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Departamento de Linguística, Filologia e Teoria Literária – LET 3

Disciplina: LET03339 – Literatura Comparada (turma A) – 4 créditos


Período letivo: 2019/2 | Professor: Antônio Barros | Acadêmica: Marina Carvalho Dummer

Testemunhos de Ruanda

As reflexões sobre as limitações do testemunho em relação aos conflitos do século XX


estão presentes em textos como o de Freud (1915) e Benjamin (1933). A Primeira Guerra
Mundial teve consequências sobre os homens e sobre sua maneira de contar suas experiências.
Ela tirou o que havia de humano e deu espaço ao trauma considerado impossível de se comunicar
integralmente, principalmente por parte daqueles que estavam nas trincheiras. A guerra chega e
mostra que a morte pode ter as mais diversas formas, mas que independente de como ela vêm, é
impossível barrar sua chegada. Porém, o século XX nos mostra uma nova modalidade de
conflito, um que ocorre também na esfera civil. Há um representante dessa modalidade. Nele
toda civilidade se diluí, há uma peculiaridade no nível de crueldade presente, e ele acaba por ser
um dos mais macabros eventos do século XX: o genocídio em Ruanda.
O genocídio dos tutsis é um representante da crueldade, do ser (des)humano alimentado e
construído por uma lógica racista. A construção de uma Ruanda em cima de relações políticas
tensas e conceitos eurocêntricos de eugenia em conjunto com uma descarada promoção do
racismo, foram elementos que fizeram borbulhar e estourar as pústulas de ódio dos hutus em
relação aos tutsis. Ao estourar e banhar de sangue as ruas de Ruanda, a ferida dessa bolha
engatilhada pelos colonizadores europeus foi ignorada pela comunidade internacional, como é
mencionado por uma sobrevivente que foi resgatada ainda muito nova de Ruanda, mas que
depois percebeu como o país tinha sido abandonado pelo resto do mundo.

The United Nations may have saved me, but they failed everyone else.
One million people were left to die. At first I felt angry. Then the anger
turned into guilt. Why had I survived? For the longest time I didn’t even
want to tell my story. Because I didn’t want to give the United Nations
any credit. I didn’t want my story being used to put a positive spin on the
situation. I felt confused and conflicted. But then at the age of twenty-
one, I was given an opportunity to return to Rwanda.” (Nyanja, Kigali,
Ruanda, 2018).

A perseguição e assassinato dos tutsis durou quarenta anos e teve seu pico máximo de
crueldade em 1994, quando o avião do presidente hutu Juvénal Habyarimana foi derrubado.
Colocando a culpa da queda do avião na minoria tutsi, a maioria hutu, no dia seguinte, passou a
perseguir e matar a tribo minoritária com requintes específicos de crueldade. Eram vizinhos
perseguindo vizinhos com facões, hutus encurralando tutsi e se gabando do número de tutsis
mortos em cada dia. As matanças tinham horários e metas, como fica claro nos testemunhos
coletados em Uma temporada de facões de Jean Hatzfeld.
O panorama do inimaginável pode ser parcialmente construído com o testemunho
daqueles que como sobreviventes são os únicos que ainda carregam a memória e que podem
transmiti-la em forma de palavras, ditas ou escritas. Os relatos testemunhais que serão expostos
nesse trabalho são tirados principalmente do livros Baratas de Scholastique Mukasonga e dos
testemunhos de hutus e tutsis dentro do projeto Humans of New York. O intuito é abrir uma
reflexão sobre como olhar para o testemunho, sobre como tornar o passado acessível sem
pornografizar o sofrimento e o testemunho, sem tornar o evento em si abstrato ao reduzi-lo a
uma “lição aprendida”.
O primeiro depoimento que trarei vem da já citada página Humans of New York
(HONY). HONY é um projeto do fotógrafo Brandon Staton que começou em 2010. Segundo a
descrição da página no Facebook, o objetivo inicial era fotografar 10 mil nova-iorquinos nas ruas
e criar um enorme catálogo dos moradores da cidade. Mas segundo Brandon, ele começou a,
além de fotografar, entrevistar as pessoas que abordava, adicionando histórias e citações dos
fotografados aos retratos que fazia. Com o crescer da popularidade do projeto, cresceu também o
alcance de cobertura: atualmente Humans of New York já tem fotos e histórias de pessoas de
outros vinte países.
No dia 16 de outubro de 2018, a série “The Rescuers” começou a ser publicada na página
do Facebook da HONY. A página introduz os acontecimentos de 1994 de forma breve ao lado da
imagem de um mural pintado no Memorial do Genocídio de Kigali, capital da Ruanda, onde os
genocídios começaram. Na própria introdução do projeto o fotógrafo diz “[…] The stories from
that time can be traumatizing to hear. Living through them is nearly unimaginable.” (HONY,
2018). O texto introdutório segue sobre como a capital Ruandesa está atualmente:
“[...] If you walk through Kigali today, it’s difficult to imagine the events
that occurred less than twenty-five years ago. But the stories are still
there. And you can’t listen to them without being reminded of humanity’s
capacity for violence and the fragility of peace.” (HONY, Kigali,
Ruanda. 17 Out. 2018).

