardo
Bitti (1548/1610) que logo se expandiu para a Bolívia e Equador. Feito asse-
melhado ocorreu sob a ação do frei Jacobo Ricke (1498/1575) que, em 1553
no Equador, criou a completa Escola de Artes e Ofícios, onde ensinava artes
a caciques, mestiços e criolos. Dali saiu o gênio artístico de Andrés Sánches
Gualque y Caspicara (1723/1796). Para a constituição definitiva do barroco
peruano, posteriormente transformada em arte cusquenha, foi fundamental a
contribuição indígena à técnica e estética espanhola, cujo traço inicial vinha
influenciado pela arte andorrana, flamenca e bizantina.
Outros influxos chegaram pela força do tenebrismo em voga, de Francis-
co de Zurbarán (1598/1664), enviados a Cuzco pelo próprio artista, inter-
mediado pela Espanha. Os artistas cusquenhos desconheciam a perspectiva,
técnica matematicamente verista que caracterizou a Renascença, criando a
força primitiva no Barroco que ali fundiu elementos plásticos europeus com
uma iconografia de base foliar e da fauna. Essa constatação leva o pesqui-
América Latina: olhares e perspectivas 163
sador a entender a razão da desproporção entre as volumetrias centrais e
periféricas no espaço pictórico.
O prestígio adquirido pela Escola de Cuzco nos séculos XVII e XVIII
justifica-se na encomenda de cerda 500 telas para igrejas locais, outras da
Argentina e do Chile. A formação de mestres pintores foi consequência do
hibridismo que tanto medrou nos Andes peruanos. O italiano Angelino Me-
doro (1567/1633) deixou notável obra pictórica, em especial em Lima, Bo-
gotá e Quito, influenciando posteriores artistas locais como Luis de Riaño
(1596/s/d) e Antonio Bermejo (1853/1929). Diego Quispe Tito (1611/1681)
índio de reiterado talento para a pintura foi influenciado pelo nascente ma-
neirismo europeu, pela gravura flamenca contemporânea sua, e por Rem-

Pro
brandt von Rijn (1606/1669). Deixou sua versão de Atahualpa em majes-
tade que, após vencer seu irmão Háscar, foi nominado El Inca. Mestre de
Callamarca (Primeira metade do XVIII), embora boliviano, foi o criador da
série de anjos arcabuzeiros, que tanto identificam popularmente a Escola
de Cuzco. Basilio Pacheco de Santa Cruz Pumacallao (1635/1710), pintor
quechua, talvez o mais proeminente da Escola de Cuzco em seu período.
Marcos Zapata (1770/1773), também quéchua nascido em Cuzco, pintou
para a Catedral da cidade uma Última Ceia, na qual a Cristo é servido um
roe­dor viscacha assado e um copo de chicha.
O imaginário Inca construiu um panteão de deuses cujo correlato real
era a natureza inóspita andina, de onde irrompia o sobrenatural com suas
demandas de ritos para apaziguamento de sua ira. Isso estabelece a rela-
ção entre o homem transitório e os arquétipos da eternidade permanente.
A tradição da prataria e da ourivesaria peruana remonta 3.000 anos. Com o
Barroco, a técnica assumiu as novas formas do estilo, em especial em ob-
jetos, tanto prático quanto religioso. São exuberantes as custódias rococós,
nas quais foi preservado o estilo limenho. Auréolas em prata sobredourada,
engastadas com pedras de variados matizes e qualidades para acréscimo em
imagens religiosas, mais os candelabros, navetas, papelinas, atris, jarros,
coroas reais, carteiras femininas, ostensórios em estilo Lezana, atavios de
cavalgaduras, auréolas, cálices e incensórios.

Conclusão
A arte barroca intermediou processos de conquista e submissão, consti-
tuindo-se em unidade estética no continente, aculturando-se na variedade
criativa e material da América Latina.

164 América Latina: olhares e perspectivas


Deuses em barro – notas etnográficas
do Torito de Pucará-Peru

Danielle Araujo1

A
teoria antropológica contemporânea tem renovado seu interesse
pela vida dos objetos, assim como das imagens em seus contextos

ova
de significação. Por muito tempo os antropólogos negligenciaram
o estudo dos objetos como fonte de significação, voltando sua atenção a
temas como parentesco, totemismo, dentre outros que se destacaram nos
estudos antropológicos.
Uma das questões centrais residia na tendência dos estudos em separar a
estética dos objetos dos seus significados. Franz Boas foi um dos primeiros
antropólogos a afirmar a universalidade do senso estético e a particularidade
das manifestações tidas como artísticas. Como isso, Boas negava um evo-
lucionismo segregador, afirmando a relatividade cultural, pois arte e cultura
são categorias indissociáveis (Clifford, 1988, apud Almeida, 1998).
A Antropologia Boasiana asseriu o caráter significativo da arte, avan-
çando numa perspectiva culturalista na qual a tradição teria um papel fun-
damental na forma e no que é produzido. Nesta perspectiva a técnica é um
aspecto fundamental no entendimento de uma manifestação artística. Con-
cebida como um fator ativo possui um valor estético em si mesmo, pois o
julgamento da forma é também um julgamento estético.
A técnica, deste modo, é uma condição para a criação. Ao contrário dos
evolucionistas, que se preocupavam com a origem e evolução das técnicas,
Boas propõe uma relação inseparável entre técnica e sentido. A técnica guar-
da em si, criação em que mais do que expressar o virtuosismo individual,
o autor da obra pode também deixar impressos elementos inconscientes,
considerados na Antropologia Boasiana.
Em meados dos anos 1990, Alfred Gell propôs uma nova reflexão aos
estudos dos objetos. Em Gell, os objetos não são pensados como representa-
1
Antropóloga e docente da Universidade Federal da Integração Latino-America-
na – UNILA. danielle.araujo@unila.edu.br
América Latina: olhares e perspectivas 165
ção ou herança histórica. Para o autor, os objetos têm vida, são extensões de
pessoas e ocupam um lugar central no meio social.
Gell parte com uma crítica severa aos autores que relacionam a arte à
estética. A estética para o autor atribui valor à forma com pretensões univer-
salistas, algo contrário à proposta antropológica.
As discussões em torno dos objetos vão ficando acalouradas à medida
que grupos específicos passam a utilizar artefatos materiais com distintivo
de identidade e ou representação social. Para a Antropologia permanece a
incógnita: desvendar até que ponto os sistemas cosmológicos nativos conti-
dos nos objetos, de fato, estão relacionados à vida nativa e até que ponto se
rendem à lógica mercantilista. Desconsiderar o contexto de produção, assim

Pro
como não levar em consideração as forças políticas e interesses econômi-
cos que regem os grupos produtores dos objetos, implica aprisionarem-se
em análises reducionistas e unilaterais. Uma questão importante é observar
capacidade dos objetos em comunicar e informar sobre aspectos cruciais da
vida individual e coletiva. Neste trabalho ocupo minha atenção em analisar
o protagonismo do Torito de Pucará – objeto de cerâmica largamente di-
fundido nos Andes peruanos. Atrelando a pesquisa etnográfica a história do
objeto, busco apresentar como o torito de Pucará ganhou notoriedade dentre
os demais objetos de cerâmica e fama nacional.

Encontro com Pucará


O distrito de Pucará está localizado no Departamento de Lampa, no Peru,
onde se desenvolveu a cultura Pukara. Assim como outros povos do cha-
mado período pré-incaico, os Pukaras não deixaram registro escrito da sua
presença no Continente Americano. Por se tratar de uma civilização ágrafa,
muitos dados estão dispersos nos monólitos, na arquitetura dos templos, na
textilaria e nos objetos de cerâmica. Os estudos arqueológicos apontam que
a civilização Pukara existiu há aproximadamente 2000 a.C e 400 d.C e foi
um dos maiores centros de produção de cerâmica, situado entre o lago Ti-
ticaca e Cuzco, no período Formativo Superior. A visão cronológica que
procura explicar a dimensão do passado, presente neste trabalho, tem sido
um discurso usual dos moradores do altiplano ao fazer referência à produção
da cerâmica. Não se trata de uma visão somente evolucionista da História
ou a adesão à concepção de tempo linear, mas uma explicação nativa que é
importante para o grupo na tentativa de situar-se em relação a outras culturas
produtoras de cerâmica.
166 América Latina: olhares e perspectivas
Para o pesquisador Villiger (1989): “La cerâmica representa el producto
artesanal más importante del território andino, y su historia es la historia
misma del processo de la cultura indígena que se inicio 2000 años a.C y se
quebro en 1532 con la llegada de los conquistadores españoles”.
O Município de Pucará tem uma produção diversificada de objetos de
cerâmica. Os ceramistas se dedicam à produção de grotescos: esculturas de
barro que figuravam a difícil vida nos Andes. Outros produzem estatuetas da
cultura Chimu, Mochica, os Incas, da cultura Pukara, potes, jarros peque-
nos e outros enormes. Produzem ainda os huacos2, panelas, jarros e mui-
tas réplicas de esculturas do museu de Pucará, ursos de desenhos animados
em molde de gesso. Nesse contexto os objetos demarcam diferentes tem-

ova
poralidades, virtuosidades, saberes e concepções cosmológicas, que eram
transmitidas aos compradores da cerâmica de modo explícito ou implícito
(iconográfico).
A variabilidade dos objetos insinuava a multiplicidade das técnicas, pois
há ceramistas que usam cinco tipos de barro para obter uma consistência
adequada; outros apenas dois – a quantidade e a composição da massa de-
pendem do objeto e da sua finalidade.
Durante a pesquisa de campo colhi um importante depoimento sobre um
tipo de cerâmica tido em todos os lugares como inferior e consequentemen-
te desvalorizado: a cerâmica utilitária. “Para hacer una vasija de barro que
vaya al fuego es muy difícil, porque, para hacer eso, el artesano necesita
conocer bien la materia prima. Para que el vaso no se rompa en contacto
con el fuego, se tiene que saber qué tipo de barro y la cantidad de cada uno”
(Luciano, ceramista de Pucará).
A cerâmica utilitária guarda no processo da sua feitura um saber ances-
tral, muitas vezes desvalorizado, posto que, é tido como um ato mecânico,
logo, desprovido de criatividade. Entretanto, a diversidade dos objetos, e
consequentemente das técnicas, comprovavam a sabedoria milenar dos ar-
tesãs de Pucará, algo para além da criatividade, pois é processo antigo de
experimentação e apropriação de saberes.
A priori, a multiplicidade de objetos e técnicas ensejou dúvidas pon-
tuais, uma delas foi sobre a produção de cerâmica com o uso do molde. A
técnica do molde foi uma incógnita irresoluta durante muito tempo e ainda
não completamente desvendada, poucos artesãos conseguiram identificar o
surgimento e ou como esta técnica se difundiu na região.
2
Esculturas em que fazem referência a rituais fúnebres de culturas pré-hispânicas.
América Latina: olhares e perspectivas 167
A paisagem da feitura da cerâmica de Pucará deflagrava, não só, diferen-
tes opções técnicas, mas, sobretudo, que esta diversidade de técnicas eram
resultantes de variados momentos históricos. A feitura estava inserida num
espaço onde as temporalidades se cruzavam num jogo de relações inter-
pessoais, agenciando práticas e concepções cosmológicas, instabilizando o
lugar do objeto (cerâmica), que muitas vezes passava a ser sujeito.
As peças materializavam continuidades e descontinuidades de perspecti-
vas, pareceu-me que tais objetos, guiavam e acompanhavam as vicissitudes
da vida. Nas entrelinhas, os ceramistas deixavam claro que a cerâmica de
Pucará não é apenas um modo de sobrevivência, mas a própria vida.
Apesar da diversidade de técnica e dos objetos produzidos somente uma

Pro
conquistou reconhecimento local e nacional – o torito de Pucará – estatueta
de barro, representativamente hispânica, adornada com uma espécie de flor
na cabeça e nas laterais do corpo; a língua lateralizada dava impressão de
fúria ou cansaço, o dorso continha um orifício. É interessante observar que,
mesmo quando é feito em miniatura, o orifício permanece. Os pucarenhos,
além de ceramistas, eram inquestionavelmente criadores de ovelhas e, em
menor proporção, de vacas. O torito, emblema do povoado, se não é o mais
produzido, certamente, é o mais incentivado, inclusive ao ser colocado sobre
o teto das casas, uma forma de enfatizar uma crença antiga: de que se colo-
cado sobre o teto pode trazer sorte e fartura.
Segundo informação dos moradores locais o torito nasceu em Santiago
Pupuja, a 18 km de Pucará, onde peça é feita a mão. As dificuldades de
transporte interferiram para que eu não conhecesse Santiago com densidade
– apenas duas visitas. Estas, entretanto, foram valiosas para observar como
alguns ceramistas do lugar compreendem o fazer manual e a relação com a
técnica de molde.
Para os moradores mais velhos, em tempos passados, Domingo Cho-
quehuanca pertencia a Pucará. As reformulações geopolíticas criaram novos
distritos que separou Pucará de Choquehuanca.
Segundo Fernando Villiger (1989), um dos primeiros a pesquisar a ce-
râmica de Pucará, o torito é um produto do distrito de Santiago Pupuja,
Província de Azangaro localizado a 25km de Pucará. A proximidade da co-
munidade com a estação de trem de Pucará, fez com que os ceramistas de
Santiago levassem os toritos à estação de Pucará para serem vendidos, fato
que provocou a fama entre os compradores de o torito ser de Pucará.
168 América Latina: olhares e perspectivas
O fato é que toda a região, incluindo Domingo Choquehuanca, Checca
Pupuja, Santiago Pupuja, teve o nome de Pucará. Segundo informantes,
o torito é de fato proveniente do lugar, atualmente, denominado de Chec-
ca Pupuja. Após a divisão geopolítica, Pucará teve seu território reduzido,
Checca Pupujá deixou de pertencer ao Distrito de Pucará e passa a pertencer
ao Distrito de Santiago Pupuja. Em Santiago, prossegue em menor escala
a produção de toritos que se diferenciam dos demais. Atualmente Domingo
Choquehuanca e Santiago Pupuja, que também são grandes produtores de
cerâmica, reclamam a patente, alegando ser daquela região o torito, pela sua
antiguidade produtiva e ausência de molde.
Os ceramistas de Pucará, salientam que o torito de Púcara foi produzido

ova
primeiramente em Checca Pupuja. De todo modo, os toritos feitos em Pu-
cará, atualmente, diferem dos que são feitos em Domingo Choquehuanca
e Santiago Pupuja. O fato é que Pucará, assim como os outros distritos,
conseguiram criar um estilo de torito, esta questão, será discutida adiante.
Para esclarecer sobre o local de surgimento do torito apresento o desenho
de Fernando Villiger, encontrado no livro La ceramica tradicional del Peru. scanea

Para o autor citado, o torito é um objeto mestiço feito sem o uso do mol-
de, em Santiago Pupuja. Villiger aponta, que o uso posterior do molde tem
desvirtuado o torito. Este objeto para o autor é: una valiosa creación de los
alfareros de Santiago de Pupuja, desde tiempo tuvieron aceptacion regional
y departamental, es el llamado toro de Pucará el que ha pasado los limites
departamentales y nacionales. El simbolisa hermosamente la fusión de la
cultura europea con la andina.
América Latina: olhares e perspectivas 169
Do rito à produção de um objeto mítico
O pesquisador Juan Palao foi o primeiro dos meus informantes a afirmar
que o torito no passado tinha uso ritual. Segundo o pesquisador, ele era
enterrado no terreno, antes da casa ser construída. A tradição de enterrar o
torito segue a lógica dos pagos a Pachamama, ritual muito presente em todo
altiplano. Os pagos a Santa terra são formas de oferecer/pagar, enterrando
oferendas, que são formas de pagamento e ao mesmo tempo pedido. Palao
afirma que nos últimos anos o uso ritual do torito tem dado lugar ao uso
decorativo, antes o torito era preenchido com coca, álcool e chincha, o que
explicaria a presença de um orifício na região lombar.
Durante a pesquisa de campo, poucas pessoas relataram o enterro do tori-

Pro
to como forma de atrair boa sorte, entretanto, é notória e muito verbalizada a
importância de se colocar esse objeto sobre o teto das casas para atrair sorte
e fortuna. Na estrada que liga Cuzco a Pucará, várias casas têm o torito no
telhado.
Em Pucará, algumas residências têm torito no telhado ou na fachada da
casa, mas é um número pequeno, se comparado às que não têm. Sobre essa
questão, surge uma duvida: até que ponto o reduzido número de toritos so-
bre o teto aponta para uma redução da força da tradição? O fato de as casas
terem o torito pode ser lido como algo que está sendo criado, uma tradição
inventada (Hobsbawn, 1984). A insistência de órgãos e de algumas perso-
nalidades, como o representante da associação dos ceramistas, para que os
moradores do distrito coloquem o torito sobre o telhado, assim como faziam
os antepassados, teria instituído a noção de que antes todas as casas tinham
o torito sobre o telhado?
Minha inferência neste aspecto vem da constatação de que as casas mais
novas têm o torito sobre o telhado, enquanto as velhas com telhado de paja
não possuem estrutura para recebê-lo3. Isto leva a crer que no passado não
havia, de fato, torito sobre o telhado. Numa comunidade onde a cosmologia
é apresentada através de pares de opostos complementares, como alto e bai-
xo, acima e abaixo, colocar o torito sobre o teto não fere a lógica cosmológi-
ca e contribui com a divulgação turística. Do ponto de vista do marketing, é
melhor tê-lo sobre o telhado do que enterrado. Entretanto, as casas modernas
com teto de calamina apresentam pouca estrutura para receber o torito.

3
As casas mais recentes, por possuírem o teto de calamina, grandes placas de
minério de zinco, prejudicam a colocação dos toritos.
170 América Latina: olhares e perspectivas
A maior festa do distrito acontece no período do natal; a corrida de tou-
ros, que resulta na morte dos touros em praça pública. Do ponto de vista
mitológico ou festivo, é notória a influência desse animal na America Latina
onde é símbolo de força e fertilidade.
Os moradores afirmam que o torito de Pucará nasce de comemorações
rituais para a procriação do gado. Na entrevista, segue a fala do Alcalde e
dos ceramistas,

(...) Como es del conocimiento de muchos el torito de Puca-


rá nace gracias a una fiesta de la santísima trinidad donde se
empezaba a darle al toro un homenaje por la fuerza que desde
entonces desempeñaban cuando araban y desde entonces los

ova
agricultores los agarraban los toros y los adornaban, pintaban
el cuerpo e así se plasma toda esa tradición en la cerámica y que
hoy es difundido a nivel mundial nuestro torito de Pucará”.
(Leonardo, alcalde de Pucará).
¿Qué significa el torito de Pucará? Antiguamente nuestros
abuelos, todavía, hacen una fiesta la cual era un carnaval hacia
la marcación de su ganado, era una gran fiesta. Porque el tori-
to de Pucará les daba ingreso económico por eso hacían una
fiesta grande bailaban pintaban a los animales todos acustavam
porque era una zona ganadera. Ahora nuestro torito de Pucará
están más valorados porque es conocido mundialmente enton-
ces trabajamos más.
El torito de Pucará también significa fuerza y también hacían
la abertura servía como vasija para beber su chicha. Alicia Fri-
sancho, ceramista.

As poucas pesquisas bibliográficas que encontrei salientam as informa-


ções dos ceramistas. Na descrição de Villiger a marcação do gado tem sua
própria liturgia:

Sobre ponchos y mantas que delimitan la ‘mesa’ de la marca­


ción, el animal es echado con su patas atadas, le corton las
puntas de las orejas, la sangre que mana es mezclada con licor
para beberla, luego se procede a la marcación propriamente di-
cha; se le corta la piel a la altura de las cejas para el ‘silwi’ de
lana de alpaca, le cortan la piel del pecho en forma de ojales
(huallcos) y tambien el hocico; le pintan volutas, rayas y apa-
rejos con ‘taco’ ocre disuelto en agua, y antes de soltarlo le
echan aguardiente en el hocico y aji bajo la cola; el toro sale

América Latina: olhares e perspectivas 171


brincando relamiéndose desesperadamente el hocico y mueve
la cola con violencia, mientras que los concurrentes le arrojan
flores, manzanas, naranjas y otras frutas y hojas de coca. Este
rito es propriciatorio para la buena reproducción del ganado”.
Villiger (1983, p. 175).

Na pesquisa de campo, houve variações do descrito, mas em todos os


relatos aparece a cerimônia de marcação do gado4 como rito originário do
torito de Pucará.
Em uma das visitas que fiz à artesã Dina, ela me apresentou um torito
de aproximadamente cinquenta anos, com forma e adornos semelhantes ao
que é produzido atualmente em Pucará, diferindo por estar completamente

Pro
esmaltado com óxido de chumbo. Na busca pelas variações do torito, em
Cuzco encontrei uma série de antiquários com peças aparentemente mais
idosos do que os de Pucará. A diferença no traço em cada um dos toritos
observados foi evidente.
O depoimento dos ceramistas e as observações em campo dos diferentes
tipos de torito dão lugar a reflexões sobre o estilo e o que cada um se propõe
a comunicar.
Franz Boas observou que o estilo de uma peça é a estabilidade de um
padrão. Para o autor, padrão e estilo são realidades diferentes que se apre-
sentam numa mesma peça. O padrão está ligado à permanência histórica,
enquanto o estilo à permanência de uma “essência profunda”. (Grifo meu).
A essência profunda de que nos fala Boas está relacionada a processos
inconscientes e conscientes fornecidos pela cultura. A permanência histórica
ou o padrão de um determinado objeto, em Boas, atua como sinal diacrítico
de um determinado grupo.
Desse modo, a peça carrega em si elementos individuais e coletivos do
grupo onde é originada. No caso do torito de Pucará, os traços de força e
poder, é alvo de poucas variações, o mesmo não podendo ser dito dos dese-
nhos feitos sobre o torito os quais variam. A forma, e com ela, saliências e
orifícios permanecem, deixando explícito o uso ritual do objeto.
Em Gell (1998), a discussão sobre o estilo assume outros caminhos. Ele
rejeita a análise que relaciona estilo a uma capacidade psíquica individual.
O foco do autor está nas formas tradicionais de arte, produções coletivas li-
gadas a parâmetros culturais onde, supostamente, a inovação é algo restrito,
porém não inexistente.
4
Cerimônia onde o gado era bento para uma próspera reprodução.
172 América Latina: olhares e perspectivas
Na tentativa de superar o problema entre estilo como algo individual ou
coletivo, Gell analisa as culturas como faz com produções individuais. “Para
chegarmos a uma análise antropológica do estilo é necessário focar na sali-
ência psicológica das obras de arte direcionando a atenção aos parâmetros
culturais”. (1998, p. 158). A função do estilo está em associar obras de arte
individuais com a totalidade das obras do mesmo estilo. Assim, elas não re-
alizam seu trabalho cognitivo sozinha, mas em cooperação uma com a outra.
Essa ação cinergética é o estilo. Na sequência, apresento algumas imagens
captadas durante a pesquisa de campo que exemplificam as discussões sobre
estilo e técnica empregada no torito de Pucará.
Em sua análise formal, Gell (1998) observa que cada item em particular

ova
está conectado ao corpus da obra. Mediante comparações de formas rela-
cionadas, uma série de transformações converte um objeto em outro; esse
outro, porém, está em sintonia com as outras formas. Gell (idem) denomina
isso de eixo de coerência. Ao se identificar tais eixos, é possível chegar à
significância cognitiva do estilo da peça dentro do grupo onde é produzida.
Para Gell (ibidem), o estilo de um artefato é autônomo em relação à cultu-
ra. Seu relacionamento só é possível de artefato para artefato. Os eixos de co-
erência são os modos de conectar a mudança dos objetos ao longo do tempo.
As imagens captadas durante a pesquisa de campo deixam claro os eixos
de coerência de que nos fala Gell, expondo ainda um ponto importante no
que se refere à confecção de objetos de cerâmica: a técnica.
No caso do torito, observo que o tamanho do orifício no dorso do animal
é algo saliente, o que atesta o uso ritual. O afunilamento do orifício parece
ser resultante da redução do uso ritual ou da mudança de função, quando
este passa a ser usado como vaso de flores, por exemplo. As alterações da
forma e do estilo estão relacionadas ao papel que o objeto desempenha no
meio social.
O objeto também pode ter seu estilo modificado à medida que assume
outros sentidos, não significando que os sentidos assumidos não possam co-
existir, criando assim uma camada de significados incorporados em tempo e
espaço específicos, modificando-se na reprodução.
As colocações de Gell sobre a mudança do estilo e sua independência
com a cultura parecem não ter sentido no que se refere ao torito de Pucará,
pois os estilos de toritos, assim como a técnica usada na produção do objeto,
estão profundamente relacionados com o papel desempenhado pelo objeto
no meio social onde é produzido.
América Latina: olhares e perspectivas 173
Descola (2002), no artigo Genealogia dos objetos e antropologia da
objetificação, argumenta que indagar o porquê do não-surgimento de uma
determinada técnica num contexto possível é mais válido do que buscar ex-
plicações tautológicas que visem a esclarecer as vantagens do surgimento
de uma técnica.
Para Descola, a técnica deve ser analisada bem mais no seu aspecto lógi-
co do que cronológico. A busca de compreender a lógica do surgimento ou
do não-desenvolvimento de uma técnica mostra que as inovações são frutos
da reconfiguração de elementos existentes, logo, as mudanças e permanên-
cias são compatíveis com o conjunto do sistema técnico.
As imagens de número um a quatro apresentam toritos feitos a mão em

Pro
tamanhos e formas assimétricas, fruto de uma técnica exclusivamente ma-
nual em detrimento do que é feito na atualidade com o molde. A técnica
do molde possibilita a produção de maior quantidade de peças, modelos
e formas iguais em um menor tempo. Quando a produção do torito estava
relacionada ao uso local e ritual, não necessitava de molde, uma vez que
a produção manual dava conta da demanda interna. Ao longo do tempo, o
aumento do consumo tornou a produção com molde imprescindível para
atender a demanda externa.
O molde feito de gesso, literalmente, engessa estilos reproduzidos coti-
dianamente. É preciso observar, todavia, que o molde também possibilita
a permanência de inúmeros estilos que atravessam fronteiras temporais e
espaciais, graças à reprodução; até porque o molde reproduz um padrão de
torito, que pode ter o estilo modificado pelo ceramista, já que ornamentos
e adereços são inseridos ao torito sem uso do molde. Dos moldes, saem
as peças que, após a secagem, serão queimados para posteriormente serem
adornados com folhas de coca, fitas e serpentinas, tudo de barro feito a mão,
conforme informado pelos ceramistas.
Procedendo como assim fez Descola (2002), observo que tão importante
quanto indagar a diversidade de um objeto e seus diferentes estilos é pergun-
tar o porquê da não-homogeneidade. Por que o torito de Pucará não é igual?
Quais motivos justificam sua variação ao longo dos anos? Se o molde permi-
te uma reprodução fidedigna a todos os artesãos do distrito, por que se des-
tacou dentre os demais objetos produzidos em Pucará, inclusive diante de
objetos de maior antiguidade, como a Estrela de Sete Raios e Hatun Nakaj5?

5
A Estrela de Sete Raios e Hatun Nakaj são ícones da cultura Pukara, ambos
estão presentes no museu lítico de Pucará. Hatun Nakaj é conhecido como o
grande degolador sua imagem esta pintada na fachada da Alcaidia.
174 América Latina: olhares e perspectivas
Estes objetos não são inseridos no meio social por vontade e ou decisões
políticas nem por imposição, nem mesmo por uma atividade consciente e
deliberada dos indivíduos. Apesar de touro ser de origem hispânica, ele se
inseriu decisivamente nos Andes e assim não teria acontecido se não hou-
vesse um correspondente direto: o felino.
O felino compõe juntamente com condor e a serpente a tríade de animais
mítico dos Andes. O felino tem um lugar importante na cultura Pukara – na
figura do puma. Esse animal foi o símbolo mais importante da civilização
Tiahuanaco, e de outras culturas peruanas como a chavin.
O torito como correspondente direto do felino é chave central para com-
preender a prevalência desse objeto, pois ele, ressoa na comunidade. Os ob-

ova
jetos que compõem um patrimônio precisam encontrar “ressonância” junto
ao seu público. Utilizando-se das colocações do historiador Stephen Green-
blatt, ele diz:

Por ressonância eu quero me referir ao poder de um objeto


exposto atingir um universo mais amplo, para além de suas
fronteiras formais, o poder de evocar no espectador as forças
culturais complexas e dinâmicas das quais ele emergiu e das
quais ele é, para o espectador, o representante”. (apud GON-
ÇALVES, 2007, p. 215).

