Você está na página 1de 47

1

COLETÂNEA
FORMAÇÃO SOCIOCULTURAL E ÉTICA
EAD (MÓDULO 53/2019)

Colonas, de Di Cavalcanti. Disponível em: http://obviousmag.org/pintores-


brasileiros/di_cavalcanti/archives/uploads/2014/06/Colonas-Di-Cavalcanti_1600x1200.html. Acesso em: 13 jul. 2019.

Organizadores
Adriana Pacheco do Amaral Mello
Claudineia Cristina Valim
Cristiane de Oliveira Alves
Diego Luiz Miiller Fascina
Márcio Ricardo Dias Marosti
Marta Ferreira Gomes de Lima
Vivian Elis Golfetto Ramos

Coordenação
Fabiane Carniel

2
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................ 4
PALAVRAS INICIAIS ............................................................................................................................ 5
ARTE E CULTURA ............................................................................................................................... 6
O QUE É ARTE .................................................................................................................................... 9
ANÁLISE ESTÉTICA: O QUE É? ....................................................................................................... 11
OP ART .............................................................................................................................................. 15
POESIA INFLUENCIOU ESTUDOS CIENTÍFICOS AO LONGO DA HISTÓRIA: CONHEÇA ........... 19
LUA INSPIRA O MUNDO DAS ARTES E DA TECNOLOGIA ............................................................ 23
COMO A ARTE TENTA SE ADAPTAR AO FORMATO DAS REDES SOCIAIS ................................ 26
COMO MAURICIO DE SOUSA, 60 ANOS DE CARREIRA, ABRAÇA NOVOS PÚBLICOS .............. 28
“OS SERTÕES” TEM QUE SER LIDO TODOS OS DIAS, ENQUANTO PERSISTIR A SITUAÇÃO
DOS POBRES BRASILEIROS ........................................................................................................... 31
JARID ARRAES, A “JOVEM MULHER DO SERTÃO” QUE FAZ LITERATURA RETIRANTE .......... 33
ARTESANATO INSPIRADO NA CULTURA MINEIRA GARANTE O FUTURO DE JOVENS
VULNERÁVEIS .................................................................................................................................. 35
O FUNK É ARTE. E CHEGOU PARA FICAR ..................................................................................... 38
CULTURA AFRO-BRASILEIRA NA MÚSICA ..................................................................................... 40
CHARGES .......................................................................................................................................... 42
MÚSICAS ........................................................................................................................................... 44
FILMES............................................................................................................................................... 46
CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................................ 47

3
APRESENTAÇÃO

A Formação Sociocultural e Ética (FSCE) compõe um dos Projetos de Ação da UniCesumar, cujo
principal objetivo é aperfeiçoar habilidades e estratégias de leitura fundamentais para seu
desempenho pessoal, acadêmico e profissional. Nesse sentido, esta disciplina corresponde à missão
institucional, a qual consiste em “Promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do
conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma
sociedade justa e solidária”. Conforme slogan da FSCE, “Quem sabe mais faz a diferença!”, o
conhecimento adquirido por meio da leitura é a mola propulsora capaz de formar e transformar
sujeitos passivos em cidadãos ativos, preparados para fazer a diferença na sociedade como um
todo.
Na FSCE, você terá contato com vários assuntos e fatos que ocorrem na sociedade atual e que
devem fazer parte do repertório de conhecimentos de todos os que buscam compreender
criticamente seu entorno social, nacional e internacional. Em síntese, no intuito de atender ao
objetivo desta disciplina, a FSCE está dividida em cinco grandes eixos temáticos: Ética e Sociedade
– Ética, Política e Economia – Ética Cultura e Arte – Ética, Ciência e Tecnologia – Ética e Meio
Ambiente.
Este material, também chamado de Coletânea, é o principal instrumento de estudo da FSCE.
Recebe o nome de Coletânea porque reúne vários gêneros textuais criteriosamente selecionados
para estimular sua reflexão e análise pontuais. Textos retirados de diferentes fontes, com a
finalidade de abordar recortes temáticos relacionados aos conteúdos de cada eixo supracitado. Tem
como principal objetivo ser um material de apoio à sua formação geral, servindo-lhe de estímulo à
leitura, interpretação e produção textual. Uma Coletânea como esta é organizada a cada duas
semanas, ou seja, a realização completa desta disciplina ocorre no período de 10 semanas.
Cada Coletânea apresenta-se, inicialmente, com uma introdução e a apresentação dos diversos
textos referentes aos respectivos eixos. A sequência de textos normalmente é finalizada com os
gêneros: música, poesia ou frases e charges, sendo finalmente concluída com breves considerações
finais.
Você tem em suas mãos, portanto, uma compilação por meio da qual terá acesso a um conteúdo
seleto de textos basilares para sua reflexão, aprendizagem e construção de conhecimentos valiosos.
Textos compostos por fatos, notícias, ideias, argumentos, aspectos veiculados nos principais meios
de comunicação do país, links de acesso a entrevistas, depoimentos, vídeos relacionados ao eixo
temático, além de respaldos teóricos e práticos acerca da linguagem que poderão servir como
suporte à sua vida em todas as instâncias.

4
PALAVRAS INICIAIS

Aprofundar o conhecimento e as experiências no campo da cultura e da arte possibilita transpor a


ideia que de que essas manifestações, exclusivamente humanas, se limitam ao consumo de
entretenimento ou de mero passatempo. Trata-se, pois, de vislumbrar o mundo a partir de novas
perspectivas, de desbravar universos inusitados, de vivenciar sensações impensadas, de ir ao riso
ou às lagrimas com uma música, com as nuances de um poema ou através da leitura de grandes
aventuras épicas.
Mais do que isso, trata-se de um ato político, de transformação social, de compreender com mais
sensibilidade os fenômenos da vida, que quando retratados pelo viés artístico, ganham tons de
crítica, de fantástico, de humor. Trata-se, ainda, de uma questão de identidade, pois permite ao
indivíduo se reposicionar mediante suas próprias concepções existenciais, modificando suas
relações com o mundo e consigo mesmo, estabelecendo novos valores acerca daquilo que é belo ou
repulsivo, do que lhe é agradável ou não. A arte é também o registro histórico da humanidade, a
contar dos desenhos dos homens das cavernas, dos hieróglifos àquela produzida em avançados
ambientes gráficos computacionais.
Assim, a presente coletânea, por meio dos materiais aqui selecionados, tem a proposta de aguçar a
reflexão, o senso crítico, de provocar novas percepções. Os temas expostos abrangem desde a arte
no âmbito das redes sociais, passando pelo cientificismo, pela chegada do homem à lua, pela cultura
e evolução das histórias em quadrinhos, até o artesanato enquanto ferramenta de engajamento
social. Tais materiais, entretanto, representam uma pequena amostra daquilo que as artes plásticas,
a música, a literatura, o cinema e tantas outras expressões culturais têm a oferecer.

Boa leitura!

Atenciosamente,
Equipe de FSCE.

5
ARTE E CULTURA
Daniel Neves

Arte e cultura são dois conceitos importantíssimos e alvos de inúmeras análises por parte de diferentes áreas
do conhecimento humano

Arte e cultura são elementos extremamente importantes da vida humana

Arte e cultura são duas coisas muito importantes no desenvolvimento intelectual e cognitivo de uma
pessoa. Sabemos da importância da arte como ferramenta humana para expressão de sentimentos
e sensações e percebemos a manifestação artística acontecendo de diversas maneiras nas diversas
culturas que existem. A importância da arte e da cultura torna ambas objeto de estudo de diversas
áreas do conhecimento.

O que é cultura?

A cultura é uma palavra de origem latina e deriva de colere, que significa “cuidar de”. O sentido
original dessa palavra está relacionado com a agricultura e, portanto, o “cuidar de” refere-se a cuidar
de algo, de algum item da produção agrícola. A palavra cultura tomou novo sentido ao longo do
tempo. Segundo o dicionário Michaelis, atualmente, a cultura é o “conjunto de conhecimentos,
costumes, crenças, padrões de comportamento, adquiridos e transmitidos socialmente, que
caracterizam um grupo social”.
O debate conceitual a respeito da definição de cultura é realizado por diversas áreas do
conhecimento, como a antropologia, a história e as ciências sociais. Neste texto, nos norteamos a
respeito do conceito de cultura por meio das definições realizadas pela antropologia, ciência que tem
como objeto de estudo o homem e a humanidade.
A definição realizada pela antropologia afirma que cultura é o conjunto que reúne todas as formas de
conhecimento, todas as crenças e tipos de moral de um povo, todas as leis, tradições e costumes
que são manifestados por determinado grupo social.
Apesar disso, a palavra cultura é comumente associada também com a arte, isto é, música,
literatura, dança, escultura, pintura e teatro são considerados demonstrações culturais. A palavra
cultura pode também se referir ao grau de instrução de uma pessoa, pois, na comunicação popular,
uma pessoa estudada é considerada uma pessoa “culta”.

6
O que é arte?

A palavra arte tem origem do termo latino, ars, que significa técnica ou habilidade. De acordo com o
dicionário Michaelis, a arte é definida como “atividade que supõe a criação de obras de caráter
estético, centradas na produção de um ideal de beleza e harmonia ou na expressão da subjetividade
humana”.
Apesar disso, a definição do que é arte é uma tarefa extremamente complexa por se tratar de um
conceito muito abstrato. Isso porque o entendimento do que é arte e do que não é arte sofreu
grandes transformações ao longo do tempo. Além do fato de que a ideia de arte pode ser bastante
diferente, dependendo da cultura em que se faz esse debate.
Sendo assim, entre os especialistas e estudiosos da área, existe uma grande discussão a respeito
de uma definição do conceito de arte. Mesmo não existindo um consenso entre os especialistas da
área, algumas considerações podem nos ajudar a ter um horizonte sobre o que é arte.
A arte é uma forma como o homem expressa os seus sentimentos, pensamentos e convicções. Além
disso, pode ser entendida como o resultado de uma habilidade que resulta em uma obra com valor
estético utilizada como expressão de alguma ideia ou sentimento. Na visão contemporânea, podem
ser classificados como formas de arte: a escultura, a pintura, a fotografia, a música, o teatro, o
cinema, a literatura, a dança etc.

Arte e cultura clássicas

Segundo os professores Fábio da Silva Fortes e Charlene Martins Miotti, o termo clássico foi
utilizado, pela primeira vez, por volta do século II d.C., e sua utilização estava vinculada com o
Exército. Com o passar do tempo, o sentido da palavra alterou-se radicalmente e sua utilização
passou a ser associada a manifestações culturais, artísticas e intelectuais que são tradicionais.
Quando utilizamos a expressão arte clássica ou cultura clássica, estamos referindo-nos à arte e à
cultura que foram produzidas pelos gregos e romanos durante a Idade Antiga. Ambas civilizações,
inclusive, são conhecidas como civilizações clássicas. A utilização do termo clássico para essas
civilizações faz referência ao que foi explicado no parágrafo anterior.
Todo o conhecimento, arte e cultura produzidos pelas civilizações clássicas influenciou
consideravelmente o mundo ocidental. O peso da influência de ambas sobre a cultura ocidental faz
com que sejam vistas como culturas tradicionais, possuindo, assim, uma importância primordial para
a humanidade.

