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UNIVERSIDADE DE RIBEIRÃO PRETO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU

Fármacos utilizados nas doenças gastrintestinais

CILIANA FERREIRA BARBOSA

RIBEIRÃO PRETO

2008
1

UNIVERSIDADE DE RIBEIRÃO PRETO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU

Fármacos utilizados nas doenças gastrintestinais

CILIANA FERREIRA BARBOSA

Monografia de Conclusão de Curso apresentado ao


Curso de Especialização em Farmácia Magistral da
Universidade de Ribeirão Preto, como exigência
parcial para conclusão do curso.

Orientador: Prof. Dr. Luiz Maçao Sakamoto

RIBEIRÃO PRETO

2008
2

Dedico este trabalho aos meus queridos


pais, que me proporcionaram todo apoio e
incentivo em todos os momentos. Ao meu
lindo irmão que sempre me aconselha e, em
especial, ao Rodrigo, meu admirável
marido; um presente que Deus me enviou,
proporcionando muitas alegrias em minha
vida. Rodrigo é o estímulo que me
impulsiona a buscar vida nova a cada dia e
é o responsável pela minha dedicação,
entusiasmo e incentivo neste importante
trabalho. Ao professor Luiz Maçao
Sakamoto, indispensável para a realização
deste trabalho.
3

Ciliana

Agradeço a Deus por tudo que me


proporcionou até hoje; pela realização de
um casamento repleto de paz e harmonia e
pela motivação de minha família para que
eu ingressasse neste novo desafio.

Ciliana
4

RESUMO

O estômago é o segmento mais dilatado do tubo digestivo. Nele processa-se a

etapa mais demorada da digestão, pois é ali que os alimentos adquirem a fluidez e a

consistência necessárias à boa assimilação das substâncias nutritivas. Como órgão de

absorção, o estômago transfere para o sangue apenas água, sais, açúcar, álcool e

algumas drogas. Já na atividade de decomposição o estômago é bem mais eficiente.

Além do detalhamento fisiológico deste importante órgão, o presente trabalho irá

abordar ainda o intestino, o fígado, o pâncreas, bem como as principais disfunções

gastrintestinais e os fármacos utilizados para estes fins.

Palavras-chave: estômago; digestão; disfunções; fármacos.


5

ABSTRACT

The stomach is the most extended segment of the digestive tract. It takes

longer if the stage of digestion, It is there that the food acquire the fluidity and

consistency necessary for the efficient assimilation of nutrients. As organ of

absorption, the stomach transfers to the blood only water, salt, sugar, alcohol and

some drugs. Already in the stomach activity of decomposition is much more

efficient. Besides the physiological details of this important body, this work will also

address the intestines, liver, pancreas and the main gastrointestinal disorders and

drugs used for such purposes.

Key words: stomach; digestion; malfunction; drugs.


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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ............................................................................................. 8
1.1. Sistema gastrintestinal.............................................................................. 8
1.1.1. Estômago ....................................................................................... 8
1.1.1.1. Mecanismos fisiológicos..................................................... 9
1.1.1.2. Função do estômago............................................................ 10
1.1.1.3. Secreção gástrica................................................................. 11
1.1.2. Intestino........................................................................................... 12
1.1.2.1. Intestino delgado.................................................................. 12
1.1.2.2. Intestino grosso.................................................................... 14
1.2. Principais doenças gastrintestinais .......................................................... 15
1.2.1. Gastrite ............................................................................................ 15
1.2.2. Úlcera .............................................................................................. 18
1.2.3. Helicobacter pylori ......................................................................... 20
1.2.4. Síndrome de Zollinger-Ellison ....................................................... 21
1.2.5. Hemorragias .................................................................................... 21
1.2.6. Câncer no estômago ........................................................................ 22
2. JUSTIFICATIVA .......................................................................................... 24
3. OBJETIVOS .................................................................................................. 26
3.1. Objetivo geral .......................................................................................... 26
3.2. Objetivos específicos................................................................................ 26
4. METODOLOGIA .......................................................................................... 27
5. DISCUSSÃO................................................................................................... 28
5.1.Medidas preventivas relacionadas às principais doenças

gastrintestinais........................................................................................... 28
5.2. Fármacos utilizados ................................................................................ 30
5.2.1. Antiácidos ....................................................................................... 31
5.2.2. Inibidores da bomba de prótons (omeprazol, lanzoprazol,

pantoprazol) ..................................................................................... 32
5.2.3. Agentes protetores da mucosa ........................................................ 34
5.2.4. Fármacos que promovem a motilidade gastrintestinal ................... 35
5.2.5. Fármacos antieméticos .................................................................... 35
5.2.6. Laxativos ......................................................................................... 36
5.2.7. Fármacos antidiarréicos .................................................................. 37
5.2.8. Fármacos mais utilizados no tratamento da doença intestinal

inflamatória crônica ......................................................................... 37


6. CONCLUSÃO ................................................................................................ 39
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 41
7

1. INTRODUÇÃO

1.1. Sistema Gastrintestinal

O trato digestivo oferece ao organismo um suprimento contínuo de água,

eletrólitos e substâncias nutrientes. Isso exige movimentação do alimento ao longo

do trato digestivo; secreção de sucos digestivos e digestão do alimento; absorção dos

produtos da digestão, de água e dos vários eletrólitos, circulação de sangue pelos

órgãos gastrintestinais para remover substâncias absorvidas; e controle de todas essas

funções pelos sistemas nervoso e hormonal.

1.1.1. Estômago

O estômago está situado no abdome, logo abaixo do diafragma, encaixando-

se á esquerda do fígado, na frente do pâncreas e acima do duodeno com o qual se

comunica imediatamente.
8

Anatomicamente, o estômago divide-se em quatro grandes seções: o fundo

(também chamado de “boca do estômago”); o corpo, que representa cerca de dois

terços do volume total; o antro pilórico; e o canal pilórico, via de saída para o

duodeno e onde se localiza o piloro.

O estômago é forrado por uma mucosa pregueada, constituída por uma única

camada de células epiteliais. A função desta camada é de proteger o estômago contra

a ação ácida do suco gástrico, sem que o estômago possa digerir a si próprio. Mas a

proteção destas células epiteliais não é apenas mecânica: elas secretam

continuamente um muco alcalino, que recobre as paredes internas do órgão e

neutraliza parcialmente a ação do ácido clorídrico.