A correspondência do torito com o felino responde em parte o porquê de


sua escolha em detrimento de outros objetos. A relação direta entre o felino
e o torito é feita por muitos ceramistas de Pucará. Tal relação nasce princi-
palmente da leitura das formas das montanhas quando estes afirmam que o
Peñor San Caetano6, ora se assemelha a um felino, ora a um torito, numa
constante sobreposição de imagens na construção narrativa. Neste sentido,
o torito insere-se no que Latour (2007), denomima de híbridos, “seres poli-
temporais”. Os híbridos de Latour carregam um passado virtual e um futuro
imprevisível.
Fora a semelhança formal, estão as capacidades psíquicas valoradas pe-
los ceramistas. O torito é símbolo de força, fartura e potência sexual re-
produtiva. Identificar-se com este animal significa também corporificar es-
tes elementos, tornar-se touro, incorporar suas substâncias. Os aspectos de

6
Peñor San Caetano é um Apu que significa senhor em quéchua, trata-se de uma
montanha sagrada, a maior da região.
América Latina: olhares e perspectivas 175
imponência e força expressos nos toritos pelos ceramistas é uma forma de
projetar no meio social elementos valorados internamente. Daí a afirmativa
enfática: “Pucará es la cuna artesanal; la mejor cerâmica es de acá”.
A particularidade de cada ceramista, imprimindo, cada um ao seu modo,
traços, linhas e adereços ao torito, parece ser a primeira resposta que expli-
caria a diversidade. Esta, entretanto, não satisfaz a questão por completo, já
que o uso do molde permitiria a permanência de um só modelo de torito. A
alteração nasce do ceramista, porém os motivos que levam a tal mudança
são socioculturais. As mudanças do tamanho do orifício, os adereços, assim
como fatores psíquicos que a peça se propõe transferir aos seus usuários,
são aspetos estilísticos acoplados, salientados e ou abandonados ao longo

Pro
do tempo. Tais aspectos estão relacionados com a cosmologia do lugar, são
alterados para satisfazer uma exigência estética do grupo.
O trabalho de Van Velthem sobre a estética wayana atesta que “os objetos
transmitem conhecimentos acerca da imagem que seus produtores fazem de
si mesmos e referendam formas diversas de veicular tal imagem.” Quando
diretamente vinculadas aos conceitos cosmológicos, as artes indígenas con-
vertem-se antes em prismas que refletem as concepções acerca da composi-
ção do universo e dos componentes que o povoam, sobretudo dos que estão
alijados da sociedade, os mortos, os inimigos, os animais, os sobrenaturais
(VAN VELTHEM, 2004, p.52-53).
A autora, em conformidade com Geertz, acentua que arte é um meio de
armazenamento e transmissão de informações como um texto visual onde os
sentidos são compartilhados pelo artista e seu grupo. Deste modo, nas artes es-
tão impressas mudanças sociais, pelos quais, o individuo e seu grupos passam.

Considerações finais
O torito de Pucará, objeto artesanal, nasce da marcação do gado, uma
prática ritual transmutada em objeto. Não se trata de perceber esta relação
numa lógica objetal em que o torito seria simplesmente a expressão de um
momento ritual, pelo contrário, o dito objeto é incorporado de entidades e
substâncias, o torito nestes termos não é apenas a representação de um ritu-
al, pois na perspectiva dos seus produtores ele passa a ter uma agência social
e cosmológica quando enterrado ou colocado no telhado das casas.
Este objeto remonta, por meio de sua matéria-prima, traços e adereços,
a cosmologia pucarenha, saberes partilhados, assim como segredos vela-
176 América Latina: olhares e perspectivas
dos. O torito é um eterno vir-a-ser, não será o que é, mas levará ao futuro
o que está.
Por se tratar de um objeto que atravessa temporalidades e espacialidades,
o torito oscila entre o presente, o passado e o futuro, compartilhando com os
moradores do Distrito, usuários e consumidores, momentos ordinários e ou
rituais da vida humana e extra-humana. Trata-se de um objeto animado que
transmite força e segurança por intermédio de sua matéria-prima, formas,
linhas e desenhos, corporificando entidades e substâncias. Ganha vida no
imaginário, quando dança nas madrugadas revestido de ouro7, um objeto
nascido de uma cerimônia que vive na forma de artefato material, tornando-
-se chave para a compreensão da vida humana e extra-humana do local onde

ova
é produzido.
Sobre a relação dos objetos com a narrativa mítica, Van Vetlhem assina-
la que a ordem cósmica é considerada como parte da ordem social, onde a
estética está ligada ao universo cosmológico, cuja lógica é partilhada pelo
produtor e pelo grupo receptor ou espectador. O objeto, deste modo, é um
mediador entre domínios distintos, aproximando o mundo animado do ina-
nimado.
O torito de Pucará é o patrimônio atualizado e compartilhado, constru-
ído e apropriado pelos moradores do Distrito. Para este objeto, ícone, o
tempo passado e futuro inexiste, uma vez que nele gravitam temporalidades
que se mantêm e ao mesmo tempo se projetam. A venda do objeto implica
comercializar também as estórias ou as lendas que existem ou são criadas
sobre ele.
Sally Price (2000) em sua pesquisa sobre Bush Negrões, no Suriname,
identificou o fato de que a ausência de informações convincentes sobre o
significado dos entalhes em madeira fez com que um artesão comprasse um
dicionário, de motivos quilombolas – Muntslan – e, mesmo sem entender
o que dizia o dicionário passou a usá-lo no momento da venda para que os
clientes procurassem o significado. Com isso, seus lucros se tornaram maio-
res e seus clientes satisfeitos. (Price, 2000, p. 168). A entrada do torito num
circuito comercial, juntamente com suas crenças e cosmovisão, não pode
ser compreendida apenas pela lógica da perda, redução do valor simbólico,
dentre outras análises que buscam o autêntico das coisas, pois o autêntico é
passível de reinvenções, criações e incessantes ressemantizações. Esses ob-
7
De acordo com alguns artesãos o Peñor San Caetano, guarda um torito de ouro
que dança nas madrugadas pucarenhas.
América Latina: olhares e perspectivas 177
jetos, distribuídos nas suas formas e estórias, multiplicam e criam de modo
particular, novos significados.
A diversidade do torito é explicada não só pela necessidade dos ceramis-
tas em colocar no mercado objetos diversos, mas porque a vida é constituída
de abandonos e apegos. A feitura das peças acompanha as vicissitudes do
viver. Logo, o torito, num plano técnico, psíquico e histórico cultural, con-
densa esses vários elementos

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América Latina: olhares e perspectivas 179


Pro

180 América Latina: olhares e perspectivas


Reflexões sobre Territórios e
Políticas Ambientais na América Latina

Senilde Alcantara Guanaes

C
ova
ada vez mais as politicas de estado se afinam com as politicas eco-
nômicas e com setores e grupos sociais específicos para redefinir
as formas de organização dos seus territórios a partir de interesses
e critérios ambientais, econômicos, culturais, civilizatórios, e consequente-
mente, étnico raciais. Essa lógica, assumida não apenas pelos estados na-
cionais, mas também pela própria sociedade civil, tem sido frequentemente
associada à ideia de crescimento econômico, de desenvolvimento tecnoló-
gico e de uma suposta noção de “modernidade”. Todos esses valores que
têm legitimado novas formas de exclusão e expropriação territorial são uma
versão atualizada, porém mal revestida, das políticas coloniais que deram
origem aos problemas fundiários que afetam todo o continente.
Com base em contextos variados de pesquisa esse texto procura tratar
sobre essas complexas relações entre modernidade e colonialidade, desen-
volvimento e expropriação territorial, ambientalismo e exclusão social, re-
lações que se tornaram dilemas complexos para a maior parte dos estados
nacionais, especialmente na América Latina, cujos países têm em comum:
problemas fundiários estruturais, numerosos conflitos territoriais e sócio
ambientais e a alienação do território à economia. O texto busca associar to-
dos esses aspectos, observando suas raízes comuns, e refletir sobre os rumos
tomados pelas políticas ambientais e de organização do território.

A mercantilização da natureza
A natureza, resumindo, foi percebida como construída a partir
de elementos e não tecida a partir de linhas. E as criaturas desse
mundo natural não eram mais conhecidas como tradições, mas
como espécies. (INGOLD, 2012, p. 25)

América Latina: olhares e perspectivas 181


A ideia da própria vida e das suas formas de reprodução substituídas e /
ou orientadas pela cultura, por um lado potencializa a perspectiva cultural,
tanto em sua capacidade de romper, reelaborar e instaurar novas formas de
vida e de habitat, um processo que complexifica e amplia as racionalidades,
lógicas e subjetividades que orientam a vida, mas por outro, paradoxalmen-
te, tem também o efeito de naturalizar a perspectiva cultural reduzindo-a e
sujeitando-a as necessidades e condicionamentos da vida humana. O que
nos parece uma tarefa difícil, e de certa perspectiva, desnecessária, é tentar
delimitar as dimensões e sentidos que uma e outra ocupam, ou seja, tentar
estabelecer limites entre a vida e a cultura.
É precisamente sobre essas outras e múltiplas lógicas que a primeira

Pro
perspectiva supõe que costumam desafiar ordens e padrões supostamente
globais de vida e, portanto, de “cultura” no singular, que este texto pretende
tratar. Partindo, desde uma perspectiva antropológica de cultura, de uma
concepção onde a natureza e a cultura sejam entendidas como dimensões
complementares da própria vida, e contrariando os modelos e dicotomias
mundiais, tais como: florestas versus humanidade e/ou civilização; campo
versus cidade; arcaico e/ou primitivo versus modernidade e desenvolvimen-
to; local versus global, entre outros.
Precisamente porque, desde o seu surgimento a civilização humana vem
sendo constituída a partir de uma concepção dualista e antagônica da nature-
za. De um lado, uma versão científico-positivista do mundo natural, reduzido,
ora a uma lógica mercantil – onde a natureza transforma-se em recur­sos –,
ora a um princípio de “sacralização”, onde a natureza passa a ser “intocável”
(DIEGUES, 1996) para a maior parte dos homens comuns, transformando-se
em “museus vivos de biodiversidade”. Supostamente esses “refúgios” fun-
cionariam como uma espécie de proteção diante do comportamento preda-
tório dos homens, mas sabemos que se trata de mais uma das façanhas do
mercado, que através do discurso da conservação tem dominado os campos
da biodiversidade e da diversidade étnica e cultural, intrinsecamente relacio-
nados, já que a diversidade ecológica depende do conhecimento popular e das
suas formas de aplicação, uma produz e é produzida pela outra. O que nos faz
compreender porque terras ocupadas por populações tradicionais, indígenas e
não indígenas, passam a ter um imenso valor enquanto lugares de reprodução
e circulação da biodiversidade.
Do outro lado, em um antagonismo ainda mais cruel e excludente, si-
tuam-se os grupos humanos dependentes desses espaços escolhidos como
“santuários” e de certa forma, condenados pelos modelos conservacionistas
excludentes. Enquanto os modelos globais continuam a operar a natureza
como “recursos” e a cultura como “política” (LATOUR, 2004), as comu-
nidades locais “não dependem da dicotomia natureza/sociedade” e seguem
mesclando essas duas dimensões da vida (ESCOBAR, 2005, p. 136). Os
modelos atuais, nos quais as agências de conservação se baseiam, globali-
zam os interesses sobre o território e as políticas de conservação, criando
modelos distantes dos contextos culturais e, simultaneamente, exorcizando
as formas locais de uso da natureza.
Os eventos de 1965 em Keele, 1972 em Estocolmo, 1975 em Belgrado,
1977 em Tbilisi, 1992 no Rio de Janeiro, ao lado de vários outros, além de

ova
consolidarem os modelos e padrões conservacionistas em todo o mundo,
fortaleceram a ideia de que as questões ambientais deveriam ser de respon-
sabilização de todo o planeta, e que, naturalmente, nações econômica e tec-
nologicamente mais avançadas teriam o direito de fomentar princípios, di-
retrizes, práticas e programas sócio ambientais junto aos países periféricos,
exercendo pressão sobre os seus dirigentes e seus territórios. As pesquisas
científicas e as políticas ambientais na Amazônia são a prova irrefutável da
interferência de outras nações no patrimônio natural e cultural dessas popu-
lações, sobretudo dos povos indígenas.
A Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Rio de Janei-
ro, 1992) marcou a história do socioambientalismo mundial, especialmente
porque consolidou a decisão de que todos os países deveriam contribuir para
a conservação alterando padrões de produção, consumo e exploração dos
recursos naturais. Como ocorre em todos os pactos mundiais, por razões
óbvias, o tratado não foi seguido à risca por todas as nações, enquanto al-
gumas nações se incumbiram do investimento financeiro e científico para
intensificar e prolongar o uso dos recursos naturais, além de investir em
meios de fiscalização e pressão sobre os outros países, outras buscam aten-
der as demandas e racionalidades da comunidade científica internacional e
do mercado financeiro externo.
Vinte anos depois a Conferência volta a acontecer no Brasil e, para além
de todo o cenário midiático e de todas as novidades apresentadas, foi possí-
vel constatar a ineficiência e fragilidade das políticas ambientais criadas na
primeira edição do evento. Os líderes de governo e os dirigentes da Confe-
rência tornaram evidente em suas falas o que já sabemos: que as políticas
ambientais mundiais estão mais comprometidas com a sustentabilidade da
América Latina: olhares e perspectivas 183
economia e em como associar condições de produção satisfatórias com bai-
xos impactos em áreas e recursos naturais, do que com a qualidade de vida
ou o buen vivir das populações humanas. Ficou evidente também que há
uma preocupação ainda menor com as populações tradicionais que vivem
em áreas de floresta e em condições alheias ou periféricas ao capital.
O crescimento do movimento de justiça ambiental em todo o mundo, que
inclui também o racismo ambiental, é uma evidência de que cada vez mais
fatores ligados à qualidade de vida, bem estar, saúde e meio-ambiente estão
ligados às questões econômicas, de classe e de raça. São esses fatores que
determinam quem vai ficar com o ônus da poluição e da baixa qualidade de
vida, para onde vão as indústrias altamente poluidoras e que descumprem

Pro
regras ambientais, onde se instalam as indústrias e fábricas que desrespei-
tam os direitos trabalhistas e submetem seus operários a trabalhos altamente
prejudiciais a saúde e à integridade humana, e por fim, para onde vão os resí-
duos produzidos por essas indústrias. Essa situação, controversa e polêmica,
levou o debate sobre as questões ambientais para os grandes centros urbanos
e suas periferias e para o campo do embate político.
Sob essa perspectiva a política conservacionista, eu diria que em quase
toda a América Latina e Caribe, tem sido instrumento para uma segunda co-
lonização. Por trás das políticas ambientais fomentadas entre os países estão
os interesses financeiros do mercado externo, e a estes interessa a natureza
enquanto expansão de territórios e de recursos naturais comercializáveis.
A ideia da natureza como geradora de recursos que sustentem a economia
mundial, foi substituindo paulatinamente a noção da natureza como um bem
ou uma dádiva, natural-social em alguns aspectos e sobrenatural e divina
em outros, uma relação ainda presente em algumas culturas tradicionais.
Essa mercantilização da natureza presente na primeira concepção consolida
a ideia de que o mundo natural pode ser utilizado e transformado exausti-
vamente pela indústria, e que as novas tecnologias podem transformá-lo em
uma fonte inesgotável de recursos econômicos.

Os usos e sentidos da cultura


Que a cultura não pode ser considerada nem simplesmente jus-
taposta nem simplesmente superposta à vida. Em certo sentido
substitui-se à vida, e em outro sentido utiliza-a e a transforma
para realizar uma síntese de nova ordem. (Lévi-Strauss, 1982,
p. 42)

184 América Latina: olhares e perspectivas


A cultura vem sendo definida pela Antropologia de diversas formas e da
maneira mais ampla possível, procurando contemplar nas definições todas
as formas de atuação, expressão e concepção da vida humana ao longo da
história das civilizações. No entanto, algo que está presente em todas as defi-
nições é a ideia de relação e de transmissão ou comunicação “que organizam
a percepção e a ação das pessoas” (Carneiro da Cunha, 2009, p. 313), nesse
conjunto de relações uma das mais importantes, porque mais elementar, é
exatamente a percepção humana da ideia de natureza e as formas com que
as culturas humanas vêm se relacionado com ela.
Tanto a negação quanto a domesticação e uso do mundo natural, assim
como as propostas de uma nova relação com o ecossistema, são produzidos

ova
por categorias culturais específicas em contextos singulares. O que não sig-
nifica dizer que a natureza e a vida em suas diversas concepções estão sub-
metidas às categorias culturais, mas, que os conceitos, padrões ecológicos e
critérios de relação com o mundo natural foram criados, desde a sua raiz, em
contextos políticos e econômicos específicos, faz-se necessário, portanto,
conhecer e revelar esses contextos, visto que estamos submetidos - mas não
irremediavelmente subjugados – a um modelo de sociedade onde território e
recursos naturais têm um valor mercadológico, esse sim universal, que tem
se sobreposto à própria vida, inclusive a humana.
É precisamente neste contexto que nos perguntamos se é possível uma
mediação entre essas duas lógicas de relação com a natureza. Aquela que
explicitamente privilegia interesses globais sobre territórios “nacionais”,
biodiversidade e etnoconhecimento; e outra que acredita possível conciliar
formas tradicionais e ou culturais de relação com o meio e a conservação
da biodiversidade. Essa segunda compreenderia observar como grupos cul-
turais distintos, no campo ou na cidade, vivem e se relacionam com o ecos-
sistema à sua volta, como compartilham os recursos naturais disponíveis,
como negociam os espaços a serem ocupados, como solucionam problemas
comuns, e por fim, como se apropriam do espaço da vida.
O uso de recursos naturais, os critérios de exclusão e inclusão de grupos
humanos em áreas de conservação e o difícil reconhecimento dos direitos
dos povos tradicionais, entre outras questões, dão origem a complexas dis-
cussões e muitas controvérsias, pois as mesmas questões são vistas sob dife-
rentes prismas, não raramente naturalizando-se processos sociais de relação
com a natureza e esvaziando a dimensão econômica e política estruturante
dessa relação. Para esse tipo de conservacionismo, as culturas continuam
sendo inimigas da “conservação”.
América Latina: olhares e perspectivas 185
No entanto, não necessariamente, os grupos humanos fazem um uso de-
sequilibrado dos recursos naturais, as experiências têm demonstrado que,
quando desafiados a gerir ou cogerir seus territórios e recursos naturais, es-
ses grupos agem de modo racional, responsável e eficaz. Em contraposição,
os números têm mostrado que os espaços naturais e de paisagens controla-
dos apenas pelo Estado e/ou instituições não governamentais estão sujeitos
a ações que colocam constantemente em risco a integridade do seu ecos-
sistema e do seu território como um todo, em função das dificuldades em
estabelecer regras que sejam organicamente eficazes e em fiscalizar o cum-
primento das mesmas sem a colaboração e a presença da população local. A
única que pode incorporar e legitimar esse processo.

Pro
As regras só podem ser orgânicas se correspondem ao que o sistema pode
tolerar, tanto no que se refere à dinâmica e coesão do grupo, quanto à pre-
servação da biodiversidade. A flexibilidade e a contextualização das normas
é o que mantém a relação entre o mundo da cultura e o mundo da natureza
um sistema vivo e autônomo, e não a rigidez e universalidade das regras.
Alguns fatores como a dimensão dos recursos; o tamanho do grupo; o nível
de experiência comum; as formas de liderança; a capacidade em prever e
assumir as consequências de determinadas ações; o conhecimento sobre a
disponibilidade dos recursos: se são abundantes ou não para a quantidade de
usuários existentes; a confiança, que normalmente tem a ver com o tempo
que aquele grupo permanece junto; o mútuo conhecimento das regras locais,
dos valores e dos costumes (Ostrom, idem); tudo isso é de fundamental im-
portância para que o manejo dos recursos seja possível e durável para ambos
os lados: natureza e sociedade.
Nesse sentido, a importância do conhecimento popular, da valorização do
mesmo no momento de resolução de problemas; dos saberes experimenta-
dos e partilhados entre as diversas “ciências”, tornam-se fundamentais para
modelos nativos de conservação. E isso não se reduz apenas aos pequenos
grupos e/ou comunidades, as complexidades de um conjunto diverso de ex-
periências também são capazes de operar e resolver problemas de modo ain-
da mais eficaz. Ou seja, nessa perspectiva é possível a convivência entre es-
calas de produção locais e as leis do mercado e do Estado (OSTROM, idem).
As experiências mostram que áreas onde há parcerias entre grupos sociais
com habilidades para operar determinadas atividades econômicas e agências
ambientais dispostas a promovê-las, as políticas conservacionistas desenvol-
vem-se de forma autônoma não apenas em termos econômicos e ambientais,
186 América Latina: olhares e perspectivas
mas também em termos políticos, o que pode representar um primeiro passo
para um “modelo conservacionista positivo” (DOWIE, 2006), onde os pró-
prios nativos definem as regras e os gestores tentam subsidiá-las.

Território e ambiente: do local para o local


A conservação depende diretamente da capacidade de diálogo entre os
distintos grupos. Porque uma prática só é eficaz se for pensada para cada
ecossistema e os grupos humanos que vivem nele. Os modelos precisam
ser locais e, portanto, devem ser construídos e ajustados cotidianamente, de
modo artesanal. Um “modelo” latino-americano ou qualquer outro modelo
gestado nas especificidades precisa ser etnoconservacionista para os de den-

ova
tro e não para atender padrões externos e utilitaristas de conservação, por
outro lado, precisa também saber dialogar e estar atento às novas experiên-
cias e teorias em nível global. As experiências em seus locais, se valorizadas
e intercambiadas com outros grupos, com lógicas produtivas semelhantes,
podem resignificar e criar práticas e percepções de uso da natureza que se-
jam “universais”, ou seja, que faça sentido dentro da lógica e da estrutura
social de distintos grupos no mundo inteiro.
Nesse sentido, a diferença básica entre os modelos globais e as experiên-
cias universais é que o primeiro produz um conjunto de ficções baseado em
experiências hegemônicas, arranjos artificiais propostos sempre dos países
“centrais” para os países periféricos, portanto, sempre impositivos. Enquan-
to o segundo é igualmente um conjunto de ficções, mas baseado em práticas,
ideias e experiências locais e artesanais, que passam a fazer sentido para
outros grupos, seja pela afinidade cultural, histórica e econômica entre esses
grupos, quando se trata de regiões comuns, por exemplo, seja pela eficácia
dessas práticas em operar de forma equilibrada a lógica cultural, ambiental
e econômica. Essas experiências comuns, quando universalizadas, podem
se transformar em experiências contra hegemônicas de ocupação e uso do
território e dos recursos naturais dele extraídos.
O fato é que quando se trata de áreas naturais, quanto maior a biodi-
versidade, mais globalizados são os princípios e lógicas que as regem, e
mais impositivas e externas serão as suas políticas de uso e ocupação. É o
caso da América Latina, rica em biodiversidade e em conhecimento acerca
dos seus usos, o que demanda uma reflexão mais crítica e ainda mais pro-
funda sobre os principais aspectos, efeitos e orientações dos processos de
globalização contemporâneos sobre o continente, privilegiando no debate
América Latina: olhares e perspectivas 187
uma compreensão desses processos que seja capaz não apenas de resgatar as
suas formas mais estruturais, fundamentadas em fenômenos históricos que
marcaram e deram início à sociedade mundial, tal qual conhecemos, tais
como a expansão territorial do que compreendemos hoje como “ocidente”
e o sistema colonial que se desenvolveu a partir dessa expansão, como tam-
bém de relacionar essas formas estruturais com o processo de “inserção” das
culturas nacionais e locais no chamado “sistema-mundo” (Ortiz, 1999). Tais
processos são determinantes para os modos de organização, ocupação e uso
dos territórios nas sociedades atuais.
O processo de globalização, se pensado numa perspectiva histórica peri-
férica e local, desde as experiências da América Latina e Caribe e/ou do con-

Pro
tinente africano, ressalta-se mais pelas continuidades e uniformidades com a
lógica colonial dominante, do que pelas supostas rupturas e transformações
sugeridas na perspectiva dos países centrais e de uma leitura “pós-moderna”
do mundo contemporâneo. Em outras palavras, além da modernidade não ter
transformado a lógica das relações “centro-periferia”, ela se constituiu em
muitos países como mais uma forma de colonialidade.
Nesta compreensão, os eventos desencadeados pelos processos de globa-
lização e pelo chamado sistema-mundo, inquestionavelmente adquirem es-
pecificidades em cada contexto, em cada país, transformando as relações en-
tre países, culturas e economias a nível mundial e local, no entanto, paralelo
a esses “novos” fenômenos, o conjunto de forças hegemônicas produzidas
e sustentadas pela estrutura fundiária colonial, patriarcal e racialista perma-
nece intacto, ainda que as práticas e políticas que emanam dessas estruturas
sejam hoje pouco articuladas e fragmentadas. Ou seja, embora essas estru-
turas de poder não sejam mais tão consensuais e homogêneas, as relações
de dominação continuam gerando os mesmos problemas: pobreza, exclusão
social, expropriação territorial, etc. São essas mesmas forças e estruturas
que impedem a reorganização e distribuição do território, assim como o de-
senvolvimento de alternativas econômicas baseadas em experiências locais
contra hegemônicas.
Uma reflexão crítica acerca da globalização dos fenômenos mundiais
e de como eles se desenvolvem e se apresentam nas sociedades contem-
porâneas, especialmente no que diz respeito aos usos e ocupação das áreas
naturais, parte da necessidade em compreender os complexos engendramen-
tos do sistema mundial tal como ele se concretiza nos contextos locais e
nacionais e não como ele é apresentado e discutido nos fóruns políticos e
188 América Latina: olhares e perspectivas
institucionais mundiais. A maneira particular que cada sociedade é afetada
e a forma como assimila e ressignifica os fenômenos globais trazem sempre
efeitos e reações que extrapolam as previsões e expectativas institucionais,
mesclando, não raramente, velhas formas de dominação com novas manei-
ras de empoderamento e resistência, por um lado, e novas e sutis formas de
dominação e alienação, por outro.
As estruturas coloniais e racialistas de poder presentes no discurso e nas
políticas ambientais se revestem hoje de inúmeras formas, mas uma das
mais eficazes formas de apropriação do território e dos recursos naturais
pelo capital é o discurso da “sustentabilidade” e do seu aliado o “desenvol-
vimento”, juntos encenam mais uma contradição sustentada pelo sistema

ova
econômico mundial para fundamentar a apropriação e exploração do ter-
ritório e dos recursos e bens naturais, sem, aparentemente, ameaçar os pa-
drões mundiais de conservação, estes também se transformam em nichos de
mercado: como o mercado de carbono, as novas tecnologias supostamente
ecológicas, entre outros.
Sob o manto da sustentabilidade criam-se novos mercados que giram
hoje em torno da biodiversidade, do etnoconhecimento, da indústria “limpa”
e dos programas de responsabilidade social e ambiental, paralelamente a
esses discursos e políticas que dão sobrevida a uma suposta economia mun-
dial, sobrevivem as relações neocoloniais de subordinação e alienação entre
economias locais centrais e economias locais tomadas como periféricas.
No caso específico da América Latina, região notadamente diversa, mas
ao mesmo tempo profundamente semelhante devido às condições históri-
cas compartilhadas pela experiência colonial, é preciso considerar quatros
aspectos fundamentais à compreensão dos efeitos da globalização sobre o
território e os recursos naturais. O primeiro deles são as matrizes coloniais
que orientam as estruturas políticas, religiosas, culturais e econômicas dos
países latino-americanos. O segundo, a formação das identidades nacio-
nais, étnicas, raciais e de classe, ao lado das teorias da miscigenação. O
terceiro aspecto é a forma como se deu a construção do estado nacional em
termos políticos e ideológicos, uma cópia mal feita dos estados nacionais
europeus, por um lado, e a continuidade dos padrões e práticas do estado
colonial, por outro. Por fim, a construção da “modernidade” fortemente
sustentada na ideia de progresso e “desenvolvimento”, os mesmos pres-
supostos que fundamentaram a expansão econômica e territorial durante a
colonização.
América Latina: olhares e perspectivas 189
Todos estes aspectos são fundamentais para a compreensão da estrutura
fundiária organizada no passado colonial e da gestão atual sobre os territó-
rios nacionais. Não são aspectos independentes e sim intensamente imbri-
cados e conexos. Esses aspectos estão interconectados e inter-relacionados
pelas estruturas de dominação historicamente constituídas e reificadas no
presente pela expansão do capital nos países periféricos. Os territórios na-
cionais têm se reorganizado em função de projetos, empreendimentos e
economias desenvolvimentistas, que visam o crescimento econômico e que
coloca a humanidade a serviço da economia e não ao contrário.
Apesar dos inúmeros avanços no que se refere à distribuição de terras,
como é o caso do Brasil, que vinha com uma política de reconhecimento de

Pro
terras indígenas e direitos tradicionais relativamente avançados em relação
a outros países do continente, há um retrocesso e estagnação quando essas
políticas entram em choque com os interesses de grupos econômicos estra-
tégicos para o país. Em situações como essas as elites econômicas voltam
a se unir e a se fortalecer contra o inimigo comum, que é todo aquele que
está na contramão dos padrões de desenvolvimento impostos pela nação.
Nesse sentido, além dos “outros da nação” (Segato, 2007), estes se tornam
os inimigos da nação.
As políticas desenvolvimentistas, que têm marcado os governos latino-
-americanos na última década, reestabelece em outras bases e argumentos
a defesa da propriedade privada e da inviolabilidade das leis do mercado
e do sistema financeiro, fortalecendo com esse discurso a aliança entre a
sociedade civil, basicamente a classe média trabalhadora, e as elites locais,
ampliando, junto com o racismo, a rejeição e a resistência da sociedade civil
contra as demandas dos povos indígenas e tradicionais de modo geral. Esse
embate sobre quem tem direito a terra, por um lado, e a violação de direitos
já constituídos por lei, por outro, remonta a conflitos e problemas fundiários
estruturais e repetem ações genocidas que refunda mais uma vez o nosso
passado colonial.
No estado do Paraná, por exemplo, temos os povos Guarani, uma das
etnias mais populosas da América Latina, e apenas 26 terras indígenas que
ocupam uma faixa territorial insignificativa, pressionados pelo agronegócio,
usinas hidrelétricas, expansão das áreas urbanas, envenenamento dos solos e
dos rios pelos agrotóxicos etc. Fatores que impulsionam a gradual perda do
território ancestral confinando os indígenas em áreas muito pequenas, com
condições sub-humanas e em constante situação de risco com as tensas ocu-
190 América Latina: olhares e perspectivas
pações fundiárias. Sobre esse aspecto, Dominique Gallois chama atenção
para a urgência dessa questão afirmando que:

