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EQUIPE

EDITOR CHEFE SUPORTE


Arno Alcântara Alessandra Figueiredo Pelegati
Márcia Corrêa de Oliveira
REDAÇÃO E CONCEPÇÃO Rayana Mayolino
Marcela Saint Martin Douglas Pelegati
Marra Signorelli
Raul Martins FINANCEIRO
William Rossatto
REVISÃO Joline Pupim
Cristina Alcântara Douglas Pelegati

DIREÇÃO DE CRIAÇÃO COORDENAÇÃO DE PROJETOS


Matheus Bazzo Arno Alcântara
Italo Marsili
DESIGN E DIAGRAMAÇÃO Matheus Bazzo
Jonatas Olimpio
Vicente Pessôa O CARA QUE NUNCA DORME
Douglas Pelegati
TRANSCRITORES
Edilson Gomes da Silva Jr
Rafael Muzzulon
Raíssa Prioste

Material exclusivo para assinantes do Guerrilha Way.

Transcrição das lives realizadas no Instagram do Dr. Italo Marsili.

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ENTENDA O SEU MATERIAL
1. O Caderno de Ativação ajudará você a incorporar
e a colocar em prática o conteúdo de uma das
fabulosas lives. É um material para FAZER.

2. No LIVES você encontrará transcrições, resumos


e uma visão geral das lives selecionadas para a
semana. É um material para se CONSULTAR.

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econômica.

4. Imprima e pendure o seu PENDURE ISTO.

3
A SEMANA NUMA TACADA SÓ _______________ 5

O PONTO CENTRAL _______________________ 6

NADA MAIS IMORAL


QUE NÃO TER UMA VIDA INTENSA ___________ 9

A VIDA PRECISA DE UM POUCO


DE CONFUSÃO ___________________________ 17

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A SEMANA
NUMA TACADA SÓ

LIVE #94 | 22/10/2019


NADA MAIS IMORAL
QUE NÃO TER UMA VIDA INTENSA
Não são apenas os crimes que compõem uma vida
imoral. Viver sem dar a cada momento o seu amor e a
sua presença é tornar sua vida imoral.

LIVE #31 | 28/02/2019


A VIDA PRECISA DE UM POUCO DE CONFUSÃO
O que aumenta a nossa produtividade não é ter uma
agenda toda amarradinha, mas conhecer os proces-
sos.

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O PONTO CENTRAL
R E S U M O S D A S E M A N A

LIVE #94 | 22/10/2019


NADA MAIS IMORAL QUE
NÃO TER UMA VIDA INTENSA

Os políticos são nossa referência de conduta imoral. Envol-


ver-se em esquemas de corrupção com valores que ultrapas-
sam os seis dígitos é, de fato, imoral. Porém, não são imorais
apenas os crimes. Importa que pensemos na moralidade de
nossos hábitos.

O homem deve caminhar para a felicidade. Se quisermos ser


dignos e agir de maneira moral, precisamos nos orientar a
partir dessa felicidade, que não está nas coisas que não con-
trolamos. Estar presente em tudo aquilo que fazemos, ainda
que não haja nisso nenhum glamour, dar a cada instante,
além da sua presença, sua alegria; isso é o que é o que po-
demos controlar.

Ao adotarmos a mentalidade de que trabalhamos apenas


pelo sustento; ao pensarmos que o nosso dever é um peso
aliviado pelo fim-de-semana, vivemos uma vida periférica,
sem intensidade, imoral. Cada ato humano deve ser preen-
chido de intenção amorosa. Cabe a nós encontrar no mo-
mento mais prosaico da vida um traço de nossa personali-
dade. Não fugir dos menores deveres, mas cumpri-los com
amor, é o princípio da felicidade neste mundo. É neles que
encontramos a vocação e o sentido da vida. O sentido da
vida não está nos livros nem no seu pensamento. Buscar a

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felicidade na atividade mental, sem entregar-se àquilo que
você tem de fazer com amor, é trair a própria vida.

LIVE #31 | 28/02/2019


A VIDA PRECISA
DE UM POUCO DE CONFUSÃO

O problema da falta de organização, em geral, não se resol-


ve com uma agenda. Programar o dia com atividades e ho-
rários, quadricular a vida, dificilmente vai funcionar, porque
todos os dias temos de lidar com imprevistos. A harmonia da
vida humana não está na simetria, na organização perfeita.
É preciso um pouco de confusão para ser produtivo.

