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Para uma Igreja em diálogo (2):

II Concílio do Vaticano e Elementos da Sua Receção1

1. O anúncio e a preparação do concílio


O anúncio do concílio por João XXIII revestiu-se publicamente de grande novidade.
A ideia, porém, tinha já sido colocada pelos dois pontífices anteriores:
- Pio XI, após a sua eleição, pensou em reabrir o concílio suspenso em 1870 e
consultou os cardeais e alguns bispos:
o Alguns julgaram desnecessária reabertura, na medida em que muitas
das matérias deixadas por concluir tinham já sido consideradas no
Código de Direito Canónico e nas encíclicas. Além disso, e dado que a
questão romana não estava ainda resolvida, a sua reabertura significaria
que a perda do poder temporal não obstava ao exercício da atividade da
Igreja.
o Outros reagiram favoravelmente, pelo significado que poderia ter para a
renovação interna da Igreja, para a paz do mundo e para a unidade
cristã.
o Em 1923 chegou mesmo a ser elaborado um programa para o concílio
(constituição dogmática sobre a Igreja e exame das questões relativas ao
direito internacional, ao socialismo e comunismo, às Igrejas orientais, à
Ação Católica, à escola, ao lugar da mulher na Igreja), mas a ideia foi
abandonada devido à longa preparação dos Pactos de Latrão e ao
agravamento da conjuntura política internacional.
- Pio XII retomou a ideia em 1948 e entregou os trabalhos preparatórios ao Santo
Ofício. Foram elaborados secretamente vários projetos (perigos doutrinais,
definição da Assunção, comunismo, guerra, reforma do direito canónico e da
cúria, missões, Ação católica, cultura), mas as muitas divergências fizeram com
que a ideia fosse abandonada em 1951.
João XXIII voltou à ideia – talvez desconhecesse os passos dos seus antecessores
quando anunciou o concílio – e anunciou-a em 25 de janeiro de 1959, três meses após ter
sido eleito, num discurso na basílica de São Paulo. O seu plano era constituído por três
elementos: um sínodo romano, um concílio ecuménico, uma reforma do Código de direito
canónico. A decisão totalmente pessoal do papa resultou certamente da análise que fez
da conjuntura histórica da Igreja e do mundo:
- A Igreja acomodada a um certo imobilismo e sem um diálogo eficaz com o
mundo.
- O mundo dividido em dois blocos em plena guerra-fria.
O anúncio soou como uma grande novidade:
- Foi recebida com uma grande aprovação geral.

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Este esquema tem por base sobretudo R. AUBERT, Il Concilio Vaticano II, R. AUBERT – J. HAJJAR – J. BRULS – S.
TRAMONTI, La Chiesa nel Mondo Moderno (Nuova Storia della Chiesa, dir. L.J. Rogier – R. Aubert – M.D.
Knowles, V/2), Torino: Marietti, 1979, 303-319; Giacomo MARTINA, História da Igreja de Lutero a Nossos dias,
IV: A Era Contemporânea, São Paulo: Loyola, 1997, 275-324; R. RIMOLDI, Vaticano II (Concilio), in DSR, 1123-
1129; Philippe LEVILLAIN, Vaticano II (Concilio Ecumenico), in DSP, II, 1508-1524.
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- Foi recebida com perplexidade pelos meios curiais da Igreja e pelos cardeais
(dos 75 cardeais existentes, só 26 responderam à consulta e por norma dum
modo genérico).
Em 17 de maio de 1959 é constituída uma comissão antepreparatória presidida
pelo cardeal secretário de Estado Domenico Tardini e secretariada por Mons. Pericle
Felici, encarregada de realizar as consultas necessárias. Em junho de 1959 foi enviado aos
bispos de todo o mundo, aos superiores dos religiosos, às universidades católicas o
convite a apresentarem propostas. As respostas foram chegando lentamente
(responderam 77% dos interpelados), se bem que não tenham exercido grande influência
no avanço dos trabalhos.
Em 5 de junho de 1960, solenidade de Pentecostes, pelo motu proprio Superno Dei
Nutu, foram constituídas 11 comissões e quatro secretariados em ordem à preparação do
concílio:
- A comissão central, presidida pelo próprio João XXIII (o cardeal secretário de
Estado tinha nela particular importância), para a coordenação dos trabalhos,
aprovação dos esquemas e a elaboração do regulamento.
- A comissão teológica, presidida pelo cardeal Ottaviani do Santo Ofício.
- A comissão para os bispos e governo das dioceses, presidida pelo cardeal
Mimmi da congregação consistorial (à sua morte em 1961, foi substituído pelo
cardeal Marella).
- A comissão para a disciplina do clero e do povo cristão, presidida pelo cardeal
Ciriaci da congregação do concílio.
- A comissão dos religiosos, presidida pelo cardeal Valerio Valeri da congregação
dos religiosos.
- A comissão para a disciplina dos sacramentos, presidida pelo cardeal Aloisi
Masella da congregação dos sacramentos.
- A comissão para a liturgia, presidida pelo cardeal Gaetano Cicognani da
congregação dos ritos.
- A comissão para os estudos e seminários, presidida pelo cardeal Pizzardo da
congregação dos seminários e das universidades.
- A comissão para as Igrejas orientais, presidida pelo cardeal Amleto Cicognani da
congregação das Igrejas orientais (substituído pelo cardeal Coussa após a sua
nomeação para secretário de Estado, devido à morte do cardeal Tardini).
- A comissão para as missões, presidida pelo cardeal Agagianian da congregação
De Propaganda Fide.
- A comissão para o apostolado dos leigos, presidida pelo cardeal Cento.
- O secretariado para a imprensa e espetáculos, presidida pelo Mons. O’Connor,
da comissão pontifícia para o cinema, a rádio e a televisão.
- O secretariado para a unidade dos cristãos, presidido pelo cardeal Bea.
- O secretariado do cerimonial, presidida pelo cardeal Tisserant, decano do
sagrado colégio.
- O secretariado administrativo, presidido pelo cardeal Jorio.
Sobre a constituição das comissões e sobre o seu trabalho há alguns aspetos a
relevar:
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- O paralelismo entre as congregações da cúria (com uma só exceção) e as


