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Políticas urbanas de patrimonialização

e contrarrevanchismo: o Recife Antigo


e a Zona Histórica da Cidade do Porto*
Rogério Proença Leite
Paulo Peixoto

Resumo Abstract
Este artigo pretende discutir alguns aspectos This article discusses some aspects of
das políticas urbanas de enobrecimento, tendo urban policies of gentrification, based on
como referentes empíricos o Bairro do Recife e the following empirical references: the
a zona histórica do Porto (Portugal). O argu- Neighborhood of Recife and the historic area
mento central é que, após o período de apogeu of Porto (Portugal). The central argument is
das intervenções urbanas, que agem como um that, after the apex of urban interventions,
elixir para os problemas de uma realidade deca- which act as an elixir for the problems of a
dente, ocorre uma contrarrevanche exacerbada decaying reality, there is a counter-revanchism
por um sentimento de reconquista do espaço exacerbated by a sense of space recovery that
que aniquila as perspectivas depuradoras des- annihilates the perspectives to improve such
sas operações. Esse trabalho, desenvolvido no operations. This work, developed in the scope
âmbito de uma pesquisa comparada entre reali- of a research study that compares Brazilian
dades urbanas brasileiras e portuguesas, ques- and Portuguese urban realities, questions
tiona esses processos de patrimonialização de such processes that transform historic centers
centros históricos procurando relevar a volubi- into cultural heritage, trying to reveal their
lidade desses processos. volubility.
Palavras-chave: cidades; patrimônio cultu- K e y w o r d s : cities; cultural heritage;
ral; enobrecimento urbano. gentrification

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O poder redentor patrimônio se pode juntar a uma ideia de


espaço público para ser potenciada como
do patrimônio atração turística e de lazer (Sennett, 1998;
Fortuna, 2002).
As funções e o estatuto do patrimônio no De forma semelhante, há consideráveis
contexto da vida urbana de cidades que, repercussões na promoção de uma anima-
pelo seu ethos , se representam e são re- ção crescente, enquadrada pelo consumo
presentadas como históricas, convertem os visual e pelo turismo urbano, e por formas
processos e as intervenções patrimoniais de expressão de um patrimônio imaterial,
em uma espécie de nova realidade alegóri- que pretende sugerir ideais de cidadania e
ca das cidades. Essa realidade alegórica evi- de participação cívica. Nesse plano, o es-
dencia a promessa redentora de, através de paço recuperado se apresenta como uma
complexos processos de patrimonialização,1 nova plataforma de pendor artístico capaz
reconstruir as imagens das cidades, e sobre- de gerar significados sociais e culturais, co-
tudo de suas zonas históricas, em busca da mo se o visual fosse a condição fundadora
superação de um incontornável processo de de novas e enriquecedoras sociabilidades.
declínio. Esse processo de patrimonialização Também se observam alterações na con-
implica diferentes níveis de intervenção dife- cretização de representações destinadas
renciada, com fortes repercussões, tanto na a funcionar como imagens de marca das
infraestrutura urbanística e arquitetônica, cidades e como expressões metonímicas
94 quanto na formatação dos usos dos espaços que convidam a tomar a parte, ordenada e
enobrecidos (Ferreira, 2005) . embelezada, pelo todo e a difundir noções
Uma primeira repercussão desse pro­ abstractas de centralidade e de qualidade
ces­s o se faz sentir na materialização de de vida. Nesse plano, o patrimônio funcio-
uma ideia de espaço público ordenado, na como alegoria, dado que o esplendor e
higie­nizado e minimizado de seus aspectos a qualidade urbanística dos espaços em que
conflituais,­ que faz com que a cidade seja ele se exibe, as cores garridas das fachadas
imaginada e transformada a partir da rein- recuperadas, frequentemente contrastando
venção de um seu passado (Zukin, 1995). com o resto da cidade que as envolve, tor-
Nessa perspectiva, o patrimônio é cada vez nam os bens investidos de um valor patri-
mais apresentado como a expressão mate- monial numa espécie de obra de arte que
rial de uma ideia pacífica de espaço público, representa ideias abstratas de qualidade de
construído com base em uma suposta ideia vida e de funcionalidade. Neste âmbito, fun-
de passado comum e de tradições compar- cionam como imagem metonímica da cida-
tilhadas. Sob forma figurada da imbricação de, convidando a tomar a parte, ordenada e
entre consumo e lazer, os centros históricos embelezada, pelo todo.
alvo de requalificação são uma alegoria desse O patrimônio e as suas representações
espaço público idealizado, supostamente per- que emergem no contexto desses processos
dido, que urge recuperar. As intervenções de patrimonialização podem ser caracteriza-
mais voltadas para um urbanismo intensivo dos como uma invenção cultural que procura
têm ocorrido­ nos locais­ onde uma ideia de legitimar e naturalizar um determinado tipo