1.1.1.1. Mecanismos fisiológicos

O estômago é o segmento mais dilatado do tubo digestivo – uma ante-sala do

principal órgão da digestão, que é o intestino delgado. No estômago processa-se a

etapa mais demorada da digestão, pois é ali que os alimentos adquirem a fluidez e

consistência necessárias à boa assimilação das substâncias nutritivas.

Como órgão de absorção, o estômago transfere para o sangue apenas água,

sais, açúcar, álcool e algumas drogas.

À medida que o alimento entra no estômago, forma camadas concêntricas no

corpo do estômago, com o alimento mais recente situado mais perto da abertura

esofágica e o mais antigo localizado mais perto da parede do estômago.

Normalmente, quando o alimento entra no estômago, um “reflexo vagovagal”

que parte do estômago para o tronco cerebral e depois volta ao estômago reduz o
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tônus na parede muscular no corpo do estômago, de modo que a parede pode

distender-se progressivamente, acomodando quantidades cada vez maiores de

alimento, até um limite de aproximadamente 1,5L. A pressão no estômago

permanece baixa até que esse limite seja atingido.

Os sucos digestivos do estômago são secretados pelas glândulas gástricas que

recobrem quase toda a parede do estômago, exceto ao longo de uma faixa na pequena

curvatura. Estas secreções entram imediatamente em contato com a porção de

alimento armazenado que se encontra sobre a superfície mucosa do estômago. Ao

mesmo tempo, ondas peristálticas fracas, denominadas ondas constritoras, deslocam-

se em direção ao antro ao longo da parede do estômago aproximadamente uma vez a

cada vinte segundos.

Conforme as ondas lentas percorrem o estômago, não apenas fazem com que

as secreções se misturem com as partes externas do alimento armazenado, mas

também proporcionam uma fraca propulsão para deslocar o alimento em direção ao

antro.

Após a mistura do alimento com as secreções gástricas, a mistura resultante

que se desloca pelo intestino é denominada quimo. O grau de fluidez do quimo

depende das quantidades relativas de alimento e de secreções gástricas e do grau de

digestão que ocorreu.

Além das contrações peristálticas que ocorrem quando o alimento está

presente no estômago, outras contrações intensas, denominadas contrações de fome,

ocorrem quando o estômago permanece vazio por muitas horas. Trata-se de

contrações peristálticas rítmicas no corpo do estômago, que geralmente são mais

intensas em pessoas jovens e saudáveis, com elevado grau de tônus gastrintestinal,

sendo grandemente aumentadas por uma baixa concentração de açúcar no sangue.


10

1.1.1.2. Função do estômago

Segundo Guyton e Hall (1998), as funções motoras do estômago são três: (1)

armazenamento de grandes quantidades de alimento até que possam ser processadas

no duodeno, (2) mistura deste alimento com as secreções gástricas até formar-se uma

mistura semi-líquida denominada quimo e (3) lenta passagem do alimento do

estômago para o intestino delgado, em velocidade apropriada para que este realize

adequadamente a digestão e a absorção.

Alguns fatores influenciam o processo de esvaziamento gástrico:

 Tônus do estômago;

 Consistência dos alimentos;

 Fome;

 Atividade muscular;

 Posição;

 Emoção;

 Dor.

1.1.1.3. Secreção gástrica

Do mesmo modo como ocorre com a saliva, a simples imagem dos alimentos

ou mesmo a idéia deles, pode constituir estímulo suficiente para determinar o início
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da secreção gástrica; o suco gástrico já deve estar presente quando o alimento chegar

ao estômago.

A primeira fase da secreção é essencialmente de natureza reflexa: a visão e

odor dos alimentos estimulam os centros nervosos do vago, e a excitação se

transmite através das fibras nervosas deste nervo até as glândulas que forram a

mucosa do estômago. A secreção resultante é o chamado “suco psíquico” ou “do

apetite”. Mas, mesmo em jejum, ocorre uma discreta secreção, que pode ser

aumentada por fatores emocionais.

A aparência dos alimentos, o aroma e o paladar, acentuados pela maneira de

prepará-los e temperá-los exercem, portanto, influência decisiva no processo

fisiológico da digestão, pois estimulam a secreção reflexa.

Concluída a fase de secreção reflexa, tem início a fase gástrica, que é

independente de qualquer influxo nervoso. Na carne e em muitos vegetais,

encontram-se substâncias especiais capazes de provocar a atividade secretora da

mucosa gástrica. Desta libera-se a gastrina, hormônio que circula pela corrente

sanguínea e retorna para estimular a atividade das glândulas secretoras de suco

gástrico.

Outro estímulo origina-se do intestino delgado, em cuja mucosa é secretada a

enterogastrona, outro hormônio que atua sobre as glândulas gástricas, estimulando a

produção de suco digestivo.

A mucosa gástrica possui dois tipos importantes de glândulas tubulares: as

glândulas oxíndicas (ou gástricas) e as glândulas pilóricas. As glândulas oxíndicas

secretam ácido clorídrico, pepsinogênio, fator intrínseco e muco. As glândulas

pilóricas secretam muco e o hormônio gastrina.


12

1.1.2. Intestino

1.1.2.1. Intestino delgado

O intestino é, provavelmente, o órgão mais importante da digestão. Nele se

processam as principais atividades de absorção das substâncias ingeridas com os

alimentos. Além disto, o intestino é capaz de secretar alguns hormônios vitais para a

assimilação de substâncias como as proteínas.

Para desempenhar adequadamente as funções de absorção que lhe tocam, o

intestino está provido de uma grande superfície epitelial interna, pois é através deste

tecido que se infiltra o material absorvido. Um dos recursos para conferir tal

superfície ao órgão é sua própria extensão. Mas, além da extensão, o intestino dispõe

de outros dois meios de ampliar a superfície que estará em contato com o bolo

alimentar.

De acordo com o Civita (1986), junto ao piloro, começa uma formação de

pregas circulares ou espiraladas, que não se achatam quando o intestino está cheio.

No duodeno, estas pregas se dispõem bem próximas umas das outras; no jejuno, o

espaço entre elas aumenta; e na porção inferior do íleo desaparecem quase por

completo. Evidentemente, estas dobras internas do intestino delgado tornam a

superfície de absorção ainda maior.

Um extenso conjunto de glândulas mucosas compostas, denominadas

glândulas de Brunner, localiza-se na parede dos primeiros centímetros do duodeno.

Estas glândulas secretam muco alcalino em resposta a (1) estímulos táteis ou

estímulos irritantes da mucosa suprajacente; (2) estimulação vagal, que causa


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secreção concomitante ao aumento da secreção gástrica; e (3) hormônios

gastrintestinais, principalmente a secretina. A função do muco é a de proteger a

parede duodenal da digestão pelo suco gástrico, e sua rápida e intensa resposta frente

a estímulos irritantes é particularmente adequada a este fim.