O segredo da ordem não está na agenda, mas em captar a


ordem ontológica nas atividades que realizamos. Isso sig-
nifica saber qual é o processo — significa, em cada área da
vida, saber o que é mais importante. O que aumenta a nossa
produtividade não é a fidelidade aos horários, mas saber o
que é mais importante a se fazer num dado momento em
concreto.

A partir do momento em que entendemos qual é o processo


das nossas relações afetivas (pessoas vem antes de coisas)
e do nosso trabalho (encontrar o equilíbrio entre coisas ur-
gentes e coisas importantes), começamos a encontrar a or-
dem, a produtividade e uma paz no dia a dia.

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LIVE #94 | 22/10/2019

NADA MAIS IMORAL


QUE NÃO TER
UMA VIDA INTENSA

Hoje, o assunto é a moralidade média de cada um de


nós, tema que já foi tratado por mim de modo colate-
ral em alguma live anterior – no curso, isso é visto de
modo específico. Quando pensamos em ética e mo-
ral – e aqui não vale pensarmos nas diferenças entre
as duas, pois não é o assunto da live –, vem o pen-
samento “E os políticos de Brasília? Quando roubam,
eles funcionam de modo antiético?”. Isso seria um
dos máximos da falta de ética no país, nessa chave é
que rola toda a discussão pública do que vem a ser a
ética e a falta dela, e os pobres dos políticos – não fi-
quem putos comigo por falar assim – acabam sendo
o para-raios de toda essa discussão – o que faz todo
o sentido –, mas existem alguns desvios de eixo que
nos fazem pensar um pouco mais sobre esse assunto.

Há um “time” que fala assim: “Quem é você pra falar


da antiética dos políticos de Brasília (que roubam tri-
lhões), se você também suborna um guarda munici-
pal ou um policial militar que te para na blitz e pede
sua documentação? Você não tem moral e autorida-
de para falar!”. Isso é uma asneira! É uma ignorância!

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É evidente a existência de hierarquia, tamanho e or-
dem em nosso mundo. Obviamente, então, uma coi-
sa não tem o mesmo tamanho da outra. Um desvio
de verba (trilhões, por exemplo) é infinitamente mais
grave do que uma corrupção ou um desvio pontual
feito por um policial militar que estava cumprindo
uma lei injusta... e por aí vai...

Mas a questão não é essa. Estou falando de uma mo-


ralidade pessoal, intrínseca. Primeiramente, o que é
a moralidade? O que é o cumprimento ético? Do que
trata a disciplina da Ética? Para começar, a Ética está
dentro de uma disciplina maior (a Filosofia), assim
como a Álgebra e a Trigonometria estão dentro da
Matemática... a Geologia, que está dentro da Geogra-
fia. Então, podemos falar da Ética de modo aéreo, ar-
tificial e abstrato ou até pegar livros que tratam do
assunto e começar a estudá-los, mas eu quero falar
da Ética no dia a dia – de uma moral no cotidiano,
uma coisa que nos pega e, quando não agimos de
acordo com ela, somos profundamente antiéticos, ou
seja, de um modo que foge do centro de dignidade
do nosso ser e espírito, levando-nos à frustração no
final.

Se pegarmos a Ética “pela raiz”, ela nos dirá o seguin-


te: existe um desejo... uma tentação... um lugar que
funciona de modo harmônico e ideal, para onde o ser
humano deveria se dirigir... esse lugar é a felicidade.

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Um ser humano harmônico e ideal, colado à sua dig-
nidade, deveria caminhar para um lugar de felicida-
de. Então, a Ética se propõe a dizer apenas uma coisa:
se você pretende ser feliz, algo desejado por todo ser
humano, existe mais ou menos claro – não é uma re-
ceita de bolo, um bê-á-bá ou um manual – um código
de conduta (umas balizas) diante do qual você pre-
cisa se orientar/mover; se não fizer isto, você cairá.
É como se fosse uma estrada cheia de neve, em que
você não visualiza mais o meio-fio nem a linha cen-
tral, mas que tem postes brilhando e indicando mais
ou menos a melhor posição no trajeto – de modo que
você não caia no despenhadeiro nem colida com a
colina ao lado.