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de discurso sobre a vida urbana. A busca e Porto), se consuma uma quarta e nova fase
a aquisição de um estatuto patrimonial pelos observável, caracterizada por uma espécie
centros históricos do Recife e do Porto são, pós-revanchismo patrimonial. A expressão­
assim, experiências paradigmáticas do com- revanchismo, aplicada aos processos de
plexo percurso contemporâneo das políticas gentrification,­ é conhecida nos estudos ur-
urbanas. banos para designar uma espécie de vin-
Numa primeira configuração histórica, gança tardia, mas eficaz, da cidade, que de-
os centros históricos constituem um com- marca espaços, segrega­ usuários e expulsa
ponente estrutural e funcional da vida ur- moradores indesejados (Smith, 1996). A
bana. Condensam as primeiras experiências operação lembra as políticas de higienização­
de uma cultura urbana (Simmel, 1997) e urbana das cidades portuárias, típica do ur-
tornam-se espaços de destaque na economia banismo haussmaniano. O que resulta desse
política das cidades. Numa segunda fase, ambíguo processo de embelezamento estra­
geralmente perdem sua importância socio- tégico – para usar mais uma vez a feliz ex-
econômica, sendo estigmatizados e susci- pressão de Walter Benjamin (1997) –, é a
tando progressivamente a emergência de não menos conhecida espetacularização da
uma sentida tomada de consciência relativa cultura em geral, e do patrimônio material e
à sua desvalorização social. Numa terceira imaterial, em particular.
etapa, reclamam e adquirem uma identidade A quarta fase, aqui chamada de pós-
patrimonial (Arantes, 2000), inserindo-se revanchista, é gerada no auge do contexto
novamente no centro das políticas urbanas. de patrimonialização e de suas vulnerabili- 95
É nessa fase que ocorrem a reinvenção do dades, e encerra um desfecho inevitável e
patrimônio e a construção de uma nova ima- indesejado para gestores e capital. Sugesti-
gem da cidade, mediante políticas intensivas vamente, esse pós-revanchismo sinaliza, por
de revitalização e enobrecimento urbano.2 outro lado, uma abertura da cidade àqueles
Espaços antes considerados degradados que não tinham espaço nas políticas de eno-
passam a ter seu atribuído valor patrimo- brecimento. Contudo, o alto preço por essa
nial ressaltado e se transformam em foco curiosa e tardia “inclusão social” é a volta
nodal de intensivas políticas urbanas e ma- desses espaços a condições de esvaziamento
ciços investimentos público e privado. Com e deterioração crescentes.
seus espaços higienizados e embelezados, a
cidade adentra a concorrência intercidades
(Fortuna, 1997) com renovada perspectiva,
tendo seus patrimônios transformados em O papel do patrimônio
mercadoria. É nessa passagem da segunda e da requalificação
para a terceira etapa que a ideia patrimonial
emerge em meio às transformações urbanas
urbana na concretização
advindas dos processos de enobrecimento. de novas centralidades
Mas é também nessa fase que, to-
mando aqui o caso concreto das duas re- Encarados como repositórios e como pro-
alidades propostas para análise (Recife e pulsores de atividades culturais diversas, os