As substâncias nutritivas contidas no intestino são absorvidas pelo epitélio

das vilosidades e, em grande parte, lançadas nos vasos linfáticos de seu interior. Daí

passam para condutos maiores e são levadas ao coração.

1.1.2.2. Intestino grosso

Quando o alimento conclui seu trajeto pelo intestino delgado, ele é lançado no

intestino grosso em estado líquido. A absorção de água pela mucosa do intestino

grosso é tão rápida e eficaz que este alimento adquire a consistência típica do bolo

fecal em 14 horas. Esta é a principal função do intestino grosso. No processo

digestivo, ele tem participação secundária, uma vez que as principais atividades de

modificação química dos alimentos realizam-se no estômago e no intestino delgado.

O intestino grosso divide-se em três partes: o ceco (segmento de maior

calibre), o apêndice vermiforme, o cólon (ascendente, descendente, transverso,

sigmóide).

Além da função absorvente, outras atividades se processam no intestino

grosso, às vezes sem sua participação direta. Embora rica em muco, a secreção

alcalina do intestino grosso não apresenta teor de enzimas importantes para a

digestão. Acontece, porém, que algumas enzimas do intestino delgado ainda mantêm

sua atividade depois de lançadas no intestino grosso, juntamente com o material

alimentar.
14

Enquanto se processa a absorção de água, entram em ação as bactérias de

putrefação, que atacam sobretudo a celulose contida nos alimentos vegetais. Sem

estas bactérias que habitam o interior do intestino grosso, não seria possível a

digestão da celulose, pois o organismo humano não produz enzimas capazes de

digeri-la.

A mucosa do intestino grosso, como a do intestino delgado, apresenta muitas

criptas de Lieberkuhn; mas nesta mucosa, não existem vilosidades como ocorre na

mucosa do intestino delgado. Ao invés disto, são revestidas quase totalmente por

células mucosas que secretam apenas muco.

Por isto, a secreção no intestino grosso é o muco. Este muco contém grande

quantidade de íons bicarbonato, produzida pelo transporte ativo destes íons pelas

células epiteliais. A secreção de muco é regulada por estimulação tátil direta.

O muco do intestino grosso obviamente protege a parede contra escoriações;

além disto proporciona o meio aderente para manter unida a matéria fecal e protege a

parede intestinal da grande atividade bacteriana que ocorre no interior das fezes.

Sempre que um segmento do intestino grosso sofre irritação intensa, como

ocorre quando a infecção bacteriana se torna muito intensa durante uma enterite, a

mucosa secreta grande quantidade de água e eletrólitos, além da solução viscosa

normal de muco alcalino. Tal secreção dilui os fatores irritantes e causa o rápido

movimento das fezes em direção ao ânus. O resultado habitual é a diarréia, que

promove uma recuperação mais precoce da doença.

1.2. Principais Doenças Gastrintestinais


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1.2.1. Gastrite

O termo gastrite significa inflamação da mucosa gástrica. Esta afecção é

muito comum na população como um todo, principalmente nos anos mais tardios da

vida adulta.

A inflamação da gastrite pode ser apenas superficial e, portanto, não muito

prejudicial, ou pode penetrar profundamente na mucosa gástrica, em muitos casos

crônicos causando atrofia quase completa da mucosa gástrica. Em alguns casos, a

gastrite pode ser muito aguda e grave, com escoriação ulcerativa da mucosa gástrica

pelas secreções pépticas do próprio estômago.

Pesquisas recentes sugerem que boa parte dos casos de gastrite é causada por

uma infecção bacteriana crônica da mucosa gástrica. Tal infecção pode ser tratada

com sucesso pela administração de um esquema intensivo de medicamentos

antibacterianos. Além disto, a ingestão de algumas substâncias tem efeito irritativo,

podendo ser muito lesivas para a barreira mucosa de proteção gástrica – isto é, para

as glândulas protetoras de muco viscoso e para as junções fechadas epiteliais entre as

células do revestimento gástrico, causando freqüentemente formas graves de gastrite

aguda ou crônica. Dessas substâncias, as duas mais comuns são o álcool e a aspirina.

Na gastrite aguda, em casos hemorrágicos, a transfusão sanguínea pode ser

necessária para a manutenção da volemia e hemostasia, prevenindo-se outras

complicações. Sua causa mais comum é a infecção por H. pylori. As manifestações

clínicas são dores epigástricas, náuseas e vômitos. Se o indivíduo não for tratado, a

gastrite aguda evolui para gastrite crônica com hipocloridria.


16

Já as gastrites crônicas podem ser de etiologia idiopática ou podem ser

causadas por drogas (especialmente AINES, aspirina), doença de Crohn, infecções

virais.

A endoscopia revela erosões puntiformes, a maioria com cumes rugosos,

espessados ou com dobras, frequentemente, com uma placa branca central em

formato umbilical. Histologicamente, o grau de inflamação varia. Nenhuma terapia é

universalmente benéfica ou curativa.

Em muitas pessoas que apresentam gastrite crônica, a mucosa gradualmente

se atrofia até restar pouca ou nenhuma atividade das glândulas gástricas. Acredita-se

também que algumas pessoas desenvolvam auto-imunidade contra sua própria

mucosa gástrica, o que acaba por levar à atrofia gástrica. A perda das secreções

gástricas na atrofia do estômago causa acloridria e, ocasionalmente, anemia

perniciosa.

O termo acloridria significa ausência de secreção de ácido clorídrico pelo

estômago, assim, quando há acloridria, obviamente ocorre perda de quase toda a

função digestiva do estômago.

A anemia perniciosa frequentemente acompanha a acloridria e a atrofia

gástrica. As secreções gástricas normais contêm uma glicoproteína denominada fator

intrínseco, que é secretada pelas mesmas células parietais que secretam o ácido

clorídrico. O fator intrínseco tem que estar presente para que haja a absorção

adequada de vitamina B12 no íleo. Esse fator combina-se com a vitamina B12 e o

complexo assim formado liga-se, então, a receptores na superfície das células

epiteliais do íleo, uma etapa necessária para a absorção da vitamina B12. Na ausência

de fator intrínseco, o organismo não consegue obter dos alimentos uma quantidade
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adequada de vitamina B12. Ocorre, então, insuficiência de maturação na formação das

hemáceas na medula óssea, resultando em anemia perniciosa.