As diversas formas de regulamentar a questão territorial indí-


gena implementadas pelos Estados Nacionais não podem ser
vistas apenas do ângulo do reconhecimento do direito a terra,
mas como tentativa de solução desse confronto. (Gallois, 2004,
p.41)

Além da perda dos seus territórios pela simples violação da constituição


nacional e dos direitos adquiridos, os povos indígenas, campesinos e tra-
dicionais têm enfrentado atualmente o crescente aumento e legitimação da

ova
concentração fundiária, a ocupação irregular de terras, a desertificação das
áreas verdes, a poluição dos rios, a contaminação dos solos, a mecanização
do trabalho do campo, o uso de agrotóxicos, a adubação química e as semen-
tes geneticamente alteradas etc. No Brasil e no Paraguai, esses fatores são
produzidos, em sua grande maioria, pelas monoculturas de soja, que vêm
envenenando e matando, através dos conflitos fundiários, inúmeras popula-
ções indígenas, ribeirinhas e campesinas de modo geral.
Há uma tentativa de globalizar as soluções para problemas ambientais
que são locais e particulares, o problema disso consiste, sobretudo, na alie-
nação e marginalização das populações locais, esvaziando o protagonismo
destas. Quijano vê nesses movimentos globais

uma relação umbilical entre os processos históricos que se ge-


ram a partir da América e as mudanças da subjetividade ou,
melhor dito, da intersubjetividade de todos os povos que se vão
integrando no novo padrão de poder mundial. E essas transfor-
mações levam à constituição de uma nova subjetividade, não
só individual, mas coletiva, de uma nova intersubjetividade.
(Quijano, 2005, p. 139)

Quando se propõe pensar a natureza na perspectiva das culturas nativas e


locais, não se trata de incentivar culturas autocentradas, mas sim da valori-
zação do conhecimento local construído empiricamente por ciclos geracio-
nais, com base em “processos históricos, linguísticos e culturais” que não
estão alienados e imunes aos contextos sociais mais amplos (ESCOBAR,
2005). Conhecimento que uma vez aprofundado, pode dialogar, sem preju-
ízo da sua autonomia, com outros povos, outras sociedades e outras cultu-
América Latina: olhares e perspectivas 191
ras. Os modelos locais sustentam e reproduzem um conjunto de significados
que têm valorizado a experiência do lugar vivido e, portanto, a experiência
daqueles que são normalmente, e esse é o paradoxo, os “sem-lugares” do
mundo global. Sobre isso, Escobar fala que,

(...) As mentes despertam num mundo, mas também em lugares


concretos, e o conhecimento local é um modo de consciência
baseado no lugar, uma maneira lugar-específica de outorgar
sentido ao mundo. Contudo, o fato é que em nosso interesse,
com a globalização, o lugar desapareceu. Um conjunto de tra-
balhos recentes tentam superar este paradoxo ao resolver algu-
mas das armadilhas epistemológicas que impõem as teorias da

Pro
globalização (Escobar, 2005, p. 84)

A crítica que se faz aqui diz respeito, primeiro, à negação do protago-


nismo das sociedades nativas e ou simplesmente “locais”, negando o aces-
so aos direitos dessas populações, seja através de mecanismos sutis como
o pretexto da baixa escolaridade, seja por meios mais explícitos como a
acusação de que estas não sabem e não são capazes de aprender a gerir os
recursos naturais de forma responsável e sustentável. Segundo, à universa-
lidade que gere as políticas e princípios ambientais, a clássica ideia de que
é preciso “pensar global e agir local”, ou seja, as ações precisam sempre ser
orientadas, de uma forma muitas vezes imposta, por preceitos, concepções
e normas externas aos contextos locais. O que resulta, em muitos casos, na
expropriação e pauperização de alguns grupos sociais dependentes da rela-
ção com a natureza.
Trazendo para o contexto da América Latina, esse paradoxo se torna ain-
da mais complexo e perverso, visto que entre as lógicas preservacionistas
globais estão as práticas desenvolvimentistas nacionais, ou seja, cria-se ai
uma falsa polarização entre elites nacionais e grupos de poder globais, en-
tre interesses econômicos fragmentários e difusos e o mercado financeiro
global, e por sua vez, entre a economia interna e a política internacional.
Enquanto isso, os grupos locais, aos quais primeiro deve interessar a gestão
do território e a decisão sobre os meios de conservação, uso e reprodução do
meio natural, são excluídos dessa negociação (Guanaes, 2011).
As universidades, os centros de pesquisa e o terceiro setor devem agregar
o conhecimento empírico dessas populações às novas tecnologias ambien-
tais, o que alguns pesquisadores têm buscado fazer, apesar do baixo estímu-

192 América Latina: olhares e perspectivas


lo das agências de fomento e das inúmeras limitações do próprio sistema
acadêmico e científico. Neste sentido, o desafio maior da América Latina é
se mostrar capaz de salvaguardar o imenso banco de etnoconhecimento e de
etnobiodiversidade presentes em todo o continente, e através destes gerar
soluções, desenvolver tecnologias e sanar problemas que são globais – posto
que foram criados por formas de exploração de recursos que são transnacio-
nais –, a partir de princípios e práticas tradicionais e/ou locais que possam
dialogar com outros locais e contextos em várias partes do mundo.

Referências

ova
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América Latina: olhares e perspectivas 193


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Pro
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194 América Latina: olhares e perspectivas


Para uma aproximação ao desdobramento
histórico do conceito de desenvolvimento
econômico e seus indicadores

Claudia Lucia Bisaggio Soares

ova
C
om base em uma percepção sobre o sistema econômico enquanto
condicionado historicamente, o presente artigo procura desenhar
um breve apanhado sobre a evolução do conceito de desenvolvi-
mento econômico e seu corolário, os indicadores de desenvolvimento asso-
ciados a cada perspectiva específica.
Para tanto o artigo está dividido em seis partes além dessa apresentação:
uma primeira onde se introduz o assunto, uma segunda em que se discorre
sobre o conceito do desenvolvimento e uma terceira centrada na noção de
indicadores. O conjunto desses três blocos pode ser interpretado como uma
contextualização para a quarta e a quinta parte do artigo, onde se esboça a
evolução histórica do conceito de desenvolvimento econômico e os esti-
los de indicadores associados a cada perspectiva são apresentados. A última
contempla as conclusões alcançadas.

À guisa de introdução
Tendo como referência o desenvolvimento de um ser humano, como se
percebe a passagem de estágio de desenvolvimento para outro? Noutros
contextos civilizatórios alguns ritos de passagem, quando cumpridos, sinali-
zavam a resposta a essa questão em termos de desenvolvimento individual.
Na nossa conjuntura, contudo, recorremos a um conjunto de diversos indi-
cadores, como a idade, presença de determinadas funções biológicas e etc.,
para responder a mesma indagação. Contudo, a via através de indicadores
mais do que de provas ou testes, parece ser a linguagem que nosso padrão
de civilização desenvolveu para se convencer/aceitar uma certa qualificação
sobre alguns assuntos.
América Latina: olhares e perspectivas 195
Assim posto, em termos sociais o que pode caracterizar que determinada
economia está apta para ser classificada entre as economias desenvolvidas?
Será que a economia também está envolvida em uma dinâmica etapista, sen-
do possível identificar alguns elementos capazes de apontar em que estágio
de maturidade/desenvolvimento ela está? Porém, mesmo não sendo neces-
sariamente fase a fase, cabendo caminhos alternativos, será que existem ele-
mentos capazes de indicar em que medida o modelo que se está seguindo
poderá resultar em uma economia (mais ou menos) “desenvolvida”? Que
elementos poderão ser indicativos?
O surgimento da sociedade industrializada moderna está intimamente li-
gado ao desenrolar da Revolução Industrial, à utilização da máquina na pro-

Pro
dução em grande escala e a consequente primazia desenvolvida pela esfera
econômica sobre as demais esferas sociais. A intensidade e o grau das mu-
danças trazidas com o surgimento da sociedade contemporânea são de um
alcance incomparável com as anteriores formações. Nela os processos de
mudança são mais rápidos e trazem consigo a possibilidade de crescimento
e desenvolvimento dentro do próprio sistema. Nesse contexto, a mudança
contínua passou a ser mais do que uma possibilidade: ela se transformou no
próprio paradigma. Mas será o crescimento econômico suficiente para ga-
rantir o desenvolvimento de uma sociedade? E que desenvolvimento é esse
que tem trazido os incríveis níveis de injustiça social alcançados no século
XXI1?
Por outro lado, o modelo de crescimento econômico que adotamos tem
vindo, progressivamente, a hipotecar os recursos naturais das futuras gera-
ções humanas. É caso de se pensar se teremos capacidade de resgatar essa
dívida e se devemos ou queremos fazê-lo. Estima-se que para manter os
níveis atuais de consumo material do “Norte” desenvolvido e em simultâneo
repeti-los para o “Sul” em desenvolvimento, será necessário colocar no cir-
cuito econômico dez vezes a quantidade de combustíveis atual e aproxima-
damente duzentas vezes a de minerais, e que com o duplicar da população,
previsto para os próximos quarenta anos, será necessário o dobro desses
1
O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano de 2005 informou que os 500
indivíduos mais ricos do mundo têm um rendimento conjunto maior que o
rendimento das 416 milhões de pessoas mais pobres. Ainda segundo o PNUD
2005, para além desses extremos, os 2,5 bilhões de pessoas que vivem menos de
2 dólares por dia (40% da população mundial) representam 5% do rendimento
mundial e os 10% mais ricos (que vivem quase todos em países de rendimento
elevado) representam 54% desse mesmo rendimento.
196 América Latina: olhares e perspectivas
recursos. E é preciso acrescentar que mesmo para o “Norte” a estagnação é
indesejável e parece ser impensável a redução dos padrões de desenvolvi-
mento econômico, o que tende a agravar ainda mais a situação.
O poder de transformação permitido pela técnica atual cria uma tal vul-
nerabilidade do meio ambiente, que rompe com a ilusão de uma ética neutra
ligada à tecnologia, pois num mundo de tecnologias de alcance global as
catástrofes locais em bens coletivos (e.g. a atmosfera, a água, o espaço e os
oceanos) adquirem dimensão também global. De fato a questão que parece
estar unindo os temas “estilos de desenvolvimento/crescimento” e “meio
ambiente” tem sido que, apesar da crise que apresenta, o sistema vigente
nas economias desenvolvidas (economia de escala, com grande consumo

ova
de energia e elevada produtividade2) permanece como principal paradigma
para os países em desenvolvimento. Ou seja, apesar do desemprego estrutu-
ral que hoje abala o centro do sistema (e seus degradantes efeitos sociocul-
turais), do alto grau de destruição natural que a Europa atingiu e dos detritos
de atômicos de toxidade elevada e durabilidade semi-infinita que atualmente
se produzem (possibilitando o fornecimento de energia em grande escala e
com preços artificialmente mantidos baixos), ainda não fomos capazes de
superar esse modelo de crescimento econômico.
Sendo assim, debruçar-se sobre um termo como desenvolvimento, abso-
lutamente submerso na matriz cultural ocidental capitalista, nos interroga
sobre se essa conexão é mesmo inerente à noção, ou se podemos pensar
também em termos de um desenvolvimento que reflita outros modos de sa-
tisfazer nossas necessidades materiais, de produzir, distribuir e acumular os
frutos da produção e de reproduzir nossa existência. Ou seja, refletir sobre o
desenvolvimento é refletir também sobre a expansão e globalização de todo
modelo capitalista? Só existe um caminho? Ou só de parte? Ou a transfor-
mação para outro modelo também cabe nessa discussão?

Desenvolvimento
Partindo de uma abordagem biológica, o desenvolvimento ocorre em
um organismo quando ele alcança a maturidade ou, visto por outro ângulo,
quando alguma possibilidade se realiza disse-se que houve desenvolvimen-
2
O que se entende por produtividade varia no tempo e no espaço, ou seja, com
os valores éticos e morais da sociedade com que estamos trabalhando. Hoje em
dia, nas sociedades capitalistas, a noção mais corrente é a relação da quantidade
de bens produzidos em função da quantidade de mão de obra empregada.
América Latina: olhares e perspectivas 197
to. Nesse sentido, o processo de desenvolvimento tem sempre no seu interior
um fim, uma meta a atingir; e para o fazer pressupõe um modo, uma norma
já pré-estabelecida e conhecida. Tomando as palavras de Castoriadis (1980,
p. 191):

Um organismo se desenvolve quando progride até a sua matu-


ridade biológica. (...) desenvolvimento é o processo de realiza-
ção do virtual, da passagem da dynamis a energeia, da potentia
ao actus. Isto implica, evidentemente, que existe uma energeia
e um actus que podem ser determinados, definidos, fixados,
que existe uma norma pertinente a essência do que se desenvol-
ve; (...)neste sentido o desenvolvimento implica na definição

Pro
de uma maturidade, e logo de uma norma natural.

Sendo assim, o desenvolvimento exige transformação, mudança (com um


sinal positivo) em direção a um objetivo. E, em termos de uma abordagem
social, é preciso que a mudança seja em si um valor social aceito para que a
noção de desenvolvimento possa ter alguma aplicação coerente neste vasto
campo. Aqui convém recordar que foi com a religião e a teologia judaico-
-cristã que a ideia de infinito adquiriu esse aspecto positivo, galgando per-
tinência social na medida da ascensão do racionalismo ocidental, levando a
associação do vocábulo “mais” à noção positiva “bem”, chegando-se então
a situação atual, onde o desenvolvimento histórico e social é conotado com
a ação de se desprender de todo estado definido para se atingir um estado
alternativo, que não se define a priori por nada a não ser pela capacidade de
se atingir novos estados e onde o eterno descolar é em si o objetivo.
Uma vez mais lembrando Castoriadis (1980, p. 195), pode-se afirmar que
”desenvolvimento tem vindo a significar um crescimento indefinido e a ma-
turidade a capacidade de crescer sem fim”, e a essas ideias ainda associam-
-se outros postulados:
a onipotência da técnica; a capacidade de crescimento assintótico revela-
da pelo conhecimento científico e pelo domínio sobre a natureza; a raciona-
lidade dos mecanismos econômicos; a crença no mito de que o homem está
predestinado ao progresso, ao crescimento etc.

O conceito de desenvolvimento econômico


O século XX pareceu ter ovacionado o capitalismo enquanto modelo
econômico dominante. E na forma das “crises do progresso” dos anos 30
198 América Latina: olhares e perspectivas
ou da “reconstrução” do pós-guerra, mesmo ao longo do processo final de
descolonização tudo pareceu levar a crer que a opção pela adesão ao cresci-
mento econômico e a assunção de padrões de consumo elevados tinham sido
os principais responsáveis pelas soluções adotadas.
Entretanto, apesar da existência de ilhas de prosperidade em vastas regi-
ões do planeta, a fome persiste e em tais regiões o crescimento econômico se
realiza lentamente, ou não se realiza3. O problema, desde o recrudescimen-
to da guerra fria no pós-guerra e do abandono da teoria colonialista para o
enfoque desenvolvimentista, tem sido diagnosticado, coerentemente, como
de falta de desenvolvimento nessas regiões. A solução proposta tem sido
então estimular o processo de desenvolvimento.

ova
Pode-se dizer que, desde o discurso de posse do presidente americano
Harry Truman em janeiro de 1949, quando ele definiu a maior parte do
mundo como subdesenvolvido e anunciou um plano de ajuda para os países
menos prósperos; o mundo passou a ser dividido na esfera internacional
em países desenvolvidos e subdesenvolvidos, sendo os segundos logo a se-
guir eufemisticamente chamados de países “em vias de desenvolvimento”.
Desde então muitos esforços se concentraram e direcionaram com vistas a
trazer para o modelo socioeconômico ocidental capitalista a grande parcela
do globo ainda subdesenvolvida, tendo sido as diversas instituições multila-
terais criadas no pós-guerra as grandes difusoras de ideias e técnicas para a
superação do subdesenvolvimento.
Assim, desde Truman, a referência ao grau de desenvolvimento ganhou
relevância nas discussões econômicas e sociais ao ser aplicado às socieda-
des humanas em sua dita marcha para a economia de mercado4. Ou seja,

3
Compartilhando o espanto com Dowbor (2012, p.8) “os 4 bilhões de pessoas na
base da pirâmide econômica (Base Of the Pyramid – BOP), todos aqueles cuja
renda é inferior a 3 mil dólares em poder de compra local, vivem em relativa
pobreza. A sua renda em dólares correntes dos EUA é inferior a $3,35 por dia
no Brasil, $2,11 na China, $1,89 no Ghana, e $1,56 na Índia(...) Aparentemente,
a ironia do fato de se qualificar 4 bilhões de pessoas de “segmentos da popula-
ção”, quando se trata de quase dois terços da população mundial, escapou aos
autores do relatório.” e ainda recordando que o autor do referido relatório de
2007 é o IFC - International Finance Corporation, membro do Grupo do Banco
Mundial.
4
De acordo com Myrdal, G. (1977, p. 84) “para os países ocidentais, a maneira
mais fácil de fazer frente à propagando comunista nos países subdesenvolvidos
era abandonar a teoria colonialista tão rápida e completamente quanto possível,
e aceitar a nova teoria”.
América Latina: olhares e perspectivas 199
uma vez realizado o casamento monogâmico da noção de desenvolvimento
com a de economia capitalista conformou-se implicitamente o padrão es-
perado de desenvolvimento econômico. A noção de desenvolvimento eco-
nômico já surgiu então, suficientemente abrangente para expressar, em um
só lance, crescimento (econômico) e modernidade (transformação, relações
capitalistas de produção), tomados etnocentricamente como o binômio do
sucesso cultural.
Mas em sua interpretação mais restrita, desenvolvimento econômico diz
respeito apenas à forma como uma sociedade produzia mais bens, melho-
res e de maneira mais eficiente, referindo-se a meios apenas, deixando os
fins para sua concepção mais abrangente, de cunho expressamente político.

Pro
Porém, de uma forma mais ou menos limitada, como operacionalizar tal
conceito? Como medir os resultados das políticas levadas a cabo? Com que
dados poderiam ser construídas as balizas?

Sistema de Contas Nacional – SCN


A concepção de um sistema de registro das atividades econômicas de
uma nação ganhou consistência teórica a partir do surgimento da macroeco-
nomia keynesiana5, que não só lhe serviu de base na definição dos conceitos
como também passou a demandar a mensuração dos principais agregados
necessários para acompanhar e prever o desempenho econômico das econo-
mias nacionais.
Logo, a Contabilidade Nacional deve ser compreendida recorrendo à no-
ção de registro (contábil) da atividade econômica de um país (transações
econômicas que ocorrem entre diferentes setores e agentes institucionais
que compõem as economias nacionais) em um determinado período de tem-
po (normalmente um ano), obtido através da estimativa das transações ob-
servadas dentro das economias nacionais e entre estas e o resto do mundo.
Ela pode também ser caracterizada como uma técnica que se preocupa com
a definição e os métodos de quantificação dos principais agregados macroe-
conômicos como o Produto Nacional, Consumo, Investimento, Exportações,
Importações, Renda Nacional etc. Ou seja, de uma maneira geral, como uma
forma de mensuração da atividade econômica que sistematiza regras para a
produção e organização de informações sobre a economia em geral.

5
Marcada pela publicação da obra de Keynes, Teoria geral emprego, do juro e da
moeda, em 1936.
200 América Latina: olhares e perspectivas
Cabe lembrar que sua formação foi marcada também pelo contexto do
pós segunda guerra e da já mencionada doutrina Truman, de maneira que sua
operacionalização foi também introduzida no arsenal de instrumentos que
buscavam evidenciar as vantagens econômicas de se estar do lado “certo” na
guerra fria. Ao procurar retratar econômica e socialmente um país permite
análises e o estabelecimento de comparações entre seus desempenhos eco-
nômicos6, centradas na noção de crescimento da produção.
Atualmente a designação de Contabilidade Social tem sido utilizada para
um conjunto de instrumentos que, além de englobar o SCN propriamente
dito, também inclui o Balanço de Pagamentos e as Contas do Sistema Mo-
netário7, além de uma coleção de indicadores de distribuição de renda e de

ova
avaliação do desenvolvimento econômico.
Sendo assim, na medida em tem sido utilizado para indicar as economias
“em desenvolvimento” o padrão esperado de desenvolvimento capitalista,
a construção Produto Nacional Bruto acaba refletindo essa matriz não ape-
nas em termos econômicos, mas também culturalmente (expressando, por
exemplo, seu sistema de valores de mercado) e por isso tem sido alvo de
críticas provenientes tanto de movimentos de caráter reformista, que procu-
ram formas de se agregar a dimensão ambiental à noção de desenvolvimen-
to, como das correntes mais radicais, que procuram formas de mensuração
dessa mesma realidade econômica capazes de espelhar outros sistemas de
valores ou objetivos econômicos para além do crescimento8.
De qualquer forma, mesmo em termos restritos, o conceito de desen-
volvimento econômico não se esgota na medida do crescimento do PIB, do
PNB ou mesmo da renda per capita (aspecto quantitativo). Ele se assenta
também na utilização crescente do progresso técnico, que traz consigo uma
maior complexidade da estrutura produtiva de uma economia (aspecto qua-
litativo), e faz menção à requerida melhoria do padrão de vida da população
e assim, indicadores sociais são normalmente acoplados aos indicadores
meramente econômicos para que se tentem aproximações relativas de me-

6
“Devemos distinguir a linguagem contábil da linguagem de modelo. Um mo-
delo econômico com representação matemática é uma construção teórica que
descreve, através de equações, as relações entre duas ou mais variáveis. (...) Um
modelo contábil trabalha com identidades, que representam matematicamente a
igualdade entre duas ou mais variáveis, que são iguais por definição, sem esta-
belecer relações de causalidade.” (FEIJÓ et al, 2003, p.6).
7
Ver Paulani e Braga, 2003.
8
Essa questão é explorada a seguir.
América Latina: olhares e perspectivas 201
didas de desenvolvimento. Mas afinal, o que os indicadores são capazes de
expressar?

Uma rápida reflexão sobre indicadores em geral


Indicadores são construídos justamente para refletir o comportamento de
alguma coisa em relação àquilo que foi eleito como padrão esperado, va-
lorizado, digno. Enquanto uma construção sintética, retém apenas o que se
considera essencial de uma dada situação:

É uma informação processada que deve gerar uma ideia clara e


acessível sobre um fenômeno complexo, sua evolução, e sobre

Pro
quanto ele difere de uma situação desejada. Pode ter um caráter
quantitativo ou qualitativo, embora, tradicionalmente, se recor-
ra a elaborações do primeiro tipo. Um indicador representa, as-
sim, um sinal que evidencia movimentos que podem conformar
uma tendência ou apenas movimentos variados aleatórios. Ou
seja, possibilita simplificar, medir (ou comparar) e comunicar
informação, representando um conjunto de dados no tempo de
forma a disponibilizar a visualização de mudanças geradas pelo
comportamento dos agentes ou dos sistemas. (Wautiez et al,
2003, p. 177)

Sendo assim, escolher ou desenhar indicadores não é uma questão pu-


ramente técnica, é um campo de disputa política, de análise filosófica. E,
embora sua elaboração possa exigir técnicas que podem ser até bastante
sofisticadas, nunca saem do campo normativo, refletindo o ponto de vista de
seus idealizadores. Enquanto instrumentos de medida são sempre limitados
e limitadores, ora porque refletem aspectos parciais de uma realidade social
complexa, ora porque procuram expressar situações incomensuráveis. Tam-
bém são utilizados para realizar o monitoramento e a simplificação de me-
canismos e lógicas inerentes ao tema observado, informando e orientando a
tomada de decisão.

Elementos para a construção de um indicador


A elaboração de um indicador procede sempre de indagações do tipo
sobre o quê, para quê, como, e para quem estamos analisando os “dados”,
de forma a se estruturar uma série de valores (comparações de estado) capa-
zes de indicar por aproximação, semelhança ou analogia uma determinada
situação.
202 América Latina: olhares e perspectivas
Normalmente, em função de alguma paternidade teórica, se escolhem as
variáveis consideradas pertinentes para serem acompanhadas. A facilidade
de obtenção dos dados sobre ela e sua aferição mais ou menos direta tam-
bém, podem influenciar a sua seleção ou não. Em que medida a metodologia
privilegia informações de cunho quantitativo ou qualitativo comumente está
mais diretamente relacionado com os pontos de vista dos técnicos, que com
o quesito “facilidade de obtenção”, já que ambos os tipos de qualificação dos
dados podem se mostrar refratários os processos de “medição”9.
Paulatinamente se vai conformando a informação, os “dados” à aborda-
gem perfilada pelos autores do exercício; já que um indicador pode incor-
porar diversas racionalidades (a eficiência, por exemplo, pode ser associa-

ova
da a vários critérios). Opções que, aparentemente, facilitam a obtenção de
resultados, podem acabar dificultando sua posterior análise (trabalhar com
valores médios muitas vezes impede que se percebam diferenças internas
relevantes, alguns processos de normatização de séries acabam “normati-
zando” os fatos também...).
Um indicador pode ainda ser construído através de um longo processo
de agregação de informações ponderadas, formando índices e pode ser re-
presentado em forma de dados, gráficos, mapas, figuras, diagramas ou des-
crição.

Um pouco mais sobre o indicador econômico mais popular, o PIB


O indicador econômico mais amplamente divulgado e utilizado, confor-
me já referido é o Produto Interno Bruto, PIB. Ocorrendo uma variação
positiva no valor de seu fluxo, de um ano para o outro, ela é interpretada
como “crescimento econômico”. Tal perspectiva é reflexo da noção de que
havendo uma produção maior (referenciando-se, evidentemente também a
um maior rendimento nacional), toda a população teve também um maior
acesso ao consumo o que, por sua vez, se associa a um maior bem estar
e, possivelmente, a uma elevação da produtividade (no caso do PIB per
capita). E sua ampla cobertura pela mídia contribuiu para que as noções
de crescimento econômico e progresso sejam, popularmente, consideradas
sinônimas apesar das críticas levantadas por parcela significativa dos pes-
quisadores do desenvolvimento e ainda por alguns movimentos sociais.

9
Para alguns economistas o reconhecimento da incomensurabilidade econômica
aponta para a necessidade de se incorporar formas não monetárias de avaliação da
própria realidade econômica, através de indicadores socioculturais e biofísicos.
América Latina: olhares e perspectivas 203
Essencialmente as críticas dizem respeito à que o cálculo do PIB não se
preocupa com a origem dos fluxos monetários que soma, de forma que mes-
mo os dispêndios associados ao aumento dos acidentes ou doenças, à multi-
plicação das contaminações e mesmo os derivados diretamente do consumo
ou destruição do meio ambiente são contabilizados positivamente, estando
assim irmanados ao “crescimento econômico”; ao mesmo tempo em que seu
cálculo não leva em conta qualquer riqueza criada que não tenha expressão
monetária. Mas aqui cumpre lembrar que sua formulação veio de encontro a
necessidade de quantificar exatamente uma noção de desenvolvimento estri-
tamente ligada ao paradigma capitalista.
Lembrando Naredo (1996, p. xxiii ):

Pro
Se por um lado o formalismo matemático ajuda a assegurar
o rigor do raciocínio, por outro ajuda a se perder de vista o
significado dos conceitos correspondentes que vinculam esse
mesmo raciocínio ao mundo real. Logo, quando as bases con-
ceituais são ambíguas, acabam trazendo mais confusão que a
originada no linguajar vulgar.

Daqui depreendemos que procurar elucidar o conceito, modelo ou padrão


que se pretende medir, julgar e valorizar é de fundamental importância para
não se deixar cair em armadilhas ideológicas, ao invés de se construir ins-
trumentos que permitam a análise dos fenômenos sociais.

Desenvolvimento, noções agregadas e indicadores associados


Na sequência das observações anteriores é importante sublinhar que
por mais estreita que seja a percepção da noção que se abrace, como já
comentado anteriormente, o conceito de desenvolvimento econômico não se
esgota na medida do crescimento do produto. Mas que ideias escoltarão a es-
colha desses indicadores complementares? Procurando espelhar que padrão
de consumo, que perspectiva de “desenvolvimento”?

Desenvolvimento e crescimento, em uníssono


Quando, no meio da discussão normalmente bastante ideologizada sobre
o desenvolvimento, se indaga pela meta de progresso durante o processo,
por vezes parece que os fins são ultrapassados pelos meios. De fato, o ob-
jetivo da ação de desenvolvimento, que parece ser a perpetuação do mode-
lo social ocidental/capitalista, vê na abordagem economicista, mas afinada
204 América Latina: olhares e perspectivas
com a noção de crescimento da produção, a funcionalidade de levar o debate
no sentido dos instrumentos, submergindo quase por completo a discussão
ética e política sobre os fins.
Um bom exemplo dessa abordagem conservadora, tributária da noção
de crescimento, pode ser observado no esquema etapista de Rostow10, que
pressupõe que todas as sociedades têm a percorrer a mesma trilha econômi-
ca, onde é só uma questão de se arrancar com a dinâmica do desenvolvimen-
to para que, em algum dia no futuro, todas as elas possam vir a encontra-
rem-se no mesmo patamar. Nota-se que mesmo levando em conta um certo
aspecto qualitativo, na medida em que valoriza a incorporação do progresso
técnico, em tal perspectiva prevalece a ideia de crescimento sobre todo o

ova
resto da noção.
Entretanto cabem aqui também posicionamentos não tão conservadores,
mas igualmente subordinados à lógica do crescimento, como alguns desenvol-
vidos pelos pesquisadores da CEPAL (Comissão Econômica para a América
Latina e o Caribe), como deixa antever a afirmação de Prebisch (1973, p. 5):

O econômico não contradiz necessariamente o social, mas


quando se cresce pouco, quase sempre se distribui mal. A prá-
tica da equidade social requer um vigoroso ritmo de desenvol-
vimento, além da arte política da distribuição, já por si muito
delicada.