O genocídio teve precedente com evidências claras nos testemunhos apresentados ao


decorrer deste ensaio. Os dois primeiros depoimentos expostos abaixo partem dos hutus que se
negaram a tomar parte no genocídio. O primeiro, um pastor hutu, o segundo, um soldado do
exército hutu.

“First came the meetings. They were openly advertised on community


microphones. Their stated purpose was to discuss ‘current issues,’ but
everyone knew that killings were being organized. These things were
being openly discussed on the radio at the time. I was always invited to
these meetings, but I never attended. I was a pastor. I wanted no part in
those discussions.” (HONY, Kigali, Ruanda. Out. de 2018)

“When I was twelve years old, they undressed a Tutsi girl in front of my
entire school. They wanted to see if her private parts were the same as
other people. She kept trying to cover herself with her hands while they
pulled out her hairs one by one. I can still hear the laughter. Even with all
the violence that came later, that was the most traumatic moment of my
life. It’s still the image I see when I’m trying to fall asleep.” (HONY
Kigali, Ruanda. Out. de 2018)

A perspectiva do sobrevivente tutsi revela outra urgência, outro nível de realização


referente aos fatos que se seguiriam. Em Baratas, Scholastique Mukasonga fala sobre o prelúdio
de maneira macabra, quando nos conta que “Os primeiros pogroms contra os tutsis estouraram
em Toussaint em 1959. A engrenagem do genocídio tinha sido acionada. Eles não parariam mais.
Até a solução final.” (MUKASONGA, 2018, p.13). Scholastique ainda nos proporciona uma
perspectiva que só ela em sua condição de sobrevivente pode, a de como o exílio se deu, como
desde 1960 a população tutsi isolada em Nyamata sentia o seu macabro destino se aproximar.
Depois de comboios virem a Bugesera buscar os hutus confundidos com tutsis serem levados
para fora de Nyamata, a autora comenta: “O desespero tomou conta de todos que ficaram. Eles
entenderam: jamais voltariam a suas casas. Por serem tutsis, estavam condenados a viver como
párias, pestilentos, em uma reserva da qual não poderiam escapar” (MUKASONGA, 2018, p.23).
A fala em terceira pessoa desperta a curiosidade, uma vez que Scholastique faz parte da tribo
tutsi mas tem a necessidade de narrar em terceira pessoa. Seria esse artifício necessário por sua
condição de sobrevivente? A marca linguística de ter a alcunha de sobrevivente, e não de vítima?
Testemunha de como os belgas agiam antes do genocídio, a autora de Baratas também
parece ter presenciado um sinistro do que estava por vir: o mundo não se preocupava com
Ruanda. O que Nyanja relatou e percebeu anos depois, Scholastique já sabia há tempos em
Nyamata. Lá, nos anos precedentes a 1994, o sadismo era rotina.