comissões indiciava uma ótica conformista. Três elementos, porém, denotavam
um espírito novo:
o A criação da comissão para o apostolado dos leigos (a única que não
correspondia a uma congregação).
o A criação do secretariado para a unidade dos cristãos, por impulso do
cardeal Bea.
o A escolha dos membros das comissões, através de um critério diferente
do que fora usado no I Concílio do Vaticano: inclusão de membros do
episcopado responsáveis por dioceses; a integração de alguns teólogos
ligados ao movimento de renovação da primeira metade do século XX
(Congar, De Lubac, Daniélou, Rahner).
- Foram elaborados 70 esquemas, corrigidos pela comissão central e depois
enviados a todos os bispos (no Vaticano I só a 36 bispos). Muitos dos esquemas
eram medíocres, sobretudo os provenientes da comissão teológica: repetiam a
doutrina tradicional sem sensibilidade ecuménica. Alguns exemplos:
o O esquema sobre a Igreja reafirmava o primado do papa sem
aprofundar suficientemente a relação entre papado e episcopado.
o O esquema sobre a revelação apresentava a Escritura e a Tradição
como duas fontes distintas (interpretação do decreto tridentino),
acentuando a distância entre a visão católica e protestante.
o O contraste entre os dois esquemas sobre a liberdade religiosa: um do
cardeal Ottaviani na linha clássica da aceitação da tolerância praticada
pelos Estados para evitar males maiores; outro do cardeal Bea
ressaltando o direito de seguir a própria consciência, a liberdade de
culto público e o dever do Estado de respeitar as consciências e de
impedir qualquer discriminação confessional.
o Os dois esquemas de documento (um da comissão para os bispos e
outro da comissão para a disciplina do clero e do povo cristão) sobre a
ação pastoral em favor dos cristãos corrompidos pelo comunismo,
ambos com um tom predominantemente negativo: Foram unificados,
simplificados e depois abandonados. A questão seria depois abordada
pela constituição Gaudium et Spes.
O concílio foi convocado oficialmente no Natal de 1961 pela constituição
apostólica Humanae Salutis. O motu proprio Concilium de 2 de fevereiro seguinte
marcava a sua abertura para 11 de outubro desse ano. Alguns cardeais pretendiam que
só começasse em 1963 para permitir uma melhor preparação. João XXIII resistiu, porém,
a essas insistências e manteve-se fiel à data prevista.
O regulamento do concílio, datado de 6 de agosto de 1962 (Motu proprio
Appropinquante Concilio), foi publicado no início de setembro:
- Previa três tipos de sessões (como no Vaticano I): sessões públicas presididas
pelo papa; congregações gerais em que os padres discutiam os textos que lhes
eram submetidos; as comissões para a reelaboração dos textos de acordo com
as observações dos padres.
- Os trabalhos seriam coordenados pelo conselho da presidência do concílio,
nomeado pelo papa e constituído por dez cardeais, presidido pelo cardeal
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Amleto Cicognani, secretário de Estado após a morte de Tardini (1961). Para