Existe um elemento central de toda a Ética que trago


agora para nós, a fim de que possamos entender por
que muitos andam infelizes, ansiosos e frustrados
diante da vida, o que os leva a olhar para a própria
existência e pensar “O que deu errado? Por que estou
com essa sensação?”. É evidente que muitos elemen-
tos acontecem conosco: a morte de um filho, de um
pai ou de uma mãe, por exemplo. Ainda agora, uma
seguidora e amiga me escreveu dizendo que perdeu
os dois irmãos num acidente automobilístico recente.
Obviamente, ela está desolada... já orei por ela, pedin-
do que nosso bom Deus conforte a alma dos parentes,
que ficaram. É óbvio que, quando um acontecimento
assim entra na nossa história, não o controlamos (o

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fato de perder alguém acidentalmente). Ora, muitos
passam num concurso público tão desejado, mas isso
é algo que não estava no controle dessas pessoas... o
que está no controle de alguém é estudar, e muitas
pessoas dizem o contrário, uma bobeirada, do tipo
“se você estudar, só vai precisar de uma vaga, por-
que você é um só e consegue passar”. É claro que
não! Você pode ser um sujeito que não foi agraciado
com tanta inteligência ou que não tem tempo, pois
precisa se dedicar à família (tem filhos pra criar, está
num outro momento da sua história), então, às vezes,
não conseguirá passar num concurso que seria mui-
to importante para você (ser auditor fiscal, promotor
ou juiz, por exemplo), por estar numa circunstância
específica da vida em que não é possível se dedicar
de modo especial ao estudo.

Existem muitos elementos na nossa vida que fogem


ao controle, mas um deles nós podemos controlar.
Quando o controlamos, assumindo esse elemento
como próprio da gente, conseguimos andar pela pri-
meira vez dentro de um trilho moral/ético. Com isso,
a felicidade começa a aparecer de um jeito esquisito.
Ela não aparece como os fogos de artifício no céu ou
o shot de uma droga ingerida para se ter uma per-
cepção falsa, transitória e passageira de alegria. Pelo
contrário, esse elemento específico, no qual apare-
ce a sua vocação, é maximamente odiado pela maior
parte dos brasileiros, que é uma dicotomia entre o

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trabalho e o momento de curtir a vida. Ou seja, você
precisa trabalhar, cuidar dos seus filhos, ir ao escritó-
rio entregar um relatório que foi pedido ou escrever
uma procuração, por exemplo. E todos nós fomos for-
mados visando dois momentos: o de trabalhar, isto
é, “sentar o rabo” e fazer aquilo que é chato pra ca-
ralho, seja atender pessoas ou apitar nas ruas como
um guarda de trânsito, por exemplo – afinal, não po-
demos viver só de poesia e romance – e o de curtir a
vida, pois, “graças a Deus!”, o final de semana sempre
chega e precisamos aproveitá-lo.

A verdade é a seguinte: isso é uma ignorância. É idio-


tice! É evidente que viver nessa chave significa ter
uma vida antiética e imoral, absolutamente periférica.
Isso acontece porque uma coisa não foi compreendi-
da, que é a coisa fundamental da história humana:
cada instante... cada ato humano deveria ser preen-
chido com uma intenção amorosa. Ou seja, qualquer
atividade desenvolvida por cada ser humano concre-
to (trocar a fralda cagada de um filho, escrever um
relatório maçante ou bater uma vitamina no liquidifi-
cador antes do treino, por exemplo) é ocasião de en-
contro com o núcleo da sua ação (núcleo agente). Não
fugir desta porra... não fugir deste lugar é justamente
o princípio da felicidade em nosso mundo. Não fugir
desse lugar de ação (central, nuclear) é o que te ins-
tala num lugar chamado “a própria vocação” ou “o
sentido da vida” – onde todo mundo deseja estar.

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Nós não encontramos o sentido da vida procurando
em livros; fazendo uma prece ao bom Deus, de joe-
lhos, diante do sacrário ou nos “masturbando mental-
mente”, à noite, no travesseiro. Nós não encontramos
o sentido da vida nesses lugares. Se nos dirigimos
a eles desconectados da intensidade, da presença,
da pessoalidade e dos atos concretos de cada dia, a
nossa vida vira traição, frustração e uma grande bo-
lha de sabão.