A anemia perniciosa também é freqüente quando a maior parte do estômago

foi removida para tratamento de úlcera ou câncer gástrico.

1.2.2. Úlcera

A tensão emocional é indiscutivelmente um fator importante no mecanismo

que determina a formação da úlcera gastroduodenal.

Na úlcera do estômago, a digestão provoca estímulos de secreção que levam a

dor e a uma sensação de peso após as refeições, dentro de uma hora ou menos. Já na

úlcera do duodeno, a dor é sentida horas depois da refeição, durante a noite ou pela

manhã.

A localização da dor é muito variável, manifestando-se em vários pontos do

abdome ou mesmo no tórax. Pode ser aliviada com a ingestão de leite e drogas

alcalinas, associada, se possível, ao repouso físico e mental. Por outro lado, agrava-se

com a ingestão de ácidos, alimentos muito temperados, muito frios ou muito quentes,

café, álcool e fumo.

Em geral, não ocorre perda de peso, sobretudo quando o paciente se submete

a tratamento bem orientado. Mas, indiretamente, a úlcera pode provocar

emagrecimento, devido à náusea e vômitos persistentes, à dieta pobre em calorias, às


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perturbações do sono e à presença de complicações como a hemorragia e as

contrações gástricas desordenadas que prejudicam a digestão.

Completam o quadro de sintomas as regurgitações ácidas e as eructações

(arrotos) freqüentes.

A úlcera é uma doença crônica, que não traria maiores preocupações, não

fosse o perigo de complicar-se com hemorragias, perfuração e estenose

(estreitamento).

As fezes se tornam escuras e o vômito, se ocorrer, conterá porções de sangue

vermelho, se a hemorragia for recente, ou preto, se o sangue já estiver em digestão. O

paciente sofre tonturas, náuseas e diarréia, apresenta-se pálido e suarento. A pulsação

se acelera e poderá ocorrer desmaio. Nesses casos, é recomendável que o paciente se

deite e permaneça imóvel, até que o médico possa prestar-lhe os primeiros socorros.

A causa habitual da ulceração péptica é a secreção excessiva de suco gástrico

em relação ao grau de proteção assegurado pelo revestimento mucoso do estômago e

do duodeno, e pela neutralização do ácido gástrico pelos sucos duodenais.

O duodeno é protegido pela alcalinidade da secreção pancreática, pela bile e

pelas secreções provenientes das grandes glândulas de Brunner. Todas estas

secreções contêm grande quantidade de bicarbonato de sódio que neutraliza o ácido

clorídrico do suco gástrico, inativando assim a pepsina e impedindo a digestão da

mucosa.

Aproximadamente 75% dos pacientes com úlcera péptica apresentam, nas

porções terminais da mucosa gástrica e na porção inicial da mucosa duodenal,

infecção crônica pela bactéria Helicobacter pylori. Uma vez instalada, esta infecção

pode durar a vida inteira, a menos que erradicada por medicamentos antibacterianos.

Além disto, a bactéria é capaz de penetrar a barreira mucosa em virtude de sua


19

capacidade física para mergulhar na barreira e liberar enzimas digestivas que a

liquefazem. Em conseqüência, os sucos digestivos fortemente ácidos do estômago

conseguem chegar ao epitélio subjacente e literalmente digerem as células epiteliais.

Obviamente, isto leva à úlcera péptica.

Além da infecção bacteriana e do excesso de secreção de suco gástrico,

alguns outros fatores que predispõem as úlceras compreendem-se em: tabagismo -

em virtude do aumento da estimulação nervosa das glândulas secretoras do

estômago, o álcool - que tende a romper a barreira mucosa – e a aspirina, que

também tem grande propensão a romper esta barreira.

Em alguns casos a situação do paciente é tão grave incluindo sangramento

volumoso pela úlcera que cirurgias arriscadas ainda são empregadas. As diferentes

evoluções para úlcera são atribuídas à susceptibilidade de cada pessoa, à virulência

da estirpe da bactéria, à idade da aquisição da infecção, a fatores genéticos, a fatores

ambientais e possivelmente a outros fatores que desconhecemos.

1.2.3. Helicobacter pylori

Helicobacter pylori é uma bactéria causadora de infecção no estômago. Esta

infecção pode contribuir para o desenvolvimento de doenças como gastrite, úlcera e

câncer de estômago. Até 1980, não se conhecia o H. pylori, hoje conhecido como o

agente de maior agressão sobre as células do estômago.

O H. pylori é uma frágil bactéria cujo meio ambiente é no muco protetor do

estômago. Os produtos decorrentes do metabolismo da bactéria, como enzimas por

ela produzidas atacam as células do estômago. Como há uma infecção, o organismo


20

procura defender-se movendo glóbulos brancos para o estômago e o organismo

produz anticorpos contra o H. pylori. A infecção geralmente ocorre quando o

indivíduo ingere a bactéria pela alimentação, líquidos ou utensílios contaminados. É

uma das infecções mais comuns no mundo, superada apenas pela cárie dentária. É

freqüente em pessoas jovens em países em desenvolvimento como o nosso onde as

condições de saneamento básico são deficientes. Na maioria dos casos não há

sintomas. A pessoa pode ter a bactéria e não sentir nada.

Atualmente há três maneiras para o diagnóstico de infecção por H. pylori:

durante a endoscopia é realizado biópsia para o teste de uréase; o teste respiratório

em que o paciente toma a uréia via oral; e finalmente, o teste de sangue para

pesquisar a presença de anticorpos contra a bactéria.

A infecção dá-se geralmente na infância por transmissão oral-oral ou fecal-

oral. Quase 100% da população adulta da América do Sul e da África está infectada.

Nos países desenvolvidos a prevalência ronda os 30-40%, metade da prevalência que

encontramos no nosso país.

1.2.4. Síndrome de Zollinger-Ellison

Trata-se de uma diátese ulcerosa péptica grave secundária à hipersecreção

gástrica de ácido, devida a liberação desregulada de gastrina por um tumor endócrino

de células não-β (gastrinoma).

A maioria dos pacientes com esta síndrome tem de 30 a 50 anos, sendo os

homens mais acometidos do que as mulheres.


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Ocorre produção aumentada de histamina. Mais de 60% dos tumores são

considerados malignos. A úlcera péptica é a mais comum, em 90% dos casos, sendo a

diarréia o segundo sintoma mais comum.

1.2.5. Hemorragias

As úlceras gástricas e duodenais são as doenças que mais frequentemente

causam perdas de sangue. Por isto, podem ser fatais.