E, de fato a utilização do valor de acréscimo ao PIB de um ano para o


outro (total e per capita) como o principal indicador capaz de informar sobre
o desenvolvimento de uma nação corrobora essa ideia. Embora seja de se
ressaltar que mesmo nessa perspectiva restrita se procuram refinamentos do
próprio indicador, ou seja, a composição do produto é escrutinada com vista
10 Rostow defende a tese de que as sociedades atravessam cinco etapas de evolu-
ção econômica: 1) a etapa da economia tradicional, marcada pela existência de
um “teto” de produtividade determinado pelo não acesso regular as potenciali-
dades da tecnologia moderna; 2) as pré-condições para a arrancada desenvol-
vimentista, quando se avançam modificações eu facilitam o desenvolvimento
econômico e a velha e a nova noção convivem; 3) a participação no processo
de desenvolvimento, a arrancada (take off), quando o crescimento se torna um
dado normal do quadro econômico e os agentes ligados ao passado são remo-
vidos; 4) a idade madura, quando uma economia está em condições de utilizar
todas as potencialidades da tecnologia disponível; 5) a etapa do consumo de
massa, de desenvolvimento pleno, com grande parte da população atingindo o
sobre consumo e com grande parte da mão de obra passando para o setor terci-
ário. Rostow, W. W. (1994).
América Latina: olhares e perspectivas 205
à participação da indústria (que é apresentada como motor do processo) em
relação às outras produções (a agropecuária e a extração mineral, especial-
mente), interpretando-se uma maior participação da indústria em relação à
agricultura como positivamente relacionada ao progresso. Também a dis-
tribuição de renda não é de todo esquecida, sendo associada a esse tipo de
abordagem a aplicação do índice de Gini à distribuição da renda como forma
de se apurar essa situação em termos internos à cada economia nacional;
embora com esperança de que com o crescimento do PIB após a industriali-
zação, naturalmente essa mesma distribuição apresente melhoras.
Porém o que se tem vislumbrado como resultado das décadas de esforço
em direção ao desenvolvimento (enquanto centrado no crescimento) tem

Pro
sido ambíguo e de difícil interpretação. Se por um lado, segundo Furtado
(1974, p. 75), a ideia de desenvolver tem sido útil para:

(...) mobilizar os povos da periferia e levá-los a aceitar enormes


sacrifícios, para legitimar a destruição de formas de cultura ar-
caicas, para explicar e fazer compreender a necessidade de des-
truir o meio físico, para justificar novas formas de dependência
que reforçam o caráter predatório do sistema produtivo.

Por outro lado, o processo de globalização da economia a que se está as-


sistindo pode ser visto como um aspecto concretizado do projeto desenvol-
vimentista, na medida em que restam pouquíssimas economias totalmente
refratárias à capitalista. Assiste-se, assim, ao apogeu de um projeto que se
iniciou com a promessa do desenvolvimento e o progresso material enquan-
to fórmula de manutenção dos países menos favorecidos na esfera de influ-
ência capitalista11. No entanto, em muitos lugares o que se vê são sociedades
modernizadas, na medida em que abandonaram formas tradicionais de viver
e produzir, mas nem sempre se integraram de forma satisfatória ao sistema.

Desenvolvimento e modernização, um movimento de polifonia.


Nesse momento parece ser relevante abrir um espaço para abordar a no-
ção de modernização, de uma forma ampla e não apenas no contexto das
teorias sobre modernização e crescimento da década de 5012.
11 Recordando-se que foi somente a partir da guerra fria que se gerou um pensa-
mento global sobre a ideia de desenvolvimento.
12 Herdeiras privilegiadas do pensamento de Lewis, criador do modelo teórico de
desenvolvimento “dualista”, focado na transformação estrutural de uma econo-
206 América Latina: olhares e perspectivas
Por um lado a modernização13 pode ser associada a um processo mais
amplo que o crescimento econômico puro, onde a capacidade social de ab-
sorção desse próprio crescimento é que é alcançada, podendo ser resumida
em um maior grau de diferenciação e mobilidade social.
No nível econômico, pode ser associada à consequente especialização
das atividades econômicas e das ocupações profissionais, com o desenvol-
vimento de unidades de produção voltadas para o mercado e a expansão do
raio de ação e da complexidade dos mercados principais (de trabalho, de
bens e financeiro).
Na esfera da organização social, a modernização gera uma nova organi-
zação social baseada na urbanização com conglomerados de cidades pondo

ova
fim às “tribos” e reduzindo o peso político das regiões. A própria esfera
política se individualiza e o poder político potencial de grupos mais amplos
da sociedade se eleva até atingir todos os cidadãos adultos. O processo de
diferenciação dos sistemas culturais e de valores (entre religião, filosofia
e ideologia) também pode ser visto como outra faceta da modernização,
onde a expansão dos meios de comunicação propicia alterações contínuas e
a capacidade da sociedade absorver transformações além de suas próprias
premissas institucionais. Ou seja, a ideia de que a estratificação e a orga-
nização social podem se expandir e se diferenciar a ponto de reduzir para
um mínimo as tendências monopolistas, conservadoras e assignativas dos
poderosos, ricos e prestigiados; por vezes pode estar subjacente à utilização
do conceito. Porém, para que tal seja atingido, é necessário elevar-se a um
tão elevado grau a mobilidade social que a “modernidade real” não parece
disposta a permitir.
É verdade que a expansão e diferenciação dos critérios de status (rique-
za, poder e prestígio) também teriam de ocorrer em uma escala bem ampla
para que tal mobilidade pudesse se efetuar, de forma a não criar apenas mais
despossuídos e novos tipos de pobreza. Entretanto o que se tem observa-
do, de fato, é o surgimento de novos tipos de exclusão econômica, além da

mia não desenvolvida caracterizada, segundo ele, por dois setores. Resumida-
mente, o modelo apresenta um setor de subsistência primário, tradicional e com
excedente de mão de obra (onde a produtividade marginal do trabalho é igual
a zero) e outro industrializado, moderno, com alta produtividade do trabalho,
para onde o trabalho do primeiro setor deve ser gradualmente transferido; sen-
do a velocidade dessa expansão função da taxa de investimento industrial e de
acumulação de capital no setor moderno. Lewis, W. A. (1994).
13 Ver Eisenstad, S. N. (1970).
América Latina: olhares e perspectivas 207
manutenção dos mais antigos, sem contar a permanência do apelo à dife-
renciação social (com origens cada vez mais “variadas”). E nesse sentido,
da modernização pode-se dizer que se a transformação dos valores e/ou da
ideologia de uma sociedade tradicional facilita e reforça a tendência à fle-
xibilidade do status, também instabiliza as bases de convívio “harmônico”
entre os grupos.
A partir dessa perspectiva – das quais algumas abordagens desenvolvidas
pela CEPAL também são muito próximas – se delineia uma noção de de-
senvolvimento mais alargada, abrangendo esferas de análise anteriormente
expurgadas da análise econômica convencional, embora o enfoque perma-
neça ainda bastante ligado à necessidade de crescimento da produção e da

Pro
passagem pela industrialização. Aqui é o reflexo em termos sociais e cultu-
rais desse movimento econômico que se está procurando “medir” através da
incorporação de novos indicadores.
Quanto mais a noção de desenvolvimento se amplia (para contemplar a
de modernização), mais o indicador por excelência do crescimento/desen-
volvimento se mostra frágil para retratar o processo. Mesmo o PIB sendo
observado cada vez mais detalhadamente (dividido por setores de ativida-
de, regionalizado, a versão “renda” distribuída por percentis da população
etc.) ele se mostra insuficiente. Para as análises dessa filiação é necessário
cada vez mais acrescentar outros indicadores econômicos, como o já citado
índice de Gini, a análise da composição técnica das exportações, a taxa de
produtividade, o nível de emprego e ainda outros. Reconhece-se, ainda após
essa expansão em termos de quantidade de indicadores econômicos referen-
ciados, que é preciso ir além e observar como o crescimento econômico ope-
ra (ou não) transformações nas condições de vida das populações para que
se possa se referir ao desenvolvimento/modernização em sentido completo.
O auge desse movimento de dilatação pode ser sentido até meados dos
anos 80, quando cada vez mais indicadores são acrescentados à “cesta” de
indicadores que cada instituto/pesquisador/corrente acredita estar refletindo
os padrões do adjetivo acrescentado à noção de desenvolvimento que está
em avaliação. E esses adjetivos são muitos e variados. É a fase da polifo-
nia14, dos múltiplos adjetivos para “esclarecer” sobre o conteúdo, sobre o
padrão esperado para o desenvolvimento econômico em questão.

14 Desenvolvimento econômico e social, desenvolvimento socioeconômico, de-


senvolvimento social, econômico e cultural, desenvolvimento econômico e po-
lítico e etc.
208 América Latina: olhares e perspectivas
Os ingredientes que mais abundam nessas cestas são indicadores ligados
ao acompanhamento dos padrões de educação15 e de saúde e saneamento.
Alguns também se referem às condições estruturais, como transportes e vias
de acesso além das condições de comunicação. Outros acrescentam mais
indicadores sociais referentes à mobilidade social, perfil cultural ou opções
de lazer.
Na maioria dos casos esses indicadores são delineados também com a
esperança de fornecer ao poder público as informações necessárias para que
ele, com base nos seus objetivos econômicos e sociais planeje as ações re-
queridas para efetivar sua política de promoção do desenvolvimento. Nesse
sentido, conseguir incluir alguma nova dimensão na “cesta” que o governo

ova
utiliza é também estar influenciando no próprio padrão que permitirá seu
posterior monitoramento (através da melhoria de desempenho esperada), daí
a discussão sobre o próprio estilo de desenvolvimento desejado/esperado
ter, em parte, tomado o rumo da elaboração e divulgação de indicadores,
enquanto estratégia política (além da necessidade técnica).

Desenvolvimento e meio ambiente, um retorno à monofonia


No encalço dessa ação de cunho mais político/estratégico, na última me-
tade dos anos 1980, após a reviravolta conservadora, uma nova tendência
pareceu dominar a produção de indicadores referentes à noção de desen-
volvimento. Para compreender como ela conseguiu se impor é preciso re-
cuar no tempo, até década anterior, quando os elevados níveis de consumo
dos recursos naturais que o modelo capitalista exige pareceram estar sendo
postos em xeque, em função de uma previsível crise de escassez caso esse
mesmo padrão fosse estendido para todas as economias aspirantes a uma
situação confortável em termos de consumo (justamente aquelas que res-
ponderam positivamente ao chamado de alinhamento norte-americano du-
rante a guerra fria e que agora também necessitavam desses recursos com
mais intensidade).

15 Um reflexo dessa fase no caso brasileiro é a busca de resultados imediatistas,


via programas como o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização) ou
mesmo a expansão do ensino superior via multiplicação das universidades fede-
rais paralelamente ao incentivo às faculdades privadas, fruto da perspectiva de
preparação do “capital humano” nacional expressa nos acordos MEC/USAID,
que procura mudar a face do país, tradicionalmente associado à baixa escolari-
dade e pouca especialização (e consequente produtividade) da mão de obra.
América Latina: olhares e perspectivas 209
É esse tipo de preocupação que espelha o clássico relatório do Clube de
Roma, Limites do Crescimento16, e que as crises do petróleo de 1973 e 1979
vieram reforçar; ao mesmo tempo em que o meio ambiente começa a dar
sinais de esgotamento em relação à sua capacidade de assimilar os dejetos
do crescimento. De fato o mérito de chamar a atenção para que as forças
produtivas modernas podem se transformar em forças destrutivas partiu do
próprio coração do sistema produtivo capitalista que, alertado principalmen-
te pelas crises do petróleo (e por ativistas ecológicos), admitiu que os recur-
sos naturais não renováveis são bens finitos e, portanto, precisam ser usados
de forma administrada.
A possível crise de escassez forneceu o contexto e a reviravolta política

Pro
conservadora abriu as portas das instituições multilaterais para uma abor-
dagem novamente mais unificada em torno da noção de desenvolvimento,
trazendo um discurso tendente à monofonia. Dessa vez não foi o crescimen-
to que deu o tom geral, mas sim a preocupação com o meio ambiente. Foi
essa a necessidade içada à condição de “universalmente” percebida e, dessa
forma capacitada a mobilizar mentes (e corações) em torno do urgente ajuste
das metas de desenvolvimento com a extenuada capacidade de suporte do
planeta.
Partindo-se desse diálogo e seguindo um ponto de vista cronológico po-
demos dizer que diversas abordagens foram surgindo, como o desenvolvi-
mentismo, a ecologia profunda (zeristas e ecologistas puros) e o protecio-
nismo ambiental; além da gestão de recursos e o ecodesenvolvimento, já
bastante mais próximos da atual noção de desenvolvimento sustentável17.
Apesar de denotarem diferentes períodos de tempo, atualmente todas elas
ainda têm seguidores embora algumas sigam enriquecendo suas considera-
ções enquanto outras veem seu progresso analítico estancar.

O consenso possível
A noção de desenvolvimento sustentável e a subsequente de desenvolvi-
mento humano são conceitos delineados ao longo das discussões que bus-
cavam uma reposição do consenso político, mais que técnico, em termos do

16 MEADOWS, D. H. et al (1972).
17 Essa é apenas uma dentre muitas formas de se classificar as diferentes correntes
nascidas entre as décadas de 70 e 90 do século passado que pela escassez de
espaço e pelo foco do trabalho, terão suas particularidades examinadas em outra
oportunidade.
210 América Latina: olhares e perspectivas
conteúdo da noção de desenvolvimento econômico, depois de duas décadas
de tensão e desacordos sobre qual modelo de sociedade, afinal, o desenvol-
vimento deveria se debruçar. Porém, não se deve esquecer que foi funda-
mental para a retomada da discussão nesses termos, a obtenção de hegemo-
nia pela economia liberal na década de 80 em países centrais do sistema.

O desenvolvimento sustentável
Desenvolvimento sustentável é uma noção que teve como marco de “fun-
dação” a definição desenvolvida pela Comissão Mundial sobre o Meio Am-
biente e Desenvolvimento (WCED) no documento Nosso Futuro Comum,
e que posteriormente foi também assumida por diversas agências interna-

ova
cionais (como PNUMA, UICN, WWF, Banco Mundial, Agência Americana
para o Desenvolvimento Internacional da Suécia e do Canadá, organismos
de pesquisa e fomento como Word Resources Institute, o International Ins-
titute for Environmental and Development, o Wordwatch Institute e grupos
ativistas):“(...) desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que satis-
faz as necessidades do presente sem comprometer as habilidades das futuras
gerações de satisfazerem suas necessidades”.
Mais propriamente, e citando Martínez Alier (1994, p.89) “...aqueles que
com grande êxito introduziram a expressão Sustainable Developement na
política internacional, a IUCN (International Union for the Consevation of
Nature) e depois a Comissão Brundtland das Nações Unidas, queriam com-
binar conscientemente essas duas ideias: desenvolvimento econômico e ca-
pacidade de sustentação”. Ou nas palavras de Jeffrey McNeely, da IUCN:

A conservação da natureza talvez seja uma pré-condição do


crescimento econômico, já que o consumo futuro depende em
grande medida do estoque de capital natural. A conservação
é sem nenhuma dúvida uma pré-condição do desenvolvimen-
to sustentável, que une o conceito ecológico de capacidade de
sustentação (carrying capacity), com os conceitos econômicos
de crescimento e desenvolvimento. (McNeely, 1988, p. 20)

Da mesma forma que qualquer outro derivado da noção de desenvolvi-


mento, desenvolvimento sustentável é um conceito normativo, e como tal
possui um objetivo bem mais definido e facilmente identificável do que pro-
priamente uma consistência intrínseca. E o acoplamento da noção de susten-
tabilidade ao conceito trouxe ainda um maior grau de subjetividade. Mas o
América Latina: olhares e perspectivas 211
fundamental parece ter sido alcançado, pois tem sido sobre esse slogan que
o consenso se tem constituído, mas quando nos aprofundamos um pouco
mais na questão, as diferentes interpretações se instalam.
Em termos conceituais quando um “zerista” está falando de desenvolvi-
mento sustentável, na verdade não está incluindo o crescimento econômico
nas suas premissas. Quando um “neoestruturalista” ou mesmo um “neoe-
codesenvolvimentista” está se referindo ao mesmo ponto, não só receita o
crescimento econômico como também se refere à necessidade da presença
reguladora do estado nos assuntos em pauta. Para um “neoliberal sustenta-
bilista” o crescimento é indispensável, mas o governo não o é, antes pelo
contrário, deve reduzir a sua interferência nesta matéria e deixar para o mer-

Pro
cado a solução da questão. Ou seja, quando aprofundamos um pouco mais a
discussão, as incoerências logo aparecem. Assim, o consenso que se acaba
por criar é em torno de um vazio conceitual e teórico, embora confortavel-
mente manipulado politicamente.
Nesse contexto termos frequentemente utilizados demonstram essa falta
de profundidade como, por exemplo, quando se referem a fetiches geográ-
ficos e sociais (Norte X Sul, Ricos X Pobres etc.). Tal artimanha em nada
facilita o entendimento dos fenômenos e muito menos põe em evidência a
raiz política e econômica dessas categorias. Ou seja, por mais que as velhas
teorias tivessem fraquezas (e o tinham de fato), elas traziam subjacentes a
vontade de compreender e resolver a questão do desenvolvimento humano,
social e econômico. Enquanto que se os teóricos do desenvolvimento sus-
tentável não forem capazes de dar uma maior densidade e coerência à teoria,
ela corre o sério risco de não superar a situação de um discurso voluntarista
e moralista na qual está submersa.
Entretanto, em termos operacionais, a busca de indicadores de desen-
volvimento que incorporem alguns aspectos relacionados com a qualidade
de vida e do ambiente e que também respeitem as características regionais
que por vezes os sistemas econômicos/sociais exibem tem sido recorrente.
E, nesse aspecto a predominância de paternidade da abordagem da gestão
de recursos em detrimento das outras é bastante evidente, tendo as questões
ligadas as chamadas “contas nacionais verde” recebido sério investimento
por parte da ONU, que em seu novo modelo de contas nacionais, agora
denominado de Sistema de Contabilidade Social, já incorpora contas de es-
toque de recursos naturais, além de indicar um conjunto de contas satélites
de cunho “ambiental”.
212 América Latina: olhares e perspectivas
Seguindo no afã da construção de indicadores capazes de dar conta de
um conceito tão pouco claro como o do desenvolvimento sustentável, um
resultado inicial e não desejado foi a proliferação de “cestas” de indicadores.
Disputando a interpretação do conceito diversos IDS (Indicador de Desen-
volvimento Sustentável) foram criados mundo afora18, e nenhum conseguiu
se impor.
Também surgiram indicadores centrados na noção de sustentabilidade
de uma região (e não tanto o seu “crescimento”), como a noção de Espa-
ço Ambiental ou Pegada Ecológica, que remete a quantidade de recursos
utilizados por uma determinada população expressa em termos espaciais,
de forma a avaliar o quanto uma determinada cidade ou região depende do

ova
resto do mundo em termos da dimensão da capacidade de carga que apropria
do entorno para a sua sustentação. Ou seja, a pergunta sobre a capacidade de
carga foi redirecionada para se avaliar qual a área necessária para sustentar
indefinidamente uma dada população com determinado nível de vida e certo
padrão tecnológico.
Mas os organismos multilaterais não desistiram da busca por um indi-
cador e/ou conceito capaz de reunificar os desejos de progresso do mundo
capitalista.

O enfoque ajustado do desenvolvimento humano sustentável.


Em 1991 surge o “Informe de Haia” um dos esforços mais representativos
na sequência do relatório “Nosso Futuro Comum” no sentido da unificação
do discurso acerca do desenvolvimento sustentável, fruto da reunião de 40
pensadores mundiais, patrocinado pela ONU. O informe começa indicando
que o objetivo do desenvolvimento é aumentar as opções das pessoas, e que
esse objetivo deve ser garantido também para as gerações futuras e, por
conseguinte, determina que o desenvolvimento deve ser “sustentável”. No
documento são propostas seis mensagens básicas de política e um programa
de ação com 10 pontos19 onde se enuncia a denominação que reflete o mais

18 Como o IDS-Indicadores de Desenvolvimento Sustentável da CSD, Commis-


sion on Sustainable Development, da ONU que em 2007 na sua terceira edição,
contemplou dezenas de indicadores divididos em mais de dez dimensões.
19 1)Devem dotar-se os recursos ecológicos de um preço correto de maneira a
refletir o seu valor de escassez; 2)Em algumas esferas ambientais talvez seja
necessário introduzir quotas e auditorias obrigatórias; 3)Deve se estabelecer
um marco geral para estimular o uso de tecnologias ambientalmente seguras
no desenvolvimento futuro; 4)Deve se reforçar a capacidade própria dos países
América Latina: olhares e perspectivas 213
recente e bem sucedido esforço de construção de um indicador capaz de
sintetizar o padrão esperado para o desenvolvimento: a noção de desenvol-
vimento humano sustentável, expressa um ano antes pelo recém-criado IDH
– Índice de Desenvolvimento Humano, elaborado pela ONU.
Segundo o próprio organismo internacional:

O conceito de Desenvolvimento Humano é a base do Relatório


de Desenvolvimento Humano (RDH), publicado anualmente,
e também do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Ele
parte do pressuposto de que para aferir o avanço de uma popu-
lação não se deve considerar apenas a dimensão econômica,
mas também outras características sociais, culturais e políticas

Pro
que influenciam a qualidade da vida humana.

Desde o início da publicação do indicador, em 1990, o consenso arti-


culado com afinco foi cada vez mais aparecendo em torno da aceitação de
seu ranking como expressão do desenvolvimento, independente do adjetivo
adicionado à expressão. Por um lado sua ampla utilização tem representado
um grande recuo em relação às posturas que buscavam questionar o padrão
capitalista de desenvolvimento através da ampliação do escopo do próprio
conceito e, em decorrência, do recurso a uma multiplicidade de indicadores.
E por outro a estratégia da construção de indicadores foi dominada pelo dis-
curso das grandes instituições fornecedoras de estatísticas, mais que nunca
concentradas na construção de um indicador síntese.
em desenvolvimento para porem em prática políticas e programas de desenvol-
vimento sustentável; 5)Devem se reunir recurso financeiros importantes tanto
para o meio ambiente como para o desenvolvimento por meio de acordos inter-
nacionais pragmáticos; 6)Devem se estabelecer marcos institucionais mundiais
para prestar assistência à formulação de programas nacionais de desenvolvi-
mento sustentável e para financiá-los; 7)Em algumas esferas existe a necessi-
dade urgente de formular políticas ambientais mundiais, em particular na ener-
gia, na agricultura, na população, nas florestas tropicais úmidas, no clima, no
comércio internacional e na transferência de tecnologia; 8)Deve ser estimulado
em todos os países o preparo de cálculos de renda nacional ambientalmente
sensíveis (“PNB verde”) de maneira a refletir os efeitos dos danos ambientais
sobre o produto nacional e mundial todos os anos; 9)Deve propor-se um calen-
dário de três anos para a formulação de estratégias de desenvolvimento humano
sustentável tanto para países em desenvolvimento como para países desenvol-
vidos, que devem ser coordenados e vigiados à escala mundial; 10)Deve criar-
-se dentro das Nações Unidas um Conselho de Segurança do Desenvolvimento
encarregado de formular e aplicar um marco político para conceitos novos de
“segurança centrada nas pessoas” e justiça humana, incluídas a segurança eco-
lógica e a segurança econômica. (CNUMAD/PNUD,1992).
214 América Latina: olhares e perspectivas
Segundo o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvi-
mento, o IDH sintetiza o nível de sucesso atingido pela sociedade no aten-
dimento a três necessidades básicas e universais do ser humano: acesso ao
conhecimento (dimensão educação); direito a uma vida longa e saudável
(dimensão longevidade) e direito a um padrão de vida digno (dimensão ren-
da) e para a sua construção são necessárias várias escolhas: indicadores para
traduzir as três necessidades básicas definidas, parâmetros para a normali-
zação dos indicadores e atribuição de pesos aos indicadores e dimensões.
Cabe aqui ressaltar como a descrição de cada necessidade básica a ser
atendida é potencialmente rica em termos conceituais (e vanguardista) e si-
multânea e desproporcionalmente pobre em termos dos indicadores eleitos

ova
(bastante convencionais). O escopo de abrangência ficou cingido ao valor
da produção, à quantidade de educação (em anos) e também à “quantidade”
de saúde através do cálculo da expectativa de vida ao nascer, sem nenhuma
indicação sobre a qualidade em um ou outro caso.
Especificamente na dimensão “padrão de vida digno”, além de continuar
a se expressar a vida como associada ao consumo que pode ser obtido ex-
clusivamente no mercado, ao ser medida pela variação da produção/renda
média, também sequer leva em consideração a qualidade do seu modelo de
distribuição, mesmo quando a renda é suposta dar conta do acesso à todas
as outras dimensões admitidas como relevantes, mas não contempladas (in-
clusive a ambiental).
De fato indicadores e pesos têm vindo a ser modificados ao longo dos
anos mas o “espírito” do índice tem se mantido inalterado. Apesar da re-
cente inclusão da noção desigualdade, através do IDH-D (IDH Ajustado à
desigualdade)20, lançado no Relatório de 2010 e continuado em 2011, o sen-
tido produtivista do índice não foi alterado. Embora os louvores sigam cada
vez mais entusiasmados, como demonstra a seguinte expressão colhida no
sítio do PNUD no corrente ano: “Lo innovador del IDH fue la creación de
una estadística única que serviría como marco de referencia tanto para el
desarrollo social como para el econômico.”21
Também não deixa de saltar aos olhos que, ano após ano, o Relatório
produzido pelo PNUD, no qual se apresenta o ranking dos valores do IDH
em termos mundiais; contenha diversos outros indicadores e nenhum deles
seja contemplado com a mesma continuidade ou divulgação.

20 Segundo o Relatório sobre o Desenvolvimento Humano de 2011, a desigualda-


de provoca uma perda média de 23% no valor do IDH.
21 Recolhido em: http://hdr.undp.org/es/estadisticas/idh/
América Latina: olhares e perspectivas 215
Conclusão
Muito mais críticas ainda poderiam ser feitas ao IDH, tanto de cunho
técnico (por misturar grandezas de fluxo e de estoque em um mesmo ín-
dice etc...) como de uma perspectiva mais conceitual (aprofundando, por
exemplo, o questionamento sobre a consistência entre a amplitude das pro-
messas espelhadas no enunciado e sua sumítica transposição em termos de
indicadores ou mesmo em relação à quantidade de dimensões abordadas), e
ponderações também poderiam ser estendidas à qualquer outro dos indica-
dores comentados ao longo do trabalho, mas não é esse o foco da questão
aqui levantada.
O que chama à atenção é o fato de que após décadas de polêmica, voltou-

Pro
se a ter o debate siderado por apenas um indicador (novamente focado na
variação da produção22) exclusivamente quantitativo. Ao menos quando se
utilizava exclusivamente o PIB sua afinidade com a abordagem etapista e
quantitativista do crescimento era explícita. Se, atualmente a proposta con-
ceitual hegemônica é medir nada menos que o desenvolvimento humano sus-
tentável e a resposta (tecnicamente falando) em termos de indicador continua
tímida, irrisória até, em termos políticos ela foi contundente. Aqui parece que
o apelo (conceitualmente falando) ao valor universalista de sobrevivência da
espécie, embora não transportado quantitativamente para respectivo indica-
dor, foi suficiente para ofuscar as divergências em torno do conteúdo.
É significativo que o mesmo fenômeno, agora com a determinação
trocada, vai se espalhando pelo sistema de contas nacionais. Afinal ele foi
pensado para responder as necessidades de se retratar (quantificadamente)
uma economia, e não para apresentar um veredicto à cerca de sua
viabilidade, da qualidade de vida que essa produção “fornece” ou qualquer
outro julgamento sobre a “correção”, sustentabilidade ou outra característica
do sistema econômico. No entanto, é isso que as críticas resultantes nas
últimas alterações propostas pela ONU (com vistas a dar conta da noção de
sustentabilidade) têm exigido do sistema: que ele indique em que etapa o
país está no caminho do desenvolvimento sustentável, em detrimento de sua
consistência inicial.
Retoma-se então a indagação inicial: será que o desenvolvimento econô-
mico corresponde apenas a um caminho “normal”? Pelo grau de disputa em
torno da noção (explorado de forma não exaustiva ao logo trabalho), apesar

22 Mesmo a forma de “medir” a educação expressa essa perspectiva produtivista,


com sua régua voltada para a quantidade de educação prestada.
216 América Latina: olhares e perspectivas
do clima superficialmente de consenso promovido pelo discurso do desen-
volvimento sustentável, parece que a resposta é claramente não.
E se é assim, as celeumas em torno dos indicadores devem ser analisadas
sempre não só pela via técnica, mas também pela conceitual. Ou seja, não
se pode perder de vista a necessidade dos indicadores estarem consisten-
tes com a perspectiva que o conceito “específico” de desenvolvimento em
questão está se propondo julgar. Não basta apontar para o desenvolvimento
econômico, é preciso inicialmente explicitar a que padrão de vida ele deve
corresponder, que valores ele espelha, enfim, o que ele entende por qualida-
de de vida; posto que ele é sempre um conceito interdependente (ou resulta-
do da integração) do andamento de outras esferas da vida social.

ova
Nesse sentido, indicadores podem e devem ser utilizados não só para in-
formar em que estágio se está de uma determinada via de desenvolvimento
econômico, mas também para identificar a que padrão, afinal, os esforços de
desenvolvimento estão respondendo. Podem, assim, auxiliar na escolha de
caminhos corretivos e no monitoramento dos resultados, já que nem todos
os modelos de progresso são econômica, ética e politicamente desejáveis,
mas todos precisam ser analisados, comparados e avaliados. Recordando
sempre que mesmo quando a medida é objetiva, o padrão é sempre uma
escolha.
Mesmo sob o clima do slogan unificador do desenvolvimento sustentável
materializado no IDH, convém lembrar que as encruzilhadas são múltiplas e
que as questões “de sempre” permanecem em aberto.