Arte na Grécia

Representação de estilo de desenho feito pelos gregos em cerâmicas.


7
Quando falamos da arte clássica, os gregos são os primeiros a serem lembrados exatamente pelo
pioneirismo e inovação dessa civilização nas artes e na cultura. No caso da arte clássica grega, em
termos cronológicos, estamos nos referindo àquela produzida durante os períodos arcaico (séculos
VIII - V a.C.), clássico (séculos V - IV a.C.) e helenístico (séculos IV - II a.C.) da história grega.
No caso dos gregos, chamam atenção as esculturas de corpos humanos que ressaltavam a beleza
humana e, a princípio, tinham uma simetria na posição dos membros que foi sendo perdida. A
arquitetura, sobretudo a dos templos, é alvo de grande atenção, bem como as pinturas feitas pelos
gregos nas paredes dos templos (conhecidas como afrescos) e nas cerâmicas.

Arte em Roma

Escultura que foi produzida durante os anos do Império Romano e atualmente está no Vaticano.

No caso dos romanos, considera-se todo o período de extensão do Império Romano, isto é, desde a
fundação de Roma, em 753 a.C., até a desagregação do Império Romano com a queda do último
imperador, em 476 d.C. No caso da arquitetura, por exemplo, destacam-se o arco e as abóbadas
utilizados nas construções e desconhecidos por outras grandes civilizações da Antiguidade, como os
gregos.
O conhecimento do arco e da abóbada foi passado aos romanos pelos etruscos, povos que
habitavam o Norte da Península Itálica. No caso das pinturas, destacam-se as pinturas encontradas
em Vesúvio e Herculano, ambas soterradas por uma erupção vulcânica, em 79 d.C. A escultura
romana possuía um estilo mais realista, diferentemente da escultura grega, que procurava ressaltar
a beleza humana.

Disponível em: https://monografias.brasilescola.uol.com.br/arte-cultura/. Acesso em 15 jul. 2019.


(Adaptado)

8
O QUE É ARTE

“A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são.” Fernando
Pessoa

Há inúmeras possibilidades de definição de arte. Não há como limitá-las a determinado estilo ou


gosto. Variações conceituais foram atribuídas no tempo e no espaço.
A palavra deriva do latim ars, artis, que significa maneira de ser ou de agir, profissão, habilidade
natural ou adquirida, e, na cultura greco-romana, possuía o sentido de ofício, habilidade. Nessa
concepção, a arte estava ligada ao propósito de fazer, ou seja, era concebida com base em um
aspecto executivo e manual.
A arte também foi e é vista por alguns como conhecimento, visão ou contemplação. Nesse caso,
coloca-se em segundo plano o aspecto exterior da arte, o objeto criado, e concede-se a ela um
sentido de visão da realidade, ou seja, de retrato de formas de conhecer.
A terceira definição coloca que a arte é expressão. Essa visão, que é fruto especialmente do
Romantismo, define arte com base em seus elementos externalizados em os motivos que a tornam
viva, ou seja, alinha as formas do objeto artístico criado com os sentimentos que a animam e a
suscitam.
Certamente todas essas concepções de arte têm seu sentido e valor. A arte é, por excelência, o
lugar de conhecimento, feitura e expressão. Em resumo, a arte como um fazer, arte como
conhecimento e arte como expressão.
A definição de arte pode variar de acordo com determinado contexto cultural, isto é a existência, ou
não, de um processo que conduz à criação de um objeto belo, com todas as suas implicações
teóricas, técnicas pessoais e sociais, consequências da apreciação da beleza como parte essencial
do resultado. Mas também é possível qualificar como arte objetos ou processos criativos de outras
épocas ou civilizações, julgamento esse realizado à margem da avaliação concreta que teve para
seu autor ou para a sociedade à qual pertencia. A mera apreciação estética posterior desse objeto
ou processo já era suficiente para que seja intitulado como arte. Tal qualificação é que possibilita
hoje chamar de arte obras pré-históricas, em outras épocas consideradas primitivas.

Elencamos algumas definições para Arte:

Criação humana de valores estéticos (beleza, equilíbrio, harmonia, revolta, etc.) que sintetizam suas
emoções, sua história, seus sentimentos e sua cultura;
Capacidade do homem de criar e expressar-se, transmitindo ideias, sensações e sentimentos
através da manipulação de materiais e meios diversos;
Atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção,
emoções e ideias, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em um ou mais
espectadores, e cada obra de arte possui um significado único e diferente;
Reflexo do ser humano que muitas vezes representam a sua condição social- histórica e sua
essência de ser pensante;
Habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de
forma consciente, controlada e racional;
Composto de meios e procedimentos realizados pelo homem, através dos quais é possível a
obtenção de finalidades práticas ou a produção de objetos; técnica para criar algo;
Conjunto de obras de determinado período histórico, nação, povos, movimento artístico, por
exemplo, Arte Medieval, Arte Africana, Arte Realista, etc.
A humanidade cria objetos para satisfazer as suas necessidades práticas – arte utilitária; como meio
de vida para que o mundo saiba o que pensa; para divulgar as suas crenças (ou as de outros); para

9
estimular e distrair a si mesmo e aos outros; e para explorar novas formas de olhar e interpretar
objetos e cenas.
Ernest Gombrich, famoso historiador de arte, afirmou que nada existe realmente a que se possa dar
o nome de arte. Existem somente artistas. Arte é um tipo de fenômeno cultural. Regras absolutas
sobre arte não sobrevivem ao tempo, mas a cada época, diferentes grupos (ou cada indivíduo)
escolhem como compreendem esse fenômeno. Os historiadores de arte buscam determinar os
períodos que empregam certo estilo estético, denominando-os por movimentos artísticos.
A arte registra ideias e as ideologias de culturas e etnias, sendo assim, ela se torna fundamental
para a compreensão da história da humanidade e do mundo. Formas artísticas podem extrapolar a
realidade, exagerar coisas aceitas ou simplesmente criar novas formas de se observar a realidade.
Uma das características da arte é a dificuldade que se tem de conferir-lhe utilidade. Muitas vezes
esta dificuldade em encontrar utilidade imediata para a arte mascara preconceitos contra arte e os
artistas. Como manifestação cultural humana, pode ser utilizada para coesão social, reafirmando
valores ou, pelo contrário, criticando-os.
A arte possui a função transcendente, ou seja, manchas de tinta sobre uma tela ou palavras escritas
sobre um papel simbolizam estados de consciência humana, abrangendo percepção, emoção e
razão. A arte pode trazer indícios sobre a vida, a história e os costumes de um povo, de uma época,
inclusive daqueles já extintos. Assim, conhecemos várias civilizações por meio de sua arte.

Estética

A arte está ligada à estética, porque é considerada uma faculdade ou ato pelo qual, trabalhando uma
matéria, a imagem ou o som, o homem cria beleza ao se esforçar por dar expressão ao mundo
material ou imaterial que o inspira.
A obra de arte instiga a reflexão e os sentidos. Existe uma parte da Filosofia, chamada Estética, que
se ocupa de pensar a arte e o belo. A palavra estética vem do grego aesthetiká, ou seja, coisas
percebidas pelos sentidos, pelas sensações. Seria assim, a parte da Filosofia dedicada a
compreender os efeitos das sensações provocadas pela arte.

O Belo e a Arte

Quando se contempla uma obra de arte, ocorre uma interação, experimentando-se nessa relação
diferentes estéticas, sentimentos e percepções. Apreciar um quadro pintado de forma tradicional, ou
seja, com tinta sobre tela, por exemplo, é mergulhar em uma experiência dos sentidos.
O belo não é necessariamente o objeto criado, mas o resultado da arte, ou seja, o encontro com as
sensações que a obra propicia a quem a observa. Isso porque, mesmo que um objeto criado não
seja considerado belo, da forma tradicionalmente concebida – com formas perfeitas e proporções
harmônicas – a experiência artística será sempre uma experiência com o belo, à medida que o
contato com a obra propiciará um contato com os elementos do sensível.

História da Arte

A história da arte consiste em uma ciência que estuda os movimentos artísticos, as modificações na
valorização estética, as obras de arte e os artistas. Esta análise é feita de acordo com a vertente
social, política e religiosa da época que é estudada. Várias outras ciências servem de auxílio para a
história da arte, como a numismática, paleografia, história, arqueologia, psicologia, sociologia, etc.
Através da história da arte é possível aprender sobre o ser humano através da evolução das suas
diversas expressões e manifestações artísticas.
A arte transforma nossa maneira de pensar e entender o mundo, pois, nos faz repensar os nossos
posicionamentos socioculturais e artísticos. Busca a análise dos objetos de arte em percursos

10
históricos, pois de alguma forma a arte interfere na sociedade e, ao mesmo tempo, recebe
influências do meio em que está inserida.
Estudar história da arte significa entender e refletir sobre as principais correntes da crítica de arte, o
estudo de objetos artísticos, buscando a arte na relação homem-mundo, pensando e analisando os
momentos cultural-artístico e estético de diversos tempos e sociedades, criando desta forma
conhecimentos significativos sobre a humanidade.

Disponível em: https://www.historiadasartes.com/olho-vivo/o-que-e-arte/. Acesso em: 15 jul. 2019.

ANÁLISE ESTÉTICA: O QUE É?

Processo de diálogo com a obra de arte

Comunicação é a troca de informações entre duas ou mais pessoas. Ela é muito importante para a
vida em sociedade. Para que a comunicação aconteça, três elementos são essenciais: o Emissor –
qualquer ser capaz de produzir e transmitir uma mensagem; a mensagem – informação a ser
transmitida; o receptor – qualquer ser capaz de receber e interpretar uma mensagem.

11
Por meio de obras de arte o artista se comunica com os outros seres humanos, independentemente
do tempo e do espaço que a obra foi criada. Dessa forma, a obra de arte é considerada uma
mensagem. Originalmente, uma mensagem é portadora de sentido e é veiculada sob a forma de
linguagem. No entanto, a mensagem artística, frequentemente, se manifesta numa linguagem
simbólica.
Em termos gerais, um símbolo é uma espécie de signo que tem um poder expressivo que, em parte,
depende da imaginação do ser humano. É uma realidade perceptível pelos sentidos e mediante a
qual expressamos outra realidade.
A linguagem artística, ao contrário da linguagem cotidiana e da linguagem científica, não é
informativa ou explicativa: é plurissignificativa, isto é, rica em significações e conotações. Aqui reside
o seu poder sugestivo — será tanto mais intenso quanto maior for a nossa capacidade de
interpretação, de associação e de inter-relação simbólica. Neste sentido, a obra de arte é uma obra
aberta a diversas leituras que, embora diferentes, não se anulam umas às outras e que, inclusive,
podem ser realizadas, em diferentes momentos, por uma mesma pessoa.