Vômitos de sangue ou dejeções sanguinolentas são sintomas clínicos

freqüentes nas moléstias do aparelho digestivo, principalmente nas úlceras gástricas e

duodenais.

De maneira geral, os doentes são agrupados em três categorias, de acordo

com a intensidade das hemorragias: graves, de gravidade média e casos leves.

Hemorragias graves são as que causam diminuição do número de glóbulos

vermelhos circulantes até níveis abaixo de 2 milhões por milímetro cúbico, pressão

arterial abaixo de oito, pulso acima de 120 batidas por minuto; nota-se uma palidez

acentuada das mucosas e sinais de estado de choque ou pré-choque.

Nas hemorragias de média gravidade, o número de glóbulos vermelhos desce

para 3 milhões por milímetro cúbico, a pressão oscila entre oito e dez e o pulso, em

torno de 100; o paciente apresenta palidez e desmaios.

Já as hemorragias de grau leve são aquelas em que as condições são mais

favoráveis e o equilíbrio circulatório é conseguido facilmente. Para avaliar a perda

sanguínea, deve-se recorrer a provas clínicas e laboratoriais.

Uma das medidas mais importantes é estimar a medida de sangue perdia nos

vômitos ou evacuações.
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1.2.6. Câncer no estômago

O estômago é um dos órgãos mais atingidos por processos neoplásicos, ou

seja, por crescimento celular anormal. E os homens são mais comumente atacados do

que as mulheres.

Muitos fatores parecem ter importância na predisposição para o câncer no

estômago, embora nenhum deles tenha alcançado total comprovação. Melhor

definidas estão as lesões no estômago que podem predispor, em longo prazo, o

aparecimento do câncer. Entre elas estão compreendidas a gastrite e a úlcera gástrica.

A infiltração do câncer gástrico pode atacar diretamente os órgãos vizinhos ou

então as células cancerosas são levadas pelos vasos linfáticos ou sanguíneos a outros

pontos do organismo. O câncer gástrico (sempre do tipo carcinoma) divide-se em três

tipos: infiltrante, ulcerante ou vegetante.

De maneira geral a enfermidade manifesta-se de maneira insidiosa, pegando

desprevenidos os doentes. Os sintomas iniciais não existem. Apenas quando o tumor

atingiu uma certa extensão é que surgem os distúrbios que convencem o paciente a

consultar o médico.

Estes distúrbios sintomáticos aparecem na forma de sensação de peso ou

queimação na “boca do estômago”, mesmo após a ingestão de pequena quantidade de

alimentos.

As alterações do apetite também constituem sintoma precoce, com uma falta

de apetite rebelde que justifica o emagrecimento do paciente. Ocorre, por vezes, a

repugnância por certos alimentos como a carne e os ovos. O paciente é acometido

também de náusea e vômitos aquosos.


23

As hemorragias causadas pela moléstia mostram seus sinais nos vômitos e nas

fezes. Como conseqüência surge a anemia e o enfraquecimento do doente

associando-se, neste sentido, as refeições modestas e aproveitamento reduzido dos

alimentos.

A ausência de tratamento operatório determina uma sobrevida média entre

doze e dezoito meses após o início dos sintomas.

2. JUSTIFICATIVA

O tema “Fármacos utilizados nas doenças gastrintestinais” foi escolhido

devido a sua constante demanda no setor farmacêutico nos dias atuais.

Além das disfunções gastrintestinais já estudadas e conhecidas há mais

tempo, há novas situações cotidianas da vida moderna que têm desencadeado efeitos

e estímulos que afetam a musculatura gástrica como um todo.

Destacam-se entre estas novas circunstâncias do dia-a-dia a vida agitada nas

grandes cidades; excessivo consumo de café, bebidas alcoólicas e os altos níveis de

tabagismo; os novos hábitos alimentares em decorrência da falta de tempo das

pessoas, que acabam consumindo fast-foods em lugar de uma alimentação mais

balanceada e saudável; a recente procura por cirurgias de redução do estômago

devido a obesidade; e o fator stress e emoções intensas, que diminuem e podem até

mesmo interromper a motilidade gástrica e, desse modo, quase paralisar o processo

digestivo. Estudos recentes parecem demonstrar que as emoções expansivas

aumentam a motilidade, enquanto emoções depressivas, como o medo, exercem

efeito inibitório.
24

Outro aspecto que denota a grande importância prática do tema abordado é

que as disfunções gástricas são muito freqüentes, respondendo por 30 a 50% das

consultas em gastroenterologia. Estes dados têm estimulado a especialização de um

considerável número de profissionais da Medicina voltados ao trato dos males do

aparelho digestivo.

Em virtude dos muitos fatores que alteram o funcionamento gástrico, do

aumento de profissionais especializados, consequentemente tem-se aumentado a

procura por tratamentos que requerem medicamentos apropriados. Assim, as grandes

multinacionais do setor farmacêutico têm investido cada vez mais em novas

pesquisas, resultando em fármacos modernos e eficazes, o que se deve ao fato de a

área do trato gastrintestinal ser a terceira área terapêutica com maior consumo no

mercado farmacêutico.

Devido a minha atuação na área magistral, consigo perceber o grande

consumo de medicamentos voltados para o tratamento de doenças gastrintestinais.

Além dos pacientes com disfunções gástricas específicas, outros consomem estes

medicamentos com a finalidade de proteger a mucosa gástrica contra a ação

agressiva de outros medicamentos utilizados para outros fins.

Por todas as razões expostas, não é difícil perceber a grande relevância que o

tema “Fármacos utilizados nas doenças gastrintestinais” denota no contexto médico e

farmacêutico atual, perceptível pelo grande contingente de pacientes submetidos a

tratamento e pelo surgimento de fármacos modernos para estes fins.


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26

3. OBJETIVOS

3.1 Objetivo geral:

O objetivo geral deste trabalho é de identificar os riscos para o trato

gastrintestinal que podem advir de maus hábitos de vida como padrões de higiene

insuficientes, excessiva busca pelo corpo perfeito, alimentação inadequada,

tabagismo, fatores emocionais, entre outros, e identificar as alternativas

farmacêuticas para o respectivo tratamento.

3.2 Objetivos específicos:

Para alcançar o objetivo geral proposto, foram estabelecidos alguns objetivos

específicos intermediários:

 Entender o funcionamento dos principais órgãos do trato gastrintestinal.

 Expor as doenças gastrintestinais mais freqüentes atualmente.

 Relatar os fármacos mais utilizados e os métodos mais eficazes.