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centros históricos, ao concentrarem as ini- um lugar, uma apropriação e uma prática


ciativas patrimonialistas, tornam-se objeto coletiva de formas de sacralização ou de es-
de uma idealização no âmbito das políticas pectaculosidade. Mais do que remeter para
urbanas e de processos de patrimoniali- a esfera íntima ou para práticas quotidianas,
zação. Na medida em que alimentam com o hipercentro exige um investimento coleti-
frequência uma visão predominantemente vo que reveste um caráter mais ou menos
culturalista da cidade, vertida em campa- sagrado, mais ou menos venerável, mais ou
nhas de criação e de difusão de imagens, menos festivo, mais ou menos extraordiná-
os centros históricos, sustentando-se em rio. Nessa medida, procurando contrastar
operações de patrimonialização e de requa- com o seu papel recente e com o seu en-
lificação urbana, tornam-se uma espécie torno urbanístico, os centros históricos são
de hipercentro das cidades. Verdadeiro re- alvo de intervenções destinadas a torná-los
ceptáculo de investidas distintas, do campo protótipos da vida urbana e são mediatiza-
político ao técnico, passando pelo associa- dos como lugares exemplares. Por essa via,
tivo e pelo empresarial, esse espaço, que enraizados numa iconografia patrimonial,
muitos, através das políticas de reabilitação acabam por preencher a função de imagem
urbana, pretendem tornar a mais falada, a profética de um futuro diferente para a ci-
mais estudada, a mais animada ou a mais dade de que fazem parte, participando no
colorida das configurações urbanas, parece desígnio maior de qualquer comunidade.
constituir-se como o novo foco, em busca Ou seja, a capacidade em criar e em man-
96 de uma certa centralidade cultural. Mais do ter lugares de centralidade que possam ser
que um centro, que muitas vezes já não são, propostos aos locais e aos estranhos como
por ganharem uma visibilidade superior lugares a admirar e a venerar.
àquela que têm no desenrolar da vida quo- Nesse contexto, em posições extrema-
tidiana das urbes, os centros históricos são, das que atravessam as políticas de reabili-
no contexto do investimento plástico que tação, parece consolidar-se a ideia que para
neles é feito, um hipercentro das cidades, ser belo ou atrativo, e consequentemente
na medida em que, virtualmente, se cons- mediático, é preciso sofrer. Seja o sofrimen-
tituem como um ponto de convergência de to inerente às posições estéticas e políticas
intervenções urbanas diversas destinadas a daqueles que defendem que a função dos
um certo mediatismo. Os casos do Bairro centros históricos é preencher o lugar que
do Recife e da Ribeira do Porto, enquanto as ruínas ocupam na formação e no fun-
paroxismos de processos de patrimoniali- cionamento da memória coletiva, atuando
zação, encaixam-se nesse modelo de desen- como uma espécie da “beleza do morto”
volvimento das políticas urbanas (Peixoto, de que nos fala de Certeau (1996). Seja o
2006; Leite, 2007). sofrimento relativo às transformações plás-
Dos centros históricos, pretende-se ca- ticas que, para promover um certo sentido
da vez mais que não sejam apenas um mero estético, transfiguram lugares e objetos tor-
lugar nem um centro. Mas sim que se tor- nando-os como que irreconhecíveis e alvo de
nem num hiperlugar e num hipercentro, na críticas profundas por parte dos puristas da
medida em que têm de ser simultaneamente preservação.

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Tendo por referência as imagens di- O processo