A avaliação estética de uma obra de arte exige não só uma análise formal e técnica, mas também
uma análise dos conteúdos que tenha em conta o seu caráter simbólico.
A interpretação da obra de arte depende do esforço do observador. A compreensão de uma obra de
arte pode se dar sob vários aspectos: por suas formas (formalista), pelas suas ações em um
determinado contexto histórico refletidas na obra (método histórico), pelo estudo da sociedade a qual
essa obra pertence (método sociológico) e pelos ícones e símbolos que ela carrega (método
iconográfico).
Muitas obras de arte contêm um grande conjunto de elementos simbólicos, mas que representam
conceitos, ideias e seres cujo sentido não é imediatamente dado e que compete ao apreciador da
obra descodificá-los. Em termos ideais, a “leitura” de uma obra implicaria que estudássemos alguns
elementos como:

1. Sua dimensão técnico-formal: os materiais utilizados e o tratamento de elementos (cor, desenho,


luz, perspectiva, composição, etc.).

2. Sua dimensão simbólica ou sugestiva.

3. Os elementos exteriores à obra como:


 conhecimento da história da arte;
 conhecimento da época em que o artista vive/viveu: das transformações históricas, filosóficas,
científicas e técnicas, da mentalidade dominante;
 conhecimento de outras obras do artista e da sua evolução criativa;
 conhecimento da interpretação que o próprio artista tinha/tem sobre a obra;
 conhecimento das suas concepções sobre a natureza e a função da obra de arte;
 dados biográficos sobre o artista.

Ao estudarmos os conceitos de beleza relacionados à estética percebemos que qualquer tipo de


obra estabelece uma relação com o apreciador, uma troca de sentido e significado, um testemunho
histórico, social, cultural e religioso. Dessa forma, ao apreciar uma obra de arte é importante saber
analisar os elementos presentes nela para que ocorra essa troca da melhor maneira possível e o
espectador compreenda, então, o que o artista quis transmitir.

12
Passos para Análise Estética

Elencamos aqui os passos para você analisar uma obra de arte, ou seja, dedicar-se ao entendimento
e a descoberta da sua mensagem. E, ainda, se quiser soltar sua imaginação e seu talento artístico,
criar sua releitura da obra analisada.

A informação instantânea da televisão e das redes sociais está transformando o mundo numa aldeia
global. Mesmo assim, a linguagem continua dominando os meios de comunicação. A linguagem
separa, nacionaliza; o visual unifica. A linguagem é complexa e difícil; o visual tem a velocidade da
luz, e pode expressar instantaneamente um grande número de ideias. A compreensão adequada da
natureza visual e de seu funcionamento constitui a base de uma linguagem que não conhecerá nem
fronteiras nem barreiras.
13
Desenhamos para você um modelo dirigido de análise estética para facilitar sua iniciação a esse
incrível universo da arte.

Disponível em: http://www.historiadasartes.com/olho-vivo/analise-estetica/o-que-e/. Acesso em: 17


jul. 2019. (Adaptado)

14
OP ART

A palavra Op Art deriva do inglês Optical Art e significa Arte Óptica. Esse termo pode ter sido usado
pela primeira vez pelo artista e escritor Donald Judd, em uma revisão de uma exposição de “Pinturas
Ópticas” por Julian Stanczak. Mas tornou-se popular por seu uso em um artigo de revista Time, de
1964.
Ainda que traga rigor na sua construção, simboliza um mundo precário e instável, que se modifica a
cada instante. Apesar de ter ganhado força na metade da década de 1950, a Op Art passou por um
desenvolvimento relativamente lento.
Ela não tem o ímpeto atual e o apelo emocional da Pop Art, pois é excessivamente cerebral e
sistemática, mais próxima das ciências do que das humanidades. Por outro lado, suas possibilidades
parecem ser tão ilimitadas quanto às da ciência e da tecnologia.
A razão da Op Art é a representação do movimento através da pintura apenas com a utilização de
elementos gráficos. Outro fator fundamental para a criação da Op Art foi a evolução da ciência, que
está presente em praticamente todos os trabalhos, baseando-se principalmente nos estudos
psicológicos sobre a vida moderna e da Física sobre a Óptica. A alteração das cidades modernas e o
sofrimento do homem com a alteração constante em seus ritmos de vida.
O auge do movimento aconteceu em 1965, quando o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque
abraçou o estilo com a exposição The Responsive Eye (O Olho que Responde), que apresentou 123
pinturas e esculturas de artistas como Victor Vasarely, Richard Anusziewicz, Bridget Riley, Ad
Reinhardt, Frank Stella, Carlos Cruz-Diez, Jesus Rafael Soto, Josef Albers, Kenneth Noland dentre
outros.
Muitos visitantes do museu ficaram intrigados pela colisão de arte e ciência, mas críticos como
Clement Greenberg foram veementemente contrário ao movimento. A amplitude de exposições
como a Responsive Eye também lançou dúvidas sobre o movimento, uma vez que através da
inclusão de artistas como Frank Stella, cujos interesses eram tão diferentes dos de Vasarely.

As principais características da Op Art são:

 Explorar a falibilidade do olho pelo uso de ilusões de óticas;


 Defender para arte “menos expressão e mais visualização”;
 Quando as obras são observadas, dão a impressão de movimento, clarões ou vibração, ou por
vezes parecem inchar ou deformar-se;
 Oposição de estruturas idênticas que interagem umas com as outras, produzindo o efeito ótico;
 Observador participante;
 Busca nos efeitos ópticos sua constante alteração;
 As cores têm a finalidade de passar ilusões ópticas ao observador.

Os artistas mais destacados são:

Victor Vassarely (1908-1997) artista húngaro, considerado o precursor da Op Art. Influenciado pela
arte cinética, construtivista e abstrata e ao movimento Bauhaus. As suas composições se constituem
de diferentes figuras geométricas, coloridas ou em preto e branco. São engenhosamente
combinadas, de modo que através de constantes excitações ou persistências retinianas provocam
sensações de velocidade e sugestões de dinamismo, que se modificam desde que o contemplador
mude de posição.
Os seus trabalhos são então essencialmente geométricos, policromáticos, multidimensionais,
totalmente abstratos e intimamente ligados às ciências. Sugere facilidades de racionalização para a
produção mecânica ou para a multiplicidade, como diz o artista, por outro lado, solicita ou exige a

15
participação ativa do contemplador para que a composição se realize completamente como uma
obra aberta.

Alexander Calder (1898-1976), escultor e pintor americano, famoso por seus móbiles, placas e
discos metálicos unidos entre si por fios que se agitam tocados pelo vento, assumindo as formas
mais imprevistas. Associou os retângulos coloridos das telas de Mondrian à ideia do movimento. Os
seus primeiros trabalhos eram movidos manualmente pelo observador. Mas, depois de 1932, ele
verificou que se mantivessem as formas suspensas, elas se movimentariam pela simples ação das
correntes de ar. Embora, os móbiles pareçam simples, sua montagem é muito complexa, pois exige
um sistema de peso e contrapeso muito bem estudado para que o movimento tenha ritmo e sua
duração se prolongue.

16
Bridget Riley (1931), artista londrina, estudou na Golsmith´s school of Art em Londres e foi uma das
principais protagonistas da pintura britânica dos anos 70. Muito influenciada por Victor Vasarely,
liderou, junto a ele, o começo da Op Art. O estilo de Riley é marcado por listras que se sobrepõem às
curvas onduladas, discos concêntricos e quadrados ou triângulos que se repetem. Devido à
organização sequencial e a relação de cores de suas obras, há a criação de sensações óticas de
ritmo nas superfícies, que parecem vibrar.

Jesús-Raphael Soto (1923-2005), artista venezuelano famoso pelos seus “penetráveis”, obra


destinadas a penetração do público como forma de interagir com o produto artístico. Estudou na
Escola de Arte de araçás e foi diretor da Escola de Belas Artes em Maracaibo, na Venezuela. Teve
trabalhos expostos em vários museus importantes.

17
Ad Reinhardt (1913-1967), pintor e escritor americano, nascido em Buffalo, Nova York. Artista e
teórico, Ad Reinhardt é mais conhecido por suas pinturas em preto, que marcam sua fase artística
posterior a 1960. Adepto do minimalismo, Reinhardt utilizava apenas o preto e suas variações em
suas obras, rejeitando os atributos convencionais da pintura.

Kenneth Noland (1924-2010), pintor americano, da Carolina do Norte, utilizou-se em suas obras de
listras e cores básicas. Ele enfatiza o plano da tela utilizando cores uniformes. Em seu trabalho, a cor
é o objetivo. Seus trabalhos mais recentes abandonaram as cores básicas, usando agora cores
modificadas em vários tons.

No Brasil, destacamos os artistas Ivan Serpa, Lothar Charoux, Luiz Sacilotto e Israel Pedrosa.

Disponível em: https://www.historiadasartes.com/nomundo/arte-seculo-20/op-art/. Acesso em: 18 jul.


2019. (Adaptado)
18
POESIA INFLUENCIOU ESTUDOS CIENTÍFICOS AO
LONGO DA HISTÓRIA: CONHEÇA

Sam Illingworth

Em diferentes épocas, alguns cientistas dedicaram parte de seu tempo para escreverem obras
artísticas.

Ada Lovelace escreveu o primeiro algoritmo do mundo (foto: Divulgação).

Ciência e poesia nem sempre se deram bem. O poeta inglês John Keats (que também se formou
como médico) escreveu a citação bastante conhecida em seu poema narrativo Lamia, em 1819:

Philosophy will clip an Angel’s wings,


Conquer all mysteries by rule and line

(Em tradução livre:


A filosofia podará as asas de um Anjo,
Decifrará os mistérios por instrumentos)

Nela, Keats critica a forma como a filosofia natural — o nome dado às ciências naturais antes da
metade do século 19 — tira a mágica de um mundo que é melhor capturado na poesia. Ele estava
certo? Em meu novo livro, investigo a forma como a poesia influenciou as vidas e trabalhos de
cientistas pioneiros. Ao fazê-lo, descobri que uma abordagem mais interdisciplinar é necessária para
entender nosso mundo.

19
Ada Lovelace
Ada Lovelace era a filha do poeta romântico Lord Byron. Pouco depois de seu nascimento, o pai foi
exilado na Grécia sob rumores de incesto. A mãe de Lovelace, Annabella, ficou determinada a não
permitir que a filha crescesse e se tornasse uma poeta “maluca, malvada e perigosa” como o que o
pai se tornou. Annabella se comprometeu a garantir a melhor educação científica à filha, dentro do
que estava disponível no começo do século 19.
Lovelace se destacou como estudante. Logo cedo foi apresentada ao matemático inglês Charles
Babbage, e seu trabalho com a máquina analítica. Os desenhos da máquina — que nunca foi
completamente construída durante a vida de Babbage — têm muitas relações com computadores
modernos, inclusive a capacidade de impressão e de desenvolver gráficos.