Havia poucos dias tranquilos em Nyamata. Os militares do acampamento


de Gako estavam lá para nos lembrar, constantemente, quem éramos:
serpentes, inyenzis, baratas que não tinham nada de humano, que um dia
deveriam ser exterminadas. (MUKASONGA, 2018, p.69)

O testemunho de Scholastique é peculiar, suis generis, ela nos dá uma imagem do


prelúdio visto da perspectiva de uma criança, ao mesmo tempo em que nos passa através do seu
relato, a dor de um adulto sobrevivente que teve 37 membros de sua família assassinados pelo
genocídio. E como ela mesma diz, escapar é sinônimo de subviver.
Dos pontos de vista coletados nos testemunhos divulgados na página HONY, temos a
perspectiva do soldado que se recusa a participar da perseguição. O mesmo soldado que
presenciou a menina tutsi tendo seus pelos pubianos arrancados em público continua seu relato:

The genocide didn’t begin until many years later, when I was twenty-five
years old. I was a soldier in the army. I could tell the atmosphere was
growing more and more tense. Our commanders were openly using
ethnic slurs. There was talk of ‘wiping our enemies from this country.’
One night I was assigned to guard four Tutsi prisoners. They’d been
accused of making explosives but were clearly innocent civilians. They’d
been tortured. Their wounds were rotten and stinking. A major came to
the cell at 1AM and ordered me to step aside. ‘These people need to be
killed immediately,’ he said. But I refused. I told him those were not my
instructions. He pushed and screamed, but eventually he stormed off. The
prisoners were released a few days later, but someone followed them out
and killed them. It was a sign of things to come. (HONY, 2018)

De diversas perspectivas era possível ver o que anos de ódio e racismo alimentados
desencadeariam em Ruanda.
Um elemento também específico do genocídio é o uso do termo barata, presente nos
relatos de Scholastique que antecedem o genocídio. É o apelido que os hutus davam aos tutsis
para reduzir a existência e associá-los de certa forma a um animal que deve ser eliminado. De
novo, a lógica racista exibe o que faz de melhor: arrancar a humanidade e dar espaço ao ódio e a
associação de uma tribo a algo que precisa ser exterminado.

That very first evening the militia came to my front gate. Some were
carrying guns. Others were carrying machetes. They’d been told that I
was hiding people. They demanded to come inside and search the
property. I stood in the doorway and told them that they’d have to kill me
first. ‘We’ll be back,’ they said. ‘And thanks for gathering the
cockroaches into one place. Because it will be easier to kill them here.
(HONY, Kigali, Ruanda. 2018, grifo meu)

No capítulo XIII do seu livro, Scholastique fala do horror aguardado e posteriormente


desencadeado, mencionando o verbo usado para erradicar, normalmente usado para animais
nocivos: gutsembatsemba. “Em Nyamata , hava muito tínhamos aceitado que nossa libertação
seria a morte. [...] estávamos cansados e, às vezes, nos deixávamos entregar ao desejo de
morrer.” (MUKASONGA, 2018, p. 131). Como um dos únicos lugares de refúgio ela menciona
as igrejas, em especial a de Nyamata, onde foi exilada. Ela relata como um padre alemão,
Canoni, quando presente, afastava os grupos que tentavam atacar os tutsis. Porém, a realidade
muda depois que os militares da ONU vão até Ruanda para tirar os brancos de lá.

Em 1994, os tutsis de Nyamata refugiaram-se novamente, na igreja, mas


o padre Canoni não estava ali para afugentar os assassinos. Os militares
da ONU tinham vindo buscar os brancos, os missionários haviam partido
com eles, sabendo que abandonavam à morte mais de cinco mil homens,
mulheres e crianças que acreditaram que encontrariam refúgio em sua
igreja. (MUKASONGA, 2018, p. 72).

O pastor que depôs para a página HONY anteriormente desabafa em seu testemunho:

“When I look back, I believe the genocide could have been stopped if
more pastors had taken a stand. We were the ones with influence. The
killers belonged to our congregations. And we could have held them
back. But instead we did nothing. And every pastor had a different
excuse. Some said they didn’t know things would get so bad. Some said
they were too afraid. And some said the government was too powerful to
oppose. But when you’re standing aside while people die, every excuse is
a lame one.”(HONY, Ruanda, Kigali. 2018, grifo meu).