Num outro dia, eu estava vendo os stories do pessoal


que participa de “A Formação do Imaginário”, uma
conta do Instagram maravilhosa, e lá me deparei com
a representação de um afresco no teto de uma cape-
la – não sei se esta capela da Alemanha é católica –,
em que um esqueleto com uma foice (representação
da morte) soprava bolhinhas de sabão por meio de
um canudinho, representando esse limite instável e
frágil da vida humana – você pode estourar (a morte
pode te ceifar) a qualquer momento. Se não estamos
preparados para a morte, é porque vivemos uma vida
vazia e sem intensidade; em outras palavras, uma
vida indigna, antiética e imoral. Ainda que você te-
nha subornado um guarda de trânsito, pagado uma
propina ou desviado trilhões dos cofres públicos, a
sua vida terá sido pessoalmente – e não socialmente
– imoral.

É uma imoralidade lidar com a vida humana desse

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modo blasfemo e sacrílego, ou seja, deixando de va-
lorizar a intensidade de cada ato e não estando pre-
sente nesses atos. Você deveria entender que é ali, no
cumprimento do seu dever, na matéria mais intrans-
cendente de cada dia – limpar o rabo de um filho, fa-
zer a vitamina ou entregar um relatório maçante para
seu chefe, como eu já havia exemplificado – que sua
vida acontece. É no beijo que você dá numa pessoa
a qual ama e no abraço que recebe de quem sente
saudade de você. A intensidade da vida humana está
nisso, e não em outro lugar. Não está nos livros... nos
pensamentos. Não está nem na oração que você faz
na igreja – isso é uma outra atividade.

A vida humana acontece na narrativa concreta de


cada dia – é justamente o viver a presença com in-
tensidade diária, sem fugir das obrigações. É não
reclamar das tarefas que devemos executar, da tem-
peratura do dia (calor ou frio), da barriga indecente
que você tem entre seu tronco e sua coxa ou de uma
doença que te alcança. Você deve olhar para essas
coisas e agir nelas, ou seja, estar nessas circunstân-
cias amando-as. Então, a partir delas, ser! Quando
você nega seus deveres e as ações humanas que te
competem, acaba negando a própria substância da
sua vida, isto é, o próprio lugar narrativo. A narrati-
va da nossa vida é, propriamente, a substância des-
sa mesma vida. De modo similar a um romance, que
apresenta personagens e lugares para ambientá-los

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– ou seja, tudo isso é a história, a substância daquele
romance –, assim também é a nossa vida, que não é
um romance, mas uma narrativa concreta, pessoal e
vital. A vida de cada um tem personagem e lugar. Ne-
gar o personagem ou o lugar (corpo, etnia, circuns-
tância financeira, lugar onde nascemos e pessoas
com as quais convivemos) é negar a nossa história.
Contrariamente, assumir isso e agir a partir disso, de
modo amoroso e intenso, é o que dá o brilho e a ma-
ravilha de uma vida vivida de maneira plena, moral
e ética, isto é, uma vida que se encontra inscrita den-
tro de sua própria vocação. Portando, está de mãos
dadas, abraçada e articulada com o sentido mesmo
dessa vida. Este é o desejo: não negar a circunstância
concreta, vivendo ali com intensidade.

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LIVE #31 | 28/02/2019

A VIDA PRECISA
DE UM POUCO
DE CONFUSÃO

O assunto de hoje é o tema da ordem, da organiza-


ção.

Eu vejo uma galera que fala assim: “Italo, eu queria


começar a organizar melhor a minha vida. Eu acho
que eu já sei o que eu vou fazer; eu vou comprar uma
agenda. Eu vou pegar a minha agendinha e vou co-
locar os horariozinhos, tudo que eu tenho para fa-
zer”. Você já viu gente assim? Você deve ter feito isso
também. “Olha, Italo, eu já sei o que vou fazer. Eu vou
acordar às 7 horas da manhã. Às 7h30 vou tomar meus
remédios. Às 8 vou fazer meu ovo mexido com ba-
con, porque estou fazendo uma dietinha bacana.” E a
pessoa vai naquela história: “Às 7 da manhã faço uma
coisa, às 7h30 faço outra, às 8 faço outra, às 9 faço ou-
tra”, e assim por diante. Isso aqui o pessoal faz toda
hora, e dá para perceber que não dá muito certo.