fusas que irradiam desse hipercentro, não
deixa de ser pertinente questionar a tensão
de patrimonialização
marcante que enquadra muitas das inter- do Bairro do Recife
venções atuais nos centros históricos. Es-
sa tensão, nem sempre fácil de identificar, Para o aspecto central da análise aqui pro-
decorre­ da colisão entre imagens idea­li­ posta, é fundamental destacar que o Bairro
zadas do passado (o que se pensa que fo- do Recife, ao longo dos seus mais de 400
ram) e imagens idealizadas do futuro (o anos de existência, já experimentou o apo-
que se pensa que devem ser). Tensão que geu e a decadência quase absolutos – em
faz emergirem projetos opostos ou alterna- termos de centralidade econômica, relevân-
tivos e, por vezes, inconciliáveis. E que, não cia arquitetônica e visibilidade cultural –, em
sendo ultrapassada pelo confronto com a pelos menos três grandes momentos da sua
realidade mais ou menos recente e presente história. O primeiro momento se deu quan-
dos centros históricos se constitui como um do da própria fundação do Povoado dos Ar-
obstáculo intransponível a uma intervenção recifes (século XVI) e depois, já com a pre-
sustentável nas áreas urbanas antigas, na sença do Mauricio de Nassau (século XVII),
medida em que será sempre um contras- quando a sede do governo holandês foi
senso reabilitar indo contra aquilo que exis- edificada no vizinho bairro de Santo Anto-
te. Nessa medida, não é despiciendo notar nio, deixando o bairro do Recife a amargar
que as intervenções nos centros históricos, uma posição política secundária. O segundo, 97
na sua globalidade, e no caso concreto das quando o bairro foi quase todo demolido e
duas­realidades urbanas retidas para análise, reconstruído no melhor estilo da Paris de
e não obstante o forte pendor retórico que Haussmann, ainda no auge da economia
as envolve, participam mais da produção re- açucareira de Pernambuco (início do século
presentacional e imagética que anima a pro- XX) para, em seguida, presenciar quase seu
moção local que propriamente de uma polí- despovoamento e, uma vez mais, a perda da
tica urbanística claramente orientada para a sua relevância para outras áreas da cidade
reabilitação, como o evidencia o surgimento (sobretudo no pós-guerra até os anos 80
de processos de revanchismo. Evidencia- do século XX). Por fim, após amargar várias
se, por essa via, o risco de as campanhas décadas de quase total abandono, o bairro
de promoção local ficarem excessivamente “ressurge” nos anos de 90 como um dos
prisioneiras de imagens sem conteúdo. Em mais emblemáticos, importantes e impac-
contextos em que o marketing das cidades, tantes processos de enobrecimento urbano
movido por uma linguagem hiperbólica e do Brasil (Leite, 2007)
alimentando fenômenos de escalada, parece A fase mais aguda desse processo de
estar a adquirir uma preponderância cres- patrimonialização se deu entre 1989 até
cente, substituindo-se ou sobrepondo-se à aproximadamente 2001, época em que se
ação política, à intervenção técnica e à cria- deu o enobrecimento do Bairro. Nesse perío-
ção artística e cultural. do, o bairro teve suas feições arquitetônicas­

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e funcionais bastante alteradas, com a trans- gional", tornando-o um polo de serviços mo-
formação de antigos casarões em animados dernos, cultura e lazer; 2) tornar o Bairro
pubs e sofisticados restaurantes. As ruas, um "espaço de lazer e diversão", objetivan-
palco de espetáculos teatrais, shows mu- do criar um "espaço que promova a concen-
sicais e exposições artísticas, tornaram-se tração de pessoas nas áreas públicas criando
boulevards para as famílias de classe média um espetáculo urbano"; 3) tornar o Bairro
da cidade. Rotinas antes impensáveis devi- um "centro de atração turística nacional e
do à má fama de local perigoso, o portuário internacional". Esses objetivos sinalizavam,
bairro foi se transformando em opção de desde o início, o quanto a proposta estava
lazer seguro e entretenimento para a popu- voltada ao incremento da economia local,
lação, foco do turismo internacional e palco pretendendo tornar o Bairro do Recife um
de grande visibilidade pública para eventos complexo mix de consumo e entretenimen-
políticos. to. De igual modo, a noção de um espaço de
O processo de patrimonialização foi in- "espetáculo urbano", que iria caracterizar
tenso, tanto no que se refere ao patrimô- todo o plano, é um indicador importante da
nio imaterial quanto material. O primeiro presença de uma política de gentrification.
foi caracterizado por um agudo processo Tudo parecia perfeito, após a implan-
de retradicionalização do bairro, median- tação do Plano de Revitalização, com o an-
te a apresentação espetacular de folguedos tigo centro histórico transformado em festa
da cultura popular pernambucana, a exem- permanente, numa imbricada relação entre
98 plo de tradicionais grupos de maracatus. A consumo e entretenimento, cultura e merca-
patrimonialização edificada por sua vez foi doria; até que um fantasma voltou a rondar
tão profunda que, pela primeira vez na his- a bem-sucedida experiência de enobreci-
tória das políticas de preservação no Brasil, mento no Brasil. Aos poucos, o movimento
um bairro em estilo eclético foi reconhecido de pessoas se arrefece, bares e restaurantes
como patrimônio nacional pelo Instituto do fecham suas portas; a arrecadação cai; lenta
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – e gradualmente, seus espaços vão decaindo,
IPHAN, a despeito da discutível relevância perdendo visitantes, saindo da agenda cultu-
arquitetônica do bairro para os cânones pa- ral da cidade. Com a ausência de ação con-
trimoniais e preservacionistas brasileiros. tinuada do poder público, os espaços físicos
Foi nesse bairro haussmanniano do vão se deteriorando, o patrimônio edificado
Brasil que o Plano de Revitalização do Bair- vai perdendo suas cores e, para surpresa
ro do Recife veio a ser colocado em prática, dos desavisados, a antiga área, parecendo
tendo como fundamentação uma proposta cumprir seu histórico ciclo vital, volta quase
de restauração do patrimônio edificado ar- a ser o que era antes: espaço de vidas coti-
ticulada à ideia de intervenção urbana na dianas, sem muita visibilidade pública e sem
forma de um empreendimento econômico. a espetacularização do seu patrimônio e das
Afinado com os pressupostos do chamado rotinas sociais.
market lead city planning, o plano tinha três Em 2006, cinco anos após a fase mais
objetivos principais: 1) transformar o Bairro intensa da “revitalização” do bairro, pouco
do Recife em um "centro metropolitano re- restou das sociabilidades que caracterizaram