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218 América Latina: olhares e perspectivas


América Latina: inserção internacional,
integração e desenvolvimento

Nilson Araújo de Souza

O
objetivo deste artigo é examinar a forma como a inserção interna-

ova
cional da América Latina interfere em seus processos de integra-
ção e desenvolvimento. Faz parte de uma pesquisa que se realiza
na Universidade Federal da Integração Latino-Americana – UNILA como
etapa de um projeto que integra o grupo de pesquisa “América Latina: inte-
gração e desenvolvimento”, cadastrado no CNPq.
Alguns pressupostos servem de referência para esta pesquisa. O primei-
ro deles é o de que um dos fenômenos que mais se destacam no mundo
contemporâneo é o da regionalização, ou seja, é a realização de processos
de integração regional. Por integração regional, entende-se o processo de
aproximação entre dois ou mais países com o objetivo de somar esforços na
busca de aumentar a capacidade de cada um deles, bem como do conjunto
regional, no cenário internacional. Dentre seus objetivos, destacam-se a de-
fesa de países mais fracos diante da força econômica de países mais fortes
e a garantia de mais poder na disputa pelo mercado mundial, no caso dos
países ricos.
Neste sentido, vale destacar um segundo pressuposto: os motivos que
levaram à integração europeia são diferentes dos que orientaram os proces-
sos de integração na América Latina. Ainda que os objetivos explícitos da
integração europeia fossem, de um lado, a busca do crescimento econômico
e a melhoria do nível de vida da população e, de outro, a união política entre
os povos da Europa, a razão última desse processo é outra: o capital finan-
ceiro europeu, particularmente o alemão, fragilizado pela devastação bélica
da II Guerra, aceitou inicialmente a hegemonia estadunidense, mas, ao se
fortalecer pelo espetacular crescimento econômico de pós-guerra, achou-
-se em condição de disputar com os EUA a divisão do mercado mundial. A
formação de um bloco econômico regional contribuiria para ampliar essa

América Latina: olhares e perspectivas 219


capacidade de disputa. A integração europeia insere-se, portanto, no marco
da disputa das grandes potências pela divisão do mercado mundial.
No caso da América Latina, ao se dar no contexto de nações dependentes
e subdesenvolvidas, os processos de integração, de forma mais ou menos
consciente, procuram contribuir para aumentar o grau de autonomia e am-
pliar as condições para o desenvolvimento dos países da região. Esses ob-
jetivos foram sendo esboçados ao longo de várias tentativas de integração,
mas receberam sustentação teórica nas contribuições estruturalista-cepali-
nas da década de 1950.
O terceiro pressuposto decorre deste segundo: quanto maior é a inserção
subordinada da América Latina no contexto da economia mundial, menores

Pro
suas possibilidades de integração ou, dito de outro modo, maior a desinte-
gração da região; e, ao inverso, os processos de integração da região avan-
çam nos momentos em que sua inserção internacional entra em crise e cres-
cem as condições para um maior grau de autonomia regional. Para entender
essa questão, é fundamental examinar a política das grandes potências para
a região, sobretudo EUA e Inglaterra, a partir da segunda metade do século
XIX. A análise histórica das várias tentativas ou “ondas” de integração na
América Latina permite comprovar essas afirmações.
Daí decorre o quarto pressuposto: o processo de integração latino-america-
na, desde a independência e a formação dos Estados nacionais na região, vem
se realizando por meio de “ondas”; na verdade, trata-se de tentativas de inte-
gração que, diante de obstáculos que se interpõem no processo, apresentam di-
ficuldades de consolidar-se. Até agora, pode-se constatar a existência de qua-
tro grandes “ondas”. Nossa hipótese é a de que a “onda” atual, deflagrada no
começo da década de 2000, apresenta maiores possibilidades de consolidação.
Este texto se distribui, além desta introdução e das considerações finais,
em quatro seções, cada uma delas dedicada a examinar uma “onda” de inte-
gração. A primeira corresponde ao período que começa com a independên-
cia e conclui na grande crise mundial da primeira metade do século XX – de
1914 a 1945; a segunda inicia com as transformações ocorridas na região
durante a grande crise e vai até o esgotamento, em fins dos anos de 1960 e
começos dos de 1970, do longo período expansivo de pós-guerra; a terceira
corresponde ao declínio dessa onda larga de pós-guerra, cobrindo o período
que vai da virada da década de 1960 para a de 1970 até o começo da década
de 2000; por fim, a quarta e última deflagra-se no início dos anos 2000 e
vigora até os dias de hoje.
220 América Latina: olhares e perspectivas
1a “onda”: disputa entre EUA e Inglaterra pela divisão
da América Latina impede integração regional
Conforme se assinala na Introdução, a primeira grande “onda” de in-
tegração latino-americana se estende da independência e da formação dos
Estados nacionais até a grande crise mundial de 1914 a 1945. Nesse período,
ocorrem várias tentativas frustradas de integração regional. A primeira data
do Congresso Anfictiônico do Panamá, realizado entre 22 de junho e 15
julho de 1826, sob a liderança de Simón Bolívar, mas as ideias sobre integra-
ção já vinham sendo elaboradas antes mesmo de completar a independência.
Segundo Sergio Guerra Vilaboy, o venezuelano Francisco de Miranda,

ova
precursor das lutas independentistas, foi o primeiro a conceber “um proje-
to para a integração continental. Desde 1790, Miranda sonhava com uma
Hispanoamérica emancipada e unida, para cujo objetivo redigiu um Plano
para a forma, organização e estabelecimento de um governo livre e inde-
pendente na América Meridicional” (Vilaboy, 2007, p. 117-118 In: Ayerbe,
2007). Tratava-se, como se vê, da integração, não de toda a região que hoje
se denomina América Latina, mas apenas da América Hispânica, a qual ele
designou de Colômbia.
As ideias de Miranda foram retomadas, ao longo das duas primeiras dé-
cadas do século XIX, pelos principais líderes da independência dos países
da América Hispânica, tais como Simón Bolívar, Gaspar Rodríguez de Fran-
cia, Bernardo O´Higgins, Miguel Hidalgo, Mariano Moreno, José de San
Mantin. No entanto, coube a Bolívar liderar o primeiro grande movimento
integracionista.
Foram convidadas para o Congresso Anfictiônico todas as jovens nações
da América Latina, inclusive o Brasil, mas, ao final, participaram delegações
do Peru, Centroamérica, México e Gran Colômbia. O Brasil confirmou que
enviaria representação e chegou a enviar dois delegados, mas estes retorna-
ram do meio do caminho1. Entre os motivos, destaca-se o início da guerra
entre Brasil e Argentina. Esta também não enviou delegação2, assim como
o Chile. Havia dúvida entre os participantes se se deveria convidar os Es-
tados Unidos, mas Bolívar, em carta a Santander, de 30 de maio de 1925,

1 O governo do Brasil, na pessoa do Imperador Dom Pedro I, foi convidado por


Santander.
2 Bolívar era contra convidar a Argentina. Dizia que “Buenos Aires não é mais
que uma cidade hanseática sem província” (Bolívar, s.d., p. 148, apud Vilaboy,
2007, p. 122).
América Latina: olhares e perspectivas 221
manifestou seu desacordo: “Os americanos do Norte e os do Haiti, por serem
estrangeiros, têm o caráter de heterogêneos para nós. Por isso, jamais serei
de opinião de que os convidemos para nossos acertos americanos” (Bolívar,
s.d., p. 148, apud Vilaboy 2007, p. 122).
Durante o congresso, aprovaram-se quatro tratados, que propunham, ba-
sicamente, a integração da América Hispânica. “O mais importante desses
acordos foi o de União, Liga e Confederação Perpétua” (VILABOY, 2007,
p. 122). Além dos países que enviaram delegados ao congresso, poderiam
participar da Confederação todos os países da América Hispânica, mas, ao
final, apenas a Gran Colômbia assinou o tratado. Posteriormente (1830), a
própria Colômbia se desagregou em várias nações.

Pro
As tentativas de integração, no entanto, prosseguiram. Foi assim que, em
1839, o governo peruano solicitou ao congresso constituinte do país autori-
zação para convidar às demais repúblicas hispano-americanas para a cele-
bração de um tratado de aliança defensiva; dali em diante, a cada década do
século XIX renovavam-se os intentos integracionistas.
A iniciativa peruana de 1839 foi retomada entre 1846 e 1848, quando,
com a participação do Peru, Chile, Bolívia, Equador e Nova Granada, rea-
lizou-se em Lima o primeiro congresso hispano-americano depois do Con-
gresso do Panamá, aprovando-se o Tratado de Confederação. Em 1856, por
iniciativa da Venezuela, firmou-se o Tratado Continental entre Chile, Peru,
Equador, Bolívia, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, México e Paraguai. Na
mesma época, firmava-se em Washington, por iniciativa da Guatemala, o
Tratado de Aliança e Confederação entre Nova Granada, Guatemala, El Sal-
vador, México, Peru, Costa Rica e Venezuela. Entre novembro de 1864 e
março de 1865, por convite do governo peruano, realizou-se o “que pode
considerar-se como último grande congresso hispano-americano” (Ibid. p.
133), quando, com a participação da Colômbia, Chile, Venezuela, Equador,
El Salvador e Peru, aprovaram-se quatro tratados, dentre eles o de União e
Aliança defensiva. Um pouco antes (1857), os intelectuais Francisco Bilbao
(chileno) e José Maria Caicedo (colombiano) haviam utilizado, pela primei-
ra vez, o nome “América Latina”3.

3 Eles claramente definiram “América Latina” em oposição aos Estados Unidos.


Em um dos trechos de um poema seu, “Las dos Américas”, publicado em 15
de fevereiro de 1857, Caicedo assim se expressou: “La raza de la América La-
tina/Al frente tiene la sajona raza,/Enemiga mortal que ya amenaza/Su liber-
tad destruir y su pendón”. Ao longo desse poema, Caicedo insiste bastante na
222 América Latina: olhares e perspectivas
Apesar dos esforços realizados, nenhuma dessas tentativas de integração
vingou. Há muitas causas para esse fracasso. Costumam-se citar os conflitos
entre as oligarquias ou mesmo caudilhos que, com a independência, conso-
lidaram o poder econômico e político que vinham construindo nas distintas
áreas da região durante o período final da colônia. Citam-se também as dis-
tâncias e as dificuldades geográficas. Neste artigo, no entanto, destaca-se a
causa que se considera fundamental. É que prevaleceu, nos primeiros cem
anos de independência da América Latina, a disputa entre Estados Unidos e
Inglaterra pela divisão da região em suas áreas de influência ou mesmo de
domínio direto.
Os Estados Unidos já nascem com “vocação” expansionista. Essa “voca-

ova
ção” se revelou quando, inspirados no que qualificaram de “Destino Mani-
festo de uma grande nação, superior em espírito a todas as demais”, aprova-
ram, em 1823, o que ficou conhecido como “Doutrina Monroe”.

Proposta inicialmente pelo secretário do exterior inglês, Ge-


orge Canning, como uma declaração conjunta entre os EUA e
a Inglaterra a favor da independência dos países latino-ameri-
canos e do comprometimento de não adquirir para si qualquer
porção de seus territórios, os EUA, que não concordavam com
esta última ideia, optaram por não fazer a declaração com os
ingleses, preferindo declarar unilateralmente a Doutrina Mon-
roe que, com o lema ‘América para os americanos’, se punha
contra uma possível recolonização da América Latina por par-
te das potências europeias, estimulada pelos governantes re-
acionários que formavam a Santa Aliança (Prússia, Rússia e
Áustria-Hungria), mas que nada dizia acerca de uma possível
expansão territorial dos próprios Estados Unidos (Pinto, 2008,
p. 93. In: Silva et al 2008).

Embalado por essa doutrina, o capitalismo nascente nos Estados Unidos


rompeu fronteiras e, depois de comprar a Flórida, a Lousiana e o Oregon,
promoveu a guerra contra o México, em 1845, e anexou os estados do Texas,
Califórnia, Colorado, Arizona, Novo México, Nevada e Utah. Depois desse
“batismo de fogo” na guerra de conquista territorial, o expansionismo es-
tadunidense avançou por dois caminhos: a busca de ocupação territorial ou
controle dos governos da região com base em ações militares e a tentativa de

necessidade de união da América Latina para defender-se do expansionismo


estadunidense.
América Latina: olhares e perspectivas 223
avanço econômico com base na promoção de acordos comerciais. Tornou-
-se, a partir de então, cada vez mais agressivo.
Desde as aventuras do filibusteiro estadunidense William Walker na
América Central no período 1855-1856 até a guerra com a Espanha pelo
domínio de Cuba em 1898, foi-se configurando o intento de ocupação da
América Central. Ao mesmo tempo, realizavam-se intervenções militares
com o objetivo de manter sob controle governos da região. Quem descreve
muito bem esse processo é o comandante Smedley D. Butler, que dirigiu
muitas dessas expedições:

Em uma palavra, fui um pistoleiro do capitalismo... Assim, por

Pro
exemplo, em 1914 ajudei a fazer com que o México, e em es-
pecial Tampico, se tornasse uma presa fácil para os interesses
petrolíferos norte-americanos. Ajudei com que o Haiti e Cuba
fossem lugares decentes para a cobrança de juros por parte do
National City Bank... Em 1909-1912, ajudei a purificar a Ni-
carágua para a casa bancária internacional Brow Brothers. Em
1916, levei a luz à República Dominicana, em nome dos inte-
resses açucareiros norte-americanos. Em 1903, ajudei a ‘paci-
ficar’ Honduras em benefício das companhias frutíferas norte-
-americanas (cit. in Huberman, 1936, apud Galeano, 1986, p.
120-121).

O resultado desse processo foi descrito pelo economista estadunidense


Leo Huberman: “Além da Nicarágua, Cuba, Filipinas, Porto Rico e Guam,
os Estados Unidos possuem e controlam o Havaí, Samoa, Panamá, São Do-
mingos, Haiti, Alasca e as Ilhas Virgens” (Huberman, 1983, p. 232).
Consolidada a hegemonia sobre as Américas do Norte e Central, os Es-
tados Unidos “passaram a disputar com a Inglaterra a hegemonia na Améri-
ca do Sul” (Pinto, 2008, p. 96. In: Silva et al, 2008). O instrumento princi-
pal, no entanto, não foram as intervenções militares, como vinham fazendo
nas Américas do Norte e Central, mas a busca de acordos comerciais. Foi
assim que propuseram ao Brasil, em 1887, a realização de uma união adua-
neira para, logo depois, em 1889, durante a 1ª.Conferência Pan-Americana,
propor “a formação de uma ampla comunidade comercial que envolvesse
todos os países da América” (Ibid., p. 97), numa antecipação da proposta
de Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), apresentada um século
depois.
224 América Latina: olhares e perspectivas
A proposta de união comercial não prosperou, principalmente porque,
contraditoriamente, além da defesa do interesse nacional em alguns casos4,
os fortes interesses ingleses presentes na Argentina, Brasil e Chile se con-
trapuseram a ela, mas serviu de base para a emergência de um pan-america-
nismo que começaria a construir a liderança dos Estados Unidos na região.
Esse afã expansionista estadunidense pode ter suas raízes mais profun-
das no “espírito” da “sajona raza”, como diria Caicedo, mas se explica,
sobretudo, pelo desenvolvimento capitalista no país. Desde a independên-
cia, sob os auspícios do programa industrializante proposto por Alexander
Hamilton5, que tinha o protecionismo e a ação estatal como principais ins-
trumentos, e com base em condições propícias para a industrialização6, foi

ova
processando-se no norte do país a primeira fase da industrialização, com
base na produção mais simples. Mas, de 1840 a 1870, alavancados pelo
Estado, o protecionismo tarifário, a construção ferroviária, novas leis de
navegação (Oliveira, 2003, p. 211, 213, 217), os Estado Unidos realizaram
sua industrialização pesada, completando seu processo de industrialização.
Essa forte expansão industrial demandava a busca de novos mercados
e de fontes de matérias primas, estando na origem de seu expansionismo.
Mas essa “necessidade” converteu-se em algo estrutural a partir da déca-
da de 1870, quando o capitalismo estadunidense ingressou em nova fase.
Sob o resguardo do protecionismo e do apoio estatal, acelerou-se o natural
processo de concentração e centralização do capital, formando-se os mo-
nopólios. “Na América, os anos seguintes a 1870 viram o surgimento dos
trustes, que tinham crescido bastante em medida e estrutura” (DOBB, 1976,
p. 378). Fundiram-se então os monopólios industriais com os bancários
para formar o capital financeiro. A partir de então, a exportação de capital
passou a preponderar sobre a de mercadorias. Por quê? Responde Leo Hu-
berman:

4 Foi o caso brasileiro no começo da República, quando Ruy Barbosa, ministro


da Fazenda, implementou um programa protecionista destinado a estimular o
desenvolvimento industrial.
5 Ver Hamilton (1995).
6 Segundo Oliveira, “assim, como em grande parte das nações saídas do feu-
dalismo, nos Estados Unidos predominava a pequena produção independente,
avançava a divisão social do trabalho, a acumulação do capital comercial pro-
cessava-se com vigor, e a organização da produção tendia a transformar-se,
florescendo o putting-out e a manufatura ao lado do artesanato” (Oliveira, 2003,
p. 210).
América Latina: olhares e perspectivas 225
A economia dos Estados Unidos estava em tal condição que
os capitalistas, como também os de outros países, decidiram
ser necessário ter o controle da matéria-prima do mundo, de
mercados para o excesso de produção, de oportunidade para
investimentos lucrativos do excesso de capitais (Huberman,
1983, p. 232).

Isso explica por que os Estados Unidos, nessa nova fase de seu expansio-
nismo, não apenas se tornaram mais agressivos como também decidiram in-
corporar a América do Sul em seus domínios econômicos. Foi nessa fase que
sua política externa se tornou cada vez mais agressiva e belicosa, realizando
intervenções militares tanto na América Central (exemplo de Cuba) quanto

Pro
na Ásia. Essa política foi sistematizada e consolidada durante a presidência
de Theodore Roosevelt, de 1901 a 1909:

No que se refere à América Latina, o Corolário Roosevelt se


somou à Doutrina Monroe, em 1904, com os EUA se reservan-
do ao direito de, carregando um Big Stick (‘um grande porre-
te’, eufemismo para o uso brutal da força militar), intervir nos
assuntos dos países latino-americanos sempre que ocorressem
o que consideravam desordens e instabilidades internas nessas
regiões (Pinto, 2008, p. 98. In: Silva et al, 2008).

Mas esse expansionismo estadunidense em direção ao sul do continente


defrontou-se com a barreira imposta pelos interesses ingleses na região. En-
tre 1846 e 1849, a Inglaterra, depois de mais de sete décadas de revolução
industrial, quando a introdução de máquinas-ferramentas havia propiciado
o aumento de 40 vezes da produtividade do trabalho (Souza, 2001, p. 126)
e, no dizer de Celso Furtado (1986), havia por isso mesmo se transformado
na oficina do mundo, decidiu revogar as corn laws, isto é, as medidas prote-
cionistas, e propor ao mundo um sistema baseado no livre comércio. Muitos
países, dentre os quais a França, os EUA, a Alemanha, o Japão, a Itália e a
Rússia não aceitaram o novo sistema e decidiram seguir o mesmo caminho
antes adotado pela Inglaterra: o protecionismo. Mas outros países mais frá-
geis, particularmente os da América Latina, que acabavam de conquistar a
independência, ou aceitaram ou foram forçados a aceitar.
O sistema implicava basicamente numa divisão internacional do trabalho
em que a Inglaterra reservava para si a produção e exportação de produtos
industriais, cabendo aos demais países a produção e exportação de produtos
primários. Segundo Celso Furtado, formou-se um sistema sob a hegemonia de
226 América Latina: olhares e perspectivas
(...) um núcleo com um avanço considerável no processo de
capitalização, o qual concentra grande parte da atividade indus-
trial e, praticamente em sua totalidade, a produção de equipa-
mentos; esse núcleo é também o centro financiador das expor-
tações mundiais de bens de capital, controlador da infraestrutu-
ra de meios de transporte do comércio internacional e principal
importador de produtos primários (Furtado, 1986, p. 54).

O Brasil foi um dos que reagiram inicialmente. Em lugar de praticar o


livre comércio, elevou seu protecionismo. O então ministro da Fazenda, Ma-
nuel Alves Branco, decidira, em 1844, abolir “a tarifa alfandegária universal
de 15%, vigente desde 1828, estabelecendo tarifas variáveis entre 30% e

ova
60% para a maioria dos produtos importados pelo país” (Bazúa; Lino, 1995,
p. 123-124), com o objetivo de fomentar a industrialização. Mas a Inglaterra
pressionou fortemente para o Brasil voltar atrás. Seu principal instrumento
de pressão foi a perseguição e às vezes afundamento de navios negreiros
brasileiros. O pretexto era o combate à escravidão. O Brasil terminou ceden-
do e ingressando no sistema de divisão internacional do trabalho imposto
pela Inglaterra.
O Paraguai foi outro país que reagiu. Desde sua independência no co-
meço do século XIX, o país trilhou um caminho diferente dos demais. O
Estado impulsionava a industrialização de forma independente, fabricando
“pólvora, munição e peças de artilharia, trilhos de trem, tecidos, papel, tinta
e até navios” (Pinto, 2008, p. 95. In: Silva et al, 2008). O Paraguai já come-
çava a exportar produtos industriais para outros países latino-americanos.
Esse processo não interessava ao capitalismo inglês, que queria monopo-
lizar o abastecimento industrial na região. Assim, independentemente das
suas causas imediatas, a guerra que a Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e
Uruguai) moveu contra o Paraguai interessava à Inglaterra. Por isso, ela a
fomentou, inclusive com empréstimos: “a invasão foi financiada, do começo
ao fim, pelo Banco de Londres, a casa Baring Brothers e Banco Rothschild,
em empréstimos com juros leoninos que hipotecaram o destino dos países
vencedores” (Galeano, 1986, p. 205).
Terminou triunfando, sobretudo na América do Sul, a divisão interna-
cional do trabalho imposta pela Inglaterra. Esse sistema se consolidou a
partir do último quartel do século XIX, quando passaram a predominar os
monopólios, o capital financeiro e a exportação de capitais – enfim, o que
o economista inglês John A. Hobson designou de imperialismo. Nesse mo-
América Latina: olhares e perspectivas 227
mento, houve uma repartição conflituosa da América Latina entre Estados
Unidos e Inglaterra, cabendo ao primeiro o domínio das América do Norte
e Central e à segunda, o domínio da América do Sul. Conflituosa porque os
EUA insistiam em avançar em direção ao sul.
Ao consolidar-se o domínio externo sobre a região e sua divisão interna-
cional do trabalho, malograram as tentativas que vinham se realizando para
a integração latino-americana, que, na época, se confundia com integração
da América Hispânica. Isso não significa que, nesse período, desapareceram
as lutas em favor da integração. Ainda que com menos força do que antes,
elas continuaram. Vale destacar aqui particularmente três delas.
Um dos primeiros a reagir ao pan-americanismo propugnado pelos Esta-

Pro
dos Unidos, no mesmo ano da Conferência de 1899, foi o intelectual e líder
independentista cubano José Marti. Depois de denunciar “o convite que os
Estados Unidos potentes, repletos de produtos invendáveis, e determinados
a estender seus domínios na América, fazem às nações americanas de menos
poder” (MARTI, 02.nov.1889, p. 129-130, apud VILABOY, 2007, p. 136),
propõe a unidade do que designou de “Nossa América”. No começo do sécu-
lo XX, o brasileiro Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores
de 1902 a 1912, depois de declarar que até então cuidara de deslindar as
fronteiras do Brasil com seus vizinhos, afirmou que sua principal tarefa pas-
saria a ser a realização de um acordo com os principais países da América do
Sul, a começar por Argentina, Brasil e Chile. O Pacto ABC foi assinado, mas
não chegou a implementar-se. O líder revolucionário nicaraguense, o “Ge-
neral de Hombres Libres” Augusto César Sandino, convocou um Congresso
Latino-Americano sob o título “Plano de realização do supremo sonho de
Bolívar”, para o qual elaborou uma proposta de aliança latino-americana,
mas o evento não chegou a realizar-se.

2a onda: consolidação da hegemonia dos EUA


bloqueia integração regional
A segunda onda de integração da América Latina começa com as trans-
formações ocorridas na região durante a grande crise de 1914-1945 e vai até
o esgotamento, em fins dos anos de 1960 e começos dos de 1970, do longo
período expansivo de pós-guerra. A principal mudança foi a deflagração,
em vários países, de um processo de industrialização. Destacaram-se Brasil,
Argentina e México, mas outros países de menor dimensão, como Chile,
Colômbia e Uruguai, também se industrializaram na época.
228 América Latina: olhares e perspectivas
Aproveitando-se da crise, particularmente da Grande Depressão, e tam-
bém procurando se defender dela, os governos de países que já contavam
com algum nível de indústria adotaram medidas cujo resultado foi o de-
senvolvimento de um processo de industrialização que passaria a substituir
importações por produção interna. Medidas protecionistas, instalação de
indústrias de base pelo Estado, mecanismos de financiamento público e de
transferência de renda do setor primário para a indústria, fortalecimento do
mercado interno compõem o arsenal de ações adotadas, de uma forma ou
outra, por esses governos.
Constituiu-se então, sobretudo em sua primeira fase, um setor industrial
basicamente sob controle nacional, numa aliança entre os Estados nacio-

ova
nais e suas respectivas burguesias, fortalecendo a independência econômi-
ca desses países. A ideologia nacional-desenvolvimentista inspirou os pro-
gramas econômicos adotados no período. Os governos dos países que mais
avançaram nesse processo procuraram implementar, como caminho para
consolidá-lo, uma crescente autonomia em relação às potências econômicas
(SOUZA, 2009). Para isso, fomentaram, entre outras coisas, a realização
de processos de integração regional. O nacionalismo na periferia enseja a
integração regional.
Simultaneamente, o processo de diversificação econômica, resultante da
industrialização, também favoreceu a integração regional latino-americana
pela via econômica. Com a divisão internacional do trabalho clássica, os pa-
íses da região, ao se especializarem na produção e exportação de uns poucos
produtos primários, se vinculavam principalmente às economias industriali-
zadas do norte do Planeta, ainda que mantivessem algum grau de intercâm-
bio comercial entre si7. No entanto, com os obstáculos ao comércio provo-
cados pelas duas grandes guerras e a diversificação produtiva resultante da
industrialização, incrementou-se fortemente o intercâmbio comercial entre
distintos países latino-americanos8. Interessava, portanto, objetivamente, às

7 Segundo Celso Furtado, Argentina, Brasil, Chile e Uruguai realizaram entre si,
tradicionalmente, intercâmbio comercial. “O grosso desse intercâmbio se efeti-
vava entre a Argentina e o Brasil, limitando-se, da parte argentina, praticamente
ao trigo, e, da parte brasileira, geralmente deficitária, a produtos tropicais – café
e cacau – e madeira” (Furtado, 1986, p. 260).
8 “Assim, em 1950, o intercâmbio entre os quatro países indicados [Argentina,
Brasil, Chile e Uruguai] representava 9,2 por cento de seu comércio exterior
total, e em 1953 já alcançava 12,2 por cento” (Furtado, 1986, p. 260).
América Latina: olhares e perspectivas 229
nascentes burguesias industriais da região o processo de integração regional,
ainda que não necessariamente elas tivessem consciência disso.
A primeira tentativa de integração nessa nova fase ocorreu entre Argenti-
na e Brasil, precisamente os dois países da região que mais haviam avançado
no processo de industrialização. Por iniciativa de Raúl Prebisch, então ge-
rente geral do Banco Central argentino e que depois, na qualidade de prin-
cipal dirigente da Cepal9, se tornaria um dos principais teóricos e ideólogos
do desenvolvimento e da integração da América Latina, Brasil e Argentina,
a partir da Conferência da Bacia do Prata realizada entre 27 de janeiro e 6 de
fevereiro de 1941, assinaram vários acordos de integração comercial.
Numa reunião preparatória, em 3 de outubro de 1940, com a presença

Pro
da delegação argentina, incluindo Prebisch, o presidente brasileiro, Getú-
lio Vargas, “enfatizou o apoio à construção de um grande mercado regio-
nal” (DOSMAN, 2011, p. 155). Durante a reunião, seu ministro da Fazenda
Sousa Costa declarou: “No lugar da chamada Doutrina Monroe, propomos
uma nova era para as novas circunstâncias: cooperação econômica continen-
tal sem prejudicar o direito de qualquer país das Américas de administrar
seus negócios internos de acordo com suas necessidades” (In: La Nación,
10.out.1940, apud Dosman, 2011, p. 155).
O objetivo inicial dos acordos era formar uma área de livre comércio,
como passo para a criação de uma união alfandegária, que incluísse, além de
Argentina e Brasil, os vizinhos Uruguai, Paraguai, Bolívia e Chile. Segundo
um dos biógrafos de Prebisch, Edgar J. Dosman, dada a rivalidade histórica
entre os dois países, “a formação de um bloco comercial Brasil-Argentina
poderia representar uma revolução diplomática na América do Sul” (Dos-
man, 2011, p. 155). Além disso, para Prebisch, “em vez de a Argentina e o
Brasil duplicarem indústrias para atender mercados locais, eles deveriam
promover uma especialização setorial para atingir o mercado regional”
(Dosman, 2011, p. 154).
Havia ainda certa ilusão de Prebisch em relação aos Estados Unidos.
Segundo Dosman,

O objetivo da missão Prebisch [aos EUA], portanto, era forjar


um programa financeiro, econômico e comercial de longo al-
cance para diminuir a dependência da Argentina em relação à

9 Ver mais adiante.


230 América Latina: olhares e perspectivas
Europa, inclusive com sondagens iniciais sobre uma possível
área de livre-comércio do hemisfério Ocidental ou mesmo uma
união alfandegária abrangendo as Américas, do Canadá à Pata-
gônia. (Dosman, 2011, p. 157)

O motivo imediato para malograr a iniciativa de integração sul-america-


na foi precisamente a ação dos Estados Unidos. Depois do ataque japonês a
Pearl Harbor, realizou-se no Rio de Janeiro, na segunda quinzena de janeiro
de 1942, a Conferência Interamericana de Ministros das Relações Exteriores
com o objetivo de unificar o continente americano contra o Eixo nazifascis-
ta. A Argentina, apesar de toda a pressão, optou pela neutralidade10. A partir

ova
de então, passou a ser considerada “pária”, “traidora” (Dosman, 2011, p.
178) pelo governo dos EUA, o qual passou a usar todos seus instrumentos
de pressão (sobretudo financeiros e comerciais) contra aquele país, inclusive
criando obstáculos para seus acordos comerciais com o Brasil.
As iniciativas de integração regional latino-americana foram retomadas
com a criação da Cepal. A Comissão Econômica para a América Latina (Ce-
pal) foi criada em 1948 pela ONU para estudar os problemas da América
Latina e propor soluções. Liderada pelo economista argentino Raúl Prebisch
e integrada por uma série de jovens economistas e cientistas sociais e polí-
ticos, dentre eles o brasileiro Celso Furtado, cumpriu um papel decisivo na
formulação do pensamento econômico latino-americano.
Partindo do diagnóstico de que a dependência externa e as estruturas
internas arcaicas da América Latina eram responsáveis pelo subdesenvolvi-
mento, a Cepal propunha que a saída estava na industrialização. Conforme
Theotônio dos Santos,

(...) nas décadas de 1940-50, desenvolveu-se o pensamento da


CEPAL, que vai dar um fundamento de análise econômica e
um embasamento empírico, assim como apoio institucional, à
busca de bases autônomas de desenvolvimento. Estas se defi-
niram por intermédio da afirmação da industrialização como
elemento aglutinador e articulador do desenvolvimento, pro-
gresso, modernidade, civilização e democracia política (San-
tos, 2000, p. 74).