secretário foi designado o anterior secretário da comissão central preparatória
Pericle Felici, que viria a desempenhar um papel muito ativo no decurso do
concílio.
- As comissões conciliares previstas eram dez (em continuidade com as
comissões preparatórias), cada uma composta por 24 padres – dois terços
eleitos pela assembleia e um terço escolhido pelo papa – e presididas pelo
prefeito da congregação correspondente. Para além destes membros com
direito a voto, as comissões eram também constituídas por peritos nomeados
pelo papa.
- O secretariado para a unidade dos cristãos, depois dum momento de
perplexidade, porque não estava previsto pelo regulamento, foi considerado
nas mesmas condições das comissões, mantendo a composição anterior.
- Foi constituído também um secretariado para as questões extraordinárias,
presidido pelo cardeal secretário de Estado, para examinar os novos problemas
e os transmitir ao papa. Este secretariado, importante na primeira sessão do
concílio, foi depois suprimido.
- A aprovação dos documentos far-se-ia mediante uma maioria de dois terços
dos votantes.
- Era reconhecido o direito das confissões cristãs separadas enviarem
observadores ao concílio.

2. O decurso do concílio
A composição da assembleia foi a mais numerosa e a mais universal de todos os
concílios:
- Em 11 de outubro de 1962 (data da sessão inaugural) estiveram presentes
2.540 padres conciliares (início do concílio de Trento = cerca de 30 padres;
início do I concílio do Vaticano = cerca de 700 padres).
- A proveniência dos padres por zonas geográficas mostra a universalidade da
assembleia: Europa ocidental – 1.060 (423 italianos2; 144 franceses; 87
espanhóis; 29 portugueses…); América central e do Sul – 620; América do Norte
– 416; Ásia 408; África – 351; Oceania – 74.
- Menos representado estava o mundo comunista: Jugoslávia, 24 dum total de
27; Polónia, 20 de 65; República Democrática Alemã, 4 de 8; Hungria, 2 de 16;
Checoslováquia, 3 de 15; nenhuma presença da URSS, da Roménia, da Albânia,
da China e do Vietname do Norte.
- Bem significativa foi a presença de observadores não católicos, ortodoxos,
anglicanos, velhos católicos e de várias confissões protestantes: o número
aumentou de 33 observadores no início do concílio para 93 no fim; não só
assistiram a todas as sessões, como foram convidados manifestar as suas
observações durante encontros semanais e foram consultados por algumas
comissões.

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A circunscrição diocesana estava muito fracionada, havendo por isso um grande número de dioceses.
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A assembleia conciliar ao longo dos trabalhos dividiu-se essencialmente em dois


grupos:
- Uma maioria (± 90%) sensível ao diálogo com o mundo, à adaptação e ao
diálogo ecuménico, mais preocupada com a eficácia concreta das decisões do
que com as precisões doutrinais, desconfiada da centralização romana, que
tinha a consciência de estar na linha querida por João XXIII. Era constituída por
um grande grupo da Europa central e do norte, os bispos afro-asiáticos, uma
grande parte dos bispos latino-americanos e a maioria dos da América do
Norte. Algumas figuras de destaque: os cardeais Frings, Döpfner, Alfrink,
Köning, Suenens, Liénart, Bea, Montini, Léger, o patriarca melquita Máximo IV…
- Uma minoria (± 10%) sensível à estabilidade da Igreja, ao seu caráter
monárquico, aos riscos inerentes a qualquer mudança, preocupada em
salvaguardar o depósito integral da fé, tendente a confundir a formulação
dogmática com a própria revelação, inquieta com o comunismo e a crescente
secularização. Era constituída por bispos italianos de tendência curial
(Ottaviani, Ruffini, Siri…), um grupo de espanhóis (cardeal Larraona, prefeito da
congregação dos ritos; Morcillo González, então bispo de Saragoça e depois de
Madrid) e vários latino-americanos… Também incluía este grupo o francês
Lefebvre, bispo de Dakar até 1962 e depois da diocese francesa de Tulle.
O papa João XXIII iniciou o concílio, em 11 de outubro de 1962, com um discurso
que fez sensação pelo seu otimismo, pela recusa da tentação integrista, pela alusão à
perspetiva ecuménica e pela afirmação do tom pastoral do concílio.
O concílio decorreu em quatro sessões entre outubro e dezembro de 1962, 1963,
1964 e 1965.