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a efervescência cultural do processo. Mais mais desprovida de recursos no Bairro histó-


uma vez, o local experimentava o vazio das rico da Sé, ao passo que a burguesia emer-
suas ruas e do seu belo patrimônio material gente se fixava nas novas zonas da cidade
quase às escuras. (como a Foz), atinge limites de ingoverna-
bilidade que suscitaram “evidentes” soluções
de tábua rasa. Nessas circunstâncias, porque
quanto mais deteriorado um lugar se encon-
O processo de tra mais ele tende a concentrar e a ampliar
patrimonialização do os problemas verdadeiramente prementes
que existem numa cidade e na sociedade, o
centro histórico do Porto
centro histórico do Porto criou, certamen-
te, mais que qualquer outro em Portugal,
O fato mais marcante do centro histórico do condições de difícil implementação de uma
Porto reside na circunstância de, em apenas política de reabilitação.
três décadas, ter passado repentinamente de No Porto, a política de reabilitação e
objeto disfuncional e de alvo de uma política de requalificação urbana teve como pano
de demolição a objecto de exibição e alvo de de fundo os movimentos de moradores e o
uma política de protecção patrimonial (Pei- Serviço Ambulatório de Apoio Local – SAAL.
xoto, 2006). Em 1969, a comunidade que dá significado
O “Plano Director de Robert Auzelle”­ à zona histórica é mencionada como estan-
para a cidade do Porto defendia, como do impregnada de um valor histórico a pre- 99
tantas outras soluções de planeamento ur- servar (Rocha et al., 1985) e a constituição
bano de inspiração haussmaniana, “a mera do Comissariado para a Renovação Urba-
demolição do Barredo (zona hostórica mais na da Área da Ribeira-Barredo (CRUARB)
densa)”, o que motivou o primeiro estudo constitui-se como um marco decisivo no
de recuperação da parte antiga da cidade lançamento da política local de reabilitação
pelo arquiteto Fernando Távora.3 Apresen- urbana ancorada numa retórica patrimonial.
tado em 1969, esse estudo deu origem, em Essa política, na formulação legislativa do
1974, à constituição de um organismo pú- diploma que a enquadra, é projetada, em re-
blico especializado para o levar a cabo – o lação à sua zona mais nobre, com receios de
CRUARB (Ramos, 1995, p. 539), cuja ação enobrecimento da zona histórica e de centri-
viria a ser preponderante para que, apenas fugação da população aí residente. “Consi-
35 anos depois do plano Auzelle, em 1996, derando a urgente necessidade de conduzir
a área a demolir fosse elevada à condição de eficazmente o processo de renovação urba-
patrimônio mundial pela Unesco. na da zona da Ribeira da Cidade do Porto”
A deterioração que ocorre no centro afigura-se igualmente premente “assegurar
histórico do Porto a partir do século XIX, que a população trabalhadora que há mui-
agravada pela segregação espacial motivada to habita essa zona nas piores condições de
pela urbanização crescente da cidade, pelo alojamento e exploração não venha a ser de-
aumento demográfico derivado da indus- la deslocada por força da valorização da pro-
trialização e pela concentração da população­ priedade e da zona decorrentes da própria­