27

4. METODOLOGIA

O método de trabalho envolve a pesquisa bibliográfica sobre a estrutura

fisiológica do trato gastrintestinal, bem como suas disfunções e tratamentos à base de

fármacos.

Para tanto se deve:

 Analisar a função e a abrangência do trato gastrintestinal para a saúde

do indivíduo.

 Elencar as medidas preventivas cabíveis.

 Relatar os distúrbios gastrintestinais mais comuns.

 Apresentar os fármacos afins a este processo.


28

5. DISCUSSÃO

5.1. Medidas Preventivas Relacionadas Às Principais Doenças Gastrintestinais.

O ritmo acelerado da vida moderna não favorece a criação de hábitos

alimentares saudáveis. Todos conhecem algumas regras básicas, que ficam

esquecidas por conta da correria do dia-a-dia.

Segundo o renomado médico Dráuzio Varella (2008), a primeira regra é

respeitar o horário das refeições. Separar algum tempo para café da manhã, almoço e

jantar tranqüilos não é luxo, é necessidade. A segunda é mastigar bem os alimentos,

já que a digestão começa na boca. Terceira regra: dar preferência às frutas, verduras e

carnes magras. Quarta: evitar comidas muito gordurosas. O doutor Dráuzio diz para

evitar e não para não comer. Todos podem comer o que gostam, desde que seja com

moderação. A picanha coberta por uma capa de gordurinha tostada é bem vinda de

vez em quando e em porções moderadas.

O doutor Dráuzio continua explicando que a quinta regra é quanto menos

gordura, mais fácil a digestão e menor dispêndio de energia para realizá-la. Não

fazendo bem a digestão, deixamos de aproveitar nutrientes indispensáveis à vida e o

que é pior, podemos produzir substâncias cancerígenas ou ateromas que irão

depositar-se nas artérias. A sexta e última regra é que a refeição da noite deve ser a

mais leve possível e o café da manhã, a mais caprichada. Via de regra, fazemos

exatamente o contrário: engolimos, às pressas, um cafezinho ou um copo de leite

pela manhã, almoçamos em pé e com os olhos presos no relógio, mas comemos

bastante no jantar porque passamos o dia mal alimentados.


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Algumas dicas para cuidar da saúde do estômago podem ser organizadas em

forma de tabela, conforme se demonstra abaixo:

COMO CUIDAR BEM DO SEU ESTÔMAGO


1 Nunca fique sem se alimentar por mais de 4 horas. Obedeça aos horários
certos para o desjejum, almoço, lanche e jantar.
2 Procure alimentar-se devagar, em ambiente tranqüilo, mastigando bem os
alimentos.
3 Procure não dormir de “estômago pesado” e evite ingerir alimentos no meio da
noite.
4 Dietas ricas em fibras, com frutas, hortaliças e cereais integrais previnem o
câncer gástrico, ajudam a normalização do funcionamento do intestino e são
benéficas mesmo no tratamento de úlceras e gastrites.
5 O fumo dificulta a cicatrização da úlcera. Deixar de fumar é o ideal, mas
reduzir o número de cigarros diários ajuda.
6 Evite tomar aspirinas, anti-gripais e comprimidos para dor em geral, pois
podem provocar irritação da mucosa do estômago.
7 Evite frituras em geral.

8 Cuidar da higiene pessoal sempre (não comer sem lavar as mãos) e dos
alimentos para reduzir o risco de transmissão de bactérias.
9 O uso de medicamentos a base de cortisona regularmente pode causar gastrite
porque eles diminuem a proteção gástrica.
10 Estresse físico ou psíquico prejudica a saúde do estômago (tentar eliminar as
causas).
11 Pimentão, berinjela, são de difícil digestão.

12 Bebidas gasosas causam desconforto devido a expansão de gases.

13 Bebidas alcoólicas são irritantes da mucosa do estômago.

14 Leite é estimulante da secreção ácida – tomar com moderação.

15 Evite tomar medicamentos sem prescrição médica.

Recomenda-se ainda, para pessoas com disfunções gástricas, que se evite

alguns alimentos, tais como:

 Frutas ácidas (laranja, limão, abacaxi, morango, acerola, kiwi);


30

 Temperos (vinagre, pimenta, molho inglês, massa de tomate, catchup,

mostarda), picles;

 Coco, nozes, amêndoas, castanha de caju, amendoim;

 Embutidos em geral (lingüiça, salsicha, salames, etc.);

 Feijão;

 Café, chocolate, chá preto e mate.

5.2. Fármacos Utilizados

A orientação profissional aos pacientes que utilizam medicamentos é de

extrema importância para garantir eficácia, segurança e qualidade no tratamento.

Através da atenção farmacêutica, o trabalho do profissional farmacêutico

desenvolvido, no sentido da atenção, se faz, através de um acompanhamento

sistemático da terapia medicamentosa utilizada pelo usuário, no sentido de

conscientizar o paciente para que cumpra o tratamento de forma permanente e

ininterrupta e também avaliar e garantir a necessidade, efetividade e segurança desta

terapia.
31

5.2.1. Antiácidos

Os antiácidos gástricos são bases fracas que reagem com o ácido clorídrico

gástrico, para formar sal e água. Sua utilidade na úlcera péptica parece residir na

capacidade de diminuir a acidez gástrica, e por ser a pepsina inativa, em soluções

com pH superior a 4, capaz de reduzir a atividade péptica.

A maioria dos antiácidos de uso corrente apresenta, como principais

constituintes, o hidróxido de alumínio ou de magnésio, isoladamente ou em

combinação e, em certas ocasiões, em combinação com o bicarbonato de sódio ou sal

de cálcio. A capacidade de tamponamento de qualquer composto é determinada pela

sua capacidade de neutralizar o ácido gástrico e pela duração da permanência do

medicamento no estômago.

A relação dose-resposta dos antiácidos é variável, dependendo da capacidade

de secreção gástrica e da velocidade com a qual o antiácido deixa o estômago. Os

antiácidos podem ser eficazes para promover a cicatrização das úlceras duodenais.

Em geral, os antiácidos na forma de comprimido são fracos em sua capacidade de

neutralização.

O esquema ótimo de antiácidos para tratamento da úlcera deve utilizar

140mEq de antiácido líquido, administrados uma e três horas após as refeições, bem

como ao deitar.

Os principais componentes dos antiácidos são: bicarbonato de sódio,

carbonato de cálcio, hidróxido de alumínio e hidróxido de magnésio.