2.1. A primeira sessão (11 de outubro a 8 de dezembro de 1962)


Terminados os procedimentos iniciais, os trabalhos começaram em 22 de outubro.
Vejamos os passos decorridos nesta primeira sessão:
- Iniciou-se com a discussão do esquema sobre a liturgia (Sacrosanctum
Concilium). Era um dos poucos esquemas redigidos numa linha de renovação
(participação ativa dos fiéis, introdução gradual das línguas vernáculas, reforma
dos livros litúrgicos, reintrodução da comunhão sob as duas espécies). Na
discussão notaram-se as primeiras tensões entre as duas fações. Depois de
algumas críticas, em 14 de novembro, foi aprovada uma reelaboração do
documento. As tendências de renovação do esquema tinham sido, todavia,
assumidas e a primeira parte do documento reelaborado foi aprovada em 7 de
dezembro por larga maioria.
- Seguiu-se a discussão do esquema De Fontibus Revelationis, cujo texto de
caráter conservador significava inclusivamente um retrocesso relativamente à
Divino Afflante Spirito. O texto foi mandado reelaborar sobre outras bases por
1368 votos contra 822. Apesar de não ter atingido uma maioria de dois terços,
necessária para a interrupção da discussão, o papa decidiu enviar o documento
a uma comissão mista com elementos da comissão teológica, mas também do
secretariado para a unidade dos cristãos.
- Após uma análise rápida dos esquemas medíocres sobre os meios de
comunicação social e sobre as Igrejas orientais, enviados para reelaboração,
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começou a ser analisado em 1 de dezembro o esquema sobre a Igreja, escrito


num tom muito jurídico, com uma conceção de Igreja voltada sobre si mesma e
sem esclarecer a relação entre o papa e os bispos. Emergiram várias propostas
de reelaboração, assim como intervenções (cardeais Léger, Suenens, Montini)
no sentido duma reorientação do concílio na perspetiva dum concílio para o
mundo.
Em 8 de dezembro foi encerrada a primeira sessão sem que nenhum documento
fosse aprovado. Ficou, contudo, clara a linha de rumo tomada e a prosseguir e garantida a
liberdade do concílio e o empenho dos padres. O concílio tinha, de facto, evoluído num
sentido mais aberto do que seria à partida de esperar. Para esta evolução foi importante
o trabalho dos peritos:
- Os teólogos consultores designados pelo papa para assessorarem as comissões
(± 300).
- Os teólogos que diversos bispos trouxeram como seus conselheiros: estes que
não só trabalharam na elaboração das intervenções episcopais, como
estabeleceram diversos contactos individuais e conferências, tendentes a
renovar o pensamento dos padres conciliares.
- O peso dos teólogos não romanos fez-se sentir cada vez mais: durante o
concílio estavam em Roma exclusivamente centrados nos trabalhos conciliares,
enquanto os teólogos romanos continuavam a desenvolver as suas tarefas
habituais de ensino.

2.2. A segunda sessão (29 de setembro a 4 de dezembro de 1963)


No termo da primeira sessão ficaram estabelecidos alguns elementos para a
prossecução dos trabalhos:
- Os 70 esquemas seriam reduzidos a 20, visto que muitas questões técnicas
tinham sido enviadas à comissão de reforma canónica.
- Os esquemas a discutir deviam ser reelaborados pelas comissões segundo o
espírito do concílio definido no discurso inaugural por João XXIII.
- O trabalho de reelaboração seria coordenado por uma nova comissão
(comissão de coordenação) constituída por uma maioria de padres estranhos à
cúria. Substituía o secretariado para as questões extraordinárias.
Depois da interrupção do concílio as comissões começaram a trabalhar na
reelaboração dos esquemas.
Entretanto em 6 de junho de 1963 morreu o papa João XXIII. No dia 21 foi eleito
papa o cardeal de Milão Montini, sob o nome de Paulo VI. A sua eleição não foi
surpreendente dado o itinerário da sua vida e o papel que desempenhara na primeira
sessão do concílio. Daí a confiança que nele depositavam os insatisfeitos com a
heterogeneidade dos esquemas e com a tendência conservadora dos mesmos, vendo-o
no seguimento da abertura proporcionada pelo papa João, mas simultaneamente capaz
de conduzir os trabalhos com mais ordem e mais método.
No dia seguinte à eleição confirmou a sua vontade de prosseguir o concílio,
marcando a sua reabertura para 29 de setembro. Decidiu, porém, alterar o regulamento
em vários pontos:
- A criação do colégio dos moderadores, composto por quatro cardeais que
deviam moderar os debates conciliares, substituindo o conselho da presidência,
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cuja tarefa se reduzia agora a assegurar a ordem e a disciplina. Os escolhidos