Pelo uso dos pronomes de primeira pessoa do plural há indícios da inclusão naqueles que
poderiam ter feito mais, da permanente sensação da insuficiência de ações diante um crime tão
horrendo. O pastor salvou 300 pessoas ao escondê-las em sua igreja, nenhum tutsi que esteve
sobre sua tutela enquanto ele afugentava as milícias, morreu. Como uma modalidade diferente de
sobrevivente, é possível ver ainda o pesar por uma nação que poderia ter feito bem mais por
aqueles que não podem mais falar por si.

5. Como lidar com o trauma de uma nação


Paul Kagame, Presidente de Ruanda e presidente da União Africana deu seu depoimento
à página Humans Of New York sobre a dificuldade de pensar em como proceder depois de um
crime tão hediondo. Paul Kagame também foi comandante da Frente Patriótica de Ruanda,
responsável por acabar com o genocídio e resgatar os sobreviventes tutsis em maio de 1994.

“There was a huge puzzle after the genocide. How do you pursue justice
when the crime is so great? You can’t lose one million people in one
hundred days without an equal number of perpetrators. But we also can’t
imprison an entire nation. So forgiveness was the only path forward.
Survivors were asked to forgive and forget. The death penalty was
abolished. We focused our justice on the organizers of the genocide.
Hundreds of thousands of perpetrators were rehabilitated and released
back into their communities. These decisions were agonizing. I
constantly questioned myself. But each time I decided that Rwanda’s
future was more important than justice. It was a huge burden to place on
the survivors. And perhaps the burden was too great. One day during a
memorial service, I was approached by a survivor. He was very
emotional. ‘Why are you asking us to forgive?’ he asked me. ‘Haven’t
we suffered enough? We weren’t the cause of this problem. Why must
we provide the solution?’ These were very challenging questions. So I
paused for a long time. Then I told him: ‘I’m very sorry. You are correct.
I am asking too much of you. But I don’t know what to ask the
perpetrators. ‘Sorry’ won’t bring back any lives. Only forgiveness can
heal this nation. The burden rests with the survivors because they are the
only ones with something to give.” (Kigali, Ruanda. Outubro de 2017).

Paul Kagame é também, um sobrevivente. Ele estava na frente militar que libertou
Ruanda, e podemos relacionar o seu depoimento ao que Adorno falou sobre a monstruosidade do
holocausto judeu:
O desejo de libertar-se do passado justifica-se: não é possível viver à sua
sombra e o terror não tem fim quando culpa e violência precisam ser
pagas com culpa e violência; e não se justifica porque o passado de que
se quer escapar ainda permanece muito vivo. O nazismo sobrevive, e
continuamos sem saber se o faz apenas como fantasma daquilo que foi
tão monstruoso a ponto de não sucumbir à própria morte, ou se a
disposição pelo indizível continua presente nos homens bem como nas
condições que os cercam. (ADORNO,1995, p.29)

As vítimas, porém, tendem à insatisfação. Ao retornar à Mugombwa, Scholastique vê


uma igreja na qual tutsis foram cruelmente assassinados em 1994, e ao perceber que a vida dos
que lá estavam voltou ao “normal”, reflete sobre o sentimento de um sobrevivente diante essa
aparente indiferença.

Quem teria o mau gosto de falar, ainda, dos “acontecimentos infelizes”,


como dizem aqueles que negam terem participado do genocídio e se
recusam a pronunciar essa palavra? Perdoem-nos uns e outros, e
continuemos como se nada tivesse acontecido. (MUKASONGA, 2018,
p.16)

Como uma sociedade que evita falar do passado, evita enfrentá-lo, pretende seguir em
frente para o desenvolvimento de uma nação?
No projeto HONY, uma mulher em Butare, sem seu nome revelado, fala sobre o trauma e
sobre sua incapacidade de falar sobre ele com quem quer que fosse depois do genocídio. A
mulher reflete sobre sua condição de sobrevivente entre milhões de vítimas e sobre como o
sofrimento era excessivo a ponto de não querer falar sobre o acontecido. Mas ela fala então do
sentimento ao ver as imagens daqueles que antes do genocídio eram vizinhos e amigos de seu
pai, e que depois se tornaram perseguidores e assassinos de toda a sua família.