Costuma não funcionar muito. Aí está o ponto. Eu


não tenho nada contra agenda. Acho bom ter agen-
da. Um pouquinho de agenda é bom ter. Mas eu vejo
um pessoal com um baita de um fetiche com agenda
que não consegue se organizar, porque, em regra, o

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problema não está na agenda. Em regra, o problema
não está em você fazer agenda ou não. Nós meio que
sabemos. A sua produtividade não melhora, exata-
mente, quando você tem uma agenda clara; você não
se organiza melhor quando você tem uma agenda na
cara.

“Já fiz isso várias vezes, mas não funcionou. Eu não


sei o que acontece, não funciona.” Assim que nós co-
meçamos a querer melhorar, a querer ser um pouco
mais organizados, vem sempre alguém e fala assim:
“O importante é você ter uma agenda. Você tem de
ter uma agenda. Você vai precisar ter uma agenda, e
ali você vai anotar o que você precisa fazer em cada
hora”. Sabe quando isso vai dar certo? Vai dar certo
raramente, em pouquíssimos casos.

Não vai funcionar, cara. Compra uma agenda para


ver se vai funcionar. Não vai funcionar. As pessoas já
tentaram fazer isso mais de mil vezes, e não funciona.

O mais importante, e que no início vai parecer um


pouco teórico, mas depois nós vamos concretizando,
é que o problema não está na agenda. O problema
não está em você saber o que tem de fazer a cada
hora do seu dia. Isso aí, no fim das contas, não impor-
ta muito. Sabe por quê? Porque há dias em que você
vai acordar com dor de cabeça, ou vai acordar atra-
sado, ou vai ter uma demanda do seu primo, ou um

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paciente seu vai faltar, e por aí vai. Então, o problema
não está na agenda. Com a agenda você não vai con-
seguir quadricular a vida.

Trata-se de uma porcaria de um fetiche maluco querer


quadricular a vida. A vida não está aí para ser quadri-
culada. Nós não temos de quadricular a nossa vida.

A nossa vida – preste atenção – precisa de um pouco


(escuta o que eu vou falar; o pessoal da organização
vai ficar com os cabelos em pé agora) de confusão.
Como diriam os italianos: para esse tipo de coisa, é
necessário um pouco de confusão. Para você poder
fazer uma vida boa, uma vida gostosa, uma vida que
você goste de estar ali dentro, é preciso de um pouco
de confusão. Não é nenhuma bagunça. É a mesma
pessoa que quer que a casa seja um showroom. Não
pode tirar nada do lugar. Eu digo assim: “Cara, sua
vida é uma casa triste”. A casa tem de ser bonita, ób-
vio, a casa tem de ter bom gosto, óbvio, a casa tem de
estar bem decorada, óbvio; quanto mais, melhor. Po-
rém um pouco de confusãozinha é importante. Para
quê? Porque você vê a vida da coisa.

Você não está entrando em um showroom. O


showroom não demonstra vida. Está lá para você ver.
“Este aqui é o apartamento ideal.” Mas nós não vive-
mos em uma vida ideal. A vida precisa de um pouco
de confusão. Um pouquinho de confusão é do caram-

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ba; a sua vida anda, você gera problemas que você
consegue se organizar ali dentro.

É o mesmo pensamento: “Italo, por que você começa


a live às 12h52?”. O que é 12h50 na vida? O que tem
simetria nesta vida? Você olha para a cara do Tom
Cruise, aquele sujeito lindo. A cara dele é toda assi-
métrica. Todo mundo sabe disso. Um pouco de assi-
metria é importante. A própria questão da arquitetura,
por exemplo. Você vai lá em uma catedral fantástica,
gótica, lá no interiorzinho da França. A fachada não
é nada simétrica, repare nisso, mas é absolutamente
harmônica. O que está de um lado não é o que está
do outro, mas tudo se harmoniza.

A harmonia da vida humana não está na simetria.


A harmonia da vida humana não está na coisa qua-
driculada. A coisa quadriculada, a coisa simétrica
é tara de engenheiro, é tara de gente que tem um
fetiche nisso. Ninguém consegue ser mais produti-
vo, ninguém consegue encontrar o sentido às custas
de quadricular a vida humana. A vida humana não
se quadricula. É preciso um pouco de confusão, um
pouco de liberdade.

“Então, Italo, se o segredo da produtividade não está


em eu colocar todas as coisas em uma agenda, onde
está?” Bem, o segredo não está na agenda. O segredo
está em você sacar qual o processo.