revelam bem a linha conciliar: os cardeais Agagianan (ambiente curial), Lercaro
(arcebispo de Bolonha e um dos poucos bispos italianos da linha mais aberta),
Döpfner, (arcebispo de Munique) e Suenens (arcebispo de Malines).
- A criação dum secretariado para as religiões não cristãs.
- A admissão de leigos no concílio como ouvintes, com a possibilidade de falarem
em determinados casos (ex. Jean Guitton). Chegaram a 51, dos quais 23
mulheres (estas a partir da terceira sessão).
O desenvolvimento dos trabalhos ao longo da segunda sessão, iniciada em 29 de
setembro, deu-se mediante os seguintes passos:
- Durante o mês de outubro foi debatido o novo esquema sobre a Igreja,
elaborado pelo professor lovaniense G. Philips, em estrita colaboração com um
grupo de peritos internacionais:
o Vários pontos ocasionaram acesas discussões:
 A integração neste esquema do esquema sobre Maria,
significativa para alguns da minimização do seu papel.
 A restauração do diaconado permanente, entendida como uma
brecha aberta no celibato eclesiástico.
 O caráter sacramental da consagração episcopal: os bispos
ocupam um lugar na Igreja em virtude da ordem e não da
jurisdição recebida do papa.
 A colegialidade episcopal entendida como sendo de direito
divino. Para a tendência curial era um atentado ao que fora
definido no I concílio do Vaticano.
o Para superar a oposição, os moderadores conseguiram organizar um
voto orientador em 30 de outubro, muito favorável à linha apresentada
pelo esquema, excetuando a questão do diaconado, sobre que foram
manifestadas maiores reservas.
o A oposição, porém, não estava convencida e voltou a manifestar-se,
quando foi observada a necessidade de rever o esquema sobre os
bispos e o governo das dioceses em razão da doutrina episcopal
presente no esquema sobre a Igreja.
- O debate sobre o esquema dos bispos, na primeira metade de novembro,
originou uma vigorosa intervenção do patriarca melquita Máximo IV contra a
preponderância da cúria romana na Igreja e uma controvérsia entre o cardeal
Frings, arcebispo de Colónia, e o cardeal Ottaviani a propósito do Santo Ofício.
- Foi também debatido o decreto sobre o ecumenismo:
o Os primeiros três capítulos, apresentados pelo cardeal Cicognani,
foram recebidos de forma tranquila e construtiva.
o O quarto capítulo, sobre os judeus, redigido e apresentado pelo cardeal
Bea, no sentido de superar definitivamente o antissemitismo,
encontrou resistências por parte dos bispos árabes e de alguns outros
sensíveis aos seus argumentos por receio de que a posição fosse
interpretada politicamente.
o O quinto capítulo, sobre a liberdade religiosa, foi apresentado pelo
bispo de Bruges De Smedt: Afastada a igualdade objetiva de todas as
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religiões e a independência do homem diante do Criador, afirmou a


verdadeira natureza da liberdade religiosa: o direito da pessoa exercer
livremente a religião segundo os princípios da sua consciência e a
imunidade de coação externa nas relações com Deus.
o A discussão desenvolveu-se apenas em torno dos três primeiros
capítulos. Os outros dois, que suscitavam fortes reservas, foram
submetidos a reelaboração para serem apresentados na sessão
seguinte.
- Na parte final da sessão, Paulo VI tomou duas decisões gratas à maioria
conciliar:
o A pedido da maioria, o papa decidiu em 21 de novembro que fossem
incluídos em cada comissão cinco membros suplementares, quatro dos
quais eleitos pela assembleia, e que fossem eleitos novos presidentes.
Assim se iam ultrapassando as tendências de bloqueio à renovação
empreendidas pelos membros da cúria que até este momento ainda
ocupavam os postos mais importantes.
o Paulo VI anunciou a supressão de numerosos limites impostos pelo
direito canónico aos poderes episcopais e a concessão de diversas
faculdades (motu proprio Pastorale Munus de 30 de novembro).
- Em 4 de dezembro de 1963 foram aprovados:
o A constituição Sacrosantum Concilium sobre a liturgia, quase por
unanimidade.
o O decreto Inter Mirifica, sobre os meios de comunicação social.