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operação em tempo planeada” (Rodrigues, mo, não é despiciendo nem inaudito notar
1999, pp. 40-41). Em 1980, segundo da- que à zona da Ribeira, palco da cultura do
dos do INE, nos 3.200 edifícios existentes consumo visual, tenha sido conferida uma
no centro histórico do Porto residiam cerca prioridade em termos de reabilitação e de
de 20.000 indivíduos, numa assinalável mé- requalificação. Como lembra, de resto, um
dia de 6,25 por edifício. Esse desiderato de dos técnicos envolvidos nas operações de re-
evitar a saída de residentes não foi contudo qualificação:
concretizado, uma vez que cerca de 800 re-
sidentes foram deslocados para o Bairro do Se edifícios muito degradados sobre
Aleixo, gerando-se entre eles, contrariamen- que pretendíamos operar não revelas-
te ao que muitas vezes se procura evidenciar sem valor patrimonial suficientemente
quando se insiste que as operações de rea- positivo ou se a sua presença e recons-
lojamento desta natureza são sempre feitas trução significasse aumento de densida-
contra a vontade dos próprios, sentimentos de construtiva, nociva à vida das popu-
contraditórios. lações, o Mestre [Arquitecto Viana de
Como lembra Gaspar Pereira, “as ope- Lima] propunha, sem hesitação, o seu
apeamento em favor do espaço aberto
rações de renovação urbanística, levadas a
que proporcionasse o estar lúdico e a
cabo na zona central da cidade, em especial
circulação facilitada (…). Ainda hoje, e
as que atingem as zonas mais densamente
já sem a presença directa do Mestre,
povoadas do centro histórico, onde se con-
soluções urbanísticas deste tipo foram
100 centravam populações pobres”, têm efeitos
reutilizadas, como no Largo da Viela
perversos e não antecipados. Isso porque
do Anjo, onde, à custa da demolição
“contribuem para agravar as carências ha-
de algumas construções em ruína, foi
bitacionais, conduzindo quer a uma sobreo- conseguido um espaço urbano aberto
cupação do miolo da cidade antiga não atin- de grande qualidade arquitectónica, no
gido pelas demolições, quer à centrifugação interior da densa malha medieval da Sé,
de famílias pobres para a periferia” (Pereira sem as descaracterizar, antes valorizan-
apud Rodrigues, 1999, p. 16). do-as. (Moura, 2001, pp. 106 e 108)
Acresce que, desde cedo, por outro la-
do, de modo a procurar tornar menos densa Ainda que nunca tenha sido assumido
uma configuração urbana atulhada, se ma- pelos poderes locais que a reabilitação urba-
nifestam contornos de uma renovação sele- na empreendida no centro histórico do Por-
tiva que pretende ver-se travestida de uma to tivesse sido inicialmente motivada pelo
prática de reabilitação integrada que, pelo ímpeto em ver o centro histórico tombado
menos retoricamente, valoriza o conjunto patrimônio mundial, a verdade é que esse
histórico constituído pelo habitat residen- objetivo se vai consolidando com a matura-
cial e pela comunidade local. Essa política ção do processo de reabilitação.
se orienta, assim, para o enobrecimento do Retendo uma ideia de António Firmino
espaço público e para o florescimento de da Costa (1999), segundo a qual as zonas
condições que favorecessem as práticas ur- onde a reabilitação e a requalificação urba-
banas de lazer e de consumo. Por isso mes- nas ocorrem são “socialmente constituídas­

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como objetos de reabilitação urbana”, mes- de patrimonialização foi uma revanche da