10 Essa decisão, aliás, estava respaldada nas relações comerciais da Argentina com
a Inglaterra: para esta, que dependia do fornecimento de cereais por parte da Ar-
gentina, a neutralidade desse país na guerra garantia esse suprimento, à medida
que evitava ataques da Alemanha aos navios cargueiros oriundos da Argentina.
América Latina: olhares e perspectivas 231
Entre os meios para garantir a industrialização e o desenvolvimento eco-
nômico da região, a Cepal propugnou a realização de um projeto integracio-
nista. O alargamento do mercado, com a criação de um mercado regional,
ensejaria a instalação de plantas industriais maiores e mais eficientes, além
de poder avançar para a indústria básica, como as de bens de capital e de
bens intermediários. A integração seria, portanto, a condição para o desen-
volvimento autônomo e endógeno da região11. Segundo Celso Furtado, esse
pensamento já estava na origem da criação da Cepal:

Esse movimento, se bem que modesto em seus objetivos, foi


rapidamente reforçado por uma linha de ideias que se vinha

Pro
desenvolvendo na CEPAL praticamente desde a sua criação
em 1948. Com efeito, no informe de 1949, redigido por Raúl
Prebisch, chamava-se a atenção para as limitações intrínse-
cas de uma industrialização restringida a mercados nacionais
latino-americanos isolados uns dos outros. Este problema se
colocava na época aos países que já haviam superado as pri-
meiras fases da industrialização. Na medida em que se passava
das indústrias leves para as pesadas, das de bens de consumo
não duráveis para as de bens duráveis de consumo, e que se
dava início à produção de equipamentos, o problema das di-
mensões do mercado adquiria importância crescente (...). Tais
considerações (...) contribuíram para criar o clima psicológico
que lavaram à criação de uma zona de livre comércio em 1960.
(Furtado, 1986, p. 261)

Assim, para a Cepal os países com mercados de menor dimensão depen-


diam, para industrializar-se, da integração com outros países. Quanto aos
países maiores, poderiam trilhar sozinhos as etapas iniciais do processo de
industrialização, consistentes em implantar a indústria leve de bens de con-
sumo, mas, para avançar para etapas mais profundas, destinadas a implantar
a indústria pesada, dependiam também do processo de integração.
A primeira experiência na questão da integração da Cepal foi com o pri-
meiro tipo de integração. Segundo Furtado, “o atual movimento integra-
cionista tem o seu ponto de partida em uma resolução dos governos dos
cinco países [El Salvador, Guatemala, Honduras, Costa Rica e Nicarágua]

11 Desenvolvimento endógeno se caracteriza por um desenvolvimento que se fun-


damenta nas próprias forças, isto é, nos próprios recursos materiais e financei-
ros e no próprio mercado.
232 América Latina: olhares e perspectivas
tomada no quarto período de sessões da CEPAL, que ocorreu na cidade do
México em 1951” (Furtado, 1986, p. 254) – mesmo ano em que, por meio
da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, assentavam-se as bases para
a integração europeia. Criava-se, em consequência daquela resolução, ainda
em 1951, o Comitê de Cooperação Econômica do Istmo e a Organização
dos Estados Centro-Americanos (ODECA), que, depois de várias transfor-
mações, passaria a chamar-se Mercado Comum Centro-Americano (MCCA)
em 1960 e Sistema de Integração Centro-Americano (SICA) na década de
1990.
Em termos de intercâmbio comercial, esse bloco produziu resultados
significativos em sua etapa inicial. “Em 1955 o comércio intra-regional

ova
chegava apenas aos 3 milhões de dólares, em 1962 chegou aos 50 milhões
e em 1968 alcançou os 200 milhões” (GAITE, 2011:157). A participação
do comércio intra-zonal nas exportações totais dos países passou de 7,6%
em 1960 para 27,3% em 1970. Isso repercutiu positivamente no desen-
volvimento industrial da região: a produção industrial, que crescera a um
ritmo de 6% anuais entre 1950 e 1960, subiu para 8,7% entre 1960 e 1970,
fazendo o crescimento do PIB elevar-se de 4,5% para 5,6% (Furtado, 1986,
p. 256-257).
O malogro dessa experiência costuma ser atribuído à guerra entre El Sal-
vador e Honduras, em julho de 1969, mas, mais uma vez, é possível con-
jecturar sobre a intervenção dos EUA: “Este último acordo [Tratado sobre
o Regime de Indústrias Centro-Americanas de Integração] suscitou fortes
reações, particularmente da parte do governo dos Estados Unidos, que a ele
atribui o propósito de criação de empresas com apoio estatal e exclusividade
do mercado regional” (Ibid., p. 255).
Logo depois da criação do bloco regional entre os pequenos países cen-
tro-americanos, houve também a tentativa de aproximar os países de maior
dimensão e de maior desenvolvimento relativo da América do Sul. Com o
retorno de Getúlio Vargas ao governo do Brasil, o presidente argentino, Juan
Domingo Perón, propôs, em 1952, ao Brasil e ao Chile, o restabelecimento
do Pacto ABC, que havia sido assinado no começo do século entre os três
países. A proposta contemplava uma abrangência maior, podendo estender-
-se para o conjunto da América do Sul. Segundo Luiz Pinto,

A proposta de Perón, entretanto, era bem mais audaciosa, já


que estava baseada na constatação de que, para darem continui-

América Latina: olhares e perspectivas 233


dade a seus projetos de industrialização autônoma e inclusão
social, seus países deveriam organizar uma comunidade eco-
nômica e política que, a partir de uma união aduaneira, deve-
ria adotar políticas conjuntas na arena internacional, formando
consórcios que teriam como objetivo controlar o preço mundial
de muitas matérias-primas, buscando evitar a deterioração dos
termos de intercâmbio (Pinto, 2008, p. 111. In: Silva, 2008).

Perón chegou a declarar na época que “no ano 2000, ou estaremos unidos
ou seremos dominados”. O suicídio de Vargas em 1954 e a queda de Perón
em 1955, depois de forte campanha contrária à integração, por parte dos
setores conservadores da Argentina e do Brasil, podem ser considerados os

Pro
motivos imediatos do fracasso dessa proposta12. Mas, como veremos adian-
te, a razão de fundo pode ser buscada, mais uma vez, na ação dos Estados
Unidos na região.
Mas, apesar da pressão estadunidense, o projeto integracionista, tal como
Fênix, sempre renascia das cinzas. O projeto mais ambicioso consistia na
retomada da antiga ideia de integração do conjunto da América Latina e
que, como vimos, vinha amadurecendo desde a década de 1940 entre os
governos do Brasil e da Argentina. Foi assim que, como proposta do Comitê
de Comércio da CEPAL, que em 1957 criou o Grupo de Trabalho do Mer-
cado Regional Latino-Americano, assinou-se, em 18 de fevereiro de 1960,
em Montevidéu, o tratado que instituiu a Associação Latino-Americana de
Livre Comércio – ALALC, integrada por Argentina, Brasil, Chile, México,
Paraguai, Peru e Uruguai. Os signatários do tratado representavam “mais de
80% do produto bruto e da população da América Latina” (Herrera, 1966,
p. 149).
A ALALC “tinha por objetivo básico a ampliação do comércio regional,
e consequentemente dos mercados nacionais, através da eliminação gradual
das barreiras ao comércio intrarregional” (FARIA, 1993, p. XV). O prazo
estipulado para o alcance de seus objetivos foi de 12 anos. Ocorreria, por-
tanto, em 1972.

12 “A UDN, no Congresso, e a imprensa conservadora, a ela vinculada, formaram


um coro e, apresentando os entendimentos de Vargas com Perón como ‘traição
nacional’, acusaram os dois de conspirarem ‘contra o ideal do Pan-Americanis-
mo e a realidade da boa vizinhança, tradicionais no hemisfério’, por tentarem
fazer o Pacto ABC e resistirem aos EUA” (Moniz Bandeira, 2003, p. 261).
234 América Latina: olhares e perspectivas
O modelo adotado tinha como referência o GATT13. Havia as “listas na-
cionais” de concessões e uma “lista comum de bens”, com cujo desgra-
vamento os signatários se comprometiam, e, por outro lado, havia “listas
especiais”, em benefício dos países de menor desenvolvimento relativo; es-
tas últimas listas não estavam sujeitas à cláusula de nação mais favorecida
(Ibid.: XV).
Havia sido criada uma condição internacional favorável a projetos des-
sa natureza. Tendo chegado à conclusão de que, em lugar do alinhamento
automático com qualquer das duas superpotências (EUA e URSS), deve-
riam trilhar um caminho de não-alinhamento, os líderes de vários países do
Terceiro Mundo14 decidiram criar o Movimento de Países Não-Alinhados,

ova
que começou a congregar os países que queriam seguir um caminho inde-
pendente. O crescimento desse movimento fortaleceu a tendência à unidade
de países mais pobres.
No entanto, em contraposição, o expansionismo político, econômico,
militar e diplomático dos EUA na região seria um grande obstáculo à inte-
gração latino-americana. Já no Tratado de Montevidéu, por pressão do FMI
(hegemonizado pelos EUA), limitaram-se os objetivos estratégicos iniciais
propostos pela CEPAL:

Contudo, as pressões do FMI impediram a adoção de dois


elementos básicos para assegurar o êxito dessa iniciativa. A
definição de suas metas na direção de uma integração mais
profunda e a criação de mecanismos de compensação que per-
mitissem um comércio flexível entre os vários países. (Santos,
1993, p. 121)

Assim, os acordos limitaram-se a estabelecer a criação de um estágio mais


elementar de integração: a área de livre comércio. Mesmo esse estágio não
conseguiu concretizar-se. A integração da América Latina ainda teria que en-
frentar grandes desafios para concretizar-se. O principal deles provinha dos
EUA. Os interesses estratégicos desse país entravam em contradição com a
integração latino-americana. Era o velho adágio: “Dividir para reinar”.
Ao final da II Guerra, havia terminado a disputa entre EUA e Inglaterra
pela divisão da América Latina. A potência inglesa, depois de duas guerras e

13 General Agreement on Trade and Tariff; em português: Acordo Geral sobre Co-
mércio e Tarifas.
14 Destacando-se Nasser no Egito, Nehru na Índia, Sukarno na Indonésia.
América Latina: olhares e perspectivas 235
da Grande Depressão, havia sucumbido e estava às voltas com seu processo
de reconstrução. Enquanto isso, os EUA, que já haviam se tornado a maior
economia do Planeta às vésperas da I Guerra, converteram-se na potência
hegemônica no mundo capitalista no pós-II Guerra.
A base da hegemonia dos EUA era o fato de que emergiram no pós-guer-
ra como a mais poderosa potência ocidental: em 1948, detinham 55,8% da
produção industrial e 23,8% das exportações do mundo capitalista, enquanto
sua participação no fluxo de inversões diretas no estrangeiro alcançava a
elevada cifra de 60%.
Soma-se a isso o fato de que saíram da guerra com o mais poderoso
exército do ‘bloco ocidental’, boa parte do qual permaneceu estacionado na

Pro
Europa, no Japão e na península coreana.
Com base nessas condições e na propaganda de que seriam capazes de
defender os interesses capitalistas globais diante do avanço do socialismo,
os EUA puderam assumir a hegemonia política no mundo capitalista (SOU-
ZA, 2009, p. 41).
Por outro lado, ao final da II Guerra, o mundo estava dividido em dois:
de um lado, o sistema socialista, liderado pela União Soviética; de outro, o
sistema capitalista, liderado pelos Estados Unidos da América. Estes pro-
curaram consolidar essa hegemonia em todos os terrenos: no econômico,
convertendo o dólar em dinheiro mundial, controlando as instituições mul-
tilaterais (FMI, BIRD) e promovendo o avanço de suas transnacionais; no
militar e geopolítico, mantendo suas tropas na Europa, patrocinando a cria-
ção da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e tentando evitar
o avanço do socialismo na Ásia (guerra contra e Coreia); e, no político-
-ideológico, erigindo o anticomunismo a doutrina central da sua propaganda
ideológica, deflagrando a chamada Guerra Fria:

Para legitimar essa posição, foi elaborada na Academia Militar


de West Point a doutrina da contra insurgência, que dividia o
mundo em dois, o ‘comunista’, liderado pela URSS, e o ‘oci-
dental-cristão’, liderado pelos EUA. Caberia a estes últimos a
responsabilidade de defender o hemisfério ocidental de uma
suposta ‘agressão comunista’.
Dentro dessa ‘doutrina’, qualquer conflito que ocorresse ao in-
terior de cada país da região era interpretado como expressão
do ‘conflito Leste-Oeste’, os ‘contestadores’ eram taxados de
inimigo interno, isto é, representantes do suposto inimigo ex-

236 América Latina: olhares e perspectivas


ternos, e deveriam ser duramente reprimidos pelas forças arma-
das locais, com o apoio dos EUA. (Souza, 2009, p. 43)

Nos primeiros anos de pós-guerra, os EUA encontraram dificuldade de


realizar o avanço econômico, por meio de suas transnacionais, na região
latino-americana. Isso porque, como examinamos anteriormente, os países
mais importantes vinham realizando um processo de industrialização sob
controle nacional, fortalecendo a ideologia nacionalista nesses países. Por
isso, concentraram sua ação inicial na criação de mecanismos políticos de
aproximação e na propaganda ideológica do anticomunismo com base na
difusão da doutrina da contra insurgência.

ova
Foi assim que tentaram retomar o pan-americanismo que vinham pro-
pugnando desde o final do século XIX. Para isso, promoveram, a partir de
1944, as Conferências Interamericanas, sendo que, na de 1947, aprovou-
-se a criação do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR)
– segundo o qual “um ataque armado de qualquer Estado contra um Estado
americano seria considerado como um ataque contra todos os Estados do
hemisfério” (Pinto, 2008: 107)15 – e, na de 1948, criou-se a Organização dos
Estados Americanos (OEA), que substituiu as conferências. A criação desses
organismos abria espaço para a hegemonia político-ideológica dos EUA na
região (ver declaração anticomunista constante do artigo 32 da OEA), mas,
para essa consolidar-se, dependia ainda da submissão dos governos mais
importantes da região, como condição para o avanço econômico das trans-
nacionais estadunidenses.
Depois de terminada a fase dura da reconstrução europeia – com a qual
contribuíram os EUA –, bem como a guerra contra a Coreia (em 1953), o
governo dos EUA se voltou de maneira mais intensa para a América Latina.
Suas corporações transnacionais estavam sedentas de ocupar na região o
espaço que antes fora ocupado pelos capitais ingleses ou que começava a ser
ocupado por burguesias nacionais.
Além disso, na disputa pelo mercado mundial com as corporações ale-
mãs e japonesas, que reconstruíam seu aparato produtivo com as tecnologias
mais modernas16, as transnacionais estadunidenses também teriam que se

15 É importante registrar que, na primeira vez em que ocorreu esse ataque exter-
no, por ocasião da Guerra das Malvinas, os Estados Unidos ficaram do lado do
agressor externo, a Inglaterra.
16 A capacidade produtiva desses dois países havia sido praticamente dizimada
América Latina: olhares e perspectivas 237
modernizar. Para isso, teriam que substituir suas máquinas antigas por má-
quinas modernas.
A estratégia que os Estados Unidos montaram implicava transferir essas
fábricas usadas para os países latino-americanos que já haviam começado
seu processo de industrialização. Esse intento entrava em contradição direta
com essas nações, já que estavam se industrializando, no fundamental, com
base no próprio esforço e no controle nacional sobre a economia nacional.
Era a época do nacional-desenvolvimentismo.
A política exterior dos EUA, que sempre esteve a serviço de seus interes-
ses econômicos, foi imediatamente posta para operar no sentido de criar as
condições para essa expansão de suas empresas. A política externa adotada

Pro
a partir da presidência de Harry S. Truman, iniciada em 1945, substituiu a
política anterior, chamada da “Boa Vizinhança”, de Franklin D. Roosevelt,
retomando a política do Big Stick do Corolário Roosevelt. As pressões sobre
Brasil e Argentina, somadas a fatores internos, terminaram culminando na
morte de Getúlio Vargas e na queda de Perón, abrindo um período de gran-
des tensões na região.
Houve um interregno do governo John F. Kennedy, quando o Departa-
mento de Estado, retomando a tradição legada por Franklin D. Roosevelt,
tentou praticar uma política de “boa vizinhança”, principalmente através do
programa Aliança para o Progresso17, mas, com a morte de Kennedy, a 22
de novembro de 1963, a agressividade da política externa dos EUA retornou
com toda força. Conforme nos indica Toledo Machado: “Com a ascensão
presidencial de Lyndon B. Johnson, os ´falcões´(...) começaram a agir com
maior desembaraço, impondo a doutrina da inevitabilidade da terceira guer-
ra mundial e da liderança militar dos EUA” (Machado, 2003, p. 260).

durante a guerra, enquanto a capacidade dos EUA, que não sofreram guerra em
seu território, havia não apenas se mantido intacta, como se expandido.
17 A Aliança para o Progresso foi um programa lançado pelo presidente John F.
Kennedy e institucionalizado, entre 5 e 17 de agosto de 1960, durante a reu-
nião do Conselho Interamericano Econômico e Social da OEA, em Punta Del
Este (Uruguai). Era um Plano de 10 anos, com recursos orçados de US$ 500
milhões, oriundos basicamente dos EUA, que prometia combater as desigualda-
des econômicas e sociais da América Latina. Ao final, limitou-se basicamente a
um plano assistencialista com o fornecimento de alimentos através do programa
“Alimentos para a Paz”. Era, na verdade, uma tentativa de amortecer os conflitos
sociais na região e melhorar a imagem dos Estados Unidos. Ainda que tenha sido
formalmente extinto apenas em 1969 pelo presidente Richard Nixon, na prática
deixou de funcionar com a morte de Kennedy e o início do apoio, pelo seu su-
cessor, aos golpes militares na América Latina (1964) (Valente, 27.07.2006).
238 América Latina: olhares e perspectivas
Para essa política, passou a ser de fundamental importância a substituição
de governos latino-americanos que não estivessem de acordo com a abertu-
ra de suas economias para a entrada de capital estrangeiro. Sucederam-se,
a partir daí, os golpes militares na região. Como consequência, os novos
governos instalados passaram a alinhar-se automaticamente com a política
do Departamento de Estado e a abrir caminho para a invasão econômica por
parte das empresas transnacionais. E, como a essa política e a esse avanço
econômico não interessava a efetivação da integração latino-americana, os
acordos firmados para a criação da ALALC não saíram do papel.

3a onda: nova crise estrutural abre espaço para nova onda de integração

ova
A terceira onda de integração latino-americana corresponde ao período
de declínio da onda larga de pós-guerra, iniciado na virada da década de
1960 para a de 1970. O declínio da onda larga é simultaneamente o declí-
nio relativo prolongado da economia e, por conseguinte, da hegemonia dos
EUA. Na raiz desse processo, encontra-se, entre outros fatores, o intenso
crescimento da produtividade do trabalho no Japão e na Alemanha, em de-
trimento dos EUA: enquanto no Japão cresceu 289% de 1960 a 1976 e na
Alemanha o fez a 145%, nos EUA se expandiu apenas 57% no mesmo perío­
do (SOUZA, 2001, p. 55).
Esse processo abriu espaço para novas tentativas de integração latino-ame-
ricana. A primeira delas partiu dos países andinos. Já em 1966, Chile, Vene-
zuela, Peru e Equador haviam firmado a Declaração de Bogotá com o objetivo
de criar, no âmbito da ALALC18, um acordo sub-regional. Ele viria a se con-
sumar em 1969 através do Acordo de Cartagena, que criou o Pacto Andino.
Constituído inicialmente por Bolívia, Chile, Colômbia e Peru, receberia, em
1973, a adesão da Venezuela e, posteriormente, sofreria a defecção do Chile.
O objetivo seria constituir uma União Aduaneira num prazo de 10 anos.
Nesse período de transição, o bloco funcionaria como Área de Livre Co-
mércio. No entanto, a transição foi mais prolongada. Bolívia, Colômbia e
Venezuela culminaram a abertura de seus mercados para os parceiros em 30
de setembro de 1992. O Equador completou seu processo em 3l de janeiro
de 1993 (COMUNIDADE ANDINA, 08.03.2005).
Desde o início, havia o compromisso de uma integração mais profunda,
que, partindo das etapas iniciais, culminasse num Mercado Comum. Além

18 Os acordos da ALALC previam a realização de blocos sub-regionais.


América Latina: olhares e perspectivas 239
disso, “o Acordo de Cartagena tinha pretensões mais ambiciosas do que a
ALALC: almejava chegar ao planejamento conjunto de setores econômicos
e definiu uma política de restrição ao capital estrangeiro e de desenvolvi-
mento tecnológico regional” (Santos, 1993, p. 22).
Isso foi possível porque, entre o fim dos anos de 1960 e começo dos
de 1970, formaram-se nos países andinos governos nacionalistas e progres-
sistas que buscavam enfrentar a dependência externa de suas economias,
restringindo a ação do capital estrangeiro. Foi assim com Salvador Allende
no Chile, o general Velasco Alvarado no Peru, o general Juan José Torres
na Bolívia, o Governo Nacionalista Revolucionário, presidido pelo general
Guillermo Rodríguez Lara, no Equador e Carlos Andrés Pérez na Venezuela.

Pro
A segunda iniciativa ocorreu em 1975 entre Brasil e México. No Brasil,
o setor nacionalista das Forças Armadas assumira a hegemonia no gover-
no, tendo à frente o general Ernesto Geisel. Reagindo à recessão mundial
deflagrada em 1974, Geisel implementou no país o II Plano Nacional de
Desenvolvimento (II PND), que procurava combater o subdesenvolvimento
e a crise através de medidas que reduzissem a dependência externa (Souza,
2008). No México, Luis Echeverría Alvarez, que governou de 1970 a 1976,
tinha posicionamento idêntico. Dele nasceu, em 1975, a proposta de criação
do Sistema Econômico Latino-Americano (SELA).
Contando com a adesão de muitos países da região, os objetivos desse
sistema eram: coordenar posições governamentais nos foros internacionais;
estimular a cooperação horizontal entre os países da região; apoiar os pro-
cessos de integração latino-americanos e propiciar ações coordenadas entre
eles. A criação do SELA foi importante para demonstrar a força do projeto
‘integracionista’ latino-americano (Pinto, 2008, p. 122-23).
Como se vê, o SELA não era um bloco econômico regional, mas contri-
buía para a sua formação na medida em que propiciava ações coordenadas en-
tre os vários governos da região. Ele era reflexo de uma dupla determinação:

• de um lado, a emergência da crise mundial debilitara a capacidade


dos países centrais manterem sua pressão sobre os países em desen-
volvimento;
• de outro, aproveitando-se dessa situação, o Movimento de Países Não
Alinhados, depois de aprovar na Conferência de Argel em 1973 que
o principal problema da época era a “contradição centro-periferia”,
conseguiu, no ano seguinte, que 110 países apresentassem e logras-
240 América Latina: olhares e perspectivas
sem aprovar na sexta Sessão Especial da Assembleia da ONU duas
resoluções propondo o estabelecimento de uma Nova Ordem Econô-
mica Internacional, baseada na autodeterminação, na cooperação e na
igualdade entre os povos (Machado, 2000).

A década de 1970 foi a década de fortalecimento dos Não-Alinhados.