2.3. A terceira sessão (14 de setembro a 21 de novembro de 1964)


Durante o interregno, alguns acontecimentos marcaram negativamente ou
positivamente o concílio:
- A ordem dada no início de 1964 para que os esquemas ainda por examinar
fossem reduzidos a metade. Muitos temeram que fosse uma forma de liquidar
o concílio.
- As dificuldades encontradas na redação do esquema sobre a Igreja e o mundo.
- O acordo conseguido pela comissão teológica sobre a teologia do episcopado e
sobre o esquema relativo à revelação.
- As correções mandadas incluir por Paulo VI no verão de 1964 no esquema
sobre a Igreja destinadas a atenuar o vigor da colegialidade e acentuar as
menções ao primado.
- As reservas da Secretaria de Estado relativamente ao projeto de declaração
sobre os hebreus posteriores à agitação no mundo árabe.
Reiniciando os trabalhos com uma concelebração (sinal da reforma litúrgica), a
terceira sessão decorreu com os seguintes passos:
- As tentativas da minoria chefiada pelo cardeal Larraona no sentido de corrigir
os pontos relativos à colegialidade episcopal. Passava-se, em sentido contrário,
algo de semelhante ao que fizera a minoria no concílio Vaticano I.
o Paulo VI recebeu dois grandes relatórios contrários ao capítulo III do
esquema De Ecclesia, alicerçados no facto de a doutrina afirmada não
estar madura e esvaziar o primado pontifício.
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o Paulo VI respondeu de viva voz ou por escrito garantindo o cuidado


que fora colocado no exame e na discussão da doutrina da
colegialidade.
o Paulo VI pediu, todavia, ao jesuíta Bertrams, professor da Universidade
Gregoriana, que redigisse uma nota explicativa (Nota Praevia) sobre os
pontos criticados (algo de semelhante ao relatório do bispo Gasser no
Vaticano I). Depois de melhorada, foi entregue aos padres em 14 de
novembro.
- Foram discutidas sem excessivas dificuldades as declarações sobre a liberdade
religiosa Dignitatis Humanae e sobre os hebreus e as religiões não cristãs
Nostra Aetate. A votação ficou adiada, porém, para a sessão seguinte por falta
de tempo e para permitir aos padres refletirem melhor sobre o texto relativo à
liberdade religiosa.
- Ainda se examinaram os decretos sobre o apostolado dos leigos (Apostolicam
Actuositatem), sobre o clero (recusado pelo seu caráter superficial e
inadequado), sobre os religiosos (Perfecta Caritatis, criticado por ser muito
jurídico e ocidental), sobre os seminários (Optatum Totius), sobre a educação
cristã (Gravissimum Educationis).
- Examinou-se por fim o esquema 13 sobre a relação Igreja/mundo levantando
um conjunto de questões quentes: a regulação da natalidade, os limites do
direito de propriedade, as obrigações dos povos ricos diante do terceiro
mundo, o emprego da bomba atómica. O projeto foi enviado para
reelaboração, mediante a consulta de peritos leigos nas questões em causa.
- A sessão terminou no meio de alguma tensão, devido ao facto de o papa, para
conter a oposição conservadora, ter tomado algumas iniciativas diversamente
avaliadas:
o A Nota Praevia precisando o sentido da colegialidade na relação com o
primado pontifício.
o A introdução de algumas modificações de última hora no decreto sobre
o ecumenismo, depois de já aprovado pela assembleia.
o A proclamação, a título pessoal, da Virgem Maria como Mãe da Igreja.
o O reenvio da aprovação do texto sobre a liberdade religiosa para a
sessão seguinte.
- Na sessão final de 21 de novembro:
o Foram promulgados três documentos:
 A constituição dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja.
 O decreto Orientalium Ecclesiarum, que reconhecia o
pluralismo litúrgico, disciplinar e espiritual da Igreja católica.
 O decreto Unitatis Redintegratio sobre o ecumenismo.
o Foram anunciadas pelo papa algumas medidas de reforma no governo
central da Igreja:
 A criação de comissões encarregadas da aplicação das decisões
conciliares, a que seriam associados os bispos
 A integração de bispos residenciais nas congregações romanas,
de modo a que estas pudessem ser mais sensíveis aos pontos
de vista da periferia.
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 A instituição do sínodo episcopal que o papa haveria de


consultar periodicamente, de modo a concretizar a
colegialidade episcopal.