Retrato de Ada Lovelace aos sete anos. (foto: by artist: Alfred, Comte d' Orsay. Digital Image; Somerville
College, Oxford (Somerville College, Oxford) [public domain], via Wikimedia Commons).

Embora Babbage tenha desenhado e criado essa incrível peça de engenharia, foi Lovelace quem
enxergou seu verdadeiro potencial. Apesar dos conselhos da mãe, a jovem escrevia poesia, e mais
tarde ela refletiu que sua descoberta foi possível graças a esse ato de rebeldia.
A máquina analítica foi desenhada por Babbage para desempenhar cálculos matemáticos
complexos, mas Lovelace teorizou que a máquina poderia realizar qualquer tarefa se programada
corretamente, até mesmo compor músicas ou escrever poesias.
Essa descoberta foi surpreendente, preconizando a formalização da máquina de computação
universal criada por Alan Turing quase um século depois. Dado que qualquer laptop, tablet e
smartphone é essencialmente uma máquina de computação universal, a visão original de Lovelace
parecerá imediatamente familiar a qualquer um que escute música ou escreva algum documento
nesses dispositivos atualmente.

20
Humphry Davy
Humphry Davy foi outro cientista que também era poeta. Ele descobriu os elementos sódio e
potássio (entre outros) e sua poesia foi reconhecida por William Wordsworth e Samuel Taylor
Coleridge. Em algumas de suas primeiras pesquisas, Davy recebeu a tarefa de investigar os
benefícios médicos de óxido nitroso. Ele rapidamente percebeu os efeitos de euforia do composto e
deu a ele o nome alternativo de gás hilariante em 1800.

O cientista Humphry Davy (foto: Divulgação).

Davy continuou a fazer anotações detalhadas sobre os efeitos que o gás tinha em seus estados
físico e mental. Ele registrou alguns desses experimentos em versos. O poema On Breathing the
Nitrous Oxide (Sobre Respirar o Óxido Nitroso, em tradução livre) claramente mostra como sua
escrita foi afetada pelo gás. A euforia que ele sentiu ao experimentar o gás não poderia ser descrita
somente com lógica científica. Em vez disso, a poesia se tornou o método mais preciso para
documentar os efeitos.
Davy encorajou seus amigos poetas a fazerem “experimentos” literários similares, sem muito
sucesso. Ele foi, no entanto, muito mais bem-sucedido tentando convencê-los dos méritos da
ciência. Seus talentos como poeta garantiram o respeito de poetas do Romantismo da época, e
foram em parte responsáveis pela reconsideração do que a ciência pode esperar alcançar.

Rebecca Elson
Um exemplo mais recente de um cientista cuja vida e pesquisa foram fortemente influenciadas pela
poesia é o da astrônoma canadense Rebecca Elson. Elson foi uma das primeiras cientistas a usar
medidas do telescópio Hubble para olhar para os primeiros estágios do universo.
Depois de alguns anos de atraso, o telescópio Hubble foi lançado na órbita da Terra no dia 24 de
abril de 1990 a um custo de US$ 2,5 bilhões, tornando-o o instrumento científico mais caro de todos
os tempos. Em semanas, o telescópio começou a enviar imagens de sistemas estelares distantes.
No entanto, essas imagens tinham qualidade muito inferior que o esperado, e descobriu-se que o
espelho principal foi polido em uma forma que era muito reta.

21
A astrônoma Rebbeca Elson (foto: Wikimedia Commons).

Tal configuração significava que os objetos distantes que o Hubble deveria observar não poderiam
ser medidos com o grau de precisão exigido por astrônomos. Elson estava entre eles e sua pesquisa
sobre a formação de galáxias foi atrasada.
Em seu poema Aberração, Elson revela as frustrações de chegar tão perto ao objetivo desejado, e
ao fazê-lo explora os conceitos de fracasso, tão crítico em experimentos científicos. Foi somente
com a poesia que a física se sentiu capaz de expressar a ambivalência emocional que sentia. Seus
versos alternam entre desapontamento devastador e esperança com experimentos futuros de um
modo que seria simplesmente impossível de ser registrado em notas de laboratório ou escrita
científica.
Seja para lançar as fundações da computação moderna, ajudar a repensar o papel dos cientistas, ou
aceitar o fracasso, o trabalho desses poetas cientistas demonstra que ciência e poesia oferecem
uma abordagem complementar, e não antagonista, para entender o mundo a nossa volta.

Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2019/07/poesia-influenciou-estudos-


cientificos-ao-longo-da-historia-conheca.html. Acesso em: 30 jul. 2019.

22
LUA INSPIRA O MUNDO DAS ARTES E DA
TECNOLOGIA
Victor Ribeiro

Há 50 anos, a Terra parou para acompanhar a chegada do homem à Lua.

No dia 16 de julho de 1969, o ser humano iniciava uma grande jornada, que alcançaria o ponto mais
alto no dia 20 e voltaria a tocar o solo terrestre no dia 24.
A série de reportagem especial da Rádio Nacional conta como essa aventura inspirou artistas e
desenvolveu tecnologia para o cotidiano.

Ep. 1 - Como o homem chegou à Lua

NASA/Direitos reservados.

A missão Apollo 11, que levou seres humanos a caminhar pela superfície da Lua pela primeira vez,
durou 8 dias, 3 horas, 18 minutos e 35 segundos, desde o lançamento do foguete Saturno 5, no
Centro Espacial Kennedy, na Flórida, até o pouso da cápsula que trouxe Neil Armstrong, Buzz Aldrin
e Michael Collins de volta à Terra.
O civil Neil Armstrong, que tinha sido piloto de teste, era o comandante da missão Apollo 11; o
comandante do módulo lunar Eagle - Águia, em inglês - era o piloto da Força Aérea dos Estados
Unidos Michael Collins e o piloto do Eagle foi Buzz Aldrin, também militar da Força Aérea.

23
O Eagle tocou o solo da Lua às 16h18, no horário da Flórida, mas só às 22h56 da noite, 23h56 aqui
no Brasil, Neil Armstrong saiu do módulo lunar e, com o pé esquerdo, deu aquele pequeno grande
passo.
Mais de 3 mil jornalistas de 56 países acompanharam o lançamento da Apollo 11 no centro espacial
e levaram informações atualizadas ao público ao redor do mundo, cerca de um bilhão de pessoas.
Naquele 20 de julho de 1969, os Estados Unidos venciam a corrida espacial, que fazia parte da
Guerra Fria travada contra a União Soviética. Apesar de ser soviética a primeira sonda não tripulada
a tocar a Lua 10 anos antes, foi a Apollo 11 a primeira missão a levar à Lua e trazer de volta, em
segurança, três astronautas.

Ep. 2 - Tecnologias desenvolvidas pelos programas espaciais

NASA/Direitos reservados.

A chegada do homem à Lua, no dia 20 de julho de 1969, só foi possível, porque a tecnologia
permitiu. Equipamentos usados pelos astronautas naquela época, hoje fazem parte do nosso dia a
dia.
Entre eles, os computadores de bordo de aviões e carros; a comida armazenada a vácuo, que dura
muito mais tempo; mantas térmicas, com aquela aparência de papel laminado, muito usadas no fim
de maratonas e em resgates; sistemas de amortecimento contra terremotos; e baterias recarregáveis
para aparelhos auditivos.
Chegar à Lua trouxe conhecimentos sobre a formação da Terra e do Sistema Solar, mas frustrou
quem imaginava que o satélite seria uma fonte de recursos.
A última missão tripulada à Lua foi a Apollo 17, de 1972. Desde então, volta e meia alguém fala-se
em explorar o terreno lunar ou fazer turismo. Até agora, são opções pouco viáveis.
24
Já que não existem motivos para explorar comercialmente a Lua, ao que tudo indica está na hora de
usar o satélite como um trampolim. A Nasa anunciou que astronautas vão voltar a pisar na Lua em
2024 e, em 2028, deve instalar uma colônia sustentável, para permitir a missão Marte, já na década
seguinte.

Ep. 3 - Como a Lua inspira os artistas

Superlua - Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

Que a Lua está na órbita da Terra a gente já sabe. Mas o que orbita a Lua? Além de um satélite que
fotografa bem de perto a superfície do nosso satélite natural, podemos dizer que a música, o cinema
e a astrologia. São associações bem pouco científicas, mas muito humanas.
Ao som de um tema de John Williams, a Lua protagonizou a cena mais marcante de “E.T.”, em 1982.
Inclusive, a Lua está presente no cinema desde que começamos a apreciar as telonas. O clássico
“Viagem à Lua” é de 1902. Depois vieram “A Mulher na Lua”, “Destino à Lua”, “O Lado Sombrio da
Lua”, “Apollo 13” e, o mais recente, “O Primeiro Homem”. Isso sem contar os filmes de lobisomem.
Mas, de acordo com astrônomos, o filme que melhor retrata a Lua é “2001: Uma Odisseia no
Espaço”, lançado em 1968 - um ano antes da chegada ao satélite.
Se no cinema já é assim, imagina quando o assunto é música. Frank Sinatra cantando “Blue Moon”;
David Bowie, com “Space Oddity”; Pink Floyd, com “Dark Side of The Moon”. Além, é claro, daquele
passinho para trás do Michael Jackson, o “Moonwalk”. Os Arctic Monkeys abriram um hotel e
cassino no local onde o módulo lunar da Apollo 11 pousou, em 20 de julho de 1969, o Mar da
Tranquilidade, que, em inglês, é a “Tranquility Base”.
Por aqui, Cely Campello fez história ao lançar uma das músicas que inaugurou o rock no Brasil,
“Banho de Lua”. O Rei, Roberto Carlos, foi procurar uma namoradinha, em “Na Lua Não Há”. E Os
Paralamas do Sucesso, fizeram poesia em “Tendo a Lua”.

Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-07/lua-inspira-o-mundo-das-artes-


e-da-tecnologia-ou%C3%A7a. Acesso em: 30 jul. 2019. (Adaptado)

25
COMO A ARTE TENTA SE ADAPTAR AO FORMATO DAS
REDES SOCIAIS
Beatriz Montesanti

De festival de cinema no Instagram à literatura feita no Twitter, artistas se apropriam das plataformas
para criar novas maneiras de expressão.

Festival de Toronto fez parceria com Instagram para uma seleção de curtas na rede social. Foto: Reprodução.

Em agosto, o Tiff, sigla em inglês para o Festival Internacional de Cinema de Toronto, incluiu no
calendário do evento curtas feitos no Instagram. A competição teve como jurados a diretora Ava
DuVernay, o ator James Franco e a audiência de um dos eventos cinematográficos de maior
proeminência da atualidade. O que parece pouco, na verdade, para a popularidade da rede social. A
ideia surgiu quando o Instagram - criado para compartilhamento de fotos - estendeu suas
possibilidades a postagens de vídeos de até 60 segundos - o suficiente para se fazer cinema, ao que
tudo indica. Diferentemente da premiação tradicional, que acontece em setembro na maior cidade
canadense, o “TiffxInstagram” se deu no espaço virtual. De 11 a 18 de agosto, a conta oficial do
festival postou três filmes por dia na plataforma, de uma variedade de gêneros e origens, alguns
feitos pelo celular.