Nesse contexto, foi retomado o projeto integracionista da América Latina. E
assim se celebrou em 1980 um novo Tratado de Montevidéu, que transfor-
mou a ALALC na Associação Latino-Americana de Integração (ALADI).
Segundo Faria,
(...) muito do conteúdo do novo tratado já estava expresso no

ova
documento anterior, e a estrutura orgânica manteve-se essen-
cialmente a mesma. Algumas mudanças significativas foram
introduzidas, porém, relativamente aos objetivos e aos me-
canismos da Associação. Primeiramente, deixou-se de lado
a intenção de instituir uma zona de livre comércio, dando-se
prioridade, a despeito do objetivo formal (declarado no Pre-
âmbulo) de se criar um mercado comum, ao estabelecimento
de uma zona de preferências tarifárias regionais, o que repre-
senta uma abdicação aos objetivos que antecederam a nova
Associação. Em segundo lugar, deixou-se maior margem aos
Estados-Membros para celebrarem acordos bilaterais de com-
plementação econômica, o que, em si, pode apresentar tanto
vantagens quanto riscos para a integração continental. (Faria,
1993, p. XV-XVI)

Aquilo que foi apresentado como retrocesso na nova associação pode


significar, na verdade, a adaptação às condições reais dos vários países a
fim de garantir o avanço possível. Assim, ao mesmo tempo em que se esta-
belecia uma meta mais avançada do que a prevista na ALALC, ao propor a
formação de um mercado comum, procurava-se começar pela base, isto é,
pela formação de uma Zona de Preferências Comerciais.
Simultaneamente, ampliavam-se as possibilidades de acordos sub-regio-
nais, como forma de incentivar parcerias entre países com maior proximida-
de. Veremos adiante que foi exatamente esse mecanismo flexível que permi-
tiu o avanço do projeto integracionista a partir da década de 1980.
Iniciativas importantes cimentaram o terreno para esse avanço. Um im-
portante momento desse processo foi a formação do Grupo de Apoio a Con-
tadora, criado em 1983 por Venezuela, México, Colômbia e Panamá, rece-
América Latina: olhares e perspectivas 241
bendo a adesão, em 1985, do Peru, Brasil, Argentina e Uruguai. O objetivo
era contribuir para a pacificação da América Central (que estava em guerra
civil) e para o fortalecimento da América Latina.
Em 1986, o Grupo de Contadora ampliou seus objetivos, passando a
envolver-se com o conjunto da problemática latino-americana. Receberia
então o nome de Grupo do Rio. Mesmo sendo um grupo de natureza emi-
nentemente política, a aproximação entre seus membros haveria de ensejar
o aprofundamento do processo de integração econômica.
Em 1984, formava-se uma articulação baseada na esfera econômica.
Reuniram-se em Cartagena, Colômbia, os chanceleres e ministros da econo-
mia da Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru,

Pro
República Dominicana, Uruguai e Venezuela para criar uma instância per-
manente destinada a discutir a problemática da dívida externa. Esse grupo
passou a ser conhecido como Consenso de Cartagena. Mesmo não havendo
conseguido uma ação conjunta na negociação da dívida, tornou-se mais um
exemplo de cooperação entre os países latino-americanos.
Mas o eixo central da integração da América do Sul seria a aproximação
entre Brasil e Argentina. O fator decisivo para essa aproximação foi o apoio
dado pelo governo brasileiro à Argentina por ocasião da Guerra das Malvi-
nas, quando a Argentina, ao tentar recuperar um território perdido para a In-
glaterra – Ilhas Malvinas –, foi por esta agredida militarmente, com o apoio
dos EUA, o qual, ao tomar essa atitude, rasgou o TIAR.
Essa atitude contribuiu para a retomada da cooperação econômica entre
os dois países, culminando com a formação do Mercado Comum do Sul –
MERCOSUL.
O antecedente mais imediato da formação desse bloco foi a Ata de Inte-
gração Brasil-Argentina firmada em 1986 entre os presidentes José Sarney
(Brasil) e Raúl Alfonsin (Argentina). Os dois foram os primeiros presidentes
de seus países após o fim dos regimes ditatoriais. Essa Ata, ao criar o Progra-
ma de Integração e Cooperação Econômica (PICE), tinha um largo alcance
para a política de integração sul-americana. Quem descreveu muito bem
seus objetivos foi Moniz Bandeira:

A determinação com que Alfonsin e Sarney trataram de pro-


mover a integração econômica entre os dois países foi tanta
que em apenas um ano se encontraram três vezes (duas com a
participação do presidente do Uruguai, Julio Maria Sanguinet-

242 América Latina: olhares e perspectivas


ti). E seus esforços para construir o zollverein, a partir de um
projeto integrado de produção, comércio e desenvolvimento
tecnológico do setor de bens de capital, fornecimento de tri-
go, complementação do abastecimento alimentar e expansão
gradual, sustentada e equilibrada do comércio, com apoio à
exportação do país deficitário, visou possibilitar que o Brasil e
a Argentina alcançassem maior autonomia e independência em
relação ao mercado mundial, mediante crescente unificação de
seus espaços econômicos. A própria ênfase dada à integração
do setor de bens de capital, coração da indústria pesada e ma-
triz do desenvolvimento tecnológico, mostrou o propósito de
aumentar, particularmente, a capacidade de auto-sustentação
e autotransformação de suas economias, estabelecendo o ci-

ova
clo completo da reprodução ampliada do capital, de forma in-
dependente, com a unificação dos dois mercados. (Bandeira,
2003, p. 464-65)

O passo seguinte foi a assinatura, em 1988, do Tratado de Integração, Co-


operação e Desenvolvimento entre Brasil e Argentina. O objetivo era criar
“um espaço econômico comum, mediante a remoção gradual, em dez anos,
de todos os obstáculos tarifários e não-tarifários à circulação de bens e servi-
ços, bem como harmonizar e coordenar suas políticas aduaneira, monetária,
fiscal, cambial, agrícola e industrial” (PINTO, 2008, p. 131).
Foram assinados nessas duas oportunidades 24 protocolos sobre os temas
descritos acima. Eles foram consolidados no Acordo de Complementação
Econômica nº 14, assinado em dezembro de 1990, no âmbito da ALADI.
Esta foi a base para a criação do MERCOSUL.
Contraditoriamente, a proposta lançada em 1989 por George Bush, en-
tão presidente dos EUA, conhecida como Iniciativa para as Américas, que
visava conformar uma zona de livre comércio do Alasca à Terra do Fogo,
terminou acelerando o processo de integração na América do Sul.
Apesar de serem a favor da proposta estadunidense, os governantes sul-
-americanos da época19, orientados por seu corpo diplomático, preferiram
formar um bloco regional como forma de fortalecer sua posição na negocia-
ção com os EUA. E precisamente esse foi um dos critérios estabelecidos no
Tratado de Assunção que, em 26 de março de 1991, criou o MERCOSUL
para integrar o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai.

19 Particularmente, Fernando Collor de Mello no Brasil e Carlos Menem na Ar-


gentina.
América Latina: olhares e perspectivas 243
Os objetivos traçados foram os seguintes:

• livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos entre os países,


por intermédio, entre outros, da eliminação dos direitos alfandegá-
rios, de restrições tarifárias à circulação de mercadorias ou de qual-
quer medida de efeito equivalente;
• estabelecimento de uma tarifa externa comum (TEC), adoção de uma
política comercial comum em relação a terceiros Estados ou agrupa-
mentos de Estados e coordenação de posições em foros econômico-
-comerciais regionais e internacionais;
• coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais e outras – de

Pro
comércio exterior, agrícola, industrial, fiscal, monetária, cambial, de
capitais, de serviços, alfandegárias, de transporte e comunicação etc.
– que se viessem acordar, com a finalidade de assegurar condições
adequadas de concorrência entre os Estados-Partes;
• compromisso dos Estados-Partes de harmonizar suas legislações nas
áreas pertinentes para lograr o fortalecimento do processo de integra-
ção (Carvalho; Silva, 2002, p. 235).

O objetivo estratégico era constituir um mercado comum, mas os gover-


nantes optaram por atingir esse objetivo através de etapas, a começar por
uma Área de Livre Comércio, passando depois por uma União Aduaneira.
Assim, da assinatura do Tratado até 31 de dezembro de 1994, dever-se-
-ia viver a etapa de transição para uma Área de Livre Comércio. O objetivo
dessa etapa era remover os obstáculos tarifários e não-tarifários à livre cir-
culação de produtos.
Nessa etapa, a liberalização do comércio contou com duas estratégias:
• um programa de desgravação progressivo, linear e automático de for-
ma a atingir tarifa zero em 31 de dezembro de 1994; e
• eliminação progressiva das barreiras não-tarifárias ou de medidas de
efeito equivalente sobre o comércio recíproco (Ibid., p. 235).

Mas, como há o desnível no desenvolvimento dos países-membros, fo-


ram excluídos do cronograma de desgravação os produtos indicados nas
listas de exceções apresentadas por cada país. O número de itens, porém,
deveria diminuir à razão de 20% por ano até 31 de dezembro de 1994. Além
244 América Latina: olhares e perspectivas
disso, o Paraguai e o Uruguai tiveram um ano a mais de prazo para cumprir
esse cronograma.
A etapa seguinte seria a de transição para uma União Aduaneira. Em se-
tembro de 1990, os presidentes do Brasil e da Argentina assinaram a Ata de
Buenos Aires que estipulava a data de 1º de janeiro de 1995 para a entrada
em vigor da União Aduaneira.
Seu instrumento principal seria a tarifa externa comum (TEC). Assim,
em agosto de 1994, foi decidida em Buenos Aires a tarifa externa comum
para praticamente todo o universo tarifário, inclusive os produtos sensíveis.
Seu limite máximo foi estabelecido em 20%. Foi dado o prazo até 2001 para
a adaptação de cada país a esse teto, estendendo-se até 2006 no caso dos

ova
produtos de informática. O objetivo era que nesse ano, quando terminaria
o período de convergência ascendente ou descendente das tarifas nacionais
que ainda se encontravam em regime de exceção, a TEC estaria implemen-
tada para todo o universo tarifário (Ministério das Relações Exteriores,
25.11.2004).
Por se tratar de União Aduaneira, o conjunto da região teria que ser prote-
gido de produtos originados de outros países de fora de bloco. Daí a aprova-
ção do Regime Geral de Origem, que estabeleceu regras referentes à origem
das mercadorias comercializadas entre os países-membros. A regra básica
foi a de que, para receber o tratamento de produto regional, os produtos
contemplados por tarifas privilegiadas deveriam possuir percentual mínimo
de 60% de valor agregado regional.
Uma decisão importante, adotada no Protocolo de Ouro Preto, foi o reco-
nhecimento da personalidade jurídica de direito internacional do MERCO-
SUL. Esse reconhecimento atribui ao bloco econômico competência para
negociar, em nome próprio, acordos com terceiros países, grupos de países
e organismos internacionais.
No momento de sua conformação enquanto União Aduaneira, em 1995,
o MERCOSUL já representava um peso importante na economia mundial.
Com uma população de 201,9 milhões de habitantes e uma área territorial
de 11,86 milhões de quilômetros quadrados, o bloco produzia um PIB de
US$ 994,74 bilhões, o que dava um PNB per capita de US$ 4.380,00. O
peso da indústria na economia regional era de 35% e o grau de urbanização,
de 79% (Carvalho; Silva, 2002, p. 239, quadro 12.4). Como agrupamento
econômico, o MERCOSUL constituía o quarto maior mercado consumidor
do mundo, depois do NAFTA, União Europeia e Japão. Seu setor industrial
é um dos mais importantes dentre os países em desenvolvimento.
América Latina: olhares e perspectivas 245
No entanto, o MERCOSUL começou a ser implementado num período
(década de 1990) em que o Consenso de Washington e o neoliberalismo,
com seu postulado de livre comércio, começaram a orientar as políticas eco-
nômicas da região. Isso alterou em grande medida os objetivos iniciais.
Concebido na década anterior pelos presidentes Sarney e Alfonsin como
instrumento de desenvolvimento autônomo da região, com base em parce-
rias produtivas, particularmente nas áreas de bens de capital e tecnologias
avançadas, converteu-se, nas mãos de Fernando Collor de Mello e Carlos
Menem, num bloco que passou a priorizar o livre comércio.
Neste caso, “ao lado da redução das tarifas internas, também reduzia-se
a chamada tarifa externa comum (TEC) e se valorizavam as moedas locais,

Pro
em verdadeiro subsídio aos produtos estrangeiros” (Souza, 2001, p. 107).
Registre-se que, no momento em que o MERCOSUL se converteu em União
Aduaneira, em 1995, estabeleceu-se uma TEC baixíssima para os padrões da
época: 12,3% (Bandeira, 2004, p. 80)
Daí decorreram dois problemas:

• a redução da TEC provocou um violento aumento das importações da


região, oriundas sobretudo dos EUA20, gerando déficits nas balanças
comerciais e comprometendo seriamente o setor produtivo da região,
incapaz de concorrer com produção importada subsidiada, acarretan-
do, como consequência, o aumento do desemprego;

• a redução indiscriminada, sem planejamento estratégico, das tarifas


entre os países-membros provocou o sucateamento de setores mais
débeis dos países menos desenvolvidos da região; essa situação se
agravou depois da desvalorização da moeda brasileira em 1999.

O ministro da Economia da Argentina, Domingo Caballo, que retornara


ao governo durante a crise que afetou o país21, tentou utilizar esse fato para
adotar medidas que, na prática, comprometiam a existência do MERCO-
SUL. No entanto, apesar desses problemas, se formos examinar o MER-

20 Conforme o Departamento de Comércio dos EUA, as exportações estaduniden-


ses para o conjunto da América do Sul praticamente duplicaram de 1991 para
1995, passando de US$ 15,9 bilhões para US$ 28 bilhões (Souza, 2001, p. 107).
21 Caballo fora ministro de Menem e reassumiu a função durante o governo de
Fernando De La Rua.
246 América Latina: olhares e perspectivas
COSUL do ponto de vista das correntes de comércio intra-regional22 e das
negociações internacionais, o bloco regional tem tido grande sucesso.
As trocas entre o Brasil e os demais membros do MERCOSUL aumenta-
ram de US$ 3,6 bilhões em 1990 para US$ 18,5 bilhões em 1997. Houve um
revés a partir de então porque combinou-se a crise argentina com a desvalo-
rização do real brasileiro23, e assim o comércio intra-regional baixou para
US$ 8,9 bilhões em 2002. Mas, dali em diante, com a retomada do cresci-
mento argentino24 e a decisão do governo brasileiro de recolocar no cen-
tro da sua política exterior a integração regional, o comércio intra-regional
voltou a crescer: em 2008, a corrente de comércio entre o Brasil e os outros
países do MERCOSUL já havia atingido US$ 36,7 bilhões (MDIC-SECEX,

ova
06.01.2009).
No final dos anos de 1990, o bloco já era o principal mercado para as ex-
portações brasileiras de manufaturados: na faixa de 28% em 1997-98, contra
22,5% para os EUA.
No entanto, manifestam-se nesse intercâmbio dois problemas, que po-
dem afetar o processo de integração:
• há uma divisão do trabalho em que o Brasil é o principal beneficiário:
exporta principalmente produtos industriais e importa preferencial-
mente produtos primários;
• o Brasil vem sendo crescentemente superavitário: seu superávit co-
mercial em relação aos demais países do MERCOSUL subiu de US$
2,5 bilhões em 2004 para US$ 6,8 bilhões em 2008 (Ibid.).

Assim, além da invasão indiscriminada de produtos oriundos de fora da


região, resultante dos processos de abertura comercial da época, os países
mais frágeis ainda eram vítimas da invasão de produtos fabricados no Brasil.
Esse processo, portanto, beneficiou, sobretudo, às transnacionais, instaladas
ou não na região, e aos grandes grupos empresariais brasileiros.
O MERCOSUL, por sua vez, agiu como bloco em várias negociações
internacionais, a saber:

22 Soma de exportações e importações.


23 A crise argentina debilitou sua capacidade de absorver produtos brasileiros, en-
quanto a desvalorização do real tornou os produtos argentinos mais caros no
Brasil.
24 O PIB argentino, de 2003 a 2006, cresceu a uma taxa média anual de 9% (PIB
ARGENTINO, 27.07.2006).
América Latina: olhares e perspectivas 247
a) negociação de Acordos de Livre Comércio entre MERCOSUL e os
demais membros da Aladi;
b) implementação do Acordo-Quadro-Regional de Cooperação Econô-
mica e Comercial, firmado em dezembro de 1995 entre o MERCOSUL
e a União Europeia;
c) a coordenação de posições no âmbito das negociações com vistas à
formação da área hemisférica de livre comércio (Oliveira, 2005, p. 25).

Além disso, no período recente, o bloco regional tem buscado superar a


prática inicial que concentrava a integração na esfera comercial. Passou a
abarcar áreas como a coordenação de políticas externas, a cooperação em

Pro
matéria de segurança internacional, de assuntos judiciários e de educação.
Assim,
[...] a integração comercial propiciada pelo MERCOSUL tam-
bém favoreceu a implantação de realizações nos mais diferen-
tes setores, como a educação, justiça, cultura, transportes, ener-
gia, meio ambiente e agricultura. Neste sentido, vários acordos
foram firmados, incluindo desde o reconhecimento de títulos
universitários e a revalidação de diplomas até, entre outros,
o estabelecimento de protocolos de assistência mútua em as-
suntos penais e a criação de um ‘selo cultural’ para promover
a cooperação, o intercâmbio e a maior facilidade no trânsito
adua­neiro de bens culturais. (Oliveira, 2005, p. 25)

Acrescente-se o Acordo sobre o “Visto MERCOSUL”, que confere trata-


mento preferencial e privilegiado aos cidadãos do MERCOSUL na legaliza-
ção da prestação de serviços nos Estados-Partes.
Para dar prosseguimento à implementação do bloco, o presidente bra-
sileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, propôs aos demais membros, durante a
Cúpula do MERCOSUL de junho de 2003, em Assunção, Paraguai, as linhas
gerais do programa “Objetivo 2006”, que visava garantir a consolidação da
União Aduaneira até 2006, a fim de abrir o caminho para o ingresso na etapa
do Mercado Comum.
Em 2006, o bloco foi fortalecido com o pedido de ingresso como membro
pleno por parte da Venezuela25. Bolívia e Chile já haviam se integrado como
membros associados.
25 Só em 2008, esse ingresso foi aprovado pela Câmara de Deputados do Brasil,
sendo posteriormente aprovado pelo Senado.
248 América Latina: olhares e perspectivas
Enquanto isso, o Pacto Andino sofreu sério revés. Na fase inicial do blo-
co, nos anos de 1970, a economia regional fortaleceu-se com a industriali-
zação por substituição de importações, quando “o Estado e a planificação
tiveram muita importância” (Gaite, 2010, p. 177), mas, com o impacto da
crise mundial, “a década de oitenta foi tanto para os países andinos como
para a integração andina uma década perdida” (Ibid., 177). Foi nesse quadro
que, em 1989, sob a pressão e a influência dos programas neoliberais imple-
mentados na região, decidiu-se transitar do antigo regionalismo cepalino,
baseado em proteção externa, para o regionalismo aberto, também sistema-
tizado pela Cepal.
Foi sob essa onda neoliberal que o bloco andino ingressou na segunda

ova
etapa do processo de integração, a União Aduaneira, que teve início em
1995, quando entrou em vigência a tarifa externa comum (TEC). Colôm-
bia, Equador e Venezuela acordaram tarifas de 5, 10, 15 e 20%, a depender
do produto; a Bolívia, com tratamento preferencial, passou a praticar dois
níveis tarifários: 5 e 10% (Comunidade Andina, 08.03.2005). O Peru não
assinou esse acordo. O bloco receberia o nome de Comunidade Andina de
Nações (CAN) com a assinatura do Protocolo de Trujillo (Peru) em 199626.
Os principais objetivos definidos foram:
a) promover um desenvolvimento equilibrado e harmônico entre os paí­
ses membros em condições de equidade, acelerar o crescimento por
meio da integração e da cooperação econômica e social;
b) impulsionar a participação no processo de integração regional, com
vistas à formação gradual de um mercado comum da América Latina,
e procurar melhorar as condições de vida de seus habitantes (Comu-
nidade Andina, 05.02.2005).

Esses objetivos, no entanto, foram comprometidos pela baixíssima TEC


adotada, a qual, ao não garantir a proteção externa da incipiente indústria,
aprofundou a desindustrialização das economias da região iniciada na década
perdida. O bloco, ao mesmo tempo, começou a fragmentar-se. Até recente-
mente, vinha negociando em conjunto suas relações com outros blocos eco-
nômicos, como MERCOSUL, União Europeia, Nafta, Apec e Assean (CO-

26 A CAN, à época em que se converteu em União Aduaneira, possuía um PIB de


US$ 273 bilhões e uma população de mais de 117 milhões de habitantes, com
PIB per capita de US$ 2.333.
América Latina: olhares e perspectivas 249
MUNIDADE ANDINA, 10.03.2005). No entanto, depois de 2004, com o
fracasso do projeto da ALCA, alguns países da CAN deixaram-se influenciar
pela ofensiva do governo dos EUA na região. Como o projeto da ALCA não
prosperou, como veremos adiante, a tática da administração estadunidense
passou a ser a de promover acordos bilaterais com os países latino-america-
nos. O fato do Equador27, o Peru e a Colômbia terem assinado esses acordos
levou a Venezuela a retirar-se da CAN e integrar-se ao MERCOSUL.
Indicamos no começo desta seção que a emergência de nova crise estru-
tural mundial na virada da década de 1960 para a de 1970, acompanhada do
declínio da economia dos EUA, favoreceu a retomada das iniciativas de in-
tegração na América Latino. Vale agora registrar que as estratégias adotadas,

Pro
desde a década de 1980, pelo governo dos Estados Unidos para enfrentar sua
própria crise interferiram profundamente no processo de integração e desen-
volvimento da América Latina. Mas, desta vez, ao contrário das anteriores,
não conseguiram impedir ou mesmo bloquear o processo de integração re-
gional, ainda que tenham contribuído para modificar sua natureza. Conjetu-
ramos que isso se deve ao declínio da economia estadunidense.
Destacam-se nesta seção duas dessas estratégias. A primeira delas é a
Reaganomics, implementada ao longo da década de 1980. A elevação das
taxas de juros praticadas nos EUA e a pressão pela redução dos preços das
matérias exportadas pelos países da periferia encontram-se entre as medidas
que acarretaram forte impacto nos países subdesenvolvidos e, por conse-
guinte, na América Latina.

A combinação da remessa de juros para pagamento da dívida


externa com a deterioração dos termos de intercâmbio se ma-
nifestou num forte agravamento das contas externas dos países
dependentes. Ou seja, o aumento dos juros, dos preços dos pro-
dutos importados e das remessas de lucro elevou as despesas
em moeda forte, enquanto a queda dos preços dos produtos que
exportavam diminuía suas receitas cambiais, ampliando o défi-
cit nas contas externas. (Souza, 2009, p. 114)

O impacto dessa crise teve um efeito contraditório na América Latina:


ao mesmo tempo em que a maioria dos governos da região se submetia ao
receituário do FMI, como forma de reunir os recursos para o pagamento dos
encargos financeiros da dívida externa e, por conseguinte, concentrava-se na
27 O Equador voltou atrás com a mudança de governo em 2007.
250 América Latina: olhares e perspectivas
adoção de medidas previstas nesse receituário28, realizava-se um processo
de aproximação entre os vários países como forma de defender-se da crise,
favorecendo a integração regional. Assinalamos as ações de 1983 a 1986,
que levaram à formação do Grupo de Apoio a Contadora, do Consenso de
Cartagena e do Grupo do Rio. Segundo Luiz Pinto, “foi esse Grupo que
promoveu, em 1988, no México, a primeira reunião da história entre todos
os chefes de Estado latino-americanos sem a presença dos Estados Unidos”
(PINTO, 2008, p. 129. In: Silva, 2008). Foi nesse contexto que, com a re-
democratização de Brasil e Argentina, foram retomadas, com os acordos de
1986 e 1988, as iniciativas integracionistas que culminaram com a criação
do MERCOSUL em 1991.

ova
A segunda estratégia estadunidense para enfrentar a crise foi deflagrada
ainda no governo de George Bush, em 1989, com o Consenso de Washing-
ton, mas foi implementada, ao longo da década de 1990 e começo da de
2000, pelos governos de Bill Clinton e de George W. Bush. Sob patrocínio
do Instituto Internacional de Economia, reuniu-se em Washington “um gru-
po de acadêmicos e executivos do governo e das empresas transnacionais
estadunidenses, bem como do FMI, do Banco Mundial e de grandes grupos
financeiros, com o objetivo de analisar o panorama mundial e propor alterna-
tivas para as dificuldades econômicas enfrentadas pela economia mundial”
(SOUZA, 2009, p. 123). Dentre outras “recomendações” do “Consenso”,
destacam-se a abertura econômica, isto é, o fim das barreiras protecionistas,
e a desestatização, ou seja, a privatização de empresas estatais. Era a con-
versão em programa da ideologia neoliberal, “que prega a retirada do Estado
da economia e a regulação econômica por meio do mercado” (Ibid., 124).

O objetivo imediato do governo dos EUA com o Consenso de


Washington era, de um lado, encontrar mercados para os pro-
dutos e capitais excedentes das transnacionais estadunidenses
e, de outro, suprir-se de força de trabalho e de matérias-primas
baratas a fim de melhorar sua capacidade de competir no mer-
cado internacional (Ibid., 125).

Sem exigir qualquer contrapartida, os países latino-americanos, sob pres-


são do FMI, do Banco Mundial e do governo dos EUA, foram aderindo um
a um ao ideário do Consenso. Segundo a CEPAL, a tarifa média de impor-
28 Destacam-se a elevação da taxa de juros e o corte no crédito, no salário real e
no gasto público.
América Latina: olhares e perspectivas 251
tação na região caiu de algo em torno de 40% para menos de 15% (CEPAL,
1996). “Ao mesmo tempo, avançou bastante o processo de privatização de
empresas estatais da região, com destaque par os setores de minérios, petró-
leo, aço, energia e telecomunicações” (SOUZA, 2009, p. 129). Com a aber-
tura comercial, as exportações dos EUA para a América Latina cresceram,
na fase inicial, de 1987 a 1994, de US$ 35 bilhões para US$ 92,6 bilhões
(Ibid., 128).
Contraditoriamente, foi exatamente nesse período que avançou o pro-
cesso de integração na América do Sul: enquanto o MERCOSUL, que se
formara em 1991 como área de livre comércio, se transformava em união
aduaneira em 1995, o Pacto Andino, que em 1996 transformou-se em Co-

Pro
munidade Andina de Nações, constituíra uma união aduaneira em 1995. Mas
ambos os blocos retrocederam em relação à concepção original (presente
no Pacto Andino quando da sua criação em 1969 e no MERCOSUL na fase
dos acordos de 1986 e 1988): em lugar da integração produtiva prevista nos
acordos iniciais, privilegiou-se a integração comercial; em lugar da união
aduaneira com proteção externa à produção regional, praticou-se o “regio-
nalismo aberto”. Em consequência, se considerarmos o conjunto da América
do Sul, as exportações estadunidenses quase dobraram de 1991 para 1995,
passando de US$ 15,9 bilhões para US$ 28 bilhões (Ibid., 130, nota 22).
Esse processo foi teorizado pela CEPAL. Numa mudança em relação à
sua visão histórica, passou, na década de 1990, a defender o “regionalismo
aberto”, que definia como

(...) um processo de crescente interdependência no nível regio-


nal promovida por acordos preferenciais de integração e por
outras políticas, num contexto de liberalização e desregulação
capaz de fortalecer a competitividade dos países da região e,
na medida do possível, constituir a formação de blocos para
uma economia internacional mais aberta e transporte. (CEPAL,
1994)

Para o economista Gentil Corazza, o “regionalismo aberto” procura con-


ciliar dois fenômenos: a crescente interdependência regional resultante dos
acordos preferenciais e a tendência do mercado em promover a liberalização
comercial. Ele quer conciliar as políticas de integração regional com as po-
líticas que visem promover a competitividade internacional. Ou, ainda, pro-
cura combinar a liberalização comercial entre os parceiros do bloco regional
252 América Latina: olhares e perspectivas
com política de liberalização em relação a terceiros países, ou seja, como
acentuam seus autores, num contexto de regionalismo aberto, os acordos de
integração devem servir como mecanismo para a adoção das regras interna-
cionais (Corazza, maio 2006, p. 145).