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Preste atenção. Uma coisa é assim: “Às 7 horas eu faço
isso, às 7h30 eu faço aquilo, às 8 eu faço aquilo”. Tra-
ta-se de um tipo de ordem: uma ordem cronológica.
Todavia ordem cronológica não dá conta de aumen-
tar a sua produtividade. O que dá conta de aumentar
a sua produtividade é uma ordem ontológica, por as-
sim dizer. É você saber o que é mais importante.

O que é mais importante? Quando você saca o que


é mais importante, você está dentro de algo chama-
do processo. É o processo que importa. O que impor-
ta é você sacar qual o processo da sua vida. Qual o
processo das suas relações afetivas? Qual o processo
do seu trabalho? Qual o processo da sua escolha? Aí
você vai vendo.

Veja só: processo de relação afetiva. Pessoas são mais


importantes do que coisas.

Vocês viram o filme Beleza americana? Lester, perso-


nagem de Kevin Space, estava tentando, de algum
modo, se reconciliar com a esposa, e eles começam
a se beijar; há ali uma musiquinha, o clima começa
a esquentar, eles estavam tomando um vinhozinho.
Quando eles vão se beijar (lembram da cena? É fan-
tástica), ele está com o copo de vinho na mão, e a mu-
lher trava; ela não consegue mais ficar ali apreciando
o beijo, o abraço, o carinho do marido. Ela começa
a olhar para o vinho que vai manchar o tapete, que

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vai sujar o sofá. Pronto. Quebrou o processo, está en-
tendendo? Claro que vai haver uma alteração ali de
qualidade na percepção.

O que aconteceu? Ela colocou a coisa, a limpeza de


um carpete, na frente da pessoa. Ela colocou uma
coisa na frente da pessoa. Ela inverteu a ordem do
processo. Ora, pessoas são sempre mais importantes
do que coisas.

Então, na hora de você tomar uma decisão - “O que


eu preciso fazer agora?” -, você pondera. Se for uma
coisa de relacionamento afetivo, uma coisa de conví-
vio, é isso que importa. Então, você colocou na agen-
da que, em determinado dia, às 19h30 vai lavar a lou-
ça (já vi agenda de todo tipo, acredite). Mas acontece
que nesse dia específico o seu filho tem uma deman-
da concreta. Que se dane a louça, deixe a louça para
amanhã. Deixe a louça para lavar outro dia. Não lave
a louça. Por quê? Porque há uma pessoa na sua frente
com uma demanda. Vá ficar com gente, que é muito
melhor.

A primeira coisa sobre processos: pessoas vêm antes


de coisas. Cara, isso dá uma tranqüilidade na vida.
Então, você já começa a falar assim: “É bom ter uma
agenda, mas, se eu tenho na minha cabeça esse cri-
tério de processo, já facilita pra burro”. No trabalho
acontece assim também. Você sabe o que precisa fa-

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zer. O que é o processo de trabalho? Você tem de fa-
zer a primeira distinção assim: coisas importantes e
coisas urgentes. É aquela coisa velha de guerra. Não
estou inventando moda. Todo mundo fala, todo mun-
do sabe disso. Nós temos de resgatar certos conceitos
fundamentais para colocar nossa cabeça em ordem.

Em relação a trabalho, um jeito é assim: “Às 9h30 eu


vou ligar meu computador, às 10h30 eu vou respon-
der relatórios, às 11h30 eu vou fazer tal coisa”. Agora,
o jeito mais importante é o seguinte: separe as suas
tarefas e atividades em “importantes” e “urgentes”.
Dentro do que é importante e do que é urgente, você
precisa encontrar o equilíbrio. Você vai ter um mon-
te de tarefa urgente que pode tomar a dianteira das
importantes. Então, precisa encontrar um equilíbrio.
Você tem de separar um tempo para fazer coisas ur-
gentes e para fazer coisas importantes.