mo antes das operações dessa natureza te- cidade aos usuários e moradores “indeseja-
rem início, vale a pena relevar que, frequen- dos”).
temente, essas operações se resumem a Nessa medida, não é assim tão fora do
pouco mais que esse processo de construção vulgar constatar que os processos de patri-
social (com uma amplitude limitada que di- monialização retroagem sobre eles mesmos,
ficilmente ultrapassa os discursos políticos) levando a que os efeitos positivos que gera-
e que essa é, recorrentemente, uma queixa ram, em face dos objetivos que perseguiam,
difundida pelos técnicos envolvidos. Mesmo retrocedam no sentido que levavam e se en-
não sendo o caso, porque configurou uma caminhem para situações qualitativamente
interessante operação de reabilitação e de inferiores àqueles que prevaleciam à época
requalificação urbanas, tornado, por isso de sua implementação. Nesses casos, tudo
mesmo, ainda mais pertinente este argu- se passa como se a intervenção patrimonial,
mento, a verdade é que, obtido o estatuto como tantas vezes acontece nas operações
de patrimônio mundial (não obstante faltar de enobrecimento, viesse gerar num deter-
reabilitar uma grande porção do edificado e minado espaço uma situação contra natura
requalificar uma parte do espaço público na que acaba, uma vez esmorecida essa inter-
área Ribeira-Barredo, e de a intervenção na venção, não só por se normalizar, mas tam-
mais densificada zona do Bairro da Sé levar bém por se refinar, no sentido em que tende
apenas 8 anos de realização), o CRUARB a concentrar e a atrair exponencialmente os
enfrentou um processo de extinção a partir fenômenos expurgados pelos processos de 101
de 2005, o que evidencia a volubilidade dos patrimonialização.
processos de patrimonialização. No Porto, a extinção do Comissariado
para a Renovação Urbana da Área da Ribei-
ra-Barredo (CRUARB) e da Fundação para o
Desenvolvimento da Zona Histórica (FDZH),
Conclusão: que foram as duas instituições que desen-
do enobrecimento volveram uma intervenção sistemática de
reabilitação e de requalificação urbanas, não
ao contrarrevanchismo deixam potencialmente de enquadrar fenô-
menos de revanchismo ligados aos proces-
As experiências urbanas das cidades do Re- sos de patrimonialização. A ausência dessa
cife e do Porto guardam similitudes impor- intervenção não só significa o retomar de
tantes num quadro analítico comparativo. A uma dinâmica de decadência, travada pela
retórica e a prática inerentes aos processos existência dos processos de requalificação e
de patrimonialização, a prazo, por estarem de patrimonialização, como a legitima numa
sujeitas a opções políticas, às vicissitudes lógica fatalista que acaba por a acelerar a
dos investimentos públicos e a fenômenos um ritmo muito mais intenso.
de moda, podem ser geradoras de efeitos de Mas esse fenômeno de revanchismo
revanchismo (neste caso, contrarrevanchis- é de natureza complexa e, unidimensional-
mo, se entendermos que o próprio processo mente considerado, não deixa de evidenciar

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posições marcadamente ideológicas. O que Revitalização – Bairro do Recife, que essa


leva a que seja profícuo questioná-lo na sua dimensão era fundamental para o retorno e
complexidade. manutenção de certas atividades desejadas.
No caso do Porto, a extinção do Em decorrência de sua incontestável
CRUARB­e da FDZH é recorrentemente jus- importância, um dos aspectos mais discuti-
tificada por não terem sido levadas a um dos nas políticas de enobrecimento tem sido
ponto ótimo as operações de enobrecimen- justamente a dimensão residencial desses
to urbano e por essas instituições terem empreendimentos. Entende-se que, sem
limitado esse enobrecimento a interven- essa característica, faltaria a esses projetos
ções de requalificação do espaço público. uma das suas principais bases de sustenta-
Designadamente, na retórica legitimadora ção, capaz de gerar certas rotinas cotidianas
do novo instrumento financeiro-jurídico- de serviços que são essenciais à manutenção
urbanístico (as Sociedades de Reabilitação do curso de uma vida regular. Contudo, o
Urbana), critica-se o fato de o CRUARB ter caso do Recife repete uma tendência que
apostado numa reabilitação de qualidade, e tem sido quase um padrão no Brasil: o de
impossível de generalizar a toda a cidade, não incorporar políticas habitacionais nos
para realojar em casas “luxuosamente” re- projetos de “revitalização”. Nem na forma
cuperadas uma população residente de bai- de melhoria das condições de vida das po-
xos recursos. Com a agravante – se releva pulações mais pobres, que em geral habitam
– de essa população, que paga ao município essas áreas centrais das cidades (em sua
102 rendas ajustadas à sua baixa renda mensal, maioria, regiões portuárias), nem na forma
não ter recursos, nem os permitir gerar, de novos empreendimentos imobiliários.
para fazer face, a médio prazo, às despesas Somada a ausência de investimentos
de manutenção das intervenções realizadas. residenciais, e tendo ou não o plano de “re-
Por isso, um enobrecimento generalizado e vitalização” apoio da administração pública,
mais ousado é defendido como estratégia existe uma dimensão cotidiana da questão,
mais adequada para evitar fenômenos de relacionada à delicada equação da comunica-
revanchismo em que os processos de patri- bilidade política expressa nos usos e contra-
monialização se vejam hipotecados por eles usos desses espaços que podem contribuir
próprios. para a fragilidade das relações sociais e vul-
No caso do Bairro do Recife, o enfra- nerabilidade desses espaços enobrecidos.
quecimento das atividades do Escritório de Nesse caso, há de se considerar a presença
Revitalização do Bairro do Recife acompa- continuada e persistente de contrausos nos
nhou a diminuição progressiva de investi- espaços enobrecidos, e suas ressonâncias
mentos. Ancorado, sobretudo, em uma con- sobre os processos interativos (estruturado-
cepção de consumo e entretenimento, típico res de identidades mediante a atribuição de
dos processos denominados gentrification sentidos aos lugares) entre os distintos gru-
para visitação, o processo de enobrecimen- pos envolvidos nos usos desses espaços.
to do Bairro do Recife não se alicerçou em Por fim, é nesse sentido que a relação
políticas residenciais, embora se soubesse, entre enobrecimento e o revanchismo que
desde as primeiras iniciativas do Plano de lhe subjaz traduz-se de dois modos distintos.­