4a onda: emergência de governos progressistas e fracasso da ALCA


abrem nova era na integração latino-americana
A quarta e última onda deflagra-se na virada da década de 1990 para a
de 2000 e vigora até os dias de hoje. O ponto de inflexão foi a constituição
de governos progressistas na América do Sul. Como assinalamos anterior-
mente, a ação dos EUA não conseguiu bloquear o processo de integração

ova
latino-americano no período anterior, mas o moldou segundo os interesses
de suas corporações, ao provocar a ênfase nas relações de comércio e no
regionalismo aberto.
Por outro lado, a adoção na região das políticas neoliberais do Consenso
de Washington acarretou sérios problemas econômicos e sociais29, engen-
drando um movimento de contestação social e política que resultou na mu-
dança de governos em vários países da América do Sul. Assumiram o gover-
no correntes políticas que haviam contestado a onda neoliberal. O processo
deflagrou-se em 1999 com a vitória de Hugo Chávez na Venezuela, que car-
regava consigo a doutrina integracionista bolivariana; em 2003, assumiu o
governo do Brasil o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o qual estabeleceu
como prioridade de sua política externa o processo de integração da América
do Sul; no mesmo ano, o presidente Néstor Kirchner assumiu o governo da
Argentina, depois de uma profunda crise provocada pela combinação entre a
abertura comercial e o engessamento do câmbio, o que o levou a optar pelo
caminho da integração (Souza, 2008, p. 311. In: Silva, 2008).
Contraditoriamente, como examinaremos a seguir, a onda neoliberal que,
num primeiro momento, contribuiu para enquadrar o processo de integração
latino-americana nos marcos do livre comércio e do regionalismo aberto,
terminou favorecendo a busca de caminhos mais profundos de integração,
ao criar as condições (crises econômicas e sociais recorrentes) que levaram

29 “Além da desnacionalização e da desindustrialização, o aumento do endivi-


damento externo foi outra consequência desse processo de avanço econômico
externo na América Latina na década de 1990” (SOUZA, 2009: 129). “Segundo
a Cepal, a dívida externa da região aumentou de US$ 500 bilhões em 1992 para
US$ 800 bilhões em 2000” (Ibid., 129, nota 20).
América Latina: olhares e perspectivas 253
à constituição de governos progressistas na região. O momento decisivo,
que abriu um novo processo de integração regional, foi o fracasso do projeto
estadunidense de criar a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).
Tratava-se da terceira grande estratégia do governo dos EUA na busca de
superação da crise estrutural.
Dando sequência à proposta de Bush designada de “Iniciativa para as
Américas”, o projeto de criação da ALCA foi lançado pelo presidente Bill
Clinton em dezembro de 1994, durante a Cúpula das Américas, em Miami,
com a presença de representantes de 34 países do continente americano –
desde o início, o governo dos EUA exigiu a exclusão de Cuba. Segundo
Moniz Bandeira, o projeto da ALCA seria a revivificação, como corolário

Pro
econômico e comercial, da doutrina Monroe, que propugnava “a América
para os Americanos” (BANDEIRA, 2004, p. 119). A posição dos EUA em
relação a esse projeto estava clara desde o início. Segundo Paulo Nogueira
Batista Jr,
A agenda de negociações, formulada basicamente pelos Esta-
dos Unidos, inclui não só a remoção de obstáculos ao comér-
cio de bens, mas a fixação de regras comuns para temas como
serviços, investimentos, compras governamentais, propriedade
intelectual, entre outros. Até o final de 2002, essa agenda não
sofreu grandes contestações na mesa de negociações. (Batista
Jr, 2005, p. 75)

Como afirma Batista Jr, até 2002 a agenda estadunidense para a ALCA
não sofreu grandes contestações por parte dos governos latino-americanos.
No entanto, com a mudança de governo em 2003 na Argentina e no Bra-
sil, somando-se à mudança ocorrida na Venezuela em 1999, a lógica das
negociações sofreu forte alteração. A diplomacia brasileira cumpriu papel
decisivo nesse processo. Antes disso, estudos do IPEA, da FIESP, de pes-
quisadores da UNICAMP, da Secretaria da Receita Federal do Brasil e da
ALADI indicavam que a implementação da ALCA traria “mais ameaças que
oportunidades para o Brasil” (Souza, 2008, p. 284-285. In: Silva, 2008).
Lula, durante a campanha eleitoral de 2002, havia dito que a ALCA não
era uma proposta de integração, “mas uma política de anexação, e nosso
país não será anexado” (Folha de São Paulo, 24.09.2002). Apesar disso, o
governo Lula não suspendeu as negociações da ALCA, mas decidiu que
participaria delas defendendo os interesses nacionais “de maneira objetiva,
realista e propositiva” (Silva, 10.12.2002). A nova orientação indicava que,
254 América Latina: olhares e perspectivas
ao invés de deixar as negociações prosseguirem dentro da agenda dos EUA,
dever-se-ia desde o início explicitar e resolver as principais controvérsias.
As negociações só continuariam à medida que essas controvérsias fossem
sendo resolvidas. Segundo Batista Jr,
A essência da posição que o governo brasileiro passou a ado-
tar pode ser resumida da seguinte maneira. Os Estados Unidos
insistem em excluir da ALCA, completa ou quase completa-
mente, temas que o Brasil sempre considerou de importância
fundamental, notadamente agricultura e antidumping. Em tese,
Washington pretende tratá-los no âmbito multilateral. Se é as-
sim, o Brasil também se sente no direito de transferir para a
OMC, no todo ou em parte, questões problemáticas para o país,

ova
tais como serviços, investimentos, compras governamentais e
propriedade intelectual. (Batista Jr., 2005, p. 123)

Esse posicionamento brasileiro foi assumido pelo conjunto do MERCO-


SUL e pela Venezuela já na reunião preparatória de outubro de 2003, em
Port-of-Spain, Trinidad & Tobago, quando se esboçou proposta para uma
nova agenda da ALCA, a ser discutida na reunião ministerial de novembro
daquele ano, em Miami. Nessa reunião, os negociadores dos EUA acusaram
o golpe. Reagindo de forma muito dura, acusaram o Brasil e a Argentina de
sabotarem a ALCA (Souza, 2008, p. 298. In: Silva et al., 2008). Na verdade,
os governos desses países estavam adotando uma postura autônoma diante
da postura estadunidense de impor regras que beneficiavam os interesses de
suas corporações – sobretudo nas áreas de serviços, investimentos, compras
governamentais e propriedade intelectual –, mas não admitiam discutir te-
mas propostos pelos governos latino-americanos – como subsídios agríco-
las, leis antidumping e direitos compensatórios.
Apesar da reação inicial, os representantes dos EUA aceitaram negociar
uma proposta intermediária brasileira, conhecida como “ALCA light”, cujo
ponto central implicava que os países poderiam assumir diferentes níveis de
compromisso em relação aos acordos da ALCA (Batista, 2005, p.126). Mas
foi apenas um recuo tático, pois, na reunião seguinte, realizada em fevereiro
de 2004 em Puebla, México, a representação estadunidense, respaldada por
representantes de 13 países latino-americanos30, recolocou a proposta origi-
nal de “ALCA abrangente”. Sua proposta básica consistia em dois pontos: a)

30 Os quais já haviam realizado ou estavam em processo de realização de acordos


comerciais bilaterais com os EUA (Batista Jr., 2005, p. 241).
América Latina: olhares e perspectivas 255
os países que relutassem em aceitar o formato original da ALCA deveriam
receber menos concessões em termos de abertura do mercado de bens; b)
eventuais concessões em termos de supressão de barreiras comerciais não-
-tarifárias nos EUA estariam condicionadas à anuência, por parte do MER-
COSUL, com as normas propostas pelos EUA em termos de investimento,
serviços, compras governamentais e propriedade intelectual.
O MERCOSUL não aceitou as tentativas de imposição, cristalizando-se
o impasse. Segundo Batista Jr, “a própria viabilidade de um acordo começou
a ser posta em dúvida” (Batista Jr., 2005, p. 130). A mesma opinião foi mani-
festada por Moniz Bandeira: “Com efeito, a reunião de Puebla terminou em
um fiasco, como a de Cancun e Trinidad & Tobago, e as negociações sobre

Pro
a ALCA chegaram a um impasse, difícil de superar até 2005, prazo para o
seu encerramento” (Bandeira, 2004, p. 353). O presidente Bush ainda tentou
discutir o tema na Cúpula das Américas, realizada em 2005 em Mar Del
Plata, Argentina, mas os países do MERCOSUL sequer aceitaram colocar
o tema na pauta. Foi o enterro da ALCA, como declarou à época o presi-
dente Hugo Chávez. O mesmo MERCOSUL, que fora moldado nos termos
do programa neoliberal, foi utilizado, em mãos de governos progressistas,
como instrumento para barrar o expansionismo estadunidense, disfarçado de
integração continental.
Em oposição ao projeto da ALCA, começara-se a conceber na América
Latina dois projetos alternativos de integração da região. Com o fracasso da
ALCA, produto do declínio econômico e político dos EUA e dos avanços
das lutas dos povos da América Latina, fortaleceram-se ainda mais esses dois
novos caminhos para a integração latino-americana, e acrescentou-se outro,
ainda mais abrangente. Referimo-nos à União das Nações Sul-Americanas
(UNASUL), a Aliança Bolivariana dos Povos de Nossa América (ALBA)
e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC).
Desde a origem, esses projetos procuraram superar as formas tradicionais
de integração baseadas apenas no comércio e se colocaram como objetivo a
integração produtiva e físico-energética, além da integração social, política
e cultural.
A UNASUL, que nasceu como Comunidade Sul-Americana de Nações,
inicialmente com a sigla provisória de CSN e depois de Casa, foi lançada
pela diplomacia brasileira por ocasião da terceira Reunião de Presidentes da
América do Sul, em 2004, na cidade de Cuzco (Peru) (MRE, 08.12.2004).
Fora idealizada durante o governo Itamar Franco (1992-1994), quando o
256 América Latina: olhares e perspectivas
embaixador Celso Amorim era chanceler, época em que recebera a designa-
ção de Área de Livre Comércio Sul-Americana (ALCSA). Mas, até chegar à
concretização efetiva da proposta, percorreu um longo caminho.
Entre o fim do governo Itamar e o começo do de Lula, o projeto pratica-
mente não avançou. Durante os oito anos do governo Fernando Henrique,
ainda que hajam ocorrido vários eventos sobre o tema, a diplomacia brasi-
leira não deu prioridade à integração sul-americana. Aquele governo utili-
zava esses eventos apenas como instrumento de barganha no contexto das
negociações sobre a ALCA. Várias reuniões foram realizadas e nelas várias
vezes foi decidida a criação de uma Área de Livre Comércio entre a CAN
e o MERCOSUL, mas essas decisões não saíram do papel. A concretização

ova
efetiva da fusão entre os dois blocos foi colocada na prioridade da políti-
ca externa brasileira a partir do governo Lula, quando o embaixador Celso
Amorim reassumiu a frente da diplomacia brasileira.
Assim, em dezembro de 2003, os governos dos países integrantes dos
dois blocos assinaram um Acordo de Complementação Econômica com o
objetivo de integrá-los num único bloco, incluindo o Chile, a Guiana e o
Suriname, que não integravam qualquer dos agrupamentos sub-regionais.
Mas os acordos visando à criação do novo bloco regional, a Comunidade
Sul-Americana de Nações, só seriam formalizados em dezembro de 2004
em Cuzco (Peru), com seu desenho final sendo aprovado pela I Cúpula da
Comunidade Sul-Americana de Nações, realizada nos dias 29 e 30 de setem-
bro de 2005 em Brasília (Brasil). Nessa última reunião, o bloco passaria a se
chamar União das Nações Sul-Americanas (UNASUL)31. Mas sua criação
definitiva só ocorreria a 23 de maio de 2008 em Brasília, mediante tratado
assinado por representantes dos 12 países integrantes, o qual ainda necessita
ser ratificado pelos congressos nacionais. Ademais, o presidente equatoria-
no, Rafael Correa, aproveitou o período de sua presidência temporária da
UNASUL, a partir de agosto de 2010, para acelerar o processo de formaliza-
ção e construção real do bloco. Foi assim que impulsionou a constituição de
sua Secretaria Geral, que passou a ser ocupada pelo ex-presidente argentino,

31 São 12 os países que passaram a integrar o novo bloco: Brasil, Argentina, Uruguai
e Paraguai pelo MERCOSUL; Bolívia, Equador, Colômbia, Peru e Venezuela
pela CAN; mais o Chile, Guiana e Suriname. Na época da sua constituição,
reuniam 382,43 milhões de habitantes, num território de 17.715.335 km2, e
geravam um PIB de aproximadamente US$ 3,9 trilhões.
América Latina: olhares e perspectivas 257
Néstor Kirchner.32 Declarou, no momento de sua posse, que tentaria conver-
ter a UNASUL em organização de estados latino-americanos para a qual o
MERCOSUL e a Comunidade Andina de Nações deveriam convergir.
O objetivo não é apenas formar uma Área de Livre Comércio, como se
esboçara nas negociações anteriores. Nas discussões, o governo da Vene-
zuela insistiu que a integração meramente pelo comércio poderia significar
desintegração, à medida que, na concorrência, os países mais frágeis sairiam
perdendo. Por isso, o eixo deveria ser a realização de parcerias produtivas
e na área de infraestrutura – particularmente em energia – como forma de
desenvolver o conjunto da região e fortalecê-la no cenário internacional. O
critério básico seria a cooperação, e não a competição.

Pro
No texto de Cuzco que formalizou a criação da Comunidade, estão esta-
belecidas as razões para a tomada dessa importante decisão:

A história compartilhada e solidária de nossas nações, que des-


de as façanhas da independência têm enfrentado desafios inter-
nos e externos comuns, demonstra que nossos países possuem
potencialidades ainda não aproveitadas tanto para utilizar me-
lhor suas aptidões regionais quanto para fortalecer as capacida-
des de negociação e projeção internacionais;
O pensamento político e filosófico nascido de sua tradição,
que, reconhecendo a primazia do ser humano, de sua dignidade
e direitos, a pluralidade de povos e culturas, consolidou uma
identidade sul-americana compartilhada e valores comuns, tais
como: a democracia, a solidariedade, os direitos humanos, a
liberdade, a justiça social, o respeito à integridade territorial e
à diversidade, a não discriminação e a afirmação da sua auto-
nomia, a igualdade soberana dos Estados e a solução pacífica
de controvérsias;
A convergência de seus interesses políticos, econômicos, so-
ciais, culturais e de segurança, como um fator potencial de
fortalecimento e desenvolvimento e suas capacidades internas
para sua melhor inserção internacional;
A convicção de que o acesso a melhores níveis de vida de seus
povos e à promoção do desenvolvimento econômico não pode
reduzir-se somente a políticas de crescimento sustentável da
economia, mas compreender também estratégias que, junta-
mente com uma consciência ambiental responsável e o reco-
nhecimento das assimetrias no desenvolvimento de seus países,

32 Kirchner faleceria pouco depois.


258 América Latina: olhares e perspectivas
assegurem uma distribuição de renda mais justa e equitativa,
o acesso à educação, a coesão e a inclusão social, bem como
a preservação do meio ambiente e a promoção do desenvolvi-
mento sustentável. (MRE, 08.12.2004)

Em outra parte do documento, fica igualmente evidente que o projeto


pretende ir além de uma Área de Livre Comércio:

O aprofundamento da convergência entre o MERCOSUL, a Co-


munidade Andina e o Chile, através do aprimoramento da zona
de livre comércio, apoiando-se, no que for pertinente, na Reso-
lução 59 do XIII Conselho de Ministros da ALADI, de 18 de ou-

ova
tubro de 2004, e sua evolução a fases superiores da integração
econômica, social e institucional. Os Governos do Suriname e
Guiana se associarão a este processo, sem prejuízo de suas obri-
gações sob o Tratado revisado de Chaguaramas (Ibid.).

As dificuldades da integração física foram vistas, desde o início, como


uma questão fundamental a ser enfrentada. Apesar de existirem importantes
corredores estratégicos, como o Eixo MERCOSUL-Chile, o Eixo Colômbia-
-Venezuela, o Eixo fluvial Paraguai-Paraná e o eixo marítimo do Atlântico
e Pacífico, a infraestrutura de comunicação intra-regional é de baixa quali-
dade. Daí que, entre as decisões adotadas, está a incorporação da Iniciativa
para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana aos acordos da
UNASUL (IIRSA) (Araújo, 2004, p. 370). A IIRSA, formulada originalmen-
te em 2000, quando prevaleciam na região os governos de índole neoliberal,
é vista com certa reserva, à medida que foi moldada muito mais como um
conjunto de corredores de exportação do que como infraestrutura para a
integração regional. No contexto da UNASUL, ela teria que ser modificada.
O outro bloco em desenvolvimento na região com propostas diferentes
das dos blocos tradicionais é a ALBA. Reúne países da América do Sul
(Venezuela e Bolívia), da América Central (Nicarágua e Honduras) e Caribe
(Cuba, São Vicente e Granadinas, Dominica, Antigua e Barbuda). Proposta
originalmente apresentada por iniciativa do governo da Venezuela em 2004,
a ALBA surgiu em 2005 em oposição à proposta estadunidense de criação
da Área de Livre Comércio das Américas – ALCA. Os acordos iniciais para
implementação do bloco foram firmados em Havana, nos dias 27 e 28 de
abril de 2005, entre os presidentes Fidel Castro e Hugo Chávez.

América Latina: olhares e perspectivas 259


Assim, foi formada inicialmente entre Venezuela e Cuba. De um lado, a
Venezuela garantia o suprimento de petróleo subsidiado a Cuba; de outro,
médicos, educadores e cientistas cubanos ajudavam nos programas de saú-
de, educação e desenvolvimento tecnológico da Venezuela.
Com a denominação inicial de Alternativa Bolivariana para as Américas,
transformou-se em outubro de 2009, por ocasião da VII Cúpula da ALBA,
realizada em Cochabamba, Bolívia, em Aliança Bolivariana para os Povos
de Nossa América. Ademais, constituiu como um dos seus instrumentos de
integração o Tratado de Comércio dos Povos (TCP). O Equador, que estava
fora da ALBA, assinou a Declaração de 2009, aderindo a seus princípios
(DECLARACIÓN, 17.10.2009).

Pro
Há seis princípios fundamentais na formulação da ALBA: complementa-
ridade, cooperação, solidariedade, respeito à soberania dos países, justiça e
equidade. Ou seja, o objetivo é promover a integração por meio da coopera-
ção, e não da competição. Por outro lado, o objetivo não é apenas viabilizar
o desenvolvimento econômico, mas igualmente o desenvolvimento social,
político e cultural (Ibid.).
Na VII Cúpula, aprovou-se um ambicioso programa de integração. Des-
tacam-se as seguintes deliberações:
• criação do Sistema Unitário de Compensação Regional de Pagamentos
(SUCRE), como caminho para instituir uma moeda regional; estabeleci-
mento de um grupo de trabalho para avaliar diferentes alternativas para
a criação de um mecanismo de manejo das reservas internacionais, que
teria a denominação de “Fundo de Reservas de ALBA-TCP”.
• o estabelecimento do princípio de que o Tratado de Comércio dos Povos
deveria ser regido pela complementaridade, a solidariedade e a coope-
ração; para isso, foi criado o Conselho de Complementação Econômica
e uma empresa grannacional de exportação e importação; além disso, o
fomento à criação de empresas grannacionais em vários setores (energia,
ferro, aço, prospecção geológica, mineração, metalurgia, alumínio, pro-
cessamento de alimentos, turismo), como forma de maximizar as capaci-
dade e garantir a complementaridade com vistas à integração produtiva;
• na área social, foi ratificado o projeto grannacional já em andamento de
alfabetização, pós-alfabetização e saúde; o desenvolvimento de projetos
nas áreas de educação (incluindo o reconhecimento de títulos universi-
tários), saúde, trabalho, habitação, cultura e esporte;

260 América Latina: olhares e perspectivas


• criação do Comitê Permanente de Soberania e Defesa;
• implementação da proposta do Polo Científico para o desenvolvimento
autônomo de ciência e tecnologia (DECLARACIÓN, 17.10.2009).

Ambos os projetos integracionistas – UNASUL e ALBA – se propõem,


pela via da cooperação, a corrigir os problemas criados para o desenvolvi-
mento econômico-social pela inserção subordinada da América Latina no
mundo e pelo processo de integração regional baseado na competição. O
projeto da ALBA tem claramente uma definição anti-imperialista.
Esse novo momento que vive o processo de integração latino-americana
culminou na criação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Cari-

ova
benhos – CELAC, durante a “Cúpula da Unidade da América Latina e do Ca-
ribe”, realizada em fevereiro de 2010, em Riviera Maya, México. Para essa
Cúpula, convergiram dois processos de aproximação dos países da região: a
XXI Cúpula do Grupo do Rio, de natureza política, e a II Cúpula da América
Latina e Caribe – CALC, que trata de integração e desenvolvimento.
Ao fundir essas duas iniciativas, o conjunto dos Chefes de Estado e de
Governo da América Latina e Caribe, por meio da “Declaração da Cúpula da
Unidade”, que criou a CELAC, decidiu, por consenso, “constituir um novo
mecanismo de concertação política e integração, que abrigará os trinta e três
países” da América Latina e Caribe (MRE, 21.11.2011). Assim, “a CELAC
assumirá o patrimônio histórico do Grupo do Rio (concertação política),
cuja Secretaria de turno é exercida atualmente pelo Chile, e da CALC (de-
senvolvimento e integração), cuja presidência temporária é venezuelana”
(Ibid.). Essa convergência ocorrerá de forma gradual. Assim, o Grupo do
Rio e a CALC manterão suas agendas e métodos de trabalho até a conclusão
do processo de constituição da CELAC.
A reunião decidiu convocar a III CALC para julho de 2011, na Venezue-
la, com o objetivo de concluir o processo de formação da CELAC33. E, para
operacionalizar a decisão, criou “um Foro Unificado como grupo de traba-
lho encarregado de redigir as regras de funcionamento do novo organismo”
(MRE, 21.11.2011).

33 A reunião não se realizou nessa data porque o anfitrião, presidente Hugo Chá-
vez, foi acometido de um câncer, mas, após tratamento e melhora, a reunião foi
realizada, com a presença dos 33 Chefes de Estado e de Governo da região, nos
dias 2 e 3 de dezembro de 2011, em Caracas.
América Latina: olhares e perspectivas 261
Esse é um momento estratégico dentro do novo momento que atravessa
o processo de integração latino-americana. Em primeiro lugar, porque é a
primeira vez, desde que se iniciaram as negociações para criação da ALCA,
que se reúnem os 33 Chefes de Estado e de Governo latino-americanos e
caribenhos sem a presença dos Estados Unidos e Canadá, e com a presença
de Cuba, para discutir o processo de integração regional. Lembre-se de que,
durante as negociações da ALCA, o governo dos EUA exigiu a exclusão de
Cuba; por sua vez, a OEA – mecanismo político que reúne o conjunto das
Américas – havia decidido, por imposição dos Estados Unidos, realizar o
bloqueio econômico à Ilha. Segundo, porque, em oposição clara aos inte-
resses do governo e das corporações estadunidenses, que queriam criar a

Pro
ALCA, decidiu-se criar um bloco regional apenas dos países latino-ameri-
canos e caribenhos. Terceiro, é a iniciativa de integração mais abrangente de
toda a história da integração latino-americana; a ALALC e a ALADI nunca
chegaram a abranger todos os países da região. Por último, a Cúpula inau-
gurou o retorno do México ao processo de integração latino-americana; esse
país, como se sabe, há quase duas décadas, por meio do NAFTA34, participa
de um processo de integração com Estados Unidos e Canadá. Para marcar
esse retorno, de forma simbólica, a Cúpula realizou-se no México.
A criação da CELAC significa, simbolicamente, o distanciamento da
América Latina em relação ao pan-americanismo e seu retorno ao latino-
-americanismo, que, em alguns momentos, chegou a ser implementado na
região, mas, por razões analisadas neste texto, nunca conseguiu consoli-
dar-se. Isso não significa que, desta vez, esse processo se consolidará, até
porque, diante do fracasso da proposta de formação da ALCA, substituída
pelos governantes latino-americanas por projetos como os da UNASUL e da
ALBA e agora o da CELAC, o governo dos EUA tem procurado dividir o
movimento integracionista mediante a oferta de acordos comerciais bilate-
rais com determinados países da região.
No entanto, as possibilidades de avanço da integração latino-americana
agora são maiores do que das vezes anteriores. De um lado, porque, como
assinalamos antes, esse período se caracteriza por um longo processo de de-
clínio da supremacia econômica e política estadunidense; de outro, porque
os governantes dos principais países da América Latina, desde o começo
da década de 2000, vêm demonstrando, cada um a seu modo, compromisso

34 Sigla em inglês para Tratado de Livre Comércio da América do Norte.


262 América Latina: olhares e perspectivas
com esse projeto integracionista. É evidente que, nesse processo, ocorrem
conflitos35, pois, como em qualquer processo de integração, existem con-
tradições a serem superadas. Mas a decisão de levar adiante o projeto tem
predominado.

Considerações finais: desafios da integração latino-americana


Da análise feita até agora, pode-se concluir que a integração latino-ame-
ricana, para consolidar-se enquanto projeto que contribua para o desenvol-
vimento36 e a independência econômica da região, terá que enfrentar alguns
desafios importantes. Alguns já começaram a ser enfrentados; outros nem
tanto.

ova
O primeiro desafio está relacionado com sua abrangência territorial.
Existem vários projetos de integração sub-regional em andamento na região.
Como vimos anteriormente, destacam-se dois novos projetos: o da UNA-
SUL e o da ALBA. Essas experiências são fundamentais para ir construindo
a aproximação entre os países com maior identidade. Mas esse processo
pode servir de patamar para alavancar a construção de um projeto que englo-
be o conjunto da região. Os primeiros passos nesse sentido já foram dados,
com a constituição da CELAC.
Havia na diplomacia brasileira a ideia de que deveria concentrar-se na
articulação da integração sul-americana (daí a proposta da UNASUL), com
base na avaliação de que não se poderia contar com o México (integrado aos
EUA e Canadá por meio do NAFTA) e os países centro-americanos (que têm
realizado acordos bilaterais com os EUA). No entanto, dois fatos indicam
que essa avaliação, se tinha uma razão conjuntural, não poderia ser genera-
lizada: a) nas últimas duas eleições, disputaram as eleições presidenciais no
México com chances de vitória37 candidatos que defenderam a rearticulação
do México com a América Latina: b) a criação da CELAC ocorreu justamen-

35 Haja vista o conflito entre Argentina e Brasil a propósito dos produtos da linha
branca. Na gestão de Néstor Kischner, quando as mercadorias brasileiras volta-
ram a inundar o mercado argentino, o governo daquele país elevou as tarifas de
importação de vários produtos brasileiros, sobretudo os da linha branca. Esses
fatos serviram para acirrar a crítica daqueles que se opunham à constituição
de um bloco regional sul-americano e defendiam a formação da Área de Livre
Comércio das Américas (ALCA).
36 Entendido como desenvolvimento econômico, social, política e cultural.
37 Após as eleições, foi denunciada e existência da fraude, que teria beneficiado o
candidato da direita.
América Latina: olhares e perspectivas 263
te no México, em reunião patrocinada pelo governo mexicano, a despeito de
sua matriz conservadora.
O segundo desafio diz respeito à ênfase no que poderia chamar-se de vi-
são “comercialista” que caracteriza os processos de integração que vinham
sendo desenvolvidos, tais como o MERCOSUL e a CAN. Apesar de have-
rem aprovado a união aduaneira, têm funcionado basicamente como área de
livre comércio dentro do regionalismo aberto. Enquanto tal, privilegia-se
a competição, no lugar da cooperação. O resultado é que, na competição,
fortalecem-se as empresas mais fortes sediadas nos países mais fortes, em
detrimento das empresas mais frágeis dos países mais frágeis. Esse processo
pode levar à desintegração, ao invés da integração, à medida que, ao destruir

Pro
ou debilitar as economias mais débeis, reduz sua capacidade de compra e,
consequentemente, as possibilidades de intercâmbio intra-regional.
O caminho alternativo seria retomar o ideário proposto pela CEPAL na
década de 1950, que privilegiava a integração produtiva e infraestrutura por
meio da cooperação em projetos de interesse comum. A ALBA, por sua pro-
posta, acordos e práticas, recolheu de maneira mais profunda esse ideário da
cooperação. A UNASUL, apesar de, nas discussões iniciais, ter estado sob a
influência da visão “comercialista”, terminou, nos acordos firmados, privi-
legiando outras formas de integração, tais como a integração infraestrutural
(destacando-se a energética), política, social e cultural.
O terceiro desafio está relacionado à situação de dependência externa
das economias da região. A situação de dependência econômica tem carac-
terizado a América Latina desde a independência política, mas foi reforçada
quando a divisão internacional do trabalho foi reconstruída à moda do siste-
ma imperialista mundial, que se consolidou a partir do final do século XIX.
Analisamos anteriormente que, nos momentos de reforço da dependência
externa, prevalece na América Latina a desintegração. Por outro lado, nos
momentos em que países da região chegaram a conquistar uma relativa inde-
pendência econômica, puderam avançar nos projetos de integração. Ao mes-
mo tempo, a integração é um importante instrumento a favor da conquista da
independência econômica.
No momento atual, beneficiando-se da crise estrutural e do declínio re-
lativo da supremacia econômica e política dos EUA, governos progressis-
tas que se formaram em vários países latino-americanos começaram a pro-
mover mudanças que têm acarretado a diminuição da dependência externa.
Destacam-se, entre essas mudanças, a retomada de um maior controle sobre
264 América Latina: olhares e perspectivas
seus recursos naturais. Países andinos, como Venezuela, Equador e Bolívia,
com seus processos de refundação, têm avançado mais nessa direção. Essas
transformações com vistas a uma maior autonomia nacional beneficiam o
processo de integração regional.
O quarto desafio tem a ver com o papel do Brasil no processo de inte-
gração regional. Dada a dimensão econômica e territorial e a importância
política regional e internacional do Brasil, seria natural que tivesse um papel
de liderança no processo de integração regional. Mas uma coisa é liderança;
outra é hegemonia38 ou mesmo dominação39 imposta. Ao liderar um pro-
cesso de integração, um país pode fazê-lo de forma a beneficiar a todos. A
hegemonia ou domínio implica, em graus diferentes, em dominação com

ova
o objetivo de beneficiar sobretudo e, no limite, exclusivamente, às forças
econômicas do país hegemônico ou dominador.
O processo de integração do MERCOSUL e mesmo do conjunto da Amé-
rica do Sul tem beneficiado, principalmente, às transnacionais e às grandes
empresas instaladas no Brasil, nacionais ou estrangeiras. Isso se manifesta
de três formas: a) nas relações comerciais entre os países do MERCOSUL, o
Brasil tem sido sistematicamente superavitário; b) nessas relações, o Brasil
tem exportado predominantemente produtos industriais40 e importado pro-
dutos primários, reproduzindo, à escala regional, a divisão internacional do
trabalho clássica; c) tem havido um importante processo de internacionali-
zação de empresas brasileiras na região, muitas delas apoiadas financeira-
mente pelo Estado brasileiro, por intermédio do BNDES.
Vale ressaltar que a política recente adotada pelo governo brasileiro, par-
ticularmente durante a gestão Lula, tem procurado se contrapor, em muitos
aspectos, a essa assimetria. Foi assim durante as negociações sobre a nacio-
nalização dos hidrocarbonetos na Bolívia41, os conflitos com a Argentina a
propósito das decisões daquele país no sentido de proteger seus produtos da
chamada linha branca42, a demanda paraguaia de corrigir a defasagem de

38 Hegemonia, na concepção gramsciana, é dominação consentida, especialmente


de uma classe social ou nação sobre outras classes ou outras nações.
39 Dominação tem as acepções de predomínio, poder absoluto, subjugação, su-
plantação, repressão.
40 Aliás, os países do MERCOSUL constituem o principal mercado para produtos
industriais oriundos do Brasil.
41 Quando o Presidente Lula, depois de reconhecer que a Bolívia tinha direito de
defender seus recursos naturais, autorizou a Petrobras a negociar.
42 O governo brasileiro, depois de reconhecer o direito da Argentina de elevar
América Latina: olhares e perspectivas 265
sua receita oriunda de Itaipu43. Além disso, o BNDES tem financiado obras
de infraestrutura nos países vizinhos. O problema desses financiamentos é
o condicionamento, aberto ou camuflado, de as obras serem feitas por em-
preiteiras brasileiras.
O quinto desafio consiste em o processo de integração deixar de ser um
projeto apenas dos governos nacionais para ser um projeto dos Estados na-
cionais e, mais que isso, dos povos latino-americanos. Aliás, para se trans-
formar num projeto estratégico e estrutural dos Estados, independente do
governante de turno, é imprescindível que se transforme num projeto dos
povos. Para isso, no entanto, é importante que os povos da região sejam par-
tícipes não apenas dos benefícios, mas também das decisões que envolvem

Pro
o processo. Isso implicaria uma transformação estrutural: em lugar de privi-
legiar as grandes empresas instaladas ou não na região, priorizar o benefício
dos povos.
No fundamental, os processos de integração ainda não beneficiaram os
povos da região. Mas avanços sociais já ocorreram. No contexto da ALBA,
por exemplo, a partir dos acordos realizados, erradicou-se o analfabetismo
na Venezuela, Equador e Bolívia, recorrendo a educadores cubanos, e ado-
taram-se importantes programas de saúde, também com base nos médicos
cubanos. A participação popular no processo decisório é ainda incipiente,
mas, em nível de MERCOSUL, existe uma articulação de centrais sindicais
da região, a Coordenadora das Centrais Sindicais do Cone Sul (CCSCS),
que, principa