“É ótimo ver cineastas experimentarem com os parâmetros dados e ver


como eles quebram as regras do fazer cinema tradicional. Essas plataformas
estão mudando o que chamamos cinema, como criamos filmes e como
consumimos.”
Jody Sugrue Diretora-digital do TIFF, ao site “IndieWire”.

26
As produções de 60 segundos

Quando o limite de postagem de vídeo no Instagram foi estendido de 15 para 60 segundos, em


março de 2016, o “IndieWire”, site dedicado ao cinema independente, questionou especialistas da
área sobre como a medida poderia influenciar a cinematografia. “Existe uma pletora de festivais de 1
minuto, mas a experiência mostra que eles atraem filmes simplistas que dependem de piadas
obsoletas ou de estruturas de filmes de terror feitos para assustar”, opinou na ocasião Jason Sondhi,
cofundador do site Short of the Week, que promove curtas de todo o mundo. Outros foram mais
otimistas. “As restrições de se contar uma história dentro desse espaço de tempo nos força a ser
criativos e escolher frames sabiamente”, disse Jeff Hurlow, diretor de marca do Vimeo. A medida foi
ainda melhor recebida por publicitários, que viram nela um espaço ideal para a divulgação de trailers.
Os participantes da primeira experiência de supercurta ficaram de fato entre a arte e a brevidade
publicitária. Os dois vencedores foram conhecidos no dia 18 de agosto. “Hope”, do tunisiano
Mohamed Abdallah, escolhido pelo público. “La Pasión Original”, do dominicano Ivan Herrera, pelos
jurados. Ambos diretores serão levados à mostra oficial, uma chance de criar contatos com grandes
nomes da indústria cinematográfica - o Festival de Toronto tem sido visto, atualmente, como a
principal vitrine de candidatos ao Oscar. “Hope” mostra a relação com a vida de um garoto de 16
anos que perdeu as pernas num acidente quando mais jovem. Em imagens desaceleradas - quase
uma ousadia no limitado tempo disponível à narrativa -, o menino Emer Guesmi é retratado fazendo
acrobacias de muleta sob o sol do deserto.

A arte nas redes sociais

Em abril, os mais de 500 mil seguidores de Andrea Russett no Snapchat acompanharam uma
viagem da jovem com uma prima e amigos a uma cabana em um bosque - até a hora em que coisas
estranhas começaram a acontecer. Contada nos breves “snaps” típicos da rede social, a viagem que
aterrorizou os fãs de Russett era o primeiro filme de ficção já feito na plataforma. Ao todo,
“Sickhouse” foi narrado em trechos de vídeos de 10 segundos, exibidos entre 29 de abril e 3 maio.
Ele levou cinco dias para ser feito e foi sendo publicado à medida que os takes eram gravados, todos
pelo celular.

“O Snapchat é uma plataforma muito poderosa. Queríamos criar um filme


que aproveitasse todo esse potencial para se conectar com a audiência”.
Jake Avnet Diretor do estúdio Indigenous Media.

Mas não só nas plataformas de imagens a ficção está sendo feita. Desde 2012, acontece o Twitter
Fiction Festival, que reúne virtualmente escritores para contar uma história, em tempo real, utilizando
a rede social de poucas palavras. O evento surgiu quando pessoas já usavam a rede para praticar
novas formas de escrita - o que deu origem aos termos "twitterature" ou "tweet writing" - algo que
remete aos microcontos realizados há anos por cronistas e romancistas. Entre as possibilidades
literárias oferecidas pelo festival, estão paródias (criar uma personalidade ficcional e escrever de seu
ponto de vista); ficções colaborativas (quando diferentes pessoas postam conteúdos, criando em
conjunto); histórias imagéticas (feitas pela publicação de fotos em sequência, como em uma
fotonovela) e a interação de múltiplas personalidades (quando uma mesma pessoa cria diferentes
contas para diferentes personagens fictícios, que interagem formando a narrativa). Para autores
consagrados que já participaram do evento, as redes são uma plataforma interessante para a
criação, por permitirem a interação com leitores. Mas têm também grandes limitações: entre elas, a
impossibilidade de tragar leitores para uma única narrativa em meio ao caos das mídias sociais.

27
“Como usuário do Instagram, estou muito ciente da pouca atenção dada a
cada pedaço de conteúdo nas redes sociais. O que quer que seja feito para
esse espaço precisa ser bom, ou será apenas passageiro e seguiremos para
a próxima fotografia.”.
Jeff Hurlow Diretor de marca do Vimeo.

Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/08/30/Como-a-arte-tenta-se-adaptar-


ao-formato-das-redes-sociais. Acesso em: 01 ago. 2019. (Adaptado)

COMO MAURICIO DE SOUSA, 60 ANOS DE CARREIRA,


ABRAÇA NOVOS PÚBLICOS

Cesar Gaglioni

Com graphic novels, mangás, filmes e série, quadrinista amplia seu portfólio na cultura pop nacional.

Quadrinista tem apostado em graphic novels e adaptações para outras mídias. Foto: Divulgação/Editora Sextante.

Mauricio de Sousa completou 60 anos de carreira em 18 de julho de 2019, num momento em que
sua empresa, a Mauricio de Sousa Produções, está abrindo o seu leque de produtos e abraçando
28
públicos diferentes em diversas mídias. Com mais de 1,5 milhão de espectadores e uma sequência
confirmada, o filme “Turma da Mônica: Laços” ocupa a terceira posição das bilheterias nacionais,
com R$ 3,5 milhões acumulados. O longa fica atrás apenas de blockbusters de franquias
consagradas da Disney: “Homem-Aranha: Longe de Casa” e “Toy Story 4”. “Laços” é apenas uma
das obras presentes na fase atual da MSP, que desde 2008 vem fazendo apostas novas, indo além
dos gibis. À época, aconteceu o lançamento de “Turma da Mônica Jovem”, selo de quadrinhos no
estilo mangá direcionada ao público adolescente, vendendo 1,5 milhão de exemplares em suas
quatro primeiras edições.

Conquistando jovens adultos

Quatro anos depois, surgiu o selo Graphic MSP, publicando graphic novels, romances em
quadrinhos voltados para o público jovem adulto. Na iniciativa, autores nacionais adaptam os
personagens de Mauricio de acordo com seus próprios estilos. Ao todo, já foram publicados 23
álbuns, com gêneros e temas variados. As histórias vão da ficção científica, em “Astronauta:
Magnetar”, a um drama com pitadas de terror sobre a colonização de povos indígenas pelos
europeus em “Papa-Capim: Noite Branca”. Conversando com o Nexo, Sidney Gusman, idealizador e
editor da iniciativa Graphic MSP, disse que as HQs de Mauricio de Sousa sempre trataram de
questões contemporâneas da sociedade. “Mas esses temas não podem ser tão aprofundados nas
revistas de linha. Alguém pode dizer ‘Ah, mas quadrinho é só entretenimento’. Sim, são
entretenimento. Também. Eles têm um papel social, podem ajudar na formação da opinião do leitor
em determinados assuntos”, explicou. Um exemplo da discussão de um tema contemporâneo no
selo acontece em “Jeremias: Pele”, lançada em 2018, com roteiros de Rafael Calça e artes de
Jefferson Costa. Na HQ, Jeremias, que por muitos anos foi o único personagem negro da MSP,
acaba sofrendo racismo durante uma atividade escolar.

Graphic Novel foi lançada em 2018, e foi a primeira vez em que Jeremias estampou a capa de uma HQ da MSP. Foto:
Divulgação.

A ideia partiu de Gusman e foi apresentada a Mauricio. Calça quis contar a história de maneira direta
e realista. “Nossas memórias da infância foram a base. O racismo, velado ou explícito, é frequente, e
a criança descobre isso em algum momento”, contou o roteirista ao Nexo. “Tínhamos uma
29
defasagem no trato com os personagens negros”, afirmou Mauricio ao Nexo. “A graphic superou
todas as nossas expectativas, e por isso conseguimos levar adiante um projeto antigo, de ter uma
família negra no Bairro do Limoeiro. E não vamos parar por aí”, acrescenta. Gusman também explica
que não há tabu nas HQs da iniciativa, mas que alguns limites foram estabelecidos a ele e
repassados para os autores: “Eu não posso mostrar um personagem do Mauricio usando drogas.
Mas isso não significa que eu não possa desenvolver uma história sobre o uso de drogas. Na
primeira graphic do Piteco, a história termina com a Thuga grávida dele. Mas eu não preciso mostrar
o momento em que eles conceberam a criança” O selo, ao todo, já vendeu mais de 600 mil
exemplares, e o maior impacto, segundo Gusman, está no fato de que muita gente voltou a ler
quadrinhos depois de conhecer as novas graphic novels da Turma. Os autores dos álbuns também
se beneficiaram da iniciativa, e, além de novas oportunidades, conseguiram se aproximar dos
leitores em eventos como a CCXP, Comic Con Experience, que ocorre anualmente, em São Paulo.
“A MSP e o Sidney foram muito certeiros, desde quando fizeram o MSP 50, depois o MSP +50, os
projetos que resultaram nas graphic novels. Tinha muita gente produzindo, mas sem ter como escoar
a produção, e a CCXP passou a ser um ponto de encontro pra esse pessoal falar diretamente com o
público. Foi um alinhamento dos astros”, disse ao Nexo Marcelo Forlani, um dos idealizadores e
organizadores do evento. Para Ivan Costa, outro organizador da Comic Con Experience, a
renovação de Mauricio de Sousa é causa e consequência do momento atual dos quadrinhos
nacionais, que, nos últimos anos, passou a ter cada vez mais nomes. “O selo é um efeito do
mercado, mas ao mesmo tempo fomenta, porque apresenta artistas que não necessariamente o
público conhecia”, avaliou Costa ao Nexo. “E esses eventos, como a CCXP, são fundamentais. Nós
temos um país muito grande, com uma dificuldade muito grande na distribuição. É muito difícil, por
exemplo, você fazer com que o trabalho de um artista do Sul chegue nas mãos de um leitor no Norte
ou Nordeste. Ou até mesmo num bairro vizinho. O evento coloca o artista frente a frente com o
público”, acrescenta.