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políticas urbanas de patrimonialização e contrarrevanchismo

Na vingança que as antigas dinâmicas com- cidade das operações de preservação, que
batidas pelos processos de patrimonializa- existem para reagir a um enobrecimento
ção, aproveitando o enfraquecimento destes generalizado, em se manterem sustentáveis
últimos, exercem, retomando e alastrando num contexto de igual afectação de recursos
sua importância. Mas também na incapa- a todas as operações de requalificação.

Rogerio Proença Leite


Professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Fede-
ral de Sergipe (Sergipe, Brasil). Pesquisador 2 do CNPq.
rpleite@uol.com.br

Paulo Peixoto
Professor e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universi-
dade de Coimbra (Coimbra, Portugal).
pp@fe.uc.pt

103
Notas
(*) Texto produzido no âmbito das pesquisas da Rede Brasil-Portugal de Estudos Urbanos (CPLP/
MCT/CNPq e CAPES-FCT). Uma primeira versão deste artigo foi apresentada na 26ª Reunião Bra-
sileira de Antropologia – ABA, Bahia, Brasil.

(1) Referimo-nos aos processos de patrimonialização para dar conta de um movimento de duplo
alcance. Por um lado, e na sua essência, os processos de patrimonialização se referem a inter-
venções de natureza patrimonial e predominantemente técnica que visam, acima de tudo, ob-
ter, através de uma operação de tombamento formal, um estatuto patrimonial. Por outro lado,
lateralmente, os processos de patrimonialização se referem a operações de natureza diversa
(arquitetônica, paisagística, urbanística, política, cultural, comercial, etc.) cujos objetivos, inde-
pendentemente de um reconhecimento formal, assentam na exacerbação de um patrimônio ou
do valor patrimonial de um objeto, para efeitos de consumo visual, turístico ou sustentação de
um mercado urbano de lazeres.

(2) O enobrecimento, nobilitação, ou gentrification (termo inglês correntemente utilizado na gíria da


reabilitação urbana), dá conta da substituição da população residente por outra de estratos so-
ciais mais elevados na sequência de processos de conservação e de restauração de determinado
espaço urbano, remetendo numa visão mais redutora para a qualificação do espaço

(3) A haussmanização refere-se a uma política de demolição, levada a cabo em Paris por Georges-
Eugène Haussmann, na segunda metade do século XIX, que pretende intervir no espaço urbano
de modo a controlar, disciplinar e higienizar os comportamentos, assim como a criar referências
e marcadores do espaço através da monumentalização.

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rogério proença leite e paulo peixoto

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Recebido em dez/2008
Aprovado em mar/2009

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