2.4. A quarta sessão (14 de setembro a 8 de dezembro de 1965)


O concílio reabriu em setembro de 1965 na consciência de que tinha que terminar
no fim desta sessão, por motivos psicológicos e de organização. Os trabalhos estavam,
contudo, ainda atrasados. Na verdade ainda só tinham sido aprovados cinco documentos.
Segue-se uma síntese dos trabalhos desta fase:
- Os primeiros dias foram dedicados ao documento sobre a liberdade religiosa
(Dignitatis Humanae), completamente reelaborado pelo jesuíta americano C.
Murray. O texto gerou muitas discussões e divisões dada a oposição da minoria
conciliar, ao ponto do papa ter decidido intervir pessoalmente para resolver o
impasse.
- O novo esquema sobre a Igreja no mundo (Gaudium et Spes), redigido no
essencial pelo francês Haubtmann foi acolhido favoravelmente. Apesar de não
ter sido um documento perfeito nem consensual, foi um documento otimista
na linha do diálogo com o mundo.
- O esquema sobre as missões (Ad Gentes) foi ocasião para algumas intervenções
intempestivas, mas acabou aprovado de modo massivo. Caracterizava-se por
algumas perspetivas doutrinais e ecuménicas novas.
- O decreto sobre o clero (Presbyterorum Ordinis) não proporcionou grandes
agitações. O papa tinha retirado a questão celibato da discussão conciliar.
- O último mês foi dedicado ao término dos documentos que ainda faltavam.
Notaram-se algumas tensões sobretudo relativas à constituição dogmática
sobre a revelação (Dei Verbum). Sem descer a determinações precisas ficou
afirmada a relação entre Escritura e Tradição. O texto foi escrito pelo P. Betti,
ajudado por alguns teólogos alemães.
- A aprovação dos documentos:
o Em 28 de outubro de 1965:
 O decreto Christus Dominus sobre a missão pastoral dos bispos.
 O decreto Perfectae Caritatis, sobre os religiosos.
 O decreto Optatum Totius sobre os seminários.
 A declaração Nostra Aetate sobre as religiões não cristas.
 A declaração Gravissimum Educationis sobre a educação cristã.
o Em 18 de novembro de 1965:
 A constituição dogmática Dei Verbum sobre a revelação.
 O decreto Apostolicam Actuositatem sobre o apostolodado dos
leigos.
o Em 7 de dezembro de 1965:
 O decreto Ad Gentes sobre a atividade missionária.
 O decreto Presbyterorum Ordinis sobre o ministério e a vida
sacerdotal.
 A declaração Dignitatis Humanae sobre liberdade religiosa.
 A constituição pastoral Gaudium et Spes sobre Igreja no mundo
contemporâneo.
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- Alguns acontecimentos importantes dos últimos dias do concílio:


o A celebração de despedida dos observadores em São Paulo extramuros
em 4 de dezembro, 1ª celebração litúrgica do papa com os não
católicos.
o O anúncio da reforma do Santo Ofício, em 6 de dezembro, passando a
chamar-se Congregação para a Doutrina da Fé.
o A anulação recíproca da excomunhão entre Roma e Constantinopla, em
7 de dezembro, feita pelo papa em Roma e pelo patriarca Atenágoras
em Istambul.
o A sessão de encerramento solene do concílio, em 8 de dezembro na
Praça de São Pedro.

3. Para uma avaliação do concílio


Abstendo-nos duma apresentação sumária de cada documento do concílio,
porquanto já na sua maior parte estudados noutras disciplinas, passamos a algumas
observações conclusivas em jeito de avaliação:
- Encerrado o concílio, as suas repercussões fizeram-se sentir imediatamente
sobretudo na Europa, expressas num misto de otimismo e crise, em razão da
urgência de mudar aberta pelo concílio, da perda da solidez doutrinal e
institucional anterior e também da crise de civilização que atingiu o mundo
ocidental dos anos 60, com inevitáveis influências na vida da Igreja.
Progressivamente o seu influxo chegou também às Igrejas dos outros
continentes, nomeadamente à América latina e a África.
- Após um período de entusiasmo em torno da renovação conciliar, seguiu-se
alguma desilusão:
o Alguns motivos:
 A interpretação restritiva da colegialidade episcopal por parte
de Roma.
 A renovação apressada feita em nome do concílio, mas muitas
vezes em desacordo com ele, sobretudo no campo da liturgia e
da catequese.
o A desilusão foi explicada de maneira diversa consoante se assumia uma
linha de defesa das reformas conciliares ou uma linha a elas contrária:
 Os que sempre se lhe opuseram viram confirmados os seus
receios e denunciaram como consequência direta do concílio a
crise vivida pela Igreja: diminuição de vocações ao ministério
ordenado, discussão das formas clássicas de vida religiosa,
abandono da missa dominical por parte de muitos fiéis, recusa
das posições tradicionais nas questões relativas à moral
pessoal, rápidos avanços da secularização, atração exercida
pelo marxismo sobre militantes e eclesiásticos empenhados em
atividades sociais.
 Os reformistas explicavam a crise de modo simplista apoiando-
se na lentidão da cúria romana em pôr em marcha as
orientações conciliares ou como consequência das próprias
hesitações já presentes no aggiornamento conciliar.
12