“(...) Many of these men would later help kill my family. So how am I
supposed to trust anyone? Before the genocide, there were doctors taking
care of their patients. Priests were taking care of their followers.
Neighbors were taking care of each other. But none of that stopped them
from killing each other. And now we’re being asked to forgive. Because
our president tells us that reconciliation is the only path forward as a
nation. And I know that he’s right. So I’m trying my best. I’m spending
time with Hutu people. I even found two Hutu elders to mentor my son. I
want him to see that Hutus have good hearts. My son even calls them
‘Grandpa.’ So I understand the need for reconciliation. And I’m trying.
Christianity has helped me a great deal. But true forgiveness is
impossible. My entire family was murdered. How can I possibly forgive
on behalf of those who can no longer speak for themselves? It’s just
not possible. But I will certainly pretend. Because I’ve seen where
vengeance leads.” (HONY, Butare, Ruanda, 2017. Grifos meus.)

Nesse depoimento há o questionamento em relação ao papel do sobrevivente: como ele


pode perdoar por quem já se foi? A postura de Scholastique, que teve um total de 37 membros da
família assassinados, é semelhante: “Havia prazer em cortar as vítimas vivas, estripar as
mulheres, arrancar o feto. E esse prazer me é impossível perdoar, está sempre perante mim como
um escárnio imundo” (MUKASONGA, 2018, p. 131). A condição do sobrevivente de seguir a
vida acompanhada pela culpa de estar viva é explícita em ambos os relatos apresentados nessa
seção. Abaixo, Scholastique continua se questionando sobre o que fazer em sua condição única,
que ela mesma define como a condição de uma subvivente.

Eu não estava entre os meus quando foram cortados a facão. Como é que
pude continuar vivendo nos dias da morte deles? Sobreviver! Na verdade,
essa era a missão que nossos pais tinham confiado a mim e a André.
Devíamos sobreviver, e no momento eu sabia o que significava essa dor.
Era um peso enorme que recaía sobre os meus ombros, um peso muito
real, que me impedia de subir a escadinha que levava à sala de aula, me
fazia parar em frente à porta do meu apartamento, incapaz de abri-la e
entrar. Tinha a meu cargo a memória de todos esses mortos. Eles me
acompanhariam até a minha própria morte. (MUKASONGA, 2018, p.
132).

Como sobrevivente Scholastique também é ouvinte do testemunho de outros parentes e


amigos. Ao escutar seu cunhado, Emmanuel, marido da irmã Jeanne, contar sobre como foi sua
morte, ela destaca um frequente fenômeno da condição de testemunha tocada pelo profundo
trauma: “Ele quis ir até o fim. Mas não me contou tudo. Não conseguiu, ou quis me poupar do
horror insuportável. Mas isso eu sabia” (MUKASONGA, 2018, p. 141).
O olhar do sobrevivente como testemunha torna o passado acessível. É preciso combater
uma forma de olhar para o evento na qual ele se torne abstrato, uma “lição aprendida”, um
evento monstruoso. Não há como abstrair e negar a capacidade do ser humano para o
inimaginável, como diz Didi-Huberman em Cascas (2017). Outro fator essencial a se
compreender em relação ao evento em si é que não existe a possibilidade de mostra-lo ou
revisitá-lo em sua integralidade. Só quem pode acessá-lo são as vítimas, e no momento que elas
não podem mais falar, só resta aos sobreviventes repassar o que lhes é permitido nessa condição.

Fontes consultadas:

ADORNO, Theodor W. O que significa elaborar o passado. In: ADORNO, Theodor W.


Educação e emancipação. Tradução de Wolfgang Leo Maar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e
política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São
Paulo: Brasiliense, 1994.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Cascas. Tradução de André Telles. São Paulo: Editora 34, 2017.

HATZFELD, Jean. Uma temporada de facões. Relatos do genocídio em Ruanda. Tradução de


Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

MUKASONGA, Scholastique. Baratas. Tradução de Elisa Nazarian. São Paulo: Editora Nós,
2018.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Reflexões sobre a memória, a história e o esquecimento. In:

HUMANS OF NEW YORK. Acesso em:


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