As reações adversas aos antiácidos incluem uma alteração dos hábitos

intestinais. Os sais de magnésio costumam exercer um efeito catártico, enquanto o

hidróxido de alumínio pode causar constipação. Tais problemas podem ser


32

controlados através da combinação ou alternância dos compostos que exercem estes

efeitos.

A alcalose sistêmica é um problema ocasionado pelo uso de antiácidos,

portanto devem ser evitados em pacientes com comprometimento renal.

Os antiácidos podem adsorver fármacos no trato gastrintestinal, reduzindo,

assim, a absorção. Os antiácidos tendem a acelerar o esvaziamento gástrico,

permitindo, que os fármacos alcancem mais rapidamente os locais de absorção no

intestino.

A administração de antiácidos com alguns medicamentos pode causar

importantes interações. Com o cetoconazol ocorre redução da absorção

gastrintestinal do cetoconazol, devido ao pH aumentado (o cetoconazol requer pH

ácido para sua absorção); com a digoxina, ocorre diminuição da absorção

gastrintestinal da digoxina; com o ferro, ocorre absorção gastrintestinal diminuída do

ferro; com as quinolonas, ocorre diminuição da absorção gastrintestinal de

ciprofloxacina, norfloxacina, enoxacina; com os salicilatos ocorre aumento da

depuração renal de salicilatos; com tetraciclinas ocorre diminuição da absorção

gastrintestinal de tetraciclinas.

5.2.2. Inibidores da bomba de prótons (omeprazol, lanzoprazol, pantoprazol)

O omeprazol é um benzimidazol que inibe irreversivelmente a bomba de

prótons existente nas células parietais gástricas (H+/K+ ATPase). É uma pró-droga

que provavelmente atua do lado externo da membrana. A administração de uma dose


33

única diária (60 mg) pode inibir praticamente 100% da secreção de ácido gástrico. É

útil na doença de refluxo gastroesofágico e síndromes de hiper secreção patológica.

A hipergastrinemia é um dos problemas que podem ser causados com o

omeprazol.

O lanzoprazol é um derivado do benzimidazol, de segunda geração, que se

diferencia de seu antecessor, por apresentar em sua estrutura química um grupo

trifluoretoxi, razão pela qual alcança maior biodisponibilidade e potência

farmacológica. É mais lipossolúvel que o omeprazol e, portanto, atravessa mais

facilmente a membrana da célula parietal gástrica. É indicado “para doença

gastroduodenal ulcerosa, esofagite por refluxo, úlcera gástrica, úlcera duodenal e

síndrome de Zollinger-Ellison” (Varella, 2008).

A administração conjunta de antiácidos diminui a biodisponibilidade do

lanzoprazol. A dose recomendada é de 30 mg diários, longe das refeições. É contra-

indicado para pacientes com insuficiência hepática grave.

A tolerância é boa; somente em alguns pacientes foram observados diarréia

ou constipação, náuseas, cefaléia, que desaparecem ao descontinuar o fármaco.

O pantoprazol é um inibidor de bomba de prótons que inibe especificamente a

secreção ácida diurna e noturna com uma única dose diária. Os estudos clínicos

demonstram que 40 mg de pantoprazol seriam equipotentes a 20mg de omeprazol e

300 mg de ranitidina no tratamento de pacientes com doença ulcerosa gastro

duodenal ou esofagite por refluxo gastroesofágico.

O pantoprazol tem uma escassa capacidade para gerar interações

medicamentosas, que o diferencia do omeprazol, que interage com numerosos e

variados fármacos (digoxina, diazepan, fenitoína, varfarina, nifedipina).


34

Conforme o P. R. Vade-mécum, “não deve ser administrado a pacientes com

insuficiência hepática, na gravidez e lactação”.

5.2.3. Agentes protetores da mucosa

O sucralfato, ou sulfato de alumínio de sacarose, é um dissacarídeo sulfatado,

desenvolvido para uso na úlcera péptica. Acredita-se que seu mecanismo de ação

envolva a ligação seletiva ao tecido necrótico da úlcera, onde pode atuar como

barreira ao ácido, pepsina e bile.

Segundo Bertram e Katzung (1994), o sucralfato pode absorver diretamente

sais biliares, pode estimular a síntese endógena das prostaglandinas. O sucralfato é

pouco absorvido por via sistêmica. A dose é de 1 g quatro vezes ao dia, com o

estômago vazio (pelo menos uma hora antes das refeições). Além disto, o fármaco

exige pH ácido para ser ativado, de modo que não deve ser administrado

simultaneamente com antiácidos ou com antagonistas dos receptores H2.

Os compostos de bismuto coloidal também parecem atuar através de sua

ligação seletiva à úlcera, recobrindo-a e protegendo-a do ácido e da pepsina. Podem,

ainda, exibir alguma atividade antimicrobiana contra o H. Pylori. Foram relatadas

taxas de cicatrização de úlceras de até 98%, quando tais compostos são combinados

com antibióticos, como o metronidazol e a tetraciclina. Os efeitos adversos relatados

foram mínimos.
35

5.2.4. Fármacos que promovem a motilidade gastrintestinal

Os mecanismos colinérgicos são responsáveis pela modulação de fenômenos

motores no intestino; por conseguinte, não é surpreendente que os agentes

colinomiméticos, como o betanecol, sejam eficazes para promover a motilidade

gastrintestinal.

A metoclopramida e cisaprida são consideradas estimulantes mais seletivos da

motilidade. A metoclopramida é um potente antagonista da dopamina. A cisaprida in

vitro atua como agonista 5HT4. Ambos os fármacos aumentam a liberação de

acetilcolina dos neurônios colinérgicos no plexo mioentérico do sistema nervoso

entérico. Não aumentam a secreção gástrica ou pancreática.

A metoclopramida mostra-se útil para facilitar a intubação do intestino

delgado. Em pacientes com doença crônica do refluxo gastroesofágico ambos os

agentes revelam-se eficazes.

A metoclopramida é um antiemético eficaz, particularmente útil em

associação com a quimioterapia do câncer, bem como na cirurgia de emergência ou

no trabalho de parto e no parto, para evitar a aspiração do conteúdo gástrico.

5.2.5. Fármacos antieméticos

As principais categorias de agentes antieméticos incluem os antihistamínicos

H1, as fenotiazinas, a metoclopramida e a ondansetrona.

Os antihistamínicos exercem efeitos antimuscarínicos e sedativos

significativos. São particularmente eficazes no controle da náusea e do vômito,


36

associados à cinetose, talvez devido a depressão específica da condução na via

vestibulocerebelar.