- O concílio, de facto, não foi perfeito. Apresentou algumas limitações e não foi
capaz de satisfazer todas as esperanças que nele foram colocadas:
o Por vontade de Paulo VI, o concílio renunciou a tomar posição sobre
alguns problemas particulares: a regulação dos nascimentos, o celibato
do clero latino.
o Os padres conciliares não abordaram algumas questões candentes nos
anos seguintes: o lugar da mulher no âmbito ministerial da Igreja, a
questão dos divorciados que desejariam casar novamente pela Igreja, o
grau de liberdade dos fiéis relativamente à autoridade eclesiástica…
o Nalguns casos as soluções encontradas pelo concílio foram ambíguas,
em resultado da tentativa de conciliação das diversas tendências. A
preocupação de Paulo VI em conseguir a maior unanimidade possível
fez com que por vezes fossem inseridas correções provindas de
sistemas teológicos diversos perdendo-se alguma homogeneidade dos
documentos. Alguma ambiguidade foi também uma espécie de recurso
das comissões conciliares quando as questões tratadas não estavam
totalmente maduras ou geravam muitas contestações.
- Os limites não podem, todavia, fazer esquecer os aspetos positivos:
o Foram discutidos temas importantes nunca antes abordados por um
concílio e algumas questões foram clarificadas, com repercussões nos
documentos conciliares:
 O lugar do episcopado na estrutura do povo de Deus.
 O ministério dos padres e a sua formação.
 O papel dos leigos enquanto tal na Igreja.
 O significado da vida religiosa consagrada.
 A atividade missionária da Igreja.
 A posição da Igreja católica diante do movimento ecuménico,
dos hebreus e das religiões não cristãs.
 A formulação da liberdade religiosa como direito da pessoa
humana.
 A aceitação e promoção do diálogo da Igreja com o mundo
contemporâneo, chamando à reflexão teológica os dados das
outras ciências.
o O concílio não vale apenas pelos textos publicados, mas também pelo
próprio acontecimento. Numa avaliação global importa considerar a
profundidade da renovação iniciada ou sustentada pelo(a):
 Regresso à tradição autêntica, superando as posições herdadas
do disciplinamento tridentino.
 Solicitude na adaptação da Igreja católica à nova situação do
mundo moderno.
 Revalorização da originalidade das Igrejas locais e da
diversidade de culturas, que o monopolitismo pós-tridentino
tinha obscurecido ou anulado.
Terminamos com as palavras de Roger Aubert e Claude Soetens de cujos dados,
aliás, já nos servimos para a apreciação anterior:
13

«A fecundidade que animou os homens que conduziram o concílio, sustentados por uma
muito ampla maioria da assembleia, e a mudança de ambiente que daí derivou
incontestavelmente para a Igreja católica, apesar das diversas tentativas de
“restauração”, emergem com o passar do tempo como um fenómeno ainda mais
importante do que os textos produzidos pelo concílio, independentemente do seu
interesse e da sua riqueza. Se o Vaticano II não manteve todas as promessas – mas não
acontece sempre assim em todos os movimentos de renovação na Igreja? – apesar de
tudo assinalou uma viragem decisiva. Na verdade, o Vaticano II não impediu o
desenvolvimento da crise nos decénios sucessivos e talvez tenha mesmo contribuído
para uma certa desestabilização, pondo em discussão uma imagem simplista de Igreja à
qual muitos ainda estavam ligados, mas também – e é o mais importante – contribuiu
para atenuar em certa medida as consequências nefastas de tal crise, empenhando
resolutamente a Igreja no caminho do futuro com uma tríplice correção ao mesmo
tempo pastoral, espiritual e intelectual»3.

3
Roger AUBERT – Claude SOETENS, I Risultati, in Crisi e Rinnovamento dal 1958 ai Giorni Nostri (Storia del
Cristianesimo, dir. Jean-Marie Mayeur – Charles e Luce Pietri – André Vauchez – Marc Venard, XIII), dir.
Jean-Marie Mayeur, Roma: Borla – Città Nuova, 2002, 115-116.