Então, você vai organizar. Você vai pensar no seu tra-


balho assim: “Caramba, o trabalho só tem demanda
urgente. Eu achei que fosse fazer uma coisa, mas che-
gou tanta demanda de coisa nova, que eu não conse-
gui fazer o que eu tinha de fazer”. Opa, então temos
um problema aqui. É sempre assim? Então, você tem
de arranjar alguém para ajudá-lo. É sempre assim?
Então, de repente, o seu trabalho só lida com coisas
urgentes, e você não pode ficar aflito com isso. Ima-
gine um bombeiro, que apaga fogo, se quiser organi-

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zar a agenda dele. Não dá. Ele sabe que a natureza
do trabalho dele é apagar fogo, que é sempre uma
urgência.

Então, pronto. O que ele tem de fazer? Ficar tranqüilo


dentro do processo.

Imagine só um sujeito de design. O nosso designer,


por exemplo, da nossa empresa aqui. É sempre ur-
gente. Nós sempre pedimos algo urgente para ele.
Ele precisa ficar tranqüilo com isso. Tem de falar: “Be-
leza. É isso. Não é que isso é urgente. O meu trabalho
é assim”. Então, você se acalma, ali dentro. O bloco
é: coisas urgentes e coisas importantes. Você preci-
sa ter uma listinha das coisas importantes, que você
deveria estar fazendo e não está fazendo, e depois
das coisas urgentes. Existe uma previsibilidade nas
coisas urgentes.

Por exemplo, meu trabalho. O que é urgente? Laudo


é uma coisa urgente. O pessoal vem aqui, e não tem
como. Precisou do laudo porque o advogado pediu,
precisou do laudo porque o RH da empresa pediu.
Isso é urgente. O que você faz? Você cria um processo
para aquilo. É previsível. Veja bem, eu não sei quem
vai me pedir o laudo. Isso é imprevisível. Eu não sei
se será a Dona Angélica, ou a Dona Olga, ou o Seu Ga-
briel. Eu não sei quem vai me pedir o laudo, mas eu
sei que laudo é a urgência do meu trabalho. O que eu

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faço? Eu crio um processo para aquilo. Então, pronto.
Eu não tenho mais a percepção de urgência da coisa.
Quer dizer, aquilo não me dá uma demanda afetiva
que me tire do eixo. Qual o processo? “Denise (minha
secretária), por favor, sempre que alguém te pedir um
laudo, você vai pegar o nome da pessoa, CPF dela,
qual a demanda da pessoa. Você já me dá um negó-
cio mastigado para eu fazer isso rápido”. Pronto. Eu
não tenho mais a percepção de urgência.

Quando o pessoal me cobrava o laudo, era assim:


“Que data eu coloco? De quando a quando?”. Isso tem
de vir no processo. Então, você cria um processo. É
isso que não bagunça a sua agenda. O que não ba-
gunça a sua agenda? Quando você tem os processos
para o seu trabalho. Então, quanto a trabalho, o es-
quema é: importância e urgência. Você vai ver que
existe uma previsibilidade nas urgências; a coisa não
muda muito. Em geral, o que te demandam de modo
urgente é sempre, mais ou menos, a mesma coisa. O
que você vai fazer? Você vai criar um processo para
aquilo, para você atender melhor. E o que é importan-
te? Colocar na lista. Isso é muito mais útil do que criar
uma agenda.

Você sabe qual é a minha agenda? Eu não tenho. Eu


só tenho hora para acordar. O pessoal pergunta as-
sim: “Caramba, Italo. Você é produtivo pra caramba.
Meu Deus do céu. Tão novo e já fez tudo isso. Tem

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cinco filhos, está vindo um sexto filho aí. Você faz um
monte de coisa. Eu queria saber como é sua agenda”.
Eu não tenho agenda. Você acha que eu tenho agen-
da? Eu não tenho agenda, absolutamente. Agenda é
coisa de maluco. E eu lá sei o que eu vou fazer às 8 da
manhã? Eu não sei. Mas eu sei o que é importante, o
que é urgente, eu tenho meus processos dominados,
e sempre que eu estou em uma situação entre pessoa
e coisa, eu escolho pessoa. A sua produtividade vai
para outro nível, a sua presença vai para outro nível,
você fica dentro do que você tem de fazer. Aí reside
o segredo.

Então, cara, mate essas agendas. Não precisa de


agenda para coisa nenhuma. Agenda só atrapalha.
Não precisa de agenda. Agenda é um saco, é um por-
re. Esqueça a agenda.