Os agentes anticolinérgicos também são empregados para evitar a ocorrência

de cinetose.

As fenotiazinas bloqueiam os receptores de dopamina na zona de gatilho

quimioreceptora, bem como em outras áreas do cérebro. Seu uso é limitado pelo grau

de sedação.

A ondoncetrona é usada na prevenção da náusea e vômito pós operatório e

induzido por quimioterapia.

5.2.6. Laxativos

A cáscara sagrada, o sene e o aloés contêm alcalóides da emodina, liberados

após a absorção pelo intestino e excretados no cólon, onde estimulam o peristaltismo.

Por conseguinte, o início da sua atividade só é observado dentro de seis a oito horas.

Acredita-se que a estimulação crônica do cólon possa resultar em distensão crônica e

perpetuação da necessidade de laxativos.

Segundo Katzung e Bertram (1994), a fenolftaleína e o bizacodil,

quimicamente semelhantes, também são poderosos estimulantes do cólon.


37

5.2.7. Fármacos antidiarréicos

A loperamida é um fármaco antidiarréico que está quimicamente relacionada

com o haloperidol, causando menos sedação e dependência do que o fármaco

difenoxilato. A dose de loperamida é de 2-4 mg, quatro vezes ao dia.

Os adsorventes, como o caulim e a petina, também são largamente

empregados. Eles ligam-se a toxinas intestinais.

5.2.8. Fármacos mais utilizados no tratamento da doença intestinal inflamatória

crônica

Os principais fármacos utilizados para este tratamento são os corticosteróides

e outros agentes imunosupressores, bem como os derivados do salicilato.

O ácido 5-aminossalicílico (mesalamina) pode afetar muitos sítios da via do

ácido araquidônico que são importantes na patogenia da inflamação.

O fármaco pode, ainda, atuar como eliminador de radicais livres, mas não

pode ser administrado por via oral.

A sulfassalazina (combinação de sulfapiridina com o ácido 5-

aminossalicílico) é pouco absorvido pelo intestino, e é considerado o fármaco mais

eficaz na colite ulcerativa. A dose terapêutica usual é de 3-4 g/dia em doses

fracionadas.

Alguns efeitos colaterais podem surgir como mal-estar, náusea, desconforto

abdominal ou cefaléia. Para evitar estes efeitos, o ideal é iniciar o tratamento com
38

doses menores ou utilizar preparações de revestimento entérico ou em suspensões

líquidas.

Os agentes citotóxicos, em particular a azatioprina e a mercaptopurina, estão

sendo utilizados no tratamento da doença intestinal inflamatória. As doses

empregadas são baixas.

Outro fármaco de grande importância é a ciclosporina, porém sua toxicidade

pode limitar o uso na terapia crônica.


39

6. CONCLUSÃO

Diante da abordagem feita no presente trabalho, pôde-se evidenciar todo o

trato gastrintestinal, sua fisiologia, os principais malefícios que podem advir de maus

hábitos de vida, bem como ainda os tratamentos e fármacos mais indicados.

O estudo das funções gastrintestinais revelou que estas são muito importantes

no funcionamento do organismo, uma vez que permitem que os alimentos orgânicos

sofram transformações mecânicas e químicas ao longo de um sistema digestivo, para

se converterem em compostos menores hidrossolúveis e absorvíveis.

Helicobacter pylori é uma das infecções mais freqüentes no mundo e

atualmente as evidências indicam ser a infecção fator importante no desenvolvimento

de úlcera do estômago e duodeno e ter relação com o câncer de estômago. Sem

dúvida nenhuma será possível descobrir uma vacina contra o H. pylori. Uma

vacinação em massa, na idade infantil irá diminuir a prevalência do cancro do

estômago, além de reduzir significativamente a prevalência da úlcera do estômago e

duodeno.

Pôde-se constatar também que embora muitas patologias relacionadas ao trato

gastrintestinal sejam conhecidas de longa data, a vida moderna trouxe novas

complicações, relacionadas principalmente ao stress, fatores emocionais, hábitos

alimentares, entre outros.

Hoje em dia, portanto, a população deve estar atenta quanto aos perigos que

podem advir destes novos hábitos de vida, pois já sabemos que vários fatores

influenciam a saúde, como: o relacionamento no meio familiar e no trabalho, o local


40

em que se vive, o estado emocional e até mesmo o estado espiritual da pessoa. Se

tudo isso não estiver harmônico, o indivíduo fica doente com mais facilidade.

Alcançar a vida saudável pode ser uma tarefa simples desde que se tenha o

desejo, se faça um planejamento, direcionando as prioridades e mudança de

hábitos. Além disso, é importante fazer avaliações com o médico e realizar exames

complementares para um mapeamento da saúde. Muitos detalhes estão envolvidos

para alcançar uma vida saudável, devido a isto, somente com um planejamento o

sucesso é obtido.

Podemos ressaltar que a utilização de medicamentos nas doenças

gastrintestinais merece acompanhamento especial, visto que são determinantes para a

relação saúde-doença, responsáveis por parte significativa da melhoria da qualidade e

expectativa de vida da população. Entretanto, o sucesso da farmacoterapia depende

da educação e conscientização de prescritores, dispensadores e usuários para seu uso

racional.

Neste contexto, segundo Nezello (2008), o farmacêutico, como elo entre o

médico e o paciente, pode proporcionar um maior alcance dos resultados

farmacoterapêuticos, diminuir os riscos provocados pela automedicação e melhorar a

qualidade de vida da população.

O resultado de todo esse esforço do bem-estar diário é o que chamamos de

FELICIDADE. A felicidade não é o objetivo final. A felicidade é todo esse caminho,

o dia-a-dia, a trajetória de toda a nossa vida.


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7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CIVITA, Victor (editor). Grandes temas da medicina. Manual ilustrado de

anatomia, doenças e tratamentos. São Paulo: Nova Cultural, 1986, pág. 51.

GUYTON, Arthur C. e HALL, John E. Fisiologia humana e mecanismos das

doenças. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998, pág. 462.

KATZUNG, G. BERTRAM. Farmacologia Básica e Clínica. 5a-ed., Rio de Janeiro

– R.J.: Guanabara Koogan, 1994.

NEZELLO, Doralysa. Informativo profissional do conselho federal de farmácia.

Brasília: Conselho Federal de Farmácia, 2008, pág. 16.

Entrevista a Rafael Possik por Drauzio Varella. Hábitos alimentares.

Http://drauziovarella.ig.com.br/entrevistas/gastrite7.asp. Acesso em 12/5/2008.

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