Telonas e novos horizontes

O primeiro fruto direto da iniciativa Graphic MSP chegou no final de junho. “Turma da Mônica: Laços
- O Filme”, com direção de Daniel Rezende (de “Bingo: O Rei das Manhãs”), estreou em todo o
Brasil. O lançamento do longa abre margem para novas adaptações das graphic novels em outras
mídias. “Quando o filme foi anunciado, em 2016, diversas produtoras entraram em contato com a
gente, interessadas em adaptar outros títulos. Tem caminho para isso, e é algo que os artistas
envolvidos também sabem desde o começo”, diz Gusman. As adaptações não se restringem apenas
ao cinema. Em 2017, a MSP anunciou uma parceria com o canal HBO para o desenvolvimento de
uma série em animação baseada nas Graphic MSP do Astronauta, escritas e desenhadas por Danilo
Beyruth. Além do selo para jovens adultos, a empresa está tentando atingir outros públicos. Uma das
iniciativas é o selo Mangá MSP, que estreia no começo de agosto com “Turma da Mônica - Geração
12”, uma HQ de fantasia dirigido ao público pré-adolescente. “Nós percebemos que havia um vácuo
entre os mangás que já tínhamos e os leitores que têm por volta de 12 anos de idade. É um universo
paralelo entre a Turminha e a Turma Jovem”, explica Mauricio. Outro produto lançado recentemente
pela MSP foi o videogame “Turma da Mônica e a Guarda dos Coelhos”, lançados para computador,
PlayStation 4 e Nintendo Switch, levando a turminha do Limoeiro para a comunidade gamer, com um
visual inspirado nos jogos dos anos 90. Dentre os planos atuais da MSP estão a inauguração de
uma subsidiária da empresa no Japão, um espetáculo circense com a Turma, o lançamento de um
parque temático com seus personagens em Pernambuco e uma série de livros de Monteiro Lobato
ilustrados por sua equipe.

Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/07/19/Como-Mauricio-de-Sousa-60-


anos-de-carreira-abra%C3%A7a-novos-p%C3%BAblicos. Acesso em: 02 ago. 2019.

30
“OS SERTÕES” TEM QUE SER LIDO TODOS OS DIAS,
ENQUANTO PERSISTIR A SITUAÇÃO DOS POBRES
BRASILEIROS

Joana Oliveira

Abertura da Flip mistura música e literatura ao ilustrar a crueldade de 'Os Sertões' que se mantém na
sociedade brasileira.

A ensaísta e crítica literária Walnice Nogueira Galvão, durante abertura da Flip 2019. Divulgação.

A 17ª Festa Literária de Paraty (Flip) começou bem ao estilo de seu homenageado, Euclides da
Cunha: densa, dura e desbravadora de linguagens. Música e literatura misturaram-se em uma noite
em que Walnice Nogueira Galvão, ensaísta e crítica literária, brindou o público com todos os seus
conhecimentos de décadas da obra euclidiana. "Euclides viu de perto, pela primeira vez, o povo
brasileiro. Viu que o povo brasileiro é mestiço, messiânico, analfabeto, e não os brancos ricos do Rio
de Janeiro", afirmou, ao referir-se a Os Sertões durante uma conferência de mais de uma hora, ante
uma plateia majoritariamente branca.
A atualidade da obra que narra a Guerra de Canudos (1896-1897) será debatida até este domingo
(14) por 33 intelectuais —sendo 17 mulheres— de 10 nacionalidades, em áreas que vão da
sociologia à fotografia e abordando temas como raça, gênero e pós-colonialismo. Os temas têm tudo
a ver com o livro. "Os Sertões é uma colcha de retalhos de muitas outras narrativas", explicou
Galvão, ao lembrar que, ainda que esconda o fato hermeticamente em sua obra-prima, o autor
31
passou apenas três semanas em Canudos e valeu-se, em grande medida, do testemunho de
terceiros para construir seu relato.
Euclides debruçou-se sobre o massacre de Canudos ao perceber a desonestidade dos relatos
oficiais que publicavam-se à época. "Não foi Trump quem inventou as fake news. Os repórteres que
cobriram Canudos eram militares, muitos deles combatentes, e publicavam notícias falsas sobre o
suposto perigo que aquelas pessoas representavam", explicou a especialista. O próprio Euclides, no
entanto, vinha de formação militar, o que supôs um conflito que, para Galvão, também ficou
impresso no livro. "O leitor pode acompanhar na obra a tensão e o sofrimento de quem a escreve.
Ele acreditava verdadeiramente em uma instituição que agora matava o povo que deveria proteger".
A especialista também compartilhou com o público detalhes curiosos do escritor. Os Sertões,
publicado em 1902, bateu um recorde brasileiro à época ao ganhar três edições nos três primeiros
anos de publicação. Isso deu rédea solta, de acordo com Galvão, ao "transtorno obsessivo-
compulsivo emendador" de Euclides. De acordo com a especialista, durante esse período, o escritor
apagou, uma por uma, cerca de mil "vírgulas vagabundas" da primeira edição.
Na abertura oficial da Flip 2019, o público também pôde deliciar-se com o espetáculo Mutação de
Apoteose, inspirada em um trecho de A Terra, primeira parte do clássico de Euclides, com direção
artística da atriz Camila Mota. A montagem nasceu no Teatro Oficina, que criou-a na década
passada a partir de canções de nomes como Adriana Calcanhotto, Chico César, Tom Zé e Arnaldo
Antunes para as adaptações das obras de Euclides.
"Euclides da Cunha é um autor que imprime muita oralidade na escrita, que inevitavelmente se
transformou em música na aventura de transpor o livro para o teatro. Agora, é uma nova
transposição, que parte da matéria criada pela encenação do Teatro Oficina, mas coloca novamente
as palavras cantadas como motor do espetáculo”, declarou Mota à imprensa. “Voltar a Os Sertões,
que revelou a força estética das insurreições, das lutas contra o martírio da terra, é muito importante
neste momento, em que devemos invocar inteligência, clareza, interpretação e eloquência", concluiu.
Fazendo eco de suas palavras, Walnice Nogueira Galvão encerrou a conferência de abertura
lembrando que as violências narradas na obra euclidiana perduram na sociedade brasileira atual.
"Os Sertões tem que ser lido todos os dias, enquanto persistir a situação dos pobres brasileiros.
Enquanto ocorrer o genocídio dos jovens negros nas favelas de São Paulo, a militarização das
comunidades do Rio de Janeiro, enquanto acontecerem tragédias como as de Mariana e
Brumadinho", disse, ante os aplausos da plateia. Minutos depois, o palco foi tomado por imagens da
crueldade brasileira: o assassinato de Marielle Franco, os (mais de) 80 tiros que mataram Evaldo dos
Santos Rosa, a morte de Marcos Vinícius, de 14 anos, baleado durante operação policial na Favela
da Maré quando ia para a escola. A música que começou na sequência não suavizou a dureza da
mensagem.

Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/10/cultura/1562785827_446579.html. Acesso


em: 02 ago. 2019. (Adaptado)

32
JARID ARRAES, A “JOVEM MULHER DO SERTÃO” QUE
FAZ LITERATURA RETIRANTE

Joana Oliveira

Escritora, poeta e cordelista lança livro de contos protagonizados por mulheres do Cariri cearense e fala se
sua condição de migrante do século XXI: "A gente mora nessa casa com telhado quebrado".

A escritora Jarid Arraes. Foto Divulgação.

Jarid Arraes, cordelista e escritora de 28 anos, define-se como uma "jovem mulher do sertão",
apesar de viver em São Paulo desde 2014 (mudou-se exatamente no dia 31 de dezembro). Nascida
e criada em Juazeiro do Norte, região do Cariri cearense, ela cresceu entre os cordéis escritos pelo
pai e o avô e os livros da mãe, professora. Aprendeu a ler antes de chegar à escola e, depois dos
cordéis, descobriu a poesia. "Lia Drummond, Goulart, Augusto dos Anjos. Graças a isso, comecei a
escrever também muito cedo, fazendo biografias de mulheres negras em cordel", conta ela na Festa
Literária Internacional de Paraty (Flip), onde foi um dos destaques, com o livro de contos
Redemoinho em dia quente (Alfaguara), o primeiro que publica em uma grande editora.
Arraes só soube que podia escrever, de fato, quando conheceu o nome Conceição Evaristo.
"Descobri-la me deu a confirmação que eu podia escrever, porque eu nunca tinha lido nada escrito
por uma mulher negra, por alguém que parecesse minimamente comigo. Quando li Cadernos
Negros, a literatura se abriu para mim e comecei a publicar o que eu escrevia".
A primeira obra, um livro de cordéis, foi publicado aos 22 anos, por meio de um empréstimo. Depois,
vieram a coletânea Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, lançado em 2017, e o livro de poesia
Um buraco com meu nome, do ano passado. A escritora tem um carinho especial, no entanto, pelo
33
caçula, onde todos os contos são protagonizados por mulheres e no qual ela imprime a vivência de
ser uma espécie de retirante no século XXI e suas visões sobre a terra natal. "São histórias que
fogem do estereótipo da mulher sertaneja, que vive em casa de taipa, com chão rachado e caveira
de vaca na frente. Mesmo quando retrato a pobreza em alguns contos, não é dessa forma, porque
não foi isso que eu vi e nem acho interessante reproduzirmos sempre as mesmas coisas. Quis
representar um Cariri urbanizado, com idosas lésbicas, mulheres que gostam das tradições, outras
que as subvertem… Me representa muito, não só por ser um livro da minha terra, mas por ter essa
multiplicidade de vozes", explica.
Em Redemoinho em dia quente, o leitor conhece as histórias de uma velha religiosa que toma
remédios alucinógenos para encontrar Padre Cícero, de uma travesti cujo sonho é conhecer Silvio
Santos, mas também o relato de uma adolescente que descobre que o pai abusa sexualmente de
sua irmã. "Agora ela é como uma casa com telhado quebrado, mas onde ainda mora gente", diz, em
certo momento, a personagem. Arraes usa essa frase para construir um paralelo com as muitas
violências às quais as mulheres são submetidas e que ela mesma sofreu, conta, como nordestina
migrante em São Paulo. "A gente mora nessa casa com telhado quebrado", afirma.
O livro também é especial porque restabeleceu a relação de carinho entre a escritora e o Cariri, algo
que fica claro no conto em primeira pessoa Despedida de Juazeiro Norte. "A vida inteira, sentia que
aquele lugar não me encontrava, não me sentia pertencente. Por muito tempo, não gostei de lá, e
esse livro e a ida para São Paulo me fizeram ver o carinho e a saudade que tenho da minha terra.
Até mesmo o fato de ser escritora, com toda a influência do cordel, só foi possível porque cresci lá,
porque aprendi lá", diz Arraes.
Apesar dos planos de publicar, em breve, um romance, a escritora conta que não pretende
abandonar o cordel. "Valorizo essa literatura como estética, como tradição. Só atualizo os temas,
mas mantenho a identidade, que são o ritmo, a rima, a métrica". Ela pretende continuar fazendo essa
parte de sua obra de maneira independente, montando um a um não mão e mandando para os
leitores por correio. "Isso é autonomia e respeito à tradição. Um acordo que faço com as editoras é
que, mesmo que publique outro livro de cordel, continuarei vendendo as histórias individuais como
folheto".
Desde que começou a publicar de modo independente, Arraes mantém uma loja online. Com mais
de 30 mil seguidores, ela é muito consciente que grande parte do seu êxito veio da relação direta
com o público nas redes sociais. "Só consegui chegar onde cheguei porque soube usar a Internet.
Eu não estava nas livrarias, então onde ia mostrar meu trabalho? Além disso, valorizo muito minha
relação com os leitores, respondo todo mundo, sempre estou muito próxima. Acho que essa é uma
relação mais honesta e há mais apoio. É algo que nenhuma vitrine ou editora substitui", diz. Durante
a Flip, a escritora recebeu um dos apoios que mais almejava: o da sua mentora literária, Conceição
Evaristo. "Você me mostrou que não estou condenada ao silêncio", disse, emocionada.

Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/16/cultura/1563309707_729625.html. Acesso


em: 05 ago. 2019.

34
ARTESANATO INSPIRADO NA CULTURA MINEIRA
GARANTE O FUTURO DE JOVENS VULNERÁVEIS

Larissa Ricci

Em fabriquetas de economia solidária, adolescentes aprendem um ofício e garantem renda. Mais de 1.500
jovens já passaram pela Cooperativa Dedo de Gente, implantada em Raposos, Curvelo e Araçuaí, com
vendas também pela internet. Projeto pedagógico inclui audiovisual, turismo, software e jardinagem.

Peças produzidas pelos jovens na cooperativa em Raposos. Projeto está ainda nas cidades de Curvelo e Araçuaí e as
vendas são feitas também pela internet. (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press).

Feito a mão. Seja pela serralheria, marcenaria, cartonagem, jardinagem ou pela produção de
compotas, licores e geleias, o que importa é exaltar a cultura mineira nas pequenas produções
artesanais que se inspiram nas lavadeiras do Jequitinhonha e até nas obras de Guimarães Rosa
(1908-1967). Ao longo dos últimos 23 anos, mais de 1.500 jovens em situação de vulnerabilidade,
moradores dos municípios de Curvelo (Região Central), Araçuaí (Vale do Jequitinhonha) e Raposos
(Região Metropolitana de Belo Horizonte) tiveram a oportunidade de aprender, valorizar a cultura
popular do estado e obter uma fonte de renda por meio do artesanato.

35
A Cooperativa Dedo de Gente foi criada em 1996, como desdobramento do trabalho do Centro
Popular de Cultura e Desenvolvimento, fundado em 1984 pelo antropólogo e educador popular Tião
Rocha. Os jovens, ao completar 16 anos, já podem procurar a Dedo de Gente para se inscrever. No
começo, o artesanato era apenas um pretexto para desenvolver habilidades dos alunos e promover
a educação pela convivência. Mas logo a “brincadeira” virou cooperativa, que tem como propósito
gerar possibilidades inovadoras de desenvolvimento humano e profissional. Atualmente o projeto
atende 42 jovens. "Temos uma lista de interessados em participar do projeto", disse Doralice
Barbosa Mota, de 73 anos, presidente da cooperativa.
Adolescentes desenvolvem trabalhos com madeira, reciclagem artística de ferro, produtos com tinta
de terra como cartões, quadros, pinturas em paredes e enfeites, casa de passarinho e cartonagem
(fabricação de embalagens e sacolas diversas). O ponto de partida das formas criadas nas
diferentes fabriquetas é a cultura local, o protagonismo do jovem e o respeito ao meio ambiente. “As
referências são os artistas e pessoas locais, o cotidiano do interior mineiro, a literatura, pesquisas na
internet, paisagens e conversas. As criações são coletivas, compartilhadas em roda. Quando alguém
cria um produto novo ou uma ideia os coloca na roda para aprovação do grupo. Todos avaliam e
contribuem para melhorar o desenho ou o acabamento de cada produto”, explicou Doralice.
Um dos mais recentes projetos é o Arte do Sertão Mineiro, desenvolvido em parceria com a
turismóloga Maria Lúcia Fernandes. Esse projeto tem como objetivo fortalecer e promover a cultura
sertaneja e os territórios Central e Vale do Jequitinhonha. Ao longo do ano passado, os jovens
artesãos realizaram estudos, participaram de capacitação, fizeram exercícios de criação e assim
puderam executar desde as tarefas de produção do artesanato até a elaboração do material gráfico.
“Assim, criou-se uma coleção de peças em ferro diretamente ligadas à cultura do sertão mineiro, que
expressa valores, crenças, o cotidiano e a literatura rosiana. As obras do autor de Grande sertão:
veredas sempre foram fonte de inspiração. A base para a criação e construção das peças está no
saber de onde eu vim, qual é meu povo, minhas raízes, minha música, os fazeres dos meus
antepassados, os sonhos”, explicou. O projeto foi aprovado em edital de fomento e fortalecimento do
artesanato em Minas Gerais, da Codemig e do governo de Minas, no início de 2018.
A mandala Travessia, por exemplo, é uma peça criada a partir do conto do burrinho pedrês. Trata-se
de uma história real de um grupo de vaqueiros que fazia a travessia do Córrego da Fome quando de
repente uma enchente os pegou. Poucos sobreviveram, entre eles o burrinho Sete de Ouros, mesmo
que ninguém desse nada por ele. Outras são uma verdadeira homenagem: a Mulheres do Vale
exprime a força e a garra da mulher sertaneja. “Todas as peças têm uma história ou significado
definido pelo jovem artesão”, acrescentou.

Mudança de vida

Ebert Soares, de 23 anos, conheceu o projeto em 2012 por meio de alguns amigos. Ele conta que
sempre gostou de artesanato, mas nunca se imaginou fazendo peças de ferro como principal fonte
de renda. "Sou da parte de serralheria. Faço artesanato em ferro. Minha vida mudou bastante.
Antigamente, eu era um cara fechado. A Dedo de Gente me mostrou uma vida completamente
diferente, da qual hoje me orgulho de participar. Acabo conhecendo várias pessoas que passam a
ser amigas para a vida toda. Consegui perder a vergonha e falar abertamente com a pessoas.
Consegui focar nos estudos e não desistir do ensino médio, não parar só por aí", contou ele que,
além de ser integrante da cooperativa, faz curso de bombeiro civil. É por meio do artesanato que ele
pode ajudar a mãe.
O rapaz se empolga ao contar que o desafio move seu trabalho. "Gosto de fazer o que me leva ao
desafio. Fazer uma peça porque ninguém ainda a fez. E ver desafio me deixa mais empolgado”,
afirmou. Ele disse que o objeto confeccionado que mais marcou sua trajetória foi o símbolo da
Justiça, a deusa Themis Larissa Ricci, em ferro. "A Justiça não olha se é rico ou pobre, se você é
negro ou branco, se de classe média alta ou baixa. Ela não quer saber sua classe social, etnia,
religiosidade. Ela quer saber se está certo ou errado", disse.

36
O trabalho pedagógico com os adolescentes é uma vertente importante do projeto. “Eles participam
da formação pedagógica e técnica continuada e integram fabriquetas de economia solidária. Nelas,
aprendem um ofício e encontram espaços de diálogo, convivência, criação e estímulo ao
protagonismo. Em cada fabriqueta há mestres e todos são aprendizes”, explicou. A formação é
realizada a partir de jogos e dinâmicas que contribuem para a discussão e reflexão de temas
diversos ligados aos conceitos e princípios do projeto, que são a cooperação, criatividade, respeito,
compromisso ambiental, protagonismo juvenil, valores humanos, culturais e éticos e pedagógicos.
A produção dos jovens se ampliou gradativamente, em diversidade e qualidade e hoje está dividida
entre produção audiovisual, fabriqueta de softwares, turismo e jardinagem. "O jovem, depois que
participa da Dedo de Gente, se torna uma pessoa protagonista, empreendedora, diferenciada,
fortalecida nos conceitos coletivos, passa a ter atitudes como preocupação pelo meio ambiente, pelo
bem-estar da comunidade em que vive. Muitos abrem seu próprio negócio ou são convidados a
ingressar em empresas da cidade", acrescentou Doralice.
Hoje, o projeto dispõe de lojas físicas em Curvelo, Araçuaí e Raposos. Também conta com um
calendário anual de feiras e exposições por todo o Brasil. “Há produtos com valores que variam de
R$ 18 (geleias e doces) a R$ 18 mil, entre eles réplicas de animais premiados como boi, cavalo e
touro em tamanho real. Comercializamos também por meio da loja virtual
www.dedodegente.com.br”.

Disponível em:
https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2019/07/28/interna_gerais,1072934/artesanato-inspirado-
na-cultura-mineira-garante-o-futuro-de-jovens-vul.shtml. Acesso em: 05 ago. 2019.

37
O FUNK É ARTE. E CHEGOU PARA FICAR

Sandro Moser

Resistência ao ritmo musical usando argumentos como “vulgaridade” e “falta de técnica” repete as mesmas
críticas sofridas por outros movimentos culturais.

Mc Guimê: música “País do Futebol” como trilha de abertura de novela “Geração Brasil”, da TV Globo, mostra
assimilação paulatina do funk| Foto: João Januário/TV Globo.

A sociedade ficou chocada. Um bando de pretensos artistas rompeu com o que todos acreditavam
que era de bom gosto e passou a se dedicar a temas considerados vulgares, pouco elevados,
indignos. Como consequência, ninguém os levava a sério. Eram repudiados e ridicularizados.
Podíamos estar falando dos funkeiros. Mas, não, estamos falando de artistas como Monet, Degas e
Renoir, hoje indiscutivelmente considerados mestres da pintura, arte mais do que respeitável.
Quando iniciaram o movimento impressionista, suas pinceladas rápidas eram, porém, tidas como
toscas, imprecisas, pouco refinadas. Os temas pintados por eles — assim como as músicas que
descem o morro no ritmo do batidão — eram “vulgares”, pois em vez de retratar cenas clássicas,
santos e deuses gregos mostravam pessoas fazendo coisas ordinárias: bebendo, em piqueniques,
andando. Um escândalo.
Qualquer semelhança com a ascensão funk no Brasil não é coincidência.
Desde meados de 1970, bailes organizados por equipes de som em que um DJ que animava a pista
ao som da black music. Mais do que festas, eram eventos de conscientização do movimento negro.
38
Em 1987, o antropólogo Hermano Vianna apresentou trabalho acadêmico (que virou o livro “O
Mundo Funk Carioca”), o primeiro texto de pesquisadores de peso fascinados com o fenômeno.
Mas desde sua gênese até a sua forma atual, o funk foi alvo de críticas.
Por ser um fenômeno popular, não faltam detratores.
Processo parecido ocorreu com o samba no início do século 20. Criado por descendentes de
escravos em bairros pobres, o samba foi combatido pelo Estado. Hoje é um dos maiores símbolos
nacionais.
Um dos argumentos mais usuais contra o funk é sua associação com a pornografia das letras. De
acordo com Helga Gahyva, professora de sociologia da UFRJ, as letras estão associadas ao
“realismo grotesco”. “É uma forma de dizer verdades sobre o mundo sob o disfarce do riso”.
Outro estigma é a relação com a violência. O funk seria a trilha sonora do crime organizado. Desonra
nascida em 1992 quando os grandes arrastões no Rio ficaram na conta das “galeras funk”.
O ex-ministro da Cultura Juca Ferreira se posicionou sobre isso em um debate na Biblioteca Mário
de Andrade em São Paulo, há dois anos. “O traficante está presente [no funk], porque é uma parte
da sociedade e uma parte do território que o Estado deixou ao deus-dará. Criminalizar quem vive
perto, com um nível de desproteção razoável, me parece que é acrescentar um erro em cima do
outro”.
A despeito disso, o gênero só vem crescendo nas últimas décadas, pelas mãos de uma geração de
jovens que conseguem criar sucessos sem a ajuda do mercado e com tecnologias baratas.
Uma rápida pesquisa no YouTube (atualmente o termômetro mais fiel da popularidade musical)
mostra quem são os campeões de audiência. Mesmo em Curitiba há uma cena consolidada, com
estrelas como MC Mayara.
Quanto ao suposto mau gosto da música, a quem cabe julgá-lo? Ao estado ou uma junta de artistas
ou organizações de classe dariam uma carimbo do que pode e o que não pode? Na história da
humanidade, sempre deu errado. Sob o discurso do bom gosto, quase sempre há um esforço
conservador da sociedade.
Mesmo por que o funk já está em processo de assimilação. A aproximação de Caetano Veloso, que
comparou o funk ao movimento tropicalista, é um alerta.
Autor do livro “101 Funks Que Você Tem Que Ouvir Antes de Morrer”, o escritor Julio Ludemir disse
em entrevista o jornal “O Globo” que é preciso cuidado para que a história não se repita. “O samba
foi apropriado pelas elites e, atualmente, exclui os próprios criadores. Hoje, o samba está na Lapa,
mas não está na favela. Por enquanto, as comunidades ainda são funkeiras”.

Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/artes-visuais/o-funk-e-arte-e-chegou-


para-ficar-eop8p6zue9okji45mw51rhmfg/. Acesso em: 06 ago. 2019.

39
CULTURA AFRO-BRASILEIRA NA MÚSICA

O colunista Moisés da Rocha escreve sobre a cultura afro-brasileira na música. Confira.

Moisés da Rocha fala sobre a cultura afro-brasileira na música | FOTO: Divulgação.

Apesar de uma série de circunstâncias que fragmentam e distorcem a essência da cultura Afro-
brasileira, o povo negro se levanta e toma o espaço cultural do país criando, inovando e dialogando.
Lembrar essas histórias nos faz vivos e ativos. Uma revolução foi causada na MPB pelo surgimento
do samba “fundo de quintal”, saído da quadra do Bloco Carioca Cacique de Ramos e consagrado por
seus mais autênticos representantes. Ali estavam Zeca Pagodinho, Jovelina Perola Negra, Leci
Brandão, Grupo Fundo de Quintal, Mauro Diniz, entre outros popularizados pela rádio USP FM,
através do Programa “O Samba Pede Passagem” e sua Caravana do Samba. Já em São Paulo, o
destaque foi as manifestações que tiveram como “sede” a quadra da Camisa Verde e Branco, que,
como em anos anteriores, como no caso do Grupo Os Originais do Samba (Mussum e Cia), abrigou
os representantes do novo Samba carioca, no então Salão São Chic, na Rua Brigadeiro Galvão,
Barra Funda. Através da Rua do Samba, Botequim do “Camisa” e do Clube do Pagode surgiram
nomes que fazem até hoje a história do samba paulistano, como Boca Nervosa, Reinaldo o Príncipe
do Pagode, Eliana de Lima, Royce do Cavaco e muitos Grupos de Pagode. Também alcançaram a
notoriedade os compositores Mestre Talismã, Murilão da Boca do Mato, Zeca da Casa Verde, B.
Lobo, Geraldo Filme e muitos Grupos.
Foi o grande momento do Samba. Depois disso, muitos Grupos influenciados pela indústria
fonográfica e pela mídia que comercialmente enxergou o grande filão, seguiram um outro caminho, o
do sucesso mais fácil e mais rentável, financeiramente. Diversos grupos e cantores, que
permaneceram fiéis do estilo tradicional, de repente se viram ignorados pela mídia, com
pouquíssimos espaços em Programas de Rádio e TV e, na maioria das vezes, contaminados pelo
famigerado e insaciável “jabá” (gíria que se refere ao pagamento de propina para que seja feita a
40
divulgação de um produto artístico nos meios de comunicação). Mas, nem tudo estava perdido! A
grande e heroica resistência já estava se organizando, sem alarde. Fora dos meios badalados, as
rodas de samba que sempre existiram, quer nas batucadas nas beiras dos campos de várzea, quer
nos saraus familiares de fim de semana em torno de uma churrasqueira, criaram os alicerces, a
partir dos quais, as comunidades em São Paulo foram se organizando. O pioneiro que se tem
registro na historia surgiu em Osasco (zona oeste) da grande São Paulo, denominado “Samba
Nosso”, que inspirou a Comunidade Samba da Vela. Esta agremiação foi fundada em Santo Amaro,
pelos sambistas Chapinha e Paquera. Outros foram surgindo, como a Comunidade do Samba de
São Mateus (Zona Leste paulistana), que acabou provocando o surgimento do hoje internacional
Quinteto em Branco e Preto (tendo os irmãos Maurílio e Magnu também como integrantes do Samba
da Vela).
Cada uma dessas Comunidades se tornou um verdadeiro ponto de referência para os moradores de
todas essas localidades, em todas as faixas etárias, pois, além de promover o resgate do Samba
como Cultura Popular afrodescendente, ainda desenvolve os mais variados projetos de cunho social,
até agora sem o apoio e/ou interferência do Poder Público, recebendo sempre Sambistas do Rio de
Janeiro e de outras partes do Brasil, o que já provocou o surgimento de inúmeras parcerias musicais.
Continuamos torcendo para que a Mídia-mercado, principalmente a televisiva, não tome conta
também desse segmento, descaracterizando-o e tirando-lhe a espontaneidade, como já aconteceu
com o Carnaval e outros movimentos culturais. Atualmente, as centenas de Comunidades do
Samba, são os Quilombos de Resistência de Nossa Cultura Popular.

Disponível em: https://revistaraca.com.br/cultura-afro-brasileira-na-musica/. Acesso em: 06 ago.


2019. (Adaptado)

41
CHARGES

Disponível em: https://www.humorpolitico.com.br/tag/arte/. Acesso em: 07 ago. 2019.

Disponível em: https://amarildocharge.files.wordpress.com/2019/04/blog-16.jpg. Acesso em: 07 ago.


2019.

42
Esta charge é uma crítica referente à evolução da espécie humana. O homem primata acreditava
que tudo o que criava era o melhor que poderia existir. E isso ocorria devido ao isolamento das
tribos. Com a globalização tudo mudou, sabemos que a novidade de hoje já será antiga amanhã e
ultrapassada daqui alguns anos. Mas a arte se estabelece como identidade cultural das civilizações.
Ela se perpetua através dos tempos e revela os hábitos e costumes da civilização humana.

Disponível em: http://ensinoedumatec.blogspot.com/2014/08/charge-2-educacao-e-arte.html. Acesso


em: 07 ago. 2019.

43
MÚSICAS
Comida
(Titãs)

Bebida é água! Você tem sede de quê?


Comida é pasto! Você tem fome de quê?
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê? A gente não quer só comida
A gente quer comida
A gente não quer só comida Diversão e arte
A gente quer comida A gente não quer só comida
Diversão e arte A gente quer saída
A gente não quer só comida Para qualquer parte
A gente quer saída
Para qualquer parte A gente não quer só comida
A gente quer bebida
A gente não quer só comida Diversão, balé
A gente quer bebida A gente não quer só comida
Diversão, balé A gente quer a vida
A gente não quer só comida Como a vida quer
A gente quer a vida
Como a vida quer A gente não quer só comer
A gente quer comer
Bebida é água! E quer fazer amor
Comida é pasto! A gente não quer só comer
Você tem sede de quê? A gente quer prazer
Você tem fome de quê? Pra aliviar a dor

A gente não quer só comer A gente não quer


A gente quer comer Só dinheiro
E quer fazer amor A gente quer dinheiro
A gente não quer só comer E felicidade
A gente quer prazer A gente não quer
Pra aliviar a dor Só dinheiro
A gente quer inteiro
A gente não quer E não pela metade
Só dinheiro
A gente quer dinheiro Diversão e arte
E felicidade Para qualquer parte
A gente não quer Diversão, balé
Só dinheiro Como a vida quer
A gente quer inteiro Desejo, necessidade, vontade
E não pela metade Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Bebida é água! Necessidade
Comida é pasto!

Disponível em: https://www.letras.mus.br/titas/91453/. Acesso em: 07 ago. 2019.


44
Tempo e Artista
(Chico Buarque)

Imagino o artista num anfiteatro


Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela

Modelando o artista ao seu feitio


O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso

Já vestindo a pele do artista


O tempo arrebata-lhe a garganta
O velho cantor subindo ao palco
Apenas abre a voz, e o tempo canta

Dança o tempo sem cessar, montando


O dorso do exausto bailarino
Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito

No anfiteatro, sob o céu de estrelas


Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito

Disponível em: https://www.letras.mus.br/chico-buarque/86064/. Acesso em: 07 ago. 2019.

45
FILMES

Enquanto o pintor francês Pierre-Auguste Renoir, em seus últimos


anos de vida, arruma uma nova modelo para seus quadros, o filho
dele, que no futuro se tornaria o renomado cineasta Jean Renoir, volta
da Primeira Guerra Mundial logo após a adolescência e busca
encontrar um rumo para a própria vida.

Disponível em: https://www.papodecinema.com.br/filmes/renoir/.


Acesso em: 08 ago. 2019.

A vida da artista Frida Kahlo, que levou as injúrias de um acidente


quase fatal, e os seus descontentamentos com o seu tempestuoso
casamento para a sua arte, tornando-se uma das mais controversas e
aclamadas personalidades de sua época.

Disponível em: https://www.papodecinema.com.br/filmes/frida/. Acesso


em: 08 ago. 2019.

46
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir dos conteúdos aqui expostos e das reflexões suscitadas, cabe observar que a jornada pelo
universo da cultura e das artes pode ser infinita. Afinal, são múltiplas linguagens, formas, cores,
sons, combinações e plataformas. As produções artísticas, elaboradas em épocas e lugares distintos
e expressas em obras estáticas ou em movimento, sempre têm um propósito, uma mensagem, um
público. Dessa maneira, a cultura retratada segundo o olhar da arte interage com seus interlocutores
na medida em que, de alguma maneira, os sensibiliza, dialogando com as coisas do mundo,
marcando seu legado histórico.
É essencial aos indivíduos, portanto, ter direito ao acesso facilitado à cultura e às artes, uma vez que
elas contribuem veementemente para a construção da sociedade e para a formação da identidade
dos cidadãos. Ao poder público converge o dever de incentivar essa aproximação, seja através da
educação ou por meio de ações diretas junto à comunidade, oportunizando cenários para que a
cultura e a arte prossigam conjugando o verbo humanizar em todos os tempos e espaços.

Equipe FSCE.

47