“Italo, você não tem uma agenda?” Óbvio que eu te-


nho uma agenda. Meus pacientes estão ali, mais ou
menos. Uma agendinha você tem de ter. Mas é não fi-
car amarrado na agenda. E, sobretudo, não é a agen-
da que vai colocar ordem na sua vida. O que coloca
ordem na sua vida é a ordem de prioridades; não é
ordem do horário. Porque, se você agendou, se você
amarrou a sua vida na agenda, o que você faz tal
hora, quando vier algo, de fato, prioritário, você vai
ficar ou ansioso ou vai se sentir um derrotado. Não
vai funcionar. Não precisa de agenda. Do que você

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precisa? Alguns marcos no dia você precisa ter; hora
que vai acordar, hora que vai dormir. É uma coisa ou
outra. Agora, quanto ao resto, o que você vai fazer no
meio daquele negócio, é preciso ter o processo na
mão. É isso que funciona.

Então, processo: coisas importantes e coisas urgen-


tes. Pessoas sempre vêm antes de coisas, na ordem
da prioridade, na ordem da atenção, na ordem do
que você tem de fazer. Pronto. A coisa começa a fluir
melhor. Você começa a encontrar uma presença.

“Eu comprei uma agenda, e o máximo que eu escrevi


nela foi o meu nome.” É claro. Não é isso que você tem
de fazer. É muito melhor – preste atenção – para você
encontrar ordem, para você encontrar pontualidade,
para você conseguir encontrar produtividade no seu
dia-a-dia, é mil vezes melhor você dominar isso a que
chamamos de processo. É o processo que vai lhe dar
ordem.

“Italo, o processo sempre me pareceu teórico demais.


Eu vejo essas lives de processo e não entendo muito
bem o que o pessoal quer dizer com processo.” Pro-
cesso é: importância e urgência; depois, pessoa vem
antes de coisa; e, no meio disso, você escreve mais ou
menos o que você deve fazer.

Isso vai lhe dar uma tranqüilidade, uma presença, uma

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instalação na sua realidade, vai lhe dar uma grande
produtividade; com isso vêm um conforto, uma segu-
rança, eu diria, que diminuem muito a ansiedade. A
ansiedade pode aparecer? Claro, a ansiedade como
um transtorno deve ser tratada como transtorno. Mas
não estou falando da ansiedade de transtorno, es-
tou falando de outro tipo de ansiedade: a ansiedade
fisiológica funcional. Ela aparece por dois motivos:
porque você não tem a mínima idéia do que vai fa-
zer, então você fica ansioso; ou porque você amarrou
todo o seu dia e você não consegue cumprir aquilo
nunca, e fica ansioso.

Quando você não consegue cumprir aquilo nunca,


você vai se sentindo desmotivado pra caramba, mui-
to desmotivado. Então, é isso. A agenda pode ser útil
para você organizar uma vida que já está organizada
anteriormente, quando você tem um princípio hie-
rárquico na sua cabeça; quando você tem o princí-
pio de importância, o princípio de urgência, quando
você tem um princípio de que pessoas vêm antes de
coisas, pode ser que a agenda comece a fazer senti-
do para você. Para deixar claro: não comece tentan-
do organizar a sua vida pela agenda. A agenda vai
amarrar a sua vida. É isso que a agenda vai fazer. Ela
não liberta; ela amarra.

Então, essa é a idéia da live de hoje. Vamos tentar


esquematizar: coisas importantes e coisas urgentes.

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Isso aqui é fundamental na nossa cabeça. E como
você faz? Quanto a trabalho, separe o que é importan-
te e o que é urgente; quanto a família, separe o que é
importante e o que é urgente. Por exemplo, educação
de filhos. Coisas que são importantes: educá-los bem,
que eles tenham uma boa educação. O que é urgen-
te? Levar o moleque para vacinar, porque a vacina
está atrasada já há três meses; cortar a unha do mo-
leque, ele está parecendo o Zé do Caixão, parece um
largado; cortar o cabelo.

Há coisa que é importante e há coisa que é urgen-


te. Cortar unha é importante? Não. Cortar o cabelo é
importante? Não. Mas é urgente, porque o moleque
está parecendo um mendigo. Dar vacina? Bom, é im-
portante e urgente. Então, você vai lá, organiza as ta-
refas, coloca em uma listinha. Aí a listinha funciona.
Colocar no papel esse tipo de coisa funciona, para
dar uma clareza da situação. Mas colocar coisa de
agenda não adianta coisa nenhuma.

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